segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Contração fiscal expansionista?


Por Luiz Fernando de Paula e Manoel Carlos C. Pires - Valor 10/12

O interesse dos economistas sobre o impacto da política fiscal no crescimento econômico foi renovado após a crise financeira internacional. Inicialmente, a discussão sobre a eficácia dos estímulos fiscais resultou em um debate que acabou por levar a uma polarização de posições a favor ou contra tais políticas. Em um segundo momento alguns países iniciaram um processo de consolidação fiscal, resultando em outra controvérsia: alguns defendiam a ideia de que a retirada de estímulos era prematura e que a economia desaceleraria; outros defendiam que a retirada era necessária para não ensejar uma trajetória de insustentabilidade da dívida pública.

A breve recuperação econômica mundial iniciada em 2010 deu vida curta ao primeiro debate, na medida em que a maioria dos países desenvolvidos iniciou um processo de consolidação fiscal. De acordo com as novas evidências, não por coincidência, a atividade econômica voltou a desacelerar, trazendo à tona a inconveniência desse processo.

A ideia de que as contrações fiscais podem ser expansionistas obteve respaldo empírico a partir de uma série de estudos que justificavam esses efeitos a partir da ideia de que uma contração fiscal seria capaz de aumentar a confiança do setor privado e estimular novas decisões de consumo e investimento por meio de um efeito "crowding in" sobre o gasto privado.

Essa linha de pesquisa foi liderada pelo economista Alberto Alesina com outros colaboradores, que identificaram em vários países os momentos de grande consolidação fiscal e correlacionaram esses eventos com a dinâmica do Produto Interno Bruto (PIB) no momento seguinte ao do ajuste fiscal. Os autores encontraram evidências de que os países que praticaram consolidações fiscais expressivas obtiveram melhor desempenho econômico.

O impacto que essa literatura teve na política econômica foi notável. Por exemplo, o novo governo britânico conservador, que tomou posse em 2010, colocou a redução do déficit público como objetivo central da sua política econômica, entendida como fundamental para assegurar a recuperação econômica do país, ao estimular a confiança do setor privado.

Na realidade, o respaldo empírico que essa literatura deu foi bastante frágil. Em primeiro lugar, essa literatura nunca foi além de identificar padrões de correlação ao invés de causalidade. É claramente factível que o crescimento econômico tenha sido responsável pela melhoria dos resultados fiscais. Quando esse tipo de controle é feito, os resultados não respaldam a conclusão da contração fiscal expansionista.

Em segundo lugar, está o problema de omissão de variável relevante: tanto o resultado fiscal quanto o comportamento do PIB podem ter sido influenciados por uma terceira variável omitida. Em matéria de política fiscal esses exemplos são abundantes, como a elevação do preço das commodities, a evolução mais favorável da taxa de câmbio em países exportadores, o relaxamento da política monetária, etc. Quando esses efeitos são considerados, os resultados se alteram, passando as contrações fiscais a produzirem efeitos contracionistas.

A partir desses novos resultados, a literatura tem dado maior atenção aos potenciais efeitos expansionistas da política fiscal, buscando entender em quais situações esse efeito pode ser maximizado.

Existem várias metodologias atualmente que procuram estimar o impacto da política fiscal sobre a atividade econômica. Uma tentativa que tem resultado em multiplicadores elevados é a que busca identificar, a partir de registros históricos, o momento e a magnitude exata de uma expansão fiscal. Ramey, no artigo "Identifying government spending shocks: it's all in the timing", mostra que é importante separar o componente da política fiscal que é antecipado pelos agentes daquele que não é.

Essa distinção ajuda a entender as diferenças entre resultados neoclássicos (próximos a resultados antecipados) e keynesianos (próximos de resultados não antecipados). Assim, buscando identificar os efeitos dos choques de gastos governamentais, realiza sua análise para um período mais longo da economia americana entre 1939 e 2008 e conclui que os multiplicadores situam-se entre 0,6 e 1.

Uma abordagem alternativa é a que utiliza modelos não lineares para identificar o impacto da política fiscal, que passa a variar conforme o estágio do ciclo econômico ou mesmo conforme a regra de política monetária - nesse último caso, se a mesma compensa ou chancela a política fiscal. Auerbach e Gorodnichenko, no artigo "Measuring the output responses to fiscal policy", analisam essa questão para a economia norte-americana no período 1947 e 2009 por meio de um modelo que relaciona o tamanho do multiplicador conforme o ciclo econômico e concluem que o multiplicador fiscal pode variar entre -0,3 e 3,6, sendo maior em períodos de recessão econômica.

Concluindo, as evidências são amplamente favoráveis à adoção de políticas fiscais expansionistas para combater recessões e períodos de baixo crescimento econômico. No entanto, alguns países - como o Reino Unido a partir de 2010 e EUA a partir de 2011 - adotaram a consolidação fiscal com o argumento de que era necessário controlar suas dívidas. Na prática, esses países não tinham graves problemas de financiamento, tendo a contração fiscal sido de fato prematura, o que dificultou a recuperação econômica. Por conta dessas evidências, a situação econômica internacional deverá ser agravada caso a política fiscal americana seja revisada no próximo ano, a fim de provocar a forte contração fiscal que ficou conhecida como "abismo fiscal".



Luiz Fernando de Paula é professor titular da Faculdades de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE/UERJ). E-mail: luizfpaula@terra.com.br.



Manoel Carlos de Castro Pires é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cedido para a Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda. E-mail: manoel.pires@ipea.gov.br.

BC sinaliza mais intervenções no câmbio




Valor 10/12

O mercado começa a segunda-feira à espera de novas intervenções do Banco Central no câmbio. Isso porque a autoridade monetária contactou os bancos "dealer" para realizar pesquisa de demanda por contratos de swap cambial tradicional (que têm o efeito de uma venda de dólar futuro) e contratos de linha de dólares (no qual o BC vende moeda com compromisso de recompra no futuro) no fim do pregão da sexta-feira.

A sinalização ocorreu nos minutos finais da sessão, quando a moeda acelerou a leve alta que marcava para fechar com ganho de 0,58%, a R$ 2,091. A valorização pôs fim à maior sequência de baixas da moeda americana desde o início de agosto, mas não foi suficiente para reverter a desvalorização acumulada na semana, de 1,88%, determinada pelas medidas do governo.

Parte da alta veio de investidores buscando recuperar as perdas da semana, além de outros que tentaram assumir posições mais defensivas antes do fim de semana. "Na sexta-feira o pessoal não gosta de se expor muito, e volta a comprar", disse Reginaldo Siaca, superintendente de câmbio da Advanced Corretora.

Após todas as intervenções da semana passada, a dúvida que paira sobre o mercado é relativa a qual o nível que o governo considera ideal para o dólar. "Que [o câmbio] é administrado, já está dado. A questão é em que nível. Agora, talvez R$ 2,07, R$ 2,08, seja um ponto desejado, mas no ano que vem pode ser mais para os R$ 2,10", disse um operador.

As taxas de juros negociadas na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) também passaram por ajustes na sexta-feira. Depois de cair entre os pregões de segunda a quinta-feira, em movimento intensificado pela ata do Copom, os contratos recompuseram na última sessão parte do forte recuo que sofreram até a véspera, quando a movimentação foi recorde.

Parte da correção se deveu ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal referência do Banco Central para conduzir a política de juros, que avançou 0,60% em novembro, acima do teto das estimativas colhidas pelo Valor Data, de 0,52%.

O estrategista para América Latina do BofA Merrill Lynch, David Beker, disse que apesar de incertezas sobre o horizonte inflacionário, não se pode descartar um novo corte dos juros. "Se eventualmente os próximos movimentos de atividade continuarem surpreendendo ou a recuperação não se acentuar, então pode haver um corte. Mas, com as informações que se tem hoje, o mercado parece ter exagerado", diz.

Há gordura no câmbio’, aponta diretor do Banco Central


da Agência Estado

RIO - Há gordura no câmbio, porque o dólar está cotado acima do modelo do Banco Central, de acordo com o diretor de Política Monetária do BC, Aldo Mendes. Embora tenha negado que o governo trabalhe com uma meta cambial, ele declarou que a autoridade monetária e o mercado como um todo trabalham com modelos de referência para a moeda. "Dólar sempre gera um debate muito grande. São muitas as variáveis para explicar o câmbio."

Para garantir liquidez, o BC estaria disposto a atuar por meio do mercado à vista e de derivativos, informou Mendes. "O BC está pronto para garantir a liquidez necessária. Iremos oferecer a moeda que a economia demandar."


Sobre o valor do real diante do dólar, Mendes refutou a ideia de que o BC trabalha para manter as cotações dentro de uma determinada faixa de flutuação, chamada pelo mercado de banda cambial. "A taxa flutua."

Segundo ele, a estratégia é oferecer liquidez para o fim do ano, época em que faltam dólares, por motivos "sazonais", nas palavras do diretor do BC. "Fim de ano é sempre período de baixa liquidez e o BC está preparado para oferecer liquidez. Não faltará dólar", completou.

Na avaliação dele, as reservas internacionais dão segurança para atuar no mercado à vista enquanto uma posição "leve" no mercado de derivativos facilita.

Metas de inflação

O regime de metas de inflação não mudou, "em absoluto". "O regime de metas continua. A ata (da reunião do Comitê de Política Monetária) continua válida. Todo o trabalho de perseguir o centro da meta continua como antes", afirmou Mendes nesta segunda-feira no seminário Reavaliação do Risco Brasil, promovido pelo Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio.

Segundo Mendes, o nível atual da taxa básica de juros, a Selic, é adequado para a convergência da inflação ao centro da meta. O diretor do BC voltou a repetir a ideia de que essa convergência, no entanto, pode se dar de forma "não linear".

Após participar do seminário, afirmou ainda a jornalistas que o governo atua para melhorar as condições de financiamento das empresas. Ele não quis, entretanto, antecipar qualquer nova medida nesse sentido.














quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Produção de petróleo em outubro reage mas ainda é inferior em 4% em relação ao ano anterior


A produção média foi de aproximadamente 2.011 Mbbl/d de petróleo e de 73 MMm3/d de gás natural, totalizando 2.470 Mboe/d, um recorde na produção de gás natural, superando a de junho de 2012 (72 MMm3/d). Marlim Sul, na Bacia de Campos, foi o campo com maior produção, apresentando média de 326,8 Mboe/d. Aproximadamente 90% da produção de petróleo e 76,7% da de gás natural foram explotados de campos marítimos e cerca de 94% tem origem em campos operados pela Petrobras.

A produção no pré-sal foi de 181,6 Mbbl/d de petróleo e 5,6 MMm3/d de gás natural, totalizando 216,7 Mboe/d, uma queda de 1,5% em relação a setembro. Ainda assim, ficou acima dos 200 Mboe/d pelo quarto mês consecutivo. Esta produção foi oriunda de 14 poços, sendo 1 localizado no campo de Jubarte, 5 no de Lula, 1 no de Marlim Leste, 1 no de Barracuda, 4 no de Baleia Azul, 1 em reservatório compartilhado pelos campos de Caratinga e Barracuda e 1 em reservatório compartilhado pelos campos de Marlim e Voador.

