sexta-feira, 24 de agosto de 2012
O conservadorismo fiscal dos EUA
Por Simon Johnson - Valor 24/08
Na maioria dos países, ser "fiscalmente conservador" significa preocupar-se muito com o déficit orçamentário e a dívida pública - e pressionar para que essas questões sejam levadas ao topo da agenda de políticas governamentais. Em muitos países da zona euro, hoje, os "conservadores fiscais" são um grupo poderoso que insiste na necessidade de aumentar a receita dos governos e colocar os gastos sob controle. No Reino Unido, também, importantes conservadores recentemente mostravam-se dispostos a aumentar os impostos e tentaram limitar gastos futuros.
Os EUA são muito diferentes, a esse respeito. Lá, os líderes políticos que optam por denominar-se "conservadores fiscais" - como Paul Ryan, agora presumível candidato do Partido Republicano à vice-presidência ao lado do candidato presidencial Mitt Romney na disputa em novembro - preocupam-se mais com cortes de impostos, independentemente do efeito sobre o déficit federal e a dívida total. Por que os conservadores fiscais americanos importam-se tão pouco com a dívida pública, em comparação com seus colegas de outros países?
Não foi sempre assim. Por exemplo, em 1960, os assessores do presidente Dwight D. Eisenhower sugeriram que ele deveria cortar impostos com o objetivo de preparar o caminho para seu vice-presidente, Richard Nixon, ser eleito para a presidência. Eisenhower não o fez, em parte porque ele particularmente não gostava nem confiava em Nixon, mas principalmente por que ele acreditava ser importante entregar um orçamento mais quase equilibrado a seu sucessor.
O arcabouço da política macroeconômica americana mudou drasticamente quando o sistema monetário internacional quebrou em 1971. Os EUA já não podiam manter um câmbio fixo entre o dólar e o ouro - a pedra angular do sistema de Bretton Woods, implementado no pós-guerra. O esquema entrou em colapso porque os EUA não quiseram apertar a política monetária e executar uma política fiscal mais restritiva - manter os eleitores americanos felizes era, compreensivelmente, mais importante, para o presidente Nixon, do que a manutenção de um sistema mundial de câmbio fixo.
Ironicamente, porém, em vez de minar o papel internacional predominante do dólar, o fim de Bretton Woods, na realidade, impulsionou o uso da moeda americana em todo o mundo. Muito tem sido escrito, e muita preocupação tem sido manifestada, sobre o declínio do dólar nas últimas quatro décadas, mas a verdade é que os volumes de ativos denominados em dólares americanos em poder de estrangeiros, hoje, são muito maiores do que em 1971.
Isso acaba por ser uma faca de dois gumes, porque permitiu que os EUA se tornassem menos cuidadosos com suas contas fiscais. Estrangeiros já detêm cerca de metade de toda a dívida do governo federal dos EUA, e estão dispostos a mantê-la (em suas reservas) apesar de proporcionar um retorno muito baixo em dólares (e até mesmo quando o dólar se desvaloriza).
Na realidade, sempre que o mundo parece instável, os investidores querem manter mais ativos em dólares em seu poder - mesmo quando os EUA são a causa da instabilidade. Quando grandes bancos americanos estão em apuros ou quando os americanos envolvem-se em mais um debilitante embate político sobre suas finanças públicas, os investidores em todo o mundo disputam a posse de títulos do Tesouro americano. O embate parlamentar no ano passado sobre o teto da dívida federal pode ter custado aos EUA sua classificação AAA de dívida soberana atribuída pela Standard & Poor's, mas os custos de financiamento do governo federal estão na realidade mais baixos, agora, do que então.
O que fizeram os EUA com essa oportunidade: possivelmente o mais baixo custo de financiamento na história da humanidade? Não muito, em termos de investimento produtivo, de fortalecimento da educação ou de manutenção da infraestrutura essencial. Mas os EUA têm feito muita coisa em termos de adoção de cortes de impostos que aquecem o consumo em relação à renda e reduzem as receitas do governo em relação à despesa. Esse é o legado duradouro dos cortes "temporários" de impostos adotados pelo governo de George W. Bush no início de 2000.
E os americanos mudaram bastante, em termos de filosofias políticas - tanto à direita como à esquerda - que consideram a dívida pública apenas como um detalhe desimportante. Ou, como disse o ex-vice-presidente Dick Cheney, "Reagan nos ensinou que os déficits não importam" - querendo dizer que Ronald Reagan cortou impostos, incorreu em déficits maiores e não sofreu quaisquer consequências políticas adversas.
Ryan e membros da ala "Tea Party" do Partido Republicano sem dúvida querem reduzir o tamanho do governo federal, e eles têm planos articulados para fazer isso ao longo de várias décadas. Mas no curto prazo, o que prometem são, principalmente, cortes de impostos: seu programa inteiro, do ponto de vista prático, é carregado, em curto-prazo, nessa direção. O cálculo político é que isso se revelará popular (o que é, provavelmente, verdadeiro), ao mesmo tempo em que facilitará implementar cortes de gastos mais à frente (o que é menos evidente). A vulnerabilidade criada pelo aumento da dívida pública ao longo das próximas décadas é simplesmente ignorada.
Por exemplo, Ryan apoiou farra de gastos de George W. Bush. Ele também defende a manutenção dos gastos com a defesa em, ou perto de, seu nível atual - resistindo aos cortes que foram postos em vigor pela Lei de Controle do Orçamento de 2011.
O pressuposto aqui - não declarado e altamente questionável - é que os EUA serão capazes de vender uma quantidade ilimitada de dívida pública a juros baixos num futuro previsível. Não há nenhum outro país no mundo onde os conservadores fiscais gostariam de se verem associados a uma aposta de tão alto risco. (Tradução de Sergio Blum)
Simon Johnson foi economista-chefe do FMI e é cofundador do blog sobre economia www.BaselineScenario.com, professor da MIT Sloan, membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional e coautor de "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You" (Casa Branca em chamas: os pais fundadores, nossa dívida nacional e por que isso é importante para você, em inglês), com James Kwak. Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
'Sal na ferida', seca nos EUA ainda promete mais danos
Por Ian Berry e Owen Fletcher
The Wall Street Journal, de Wausa, Nebraska
Um grupo de profissionais do setor agrícola marchava através de um milharal dizimado pela seca nesta cidade no centro produtivo dos Estados Unidos na segunda-feira, esmagando folhas e talos ressequidos pelo caminho.
A fazenda era uma das primeiras paradas em uma viagem de quatro dias pelos campos agrícolas do país. O evento anual, com a presença de dezenas de analistas e investidores de commodities, além de alguns agricultores, é usado para avaliar o estado da safra mais recente. Este ano, entretanto, não há muito que ver.
"Você não tem que ter medo de se perder neste campo", disse Marty Tegtmeier, um agricultor do Estado de Iowa que se integrou à turnê, enquanto observava a paisagem.
Embora a pior seca em décadas venha golpeando grande parte do cinturão agrícola americano durante meses, muitos na turnê disseram que foram surpreendidos pelo péssimo estado das culturas. A notícia triste tem sido relatada aos operadores e investidores de commodities em Chicago via celular e até pelo Twitter - provocando saltos nas cotações do milho e da soja.
Na terça-feira, o preço do milho fechou com um recorde de US$ 8,3125 por bushel (contrato com vencimento em setembro) e a soja ficou perto de um recorde, a US$ 17,5350 por bushel, na bolsa de Chicago. Ontem, ambos recuaram um pouco. O milho fechou a US$ 8,3025 e a soja, a US$ 17,48 (papeis para setembro).
Além de Wausa, Estado de Nebraska, a turnê, organizada pela empresa de consultoria Pro Farmer, visitará lavouras em sete Estados.
Alguns campos irrigados pareciam imunes à seca, com rendimentos estimados em 15,7 mil quilos por hectare em partes de Nebraska. O grupo também espera ainda encontrar lavouras saudáveis em áreas de plantio de Minnesota no último dia da turnê.
Mas os observadores tiveram dificuldades para encontrar campos de milho que ainda não tivessem sido transformados em alimento de gado no sudeste de Dakota do Sul e no nordeste de Nebraska, um sinal de que os agricultores tinham desistido de uma cultura que não seria capaz de produzir nenhum grão.
Em uma fazenda no leste do Illinois na terça-feira, Brian Grete, analista da Pro Farmer, disse que podia colocar sua mão inteira numa rachadura no solo que se formou devido à grave seca - antes de chuvas recentes tornarem o solo pegajoso. "É quase como esfregar sal na ferida o fato de que as chuvas vieram tarde demais para esta área", disse ele.
Nos campos em que ainda havia pés de milho, muitas vezes as plantas não tinha nenhuma espiga.
Apesar de a terra irrigada mostrar mais potencial, os observadores disseram que alguns desses campos também estavam sem brilho, notando que o calor extremo tinha parcialmente eliminado os benefícios da irrigação.
"Foi difícil [para a irrigação] manter o ritmo este ano", afirmou Jeff Mueller, um agrônomo da DuPont Pioneer, o braço agrícola da multinacional DuPont Co.
A turnê vai terminar hoje em Owatonna, Estado de Minnesota. Amanhã, a Pro Farmer vai lançar sua previsão para o rendimento médio de milho e de soja dos EUA na atual safra, com base, em parte, nos resultados das visitas.
