segunda-feira, 1 de abril de 2013

Amar or bancos, odiar os banqueiros


Por Raghuram Rajan - Valor 01/04

O discurso público é raramente matizado. A atenção do público é breve e sutilezas tendem a confundi-lo. É melhor assumir uma posição clara, ainda que incorreta, pois, assim, ao menos a mensagem é transmitida. Quanto mais nítida e estridente for, mais provavelmente captará a atenção do público, mais será repercutida e dará contorno mais nítido ao debate.
Consideremos, por exemplo, o debate sobre regulamentação bancária. Os banqueiros são amplamente criticados. Contudo, a atividade bancária é também bastante hermética. Assim, qualquer crítico dotado de peso intelectual capaz de dissipar a cortina de fumaça que os banqueiros projetam em torno de suas atividades e conseguem retratar os banqueiros como, a um só tempo, incompetentes e mal intencionados, encontra uma plateia disponível. A proposta de que os bancos precisam ser reduzidos a uma dimensão apropriada tem grande repercussão.
Os banqueiros podem, naturalmente, ignorar seus críticos e a opinião pública, e usar seu dinheiro para exercer pressão nos lugares certos para conservar seus privilégios. Mas, de vez em quando, um banqueiro, cansado de ser retratado como um interesseiro antissocial, contra-ataca. Ele (geralmente homem) adverte o público para o fato de que uma regulamentação bancária até mesmo moderada produzirá o fim da civilização como a conhecemos. E assim a estridência continua - e a opinião pública continua ignorante.


Um exemplo mais específico é esclarecedor. Um número significativo de bancos operou em níveis muito elevados de alavancagem antes da recente crise, com taxas endividamento sobre o capital próprio de 30 para 1 (ou superiores), em alguns casos, e com grande parte da dívida vencendo em prazo muito curto. Pode-se razoavelmente concluir que os bancos operavam com muito pouco capital próprio e muito pouca segurança, e que uma reação regulamentar razoável seria exigir que os bancos fossem mais capitalizados.
Mas é nesse ponto que o consenso sai de cena. Os críticos querem que os bancos operem com alavancagem muito menor, especialmente no tocante a empréstimos de curto prazo; com efeito, alguns desejam que os bancos mantenham-se integralmente capitalizados para que o sistema torne-se seguro. Os banqueiros retrucam que precisam pagar um retorno maior sobre quaisquer ampliações adicionais de participação acionária que promovam, de modo que a emissão de mais dívida elevaria seu custo de capital, obrigando-os a elevar os juros cobrados nos empréstimos que concedem, o que reduziria a atividade econômica.
Nenhum dos campos está certo em seus argumentos públicos. Os banqueiros não parecem ter internalizado um axioma fundamental das finanças modernas: o risco emana dos ativos em poder de um banco. De acordo com o teorema de Modigliani-Miller, a combinação de dívida e capital próprio que o banco usa para financiar seus ativos não altera o custo médio de financiamento.
Se usar mais dívida "barata", seu capital próprio torna-se mais arriscado e mais caro, o que manterá os custos gerais de financiamento os mesmos. Se usar mais capital próprio, o capital resultará menos alavancado e menos arriscado, fazendo com que os investidores exijam retornos mais baixos para a ele se exporem, e, novamente, o custo financeiro total permanecerá o mesmo. Dito de outra forma, dado um conjunto de fluxos de caixa gerado pelos ativos de um banco, o valor da instituição não será afetado pela forma como esses fluxos de caixa são distribuídos entre os investidores, de modo que maior alavancagem não reduzirá o custo de financiamento do capital.
Se o argumento público dos banqueiros está incorreto (e eles devem estar conscientes disso), por que preferem tomar empréstimos de curto prazo, em vez de obter financiamento de capital a longo prazo? Os críticos diriam que é por causa do regime tributário preferencial admitido para quem assume dívida ou porque os bancos são grandes demais para que se permita sua falência.
Se o argumento público dos banqueiros está incorreto (e eles devem estar conscientes disso), por que preferem tomar empréstimos de curto prazo, em vez de obter financiamento de capital a longo prazo? Os críticos diriam que é por causa do regime tributário preferencial admitido para quem assume dívida ou porque os bancos são grandes demais para que se permita sua falência.
Mas esses argumentos não resistem a uma análise criteriosa. Se a isenção tributária do rendimento de juros tornasse a dívida atraente, então os banqueiros deveriam mostrar-se indiferentes à distinção entre dívida de longo prazo e dívida de curto prazo. No entanto, eles parecem preferir endividamento de curto prazo.
De modo similar, os bancos grande demais para que governos admitam suas falências não se preocupariam com o risco de colapso associado ao financiamento via endividamento. Mas, de novo, não é claro por que eles prefeririam endividamento de curto prazo. Afinal, se os banqueiros estivessem tentando se beneficiar, não seria o caso de emitirem dívida de longo prazo, para a qual o risco de inadimplência, e o ganho decorrente da garantia governamental implícita, é elevado? Além disso, por que os bancos pequenos, que não têm apoio implícito dos governos, também são tão alavancados?
Os argumentos dos críticos no que diz respeito às vantagens do (emprego de) capital próprio são igualmente insatisfatórios. Evidentemente, dado um conjunto de ativos de um banco, mais capital próprio reduziria o risco de colapso bancário. Mas um colapso nem sempre é algo ruim; um banqueiro que operasse um banco integralmente capitalizado, nunca sujeito à obrigação de honrar seus compromissos para com os investidores, teria maior probabilidade de assumir riscos injustificados. A necessidade de honrar ou rolar dívida impõe disciplina, criando, para os banqueiros, incentivos mais fortes no sentido de administrar os riscos com cuidado.
Quando o Washington Mutual faliu em 2008 após uma onda descontrolada de concessão de empréstimos (foi a maior falência de um banco na história americana), isso não ocorreu porque os acionistas decidiram fechar o banco, mas porque os correntistas deixaram de confiar nele. Quanto mais valor os gestores do Washington Mutual teriam destruído se o banco fosse integralmente capitalizado?
Em suma, trata-se de um dilema a ser balanceado. Demasiada dívida de curto prazo torna os bancos mais propensos a falir, ao passo que uma capitalização excessiva impõe muito pouca limitação à capacidade de os banqueiros destruírem valor. A verdade está em algum ponto intermediário entre as posições dos atuais críticos estridentes e dos banqueiros indignados, e essa pode ser a razão pela qual bancos moderadamente alavancados têm sido uma característica das economias ocidentais há mil anos. Não podemos permitir que nossa aversão aos banqueiros venha a destruir os bancos. (Tradução de Sergio Blum)

Raghuram Rajan é professor de Finanças na Booth School of Business, da Universidade de Chicago, e principal assessor econômico do Ministério das Finanças da Índia. É autor de "Fault lines: how hidden fractures still threaten the world economy" (Linhas de fratura: como falhas ocultas ainda ameaçam a economia mundial).



 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Chipre pelo cano


Valor 18/03

A União Europeia (UE) aprovou no sábado um plano de resgate de € 10 bilhões para o Chipre evitar a falência forçando os correntistas a pagar parte da fatura do socorro, em uma medida sem precedentes que terá impacto sobre os bancos na Europa.
Com um custo de recapitalização dos bancos cipriotas estimado entre € 10 bilhões e € 12 bilhões, ou 60% do PIB, a troica de credores (UE, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) forçou o governo da pequena ilha a obter metade do dinheiro a partir de um "bail-in" com os correntistas.
Ou seja, em vez do tradicional "bail-out" (socorro com dinheiro público), entra em cena parcialmente o "bail-in", pelo qual as autoridades forçam a recapitalização dos bancos com dinheiro privado, e não somente público.
Sob risco de declarar bancarrota, o governo de Nicos Anastasiades teve que aceitar a cobrança de um imposto de 9,9% sobre os depósitos acima de € 100 mil e de 6,75% sobre os depósitos abaixo desse valor. Todas as contas foram bloqueadas desde sábado, para a cobrança total de € 5,8 bilhões de impostos, até a reabertura do bancos na terça-feira. O governo ativou o primeiro "corralito" (bloqueio de depósitos), mesmo parcial, na Europa. A medida foi uma surpresa.
Analistas apontam várias razões para o tratamento de maneira diferente dado ao Chipre. Primeiro, o tamanho da necessidade de recapitalização dos bancos, equivalente a 60% do PIB, é bem acima daquela dos outros paises em crise, como Irlanda (40% do PIB), Grécia (27%) e Espanha (6,5%).
Alem disso, o governo cipriota estava de mãos amarradas. A dívida pública de 86% do PIB no fim de 2012 poderia explodir para 145% se o governo tentasse socorrer os bancos. Um corte na divida externa pública teria efeito pequeno. O jeito foi mesmo o "bail-in" sobre os correntistas.
Outra razão importante é que o hipertrofiado setor financeiro cipriota, com depósitos representando 380% do PIB, tem sido usado por gangues para lavagem de dinheiro, diante da enorme flexibilidade nas regras do país. Estima-se que 37% dos depósitos bancários no Chipre sejam de estrangeiros, principalmente russos, que perderão pelo menos € 2 bilhoes com a cobrança do imposto. A Alemanha e outros países do norte da Europa não tinham como aprovar nos seus parlamentos um plano de socorro que salvasse o dinheiro supostamente de máfia russa.
Para analistas do banco Barclays, os riscos de contágio de corrida aos bancos estão mais contidos do que em 2010-12, já que a Europa tem uma rede de proteção melhor. Os bancos da periferia estão melhor capitalizados, incluindo a Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda, todos submetidos a programas de ajuste da troica de credores. Segundo, o BCE tem fornecido muita liquidez no mercado e seu presidente, Mário Draghi, insiste que o banco está pronto a fazer o necessário para garantir estabilidade financeira na zona do euro.
Algumas reações são possíveis, especialmente na Itália e Espanha, em razão de riscos políticos, mas uma corrida bancária, mesmo na Grécia, poderia ser contida, acredita o analista Antonio Garcial Pascual. No entanto, o modelo do resgate adotado no sábado pode ter impacto futuro nos bancos europeus, com a posição crescentemente "agressiva" por parte de autoridades e reguladores, segundo analistas de bancos.
No começo de fevereiro, as autoridades holandesas nacionalizaram o banco SNS Reaal e deixaram de pagar os bonus subordinados, que não tem preferência no caso de calote. Uma semana depois, houve um avanço com perdas impostas a detentores de títulos sênior (que deveriam ser pagos normalmente) do banco irlandês Anglo Irish.
Agora, um novo um limite foi superado com a imposição de perdas sobre correntistas no Chipre, em um cenário de fragmentação dos seguros de depósitos na zona do euro. O sistema unificado de depósitos europeu é difícil de ser implementado, em razão da criação de enorme peso sobre os países participantes. Basta ver que há mais de € 7 trilhões de depósitos segurados em bancos europeus, dos quais € 1,7 trilhão em bancos da periferia.
O resgate do Chipre inclui um ajuste draconiano de 4,5% do PIB, com corte de despesas, alta de impostos, privatizações e nova lei contra a lavagem de dinheiro. O imposto sobre as empresas subirá de 10% para 12,5%, ainda um dos mais baixos da Europa.
O Chipre só representa 0,2% do PIB da zona do euro, mas os riscos sistêmicos nunca são pequenos. Autoridades espanholas foram as primeiras a insistir que o caso "não é extrapolável a nenhum outro país". O parlamento do Chipre adiou para hoje uma sessão de emergência para discutir a proposta de taxação dos depósitos.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Demografia (III): some uma Argentina

