sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Enigma aparente na economia brasileira

 

Por Ricardo de Menezes Barboza - Valor 22/02
 
Há um aparente enigma na atual conjuntura da economia brasileira. Enquanto a produção industrial se contrai (-2,7% em 2012, segundo Pesquisa Industrial Mensal do IBGE), o comércio varejista se expande em ritmo acelerado (8,4% no acumulado em 2012, segundo Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE).
Existem pelo menos quatro fatores por trás deste hiato entre produção e comércio: 1) um processo gradual de redução de estoques na indústria; 2) uma elevação de importados, em especial de bens não duráveis; 3) uma redução da demanda internacional por produtos manufaturados brasileiros; e 4) uma queda brusca no investimento. Algumas evidências preliminares apontam nessa direção.
Em relação à hipótese de estoques, dados da sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que o volume tem se reduzido no período em discussão. Com efeito, seis entre 14 setores industriais pesquisados afirmavam estar superestocados em dezembro de 2011, número que foi reduzido a apenas um no mesmo período de 2012.
Uma evidência mais informal pode ser obtida quando comparamos os dados de produção industrial do IBGE com os dados de faturamento real da CNI. Nos últimos sete trimestres, desde o início de 2011, o faturamento real da indústria de transformação aumentou 8,3%, enquanto a produção industrial caiu 4,9%. Essa diferença de 13 pontos percentuais sugere, ainda que não em sua totalidade, uma redução continuada nos estoques: a indústria contraiu a produção, mas seguiu aumentando as vendas, o que só é possível quando o volume de estoques está caindo.
É improvável, no entanto, que todo o descompasso entre produção industrial e comércio se deva apenas a um processo de desova de estoques. Por dois motivos. Primeiro, porque toda redução de estoques ocorre sempre de forma gradual, isto é, empresas não interrompem sua produção com o intuito de eliminar estoques. Segundo, pois a diferença presente no descompasso é muito expressiva para que haja apenas uma única causa. Essa percepção abre espaço para os outros fatores levantados.
O comércio varejista pode muito bem estar vendendo produtos importados. Em vez de se vender o que é produzido no Brasil, vende-se aquilo que vem do exterior. O problema dessa hipótese, contudo, é que o dado de quantum importado se reduziu 2,3% no acumulado de 2012 (dados da Funcex). Se houvesse mesmo vazamento de demanda para o exterior, não deveríamos observar um aumento do quantum importado?

Não necessariamente. Abertos os dados de importação, percebe-se a existência de cinco categorias: bens intermediários, combustíveis e lubrificantes, bens de capital, bens duráveis e bens não duráveis. Essas cinco categorias tiveram a seguinte variação percentual do quantum importado em 2012: 6,4% para os não duráveis, -18,2% para os duráveis, 0,2% para os bens de capital, -4,8% para combustíveis e lubrificantes e -1,3% para os bens intermediários. Tem destaque o desempenho "fora da curva" das importações de bens não duráveis, que cresce muito rapidamente enquanto os demais componentes decaem. Será que a elevação dessas importações específicas tem impacto no resultado aferido pela Pesquisa Mensal do Comércio?
Ao contrário da Pesquisa Industrial Mensal, que é feita por produto, a PMC a é feita por estabelecimento comercial. Portanto, há que se recorrer a uma aproximação (grosseira) para verificar a participação dos bens não duráveis em sua composição. Por exemplo, supermercados são estabelecimentos tipicamente vendedores de bens não duráveis, embora existam diversos bens duráveis à venda nessas instituições. Na análise, serão classificados como instituição de não duráveis. Embora não exista aqui nenhuma pretensão de precisão, apenas de ordem de grandeza, os resultados mostram que o setor de bens não duráveis tem peso significativo na composição da PMC, contribuindo com algo em torno de 35% do índice. Assim, na elevação dessas importações reside mais uma chave para a abertura do enigma.
Prosseguindo com a investigação, passamos ao terceiro fator explicativo do gap comércio-indústria, qual seja, a queda da demanda internacional pelos produtos brasileiros, expressa na contração de 0,3% do quantum exportado pelo país em 2012 (segundo dados da Funcex). Nos casos específicos de bens manufaturados e semimanufaturados, a contração é ainda mais aguda, com redução do quantum exportado de 1,3% e 1,6%, respectivamente. De fato, esse é um fator explicativo porque a queda da demanda internacional por produtos domésticos puxa para baixo a produção industrial e amplia o hiato entre produção e comércio varejista.
Por fim, a queda do investimento também constitui fator essencial na resolução do mistério. Expresso em números, o investimento vem decaindo em termos absolutos desde o segundo trimestre de 2011, recuando de 19,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em seu pico mais recente para pouco mais de 18% do PIB no terceiro trimestre de 2012. Em particular, a produção de bens de capital teve contração de 11,8% no acumulado de 2012, segundo dados do IBGE. Trata-se de um número muito significativo. Como esse tipo de bem não é vendido pelo comércio, sua queda, ao mesmo tempo em que derruba a produção industrial, nem sequer se faz sentir no dado varejista.

À luz dessas evidências, percebe-se que o enigma da economia brasileira é, de fato, apenas aparente. A queda dos estoques, o aumento das importações de alguns produtos, a queda da demanda externa e a contração do investimento parecem explicar a discrepância entre varejo e produção industrial. Como popularmente se diz: "Tudo que um dia pode ser verdade, passa primeiro por ser um enigma".

Ricardo de Menezes Barboza é economista do BNDES e membro do grupo de conjuntura econômica do IE/Coppead-UFRJ. Mestre em Economia pelo IE-UFRJ.



 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A tirania da economia política

 

Por Dani Rodrik - Valor 18/02
 
Houve um tempo em que nós, economistas evitávamos a política. Considerávamos nossa missão descrever como as economias de mercado funcionam, quando são malsucedidas e em que medida políticas bem estruturadas podem aumentar a eficiência. Nós analisamos pesos relativos entre objetivos concorrentes (por exemplo, igualdade versus eficiência) e as políticas prescritas para alcançar os resultados desejados, econômicos, inclusive redistribuição. Restava aos políticos aceitar nosso conselho (ou não) e aos burocratas implementá-las.
Então, alguns de nós nos tornamos mais ambiciosos. Frustrados diante da realidade de que grande parte do nossos conselhos eram ignorados, centramos nossas ferramentas de análise no comportamento dos próprios políticos e burocratas. Começamos a analisar o comportamento político usando a mesma estrutura conceitual que usamos ao analisar as decisões de consumidores e produtores em uma economia de mercado. Os políticos tornaram-se fornecedores de favores políticos em troca da maximização de sua renda; os cidadãos tornaram-se lobistas e grupos de interesses especiais foram em busca de remuneração; e os sistemas políticos tornaram-se mercados onde votos e influência política são negociados em troca de vantagens econômicas.
Assim nasceu o campo da economia política baseada em escolhas racionais, e um estilo de teorização que muitos cientistas políticos imediatamente passaram a imitar. A aparente recompensa era que então poderíamos explicar por que os políticos fazem tantas coisas que vão contra a racionalidade econômica. Com efeito, não havia nenhuma inadequação econômica que as palavras - "interesses adquiridos" - não fossem capazes de explicar.

Por que tantos setores econômicos permanecem fechados para a competição real? Porque os políticos estão nas "folhas de pagamento" de operadores estabelecidos que faturam com isso. Por que governos levantam barreiras ao comércio internacional? Porque os beneficiários das medidas de proteção comercial são concentrados e politicamente influentes, ao passo que os consumidores são difusos e desorganizados. Por que as elites políticas impedem reformas que poderiam estimular o crescimento e o desenvolvimento? Porque o crescimento e desenvolvimento prejudicariam o controle do poder político pelas elites. Por que acontecem crises financeiras? Porque os bancos capturam o processo decisório de tal modo que podem assumir riscos excessivos à custa da sociedade em geral.
Mas havia um paradoxo profundo em tudo isso. Quanto mais alegávamos estar explicando, menos espaço foi deixado para melhorar as coisas. Se o comportamento dos políticos é determinado pelos interesses adquiridos aos quais estão atrelados, a defesa de reformas políticas pelos economistas tenderá a cair em ouvidos moucos. Quanto mais completa nossa ciência social, mais irrelevante nossa análise política.
É aqui que ocorre a ruptura da analogia entre as ciências humanas e as ciências naturais. Consideremos a relação entre ciência e engenharia. À medida que a compreensão dos cientistas sobre as leis físicas da natureza torna-se mais sofisticada, os engenheiros podem construir pontes e edifícios melhores. Melhorias nas ciências da natureza ampliam, em vez de impedir, nossa capacidade de moldar nosso ambiente físico.
Se parece ao leitor haver algo errado nisso, estará na pista certa. Na realidade, nossas estruturas contemporâneas de economia política estão repletas de suposições não explicitadas sobre o sistema de ideias subjacente ao funcionamento dos sistemas políticos.