Leituras iniciais em Dakota do Sul e em Ohio têm sido decepcionantes. Os organizadores das visitas relataram na segunda-feira um rendimento médio estimado das lavouras de milho em Ohio de 6,9 mil quilos por hectare, uma retração de 29% em comparação com o ano passado. As previsões para a soja ficaram em uma média de 1.033,7 vagens em uma área de menos de um metro quadrado, 17,5% abaixo do que no ano passado.
Em Dakota do Sul, os observadores esperam um rendimento médio 47% inferior que o registrado no ano passado, tanto para a soja quanto para o milho.
As estimativas do grupo para a produção de milho e soja em Ohio e em Dakota do Sul são substancialmente inferiores às feitas pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) no início deste mês, informou o diretor da turnê, Chip Flory.
De volta a Chicago, operadores e analistas disseram que estão monitorando o Twitter ou telefonando para amigos e colegas no grupo de observadores para coletar as últimas informações.
Incerteza não é emergência
Por José Graziano da Silva - Valor 23/08
É grande a probabilidade de que as três décadas encerradas na crise de 2007/2008 passem à história como o último ciclo longo de estabilidade dos preços dos alimentos.
Desde o início deste século a tendência declinante mudou; os preços passaram a subir e a volatilidade fez-se senhora dos mercados. As commodities agrícolas dispararam em 2008 e 2010 e voltaram a subir agora em 2012.
O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) de agosto aumentou 6% em relação ao mês anterior, alcançando 213 pontos, mas ainda abaixo dos 224 pontos de junho de 2008 e o recorde de 238 pontos de fevereiro de 2011.
A alavanca desta vez foram as cotações do milho, do trigo e do açúcar. A nova alta reafirma um tempo de preços erráticos que veio para ficar. No entanto, não configura uma explosão equivalente à de 2008.
O que aconteceu ali foi uma desastrosa espiral de preços que poderia ter sido evitada com um grau maior de coordenação internacional das políticas de importação e exportação, hoje possível.
Quebras de safras e demanda aquecida foram respondidas então com a suspensão de embarques de alguns países exportadores e muitas nações procuraram se defender da escalada dos preços elevando suas reservas internas.
A incerteza alimentou o pânico e fomentou a especulação descolada da função benigna de proteger produtores e compradores. Investir em mercados futuros de commodities mostrou-se a melhor aplicação financeira dos últimos cinco anos: rendeu 144% contra 143% do ouro, segundo cálculos do Deutsche Bank.
Hoje, a realidade é outra. Não estamos em crise e podemos evitar que ela ocorra.
Em 2008, o crescimento econômico empurrava a demanda. Hoje, a recessão na Europa e o desaquecimento na Ásia, associados ao baixo crescimento nos Estados Unidos, exercem um freio na demanda e na especulação nociva.
Agora, a seca no meio-oeste norte-americano atingiu um produto essencial da cadeia alimentar, o milho; mas os índices de preços dos derivados de leite e os do arroz permanecem estáveis; os da carne caíram. De modo geral, estoques disponíveis de trigo e, especialmente, de arroz são maiores que há quatro anos e seus mercados mostram-se relativamente equilibrados até agora.
O horizonte de instabilidade anunciado em 2008, porém, não se dissipou. A regulação financeira ainda engatinha; a equação do desequilíbrio climático é um enredo à espera de atores.
Com ou sem crise, a incerteza caracteriza a época em que vivemos e não pode mais ser respondida apenas com a emergência.
Informação e políticas coordenadas são essenciais para subtrair espaços à lógica da instabilidade.
O Sistema de Informações de Mercado Agrícola (AMIS, na sua sigla em inglês), criado pelo G20 após a última crise e coordenado pela FAO, aprimorou o acompanhamento das tendências de oferta e demanda. O AMIS inclui um Foro de Resposta Rápida, que dá aos países maior espaço para trocar informações e coordenar políticas com a velocidade necessária para responder a movimentos de preços como o atual. Integram esse sistema as nações que compõem o G20 e outros oito grande produtores e consumidores de alimentos.
No âmbito nacional, políticas de fomento agrícola para garantir o abastecimento doméstico figuram como o grande anteparo estrutural ao horizonte de incerteza que forma a nova regularidade do mundo.
A educação alimentar é parte indissociável dessa blindagem. Dados da FAO mostram que a substituição de alimentos é uma das principais respostas dos consumidores pobres à alta de preços. A educação alimentar e nutricional ajuda a manter a qualidade da dieta mesmo em momentos de flutuação da oferta. É papel do Estado democratizar o uso dessa ferramenta na sociedade.
Fortalecer as redes de proteção social, com a implantação e ampliação dos programas de transferências de renda, reafirma-se como outro imperativo incontornável de política pública.
Não se deve desperdiçar a dimensão regeneradora dos mercados, que também requerem políticas públicas para serem universalizadas. Preços altos são um estímulo ao plantio. A quebra na oferta do hemisfério norte incentiva a semeadura que começa agora em setembro em muitas lavouras do hemisfério sul.
Crucial, porém, é estender o alcance desse incentivo à agricultura familiar. 70% da população miserável do planeta vive em zonas rurais dos países em desenvolvimento.
A atenção à agricultura familiar não constitui apenas um requisito para combater a pobreza e prevenir a fome. Sua pertinência estende-se também à busca de respostas para eventos extremos, que vão se repetir com maior frequência e intensidade em função da mudança climática.
E, muitas vezes, sem qualquer anúncio. A seca no corn-belt norte-americano, a pior do último meio século, irrompeu um mês depois que as previsões meteorológicas e as de mercado indicavam uma colheita recorde.
Paradoxalmente, não foi um ponto fora da curva. A falta de água afetou também vários países da Europa do Leste e regiões da Índia. O comportamento anormal das chuvas reduziu a safra russa de trigo na Sibéria.
Desconcentrar a geografia da produção, estimulando os mercados locais de produtos não transáveis, é a melhor forma de prevenir os revezes do clima sobre a oferta. Políticas de desenvolvimento da agricultura familiar compõem, assim, um pedaço cada vez mais importante da resposta à insegurança alimentar em nosso tempo.
José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Cambio - Banco Central defende banda informal
Por Eduardo Campos e José de Castro - Valor 22/08
De São Paulo
Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre a existência de um "piso informal" para a taxa de câmbio, agora não tem mais.
Depois de 35 pregões sem atuar, o Banco Central (BC) veio a mercado na terça-feira para adquirir moeda via "swap cambial reverso" (que equivale à compra de dólar futuro).
O regime oficial de câmbio é o flutuante, mas na prática o que se tem desde o fim de fevereiro é uma espécie de regime de banda administrada. Primeiro, o BC atuou na compra, quando o dólar ameaçava perder o patamar de R$ 1,70. Isso durou até o fim de abril. Pouco depois, em 18 de maio, virou a mão e começou a atuar na venda, já que o dólar ameaçava passar de R$ 2,10.
Além das atuações de fato, BC e governo também manobraram a taxa de câmbio com discursos.
O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, não perdeu uma oportunidade de fala pública para ressaltar a ideia de que o real desvalorizado veio para ficar, pois dá melhor competitividade à indústria.
A atuação verbal mais marcante do BC foi feita pelo seu diretor de política monetária, Aldo Mendes, que no dia 3 de julho disse que o BC poderia voltar a comprar dólares e, fazendo sintonia com Mantega, também afirmou que taxa de câmbio abaixo de R$ 2,0 não seria interessante para a indústria. A fala aconteceu um dia depois de o dólar perder os R$ 2,0, algo que não acontecia desde o fim de maio.
O mercado entendeu o recado e desde as declarações de Mendes não ameaçou os R$ 2,0, não importando o comportamento de outras moedas emergentes, bolsas de valores, crise na Europa ou qualquer outro motivo.
O que se seguiu foi um período sem precedentes de apatia cambial. A volatilidade do mercado caiu para cerca de 5%, contra uma média histórica de 17%. Os volume negociados caíram cerca de 18% no interbancário.
Com a retomada das compras, tudo indica que esse marasmo deve continuar. Apesar do incentivo à venda, o mercado não deve querer testar a vontade do BC e do governo. Além da possibilidade de atuação, cabe lembrar que a venda de dólar no mercado futuro parte "devendo" 1% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Com a melhora de tom nos mercados externos, também não cabe sair comprando moeda.
Por ora, tudo indica que a "banda cambial" com piso em R$ 2,0 e teto em R$ 2,10 seguirá valendo.
Para um gestor, no entanto, ainda não dá para afirmar isso categoricamente. Não é possível saber se o BC está apenas "zerando" os swaps tradicionais (que equivalem à venda de dólar futuro) que vencem em 3 de setembro ou se ele vai, mesmo, segurar os R$ 2,0 a qualquer preço.
"Tipicamente, o BC marca os pontos que vai defender atuando no mercado à vista. E isso ainda não aconteceu", diz.
O gestor avalia que o BC poderia deixar o dólar cair um pouco abaixo de R$ 2,0 antes de retomar as compras. Assim, a sinalização dada seria outra, pois se ele começar a defender e depois "largar a mão", o mercado vem para cima dele na venda.
Mas entre essa estratégia e a realidade a distância é grande. O gestor acredita que a atuação no câmbio é guiada mais por considerações políticas do que práticas.
"O governo parece querer mesmo um câmbio parado. A taxa não sobe para não prejudicar a inflação e o balanço da Petrobras e não cai para não prejudicar a indústria", conclui.