 

Por Fabio Giambiagi
 
Hoje temos o nosso terceiro encontro para compartilhar com os leitores alguns dos principais ensinamentos que aprendi lidando com temas demográficos ao longo de 20 anos.
Depois dos artigos sobre o caráter universal do processo de envelhecimento das sociedades e da descrição das mudanças do perfil demográfico do país ao longo das últimas décadas, o tema de hoje é o das revisões das projeções demográficas do IBGE. Cabe fazer aqui, mais uma vez, o comentário de que essa instituição é um dos ativos do país. Estamos todos acostumados a falar mal da qualidade dos serviços que o Estado brasileiro presta ao cidadão, mas é justo por outro lado reconhecer que o país possui algumas instituições de Estado com nível de excelência. Assim como, por exemplo, o sistema de metas de inflação do Banco Central angariou uma elevada reputação - ainda que algo prejudicada nos últimos anos -, a entrega do imposto de renda por internet não tem nada a invejar aos melhores sistemas do mundo ou a urna eletrônica da Justiça Eleitoral é motivo de orgulho, o nosso IBGE é uma instituição de eficiência reconhecida internacionalmente.
Por melhor que seja a qualidade do órgão, porém, ele não tem bola de cristal. Nesse sentido, as projeções populacionais (fundamentais para o planejamento de políticas públicas) que ele faz estão sujeitas a erros, em virtude da diferença entre as hipóteses adotadas e o comportamento dos parâmetros-chave dos modelos de projeção no dia a dia da vida real.
Em particular, uma variável que não pode ser prevista com exatidão é o comportamento da fecundidade. O IBGE tem pontos dessa trajetória no passado, informando o número de filhos de cada família nos censos demográficos e nas diversas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNADs) e, com base neles, projeta a trajetória futura da fecundidade, para estimar os novos nascimentos e consequentemente estimar a evolução da população. Pequenas diferenças, entretanto, projetadas quatro ou cinco décadas à frente, geram mudanças maiúsculas.
Nas minhas palestras sobre a temática previdenciária, costumo perguntar para a plateia qual foi, em perspectiva histórica sob a ótica brasileira, o acontecimento mais relevante observado em 2008. Invariavelmente, como é natural, todas as respostas referem-se à crise da economia internacional que eclodiu naquele ano. A rigor, porém, talvez aquela crise não terá alterado dramaticamente o potencial de crescimento futuro da economia, que se recuperou em 2010. Na verdade - e de longe - o acontecimento mais importante para a avaliação do potencial de crescimento futuro da economia brasileira nas próximas décadas foi a revisão populacional do IBGE feita em 2008 - e que passou em brancas nuvens. De fato, quando isso ocorreu, sumiram mais de 45 milhões de brasileiros. Mais do que uma Argentina - e isso não gerou uma única manchete de jornal!

A tabela mostra o que aconteceu. Ao incorporar, quatro anos depois da revisão da projeção populacional até 2050, revisão essa feita em 2004, os novos dados de fecundidade - muito inferiores aos previstos, fruto da velocidade das transformações nos costumes e da disseminação dos métodos de controle da população - o IBGE percebeu que estavam nascendo menos indivíduos do que se supunha originalmente. Observe-se na tabela que na revisão de 2008 não houve qualquer modificação em relação à estimativa da população idosa, cujo contingente continuou sendo o mesmo que na projeção feita quatro anos antes. A diferença foi que incorporou-se aos modelos o fato de que estavam nascendo menos bebês e que, em consequência disso, 20, 30 e 40 anos depois haveria fatalmente menos adultos que o número inicialmente previsto. No cômputo global, a população brasileira total prevista para o ano de 2050, que na projeção feita em 2004 imaginava-se que alcançaria 260 milhões de pessoas, foi recalculada, quatro anos depois, para apenas 215 milhões.
Nada terá sido mais importante para o futuro do Brasil no longo prazo do que essa novidade informada pelo IBGE e que foi solenemente ignorada por todos: imprensa, partidos políticos, opinião pública e governo. A imprensa estava mais ocupada com a crise daquele ano; os partidos com as eleições municipais de 2008; o público sempre tem algum BBB com que se distrair; e o governo... ora, o governo vai se preocupar com 2050? O problema para a comunidade da qual todos fazemos parte é: se não for o governo a se preocupar com o longo prazo, quem há de ser? Que futuro terá o país se, quando nossos filhos forem maiores de idade, houver menos adultos para sustentar os idosos? E ninguém toma nota do fato para planejar o Brasil de 2050.

Fabio Giambiagi, economista, coorganizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus),




 

 

Austeridade britânica é injustificável

 

Por Martin Wolf - Valor 13/03
 
O discurso de David Cameron na semana passada, sustentando "não haver alternativas" para a economia do Reino Unido, tem gerado muitas críticas. Isso é justificado. Os argumentos do primeiro-ministro britânico defendendo a manutenção do programa de austeridade fiscal do governo foram enormemente equivocados.
É fácil entender por que ele teve que defender a malsucedida linha mestra da política governamental. A coalizão que assumiu o poder embarcou num programa de austeridade com o orçamento de emergência de junho de 2010. A economia, então exibindo sinais de recuperação, depois estagnou. Até mesmo os resultados fiscais são insatisfatórios. Com efeito, de acordo com o mais recente Orçamento Verde do respeitado Instituto de Estudos Fiscais, as necessidades de financiamento dos gastos públicos neste ano fiscal poderão ser maiores do que no ano passado. Apenas um colapso da produtividade "salvou a pátria", ao manter o desemprego surpreendentemente baixo, amenizando o impacto social do desastroso PIB.
Como é possível defender esse histórico? Simon Wren-Lewis, da Universidade de Oxford e Jonathan Portes, do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social, entre outros, já demoliram as posições do primeiro-ministro. Aqui vão os pontos-chave.


Cameron argumenta que aqueles que pensam que o governo pode tomar mais emprestado "acham que existe uma árvore mágica que produz dinheiro. Bem, deixe-me dizer-lhes uma verdade simples: não existe". Isso está totalmente errado. Primeiro, existe uma árvore que dá dinheiro - denominada Banco da Inglaterra -, que criou 375 bilhões de libras para financiar suas compras de ativos. Em segundo lugar, como outras instituições solventes, os governos podem tomar empréstimos. Terceiro, os mercados consideram o governo solvente, uma vez que estão dispostos a emprestar ao governo às mais baixas taxas na história do Reino Unido. E, finalmente, os mercados estão fazendo isso devido aos excedentes financeiros estruturais existentes nos setores privado e externo.
De novo, Cameron observa que "o rebaixamento da pontuação de crédito no mês passado foi o mais gritante lembrete possível do problema de endividamento que enfrentamos". Não, não é - por três razões. Primeiro, a Moody's enfatizou que o grande problema, para o Reino Unido, é o lento crescimento econômico no médio prazo, agravado pela austeridade. Em segundo lugar, a pontuação de crédito de um país que não pode ficar em situação inadimplente em sua própria moeda pouco significa. Terceiro, a razão para acreditar que as taxas de juro de longo prazo vão subir é a expectativa de inflação alta e, portanto, de juros mais altos no curto prazo. Mas essa mudança virá na esteira de uma recuperação, o que tornaria a austeridade eficaz e oportuna.
Cameron também argumentou: "Como o independente Birô para Responsabilidade Orçamentária (BRO) deixou claro... o crescimento tem sido deprimido pela crise financeira... e pelos problemas na zona do euro... e por um aumento de 60% no preço do petróleo entre agosto de 2010 e abril de 2011." Isso provocou uma réplica de Robert Chote, diretor do BRO, que observou: "Cada previsão publicada pelo BRO desde o orçamento aprovado em junho de 2010 incorporou a premissa segundo a qual aumentos de impostos e cortes de gastos reduzem o crescimento econômico no curto prazo".

Pesquisadores sérios argumentam que o efeito multiplicador da austeridade fiscal pode ser muito maior do que o até agora assumido pelo BRO, pelo menos na atual situação deprimida. Além disso, mesmo que o BRO acredite que os resultados revelaram-se piores do que o previsto devido a choques adversos, e não devido à subestimação de multiplicadores, esse é um argumento em defesa de uma política ativa, e não contra ela.
O primeiro-ministro também disse: "[Os trabalhistas] acham que tomando mais empréstimos, milagrosamente acabariam tomando menos empréstimos... Sim, é realmente incrível assim". O que é realmente incrível é que Cameron não consiga entender que se uma entidade que gasta perto de metade do Produto Interno Bruto (PIB) aperta os cintos num momento em que o setor privado também está contendo seus gastos, o declínio na produção total pode ser tão grande que suas finanças acabarão ficando em condição pior do que quando teve início. Bradford DeLong, de Berkeley, e Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, mostraram que em uma economia deprimida o que Cameron considera incrível provavelmente será verdade.
Estudo recente do Fundo Monetário International (FMI) argumenta que "o aperto fiscal poderia elevar a proporção da dívida no curto prazo, ao mesmo tempo em que os ganhos fiscais são parcialmente zerados pela queda na produção". Portes acrescenta que, mesmo que isso não seja verdade para o Reino Unido, é provável que seja verdade para a Europa, já que quase todos os países estão apertando os cintos simultaneamente.
Cameron argumenta que "esse déficit não surgiu de repente, como resultado da crise financeira mundial. O déficit foi produzido por persistentes, imprudentes e insustentáveis gastos do governo e por endividamento durante muitos anos". Esse é o erro mais preocupante - não porque a política fiscal do Partido Trabalhista, então no poder, foi perfeita. Longe disso. A política fiscal deveria ter sido mais apertada. Mas essa não é a principal razão pela qual o Reino Unido tem um enorme déficit estrutural.
É a economia, estúpido. Em 2007, segundo o FMI, o endividamento líquido do Reino Unido - equivalente a 38% do PIB -, era o segundo mais baixo no G-7. Esses níveis também foram excepcionalmente baixos segundo os padrões históricos no Reino Unido. No orçamento de março de 2008, o Tesouro estimou o déficit estrutural (ciclicamente ajustado) sobre o orçamento corrente em menos 0,7% em 2007-08 e menos 0,5% em 2008-09. O colapso na produção foi responsável pela explosão nos déficits e no endividamento. Quase todo mundo subestimou a vulnerabilidade, entre eles a liderança do partido Conservador: antes da crise, os conservadores comprometeram-se em manter os planos que Cameron agora qualifica de "irresponsáveis e insustentáveis".
Alguns pensam que os gastos imprudentes explicam o salto nos gastos do governo, de 40,7% do PIB em 2007-08 para 47,4% dois anos depois. No entanto, entre 1996-97 (um ano antes de os trabalhistas assumirem o poder) e 2007-08 (o ano antes da crise), a participação dos gastos no PIB cresceu apenas 1,2%. Não: o colapso do PIB, em relação às expectativas, provocou o salto nos gastos e a queda na arrecadação, em relação ao PIB. O Orçamento Verde compara as previsões para 2012-13 incluídas no Orçamento de 2008 e na Declaração do Outono de 2012: o PIB nominal caiu 13,6%, as receitas caíram 17,6%, os gastos caíram 5,6% e o endividamento cresceu 372%. É porque o BRO (e outros) acreditam que a maior parte desse PIB perdido é permanente, que a posição parece tão sombria.
O argumento de Cameron contra uma flexibilização da política fiscal está errado. Mas, além disso, temos de considerar por que a economia revelou-se tão frágil e o reequilíbrio tão difícil. Isso fica para a próxima semana. (Tradução de Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT.



