segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O mercado de concentrado de urânio


Por Leonam dos Santos Guimarães - Valor 24/10

A produção do combustível que alimenta as usinas de geração elétrica nuclear é feita em uma sequência de processos industriais que se inicia na mineração e no beneficiamento, que produz concentrados de urânio. Seguem-se a conversão do concentrado em hexafluoreto de urânio e seu enriquecimento (aumento da proporção do isótopo U-235 acima do teor natural). A fabricação combustível se dá pela reconversão do hexafluoreto em dióxido de urânio, produção de pequenas pastilhas cerâmicas cilíndricas desse dióxido e montagem mecânica dessas pastilhas nos chamados "elementos combustíveis", que são o produto final entregue à usina para carregamento no reator nuclear.

Por razões mais históricas do que técnicas ou econômicas, concentrado, conversão, enriquecimento e fabricação do combustível constituem mercados separados, com diferentes fornecedores atuando em cada um deles. As utilities nucleares compram concentrado, contratam sua conversão, em seguida contratam seu enriquecimento e finalmente contratam a fabricação do combustível. Concentrado, conversão e enriquecimento são commodities. Elementos combustíveis são produtos customizados.

A oferta no mercado internacional de concentrado de urânio é composta pela produção primária das atividades de mineração e beneficiamento de fontes secundárias. O beneficiamento, isto é, produção do concentrado chamado yellow cake, é feita sempre "na boca da mina" porque os minérios de urânio são tipicamente de baixos teores, não sendo viável economicamente o transporte do minério bruto. As fontes secundárias incluem excedentes em estoque acumulados por produtores e consumidores (empresas de geração elétrica nuclear), os estoques dos governos, urânio reciclado a partir de estoques do governo e diluição (downblending) do urânio militar russo altamente enriquecido (HEU).

A indústria de produção primária de urânio é de âmbito internacional, com um pequeno número de empresas que operam em poucos países. De acordo com a World Nuclear Association (WNA) a oferta mundial de concentrado de urânio em 2010 totalizou cerca de 70 mil toneladas, dos quais aproximadamente 87% foi produzido por 10 empresas. Aproximadamente 93% da produção mundial foi proveniente de oito países, em ordem decrescente: Cazaquistão, Canadá, Austrália, Namíbia, Níger, Rússia, Uzbequistão e Estados Unidos.

Talvez o único uso pacífico do urânio é como combustível para geração elétrica. A demanda mundial pelo concentrado está, portanto, diretamente ligada à eletricidade gerada pelas usinas nucleares. De acordo com a WNA, em setembro 2011 existiam 440 usinas nucleoelétricas comerciais operando em todo o mundo, com uma potência de geração instalada total de 376,7 mil MWe, requerendo cerca de 90.000 toneladas de concentrado por ano. Estas usinas geram 14% das necessidades mundiais de eletricidade.

A tendência de aumento da construção e projeto de construção de novas usinas aumenta no mundo desde 2007. Dados da WNA mostram que em setembro de 2011, mesmo após o acidente de Fukushima no Japão, 62 usinas nucleares comerciais estavam em construção em 13 países, outras 155 sendo planejadas.

A tendência de aumento na demanda por concentrado como resultado da entrada em operação de novas usinas e do aumento dos fatores de capacidade das usinas já em operação poderia ser compensada, até certo ponto, pelo descomissionamento das usinas que atingirão o final de sua vida útil. Entretanto, o cenário de referência da previsão 2020 da WNA indica que a produção terá que aumentar substancialmente dos níveis atuais para atender os requisitos futuros.

Desde 1990, o consumo de concentrado tem ultrapassado a produção primária por uma diferença substancial. Esta lacuna de fornecimento tem sido preenchida pelas fontes secundárias. O déficit entre os requisitos mundiais de urânio e a produção primária é crescente e os estoques existentes e as demais fontes secundárias estão se esgotando.

A maior fonte secundária é o acordo russo-americano "Megatons por Megawatts". Nesse acordo, que termina em dezembro de 2013, a Rússia faz o downblend de urânio de armas nucleares em urânio de baixo enriquecimento (LEU) para uso civil. A Rússia atualmente abastece o mercado mundial com 12 mil toneladas de urânio a partir deste programa. A Rússia, entretanto, já declarou que não renovará esse acordo e o programa se encerrará após esta data.

As empresas de geração elétrica nuclear garantem uma proporção substancial de suas necessidades de concentrado por contratos de médio e longo prazos com os produtores. Os preços desses contratos são estabelecidos por uma série de métodos, incluindo reajustes por índices de inflação, preços de referência e renegociações de preços anuais. Os contratos podem conter preços mínimos, preços máximos e outras disposições negociadas que definem o preço final a ser pago na entrega.

Com base em dados fornecidos pelo Ux Consulting Company LLC e TradeTech, principais consultores do setor, o preço no mercado spot para entrega imediata no final do ano de 2010 foi de US$ 138,3 mil por tonelada de concentrado, em comparação com U$ 98,8 mil ao fim de 2009, um aumento de 40%. A média dos preços dos contratos para entrega a termo no mesmo período foi de U$ 144,4 mil para U$ 135,5 mil, uma diminuição de 7%.

O Brasil tem a 7ª maior reserva de urânio do mundo, com cerca de 300 mil toneladas de concentrado equivalente asseguradas. Poderão se somar a cerca de 800 mil toneladas adicionais inferidas, que o tornariam a 1ª ou 2ª maior reserva mundial. Porém, o país não participa do mercado internacional.

O mercado nacional é simultaneamente um monopólio (um só vendedor) e um monopsônio (um só comprador), mas seus preços não são regulados. A produção brasileira de concentrado, monopólio da União exercido pelas Indústrias Nucleares do Brasil S.A. (INB), se limita a atender ao consumo interno de cerca de 400 toneladas por ano demandado pela Eletrobrás Eletronuclear S.A. para as recargas de Angra 1 e Angra 2.

A construção de Angra 3 aumenta a demanda em 840 toneladas para a fabricação de sua 1ª carga até 2015 e, a partir de 2016, 280 toneladas adicionais por ano para suas recargas. Mas a produção nacional não tem sido suficiente para atender a demanda nos últimos anos.

Leonam dos Santos Guimarães é doutor em engenharia, membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Assistente da presidência da Eletronuclear

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

TV ON LINE


EMBAIXADOR AFIRMA QUE ERA NECESSÁRIO BC MOSTRAR QUE NÃO SEGUE ORDENS DO PLANALTO TEMPO: 00:05:58
Em entrevista ao Conta Corrente, o embaixador e consultor de empresas, Jório Dauster, falou sobre o cenário econômico nacional e internacional e os efeitos desta crise global. Sobre a queda de juros na economia brasileira, Dauster afirma que era necessário o Banco Central mostrar que não segue ordens do Planalto.

SONORA

*JÓRIO DAUSTER, embaixador

*GEORGE VIDOR, jornalista

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

STF SUSPENDE AUMENTO DO IPI SOBRE CARROS IMPORTADOS TEMPO: 00:01:00
O Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o aumento do IPI sobre carros importados. Com a decisão, a cobrança só pode ser feita a partir da primeira quinzena de dezembro. A decisão tem efeito retroativo.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: EDIÇÃO DAS CINCO | APRESENTADOR: LEILA STERENBERG

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Carta Maior - Internacional - Zizek: o casamento entre democracia e capitalismo acabou

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Temor de piora da crise derruba minério e cobre


Por Emiko Terazono e Jack Farchy | Financial Times, de Londres

O preço do minério de ferro recuou para seu menor patamar no ano, enquanto a cotação do cobre apresentou declínio de mais de 6% na última sessão de ontem, depois de investidores chineses encabeçarem uma onda de vendas nos mercados globais de commodities de uso industrial, em meio aos receios de desaceleração da economia mundial.

A forte queda acontece enquanto a crise da região do euro entra em uma semana crucial. Paralelamente, os investidores estão preocupados com a possibilidade de uma desaceleração complicada da economia chinesa, responsável por mais de 40% da demanda de grande parte dos metais industriais.

Os receios foram amplificados pela desvalorização acentuada dos preços à vista do minério de ferro. O produto referencial australiano - com 62% de conteúdo de ferro - vendido à China, cujo preço vinha mantendo-se relativamente estável em meio à onda de vendas de commodities dos últimos meses, caiu para US$ 145 por tonelada, 20% abaixo do pico verificado no início de setembro, de US$ 183.

Para o analista Duncan Hobbs, da Macquarie, a queda do preço à vista do minério de ferro estava "reforçando as percepções de desaceleração da economia chinesa" e pressionando o sentimento quanto a outros metais de uso industrial, especialmente o cobre.

Nesta semana, a China divulgou crescimento de 9,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, o menor em dois anos. Analistas dizem que as grandes siderúrgicas chinesas vêm registrando declínio nas encomendas e que a produção agregada de aço provavelmente encolherá no curto prazo.

O sentimento negativo em relação à China também pesou sobre outros metais industriais. O contrato de cobre para entrega em três meses na Bolsa de Metais de Londres (LME), referência para os mercados de metais básicos, caiu 6,5%, para US$ 6.710 por tonelada, menor fechamento desde julho de 2010 e pouco acima da menor cotação intradiária em 14 meses, de US$ 6.635, observada no início do mês.

Nos últimos dias, os preços do cobre e do aço na Bolsa de Futuros de Xangai - vistos por muitos como o indicador mais claro sobre o sentimento na China - recuaram ainda mais do que nos mercados mundiais. A barra de reforço, um tipo de barra de aço usada na construção, para entrega em três meses caiu 20% desde o início de setembro. Ontem, chegou próxima ao menor preço em dois anos.

O analista Nicholas Snowdon, especializado em commodities metálicas no Barclays Capital, em Nova York, enfatizou que empresas e investidores chineses - que há poucas semanas eram compradores de metais - agora, estão assumindo posição de principais vendedores.

Ocupem os bancos de crédito imobiliário


Por Simon Johnson - Valor 21/10

Os participantes do movimento "Ocupem Wall Street" estão certos em argumentar que os grandes bancos nunca passaram por investigação apropriada pela criação, agrupamento e securitização de hipotecas, motivos centrais da crise financeira - e da perda de mais de oito milhões de empregos. Graças, no entanto, aos esforços do procurador-geral de Nova York, Eric Schneiderman, entre outros, foram iniciadas negociações sérias nos Estados Unidos em busca de um acordo sobre as hipotecas, fora dos tribunais, entre procuradores-gerais estaduais e empresas de destaque no setor financeiro.