Para o estrategista-chefe do WestLB, Luciano Rostagno, o modesto volume da oferta de swaps reversos sugere que o mercado evita assumir uma posição clara no câmbio.
O BC ofertou 50 mil contratos de swap, ou US$ 2,5 bilhões, mas colocou apenas 7 mil contratos, que equivalem a US$ 350 milhões.
"O movimento do pregão deu uma boa pista disso. O mercado vendeu pouco dólar para o BC, porque ainda existe um receio de alta, mas também tem testado a cotação perto dos R$ 2,0 porque as indicações são de que a situação internacional, principalmente na Europa, está menos preocupante", afirma Rostagno.
Esse "jogo de forças", segundo o profissional, acaba deixando o dólar "travado".
O que pode tirar a cotação do intervalo entre R$ 2,00 e R$ 2,10 é o anúncio, até o fim do ano, de uma terceira rodada de estímulo pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
Por conta disso, o estrategista prevê que o dólar feche o ano a R$ 1,90. Para 2013, a estimativa é que a moeda caia ainda mais, para R$ 1,80. "Mas, no próximo ano, o que vai determinar isso é uma piora da inflação", diz.
Os economistas da Nomura Securities também acreditam que a inflação deve mudar a postura do governo com o câmbio.
Em 2013, o governo pode permitir uma apreciação do real visando evitar puxadas de alta na Selic. Ontem, o dólar chegou a bater em R$ 2,024, mas perdeu força para fechar a R$ 2,018, alta de 0,10%.
Piso para o câmbio
22 de agosto de 2012
3h 08
Celso Ming - O Estado de S.Paulo
O Banco Central voltou ontem a comprar moeda estrangeira no mercado futuro porque as cotações ameaçavam resvalar para abaixo de R$ 2 por dólar.
Aparentemente, a operação não foi o sucesso esperado. Dos 50 mil contratos oferecidos ao mercado, só foram fechados 7 mil e, logo em seguida, os preços do dólar voltaram a cair. Mas o que importa aí não é o vaivém das cotações; é a atitude do Banco Central e suas consequências.
Desde maio deste ano, sempre que a oferta de moeda estrangeira no câmbio interno tende a empurrar as cotações para abaixo dos R$ 2, o Banco Central intervém ou por meio de compras de moeda estrangeira no mercado à vista ou no mercado futuro, como ontem, para impedir nova valorização do real.
O que ontem pela manhã firmara tendência de baixa do câmbio não foi nem sequer uma grande entrada de dólares no País. Foi somente a percepção de que a economia mundial pode ser beneficiada nas próximas semanas com novas injeções de euros nos mercados em consequência de emissões realizadas pelo Banco Central Europeu (BCE). Também se reforçou a aposta de que, apesar dos desmentidos, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) opte por novas recompras de títulos do Tesouro dos Estados Unidos com o objetivo de reativar a economia.
Há 16 dias, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, observou que a principal medida de política cambial tomada pelo governo Dilma para desvalorizar o real (aumentar a cotação do dólar para devolver competitividade à indústria) foi de natureza monetária; foi a derrubada dos juros promovida desde agosto de 2011 pelo Banco Central.
Com isso, Mantega avisou que a política de juros do Banco Central não vem sendo usada apenas para empurrar a inflação para dentro da meta (de 4,5% neste ano), mas, principalmente, para evitar as chamadas operações de arbitragem feitas pelos especuladores que tomam dólares emprestados no mercado internacional, trazem os recursos para o Brasil e aqui ganham com a diferença de juros e, nesse jogo, derrubam as cotações no câmbio.
Se a política de juros fosse suficiente para manter afastados os especuladores e segurar o dólar à altura dos R$ 2, o Banco Central não precisaria intervir. Mas interveio.
E, no entanto, nada de especialmente novo aconteceu ontem nos mercados cambiais que repetisse o tsunami monetário de que a presidente Dilma tanto se queixou há alguns meses.
O que tem de ser levado em conta é que, apesar do desestímulo às operações de arbitragem com juros e da sistemática intervenção do Banco Central, a tendência do câmbio continua sendo de valorização do real (baixa do dólar). Para isso, não é preciso nem sequer que esteja a caminho uma solução definitiva para a crise. Basta que os mercados fiquem mais otimistas em relação à evolução da economia global.
A longo prazo, o Banco Central não pode alterar uma tendência firme do câmbio. Para garantir competitividade ao setor produtivo, a economia brasileira não poderá contar só com redução dos juros e com intervenções do Banco Central. É necessário aprofundar o que a presidente Dilma começou a fazer: derrubar os custos de produção no Brasil.
Negociando com ódio
Por Jagdish Bhagwati - Valor 22/08
O massacre na Noruega em julho de 2011 e o recente ataque a um templo sikh em Oak Creek, Wisconsin, foram obras de extremistas de direita empenhados em refazer o mundo à sua imagem neonazista. Da mesma forma, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 foram obra de extremistas islâmicos que veem outras religiões e culturas como ameaça. Mas seria simplista pensar que os nossos governantes não lançam combustível no fogo do ódio, ainda que seu chauvinismo assuma uma forma mais "civilizada".
Basta perguntar aos japoneses, continuamente denunciados, nos anos 1980, como exportadores perversos. Ou considere o refrão incessante contra a terceirização que hoje demonizou a Índia.
Isso não é novo. O pesado fardo de atrocidades japonesas durante a Segunda Guerra Mundial apagou efetivamente da memória popular americana a Lei de Imigração de 1924 e outras leis federais destinadas a excluir os japoneses e os chineses dos EUA, bem como as leis racistas estaduais, como Lei (coibindo a propriedade) de Terras (a estrangeiros) da Califórnia em 1913. Ao irromper a guerra, os americanos de origem japonesa foram expropriados e levados para campos de concentração. Earl Warren, procurador-geral da Califórnia, defendeu as medidas - o mesmo Earl Warren, que, uma década mais tarde, como presidente da Suprema Corte dos EUA, supervisionou a rejeição da doutrina "separados, mas iguais", base da segregação americana de seus cidadãos negros.
A histeria antijaponesa da década de 1980 caiu em solo fértil. Muita gente, nos EUA, temia que, assim como o século XIX tinha sido britânico e o século XX havia sido americano, o século XXI seria japonês. Mas, ao contrário dos britânicos ou americanos, os japoneses estavam, supostamente, ganhando terreno de forma nefasta, exportando para os EUA de forma agressiva e injusta, e excluindo as exportações americanas de seu mercado interno.
Praticamente toda a política comercial japonesa foi interpretada sob a pior luz possível. A propaganda foi bipartidária nos EUA, e com poucas exceções notáveis foi amplamente divulgada pela imprensa acrítica e pseudopatriótica do país. Recordo-me de Paul Samuelson, um agraciado com o prêmio Nobel - ao lado de John Maynard Keynes, sem dúvida o maior economista de seu tempo - comentando que a propaganda antijaponesa tinha ido tão longe que os críticos do Japão argumentavam que os japoneses curvam-se ao saudar os ocidentais para facilitar cortá-los na altura dos joelhos.
O efeito, sobretudo tendo em conta uma longa história de sentimento antijaponês, foi uma previsível onda de violência racista, inclusive a destruição de carros japoneses. O assassinato (a golpes de bastão de beisebol) de Vincent Chin, um chinês-americano confundido com um japonês, também repercutiu historicamente, ao lembrar um artigo pseudocientífico sobre como distinguir chineses de japoneses, que a revista "Life" publicou em dezembro de 1941.
A situação indiana nos EUA, hoje, é diferente, não há nenhuma bagagem de lembranças desagradáveis nas quais preconceito e violência possam prosperar. No entanto, como um cacto no deserto, o ódio pode prosperar com muito pouco.
Infelizmente, o governo do presidente dos EUA, Barack Obama, tem continuamente martelado o argumento da terceirização para a Índia como causa de perda de empregos americanos. Da mesma forma, o senador Charles Schumer, de Nova York, entregou-se à atividade de desancar o Japão, a China e a Índia - uma prática singularmente exemplar de truculência e ignorância em economia - ao passo que a senadora Barbara Boxer, da Califórnia, atacou sua mais recente adversária eleitoral, Carly Fiorina, por ter eliminado 30 mil postos de trabalho na Hewlett-Packard durante sua gestão da empresa. Na realidade, em um mundo altamente competitivo, a Hewlett-Packard conseguiu salvar 150 mil empregos, ao sacrificar 30 mil.
Na atual campanha eleitoral presidencial, o Partido Democrata está atacando o adversário republicano de Obama, Mitt Romney, pelos mesmos motivos capciosos, e uma mídia complacente avaliza o ataque sistemático dos democratas contra a Índia.
O resultado disso tem sido o de alimentar ressentimentos contra a Índia, que transbordam em violência ocasional. Grupos que se autodenominam "dot-busters" ("dot", em alusão às empresas dotcom, ou pontocom) atacaram mulheres indianas. Quando escrevi a favor de um comércio mais livre e liberdade para a imigração, fui denunciado como sendo um "nigger curry" ("negro" curry [tempero indiano]).
Aliás, o governo Obama "ajudou", nesse aspecto, por atribuir à Índia a culpa pelo fracasso da Rodada Doha de negociações comerciais multilaterais. Fora dos EUA, é bem sabido que o próprio Obama liquidou com Doha. A noção de que "nós estamos abertos e os outros estão fechados", uma crença acalentado pelos políticos e pela mídia americana - um artigo de fé do atual governo americano - também alimenta a noção de que países como a Índia são maus comerciantes internacionais, assim como os japoneses em 1980.