 
 

terça-feira, 12 de março de 2013

BC atua e dólar volta a superar R$ 1,95

 

Por José Sergio Osse e José de Castro | De São Paulo - Valor 12/03
 
O Banco Central fez ontem o que o mercado esperava para sexta e, com um leilão de swap cambial reverso sustentou a maior alta do dólar em quase três semanas. Recolocou, assim, a moeda acima da marca psicológica de R$ 1,95. A operação marcou a primeira intervenção da autoridade no câmbio em quase um mês. A moeda americana subiu 0,51%, para R$ 1,957, maior alta desde 20 de fevereiro.
O dólar chegou a abrir em queda, atingindo mínima de R$ 1,943, a mais baixa cotação diária desde 11 de maio de 2012. O BC então anunciou a oferta de 30 mil contratos de swap reverso, operação que funciona como uma compra futura de dólar, de US$ 1,5 bilhão. O mercado absorveu 20 mil contratos, o equivalente a US$ 999,7 milhões, sustentando a virada e a alta do dólar. A operação também eliminou as dúvidas do mercado quanto ao limite inferior daquela que seria a banda cambial informal do BC.
Tal questionamento ganhou força quando o BC não atuou mesmo após o dólar cair abaixo de R$ 1,95, na sexta, mesmo dia que o IPCA de fevereiro superou as expectativas de analistas.
"O leilão sacramenta que R$ 1,95 é mesmo o piso para o câmbio aos olhos do BC", disse Mario Battistel, gerente de câmbio da Fair Corretora. Segundo ele, porém, a tendência é que a moeda gradualmente volte a se aproximar do piso. "O câmbio só foi a R$ 1,963 [na máxima de ontem]
porque o BC tomou quase US$ 1 bilhão, mas a moeda deve se estabilizar um pouquinho para cima de R$ 1,95."
O cenário externo mais tranquilo e os embarques da safra recorde de soja, com aumento no número de contratações de câmbio por exportadores, serão suficientes para manter o câmbio perto de R$ 1,95 no curto prazo, na visão de alguns operadores. Para Battistel, o BC defenderá o piso no caso de baixas mais fortes, assim atuará caso a moeda se aproxime de R$ 2. Ele, porém, vê poucas chances num futuro próximo. "O BC irrigaria o mercado no caso de a moeda chegar perto disso, tudo para não pressionar ainda mais a inflação."
A recuperação do dólar ante o real viria apenas depois de uma alta nos juros, arma que o BC indicou ser a preferida para controle de preços. Embora teoricamente um aumento na Selic eleve a atratividade brasileira e, consequentemente, fortaleça o real, alguns profissionais acreditam que, para que isso ocorra, a Selic teria de subir muito mais do que o mercado vem projetando.
"Se o BC aumentar mesmo a Selic, o dólar pode se recuperar mais para perto de R$ 2, já que a função de controlar os preços ficaria mais restrita ao juro", disse o gerente de câmbio de um banco nacional. "Seria necessário um aumento muito alto [da Selic], no mínimo de dois pontos percentuais. E não se espera uma alta assim, pelo menos não agora."
Outros analistas, entretanto, arriscam afirmar que o objetivo do leilão de swaps de ontem não foi apenas defender o piso - reforçando a sinalização do governo de que o câmbio não é instrumento para controle de inflação. Para eles, a operação seria uma cortina de fumaça ofuscando o aumento na volatilidade que o governo tem promovido ao interferir no mercado para combater a inflação. Essa volatilidade seria um convite ao capital especulativo que, no limite, exigirá um controle ainda mais atento do BC sobre o câmbio.
O leilão do BC devolveu um pouco da volatilidade ao mercado, disse o gerente de câmbio da CGD Securities, Jayro Rezende. "Se o dólar continuasse perto de R$ 1,95, a volatilidade ia cair, o que derrubaria a liquidez", afirmou. "A atuação do BC, portanto, também serve para dar mais fluidez ao mercado."




 
 

Baixo crescimento e inflação elevada

 

Por Yoshiaki Nakano - Valor 12/03
 
A economia brasileira nos anos recentes passou por dois períodos distintos: de 2004 a 2010, com taxa de crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) de 4% e inflação média de 5,35% e de 2011 a 2012, com taxa de crescimento médio de 1,8% e inflação média de 6,14%.
O fato mais notável é que no segundo período a taxa de crescimento média caiu substancialmente, mas a taxa de inflação não cedeu, ao contrário, acelerou ligeiramente. Quais as causas desse fenômeno?
De 2004 a 2010, a economia brasileira acelera o crescimento impulsionado por dois choques exógenos. Inicialmente tivemos um "mini boom" de exportações de manufaturados, de 2002/2003 a 2005/2006, como resposta à desvalorização do real em janeiro de 1999, utilizando-se da significativa capacidade ociosa existente nesse período. Isso gera um forte impulso dinâmico na indústria, acelerando o crescimento do PIB, que por sua vez, gera significativa recuperação da demanda doméstica. Segundo, tivemos o choque dos preços das commodities em 2003/2004, que vem do mercado internacional. O terceiro elemento dinâmico, também a partir de 2004, vem da mudança estrutural no mercado de trabalho e da sua dinâmica, com a redução em termos absolutos da população jovem em busca de seu primeiro emprego. Os salários na base da pirâmide passam a aumentar, dando um novo dinamismo à demanda doméstica em recuperação, com a incorporação de milhões de trabalhadores ao mercado de consumo.


Neste primeiro período, a inflação é alta pelos padrões internacionais, mas permanece sob controle, pois a taxa de desemprego é elevada, cerca de 11,5%, em 2004. Ainda nesse período, a taxa de câmbio passa a apreciar sistematicamente, em função da elevada taxa de juros doméstica, contribuindo também para conter a inflação. A persistência da inflação se deve principalmente ao elevado grau de indexação ainda existente na economia.
Entretanto, ainda a partir de 2004 a taxa de câmbio passa a apreciar sistemática e excessivamente até meados de 2011. Isso provoca uma segunda onda de desindustrialização, com o valor adicionado da indústria de transformação perdendo participação no PIB, de 19,2%, em 2004, para apenas 13,3% em 2012. Nesse mesmo período, o setor de serviços avança de 63% do PIB para 68,5% do PIB, particularmente com o avanço da "Administração, saúde e educação publica" de 14,7% para 16,9% do PIB. Com a apreciação da taxa de câmbio não é mais a indústria de transformação que comanda o crescimento, mas o setor de serviços. Esse setor cresceu em média 4,5% ao ano, sendo que dois terços da sua expansão são pela absorção da força de trabalho e um terço pelo aumento da produtividade.
Essa mudança é profunda e estrutural. Sabemos que a taxa de câmbio é um preço relativo e que apreciada encarece relativamente os bens de serviços do setor de "non tradables", não sujeitos a competição das importações, que se tornam mais baratas com apreciação do câmbio. Por isso mesmo, reduz relativamente os preços de bens produzidos do setor de "tradables", sujeitos à competição externa. As empresas respondem a essa mudança nos preços relativos encolhendo, ou seja destruindo a capacidade produtiva no setor de "tradables" e transferindo recursos para o setor de "non tradables". Assim, enquanto o numero de trabalhadores empregados no setor de "tradables" caiu 2,1%, entre 2004 e 2009, no setor de "non tradables" aumentou 15,5%, no mesmo período. Investimentos produtivos são destruídos e a estrutura produtiva sofre mudanças de difícil reversão. Em outras palavras, um período prolongado de taxa de câmbio excessivamente apreciada, ao mudar a alocação de recursos provoca, na verdade, mudanças na estrutura produtiva e na sua dinâmica, portanto tanto do crescimento, como da inflação. A expansão do setor de "non tradables", especialmente serviços pessoais, puxados pela expansão dos salários, como vem ocorrendo no Brasil nos últimos anos, gera externalidades muito limitadas e se dá predominantemente com a absorção de mão de obra e pouca inovação tecnológica. O resultado é que a taxa potencial de crescimento da economia sofre redução. O próprio setor de serviços acaba perdendo dinamismo e reduziu sua taxa de crescimento de 4,5%, de 2004 a 2010, para 2,4% em 2011/2012.
Em relação à dinâmica da inflação, a apreciação cambial acaba provocando efeitos perversos. No curto prazo, a apreciação permite controlar a inflação, pois o setor de "tradables" (indústria de transformação) tem os preços contidos pela invasão de importados. Mas no médio prazo, ao alocar recursos produtivos no setor de "non tradables" (setor de serviços), num novo contexto em que aproximamos do pleno emprego, as pressões salariais e de outros custos são aceitas e são facilmente repassadas aos preços finais.
A inflação do setor de serviços tem estado num patamar de 9%. A pressão salarial e de custos dos serviços se tornam generalizadas e daí a aceleração na inflação. Lembremos também que a taxa de desemprego em dezembro de 2012 atingiu 4,6%, o nível mais baixo registrado pelas nossas estatísticas. Este é o quadro que vivemos atualmente: baixo crescimento, estagnação da produtividade e aceleração da inflação. Claramente a inflação tem um componente estrutural e não será a simples elevação da taxa de juros que removerá a sua causa mais profunda. Será preciso muito mais. Aceleração da inflação devido à pressão dos preços dos alimentos e dos combustíveis é passageira, mas a gerada pelo setor de serviços será persistente.

