terça-feira, 11 de setembro de 2012
Jackson Hole, Wyoming, 2012!
Por Antonio Delfim Netto - Valor 11/09
Os que se interessam pelo desenvolvimento da teoria econômica têm dois momentos anuais da maior importância: 1) a reunião da American Economic Society, onde se explora todo o campo; e 2) a Conferência Anual de Jackson Hole, no Estado de Wyoming, promovida pelo Federal Reserve Bank of Kansas City, onde se analisam, especificamente, os problemas monetários. A última dessas, com o título significativo de "The Changing Policy Landscape", ocorreu entre os dias 31 de agosto e 1º de setembro.
Como é tradição, o chairman do Fed, no caso Ben Bernanke, abriu o simpósio. Fez longa e cuidadosa defesa da política do "quantitative easing". Analisou seus custos e benefícios. Afirmou que ela aumentou em 3% o PIB americano e empregou pelo menos 2 milhões de trabalhadores com custos relativamente pequenos. A firmeza da sua conclusão leva à crença de que ele está preparando um novo "round".
Não é exagerado dizer que o "espírito" da conferência foi relativamente crítico à ação do Fed. Os economistas mais à esquerda (a ideologia emergiu com força na discussão), criticaram o Fed por não ter feito o que deveria fazer. Os mais à direita, centraram sua crítica no que chamam de "excessivo ativismo" do Fed. Talvez a melhor síntese desse debate tenha sido a afirmação do competente Adam Posen, quando afirmou que as dificuldades da política monetária não estavam na "estrutura da economia", mas na falta de coragem de utilizá-la de forma mais ampla e diferente, por conta de "tabus autoimpostos" produzidos por uma forma de pensar "pré-histórica"...
Importante contribuição ao simpósio foi o artigo "The United States Labor Market: Status Quo or A New Normal?", de E.P. Lazear e Spletzer, J.R., que esclareceu a dúvida se o alto nível de desemprego seria estrutural ou conjuntural, concluindo, convincentemente, que ele é conjuntural.
Por que isso é importante para a crítica da política monetária? Pela simples e boa razão que a "conjuntural" está ligada à demanda global, potencialmente controlada pelo Fed, que não o fez. Pelo contrário, mais de uma vez seus modelos sugeriam que, diferentemente das outras crises, na de 2007-2008 a recuperação do emprego seria mais lenta, porque seria estrutural. O trabalho de Lazear e Spletzer desmontou essa tese e sugere que o Fed, de fato, fez menos do que podia e do que devia.
O trabalho mais importante, sugestivo e mais longo (nada menos do que 97 páginas) é de autoria do professor Michael Woodford (o guru de muitos de nossos economistas), adjetivado com exagero (na minha modesta opinião) como "o maior economista monetário do mundo da sua geração". A grande verdade é que, antes de 2007, os modelos monetários de Woodford não incluem nem a moeda, nem o crédito! Mas ele tem se vingado. Desde então tem feito um sério e competente esforço para incluí-los!
O ponto interessante é que o trabalho de Woodford contraria diretamente as proposições de Bernanke acima referidas. Para ele, o "quantitative easing" teve um efeito modesto e de difícil quantificação e, o que é pior, nem era teoricamente robusto. Isso fortaleceu a posição dos que afirmam que o Fed de Bernanke não teve imaginação, nunca foi afirmativo o bastante e sempre chegou tarde...
Mas a parte mais interessante e analiticamente mais forte do trabalho é a adesão de Woodford à conveniência do Fed de fixar, como objetivo, o Produto Interno Bruto Nominal (o GDPN). Uma ideia antiga, explorada nos anos 70 pelo grande James Mead (Nobel de 1977) e reativada pelos "economistas-blogueiros", que hoje constroem, criticamente, em tempo real, novos conhecimentos econômicos. Dentre eles, temos o nosso competente João Marcus Marinho Nunes.
No fundo, o simpósio foi um apelo à realidade. Pode haver dúvidas sobre as consequências e a potência do "quantitative easing" para enfrentar a crise criada pelo desastre do sistema financeiro desregulado, mas não pode haver dúvida sobre:
1) o desemprego continua alto e não dá sinais de que diminuirá. E o Fed continua a não saber se ele é estrutural (contra o qual ele nada pode fazer) ou conjuntural, contra o qual ele acha "que já fez o que podia"!;
2) a taxa de inflação está mais do que comportada e, a despeito dos choques de oferta, não apresenta sinais de que vai deixar de sê-lo;
3) a taxa de crescimento é medíocre e sua perspectiva nada brilhante.
Tudo isso indica que a política monetária de fato produziu efeitos pífios, além de comprometer o equilíbrio fiscal. É hora de mudar. De derrubar os "tabus autoimpostos". De esquecer o pensamento monetário "pré-histórico", que tem condicionado a política de todos os bancos centrais. É hora de inovar, como fez Woodford - sem dúvida com muita dificuldade para vencer suas velhas ideias. Isso só acontece nos momentos em que "o mesmo de sempre" prova definitivamente sua inadequação.
A política proposta por Woodford é "manter a taxa de juros baixa até que o PIB nominal volte ao que seria sem a crise", porque o "modelo neokeynesiano standard implica que um alto nível de PIB real esperado, ou de inflação, no futuro, cria incentivos para o aumento do PIB real e dos preços no presente", recuperando o crescimento.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Os jornais e a internet
Valor 10/09
Três dias de discussões e apresentações sobre experiências de veículos de comunicação de todo o mundo não deixam dúvida. Os jornais terão de investir mais e mais em inovações em meios digitais, a despeito de os resultados financeiros obtidos até agora nessas plataformas serem insuficientes para compensar as perdas de publicidade e receita de circulação nos jornais. Para dois terços de 150 veículos consultados em todo o mundo pela Associação Mundial de Jornais (WAN, na sigla em inglês), as plataformas digitais respondem por menos de 10% do faturamento com publicidade. O número foi divulgado durante o 64º Congresso Mundial dos Jornais e o 19º Fórum Mundial de Editores, realizados simultaneamente na semana passada em Kiev, na Ucrânia.
A conta dos investimentos em inovação e criação de plataformas e aplicativos de distribuição de conteúdo digital continua sendo paga pelas edições impressas. No ano passado, após um 2010 de declínio, a circulação de jornais (pagos e gratuitos) voltou a crescer. Metade da população adulta do mundo lê ao menos um jornal por dia. São 2,5 bilhões de exemplares diários, em comparação com 600 milhões de edições digitais. Uma análise mais detalhada dos números, porém, mostra que essa expansão está fortemente concentrada na Ásia (Índia e China), enquanto em países de economia madura as vendas de jornais continuam caindo. Na Europa Ocidental e América do Norte a circulação caiu 17% nos últimos cinco anos. Na América Latina, cerca de 3%. As vendas de publicidade em edições impressas também não são animadoras: entre 2007 e 2012, a receita publicitária em jornais caiu de US$ 128 bilhões para US$ 96 bilhões.
A difícil equação entre queda na receita publicitária e de venda de jornais impressos e a necessidade de investimentos maciços em inovação tem levado as empresas de comunicação a mudarem suas estratégias de negócios. O conteúdo, antes gratuito na web, está cada vez mais atrás de muros de pagamento, os chamados "paywalls". É uma maneira de equilibrar as receitas entre venda de publicidade - que é muito mais barata nos meios digitais - e venda de assinaturas. No "The New York Times", que adotou no ano passado o "paywall", inspirado por modelos do "The Wall Street Journal" e do "Financial Times", já são 500 mil assinaturas puramente digitais, em comparação com 700 mil do impresso.
"Estamos chegando a um período em que os jornais não mais serão rentáveis. Em contrapartida, também estamos próximos de um novo modelo de negócio", afirmou Greg Hywood, principal executivo da Fairfax Media Limited, da Austrália. Essa empresa decidiu reduzir de forma planejada as vendas da edição impressa e fechar a gráfica na qual havia investido US$ 500 milhões, há dez anos, para jogar as fichas na área digital. "Se se consegue aumentar a receita de publicidade e de assinatura digitais e se livrar dos custos de impressão e distribuição, o negócio torna-se viável", disse Hywood, que prevê o dia em que não será mais rentável imprimir jornais.
A mudança de mentalidade em relação ao conteúdo gratuito nos meios digitais ganhou força com o lançamento do iPad, no início de 2010. O conceito de loja de aplicativos mostrou que há disposição das pessoas em pagar pelo conteúdo. Por outro lado, o tablet trouxe mobilidade de fato à edição impressa. Pesquisa apresentada no congresso da WAN indica, por exemplo, que os leitores veem os aplicativos muito mais como uma extensão do jornal impresso do que como extensão da web. "E quem vê os aplicativos dessa forma está disposto a pagar mais por ele", disse Florian Bauer, fundador da Vocatus AG, da Alemanha.
A relação do tablet com a edição impressa também foi detectada pelo "The Telegraph", que lançou sua primeira versão do aplicativo em setembro de 2010 e uma segunda em maio de 2011, paga. "Nos seis meses em que o aplicativo permaneceu gratuito, oferecido por um patrocinador, fizemos uma extensa pesquisa com os leitores. Eles nos disseram que queriam um produto mais próximo do jornal, que publicasse uma seleção das notícias mais importantes e que tivesse anúncios de página inteira, em vez dos tradicionais banners da internet."
A análise dos dados de tráfego do aplicativo do "Telegraph" indica ainda que, no tablet, o hábito de consumo de notícias é diferente. Há um pico pela manhã e outro após as 6h da tarde, com o fim do expediente - um quadro reforçado por vários executivos em apresentações na Ukrainian House, no centro de Kiev. É um horário de leitura mais relaxado, que permite o consumo de textos mais longos e também de produtos anunciados em publicidade.
"Temos que entender como são consumidas as notícias", afirmou Mario Garcia, CEO da Garcia Media, especializada em design de publicações. "Você vai tomar a sopa, tanto faz se de pé na cozinha ou na sala de jantar. O importante é como você vai apresentar a notícia em cada plataforma", disse ele. Enquanto na internet e no celular as pessoas querem ler notícias resumidas, pois são plataformas para se ler de forma rápida, o tablet, à semelhança do jornal, é para a leitura de maior reflexão, ou para ler histórias que de alguma forma surpreendam.
O tablet, porém, não é suficiente para indicar que os meios de comunicação encontraram a saída. Um ponto de atenção é o fato de que ele não é exatamente um produto para jovens. A idade média dos leitores do aplicativo de notícias do "Telegraph", por exemplo, é de 50 anos, inferior à dos assinantes da versão impressa, mas ainda assim superior à do leitor do site (42) e dos aplicativos de smartphones (35). É por isso que, embora estejam felizes com os resultados que vêm obtendo com os tablets, os "publishers" estão com seus olhos voltados para os celulares com acesso à internet. Os smartphones são considerados a nova onda da revolução que vem ocorrendo na distribuição de conteúdo noticioso.
