sexta-feira, 8 de março de 2013

Guardiãs da vida e da terra

 

Por José Graziano da Silva - Valor 08/03
 
Em todo o mundo, mas especialmente nas regiões mais pobres do planeta, as mulheres personificam a força da vida que se renova diariamente no desmentido da fatalidade.
Vencer a fome para milhões de mulheres que compõe 43% da força de trabalho agrícola nos países em desenvolvimento, por exemplo, não é uma meta distante, mas uma incumbência da rotina cotidiana.
As mulheres são como voluntárias anônimas dessa que é a guerra mais devastadora e, paradoxalmente, a de mais fácil solução em nosso tempo: superar a privação alimentar que atinge um em cada oito habitantes do planeta, cerca de 870 milhões de seres humanos.
Todos os anos, adverte a Organização Mundial da Saúde (OMS), a fome sozinha mata mais que doenças como a Aids, a malária e a tuberculose juntas.
Nos países em desenvolvimento, 30% da mortalidade infantil nos primeiros cinco anos de vida tem sua origem na desnutrição.
Depende em grande parte das mãos femininas o escrutínio diário entre o alimento e a mesa nua, em milhões de lares em todo o planeta.
Cabe aos governos e instituições de cooperação internacional dar-lhes um empoderamento correspondente a esse protagonismo. Municiando-as das ferramentas, dos direitos, das políticas e dos recursos necessários à eficácia de uma vigília incansável. Insubstituível.


Desde a gestação, a mulher é a grande sentinela na linha de frente da luta pela justiça social. Os primeiros mil dias na vida de uma criança, entre a gravidez e os dois anos de idade, marcarão para sempre o seu desenvolvimento.
Podem significar a diferença para mais ou para menos na contabilidade sombria que hoje acumula o saldo de 2,5 milhões de crianças mortas todos os anos, enredadas numa teia de fome e privações.
Nenhum programa sério de combate à pobreza e à desigualdade será bem sucedido se não incorporar como seu aliado quem figura como o primeiro abrigo da segurança alimentar em qualquer sociedade: a mulher.
Do ventre ao leite materno, dele à primeira fruta, da primeira porção de cereal à primeira refeição completa e dela às milhares seguintes, a nutrição humana conecta-se à oferta da natureza e às restrições da sociedade mediada pelo longo e generoso cordão umbilical do zelo feminino.
Revestir a mesa da família de algum alimento, ali onde a oferta é escassa, cara e muitas vezes improvável, requer frequentemente a extensão desse instinto materno no manejo da terra, adicionado de uma intimidade carnal com o ciclo da natureza e do alimento.
No gigantesco continente africano, fronteira onde se trava a principal batalha contra a fome no século XXI, cerca de 240 milhões de pessoas formam a maior proporção de famintos do mundo, equivalente a 23% da população regional.
É no espaço rural, onde vivem 60% dos africanos, que a luta contra a tragédia assume contornos decisivos. As mulheres chefiam uma em cada quatro lares rurais na África. Na porção sul do continente, essa participação sobe a 45%.
Guerras e conflitos éticos, migrações e colapsos ambientais exacerbaram a sua presença e o seu peso na força de trabalho agrícola nos últimos anos. No Norte da África ela saltou de 30% para 43%, desde 1980. Tornou-se majoritária em alguns países, caso do Lesoto, onde corresponde a mais de 65% dos que trabalham a terra.


O aumento das responsabilidades das mulheres significa uma dupla, às vezes uma tripla jornada - no campo, na família e na comunidade. Esses compromissos adicionais nem sempre são reconhecidos, valorizados e compartilhados com os homens e frequentemente torna-se uma trava no empoderamento da mulher nas sociedades.
No chão africano, como em outras terras distantes do globo, o dia feminino nasce junto ao fogo e amanhece com os pés na roça.
A mão que semeia é a mesma que rastreia a coleta da primeira refeição e se desdobra no amparo matinal à infância, no cuidado com os animais.
Muitas vezes, é essa mesma mão que traz a novidade para dentro de casa. A produção de um queijo, um artesanato, a introdução de uma nova semente, a reprodução de um caprino, a coleta do mel - reforços preciosos de um orçamento magro e uma dieta premida pela única certeza que reveste esse universo esquecido: a inconstância do alimento.
É imperioso resguardar esse lastro da vida, sobretudo nas regiões mais pobres, onde a infância e a adolescência femininas estão sendo capturadas precocemente pelo redemoinho da sobrevivência.
Mais de 61 milhões de meninas com idade entre cinco e 14 anos trabalham na agricultura atualmente, lembra a OIT.
Paradoxalmente, em todas as latitudes, são as mulheres que amargam um acesso mais restrito à propriedade jurídica da terra, que por extensão afeta seu direito ao crédito e aos insumos necessários à maximização de um esforço superlativo na cadeia comunitária.
A equiparação desses direitos e acessos, de modo a fechar o hiato de gênero na agricultura das nações mais vulneráveis, figura como uma das mais importantes políticas de segurança alimentar a serem implementadas por governos e instituições voltadas à cooperação internacional.
Não só contra a fome.
Sobretudo nas condições difíceis da luta pela sobrevivência em países pobres e em desenvolvimento, as mulheres frequentemente são quem impelem sociedades à busca da paz, cooperação, da segurança e da solidariedade.

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)




 
 

Petrobras segue patinando


Fonte ANP

A produção de petróleo foi de 2.054 mil barris por dia em janeiro, com redução de 7,9% na comparação com o mesmo mês do ano passado, e de 2,4% em relação ao mês anterior. A produção total de petróleo e gás natural no Brasil foi de aproximadamente 2.531 mil barris de óleo equivalente por dia, sendo 2.054 mil barris diários de petróleo e 75,9 milhões de metros cúbicos de gás por dia.
A queda na produção de petróleo foi motivada, principalmente, pela interrupção do sistema de produção antecipada nos campos de Baúna e Piracaba para implantação do sistema definitivo e pelo fim do teste de longa duração do antigo bloco C-M-401, atuais campos de Tartaruga Mestiça e Tartaruga Verde.
A produção do pré-sal foi de aproximadamente 320 mil barris de óleo equivalente por dia, com média diária de 264 mil barris de óleo e 8,9 milhões de metros cúbicos de gás. Contribuiu para este resultado o início da produção no campo de Sapinhoá, que teve vazão média diária de 11,6 mil barris de petróleo e 427,1 mil metros cúbicos de gás natural.
Com a publicação da medida provisória 592/2012 houve alterações no critério para definição de poços produtores que operam no pré-sal e contabilizados pelo boletim mensal da produção. A partir deste mês foram incluídos quatro poços no campo de Linguado, três no de Pampo e um no de Trilha, além dos quinze que já entravam incluídos nos campos de Baleia Azul, Caratinga, Barracuda, Jubarte, Lula e Marlim Leste.
A produção nacional de petróleo e gás natural no mês de janeiro de 2013 foi oriunda de 313 concessões, das quais 81 marítimas e 231 terrestres, operadas por 25 empresas. Os campos operados pela Petrobras respondem por 93,8% do total. Campos marítimos foram responsáveis por 91,3% da produção de petróleo e 77,1% da produção de gás natural do Brasil. O campo de Marlim Sul, na bacia de Campos, foi o de maior produção de petróleo e o segundo maior produtor de gás natural, com uma média de 342,6 mil barris de óleo equivalente por dia. O campo com maior produção de gás natural foi Manati, na bacia de Camamu, com uma média de 6,6 milhões de metros cúbicos diários.
Mais de nove mil poços foram responsáveis pela produção brasileira de petróleo e gás em janeiro, sendo 776 marítimos e 8.294 terrestres. O campo com o maior número de poços produtores foi o de Carmópolis, na bacia de Sergipe, com 1.113 poços. A plataforma com maior produção foi a P-56, localizada no campo de Marlim Sul, que produziu aproximadamente 142,7 mil barris de óleo equivalente por dia através de oito poços a ela interligados.

terça-feira, 5 de março de 2013

China reduz dependência em grãos


Valor 05/03

Apesar da escassez de terra e água e da falta de escala de produção de suas fazendas, a agricultura da China tem conseguido, à notável exceção da soja, fazer frente à explosão da demanda por alimentos no país nos últimos anos - fato até certo ponto obscurecido pelo apetite importador do gigante asiático.
De acordo com os últimos dados do Bureau Nacional de Estatísticas da China, a produção local de grãos aumentou quase 120 milhões de toneladas ao longo da última década, para mais de 571 milhões de toneladas.
Desse modo, as importações chinesas de cereais e farinhas mais relevantes ficaram pouco abaixo de 5 milhões de toneladas em 2011, segundo o Bureau chinês - pouco acima das 3,5 milhões de toneladas registradas em 2001, mas abaixo das 9,7 milhões de 2004.
Mesmo com o expressivo aumento do consumo doméstico nos últimos anos, o país tem se mantido capaz de produzir praticamente todo o arroz, trigo, milho e a carne suína que consome, além de ser um exportador líquido de carne de frango.
Conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os chineses produziram, nas últimas três safras, uma média de 464,7 milhões de toneladas apenas de arroz, milho, trigo e soja. Trata-se de um crescimento de quase 113 milhões de toneladas na comparação com o resultado médio obtido nas três primeiras safras dos anos 2000.
Só a produção de milho aumentou em 77,5 milhões de toneladas na mesma base de comparação, para 192,7 milhões de toneladas - na última safra, foram 208 milhões. Significa dizer que, em uma década, os chineses acrescentaram à sua produção uma colheita de milho equivalente à do Brasil nesta safra 2012/13. Trata-se de uma expansão comparável apenas à que os Estados Unidos, maior produtor mundial dessa commodity, promoveram para fazer frente à sua demanda por etanol.
Com isso, a produção chinesa tem se mantido relativamente equilibrada em relação ao consumo doméstico, que nas últimas três temporadas foi de 192,5 milhões de toneladas, em média. E, ainda que as importações tenham crescido - de praticamente zero, no início dos anos 2000, para 2,9 milhões na média dos últimos três anos -, o déficit entre a produção e o consumo vem diminuindo desde a temporada 2001/02, quando atingiu 7,5 milhões de toneladas.
Progressos semelhantes são observados nas culturas do arroz e do trigo. Desde o início da década passada, os arrozais chineses ampliaram em 14,5 milhões de toneladas a sua produção, para 140,2 milhões na média das últimas três safras, enquanto o consumo cresceu apenas 4,6 milhões, para 139 milhões. Com isso, os chineses praticamente zeraram o déficit de produção do cereal, que chegou a quase 9 milhões de toneladas, em média, entre 2001/02 e 2002/03.