As conversas entre autoridades estaduais, o governo Obama e os bancos estão concentradas nas notícias de abusos nas hipotecas, execução de residências e despejos de moradores. Bancos importantes, contudo, também são acusados de comportamento ilegal - de induzir as pessoas a captar, por exemplo, enganando-as sobre as taxas de juros que teriam de pagar e de apresentar de forma distorcida os "títulos lastreados por hipotecas" (MBS, na sigla em inglês) resultantes aos investidores.

Caso as acusações sejam verdadeiras, os executivos de bancos envolvidos devem temer que ações civis revelem evidências que possam ser usadas em ações criminais. Seu interesse, nesse caso, naturalmente seria buscar - como buscam agora - impedir que essas evidências cheguem aos tribunais.

A estrutura e os valores de qualquer acordo fora dos tribunais sobre as hipotecas deveriam ser baseados nos danos provocados pelo suposto comportamento. Muitos americanos agora devem demasiado. Estima-se que cerca de 10 milhões de hipotecas estejam "debaixo d'água" (a residência vale menos que o empréstimo). E, em mercados importantes, nos EUA, depois de quatro anos de depressão nos preços residenciais, os valores continuam em queda.

Se fossem créditos a empresas, os credores estudariam sua reestruturação - prorrogando os pagamentos e, normalmente, dando baixa contábil no principal. No mercado de hipotecas residenciais dos EUA, no entanto, isso é bem menos comum. Os bancos não querem milhões de negociações nem, muito menos, a necessidade de admitir as perdas que isso implicaria em sua carteira de crédito.

Como resultado, as famílias tentam reduzir gastos e saldar suas dívidas. Até certo ponto, esse é o resultado natural de qualquer onda de alta expansão no crédito. E a desalavancagem das famílias nos EUA levará um longo tempo.

As autoridades políticas e monetárias podem responder de três formas. Primeira, podem ficar sem fazer nada - aparentemente, a preferida da liderança parlamentar republicana, que recentemente escreveu ao presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), Ben Bernanke, exigindo que ele não tente estimular de novo a economia.

Segunda, poderiam continuar confiando na política monetária e fiscal convencional para tirar a economia da ociosidade. É a ainda favorecida pelo governo Obama, apesar do fraco desempenho da abordagem.

Terceira, poderíamos adotar uma abordagem alternativa, que reduza diretamente o valor das hipotecas debaixo d'água. A essa altura, qualquer melhora no patrimônio dos consumidores estimularia diretamente a economia e criaria empregos.

Comecemos pela proposta de Martin Feldstein, que recomenda uma troca: o governo deveria reduzir o valor das hipotecas quando estivessem suficientemente debaixo d'água, com o governo e os bancos dividindo os prejuízos; em troca, o captador concordaria que o novo empréstimo fosse do tipo de "recursos integrais". Isso significa que os credores poderiam ficar com outros ativos dos devedores - não apenas a casa -, em caso de inadimplência.

A chave para a proposta é os bancos concordarem; é uma reestruturação voluntária das dívidas, sem pressão de nenhuma autoridade legal. Em princípio, os bancos deveriam sentir-se atraídos pela proposta, porque empréstimos reestruturados têm menor probabilidade de calote. Na prática, os bancos vêm relutando consistentemente em reestruturar hipotecas - e vêm demitindo pessoal, em vez de contratar as pessoas que poderiam ajudá-los a lidar com uma iniciativa dessa escala.

Feldstein calcula que o custo com a redução do principal ficaria em torno a US$ 350 bilhões. Claro, em nosso atual cenário fiscal, seria difícil encontrar recursos adicionais no orçamento.

Esses US$ 350 bilhões, contudo, são aproximadamente o que o setor financeiro lucrou, como um todo, em um trimestre normal durante a onda de auge do crédito - e os lucros nos trimestres mais recentes alcançaram ou superaram esse patamar. Portanto, se todo o custo fosse coberto pelos bancos, a maioria perderia o equivalente a menos de um ano de lucro - distribuído ao longo de vários anos.

Esses lucros dos tempos de auge do crédito foram, de qualquer forma, superestimados, porque não foram ajustados ao risco, E quando os riscos de queda se materializaram, as perdas foram amplamente socializadas - principal motivo para a dívida pública dos EUA ter disparado nos últimos anos. Pedir aos acionistas e à administração das empresas para que paguem uma quantia relativamente pequena é inteiramente justo e apropriado sob essas circunstâncias.

Alguns no setor financeiro, naturalmente, ameaçariam citando possíveis consequências sombrias. De fato, as ações dos bancos poderiam cair e seria inteiramente possível que a remuneração e bonificações encolhessem, pelo menos no curto prazo. Por outro lado, um acordo de grande escala que acabasse, de forma legítima e definitiva, com a ameaça de futuras ações legais removeria uma enorme sombra que paira sobre as maiores instituições de crédito, como o Bank of America, e cria riscos significativos para o resto do sistema financeiro.

Se os bancos realmente fossem responsabilizados pelos custos sociais de seu comportamento, a conta excederia os US$ 300 bilhões a US$ 400 bilhões. Os riscos legais totais às instituições financeiras, avaliados de forma realista, superam o US$ 1 trilhão - se particularmente puder ser demonstrado que os MBS vendidos a investidores não eram lastreados por nenhuma hipoteca, porque a papelada legal apropriada nunca foi feita.

Qualquer acordo também deveria incluir um acordo explícito dos bancos de apoio à alteração da lei de falências dos EUA, para permitir a inclusão das hipotecas nos processos nos tribunais. Se o movimento Ocupem Wall Street nos diz algo é que a última coisa que a economia dos EUA precisa é de mais famílias sufocadas por dívidas. (Tradução Sabino Ahumada)

Simon Johnson foi economista-chefe do FMI, e é cofundador do blog sobre economia BaselineScenario.com, professor da MIT Sloan, membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional e coautor de "13 Bankers" (13 banqueiros), com James Kwak. Copyright: Project Syndicate, 2011.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Copom corta Selic em 0,5 ponto, para 11,50%, sem surpresas


Valor 20/10
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) deixou de lado as surpresas e cortou novamente a taxa Selic em 0,5 ponto percentual para 11,5% ao ano, seguindo as indicações que ele próprio passou ao mercado ao longo das últimas semanas. A segunda queda consecutiva veio acompanhada de um comunicado enxuto, apenas para reforçar um cenário já incorporado pelo mercado, e também sinalizar a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário nas próximas reuniões.

A decisão já era amplamente esperada. A mediana das projeções colhidas pelo boletim Focus, do BC, junto a bancos e empresas, na última sexta-feira, mostrava que o mercado apostava em queda de meio ponto nessa reunião do Copom. O mercado de juros futuros também cravou redução de mesma magnitude, com poucas apostas em um corte mais acentuado. Para dezembro, a mediana do Focus projeta mais um corte de mesma magnitude na última reunião do ano, marcada para os dias 29 e 30 de novembro.

Ao contrário do que houve na reunião anterior, a decisão de ontem foi unânime. Em agosto, dos sete diretores do BC, que integram o Copom, dois votaram pela manutenção da taxa em 12,5% ao ano e cinco pela redução.

O corte de ontem vinha sendo sinalizado pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Em diversos pronunciamentos públicos feitos após a reunião de agosto, ele afirmou, reiteradamente, que, diante dos esperados efeitos da crise global, "ajustes moderados" da taxa básica de juros são compatíveis com a convergência da inflação para a meta já em 2012.

Exatamente esse argumento que foi repetido ontem na tradicional nota à imprensa emitida pelo comitê imediatamente após suas reuniões. "O Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012", disse o Copom na nota.

Referenciada no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a meta do governo é baixar a inflação anual para 4,5%, o que representaria substancial redução em relação ao nível atual. Até agosto, a variação do IPCA em 12 meses chegou a 7,23%. E para o ano calendário de 2011, projeção do próprio BC indica que os preços que compõem o índice vão aumentar 6,4%. Para 2012, os modelos de projeção do BC também apontam inflação acima do centro da meta, nesse caso, de 4,8%.

Segundo Cristiano Souza, economista do Santander, o comunicado deixa claro uma nova redução dos juros no encontro de novembro e que a magnitude de cortes deve se manter. "O BC já vinha falado em ajuste moderado. Ao repetir a frase no comunicado, cristalizou a ideia de que 'moderado' significa um corte de 50 pontos básicos", diz.

Na sequência, o BC afirma que ao "tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação". Para o economista do Santander, o texto apenas reforça o quadro pintado na reunião anterior.

"Na cabeça do BC, ele reforçou que o cenário está ruim e que, aos poucos, de forma moderada, no período certo de tempo está combatendo os efeitos da crise e que esse cenário é consistente com a convergência da inflação na frente", diz Souza.

Os modelos do economista, no entanto, não sugerem uma inflação na meta em 2012. Souza acredita que o IPCA termine este ano em 6,7%, caindo apenas um ponto percentual ao longo do próximo ano, para 5,7%. "Em 2008, a crise levou a uma queda de dois pontos percentuais, mas foi um cenário muito negativo. Hoje, mesmo com uma desaceleração mundial, não é cenário deflacionário para o Brasil", completa.

Ontem, o giro de negócios no mercado de juros futuros foi baixo para um pregão que antecedeu uma reunião do Copom. Também não foi detectada nenhum tipo de movimentação fora do normal. Nem mesmo o mercado de opções, que foi bastante ativo na véspera do encontro de agosto, mostrou aumento de volume nos últimos dias.

Nas tesourarias dos bancos, a percepção ainda é de novos cortes. Os contratos de juros da BM&F sinalizam uma Selic em 10,25% no próximo ano. Eduardo Duarte, operador de mesa da corretora Icap tem uma visão um pouco diferente. Segundo ele, caso a crise na Europa comece a ser resolvida, o BC pode fazer apenas mais uma redução na próxima reunião, em novembro, com uma pausa para avaliar o cenário.

Um programa para a região do euro


Por Raghuram Rajan - Valor 20/10
Como a crise da região do euro se desenrolará nas próximas semanas? Com sorte, a Itália pode em breve ganhar um governo sólido de unidade nacional, a Espanha terá um novo governo em novembro com autorização popular para promover mudanças e a Grécia fará o suficiente para não inquietar os mercados. Mas, por enquanto não se pode contar com nada disso.

Então, o que precisa ser feito? Primeiro, os bancos da região do euro precisam ser recapitalizados. Segundo, é preciso financiamento suficiente disponível para atender as necessidades da Itália e Espanha por cerca de um ano, caso não consigam acessar o mercado. E, terceiro, a Grécia, atualmente o doente em pior estado na Europa, precisa ser tratada de forma a não disseminar a infecção aos outros países na periferia da região do euro.