Em 2020, cerca de 3 bilhões de pessoas em todo o mundo estarão conectadas à internet via celulares, segundo Earl Wilkinson, presidente executivo da International Newsmedia Marketing Association (INMA), com base em dados do livro "Abundance". Em poucos anos prevê-se que todo cidadão estará conectado com algum tipo de dispositivo móvel. Tor Jacobsen, CEO da VG Mobile, do grupo Schibsted, da Noruega, observa que o celular é muito importante para empresas de mídia porque "ele é de uso muito pessoal, está em todo lugar e é usado o dia todo". Mas não basta transpor o modelo do tablet para o aplicativo do celular. No tablet, a leitura é mais imersiva. No celular, é de utilidade, de consumo rápido, fragmentado. Por conta dessa fragmentação, há quem acredite que o modelo de "paywall" não se aplica aos celulares. "Estamos gastando energia em colocar muros em plataformas móveis", diz Raju Narisetti, editor executivo do americano The Wall Street Journal Digital Network. Mais uma vez, os jornais terão que investir para encontrar o modelo de negócio que pode ser aplicado aos celulares e também para capturar a atenção desse público de consumo de conteúdo fragmentado. O lado bom da história, diz Jacobsen, é que a experiência tem mostrado que os dispositivos móveis também são muito mais efetivos para os anunciantes do que o impresso e a internet.
Mas não basta transpor o modelo do tablet para o aplicativo do celular. No tablet, a leitura é mais imersa. No celular, é de utilidade, de consumo rápido. Mais uma vez, os jornais terão que investir para capturar a atenção desse público. O lado bom, disse Jacobsen, é que a experiência tem mostrado que os dispositivos móveis também são muito mais efetivos para os anunciantes do que o impresso e a internet.
Com edições impressas, sites, aplicativos para tablets e também para celulares, os veículos de comunicação têm atingido uma audiência cada vez maior. Na Austrália, por exemplo, os produtos da Fairfax são consumidos por 40% da população do país, um recorde absoluto na história da companhia. Gerenciar esses produtos todos, porém, tornou-se muito mais complexo.
Conhecer quem consome o que, em qual horário, com que tipo de interação e com que resultados para os anunciantes são dados vitais para que empresas otimizem seus recursos e esforços. As áreas de análise desses dados, o "data analytics", ganharam novo status nas companhias. As estratégias contribuem para aumentar a audiência e a fidelidade dos leitores, a transformá-los em assinantes e a torná-los consumidores pagantes de vários produtos, de acordo com Laura Evans, chefe da área de análise de dados da Dow Jones nos Estados Unidos. Um de seus trabalhos tem sido olhar os números não apenas para entender o passado, mas para fazer previsões - e estabelecer metas - para o futuro em vários segmentos das companhias de mídia, do editorial ao comercial.
A necessidade de conhecer profundamente seu consumidor para saber pelo que ele se interessa pode parecer óbvia para a maior parte dos setores industriais e comerciais. Para a indústria de jornais, entretanto, é mais uma mudança cultural enfrentada nos últimos anos. Quando o foco era exclusivamente nas edições impressas, a principal fonte de receita era a venda de anúncios. As assinaturas respondiam por uma parte bem menor do faturamento. Conhecer o público, portanto, era uma necessidade para poder vender publicidade. A qualificação do leitor indicava que tipo de anunciante poderia ser atraído. Agora, com o crescimento cada vez maior das assinaturas digitais e de sua importância no mix de faturamento, é preciso entregar exatamente o que ele precisa. O foco passa a ser o leitor e a experiência do usuário.
Conhecer como o leitor interage com o conteúdo, seja ele texto, foto, vídeo, comentário, infografia ou um post em uma rede social, é uma das grandes facetas dessa nova cultura. Mas a mudança vai além. Há consultores que têm ajudado as empresas de comunicação a entender como age psicologicamente um leitor ao escolher uma entre as várias opções atuais de pacotes de assinaturas. Bauer, da Vocatus, por exemplo, citou dados da revista "The Economist" para mostrar como a psicologia afeta a decisão de compra. A revista inglesa fez dois testes. No primeiro, ofereceu sua versão digital (e-paper) por US$ 59 anuais, sua versão impressa por US$ 125 e um combo com os dois produtos por US$ 125 anuais. No fim, 84% dos leitores optaram pelo combo, 16% pela primeira opção, do e-paper, e nenhum pela assinatura apenas da edição impressa.
No segundo teste, entretanto, quando se excluiu a opção da edição exclusivamente impressa, já que ninguém havia optado por ela, o resultado foi completamente diferente: 68% dos leitores escolheram ficar com a alternativa mais barata, de US$ 59 apenas para o e-paper. Apenas 32% ficaram com o combo. "Isso mostra como montar os combos, os pacotes, passou a ser um dos principais desafios das companhias", afirmou Bauer.
A inflação está de volta?
Por Martin Feldstein - Valor 10/09
A inflação está, atualmente, baixa em todos os países industriais e a combinação de elevado desemprego e lento crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) elimina as habituais fontes de pressão sobre os preços. No entanto, os investidores financeiros estão cada vez mais preocupados que a inflação vá, finalmente, começar a subir, devido à grande expansão das reservas dos bancos comerciais engendradas pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) e pelo Banco Central Europeu (BCE). Alguns investidores recordam que um aumento da inflação normalmente acompanha a expansão monetária, e temem que dessa vez não seja diferente.
Os investidores reagiram a esses temores comprando ouro, terras agrícolas e outros seguros tradicionais contra a inflação. O preço do ouro atingiu recentemente um pico em quatro meses e está se aproximando de US$ 1,7 mil por onça. O preço por acre de terra em Iowa e Illinois subiu mais de 10% em relação ao ano passado. E a recente divulgação de minutas da diretoria do Fed, que sinaliza suporte a uma nova rodada de flexibilização quantitativa, provocou fortes saltos nos preços do ouro, prata, platina e de outros metais.
Mas, ao contrário dos investidores privados, as autoridades do Fed insistem em que, desta vez, realmente será diferente. Eles salientam que a enorme expansão das reservas dos bancos comerciais não produziu um aumento comparável na oferta de moeda e de crédito. Embora as reservas tenham aumentado a uma taxa anual de 22% nos últimos três anos, a base monetária ampla (M2), que mais de perto acompanha o PIB nominal e a inflação durante longos períodos de tempo, cresceu menos de 6% nos mesmos três anos.
Em décadas recentes, grandes expansões das reservas bancárias causaram surtos de crédito que ampliaram a oferta monetária e alimentaram o crescimento de gastos inflacionários. Mas, agora, os bancos comerciais estão dispostos a manter seu excesso de reservas no Fed, que hoje paga juros sobre os depósitos. O BCE também paga juros sobre os depósitos, e por isso também pode, em princípio, evitar que o crescimento das reservas resulte numa explosão indesejada de empréstimos.
A capacidade do Fed de pagar juros é crucial para o que denomina sua "estratégia de saída" da flexibilização quantitativa anterior. Quando a recuperação econômica começar a acelerar, os bancos comerciais desejarão usar o grande volume de reservas que o Fed criou para conceder empréstimos a empresas e consumidores. Se o crédito crescer muito rapidamente, o Fed poderá elevar a taxa de juros que paga sobre os depósitos. Juros suficientemente altos induzirão os bancos comerciais a preferir a combinação de liquidez, segurança e rendimento proporcionada pelo Fed a expandir o volume de empréstimos privados.
Isso, de todo modo, é a teoria, ninguém sabe como funcionaria na prática. Até que nível o Fed - ou, a propósito, o BCE - teria de elevar os juros sobre os depósitos para evitar um crescimento excessivo do crédito bancário? E se a taxa de juros tiver de ser de 4% ou 6% ou mesmo 8%? Será que o Fed e o BCE elevarão suas taxas sobre os depósito a níveis tão altos, ou será que isso permitiria um crescimento rápido e potencialmente inflacionário dos empréstimos?
A natureza incomum do desemprego atual amplia ainda mais o risco de inflação futura. Quase metade dos desempregados nos EUA, por exemplo, já estão sem trabalho há seis meses ou mais, acima da tradicional mediana de duração do desemprego, de apenas 10 semanas. Os desempregados em longo prazo levarão bem mais tempo para serem recontratados, à medida que a recuperação da economia avançar, do que as pessoas desempregadas por um período de tempo muito mais breve.
O risco, portanto, é que os mercados de produtos fiquem apertados enquanto ainda houver elevado desemprego mensurado. A inflação começará nos mercados de produtos, e não no mercado de trabalho. As empresas vão querer tomar empréstimos e os bancos desejarão expandir seus empréstimos. Sob essas condições, o Fed desejará elevar os juros para evitar uma aceleração da inflação.
Mas, se a taxa de desemprego for, nesse momento, ainda relativamente elevada - por exemplo, acima de 7% - alguns membros da Comissão de Open Market do Fed poderão argumentar que a dupla missão do Fed - baixo desemprego e baixa inflação - implica ser cedo demais para subir os juros.
Poderá haver também forte pressão do Congresso americano para que não haja um aumento dos juros. Apesar de a "independência" legal do Fed implicar que a Casa Branca não pode ditar ao Fed o que fazer, o Fed é totalmente responsável perante o Congresso. A recente lei Dodd-Frank, de reforma financeira, eliminou alguns dos poderes do Fed, e o debate legislativo em torno do projeto de lei indicou que poderá haver amplo apoio para restrições adicionais, se o Congresso não gostar da política do Fed.
O desejo dos políticos de manter as taxas de juros baixas para reduzir o desemprego evidencia, muitas vezes, tensões em face da preocupação do Fed no sentido de agir oportunamente para manter a estabilidade de preços. Dessa vez, o grande número de desempregados em longo prazo poderá tornar o problema mais difícil, fazendo com que a taxa de desemprego permaneça elevada, mesmo quando os mercados de produtos começarem a experimentar um aumento da inflação.
Se isso acontecer, as autoridades do Fed terão de enfrentar uma escolha difícil: ou apertar a política monetária para conter o crescimento da aceleração dos preços, contrariando, assim, o Congresso, e, possivelmente, enfrentando restrições que dificultarão o combate futuro à inflação ou nada fazer. Quaisquer dessas opções significará uma taxa mais elevada de inflação futura, como temem os mercados financeiros.
Apesar de o BCE não ter de prestar contas diretamente a um poder legislativo, está agora claro que existem membros em seu Conselho Diretor que se opõem a taxas de juros mais altas e que existem pressões políticas de líderes governamentais e ministros das Finanças no sentido de manter as taxas baixas.
Um crescimento da inflação não é, certamente, inevitável, mas, tanto nos EUA como na Europa, tornou-se um risco a ser reconhecido. (Tradução de Sergio Blum)
Martin Feldstein é professor de economia em Harvard, foi presidente do conselho de assessores econômicos do presidente americano Ronald Reagan e do Gabinete Nacional de Análises Econômicas dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
O polo de irradiação da Otan
Por Richard Weitz - Valor 06/09
O que deve fazer uma aliança quando seu membro líder decide reposicionar seu foco no outro lado do mundo? Os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vêm se debatendo com essa questão desde que presidente dos EUA, Barack Obama anunciou sua mudança de foco - agora na Ásia - no ano passado, obrigando-os a examinar o papel mundial da Aliança.
