segunda-feira, 16 de abril de 2012

Revisitando a economia mundial



Por Luiz Carlos Mendonça de Barros - Valor 16/04

Vou deixar de lado os problemas da economia neste início do segundo ano do governo Dilma e olhar para fora do Brasil. Afinal, como sabe o leitor do Valor, o analista precisa ter um olho no peixe - o Brasil - mas o outro no gato, que hoje é representado pelos Estados Unidos, Europa e principalmente a China.

Depois de algumas semanas de certa calmaria, a flutuação violenta dos preços dos ativos negociados pelo mundo afora voltou à ordem do dia. Por exemplo, a Bovespa caiu 1,2% na segunda passada, 1,9% na terça, 0,7% na quarta, para subir 2,9% no dia seguinte e quase 2% na sexta (no momento em que escrevia esta coluna). Esse mesmo vai e vem ocorre nas bolsas americanas, nos mercados de câmbio e nos negócios com títulos de renda fixa nos quatro cantos do mundo.

Confesso que nunca vivi um período de irracionalidade tão grande. E uso o termo irracionalidade aqui para descrever a falta de sintonia entre o comportamento dos mercados e o que acontece de fato nas principais economias do mundo. Essa sintonia sempre foi uma das âncoras que ligou as questões macro e a composição das carteiras de ativos dos grandes investidores. Embora ela não seja perfeita, e de tempos em tempos apresente divergências importantes, é um dos elementos centrais na tarefa de se prever com alguma racionalidade o futuro nos mercados financeiros.

Mas a já longa crise que estamos vivendo mudou a forma como previsões econômicas e preços dos ativos financeiros se inter-relacionam. Nos últimos dois anos os investidores passaram a reagir de forma violenta à publicação de certos dados que não fazem parte do grupo de indicadores que realmente contam na tarefa de acompanhar o pulsar das economias. São os chamados indicadores de alta frequência, que sofrem influências sazonais fortíssimas, o que leva os analistas a usar métodos estatísticos sofisticados para tentar transformá-los em sinais mais críveis. Pois nos dias de hoje esses dados voláteis, e que são divulgados de forma bruta pela imprensa, passaram a fazer a cabeça dos investidores e a mover os mercados.

Outra característica dos dias atuais é a prevalência dos dados passados sobre aqueles que procuram construir o futuro via instrumentos bastante sofisticados de análise. São os chamados indicadores antecedentes e que, sem chegarem à perfeição, apresentam um resultado bastante satisfatório nessa sua difícil missão. Mas nos últimos tempos eles não têm conseguido influenciar o comportamento dos mercados, centrados que estão na miríade de informações divulgadas diariamente pela imprensa. Prova disso foi a forma fria, e sem respeito, com que foi tratada a divulgação dos indicadores antecedentes construídos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o segundo trimestre do ano e que mostram uma recuperação sustentada nas economias dos Estados Unidos, da China e do Brasil, entre outros.

Passei os últimos dias tentando entender as razões para essa quebra de padrão nos mercados financeiros. E a mais sólida explicação que encontrei foi o fato de que a grande parte dos recursos dos grandes investidores institucionais no mundo todo está hoje aplicada em títulos que pagam juros fixos. São majoritariamente papéis de curto e médio prazo, emitidos pelos governos nacionais, denominados em moedas seguras como o dólar americano e que pagam juros baixíssimos, bem abaixo da taxa de inflação. Mas a insegurança e a volatilidade de ativos mais rentáveis ao longo dos últimos dois anos fez da perda de capital de pequena monta a melhor de todas as outras alternativas.

Pois a redução da importância desses investidores, que se pautam mais pelos fundamentos econômicos e menos pela especulação de curto prazo, abriu espaço para os que adoram o que chamam de volatilidade dos mercados. São operadores do curto prazo e que dão pouca importância aos verdadeiros fundamentos de uma economia de mercado. E com isso a sintonia entre preços e fundamentos enfraqueceu e os mercados, sem esta referência, passaram a funcionar aos trancos e ao sabor dos dados de alta frequência.
Na última sexta feira tivemos um exemplo desse novo padrão de comportamento. A China divulgou os principais indicadores econômicos relativos ao primeiro trimestre deste ano. Como sempre ocorre nessas situações, as informações divulgadas dividiram-se em dois grandes grupos. O primeiro trouxe os dados sobre o PIB e que vieram abaixo das expectativas do mercado. Esperava-se um crescimento de 8,4% ao ano e o número real foi de apenas 8,1%, ou seja, um crescimento entre o último trimestre de 2011 e agora abaixo dos 8% ao ano. Isso foi suficiente para fazer com que os mercados reagissem de forma extremada, com quedas generalizadas nas bolsas de valores mundo afora e a valorização do dólar em relação às moedas emergentes.

Foram deixados de lado pelos operadores todos os indicadores que apontam para o futuro, como a normalização na concessão de crédito pelo sistema bancário, a expansão monetária no período e o dinamismo do consumo interno. Aliás, foram esses dados que levaram a OCDE a mostrar uma inflexão na curva do crescimento chinês nos próximos meses e a prever a volta de uma expansão da economia a taxas acima dos 8% em 2012. Mas o mercado vai navegar ainda algum tempo com a imagem de um quase colapso na segunda economia do mundo.



Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

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