Tudo isso exige financiamento - só a recapitalização dos bancos requer centenas de bilhões de euros (embora essas necessidades possam ser um pouco suavizadas, se as dívidas soberanas de países grandes da região do euro passarem a dar uma melhor impressão).

No curto prazo, é improvável que a Alemanha (e o Norte da Europa em termos gerais) entregue mais dinheiro aos demais. Os alemães estão irritados com os pedidos para apoiar países que não parecem querer promover ajustes - ao contrário da Alemanha, que é competitiva por ter passado por anos de medidas dolorosas: baixos aumentos salariais para absorver os trabalhadores da antiga Alemanha Oriental e profundas reformas no mercado de trabalho e no sistema previdenciário. A pouca disposição dos gregos mais ricos em pagar impostos ou dos parlamentares italianos em reduzir seus próprios privilégios confirma os receios dos alemães. Paralelamente, os políticos alemães fizeram um péssimo trabalho ao tentar explicar à população local o quanto eles ganharam com o euro.

Mas não adianta supor, estamos onde estamos. Um raio de esperança é a disposição europeia em usar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês) de forma criativa - como garantia parcial contra perdas ou como capital. Claramente, parte dos fundos do EFSF terá de ser usada para recapitalizar bancos que não tenham condições de levantar dinheiro por si sós nos mercados. Quanto ao resto, os recursos que ainda não estão comprometidos com países periféricos podem ser usados para fornecer empréstimos direcionados à Itália e Espanha.

Não há consenso, no entanto, sobre como levar essas medidas adiante. Alguns propõem colocar o Banco Central Europeu (BCE) em cena para alavancar os fundos do EFSF. Essa seria uma receita para problemas. Dar ao BCE um papel quase fiscal, mesmo se a instituição ficar de certa forma isolada das perdas, ameaça minar sua credibilidade. E se a Itália for auxiliada, o próximo presidente do BCE, Mari Draghi, um italiano, seria criticado, independente de qual seja o grau de necessidade da Itália. Além disso, o financiamento teria de ser acompanhado pela condicionalidade. Essas instituições, contudo, não têm nem a experiência nem o distanciamento necessário dos países em risco para aplicar e fazer cumprir as condições apropriadas.

Por fim, a solidez financeira tanto do EFSF como do BCE depende dos mesmos recursos da região do euro. Se os mercados começarem a entrar em pânico quanto a grandes calotes na região do euro, poderiam questionar se mesmo uma Alemanha disposta teria a capacidade necessária para respaldar o EFSF e BCE. Dito de outra forma, essas instituições não oferecem uma fonte de força externa que seja confiável e não inflacionária.

De fato, os problemas da região do euro podem em breve tornar-se grandes demais para que seus países-membros os resolvam. O mundo também tem apostas em jogo. E possui uma instituição que pode canalizar ajuda: o Fundo Monetário Internacional (FMI). A instituição poderia criar um veículo especial no estilo da linha de crédito dos Novos Acordos de Empréstimos (NAB, na sigla em inglês), que seria capitalizada por uma primeira camada de garantia parcial do EFSF contra perdas e uma segunda com capital do FMI.

O veículo nas linhas do NAB poderia captar o necessário dos países, incluindo Estados Unidos e China, assim como acessar os mercados financeiros. Ofereceria grandes linhas de crédito para países sem liquidez, como a Itália, sob a condição de medidas direcionadas a ajudar tais países a retomar a captação nos mercados a um custo razoável.

Seria preciso um veículo especial porque os volumes que precisam estar disponíveis excedem em muito o que os membros do FMI podem acessar normalmente e não seria nada mais do que justo que se a região do euro pedisse tais recursos para seus membros, arcasse com uma parte significativa de qualquer possível prejuízo. Ao mesmo tempo, o capital do FMI deveria sustentar o veículo, caso a garantia parcial oferecida pela região do euro comece a ser corroída; dessa forma, o mercado entenderia que recursos de fora da região do euro podem ser usados.

O FMI não é uma instituição que inspire sentimentos amigáveis e cordiais. Mas tampouco é o pregador insensível da austeridade fiscal, como se costuma acusá-lo - e o FMI deveria começar a assumir a liderança no combate à crise, em vez de ficar na retaguarda. A região do euro precisa de uma avaliação externa independente do que precisa ser feito e uma aplicação rápida de medidas, antes que seja tarde demais e a incipiente corrida aos bancos torne-se incontrolável.

É claro, o FMI não pode agir sem a permissão de seus mestres, os grandes países. A região do euro deve suprimir qualquer sentimento de orgulho ferido, reconhecer que precisa de ajuda e cumprir rapidamente o que já prometeu. Os Estados Unidos deveriam continuar pressionando com força por uma solução. E os países emergentes também deveriam contribuir com sua parte, uma vez que sejam adotadas medidas de proteção para seu dinheiro. Uma crise não solucionada não poupará ninguém.

Como fonte da crise do euro, as dívidas gregas quase certamente terão de ser reestruturadas. Mas, antes de qualquer resolução, devem ser adotadas estruturas de financiamento adequadas para a Itália e Espanha. Portanto, embora os outros tenham de dar um passo adiante e fazer sua parte, é melhor que a Grécia dê um passo atrás da beira do precipício. (Tradução Sabino Ahumada)

Raghuram Rajan é professor de finanças na Booth School of Business, da University of Chicago, e autor de "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy" (linhas de falhas: como fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2011.

Produtores de ferro-gusa enfrentam sua pior crise



Valor 20/10

Produzir ferro-gusa é o negócio da família de Gustavo Costa Paulino desde os anos 70. Foi nessa época que seu pai, Afonso Paulino, fundou com sócios uma siderúrgica no município de Sete Lagoas, a noroeste de Belo Horizonte. Os primeiros clientes eram empresas de São Paulo e Santa Catarina. Mas logo o ferro-gusa da Siderúrgica Paulino (Siderpa) começaria a ser exportado para os EUA e Europa. A empresa passou de 60 funcionários para cerca de 500, ganhou altos-fornos mais potentes - passando a ter um com capacidade para produzir 7 mil toneladas e o outro para 11 mil. Como todo o setor, os Paulino passaram pelas oscilações que são a marca registrada da indústria de gusa e, como todo o setor, chegaram a 2008 com a produção beirando os 100% de sua capacidade.

Mas então veio a crise financeira mundial. A Siderpa parou de abril a outubro de 2009. Foi a primeira paralisação desde 1970. Quando voltou a operar, retornou só com um dos fornos, o menor.

Com câmbio desfavorável, com apetite externo reduzido e com custos do carvão e do minério de ferro nas alturas, o setor ficou de cabeça para baixo. A maior parte das empresas não se recuperou do tombo. E produzir gusa é hoje um negócio duvidoso. "Nos últimos anos, passou a valer mais a pena produzir e vender carvão vegetal do que ferro-gusa", diz Gustavo Paulino, superintendente comercial da Siderpa.

Ferro-gusa é o primeiro estágio de transformação do minério de ferro. Ele é produzido a partir da fusão entre o minério de ferro bruto e o carvão, além de calcário e outros materiais fundentes, em fornos que passam dos 1.300 graus Celsius. Os lingotes de gusa são usados por aciarias (que o beneficiam para produzir aço) ou por empresas de fundição que agregam outros materiais para fabricar peças fundidas, por exemplo, de motores de carro. Como gostam de dizer os produtores, com gusa se faz de alfinete (que é de aço) a motores de navio e turbinas (que são fundidos).

Minas Gerais, com suas 64 usinas de gusa é o maior produtor do país. Responde por cerca de 60% da produção nacional. O Brasil não importa ferro-gusa. Ao contrário, é um grande exportador.

Em 2007, antes da crise encolher a indústria, as usinas do Estado empregavam direta e indiretamente 50 mil trabalhadores. Naquele ano, a produção chegou a 5,5 milhões de toneladas. Em 2011, as usinas de Minas empregam menos da metade de trabalhadores do que há quatro anos e deverão fechar o ano produzindo 3,5 milhões de toneladas, segundo estima o Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer). O faturamento esperado para este ano é de cerca de R$ 4 bilhões, ante os quase R$ 6,5 bilhões de 2007. Cidades que cresceram nas últimas décadas com o impulso da economia guseira se desorganizaram. Sete Lagoas, por exemplo, viu de repente 4 mil trabalhadores na rua.

"É um setor que está agonizando", diz Sebastião Maciel, porta-voz da Itasider, outra siderúrgica de gusa com sede em Sete Lagoas. "Desde a crise, todos os cinco fornos das usinas estão abafados porque não vale a pena, você paga para produzir." Dos cerca de 800 funcionários, sobraram uns 60.

Vários "guseiros" de Minas Gerais estão desde a crise de 2008 parados, como a Itasider. Outros conseguiram voltar a operar, mas apenas com parte de sua capacidade. Todos eles foram vítimas de uma sequência desastrosa de ocorrências.

O que, em resumo, atropelou o setor foi: os produtores de gusa de Minas e também os do norte do país tinham uma grande dependência do mercado externo, em particular dos EUA e da Europa - mercado que minguou. Sem tanto apetite desses dois compradores, o mundo passou a ter excesso de aço e isso enfraqueceu ainda mais a demanda por gusa.

Ao mesmo tempo, com os preços do minério de ferro e do carvão nas alturas - muito em função da demanda chinesa -, as margens de ganho dos produtores de gusa despencou. Ferro e carvão são os elementos chave dos guseiros. E para coroar o desastre, o câmbio minou as energias do setor que, em Minas, exportava metade do que produzia.

Em setembro, veio a primeira boa notícia em anos: o dólar voltou a se valorizar frente ao real. "O problema do gusa é o câmbio. Rússia e Ucrânia, por exemplo, que também são produtores, mantêm suas moedas desvalorizadas e se protegem", disse Antonio Pontes, outro empresário do setor, há décadas no ramo. Para o Sindifer, com o dólar na casa de R$ 1,70 a R$ 1,80, o setor consegue ao menos equilibrar as contas mesmo com um mercado ainda desaquecido.

"Nos últimos três anos, trabalhamos com rentabilidade zero ou algum prejuízo; isso ocorreu com todos nós. Só subsistimos baixando os custos e cortando pessoal ", diz Pontes numa sala de reunião da sede de sua empresa, o grupo Calsete, em Sete Lagoas. "Do mês passado para cá, com o dólar mais alto, passamos a ter uma rentabilidade de 8%", afirma.

O clima, no entanto, ainda é de cautela, com muitos produtores se perguntando se a taxa de câmbio de fato se manterá mesmo num patamar mais elevado. Não só isso: com as grandes economias do mundo patinando e com um horizonte de novas recessões, as perspectivas para o gusa parecem nada positivas.