Grande parte do mundo esperava um comportamento mais sofisticado por parte de Obama. Infelizmente, ele baixou o nível muito mais do que o esperado. (Tradução de Sergio Blum)
Jagdish Bhagwati é professor de economia e direito na Columbia University e membro associado em questões de economia internacional do Council on Foreign Relations. Foi copresidente do Grupo de Especialistas de Alto Nível em Comércio Exterior, indicado pelos governos do Reino Unido, Alemanha, Indonésia e Turquia. Copyright: Project Syndicate, 2012.
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terça-feira, 21 de agosto de 2012
A próxima transformação da China
Por Andrew Sheng e Xiao Geng - Valor 21/08
Durante três décadas de condições econômicas favoráveis no mundo, a China criou um sistema de produção integrado e mundial sem precedentes em escala e complexidade. Mas agora seus dirigentes têm de lidar com um triplo desafio: os desdobramentos da crise da dívida europeia, a lenta recuperação nos EUA e uma desaceleração do crescimento chinês. Os três problemas são interligados e erros de quaisquer das partes poderão mergulhar a economia mundial em nova recessão. Para avaliar os riscos e opções à China e ao mundo, precisamos compreender o sistema de produção "Made in the World" chinês, que se apoia em quatro pilares distintos, mas mutuamente dependentes.
O primeiro desses pilares, a "fábrica mundial" baseada na China, foi em larga medida criada por empresas multinacionais estrangeiras e seus fornecedores, e subcontratados com emprego intensivo de mão de obra e de linhas de montagem implementadas por empresas de pequeno e médio porte com acesso direto aos mercados em todo o mundo por meio de uma complexa rede de contratos. Começando modestamente em áreas costeiras e Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), a cadeia de suprimentos da "fábrica do mundo" alastrou-se por toda a China, produzindo de tudo: de animais empalhados a iPads.
A "fábrica do mundo" não teria sido construída sem o segundo pilar: a "rede de infraestrutura chinesa", instalada e operada predominantemente pela integração vertical de empresas estatais nas áreas de logística, energia, estradas, telecomunicações, transporte e portos. Esse pilar baseia-se fortemente em planejamento, investimento fixo em larga escala e controles administrativos, e sua qualidade, escala e eficiência relativas foram estratégicas para a competitividade e produtividade chinesas.
O terceiro pilar é a "cadeia de suprimento financeiro chinesa", que disponibilizou o financiamento para construir e manter a rede de infraestrutura. Essa cadeia de suprimento é caracterizada pela predominância de bancos estatais, poupança interna elevada, mercados financeiros relativamente subdesenvolvidos e uma conta de capital fechada (NT: o governo não permite, pelos seus cidadãos apliquem seu dinheiro no exterior).
O último pilar é a "cadeia de suprimento de serviços governamentais". Os funcionários dos governos locais e central afetam todos os elos da cadeia de produção, de logística e das redes financeiras mediante regulamentos, impostos ou alvarás. A maioria dos observadores estrangeiros não se dão conta da escala e profundidade de inovação institucional e de processos na cadeia de suprimento que conseguiu (na maioria dos casos) proteger os direitos de propriedade, reduzir custos de transações e minimizar riscos, alinhando os serviços governamentais com interesses do mercado. Por exemplo, os governos locais chineses tornaram-se altamente hábeis em atrair o investimento estrangeiro direto (IED), disponibilizando infraestrutura e serviços de apoio que facilitam a expansão de cadeias de produção em âmbito mundial.
Com o início da atual crise mundial, e em vista das mudanças em mídia social, demografia, urbanização e escassez de recursos naturais, os quatro pilares estão agora estressados. As cadeias produtivas estão sofrendo escassez de mão de obra, aumento de salários e ameaças de relocalização em países onde é possível operar a baixo custo. Por outro lado, os investidores mundiais estão questionando a solvência dos governos locais.
Especialistas chineses agora estão debatendo uma questão chave de governança: que nível de arquitetura permitiria ao país adotar as reformas necessárias para atender as pressões mundial e nacional? Os investidores estão preocupados com o desempenho irregular das ações de empresas chinesas, riscos inerentes a regulamentação e surpresas políticas, assim como incertezas decorrentes de maior volatilidade nos preços dos ativos, como preços dos imóveis, taxas de juro e taxa de câmbio. O que torna mais difícil analisar a economia chinesa é a interação cada vez mais complexa dos quatro componentes de seu sistema de produção - entre si e com o restante do mundo.
Primeiro, as condições favoráveis para o crescimento da "fábrica do mundo" começaram a se dissipar. Os custos de produção (mão de obra, recursos naturais, regulamentação e infraestrutura) estão em alta no mercado interno, ao passo que, no Ocidente, estouraram as bolhas de consumo.
Em segundo lugar, o sucesso inicial da "infraestrutura chinesa" baseou-se em terrenos, capital e mão de obra baratos. Mas apesar de sua moderna infraestrutura, os custos logísticos na China representam 18% dos custos de produção - nos EUA são 10% -, devido às ineficiências internas.
Em terceiro lugar, o sucesso do sistema financeiro chinês foi construído com base em financiamento, por bancos estatais, de grandes projetos de infraestrutura e financiamento estrangeiro da produção para exportação por meio de IED e comércio. O sistema financeiro ainda não enfrentou os problemas de inclusão financeira, especialmente o financiamento das pequenas e médias empresas e das áreas rurais, e a exposição a excesso de capacidade em alguns setores.
Por último, os três pilares não teriam se mantido sem a âncora proporcionada pelo quarto. Seu êxito foi baseado em concorrência positiva entre governos locais e diferentes ministérios, aferida por indicadores de desempenho, como PIB e receitas fiscais. Infelizmente, isso gerou problemas de equidade social e sustentabilidade ambiental, o que exige uma complexa coordenação de "silos burocráticos" para superar a resistência de interesses enraizados.
Há um consenso de que o caminho de reformas exige uma reengenharia nos quatro pilares. Primeiro, a cadeia de produção precisa abandonar sua dependência externa e focar no consumo interno. Realinhar a infraestrutura chinesa significa privilegiar qualidade sobre quantidade e reduzir a participação estatal e preços controlados em favor das forças de mercado. A orquestração estatal deveria concentrar-se na luta contra a corrupção, reduzindo os custos das transações e as barreiras a entradas, promovendo a concorrência e eliminando excessos de capacidade.
Para a cadeia de suprimento financeiro, é crucial atacar os riscos sistêmicos e realinhar os incentivos para induzir os investidores a apoiar os motores do crescimento da economia, em vez da criação de bolhas de ativos.
O milagre chinês foi engendrado por inovação institucional e de processos em todos os níveis da cadeia de suprimento de serviços governamentais. A China necessita de outra reengenharia radical para tornar-se uma economia mais equilibrada, socialmente justa e sustentável. Esse processo já começou com outra rodada de experimentações em três novas ZEEs (em Hengqin, Qianhai e Nansha) para comandar o surgimento de uma economia de serviços criativa baseada em conhecimento.
Uma economia assim depende fundamentalmente da qualidade de sua governança. O desafio, para as autoridades, é equilibrar criatividade e inovação institucional com ordem, garantindo a integridade dos quatro pilares de sua economia. (Tradução de Sergio Blum)
Andrew Sheng é presidente do Fung Global Institute, foi presidente da Hong Kong Securities and Futures Commission e é professor adjunto da Universidade de Tsinghua, em Pequim.
Xiao Geng é diretor de pesquisas no Fung Global Institute.
Brasil se afasta de países avançados, diz estudo
Por Sergio Lamucci - Valor 21/08
De São Paulo
O Brasil entrou num processo de desindustrialização precoce e de distanciamento em relação às economias avançadas, sobretudo as que estão hoje na fronteira do desenvolvimento tecnológico, segundo estudo dos economistas André Nassif, do BNDES e da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carmem Feijó, da UFF, da Eliane Araújo, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). A queda da fatia da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB), a elevação do déficit comercial nos setores mais intensivos em tecnologia e o aumento da distância da produtividade do trabalho na indústria brasileira em relação à americana apontam nessa direção, dizem os autores.
Outro problema, de acordo com eles, é que as importações mostram uma "elasticidade-renda" muito maior que a das exportações - ou seja, o aumento de 1% do PIB brasileiro provoca uma alta bem mais forte das importações - de 3,36% entre 1999 e 2010 - do que o efeito do avanço de 1% do PIB global sobre as exportações - de 1,33% no mesmo período. "Isso indica que o Brasil tem restrições externas ao crescimento no longo prazo", diz Nassif. Os autores acreditam, porém, que essa situação ainda é reversível, embora seja preciso agir rápido. É importante haver a coordenação entre políticas de longo prazo - industriais, tecnológicas, de educação e de infraestrutura - com políticas macroeconômicas de curto prazo nos fronts monetário, fiscal e, principalmente, cambial.
Um dos pilares do estudo são as ideias de Nicholas Kaldor (1908-1986), professor da Universidade de Cambridge (Reino Unido), acerca da importância do setor manufatureiro. Por operar em condições de economias de escala, o setor como um todo tem a maior capacidade de disseminar os seus ganhos de produtividade para a economia inteira - daí a preocupação com um eventual processo de desindustrialização precoce. O encolhimento da fatia da indústria de transformação no valor adicionado na economia confirmaria esse processo. Essa participação caiu de 31,3% em 1980 para 17,2% em 2000, atingindo 14,6% em 2011.