Já a produção de trigo cresceu em 22,6 milhões de toneladas na comparação, para 117,73 milhões de toneladas, reduzindo o déficit em relação ao consumo de 13,2 milhões para apenas 1 milhão de toneladas na média dos últimos três anos.
De modo geral, a principal fonte de crescimento da produção foram os ganhos de produtividade - na média, o rendimento das lavouras de cereais cresceu 20%, ou mil quilos por hectare desde o início da última década, para 5,7 mil quilos por hectare.
O aumento reflete o maior acesso dos agricultores à tecnologia. Desde 2001, a força empregada por máquinas agrícolas no campo cresceu 85%, para 977,3 milhões de quilowatts, segundo dados oficiais, e o parque de tratores considerados médios e grandes mais do que quintuplicou, para 4,4 milhões de unidades. No período, o uso de fertilizantes químicos, que recebem pesados subsídios, cresceu quase 40% e a área de irrigação, 14,6%.
Os ganhos de produtividade permitiram que a China ampliasse o cultivo de milho em 10 milhões de hectares, ocupando áreas antes semeadas com arroz, trigo e soja. Contudo, a área total dedicada ao plantio de cereais ficou praticamente estável na última década, em pouco mais de 110 milhões de hectares.
O governo chinês tem batido na tecla de modernizar a agricultura a fim de garantir o abastecimento de commodities consideradas essenciais - o tema foi um dos destaques do último plano quinquenal, publicado em 2011.
Entre 2007 e 2011, o gasto dos governos central e regionais para apoiar a agricultura cresceu 193% entre 2007 e 2011, de US$ 54,4 bilhões para US$ 159,6 bilhões anuais - desde o início da década passada, o orçamento se multiplicou por mais de cinco vezes. "Há um grande volume de capital empregado pelo Estado para se aumentar a mecanização das lavouras, a compra de fertilizantes e o acesso a sementes", disse ao Valor Daron Hoffman, diretor de pesquisa do Rabobank, em Xangai.
A prioridade absoluta do Partido Comunista é garantir a autossuficiência em milho. Em artigo publicado em maio do ano passado no Diário do Povo (o jornal oficial do Partido Comunista) o ministro da Agricultura, Han Changfu, afirmou que, "na estratégia chinesa de segurança alimentar, o milho precisa ocupar uma posição proeminente" e que o país precisa "evitar resolutamente que o milho chinês se transforme em uma segunda soja".
Changfu se refere a um fato que os brasileiros conhecem bem. Em pouco mais de uma década, a demanda chinesa por soja explodiu - de pouco mais de 28 milhões de toneladas para além de 70 milhões -, mas a produção encolheu, o que transformou a China na principal peça do tabuleiro do comércio mundial da commodity. Só nesta safra 2012/13, o país deverá desembarcar 63 milhões de toneladas do grão em seus portos, quase cinco vezes mais do que há uma década. Em 2011, os chineses desembolsaram quase US$ 30 bilhões para pagar essa conta.
O milho é vital para que a China assegure o crescimento sustentável de sua criação de suínos - desde 2001, a produção de carne suína cresceu em mais de 10 milhões de toneladas, para 50,5 milhões em 2011. Como as necessidades de consumo da China respondem por mais da metade do comércio mundial da commodity, conclui Changfu, "as importações não resolvem o problema da nossa demanda crescente".
Para Changfu, a demanda por milho é particularmente sensível ao aumento da renda em países de renda intermediária, como é o caso da China, por causa do incremento do consumo de proteínas animais. Entre 1965 e 2000, exemplifica, o uso do grão como ração animal cresceu, em média, 1,6% ao ano nos Estados Unidos, mas 4,1% no Japão. Em 2010, o consumo chinês de carnes, ovos, leite e peixes havia crescido 23%, 18,5%, 105%, e 31,8% em relação a 2003.
Finalmente, o ministro chinês aposta no potencial de crescimento da produtividade da commodity naquele país. "Na China, o milho é o produto cuja demanda mais cresce, mas também aquele com maior potencial para aumento de produtividade".
O rendimento do milho na China é, na média, apenas a 21º do mundo, segundo ele. Em 2011, os chineses colheram 5,8 mil quilos de milho por hectare, ainda distante dos mais de 9 mil nas lavouras dos Estados Unidos. Mesmo dentro do país, as diferenças ainda são expressivas. Na Província de Shandong, a produtividade média é de 6.540 quilos por hectare, 990 quilos maior do que na Província de Henan ou, ainda, 2.430 quilos maior do que em Anhui.
Segundo Changfu, a China pode ampliar em mais de 750 quilos por hectare a produtividade média do milho apenas ampliando-se a densidade das lavouras, ainda baixa em relação aos países desenvolvidos. O ministro afirma ainda que o país pode ampliar a área de milho em aproximadamente 10% até 2020.




 

China passa EUA como maior importador de petróleo

 

Por Javier Blas | Financial Times, de Londres

A China superou os Estados Unidos como maior importador líquido de petróleo do mundo, numa mudança que vai sacudir a geopolítica dos recursos naturais. As importações líquidas de petróleo dos Estados Unidos caíram para 5,98 milhões de barris por dia em dezembro, o menor nível desde fevereiro de 1992, segundo números provisórios da Administração de Informações Energéticas dos EUA. No mesmo mês, as importações líquidas de petróleo da China aumentaram para 6,12 milhões de barris/dia, segundo a alfândega chinesa.
Os EUA têm sido o maior importador líquido de petróleo do mundo desde a década de 1970, o que moldou a política externa da Washington em relação a países ricos em petróleo como a Arábia Saudita e o Iraque.
Com a China superando os EUA como o maior importador líquido do mundo, Pequim enfrentará pressões para que assuma mais responsabilidades na manutenção da segurança das principais rotas de transporte do mundo. A China já adotou uma política externa mais assertiva em relação ao petróleo em países como Sudão, Angola e Iraque, onde companhias estatais chinesas vêm investindo bilhões de dólares.
"Os EUA estão dando passos largos rumo à independência energética", diz Eric G. Lee, um analista de commodities do Citigroup que foi o primeiro a informar a mudança.
Os números de dezembro são sempre voláteis por razões fiscais de fim de ano, mas analistas e operadores afirmam que a mudança se manterá. Os números incluem petróleo bruto e produtos refinados de petróleo, como o diesel e o querosene.
Neste ano, a Marinha americana vai reduzir o número de porta-aviões em operação no estreito de Hormuz, que liga o golfo Pérsico aos mercados internacionais de petróleo.
A produção doméstica de petróleo dos Estados Unidos está crescendo muito devido à revolução do xisto, o que está reduzindo a necessidade de importação de petróleo bruto. Grandes companhias de petróleo e refinarias americanas, como a ExxonMobil e a Philips 66, também estão exportando quantidades recorde de produtos de petróleo para atender a grande demanda por petróleo, diesel e querosene na América Latina e África, e reduzindo as importações líquidas de petróleo do país.
A produção de petróleo dos Estados Unidos aumentou em mais de 800 mil barris/dia no ano passado. A expansão permitiu ao país reduzir sua dependência da Organização dos Países Produtos de Petróleo (Opep), o cartel internacional do petróleo. Mas a redução tem sido desigual, com a Arábia Saudita, Kuwait e outros países do Oriente Médio sofrendo relativamente pouco com a redução da demanda dos EUA, em comparação aos produtores africanos.
A troca de posição entre a China e os EUA acontece no momento em que a Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que os países emergentes irão, pela primeira vez, consumir mais petróleo que as nações industrializadas. Sediada em Paris, a AIE estima que os países que não fazem parta da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) irão consumir 44,9 milhões de barris de petróleo por dia no próximo trimestre, em comparação a 44,7 milhões de barris/dia dos países que fazem parte da OCDE.
Os EUA continuam sendo o maior importador líquido de petróleo do mundo em uma base anual, mas a margem sobre a China diminuiu significativamente nos últimos cinco anos. As compras líquidas de petróleo bruto e produtos refinados no exterior caíram para 7,14 milhões de barris por dia no ano passado, o menor nível em 20 anos, enquanto que as importações líquidas dos chineses chegaram a 5,72 milhões de barris/dia.



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Existe vida fora da Selic


Por Antonio Delfim Netto - Valor 05/03

As recentes manifestações do Federal Open Market Committee (Fomc), do Fed americano, e do Monetary Political Committee (MPC), do Bank of England (BE), dão uma ideia clara das precárias condições em que se encontra o que se supunha ser a "ciência monetária".

Ao tentar indicar o caminho para ultrapassar a gravíssima crise em que o mundo vive desde a quebra do Lehman Brothers, eles mostram que estamos em território econômico absolutamente desconhecido. Sua exploração deve ser feita aperfeiçoando os instrumentos construídos nos últimos 250 anos, com a coragem e a honestidade que faltaram à profissão quando ela desenvolveu "teorias" que justificavam, "a posteriori", as patifarias que estavam sendo construídas no alegre incesto entre o poder político incumbente e os sistemas financeiros dos países.

A prova da proposição é simples: os poupadores que entregaram seus recursos a administradores ficaram pobres e desempregados. Os administradores ficaram trilionários e não precisam de emprego! Tudo graças à teoria "científica" que os mercados deixados a si mesmos eram "perfeitos, moralmente administrados e seguramente autorregulados".

A profissão precisa de uma grande pajelança para livrar-se da cegueira, não apenas dos que ainda agora insistem em aceitar tal "teoria", como outros, que, com o mesmo nível de ingenuidade, acreditam que o poder incumbente deixado a si mesmo é naturalmente benevolente, onisciente, e sujeito ao imperativo categórico da absoluta impessoalidade e honestidade...

Na última reunião, o Fomc decidiu "manter o intervalo do 'federal funds' (a taxa básica americana) entre 0 a 1/4% e antecipar que este nível excepcionalmente baixo da taxa básica será apropriado enquanto a taxa de desemprego permanecer acima de 6,5%, a taxa de inflação esperada nos próximos um ou dois anos não seja 1/2% superior à qual estamos comprometidos como objetivo de longo prazo (2%) e a expectativa de inflação continuar bem ancorada". Lembremos que o Fed se propôs, há dois meses, a executar uma política de "quantitative easing" (QE3) indefinidamente, enquanto um dos elementos do par (6,5% para o desemprego ou a taxa de inflação ultrapasse 2,5%) não for atingido.

Pois bem, agora tudo parece mudado, como revela a discussão na última ata do Fomc, onde lemos: "Muitos participantes (alguns são não votantes) enfatizaram que o comitê deve estar preparado para variar a velocidade da compra dos ativos (a operação QE3), seja em resposta à mudança das perspectivas econômicas, seja pela avaliação da eficácia e custos que ela envolve. Outro insistiu que as compras devem ser incrementais de reunião a reunião, em resposta às novas informações sobre a economia. Outros, ainda, argumentaram que as avaliações de eficácia e custos podem levar o comitê a reduzir o QE3, mesmo antes que ocorra uma melhoria no mercado de trabalho. Outros lembraram que o custo potencial de suspender ou reduzir a compra de ativos pode ser muito alto, e que ela deve continuar até que uma mudança substancial no mercado de trabalho tenha ocorrido".