Os líderes da Otan têm examinado com atenção as relações com países como a China e a Rússia, que ainda veem a Otan como uma possível ameaça e não como um parceiro genuíno. E eles tiveram de considerar a possibilidade de engajar-se em mais missões além do Atlântico Norte, como as assumidas no Afeganistão, onde 22 países - entre eles El Salvador, Malásia, Mongólia, Cingapura e Tonga - mobilizaram forças sob o comando da Força Internacional de Assistência à Segurança, da Otan.
Desde a cúpula da Otan em Chicago, em maio, seus líderes têm se empenhado em tornar claro que o papel de segurança mundial da Aliança se estende para além do Afeganistão. Eles reafirmaram a importância da defesa coletiva, o que reforça sua capacidade de enfrentar os desafios de segurança - mesmo em tempos de austeridade econômica - em regiões externas ao Atlântico Norte, mais visivelmente na África (na Líbia e no Golfo de Aden).
De fato, no ano passado, mais de 150 mil soldados controlados pela Otan estavam envolvidos em seis operações em três continentes. E a maioria dos novos recursos que a Otan está adquirindo destinam-se a reforçar sua capacidade expedicionária, em vez de suas tradicionais defesas convencionais.
Os defensores da expansão das atividades extrarregionais da Aliança enfatizam que, embora a Otan seja uma aliança regional, enfrenta ameaças em âmbito mundial que só podem ser enfrentadas com ampla cooperação internacional. Eles esperam contornar a resistência a esse papel expansionista desenvolvendo um portfólio flexível de parceiros internacionais, e não afirmando predomínio fora da região do Atlântico Norte.
A Otan está, de certa forma, tornando-se mundial, ao forjar parcerias com países tão distantes quanto o Japão e a Austrália para participar de atividades de segurança em lugares tão remotos quanto a Ásia Central, a África e o Ártico. Essas novas parcerias beneficiam ambas as partes: os parceiros fazem contribuições concretas valiosas para o sucesso da aliança, enquanto esta melhora a sua segurança.
Apesar de alguns contratempos, as campanhas extra-regionais da Otan podem servir como evidência convincente de que a aliança é a única instituição de segurança multinacional capaz de conduzir operações de combate sustentadas e de alta intensidade em todo o mundo. Na Líbia e no Golfo de Aden ela reuniu ativos militares dos membros e contribuições de outros parceiros. A participação de tropas da Austrália, Coreia do Sul, Catar, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, entre outros, e o papel de liderança das Nações Unidas e da Liga Árabe na legitimação dessas campanhas demonstrou o papel emergente da Otan como polo de irradiação de uma rede mundial de parcerias.
Desde que assumiu o cargo em agosto de 2009, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, tem abraçado esse papel, argumentando que as principais ameaças de segurança à aliança derivam de desafios em âmbito mundial: estados inoperantes em regiões em desenvolvimento, cibercrime internacional, redes terroristas, proliferação de armas de destruição em massa, pirataria marítima, perturbações no suprimento de energia e mudanças climáticas. Assim, o novo conceito estratégico da Otan, adotado em novembro de 2010 durante a Cúpula de Lisboa, convida a aliança a tornar-se mais versátil para combater as novas ameaças de diversas fontes geográficas e tecnológicas.
Autoridades americanas abraçaram a visão de Rasmussen, citando sua lógica ao explicar seu foco na Ásia. Ao contrapor-se às ameaças de segurança mundiais que emanam da Ásia, eles estão protegendo seus aliados no Atlântico Norte.
Essas mudanças têm feito com que os observadores, particularmente fora da Europa, passassem a especular sobre a natureza da futura cooperação com a Otan. Será que ela assumirá um papel de liderança em missões de segurança coletiva, como no Afeganistão? Será que cooperará em parcerias com igual contribuição dos participantes, como ocorreu nos esforços para combater os piratas somalis? Ou será que estará disposta a desempenhar um papel de apoio, como com seu apoio logístico à União Africana e às Forças de Segurança iraquianas?
Além disso, essa "Otan mundial" tem gerado preocupações entre grandes potências. Embora ela possa contar com a Índia ou com o Brasil entre os seus futuros parceiros, China e Rússia continuam preocupadas com que essa organização possa prosseguir com uma estratégia de contenção mundial ou tentar marginalizar a ONU como instituição de segurança líder mundial.
Os líderes da Otan responderam a algumas dessas preocupações na cúpula de Chicago. Eles reafirmaram que, embora a Otan tenha adotado uma abordagem mundial à segurança, suas principais atividades externas à Europa e ao Afeganistão terão como principal componente um diálogo com parceiros ou, em casos especiais, medidas defensivas conjuntas com outras instituições de segurança sob mandato da ONU, como no Golfo de Aden. A Otan reconheceu o papel único da ONU na segurança mundial e enfatiza seu objetivo de colaborar com, e não substituir, a organização.
A cooperação da Otan com parceiros externos pode estender-se a questões como a gestão da mudanças climáticas e a promoção da segurança no Ártico e no ciberespaço. A aliança também poderá oferecer a novos parceiros algumas das ferramentas para reforma no setor de segurança que tem aplicado em países que pertenciam à União Soviética e, mais recentemente, no Oriente Médio, visando garantir que as forças armadas regionais respeitem os direitos humanos e as autoridades civis.
Mas os países da Otan apenas começaram a considerar quais políticas colocar em prática para enfrentar os desafios em âmbito mundial, quais recursos são necessários para atingir seus objetivos de segurança e como colaborar com instituições e países não ocidentais. Qualquer governo que espere beneficiar-se do novo papel mundial da Otan, ou que esteja preocupado com suas implicações, deveria ser envolvido na elaboração do processo. (Tradução de Sergio Blum)
Richard Weitz é pesquisador sênior e diretor do Centro de Análise Político-Militares no Instituto Hudson. Copyright: Project Syndicate, 2012.
A hora da dolorosa
Por Alexandre Schwartsman - Valor 06/09
Há um ano o Banco Central (BC) começou um processo de redução de taxa de juros cujo fim foi sinalizado na reunião do Copom da semana passada (embora, dado o histórico recente de comunicação do BC, possa haver distância astronômica entre sinalização e gesto). Também na semana passada foi divulgado o resultado do Produto Interno Bruto (PIB), revelando que nos 12 meses até junho o crescimento econômico atingiu anêmico 1,2% contra 4,7% acumulados nos 12 meses até junho de 2011. À luz disso pode-se dizer que o BC acertou ao mudar radicalmente o curso da política monetária?
Acredito que não. Acredito também que perdi 80% dos meus 18 leitores depois da afirmativa acima, talvez minha própria mãe, mas peço aos hesitantes 20% que leiam até o final e então julguem se minha resposta faz sentido.
Desde 1999 o BC está submetido ao regime de metas para a inflação. Concretamente isso requer que o BC calibre sua política de modo que a inflação convirja para a meta, no caso 4,5%. Assim, quando o Copom anunciou a inesperada redução da taxa Selic argumentou que "para 2012, as projeções de inflação (...) recuaram, posicionando-se ao redor do valor central da meta (...)."
Já no "cenário alternativo, construído e analisado sob a perspectiva de um modelo de equilíbrio geral dinâmico estocástico de médio porte, [que] admite que a atual deterioração do cenário internacional cause um impacto sobre a economia brasileira equivalente a um quarto do impacto observado durante a crise internacional de 2008/2009 (...) a taxa de inflação se posiciona em patamar inferior ao que seria observado caso não fosse considerado o supracitado efeito da crise internacional".
No entanto, se o desempenho brasileiro está longe de ser brilhante, é também distante daquele imaginado pelo Copom. Entre o terceiro trimestre de 2008 e o primeiro de 2009 o PIB caiu quase 5,5%, enquanto a taxa de desemprego, descontados os efeitos do desalento, subiu cerca de 2 pontos percentuais. Já o nível de utilização de capacidade na indústria (Nuci) caiu cerca de 8 pontos percentuais, segundo a FGV.
Em contraste, o PIB brasileiro cresceu modestamente (0,7%) entre o terceiro trimestre de 2011 e o segundo deste ano, o Nuci se manteve praticamente inalterado e a taxa de desemprego caiu. Por qualquer critério que se olhe, o cenário que balizou o corte de juros não se manifestou.
Por outro lado, é verdade que a inflação se reduziu, mas isso não configura o sucesso da política do BC. Em primeiro lugar porque a inflação reage, como se sabe, com defasagens às decisões de política monetária. A redução da inflação neste ano estava encomendada pelas ações tomadas na primeira metade de 2011, o que, aliás, transparecia na queda continuada das expectativas de inflação para este ano, conforme computadas pela pesquisa Focus.
Isto dito, o Copom não prometeu apenas reduzir a inflação, mas afirmou que "um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação à meta em 2012". Contudo, o consenso de mercado hoje sugere que a inflação deste ano permanecerá bem acima da meta, em torno de 5,20%.
Em segundo lugar a queda da inflação foi exacerbada por fatores que nada têm a ver com a política monetária. Não vai aqui qualquer crítica à mudança da ponderação do IPCA por conta da nova Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, mas o fato é que, caso a ponderação permanecesse a mesma, a inflação, que nos últimos 12 meses acumulou 5,24%, teria atingido 5,88%. Parte da queda da inflação é, portanto, mera ilusão estatística.
Houve adicionalmente medidas de redução temporárias de impostos, que geram efeitos também passageiros sobre a inflação. Vale dizer, considerada a informação disponível na data da decisão e dadas as previsões do BC à época, fica claro que a evolução da inflação foi muito pior do que o Copom antevia.
É verdade que parcela disto reflete o aumento dos preços internacionais de alimentos, fator que estaria fora do controle do BC e é referido erroneamente pelas autoridades como um choque de oferta, cujos efeitos não deveriam ser debitados na conta da autoridade monetária.
Já eu creio que deveriam sim ser contabilizados entre os passivos do BC. Não, é claro, a seca que assolou a agricultura americana, mas a política cambial que, ao impedir a resposta natural da taxa de câmbio brasileira (baratear o dólar quando preços de commodities aumentam), também não permitiu que o aumento dos preços internacionais de alimentos fosse absorvido, como no passado, pelo câmbio mais forte.
Em suma, mesmo com o crescimento na faixa de 1,5% a inflação este ano superará a meta (e mais ainda no ano que vem), o que, em função do mandato do BC, determinado pelo Decreto 3.088/99, configura um erro mensurável na condução de política monetária. Erro tanto maior porque ao longo do processo o BC perdeu o controle duramente conquistado sobre as expectativas de inflação. Quando (e se) finalmente se decidir por fazer a inflação retornar à meta, pagaremos um preço bem mais alto em termos de produção e emprego do que no passado. A conta chega, sempre chega.
Alexandre Schwartsman, doutor em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, é sócio-diretor da Schwartsman & Associados.