Yoshiaki Nakano, mestre e doutor em economia pela Cornell University. Professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP/FGV). Ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP).



 

Expectativas racionais: requiescat in pace

 

Por Antonio Delfim Netto - Valor 12/03
 
Na luta contra o processo inflacionário que se trava hoje no Brasil, além das causas físicas evidentes, que continuadamente desequilibram a evolução da oferta e da demanda globais, emerge - poderosa e de difícil controle - a "expectativa" da sociedade sobre o seu futuro. Uma vez estabelecida, induz o comportamento de todos os agentes econômicos a tentar anulá-la, antecipando a correção do seu poder de compra.
Desse desejo não se livra nem o governo, que indexa e antecipa os seus tributos. Consequentemente, a inflação de hoje depende, de alguma forma, da inflação de ontem, corrigida por fatores que tenham importante impacto sobre ela como, por exemplo, um aumento do desemprego produzido pela política econômica.
Não é de estranhar que todos os modelos da macroeconomia construídos depois de Keynes, em 1936, envolvam alguma forma de modelagem das expectativas. Na proposta original, elas estavam escondidas nas inexplicáveis variações do "espírito animal" dos empresários.
Em seguida, introduziu-se explicitamente a hipótese de que as expectativas eram adaptativas, o que gerava uma dinâmica com resultados medíocres. Era cada vez mais evidente que os economistas estavam diante de um conceito fugidio, que não sabiam como se formava.
A brilhante ideia de que a explicação da formação das expectativas deveria ser feita a partir da análise do comportamento do agente maximizante, que supostamente tinha completo conhecimento de si e de sua circunstância, descarrilou a macroeconomia.
O conceito de incerteza essencial de Keynes foi submetido, por John Muth (1961), a uma modelagem (que ele chamou "Rational Expectations"), onde se afirma: "As expectativas das empresas (ou, com maior generalidade, a distribuição subjetiva de probabilidade dos possíveis eventos) tendem a ser distribuídas, para o mesmo conjunto de informações, em torno da previsão da teoria (a probabilidade objetiva da distribuição dos eventos)".
A partir daí deu-se a melódia! Sem pedir licença, Robert Lucas (1972) aplicou a ideia à macroeconomia e dela deduziu a fantástica proposição de que a ação do governo não influenciava o comportamento dos agentes. Como praga, as "expectativas racionais" dominaram a imaginação da profissão, com suas teorias do "ciclo real", do "mercado perfeito" etc.
No fundo, a hipótese das "expectativas racionais" resume-se a uma absurda proposição que joga fora a criança com a água do banho:
1) o "modelo" usado pelos agentes para tomarem suas decisões e prever o futuro é o construído pelo economista (ou seja, por ele, Lucas!); 2) as expectativas dos agentes, portanto, serão realizadas. O problema da incerteza essencial teria sido inventado por mentes menores, como a de Keynes (e de Knight), mas não resistiu à genialidade de Lucas.
O grande idiota foi Karl Popper, que em 1990 (depois de 18 anos da descoberta de Lucas!) ainda insistia que "mesmo deixando de lado o fato de que não conhecemos o futuro, esse é, objetivamente, não fixado. O futuro é aberto: objetivamente aberto".
Além disso, como nos ensinou o grande Georgescu-Roegen (1971), é mais do que duvidoso utilizar as distribuições estatísticas (que podem valer para um mundo ergódico) nas áreas de ciências sociais.
Com os resultados obtidos pelos construtores da modelagem das "expectativas racionais" não há como deixar de concordar com Clower, que em 1989 disse: "A economia está tão distante de qualquer coisa que remotamente pareça o mundo real que é às vezes difícil para o próprio economista levá-la a sério".
Aliás, em 2008, o sólido Solow ("The State of Macroeconomics") perguntava o que justifica essa paixão dos economistas, que "desejam que tudo seja deduzido do egoísmo, da racionalidade e do equilíbrio, sem prós ou contras e sem exceções"... "senão que ela leva à recomendação do 'laissez-faire', que se ajusta como uma luva à virada política que se iniciou nos anos 70 e que pode, ou não, estar terminando agora?"
Aleluia! o recentíssimo livro editado por Roman Frydman e Edmund Phelps ("Rethinking Expectations", Princeton University Press, 2013) canta a separação da economia da esdrúxula doença da "expectativa racional", que a empobreceu e a retirou de caminho mais modesto e, provavelmente, mais frutífero. Trata-se de um verdadeiro réquiem para embalar o seu tardio desaparecimento.
Pela primeira vez, a nova modelagem, que vem sendo construída cuidadosamente pelo próprio Roman Frydman e Michael Goldberger, pelo nome de Imperfect Knowledge Economics (IKE), é exposta juntamente com outras alternativas da realidade em que vivemos, não do mundo imaginário.
Primeiro, a informação não é perfeita. É ajustada a cada nova observação e não tem nada a ver com modelos desenvolvidos pelos economistas. A hipótese de expectativas racionais (HER) supõe um modelo "verdadeiro", resultado do consenso entre economistas construído em torno de Lucas e sua tropa (Thomas Sargent, Finn Kydland, Edward Prescott e outros menores), que deve ser incorporado e obedecido pelos agentes.
Segundo, o papel da "calibragem" será minimizado. Terceiro, o modelo admite que há no mundo especuladores, inovadores e é aberto à emergência. Nele, os agentes formam suas expectativas com base em informações imperfeitas.
Assim, está morta a ideia de que todos conhecem o modelo e que suas informações vêm da única e infalível teoria do mundo (a HRE). Requiescat in pace.
Não esqueçamos que a absurda HER continua bem viva nos modelos da maioria dos nossos economistas. É por isso que devemos tomá-los cum grano salis...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.




 
 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Guardiãs da vida e da terra

 

Por José Graziano da Silva - Valor 08/03
 
Em todo o mundo, mas especialmente nas regiões mais pobres do planeta, as mulheres personificam a força da vida que se renova diariamente no desmentido da fatalidade.
Vencer a fome para milhões de mulheres que compõe 43% da força de trabalho agrícola nos países em desenvolvimento, por exemplo, não é uma meta distante, mas uma incumbência da rotina cotidiana.
As mulheres são como voluntárias anônimas dessa que é a guerra mais devastadora e, paradoxalmente, a de mais fácil solução em nosso tempo: superar a privação alimentar que atinge um em cada oito habitantes do planeta, cerca de 870 milhões de seres humanos.
Todos os anos, adverte a Organização Mundial da Saúde (OMS), a fome sozinha mata mais que doenças como a Aids, a malária e a tuberculose juntas.
Nos países em desenvolvimento, 30% da mortalidade infantil nos primeiros cinco anos de vida tem sua origem na desnutrição.
Depende em grande parte das mãos femininas o escrutínio diário entre o alimento e a mesa nua, em milhões de lares em todo o planeta.
Cabe aos governos e instituições de cooperação internacional dar-lhes um empoderamento correspondente a esse protagonismo. Municiando-as das ferramentas, dos direitos, das políticas e dos recursos necessários à eficácia de uma vigília incansável. Insubstituível.


Desde a gestação, a mulher é a grande sentinela na linha de frente da luta pela justiça social. Os primeiros mil dias na vida de uma criança, entre a gravidez e os dois anos de idade, marcarão para sempre o seu desenvolvimento.
Podem significar a diferença para mais ou para menos na contabilidade sombria que hoje acumula o saldo de 2,5 milhões de crianças mortas todos os anos, enredadas numa teia de fome e privações.
Nenhum programa sério de combate à pobreza e à desigualdade será bem sucedido se não incorporar como seu aliado quem figura como o primeiro abrigo da segurança alimentar em qualquer sociedade: a mulher.
Do ventre ao leite materno, dele à primeira fruta, da primeira porção de cereal à primeira refeição completa e dela às milhares seguintes, a nutrição humana conecta-se à oferta da natureza e às restrições da sociedade mediada pelo longo e generoso cordão umbilical do zelo feminino.
Revestir a mesa da família de algum alimento, ali onde a oferta é escassa, cara e muitas vezes improvável, requer frequentemente a extensão desse instinto materno no manejo da terra, adicionado de uma intimidade carnal com o ciclo da natureza e do alimento.
No gigantesco continente africano, fronteira onde se trava a principal batalha contra a fome no século XXI, cerca de 240 milhões de pessoas formam a maior proporção de famintos do mundo, equivalente a 23% da população regional.
É no espaço rural, onde vivem 60% dos africanos, que a luta contra a tragédia assume contornos decisivos. As mulheres chefiam uma em cada quatro lares rurais na África. Na porção sul do continente, essa participação sobe a 45%.
Guerras e conflitos éticos, migrações e colapsos ambientais exacerbaram a sua presença e o seu peso na força de trabalho agrícola nos últimos anos. No Norte da África ela saltou de 30% para 43%, desde 1980. Tornou-se majoritária em alguns países, caso do Lesoto, onde corresponde a mais de 65% dos que trabalham a terra.


O aumento das responsabilidades das mulheres significa uma dupla, às vezes uma tripla jornada - no campo, na família e na comunidade. Esses compromissos adicionais nem sempre são reconhecidos, valorizados e compartilhados com os homens e frequentemente torna-se uma trava no empoderamento da mulher nas sociedades.
No chão africano, como em outras terras distantes do globo, o dia feminino nasce junto ao fogo e amanhece com os pés na roça.
A mão que semeia é a mesma que rastreia a coleta da primeira refeição e se desdobra no amparo matinal à infância, no cuidado com os animais.
Muitas vezes, é essa mesma mão que traz a novidade para dentro de casa. A produção de um queijo, um artesanato, a introdução de uma nova semente, a reprodução de um caprino, a coleta do mel - reforços preciosos de um orçamento magro e uma dieta premida pela única certeza que reveste esse universo esquecido: a inconstância do alimento.
É imperioso resguardar esse lastro da vida, sobretudo nas regiões mais pobres, onde a infância e a adolescência femininas estão sendo capturadas precocemente pelo redemoinho da sobrevivência.
Mais de 61 milhões de meninas com idade entre cinco e 14 anos trabalham na agricultura atualmente, lembra a OIT.
Paradoxalmente, em todas as latitudes, são as mulheres que amargam um acesso mais restrito à propriedade jurídica da terra, que por extensão afeta seu direito ao crédito e aos insumos necessários à maximização de um esforço superlativo na cadeia comunitária.
A equiparação desses direitos e acessos, de modo a fechar o hiato de gênero na agricultura das nações mais vulneráveis, figura como uma das mais importantes políticas de segurança alimentar a serem implementadas por governos e instituições voltadas à cooperação internacional.
Não só contra a fome.
Sobretudo nas condições difíceis da luta pela sobrevivência em países pobres e em desenvolvimento, as mulheres frequentemente são quem impelem sociedades à busca da paz, cooperação, da segurança e da solidariedade.