Há três maneiras pelas quais ideias moldam interesses. Primeiro, as ideias determinam como as elites políticas definem-se e os objetivos que perseguem - dinheiro, honra, status, longevidade no poder ou, simplesmente, um lugar na história. Essas questões de identidade são centrais em como as elites decidem agir.
Em segundo lugar, as ideias determinam pontos de vista dos atores políticos sobre como o mundo funciona. Interesses empresariais poderosos pressionam por políticas diferentes quando acreditam que estímulos fiscais produzem apenas inflação em contraposição a quando acreditam que geram maior demanda agregada. Governos sedentos por mais receita colocam em vigor impostos mais elevados quando julgam que pode haver evasão tributária, em contraposição a quando acreditam na impossibilidade de evasão.
Mais importante, do ponto de vista da análise de política é que as ideias determinam as estratégias que os atores políticos acreditam poder perseguir. Por exemplo, uma forma de elites se manterem no poder é suprimir toda a atividade econômica. Mas outra é incentivar o desenvolvimento econômico ao mesmo tempo em que diversificam sua própria base econômica, estabelecendo coalizões, incentivando a industrialização orientada pelo Estado ou praticando uma diversidade de outras estratégias limitada apenas pela imaginação das elites. Quando ampliamos o leque de estratégias viáveis (que é o que fazem boas concepções de projetos e boas lideranças), modificamos radicalmente comportamentos e resultados.
Com efeito, isso é o que explica algumas das reviravoltas mais surpreendentes no desempenho econômico nas últimas décadas, como a Coreia do Sul e do crescimento desenfreado na China (na década de 1960 e no fim dos anos 1970, respectivamente). Em ambos os casos, os maiores beneficiários foram os "interesses estabelecidos" (o establishment empresarial, na Coreia, e o Partido Comunista Chinês). O que permitiu a reforma não foi uma reconfiguração do poder político, mas o surgimento de novas estratégias. Mudanças econômicas muitas vezes acontecem não quando interesses estabelecidos são derrotados, mas quando diferentes estratégias são usadas para perseguir esses interesses.
A economia política, sem dúvida, continua a ser importante. Sem uma compreensão clara de quem ganha e quem perde com o status quo, é difícil compreender a lógica de nossas políticas existentes. Mas um foco excessivo em interesses estabelecidos pode facilmente nos fazer perder de vista a contribuição fundamental que a análise de políticas e empreendedorismo político podem fazer. As possibilidades de mudanças econômicas são limitadas não apenas pelas realidades do poder político, mas também pela pobreza de nossas ideias. (Tradução de Sergio Blum)

Dani Rodrik professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org



 

Déficit em serviços cresceu 720% em 10 anos

 

 
Por Rodrigo Pedroso | De São Paulo - Valor 18/02

A balança de serviços do Brasil com o exterior vem acompanhando o aumento da participação desse setor na economia doméstica. Ano passado, enquanto as importações brasileiras de bens caíram 1,6%, a despesa com serviços no exterior - que inclui viagens, aluguel de equipamentos e uso de transporte, entre outros - cresceu 6,8%, fazendo o déficit externo nesse setor subir para US$ 41 bilhões.
O saldo negativo do ano passado foi o maior da série histórica registrada pelo Banco Central e eclipsou - como vem fazendo desde 2010 - o superávit obtido com a balança de bens. A diferença entre as duas contas foi um déficit de US$ 21,6 bilhões. Nos últimos 30 anos, desde que o Brasil começou a ter valores expressivos de exportação, o déficit em serviços só superou o superávit em bens em quatro oportunidades (a lista não considera os anos de déficit comercial).


O déficit em serviços tem sido crescente - há dez anos ele era de US$ 5 bilhões, indicando alta de 720% no período - e tem representado uma parcela maior do Produto Interno Bruto (PIB). Os US$ 41 bilhões de 2012 representaram 1,8% do PIB, de acordo com cálculos da LCA Consultores. Essa proporção é a maior dos últimos anos, segundo o economista-chefe Bráulio Borges.
Entre 2005 e 2008, o saldo negativo ficou em cerca de 1% do PIB. Nos dois anos seguintes, ele subiu para 1,2%, e em 2011 para 1,5%. O aumento decorreu principalmente do incremento nas importações de serviços, que passaram de 2,8% do PIB em 2008 para 3,6% ano passado. As exportações de serviços cresceram, mas em ritmo menor.
Para analistas, os setores que contribuíram para o aumento no déficit externo no setor de serviços demonstram a dinâmica da economia interna, com as viagens ao exterior ganhando fôlego. Mesmo com a desvalorização do real no ano passado, os brasileiros gastaram US$ 22 bilhões no exterior, valor 4,5% maior do que em 2011. Em contrapartida, os estrangeiros despejaram na economia nacional US$ 6,6 bilhões em 2012, segundo dados do Banco Central.
O aumento nas despesas dos brasileiros com as viagens ao exterior ocorre em paralelo a uma desaceleração na demanda por bens de consumo, diz Silvio de Campos Neto, economista da Tendências Consultoria. Uma família, diz ele, depois de trocar de carro e de geladeira, quer viajar para o exterior. Esse movimento, impacta o nível da corrente de comércio exterior de bens (pela menor importação proporcional de bens de consumo) e eleva os gastos em serviços.
Para Borges, da LCA, o saldo negativo no segmento de turismo, pode arrefecer este ano. "O principal vetor desse crescimento foram as viagens internacionais, que devem dar uma estagnada. Em termos reais, o câmbio desvalorizou 15% no último ano, além de o governo ter colocado IOF para quem utiliza o cartão de crédito no exterior. Essas medidas devem conter o aumento e fazer com que haja uma troca de viagens internacionais por domésticas", afirma.
Outra área de serviços com peso grande nas importações foi o aluguel de máquinas e equipamentos, ligados principalmente a projetos de infraestrutura e de exploração do pré-sal, com a Petrobras contratando o uso de equipamento no exterior. Ano passado, o gasto do país com aluguel aumentou 12,2% e chegou a US$ 18,8 bilhões. Transportes também deu uma contribuição significativa para o déficit, com saldo negativo de US$ 8,8 bilhões. Nesse grupo, pesa o uso de navios de bandeira estrangeira para o comércio exterior.
Só o saldo negativo da balança de aluguel de máquinas e equipamentos foi praticamente igual ao superávit da balança de bens, que foi de US$ 19,4 bilhões ano passado. "Em alguns casos não há tecnologia doméstica para suprir a necessidade das obras, em outras não há escala que compense a uma empresa fabricar maquinário de alta tecnologia e valor agregado. Há setores bem específicos dentro dessa conta", diz Campos Neto.
De acordo com Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores, quanto mais primária for a pauta de exportação brasileira de bens, maior será o gasto com transporte. Como a logística nacional é tocada por empresas estrangeiras, o uso de navios e contêineres para exportar bens brasileiros encarece a conta da importação nesse grupo. "As commodities agrícolas e os minérios são pesados, o que demanda cargueiros maiores", diz Barral.
Para fazer com que a balança fique menos desfavorável, é necessário olhar o outro lado dela, segundo o consultor. Apesar da alta de 4,3%, a evolução das exportações foi menor do que das importações de serviços ano passado. "Um país que tem mais de 60% de seu PIB gerado em serviços deveria pensar mais em explorar essa parte. Menos de 1% das empresas de serviços do Brasil exportam. As empresas precisam olhar onde são competitivas. Com a América Latina, por exemplo, nossa balança é favorável", afirma Barral.
A área de serviços ligados a empresas, engenharia, arquitetura e profissionais e técnicos, destoa do restante da balança. No ano passado, ela registrou um superávit de US$ 11,5 bilhões. A categoria definida pela metodologia do Banco Central inclui oito setores, e vai de encomendas postais a passes de atletas profissionais.
Nesse grupo pesa a atuação da construção civil brasileira no exterior, que sempre foi forte e cresceu nos últimos anos. De 2010 para cá, as exportações passaram de US$ 5,7 bilhões para US$ 8,9 bilhões. Na importação, empresas de engenharia executaram US$ 4,7 bilhões em serviços no Brasil em 2012.
Barral avalia que o fato de as vendas de serviços serem a metade do que o Brasil importa acontece por burocracia e altos custos tributários na hora de ir ao exterior, forte presença de empresas pequenas, que não têm fôlego para mirar o mercado externo, e falta de uma política de incentivos para fomentar esse movimento. O próprio tamanho de serviços na economia ajuda as empresas a não mirarem o mercado externo. "Em tecnologia da informação e bancária e construção civil temos serviços excelentes, mas exportamos pouco. O problema é que colocamos todos os ovos em uma cesta só ao não diversificar os clientes", diz ele.
Para Barral, a perspectiva para os próximos anos é de contenção do saldo negativo, apesar de ele permanecer em um patamar elevado. Borges tem avaliação semelhante. "Para deixar a dependência de transportes, por exemplo, é necessário dez, 20 anos. Pode ser que se formos bem sucedidos em atrair mais turistas ao Brasil haja impacto nas exportações e diminuição do déficit. Mas o número é grande e não muda tão cedo", diz o economista da LCA Consultores.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O crescimento de 2013

 

Por Antonio Delfim Netto - Valor 05/02

Foi muito bom que o ilustre ministro da Fazenda, Guido Mantega tenha declarado enfaticamente: 1) que a política fiscal é anticíclica, mas responsável; 2) que a taxa Selic não está "engessada" e que a escolha dos instrumentos para o controle da meta inflacionária é tarefa do Banco Central e, por fim, mas não menos importante; 3) que "a taxa de câmbio não é instrumento para baixar preços".