Depois do recorde em janeiro produção de petroleo cai abaixo dos valores de 2010
No Brasil, a produção de petróleo foi de aproximadamente 2,023 milhões de barris/dia, apresentando queda de 2,6% em relação a julho de 2011 e de 0,5% na comparação com junho deste ano. A produção de gás chegou 71 MMm3, crescimento de 6,1% em relação ao mesmo mês de 2011 e redução de 1,4% na comparação com o mês anterior. A plataforma P-52, localizada em Roncador, produziu 151,1 Mboe/dia e foi a que teve a maior produção.
As maiores reduções de produção de petróleo e gás natural, em relação ao mês anterior, foram observadas nos campos de Marimbá e Albacora Leste, devido às paradas programadas para manutenção das plataformas P-08 (Marimbá) e P-50 (Albacora Leste). O campo de Marlim Sul, na Bacia de Campos, foi o que teve a maior produção de petróleo e segundo maior produtor de gás natural, com produção média de 321,9 Mboe/d.
A queima de gás natural, de 3,6MMm3/d, apresentou redução de 30,7% em relação a julho de 2011 e aumento de 0,4% na comparação com o mês anterior.
No mês de julho de 2012, 308 concessões, operadas por 26 empresas foram responsáveis pela produção nacional. Destas, 79 são concessões marítimas e 229 terrestres. Vale ressaltar que, do total das concessões
produtoras, sete encontram-se em atividades exploratórias e produzindo através de Testes de Longa Duração (TLD), e outras 11 são relativas a contratos de áreas contendo Acumulações Marginais.
O grau API médio do petróleo produzido no mês foi de aproximadamente 23,8º, sendo que 8% da produção é considerada óleo leve (>=31°API), 57% é óleo médio (>=22°API e <31 09="09" 1.113="1.113" 35="35" 755="755" 8.250="8.250" 9.005="9.005" a="a" acordo="acordo" amaro="amaro" anp="anp" bacia="bacia" brasil="brasil" campo="campo" canto="canto" classifica="classifica" com="com" da="da" de="de" do="do" e="e" foi="foi" g="g" leo="leo" maior="maior" mar="mar" mero="mero" n="n" natural="natural" no="no" o="o" oriunda="oriunda" os.="os." os="os" pesado="pesado" petr="petr" po="po" portaria="portaria" potiguar="potiguar" produ="produ" produtores="produtores" s="s" sendo="sendo" terrestres.="terrestres." timos="timos">
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Mundo armado e paz subfinanciada
Por Ban Ki-moon - Valor 05/09
Em julho deste ano, interesses conflitantes impediram um acordo sobre um tratado essencial que teria reduzido o terrível custo humano provocado pelo mal regulado comércio de armas internacional. Enquanto isso, os esforços de desarmamento nuclear permanecem paralisados, apesar do forte e crescente sentimento popular global em apoio a esta causa.
O fracasso dessas negociações e os aniversários, em agosto, dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki proporcionam uma boa oportunidade para explorar o que deu errado, por que o desarmamento e o controle de armas têm se mostrado tão difíceis de se alcançar e como a comunidade internacional pode voltar ao caminho desses objetivos de vital importância.
Muitos estabelecimentos de defesa reconhecem agora que a segurança significa muito mais do que proteger as fronteiras. Preocupações graves de segurança podem surgir como resultado das tendências demográficas, da pobreza crônica, da desigualdade econômica, da degradação ambiental, de doenças pandêmicas, do crime organizado, da governança repressiva e de outros acontecimentos que nenhum Estado pode controlar sozinho. Armas não podem resolver essas preocupações.
No entanto, houve um atraso preocupante entre reconhecer esses novos desafios de segurança e lançar novas políticas para enfrentá-los. Prioridades orçamentais nacionais ainda tendem a refletir os velhos paradigmas. Gastos militares maciços e novos investimentos na modernização de armas nucleares deixaram o mundo mais armado - e a paz subfinanciada.
No ano passado, os gastos militares globais declarados ultrapassaram US$ 1,7 trilhão - mais de US$ 4,6 bilhões por dia, o que representa quase o dobro do orçamento da ONU para um ano inteiro. Essa generosidade inclui mais bilhões para a modernização dos arsenais nucleares para as décadas futuras.
Esse nível de gastos militares é difícil de explicar em um mundo pós-Guerra Fria e em meio a uma crise financeira global. Os economistas chamam isso de "custo de oportunidade". Eu chamo de oportunidades humanas perdidas. Orçamentos de armas nucleares estão especialmente maduros para sofrer cortes profundos.
Essas armas são inúteis contra as ameaças atuais à paz e à segurança internacionais. Sua existência é desestabilizadora: quanto mais são apregoadas como indispensáveis, maior é o incentivo para a sua proliferação. Riscos adicionais surgem decorrentes de acidentes e dos efeitos ambientais e de saúde da manutenção e desenvolvimento de tais armas.
Chegou a hora de reafirmar compromissos de desarmamento nuclear e garantir que esse término comum seja refletido em orçamentos, planos e instituições nacionais.
Há quatro anos, eu esbocei uma proposta de desarmamento de cinco pontos destacando a necessidade de uma convenção sobre armas nucleares ou um quadro de instrumentos para alcançar este objetivo.
No entanto, o impasse sobre o desarmamento continua. A solução claramente depende de mais esforços por parte dos Estados no sentido de harmonizar suas ações para alcançar objetivos comuns. Aqui estão algumas ações específicas que todos os Estados e a sociedade civil deveriam perseguir para superar este impasse: apoiar esforços da Federação Russa e dos Estados Unidos para negociar profundos cortes verificados em seus arsenais nucleares, tanto os à disposição para uso quanto os armazenados.
Obter a adesão de outros que possuem tais armas para se juntar ao processo de desarmamento.
Estabelecer moratória sobre as armas nucleares em desenvolvimento ou em produção ou sobre novos sistemas de distribuição.
Negociar um tratado multilateral proibindo materiais físseis que possam ser usados em armas nucleares.
Acabar com as explosões nucleares e pôr em vigor o Tratado Global para banir testes nucleares.
Parar de implantar armas nucleares em solo estrangeiro e remover tais armas.
Garantir que os Estados que possuam armas nucleares se reportem a um repositório público da ONU sobre o desarmamento nuclear, incluindo detalhes sobre o tamanho da matriz, material físsil, sistemas de distribuição e o progresso para alcançar os objetivos de desarmamento.
Criar um Oriente Médio livre de armas nucleares e de outras armas de destruição em massa.
Garantir a adesão universal nos tratados que proíbem armas biológicas e químicas.
Perseguir esforços paralelos sobre controle de armas convencionais, incluindo um tratado de comércio de armas; controles fortalecidos sobre o comércio ilícito de armas pequenas e armas leves; adesão universal às Convenções de Proibição de Minas, de Munições de Dispersão e de Armas Inumanas; e participação ampliada no Relatório da ONU sobre Gastos Militares e no Registro das Nações Unidas de Armas Convencionais.
Desenvolver iniciativas diplomáticas e militares para manter a paz e a segurança em um mundo sem armas nucleares, incluindo novos esforços para resolver disputas regionais.
E talvez, acima de tudo, temos de abordar as necessidades humanas básicas e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A pobreza crônica corrói a segurança. Vamos reduzir drasticamente os gastos com armas nucleares e, no lugar, investir em desenvolvimento social e econômico, que serve aos interesses de todos ao expandir mercados, reduzir motivações para conflitos armados e proporcionar aos cidadãos uma participação em seu futuro comum. Como o desarmamento nuclear e a não proliferação, tais objetivos são essenciais para garantir a segurança humana e um mundo de paz para as gerações futuras.
Sem desenvolvimento não há paz. Sem desarmamento não existe segurança. No entanto, quando ambos avançam, o mundo avança com maior segurança e prosperidade para todos. Estes são objetivos comuns que merecem o apoio de todas as nações.
Ban Ki-moon é secretário-geral da ONU
Desintoxicação dos juros altos
Por Zeina Latif - Valor 05/09
A adoção de elevadas taxas de juros no Brasil foi parte do receituário que permitiu a superação dos graves desequilíbrios da economia. A implantação do regime de metas de inflação, em 1999, e a melhora dos fundamentos tem permitido a progressiva redução das taxas de juros, acelerada recentemente. Novos patamares têm sido sucessivamente "testados" pelo Banco Central. A crise global, que trouxe a reboque um quadro de juros internacionais excepcionalmente baixos e, no geral, um ambiente desinflacionário, tem auxiliado para que o BC acelere o processo de queda dos juros para níveis inéditos. Retirar o remédio amargo, porém, traz desafios quase comparáveis à superação da própria doença.
O desafio de administrar as consequências de taxas de juros baixas inéditas não é particularidade brasileira. Nos EUA especula-se os impactos desconhecidos de taxas de juros próximas de zero por um período prolongado, bem como de aumento sem precedentes da liquidez. Não por acaso o presidente do Banco Central americano (Fed), Ben Bernanke, discute os riscos que necessitam ser monitorados, sistematicamente, tanto para administrar possível reforço do receituário de novos estímulos monetários, como para retirá-los no futuro.
Tempos excepcionais têm permitido certo experimentalismo na política econômica, gerando riscos que necessitam ser monitorados e administrados.
Ainda que a comunicação do BC com os mercados nem sempre seja clara, há mérito no seu esforço. Com juros mais próximos do padrão internacional, distorções poderão ser removidas, o que poderá se traduzir adiante em maior eficiência da economia. A experiência brasileira difere da norte-americana. Enquanto o Fed lida com anomalias, o BC lida com a oportunidade de remover distorções na economia e aperfeiçoar o arcabouço institucional do país. Bom problema a ser enfrentado.
O que não significa que seja tarefa fácil. O caminho terá que ser descoberto e experimentado com cautela. E o tamanho do ajuste será enorme, pois o funcionamento do sistema econômico se moldou para operar com juros elevados. Mais do que isso, ficou dependente desse remédio. A desintoxicação é penosa e complexa, mas imprescindível para se levar uma vida normal.
Poupadores acostumaram-se com a renda garantida de juros altos financiando parcialmente seu consumo.
Fundos de pensão com metas atuariais, que hoje se revelam inadequadas aos novos tempos, encontram-se com grandes desafios: garantir os benefícios prometidos sem as receitas esperadas, em um contexto de complexa decisão de flexibilizar metas atuariais.
A indústria de fundos, pressionada pela busca por rendimento, almeja novos instrumentos financeiros, o que exigirá aperfeiçoamento de regras e supervisão para garantir o bom funcionamento e solidez do sistema.
Importante ajuste também ocorrerá no setor produtivo que, estrategicamente, opera com elevados recursos em caixa. De acordo com o Centro de Estudos do Mercado de Capitais, entre 2000 e 2011, 55,8% do investimento de empresas e famílias foi feito com recursos próprios. A receita financeira de curto prazo pode ter contribuído para a viabilidade econômica de muitos negócios. Há, portanto, desafios às empresas, não apenas à gestão do caixa, mas tambem à sua gestão estratégica, pois perdem uma importante fonte de receita. A menor taxa de retorno sobre a poupança doméstica pode estar impactando, de forma inesperada, a economia no curto prazo.