Para não se limitar a esse indicador, os autores analisam também a evolução a participação de cada setor de atividade no emprego no Brasil. Entre 2000 e 2009, a fatia da indústria de transformação no total passou de 12% para 12,7%, após atingir 12,8% em 2005 e 2007 - desempenho que não apontaria na direção da desindustrialização.
Outra análise é a do comportamento do emprego da própria indústria manufatureira de acordo com os setores por intensidade tecnológica. Nesse caso, o quadro também não é negativo. Em 2000, os segmentos mais intensivos em ciência, engenharia e conhecimento respondiam por 26,2% do emprego na indústria de transformação, fatia que pulou para 31,2% em 2008 (ano dos últimos dados disponíveis). Nesse período, a participação dos intensivos em trabalho caiu de 40,3% para 33,8%, enquanto a dos intensivos em recursos naturais subiu de 34,2% para 35%. Em suma, aumentou a participação no emprego na indústria de transformação dos segmentos mais intensivos em tecnologia.
No entanto, um critério essencial para diagnosticar a desindustrialização precoce nos países ainda em desenvolvimento é analisar a posição relativa em relação a outras economias, diz Nassif, que ressalta falar em nome pessoal, e não do BNDES. Por esse aspecto, o quadro é preocupante, afirma ele.
Em 2008, a produtividade do trabalho na indústria de transformação brasileira equivalia a pouco menos de 16% da dos EUA, mostrando uma queda significativa nos últimos 40 anos. Nos anos 70, o percentual oscilou entre 36,7% a 41,7%, caindo para a casa de 25% no fim dos anos 80, recuperando-se para a casa dos 30% em 1996 e 1997, para então voltar a recuar nos anos seguintes. O comportamento é parecido em todos os setores por intensidade tecnológica.
"Há também um aumento dramático dos déficits comerciais do grupo de produtos industrializados intensivos em engenharia, ciência e conhecimento a partir de 2006", diz Nassif. "São evidências de desindustrialização precoce."
O estudo estima econometricamente a elasticidade-renda das exportações e importações entre 1980 e 2010, para verificar se há restrições externas à capacidade de crescimento do país no longo prazo. O resultado mostra que, entre 1980 e 1998, o aumento de 1% do PIB brasileiro causava um aumento de 1,97% das importações, número que pulou para 3,36% de 1999 a 2010. No caso das exportações, houve um pequeno recuo. Entre 1980 e 1998, o aumento de 1% da economia global elevava em 1,36% as exportações; entre 1999 e 2010, o número caiu para 1,33%.
"Como o ideal é que a elasticidade-renda das exportações supere, ao longo do tempo, a das importações, esses resultados mostram que o Brasil se defrontará com problemas de balanço de pagamentos para financiar o crescimento de sua economia no longo prazo, caso não haja uma inversão dessa tendência", diz Nassif. "Para isso, no entanto, será necessário fazer um enorme esforço para melhorar o conteúdo tecnológico de nossas exportações." Os elevados preços de commodities evitam hoje esse problema, por garantir superávits comerciais elevados, mas esse quadro pode mudar se as cotações desse bens ficarem num patamar menos favorável do que nos últimos anos.
No estudo, os autores também fizeram exercícios para verificar se a indústria manufatureira do país está ou não sujeita a economias dinâmicas de escala. Se confirmado, isso indica que o setor tem capacidade, ao longo do tempo, de reduzir os seus custos e aumentar a sua competitividade, à medida que acumula inovação, conhecimento e experiência. "Os resultados nesse sentido foram surpreendentemente positivos", diz Nassif.
De acordo com o modelo, entre 1970 e 1989, o aumento de 1% da produção industrial elevava em 0,39% a produtividade do trabalho. Entre 1990 e 2010, houve um aumento do coeficiente, que pulou para 0,52%. "Isso indica que a indústria manufatureira do país ainda opera sujeita a substanciais economias dinâmicas de escala. Em outras palavras, em princípio, ela tem potencial para impulsionar a produtividade do trabalho e, em consequência, o crescimento econômico no longo prazo", escrevem os autores. Nassif diz que o resultado mostra o fôlego da indústria brasileira, como dizia o professor Antônio Barros de Castro, ex-presidente do BNDES, morto no ano passado. Ela resiste mesmo enfrentando problemas sucessivos, como a liberalização comercial relativamente rápida, a inflação alta e a valorização persistente do câmbio.
Para Nassif, porém, é preciso agir rápido para deter o processo de desindustrialização e distanciamento das economias desenvolvidas. "Políticas industriais e tecnológicas são bem-vindas para induzir mudanças estruturais, mas não são suficientes", diz ele, ressaltando ser fundamental a manutenção de um ambiente de juros baixos e câmbio competitivo, com coordenação entre as políticas monetária, fiscal e cambial. É importante, segundo ele, evitar uma nova valorização do câmbio, que hoje se encontra num nível um pouco mais favorável à indústria.
O estudo será apresentado na quinta-feira, no 5 º Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), a ser realizado na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo.
O aumento do investimento
Por Antonio Delfim Netto - Valor 21/08
Gostemos ou não, a organização social ("simplisticamente" chamada de capitalismo) que o homem encontrou no desenrolar de sua história através de uma seleção quase natural é, até agora, a única que permitiu conciliar, numa medida imperfeita, a liberdade de iniciativa dos indivíduos com uma relativa eficiência produtiva. Ela dá resposta aos crescentes desejos de consumo criados pelo aumento constante da própria liberdade.
Trata-se de um movimento que depende basicamente da construção de um Estado forte, constitucionalmente controlado, capaz de assegurar o bom funcionamento de quantos mercados forem necessários para a manifestação da liberdade de iniciativa e assegurar que os benefícios dela decorrentes possam ser apropriados pelos agentes que a promovem. É por isso que a propriedade privada e a segurança jurídica são condições necessárias, mas não suficientes, para que o ciclo se complete continuamente, cada vez num nível produtivo mais elevado.
Nos casos dos países emergentes com contingente demográfico significativo, que pretendem ser repúblicas e democracias, o processo se repete: começam importando os padrões de consumo e a tecnologia dos mais avançados antes de criarem a sua. Diante desse quadro, é evidente que a antinomia Estado versus mercado é imprópria e prejudicial: não há administração estatal eficiente sem utilizar os mecanismos de mercado, e não há mecanismo de mercado que possa funcionar sem as garantias de um Estado suficientemente forte para controlá-lo.
Neste momento, o excesso de pessimismo que se abateu sobre a economia nacional - em parte consequência da mundial, e em parte resultado de entendimento defeituoso do mercado financeiro com relação aos objetivos da política econômica do governo -, parece começar a ceder e dar lugar a uma pequena recuperação da atividade. Nada mais oportuno e importante para acelerá-la do que o amplo programa de cooptação do setor privado anunciado pela presidenta Dilma Rousseff para a ampliação dos investimentos em infraestrutura.
Trata-se de um programa ambicioso, que revela uma nova postura do governo federal: 1) declara definitivamente superada a desconfiança mútua (sempre negada explicitamente) entre ele e o setor privado, mais dinâmico e melhor apetrechado de técnica e recursos; e 2) devolve aos programas do governo uma visão logística estratégica, que incorpora e integra as rodovias com as ferrovias, com os portos e a geração de energia.
A criação da Empresa de Planejamento Logístico (EPL) recupera e amplia o velho Grupo Executivo de Integração da Política de Transporte (Geipot) criado em 1965, transformado em empresa em 1973, extinta pela irresponsável "reforma" do Estado de 1990. A partir daí, destruiu-se a coordenação logística do governo. Lentamente ela foi sendo entregue à sanha dos partidos que apoiam o "presidencialismo de coalizão de plantão".
O resultado foi o caos temperado com uma boa dose de corrupção, como mostra, exemplarmente, o caso da Valec. Um ponto importante é que a EPL será dirigida por um técnico de reconhecida probidade e competência, Bernardo Figueiredo.
Outro aspecto significativo do novo programa foi a autorização para o aumento das dívidas de 17 Estados, cujas condições financeiras e administrativas são adequadas para acelerar suas próprias obras de infraestrutura: mobilidade urbana em suas capitais, estradas, saneamento básico e habitação, importante não apenas para ajudar a estimular o crescimento econômico mas, também, melhorar as condições objetivas de vida de suas populações.
O papel do governo federal é de integrador do território nacional, mas a vida de cada cidadão depende de condições locais, dos Estados e municípios. O montante de endividamento autorizado é razoável: da ordem de R$ 42 bilhões. Depois dos imensos abusos que destruíram a credibilidade de Estados e municípios e foram corrigidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, é saudável a mudança do entendimento (até agora vigente), que todo e qualquer endividamento é um pecado capital.
Entre o programa e o começo da sua efetiva execução será preciso pelo menos 12 meses, se houver a colaboração dos órgãos de controle ambiental e entendimento adequado do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União, sem esquecer o apoio rápido e decisivo do BNDES pelo seu departamento de infraestrutura, hoje dirigido pelo excelente economista Guilherme Lacerda.