"Não estamos vendo uma mudança muito grande no patamar de câmbio [que vinha vigorando antes da alta] e ao mesmo tempo há uma tendência de queda nos preços internacionais de gusa devido à redução global do consumo de aço", prevê Pontes.

"Para as usinas de ferro-gusa não integradas [aquelas que não pertencem a empresas que atuam em toda a cadeia do aço], as perspectivas não são favoráveis", diz ele. Para as usinas integradas, a situação é melhor porque o custo do gusa na fabricação do aço não é tão significativo quanto é o custo do minério e do carvão para as siderúrgicas que só fabricam gusa, acrescenta Pontes.

O empresário deixou de produzir ferro-gusa na usina de Sete Lagoas e passou a fazê-lo no município de Bacabeiras, no Maranhão. Foi uma permuta de ativos com o grupo Gerdau. Para Pontes, que vende 85% de sua produção para os EUA, a mudança reduziu as distâncias entre a planta e seus clientes.

Mas a crise o alcançou no Maranhão. Sua nova usina ficou parada praticamente todo o ano de 2008 e retomou as operações com apenas um de seus dois fornos. Seu faturamento desmoronou de R$ 120 milhões antes da crise para atuais R$ 50 milhões. "Ferro-gusa não é um grande negócio. Não tem muita rentabilidade porque os insumos são muito caros", resume.

Os custos do carvão aumentaram para 65% na fabricação de gusa; os do minério representam 20%, segundo estimativas do setor. Hoje a tonelada do carvão (tipo vegetal) já está em torno dos R$ 300; a de minério, R$ 150.

No fim de 2008, Pontes começou a diversificar seus negócios. Associou-se à BR Malls como minoritário na construção de um shopping (o primeiro e único) em Sete Lagoas. E passou também a investir em reflorestamento.

É o que também fizeram os Paulino, da Siderpa. Formaram uma floresta de eucaliptos de 20 mil hectares em uma área que abrange seis municípios da região centro-norte de Minas. Trata-se de uma fonte valiosa de carvão vegetal. Entre os produtores de gusa de Minas Gerais, uma visão que parece estar se tornando consensual é que se há alguma luz no fim do túnel para os produtores não integrados ela passa necessariamente pela aquisição e formação de florestas para que possa garantir uma fonte sustentável de carvão. O problema é que na época das vagas gordas, muitos acharam que isso não era prioridade. Agora, descapitalizados, quantos poderão fazer investimentos em florestas?

Uma lei estadual sancionada em 2009 estabelece que a partir de 2017 fica proibido o corte de mais de 5% da floresta nativa de cada propriedade para a produção de carvão. "Nós investimos com mais intensidade em floresta desde 2000. Mas ainda se conta nos dedos que tem plantação própria", diz Gustavo Costa Paulino. Com resultados, a Siderpa, segundo ele, atualmente só usa carvão próprio e ainda vende o excedente.

O setor do gusa tem um passado que o condena quando o assunto é carvão. Por décadas se abasteceu de carvão de fontes ilegais, produzidos a partir da derrubada indiscriminada de matas nativas. "Pelo tamanho do parque siderúrgico, Minas sempre consumiu muito carvão, que vem da Bahia, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e também do norte de Minas", diz Alison José Coutinho, superintendente do Ibama em Minas Gerais.

E se há ao menos um aspecto positivo relacionado à decadência do ferro-gusa em Minas Gerais, ele aparece nos resultados dos trabalhos de fiscalização da equipe de Coutinho. "Com o setor operando mais lentamente, o consumo de carvão ilegal diminuiu", diz ele. "Quem comprava de fontes clandestinas, passou a comprar de fornecedores legais porque a oferta de carvão aumentou. É uma lei de mercado."

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Lá vem o Brasil, descendo a ladeira?


Por Jose Paulo Vieira

É conhecido e aceito que a redução dos juros destrava o investimento em capacidade produtiva – que é o melhor ‘remédio’ contra a inflação – e assim viabiliza crescimento e renda, essenciais para a sustentabilidade da democracia e do desenvolvimento. A verdadeira eficiência da política monetária está em controlar a inflação sem comprometer esse objetivo maior.

Todavia, os dados econômicos mais recentes são muito preocupantes. O índice de Atividade Econômica do Bacen, de agosto, indica que a retração da economia brasileira em 2011, que já era bastante forte, está se acelerando. Para Jose Paulo Kupfer “a economia está descendo a ladeira” 1.

Os indicadores da base de dados do Bacen (www.bcb.gov.br/?INDECO) são flagrantes em demonstrar o quanto a atividade econômica está se reduzindo. O volume de Consultas ao SPC, indicador da atividade do comércio, que havia crescido 18,7% em 2010, este ano murchou: -4,5%. Outros tradicionais indicadores de atividade, como o consumo de energia elétrica, a produção de papelão (embalagens) e os insumos da construção civil registram redução expressiva em 2011 (vide Figura abaixo).

Todos os indicadores selecionados registram fortíssimas reduções em 2011, tanto do Nível de Atividade em São Paulo, quanto da Produção Industrial, das Vendas Industriais em SP e Brasil (dados CNI). Também as horas trabalhadas e o nível de emprego (SP e Brasil) registram fortes perdas, que poderão em breve impactar a massa salarial da indústria que, por enquanto, registra crescimento.
As principais consultorias econômicas estão reduzindo a previsão de crescimento do PIB deste ano para cerca de 3% (1).




Expressiva redução face aos 7,5% de 2010!

A grande expectativa para os cidadãos, homens públicos e todos os que aspiram ao futuro do Brasil é: será essa queda “suficiente” para os doutos especialistas do mercado?

Segundo ensina Bresser-Pereira (3) dois problemas são dominantes no Brasil desde que a inflação foi controlada, em 1994: a alta taxa de juros e a taxa de câmbio sobreapreciada, que decorre em grande parte da atração irresistível dos juros altos. O professor entende que há que se cuidar da inflação, mas que ela “hoje, não é nosso problema principal. É importante apenas para quem gosta de juros altos”. Muito mais relevante hoje é equalizar o dueto “cambio/juros” objetivando o “equilíbrio industrial”, que livraria o Brasil do fantasma da doença holandesa (reprimarização da economia), este sim um problema que devemos evitar comprometa o sucesso dos nossos filhos.

Para isso o país carece da contribuição da política monetária, especialmente dado o recrudescimento da crise internacional, muito bem antecipado pelo Bacen, apesar do ceticismo dos doutos especialistas/juristas. Hoje cabe ao BACEN, ainda mais, a imperiosa redução da taxa básica de juros.


(1) “Descendo a ladeira”. 13 de outubro de 2011 16h56, http://blogs.estadao.com.br/jpkupfer/
(2) “Economia dá sinais de fraqueza: analistas reduzem previsão do PIB”. Ricardo Leopoldo, Agência Estado 13/10/2011 16h12
(3) “BC é um banco do governo e tem que fazer política do governo”. Luis Carlos Bresser-Pereira, Editoria de Economia, Carta Maior, 14/10/2011comentado por Maria Inês Nassif, 13/10/2011.


Jose Paulo Vieira é analista do Desup

BC ouvirá bancos do país sobre regras de Basileia 3 ainda este ano


Valor 19/10
O Brasil abrirá consulta pública até o fim do ano para por em prática os novos padrões de capital e liquidez de instituições financeiras, pelo chamado Acordo de Basileia 3, que exigirá esforço adicional dos bancos.

O Comitê de Basileia de Supervisão Bancária (CBSB) publicou ontem o estado da implementação de Basileia 3 e mostrou que o Brasil está em linha com outros países. Somente a União Europeia já publicou os detalhes de mudanças importantes na regulamentação bancária, com impacto nas atividades e comportamento do setor financeiro. Já Canadá e Japão deixarão o trabalho para 2013.

A consulta pública no Brasil poderá ter prazo de 60 dias e já será quase uma minuta de resolução detalhada. As recomendações de Basileia 3 visam melhorar a capacidade das instituições financeiras de absorver choques, reduzindo a severidade de futuras crises bancárias e efeitos negativos sobre toda a economia.

O Banco Central do Brasil já avisou que antecipará algumas regras. Aplicará certos ajustes regulatórios a partir de junho de 2012 para melhorar a qualidade do capital dos bancos, enquanto o Acordo de Basileia estabelece 2014.

Alguns ativos que podem ter valor muito depreciado em momentos de crise, como ágios e créditos tributários, vão começar a ser deduzidos do capital principal do banco em julho de 2012, inicialmente numa proporção de 20%, até chegar aos 100% em 2018.

Além disso, o BC exigirá a adoção gradual de capital contracíclico a partir de janeiro de 2014, também dois anos antes do previsto por Basileia 3. Começará com exigência adicional de capital de 0,625% até alcançar o nível de 2,5% em 2019.

A consulta pública no Brasil deve trazer detalhes sobre a penalização para o banco que não cumprir as regras sobre os colchões de capital. O banco faltoso não poderá distribuir dividendos e pagar bônus, até que cumpra os níveis de colchão de capital (de conservação e contracíclico), como prevê o Acordo de Basileia 3.

As regras prudenciais no Brasil são mais conservadoras do que o padrão internacional. O BC tem reiterado que as novas regras vão exigir 'algum tipo de adaptação' para os bancos reforçarem a base de capital, mas menor do que o que será exigido dos bancos dos outros países.

A União Europeia, em plena crise da dívida soberana, calcula que os mais de 8 mil bancos e firmas de investimento operando na Europa, representando 53% do total mundial, vão precisar levantar € 460 bilhões de capital de melhor qualidade para se enquadrarem nas novas regras de Basileia 3 até 2019.

Com seus bancos em situação combalida, a UE quer ir além das recomendações do acordo global. Planeja introduzir sanções mais severas para quem violar as regras de capital. As multas poderão chegar a 10% da receita anual de um banco, ou interdição temporária para executivos das instituições. Incluiu também reforço de governança corporativa, o que outros países fazem em normas separadas.

Para o diretor-geral do Banco Internacional de Compensações (BIS), Jaime Caruana, os novos padrões de Basileia 3 serão "duros'', mas necessários para enfrentar futuras turbulências, e rejeita conclamações de bancos para adiar a implementação de algumas exigências no cenário atual.

"O próximo passo é colocar as regras em prática. Para vários bancos, a implementação de Basileia 3 terá barreiras importantes. As regras de capital e liquidez são desenhadas para reforçar de maneira importante o capital do banco e a gestão dos riscos."