A queima de gás natural foi de 4,5 MMm3/d , uma redução de 1,6% em relação a setembro. Levando-se em conta apenas as concessões em fase de produção, o aproveitamento de gás natural no mês foi de 94,3%. Do total de gás natural queimado, 92,4% é oriundo de concessões na fase de produção e 7,6% de TLDs da fase de exploração.

A produção de petróleo e gás natural no Brasil foi oriunda de 9.027 poços, sendo 771 marítimos e 8.256 terrestres. O campo com o maior número de poços produtores foi Canto do Amaro, na bacia Potiguar, com 1.111 poços. Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, 2 são operados por empresas com capital majoritário estrangeiro: Peregrino / Statoil (9º) e Ostra / Shell (18º). O grau API médio do petróleo extraído em outubro foi de aproximadamente 24o, sendo 9% de óleo leve (>=31o API), 57% de óleo médio (>=22o API) e 34% de óleo pesado (<22o api="api">


A intermediação financeira e o PIB


Por Bráulio Borges - Valor 06/12

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou, sexta-feira, que o Produto Interno Bruto (PIB) da intermediação financeira, seguros, previdência complementar e serviços relativos - que responde por cerca de 6% do total do PIB brasileiro sob a ótica da oferta - apresentou no terceiro trimestre deste ano a maior queda dessazonalizada desde o último trimestre de 2008. Na comparação com o terceiro trimestre de 2011, houve uma variação negativa de 1% - algo que não se observava desde o terceiro trimestre de 2004.

O IBGE atribuiu esse desempenho à queda da taxa básica de juros (Selic) e do spread bancário e ao aumento da inadimplência observada no período.

Em um artigo publicado terça-feira no Valor ("A queda da Selic reduziu o PIB?"), o ex-presidente do Banco Central (BC), Francisco Lopes, questiona os resultados apresentados pelo IBGE para a evolução desse componente do PIB. Ele propõe um cálculo alternativo para a intermediação financeira - com a variação em volume desse componente sendo dada pela evolução conjunta das operações de crédito e do agregado monetário M4, deflacionados pelo deflator implícito do PIB ex-intermediação financeira (seguindo aquilo que é feito em vários outros países).

Fiquei curioso em saber se esse eventual recálculo mudaria muito a dinâmica do PIB nos últimos trimestres. Desse modo, reconstruí a série do PIB total com esse cálculo alternativo da evolução do volume da intermediação financeira (considerando como base o ano de 2000, que é o atual ano de referência das contas nacionais brasileiras). O gráfico 1 compara a evolução anual do PIB total oficial com o PIB recalculado (para 2012, a variação corresponde ao acumulado até o terceiro trimestre).

Como pode ser notado, até 2010 as diferenças entre os dois cálculos eram relativamente pequenas: na média de 1997 a 2010, o PIB recalculado foi 0,1 ponto percentual superior ao PIB apurado pelo IBGE (e a maior diferença entre eles, em termos absolutos, foi de 0,4 ponto percentual em 1998).

Não obstante, de 2011 em diante essa diferença passou a se aprofundar. O PIB de 2011 recalculado foi 0,5 ponto percentual maior do que os 2,7% aferidos pelo IBGE; e, neste ano, essa diferença subiu a 1 ponto percentual. Interessante notar que, nesse período, o spread bancário e a Selic subiram muito (até meados de 2011) e depois caíram bastante.

Na série dessazonalizada há também uma diferença relevante de 2011 para cá, como aponta o gráfico 2. No terceiro trimestre de 2012, por exemplo, a alta anualizada do PIB beirou os 4% (contra os 2,4% ao ano efetivamente apontados pelo IBGE), vindo de uma virtual estagnação no terceiro trimestre de 2011 e de um ritmo de crescimento na faixa de 1,5% a 2% ao ano no fim do ano passado e na primeira metade deste ano.

Nessa série dessazonalizada, caso o PIB do quarto trimestre cresça no mesmo ritmo do terceiro trimestre, a alta anual chegaria a 2% (contra o 1,2% projetado pela LCA para o PIB efetivo) 1.

É bem verdade que o IBGE não deverá rever sua metodologia atual para o cálculo desse componente do PIB pelo menos até o final de 2014 ou começo de 2015 - período para o qual está programada a divulgação de uma nova revisão geral das contas nacionais brasileiras (nos moldes da feita em 2007), com séries retroagindo pelo menos até 2000.

Mas é importante ter em mente, como destacado pelo Chico Lopes, que o PIB oficial do IBGE pode estar passando uma impressão de que a economia não está reagindo à enorme quantidade de estímulos monetários, fiscais e creditícios colocados em prática desde o final de 2011. Isso pode levar as autoridades a implementar novas medidas - lembrando que muitas delas ainda não estavam em vigor plenamente durante o terceiro trimestre deste ano - com algumas começando a valer somente no começo de 2013, como a desoneração da folha para 25 setores e a redução do preço da energia elétrica, dentre outras -, o que pode aumentar o risco de um superaquecimento na virada de 2013 para 2014.

Ignorar essa questão pode também dar margem a interpretações de que o modelo de crescimento brasileiro está esgotado, de que estamos presos em uma armadilha de baixo crescimento e que nosso potencial despencou de quase 4% ao ano para perto ou abaixo de 3% de um ano para outro.

1 Alguns poderiam fazer o seguinte questionamento: tudo bem, essa questão da intermediação financeira pode de fato estar subestimando a evolução do PIB, especialmente no terceiro trimestre de 2012. Por outro lado, o fato de as importações brasileiras estarem subestimadas em cerca de US$ 6 bilhões desde meados de 2012 por conta do atraso da contabilização, pela Petrobras, de operações de compras de combustíveis (como reflexo de uma instrução normativa da Receita Federal datada de 16 de julho) poderia atuar na direção contrária, compensando isso. Trata-se de uma avaliação equivocada, já que o IBGE mede o PIB brasileiro para todos os componentes da oferta, mas não pelo lado da demanda (tanto o Consumo das Famílias como, principalmente, a Variação de Estoques, possuem um componente grande relacionado a erros e omissões, de modo a garantir que a demanda seja exatamente igual à oferta, respeitando a identidade básica das contas nacionais). Com efeito, a correção dos dados de importações não mudaria o PIB total, mas apenas a distribuição entre os componentes da demanda.



Bráulio Borges é economista-chefe da LCA Consultores. Este relatório contém análises e avaliações pessoais, que não necessariamente refletem a opinião institucional da LCA.

Política energética dos EUA


Por William H. Janeway - Valor 06/12

Há mais de 30 anos, o primeiro choque do petróleo parecia trazer a oportunidade para que os Estados Unidos mobilizassem recursos sob a bandeira da independência energética. O então presidente Carter propôs a criação do Departamento de Energia no fim de 1976. A ideia era obter a independência energética por meio de investimentos maciços que possibilitassem reduzir o consumo e aumentar a produção doméstica de fontes alternativas.

A missão, que constituía "o equivalente econômico a uma guerra", fracassou assim que os preços do petróleo recuaram no fim da década. Ambos os programas e sua lógica básica foram deixados de lado, em grande medida pelo governo Reagan.

Nos dias de hoje, a missão legitimadora é reagir às mudanças climáticas, reduzindo a produção de carbono. A tentativa do presidente Obama de catalisar amplos investimentos em ciência e engenharia, no entanto, vem sendo adiada e marginalizada.

A invocação por Obama do "momento Sputnik" certamente teve boas intenções, mas se defronta com muito mais do que o critério imposto de eficiência econômica, no contexto da austeridade fiscal. Desta vez, a rejeição ideológica é mais profunda.

É preciso perguntar-se: Esses que bloqueiam iniciativas necessárias do governo o fazem por duvidarem da ciência? Ou negam a ciência porque a aceitação legitimaria a ação do Estado?

Apesar de tais construções e distorções ideológicas, a configuração da nova economia já pode ser definida em traços gerais. Assim como a economia digital, que a precede e que ainda estamos aprendendo a explorar e aproveitar ao máximo, essa economia de baixa emissão de gás carbônico apenas pode ser desenvolvida tendo como base investimentos públicos substanciais e com regras de atuação acertadas entre os setores públicos e privados.

É impreciso acreditar que os frutos das tecnologias digitais que estão sendo colhidos agora foram todos criados pelo setor privado. Chegar a esse ponto exigiu uma grande dose de investimentos públicos por um longo período de tempo.

Por que deveríamos esperar que a situação venha a ser diferente quando finalmente resolvermos os desafios para alcançar uma nova economia de baixa emissão de gás carbônico?

Para alcançar essa fronteira das inovações necessárias no campo energético, ainda há muita ciência por fazer. Uma série de tecnologias - baterias e células solares e células de combustível, entre elas - exige investimentos extensos para melhorar tanto o desempenho absoluto como a relação entre desempenho e custo.

Também está claro que não se pode esperar nenhum investimento significativo do setor privado nessa nova infraestrutura - e muito menos os financiamentos especulativos necessários para financiar a aplicação das novas tecnologias energéticas em grande escala -, enquanto o retorno sobre esses investimentos estiver exposto à volatilidade dos mercados de fontes de energia convencionais.

Apenas a ação pública coletiva - perspectiva longe de estar visível nos EUA hoje - pode proteger as novas tecnologias energéticas alternativas e acelerar o desenvolvimento da eficiência térmica, necessário para concorrer com as fontes convencionais.

Enquanto o impasse político paralisar Washington, há poucos motivos para acreditar que a próxima nova economia terá os EUA como origem. Ao contrário, o espetáculo dos EUA levando a China à Organização Mundial do Comércio (OMC) por supostamente subsidiar a inovação em tecnologias mais limpas é tanto revelador quanto humilhante.

Para perceber as implicações antitecnologia, anti-inovação e antiprogresso dessa estratégia diplomática dos Estados Unidos, imaginem, primeiro, que houvesse uma instituição com estatutos similares à OMC há 50 anos. Os governos europeus estariam em posição para bloquear progressos tecnológicos da mesma forma que os EUA vêm fazendo agora.

Imaginem: os europeus teriam direito a atacar o comprometimento dos EUA em apoiar tecnologias que tornaram a revolução digital possível - e é concebível pensar que eles poderiam tê-la restringido materialmente. Este país teria ficado mais pobre por isso, assim como todo o mundo. Esse exemplo deveria ser claro o suficiente para impedir-nos de continuar seguindo esse rumo desastroso de obstrução à inovação.

Nossa preocupação, hoje, deveria ser nosso fracasso em agir, não as iniciativas chinesas. Em 2010, o investimento da China em tecnologias de energias mais limpas foi estimado em US$ 54,4 bilhões, mais de 50% acima dos Estados Unidos. O comprometimento financeiro de nossa nação com o que deveria ser uma iniciativa prioritária é apenas simbolicamente significativo.