Certamente haverá um efeito antecipado sobre o ânimo da sociedade, que começa a ver uma pequena retomada econômica em resposta às medidas fiscais, monetárias e cambiais executadas até agora. A redução da desconfiança mútua entre o setor privado e o governo vai melhorar o ambiente de negócios em todos os setores. O primeiro não quer e não precisa de benesses ou subsídios. Precisa: 1) de condições isonômicas para competir; e 2) de leilões bem projetados, não apenas para atender o presente, mas, principalmente, sustentar investimentos futuros que garantam a melhoria permanente da qualidade dos serviços.
Caiu a ficha! Quando a incerteza sobre o futuro é absoluta, quando o passado não contém informação sobre o futuro, só uma ação decidida e forte do Estado, como a que estamos vendo, pode pôr em marcha o setor privado e a economia. Essa ação, correta e crível, é capaz de antecipar a esperança...
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Estratégia para internacionalização
Por Fabrizio Sardelli Panzini - Valor 20/08
Há duas décadas a atividade de internacionalização de empresas vem ganhando novos contornos, com a entrada de relevantes atores provenientes de nações em desenvolvimento. O maior protagonismo das transnacionais desse grupo de países não ocorre, contudo, de forma homogênea em termos regionais. Ao contrário, é concentrada em poucos países do continente asiático, a saber, Cingapura, Malásia, Coreia do Sul e, principalmente, China (incluindo Hong Kong e Taiwan).
O caso chinês merece especial destaque. O fomento ao investimento das empresas no exterior caracterizou-se pelo forte comando estatal, e muitos defendem que as suas motivações superam razões meramente econômicas. O crescimento das corporações do país é evidente em ao menos duas publicações internacionais: na Lista Forbes das 50 maiores empresas de capital aberto do mundo, em que o país detém 12% das corporações, e na lista Unctad das 100 mais internacionalizadas do mundo em desenvolvimento, onde 40% são chinesas, muitas delas, inclusive, grandes players de setores de alta tecnologia.
As multinacionais brasileiras, por sua vez, cresceram em número e importância na última década, mas, em termos mundiais, mantêm uma participação tímida nesse processo. Prova disso é que, a despeito de o Brasil ser a segunda maior economia do mundo emergente, possui apenas 3% do total das mais importantes transnacionais do grupo, classificadas também pela lista da Unctad. Número pouco significativo e que representa menos da metade das empresas de países como Índia, Rússia, Cingapura ou mesmo da África do Sul.
Em adição, a pesquisa mais ampla conduzida no Brasil sobre as transnacionais do país - de autoria da Sobeet - indicou que quase metade das corporações respondentes exibiu índices de internacionalização inferiores a 10% e que 70% das empresas da amostra possuem índices inferiores a 20%.
Esses números preocupam não somente pelo fato de que as multinacionais brasileiras dependem intensamente do mercado doméstico. Mas, em especial, porque um grande número de estudos conduzidos para países desenvolvidos e em desenvolvimento (inclusive no caso do Brasil) apontou para uma mesma direção: de que a atividade de investimento no exterior está relacionada ao aumento da produtividade das empresas e da mão de obra contratada, à expansão e diversificação das exportações, ao número maior de empregados qualificados, à participação ativa em cadeias globais de produção de alto valor agregado, ao acesso a novas tecnologias e a maior propensão das empresas a inovar.
Governos dos principais países emergentes, como China, Coreia do Sul e Malásia, compreenderam esses benefícios e desenharam estratégias de políticas públicas específicas para internacionalização, marcadas pela coerência com suas políticas industriais. E, em que pese à alta competitividade em mercados maduros, o apoio governamental rendeu notáveis conquistas para essas nações, como a ampliação das exportações e das vendas de partes e peças de bens de maior conteúdo tecnológico, o fortalecimento de suas marcas e produtos no exterior e a absorção de ativos intangíveis que alavancam a competitividade global das empresas e transbordam para a economia de seus países de origem.
É preciso reconhecer que o Brasil também possui instrumentos de facilitação e apoio público ao investimento externo, porém, eles são praticamente restritos aos empréstimos do BNDES e aos aportes do BNDES Participações.
Na verdade, faltam ao país um número maior de ações e a definição de uma estratégia de estímulo ao investimento no exterior, setorial e regional, e coordenada entre os órgãos públicos. Os exemplos de políticas públicas aplicadas por países de sucesso nessa empreitada são vastos e podem ser replicados pelo Brasil em ao menos três frentes principais de trabalho: 1- a mitigação dos riscos políticos, 2- o apoio informacional e 3- as políticas tributárias específicas.
Na primeira categoria, enquadram-se a criação de serviços de seguro de crédito contra riscos políticos e a celebração de acordos de proteção dos investimentos, em especial para aqueles direcionados a países da América Latina e do continente africano. No segundo caso, modificações e atuação conjunta entre áreas distintas do setor público (Embaixadas e Centros de Negócios da Apex-Brasil, que poderia contar com multidisciplinaridade de analistas) seriam capazes de oferecer às transnacionais brasileiras informações estratégicas sobre o país de destino do investimento, em temas como o ambiente regulatório setorial. Na última frente de trabalho, a flexibilização da posição do país em negociações de acordos para evitar a bitributação e a criação de um programa de deduções fiscais, a depender da motivação do investimento, além de impulsionar a atividade das multinacionais constituiria ferramenta auxiliar para gerar desenvolvimento à economia do Brasil.
Cabe lembrar que um dos pilares fundamentais de experiências bem-sucedidas, ao redor do mundo, de apoio governamental à internacionalização foi a adoção de critérios de cobrança de desempenho das empresas. No caso brasileiro, defende-se que a definição da estratégia de promoção ao Investimento Externo Direto (IED) - especialmente quando envolver crédito público e renúncias fiscais - deve contar com metas e prever o aumento da competitividade das empresas (com a incorporação de tecnologia e inovações gerenciais) e a expansão das exportações manufatureiras como contrapartidas.
Para encerrar, a decisão de lançar mão de financiamentos públicos e renúncias fiscais demanda que o governo esteja ciente dos benefícios da atividade à economia do país. O mais importante é o conteúdo e a coordenação dessas políticas, para que não seja uma internacionalização apenas pela internacionalização, mas que esteja inserida no contexto de desenvolvimento produtivo do país.
Fabrizio Sardelli Panzini é mestre em economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).
'É um kit felicidade', diz Eike Batista sobre pacote de concessões
FSP
O empresário Eike Batista chamou nesta quarta-feira (15) de "kit felicidade" o pacote de concessões para ampliar os investimentos em rodovias e ferrovias que está sendo lançado pelo governo federal. Na avaliação do empresário, a iniciativa é "corajosa" e vai reduzir o deficit em infraestrutura do país.
"Nos últimos 20 anos, a gente investiu muito pouco em relação ao PIB [produto interno bruto] em infraestrutura. Eu ouso dizer que tem uma carência aí de U$ 300 bilhões. Esse mega-pacote aí é um espetáculo pro Brasil", disse Eike antes do início da cerimônia de anúncio no Palácio do Planalto.
Concessões mais recentes gastaram só 10% do prometido para estradas
Governo anuncia concessões de rodovias e ferrovias que somam R$ 133 bi
Ministro diz que pacote do governo é como 'colesterol bom'
Dilma diz que pacote de concessões é para saldar dívida de décadas
Governo aposta em redução do custo da energia para elevar PIB
Na avaliação do empresário, o projeto de concessões vai atrair investimentos estrangeiros para o Brasil. "Vai muito. Eu acabei de vir da Ásia, as pessoas veem o tamanho do Brasil e nunca entendem como o Brasil não tem investimentos, como o Brasil nunca chamou capital estrangeiro para participar de concessões mesmo", disse.
O empresário afirmou ainda que o país está com sorte porque hoje há "excesso de recursos no mundo". "Me dê um projeto num país grande, com recursos, que eu vou. Então é aquele negócio do timing. O Brasil está com sorte. Esse governo tem sorte no timing, no sentido que tem excesso de recursos no mundo", afirmou.
Eike Batista também aproveitou o anúncio para elogiar a iniciativa da presidente Dilma Rousseff, que segundo ele, tem um conhecimento "profundo" do Brasil. "Essa coragem [da presidente] vem do conhecimento. Feliz de nós brasileiros que temos uma presidenta que tem essa visão de engenheira, porque ela trabalhou muito tempo no setor de energia. Então ela conhece profundamente o custo, a matriz de custo do setor energético. Então é essa felicidade nossa", disse.
Para o empresário, o investimento em infraestrutura no país é o que está faltando para alavancar o crescimento da economia brasileira. "É hora da infraestrutura. É hora de nós ficarmos mais eficientes. A palavra mágica aqui é eficiência", disse.
De onde vem os recursos?
A propósito de "Dilma", ela não tem de onde tirar recursos para suprir o caixa que vai beneficiar (diga-se "bancar") investimentos privados. Ela está sofrendo grandes pressões desses grupos. Aí, botaram um mapa sobre a mesa e apontaram: "aqui !! é daqui que vamos conseguir mais dinheiro"; e ali, estava exatamente o reajuste salarial do servidor público federal, que "já ganha muito bem". Estão tentando fazer o que FHC fez. Só que não contavam com essa reação em uníssono de toda a categoria. Vamos ver !!!
Orlando Amado
Privatização e câmbio na via para a felicidade
Por Sergio Leo - Valor 20/08
É assunto para os palanques eleitorais a polêmica vocabular em que se engajaram governo e oposição, com o anúncio das novas medidas desestatizantes da presidente Dilma Rousseff: para os governistas, não é privatização, já que não houve alienação de patrimônio público, e sim concessões de uso; para os oposicionistas, o nome da coisa é, sim, privatização, a mesma combatida com ânimo fundamentalista por boa parte dos partidos hoje no poder.