Comparando o desempenho da produção industrial brasileira e mundial nas últimas décadas, notam-se três fases distintas. Na primeira, até a eclosão da crise global de 2008, ambas caminhavam juntas, o que não chegava a ser um bom resultado para o Brasil, uma vez que o desempenho dos emergentes era superior. A razão pode estar na baixa taxa de investimento e no elevado, e em muitos casos crescente, custo da infra-estrutura, que limita o potencial de crescimento do país.
Na segunda fase, passada a recuperação em "V" em 2009, a produção brasileira estagnou, descolando-se da média global em lenta elevação. O aumento do custo da mão-de-obra, decorrente do sobreaquecimento do mercado de trabalho, é possível explicação para esse descolamento perverso.
A nova rodada de crise internacional no segundo semestre de 2011 inaugurou a terceira fase, onde se amplia o hiato entre produção global e brasileira, que por sua vez inicia um movimento de queda frente à produção global resiliente. O ciclo de estoques, que se correlaciona com a piora da confiança do empresário, contribuiu para isso. Porém, como o ajuste tende a ser rápido, provavelmente outros elementos concorrem para explicar a fraqueza da nossa indústria mais recentemente.
A depreciação cambial pode ser um deles. O real enfraquecido, no curto prazo, tem efeito perverso para a indústria, pois eleva o custo de produção, em decorrência da crescente penetração de insumos e bens de capital importados, e aumenta o passivo de empresas com dívidas em moeda estrangeira.
É possível que a queda da receita de juros também esteja contribuindo para explicar as dificuldades recentes da indústria, com impacto sobre investimento e produção. Seria um efeito de curto prazo, fruto do ineditismo do atual momento. Não se trata de inverter a ordem de causação; cortes de juros tendem a reativar a produção industrial, até antes mesmo de estimular o consumo, já que empresários podem antecipar o aumento da demanda. Mas esse não tem sido ainda o caso. Pelas defasagens usuais da política monetária, sinais de retomada da indústria já deveriam estar evidentes, o que já foi verificado nas vendas do varejo.
Fiquemos preparados para um período ainda marcado por sinais ambíguos de crescimento, por conta dos ajustes aos novos patamares de juros. Que esse período seja de renovação da agenda, sempre com atenção a possíveis ajustes que se façam necessários em tempos surpreendentes. Muita atenção a cada sinal emitido pela economia. O médico não pode descuidar ou desprezar os sinais mínimos revelados pelo paciente. O caminho do paciente em recuperacão precisa estar bem pavimentado. E previnido quanto ao inesperado em tempos de desintoxicacão.
Zeina Latif, doutora em economia pela USP, foi economista-chefe para América Latina no Royal Bank of Scotland (RBS) e economista-chefe para Brasil nos bancos ING e ABN-Amro Real. (zeina.latif@terra.com.br).
terça-feira, 4 de setembro de 2012
O futuro da Gol
Bloomberg
A dívida líquida de US$ 1,6 bilhão (R$ 3,2 bilhões) da Gol, o maior dentre o de todas as grandes companhias áreas do mundo em relação aos lucros, está alimentando especulações de que a companhia vai vender ativos para levantar caixa, ou vai se fundir a outra companhia aérea.
O endividamento líquido da Gol chegou a 25 vezes o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebtida, na sigla em inglês) nos 12 meses encerrados em 30 de junho, a maior relação entre 31 companhias aéreas com valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão, segundo dados compilados pela Bloomberg. Isso se compara a uma relação de 3,4 para a Latam Airlines, do Chile; 1,3 para a United Continental, dos Estados Unidos; e 0,2 para a companhia aérea de descontos Ryanair, a menos endividada do mundo.
A Gol nomeou um novo presidente-executivo, eliminou empregos e reduziu o número de voos neste ano, depois de registrar perdas em quatro dos últimos cinco trimestres e ceder participação de mercado à TAM, da Latam Airlines. A Gol pretende abrir o capital de sua unidade de programas de milhagem Smiles no segundo semestre de 2013, segundo informou uma pessoa a par da transação à Bloomberg em 15 de agosto. "Não gostaria de estar na pele deles", diz Eric Conrads, que ajuda a administrar US$ 1 bilhão em ações para o ING em Nova York. "Eles poderiam aumentar os preços das passagens, mas eles não são líderes de mercado e isso significa que eles sacrificariam mais participação de mercado. E eles não estão em posição de sacrificar participação de mercado no momento."
Uma decisão sobre a abertura de capital da Smiles será tomada até o fim do ano, segundo disse o diretor financeiro da Gol, Edmar Prado Lopes Neto, em uma entrevista por telefone em 28 de agosto. A ação da Gol subiu 1,4% na Bolsa de Valores de São Paulo em 31 de agosto, para R$ 9,70, levando a perda acumulada no ano para 22%, em comparação à valorização de 0,5% do índice Bovespa.
A ação da Gol, segunda maior companhia aérea brasileira em valor de mercado, é negociada a 1,7 vezes o valor contábil, em comparação a 2,2 para a Latam Airlines e 1,2 para o índice Bovespa. A companhia de São Paulo está tentando transformar a Smiles em uma unidade de negócios separada até o fim do ano, antes de iniciar o processo de abertura de capital, segundo disse uma fonte familiarizada com o plano, que pediu para não ser identificada porque as negociações são sigilosas.
A Gol anunciou em dezembro que a Delta Air Lines, a segunda maior companhia aérea do mundo em tráfego, acertou a compra de uma participação de US$ 100 milhões e que as duas companhias começarão a agendar passageiros nos aviões uma da outra.
"A Gol apresentou alguns resultados bem fracos nos últimos trimestres, com a moeda mais fraca elevando cada vez mais o endividamento da companhia, disse Fausto Gouveia, que ajuda a administrar R$ 380 milhões na Legan Administração de Recursos, em uma entrevista por telefone de São Paulo. "Eles precisam fazer algumas grandes mudanças para recuperar as coisas. Vender a unidade Smiles seria um passo positivo."
O endividamento líquido da companhia atingiu R$ 3,27 bilhões em junho, dos quais 70% estão atrelados ao dólar. O real acumula uma desvalorização de 8,1% no ano, a moeda de pior desempenho entre os 25 mercados emergentes monitorados pela Bloomberg.
"A maior parte de nossa dívida vence em quatro anos a partir de agora", diz Lopes Neto, o diretor financeiro da Gol. "Até lá, as margens serão recuperadas."
Medidas recentes de corte de custos poderão ser suficientes para aliviar a pressão para a venda de ativos ou para uma fusão, diz Henrique Florentino, analista da UM Investimentos. "As margens operacionais devem melhorar nos próximos trimestres", diz ele, que tem uma recomendação de "manter" para a ação. A Gol não vê espaço para uma redução nos preços das passagens mesmo no momento em que a TAM conquista mais passageiros, disse Paulo Kakinoff, que assumiu como presidente-executivo em julho, em uma entrevista por telefone em 16 de agosto.
"A pressão dos custos é tão alta no momento, que não conseguimos pensar em uma redução do yield", disse ele. Yield é o preço médio da passagem para cada assento por quilômetro voado, um índice que reflete a receita e a demanda. A participação de mercado da Gol caiu para cerca de 33% em julho, em comparação a 38% um ano antes, enquanto que a da TAM aumentou de 41% para 42%.
A perda de participação de mercado poderá aumentar as pressões para uma fusão, na medida em que o setor doméstico de transporte aéreo for se consolidando, diz Laurence Balter, que supervisiona US$ 100 milhões para a Oracle Investment Research, nos Estados Unidos. Segundo ele, as medidas de corte de custos poderão não ser suficientes.
Estatizantes e privatistas?
Por Antonio Delfim Netto - Valor 04/09
O Brasil não resiste a uma boa dicotomia, mesmo que ela seja meramente semântica e, principalmente, se desprovida de conteúdo. Todos têm de ser ou keynesianos ou não keynesianos; marxistas ou contra Marx; defensores do "mainstream" ou heterodoxos; defensores do Estado mínimo e do setor privado máximo, ou vice-versa, um Estado máximo e um setor privado mínimo; desenvolvimentistas ou monetaristas. Cada uma dessas categorias é um conjunto vazio.
É verdade absoluta que: Marx nunca foi marxista e tinha dúvidas sobre eles; Keynes nunca foi keynesiano e desconfiava de quem declarasse que o fosse; Samuelson, o criador da síntese neoclássica, teve frequentes achaques de fraqueza heterodoxa; o sempre abusado Hayek foi muito melhor e mais sofisticado do que o que supõem os "não hayekianos". Nunca defendeu o mercado perfeito e desconfiava das "perturbações" financeiras.
Nem o mais míope dos desenvolvimentistas nega as restrições impostas pelas limitações da poupança interna, os riscos da externa e a necessidade do equilíbrio monetário; nem o mais exagerado monetarista ignora o fato que o "equilíbrio monetário" não é fim em si mesmo, mas instrumento para acelerar o crescimento e, não, inibi-lo...
Pois não é que neste momento importante, em que se procura (e se espera, com leilões bem feitos) transferir boa parte dos investimentos de infraestrutura para o setor privado - que é mais eficiente e tem como obter recursos fora do Tesouro -, a mídia descobre que o governo está supostamente infectado no setor aeroportuário por duas novas categorias: os "privatistas" e os "estatizantes". Divergem sobre o papel da Infraero, papel sobre o qual, aliás, a sociedade brasileira tem sérias críticas, e de cuja eficiência é licito duvidar-se dado ao seu mal de origem...
A Infraero, como todo ser (público ou privado), tem no seu DNA a inexorável propensão à sobrevivência e à sua reprodução. Eles são organismos vivos, cujos colaboradores buscam a sua cota de poder, aumentando o número de seus subordinados, como afirma a velha lei de Parkinson. A questão nada tem de ideológica. Tem a ver com o poder detido nas mãos dos administradores! Tudo absolutamente humano, natural, quase biológico! Com que misteriosa racionalidade há de convencer-se alguém que deve ceder o seu pequeno "espaço de poder", duramente conquistado e bravamente defendido a cada ano no Congresso Nacional para ampliar o seu orçamento?
O mundo não está ameaçado pelos problemas dos mercados (que são muitos), ou do "capitalismo privado", mas por uma falha dos governos, que foram incapazes de manter sob a rígida regulação (construída nos anos 30 do século passado) o sistema financeiro. Apesar de todas as incertezas que nos cercam, resta uma certeza: o mundo não vai acabar. Vai sair desta crise melhor do que entrou: mais eficiente e mais igualitário. É apenas uma questão de tempo, talvez anos.
Continua a atuar o processo civilizatório, iniciado com a incorporação e expansão do uso do conhecimento científico e tecnológico, combinado com o sistema de sufrágio universal, na grande maioria dos países. Foi ele que trouxe o mundo da Idade da Pedra à da informática. Gozamos do benefício de estar no mundo e vamos pagar o ônus de nele estar, mas é mais do que evidente que temos uma boa margem de manobra para prosseguir no nosso crescimento. Temos, obviamente, uma miríade de problemas a resolver, mas não podemos atacá-los ao mesmo tempo. Temos de hierarquizá-los.