Uma afirmação como essa era necessária para reduzir o ruído que se estabeleceu sobre a política econômica nas últimas semanas. Ruído que disseminou um pessimismo exagerado sobre o crescimento de 2013, incompatível com as medidas já tomadas pelo governo: a redução da taxa de juros real, a sustentação do crédito pelos bancos estatais, o corte da tarifa de energia, a desoneração da folha de pagamentos, a mudança da política cambial, a perspectiva de leilões inteligentes para a aceleração das concessões das obras de infraestrutura e a boa safra que se aproxima.

O efeito conjunto da desoneração da folha e uma relativa melhoria cambial está mudando a nossa capacidade de concorrer no mercado internacional, como já é visível em alguns setores (até na produção de bens de capital, onde é grande a capacidade ociosa). A recente intervenção do Banco Central no mercado de câmbio causou um estresse nos exportadores, que acreditam na política do governo e tomaram o risco de voltar a procurar seus clientes.


É ridículo afirmar, como tem sido feito, que como a "mudança cambial não aumentou as exportações é melhor usá-la no controle da inflação", ignorando que a destruição produzida por anos de insensata supervalorização não pode ser superada em alguns meses de política econômica correta.
Os números do PIB de 2012 mostram que o medíocre resultado que tanto nos incomoda tem múltiplos ingredientes, mas a causa causans foi o mergulho da produção industrial que desde 2008 (quando cresceu 3,1%), vem flutuando para reduzir-se a -2,7% em 2012. De 2008 a 2012, a produção industrial praticamente não cresceu, contra 4,3% entre 2004 e 2008.

Honestamente, é preciso perguntar o que mudou entre os pontos médios dos dois períodos (2006 e 2009) em matéria de instituições, de legislação, de política de crédito, de produtividade da infraestrutura, de absorção de novas tecnologias? Ouso dizer que praticamente nada, nem mesmo a taxa de inflação (5,4% ao ano entre 2004-08 e 5,6% entre 2009-12), ou a política fiscal. O déficit nominal médio foi de 3% do PIB no período 2004-09, contra 2,7% de 2009-12, e a relação dívida líquida/PIB caiu, monotonicamente, de 47% em 2006, para 36% em 2012.

Entre os dois períodos mudou apenas uma coisa: a taxa de câmbio: a média no período 2004-09 foi de R$ 2,22 por dólar; no período 2009-12, R$ 1,85 por dólar.

Supondo uma inflação média mundial de 2% ao ano, a valorização da taxa de câmbio real entre os pontos médios foi da ordem de 25%. O saldo em conta corrente com relação ao PIB saltou de positivo 0,81, para negativo de 2,07. Entre 2009 e 2012, acumulamos um déficit em conta corrente de quase US$ 180 bilhões!

No ano de 2009, quando a crise mundial bateu duro à nossa porta, a produção industrial caiu 7,4% e nossa exportação de produtos manufaturados caiu 27,3%, com a taxa cambial rodando em torno de R$ 2 o dólar. Em 2010, a produção industrial apenas recuperou o nível de antes da crise (2008). O "famoso" crescimento industrial de 10,1% em 2010 (como o do PIB, 7,5%) é apenas um artefato estatístico. De fato, a produção industrial antes de 2009 vinha crescendo em torno de 3% ao ano. Caiu 7,4% em 2009. O crescimento de 10,1% em 2010 foi pura recuperação do nível de 2008.

A desastrosa política cambial de supervalorização de 2009 a meados de 2012 está, seguramente, na base da destruição da estrutura industrial dos últimos quatro anos. Hoje, a produção se encontra no mesmo nível de 2008. E isso está na base do pequeno crescimento do PIB de 2011 e 2012.

É preciso cuidado com a falácia que a produção industrial está estagnada pela falta de produtividade da mão de obra. Esse é um fenômeno pró-cíclico. Como o custo de ajustar o emprego é muito alto, enquanto o empresário tem esperança de que sua demanda voltará a crescer, ele tende a mantê-lo, o que produz outro artefato estatístico: a produtividade "aparente" do trabalho fica constante.

É claro que uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada e estável não é tudo. Mas a política governamental não parou aí. A redução do custo da energia, por exemplo, é fundamental. É sempre temerário fazer comparações entre preços separados por 40 anos, mas suspeito que em 2012 a tarifa média anual do kWh em dólares na indústria é quase dez vezes maior do que era no momento de rápido crescimento do país.

A taxa de juros real retorna ao que foi naquele momento. Há alguma desoneração fiscal permanente. Se concretizar-se a melhoria da qualidade dos leilões e estimularmos a competição, o mercado fixará as menores taxas de retorno compatíveis com a qualidade dos serviços de infraestrutura especificada pelo governo, o que abrirá espaço para o investimento privado.

Não há razão para não acreditar que em 2013 podemos acelerar o crescimento sem criar maior tensão inflacionária e sem aumentar o déficit comercial. Qualquer coisa entre 3,5% e 4,0% de crescimento parece hoje factível, se persistirmos na atual política e reduzirmos o estresse com o setor privado. Um fator coadjuvante é que a situação mundial será melhor em 2013 do que foi em 2012.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

The Big Mac index | The Economist

Interactive currency-comparison tool: The Big Mac index | The Economist

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Desafios do novo diretor-geral da OMC

 

Por Umberto Celli Jr - Valor 04/02


Como noticiado nas últimas semanas, será escolhido em breve o novo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) que deverá tomar posse em setembro. O processo de seleção já teve início e nove candidatos foram indicados por diferentes países, entre eles o Brasil, que aposta suas fichas no atual chefe da missão brasileira na OMC em Genebra, Roberto Azevedo. Os desafios do sucessor de Pascal Lamy serão enormes, a começar das dificuldades para o encerramento da Rodada Doha, cujas negociações se arrastam há mais de dez anos. Outro aspecto que também deverá merecer especial atenção diz respeito aos efeitos da proliferação sem precedentes de acordos preferenciais de comércio regionais, subregionais, interregionais e, em especial, os bilaterais. O ceticismo de vários governos de seus países membros e do setor privado quanto às condições da organização de reordenar o sistema multilateral de comércio também não deverá ser desprezado.

Atualmente, são poucos os países que ainda não fazem parte de acordos preferenciais de comércio. Com o impasse nas negociações da Rodada Doha, a alternativa das principais economias do mundo, como Estados Unidos, União Europeia e China, foi buscar a celebração desses acordos como forma de consolidar e ter acesso a novos mercados.

O receio de boa parte de países desenvolvidos, de economias em transição e em desenvolvimento de perderem espaço em suas exportações levou-os a aderir a esses acordos. Informações constantes da página eletrônica da OMC dão conta de que há mais de 300 acordos preferenciais em vigor e muitos outros em negociação.

Os acordos preferenciais de comércio de última geração não mais possuem como objetivo primordial a liberalização do comércio via redução de barreiras tarifárias. Eles se transformaram em novos centros de regulação do comércio global. Sua proliferação resultou na criação de regimes normativos diferenciados que, apesar de reproduzirem regras básicas da OMC, contêm outras que tornam mais rígidas as disposições relativas à propriedade intelectual e imprimem em alguns casos um viés mais liberalizante às negociações sobre o comércio de serviços. Tratam ainda de áreas não abrangidas pela OMC, tais como regras de promoção e proteção de investimentos estrangeiros, concorrência (antitruste e formação de cartéis), meio ambiente, mudança climática e padrões trabalhistas.

As regras desses numerosos acordos conflitam e se sobrepõem às da OMC, o que tem colocado em xeque o status dessa organização internacional de autoridade máxima do sistema de governança global do comércio. Aliás, ocorrem sobreposições e conflitos entre as regras dos próprios acordos preferenciais de comércio. Regras de origem, procedimentos aduaneiros, padrões técnicos, mecanismos de solução de controvérsias, entre outros itens, poderão ser distintos ou contraditórios dependendo de qual regime normativo será aplicado. Esse quadro de insegurança jurídica implica elevados custos de transação para os agentes comerciais. Diante dessa multiplicidade de acordos que regulam suas relações comerciais, eles muitas vezes têm dificuldades em identificar quais são seus direitos, obrigações e as preferências que vão obter exportando ou importando produtos ou serviços para ou de um país determinado.


Para recuperar sua autoridade e reorganizar o sistema multilateral, será necessário que a OMC busque soluções que possam assegurar maior articulação, convergência e coerência de suas regras com as dos acordos preferenciais. Isso só será alcançado se houver vontade política de seus países membros de atualizá-las de modo que elas também possam endereçar as novas áreas que hoje estão sendo reguladas nos acordos preferenciais de comércio.

Essa tarefa torna-se ainda mais árdua quando se tem em mente o fato de que muitas das regras da OMC não mais refletem adequadamente as formas contemporâneas de organização da produção de bens e de prestação de serviços representadas pelas operações de cadeias globais de suprimento ou de valor. O setor privado parece ter uma clara percepção dessa realidade. Sabe que a competitividade da indústria e um melhor desempenho nas exportações dependem de forma crescente da integração dos países a essas cadeias globais de produção. Como ficam então as regras de origem da OMC para o efeito de aplicação pelos países membros de imposto de importação? E as regras de defesa comercial que visam proteger a indústria nacional? Mesmo o conceito de produto nacional tenderá a ficar mais fluido.