Fica evidente que a decisão do Fomc foi apenas uma solução de compromisso, sem apoio factual ou forte convicção teórica. Honestamente, é pouco provável que, com o conhecimento dessa ata, o "mercado" saiba o que o Fed quer e que coordene as "expectativas" dos agentes na direção desejada. O "mercado" precisa de instruções claras e explícitas: o que Fed quer é menor taxa de desemprego, maior crescimento e um pouco mais de inflação! Então, porque não dizer isso claramente e deixar o "mercado" apostar nesse resultado? O mesmo sentimento de confusão e incerteza deriva da ata do MPC, do Bank of England, de fevereiro.

O governador do BE, Mervyn King, e mais dois membros do MPC sugeriram aumentar o "quantitative easing" inglês, mesmo diante do fato de que a taxa de inflação excede largamente a "meta" oficial, e as expectativas inflacionárias dos próximos dois anos excedem a meta de 2%. Foram vencidos. Os seis votos vencedores no MPC recusaram o aumento da taxa de juros, mesmo diante do preocupante aumento da taxa de inflação. Uma explicação plausível para o comportamento do MPC é que o próprio Bank of England espera a posse do seu futuro presidente, Mark Carney (ex-presidente do Bank of Canada), que tem manifestado a intenção de experimentar a variante da política monetária que tem por objeto o PIB nominal.

Não passou despercebido para os analistas mais cuidadosos que a proposta de King e seus companheiros implicava, de fato, aceitar que um aumento do "quantitative easing" produziria um efeito mais forte no nível de atividade que no nível de inflação, uma hipótese que nega o monetarismo. Na proposta, eles afirmaram que o aumento do QE "poderia ajudar no processo de rebalancear a economia e evitar a destruição da capacidade produtiva e o aumento do desemprego". Isso acendeu a luz vermelha dos mais céticos. Para esses, a expressão "rebalancear a economia" é apenas a forma elegante e diplomática de dizer que o QE deve trabalhar na direção de desvalorizar a libra e aumentar a exportação. Esse objetivo já fora explicitado por King no seu discurso em Belfast, no dia 22 de janeiro. Diante de tanta confusão "científica", é preciso recomendar humildade aos nossos sacerdotes adoradores da religião do "tripé", que supõem que não existe vida fora da manipulação da taxa Selic.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O triste histórico da austeridade fiscal

 

 
Por Martin Wolf - Valor 27/02
 
Na cúpula em Toronto que reuniu o grupo das 20 principais economias em junho de 2010, os países de alta renda abraçaram a austeridade fiscal. As crises de dívida soberana na Grécia, Irlanda e Portugal foram uma das razões para isso. As autoridades econômicas ficaram apavoradas com a possibilidade de seus países se transformarem numa Grécia. O comunicado do G-20 foi específico: "As economias avançadas comprometeram-se com planos fiscais que vão reduzir pelo menos à metade os déficits até 2013 e estabilizar ou reduzir as proporções da dívida pública em relação ao PIB em torno de 2016". Terá isso sido necessário e sábio? Não.

A zona do euro esteve no centro da crise da dívida soberana que assustou o mundo. Um aperto fiscal rápido foi considerado essencial para governos em dificuldades. Essa visão, por sua vez, convenceu aqueles que ainda não estavam sujeitos à pressão do mercado a impor um aperto preventivo. Essa foi em larga medida a posição do governo de coalizão no Reino Unido. A ideia de que a Grécia tinha virado a esquina ganhou força também nos EUA, especialmente entre os republicanos. A batalha, hoje, em torno do "sequestro", é em parte um produto dessa preocupação.
Um importante e, na minha opinião, persuasivo defensor de um ponto de vista contrário é o economista belga Paul de Grauwe, atualmente na London School of Economics. Ele vem argumentando que as crises da dívida dos países da zona euro resultaram de falhas na política do Banco Central Europeu (BCE). Por causa de sua recusa em agir como emprestador de última instância aos governos, eles sofreram um risco de liquidez- os custos dos empréstimos subiram porque os compradores de títulos não sabiam se teriam condições de revender os papéis com facilidade a qualquer momento. Isso, e não insolvência, era o perigo imediato.
Hoje, argumenta o professor de Grauwe num estudo em que é coautor, a decisão, em princípio, do BCE, de comprar dívida dos governos em dificuldades, por meio das chamadas "transações monetárias imediatas" (OMT, sigla em inglês), permite que testemos sua hipótese. Ele observa que o principal determinante da redução dos spreads em relação aos bunds alemães a partir do segundo trimestre de 2012, quando a OMT foi anunciada, foi o spread inicial. Em suma, "o declínio dos spreads foi mais forte nos países onde o fator medo tinha sido mais intenso".
Que papel desempenharam os fundamentos? Afinal, ninguém duvida de que alguns países, especialmente a Grécia, tiveram e têm uma terrível posição fiscal. Um desses fundamentos é a mudança na proporção entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB). O estudo coloca três observações importantes. Primeiro, a proporção da dívida em relação ao PIB aumentou em todos os países, mesmo após o anúncio do BCE. Segundo, a mudança nessa relação acabou por ser um bom indicador do declínio nos spreads. Finalmente, os spreads determinaram a austeridade assumida pelos países. Paul Krugman acrescenta uma observação a mais: a austeridade foi cara demais para as economias atingidas: quanto maior o aperto entre 2009 e 2012, segundo o Fundo Monetário Internacional, maior a queda na produção.

Caso adotasse a OMT antes, o BCE poderia ter evitado o pânico que criou os spreads que justificaram a austeridade. O BCE não o fez. Dezenas de milhões de pessoas estão sofrendo privações desnecessárias. É trágico.
Ainda assim, posso distinguir dois argumentos para justificar o comportamento do BCE. O primeiro é que ajuda só poderia vir como contrapartida a uma disposição comprovada de assumir a austeridade. Em segundo lugar, como observa corretamente o mais recente relatório do Grupo Consultivo Econômico Europeu, os problemas reais foram a desestabilização dos fluxos de capital, os desequilíbrios externos e o agravamento da competitividade, e não os déficits fiscais. Mas pode-se justificar a austeridade fiscal, por brutal que seja, como a única forma de forçar os ajustes de custos relativos e as reformas necessárias no mercado de trabalho. Meu colega Wolfgang Münchau argumenta que o oposto é verdadeiro. Mas eu me pergunto se a zona do euro sobreviverá a sua cura. Os países do núcleo do euro seriam mais beneficiados se dessem aos mais fracos mais tempo para se ajustarem.


Países fora da zona euro têm estado em uma posição muito diferente. Eles não tinham necessidade de temer os crescentes spreads dos membros da zona euro porque não enfrentavam problemas de liquidez semelhantes. Em primeira aproximação, o rendimento dos títulos soberanos do Reino Unido ou dos Estados Unidos deveriam refletir as taxas de juros futuras esperadas para o curto prazo, com um prêmio de risco pequeno, uma vez que um default total é inconcebível. A visão amplamente difundida de que os rendimentos poderiam disparar é uma aposta num aumento da inflação.
O pânico que justificou a adoção de um programa de austeridade de longo prazo pelo governo de coalizão do Reino Unido foi um erro. Seus membros nunca tinham ouvido falar do paradoxo da poupança? Se os setores privados nacionais e externos estão contendo gastos, o setor público não pode esperar obter sucesso em fazê-lo, por mais que se empenhe em tentar, a menos que queira empurrar a economia para uma recessão muito maior. Embora fatores de curto prazo tenham desempenhado um papel real, não é de estranhar que a recuperação do Reino Unido tenha perdido sustentação e que o déficit seja tão persistente. E, consequentemente, também não surpreende que rebaixamentos de pontuação de crédito estejam a caminho, embora estes não digam algo muito útil, no caso de um emitente com acesso à sua máquina de impressão de dinheiro próprio.
Como observa Simon Wren Lewis, da Universidade de Oxford, "após o fim do pânico de 2010, quando se tornou claro que a crise da dívida foi realmente uma crise da zona euro e os juros de longo prazo no Reino Unido caíram com a melhoria da economia, deveríamos ter promovido uma grande mudança de política".

Em que deveria ter consistido essa mudança de política? A resposta é simples. Primeiro, muita atenção deve ser dada à razão pela qual o setor empresarial não financeiro do Reino Unido está incorrendo no que parecem ser superávits financeiros estruturais, como aponta a assessoria econômica londrina Smithers & Co. Segundo, a austeridade em gastos correntes precisa ser tornada explicitamente dependente da economia: maior quando a economia cresce mais rápido e menor quando a economia cresce mais devagar. Terceiro, todos os esforços devem ser empreendidos no sentido de acelerar as reformas estruturais que possam fomentar maior investimento por parte do setor privado. Em quarto lugar, o setor bancário precisa abrir o jogo sobre seus prejuízos e aceitar a necessária recapitalização, para que comece a emprestar novamente. Finalmente, o governo precisa se dar conta de que os juros atuais proporcionam uma oportunidade--que ocorre uma vez na vida--de realizar maior investimento público.
No longo prazo, o déficit fiscal precisa ser fechado. No curto prazo, o Reino Unido tem a chance de fomentar o crescimento. Deveria aproveitá-la. Assim como os EUA. (Tradução de Sergio Blum)

Martin Wolf é editor de economia e principal comentarista econômico do FT



 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Minério de ferro - Índia restringe exportações e preços sobem

 

Por James Crabtree e Jack Farchy | Financial Times, de Mumbai e Londres

"Não devo ajudar um vizinho distante à custa daquele que está mais perto." Esta expressão usada frequentemente por Mahatma Gandhi, o líder nacionalista indiano, descreve muito bem a situação em que se encontra a poderosa indústria do minério de ferro da Índia.
Uma série de restrições à produção e aumento das tarifas de exportação - estabelecidas para ajudar as siderúrgicas locais - levou as exportações de minério de ferro da Índia à beira do colapso. O país, que até recentemente era o terceiro maior exportador mundial da commodity usada na siderurgia, perdendo apenas para a Austrália e o Brasil, corre o risco de ter de importar grandes quantidades de minério de ferro pela primeira vez em décadas.
A crise do minério de ferro vai bem mais além da Índia. Por ser a principal matéria-prima na produção de aço, o minério de ferro é crucial para a economia mundial e muito importante para a lucratividade de duas das maiores indústrias pesadas do mundo: a mineradora e a siderúrgica.