É mais do que claro que hoje os constrangimentos impostos pela deficiência de nossa infraestrutura, e suas consequências logísticas, colocam-na como primeira prioridade. Acertadamente, o governo acaba de lançar um grande programa de concessões e recriar uma empresa para cuidar do problema logístico, abandonado desde 1985. O problema fundamental é que não existem recursos públicos para atendê-los. É preciso, portanto, cooptar o setor privado, que tem recursos, com leilões seguros, que fixem as condições mais adequadas para sua compatibilização com o interesse público.
Não adianta tergiversar ou filosofar. O governo - e muito menos o BNDES - não cria recursos. Na melhor das hipóteses, o primeiro pode economizar no custeio e aumentar seus investimentos. No limite, poderia aumentar os impostos e desperdiçá-los na baixa produtividade dos investimentos que faz diretamente, reduzindo ainda mais o crescimento.
O Tesouro só tem recursos se houver um superávit fiscal autêntico, ou um aumento do endividamento junto ao público que, para ser efetivo, tem de reduzir ou o consumo, ou o investimento privado, diluindo parte do seu efeito no crescimento.
Deve ser claro que tal disputa (se existir!) não é sobre racionalidade econômica, mas sobre as conveniências do "poder" de controlar diretamente a atividade. Isso nos leva ao eterno problema: a maior influência política na execução direta dos investimentos é, frequentemente, acompanhada de maior desperdício e menor eficiência à custa do desenvolvimento social e econômico do país.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
Obama precisa justificar o governo
Por Gideon Rachman - Valor 04/09
Campanhas presidenciais podem focar trivialidades. Por isso, o fato de Paul Ryan, candidato republicano a vice-presidente, ter mentido sobre ter corrido uma maratona em menos de três horas, poderá ser bizarramente importante. Na convenção do partido Republicano, na semana passada, Ryan foi apresentado como um indômito contador de verdades. Os democratas argumentaram que, na realidade, seu discurso continha mentiras sobre tudo: do Medicare ao fechamento de uma fábrica de automóveis.
Mas a reforma do Medicare é difícil de compreender. Por outro lado, subtrair uma hora de seu tempo de percurso numa maratona é facilmente compreensível. Isso faz Ryan parecer um tanto ridículo e desonesto. Os democratas vão deitar e rolar em cima das afirmações do homem da maratona em sua própria convenção, nesta semana.
A gafe é ainda mais irritante para os republicanos porque eles recém-promoveram uma convenção muito bem-sucedida. Em Tampa, na semana passada, o partido Republicano trancou seus tios loucos no sótão - com exceção de Clint Eastwood, a quem permitiu-se uma breve aparição. Falou-se muito pouco sobre religião, aborto, imigração, a certidão de nascimento de Barack Obama ou sobre a ameaça de lei sharia ser imposta em Michigan.
Em vez disso, os republicanos martelaram um único tema. Eles são o partido que encarna o otimismo e o individualismo do sonho americano. Por outro lado, Obama foi retratado como um bom homem que "não saca (as coisas)": como alguém que pensa que todas as coisas boas vêm do governo e denigre o esforço individual. Para que Obama seja reeleito ele terá de repelir esse ataque justificando o governo. Ele terá que defender seu estímulo econômico. Ele terá de defender o "ObamaCare". Acima de tudo, o presidente terá de resgatar a ideia mais poderosa e sedutora na política americana - o sonho americano.
Essa é uma tarefa muito delicada. As possibilidades de acidentes são sublinhadas por um discurso improvisado que o presidente fez, alguns meses atrás, em que ele pareceu zombar dos esforços dos donos de pequenas empresas. A frase fatal empregada por Obama - "você não construiu isso (seu negócio)", foi repetida interminavelmente durante a convenção republicana. Uma sucessão de pequenos empresários foi trazida ao palco para afirmar, em termos indignados, que tinham, efetivamente, "construído" (seus empreendimentos).
A defesa dos democratas é de que o presidente estava simplesmente falando sobre a necessidade de o governo disponibilizar serviços vitais, como (a construção de) infraestrutura. Eles insistem em que suas observações foram tiradas de contexto. Mas, na verdade, elas também não soam muito bem em contexto. Obama zombou de pessoas bem sucedidas, que pensam: "bem (meu êxito) deve ser simplesmente porque eu sou muito inteligente". Uma gafe política é mais perigosa quando parece confirmar o que os eleitores já suspeitam. E o presidente já era vulnerável à ideia de que tem escassa simpatia em relação ao homem comum.
Mas parte da munição que Obama necessitará para reagir contra seus adversários e defender o papel do governo pode ser encontrado na própria convenção republicana. A primeira noite foi encenada contra o pano de fundo de um enorme retrato de Neil Armstrong, que morreu na véspera do encontro. Mas Armstrong foi à Lua não porque "perseguiu seu sonho" e fundou uma pequena empresa - mas porque o governo federal o colocou lá. Qual é a diferença entre a Nasa, a respeitada agência espacial, e os temidos "planejadores centrais" ridicularizados por Ryan?
O candidato a vice-presidente argumentou que Obama abraçou ideias alienígenas europeias segundo as quais as pessoas são limitadas por suas circunstâncias sociais. "Eu nunca me vi como alguém aprisionado a algum status em minha vida", gabou-se Ryan. Mas é preciso atentar para o fato de que tanto Ryan e (ainda mais) Romney nasceram em circunstâncias confortáveis, embora os dois tenham se empenhado ao máximo para ressaltar algo que se assemelhasse a enfrentar dificuldades em suas vidas.
Por outro lado, Condoleezza Rice, a ex-secretária de Estado, uma menina negra que nasceu no segregado Alabama, fez muito menos alarde sobre sua história muito mais notável. Talvez por ela ter realmente obtido sucesso partindo de uma origem difícil, Rice mostrou-se mais aberta a aceitar a ideia que Ryan ridicularizou - a de que as circunstâncias sociais fazem diferença. Hoje professora da Universidade de Stanford, ela perguntou: "Se posso checar seu código postal e afirmar se você terá um bom ensino, poderei realmente dizer que não importa de onde você vem?" Corrigir essa desigualdade de oportunidades, disse Rice, é a "questão de direitos civis de nosso tempo". É difícil ver como isso pode ser concretizado sem alguma forma de intervenção governamental ou de reformas.
Se pressionarmos um pouco mais, desnudaremos mais incoerências ainda não reveladas na posição republicana. A enfática defesa do Medicare (sistema de saúde financiado pelo governo em benefício dos idosos) pelos republicanos é incompatível com a noção de uma América onde o principal papel do governo é simplesmente sair da frente.
Obama poderá citar esses pontos e o fará. Porém, mesmo ao esmagar argumentos de seu oponente, ele terá de tomar cuidado para não pisotear o sonho americano. A ideia de "terra das oportunidades", onde um indivíduo é livre para abrir seu próprio caminho, continua inspirando - e é muito mais inspiradora, para a maioria dos americanos, do que a noção de uma rede de segurança social. O argumento no qual ele precisa insistir é de que o governo é o amigo do sonho americano, não seu inimigo.
Seria bom acreditar que a eleição americana focará, em última instância, o profundo debate sobre o papel do governo. Mas poderá, com igual probabilidade, transformar-se em uma batalha de gafes: o "você não construiu isso", de Obama, contra a maratona de três horas, de Ryan. (Tradução de Sergio Blum)
Gideon Rachman é o principal analista de assuntos internacionais no FT.
A indústria em perigo
Por Luiz Gonzaga Belluzzo - Valor 04/09
Relembrando: durante todo o pós-guerra, até a crise da dívida externa de 1982, o Brasil manteve um ritmo acelerado de crescimento econômico. Entre 1947 e 1980 o PIB cresceu em média 7,1%, uma marca não igualada, no período, nem mesmo pelo Japão ou pelos celebrados Tigres asiáticos.
Comparado a esta "era de alto crescimento" o desempenho econômico dos últimos 35 anos tem sido sofrível. Perde, por exemplo, para a "recessão" que apareceu entre 1962 e 1967, nos anos de crise e estabilização, em que a economia cresceu miseravelmente para os padrões da época: apenas 3,2% ao ano.
A perda de dinamismo da industrialização brasileira provocou, no início dos anos 90, uma reação estremada nas hostes liberais: abrir a economia e expor os empresários letárgicos aos ares benfazejos da globalização. O silogismo em que se desdobra a premissa é grotesco em sua simplicidade: se a indústria brasileira perdeu a capacidade de investir ou de se modernizar, a solução é submeter a incompetente à disciplina da concorrência externa.
Quase todos concordam que se esgotaram as formas de financiamento, de incentivos e de proteção, responsáveis pela sustentação do desenvolvimento industrial brasileiro ao longo de mais de cinco décadas. Custa muito trabalho, além de imaginação, construir as novas instituições financeiras, pensar na reforma fiscal, enfim dar tratos à bola para estabelecer uma nova relação entre o Estado e o setor privado.
Um estudo encomendado pela União Europeia revela aspectos importantes do processo de internacionalização dos anos 90 e 2000: 1) nos países em desenvolvimento, os benefícios do investimento estrangeiro - tais como absorção de tecnologia, adensamento de cadeias industriais, crescimento das exportações - dependeram das políticas nacionais; 2) os países em desenvolvimento que cresceram mais e exportaram melhor foram os que conseguiram administrar uma combinação favorável entre câmbio desvalorizado e juros baixos.
Na era da arrancada chinesa, é superstição acreditar que a abertura financeira e a exposição pura e simples do setor industrial à concorrência externa são capazes de promover a modernização tecnológica e os ganhos de competitividade. Os estudos mais especializados e aprofundados sobre o tema mostram que a concorrência nos mercados contemporâneos está marcada por características que não guardam qualquer semelhança com as crendices simplificadoras das vantagens comparativas.
Até mesmo os estudiosos conservadores reconhecem a existência de economias de escala e de escopo, economias externas, estratégias de ocupação e diversificação dos mercados, conglomeração e acordos de cooperação. Neste jogo só entra quem tem cacife tecnológico, poder financeiro e amparo político dos Estados nacionais. O resto está na arquibancada batendo palmas.
Estas características essenciais da concorrência e do comportamento das empresas, sobretudo na área industrial, estão completamente ausentes das elucubrações dos que pretendem nos ensinar as virtudes milagrosas do curandeirismo que aspira foros de ciência.
Algumas correntes de opinião cultivam com esmero o hábito de ignorar a experiência alheia e, pior, tratam de desqualificar e desfigurar o seu próprio passado, quando não se empenham denodadamente em promover o seu completo esquecimento.
Não há exemplo nos países periféricos \- aí incluídos o Chile e os "Tigres Asiáticos", a China, de renúncia a políticas deliberadas de reestruturação produtiva ou de estímulo à modernização e à conquista de mercados. Seja qual for a estratégia adotada - liderança das exportações ou preeminência do mercado interno - os casos bem sucedidos de avanço industrial e produtivo na dita "era da globalização" têm um traço comum: intencionalidade e coordenação pública.