O financiamento para o primeiro ano da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada - Energia (Arpa-E, na sigla em inglês) foi de US$ 400 milhões, incluídos na lei de Reinvestimento e Recuperação dos EUA, de 2009. Essa quantia foi reduzida a US$ 180 milhões no orçamento para o ano fiscal de 2011.

Enquanto as restrições ao orçamento federal com ciência parecem ser algo inevitável, os líderes chineses vão elevar os gastos federais em pesquisa para mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), aproximadamente o mesmo nível dos EUA no pós-guerra.

O próximo país a encabeçar a economia da inovação pode tirar lições do exemplo dos EUA pós-Segunda Guerra Mundial - e a China vem fazendo exatamente isso.

A liderança chinesa compreende plenamente que o líder precisa começar com os bastiões da autonomia: dinheiro e controle. Apenas um país posicionado, como a China está agora, com US$ 3 trilhões em reservas internacionais poderá resistir às demandas persistentes de alocar fundos públicos apenas em projetos que sejam comprovadamente "úteis e produtivos". Em outras palavras, que cumpram só os testes de eficiência "estática" e não "dinâmica".

Historicamente, desde a construção do Canal de Erie até a internet, por meio de redes ferroviárias ou elétricas e superestradas, a economia dos EUA chegou à liderança graças ao apoio público a investimentos de risco privados, nas fronteiras da inovação tecnológica.

É essa a história que estamos ignorando, diante do desafio existencial desta geração: mobilizar recursos na escala necessária para criar uma economia de baixa emissão de gás carbônico para nosso benefício, e de todo a humanidade, no longo prazo. (Tradução de Sabino Ahumada)



William H. Janeway é diretor-gerente e assessor sênior da Warburg Pincus e autor de "Doing Capitalism in the Innovation Economy" (Fazendo capitalismo na economia da inovação, em inglês).

Reservatórios atingem pior nível desde 2001, aponta ONS


Valor 06/12
Os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por cerca de 70% da capacidade de armazenamento do país, tiveram o pior início de dezembro desde 2001, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O nível de armazenamento das usinas das duas regiões começou o mês apenas 6,7% acima da curva de aversão ao risco - indicador que garante o atendimento pleno da demanda do país. Na terça-feira, o índice caiu para 6%.

Apesar de o país estar no início do período chuvoso (que começa em novembro e termina em abril), com a possibilidade de elevação do nível dos reservatórios e de redução do risco de racionamento, a tendência é que o ano de 2013 seja mais crítico, porque não há garantias de que a chuva vai recompor os reservatórios a níveis satisfatórios.

"Passamos por um ano de chuvas muito abaixo da média. Em janeiro, tínhamos a previsão de que seria um ano tranquilo. Em fevereiro, esperávamos uma chuva 20% acima da média, mas veio 15% abaixo. Em março, [a chuva]

veio 40% abaixo da média. Foi assim o ano inteiro", afirmou o presidente da comercializadora Comerc, Cristopher Vlavianos.

Segundo o executivo, quando há uma queda muito acentuada do nível dos reservatórios em um determinado ano, é preciso um regime de chuvas intenso no ano seguinte para recuperar a capacidade de armazenamento de água. "Mas a meteorologia está com previsões bem aquém do que gostaríamos", ressaltou ele.

A expectativa do Operador Nacional do Sistema para dezembro é de um volume de chuvas 4% acima da média histórica para o mês. Nesta primeira semana, no entanto, o índice de chuvas correspondeu a 61% da média para o período.

O quadro para 2013 é agravado pelo fato de o sistema brasileiro estar perdendo a capacidade de regularização dos reservatórios. Isso porque o consumo de energia vem crescendo ao longo dos anos e as hidrelétricas que estão entrando em operação são a "fio d'água" - sem reservatório de acumulação. Com isso, a relação entre toda a energia "armazenável" nos reservatórios e a demanda do país caiu de 6,7, no ano 2000, para 4,5, em 2011, de acordo com dados do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Também chama a atenção dos agentes o aspecto operacional do sistema, já que as hidrelétricas iniciaram 2012 com o maior nível de armazenamento dos últimos dez anos e perderam o estoque rapidamente.

A situação é semelhante à que ocorreu em 2010. Naquele ano, os reservatórios iniciaram o ano em níveis muito elevados e fecharam o período com níveis bastante reduzidos, devido ao atraso na decisão de ligar as usinas termelétricas.

Em setembro deste ano, o Operador Nacional do Sistema identificou que as usinas térmicas precisavam ser acionadas para fins de segurança e manutenção dos reservatórios, o que implicaria custo adicional para o consumidor. As usinas, porém, não foram ligadas naquele momento, quando a presidente Dilma Rousseff anunciava o pacote de redução de tarifas de energia, durante as campanhas eleitorais municipais.

No fim de novembro, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema, Hermes Chipp, havia afirmado que a expectativa era desligar as termelétricas a partir deste mês. O operador, porém, reviu a estratégia e encaminhou ao Ministério de Minas e Energia documento solicitando a permanência da operação de todas as termelétricas.

Essas usinas, que possuem capacidade instalada praticamente igual à de Itaipu (14 mil MW), estão gerando hoje 13.200 MW médios, o equivalente a 21,7% de toda a energia que foi consumida pelo país.

Para o presidente da consultoria Andrade & Canellas, João Carlos Mello, todas as termelétricas, inclusive aquelas a óleo combustível e diesel, mais caras e poluentes, deverão operar até março. "Evidentemente depende do volume de chuvas de janeiro e fevereiro, mas acredito que as térmicas vão rodar, para segurar a água que vai entrar", explicou.

O cenário crítico já é refletido nos preços negociados no mercado livre de energia. Os contratos com início de entrega em janeiro de 2013, com um ano de duração, estão sendo negociados, em média, a R$ 140 por MWh. Em meados de 2012, o mesmo contrato era fechado a R$ 90 por MWh. Os contratos de três meses de duração, de janeiro a março de 2013, estão sendo negociados a R$ 165 por MWh.

O gerente de risco e inteligência de mercado da comercializadora Ecom Energia, Carlos Caminada, acredita que, após cair 34%, nesta semana, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) - que baliza o preço do mercado de energia de curto prazo - deve sofrer nova alta na próxima semana. "Estamos verificando que a chuva prevista pelo modelo não se realizou. E não há previsão de chuva significativa para a próxima semana", afirmou.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

"Exportação" de plataformas de petróleo diminui déficit


Valor 04/12

De Brasília

A entrega de plataformas de exploração de petróleo para extração no país, tradicionalmente contabilizada como exportação por envolver pagamentos a empresas registradas no exterior, minimizou o impacto do aumento das importações e permitiu ao governo registrar um déficit de apenas US$ 186 milhões no comércio exterior em novembro. As "exportações" de plataformas para os campos de petróleo renderam US$ 670 milhões neste mês. É o segundo mês, no ano, em que o país importa mais do que exporta. Desde o ano 2000 não havia déficit em um mês de novembro. Sem as plataformas, o déficit teria chegado a US$ 843 milhões.

O Ministério do Desenvolvimento lembra que o impacto final nas contas de comércio exterior do ano é reduzido, já que as partes e equipamentos, que representam 60% do total do valor das plataformas, entram no país também como importação.

As peculiaridades dos registros no setor de petróleo para as estatísticas de comércio também afetaram a conta de importações, já que uma instrução normativa da Receita alterou em junho o prazo de registro das importações e petróleo e derivados realizadas nos meses anteriores, e boa parte dessas importações foi contabilizada em novembro. O ministério não calculou, ainda, quanto das importações de petróleo e derivados registradas em novembro são operações feitas nos meses anteriores.

A importação de combustíveis e lubrificantes pulou dos US$ 3,5 bilhões em novembro para US$ 4,7 bilhões em novembro deste ano, bem acima dos US$ 2,3 bilhões de outubro. O aumento, comparadas as médias diárias de importação de petróleo e derivados, foi de 32% em relação a novembro de 2011 e 125% em relação a outubro deste ano. Segundo a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, a Petrobras informou ter realizado "boa parte" dos registros que faltavam no mês passado, já que, até o fim do ano, teria de contabilizar todas feitas as compras até novembro.

O resultado final do mês permitiu a Tatiana Prazeres, falar em "certo equilíbrio" em relação às importações e exportações no mês. No ano, o país acumula um superávit de US$ 17,2 bilhões, 34% abaixo do registrado no mesmo período de 2011, mas longe das perspectivas mais pessimistas, que chegavam a apontar uma queda para US$ 3 bilhões no saldo deste ano. Tanto as exportações quanto as importações só ficaram abaixo dos valores do ano passado. Novembro foi o primeiro mês do ano em que as importações superaram o patamar de US$ 1 bilhão diário.

Com a venda das plataformas, as exportações de manufaturados tiveram comportamento excepcional, com aumento de 5% em novembro (comparado ao mesmo mês de 2011). A exportação de produtos básicos, que somou 43% do total, caiu 12%, apesar das vendas externas recorde de milho, que, com a seca nos Estados Unidos e a carência mundial do produto, aumentaram 311% em relação ao registrado em novembro de 2011 e chegaram a US$ 1,1 bilhão. Também aumentaram sensivelmente as exportações de minério de cobre (44%) e farelo de soja (33%).

Na comparação com outubro, o minério de ferro, um dos principais responsáveis pelo mau desempenho do comércio exterior no ano, mostrou ligeira recuperação, tanto nos preços quanto nas quantidades vendidas, que foram, em novembro, respectivamente, 9,7% e 0,1% superiores aos registrados no mês anterior. Comparada com a de novembro de 2011, porém, a média diária das vendas externas de minério de ferro caiu 12% no mês passado. As quedas nas exportações de café em grão (34%), soja em grão (81%) e carne de frango (13%) contribuíram para o pior desempenho das vendas de produtos básicos em relação ao mesmo mês do ano passado.

As operações com plataformas marítimas não foram as únicas a permitir uma melhora no desempenho das vendas externas de manufaturas, em novembro. Houve aumento de 73% na média diária das exportações de aviões, que acumularam US$ 643 milhões no mês, de 48% para aços laminados planos (US$ 161 milhões no mês), 83% para vendas de óleos combustíveis e 17% para exportações de açúcar refinado. As vendas de laminados planos não foram suficientes para compensar a queda nas exportações do produto entre janeiro e novembro, que chegou a 19%.

Afetadas por barreiras argentinas e pela competição de outros fornecedores no exterior, caíram as vendas do setor automotivo: queda de 37% nas exportações de automóveis, de 9% para autopeças, 32% para motores e 6% para veículos de cargas.