Com a interrupção do fornecimento pela Índia, os preços mundiais dispararam para US$ 155 a tonelada, aumento de mais de 75% desde setembro. A alta inflou os lucros de companhias brasileiras como Vale, Rio Tinto, BHP Billiton e Fortescue.
"O preço hoje está US$ 40 maior do que estaria [com o fornecimento indiano]", diz Jim Lennon, diretor da área de análises de commodities da Macquerie em Londres, que acredita que os preços continuarão subindo este ano.
"Sem dúvida, é um impacto significativo... Enquanto a Índia perde mais de US$ 10 bilhões em sua balança comercial ao não exportar, outros produtores de minério de ferro estão colhendo muitos frutos inesperados", diz Lennon.
O impacto é exatamente o oposto na indústria siderúrgica: os produtores domésticos indianos estão com um fornecimento abundante e preços um pouco menores. Mas companhias internacionais como a chinesa Baosteel, a Nippon Steel do Japão e a ThyssenKrupp da Alemanha estão pagando mais pela mesma matéria-prima.
Após atingir o pico de 119 milhões de toneladas em 2009, as exportações indianas começaram a cair depois que alegações de que a mineração ilegal estava disseminada no país resultaram no fechamento de minas no maior estado minerador, Karnataka, e na implementação de restrições em outras partes ricas em recursos, como as regiões central e oriental da Índia.
No fim do ano passado, o fluxo praticamente parou, com a Índia embarcando apenas 1,4 milhão de toneladas nos três meses até dezembro - geralmente um período de pico de vendas para a China -, depois de uma segunda proibição total no estado litorâneo de Goa.
As restrições provocaram uma reação violenta das mineradoras que tiveram operações desativadas. A Sesa Goa, o braço de minério de ferro da Vedanta Resources, uma companhia do bilionário Anil Agarwal listada na Bolsa de Valores de Londres, disse que agora está tentando abrir novos depósitos na África.
No começo do mês, PK Mukherjee, diretor-gerente do grupo, confirmou os planos de um investimento de até US$ 2,62 bilhões em um projeto na Libéria, como parte de uma tentativa de revitalização de sua deficitária divisão mineradora.
"Este é um período de crise para todas as companhias mineradoras de Goa, incluindo a Sesa Goa, e como somos os maiores, o problema é muito grande", disse ele ao "Financial Times". "Precisamos garantir um crescimento sustentável no futuro, por isso precisamos olhar para a Índia e para fora...Na Libéria, nossa experiência até agora tem sido fantástica."
A Sesa Goa não é a única companhia indiana que está de olho no mercado externo. "Muitos em Karnataka fizeram as malas, pegaram suas pás, e estão agora na Malásia ou no Marrocos", diz um comerciante europeu de minério de ferro, que prefere não se identificar.
A crise do minério de ferro na Índia também serve de alerta aos perigos do nacionalismo aplicado aos recursos naturais, uma vez que países como a Indonésia já consideram fazer o mesmo que a Índia e restringir suas exportações. A mais recente - as restrições impostas pelo governo indiano - surgiu no começo do ano passado, quando os impostos foram aumentados para 30%.
Desde então, as exportações indianas caíram acentuadamente, mas a produção doméstica também vem caindo, o que significa que as companhias siderúrgicas sem acesso a minas de minério de ferro também estão sendo forçadas a buscar a commodity fora do país. As chances de uma retomada da oferta estão agora nas mãos do sistema judiciário indiano, notório por sua morosidade e que autorizou a limitação da mineração em Karnataka no começo do ano passado e agora também vai rever o prosseguimento das restrições em Goa.
Mas há outras ameaças, mesmo que a atividade tenha uma lenta retomada nessas áreas. Elas incluem a exigência, por outros estados mineradores, de impostos sobre lucros inesperados, e o problema mais básico da corrupção.
"Por que a produção de minério de ferro da Índia foi tão alta por tanto tempo? Porque grande parte dela era flagrantemente ilegal", diz Sasha Riser-Kositsky, analista da consultoria de risco da Eurasia Group.
"Na verdade é muito difícil ser uma mineradora em grande escala na Índia e ter toda a papelada em ordem... a experiência toda mostra que há uma dificuldade fundamental de se fazer negócios lá."
Poucos analistas esperam uma recuperação para este ano, mas alguns estão pelo menos otimistas com uma eventual reação. "Nossa visão é de que a Índia vai enfrentar os desafios do momento e encontrar uma solução", diz um executivo graduado de uma companhia de comércio exterior.
Mas outros temem que o tombo do minério de ferro na Índia possa ser permanente. "Pelo que entendemos, as coisas não vão mudar no curto prazo", diz outro executivo de uma grande negociadora de minério de ferro. As exportações continuarão próximas de zero por pelo menos três a quatro anos, possivelmente pela próxima década, diz o executivo.
De qualquer maneira, pelo menos no curto prazo a indústria do minério de ferro da Índia enfrenta um futuro tórrido.



 
 

Trilhos, para que?


Antonio Pastori, Presidente da AFPF

A CSN-Cia Siderúrgica Nacional, deixou de produzir trilhos em meados dos anos 1980 (a década perdida). Os investimentos em ferrovias foram paralisados pelo Governo federal que detinha o controle da malha ferroviária e da CSN.

Com isso, a Indústria ferroviária nacional que produzia locomotivas, carros de passageiros, vagões e trilhos e materiais diversos, definhou....

Hoje, devido ao aquecimento do setor podemos afirmar - grosso modo - , que a produção em TKUs dobrou nos últimos 15 anos, quando foi inciada a "privatização" da malha, penso que seria interessante para o Brasil voltar a produzir trilhos, ao invés de importá-los, lembrando que em sua maioria os trilhos são produzidos no exterior com o nosso minério de ferro!

Contudo as Siderúrgicas (Gerdau e CSN) alegam que ainda não existe escala para tal. O governo não tem força para obrigá-las a produzir e o BNDES ainda não entrou fundo nessa discussão.

Falta de trilhos vai retardar construção de ferrovias
Valor 26/02

As obras de ferrovias da Valec, que já acumulam um grau de execução sofrível, estão prestes a encarar uma situação ainda pior. Dessa vez, a paralisia total que atinge a estatal federal responsável pela construção de dois grandes projetos de ferrovias do país é resultado de uma realidade dramática: os trilhos da Valec simplesmente acabaram.
Não há, neste momento, uma barra de aço sequer disponível em estoque para fixar sobre os dormentes. Para complicar de vez o cenário, as duas licitações que a Valec acaba de realizar para compra de milhares de toneladas de trilhos foram suspensas, sem previsão de retomada.
A Valec está à frente da construção de um trecho de 600 km da Ferrovia Norte-Sul, que ligará as cidades de Ouro Verde (GO) e Estrela D'Oeste, em São Paulo. Além disso, tem a missão de construir mil km da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), entre os municípios de Ilhéus, no litoral baiano, e Barreiras, no sertão do Estado. Atualmente, os poucos metros de trilhos que a estatal ainda possui estão sendo instalados em pátios logísticos na região de Anápolis, no Estado de Goiás. E só.
A situação crítica foi confirmada ao Valor pelo presidente da Valec, Josias Sampaio Cavalcante, que assumiu o comando da empresa no fim do ano passado. "Realmente estamos em uma sinuca de bico. Precisamos resolver isso o mais rápido possível. Sem trilho, não tem obra. É um momento difícil."
Apesar de todo o movimento provocado no setor ferroviário pelo governo, que promete conceder 10 mil de quilômetros de malhas novas neste ano, o Brasil não tem e nenhuma fábrica de trilhos. Apesar de ser o maior exportador de minério de ferro do planeta, passa pelo constrangimento de ter que importar 100% desse material. A raiz dos problemas enfrentados pela Valec está nos editais que elaborou para buscar os trilhos fora do país.
Em janeiro, a Valec realizou uma licitação internacional para compra de 95,4 mil toneladas de trilhos para a Norte-Sul. Um único consórcio - formado pela empresa brasileira PNG Brasil Produtos Siderúrgicos e a chinesa Pangang Group - apresentou proposta, vencendo o leilão com a oferta de R$ 320 milhões. O Tribunal de Contas da União (TCU), no entanto, emitiu uma medida cautelar, que suspendeu a licitação. Para o tribunal, há indícios de que o edital restringiu a competição de demais empresas, entre outros problemas técnicos. Tanto a Valec quanto a PNG apresentaram explicações ao tribunal, mas a liminar acabou mantida, para que as avaliações sejam aprofundadas.
A decisão do TCU acabou se refletindo na segunda licitação que a Valec fez na semana passada. O objetivo era comprar 147 mil toneladas de trilhos para serem instalados na Fiol. O pregão da ferrovia baiana foi realizado e a proposta vencedora foi de R$ 477,2 milhões. Novamente, porém, apenas a PNG e a Pangang apareceram para disputar a licitação. Como o edital era praticamente o mesmo daquele utilizado na Norte-Sul, a Valec decidiu, por conta própria, suspender essa segunda compra, até que o mérito do processo seja julgado pelo TCU.
"Temos a humildade de reconhecer quando erramos. Estamos dispostos a alterar o que for preciso para levar as concorrências adiante. Vamos defender nosso ponto de vista sobre os editais, mas não temos compromissos com o erro", disse Cavalcanti. "Se o TCU entende que o edital restringiu a competitividade, eu mudo o edital. Se ele entende que eu não posso contratar com tal empresa, nós cancelamos a licitação e realizamos outra. O que não posso é ficar sem os trilhos", afirmou o presidente da Valec.
Uma série de reuniões com empreiteiras foi realizada no mês passado pelo ministro dos Transportes, Paulo Passos, ao lado de Cavalcanti. O governo selou um "pacto" com as construtoras que executam as obras da Norte-Sul e da Fiol. As construtoras garantiram, na ocasião, que fariam esforço redobrado para retomar o cronograma das duas ferrovias, as quais já acumulam anos de atraso. Agora, o pedido deve ser exatamente o inverso: retardem as operações, porque os trilhos sumiram.
Cavalcanti diz que, no momento, já há quilômetros de dormentes de concreto que já foram lançados no traçado das ferrovias, mas não há barras de aço para pôr em cima deles. "Temos que parar com isso. Não faz sentido sair lançando mais dormente", diz. O presidente da Valec admite que a empresa já está revendo o texto do edital. Se as compras dos trilhos não estivessem suspensas, a Valec receberia as barras de aço só daqui a três meses, o que já comprometeria o cronograma.
Agora, na possibilidade mais otimista - que significa a deliberação imediata do caso pelo TCU e a realização de novas licitações - os trilhos só chegariam no fim do ano. Isso, claro, se a empresa que venceu as duas propostas não decidir recorrer à Justiça.