Essas questões não poderão passar despercebidas em qualquer processo de atualização de regras que venha a ser realizado pela OMC. A julgar pelo ceticismo atual de alguns países membros, de boa parte do setor privado e agentes comerciais, será difícil reunir a vontade política necessária para enfrentar tamanhos desafios. O que se observa é o surgimento de movimentos paralelos à OMC, como o Acordo de Associação Transpacífico (Trans-Pacific Partnership (TPP). Sob a liderança dos Estados Unidos, o TPP envolve amplas negociações entre países da região Ásia-Pacífico. Seu objetivo é o de redesenhar completamente o regime internacional de comércio e investimentos. Não parece se tratar de um movimento convergente com a OMC.

Umberto Celli Junior é professor de direito internacional da USP.

A produção de petróleo da Petrobrás caiu 2,35% em 2012

 
 
Sabrina Valle e Sergio Torres, da Agência Estado

RIO - A produção de petróleo da Petrobrás caiu 2,35% em 2012, para 1,974 milhão de barris por dia (b/d), contra 2,022 milhões b/d no ano anterior, informou a Agência Nacional do Petróleo (ANP). O recuo foi pior do que o esperado.
A atual diretoria da companhia já havia admitido que a produção poderia flutuar dentro de uma margem de erro de 2% para cima ou para baixo. No entanto, o diretor de Exploração e Produção (E&P), José Miranda Formigli, havia garantido que o resultado ficaria dentro de um recuo máximo de 2%.
Em termos nacionais, durante todo o ano de 2012 foram produzidos cerca de 754 milhões de barris de petróleo e 26 bilhões de metros cúbicos de gás natural, com média de produção diária de 2,067 milhões barris de petróleo e 71,7 milhões de metros cúbicos de gás.

Em dezembro, a produção da companhia ficou em 1,958 milhão b/d, uma queda de 1,68% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Segundo a ANP, o campo de Marlim Sul, na bacia de Campos, foi o que mais produziu petróleo e o segundo com maior produção de gás, apresentando média de 346,3 mil barris de óleo equivalente por dia.

Já a produção do pré-sal aumentou 7,5% em relação a novembro de 2012, marca de 292,5 mil barris de óleo equivalente por dia.

Produção de petróleo e gás natural cai 3% em 2012

Por Rodrigo Polito, Marta Nogueira e Alessandra Saraiva | Do Rio - Valor 05/02

Em dezembro do ano passado, o Brasil produziu 4,9% menos petróleo que no mesmo mês de 2011, mas a marca de 2,105 milhões de barris/dia foi suficiente para superar em 2,9% o resultado verificado em novembro. Com isso, a produção média brasileira de petróleo em 2012 alcançou 2,061 milhões de barris diários, com redução de 2,07% em comparação com o contabilizado no ano anterior.
De acordo com o Boletim da Produção de Petróleo e Gás Natural, de dezembro de 2012, divulgado ontem pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção nacional de gás natural em dezembro, de 76,2 milhões de metros cúbicos/dia, foi recorde. O volume é 6,8% superior ao observado em dezembro de 2011.
A produção de petróleo e gás natural no Brasil, somada, totalizou 2,584 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/dia) em dezembro de 2012. O montante é 2,95% inferior ao observado em igual período do ano passado, de 2,663 milhões de boe/dia. O campo de Marlim Sul, na Bacia de Campos, registrou a maior produção em dezembro, totalizando 346 mil barris de óleo equivalente por dia.
Segundo a ANP, o volume de queima de gás natural em dezembro de 2012 foi de 4,3 milhões de metros cúbicos por dia. O montante foi 15,2% menor que o observado no mesmo mês de 2011 e 4,7% inferior em comparação com novembro do ano passado.
A produção brasileira na camada pré-sal alcançou 292,5 mil boe/dia em dezembro de 2012, com alta de 45% em relação a igual período de 2011, e de 7,5% em relação ao mês exatamente anterior. A produção de petróleo no pré-sal atingiu 242,7 mil barris por dia enquanto a de gás natural registrou 7,9 milhões de metros cúbicos por dia.
O total produzido tem origem em 15 poços, sendo dois no Campo de Jubarte; quatro no Campo de Lula; um em reservatório compartilhado pelos Campos de Caratinga e Barracuda; dois em Marlim Leste; um em reservatório compartilhado por Marlim e Voador e cinco no Baleia Azul.
 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O perigoso caminho da recuperação

 

Por Martin Wolf - Valor 31/01
 
"Nós evitamos o colapso, mas precisamos nos resguardar contra qualquer recaída. 2013 será um ano do tipo ou vai ou racha". Essas foram as palavras de Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, no Fórum Econômico Mundial, na semana passada. Ela tem razão. Empresários, políticos e especialistas em Davos deram um suspiro de alívio. Pela primeira vez desde 2007, o foco da discussão não foi a calamidade financeira. No entanto, o fato de as economias dos países de alta renda não terem caído de sua frágil ponte não garante um retorno rápido ao crescimento. Isso poderá, muito bem, acontecer. Mas ainda não está assegurado.

A confiança melhorou. Um indicador é o diferencial entre a taxa interbancária de Londres (Libor) e a taxa de swap indexado no overnight (OIS, em inglês), uma medida do risco de inadimplência em empréstimos interbancários. Esses diferenciais caíram para apenas 10 pontos base em euros e 16 pontos base em dólares americanos. Os mercados de ações também apresentam forte recuperação a partir dos mínimos atingidos em março 2009, especialmente nos EUA. Os diferenciais entre os rendimento dos títulos soberanos de países vulneráveis na zona do euro e os Bunds alemães caíram substancialmente: na Itália, o diferencial caiu de 5,3 pontos percentuais no fim de julho de 2012 para 2,6 pontos percentuais em 25 de janeiro de 2013; na Espanha, esse diferencial caiu de 6,4 para 3,4 pontos percentuais. À medida que melhorou a confiança nos títulos soberanos, melhorou também a confiança nos bancos.

A melhoria na confiança não se limita aos países de alta renda. Em seu relatório "Global Economic Prospects" de janeiro, o Banco Mundial observa que "os fluxos internacionais de capital para os países em desenvolvimento... atingiram novos máximos", que "os diferenciais entre os títulos de países em desenvolvimento... diminuíram em 127 pontos base desde junho [de 2012]", e que "os mercados de ações nos países em desenvolvimento subiram 12,6% desde junho". Isso, portanto, representa uma mudança mundial.

O que explica o crescente otimismo? Uma razão é que desastres temidos - uma ruptura da zona do euro ou uma queda dos EUA no abismo fiscal - foram evitados. Outra razão é que ocorreu um substancial ajuste pós-crise, sobretudo nos EUA, onde a alavancagem do setor privado e os preços dos imóveis sofreram um reequilíbrio significativo: por exemplo, a dívida privada nos EUA está de volta aos níveis de 2003 como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). Mas outra explicação é a crescente confiança na competência nas autoridades econômicas. Acima de tudo, os banqueiros centrais vêm utilizando há bastante tempo políticas monetárias ultraexpansionistas para aquecer as economias pelas quais serão responsáveis. A taxa referencial de juros definida pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) está em 0,25% há mais de quatro anos, e assim permanecerá por mais anos. Até mesmo o Banco Central Europeu (BCE), o mais cauteloso dos grandes bancos centrais, adotou o que teria parecido uma política irresponsavelmente frouxa em qualquer época anterior, com uma taxa de juros de 0,75% desde julho do ano passado.

Mesmo assim, o futuro parece longe de róseo. Em uma atualização de suas projeções para o "World Economic Outlook", o Fundo Monetário Internacional pintou um quadro longe de róseo: crescimento de 2% nos EUA, 1,2% no Japão, 1% no Reino Unido e - 0,2% para a zona do euro neste ano, embora as previsões para os países emergentes e em desenvolvimento sejam muito mais vigorosas, com crescimento de 5,5%. A economia mundial em duas velocidades persiste.

A grande razão para pessimismo é que os países de alta renda permanecem presos em uma depressão contida. O prolongado período de política monetária ultrafrouxa, envolvendo taxas de juro baixas e enormes expansões nos balanços dos bancos centrais, é um indicador disso.

os seis maiores países de alta renda, apenas os EUA e a Alemanha tiveram maior produção no terceiro trimestre do ano passado do que em seus picos pré-crise e, mesmo assim, o aumento foi pequeno, de 2,5% nos EUA e 2% na Alemanha. A produção na França, Japão, Reino Unido e Itália ficaram abaixo do pico pré-crise.

Na zona do euro, o BCE conseguiu eliminar o risco de cauda de uma ruptura da zona euro, conquistando apoio alemão a uma promessa de compra de títulos soberanos. O BCE foi vitorioso sem disparar um tiro.

Alguns argumentam que um recrudescimento da inflação já está à vista. Agora que o Japão aderiu à festa com sua "Abenomics" (a estratégia econômica do primeiro-ministro japonês), esse parece ser um risco maior do que antes. No entanto, duvido que esses até hoje falsos profetas provarão ter razão - temo bem mais um aperto prematuro. Mas a incerteza é grande. A capacidade das autoridades econômicas de administrar esses riscos com sucesso é duvidosa, como observou Gavyn Davies em um comentário sobre a contribuição de Mark Carney, próximo presidente do Banco de Inglaterra, perante um painel em Davos.