A disputa é mais que curiosa, é filosófica. Faz parte de novidades econômicas que parecem confirmar a máxima do grego Aristóteles, em sua "Ética": "A virtude está no meio".
Os novos rumos da economia, das relações internacionais e da política desmoralizaram as certezas e implodiram fronteiras, provocando uma curiosa migração de posições no debate econômico brasileiro. Não é só a esquerda que se dobra às conveniências de trazer o setor privado para atividades que antes considerava exclusivas do Estado; a direita parece conformar-se, pouco a pouco, com a intervenção estatal onde antes só via espaço para a mão invisível das forças do mercado. O que antes era tabu, para um lado ou para o outro das maçonarias econômicas, agora é remédio. Como na política cambial, por exemplo.
Um dos principais argumentos dos defensores do câmbio flutuante, no qual as cotações da moeda estrangeira oscilariam no ritmo dos fluxos do mercado, era a conveniência de liberar o Banco Central da tarefa de comprar e vender dólares para sustentar o câmbio fixo. Essa intervenção da autoridade monetária no mercado de câmbio "suja" a política monetária, porque tem, é claro, repercussões sobre a oferta de dinheiro na economia, com efeitos sobre os preços - e, portanto, na inflação. Nos últimos meses, o BC se jogou vigorosamente no mercado para trazer o dólar próximo a R$ 2. Houve resmungos, mas nenhuma condenação taxativa contra a mão pesada do governo.
"O mundo mudou, nenhum de nossos principais parceiros comerciais têm câmbio flutuante", constatou, recentemente, em conversa informal, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, Emílio Garófalo, atualmente secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), que reúne ministérios ligados à política comercial.
Garófalo já administrou o câmbio fixo no Banco Central, já foi advogado convicto do câmbio flutuante; hoje defende que, ao mudarem as circunstâncias, é irracional aferrar-se a políticas rígidas, por razões doutrinárias. Que se intervenha no câmbio, pois.
China, Argentina, EUA, nenhum deles deixa sua moeda flutuar ao sabor do mercado. O ministro de Finanças do Japão, Jun Azumi, garantiu que vai intervir para evitar uma queda pronunciada do iene, assim como as autoridades europeias garantem estar comprometidas a fazer o que puderem para que o euro não se enfraqueça.
O Brasil não poderia ser o único a boiar nessa história. "Os empresários, para planejarem seus investimentos cobram que o câmbio tenha um certo controle, como, aliás, se faz em todo mundo, hoje", nota Garófalo.
É por pragmatismo que ortodoxos e heterodoxos vêm convergindo na aplicação de certas receitas na economia. É também por pragmatismo, nesse caso apoiado em interesses sonantes, que o chamado mercado, mesmo quando deixa escapar algumas críticas, vem recebendo com tranquilidade contemplativa as medidas do Banco Central.
A ação do governo após a crise de 2008, esvaziando o mercado de derivativos de câmbio, tirou do cenário aqueles "analistas" que criticavam a ação do Estado, não por ideologia, mas para defender o dinheiro de suas apostas no mercado. Sem posições a defender, ficou mais fácil aceitar o forte ajuste das cotações do real, realizado neste ano.
Resta o carnaval do debate político, onde as fantasias são mais importantes que a identidade real do folião. O pragmático Luiz Inácio Lula da Silva já havia batido o martelo da privatização: passou nos cobres os bancos estaduais do Ceará e do Maranhão, que haviam sido federalizados; leiloou concessões de transmissão; decretou a desestatização do trem-bala e de trechos de estrada; fez decolar os processos de privatização de aeroportos. Tudo, como antes, vislumbrando, claro, a mão amiga do BNDES e de estatais. Mas nunca antes nesse país, um governo do PT havia saudado com tanto entusiasmo um pacote desestatizador.
Ao anunciar, animada, o pacotão de concessões de rodovias e ferrovias, a presidente Dilma Rousseff entrou na guerrilha semântica e repudiou o uso da palavra privatização para as medidas de atração do setor privado ao financiamento da infraestrutura. O líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (PT-BA), o senador Jorge Viana (PT-AC) e outros petistas ilustres desdenharam do manifesto de apoio a Dilma publicado como provocação pelo PSDB, o que levou a economista Elena Landau, diva das privatizações tucanas, a ironizar no Twitter: "É a primeira vez que vejo um governo reclamar do apoio da oposição".
Há diferenças, de fato, nos modelos de privatização dos governos pré-Lula e no atual; assim como o controle de câmbio, aceito relutantemente no Brasil, não é o câmbio fixo do passado. Mas o notável deslocamento de política econômica não deve ser visto como vitória de um ou de outro partido. O que se desloca, com solavancos tectônicos, é a economia mundial, e é confortador assistir à acomodação das posições políticas, no Brasil, a esse movimento.
Basta olhar para o Hemisfério Norte, onde as principais forças políticas da maior potência do planeta amarram-se e amarram o país a plataformas cada vez mais radicalizadas, para ver que a miopia dos políticos pode levar progressivamente ao precipício até as nações mais sofisticadas. Os fins, como ensinava o velho Aristóteles, não justificam os meios, e o caminho da felicidade passa pela razão, não pelo beco das paixões políticas.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
BCs compram volume recorde de ouro no trimestre
Por De São Paulo - Valor 17/08
A demanda global por ouro no segundo trimestre do ano somou 990 toneladas, uma queda de 7% sobre igual período do ano passado e 10% menos do que o registrado nos três primeiros meses de 2012. Mas a fraca procura do setor de joias e de tecnologia foi compensada pele firme demanda dos bancos centrais.
Segundo a World Gold Council (WGC), que compila os dados, as reservas do setor oficial, que inclui BCs e outros agentes oficiais, subiram em 157,5 toneladas, a maior compra trimestral desde o segundo trimestre de 2009, quando o grupo passou a ser comprador líquido de ouro. O segmento representou 16% da demanda do trimestre.
O montante comprado no período representa mais que o dobro das 66,2 toneladas adquiridas pelos BCs entre abril e junho de 2011. E durante o primeiro semestre, a reserva de ouro nos BCs cresceu em 254,2 toneladas, ante 203,2 toneladas nos seis primeiros meses de 2011.
De acordo com a organização, a compra continuou concentrada entre os bancos centrais de países em desenvolvimento e reflete a necessidade de diversificação de reservas.
"Isso nos sugere que suas reservas de ouro terão de continuar aumentando para manter uma alocação proporcional à acumulação de reservas via compra de moedas estrangeiras", diz a World Gold Council.
A China e a Índia continuam dominando o mercado consumidor, respondendo por 45% do total de joias, moedas e barras de ouro. "Assim sendo, a demanda global é fortemente influenciada pelos movimentos nesses dois países", diz o relatório.
Na Índia, a queda de demanda para joias e investimentos foi de 38% no trimestre, para 181,3 toneladas. A organização aponta que a demanda foi barrada pelo preço recorde do metal no mercado local, reflexo de uma forte desvalorização da rúpia. Na China, o menor ritmo de crescimento e preços sem tendência explicam a queda de 7,4%, para 145 toneladas na demanda por ouro.
A procura do metal como investimento, que considera barras, moedas, fundos de investimento (ETFs) e outros produtos similares, recuou 23% no segundo trimestre para 302 toneladas.
Mas tirando a China e a Índia da conta, a demanda por ouro como investimento pelos consumidores de varejo cresceu 16% no trimestre para 195 toneladas.
"Os investidores europeus responderam por boa parte desse crescimento, conforme a crise na zona do euro reforça o papel do ouro como reserva de capital e como um investimento seguro", diz o relatório.
A demanda europeia por barras de ouro e moedas subiu 15% no trimestre, somando 77,6 toneladas. A Alemanha foi destaque, com aumento de 51% na procura pelo metal, para 11,6 toneladas. (EC)
Para enfrentar os grandes bancos
Por Frank Schäffler e Norbert F. Tofall - Valor 17/08
A decisão do G-20, em novembro de 2008, de não deixar nenhum banco sistemicamente relevante falir pode ter parecido sensata naquele momento, dada a ameaça de um colapso financeiro mundial. Mas essa decisão, e más políticas de bancos centrais e de governos, a partir de então, têm dado aos principais bancos mais endividados o poder de chantagear aqueles que os estão socorrendo - um poder que eles têm usado para criar um sistema financeiro em que são, na prática, isentos de responsabilidades.
A capacidade de os grandes bancos ameaçarem com esse tipo de esquema resulta de uma ameaça implícita: o setor financeiro - e com ele o sistema de pagamentos da economia - entraria em colapso se um banco sistemicamente importante viesse a ser levado à insolvência. Mas é hora de bater de frente com os banqueiros: a manutenção do sistema de pagamentos pode e deve ser separada do problema da insolvência bancária.
Acima de tudo, a decisão do G-20 de dar sustentação a bancos sistemicamente relevantes deve ser revista. E os governos deveriam reagir às ameaças dos bancos, declarando sua disposição de deixar os bancos insolventes serem tratados nesses termos. Uma economia de mercado deve repousar sobre o princípio econômico de lucros e prejuízos. Uma economia sem falências e respeito a contratos igualmente aplicável a todos não é uma economia de mercado. A legislação válida para todas as outras empresas deve aplicar-se também aos bancos.