"Quando consideramos o resultado recorde de 2011, a variação ainda está, de alguma maneira, dentro do patamar do ano recorde", comentou com otimismo a secretária de Comércio Exterior. As exportações acumuladas entre janeiro e novembro, de US$ 223 bilhões, ficaram quase 5% abaixo do valor acumulado no mesmo período do ano passado. A queda chega a 5,6%, se comparadas as médias diárias. O resultado está, porém, 21% acima do total das exportações entre janeiro e novembro de 2008, até então o segundo melhor para o período.

As importações acumuladas no ano, de quase US$ 224 bilhões, foram 1,1% inferiores ao resultado de 2011. Comparadas as médias diárias, a queda foi um pouco maior, de 2% em relação ao período janeiro-novembro de 2011. Com a queda maior nas exportações que nas importações, o saldo comercial brasileiro deve ficar abaixo de US$ 20 bilhões neste ano, só acima do verificado em 2010, nos últimos dez anos, mas bem acima dos US$ 11,4 bilhões de 2002. Pelas projeções do Banco Central, o saldo positivo nas operações de comércio exterior deve chegar a US$ 18 bilhões em 2012. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais otimista, aposta em US$ 19,7 bilhões.

Voltarão os investimentos?



Por Antonio Delfim Netto - Valor 04/12

Segundo os cálculos do IBGE, o crescimento do PIB no terceiro trimestre de 2012 sobre o segundo trimestre foi da ordem de 0,6%, depois da correção sazonal. Anualizado, anda às voltas de 2,4%. O desencanto geral refere-se menos à taxa que vem caindo desde o primeiro semestre de 2011, quando se mede através do crescimento acumulado nos últimos quatro trimestres (como se vê abaixo), e mais à surpresa do número.

Para relativizar o resultado, é preciso considerar que as altas taxas de crescimento iniciais ainda refletem a comparação com as vigentes ao longo de 2008-2010 depois da grave crise iniciada com a falência do Lehman Brothers, e que nos levou a uma taxa de crescimento negativa no terceiro trimestre de 2009.

A brutal flutuação da nossa taxa de crescimento (6,4% no primeiro trimestre de 2008, -1,4% no terceiro de 2009 e 7,6% no terceiro de 2010) esconde o fato de que nunca crescemos consistentemente mais do que 4% ao ano no período de 2003 a 2012, ou mais do que 3% entre 1995 e 2002. O administrador deve aprender que não deve brigar com os números. Por mais desagradáveis que sejam, eles são o passado. Estão dados. O que não está dado é o futuro! Esse depende da capacidade do governo de cooptar o setor produtivo privado para aumentar os investimentos.

O resultado revelou o conhecimento precário da realidade tanto das autoridades como dos famosos "analistas financeiros", que se supõem portadores de um "conhecimento científico". Todos agem de acordo com o velho axioma: o erro coletivo é inofensivo para reputação do agente!

Todos (inclusive quem escreve esta coluna) estávamos convencidos de que o crescimento entre o terceiro e o segundo trimestres seria parecido com 1%, e acreditávamos que dispúnhamos de "indicadores antecedentes" de boa qualidade. Agora só resta uma saída para salvar a cara perdida: é que o IBGE tenha errado feio, o que, honestamente, é pouco provável.

Mas ainda há esperança. Mesmo decepcionantes, os números revelam que a situação está melhorando. Enquanto no terceiro e quarto trimestres de 2011, e no primeiro de 2012, a taxa de crescimento com relação aos anteriores, corrigida pela variação estacional, ficou estável em 0,1% (o que sugere um crescimento anualizado de 0,4%), no segundo trimestre deste ano com relação ao primeiro, o crescimento foi de 0,2%, sugerindo um crescimento anual da ordem de 0,8%, e o do terceiro trimestre de 0,6%, o que leva à estimativa para um crescimento anualizado de 2,4%.

Se os efeitos de todos os estímulos já dados forem capazes de acordar o "espírito animal" dos empresários, talvez possamos ter um crescimento de 0,8% no quarto trimestre sobre o terceiro, o que nos levaria a deixar para trás o difícil 2012, rodando a uma taxa anualizada de 3,6%!

O fato realmente trágico das contas nacionais de julho-setembro de 2012 é que elas revelam o quinto trimestre consecutivo de redução do nível de investimentos. O problema é que nem a bem-sucedida política de queda da taxa de juros real, nem o controle do movimento de capitais, que levou a uma recuperação da taxa de câmbio, nem os incentivos fiscais, alguns da maior importância no longo prazo, como é o caso da desoneração da folha de salários, nem o excepcional esforço através do BNDES, nem os estímulos à inclusão social, que asseguram um aumento da demanda, foram capazes de mobilizar os investidores privados.

A verdade é que a resposta ao ativismo do governo, em geral na direção correta, foi, infelizmente, acompanhada de ruídos de comunicação por parte dos agentes públicos que interagem com o setor privado no campo fundamental da infraestrutura.

Frequentemente eles manifestam alguma prepotência e muita idiossincrasia, o que tem comprometido a relação de confiança que deve prevalecer entre o setor público e o privado. Obviamente, o primeiro pode e deve fixar as regras do jogo com lógica aceitável numa economia de mercado, mas o segundo tem todo o direito de exigir que sejam de máxima clareza, transparentes e respeitadas.

A falsa ideia que se generalizou no setor financeiro e no setor real da economia - que a política do governo objetiva ampliar a sua ação, fixar preços, regular e controlar atividade privada, ampliar a "estatização de setores estratégicos" - é consequência da relação vista como hostil pelos que têm contato necessário e direto com os agentes públicos que detém o poder, o que, aparentemente, têm produzido mais calor do que luz.

Quem conhece a inteligência da presidente, sua disposição de estudar cuidadosamente cada problema e seu pragmatismo, tem muita dificuldade de entender como se chegou a tal distância de confiança entre o governo e o setor privado de infraestrutura. Uma coisa é certa. Enquanto ela não for anulada, é pouco provável que o "espírito animal" volte a comandar os empresários e se ampliem os investimentos.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Petróleo: um erro estratégico


Por Fabio Giambiagi - Valor 29/11

Nesta semana, foi publicado um livro que ajudei a organizar, chamado "Petróleo - reforma e contrarreforma do setor petrolífero brasileiro" (Editora Campus). A organização foi conjunta com Luiz Paulo Vellozo Lucas e o livro, além dos organizadores, contou com artigos de 19 autores, entre eles alguns dos mais conceituados analistas do setor de energia.

Na sua apresentação, fazemos uma distinção entre erros simples e estratégicos. Uma pessoa pode ir a um restaurante e escolher mal o prato. É algo sem maiores consequências. Já casar com a pessoa errada pode ser fonte de dor de cabeça por muitos anos para ambas partes.

Analogamente, uma empresa pode planejar a produção de um mês julgando que a demanda vai ser X e a demanda ser 10% maior, perdendo a chance de aproveitar melhor o momento, mas podendo se recuperar no mês seguinte. Já o erro poderá ser fatal se ela escolher apostar tudo num produto que está sendo abandonado pelos consumidores.

Esse tipo de equívoco é o que se denomina de "erro estratégico". Trata-se de atos que moldam a ação de um agente durante anos e podem, no limite, levar à falência (quando se trata de uma empresa).

A comparação é válida para as economias. Um país pode reduzir juros quando deveria aumentá-los ou aumentá-los quando deveria reduzir, mas nada disso é muito grave, pois trata-se de uma decisão errada com efeitos limitados e que pode ser corrigida pouco tempo depois. Opções estratégicas, porém, têm efeitos duradouros.

Países fazem opções. O Chile fez a escolha certa quando montou uma estratégia voltada para o Pacífico, com ênfase na abertura comercial. Em contraste, o Brasil nos anos 80 fez uma escolha desastrosa quando adotou a Lei de Informática, que atrasou o desenvolvimento do país durante anos, impedindo acesso aos avanços tecnológicos justamente quando o "boom" de informática estava se iniciando. Foi uma opção pela autarquia que se revelou errada em termos históricos, míope em termos econômicos e calamitosa em termos práticos, com péssimas consequências para o país.

Os historiadores que analisarem no futuro a primeira década do atual século provavelmente qualificarão de forma parecida a mudança de regime feita pelo Brasil em 2010 no setor de petróleo, quando adotou a partilha e resolveu privilegiar a política de conteúdo local, jogando pela janela um modelo que tinha dado certo durante 13 anos, com resultados espetaculares. Enquanto o modelo de concessão vigorou sozinho, foram realizadas diversas rodadas de licitação, as reservas provadas do país dobraram, a produção elevou-se em 150 % e a arrecadação acumulada da soma da participação especial e dos royalties alcançou mais de R$ 160 bilhões. Tudo funcionava muito bem, até o setor ser atropelado pela agenda ideológica que orientou a mudança de regime.

Confirmando mais uma vez o sarcasmo de Delfim Netto, de que "quando o governo compra um circo, o anão começa a crescer", a intervenção oficial travou o setor. Embora o cidadão comum possa julgar que o setor de petróleo vai de vento em popa, os fatos demonstram o contrário: as metas de produção não têm sido alcançadas, o país - cada vez mais distante da autossuficiência - importa quantidades crescentes de derivados e as empresas - incluindo a Petrobras - penam por conta do radicalismo da política de conteúdo local. No longo prazo, nada poderia ser mais preocupante do que a redução da área exploratória, do pico de mais de 340 mil km2 em 2009, para apenas um terço disso atualmente, devido à falta de novos leilões nos últimos anos.

A presidente queixa-se da falta de investimentos no país e, nos meios oficiais, as reclamações são contra o ambiente internacional de crise. A questão, porém, é que apesar da crise, há países da América Latina que estão muito bem, com destaque para Chile, Peru e Colômbia. Este último, especificamente, tem uma empresa de petróleo (Ecopetrol) que tem dado um "show de bola" no mercado internacional, seguindo os passos da Petrobras de 1997/ 2009 e rivalizando com ela em valor de mercado, apesar de ter ativos que são uma fração modesta dos ativos da nossa estatal.

Como diz corretamente Wagner Freire, antigo quadro histórico da Petrobras e que ajudou a escrever a história de sucesso da empresa, em um dos capítulos do livro, "as diferenças [entre as empresas] são enormes, mas o que conta mesmo para o valor de mercado é o que o mercado pensa sobre a administração da companhia e o comando do controlador". Nesse sentido, a combinação de 1) incerteza regulatória; 2) guerra federativa; 3) ausência de leilões; 4) excessos da política de conteúdo local; e 5) controle de preços, está sendo uma "bola de ferro" que impede o retorno do ciclo virtuoso do setor, que poderia ter um papel fundamental para o crescimento do PIB. A revisão do modelo regulatório do setor deveria entrar na agenda, sob pena de perdermos uma oportunidade histórica de utilizar adequadamente a riqueza de nosso solo.