Ele lembrou que os bancos precisam atrair novo capital, preservar o existente limitando o pagamento de dividendos e bônus e realizar ganhos de eficiência. "Não são apenas os reguladores que estão pedindo por essas mudanças, é o mercado mesmo que está levando os bancos a fazer mais, e mais rápido, nessas frentes'', afirmou em discurso em Lisboa.

Ontem, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês) anunciou que os reguladores globais vão rever anualmente se as regras do setor financeiro acertadas no G-20 estão sendo aplicadas. As áreas prioritárias para monitoramento incluem as exigências de capital mínimo para os bancos e remuneração para os executivos de bancos, além de medidas para controlar os bancos paralelos ("shadow banks") e os derivativos de balcão.

China desacelera devagar e analistas veem pouso suave


Agencias internacionais

A economia da China desacelerou no terceiro trimestre. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 9,1% - 0,4 ponto a menos em relação ao período abril-junho. Grande parte dos analistas interpreta esse dado como mais um sinal de que o país terá um "pouso suave", mas alguns, como o economista Nouriel Roubini, acham mais provável um pouso forçado.

O ritmo de crescimento chinês é o menor desde 2009, segundo os dados divulgados. O governo disse que o resultado está em linha com os planos de reduzir a expansão a um nível mais sustentável e de combater a inflação. "Há uma perspectiva muito grande de a economia da China manter um crescimento contínuo e relativamente forte", disse Sheng Laiyun, porta-voz da agência de estatísticas. Segundo ele, a China enfrenta "riscos crescentes" devido à fraqueza em mercados importadores cruciais, como EUA e Europa, mas uma crise econômica é improvável.

Pequim tem promovido repetidos aumentos nas taxas de juros e imposto medidas restritivas ao setor de construção para impedir um crescimento excessivo e a disparada da inflação, que em julho atingiu 6,5%, o mais alto patamar em 37 meses. Em setembro, a alta anualizada foi de 6,1%.

O governo anunciou ainda que a produção industrial em setembro subiu 13,8%, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Esse número é 0,3 ponto maior do que o índice de agosto.

Refletindo a opinião da maioria dos analistas, Liu Li-Gang, do Australia & New Zealand Banking Group, disse que "o risco de pouso forçado é um cenário distante".

No entanto, para Nouriel Roubini, professor da Universidade Nova York que ganhou notoriedade ao prognosticar o estouro da bolha imobiliária nos EUA, trata-se de uma "missão impossível" fazer com que a economia chinesa tenha um pouso suave. Em seminário em Helsinki, na segunda-feira, Roubini disse que a China sofrerá uma forte desaceleração em 2013 ou 2014. Segundo ele, o excesso de investimento "sempre" leva a um pouso forçado da economia.

Roubini afirmou que a Europa não deve contar com muita ajuda por parte do país asiático. Para ele, as manifestações da China a respeito de um auxílio aos europeus são pouco mais do que "papo furado". Conhecido como "Dr. Apocalipse" por suas previsões sombrias, Roubini não é infalível. Em março de 2009, quando o Standard & Poor's 500 caiu abaixo de 680, ele disse que até o fim do ano o índice desceria a menos de 600. Em vez disso, houve uma alta de 65%.

Por seu lado, Jim Chanos, administrador de fundos hedge da Kynikos Associates, afirmou que o "pouso forçado" da China já teve início. Em entrevista ao site MarketWatch, na segunda-feira, Chanos afirmou que "os números estão caindo mais rápido do que pensávamos. As vendas de imóveis em setembro e outubro, que são meses de pico, caíram 40%-60% em relação a um ano atrás".

Dando como exemplos as ações de empresas financeiras e imobiliárias chinesas, que têm queda de 30% em relação ao pico, Chanos lançou a pergunta: "As pessoas estão acreditando na ideia de crescimento perpétuo. Mas elas têm que se perguntar: 'Há crescimento realmente?'"

Não há futuro ensolarado para o euro


Por Martin Wolf - Valor 19/10

Viva! A crise da região do euro será solucionada no encontro de cúpula da União Europeia neste domingo. Foi o que indicaram os participantes da reunião de ministros das finanças do grupo das 20 principais economias emergentes e avançadas. Será que tais esperanças se confirmarão? Não. É concebível - embora improvável - que a região do euro encontre maneiras de administrar a atual emergência. É inconcebível que consiga curar a doença, em parte porque os países-membros estão em estado de negação sobre a natureza da enfermidade e, em parte, porque é uma condição crônica.

Compreensivelmente, observadores externos, aterrorizados com outro choque financeiro mundial, exercem pressão intensa sobre os países-membros da região do euro para que lidem com suas crises interligadas, de falta de solvência e liquidez bancária e soberana. Os ministros convocaram a região do euro a agir "decisivamente para restaurar a confiança, estabilidade financeira e crescimento".

Consertem os bancos; consertem a Grécia; e consertem os mercados de dívidas de outros países da região do euro mais enfraquecidos. Esses são os elementos do pacote desejado. A principal abordagem também é clara: despejar baldes de dinheiro por todos os lados.

Primeiro, o que deve ser feito quanto aos bancos? O ponto de partida é um teste de estresse confiável. É incerto, no entanto, o que seria um teste confiável. Isso depende das possíveis perdas com dívidas soberanas, algo não apenas desconhecido, mas condicionado a decisões políticas ainda a ser tomadas. A questão, então, é que taxas de capital próprio almejar. O sucesso será avaliado de acordo com a facilidade com que, subsequentemente, os bancos conseguirem se financiar. Esse é um exercício de psicologia de mercado, não de ciência.

Se, após os testes, os bancos tiverem de encolher os ativos, em vez de levantar capital, como agora ameaçam fazer, a cura poderia acabar se revelando pior do que a doença. A resposta é transformar essas taxas almejadas em níveis de capital que os bancos tenham de atingir. Os bancos vão berrar. Que o façam. Os Estados sustentam bancos. Os Estados têm o direito - e o dever - de assegurar que comportamentos em interesse próprio dos bancos sustentados por eles não provoquem depressões. A resposta é que se diga aos bancos para elevar as metas de taxas de capital, subscritas por Estados solventes ou pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês). Se não puderem levantar capital, que o dinheiro venha dos governos.

Segundo, o que deve ser feito quanto à Grécia? Como meu colega Chris Giles observou, o governo alemão acha que a dívida grega precisa ser reduzida a níveis sustentáveis, enquanto o governo francês, o Banco Central Europeu (BCE) e os bancos acreditam que a reestruturação precisa ser voluntária. Como é improvável que uma redução voluntária seja suficiente, isso não vai funcionar. A Alemanha está certa. O serviço das dívidas gregas precisa ser colocado em uma base sustentável. Qual, afinal, é o incentivo para os gregos reformarem seu governo e economia, se os benefícios para os credores aumentam indefinidamente? Quase nenhum.

Os tolos que emprestam dinheiro sem fazer perguntas merecem absorver parte das dores. Eles não deveriam esperar que os gregos os resgatem de suas tolices, depois de consumado o fato. A redução dos encargos com as dívidas pode ser alcançada com o corte do estoque de dívidas, redução dos juros ou prorrogação dos vencimentos. Com a dívida pública líquida prevista pelo FMI para 2012 sendo de 175% do Produto Interno Bruto (PIB) e sem a chance de captação nos mercados privados, os argumentos a favor de cortes radicais são fortes.

Terceiro, como proteger os outros países-membros vulneráveis? Uma onda de pânico autorrealizável nos mercados de dívidas soberanas de países grandes, como a Itália e Espanha, é o maior perigo com o qual as economias do região do euro e do mundo se deparam. Como o endividamento líquido da Espanha (previsto pelo FMI em 59% do PIB para 2012) e o déficit fiscal estrutural da Itália (previsto em 1,1% do PIB para 2012) são bastante baixos, ambos os países têm boas chances de reconquistar acesso aos mercados em condições mais favoráveis. A solução mais simples seria o Banco Central Europeu assegurar liquidez no mercado dessas dívidas públicas. Se isso for rejeitado ou considerado insuficiente, o EFSF poderia dar garantias parciais sobre as novas captações, como sugerido recentemente por Paul Achleitner, da Allianz.

Suponham que a crise imediata seja, de fato, superada dessa maneira. Será que isso seria promessa de um futuro ensolarado para o euro? Não. A resposta tampouco seria, como muitos sugerem, algum tipo de união fiscal. Certamente, se países-membros dignos de crédito transferissem recursos para membros sem crédito em escala grande o suficiente, a região do euro poderia sustentar-se. Mas, mesmo se tal política pudesse ser sustentada (o que é improvável), tornaria o sul da Europa um grande Mezzogiorno (como o sul da Itália costuma ser chamado). Isso seria um resultado calamitoso para a integração monetária europeia.

O desafio fundamental não é o financiamento, mas o ajuste. As autoridades da região há muito insistem que o balanço de pagamentos não dever ser de importância em uma união monetária. De fato, há uma crença quase religiosa de que o importante é o déficit fiscal: todos os outros balanços vão se equilibrar automaticamente. Isso é absurdo. O melhor previsor das dificuldades subsequentes foram os déficits externos pré-crise e não os déficits fiscais. Por que os déficits externos são importantes?

Primeiro, eles significam que os residentes gastam mais do que sua renda e financiam a diferença no exterior. Segundo, déficits externos prolongados também moldam a estrutura e competitividade de uma economia. Terceiro, déficits prolongados levam a imensos passivos externos líquidos, frequentemente, intermediados por bancos. Quando a concessão de empréstimos fica congelada, os bancos têm probabilidade de implodir, corroendo tanto a economia como a posição fiscal.

Mais importante que tudo, as pessoas se importam com o que acontece em seus países. Os habitantes de um país em depressão dificilmente se consolarão com a ideia de que os outros países-membros vivem em prosperidade.

Dentro da região do euro, o ajuste dos desequilíbrios continua essencial, embora seja imensamente difícil, porque a taxa de câmbio saiu de cena. Em vez do ajuste via cambial, há um ajuste via depressão e inadimplência. Uma união monetária com mercantilistas estruturais em seu núcleo agora ameaça provocar um declínio permanente em sua periferia. Resolver isso é a verdadeira cura. Será que pode ser feito? É o que me pergunto. (Tradução Sabino Ahumada)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT

Fluxo de investimento japonês no foco do BC

Valor 19/10
O Banco Central (BC) está atento a uma eventual saída de dinheiro de investidores japoneses de ativos denominados em real, em meio à piora do cenário econômico internacional. A dinâmica desses recursos pode ter influência direta sobre a evolução do câmbio local e, no mês de setembro, período em que a moeda americana sofreu forte valorização frente o real, sinais de retirada desses recursos chamaram a atenção da autoridade monetária.