Organizar a guerra cambial

 

Por Antonio Delfim Netto - Valor 26/02

A confusão na reunião dos G-20 a respeito da guerra cambial tem um significado importante para o Brasil. Todos lembram que há mais de dois anos, quando o ministro Guido Mantega falou no assunto, foi objeto de jocosas observações internas e externas. Segundo seus críticos mais ferozes, tratava-se de um ente metafísico inventado pela retórica extravagante de uma autoridade monetária do mundo subdesenvolvido para justificar políticas heterodoxas.

A resposta inicial do G-20 à ideia que existe um bem disfarçado processo de desvalorização competitiva, que inclui os Estados Unidos, a Comunidade Econômica Europeia, a China e outros países, para protegerem o seu crescimento, foi esta joia de cinismo:

"Reiteramos nosso compromisso de agir rapidamente na direção de um sistema de taxas cambiais flexíveis determinadas pelo mercado, que reflitam os seus fundamentais, evitem desalinhamentos persistentes e não estimulem uma desvalorização competitiva entre as moedas".

Uma proposição firmada sobre a ilusão que o sistema econômico se auto-organiza pelo funcionamento do sistema de preços. Essa, sim, é uma proposição metafísica, que, positivamente, não tem nada a ver com a experiência histórica do mundo em que vivemos. Foi repetida, aliás, na recente reunião do G-7:

"Reafirmamos que nossas políticas fiscal e monetária têm sido, e continuarão a ser, orientadas no sentido de cumprir nossos respectivos objetivos nacionais com instrumentos domésticos, e que não terão como alvo as taxa de câmbio".
Sutil afirmação diplomática para reconhecer o óbvio. As taxas de câmbio não são o alvo: são meras consequências "não intencionais" do uso dos instrumentos domésticos! Afirmação aprovada pelo FMI, que esqueceu seu objetivo fundamental: controlar os desequilíbrios externos. O auge do cinismo foi aceitar a desvalorização japonesa. Aliás, Taro Aso, ministro de Finanças do Japão, afirmou: "De acordo com algumas opiniões, nossas medidas contra a desaceleração econômica provocada pela deflação visam alterar nossa taxa de câmbio, o que não é verdade".

Mas, afinal, quem disse na recente campanha eleitoral que esse era o objetivo para elevar as exportações e o crescimento econômico do Japão? Quem pressionou o banco central japonês para elevar a meta inflacionária e desvalorizar o iene? As "tais opiniões", às quais se referiu o ilustre sr. Aso, resumem-se a uma só: a do seu não menos ilustre primeiro-ministro Shinzo Abe!

A resposta mais debochada ao problema foi a da vice-secretária do Tesouro dos EUA, Lael Brainard, que afirmou, sem rebuços, sem corar e sem nenhuma elegância - típica do arrogante sentimento americano celebrizado no famoso aforismo "o dólar é nossa moeda, mas é seu problema" -, que a reclamação dos países emergentes é "pura conversa fiada".

A posição do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que protestou nos corredores contra a valorização do euro na última reunião do BCE, foi ambígua e de solidariedade aos grandes parceiros. Afirmou que a discussão sobre a guerra cambial era "inapropriada, infrutífera e autodestrutiva".

Entretanto, em longa entrevista, no dia 10 de janeiro em Frankfurt am Main, Draghi foi mais honesto: "Nunca comento sobre taxa de câmbio, mas ela é, certamente, um importante elemento no que concerne ao crescimento econômico (sic) e à estabilidade dos preços, e é uma das variáveis que levamos em conta na avaliação da situação, ainda que ela não seja um objetivo da política econômica".

A conclusão é que esse cinismo generalizado esconde o fato de que todos os países, que ainda têm políticas econômicas internas autônomas, têm um olho na taxa de câmbio. Quem não tem mais, como é o caso da França, apenas pode lamentar-se, como fez o presidente François Hollande.

Os países emergentes descuidados de sua moeda (como o Brasil foi até recentemente) estão permitindo a valorização do seu câmbio e apresentando retornos espetaculares em suas bolsas de valores, o que atrai capital de curto prazo. Esse movimento bursátil, que valoriza as bolsas, pode até estimular, por algum tempo, um pequeno aumento do investimento interno (efeito Tobin).

A solidariedade da China com as decisões do G-20 é consequência de que ela está na origem do desequilíbrio cambial mundial e tem toda a conveniência de apoiar os EUA e a Comunidade Econômica Europeia, seus principais parceiros. Ademais, já começou a entender o movimento estratégico dos grandes acordos estimulados pelos EUA: o do Atlântico e do Pacífico, destinados a "colocá-la no seu lugar" nos próximos dez anos...

De qualquer forma, o G-20 não chegou à unanimidade em Moscou. Os poderosos "desvalorizadores dissimulados", supostamente apoiados em irrelevante teoria econômica, não conseguiram convencer os emergentes a se comprometerem a não intervir na sua taxa cambial. É claro que desvalorizações competitivas aumentam as incertezas e prejudicam o comércio mundial. Mas não é isso que o Brasil propõe. O que o ministro Guido sugere é organizar a "guerra mundial", para repartir mais equanimemente os seus custos.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.



 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Enigma aparente na economia brasileira

 

Por Ricardo de Menezes Barboza - Valor 22/02
 
Há um aparente enigma na atual conjuntura da economia brasileira. Enquanto a produção industrial se contrai (-2,7% em 2012, segundo Pesquisa Industrial Mensal do IBGE), o comércio varejista se expande em ritmo acelerado (8,4% no acumulado em 2012, segundo Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE).
Existem pelo menos quatro fatores por trás deste hiato entre produção e comércio: 1) um processo gradual de redução de estoques na indústria; 2) uma elevação de importados, em especial de bens não duráveis; 3) uma redução da demanda internacional por produtos manufaturados brasileiros; e 4) uma queda brusca no investimento. Algumas evidências preliminares apontam nessa direção.
Em relação à hipótese de estoques, dados da sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que o volume tem se reduzido no período em discussão. Com efeito, seis entre 14 setores industriais pesquisados afirmavam estar superestocados em dezembro de 2011, número que foi reduzido a apenas um no mesmo período de 2012.
Uma evidência mais informal pode ser obtida quando comparamos os dados de produção industrial do IBGE com os dados de faturamento real da CNI. Nos últimos sete trimestres, desde o início de 2011, o faturamento real da indústria de transformação aumentou 8,3%, enquanto a produção industrial caiu 4,9%. Essa diferença de 13 pontos percentuais sugere, ainda que não em sua totalidade, uma redução continuada nos estoques: a indústria contraiu a produção, mas seguiu aumentando as vendas, o que só é possível quando o volume de estoques está caindo.
É improvável, no entanto, que todo o descompasso entre produção industrial e comércio se deva apenas a um processo de desova de estoques. Por dois motivos. Primeiro, porque toda redução de estoques ocorre sempre de forma gradual, isto é, empresas não interrompem sua produção com o intuito de eliminar estoques. Segundo, pois a diferença presente no descompasso é muito expressiva para que haja apenas uma única causa. Essa percepção abre espaço para os outros fatores levantados.
O comércio varejista pode muito bem estar vendendo produtos importados. Em vez de se vender o que é produzido no Brasil, vende-se aquilo que vem do exterior. O problema dessa hipótese, contudo, é que o dado de quantum importado se reduziu 2,3% no acumulado de 2012 (dados da Funcex). Se houvesse mesmo vazamento de demanda para o exterior, não deveríamos observar um aumento do quantum importado?

Não necessariamente. Abertos os dados de importação, percebe-se a existência de cinco categorias: bens intermediários, combustíveis e lubrificantes, bens de capital, bens duráveis e bens não duráveis. Essas cinco categorias tiveram a seguinte variação percentual do quantum importado em 2012: 6,4% para os não duráveis, -18,2% para os duráveis, 0,2% para os bens de capital, -4,8% para combustíveis e lubrificantes e -1,3% para os bens intermediários. Tem destaque o desempenho "fora da curva" das importações de bens não duráveis, que cresce muito rapidamente enquanto os demais componentes decaem. Será que a elevação dessas importações específicas tem impacto no resultado aferido pela Pesquisa Mensal do Comércio?
Ao contrário da Pesquisa Industrial Mensal, que é feita por produto, a PMC a é feita por estabelecimento comercial. Portanto, há que se recorrer a uma aproximação (grosseira) para verificar a participação dos bens não duráveis em sua composição. Por exemplo, supermercados são estabelecimentos tipicamente vendedores de bens não duráveis, embora existam diversos bens duráveis à venda nessas instituições. Na análise, serão classificados como instituição de não duráveis. Embora não exista aqui nenhuma pretensão de precisão, apenas de ordem de grandeza, os resultados mostram que o setor de bens não duráveis tem peso significativo na composição da PMC, contribuindo com algo em torno de 35% do índice. Assim, na elevação dessas importações reside mais uma chave para a abertura do enigma.
Prosseguindo com a investigação, passamos ao terceiro fator explicativo do gap comércio-indústria, qual seja, a queda da demanda internacional pelos produtos brasileiros, expressa na contração de 0,3% do quantum exportado pelo país em 2012 (segundo dados da Funcex). Nos casos específicos de bens manufaturados e semimanufaturados, a contração é ainda mais aguda, com redução do quantum exportado de 1,3% e 1,6%, respectivamente. De fato, esse é um fator explicativo porque a queda da demanda internacional por produtos domésticos puxa para baixo a produção industrial e amplia o hiato entre produção e comércio varejista.
Por fim, a queda do investimento também constitui fator essencial na resolução do mistério. Expresso em números, o investimento vem decaindo em termos absolutos desde o segundo trimestre de 2011, recuando de 19,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em seu pico mais recente para pouco mais de 18% do PIB no terceiro trimestre de 2012. Em particular, a produção de bens de capital teve contração de 11,8% no acumulado de 2012, segundo dados do IBGE. Trata-se de um número muito significativo. Como esse tipo de bem não é vendido pelo comércio, sua queda, ao mesmo tempo em que derruba a produção industrial, nem sequer se faz sentir no dado varejista.

À luz dessas evidências, percebe-se que o enigma da economia brasileira é, de fato, apenas aparente. A queda dos estoques, o aumento das importações de alguns produtos, a queda da demanda externa e a contração do investimento parecem explicar a discrepância entre varejo e produção industrial. Como popularmente se diz: "Tudo que um dia pode ser verdade, passa primeiro por ser um enigma".

Ricardo de Menezes Barboza é economista do BNDES e membro do grupo de conjuntura econômica do IE/Coppead-UFRJ. Mestre em Economia pelo IE-UFRJ.