Fabio Giambiagi, economista, coorganizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus)

Taxa média de juro cai para nova mínima histórica em outubro, diz BC



Valor 29/11

BRASÍLIA – A taxa média de juros das operações referenciais de crédito do sistema financeiro caiu 0,6 ponto percentual entre setembro e outubro, atingindo 29,3% ao ano, o menor nível da série histórica calculada pelo Banco Central (BC), com início em junho de 2000. Já a taxa de inadimplência considerando atrasos há mais de 90 dias não cede e permaneceu em 5,9% pelo quarto mês seguido.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira pela autoridade monetária. O governo iniciou em abril uma cruzada pela redução das tarifas bancárias. Este é o oitavo mês consecutivo de queda nas taxas médias. O corte acumulado de janeiro a outubro é de 7,8 pontos percentuais.

A queda foi um pouco maior nas operações direcionadas às empresas, cujo custo caiu 0,5 ponto percentual no mês passado, para 22,1% ao ano. Para as famílias, a média caiu de 35,8% para 35,4% ao ano. Tanto as taxas médias de juros das pessoas físicas como as das pessoas jurídicas atingiram as mínimas históricas em outubro.

O spread bancário (diferença entre as taxas de captação dos bancos e as aplicadas aos clientes) caiu de 22,3 pontos percentuais em setembro para 22 pontos em outubro, também novo piso histórico. Nas operações com pessoas físicas, o spread, que era de 27,9 pontos em setembro, caiu para 27,8 pontos percentuais. As empresas, por sua vez, contrataram crédito com spread de 15 pontos em setembro, ante 15,3 pontos no mês anterior.

Inadimplência

Desde o início do ano, o BC vem repetindo o discurso de que a inadimplência vai recuar neste segundo semestre. No entanto, pelos dados disponíveis, faltando apenas dois meses para terminar o ano, a taxa continua no mesmo patamar, o mais alto da série histórica, pelo quarto mês consecutivo.

Nos dez primeiros meses do ano, a taxa variou entre o intervalo curto de 5,7% a 5,9%. No acumulado do ano e nos 12 meses terminados em outubro, a taxa caiu apenas 0,4 ponto percentual.

Nos empréstimos e financiamentos referenciais a empresas, a inadimplência subiu para 4,1% em outubro, 0,1 ponto percentual a mais do que em setembro. No segmento de pessoas físicas, a taxa de atrasos continuou em 7,9%, também pelo quarto mês consecutivo.

O levantamento da autoridade monetária engloba as operações de crédito que são referenciais para o cálculo da taxa média de juros, que inclui quase todo o crédito livre.

A taxa de inadimplência de todas as operações de crédito do sistema financeiro, livre e direcionado, continuou em 3,8% em outubro – o mesmo nível que se repete desde abril. O volume de operações que tinha pelo menos uma prestação em atrasos há mais de 90 dias somou R$ 85,314 bilhões no mês passado.

Estoque

Ainda de acordo com os números do BC, o estoque de crédito no Brasil cresceu 1,4% em outubro, um ritmo melhor que o verificado em setembro. A carteira de empréstimos e financiamentos do sistema financeiro encerrou o período em R$ 2,269 trilhões.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os poluidores têm de pagar




Por Jeffrey D. Sachs - Valor 28/11

Quando a BP e suas parceiras petrolíferas causaram o vazamento no poço Deepwater Horizon, no Golfo do México, em 2010, o governo dos EUA exigiu que a BP arcasse com os custos da limpeza, indenizasse as partes que tivessem sofrido danos e pagasse multas criminais pelas violações que causaram o desastre. A BP já reservou mais de US$ 20 bilhões para o saneamento ambiental e pagamento de multas. Com base em um acordo firmado na semana passada, a BP agora pagará a maior pena criminal na história dos Estados Unidos: US$ 4,5 bilhões1.

Os mesmos padrões de limpeza ambiental precisam ser impostos a empresas multinacionais que operam nos países mais pobres, onde seu poder tem sido normalmente tão grande em relação ao de governos, que muitas delas atuam impunemente, causando estragos no ambiente e assumindo pouca ou nenhuma responsabilidade. Os poluidores têm de pagar, seja em países ricos ou pobres. As grandes companhias precisam aceitar a responsabilidade por suas ações.

A Nigéria foi a mais importante prova da impunidade ambiental empresarial. Durante décadas, importantes companhias petrolíferas como a Shell, a ExxonMobil e a Chevron vêm produzindo petróleo no delta do Níger, um ambiente ecologicamente frágil de florestas em pântanos de água doce, manguezais, florestas tropicais em várzeas e ilhas barreiras costeiras. Esse habitat rico suporta uma biodiversidade notável - ou suportava, antes que as companhias de petróleo lá chegassem - e mais de 30 milhões de habitantes locais que dependem dos ecossistemas locais que asseguram sua saúde e meios de subsistência.

Vinte anos atrás, a União Internacional para Conservação da Natureza e Recursos Naturais classificou o delta do Níger como uma região de grande biodiversidade de flora e fauna marinha e costeira e por essa razão classificou-a como de prioridade muito alta para a conservação. No entanto, a União também observou que a biodiversidade da região está sob grande ameaça, com pouca ou nenhuma proteção.

As companhias multinacionais que operam no delta derramaram petróleo e queimaram gás natural durante décadas sem dar importância ao ambiente natural e às comunidades empobrecidas e envenenadas por suas atividades. Segundo uma estimativa2, os vazamentos acumulados ao longo dos últimos 50 anos somam cerca de 10 milhões de barris - o dobro da dimensão do vazamento pelo qual a BP foi responsável.

Os dados são incertos: houve vários milhares de vazamentos durante esse período - muitas vezes mal documentados, com suas dimensões ocultas ou simplesmente não mensuradas, seja pelas empresas ou pelo governo. De fato, exatamente no momento em que a BP era alvo de novas penalidades criminais, a ExxonMobil anunciou mais um vazamento em um oleoduto no delta do Níger.

A destruição ambiental do delta faz parte de uma saga maior: companhias corruptas que operam em conluio com funcionários governamentais corruptos. As empresas rotineiramente subornam funcionários para obter concessões petrolíferas, mentir sobre volumes produzidos, sonegar impostos e esquivar-se à responsabilidade pelos danos que causam ao ambiente. Autoridades nigerianas tornaram-se fabulosamente ricas devido a décadas de pagamentos por parte de companhias internacionais que saquearam as riquezas naturais do delta. A Shell, maior operadora estrangeira no delta do Níger, foi criticada diversas vezes por suas práticas escandalosas e por evitar ser responsabilizada.

Enquanto isso, a população local continuou pobre e vitimada por doenças causadas por ar insalubre, água potável envenenada e por poluição da cadeia alimentar. Essa terra sem lei gerou guerras entre gangues e persistente acesso ilegal aos oleododutos para roubar petróleo, produzindo mais enormes vazamentos de petróleo e frequentes explosões que matam dezenas de pessoas, inclusive inocentes.

Na era colonial, o objetivo oficial do poder imperial era extrair riqueza dos territórios administrados. No período pós-colonial, os métodos são mais disfarçados. Quando as empresas petrolíferas comportam-se mal na Nigéria ou em outros países, são protegidas pelo poder de seus países de origem. Não mexa com essas empresas, dizem os EUA e a Europa. De fato, um dos maiores subornos (supostamente, US$ 180 milhões) recentemente pagos na Nigéria saíram da Halliburton, uma empresa fortemente imbricada com o poder político americano.

No ano passado, o Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP, sigla em inglês) publicou um relatório sobre Ogoniland3, um importante berço étnico no delta do Níger, epicentro do conflito entre as comunidades locais e as companhias petrolíferas internacionais. O relatório foi tão contundente quanto claro. Apesar de muitas promessas de que uma limpeza seria empreendida, Ogoniland permanece em agonia ambiental, empobrecida e adoentada pela indústria petrolífera.

A UNEP também apresentou recomendações claras e detalhadas, entre elas medidas emergenciais para assegurar água potável; atividades de limpeza focadas nos manguezais e solos; estudos de saúde pública para identificar e neutralizar as consequências da poluição e um novo referencial regulamentador.

Governos em todo o mundo chegaram recentemente a um consenso em torno da adoção de um novo referencial para o desenvolvimento sustentável, declarando sua intenção de adotar Metas para um Desenvolvimento Sustentável (MDS) na Cúpula Rio+204, realizada em junho. As MDSs proporcionam ao mundo uma oportunidade crucial para definir normas claras e convincentes para o comportamento governamental e empresarial.

A limpeza do delta do Níger constituiria o exemplo mais vigoroso possível de uma nova era de responsabilidade. Shell, Chevron, ExxonMobil e outras grandes companhias petrolíferas deveriam manifestar-se e ajudar a financiar a limpeza necessária, inaugurando uma nova era de responsabilidade.

A responsabilidade do próprio governo nigeriano está em jogo. É animador que vários senadores nigerianos tenham recentemente assumido a vanguarda dos esforços para fortalecer o império da lei sobre o setor petrolífero.

A limpeza do delta do Níger constitui uma oportunidade ideal para que a Nigéria, a indústria petrolífera e a comunidade internacional mostrem de forma convincente que raiou uma nova era. A partir de agora, o desenvolvimento sustentável não deve ser mais um mero slogan, mas sim uma abordagem operacional à governança e ao bem-estar mundial em um planeta estressado e superpovoado. (Tradução de Sergio Blum)


Jeffrey D. Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, da Columbia University. É também assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas no tema das Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2012.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O teorema de Thomas



Por Antonio Delfim Netto - Valor 27/11

Há uma proposição justamente famosa, de W.I. Thomas: "Se as pessoas definem suas circunstâncias como reais, então elas serão reais em suas consequências." (Merton, R. - "Social Theory and Social Structure", 1957: 421-436).

Ela ajuda a entender o paradoxo de um governo extremamente bem avaliado pela sociedade e, ao mesmo tempo, visto com profunda desconfiança pelo seu setor produtivo privado, particularmente, o financeiro.

É sempre difícil, se não impossível, encontrar um indicador que revele o estado de "bem-estar", incorpore a esperança de que as coisas caminham relativamente bem e não há razão evidente para esperar o contrário.

As pesquisas empíricas sugerem que o sentimento de "bem-estar" depende, fundamentalmente, de duas variáveis: 1) do crescimento da renda real dos cidadãos, que pode ser aproximada pela sua renda média; e 2) da distribuição entre os cidadãos da renda produzida. Elas sugerem, cada vez mais fortemente que uma melhoria do nível de igualdade aumenta o "bem-estar" de todos.

Diante desses fatos, o grande economista Amartya Sen, ganhador do Nobel de 1998), propôs uma medida engenhosa para simular o "bem-estar social". Se o índice de Gini (que vai de 0 a 1) "mede" a concentração da renda, o seu complemento (1 menos o índice de Gini) sugere uma medida de "desconcentração", ou seja, de maior igualdade na distribuição da renda.

É bom lembrar que o índice de Gini mede a "distância média" entre as pessoas, não o seu nível de bem-estar. A sugestão de Sen é construir um indicador composto da renda média real multiplicada pelo índice de "desconcentração", de forma a captar um pouco melhor as duas variáveis a que nos referimos acima.

