quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Fed e as guerras cambiais


Por Jose Antonio Ocampo - Valor 04/10

A recente decisão do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) de lançar uma terceira rodada de "afrouxamento quantitativo" reacendeu acusações do ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, de que os EUA desencadearam uma "guerra cambial". Em mercados emergentes que já estão sofrendo com o impacto da rápida apreciação da moeda em sua competitividade, as medidas expansionistas anunciadas nas últimas semanas pelo Banco Central Europeu e pelo Banco do Japão intensificaram a sensação de alarme diante da decisão do Fed.

Minha percepção é de que ambos os lados estão certos. O Fed está certo em adotar novas medidas monetárias expansionistas em face de uma fraca recuperação americana. Além disso, vinculá-las a melhorias no mercado de trabalho foi uma decisão muito importante - uma postura que outros bancos centrais, especialmente o BCE, deveriam seguir.

Com certeza, uma expansão monetária deveria vir acompanhada de uma postura fiscal menos contracionista nos países industrializados. Mas a margem de manobra fiscal nas economias avançadas está mais limitada do que em 2007-2008 e o impasse político nos EUA aprofundou-se, praticamente descartando estímulos adicionais por meio de canais orçamentários. Embora a eficácia de uma nova rodada de flexibilização quantitativa vá ser limitada, como argumenta Mantega, o Fed não tinha alternativa a agir.

Mas Mantega também tem razão. Dado o papel do dólar americano como moeda mundialmente dominante, a política monetária expansionista do Fed gera externalidades significativas para o resto do mundo - efeitos que o Fed certamente não está levando em conta. O problema básico é que há imperfeições essenciais em um sistema monetário internacional baseado no uso de uma moeda nacional como principal moeda de reserva do mundo.

Esse problema foi citado já desde a década de 1960, pelo economista belga Robert Triffin e, mais recentemente, pelo falecido economista italiano Tommaso Padoa-Schioppa. "Os requisitos de estabilidade do sistema como um todo", argumentou Padoa-Schioppa, "são incompatíveis com a prática de políticas econômica e monetária forjadas com base unicamente em razões domésticas".

Em especial, as políticas monetárias expansionistas nos EUA (na verdade, em todos os países avançados) estão gerando altos riscos para as economias emergentes. Como as taxas de juro precisam permanecer muito baixas nos países desenvolvidos pelo menos durante os próximos anos, já existem fortes motivações para a exportação de capital para economias emergentes que proporcionam maiores rendimentos. Mas esses fluxos de capital tendem a sobrevalorizar o câmbio, ampliar os déficits em conta corrente e criar bolhas nos preços dos ativos, efeitos que, no passado, resultaram em crise nessas economias.

Em suma, os benefícios a médio prazo que as economias emergentes poderiam receber de um crescimento mais rápido nos EUA estão agora sendo negados por riscos de curto prazo gerados pelo "tsunami de capital", termo usado pela presidente brasileira, Dilma Rousseff.

O problema básico é a inexistência de uma agenda mais ampla que torne a posição do Fed coerente com a de Mantega e de outras autoridades econômicas de países emergentes. Essa agenda precisa incluir dois temas de reforma monetária mundial que permanecem sem solução: regulamentação mundial coordenada dos fluxos de capital no curto prazo e uma mudança de longo prazo rumo a um novo sistema monetário internacional baseado em uma verdadeira moeda de reserva mundial (possivelmente baseada nos Direitos Especiais de Saque do Internacional do Fundo Monetário).

Os EUA poderiam se beneficiar de tais políticas, pois uma regulamentação para as contas de capital obrigaria os investidores a encontrar oportunidades em seus mercados domésticos, ao passo que uma verdadeira moeda de reserva mundial libertaria os EUA de preocupações e intensas críticas relacionadas com as consequências de sua política monetária sobre a economia mundial. Ao mesmo tempo, os mercados emergentes seriam beneficiados pela política monetária expansionista americana, na medida em que ela faria crescer a demanda por suas exportações.

A diretora do FMI, Christine Lagarde, pediu uma ação coordenada para sustentar a recuperação mundial. Além disso, em outubro o FMI deverá divulgar suas "leis de trânsito" oficiais para a utilização dos regulamentos para as contas de capital. As reuniões do FMI/Banco Mundial em Tóquio em 12 e 13 de outubro, portanto, podem ser a oportunidade ideal para começar a ampliar a agenda internacional monetária - dando luz verde a uma regulamentação coordenada dos fluxos internacionais de capital e inaugurando um debate sobre o futuro do sistema monetário internacional. (Tradução de Sergio Blum)



Jose Antonio Ocampo é professor da Universidade Colúmbia, foi ministro das Finanças da Colômbia e subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas para Assuntos Econômicos e Sociais.. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

Nenhum comentário:

Postar um comentário