A queda do patrimônio desses fundos, entretanto, tem a ver muito mais com a perda recente de valor dos ativos nos quais esse dinheiro está investido do que com saques líquidos de recursos, segundo explicou Tony Volpon, chefe de mercados emergentes para a América Latina da Nomura Securities, que esteve na semana passada em Brasília para falar com integrantes do BC. Segundo ele, o fluxo de dinheiro aos chamados fundo Toshin - fundos mútuos, em que os clientes podem ou não selecionar a moeda em que querem investir - "está no zero a zero, ou no mesmo patamar que de agosto deste ano, não há uma saída significativa de investimentos". O Nomura administra cerca de 60% dos fundos Toshin que existem no mercado.

Volpon explica que houve, sim, uma variação do estoque total do valor dos Toshin ligados ao real, que caiu de US$ 69,2 bilhões no final de agosto para US$ 56,7 bilhões no final de setembro. Mas, do total dessa variação, somente US$ 1,9 bilhão representa retirada de investimentos diretamente. O restante, explicou o especialista, foi provocado pela desvalorização de ativos e oscilação cambial. Durante o mês de setembro, parte dos ativos que compõem os fundos, especialmente os chamados "high yields", tiveram uma considerável perda de valor, em função da piora do ambiente externo que marcou o mês passado, provocando uma redução no total do patrimônio dos Toshin.

"Se o fundo valia 100 e teve 1 de saque, ficou com 99. Mas como os ativos tiveram perda de valor, foi para 90", simplificou ele. Dos US$ 90 bilhões do patrimônio dos investimentos vinculados ao real ou diretamente em ativos no Brasil, US$ 57 bilhões são feitos por meio de contratos derivativos que têm uma contraparte por aqui, e US$ 33 bilhões são em ativos que podem ser de renda fixa ou variável e títulos públicos ou corporativos, por exemplo.

A variação cambial observada no período, quando o dólar se valorizou 18,14%, teve algum impacto na redução dos valores. Os fundos precisaram fazer um ajuste de caixa para poder cumprir com contratos vinculados à variação cambial no final do mês, e tiveram inclusive de vender ativos para poder cobrir essa perda. Mas, na avaliação de Volpon, esse movimento não foi crucial para o desempenho do câmbio. "Todo começo de mês, os contratos que compõem o fundo são rolados para o mês seguinte, vinculados à cotação da moeda. Quando termina o mês, a diferença é paga, no caso de perda cambial, pelo fundo. Se o fundo não tem caixa, levanta ativos e paga. Mas não é caso dos Toshins do Nomura, que são geridos conservadoramente e que tinham caixa para pagar esse desembolso em função da perda da moeda", explica Volpon.

Os Toshin são compostos em grande parte por contratos a termo sem entrega física, chamados em inglês de non-deliverable forwards (NDFs). Um desmonte de posições compradas em reais contra o dólar nesse mercado não impactaria diretamente o mercado de câmbio à vista no Brasil, mas acabaria afetando o mercado de dólar futuro na BM&FBovespa, que contribui de forma determinante para a formação do preço do dólar no mercado interno. Assim, a ação mais firme do BC, intervindo com leilões de swap cambial e contendo a desvalorização do dólar, foi importante para interromper a espiral negativa dos Toshin observada em setembro.

"Ainda estamos longe de um patamar de retirada dos fundos atingido logo após a quebra do banco Lehman Brothers", diz Volpon. Ele explica que os Toshin denominados em real continuam a ser os preferidos entre os japoneses, e representam 57,6% do total entre aqueles que são vinculados a moedas estrangeiras. Em segundo lugar estão aqueles baseados em uma cesta de moedas de países exportadores de commodities (17,1%).

Mas ele reconhece que, diante do ambiente de cautela que começa a determinar as decisões de investimento, há um crescimento da demanda por ativos atrelados a outras moedas, principalmente ao dólar australiano, atualmente responsável por 9,4% do volume investido. Parte do dinheiro que saiu do real em setembro (US$ 1,9 bilhão) foi destinado ao dólar australiano, classificado com grau de investimento mais alto, e portanto, considerado menos arriscado em épocas de incerteza e forte volatilidade. Entre agosto e setembro esses fundos tiveram uma variação de estoque positiva em US$ 200 milhões, sendo que ao se excluir os fatores de volatilidade cambial, houve um aumento estimado de US$ 1,1 bilhão.

Os japoneses são tradicionais compradores da dívida externa brasileira, mas esses investimentos são feitos principalmente por outro tipo de fundo, chamados de Uridashi e que compram papéis em outras moedas que não o iene japonês.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Estrangeiro dá sinal de retomada da aposta na valorização do real


Valor 18/10

Os investidores estrangeiros retomam suas apostas na força do real. Essa preferência pode significar um novo ciclo de acumulação de posições vendidas em derivativos cambiais e dor de cabeça para o governo Dilma que prefere uma taxa de câmbio menos valorizada. De quinta-feira para sexta, os contratos em aberto na BM&FBovespa (em dólar futuro e cupom cambial ou juro em dólar) confirmam que esses investidores deixaram uma posição líquida comprada e assumiram a venda. Tecnicamente, portanto, os estrangeiros deixaram de investir na alta dos ativos referenciados em dólar para investir na queda desses ativos, o que significa apostar na desvalorização do dólar em relação ao real.

Os contratos em aberto são divulgados pela BM&F com um dia de atraso. Portanto, apenas nesta manhã o mercado será informado do comportamento dos investidores neste início de semana. Mas a cotação do dólar no fechamento dos negócios, ontem, em alta de 2,25% a R$ 1,769, abre a possibilidade de nova revisão de posição pelos estrangeiros. O fôlego do dólar também pode ter refletido apenas uma maior aversão a risco.

Ontem, o dólar interrompeu oito pregões de queda e parte da baixa de 8% acumulada em 10 dias, até a sexta-feira, foi revertida. Na sexta, a taxa de câmbio foi a menor em um mês, a R$ 1,73. No início de outubro, a cotação chegou a superar R$ 1,96, o que chamou o Banco Central (BC) ao mercado com swap cambial tradicional - equivalente à venda de dólares para liquidação futura.

Na sexta-feira, a posição líquida dos estrangeiros em derivativos cambiais era de US$ 226,2 milhões. Resultado de um saldo comprado de US$ 3,706 bilhões em dólar futuro e um estoque vendido de US$ 3,932 bilhões em cupom cambial ou juro em dólar.

Em julho, mês em que os estrangeiros acumularam posição vendida inédita de US$ 24,637 bilhões, o dólar chegou a cair a R$ 1,553 - menor cotação em mais de uma década. É certo que o comportamento do dólar aqui replicou uma tendência mundial. Mas o vigor do movimento doméstico coincidiu com a surpreendente decisão do Comitê de Política Monetária de cortar o juro básico em 0,50 ponto percentual, em 31 de agosto.

Em relatório distribuído em setembro, mês em que o dólar engrenava a alta, o departamento de estudos e pesquisas econômicas do Bradesco alertava que o desempenho da moeda refletiu certamente maior aversão ao risco, precipitada pelos problemas fiscais europeus, e também pelo corte da Selic, na virada de agosto para setembro.

"Essa data é um divisor de águas para o comportamento da taxa de câmbio", diz a equipe chefiada por Octavio de Barros, que questionava naquele momento por que, então, o corte de 0,50 ponto percentual na Selic fez tanta diferença? E, para esses economistas, a decisão do Copom "marcou uma certa flexibilização do regime de metas de inflação, sinalizando para um novo arcabouço de gestão macroeconômica no qual o crescimento econômico e o câmbio depreciado ganham primazia em relação à busca pelo centro da meta de inflação".

Agora, às vésperas da penúltima reunião do Copom de 2011 que tem início hoje, o dólar chama atenção. O mercado, de novo, não espera uma decisão surpreendente do comando do BC. Parcela majoritária do mercado prevê corte da taxa Selic de 0,50 ponto percentual, para 11,50% ao ano.

'Ortodoxo', Nogueira Batista defende disciplina fiscal


Valor 18/10

A competição entre os países no mercado internacional vai se intensificar com o agravamento da situação econômica mundial. E é importante o Brasil mudar seu mix de políticas, reduzindo gradualmente a taxa de juro e empurrando o câmbio no sentido de uma certa depreciação. Mas para que isso seja viável, o país precisa manter uma política fiscal muito disciplinada.

É o que afirma o diretor executivo do Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Junior, que frisou ser essa uma opinião pessoal. Reputado como um economista heterodoxo, Nogueira Batista pode surpreender agora defendendo um ajuste fiscal.

Mas ele diz que a realidade é essa mesmo. "A única forma de o Estado nacional ficar independente dos mercados é controlando seu déficit e sua dívida", afirmou, em entrevista ao Valor depois da reunião de ministros das Finanças do G-20, no fim de semana em Paris.

Ele explica proposta do Brasil para se aumentar recursos do FMI em algumas centenas de bilhões de dólares, a fim de sinalizar ao mercado a disposição internacional em socorrer países combalidos pela crise. A seguir, trechos da entrevista:

Valor: Dá para escapar de nova recessão global?

Paulo Nogueira Batista Júnior : O quadro hoje nos países desenvolvidos é de recessão, estagnação ou crescimento muito lento, com desemprego alto. E nos emergentes há uma desaceleração do crescimento, mesmo na China. Uma nova recessão mundial é possível, mas não é inevitável.

Valor: A China caminha para aterrissagem forçada?

Nogueira Batista : Há um risco. Mas há 20 anos que escuto falar de risco de aterrissagem forçada da China e não aconteceu. Há vulnerabilidades na China, sim, no sistema financeiro e parece haver bolhas importantes nos mercados imobiliários. Mas o que está aparecendo são sinais de uma certa desaceleração. E como há inflação mais alta do que havia há dois, três anos, é difícil imaginar que a China possa responder à desaceleração interna e mundial com um impulso tão forte como o que ela deu em 2008 como parte da reação à crise global. A China está numa posição forte e, comparado a países desenvolvidos, então, nem se fala. Mas também tem menos munição do que tinha em 2008-2009. A escassez da munição é muito mais nítida na Europa, nos EUA, mas também se nota no caso da China. O impacto [para o Brasil] depende do tipo e da extensão do problema chinês. Se for desaceleração muito forte, vai afetar commodities. A China é nosso maior parceiro comercial e nossas exportações são sobretudo de commodities.

Valor: O cenário se deteriora, mas o Ministério da Fazenda projeta crescimento maior, de 5% em 2012, no Brasil. Quais ajustes são necessários para isso?