Felizmente, um interessante trabalho do Ipea ("A Década Inclusiva (2001-2011)", Comunicações do Ipea nº 155, 25/10/2012) construiu o tal índice, que reproduzimos no gráfico abaixo. Vemos claramente que na octaetéride (1995-2002) ele permaneceu estagnado.

O gráfico acima mostra a mudança de situação a partir de 2003, onde o indicador cresce fortemente (quase 5% ao ano), impulsionado por múltiplos fatores: 1) o aprofundamento da política econômica; 2) a colheita da estabilidade monetária e fiscal; 3) o aumento da produtividade produzida pelas privatizações e pequenas reformas estruturais; 4) e, mas não menos importante, pela ênfase à inclusão introduzida nas políticas sociais e consequente redução das distâncias entre a renda dos indivíduos, o que explica por que o governo é popular.

No período, o crescimento do PIB foi superior (3,9% contra 2,3%) e a inflação menor (5,9% contra 9,3%). Vamos terminar 2012 com um crescimento medíocre, em torno de 1,6%, e uma taxa de inflação em torno de 5,5%. A expansão do terceiro trimestre sobre quarto trimestre (talvez ligeiramente superior a 1%), e a expectativa de um quarto trimestre sobre o terceiro um pouco menor, já mostra um crescimento anualizado em torno de 4%.
A sua sustentação ao longo de 2013 dependerá do comportamento da política econômica, da aceleração dos investimentos públicos e da cooptação da confiança do setor privado, para que esse recupere o seu "espírito animal" e desamarre o seu navio do ilusório cais da segurança.

Aqui entra outra vez o teorema de Thomas. Se o setor privado erroneamente supõe que o governo é hostil ao mercado, e que deseja ampliar o seu tamanho, ele tira as consequências dessa sua crença, buscando uma posição defensiva segura, até que a tempestade (o governo passageiro) dê lugar ao sol. Não adianta discutir ou ficar triste: "as circunstâncias pensadas como reais levam à consequências reais". Para cooptar o investimento privado indispensável para uma ampliação do crescimento é preciso mudar tal crença.

O governo precisa insistir que é "pró-mercado", não "pró-negócio", a favor da competição regulada e ágil e que não pretende realizar diretamente aquilo que, por sua natureza, o setor privado sabe fazer melhor. Mais ainda, que não se envolve com os "negócios" que caracterizam o "capitalismo de compadres". Trata-se de cooptar a massa gigantesca de pequenos, médios e grandes empresários, assustados com o fantasma da "estatização" que, se divulga, seria o verdadeiro objetivo do governo.

O fundamento da crítica é que o governo teria abandonado o famoso tripé: 1) déficits nominais modestos e convergência da relação dívida/PIB; 2) o sistema de metas inflacionárias e 3) o regime de câmbio flutuante, cuja pureza existe apenas nos livros-textos.

O que houve (e o presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini, acaba de mostrar no Senado da República) foi apenas um ajuste pragmático para enfrentar as novidades da economia mundial. Ninguém acredita, nem ele, que, no longo prazo, a política de câmbio fixo e o sistema de metas de inflação sejam compatíveis.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A era da repressão financeira



Por Sylvester Eijffinger e Edin Mujagic - Valor 26/11

Quase imediatamente após sua reeleição, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, voltou suas atenções para domar a crescente dívida nacional do país. Na realidade, quase todos os países ocidentais vêm adotando políticas para reduzir - ou pelo menos conter - o volume da dívida pública.

Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, em ensaio amplamente citado, "Growth in a Time of Debt"1 (crescimento em tempos de dívidas, em inglês), argumentam que quando o endividamento governamental supera 90% do Produto Interno Bruto (PIB), os países passam a ter menor crescimento econômico. A dívida nacional de muitos países ocidentais agora está perigosamente próxima e em alguns casos acima desse limite crítico.

De fato, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)2, até o fim deste ano a relação entre PIB e dívida nacional dos EUA vai aumentar para 108,6%. O endividamento público da região do euro está em 99,1% do PIB, encabeçado pela França e Reino Unido, onde a relação deverá chegar a 105,5% e 104,2%. Mesmo a bem disciplinada Alemanha deverá chegar perto do limite de 90%, com 88,5%.

Um país pode reduzir suas dívidas nacionais por meio do corte do déficit orçamentário ou de superávits primários (o equilíbrio fiscal, sem contar o pagamento de juros das dívidas). Isso pode ser obtido via aumentos de impostos, cortes nos gastos governamentais, maior crescimento econômico ou alguma combinação desses componentes.

Quando a economia cresce, estabilizadores automáticos fazem sua mágica. À medida que mais pessoas trabalham e ganham mais dinheiro, aumentam as obrigações tributárias e diminuem os benefícios sociais, como o seguro-desemprego. Com uma arrecadação maior e gastos menores, o déficit no orçamento diminui.

Em tempos de baixo crescimento econômico, no entanto, as opções das autoridades são amargas. Aumentar impostos não é apenas uma medida impopular; pode ser contraproducente, tendo em vista a tributação já elevada em muitos países. Também é difícil conquistar apoio público a cortes nos gastos. Como resultado, muitas autoridades ocidentais vêm buscando soluções alternativas - muitas das quais pode ser classificadas como uma repressão financeira.

Repressões financeiras ocorrem quando os governos tomam medidas para canalizar para si mesmos recursos que, em um mercado desregulamentado, rumariam em outra direção. Por exemplo, muitos governos adotaram regulamentações para bancos e empresas de seguros que aumentaram o volume de dívidas governamentais que essas firmas detêm em seu poder.

Vejamos as normas bancárias internacionais do acordo da Basileia 33. Entre outros pontos, o acordo estipula que os bancos não precisam reservar dinheiro para garantir seus investimentos em bônus governamentais com classificações de "AA-" ou superiores. Além disso, os investimentos em bônus emitidos por seus governos nacionais não precisam de cobertura de capital, independentemente do "rating".

Paralelamente, os bancos centrais ocidentais usam outro tipo de repressão financeira, ao manter taxas de juros reais negativas (que dão rendimento inferior ao da inflação), o que lhes permite honrar o serviço de suas dívidas de forma gratuita. Os juros básicos do Banco Central Europeu (BCE) estão em 0,75%, enquanto a inflação anual da região do euro é de 2,5%. Da mesma forma, o Banco da Inglaterra mantém a taxa referencial em apenas 0,5%, apesar de uma inflação que paira acima dos 2%. E, nos EUA, onde a inflação também supera os 2%, os juros referenciais para os fundos federais do Federal Reserve (Fed) são os mais baixos da história, entre 0% e 0,25%.

Além disso, tendo em vista que o BCE, Banco da Inglaterra e Fed aventuram-se pelos mercados de capitais - por meio da flexibilização monetária quantitativa (QE, na sigla em inglês) nos EUA e Reino Unido e do programa de "Transações Monetárias Diretas" (OMT, na sigla em inglês) do BCE na região do euro -, as taxas de juros reais de longo prazo também estão negativas (a taxa real de 30 anos nos EUA é positiva, mas por muito pouco).

Tais táticas4, em que os bancos são instigados, embora não coagidos, a investir em títulos de dívidas governamentais, constituem uma repressão financeira "suave". Os governos, entretanto, podem ir além desses métodos e exigir que as instituições financeiras mantenham ou elevem os títulos soberanos em seu poder, como a Autoridade de Serviços Financeiros (FSA, órgão regulador do mercado financeiro britânico) fez em 20095.

De forma similar, em 2011, os bancos espanhóis ampliaram a concessão ao governo em quase 15%, embora as concessões do setor privado para os captadores como um todo tenham se contraído e o governo espanhol tenha ficado com menor capacidade creditícia. Um alto executivo bancário italiano disse em certa ocasião que os bancos da Itália seriam enforcados pelo Ministério das Finanças se vendessem qualquer título do governo. E um executivo bancário português afirmou que, embora os bancos devessem reduzir sua exposição a bônus governamentais de risco, a pressão governamental para que comprassem mais era avassaladora.

Além disso, em muitos países, como França, Irlanda e Portugal, os governos invadiram seus fundos de previdência para financiar os déficits orçamentários. O Reino Unido está prestes a adotar medida similar, "permitindo" que seus fundos de pensão públicos invistam em projetos de infraestrutura.

O financiamento monetário, direto ou indireto, dos déficits orçamentários costumava figurar entre os pecados mais graves que um banco central poderia cometer. A QE e as OMTs são, simplesmente, novas encarnações dessa velha transgressão. Tais políticas dos bancos centrais, combinadas com o acordo da Basileia 3, significam que a repressão financeira provavelmente definirá o cenário econômico por pelo menos mais dez anos. (Tradução de Sabino Ahumada).


Sylvester Eijffinger é professor de Economia Financeira na Tilburg University, na Holanda.



Edin Mujagic é economista na Tilburg University. Copyright: Project Syndicate, 2012.



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Madri quer estimular compra de imóveis por estrangeiros



Valor 21/11

Quem passeia pelas ruas de Madri ou outra grande cidade espanhola não escapará de constatar o forte número de cartazes de apartamentos à venda, refletindo a tentativa desesperada de seus proprietários de se desembaraçarem de dívidas. A oferta é bem visível inclusive no rico bairro de Salamanca, na capital espanhola.

Consequência da bolha imobiliária, a Espanha tem estoque de 800 mil a um milhão de imóveis sem conseguir comprador. Alem disso, até o fim do ano o "bad bank" criado pelo governo, reunindo ativos podres da banca nacionalizada, colocará a venda outros 89 mil imóveis no mercado, equivalente a 13 milhões de metros quadrados de construção.

Como há muito para vender, e dos compradores locais nada se espera, o governo espanhol planeja agora atrair estrangeiros com autorização de residência quase automática aos que adquirirem um imóvel no país por montante superior a € 160 mil (R$ 426 mil), que é o preço médio das moradias no país.

A ideia é dar autorização de residência por dois a três anos ao comprador. Ele será dispensado da obrigação de passar cada ano pelo menos seis meses e um dia na Espanha, tempo exigido hoje dos demais residentes estrangeiros.

Essa exceção, em estudo, para investidores na lei de estrangeiros se baseia no que já fizeram outros países em crise na região, como Irlanda e Portugal, para tentar dinamizar o estagnado mercado imobiliário, em meio à pior recessão das últimas décadas na Europa.

O governo espanhol diz querer aproveitar o interesse que o país desperta no estrangeiro, diante do atrativo que é a queda de 30% em média nos preços dos imóveis desde o pico anterior à crise.

O anúncio do plano do governo causou críticas fortes do Partido Socialista e outras oposições, que acusam o governo de "mercantilizar" a autorização de residência. Associações de imigrantes por sua vez denunciam "discriminação".