Mas também há razões para otimismo sobre o futuro. As economias emergentes têm revelado um dinamismo sustentado, ainda que tenha havido decepções. Com o reequilíbrio ocorrido, bem como devido a uma revolução energética, os EUA poderão surpreender positivamente. O Japão poderá escapar da estagnação deflacionária. Por fim, o retorno do capital privado à periferia da zona do euro poderá iniciar uma espiral virtuosa ascendente de confiança e gastos. A chave para o sucesso em todos os países dependerá da escolha do momento exato de abandonar as políticas excepcionais.
As autoridades econômicas reagiram com sucesso. No caso da zona do euro, elas quase agiram tarde demais. No fim das contas, porém, o BCE prometeu ação. Essa promessa revelou-se extremamente eficiente - até agora. Uma chance de um retorno ao crescimento sustentado está agora emergindo, embora no mais baixo grau, na Europa. Substancial apoio fiscal e monetário ainda são essenciais. Se as autoridades econômicas mantiverem a sustentação, o mundo poderá estar muito mais perto de uma recuperação total daqui a um ano. (Tradução de Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

 
http://www.valor.com.br/opiniao/2988612/o-perigoso-caminho-da-recuperacao#ixzz2JfQMcWys
 

Dólar ignora mudança no IOF e fecha a R$ 1,99

 

 
Por José Sergio Osse e José de Castro | De São Paulo - Valor 01/02


Depois de três dias agitados, o mercado de câmbio desfrutou de um pregão relativamente tranquilo na quinta-feira, com o dólar marcando leve alta, e ignorando medida do governo, que zerou a alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado em aplicações de estrangeiros em fundos imobiliários. Para operadores, a mudança veio em "timing" ruim, acrescentando mais ruído ao mercado, ainda incerto após a confusão de sinais aparentemente conflitantes emitidos pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda.
A moeda americana fechou a quinta em alta de 0,05%, a R$ 1,990, após oscilar de R$ 1,983 a R$ 1,993 entre mínima e máxima. O ganho, porém, não foi suficiente para reverter as fortes perdas do início da semana e, no mês, o dólar acumulou queda de 2,59%.
Profissionais encararam o corte de 6% para zero na alíquota de IOF para aplicações de estrangeiros em fundos imobiliários muito mais como uma correção na legislação, clarificando a natureza desses ativos, do que como uma intervenção propriamente dita no câmbio. Assim, o efeito imediato foi nulo sobre o dólar, embora alguns agentes acreditem que, no longo prazo, a mudança tem potencial para fortalecer o fluxo de recursos para o país e favorecer a alta do real.


"No longo prazo, isso ajuda a atrair mais recursos para o país", disse Solange Srour, economista-chefe do BNY Mellon Arx. "O país não tem poupança doméstica o suficiente e precisa atrair esse tipo de capital, que é mais de longo prazo e menos especulativo."
Os sinais de que o interesse de estrangeiros por ativos latino-americanos pode estar voltando a crescer contribui para a expectativa de fluxo maior por meio desses fundos imobiliários, agora livres de IOF para estrangeiros. Segundo Eduardo Suarez, estrategista sênior de câmbio do Scotiabank, em recente operação de abertura de capital, a administradora imobiliária mexicana Fibra Uno levantou cerca de US$ 1,73 bilhão. Cerca de dois terços da demanda veio de estrangeiros, disse ele.
"O governo [brasileiro] conta com o setor imobiliário e de construção civil como um dos propulsores à aceleração da economia", disse Suarez. Para ele, a medida anunciada de ontem "é consistente com esse objetivo".
Outros profissionais, porém, acreditam que a mudança não deve ter impacto, isoladamente, tão significativo sobre os fluxos ou potencial para alimentar uma alta do real ante o dólar. A importância da medida seria mais subjetiva, por ser uma sinalização do governo indicando que não quer um real muito desvalorizado, dadas as preocupações com a inflação.
"Essa medida [do IOF] foi branda, não deve trazer uma enxurrada de dólares. Mas o ponto é a sinalização do governo, que pelo visto não está disposto a deixar a moeda local se depreciar. E um dos principais motivos para isso é, sem dúvida, a inflação", disse Italo Lombardi, economista do Standard Chartered Bank para a América Latina.


A força limitada da medida sobre o câmbio, inclusive, teria seu significado próprio, segundo Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs. Segundo ele, ainda que a ideia seja facilitar o fluxo, enfraquecendo o dólar e, assim, ajudar no controle da inflação, o sinal é que o espaço para a apreciação do real é limitado.
"A ideia não é olhar essa medida isoladamente. Ela se encaixa num conjunto de outras [ações] que mostram claramente uma preocupação crescente das autoridades com a inflação", disse ele. "Se essa medida fosse forte a ponto de apreciar demais o real, o governo não a adotaria."
Para alguns agentes, o corte do IOF um dia após o BC e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, emitirem sinais aparentemente contraditórios sobre o câmbio apenas confundiu ainda mais o mercado.
"A escolha do timing não foi boa, dada a atuação do BC e as declarações do Mantega. Não sabemos se isso [a mudança no IOF] é uma coincidência ou se foi proposital", disse a economista do BNY.
Independentemente da opinião sobre os efeitos dessa medida sobre o fluxo cambial, os profissionais concordam que ela não sinaliza que o governo esteja perto de alterar o IOF sobre aplicações de estrangeiros em outros ativos.
"Ninguém no mercado vê isso como o primeiro passo para retirar o IOF para renda fixa ou para derivativos", disse Srour. "O governo não quer uma apreciação muito rápida [do real]."
As taxas de juros negociadas na Bolsa de Mercadorias & Futuros fecharam em alta ontem influenciadas pela preocupação com as fontes de pressão inflacionária, como o câmbio e o mercado de trabalho aquecido. Diferentemente dos três dias anteriores, o volume movimentado ontem foi fraco, metade da média nesta semana. O contrato de Depósito Interfinanceiro com vencimento em janeiro de 2015 (DI janeiro/2015) subiu a 7,94%, de 7,91% na véspera.


Urânio: perderemos a oportunidade?

 

Por Leonam dos Santos Guimarães - Valor 01/02

Mesmo depois do acidente de Fukushima, a demanda por energia elétrica nuclear continua a crescer. Essa commodity está num ponto crítico de inflexão para preços mais elevados. Até mesmo o Japão está mudando sua postura sobre a energia nuclear devido aos maiores custos da geração elétrica substituta. O recém-eleito primeiro-ministro, Shinzo Abe, declarou que o novo governo está disposto a construir novas usinas - mudança radical com respeito à promessa do governo anterior de fechar todas as 50 usinas do país até 2040.
O impacto mais significativo vem, porém, do mundo em desenvolvimento, especialmente da China. Ela que poderá adicionar mais de 100 usinas ao longo das próximas duas décadas. Outras nações, como a Rússia, Índia, Coreia do Sul e os Emirados Árabes Unidos têm também grandes programas de construção, aumentando significativamente as 435 usinas que hoje fornecem eletricidade na base de carga dos sistemas elétricos de 31 países.
2013 começa com 65 usinas nucleares em construção (1 no Brasil), outras 160 em fase de planejamento (4 no Brasil) e mais 340 propostas (4 no Brasil). A demanda por urânio será, portanto, cada vez mais elevada, o que apresenta um problema, pois existe hoje um déficit de produção. De acordo com a World Nuclear Association (WNA), o consumo total em 2011 foi de 80 milhões de quilos, enquanto a produção foi de 68 milhões - déficit de 12 milhões de quilos.
O uso do urânio altamente enriquecido reciclado, o re-enriquecimento de urânio empobrecido (rejeito do processo de enriquecimento) e a redução dos estoques das empresas geradoras tem suprido esse déficit, mas o futuro dessas fontes de suprimento é incerto, particularmente com o final do programa chamado "Megatons por Megawatts". Criado com o final da guerra fria, os programa é um acordo entre os EUA e a Rússia para converter o urânio altamente enriquecido, disponibilizado pelo desmantelamento de armas nucleares russas, em urânio de baixo enriquecimento para combustível nuclear.
A existência desse programa sozinho preenche a maior parte do déficit anual mundial, oferecendo 10 milhões de quilos de urânio. Eles são consumidos exclusivamente pelos EUA, onde está cerca de 25% do parque nuclear mundial. Paradoxalmente, nos últimos anos 10% da eletricidade produzida nos EUA tem como fonte o urânio das armas nucleares russas desmontadas - espadas se tranformando em arados.
 