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)




 
 

Petrobras segue patinando


Fonte ANP

A produção de petróleo foi de 2.054 mil barris por dia em janeiro, com redução de 7,9% na comparação com o mesmo mês do ano passado, e de 2,4% em relação ao mês anterior. A produção total de petróleo e gás natural no Brasil foi de aproximadamente 2.531 mil barris de óleo equivalente por dia, sendo 2.054 mil barris diários de petróleo e 75,9 milhões de metros cúbicos de gás por dia.
A queda na produção de petróleo foi motivada, principalmente, pela interrupção do sistema de produção antecipada nos campos de Baúna e Piracaba para implantação do sistema definitivo e pelo fim do teste de longa duração do antigo bloco C-M-401, atuais campos de Tartaruga Mestiça e Tartaruga Verde.
A produção do pré-sal foi de aproximadamente 320 mil barris de óleo equivalente por dia, com média diária de 264 mil barris de óleo e 8,9 milhões de metros cúbicos de gás. Contribuiu para este resultado o início da produção no campo de Sapinhoá, que teve vazão média diária de 11,6 mil barris de petróleo e 427,1 mil metros cúbicos de gás natural.
Com a publicação da medida provisória 592/2012 houve alterações no critério para definição de poços produtores que operam no pré-sal e contabilizados pelo boletim mensal da produção. A partir deste mês foram incluídos quatro poços no campo de Linguado, três no de Pampo e um no de Trilha, além dos quinze que já entravam incluídos nos campos de Baleia Azul, Caratinga, Barracuda, Jubarte, Lula e Marlim Leste.
A produção nacional de petróleo e gás natural no mês de janeiro de 2013 foi oriunda de 313 concessões, das quais 81 marítimas e 231 terrestres, operadas por 25 empresas. Os campos operados pela Petrobras respondem por 93,8% do total. Campos marítimos foram responsáveis por 91,3% da produção de petróleo e 77,1% da produção de gás natural do Brasil. O campo de Marlim Sul, na bacia de Campos, foi o de maior produção de petróleo e o segundo maior produtor de gás natural, com uma média de 342,6 mil barris de óleo equivalente por dia. O campo com maior produção de gás natural foi Manati, na bacia de Camamu, com uma média de 6,6 milhões de metros cúbicos diários.
Mais de nove mil poços foram responsáveis pela produção brasileira de petróleo e gás em janeiro, sendo 776 marítimos e 8.294 terrestres. O campo com o maior número de poços produtores foi o de Carmópolis, na bacia de Sergipe, com 1.113 poços. A plataforma com maior produção foi a P-56, localizada no campo de Marlim Sul, que produziu aproximadamente 142,7 mil barris de óleo equivalente por dia através de oito poços a ela interligados.

terça-feira, 5 de março de 2013

China reduz dependência em grãos


Valor 05/03

Apesar da escassez de terra e água e da falta de escala de produção de suas fazendas, a agricultura da China tem conseguido, à notável exceção da soja, fazer frente à explosão da demanda por alimentos no país nos últimos anos - fato até certo ponto obscurecido pelo apetite importador do gigante asiático.
De acordo com os últimos dados do Bureau Nacional de Estatísticas da China, a produção local de grãos aumentou quase 120 milhões de toneladas ao longo da última década, para mais de 571 milhões de toneladas.
Desse modo, as importações chinesas de cereais e farinhas mais relevantes ficaram pouco abaixo de 5 milhões de toneladas em 2011, segundo o Bureau chinês - pouco acima das 3,5 milhões de toneladas registradas em 2001, mas abaixo das 9,7 milhões de 2004.
Mesmo com o expressivo aumento do consumo doméstico nos últimos anos, o país tem se mantido capaz de produzir praticamente todo o arroz, trigo, milho e a carne suína que consome, além de ser um exportador líquido de carne de frango.
Conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os chineses produziram, nas últimas três safras, uma média de 464,7 milhões de toneladas apenas de arroz, milho, trigo e soja. Trata-se de um crescimento de quase 113 milhões de toneladas na comparação com o resultado médio obtido nas três primeiras safras dos anos 2000.
Só a produção de milho aumentou em 77,5 milhões de toneladas na mesma base de comparação, para 192,7 milhões de toneladas - na última safra, foram 208 milhões. Significa dizer que, em uma década, os chineses acrescentaram à sua produção uma colheita de milho equivalente à do Brasil nesta safra 2012/13. Trata-se de uma expansão comparável apenas à que os Estados Unidos, maior produtor mundial dessa commodity, promoveram para fazer frente à sua demanda por etanol.
Com isso, a produção chinesa tem se mantido relativamente equilibrada em relação ao consumo doméstico, que nas últimas três temporadas foi de 192,5 milhões de toneladas, em média. E, ainda que as importações tenham crescido - de praticamente zero, no início dos anos 2000, para 2,9 milhões na média dos últimos três anos -, o déficit entre a produção e o consumo vem diminuindo desde a temporada 2001/02, quando atingiu 7,5 milhões de toneladas.
Progressos semelhantes são observados nas culturas do arroz e do trigo. Desde o início da década passada, os arrozais chineses ampliaram em 14,5 milhões de toneladas a sua produção, para 140,2 milhões na média das últimas três safras, enquanto o consumo cresceu apenas 4,6 milhões, para 139 milhões. Com isso, os chineses praticamente zeraram o déficit de produção do cereal, que chegou a quase 9 milhões de toneladas, em média, entre 2001/02 e 2002/03.


Já a produção de trigo cresceu em 22,6 milhões de toneladas na comparação, para 117,73 milhões de toneladas, reduzindo o déficit em relação ao consumo de 13,2 milhões para apenas 1 milhão de toneladas na média dos últimos três anos.
De modo geral, a principal fonte de crescimento da produção foram os ganhos de produtividade - na média, o rendimento das lavouras de cereais cresceu 20%, ou mil quilos por hectare desde o início da última década, para 5,7 mil quilos por hectare.
O aumento reflete o maior acesso dos agricultores à tecnologia. Desde 2001, a força empregada por máquinas agrícolas no campo cresceu 85%, para 977,3 milhões de quilowatts, segundo dados oficiais, e o parque de tratores considerados médios e grandes mais do que quintuplicou, para 4,4 milhões de unidades. No período, o uso de fertilizantes químicos, que recebem pesados subsídios, cresceu quase 40% e a área de irrigação, 14,6%.
Os ganhos de produtividade permitiram que a China ampliasse o cultivo de milho em 10 milhões de hectares, ocupando áreas antes semeadas com arroz, trigo e soja. Contudo, a área total dedicada ao plantio de cereais ficou praticamente estável na última década, em pouco mais de 110 milhões de hectares.
O governo chinês tem batido na tecla de modernizar a agricultura a fim de garantir o abastecimento de commodities consideradas essenciais - o tema foi um dos destaques do último plano quinquenal, publicado em 2011.
Entre 2007 e 2011, o gasto dos governos central e regionais para apoiar a agricultura cresceu 193% entre 2007 e 2011, de US$ 54,4 bilhões para US$ 159,6 bilhões anuais - desde o início da década passada, o orçamento se multiplicou por mais de cinco vezes. "Há um grande volume de capital empregado pelo Estado para se aumentar a mecanização das lavouras, a compra de fertilizantes e o acesso a sementes", disse ao Valor Daron Hoffman, diretor de pesquisa do Rabobank, em Xangai.
A prioridade absoluta do Partido Comunista é garantir a autossuficiência em milho. Em artigo publicado em maio do ano passado no Diário do Povo (o jornal oficial do Partido Comunista) o ministro da Agricultura, Han Changfu, afirmou que, "na estratégia chinesa de segurança alimentar, o milho precisa ocupar uma posição proeminente" e que o país precisa "evitar resolutamente que o milho chinês se transforme em uma segunda soja".
Changfu se refere a um fato que os brasileiros conhecem bem. Em pouco mais de uma década, a demanda chinesa por soja explodiu - de pouco mais de 28 milhões de toneladas para além de 70 milhões -, mas a produção encolheu, o que transformou a China na principal peça do tabuleiro do comércio mundial da commodity. Só nesta safra 2012/13, o país deverá desembarcar 63 milhões de toneladas do grão em seus portos, quase cinco vezes mais do que há uma década. Em 2011, os chineses desembolsaram quase US$ 30 bilhões para pagar essa conta.
O milho é vital para que a China assegure o crescimento sustentável de sua criação de suínos - desde 2001, a produção de carne suína cresceu em mais de 10 milhões de toneladas, para 50,5 milhões em 2011. Como as necessidades de consumo da China respondem por mais da metade do comércio mundial da commodity, conclui Changfu, "as importações não resolvem o problema da nossa demanda crescente".
Para Changfu, a demanda por milho é particularmente sensível ao aumento da renda em países de renda intermediária, como é o caso da China, por causa do incremento do consumo de proteínas animais. Entre 1965 e 2000, exemplifica, o uso do grão como ração animal cresceu, em média, 1,6% ao ano nos Estados Unidos, mas 4,1% no Japão. Em 2010, o consumo chinês de carnes, ovos, leite e peixes havia crescido 23%, 18,5%, 105%, e 31,8% em relação a 2003.
Finalmente, o ministro chinês aposta no potencial de crescimento da produtividade da commodity naquele país. "Na China, o milho é o produto cuja demanda mais cresce, mas também aquele com maior potencial para aumento de produtividade".
O rendimento do milho na China é, na média, apenas a 21º do mundo, segundo ele. Em 2011, os chineses colheram 5,8 mil quilos de milho por hectare, ainda distante dos mais de 9 mil nas lavouras dos Estados Unidos. Mesmo dentro do país, as diferenças ainda são expressivas. Na Província de Shandong, a produtividade média é de 6.540 quilos por hectare, 990 quilos maior do que na Província de Henan ou, ainda, 2.430 quilos maior do que em Anhui.
Segundo Changfu, a China pode ampliar em mais de 750 quilos por hectare a produtividade média do milho apenas ampliando-se a densidade das lavouras, ainda baixa em relação aos países desenvolvidos. O ministro afirma ainda que o país pode ampliar a área de milho em aproximadamente 10% até 2020.