Mas o secretário de Estado de Comércio, Jaime García-Legaz, argumentou na imprensa local que "o mercado nacional de imóveis está muito parado e não se vê no horizonte muita capacidade de compra por falta de crédito e a difícil situação que atravessam muitas famílias espanholas".

Segundo o governo, haveria já demanda de imóveis por parte especialmente de russos e chineses. Os brasileiros também são bem apreciados. Os preços de imóveis no Brasil hoje fazem os custos na Espanha serem bem acessíveis.

Está fácil agora ser inclusive vizinho do rei Juan Carlos. A alguns metros do palácio Real, uma placa anuncia para venda um apartamento de 70 metros quadrados. Logo adiante, ao lado do teatro Real, um apartamento de 120 metros quadrados está sendo oferecido por € 510 mil, com bom abatimento, segundo seu proprietário.

O número de imóveis a serem colocados no mercado só não será maior proximamente porque o governo suspendeu os despejos em casos extremos. De toda maneira, imóveis tomados por Bankia, Catalunya Bank, Banco de Valencia e NCG Banco, agora acumulados no "bad bank", serão colocados no mercado em dezembro, com abatimento ainda maior, na expectativa de analistas.

A Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, lembra que a autorização de residência é competência de cada país. Há um mês, Portugal passou a dar carta de residência para todo estrangeiro que transferir ao país mais de € l milhão, criar em sua empresa 30 empregos ou comprar um imóvel de pelo menos € 500 mil. Esse estrangeiro não precisa residir seis meses em Portugal, como os outros. Pode residir 30 dias no primeiro ano do investimento e 60 dias nos restantes, desde que se comprometa com a manutenção do investimento por cinco anos.

Na Irlanda, o estrangeiro recebe autorização de residência especial se investir entre € 500 mil e € 1 milhão, conforme o tipo de projeto, e comprar imóveis. O jornal "El País" mostra ainda que no Reino Unido pode-se obter a autorização com compra de imóvel de € 1,25 milhão, pelo menos. Na França, a barra é mais alta: o investimento em imóveis deve ser de € 10 milhões.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dólar ignora melhora externa e sustenta R$ 2,08



Valor 20/11

A trégua observada no cenário externo ontem foi incapaz de ofuscar no mercado doméstico as saídas de recursos, reforçando o debate sobre o patamar de câmbio com que o governo está disposto a trabalhar - se acima ou abaixo de R$ 2,10.

Depois de atravessar boa parte da segunda-feira em baixa ante o real, seguindo a tendência externa de apreciação das divisas de países exportadores, o dólar por aqui recuperou o fôlego para fechar estável, a R$ 2,082 - repetindo a maior cotação desde maio de 2009.

Já no mercado futuro, o contrato de dólar para dezembro cedeu 0,16%, para R$ 2,085.

Segundo operadores, o impacto das saídas de recursos ontem foi potencializado pelo menor volume de negócios, entre uma sessão espremida pelo feriado prolongado na semana passada e por outra parada, hoje, em São Paulo. Os profissionais de corretoras disseram que um sinal do fluxo negativo foi a alta do cupom cambial [taxa de juros em dólar] para janeiro de 2013.

O mercado segue debatendo se de fato houve uma mudança no patamar da banda cambial. Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor de política monetária do Banco Central e atual economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), partilha da visão de que o BC não só toleraria o dólar acima de R$ 2,10 como, no caso de uma piora acentuada nos mercados, conseguiria apenas minimizar um viés de apreciação da moeda americana.

"Só acho que ele vai intervir se o dólar disparar, se ultrapassar em muito a resistência de R$ 2,10, o que, se acontecer, deverá ser por uma deterioração no exterior", avalia Freitas. Para ele, o BC está numa "encruzilhada", uma vez que qualquer intervenção pode levar a moeda a testar os extremos da banda.

Já o estrategista da Votorantim Corretora, Rafael Espinoso, diz que ainda não consegue enxergar evidências claras de que o dólar tende a se sustentar nesse nível. Para ele, a combinação do fim do impasse relacionado ao programa fiscal americano com a retomada mais firme da atividade doméstica no próximo ano darão suporte às estimativas de dólar perto de R$ 2,00.

No mercado de juros, as taxas negociadas na BM&F cederam pela segunda sessão, influenciadas por dois fatores: revisões para baixo nas projeções feitas pelos agentes econômicos para indicadores de inflação e de atividade, conforme apurou o Boletim Focus do Banco Central; e a deflação registrada pelo Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), da Fundação Getulio Vargas, na segunda prévia de novembro.

Mudou a banda cambial ou foi a liquidez?

É cedo e arriscado contar com uma mudança na banda de flutuação da taxa de câmbio no Brasil, hoje praticamente fixa entre R$ 2 e R$ 2,10. Após uma sequência de altas, na sexta-feira passada, o dólar subiu a R$ 2,08 - preço mais alto em três anos e meio - e alimentou a expectativa de que o Banco Central (BC) já estaria promovendo um deslocamento dessa banda para um patamar mais elevado. Será? A pressão claramente identificada não seria consequência de uma prudente antecipação de operações às vésperas de feriados?

O movimento do mercado financeiro em geral, e do câmbio em particular, vem sendo comprometido desde meados da semana passada diante da aproximação dos feriados. Na quinta-feira, os negócios foram suspensos por um feriado nacional. Hoje, a liquidez tende a sofrer uma queda brutal com a interrupção das operações em São Paulo, graças ao recesso do Dia da Consciência Negra.

E não para por aí. Na quinta-feira, portanto logo após a retomada dos negócios domésticos, as operações estarão sujeitas a nova baixa. Desta vez, com a paralisação dos mercados nos Estados Unidos pelo Dia de Ação de Graças.

O mercado de câmbio vê o dólar orbitando os R$ 2,08 e aguarda um sinal do BC, sancionando uma elevação da banda de flutuação que pode não se confirmar. Ontem, a pesquisa Focus trouxe projeções medianas para taxas de câmbio ao fim de 2012 e 2013 em, respectivamente, R$ 2,03 e R$ 2,02, sem surpresas.

Mas a elite das instituições participantes da sondagem do BC, agrupadas no ranking Top 5 de curto e médio prazo, já vinha sinalizando uma alta discreta da taxa de câmbio. As Top 5 com maior número de acertos em projeções de curto prazo esperam dólar a R$ 2,06 em dezembro de 2012 e R$ 2,08 em dezembro de 2013.

O grupo Top 5 com mais acertos no médio prazo também sinaliza dólar a R$ 2,06 para o fim deste ano. E, há três meses, conta com R$ 2,10 em dezembro de 2013. Ontem, a moeda fechou estável a R$ 2,082.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Nível dos reservatórios das hidrelétricas continua em queda



Na Região Nordeste, lagos das hidrelétricas estão em 32,3%, apenas 5,8 pontos acima do limite de segurança

19 de novembro de 2012
2h 07

Notícia
O Estado de S.Paulo

As chuvas que caíram nas últimas semanas não foram suficientes para recuperar o nível dos reservatórios das hidrelétricas. Pelo contrário. O porcentual de armazenamento continuou caindo na semana passada para níveis próximos ao do pré-racionamento, em 2000. No sistema Sudeste/Centro-Oeste, o nível dos reservatórios está em 34,6%; no Norte, 39,6%; e no Sul, 40,7%.

A Região Nordeste vive a pior situação, com um nível de reservatório em 32,3%, apenas 5,8 pontos acima do limite de segurança para o abastecimento do mercado - um mecanismo de alerta criado pelo governo federal após o racionamento de 2001.

Trata-se do pior nível desde 2003, quando o volume de água nas represas caiu para 18,97%. A esperança é que as chuvas do final de novembro e de dezembro sejam mais consistentes e consigam recompor os lagos das hidrelétricas. Mas, pelas previsões dos institutos de meteorologia, no Nordeste, as chuvas virão apenas em janeiro, e ainda assim abaixo do previsto. Só em novembro, o nível dos reservatórios da região recuou 1,8 ponto porcentual.

Nesse quesito, no entanto, o sistema Sudeste/Centro-Oeste teve uma depreciação mais rápida de seus lagos, de 2,6 pontos. Foi para evitar esse desgaste que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou os cerca de 11 mil megawatts (MW) de energia das térmicas. Mas nem todas estão conseguindo gerar o volume total programado pelo operador, o que continua pressionando o nível de água nas represas.

Para completar o cenário, vários parques eólicos que poderiam estar poupando água nos reservatórios estão parados no meio do Nordeste por falta de linha de transmissão. No total, são 32 usinas prontas e sem gerar um único MW. Em alguns casos, o sistema de transmissão só ficará pronto dentro de um ano, na melhor das hipóteses. O problema é que a estatal Chesf, responsável pela construção das linhas, não conseguiu concluir - em alguns casos, nem começar - as obras dentro do prazo previsto.

Térmicas. Na opinião de especialistas, o Brasil ficará cada vez mais dependente da geração termoelétrica. A explicação é a construção de grandes usinas, sem reservatório, distantes dos centros urbanos, e de uma série de pequenas centrais elétricas, como as eólicas e as usinas a biomassa. Todas essas unidades dependem das variações climáticas e, portanto, podem gerar mais ou menos energia.

Por causa das restrições ambientais, a maioria das grandes usinas hidrelétricas são construídas a fio d'água - ou seja, não têm represa para guardar água, a exemplo das hidrelétricas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio. Isso significa que o Brasil está perdendo capacidade de poupança para suportar períodos com hidrologia desfavorável, como o que está ocorrendo agora.

Dados do ONS mostram que, em 2001, a capacidade dos reservatórios era suficiente para atender seis meses de carga de energia de todo o sistema interligado nacional. Em 2009, o volume já tinha caído para cinco meses. E, em 2019, será suficiente para apenas três meses. Sem reserva suficiente, o País terá de recorrer às térmicas - mais caras e poluentes. Até lá, espera-se que todas estejam preparadas para gerar conforme o volume programado.

Empresas deixam no exterior dólares das captações



Por Fernando Travaglini e Filipe Pacheco - Valor 19/11
De São Paulo

Apesar de as empresas terem captado US$ 17,55 bilhões nos últimos quatro meses, desde a reabertura do mercado externo, menos de um terço dessa enxurrada de recursos aportou por aqui. A grande parcela do capital ficou mesmo no exterior, contribuindo para o fraco fluxo de moeda estrangeira registrado pelo país desde então.

Apenas companhias que não têm subsidiária no exterior, como é o caso da Caixa Econômica Federal, por exemplo, são obrigadas a trazer os recursos. Quem não tem essa necessidade prefere deixar os dólares nas contas no exterior, seja para pagar fornecedores, seja para capital de giro.

Do total captado nesse período, menos de 30% foi feito pelas unidades brasileiras das empresas, e não por subsidiárias em paraísos fiscais, como as Ilhas Cayman. Isso representa algo em torno de US$ 5 bilhões que precisaram obrigatoriamente passar pelo país. O restante, ficou depositado em contas de bancos internacionais.