Entretanto, ele expira no final de 2013. Se os russos decidirem não renovar o acordo, o que parece bastante provável, o re-enriquecimento e os estoques não serão suficientes para suprir o deficit. Se contarmos somente com as usinas em construção, o consumo anual crescerá para 100 milhões de quilos. Nesse contexto, com a oferta não conseguindo mais acompanhar a demanda, os preços do urânio começarão a subir.
Quando se considera os prazos necessário para abertura de novos complexos industriais de produção e ampliação dos existentes, temos um complicador: até 2020 a produção anual somente poderia aumentar no máximo até 90 milhões de quilos. Mas para isso acontecer, os preços também teriam que se estabilizar num patamar de US$ 40 por quilo para que a indústria estivesse disposta a realizar os investimentos necessários. Hoje o preço é de US$ 20/kg. O mercado está assim dando pouco incentivo para implantação de novos projetos. Os preços terão que mover-se para cima de forma importante e sustentada para que haja produção adicional.
Quando o Japão prometeu fechar suas 50 usinas, reduziu a demanda mundial por combustível em cerca de 10 milhões de quilos e, além disso, agravando a situação, as empresas japonesas venderam cerca de 7,5 milhões de quilos de seus estoques. Isso levou à atual baixa de preços no mercado spot. O sistema elétrico do Japão sem a energia nuclear tem experimentado apagões, as importações de gás natural subiram 17% e as importações de carvão 21%. Com a vitória do Partido Liberal Democrático, espera-se que as vendas de urânio cessem e a demanda seja retomada.
Considerando as usinas em construção, a capacidade instalada da China subirá para 40 milhões de quilowatts até 2015, em comparação com 12,54 milhões no final de 2011. As empresas chinesas terão que aumentar seus estoques, adquirindo muito mais urânio. Isso elas já vem fazendo, aproveitando os preços baixos decorrentes do "efeito Fukushima".
Esses dois fatos, somados ao encerramento do acordo "Megatons para Megawatts", indicam que o preço do urânio poderá voltar aos US$ 40/kg ou mais já em 2014. Antecipando isso, as empresas do setor já começaram a fazer movimentos estratégicos. A estatal russa vem adquirindo empresas menores, fortalecendo sua posição no mercado. O conflito no Mali deriva, em parte, desse contexto.
Sendo uma das maiores reservas de urânio do mundo, produção brasileira é modesta e exclusiva para o mercado nacional. Nos últimos anos tem declinado, não sendo suficiente para atender Angra 1 e 2 - ficará pior com Angra 3. Esses movimentos do mercado internacional não têm tido eco no Brasil. Perderemos a oportunidade?

Leonam dos Santos Guimarães é doutor em Engenharia Naval e mestre em Engenharia Nuclear. Assessor da presidência da Eletrobrás Eletronuclear e membro do grupo permanente de assessoria da Agência Internacional de Energia Atômica


 
 

Mesmo com estímulos, indústria deve encerrar 2012 com queda de 3%

Por Tainara Machado | De São Paulo

A alta esperada para a produção de veículos em dezembro será insuficiente para puxar outros ramos de atividade e o setor industrial deverá mostrar queda pelo segundo mês consecutivo. Em novembro, a produção manufatureira recuou 0,6% em relação ao mês anterior, com ajuste sazonal. Para dezembro, a média das estimativas de 11 consultorias e instituições financeiras consultadas pelo Valor Data é de queda de 0,5% do indicador ante novembro, com ajuste sazonal. As projeções variam entre recuo de 0,3% até baixa de 1%.

Para os economistas, a indústria aproveitou a série de estímulos dados pelo governo para normalizar estoques, que estão mais ajustados neste início de ano, mas sem recuperação consistente dos investimentos, será difícil manter trajetória mais firme de retomada. No ano, a indústria deverá acumular queda de 2,7%, estimam os economistas, ante crescimento de 0,3% em 2011. O resultado será divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Marcelo Arnosti, economista-chefe da BB-DTVM, revisou para baixo a estimativa para a produção industrial depois da divulgação do consumo de energia elétrica pela indústria, que recuou 3% entre novembro e dezembro, na série com ajuste sazonal. De uma queda de 0,2% na passagem mensal, o economista passou a estimar recuo de 0,6% da indústria entre novembro e dezembro, na série dessazonalizada. O Itaú também alterou sua projeção para o indicador, de queda de 0,2% para retração de 0,4%, porque o consumo de gás e energia elétrica decepcionou.

A economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thaís Zara, afirma ainda que outros indicadores coincidentes de atividade mostraram fraco desempenho no último mês de 2012. A expedição de papel ondulado recuou 2,1% entre novembro e dezembro, de acordo com dados da Associação Brasileira de Papel Ondulado (ABPO), sempre na série com ajuste sazonal da consultoria. Já o tráfego de veículos pesados em rodovias caiu 3,6% na passagem mensal.

A produção de veículos, influenciada pelo último mês de redução integral de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, subiu 0,9% entre novembro e dezembro, o que ajudou a impedir retração maior da indústria no mês. Os dados são da Anfavea, entidade que reúne as montadoras instaladas no país, também com ajuste sazonal da Rosenberg.
Para Thaís, a principal nota negativa do resultado esperado para a indústria em dezembro será a quinta queda seguida da produção de bens de capital, o que sugere que a recuperação dos investimentos ainda não ocorreu.

Arnosti, da BB-DTVM, afirma que dois meses consecutivos de queda da atividade manufatureira, com algum grau de disseminação entre os setores, coloca, de fato, alguma dúvida em relação à recuperação da economia. De acordo com seus cálculos, a indústria recuou 0,3% no quarto trimestre, após ter crescido 1% entre julho e setembro, sempre na comparação com os três meses imediatamente anteriores, com ajuste sazonal.

Ainda assim, para Arnosti a perspectiva é que o primeiro trimestre de 2013 mostre comportamento mais positivo da indústria. A Sondagem da Indústria da Fundação Getulio Vargas (FGV), por exemplo, apontou continuidade da normalização dos estoques em janeiro, além de recuperação da demanda interna. Mesmo a percepção em relação ao ambiente externo avançou. "Continuamos, portanto, com projeção de recuperação da indústria em 2013", diz o economista, que projeta alta de 2,75% da produção neste ano.

No entanto, pondera o economista, o resultado esperado para a indústria eleva o risco de que o quarto trimestre tenha crescimento inferior ao projetado pela gestora, que trabalha com expansão de 1% da atividade no período, sobre o trimestre anterior.
Para Thaís, da Rosenberg, essa lenta recuperação do setor já está embutida na projeção de crescimento de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre, em relação ao terceiro. O resultado, se confirmado, mostrará retomada bastante gradual da economia doméstica, já que o PIB avançou 0,6% no terceiro trimestre.
Sem aumento dos investimentos, afirma a economista, é difícil que a indústria mostre recuperação mais forte.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Relatório Leveson e os exemplos para o Brasil






Sob o ensurdecedor silêncio da grande mídia brasileira


publicado em 29 de janeiro de 2013 às 16:56

 

REGULAÇÃO EM DEBATE

Depois de Leveson, a União Europeia...

Sob o ensurdecedor silêncio da grande mídia brasileira, foi divulgado em Bruxelas, na terça-feira (22/1), o relatório “Uma mídia livre e pluralista para sustentar a democracia europeia”, comissionado pela vice-presidente da União Europeia, Neelie Kroes, encarregada da Agenda Digital

Preparado por um grupo de alto nível (HLG) presidido pela ex-presidente da Letônia, Vaira Vike-Freiberga, e do qual faziam parte Herta Däubler-Gmelin, ex-ministra da Justiça alemã; Luís Miguel Poiares Pessoa Maduro, ex-advogado geral na Corte de Justiça Europeia; e Ben Hammersley, jornalista especializado em tecnologia, o relatório faz trinta recomendações sobre a regulamentação da mídia como resultado de um trabalho de 16 meses que começou em outubro de 2011. As recomendações serão agora debatidas no âmbito da Comissão Europeia.

O relatório

O relatório, por óbvio, deve ser lido na íntegra [ver aqui a íntegra do relatório]. Ele começa com um sumário das principais conclusões e recomendações e, na parte substantiva, está dividido em cinco capítulos que apresentam e discutem as bases conceituais e jurídicas que justificam as diferentes recomendações: (1) por que a liberdade da mídia e o pluralismo importam; (2) o papel da União Europeia; (3) o mutante ambiente da mídia; (4) a proteção da liberdade do jornalista; e, (5) o pluralismo na mídia.

Há ainda um anexo de 12 páginas que lista as autoridades ouvidas, as contribuições escritas recebidas e os documentos consultados. A boa notícia é que quase todo esse material está disponível online.

Para aqueles a favor da regulamentação democrática da mídia – da mesma forma que já havia acontecido com o relatório Leveson – é alentador verificar como antigas propostas sistematicamente taxadas pela grande mídia e seus aliados da direita conservadora de autoritárias, promotoras da censura e inimigas da liberdade de expressão, são apresentadas e defendidas por experts internacionais, comissionados pela União Europeia.

Fundamento de todo o relatório são os conceitos de liberdade de mídia e pluralismo. Está lá:

“O conceito de liberdade de mídia está intimamente relacionado à noção de liberdade de expressão, mas não é idêntico a ela [grifo meu]. A última está entronizada nos valores e direitos fundamentais da Europa: ‘Todos têm o direito à liberdade de expressão. Este direito inclui a liberdade de ter opiniões, de transmitir (impart) e receber informações e ideias sem interferência da autoridade pública e independente de fronteiras’ (…).