Nogueira Batista : É importante que o Brasil tenha uma competitividade internacional mais forte. É bem vinda uma certa depreciação cambial, que começou a ocorrer com essa turbulência, desde que não seja muito rápida. A competição entre os países no mercado internacional vai se intensificar com o agravamento da situação mundial e vamos precisar de mecanismos eficazes de defesa contra concorrência desleal e subsídios abusivos. O Brasil já está caminhando nessa direção.

Valor: E no plano macro?

Nogueira Batista : No plano macro, é importante o Brasil mudar sua 'policy mix', reduzir gradualmente a taxa de juro que vai ajudar inclusive as finanças públicas e o câmbio, empurrar o câmbio no sentido de uma certa depreciação. Mas, para que isso seja viável, é importante manter uma política fiscal muito disciplinada. Muitas vezes se diz no Brasil e em outros lugares que ajuste fiscal é politica ortodoxa. Pode ser, quem quiser use esse adjetivo. Mas é importante que se entenda que a única forma de o Estado nacional ficar independente dos mercados é controlando seu déficit e sua dívida.

Valor: Isso é o que diz François Hollande, o candidato socialista a presidência da França, que é chamado de "esquerda mole".

Nogueira Batista Ah, é? Eu não sabia. Mas é a grande realidade. Se o Estado nacional tiver déficit alto, dívida alta, cai nas mãos dos mercados. É indispensável que o Estado tenha controle de suas contas para ter raio de manobra, para fazer políticas sociais, distributivas, de investimento e desenvolvimento. Se quiserem chamar isso de ortodoxo, chamem, mas o importante é isso. O que não é bom no Brasil é essa combinação de câmbio valorizado e juro alto. Isso deprime a atividade, reduz a competitividade da economia, onera as contas públicas, aumenta o déficit. Se conseguirmos caminhar na direção, como já estamos, de juros mais próximos da média mundial, política fiscal forte, com câmbio um pouco mais depreciado e políticas de defesa comercial e de competitividade internacional, o Brasil pode, sim, continuar crescendo apesar do cenário internacional difícil.

Valor: A guerra cambial pode se agravar?

Nogueira Batista : Estamos em plena guerra cambial. Você mora na Suíça, não? Se há seis meses alguém falasse que a Suíça adotaria teto para câmbio com o euro, ninguém acreditaria. Em todos os períodos de grande dificuldade econômica, desemprego alto, a tendência é aumentar a guerra cambial e a comercial. Estamos vivendo os dois fenômenos. Por isso é importante o Brasil ter política cambial competitiva e mecanismos de promoção da competição internacional do país.

Valor: O câmbio chegou a R$ 1,95 e voltou a R$ 1,75. É um nível bom?

Nogueira Batista : Não acho que se possa fixar meta para taxa de câmbio. Apenas se você observar o que aconteceu nos anos recentes, o real foi das moedas que mais se valorizou. Isso não foi bom para o Brasil. Só não se valorizou mais porque o Banco Central e o Ministério da Fazenda atuaram várias vezes para conter essa valorização, que mesmo assim continuou. E só agora, com a intensificação da crise na área do euro, houve reversão parcial.

Valor: Essa reversão pode continuar?

Nogueira Batista : Se houver uma tranquilização da situação na Europa, com uma cúpula europeia de 23 de outubro e a cúpula do G-20 de Cannes muito bem sucedidas, o cenário mais provável é de volta ao quadro anterior, em que o Brasil vai estar sofrendo de excesso de liquidez. Por quê? Porque todos os principais bancos centrais, inclusive o Banco Central Europeu, estão com políticas monetárias super expansionistas, provendo liquidez abundantemente, com taxas de juros muito baixas, negativas em termos reais. Se a crise aguda for debelada, provavelmente voltará o cenário de o real ser uma moeda atraente. Daí porque é importante uma redução gradativa do juro e manter política fiscal forte.

Valor: A Europa mapeou o que fazer para combater sua crise, mas falta decidir. No caso do sistema financeiro, a tendência é de grande contração dos bancos e do crédito?

Nogueira Batista : Pela avaliação que se tem, muitos bancos europeus precisam reforçar seu capital. Se os bancos resolverem responder a essa necessidade vendendo ativos, isso vai provocar contração do crédito e agravar o movimento recessivo que se desenha na Europa. E como a Europa tem importância ainda grande, embora declinante, haverá repercussão internacional. O que se quer é reforçar o capital e não levar os bancos a reduzir ativos. Se vários bancos simultaneamente reduzirem ativos, o efeito será forte.

Valor: Que impacto essa situação dos bancos europeus pode ter no Brasil?

Nogueira Batista : Fatalmente, uma crise na Europa tem efeito em partes do mundo, inclusive no Brasil, e no nosso caso o canal é financeiro. O Brasil tem que estar muito atento, e creio que está, para a situação das filiais de bancos estrangeiros no país, inclusive europeus. As autoridades de supervisão bancária têm que acompanhar muito bem esses bancos e acredito que estejam acompanhando com cuidado. Como a situação é muito tensa no mercado bancário internacional, e especialmente na Europa, isso é básico.

Valor: A proposta brasileira de reforçar a capacidade financeira do FMI é contestada agora por desenvolvidos. Qual a chance de a proposta decolar em Cannes?

Nogueira Batista : Essa ideia é defensável porque, num momento de crise grave, se os países mostram capacidade de atuação conjunta, é importante e os recursos podem inclusive nunca precisar ser usados. O Brasil passou por muitas crises e uma conclusão que os brasileiros tiraram foi de que numa crise, especialmente financeira, o governo tem que reagir de maneira além do que se espera para conter a crise. Até agora, os europeus têm feito o contrário. É necessário agir rápido. No caso do FMI, existem USS 400 bilhões [para empréstimos], talvez seja suficiente, mas numa situação tão vulnerável seria mais prudente criar uma linha de defesa adicional.

Valor: Os recursos adicionais para o FMI seriam da ordem de centenas de bilhões de dólares?

Nogueira Batista Sim, mas isso tudo tem que ser avaliado. É prematuro falar [em cifras], mas para ter efeito teria de ser um valor expressivo.

Homem e trabalho



Por Antonio Delfim Netto - Valor 18/10

A organização social em que vivemos é produto de um processo histórico. O homem, ao construir o mundo com seu trabalho, exerce uma pressão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão, o que exige cada vez maior eficácia produtiva. Há uma evolução simultânea, civilizatória e quase biológica, que amplia o altruísmo e a solidariedade social, exatamente porque a cooperação é mais "produtiva" e libera mais tempo para a expressão criativa do homem.

Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos "Manuscritos" de 1844, antes dele ter sido seduzido por Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta fora dele as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo.

No atual estágio evolutivo, a sociedade divide-se entre os que têm capital e "empregam" o trabalho em troca de salário, e os que detêm a força de trabalho e só podem utilizá-la "alugando-a" ao capital, em troca de salário. Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá, por sua vez, a garantia para o funcionamento das instituições da nossa organização social, particularmente os mercados e a propriedade privada.

Os economistas precisam incorporar, como disse Mauss ("Sociologie et Anthropologie", 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável do cidadão de incorporar-se à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global"! Não importam as filosofias ou as ideologias. No presente estágio evolutivo da organização social que o homem continua procurando para fazer florescer plenamente a sua humanidade, é a natureza e a qualidade do seu trabalho que o coloca na sua posição social e econômica, que afeta sua situação física e emocional e que determina o nível do seu bem-estar.

É com esse sentido do papel do trabalho, com o qual o homem se constrói e produz um mundo onde tenta acomodar-se numa estrutura social conveniente, que devemos entender os protestos dos "indignados com Wall Street", que se espalham por todo os EUA. Não se trata de "excluídos" sociais (talvez alguns deles o sejam), mas de cidadãos honestos, educados e que até bem pouco tempo tinham a oportunidade de ganhar a sua vida, sustentar a sua família, educar seus filhos, comprar sua casa, realizar, enfim, o "sonho americano", com o qual os EUA venderam o lago azul ao mundo.

É verdade que alguns deles já estão na terceira geração vivendo à custa dos outros, graças à miopia e inércia de um Estado do Bem-Estar distraído, o que faz a força do "Tea Party". Mas é verdade, também, que a renda média do americano não cresce desde 1996 e que a distribuição de renda tem piorado. Nada disso, entretanto, acendeu o fogo. O agente eficiente foi o nível de desemprego de quase 10% por tempo longo e que parece não ter fim. O agente eficiente foi a proteção ao sistema financeiro a cujos responsáveis o governo protegeu de forma abusiva e entregou a execução das hipotecas, à custa de 25 milhões que perderam a âncora social do emprego organizado.

"Ocupar Wall Street" é menos um protesto contra a economia de mercado e seus problemas, do que o profundo sentimento de injustiça social derivado da incapacidade do governo e do Banco Central, que permitiram, sob seus olhos complacentes, a destruição do emprego e do patrimônio de incautos cidadãos, assaltados livremente por um sistema financeiro desinibido com suas "inovações".

O efeito final desse movimento será medido nas eleições de novembro de 2012. A resposta imediata de Washington deve ser pequena a não ser, talvez, acender o espírito de urgência do Executivo e estimular a resistência dos republicanos para continuar a expô-lo como "responsável" pela crise. Mas o desconforto é enorme. O presidente Obama referiu-se a ele ligeira e quase temerosamente. O secretário do Tesouro Geithner empurrou a culpa para o sistema financeiro, que "aumentou as tarifas bancárias em resposta aos novos controles de Wall Street e aumentou a já existente irritação popular contra ele". E o presidente do Fed, Bernanke, com aquela figura de Papai Noel arrependido, limitou-se a afirmar que "as pessoas estão descontentes com o estado da economia. Elas reprovam - e não sem razão - o setor financeiro pela situação em que nos encontramos e estão descontentes com a resposta das autoridades". Que autoridades? Obama, Geithner e Bernanke!

Quando se trata de entender o verdadeiro papel do trabalho, os economistas do "mainstream" saem mal na foto: tratam-no como um "fator de produção", sujeito às leis da oferta e da procura. Por definição não há desemprego "involuntário". Como disse um economista que viria a ser nobelista, o desemprego em massa é apenas manifestação de "vagabundagem da classe trabalhadora".