 

China passa EUA como maior importador de petróleo

 

Por Javier Blas | Financial Times, de Londres

A China superou os Estados Unidos como maior importador líquido de petróleo do mundo, numa mudança que vai sacudir a geopolítica dos recursos naturais. As importações líquidas de petróleo dos Estados Unidos caíram para 5,98 milhões de barris por dia em dezembro, o menor nível desde fevereiro de 1992, segundo números provisórios da Administração de Informações Energéticas dos EUA. No mesmo mês, as importações líquidas de petróleo da China aumentaram para 6,12 milhões de barris/dia, segundo a alfândega chinesa.
Os EUA têm sido o maior importador líquido de petróleo do mundo desde a década de 1970, o que moldou a política externa da Washington em relação a países ricos em petróleo como a Arábia Saudita e o Iraque.
Com a China superando os EUA como o maior importador líquido do mundo, Pequim enfrentará pressões para que assuma mais responsabilidades na manutenção da segurança das principais rotas de transporte do mundo. A China já adotou uma política externa mais assertiva em relação ao petróleo em países como Sudão, Angola e Iraque, onde companhias estatais chinesas vêm investindo bilhões de dólares.
"Os EUA estão dando passos largos rumo à independência energética", diz Eric G. Lee, um analista de commodities do Citigroup que foi o primeiro a informar a mudança.
Os números de dezembro são sempre voláteis por razões fiscais de fim de ano, mas analistas e operadores afirmam que a mudança se manterá. Os números incluem petróleo bruto e produtos refinados de petróleo, como o diesel e o querosene.
Neste ano, a Marinha americana vai reduzir o número de porta-aviões em operação no estreito de Hormuz, que liga o golfo Pérsico aos mercados internacionais de petróleo.
A produção doméstica de petróleo dos Estados Unidos está crescendo muito devido à revolução do xisto, o que está reduzindo a necessidade de importação de petróleo bruto. Grandes companhias de petróleo e refinarias americanas, como a ExxonMobil e a Philips 66, também estão exportando quantidades recorde de produtos de petróleo para atender a grande demanda por petróleo, diesel e querosene na América Latina e África, e reduzindo as importações líquidas de petróleo do país.
A produção de petróleo dos Estados Unidos aumentou em mais de 800 mil barris/dia no ano passado. A expansão permitiu ao país reduzir sua dependência da Organização dos Países Produtos de Petróleo (Opep), o cartel internacional do petróleo. Mas a redução tem sido desigual, com a Arábia Saudita, Kuwait e outros países do Oriente Médio sofrendo relativamente pouco com a redução da demanda dos EUA, em comparação aos produtores africanos.
A troca de posição entre a China e os EUA acontece no momento em que a Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que os países emergentes irão, pela primeira vez, consumir mais petróleo que as nações industrializadas. Sediada em Paris, a AIE estima que os países que não fazem parta da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) irão consumir 44,9 milhões de barris de petróleo por dia no próximo trimestre, em comparação a 44,7 milhões de barris/dia dos países que fazem parte da OCDE.
Os EUA continuam sendo o maior importador líquido de petróleo do mundo em uma base anual, mas a margem sobre a China diminuiu significativamente nos últimos cinco anos. As compras líquidas de petróleo bruto e produtos refinados no exterior caíram para 7,14 milhões de barris por dia no ano passado, o menor nível em 20 anos, enquanto que as importações líquidas dos chineses chegaram a 5,72 milhões de barris/dia.



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Existe vida fora da Selic


Por Antonio Delfim Netto - Valor 05/03

As recentes manifestações do Federal Open Market Committee (Fomc), do Fed americano, e do Monetary Political Committee (MPC), do Bank of England (BE), dão uma ideia clara das precárias condições em que se encontra o que se supunha ser a "ciência monetária".

Ao tentar indicar o caminho para ultrapassar a gravíssima crise em que o mundo vive desde a quebra do Lehman Brothers, eles mostram que estamos em território econômico absolutamente desconhecido. Sua exploração deve ser feita aperfeiçoando os instrumentos construídos nos últimos 250 anos, com a coragem e a honestidade que faltaram à profissão quando ela desenvolveu "teorias" que justificavam, "a posteriori", as patifarias que estavam sendo construídas no alegre incesto entre o poder político incumbente e os sistemas financeiros dos países.

A prova da proposição é simples: os poupadores que entregaram seus recursos a administradores ficaram pobres e desempregados. Os administradores ficaram trilionários e não precisam de emprego! Tudo graças à teoria "científica" que os mercados deixados a si mesmos eram "perfeitos, moralmente administrados e seguramente autorregulados".

A profissão precisa de uma grande pajelança para livrar-se da cegueira, não apenas dos que ainda agora insistem em aceitar tal "teoria", como outros, que, com o mesmo nível de ingenuidade, acreditam que o poder incumbente deixado a si mesmo é naturalmente benevolente, onisciente, e sujeito ao imperativo categórico da absoluta impessoalidade e honestidade...

Na última reunião, o Fomc decidiu "manter o intervalo do 'federal funds' (a taxa básica americana) entre 0 a 1/4% e antecipar que este nível excepcionalmente baixo da taxa básica será apropriado enquanto a taxa de desemprego permanecer acima de 6,5%, a taxa de inflação esperada nos próximos um ou dois anos não seja 1/2% superior à qual estamos comprometidos como objetivo de longo prazo (2%) e a expectativa de inflação continuar bem ancorada". Lembremos que o Fed se propôs, há dois meses, a executar uma política de "quantitative easing" (QE3) indefinidamente, enquanto um dos elementos do par (6,5% para o desemprego ou a taxa de inflação ultrapasse 2,5%) não for atingido.

Pois bem, agora tudo parece mudado, como revela a discussão na última ata do Fomc, onde lemos: "Muitos participantes (alguns são não votantes) enfatizaram que o comitê deve estar preparado para variar a velocidade da compra dos ativos (a operação QE3), seja em resposta à mudança das perspectivas econômicas, seja pela avaliação da eficácia e custos que ela envolve. Outro insistiu que as compras devem ser incrementais de reunião a reunião, em resposta às novas informações sobre a economia. Outros, ainda, argumentaram que as avaliações de eficácia e custos podem levar o comitê a reduzir o QE3, mesmo antes que ocorra uma melhoria no mercado de trabalho. Outros lembraram que o custo potencial de suspender ou reduzir a compra de ativos pode ser muito alto, e que ela deve continuar até que uma mudança substancial no mercado de trabalho tenha ocorrido".

Fica evidente que a decisão do Fomc foi apenas uma solução de compromisso, sem apoio factual ou forte convicção teórica. Honestamente, é pouco provável que, com o conhecimento dessa ata, o "mercado" saiba o que o Fed quer e que coordene as "expectativas" dos agentes na direção desejada. O "mercado" precisa de instruções claras e explícitas: o que Fed quer é menor taxa de desemprego, maior crescimento e um pouco mais de inflação! Então, porque não dizer isso claramente e deixar o "mercado" apostar nesse resultado? O mesmo sentimento de confusão e incerteza deriva da ata do MPC, do Bank of England, de fevereiro.

O governador do BE, Mervyn King, e mais dois membros do MPC sugeriram aumentar o "quantitative easing" inglês, mesmo diante do fato de que a taxa de inflação excede largamente a "meta" oficial, e as expectativas inflacionárias dos próximos dois anos excedem a meta de 2%. Foram vencidos. Os seis votos vencedores no MPC recusaram o aumento da taxa de juros, mesmo diante do preocupante aumento da taxa de inflação. Uma explicação plausível para o comportamento do MPC é que o próprio Bank of England espera a posse do seu futuro presidente, Mark Carney (ex-presidente do Bank of Canada), que tem manifestado a intenção de experimentar a variante da política monetária que tem por objeto o PIB nominal.

Não passou despercebido para os analistas mais cuidadosos que a proposta de King e seus companheiros implicava, de fato, aceitar que um aumento do "quantitative easing" produziria um efeito mais forte no nível de atividade que no nível de inflação, uma hipótese que nega o monetarismo. Na proposta, eles afirmaram que o aumento do QE "poderia ajudar no processo de rebalancear a economia e evitar a destruição da capacidade produtiva e o aumento do desemprego". Isso acendeu a luz vermelha dos mais céticos. Para esses, a expressão "rebalancear a economia" é apenas a forma elegante e diplomática de dizer que o QE deve trabalhar na direção de desvalorizar a libra e aumentar a exportação. Esse objetivo já fora explicitado por King no seu discurso em Belfast, no dia 22 de janeiro. Diante de tanta confusão "científica", é preciso recomendar humildade aos nossos sacerdotes adoradores da religião do "tripé", que supõem que não existe vida fora da manipulação da taxa Selic.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O triste histórico da austeridade fiscal

 

 
Por Martin Wolf - Valor 27/02
 
Na cúpula em Toronto que reuniu o grupo das 20 principais economias em junho de 2010, os países de alta renda abraçaram a austeridade fiscal. As crises de dívida soberana na Grécia, Irlanda e Portugal foram uma das razões para isso. As autoridades econômicas ficaram apavoradas com a possibilidade de seus países se transformarem numa Grécia. O comunicado do G-20 foi específico: "As economias avançadas comprometeram-se com planos fiscais que vão reduzir pelo menos à metade os déficits até 2013 e estabilizar ou reduzir as proporções da dívida pública em relação ao PIB em torno de 2016". Terá isso sido necessário e sábio? Não.

A zona do euro esteve no centro da crise da dívida soberana que assustou o mundo. Um aperto fiscal rápido foi considerado essencial para governos em dificuldades. Essa visão, por sua vez, convenceu aqueles que ainda não estavam sujeitos à pressão do mercado a impor um aperto preventivo. Essa foi em larga medida a posição do governo de coalizão no Reino Unido. A ideia de que a Grécia tinha virado a esquina ganhou força também nos EUA, especialmente entre os republicanos. A batalha, hoje, em torno do "sequestro", é em parte um produto dessa preocupação.
Um importante e, na minha opinião, persuasivo defensor de um ponto de vista contrário é o economista belga Paul de Grauwe, atualmente na London School of Economics. Ele vem argumentando que as crises da dívida dos países da zona euro resultaram de falhas na política do Banco Central Europeu (BCE). Por causa de sua recusa em agir como emprestador de última instância aos governos, eles sofreram um risco de liquidez- os custos dos empréstimos subiram porque os compradores de títulos não sabiam se teriam condições de revender os papéis com facilidade a qualquer momento. Isso, e não insolvência, era o perigo imediato.
Hoje, argumenta o professor de Grauwe num estudo em que é coautor, a decisão, em princípio, do BCE, de comprar dívida dos governos em dificuldades, por meio das chamadas "transações monetárias imediatas" (OMT, sigla em inglês), permite que testemos sua hipótese. Ele observa que o principal determinante da redução dos spreads em relação aos bunds alemães a partir do segundo trimestre de 2012, quando a OMT foi anunciada, foi o spread inicial. Em suma, "o declínio dos spreads foi mais forte nos países onde o fator medo tinha sido mais intenso".
Que papel desempenharam os fundamentos? Afinal, ninguém duvida de que alguns países, especialmente a Grécia, tiveram e têm uma terrível posição fiscal. Um desses fundamentos é a mudança na proporção entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB). O estudo coloca três observações importantes. Primeiro, a proporção da dívida em relação ao PIB aumentou em todos os países, mesmo após o anúncio do BCE. Segundo, a mudança nessa relação acabou por ser um bom indicador do declínio nos spreads. Finalmente, os spreads determinaram a austeridade assumida pelos países. Paul Krugman acrescenta uma observação a mais: a austeridade foi cara demais para as economias atingidas: quanto maior o aperto entre 2009 e 2012, segundo o Fundo Monetário Internacional, maior a queda na produção.