É insensato subestimar os efeitos causados pelas mudanças da geoeconomia mundial: a expansão sino-asiática vai continuar ameaçando as estruturas industriais do Velho e do Novo Mundo. As políticas asiáticas de promoção e integração industrial estão alicerçadas em ganhos expressivos nas relações produtividade/salário e salário/câmbio na manufatura. Esse processo é amparado por um sistema de crédito voltado para o investimento manufatureiro privado e para a sustentação dos programas públicos de gastos em infraestrutura.
A despeito da crise global e da inevitável desaceleração chinesa, o estilo de desenvolvimento sino-asiático vai prosseguir em seus trabalhos de ganhar a dianteira na porfia competitiva global. Não é por desvio ideológico ou coisa parecida que as medidas protecionistas se espalham e se aprofundam silenciosamente no mundo inteiro, enquanto os adeptos das teorias das vantagens comparativas se lamentam, entre gemidos e murmúrios. Nessas circunstâncias, a valorização cambial é um erro grave, assim como a hesitação em promover políticas adequadas de defesa comercial e de estímulo às exportações.
Em artigo escrito com Júlio Sérgio Gomes de Almeida sugeri que a falsa inserção competitiva da economia brasileira está cobrando o seu preço. Falsa, porque as políticas dos anos 90 entendiam que bastava expor a economia à concorrência externa e privatizar para lograr ganhos de eficiência micro e macro econômicas. Percorremos o caminho inverso dos asiáticos que abriram a economia para as importações redutoras de custos. A abertura estava, portanto, comprometida com os ganhos de produtividade voltado para aumento das exportações. As relações importações/exportações faziam parte das políticas industriais, ou seja, do projeto que combinava o avanço das grandes empresas nacionais nos mercados globais e a proteção do mercado interno. As importações não tinham o objetivo de abastecer o consumo das populações. Estas se beneficiaram, sim, dos ganhos de produtividade e da diferenciação da estrutura produtiva assentada em elevadas taxas de investimento.
Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
China, aos olhos de quem a vê
Por Minxin Pei - Valor 03/09
Uma das mais flagrantes, ainda que despercebidas, coisas estranhas sobre a China, hoje, é como as percepções sobre seus líderes divergem conforme o observador. Aos olhos da opinião pública chinesa, os funcionários governamentais são venais, incompetentes e interessados apenas em obter nomeações lucrativas. Mas os executivos ocidentais invariavelmente descrevem as autoridades chinesas como inteligentes, decisivas, experientes e perspicazes - mais ou menos os mesmos adjetivos antes usados para descrever Bo Xilai, chefe do Partido Comunista Chongqing que caiu em desgraça, antes de ele ter sido expurgado).
É impossível conciliar esses pontos de vista. De duas, uma: ou é impossível agradar o público chinês ou os executivos ocidentais estão irremediavelmente errados. Mas, tendo em vista que a experiência diária situa os cidadãos chineses em posição infinitamente melhor do que os executivos ocidentais para avaliar as autoridades chinesas e sua conduta, teríamos de concluir que os primeiros estão, muito provavelmente, certos. E isso significa que os ocidentais que passaram um tempo considerável na China e consideram-se experientes "veteranos em China" precisam questionar-se sobre por que estão tão errados.
Uma explicação óbvia é que os funcionários governamentais chineses são extremamente bons em seduzir empresários ocidentais com gestos amistosos e promessas generosas. Os mesmos funcionários que ditam as regras para o cidadão chinês comum frequentemente projetam um charme irresistível para atrair investidores ocidentais.
Outro ponto de atração, para os executivos ocidentais, é que muitos funcionários chineses têm formação em engenharia, em contraste com os seus homólogos ocidentais, em sua maioria advogados. Para os empresários, os engenheiros são solucionadores de problemas práticos, ao passo que advogados revelam-se obcecados por complexidade procedural e tendem a explorar brechas contratuais. Além disso, a maioria dos funcionários governamentais chineses aprenderam o jargão empresarial ocidental e são capazes de falar inteligentemente sobre os problemas que as empresas precisam resolver.
Uma razão mais sutil capaz de explicar a percepção dos executivos ocidentais é o referencial subconsciente que usam para a avaliar as autoridades chinesas. Altos executivos de empresas multinacionais tendem a ter noções preconcebidas sobre a China, assumida como apenas mais um país em desenvolvimento, e por isso avaliam as autoridades chinesas comparando-as com as de outros países em desenvolvimento.
Essa comparação inconsciente geralmente resulta favorável às autoridades chinesas, que são, em seu conjunto, melhor instruídas, mais cosmopolitas e mais focadas em negócios (porque o Partido Comunista usa o crescimento econômico e o investimento estrangeiro como critério para promover funcionários). E, como organização, o Estado chinês é muito mais forte e mais focado em objetivos do que os Estados em países em desenvolvimento mais típicos.
Mas, embora possa ser natural, para os empresários ocidentais, comparar a China a outros países em desenvolvimento, os cidadãos chineses têm padrões bem mais elevados, por que não se consideram apenas mais um país em desenvolvimento. Eles vêem a China como especial, uma potência reemergentes a caminho de passar a fazer parte do grupo de países mais avançados do mundo, e as práticas de governança que seus jornais citam como modelos são, invariavelmente, os de sociedades ricas, e não de países em desenvolvimento. Na verdade, uma maneira de insultar os chineses é dizer-lhes que deveriam sentir-se afortunados por que têm um governo melhor do que os indianos ou os brasileiros.
A terceira razão pela qual os empresários ocidentais têm uma impressão errada sobre a China é que sua admiração pelo governo chinês é reflexo de suas frustrações com seus próprios governos. Eles mostram-se impacientes em face da desordem do processo democrático, de regulamentações sufocantes, de impostos elevados e da fiscalização da mídia. Em contraste, no Estado chinês de partido único, os empresários verificam ser mais fácil fazer negócios com funcionários que podem tomar decisões rápidas e implementá-las quase instantaneamente.
Claro, às vezes esses executivos ignoram concretamente o Estado de direito que prevalece no Ocidente. Mas, em comparação com empresários privados chineses, os representantes de grandes empresas ocidentais são um grupo privilegiado, e não são tão frequentemente vitimados pela corrupção oficial. Como resultado, eles têm escassa percepção do pior aspecto do regime de partido único: uma elite voraz sem freios legais.
O aspecto mais lamentável das concepções equivocadas dos executivos ocidentais sobre o governo chinês é que elas tenderão a persistir, ao menos entre aqueles que não têm experiência direta com o lado sombrio do Estado chinês. Os executivos ocidentais são bem sucedidos, inteligentes e têm elevado grau de confiança em seu discernimento político. Além disso, as companhias ocidentais são hierárquicas e autocráticas, semelhantes, nesse aspecto, ao Estado de partido único chinês, de modo que erros de executivos de avaliação de altos executivos são raramente contestados por seus subordinados.
Isso é uma pena. Poucos executivos ocidentais compreendem as consequências políticas de seus equívocos. Seu louvor à qualidade e eficácia de autoridades chinesas é frequentemente percebida pelo Partido Comunista como um endosso internacional a suas políticas e sua legitimidade - apesar de os cidadãos chineses comuns saberem que a realidade é outra. (Tradução de Sergio Blum)
Minxin Pei é professor de Governo na Faculdade Claremont McKenna e pesquisador não residente sênior no German Marshall Fund dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2012.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
O capitalismo americano
Por José Luís Fiori Valor 29/08
Years before the Declaration of Independence Benjamin Franklin, George Washington and Thomas Jefferson, as well as a considerable ratio of New England's most proeminent Congregationalist ministers already talked of America reaching the Mississippi or even the Pacific to become the next century great empire. Kevin Phillips, "The Cousins' Wars", Basic Books, New York, 1999, p.116
A publicação, em 1894, do livro do economista inglês, John A. Hobson (1858-1940), "A Evolução do Capitalismo Moderno", transformou-se numa referência obrigatória para a interpretação do desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Depois de Hobson, vários historiadores e economistas retomaram sua tese sobre a originalidade radical do capitalismo americano, vis-á-vis o desenvolvimento europeu. Em particular, depois da Guerra de Secessão (1861-1865), com o surgimento das grandes corporações e do capital financeiro que teriam revolucionado a organização microeconômica, e mudado a face do capitalismo mundial. Do nosso ponto de vista, entretanto, estas transformações ajudam a entender o "milagre econômico" americano do início do século XX, mas não explicam as próprias transformações.
Os Estados Unidos foram o primeiro estado nacional que nasceu fora da Europa, mas não nasceu fora do sistema geopolítico e econômico europeu. Pode-se dizer, inclusive, que a "Guerra da Independência" americana foi, em grande parte, um capítulo da disputa entre a Inglaterra e a França pela supremacia mundial. E sua conquista definitiva ocorreu entre as duas grandes guerras ("Dos 7 Anos" e "Bonapartista") que definiram a hierarquia de poder internacional, e a supremacia inglesa, dentro e fora da Europa, a partir de 1815. Durante esse período de guerras, os Estados Unidos sempre se sentiram "cercados" e ameaçados - simultânea ou sucessivamente - pela Inglaterra, França e Espanha, e tiveram que negociar seu reconhecimento e suas fronteiras com o "núcleo duro" das Grandes Potências europeias.
Assim mesmo, os EUA acabaram se transformando no único estado nacional extra-europeu que nasceu de um império e de uma economia em plena expansão vitoriosa. Mais do que isto, durante a chamada "revolução industrial" que transformou os Estados Unidos - imediatamente - na primeira periferia "primário-exportadora" de sucesso da economia industrial inglesa. Situação econômica privilegiada que se consolidou e expandiu durante todo o século XIX, antes e depois da Guerra de Secessão, enquanto a Inglaterra abria espaços de expansão comercial para sua ex-colônia, e assumia a responsabilidade - em alguns momentos - por cerca de 60% do investimento direto dentro de todo o território americano, que passou a fazer parte de uma espécie de "zona de co-prosperidade" anglo-saxônica, ou mesmo, num caso "avant la lettre", de "desenvolvimento a convite", da Inglaterra.
Por outro lado, desde sua independência, os Estados Unidos foram governados por uma elite coesa e com um "intense commitment" imperial, e mantiveram um ritmo de expansão política e territorial contínua, por meio da guerra, da diplomacia e do comércio. Antes da Guerra Civil, foram 37 "guerras indígenas", e mais as Guerras do Texas e do México, em 1837 e 1846, responsáveis pela duplicação do território americano. Mais a frente, vieram a Guerra Civil e a Guerra Hispano-Americana, e uma sucessão de intervenções militares no Caribe, num movimento de expansão que se acelerou no século XX, alcançando Europa, Ásia, Oriente Médio e África.