 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A tirania da economia política

 

Por Dani Rodrik - Valor 18/02
 
Houve um tempo em que nós, economistas evitávamos a política. Considerávamos nossa missão descrever como as economias de mercado funcionam, quando são malsucedidas e em que medida políticas bem estruturadas podem aumentar a eficiência. Nós analisamos pesos relativos entre objetivos concorrentes (por exemplo, igualdade versus eficiência) e as políticas prescritas para alcançar os resultados desejados, econômicos, inclusive redistribuição. Restava aos políticos aceitar nosso conselho (ou não) e aos burocratas implementá-las.
Então, alguns de nós nos tornamos mais ambiciosos. Frustrados diante da realidade de que grande parte do nossos conselhos eram ignorados, centramos nossas ferramentas de análise no comportamento dos próprios políticos e burocratas. Começamos a analisar o comportamento político usando a mesma estrutura conceitual que usamos ao analisar as decisões de consumidores e produtores em uma economia de mercado. Os políticos tornaram-se fornecedores de favores políticos em troca da maximização de sua renda; os cidadãos tornaram-se lobistas e grupos de interesses especiais foram em busca de remuneração; e os sistemas políticos tornaram-se mercados onde votos e influência política são negociados em troca de vantagens econômicas.
Assim nasceu o campo da economia política baseada em escolhas racionais, e um estilo de teorização que muitos cientistas políticos imediatamente passaram a imitar. A aparente recompensa era que então poderíamos explicar por que os políticos fazem tantas coisas que vão contra a racionalidade econômica. Com efeito, não havia nenhuma inadequação econômica que as palavras - "interesses adquiridos" - não fossem capazes de explicar.

Por que tantos setores econômicos permanecem fechados para a competição real? Porque os políticos estão nas "folhas de pagamento" de operadores estabelecidos que faturam com isso. Por que governos levantam barreiras ao comércio internacional? Porque os beneficiários das medidas de proteção comercial são concentrados e politicamente influentes, ao passo que os consumidores são difusos e desorganizados. Por que as elites políticas impedem reformas que poderiam estimular o crescimento e o desenvolvimento? Porque o crescimento e desenvolvimento prejudicariam o controle do poder político pelas elites. Por que acontecem crises financeiras? Porque os bancos capturam o processo decisório de tal modo que podem assumir riscos excessivos à custa da sociedade em geral.
Mas havia um paradoxo profundo em tudo isso. Quanto mais alegávamos estar explicando, menos espaço foi deixado para melhorar as coisas. Se o comportamento dos políticos é determinado pelos interesses adquiridos aos quais estão atrelados, a defesa de reformas políticas pelos economistas tenderá a cair em ouvidos moucos. Quanto mais completa nossa ciência social, mais irrelevante nossa análise política.
É aqui que ocorre a ruptura da analogia entre as ciências humanas e as ciências naturais. Consideremos a relação entre ciência e engenharia. À medida que a compreensão dos cientistas sobre as leis físicas da natureza torna-se mais sofisticada, os engenheiros podem construir pontes e edifícios melhores. Melhorias nas ciências da natureza ampliam, em vez de impedir, nossa capacidade de moldar nosso ambiente físico.
Se parece ao leitor haver algo errado nisso, estará na pista certa. Na realidade, nossas estruturas contemporâneas de economia política estão repletas de suposições não explicitadas sobre o sistema de ideias subjacente ao funcionamento dos sistemas políticos.


Há três maneiras pelas quais ideias moldam interesses. Primeiro, as ideias determinam como as elites políticas definem-se e os objetivos que perseguem - dinheiro, honra, status, longevidade no poder ou, simplesmente, um lugar na história. Essas questões de identidade são centrais em como as elites decidem agir.
Em segundo lugar, as ideias determinam pontos de vista dos atores políticos sobre como o mundo funciona. Interesses empresariais poderosos pressionam por políticas diferentes quando acreditam que estímulos fiscais produzem apenas inflação em contraposição a quando acreditam que geram maior demanda agregada. Governos sedentos por mais receita colocam em vigor impostos mais elevados quando julgam que pode haver evasão tributária, em contraposição a quando acreditam na impossibilidade de evasão.
Mais importante, do ponto de vista da análise de política é que as ideias determinam as estratégias que os atores políticos acreditam poder perseguir. Por exemplo, uma forma de elites se manterem no poder é suprimir toda a atividade econômica. Mas outra é incentivar o desenvolvimento econômico ao mesmo tempo em que diversificam sua própria base econômica, estabelecendo coalizões, incentivando a industrialização orientada pelo Estado ou praticando uma diversidade de outras estratégias limitada apenas pela imaginação das elites. Quando ampliamos o leque de estratégias viáveis (que é o que fazem boas concepções de projetos e boas lideranças), modificamos radicalmente comportamentos e resultados.
Com efeito, isso é o que explica algumas das reviravoltas mais surpreendentes no desempenho econômico nas últimas décadas, como a Coreia do Sul e do crescimento desenfreado na China (na década de 1960 e no fim dos anos 1970, respectivamente). Em ambos os casos, os maiores beneficiários foram os "interesses estabelecidos" (o establishment empresarial, na Coreia, e o Partido Comunista Chinês). O que permitiu a reforma não foi uma reconfiguração do poder político, mas o surgimento de novas estratégias. Mudanças econômicas muitas vezes acontecem não quando interesses estabelecidos são derrotados, mas quando diferentes estratégias são usadas para perseguir esses interesses.
A economia política, sem dúvida, continua a ser importante. Sem uma compreensão clara de quem ganha e quem perde com o status quo, é difícil compreender a lógica de nossas políticas existentes. Mas um foco excessivo em interesses estabelecidos pode facilmente nos fazer perder de vista a contribuição fundamental que a análise de políticas e empreendedorismo político podem fazer. As possibilidades de mudanças econômicas são limitadas não apenas pelas realidades do poder político, mas também pela pobreza de nossas ideias. (Tradução de Sergio Blum)

Dani Rodrik professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org



 

Déficit em serviços cresceu 720% em 10 anos

 

 
Por Rodrigo Pedroso | De São Paulo - Valor 18/02

A balança de serviços do Brasil com o exterior vem acompanhando o aumento da participação desse setor na economia doméstica. Ano passado, enquanto as importações brasileiras de bens caíram 1,6%, a despesa com serviços no exterior - que inclui viagens, aluguel de equipamentos e uso de transporte, entre outros - cresceu 6,8%, fazendo o déficit externo nesse setor subir para US$ 41 bilhões.
O saldo negativo do ano passado foi o maior da série histórica registrada pelo Banco Central e eclipsou - como vem fazendo desde 2010 - o superávit obtido com a balança de bens. A diferença entre as duas contas foi um déficit de US$ 21,6 bilhões. Nos últimos 30 anos, desde que o Brasil começou a ter valores expressivos de exportação, o déficit em serviços só superou o superávit em bens em quatro oportunidades (a lista não considera os anos de déficit comercial).


O déficit em serviços tem sido crescente - há dez anos ele era de US$ 5 bilhões, indicando alta de 720% no período - e tem representado uma parcela maior do Produto Interno Bruto (PIB). Os US$ 41 bilhões de 2012 representaram 1,8% do PIB, de acordo com cálculos da LCA Consultores. Essa proporção é a maior dos últimos anos, segundo o economista-chefe Bráulio Borges.
Entre 2005 e 2008, o saldo negativo ficou em cerca de 1% do PIB. Nos dois anos seguintes, ele subiu para 1,2%, e em 2011 para 1,5%. O aumento decorreu principalmente do incremento nas importações de serviços, que passaram de 2,8% do PIB em 2008 para 3,6% ano passado. As exportações de serviços cresceram, mas em ritmo menor.
Para analistas, os setores que contribuíram para o aumento no déficit externo no setor de serviços demonstram a dinâmica da economia interna, com as viagens ao exterior ganhando fôlego. Mesmo com a desvalorização do real no ano passado, os brasileiros gastaram US$ 22 bilhões no exterior, valor 4,5% maior do que em 2011. Em contrapartida, os estrangeiros despejaram na economia nacional US$ 6,6 bilhões em 2012, segundo dados do Banco Central.
O aumento nas despesas dos brasileiros com as viagens ao exterior ocorre em paralelo a uma desaceleração na demanda por bens de consumo, diz Silvio de Campos Neto, economista da Tendências Consultoria. Uma família, diz ele, depois de trocar de carro e de geladeira, quer viajar para o exterior. Esse movimento, impacta o nível da corrente de comércio exterior de bens (pela menor importação proporcional de bens de consumo) e eleva os gastos em serviços.
Para Borges, da LCA, o saldo negativo no segmento de turismo, pode arrefecer este ano. "O principal vetor desse crescimento foram as viagens internacionais, que devem dar uma estagnada. Em termos reais, o câmbio desvalorizou 15% no último ano, além de o governo ter colocado IOF para quem utiliza o cartão de crédito no exterior. Essas medidas devem conter o aumento e fazer com que haja uma troca de viagens internacionais por domésticas", afirma.
Outra área de serviços com peso grande nas importações foi o aluguel de máquinas e equipamentos, ligados principalmente a projetos de infraestrutura e de exploração do pré-sal, com a Petrobras contratando o uso de equipamento no exterior. Ano passado, o gasto do país com aluguel aumentou 12,2% e chegou a US$ 18,8 bilhões. Transportes também deu uma contribuição significativa para o déficit, com saldo negativo de US$ 8,8 bilhões. Nesse grupo, pesa o uso de navios de bandeira estrangeira para o comércio exterior.
Só o saldo negativo da balança de aluguel de máquinas e equipamentos foi praticamente igual ao superávit da balança de bens, que foi de US$ 19,4 bilhões ano passado. "Em alguns casos não há tecnologia doméstica para suprir a necessidade das obras, em outras não há escala que compense a uma empresa fabricar maquinário de alta tecnologia e valor agregado. Há setores bem específicos dentro dessa conta", diz Campos Neto.
De acordo com Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores, quanto mais primária for a pauta de exportação brasileira de bens, maior será o gasto com transporte. Como a logística nacional é tocada por empresas estrangeiras, o uso de navios e contêineres para exportar bens brasileiros encarece a conta da importação nesse grupo. "As commodities agrícolas e os minérios são pesados, o que demanda cargueiros maiores", diz Barral.
Para fazer com que a balança fique menos desfavorável, é necessário olhar o outro lado dela, segundo o consultor. Apesar da alta de 4,3%, a evolução das exportações foi menor do que das importações de serviços ano passado. "Um país que tem mais de 60% de seu PIB gerado em serviços deveria pensar mais em explorar essa parte. Menos de 1% das empresas de serviços do Brasil exportam. As empresas precisam olhar onde são competitivas. Com a América Latina, por exemplo, nossa balança é favorável", afirma Barral.
A área de serviços ligados a empresas, engenharia, arquitetura e profissionais e técnicos, destoa do restante da balança. No ano passado, ela registrou um superávit de US$ 11,5 bilhões. A categoria definida pela metodologia do Banco Central inclui oito setores, e vai de encomendas postais a passes de atletas profissionais.
Nesse grupo pesa a atuação da construção civil brasileira no exterior, que sempre foi forte e cresceu nos últimos anos. De 2010 para cá, as exportações passaram de US$ 5,7 bilhões para US$ 8,9 bilhões. Na importação, empresas de engenharia executaram US$ 4,7 bilhões em serviços no Brasil em 2012.
Barral avalia que o fato de as vendas de serviços serem a metade do que o Brasil importa acontece por burocracia e altos custos tributários na hora de ir ao exterior, forte presença de empresas pequenas, que não têm fôlego para mirar o mercado externo, e falta de uma política de incentivos para fomentar esse movimento. O próprio tamanho de serviços na economia ajuda as empresas a não mirarem o mercado externo. "Em tecnologia da informação e bancária e construção civil temos serviços excelentes, mas exportamos pouco. O problema é que colocamos todos os ovos em uma cesta só ao não diversificar os clientes", diz ele.
Para Barral, a perspectiva para os próximos anos é de contenção do saldo negativo, apesar de ele permanecer em um patamar elevado. Borges tem avaliação semelhante. "Para deixar a dependência de transportes, por exemplo, é necessário dez, 20 anos. Pode ser que se formos bem sucedidos em atrair mais turistas ao Brasil haja impacto nas exportações e diminuição do déficit. Mas o número é grande e não muda tão cedo", diz o economista da LCA Consultores.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O crescimento de 2013