Caso adotasse a OMT antes, o BCE poderia ter evitado o pânico que criou os spreads que justificaram a austeridade. O BCE não o fez. Dezenas de milhões de pessoas estão sofrendo privações desnecessárias. É trágico.
Ainda assim, posso distinguir dois argumentos para justificar o comportamento do BCE. O primeiro é que ajuda só poderia vir como contrapartida a uma disposição comprovada de assumir a austeridade. Em segundo lugar, como observa corretamente o mais recente relatório do Grupo Consultivo Econômico Europeu, os problemas reais foram a desestabilização dos fluxos de capital, os desequilíbrios externos e o agravamento da competitividade, e não os déficits fiscais. Mas pode-se justificar a austeridade fiscal, por brutal que seja, como a única forma de forçar os ajustes de custos relativos e as reformas necessárias no mercado de trabalho. Meu colega Wolfgang Münchau argumenta que o oposto é verdadeiro. Mas eu me pergunto se a zona do euro sobreviverá a sua cura. Os países do núcleo do euro seriam mais beneficiados se dessem aos mais fracos mais tempo para se ajustarem.


Países fora da zona euro têm estado em uma posição muito diferente. Eles não tinham necessidade de temer os crescentes spreads dos membros da zona euro porque não enfrentavam problemas de liquidez semelhantes. Em primeira aproximação, o rendimento dos títulos soberanos do Reino Unido ou dos Estados Unidos deveriam refletir as taxas de juros futuras esperadas para o curto prazo, com um prêmio de risco pequeno, uma vez que um default total é inconcebível. A visão amplamente difundida de que os rendimentos poderiam disparar é uma aposta num aumento da inflação.
O pânico que justificou a adoção de um programa de austeridade de longo prazo pelo governo de coalizão do Reino Unido foi um erro. Seus membros nunca tinham ouvido falar do paradoxo da poupança? Se os setores privados nacionais e externos estão contendo gastos, o setor público não pode esperar obter sucesso em fazê-lo, por mais que se empenhe em tentar, a menos que queira empurrar a economia para uma recessão muito maior. Embora fatores de curto prazo tenham desempenhado um papel real, não é de estranhar que a recuperação do Reino Unido tenha perdido sustentação e que o déficit seja tão persistente. E, consequentemente, também não surpreende que rebaixamentos de pontuação de crédito estejam a caminho, embora estes não digam algo muito útil, no caso de um emitente com acesso à sua máquina de impressão de dinheiro próprio.
Como observa Simon Wren Lewis, da Universidade de Oxford, "após o fim do pânico de 2010, quando se tornou claro que a crise da dívida foi realmente uma crise da zona euro e os juros de longo prazo no Reino Unido caíram com a melhoria da economia, deveríamos ter promovido uma grande mudança de política".

Em que deveria ter consistido essa mudança de política? A resposta é simples. Primeiro, muita atenção deve ser dada à razão pela qual o setor empresarial não financeiro do Reino Unido está incorrendo no que parecem ser superávits financeiros estruturais, como aponta a assessoria econômica londrina Smithers & Co. Segundo, a austeridade em gastos correntes precisa ser tornada explicitamente dependente da economia: maior quando a economia cresce mais rápido e menor quando a economia cresce mais devagar. Terceiro, todos os esforços devem ser empreendidos no sentido de acelerar as reformas estruturais que possam fomentar maior investimento por parte do setor privado. Em quarto lugar, o setor bancário precisa abrir o jogo sobre seus prejuízos e aceitar a necessária recapitalização, para que comece a emprestar novamente. Finalmente, o governo precisa se dar conta de que os juros atuais proporcionam uma oportunidade--que ocorre uma vez na vida--de realizar maior investimento público.
No longo prazo, o déficit fiscal precisa ser fechado. No curto prazo, o Reino Unido tem a chance de fomentar o crescimento. Deveria aproveitá-la. Assim como os EUA. (Tradução de Sergio Blum)

Martin Wolf é editor de economia e principal comentarista econômico do FT



 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Minério de ferro - Índia restringe exportações e preços sobem

 

Por James Crabtree e Jack Farchy | Financial Times, de Mumbai e Londres

"Não devo ajudar um vizinho distante à custa daquele que está mais perto." Esta expressão usada frequentemente por Mahatma Gandhi, o líder nacionalista indiano, descreve muito bem a situação em que se encontra a poderosa indústria do minério de ferro da Índia.
Uma série de restrições à produção e aumento das tarifas de exportação - estabelecidas para ajudar as siderúrgicas locais - levou as exportações de minério de ferro da Índia à beira do colapso. O país, que até recentemente era o terceiro maior exportador mundial da commodity usada na siderurgia, perdendo apenas para a Austrália e o Brasil, corre o risco de ter de importar grandes quantidades de minério de ferro pela primeira vez em décadas.
A crise do minério de ferro vai bem mais além da Índia. Por ser a principal matéria-prima na produção de aço, o minério de ferro é crucial para a economia mundial e muito importante para a lucratividade de duas das maiores indústrias pesadas do mundo: a mineradora e a siderúrgica.


Com a interrupção do fornecimento pela Índia, os preços mundiais dispararam para US$ 155 a tonelada, aumento de mais de 75% desde setembro. A alta inflou os lucros de companhias brasileiras como Vale, Rio Tinto, BHP Billiton e Fortescue.
"O preço hoje está US$ 40 maior do que estaria [com o fornecimento indiano]", diz Jim Lennon, diretor da área de análises de commodities da Macquerie em Londres, que acredita que os preços continuarão subindo este ano.
"Sem dúvida, é um impacto significativo... Enquanto a Índia perde mais de US$ 10 bilhões em sua balança comercial ao não exportar, outros produtores de minério de ferro estão colhendo muitos frutos inesperados", diz Lennon.
O impacto é exatamente o oposto na indústria siderúrgica: os produtores domésticos indianos estão com um fornecimento abundante e preços um pouco menores. Mas companhias internacionais como a chinesa Baosteel, a Nippon Steel do Japão e a ThyssenKrupp da Alemanha estão pagando mais pela mesma matéria-prima.
Após atingir o pico de 119 milhões de toneladas em 2009, as exportações indianas começaram a cair depois que alegações de que a mineração ilegal estava disseminada no país resultaram no fechamento de minas no maior estado minerador, Karnataka, e na implementação de restrições em outras partes ricas em recursos, como as regiões central e oriental da Índia.
No fim do ano passado, o fluxo praticamente parou, com a Índia embarcando apenas 1,4 milhão de toneladas nos três meses até dezembro - geralmente um período de pico de vendas para a China -, depois de uma segunda proibição total no estado litorâneo de Goa.
As restrições provocaram uma reação violenta das mineradoras que tiveram operações desativadas. A Sesa Goa, o braço de minério de ferro da Vedanta Resources, uma companhia do bilionário Anil Agarwal listada na Bolsa de Valores de Londres, disse que agora está tentando abrir novos depósitos na África.
No começo do mês, PK Mukherjee, diretor-gerente do grupo, confirmou os planos de um investimento de até US$ 2,62 bilhões em um projeto na Libéria, como parte de uma tentativa de revitalização de sua deficitária divisão mineradora.
"Este é um período de crise para todas as companhias mineradoras de Goa, incluindo a Sesa Goa, e como somos os maiores, o problema é muito grande", disse ele ao "Financial Times". "Precisamos garantir um crescimento sustentável no futuro, por isso precisamos olhar para a Índia e para fora...Na Libéria, nossa experiência até agora tem sido fantástica."
A Sesa Goa não é a única companhia indiana que está de olho no mercado externo. "Muitos em Karnataka fizeram as malas, pegaram suas pás, e estão agora na Malásia ou no Marrocos", diz um comerciante europeu de minério de ferro, que prefere não se identificar.
A crise do minério de ferro na Índia também serve de alerta aos perigos do nacionalismo aplicado aos recursos naturais, uma vez que países como a Indonésia já consideram fazer o mesmo que a Índia e restringir suas exportações. A mais recente - as restrições impostas pelo governo indiano - surgiu no começo do ano passado, quando os impostos foram aumentados para 30%.
Desde então, as exportações indianas caíram acentuadamente, mas a produção doméstica também vem caindo, o que significa que as companhias siderúrgicas sem acesso a minas de minério de ferro também estão sendo forçadas a buscar a commodity fora do país. As chances de uma retomada da oferta estão agora nas mãos do sistema judiciário indiano, notório por sua morosidade e que autorizou a limitação da mineração em Karnataka no começo do ano passado e agora também vai rever o prosseguimento das restrições em Goa.
Mas há outras ameaças, mesmo que a atividade tenha uma lenta retomada nessas áreas. Elas incluem a exigência, por outros estados mineradores, de impostos sobre lucros inesperados, e o problema mais básico da corrupção.
"Por que a produção de minério de ferro da Índia foi tão alta por tanto tempo? Porque grande parte dela era flagrantemente ilegal", diz Sasha Riser-Kositsky, analista da consultoria de risco da Eurasia Group.
"Na verdade é muito difícil ser uma mineradora em grande escala na Índia e ter toda a papelada em ordem... a experiência toda mostra que há uma dificuldade fundamental de se fazer negócios lá."
Poucos analistas esperam uma recuperação para este ano, mas alguns estão pelo menos otimistas com uma eventual reação. "Nossa visão é de que a Índia vai enfrentar os desafios do momento e encontrar uma solução", diz um executivo graduado de uma companhia de comércio exterior.
Mas outros temem que o tombo do minério de ferro na Índia possa ser permanente. "Pelo que entendemos, as coisas não vão mudar no curto prazo", diz outro executivo de uma grande negociadora de minério de ferro. As exportações continuarão próximas de zero por pelo menos três a quatro anos, possivelmente pela próxima década, diz o executivo.
De qualquer maneira, pelo menos no curto prazo a indústria do minério de ferro da Índia enfrenta um futuro tórrido.



 
 

Trilhos, para que?


Antonio Pastori, Presidente da AFPF

A CSN-Cia Siderúrgica Nacional, deixou de produzir trilhos em meados dos anos 1980 (a década perdida). Os investimentos em ferrovias foram paralisados pelo Governo federal que detinha o controle da malha ferroviária e da CSN.

