quinta-feira, 15 de março de 2012

Alta da mão de obra na Ásia aumenta custo da indústria



Por James Hookway, Patrick Barta e Dana Mattioli
The Wall Street Journal, de Kuala Lumpur, Bangkok e Nova York

Mais governos asiáticos estão pressionando empresas a aumentar os salários como uma forma de evitar conflitos trabalhistas, o que pode levar a um salto nos custos industriais de multinacionais - e nos preços dos produtos que elas vendem em todo o mundo.

Na medida mais recente, o gabinete da Malásia aprovou, pela primeira vez na história do país, a adoção de um salário mínimo, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. A decisão segue medidas similares no resto da região, onde vários governos, da Tailândia à Indonésia, vêm seguindo os esforços da China nos últimos dois anos para elevar os salários depois de anos de um aumento na desigualdade entre ricos e pobres.

Empresas multinacionais já começaram a enfrentar custos trabalhistas mais altos na China no passado, apesar da fraca economia global, à medida que os trabalhadores passaram a exigir uma participação maior do boom econômico do país. Nos últimos meses, a pressão intensificou-se também em países do Sudeste Asiático que tinham se estabelecido como alternativas para empresas que buscam escapar dos custos crescentes da China, deixando essas companhias agora com menos lugares para onde levar suas operações.

Durante o ano passado, por exemplo, a varejista americana de roupa masculina Jos. A. Banks Clothiers Inc. transferiu parte de sua produção da China para locais mais baratos da Ásia, como a Indonésia, à medida que os custos trabalhistas da China subiam. O diretor-presidente, Neal Black, disse que ainda não notou uma inflação salarial na Indonésia, mas que ela está a caminho. "O ramo das confecções sempre se muda ao redor do mundo em desenvolvimento", disse Black. "Ele gera empregos, dá novas habilidades profissionais às pessoas, que depois se mudam para outros produtos, como os eletrônicos."

Com isso em mente, a Jos. A Banks, que também tem fábricas no Sri Lanka e na Malásia, está aumentando sua capacidade em outras partes do mundo, incluindo a América Central e países como o Haiti e a Jordânia.

Os governos asiáticos, em alguns casos, estão abraçando a causa de salários mais altos, em parte para evitar a propagação do tipo de agitação que recentemente derrubou regimes do Oriente Médio e acalmar a crescente militância trabalhista em seus países.

Eles também esperam que um aumento dos salários ajude os consumidores a gastar mais, proporcionando um novo motor de crescimento num momento em que a baixa demanda por exportações no Ocidente e preços do petróleo mais altos preocupam os formuladores de políticas em toda a região.

Os líderes políticos dizem que não têm outra escolha senão agir, à medida que os eleitores ficam mais atentos aos ganhos salariais em outros países, já que agora podem pesquisar na internet. Protestos recentes de trabalhadores de baixa renda em lugares como a Indonésia e a Tailândia aumentaram a pressão sobre os governos para aumentarem os salários.

"Há um verdadeiro sentimento entre os segmentos de baixa renda [da população asiática] de que não houve muito progresso nos últimos anos", já que a desigualdade entre ricos e pobres aumentou em algumas regiões, disse Edward Teather, economista do UBS em Cingapura.

Economistas argumentam que, em alguns aspectos, aumentos no salário mínimo em países como a Tailândia só estão colocando alguns trabalhadores de volta onde estavam há uma década atrás, depois de computada a inflação.

Pequim aumentou o salário mínimo em 8,6%, para 1.260 yuans (US$ 199) a partir de janeiro, segundo a agência de notícias estatal Xinhua. Em fevereiro, a próspera cidade de Shenzhen, no sul do país, aumentou seu salário mínimo em quase 14%, para 1.500 yuanes por mês. A cidade portuária de Tianjin, no nordeste, elevará seu salário mínimo em quase 13%, para 1.310 yuanes a partir de abril, informou a Xinhua.

Essas medidas na China, em parte, ajudaram a impulsionar mudanças similares na região. Trabalhadores da Indonésia, em alguns setores, conseguiram garantir aumentos de mais de 20% no salário mínimo nos últimos meses. A Tailândia planeja subir o salário mínimo em abril, o que levará a um aumento de cerca de 40% dos salários em muitas áreas do país. Advogados trabalhistas do Camboja, do Sri Lanka e de Bangladesh também estão defendendo melhores salários. Na Malásia, pessoas a par da situação dizem que o governo está trabalhando nos detalhes de um novo salário mínimo para país, que foi aprovado recentemente pelo gabinete em antecipação às eleições nacionais, previstas para os próximos meses.

A propagação de salários mais altos provavelmente apresentará novos desafios para empresas que há muito dependiam das operações de produção na Ásia para manter seus custos baixos, potencialmente incluindo multinacionais como a Nike Inc., a Adidas AG, a Dell Inc. ou seus fornecedores.

A varejista americana de confecções femininas New York & Co. Inc. começou a transferir a produção para fora da China em 2009 e 2010, quando os salários começaram a subir, levando boa parte dela para o Vietnã.

"O custo trabalhista na China, definitivamente, subiu no último ano e meio, o que nos levou a considerar outros países", disse Greg Scott, diretor-presidente da empresa.

Numa base porcentual, acrescenta Scott, os aumentos salariais no Vietnã têm acompanhado os da China, mas os salários ainda são menores. "Neste momento, ainda é um lugar muito bom para nossa produção", disse Scott.

Anthony Romano, diretor-presidente da Charming Shoppes Inc., transferiu a produção para a Indonésia e para o Vietnã para diversificar as operações de manufatura para fora da China, onde Romano disse que "os custos trabalhistas são um desafio significativo".

Embora a China ainda seja uma parte importante da base de produção da Charming, a expansão da economia do país está gerando alguns problemas. Depois do Ano Novo Lunar, por exemplo, cerca de 60% dos trabalhadores em uma manufatureira contratada pela Charming decidiram não voltar para a fábrica e, em vez disso, acharam empregos mais próximos de suas casas, disse o executivo.

Mas a empresa, que opera nos Estados Unidos cerca de 2.000 lojas das marcas Lane Bryant, Fashion Bug e Catherines, também viu os salários subirem entre 10% e 12% na Indonésia e no Vietnã no ano passado.

"Muita gente está procurando estes países para levar sua produção, por isso os custos estão aumentando", disse.

Apesar dos salários em alta, a Charming planeja fabricar entre 25% a 30% de seus produtos no Vietnã e na Indonésia, acrescentou Romano. A empresa está estudando também países como o Egito e a Jordânia para se beneficiar dos seus programas de isenção de impostos.

O aumento dos salários mínimos poderia desencadear inflação num momento em que os bancos centrais se preocupam com os preços do petróleo em alta. Tal cenário pode tornar bens básicos inacessíveis para as mesmas pessoas que os salários mais altos deveriam ajudar. Além disso, há o risco de que as vagas disponíveis se reduzam, caso as multinacionais decidam abandonar países com custos em alta.

Fabricantes de vestuário, calçados e eletrônicos do Japão, Taiwan e Coreia do Sul que operam na Indonésia, por exemplo, dizem que estão considerando levar suas fábricas para outro lugar. Algunos dizem temer novos aumentos de salários, já que os políticos locais estão buscando agradar o eleitorado em antecipação a eleições que ocorrem nos próximos dois anos.



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