Na mais recente versão do "The Palgrave Dictionary on Economics" (2008), não há uma entrada para "trabalho". Ela é dissolvida e desidratada em "disciplina do trabalho" e "economia do trabalho", com ênfase no "capital humano". Trata-se do mesmo artigo da 1ª edição (1987), ao qual se acrescentou o apêndice "As Novas Perspectivas da Economia do Trabalho". Tudo muito pobre, técnico, abstrato e sem história, como se a economia de mercado - codinome do atual capitalismo - estivesse escrito no Big-Bang e destinada a nos acompanhar até o fim dos tempos...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

China é o principal alvo na campanha eleitoral americana


Por Bob Davis | The Wall Street Journal

É impossível saber quem vencerá a disputa presidencial americana do ano que vem, mas já existe um perdedor bem claro: a China.

Um dos candidatos republicanos, Mitt Romney, vem colocando a China no centro da arena, acusando-a de "trapacear" e ameaçando fechar o mercado americano aos produtos chineses a menos que a China permita que sua moeda se valorize significativamente. O presidente Barack Obama atacou Pequim por "manipular o sistema de comércio exterior".

Na semana passada, o Senado americano aprovou, por maioria esmagadora, um projeto de lei para punir a China por sua política cambial, por meio de sanções comerciais. A menos que a liderança republicana na Câmara dos Deputados continue a bloquear uma votação, a lei provavelmente passará na Câmara por uma margem enorme, como ocorreu com um projeto de lei semelhante no ano passado.

Boa parte disso pode ser encarada como teatro, típico de um ano eleitoral. Todo presidente acaba descobrindo que os EUA têm opções limitadas para fazer com que a China, segunda maior economia do mundo e maior credor externo dos EUA, adote mudanças orientadas para o mercado. O truque é fazer com que Pequim perceba que a reforma é de seu interesse; ainda assim o ritmo da mudança é lento.

Mas as ameaças dos políticos, mesmo que não se tornem leis ou orientações políticas, têm consequências na China e podem sair pela culatra, de várias maneiras que os americanos talvez não compreendam. Pequim está perto da sua própria mudança de governo, a ocorrer em 2012, com os políticos de mais alto escalão manobrando para conseguir o poder. Não há eleições, mas a opinião pública importa. Ser visto como amigo dos EUA numa hora em que Washington ameaça castigar Pequim é um obstáculo para um político chinês - tanto quanto seria ter uma imagem de amigo da China para um candidato americano fazendo campanha em Cleveland.

Cheng Li, estudioso do Brookings Institution China, diz que as ameaças de Washington já prejudicaram um favorito dos EUA, o vice-premiê Wang Qishan, considerado com alguma chance de se tornar primeiro-ministro, o cargo número dois na China. Wang já afirmou que a China precisa depender mais do consumo interno e não das exportações - exatamente a posição dos EUA.

Uma reação contra as ameaças dos EUA poderia ajudar Bo Xilai, o nacionalista secretário do Partido Comunista em Xunquim. A cidade recentemente fechou 13 lojas da Wal-Mart por, supostamente, vender carne de porco com rótulo errado. Fechar um supermercado por uma infração tão comum é algo inusitado.

Ele busca uma vaga no Comitê Permanente do Politburo. "Vocês estão prejudicando autoridades que formulam a política econômica e têm fortes laços com os EUA", disse Li. "Isso os coloca em uma situação embaraçosa."

Romney, que assumiu a linha mais dura em relação à China entre os candidatos à presidência, diz que pressão dos EUA é crucial para fazer com que a China mude sua maneira de agir. Diz que vai acusar a China de "manipular" o câmbio por manter sua moeda subvalorizada e que vai atacar a importação de produtos chineses, impondo tarifas compensatórias. O projeto do Senado tem disposições semelhantes e é defendido por parlamentares como o democrata Charles Schumer, de Nova York.

Conseguir que os chineses aumentem o ritmo da apreciação de sua moeda pode estar além da capacidade de uma ação isolada dos EUA, pois o país perdeu prestígio internacional desde a recessão global de 2009. Pequim decidiu deixar a sua moeda flutuar em 2010, antes de uma cúpula do Grupo dos 20 em Toronto, em parte para evitar críticas nessa reunião por parte de muitos países, não só dos EUA.

No fim de semana passado, Washington usou outra sessão do G-20 para manter a pressão, e fará o mesmo na cúpula dos líderes do G-20 em novembro. Apenas conseguir que a China conserve seu ritmo mensal de 0,5% de apreciação já pode ser um desafio. Isso porque a China teme perder empregos se seu setor exportador desacelerar.

Fazer mudanças fundamentais é difícil tanto para os EUA como para a China. Desde pelo menos 2007, Pequim admite que precisa reestruturar a sua economia de modo a depender menos das exportações. No entanto, não conseguiu fazer muito a respeito devido à oposição de interesses poderosos, nesse caso de exportadores e governos locais. Da mesma forma, muitos legisladores americanos admitem há muito tempo que os custos da Previdência do país devem ser cortados, mas pouco foi feito devido aos grupos de interesse, nesse caso o lobby dos cidadãos mais idosos e dos planos de saúde.

Para compreender como a China enxerga a intimidação por parte de políticos americanos, imagine uma situação em que políticos chineses começassem a fazer ataques verbais, ameaçando vender os ativos em dólar da China a menos que os EUA pusessem ordem na sua situação fiscal. Será que essa atitude iria incentivar os americanos a fazer as mudanças ou a se aferrar às suas posições e fazer justamente o oposto?

Fome de comida e de estabilidade


Por José Graziano da Silva - Valor 17/10

Raras vezes o dia Mundial da Alimentação, data que remete à criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 16 de outubro de 1945, cercou-se de tantas incertezas. Os maiores níveis de volatilidade de preços agrícolas verificados nas últimas décadas e a velocidade das oscilações ameaçam produtores e consumidores.

Em movimento semelhante ao de outras commodities básicas, o Índice de Preços de Alimentos da FAO desenha curvas acentuadas desde 2006, quando uma subida contínua elevou os preços a um então nível recorde em meados de 2008. Os preços despencaram no segundo semestre, mas no ano seguinte recomeçou um movimento de alta que se acelerou em 2010 até chegar a um novo patamar histórico, onde nos encontramos agora.

Quando as cotações arremetem em direções opostas e com igual vigor, num curto espaço de tempo, é muito difícil não cometer erros de cálculo. Eles podem assumir contornos superlativos tanto no excesso da semeadura, quanto na insuficiência do investimento.

A volatilidade decorrente deforma em vez de lubrificar a acomodação entre oferta e demanda. Impede justamente que os mercados procedam à tarefa de condensar desequilíbrios em referências consensuais (preços) que encorajam o investimento e incrementam o consumo. Nesse ambiente de incertezas a fome ameaça invadir a casa de milhões de famílias que vivem na corda bamba, ora acima, ora abaixo da linha da pobreza.

Praticamente um em cada sete habitantes do planeta passa fome em pleno século XXI. Quase 80% da humanidade vive com menos de US$ 10 por dia. Para a parcela predominante do planeta, portanto, a face mais visível da crise são as oscilações abruptas nos preços da comida e ameaça da fome. A solução definitiva para esse problema passa por entendê-lo como uma das prioridades interligadas pela agenda da crise.

O mais recente relatório da FAO sobre a situação da fome no mundo (www.fao.org/publications/sofi/es/) aponta a retomada dos investimentos em agricultura e segurança alimentar nos países pobres e em desenvolvimento como um requisito para garantir o bem-estar de bilhões de pessoas num ambiente de preços altos e volatilidade persistente. Mais que uma insistência é um alerta. Desde o início dos anos 1980 a fatia da agricultura na ajuda internacional ao desenvolvimento registrou um retrocesso importante: de 17% para cerca de 5% do total, queda agravada pela redução dos investimentos dos próprios governos receptores de cooperação.

O equívoco dessas decisões pode ser mensurado no atual descompasso entre a oferta e a demanda. A produção cresce, mas a fome não diminui e os estoques globais seguem em níveis baixos. Em resumo, a promessa de abastecimento just in time pelos mercados não se confirmou.

Não há mágica que faça brotar os campos sem políticas afins. A agricultura necessita de investimentos para romper um descompasso que amplifica a fome e os equívocos neomalthusianos.

Embora o grosso dos recursos deva vir da esfera privada - que segue uma lógica própria cuja prioridade não é acabar com a fome - os Estados tem um papel importante a recuperar. A eles caberá investir em áreas onde a carência de alimentos é mais aguda, seja no apoio direto a pequenos produtores ou em bens públicos necessários ao desenvolvimento rural e ao bem estar de seus habitantes.

O estímulo à agricultura familiar e o resgate da alimentação tradicional são estratégias complementares em momentos de incerteza nos mercados mundiais. Elas reduzem a dependência em relação a mercados instáveis de commodities, geram renda e trabalho e propiciam uma saudável diversificação da dieta.

O complemento a esse estímulo produtivo é o fortalecimento das redes de proteção social, uma forma de alívio imediato às famílias vulneráveis que pode dinamizar os mercados locais. Onde há fome, invariavelmente há comunidades rurais exauridas economicamente, como a vegetação murcha de um campo sem água. Políticas de transferências de renda funcionam como chuva nesse solo seco, permitindo que volte a florescer.

Plantar, colher e consumir é o que faz girar a roda da economia em milhões de pequenos núcleos populacionais do planeta. Levado à escala nacional com crédito ao pequeno produtor, assistência técnica e aquisições de colheita - desde alimentos a sementes crioulas - esse motor ajudou o Brasil a superar a crise.

O foco na segurança alimentar, portanto, não é uma ilha dentro da crise, tampouco um alvo estático. Não visa apenas responder à urgência da fome, mas compor uma dinâmica feita de mercados locais e internacionais robustos, sistema financeiro regulado e ações coordenadas de governos em parcerias com a sociedade civil, a iniciativa privada e a cooperação internacional.

Na abrangência do desafio reside a sua força. Os interesses ecumênicos arrebanhados nessa agenda emprestam coerência social e produtiva à re-ordenação global requerida pela crise.

Um exemplo resume as energias locais potencialmente acionáveis nessa direção. Nos países pobres e em desenvolvimento as mulheres formam 43% da força de trabalho agrícola. Restrições de gênero no acesso ao crédito, à terra e a insumos reduzem a produtividade da lavoura sob controle feminino. Facilitar esse acesso poderia elevar a oferta em até 4%, tirando 100 a 150 milhões de pessoas da subnutrição.

O Prêmio Nobel acaba de reconhecer o papel decisivo da mulher na construção da paz. Está na hora de reconhecer, também, a sua relevância como arquiteta de um mundo feito de maior segurança e estabilidade, alimentar e financeira.

José Graziano da Silva é representante Regional da FAO para a América Latina e Caribe e diretor-geral eleito da Organização, cargo que assumirá em 1º de janeiro de 2012