“Pluralismo na mídia é um conceito que vai muito além da propriedade. Ele inclui muitos aspectos, desde, por exemplo, regras relativas a controle de conteúdo no licenciamento de sistemas de radiodifusão, o estabelecimento de liberdade editorial, a independência e o status de serviço público de radiodifusores, a situação profissional de jornalistas, a relação entre a mídia e os atores políticos etc. Pluralismo inclui todas as medidas que garantam o acesso dos cidadãos a uma variedade de fontes e vozes de informação, permitindo a eles que formem opiniões sem a influência indevida de um poder [formador de opiniões] dominante.”

Encontram-se no relatório propostas como: (1) a introdução da educação para a leitura crítica da mídia nas escolas secundárias; (2) o monitoramento permanente do conteúdo da mídia por parte de organismo oficial ou, alternativamente, por um centro independente ligado à academia, e a publicação regular de relatórios que seriam encaminhados ao Parlamento para eventuais medidas que assegurem a liberdade e o pluralismo; (3) a total neutralidade de rede na internet; (4) a provisão de fundos estatais para o financiamento da mídia alternativa que seja inviável comercialmente, mas essencial ao pluralismo; (5) a existência de mecanismos que garantam a identificação dos responsáveis por calúnias e a garantia da resposta e da retratação de acusações indevidas.

Pelo histórico de feroz resistência que encontra entre nós, vale o registro uma proposta específica. Após considerações sobre o reiterado fracasso de agências autorreguladoras, o relatório propõe:

“Todos os países da União Europeia deveriam ter conselhos de mídia independentes, cujos membros tenham origem política e cultural equilibrada, assim como sejam socialmente diversificados. Esses organismos teriam competência para investigar reclamações (…), mas também certificariam de que as organizações de mídia publicaram seus códigos de conduta e revelaram detalhes sobre propriedade, declarações de conflito de interesse etc. Os conselhos de mídia devem ter poderes legais, tais como a imposição de multas, determinar a publicação de justificativas [apologies] em veículos impressos ou eletrônicos, e cassação do status jornalístico.”

E no Brasil?

A publicação de mais um estudo oficial sobre regulamentação da mídia, desta vez pela União Europeia, menos de dois meses depois do relatório Leveson na Inglaterra, revela que o tema é pauta obrigatória nas sociedades democráticas e não apenas em vizinhos latino-americanos como a Argentina, o Uruguai e o Equador, mas, sobretudo, na Europa.

No Brasil, como se sabe, “faz-se de conta” que não é bem assim e o tema permanece “esquecido” pelo governo, além de demonizado publicamente pela grande mídia como ameaça à liberdade de expressão.

Quem se beneficia com essa situação? Até quando seguiremos na contramão da história?

***

[Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros]



Por Lilia Diniz em 07/12/2012

O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (4/12) pela TV Brasil discutiu o ponto mais polêmico do recém divulgado Relatório Leveson: a regulação da mídia. Encomendado pelo governo britânico para investigar acusações contra o tabloide News of the World,o documento recomenda a criação de um órgão regulador para a mídia impressa britânica independente do governo e das empresas jornalísticas. Em 2010, o jornal, que pertence ao conglomerado de mídia do magnata Rupert Murdoch, foi acusado de espionagem, escutas ilegais e chantagem em um escândalo que envolveu políticos, jornalistas, membros da família real e policiais.

O juiz Brian Leveson disse no documento que o comportamento de profissionais do News of the World não foi um caso isolado e que a mídia britânica silenciou diante das denúncias contra o jornal. O juiz acredita que o órgão que regula a mídia impressa do Reino Unido, o Comitê de Queixas contra a Imprensa (PCC, na sigla em inglês) não atendeu às expectativas e que é preciso um sistema de regulação mais severo, baseado em uma Lei de Imprensa a ser criada. O órgão proposto não teria como integrantes jornalistas em atividade e poderia multar as empresas jornalísticas em até um milhão de libras. As duas mil páginas do relatório suscitaram divergências no governo britânico e podem servir como mote para a discussão sobre a regulação da mídia brasileira.

Para debater o tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o jornalista Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo há dez anos. Maranhão tem mais de 40 anos de profissão e foi diretor de Redação do jornal O Estado de S.Paulo. EmSão Paulo, o programa contou com a participação dos jornalistas Suzana Singer e Caio Túlio Costa. Suzana é ombudsman da Folha de S.Paulo e, no jornal, já trabalhou comorepórter, pauteira, editora e diretora de revistas. Foi secretária de Redação, responsável pelo fechamento do jornal, por cinco anos. Caio Túlio foi o primeiro ombudsman da imprensa brasileira. Trabalhou na Folha de S.Paulo durante 21 anos. Foi um dos fundadores do UOL, do qual foi diretor geral até 2002. Ex-presidente do iG, atualmente é consultor de mídias digitais e professor de Ética Jornalística.

O modelo bizarro

Em editorial, antes do debate ao vivo, Dines ressaltou que News of the World converteu-se em paradigma das “aberrações cometidas pela imprensa sensacionalista”. O jornalista relembrou que o inquérito foi instaurado com o “esmagador” apoio da sociedade, da imprensa, do Parlamento e do governo. Para Dines, o relatório reforça a autorregulação e a transfere a questão para a esfera pública – “em condições de atuar com agilidade e rigor, a posteriori, mas sem complacências”.

“A imprensa brasileira comportou-se como de hábito, tudo combinadinho, sem discrepâncias, tipo ordem unida: houve o registro do relatório no dia seguinte, sexta-feira [30/11], e, no fim de semana, o nome Leveson havia evaporado completamente das páginas dos jornais ou revistas. Autorregulação continua um assunto tabu na imprensa brasileira”, afirmou Dines, que avaliou que a reação da mídia americana ficou entre a ingenuidade e o cinismo.

O correspondente Silio Boccanera, que vive em Londres, contou que o ponto mais controverso do relatório é o que propõe um reforço jurídico nos métodos atuais de punir os abusos da imprensa. “Não é uma questão de respostas fáceis, sacode a consciência e a ética de muitos jornalistas divididos entre a defesa da liberdade de expressão e a necessidade de proteger vítimas inocentes dos abusos e dos erros da imprensa”, ponderou Boccanera. O jornalista sublinhou que a Justiça comum é lenta e cara nesses casos. “Propostas como a do juiz Leveson provavelmente funcionariam aqui neste país, onde se consegue distinguir bem entre entidade pública e um órgão do Estado. A BBC, por exemplo, é uma emissora pública não estatal e funciona bem dessa forma. No Brasil, tenho dúvidas se as leis para a imprensa não acabariam virando censura”, opinou Boccanera.

Ainda antes do debate no estúdio, o programa exibiu uma entrevista com o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, que foi presidente do Conselho de Comunicação Social (CCS).Para ele, a questão da autorregulação está ligada ao nível cultural de cada país. “Em princípio, o que deveríamos desejar é que houvesse alguns consensos que não obrigassem a que houvesse uma legislação. A regra no mundo não é essa. Dos 191 países da ONU, Estados Unidos e Inglaterra têm esboços de lei que não chegam a ser lei. Fora disso, só o Brasil não tem. Então, é razoável imaginar que uma democracia pode conviver bem com uma lei de imprensa”, avaliou o jurista.

Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia da Fundação Getúlio Vargas, também foi entrevistado: “O que é interessante no relatório é que ele parte do princípio que esse órgão deve surgir a partir da autorregulação. Então, ele diz que as próprias empresas de mídia têm que se reunir e criar um modelo específico para pensar a questão da mídia no Reino Unido”. Para Lemos, o debate sobre a regulação da mídia no Brasil precisa identificar questões pragmáticas e específicas. “Podem ser, por exemplo, levantadas a partir de agora, como aconteceu no caso da Inglaterra. Pensar um arcabouço mais geral sobre o que pode ser feito em relação a mídia”, defendeu o professor.

Liberdade vs. regulação

No debate ao vivo, Aluízio Maranhão ressaltou que, no Brasil, a decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2009de revogar a Lei de Imprensa estabeleceu de maneira indiscutível que a liberdade de expressão é uma cláusula pétrea. Maranhão acredita que as discussões sobre a autorregulação no Brasil já avançaram. O editor de Opinião de O Globo citou como exemplo a decisão tomada pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), no sentido de que a entidade não poderia funcionar nos mesmos moldes de instituições como o PCC inglês ou o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar), que acompanha o setor de propaganda no Brasil. A autorregulação caberia aos veículos a partir de diretrizes estabelecidas pelas próprias publicações.

“Há veículos mais avançados e outros menos avançados. Eu acho que isso não deve assustar ninguém. Olhando o caso inglês, quando a autorregulação não funcionou, funcionou a polícia, funcionou a Justiça, como deve ser. Não nos esqueçamos de que não houve impunidade”, enfatizou o jornalista. Para Maranhão, é preciso levar em conta a conjuntura política e social do país quando de trata de debates em torno da regulação da mídia: “Se na Inglaterra há quem tenha dúvidas e tema um retorno ao século 17, que dirá aqui, com a nossa cultura ainda autoritária, de um Estado mais pesado. Nós estamos aprendendo a conviver democraticamente”.

A discussão em torno de liberdades é eterna, na opinião de Maranhão, mesmo em países onde o regime democrático é mais consolidado, como nos Estados Unidos. Na Inglaterra, a ideia de que um órgão como o PCC respaldado por uma legislação é ilusória porque qualquer entidade com força de lei vai atuar, em algum momento, de forma autoritária. Maranhão destacou que, no Brasil, o artigo da Constituição que garante a liberdade de expressão não é regulamentável. Outro ponto enfatizado pelo jornalista foi a sensibilidade da sociedade que, com o tempo, despreza produtos jornalísticos extremamente popularescos.