 

Por Antonio Delfim Netto - Valor 05/02

Foi muito bom que o ilustre ministro da Fazenda, Guido Mantega tenha declarado enfaticamente: 1) que a política fiscal é anticíclica, mas responsável; 2) que a taxa Selic não está "engessada" e que a escolha dos instrumentos para o controle da meta inflacionária é tarefa do Banco Central e, por fim, mas não menos importante; 3) que "a taxa de câmbio não é instrumento para baixar preços".

Uma afirmação como essa era necessária para reduzir o ruído que se estabeleceu sobre a política econômica nas últimas semanas. Ruído que disseminou um pessimismo exagerado sobre o crescimento de 2013, incompatível com as medidas já tomadas pelo governo: a redução da taxa de juros real, a sustentação do crédito pelos bancos estatais, o corte da tarifa de energia, a desoneração da folha de pagamentos, a mudança da política cambial, a perspectiva de leilões inteligentes para a aceleração das concessões das obras de infraestrutura e a boa safra que se aproxima.

O efeito conjunto da desoneração da folha e uma relativa melhoria cambial está mudando a nossa capacidade de concorrer no mercado internacional, como já é visível em alguns setores (até na produção de bens de capital, onde é grande a capacidade ociosa). A recente intervenção do Banco Central no mercado de câmbio causou um estresse nos exportadores, que acreditam na política do governo e tomaram o risco de voltar a procurar seus clientes.


É ridículo afirmar, como tem sido feito, que como a "mudança cambial não aumentou as exportações é melhor usá-la no controle da inflação", ignorando que a destruição produzida por anos de insensata supervalorização não pode ser superada em alguns meses de política econômica correta.
Os números do PIB de 2012 mostram que o medíocre resultado que tanto nos incomoda tem múltiplos ingredientes, mas a causa causans foi o mergulho da produção industrial que desde 2008 (quando cresceu 3,1%), vem flutuando para reduzir-se a -2,7% em 2012. De 2008 a 2012, a produção industrial praticamente não cresceu, contra 4,3% entre 2004 e 2008.

Honestamente, é preciso perguntar o que mudou entre os pontos médios dos dois períodos (2006 e 2009) em matéria de instituições, de legislação, de política de crédito, de produtividade da infraestrutura, de absorção de novas tecnologias? Ouso dizer que praticamente nada, nem mesmo a taxa de inflação (5,4% ao ano entre 2004-08 e 5,6% entre 2009-12), ou a política fiscal. O déficit nominal médio foi de 3% do PIB no período 2004-09, contra 2,7% de 2009-12, e a relação dívida líquida/PIB caiu, monotonicamente, de 47% em 2006, para 36% em 2012.

Entre os dois períodos mudou apenas uma coisa: a taxa de câmbio: a média no período 2004-09 foi de R$ 2,22 por dólar; no período 2009-12, R$ 1,85 por dólar.

Supondo uma inflação média mundial de 2% ao ano, a valorização da taxa de câmbio real entre os pontos médios foi da ordem de 25%. O saldo em conta corrente com relação ao PIB saltou de positivo 0,81, para negativo de 2,07. Entre 2009 e 2012, acumulamos um déficit em conta corrente de quase US$ 180 bilhões!

No ano de 2009, quando a crise mundial bateu duro à nossa porta, a produção industrial caiu 7,4% e nossa exportação de produtos manufaturados caiu 27,3%, com a taxa cambial rodando em torno de R$ 2 o dólar. Em 2010, a produção industrial apenas recuperou o nível de antes da crise (2008). O "famoso" crescimento industrial de 10,1% em 2010 (como o do PIB, 7,5%) é apenas um artefato estatístico. De fato, a produção industrial antes de 2009 vinha crescendo em torno de 3% ao ano. Caiu 7,4% em 2009. O crescimento de 10,1% em 2010 foi pura recuperação do nível de 2008.

A desastrosa política cambial de supervalorização de 2009 a meados de 2012 está, seguramente, na base da destruição da estrutura industrial dos últimos quatro anos. Hoje, a produção se encontra no mesmo nível de 2008. E isso está na base do pequeno crescimento do PIB de 2011 e 2012.

É preciso cuidado com a falácia que a produção industrial está estagnada pela falta de produtividade da mão de obra. Esse é um fenômeno pró-cíclico. Como o custo de ajustar o emprego é muito alto, enquanto o empresário tem esperança de que sua demanda voltará a crescer, ele tende a mantê-lo, o que produz outro artefato estatístico: a produtividade "aparente" do trabalho fica constante.

É claro que uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada e estável não é tudo. Mas a política governamental não parou aí. A redução do custo da energia, por exemplo, é fundamental. É sempre temerário fazer comparações entre preços separados por 40 anos, mas suspeito que em 2012 a tarifa média anual do kWh em dólares na indústria é quase dez vezes maior do que era no momento de rápido crescimento do país.

A taxa de juros real retorna ao que foi naquele momento. Há alguma desoneração fiscal permanente. Se concretizar-se a melhoria da qualidade dos leilões e estimularmos a competição, o mercado fixará as menores taxas de retorno compatíveis com a qualidade dos serviços de infraestrutura especificada pelo governo, o que abrirá espaço para o investimento privado.

Não há razão para não acreditar que em 2013 podemos acelerar o crescimento sem criar maior tensão inflacionária e sem aumentar o déficit comercial. Qualquer coisa entre 3,5% e 4,0% de crescimento parece hoje factível, se persistirmos na atual política e reduzirmos o estresse com o setor privado. Um fator coadjuvante é que a situação mundial será melhor em 2013 do que foi em 2012.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

The Big Mac index | The Economist

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Desafios do novo diretor-geral da OMC

 

Por Umberto Celli Jr - Valor 04/02


Como noticiado nas últimas semanas, será escolhido em breve o novo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) que deverá tomar posse em setembro. O processo de seleção já teve início e nove candidatos foram indicados por diferentes países, entre eles o Brasil, que aposta suas fichas no atual chefe da missão brasileira na OMC em Genebra, Roberto Azevedo. Os desafios do sucessor de Pascal Lamy serão enormes, a começar das dificuldades para o encerramento da Rodada Doha, cujas negociações se arrastam há mais de dez anos. Outro aspecto que também deverá merecer especial atenção diz respeito aos efeitos da proliferação sem precedentes de acordos preferenciais de comércio regionais, subregionais, interregionais e, em especial, os bilaterais. O ceticismo de vários governos de seus países membros e do setor privado quanto às condições da organização de reordenar o sistema multilateral de comércio também não deverá ser desprezado.

Atualmente, são poucos os países que ainda não fazem parte de acordos preferenciais de comércio. Com o impasse nas negociações da Rodada Doha, a alternativa das principais economias do mundo, como Estados Unidos, União Europeia e China, foi buscar a celebração desses acordos como forma de consolidar e ter acesso a novos mercados.

O receio de boa parte de países desenvolvidos, de economias em transição e em desenvolvimento de perderem espaço em suas exportações levou-os a aderir a esses acordos. Informações constantes da página eletrônica da OMC dão conta de que há mais de 300 acordos preferenciais em vigor e muitos outros em negociação.

Os acordos preferenciais de comércio de última geração não mais possuem como objetivo primordial a liberalização do comércio via redução de barreiras tarifárias. Eles se transformaram em novos centros de regulação do comércio global. Sua proliferação resultou na criação de regimes normativos diferenciados que, apesar de reproduzirem regras básicas da OMC, contêm outras que tornam mais rígidas as disposições relativas à propriedade intelectual e imprimem em alguns casos um viés mais liberalizante às negociações sobre o comércio de serviços. Tratam ainda de áreas não abrangidas pela OMC, tais como regras de promoção e proteção de investimentos estrangeiros, concorrência (antitruste e formação de cartéis), meio ambiente, mudança climática e padrões trabalhistas.

As regras desses numerosos acordos conflitam e se sobrepõem às da OMC, o que tem colocado em xeque o status dessa organização internacional de autoridade máxima do sistema de governança global do comércio. Aliás, ocorrem sobreposições e conflitos entre as regras dos próprios acordos preferenciais de comércio. Regras de origem, procedimentos aduaneiros, padrões técnicos, mecanismos de solução de controvérsias, entre outros itens, poderão ser distintos ou contraditórios dependendo de qual regime normativo será aplicado. Esse quadro de insegurança jurídica implica elevados custos de transação para os agentes comerciais. Diante dessa multiplicidade de acordos que regulam suas relações comerciais, eles muitas vezes têm dificuldades em identificar quais são seus direitos, obrigações e as preferências que vão obter exportando ou importando produtos ou serviços para ou de um país determinado.


Para recuperar sua autoridade e reorganizar o sistema multilateral, será necessário que a OMC busque soluções que possam assegurar maior articulação, convergência e coerência de suas regras com as dos acordos preferenciais. Isso só será alcançado se houver vontade política de seus países membros de atualizá-las de modo que elas também possam endereçar as novas áreas que hoje estão sendo reguladas nos acordos preferenciais de comércio.

Essa tarefa torna-se ainda mais árdua quando se tem em mente o fato de que muitas das regras da OMC não mais refletem adequadamente as formas contemporâneas de organização da produção de bens e de prestação de serviços representadas pelas operações de cadeias globais de suprimento ou de valor. O setor privado parece ter uma clara percepção dessa realidade. Sabe que a competitividade da indústria e um melhor desempenho nas exportações dependem de forma crescente da integração dos países a essas cadeias globais de produção. Como ficam então as regras de origem da OMC para o efeito de aplicação pelos países membros de imposto de importação? E as regras de defesa comercial que visam proteger a indústria nacional? Mesmo o conceito de produto nacional tenderá a ficar mais fluido.