Dessa forma, as companhias evitam o custo do swap cambial, hoje elevado, e não precisam arcar com o Imposto de Renda de 15% na hora de honrar com os pagamentos semestrais de juros (cupom).

Essa condição de alto custo para internalizar os recursos é nova para as empresas, especialmente as exportadoras. Antes, a grande maioria dos emissores frequentes de bônus podiam trazer moeda estrangeira usando o instrumento do pré-pagamento de exportação, isento de IR.

A modalidade, no entanto, foi limitada pelo governo a um prazo máximo de um ano, no início do ano. Os pré-pagamentos de exportação recuaram à metade desde a adoção da medida.

"Do total levantado nos últimos, acredito que muito pouco veio para o Brasil", disse Rodrigo Cabernite, diretor de mercado de capitais do Standard Chartered. Segundo ele, o principal impeditivo são mesmo as taxas elevadas do swap cambial (hedge) e a carga de impostos.

"Faz mais sentido trazer esse dinheiro apenas para empresas consideradas 'high yield' (com perfil de dívida mais arriscado), que conseguiram captar a custos relativamente mais baixos", acrescenta. "Ainda assim, o swap pode fazer com que a operação fique pouco viável", diz Cabernite.

Nessa categoria estão a construtora OAS e a BR Malls, que se aproveitaram de um bom momento para captar a custos baixos, mas que provavelmente terão de arcar com custos altos para trazer o dinheiro. "Para os que não têm essa obrigação, não é viável entrar com o dinheiro no país", diz um banqueiro que acompanha o mercado em Nova York. "O mais natural é que a maioria das empresas deixe esse dinheiro no exterior", completou a fonte.

Algumas companhias inovaram ao trazer os recursos externos por meio das novas debêntures de infraestrutura, que seguem a Lei 12.431 e são isentas de IR, como a OGX e a Minerva. Mas ainda há dúvidas sobre a viabilidade deste instrumento, devido ao excesso de exigências para enquadrar a oferta na lei.

Uma outra explicação para o fluxo de recursos externos tão limitado está no sistema bancário. A baixa demanda por modalidades de empréstimos em moeda estrangeira por parte das companhias tem feito os bancos brasileiros diminuírem a captação externa.

Não por acaso, grande parte das emissões feitas pelas instituições financeiras lá fora tem sido para reforçar o capital próprio (bônus subordinado), dinheiro que não é usado para fomentar diretamente o crédito.

Cabernite explica que os grandes bancos que emitiram dívida lá fora ao longo do ano têm usado as suas unidades estrangeiras para emprestar diretamente a empresas brasileiras envolvidas em grandes projetos de infraestrutura na África e na Ásia, por exemplo, ou para companhias que estão em processo de internacionalização.

Mesmo as linhas usadas tradicionalmente como capital de giro, como o adiantamento de contrato de câmbio (ACC), estão em queda. Em relação ao primeiro semestre, o recuo nas liberações de ACC chega a 35%.

Dessa forma, mesmo com o bom momento para tomar recursos no exterior, esse capital não tem se revertido em investimentos no país nem em capital de giro, sinal da fraca capacidade da economia doméstica e também das exportações brasileiras.

Por fim, vale lembrar que as medidas do governo no sentido de controlar a entrada de capital externo, aliado à queda da taxa Selic, também têm responsabilidade no fraco fluxo de moeda estrangeira para o país, especialmente no segundo semestre.

As barreiras impostas pelo governo - seja via limite à entrada física de moedas por meio de tributação, seja pela criação de impostos diretamente no mercado de derivativos cambiais - foram exitosas em afastar o capital externo, para o bem e para o mal.

Segundo o diretor-executivo da NGO Associados Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, a fuga de recursos tem se dado principalmente para o pagamento de importações, além de um saldo a pagar da ordem de US$ 14 bilhões herdado do exercício anterior entre remessas de dividendos, juros sobre capital próprio, saídas da bolsa e desinvestimentos.

Para ele, o movimento, que vem desde maio, confirma que o país não atrai mais capitais especulativos. O lado negativo é que a liquidez do mercado de dólar tem sido afetada, trazendo de volta a expectativa de que o Banco Central possa fazer leilões de venda de dólar no mercado à vista para suprir a falta de divisas - caso não intervenha, pode ser um sinal de que sancionou a nova banda cambial mais depreciada.

A moeda americana fechou em alta em seis dos últimos sete pregões, atingindo R$ 2,082, na sexta-feira, a maior cotação desde maio de 2009, com uma alta acumulada de 2,46% nesse período, em relação ao dia 6 (R$ 2,032).

Os primeiros dados do fluxo cambial relativos ao mês de novembro mostraram um certo alívio no fluxo de divisas, somando US$ 2,661 bilhões, no fim da semana passada, segundo o BC.

Nehme pondera, no entanto, que essa mudança pode ter sido pontual, já que o movimento de alta da moeda americana pode indicar que o fluxo voltou a ficar deficitário. "A tendência de fluxo negativo está efetivamente se acentuando e com evidências claras desde maio", diz.

A situação, que hoje pode se mostrar favorável ao exportador brasileiro, tem seus efeitos colaterais. Nehme, que defende uma taxa mais desvalorizada, acredita que o ideal seria flexibilizar a taxação dos empréstimos externos, para tentar atrair mais moeda estrangeira no futuro. "Vamos precisar de mais dólares no ano que vem, caso contrário o fluxo cambial pode se consolidar no terreno negativo", alerta.

O mercado de empréstimos externos sindicalizados (aqueles em que vários bancos dividem o risco da operação) ficou praticamente fechado ao longo deste ano. No ano passado, o instrumento permitiu o financiamento de US$ 27,4 bilhões.

Só competitividade não salvará o euro




Por Wolfgang Münchau - Valor 19/11

Após as eleições na Alemanha em 2002, o governo iniciou uma série de reformas econômicas, principalmente nos setores trabalhista e de bem-estar social. A economia alemã continuou estagnada até em torno de 2005, mas viveu uma recuperação sólida, interrompida pela recessão de 2009. Esses são os fatos. Mas a história contada em toda a Europa é que as reformas provocaram um novo milagre econômico alemão.

O argumento é uma falácia lógica do tipo "hoc ergo propter hoc": depois disso, portanto por causa disso. Feitas as reformas, veio o crescimento - daí a causalidade e, portanto, a aplicabilidade universal. Todas as autoridades europeias parecem ter aceito essa cadeia de argumentação. E estão agora aplicando sua lógica imperfeita à França.

No início deste mês, um relatório da autoria de Louis Gallois, ex-presidente da EADS, sugeriu medidas para tornar a França mais competitiva. O relatório e o debate que se seguiu refletem uma confusão intelectual mais ampla sobre a natureza de reformas. Eu detecto um diagnóstico triplamente equivocado: sobre os efeitos das reformas na Alemanha, sobre o tipo de reformas que hoje são necessárias na França, na Itália e na Espanha, e sobre o foco em competitividade.

A primeira das três falácias diz respeito à Alemanha. Durante o pós-guerra, a economia alemã teve um bom desempenho no âmbito de regimes de câmbio fixo. Seu primeiro milagre econômico ocorreu durante a era de Bretton-Woods - as décadas de 1950 e 1960 - ao conseguir desvalorizar seu câmbio real em relação a outros membros do sistema. Não deveria constituir surpresa que a Alemanha prospere na zona do euro fazendo exatamente a mesma coisa. A recuperação que se seguiu à crise financeira no início da década passada foi causada por um longo período de moderação salarial.

Então, existiu um nexo entre reformas e moderação salarial? Se assim for, seria possível estabelecer uma relação de causalidade entre as reformas de 10 anos atrás e a subsequente melhoria de desempenho econômico. Para responder essa pergunta, é preciso examinar a natureza da dosagem relativa de política salarial versus desemprego, bem como outros fatores que estavam presentes. Embora os sindicatos alemães tenham aceito salários mais baixos para evitar perdas de emprego, a natureza do "balanço" inflação versus desemprego - representado na chamada curva de Phillips - revelou-se estável ao longo do tempo.

Sindicatos e empregadores alemães deslocaram-se, ao longo da curva, para uma posição onde os salários eram mais baixos e o emprego mais alto, mas as reformas não modificaram a natureza intrínseca desse balanço. Nesse contexto, para início de conversa, será que as reformas pelo menos contribuíram para esse deslocamento ao longo da curva, ao fazer com que os sindicatos aceitassem essa barganha? É difícil responder essa indagação, mas minha explicação intuitiva é que o processo de terceirização (de atividades), levadas para a Europa Central - um choque externo - foi a principal razão para os sindicatos terem agido como fizeram. Num país com baixa mobilidade regional da mão de obra, o fechamento de uma fábrica produziria, em outras circunstâncias, persistente desemprego.

Em segundo lugar, para corrigir os problemas econômicos da França, deve-se aplicar uma abordagem lúcida e focada. A França e a Espanha estão sofrendo com o desemprego juvenil. O problema é bem compreendido. É resultado de um mercado de trabalho fragmentado, que protege os trabalhadores com contrato de trabalho permanente, mas discrimina pessoas de fora e jovens. Em vista de um desemprego de 52% entre os jovens na Espanha, essa deveria ser a prioridade para a reforma econômica. Devemos, portanto, distinguir entre as reformas que atendem a um objetivo específico e bem definido - como a adoção de um contrato único de trabalho ou uma reforma das aposentadorias - de reformas com efeitos não comprovados. Também deveríamos separar reformas específicas daquelas derivadas puramente da ideologia de direita.

Por fim, por que sempre focamos a questão da competitividade? Empresários falam incessantemente sobre isso, mas é um conceito menos útil em escala macroeconômica. Competitividade reúne dois conceitos: competitividade macroeconômica, conforme expressa pela taxa de câmbio real e pela produtividade total dos fatores (PTF), que é um indicador do dinamismo tecnológico de um país. Uma diminuição dos custos unitários da mão de obra é um ganho apenas se um país - e nenhum dos outros -, conseguir isso. Se defendermos esse objetivo como política para toda a zona euro, o resultado será um jogo de soma zero. Não podemos, todos, simultaneamente, desvalorizar. Se estamos dizendo que a zona do euro deveria reduzir os custos unitários de mão de obra ao nível da Alemanha, por que pensar que a Alemanha não fará o mesmo?

Então, resta a PTF. Muito bem, mas seria melhor, então, nos concentrarmos especificamente nela, e não com a distração do nebuloso conceito de competitividade. Além disso, podemos não saber tanto sobre a PTF como pensamos.

Reformas específicas podem ser úteis, mas ninguém deve iludir-se, julgando que reformas estruturais podem resolver o que é, em última instância, uma crise de balanço de pagamentos. É preciso, primeiro, solucionar esta crise, em vez de buscar refúgio no velho debate com que os europeus gostam de perder tempo: reformas institucionais e reformas estruturais. Ambas não são irrelevantes, mas são irrelevantes para a resolução desta crise. (Tradução de Sergio Blum)



Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.