Avanços lentos

Na avaliação de Suzana Singer, o Brasil precisa avançar mais rapidamente no debate sobre a mídia. Apesar de a ANJ ter recomendado que os veículos adotassem mecanismos de avaliação e comunicação com o público, atualmente apenas dois jornais brasileiros têm a figura de um ombudsman. Para ela, todos os órgãos de mídia deveriam instituir uma ouvidoria. “Você tem no Brasil muito pouco respeito pela publicação de correções, de cartas com algum contraditório, o outro lado”, criticou Suzana. A mídia brasileira reconhece a necessidade de algum tipo de regulação, mas não está acostumada a prestar contas, a ser transparente e a explicar o seu modus operandi.

Dines ressaltou que a regulação da mídia precisa ser discutida por todos os segmentos da sociedade, mas os donos de veículos de comunicação são “impermeáveis” ao debate. Os empresários deveriam ter um pouco de flexibilidade para não ficarem com a pecha de irresponsáveis. Suzana Singer destacou que o ouvidor precisa ser independente, ter meios de receber as denúncias da sociedade e expressar a sua opinião, com colunas em veículos impressos ou programas na mídia eletrônica. Para ela, o debate sobre a regulação da mídia precisa ser travado: “É uma questão de vontade, de parar de ficar na defensiva. Eu acho que essa discussão hoje em dia é uma discussão de surdos. De um lado, fica-se repetindo que é uma tentativa de censura. Do outro lado, é a suposta democratização dos meios”.

A internet, na opinião de Suzana Singer, está se tornando um veículo capaz de fazer um contraponto à grande mídia ao publicar a opinião da população e repercutir direitos de resposta que foram omitidos pela imprensa tradicional. A jornalista afirmou que mais importante do que punir jornalistas individualmente por suas falhas é pensar sobre como as redações que os empregam estão estruturadas. Em casos clássicos recentes, como de Jayson Blair, repórter do New York Times que inventava personagens e fatos; do ex-apresentador da BBC Jimmy Savile, acusado de uma série de abusos sexuais; ou do escândalo do tabloide News of the World, a conduta das chefias contribuiu para agravar os desvios dos profissionais.

Mídia britânica pressionada

Para Caio Túlio Costa, a mídia brasileira cobriu bem o relatório Leveson, mas logo em seguida se calou. O jornalista chamou a atenção para o fato de que as denúncias contra o News of the World só vieram à tona por conta da liberdade de imprensa. Foi um jornal concorrente, o Guardian, quem publicou as primeiras notícias contra o tabloide de Murdoch. Caio Túlio afirmou que, além da aplicação de multas, o relatório propõe que os jornais investiguem adequadamente as reclamações e publiquem os pedidos de desculpas em destaque.

“Ele está tratando de um tema que, no fundo, nenhuma democracia no mundo resolveu a contento, que é a questão do direito de resposta, do tratamento às vítimas, e tudo o que uma notícia da imprensa pode provocar – seja de bom ou de ruim – para a reputação de um nome ou de uma empresa”. O jornalista comentou que, recentemente, o primeiro ministro britânico David Cameron – que é contrário à criação de uma Lei de Imprensa na Inglaterra – convocou uma histórica reunião com editores de grandes jornais. No encontro, Cameron advertiu que se a imprensa não promover a autorregulação, o Estado terá que interferir.

Caio Túlio disse que o governo britânico está pressionando a indústria para que resolva a questão da regulação com a criação de um órgão que não seja leniente como o PCC. “Aqui no Brasil, eu acho que nós já temos condição para começar uma discussão para a autorregulação. Eu temo muito é a questão da lei e de uma lei do Congresso, porque não vejo caldo de cultura necessário para uma lei que garanta totalmente a liberdade de expressão e evite censuras prévias”, disse o jornalista.

Paulo Metri decifra o enigma dos leilões de petróleo


 
 

publicado em 29 de janeiro de 2013 às 13:11
É mais ou menos nosso…
Não me decifraste e estás sendo devorado

 

por Paulo Metri*, no Correio da Cidadania

 

“Cheguei ao poder com grande apoio popular, graças ao discurso de luta por uma vida melhor para todos, mas também a acordos com os setores mais retrógrados da nossa sociedade. A ‘Carta aos brasileiros’, enigmática ao cidadão comum, representou um recado bem entendido pela elite. Depois de três tentativas frustradas para chegar à presidência, apreendi que as mudanças no Brasil, país com a mídia dominada, têm que ser parcimoniosas. Quase como tendo que haver consentimentos dos que dominam a sociedade.” 

“Nunca fui um revolucionário por várias razões. Em primeiro lugar, porque minha natureza é a de um negociador e nunca foi a de um guerreiro, na acepção primeira da palavra. Em seguida, porque o povo, com o presente grau de percepção, não quer uma revolução. Creio até que, mesmo com alto grau de compreensão do mundo, ele também não irá querer. Finalmente, não pode ser esquecido que muitos dos revolucionários têm morte prematura.” 

“Contudo, mesmo reformista, orgulho-me em dizer que, durante meu governo, persegui à risca meu discurso de campanha e trouxe uma vida melhor para dezenas de milhões de irmãos. No que era básico para mim, não fraquejei em nenhum instante. Sei que tive erros, praticados consciente ou involuntariamente. Quando errei conscientemente, tenham certeza que estava cedendo a alguma pressão que, se negada, poderia fazer fracassar, por exemplo, todo o projeto de inclusão social em curso.”

“Troquei opções sem correlação alguma, mas que o momento as transformava em moedas de troca. Sem corresponder à realidade, só para ajudar o entendimento, me deparava com dilemas do tipo: receber apoio da bancada secreta e poderosa dos banqueiros a uma política externa independente em troca do atendimento aos interesses pecuniários deles. A capacidade de mobilização deles no Congresso só é comparável à da bancada ruralista. Assim, reconheço que existiram setores cujos desempenhos deixaram a desejar. Não avancei muito na reforma agrária, por exemplo, o que me deixa frustrado.” 

“Aprendi com muitos dos que estavam ao meu lado, mas o ministro das Relações Exteriores do meu governo tem um crédito especial comigo. Resumiria o que aprendi com ele, desta forma: ‘não se é grande em nível internacional, se não se imagina grande, não se planeja para ser grande e não se age de forma grandiosa’. Hoje, creio que abri muito a guarda na entrega do petróleo nacional, a menos de quando retirei 41 blocos do Pré-sal da nona rodada. Falo das rodadas de leilões do nosso petróleo. Segundo o ensinamento aprendido, entregar petróleo sem quase nenhum usufruto para a sociedade não corresponde a ‘agir de forma grandiosa’. Mas, só fiquei consciente deste fato quando o término do meu governo estava próximo.” 

“Têm instantes que tenho vontade de dizer à minha sucessora: ‘Não faça isto!’ Digo isso com relação à décima primeira rodada, que foi recentemente aprovada por ela. Ainda mais que querem agora ofertar, também nesta rodada, além dos blocos inicialmente previstos, aqueles oriundos da fracassada oitava rodada. O objetivo escamoteado é diminuir por asfixia financeira a participação da Petrobras nas futuras concessões. Assim, mais blocos serão destinados às empresas estrangeiras ainda sob a lei socialmente incorreta no 9.478. Bem que os petroleiros sempre disseram que o Brasil não precisa ter pressa para produzir petróleo, pois a Petrobras já garante seu abastecimento por mais de 40 anos. Porém, não falo com minha sucessora, pois, afinal de contas, o governo é dela.” 

“Por isso, acusam, com certo grau de razão, que meu partido e eu somos pouco conscientes com relação à questão nacional. Sem ser xenófobo, hoje, creio que há necessidade de se privilegiar a exploração das riquezas nacionais da forma que mais beneficia a nossa sociedade, o que ocorre em geral com empresas genuinamente nacionais. Enfim, ninguém está completamente pronto para ser presidente.” 

“Entretanto, a recuperação dos salários, o aumento do número de pessoas empregadas, a ampliação e o acréscimo do valor do Bolsa-Família, o aumento do número de universidades públicas, a ampliação das vagas disponíveis nas existentes e o Pro-Uni são algumas das realizações das quais me orgulho. Enfim, durmo tranquilo. Fiz tudo que queria e podia fazer e, muitas vezes, tive que criar com esforço condições para as coisas boas acontecerem.” 

“Se vocês tivessem entendido tudo isso e dado mais apoio político a mim ou a qualquer outro governante socialmente comprometido, mais poderia ter sido conquistado. A verdade é que quem lhes devora não sou eu, contrariando o enigma da esfinge. São os cartéis, inclusive muitos estrangeiros, que ainda não foram enquadrados. Estão soltos porque não há reação de vocês. Contudo, sei que, com a atual mídia controlada pelo capital, fica difícil o povo tornar-se consciente. A menos que, aos poucos, ele migre para canais de informação mais honestos.” 

Neste ponto, acordei da minha divagação, na qual buscava explicações racionais, ou seja, buscava decifrar.

 

*Conselheiro do Clube de Engenharia