Essas questões não poderão passar despercebidas em qualquer processo de atualização de regras que venha a ser realizado pela OMC. A julgar pelo ceticismo atual de alguns países membros, de boa parte do setor privado e agentes comerciais, será difícil reunir a vontade política necessária para enfrentar tamanhos desafios. O que se observa é o surgimento de movimentos paralelos à OMC, como o Acordo de Associação Transpacífico (Trans-Pacific Partnership (TPP). Sob a liderança dos Estados Unidos, o TPP envolve amplas negociações entre países da região Ásia-Pacífico. Seu objetivo é o de redesenhar completamente o regime internacional de comércio e investimentos. Não parece se tratar de um movimento convergente com a OMC.

Umberto Celli Junior é professor de direito internacional da USP.

A produção de petróleo da Petrobrás caiu 2,35% em 2012

 
 
Sabrina Valle e Sergio Torres, da Agência Estado

RIO - A produção de petróleo da Petrobrás caiu 2,35% em 2012, para 1,974 milhão de barris por dia (b/d), contra 2,022 milhões b/d no ano anterior, informou a Agência Nacional do Petróleo (ANP). O recuo foi pior do que o esperado.
A atual diretoria da companhia já havia admitido que a produção poderia flutuar dentro de uma margem de erro de 2% para cima ou para baixo. No entanto, o diretor de Exploração e Produção (E&P), José Miranda Formigli, havia garantido que o resultado ficaria dentro de um recuo máximo de 2%.
Em termos nacionais, durante todo o ano de 2012 foram produzidos cerca de 754 milhões de barris de petróleo e 26 bilhões de metros cúbicos de gás natural, com média de produção diária de 2,067 milhões barris de petróleo e 71,7 milhões de metros cúbicos de gás.

Em dezembro, a produção da companhia ficou em 1,958 milhão b/d, uma queda de 1,68% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Segundo a ANP, o campo de Marlim Sul, na bacia de Campos, foi o que mais produziu petróleo e o segundo com maior produção de gás, apresentando média de 346,3 mil barris de óleo equivalente por dia.

Já a produção do pré-sal aumentou 7,5% em relação a novembro de 2012, marca de 292,5 mil barris de óleo equivalente por dia.

Produção de petróleo e gás natural cai 3% em 2012

Por Rodrigo Polito, Marta Nogueira e Alessandra Saraiva | Do Rio - Valor 05/02

Em dezembro do ano passado, o Brasil produziu 4,9% menos petróleo que no mesmo mês de 2011, mas a marca de 2,105 milhões de barris/dia foi suficiente para superar em 2,9% o resultado verificado em novembro. Com isso, a produção média brasileira de petróleo em 2012 alcançou 2,061 milhões de barris diários, com redução de 2,07% em comparação com o contabilizado no ano anterior.
De acordo com o Boletim da Produção de Petróleo e Gás Natural, de dezembro de 2012, divulgado ontem pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção nacional de gás natural em dezembro, de 76,2 milhões de metros cúbicos/dia, foi recorde. O volume é 6,8% superior ao observado em dezembro de 2011.
A produção de petróleo e gás natural no Brasil, somada, totalizou 2,584 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/dia) em dezembro de 2012. O montante é 2,95% inferior ao observado em igual período do ano passado, de 2,663 milhões de boe/dia. O campo de Marlim Sul, na Bacia de Campos, registrou a maior produção em dezembro, totalizando 346 mil barris de óleo equivalente por dia.
Segundo a ANP, o volume de queima de gás natural em dezembro de 2012 foi de 4,3 milhões de metros cúbicos por dia. O montante foi 15,2% menor que o observado no mesmo mês de 2011 e 4,7% inferior em comparação com novembro do ano passado.
A produção brasileira na camada pré-sal alcançou 292,5 mil boe/dia em dezembro de 2012, com alta de 45% em relação a igual período de 2011, e de 7,5% em relação ao mês exatamente anterior. A produção de petróleo no pré-sal atingiu 242,7 mil barris por dia enquanto a de gás natural registrou 7,9 milhões de metros cúbicos por dia.
O total produzido tem origem em 15 poços, sendo dois no Campo de Jubarte; quatro no Campo de Lula; um em reservatório compartilhado pelos Campos de Caratinga e Barracuda; dois em Marlim Leste; um em reservatório compartilhado por Marlim e Voador e cinco no Baleia Azul.
 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O perigoso caminho da recuperação

 

Por Martin Wolf - Valor 31/01
 
"Nós evitamos o colapso, mas precisamos nos resguardar contra qualquer recaída. 2013 será um ano do tipo ou vai ou racha". Essas foram as palavras de Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, no Fórum Econômico Mundial, na semana passada. Ela tem razão. Empresários, políticos e especialistas em Davos deram um suspiro de alívio. Pela primeira vez desde 2007, o foco da discussão não foi a calamidade financeira. No entanto, o fato de as economias dos países de alta renda não terem caído de sua frágil ponte não garante um retorno rápido ao crescimento. Isso poderá, muito bem, acontecer. Mas ainda não está assegurado.

A confiança melhorou. Um indicador é o diferencial entre a taxa interbancária de Londres (Libor) e a taxa de swap indexado no overnight (OIS, em inglês), uma medida do risco de inadimplência em empréstimos interbancários. Esses diferenciais caíram para apenas 10 pontos base em euros e 16 pontos base em dólares americanos. Os mercados de ações também apresentam forte recuperação a partir dos mínimos atingidos em março 2009, especialmente nos EUA. Os diferenciais entre os rendimento dos títulos soberanos de países vulneráveis na zona do euro e os Bunds alemães caíram substancialmente: na Itália, o diferencial caiu de 5,3 pontos percentuais no fim de julho de 2012 para 2,6 pontos percentuais em 25 de janeiro de 2013; na Espanha, esse diferencial caiu de 6,4 para 3,4 pontos percentuais. À medida que melhorou a confiança nos títulos soberanos, melhorou também a confiança nos bancos.

A melhoria na confiança não se limita aos países de alta renda. Em seu relatório "Global Economic Prospects" de janeiro, o Banco Mundial observa que "os fluxos internacionais de capital para os países em desenvolvimento... atingiram novos máximos", que "os diferenciais entre os títulos de países em desenvolvimento... diminuíram em 127 pontos base desde junho [de 2012]", e que "os mercados de ações nos países em desenvolvimento subiram 12,6% desde junho". Isso, portanto, representa uma mudança mundial.

O que explica o crescente otimismo? Uma razão é que desastres temidos - uma ruptura da zona do euro ou uma queda dos EUA no abismo fiscal - foram evitados. Outra razão é que ocorreu um substancial ajuste pós-crise, sobretudo nos EUA, onde a alavancagem do setor privado e os preços dos imóveis sofreram um reequilíbrio significativo: por exemplo, a dívida privada nos EUA está de volta aos níveis de 2003 como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). Mas outra explicação é a crescente confiança na competência nas autoridades econômicas. Acima de tudo, os banqueiros centrais vêm utilizando há bastante tempo políticas monetárias ultraexpansionistas para aquecer as economias pelas quais serão responsáveis. A taxa referencial de juros definida pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) está em 0,25% há mais de quatro anos, e assim permanecerá por mais anos. Até mesmo o Banco Central Europeu (BCE), o mais cauteloso dos grandes bancos centrais, adotou o que teria parecido uma política irresponsavelmente frouxa em qualquer época anterior, com uma taxa de juros de 0,75% desde julho do ano passado.

Mesmo assim, o futuro parece longe de róseo. Em uma atualização de suas projeções para o "World Economic Outlook", o Fundo Monetário Internacional pintou um quadro longe de róseo: crescimento de 2% nos EUA, 1,2% no Japão, 1% no Reino Unido e - 0,2% para a zona do euro neste ano, embora as previsões para os países emergentes e em desenvolvimento sejam muito mais vigorosas, com crescimento de 5,5%. A economia mundial em duas velocidades persiste.

A grande razão para pessimismo é que os países de alta renda permanecem presos em uma depressão contida. O prolongado período de política monetária ultrafrouxa, envolvendo taxas de juro baixas e enormes expansões nos balanços dos bancos centrais, é um indicador disso.

os seis maiores países de alta renda, apenas os EUA e a Alemanha tiveram maior produção no terceiro trimestre do ano passado do que em seus picos pré-crise e, mesmo assim, o aumento foi pequeno, de 2,5% nos EUA e 2% na Alemanha. A produção na França, Japão, Reino Unido e Itália ficaram abaixo do pico pré-crise.

Na zona do euro, o BCE conseguiu eliminar o risco de cauda de uma ruptura da zona euro, conquistando apoio alemão a uma promessa de compra de títulos soberanos. O BCE foi vitorioso sem disparar um tiro.

Alguns argumentam que um recrudescimento da inflação já está à vista. Agora que o Japão aderiu à festa com sua "Abenomics" (a estratégia econômica do primeiro-ministro japonês), esse parece ser um risco maior do que antes. No entanto, duvido que esses até hoje falsos profetas provarão ter razão - temo bem mais um aperto prematuro. Mas a incerteza é grande. A capacidade das autoridades econômicas de administrar esses riscos com sucesso é duvidosa, como observou Gavyn Davies em um comentário sobre a contribuição de Mark Carney, próximo presidente do Banco de Inglaterra, perante um painel em Davos.

Mas também há razões para otimismo sobre o futuro. As economias emergentes têm revelado um dinamismo sustentado, ainda que tenha havido decepções. Com o reequilíbrio ocorrido, bem como devido a uma revolução energética, os EUA poderão surpreender positivamente. O Japão poderá escapar da estagnação deflacionária. Por fim, o retorno do capital privado à periferia da zona do euro poderá iniciar uma espiral virtuosa ascendente de confiança e gastos. A chave para o sucesso em todos os países dependerá da escolha do momento exato de abandonar as políticas excepcionais.
As autoridades econômicas reagiram com sucesso. No caso da zona do euro, elas quase agiram tarde demais. No fim das contas, porém, o BCE prometeu ação. Essa promessa revelou-se extremamente eficiente - até agora. Uma chance de um retorno ao crescimento sustentado está agora emergindo, embora no mais baixo grau, na Europa. Substancial apoio fiscal e monetário ainda são essenciais. Se as autoridades econômicas mantiverem a sustentação, o mundo poderá estar muito mais perto de uma recuperação total daqui a um ano. (Tradução de Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

 
http://www.valor.com.br/opiniao/2988612/o-perigoso-caminho-da-recuperacao#ixzz2JfQMcWys