De forma que nos cerca de 250 anos de história independente, os EUA iniciaram - em média- uma guerra a cada três anos, exatamente como a Inglaterra. Contando com a vantagem de ser "membro por nascimento" da pequena comunidade dos estados produtores da "ética internacional" que arbitram as "guerras justas" e o "livre-comércio". A história segue e é extensa, mas já se pode dizer que ela fornece fortes indícios de que:
1- o desenvolvimento econômico dos EUA não foi uma exceção, pelo contrário, foi uma parte essencial da expansão e das contradições do sistema inter-estatal e do capitalismo europeu;
2- o sucesso do capitalismo americano não foi puramente endógeno, nem foi apenas uma obra das grandes corporações e do capital financeiro que nasceram à sombra da Guerra Civil;
3- o "apoio externo" foi decisivo para o sucesso da economia americana, que foi sempre a principal "fronteira de expansão" do capital financeiro inglês;
4- a "guerra contínua" teve um papel estratégico no desenho das políticas industrial e agrícola, e no desenvolvimento científico e tecnológico dos EUA; e por fim, a expansão política, territorial e bélica dos EUA foi na frente do processo de internacionalização das grandes corporações, do capital financeiro e da moeda americana.
Uma história de desenvolvimento econômico como a das demais potências do sistema mundial, mas muito diferente da interpretação economicista de Hobson e seus discípulos.
José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
A última chance dos republicanos
Por Gideon Rachman - Valor 28/08
A história política mais significativa nos EUA neste ano nada tem a ver com a política. Veio em um artigo no "The New York Times" intitulado "Brancos representam menos de metade dos nascimentos nos EUA".
Parte do sentimento de medo e ira que muitos eleitores republicanos dirigem contra Barack Obama está certamente relacionada com a percepção de que o presidente representa "a outra América", os EUA não brancos que acabarão por constituir uma maioria na população do país.
É possível perceber a raiva no popular slogan "Quero meu país de volta". Podemos vê-la na cobrança, na convenção do partido, por políticas cada vez mais duras contra imigrantes ilegais. Podemos identificar traços dessa raiva nas denúncias de conotação racial contra o "Obamacare", que tem por objetivo proporcionar cobertura de saúde a 44 milhões de americanos não segurados.
As mudanças no perfil demográfico americano e as considerações políticas que as caracterizam colocam um grande dilema estratégico para os republicanos. Um importante estrategista partidário argumenta que a eleição presidencial de 2012 já se resume a uma batalha entre economia e demografia. Economia fraca e desemprego elevado favorecem os republicanos. Mas as tendências demográficas beneficiam os democratas. O crescimento do voto hispânico significa que três Estados onde George W. Bush venceu em 2004 - Nevada, Colorado e Novo México - estão se inclinando em favor de Obama.
A Califórnia, maior Estado do país e Estado natal de Richard Nixon e de Ronald Reagan, votou nos republicanos em todas as eleições presidenciais de 1968 a 1988. Mas os democratas lá ganharam desde 1992 e Obama está seguramente na dianteira, lá. Muitos analistas identificam a mudança na preferência estadual pelos republicanos aos "ataques" cada vez mais estridentes contra a imigração ilegal.
As pesquisas mais recentes ressaltam em que medida Mitt Romney vai mal entre os hispânicos. Uma pesquisa NBC-Wall Street Journal na semana passada mostrou que Obama lidera entre os hispânicos por 63% a 28%. O campo de Romney fala esperançosamente sobre ampliar sua participação para 38% do voto hispânico até o dia das eleições, mas é difícil acreditar nisso.
Havia rumores de que o candidato republicano poderia escolher o senador Marco Rúbio, da Flórida, um cubano-americano, como seu companheiro de chapa. Mas ele optou pelo congressista Paul Ryan - cuja escolha parece, segundo as pesquisas, ter efetivamente diminuído o apelo da chapa junto aos eleitores hispânicos.
A convenção do Partido Republicano em Tampa deverá adotar uma plataforma partidária de linha dura em questões cruciais para os eleitores hispânicos, em especial a imigração ilegal. Na convenção, será reivindicada a conclusão da construção de uma cerca com dupla camada, na fronteira com o México, e a adoção de um sistema eletrônico, chamado "E-Verify", exigindo que todos os empregadores confirmem o status legal de novos contratados. Até mesmo a maioria dos hispânicos, que têm todo o direito de viver nos EUA, tendem a se opor às políticas focadas nos ilegais ou que os ameacem com deportação.
Durante as primárias, Romney manifestou-se a favor de "autodeportação" - termo que empregou para indicar a adoção de leis trabalhistas tão rígidas que os imigrantes ilegais veriam-se na impossibilidade de encontrar trabalho e optariam por voltar para casa. Como suspira um estrategista republicano: "É difícil conseguir que as pessoas votem em você quando, para começo de conversa, elas acham que você não as quer no país".
A caminho da convenção, Romney tinha se igualado a Obama, segundo muitas pesquisas. Ele, claramente, tem uma boa chance de vitória. Mas, se perder, as chances de os republicanos reconquistaram a Casa Branca diminuirão a cada eleição - a menos que consigam um desempenho muito melhor entre os eleitores minoritários, em geral, e os eleitores hispânicos, em particular.
Neste momento, cerca de 63% da população americana é branca. Mas, por volta de 2040, o país provavelmente terá um perfil "maioria-minoria". Os hispânicos representam atualmente 16% da população americana. Mas 26% dos bebês nos EUA, no ano passado, nasceram em famílias hispânicas.
Os republicanos correm o risco de ficar aprisonados num círculo vicioso. Em razão de tantos eleitores participantes em suas primárias serem "anglos" idosos revoltados com as mudanças demográficas nos EUA, os candidatos à indicação pelos republicanos são mais ou menos obrigados a adotar posições radicais na questão da imigração, que provavelmente pesarão muito contra eles quando pedirem votos ao eleitorado hispânico na eleição geral.
Republicanos confortam-se imaginando que a filiação dos eleitores hispânicos poderá mudar ao longo do tempo. Muitos hispânicos têm posições socialmente conservadoras que poderão se encaixar bem no moderno Partido Republicano. Ted Cruz, candidato do partido ao Senado dos EUA pelo Texas, em novembro, é latino-americano e um queridinho do movimento Tea Party.
Candidatos como Cruz e Rubio mantêm acesa a esperança de criar um Partido Republicano que seja bem mais atraente aos eleitores hispânicos. No entanto, os republicanos não podem assumir que um grande número de hispânicos aderirão mais ao partido com o passar do tempo. As atitudes políticas que se formam nos duros anos iniciais, na esteira da chegada das pessoas aos EUA, podem ser muito duráveis. A grande maioria dos judeus ainda vota nos democratas.
A incapacidade de atrair os votos das minorias étnicas em geral e, em particular, dos hispânicos, é uma grande desvantagem para os republicanos nessa eleição, mas uma chapa Romney-Ryan ainda poderá superá-la. Em eleições futuras, ela poderá ser fatal. Romney enfrenta uma batalha muito difícil, nos próximos meses. Futuros candidatos republicanos poderão concluir que o trabalho dele foi fácil. (Tradução de Sergio Blum)
Gideon Rachman é o principal analista de assuntos internacionais no FT.
O problema brasileiro
Por Antonio Delfim Netto - Valor 28/08
É impossível chegar a um consenso sobre o Brasil que gostaríamos de legar à geração que amadurecerá em 2030. Há fatos demográficos já inscritos que, com toda a probabilidade, se realizarão, a não ser que sejamos atropelados por uma improvável invasão marciana.
Graças ao processo civilizatório, que, felizmente, foi introjetado pela mulher brasileira, que hoje estuda mais, gera menos filhos (e um pouco mais tarde) e aumenta a participação na força de trabalho, vivemos uma revolução demográfica e econômica. Há menos de quatro décadas, temia-se que o Brasil, com sua então fantástica taxa de fecundidade, estaria condenado a ser um país miserável. A tabela abaixo dá alguns números que revelam a preocupação então existente.
É preciso fazer justiça a alguns economistas e aos demógrafos mais recatados, que nunca aceitaram aquele crescimento exponencial. Seus modelos eram um pouco sofisticados. Implicavam a aceitação de uma função logística com assíntotas precariamente determinadas. De qualquer forma, a situação parecia mesmo muito preocupante. Na década de 60 do século passado, a média de filhos por mulher era de 6,3!
Não foi, sem alguma razão, que naquele momento o Brasil namorou com um processo de "controle da natalidade", que sofreu forte oposição do Vaticano. Pois bem. Foi o processo civilizatório da mulher brasileira que reduziu em menos de duas gerações a sua taxa de fecundidade para 1,94, abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1 filhos.
Qual o seu resultado? O Censo de 2010 revelou que a população brasileira era de 191 milhões, praticamente 65% do propalado terrorismo demográfico dos anos 60! O Brasil é hoje um país com pequeno crescimento populacional e com aumento significativo da expectativa de vida ao nascer. Esses fatos estão registrados no gráfico 1, abaixo.
Como se vê, vamos passar por um máximo populacional em 2040, acompanhado de um envelhecimento significativo. A pirâmide etária, revelada no gráfico 2, mostra que o aumento da população não será apenas quantitativo, mas também, e principalmente, qualitativo, com uma mudança profunda na estrutura da demanda de bens e serviços: menos crianças para serem educadas e mais idosos para serem cuidados...
É esse fato demográfico insuperável que coloca, na minha opinião, o mais importante problema que temos de deixar solucionado para a próxima geração. Hoje, temos 130 milhões de pessoas entre 15 e 64 anos. Em 2030, teremos 150 milhões: cidadãos mais velhos, mais educados e, tudo sugere, mais exigentes com relação à administração do país.
O mais importante problema nacional é este: como vamos organizar a sociedade brasileira para propiciar empregos, de boa qualidade e salários adequados, a 150 milhões de pessoas que constituirão a população em idade ativa em 2030? A resposta não é simples, nem clara.
O que é simples e claro é que isso não se fará simplesmente aprofundando a estrutura produtiva atual, apoiada na sofisticadíssima e produtiva agroindústria nacional, que agrega mais valor do que em geral se quer admitir, mas que é poupadora de mão de obra. E muito menos com a exploração mineral (inclusive o petróleo), atividades altamente capital-intensivas, com altíssima tecnologia e trabalho superespecializado.
Se quisermos ter em 2030 algo parecido com o nível de renda per capita em paridade de poder de compra de Portugal de hoje, temos de crescer em torno de 5% ao ano (mais ou menos 4% do PIB per capita), em média, nos próximos 18 anos. Isso pedirá cuidadosa e rigorosa política fiscal, capaz de sustentar a política monetária (que produzirá o equilíbrio interno), e adequada política cambial (que produzirá o equilíbrio externo).
Nas condições atuais de pressão e temperatura, isso exigirá um investimento bruto anual, até 2030, da ordem de 25% do PIB (com talvez um déficit em conta corrente de não mais do que 1,5% ao ano). O nosso Estado forte, constitucionalmente controlado, precisa cooptar, com regulação segura e amigável, o nosso eficiente setor privado!
É preciso superar a desconfiança mútua, ainda existente entre eles, com a transferência - por concessão ou parcerias - do investimento em infraestrutura para o setor privado, através de leilões bem projetados, que determinem as justas taxas de retorno para garantirem a quantidade e a qualidade dos serviços no presente e no futuro.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
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