Com isso, a Indústria ferroviária nacional que produzia locomotivas, carros de passageiros, vagões e trilhos e materiais diversos, definhou....

Hoje, devido ao aquecimento do setor podemos afirmar - grosso modo - , que a produção em TKUs dobrou nos últimos 15 anos, quando foi inciada a "privatização" da malha, penso que seria interessante para o Brasil voltar a produzir trilhos, ao invés de importá-los, lembrando que em sua maioria os trilhos são produzidos no exterior com o nosso minério de ferro!

Contudo as Siderúrgicas (Gerdau e CSN) alegam que ainda não existe escala para tal. O governo não tem força para obrigá-las a produzir e o BNDES ainda não entrou fundo nessa discussão.

Falta de trilhos vai retardar construção de ferrovias
Valor 26/02

As obras de ferrovias da Valec, que já acumulam um grau de execução sofrível, estão prestes a encarar uma situação ainda pior. Dessa vez, a paralisia total que atinge a estatal federal responsável pela construção de dois grandes projetos de ferrovias do país é resultado de uma realidade dramática: os trilhos da Valec simplesmente acabaram.
Não há, neste momento, uma barra de aço sequer disponível em estoque para fixar sobre os dormentes. Para complicar de vez o cenário, as duas licitações que a Valec acaba de realizar para compra de milhares de toneladas de trilhos foram suspensas, sem previsão de retomada.
A Valec está à frente da construção de um trecho de 600 km da Ferrovia Norte-Sul, que ligará as cidades de Ouro Verde (GO) e Estrela D'Oeste, em São Paulo. Além disso, tem a missão de construir mil km da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), entre os municípios de Ilhéus, no litoral baiano, e Barreiras, no sertão do Estado. Atualmente, os poucos metros de trilhos que a estatal ainda possui estão sendo instalados em pátios logísticos na região de Anápolis, no Estado de Goiás. E só.
A situação crítica foi confirmada ao Valor pelo presidente da Valec, Josias Sampaio Cavalcante, que assumiu o comando da empresa no fim do ano passado. "Realmente estamos em uma sinuca de bico. Precisamos resolver isso o mais rápido possível. Sem trilho, não tem obra. É um momento difícil."
Apesar de todo o movimento provocado no setor ferroviário pelo governo, que promete conceder 10 mil de quilômetros de malhas novas neste ano, o Brasil não tem e nenhuma fábrica de trilhos. Apesar de ser o maior exportador de minério de ferro do planeta, passa pelo constrangimento de ter que importar 100% desse material. A raiz dos problemas enfrentados pela Valec está nos editais que elaborou para buscar os trilhos fora do país.
Em janeiro, a Valec realizou uma licitação internacional para compra de 95,4 mil toneladas de trilhos para a Norte-Sul. Um único consórcio - formado pela empresa brasileira PNG Brasil Produtos Siderúrgicos e a chinesa Pangang Group - apresentou proposta, vencendo o leilão com a oferta de R$ 320 milhões. O Tribunal de Contas da União (TCU), no entanto, emitiu uma medida cautelar, que suspendeu a licitação. Para o tribunal, há indícios de que o edital restringiu a competição de demais empresas, entre outros problemas técnicos. Tanto a Valec quanto a PNG apresentaram explicações ao tribunal, mas a liminar acabou mantida, para que as avaliações sejam aprofundadas.
A decisão do TCU acabou se refletindo na segunda licitação que a Valec fez na semana passada. O objetivo era comprar 147 mil toneladas de trilhos para serem instalados na Fiol. O pregão da ferrovia baiana foi realizado e a proposta vencedora foi de R$ 477,2 milhões. Novamente, porém, apenas a PNG e a Pangang apareceram para disputar a licitação. Como o edital era praticamente o mesmo daquele utilizado na Norte-Sul, a Valec decidiu, por conta própria, suspender essa segunda compra, até que o mérito do processo seja julgado pelo TCU.
"Temos a humildade de reconhecer quando erramos. Estamos dispostos a alterar o que for preciso para levar as concorrências adiante. Vamos defender nosso ponto de vista sobre os editais, mas não temos compromissos com o erro", disse Cavalcanti. "Se o TCU entende que o edital restringiu a competitividade, eu mudo o edital. Se ele entende que eu não posso contratar com tal empresa, nós cancelamos a licitação e realizamos outra. O que não posso é ficar sem os trilhos", afirmou o presidente da Valec.
Uma série de reuniões com empreiteiras foi realizada no mês passado pelo ministro dos Transportes, Paulo Passos, ao lado de Cavalcanti. O governo selou um "pacto" com as construtoras que executam as obras da Norte-Sul e da Fiol. As construtoras garantiram, na ocasião, que fariam esforço redobrado para retomar o cronograma das duas ferrovias, as quais já acumulam anos de atraso. Agora, o pedido deve ser exatamente o inverso: retardem as operações, porque os trilhos sumiram.
Cavalcanti diz que, no momento, já há quilômetros de dormentes de concreto que já foram lançados no traçado das ferrovias, mas não há barras de aço para pôr em cima deles. "Temos que parar com isso. Não faz sentido sair lançando mais dormente", diz. O presidente da Valec admite que a empresa já está revendo o texto do edital. Se as compras dos trilhos não estivessem suspensas, a Valec receberia as barras de aço só daqui a três meses, o que já comprometeria o cronograma.
Agora, na possibilidade mais otimista - que significa a deliberação imediata do caso pelo TCU e a realização de novas licitações - os trilhos só chegariam no fim do ano. Isso, claro, se a empresa que venceu as duas propostas não decidir recorrer à Justiça.

Organizar a guerra cambial

 

Por Antonio Delfim Netto - Valor 26/02

A confusão na reunião dos G-20 a respeito da guerra cambial tem um significado importante para o Brasil. Todos lembram que há mais de dois anos, quando o ministro Guido Mantega falou no assunto, foi objeto de jocosas observações internas e externas. Segundo seus críticos mais ferozes, tratava-se de um ente metafísico inventado pela retórica extravagante de uma autoridade monetária do mundo subdesenvolvido para justificar políticas heterodoxas.

A resposta inicial do G-20 à ideia que existe um bem disfarçado processo de desvalorização competitiva, que inclui os Estados Unidos, a Comunidade Econômica Europeia, a China e outros países, para protegerem o seu crescimento, foi esta joia de cinismo:

"Reiteramos nosso compromisso de agir rapidamente na direção de um sistema de taxas cambiais flexíveis determinadas pelo mercado, que reflitam os seus fundamentais, evitem desalinhamentos persistentes e não estimulem uma desvalorização competitiva entre as moedas".

Uma proposição firmada sobre a ilusão que o sistema econômico se auto-organiza pelo funcionamento do sistema de preços. Essa, sim, é uma proposição metafísica, que, positivamente, não tem nada a ver com a experiência histórica do mundo em que vivemos. Foi repetida, aliás, na recente reunião do G-7:

"Reafirmamos que nossas políticas fiscal e monetária têm sido, e continuarão a ser, orientadas no sentido de cumprir nossos respectivos objetivos nacionais com instrumentos domésticos, e que não terão como alvo as taxa de câmbio".
Sutil afirmação diplomática para reconhecer o óbvio. As taxas de câmbio não são o alvo: são meras consequências "não intencionais" do uso dos instrumentos domésticos! Afirmação aprovada pelo FMI, que esqueceu seu objetivo fundamental: controlar os desequilíbrios externos. O auge do cinismo foi aceitar a desvalorização japonesa. Aliás, Taro Aso, ministro de Finanças do Japão, afirmou: "De acordo com algumas opiniões, nossas medidas contra a desaceleração econômica provocada pela deflação visam alterar nossa taxa de câmbio, o que não é verdade".

Mas, afinal, quem disse na recente campanha eleitoral que esse era o objetivo para elevar as exportações e o crescimento econômico do Japão? Quem pressionou o banco central japonês para elevar a meta inflacionária e desvalorizar o iene? As "tais opiniões", às quais se referiu o ilustre sr. Aso, resumem-se a uma só: a do seu não menos ilustre primeiro-ministro Shinzo Abe!

A resposta mais debochada ao problema foi a da vice-secretária do Tesouro dos EUA, Lael Brainard, que afirmou, sem rebuços, sem corar e sem nenhuma elegância - típica do arrogante sentimento americano celebrizado no famoso aforismo "o dólar é nossa moeda, mas é seu problema" -, que a reclamação dos países emergentes é "pura conversa fiada".

A posição do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que protestou nos corredores contra a valorização do euro na última reunião do BCE, foi ambígua e de solidariedade aos grandes parceiros. Afirmou que a discussão sobre a guerra cambial era "inapropriada, infrutífera e autodestrutiva".

Entretanto, em longa entrevista, no dia 10 de janeiro em Frankfurt am Main, Draghi foi mais honesto: "Nunca comento sobre taxa de câmbio, mas ela é, certamente, um importante elemento no que concerne ao crescimento econômico (sic) e à estabilidade dos preços, e é uma das variáveis que levamos em conta na avaliação da situação, ainda que ela não seja um objetivo da política econômica".

A conclusão é que esse cinismo generalizado esconde o fato de que todos os países, que ainda têm políticas econômicas internas autônomas, têm um olho na taxa de câmbio. Quem não tem mais, como é o caso da França, apenas pode lamentar-se, como fez o presidente François Hollande.

Os países emergentes descuidados de sua moeda (como o Brasil foi até recentemente) estão permitindo a valorização do seu câmbio e apresentando retornos espetaculares em suas bolsas de valores, o que atrai capital de curto prazo. Esse movimento bursátil, que valoriza as bolsas, pode até estimular, por algum tempo, um pequeno aumento do investimento interno (efeito Tobin).

A solidariedade da China com as decisões do G-20 é consequência de que ela está na origem do desequilíbrio cambial mundial e tem toda a conveniência de apoiar os EUA e a Comunidade Econômica Europeia, seus principais parceiros. Ademais, já começou a entender o movimento estratégico dos grandes acordos estimulados pelos EUA: o do Atlântico e do Pacífico, destinados a "colocá-la no seu lugar" nos próximos dez anos...

De qualquer forma, o G-20 não chegou à unanimidade em Moscou. Os poderosos "desvalorizadores dissimulados", supostamente apoiados em irrelevante teoria econômica, não conseguiram convencer os emergentes a se comprometerem a não intervir na sua taxa cambial. É claro que desvalorizações competitivas aumentam as incertezas e prejudicam o comércio mundial. Mas não é isso que o Brasil propõe. O que o ministro Guido sugere é organizar a "guerra mundial", para repartir mais equanimemente os seus custos.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.