Além disso, os governos deveriam garantir os empréstimos de bancos insolventes a empresas não financeiras, bem como os depósitos privados em conta corrente, a prazo fixo e de poupança, reformulando a legislação de falência. Sem dúvida, os governos não deveriam garantir passivos interbancários que não afetem os depósitos de clientes. Um gestor de massa falida administraria o banco e garantiria que todos os pagamentos dos quais o Estado é fiador sejam cumpridos corretamente e que o refinanciamento desses pagamentos continuem a ocorrer por intermédio de bancos centrais.
Após a tomada dessas medidas, o sistema de pagamentos resultaria seguro. Em caso de insolvência, os computadores de um banco não seriam desligados, seus empregados não ser imediatamente demitidos e as operações de pagamento não entrariam em colapso. Também não ocorreria uma corrida aos depósitos de poupança, tendo em vista as garantias oficiais de que eles não serão afetados pela insolvência de um banco. Afinal, até mesmo uma simples cédula de dinheiro tem valor apenas porque o governo diz que assim é, e, portanto, não difere de depósitos de poupança, o que significa que nenhum poupador goza de alguma vantagem em manter dinheiro em seu poder. Assim, não haveria necessidade de corrida a bancos.
Evidentemente, a restrição deliberada dos efeitos de falências a contas que não sejam poupança corrente privada e depósitos a prazo fixo significa que a insolvência de um banco A poderia provocar a insolvência de um banco B. Para o banco B, também, seria aplicável o mesmo cenário de liquidação: os depósitos de poupança seriam garantidos, os pagamentos poderiam ser feitos com recursos das contas correntes de seus clientes e os empréstimos concedidos por empresas não financeiras não seriam revogados.
Obviamente, o efeito dominó não precisa parar nesse ponto: as insolvências dos bancos A e B poderiam colocar um banco C - e outros bancos - em apuros. Na verdade, todo o subsistema superendividado de reserva fracionária poderá ter de ser liquidado. Mas o sistema de pagamento sobreviveria.
Isso poderia também desencadear um efeito dominó positivo, à medida que outros países--em razão da integração financeira internacional - viessem a adotar procedimentos semelhantes para a liquidação controlada de seus próprios bancos insolventes. Ativos zumbis seriam destruídos. Uma grande parte do dinheiro e do crédito criado do nada, com base em operações interbancárias anteriores, agora excluídos das garantias oficiais, voltariam ao pó. Depois, os bancos liquidados e antes superendividados poderiam ser vendidos.
Temos condições de eliminar o endividamento em rápido crescimento do sistema financeiro e de criar uma nova ordem monetária que corresponda aos princípios da livre iniciativa e do Estado de Direito sem criar o risco de um colapso de todo o sistema de pagamentos. Para isso, basta restabelecer uma regulamentação bancária eficaz - na Europa e em outros países - e a vontade de resistir a chantagens dos próprios bancos. (Tradução de Sergio Blum)
Frank Schäffler, membro do Bundestag, o Parlamento alemão pelo Partido Liberal Partido Democratas Livres, tem assento em sua Comissão de Finanças
Norbert F. Tofall é membro da Sociedade Friedrich von Hayek. Copyright: Project Syndicate, 2012.
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quinta-feira, 16 de agosto de 2012
TV on line
O preço da carne de frango aumentou. O motivo é a alta da soja e do milho, que compõem a ração dos animais.
Por conta da forte estiagem nos Estados Unidos, o Brasil exporta os grãos mais caros, e isso impacta no preço de vários produtos.
Em comentário ao Bom Dia Brasil, Miriam Leitão falou sobre o assunto.
SONORA:
MIRIAM LEITÃO, Comentarista de economia.
TV: TV GLOBO DF
PROGRAMA: BOM DIA BRASIL
APRESENTADOR: CHICO PINHEIRO
O Governo Federal anunciou um programa de Concessões para Rodovias e Ferrovias. O objetivo é melhorar a deficiente infraestrutura brasileira, reduzir custos e injetar ânimo na economia nacional.
Em entrevista ao Jornal das Dez, o presidente da Empresa de Logística, Bernardo Figueiredo, falou sobre o programa de Concessões para Rodovias e Ferrovias.
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: EDIÇÃO DAS DEZ
APRESENTADOR: MARIANA GODOY
Adeus aos milagres de crescimento
Por Dani Rodrik - Valor 16/08
Um ano atrás, os analistas econômicos estavam atordoados de otimismo sobre as perspectivas de crescimento econômico no mundo em desenvolvimento. Em contraste frente aos EUA e a Europa, onde as perspectivas de crescimento pareciam fracas, na melhor das hipóteses, esperava-se que os mercados emergentes sustentassem seu forte desempenho iniciado na década anterior à crise financeira mundial e, assim, se tornassem o motor da economia mundial.
Os economistas do Citigroup, por exemplo, ousadamente concluíram que as circunstâncias nunca tinham sido tão favoráveis a um crescimento amplo e sustentado em todo o mundo, e projetaram uma crescente e rápida produção mundial até 2050, puxada pelos países em desenvolvimento na Ásia e na África. A PwC, firma de contabilidade e consultoria previu que o crescimento do PIB per capita na China, na Índia e na Nigéria ultrapassaria 4,5% até meados do século. A empresa de consultoria McKinsey & Company batizou a África, há muito tempo sinônimo de fracasso econômico, de terra dos "leões em movimento".
Hoje, essa conversa foi substituída pela preocupação com o que "The Economist" chama de "a grande desaceleração". Recentes dados econômicos sobre a China, a Índia, o Brasil e a Turquia apontam para um desempenho mais fraco do crescimento nesses países nos últimos anos. O otimismo deu lugar à dúvida.
Evidentemente, assim como foi inadequado extrapolar a partir da década anterior de forte crescimento, não deveríamos tirar grandes conclusões a partir de flutuações de curto prazo. Apesar disso, existem fortes razões para acreditar que o crescimento rápido será exceção, e não regra, nas próximas décadas.
Para ver o porquê disso, precisamos entender como são produzidos "milagres de crescimento". Com exceção de um punhado de pequenos países que se beneficiaram de uma abundância de recursos naturais, todas as economias bem-sucedidas nas últimas seis décadas devem seu crescimento à industrialização rápida. Se há uma coisa com a qual todos concordam sobre a receita do Leste Asiático é que o Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan e, é claro, a China, foram, todos, excepcionalmente bons em transferir sua mão de obra rural (ou de atividades informais) para a indústria de transformação organizada. Casos anteriores de êxito em tirar países de atraso econômico, como os EUA ou a Alemanha, não foram diferentes.
O setor de manufatura permite rápido avanço porque é relativamente fácil copiar e implementar tecnologias de produção estrangeiras, mesmo em países pobres que sofrem de diversas carências. É notável, como revelam minhas pesquisas, que as indústrias de transformação tendem a estreitar a distância em relação à fronteira tecnológica à taxa de cerca de 3% ao ano, independentemente de políticas econômicas, instituições ou fatores geográficos. Em consequência, os países capazes de transformar agricultores em operários colhem um enorme benefício em termos de crescimento.
Sem dúvida, algumas atividades de serviços modernas são também capazes de produzir convergência de produtividade. Mas a maioria desses serviços requer uma grande variedade de habilidades e capacitação institucional que as economias em desenvolvimento acumulam apenas gradualmente. Um país pobre pode competir facilmente com a Suécia em um amplo leque de manufaturas, mas são necessárias muitas décadas, se não séculos, para desenvolver instituições como as suecas.
Consideremos a Índia, que demonstra as limitações de apoiar-se em serviços, em vez de basear-se na indústria, durante os primeiros estágios de desenvolvimento. O país tem desenvolvido uma capacitação notável em serviços de TI, mas a maioria da força de trabalho indiana não tem as habilidades e a educação para ser absorvida nesses setores. No leste asiático, o trabalhador não qualificado foi trabalhar em fábricas urbanas, ganhando muito mais do que ganhavam no campo. Na Índia, eles permanecem na terra ou transferem-se para serviços triviais onde a produtividade não é muito maior.
Desenvolvimento bem-sucedido em longo prazo, portanto, requer esforço em duas frentes. Isso requer um esforço de industrialização, acompanhado pelo acúmulo incessante de capital humano e de capacitação institucional para manter um crescimento centrado em serviços, depois que a industrialização atinge seus limites.
Mas essa receita testada pelo tempo tornou-se muito menos eficaz, nos dias de hoje, devido às mudanças nas tecnologias de manufatura e no contexto mundial. Primeiro, os avanços tecnológicos tornaram a indústria de transformação muito mais intensiva em habilidades e capital do que no passado, mesmo na região de baixa qualidade do espectro. Em consequência, a capacidade da indústria de absorver mão de obra tornou-se bem mais limitada. Será impossível, para a próxima geração de países industrializados, deslocar 25% ou mais de sua força de trabalho para atividades de manufatura, como fizeram as economias do Leste Asiático.
Em segundo lugar, a globalização, em geral, e a ascensão da China, em particular, acirraram muito a competição nos mercados mundiais, tornando difícil, para os recém-chegados, abrir espaço para si mesmos. Embora a mão de obra chinesa esteja encarecendo, a China continua a ser um competidor formidável para qualquer país que esteja tentando concorrer no setor de manufatura.
Além disso, é improvável que os países ricos sejam tão permissivos diante de políticas de industrialização como no passado. Os formuladores de políticas no núcleo industrial fecharam os olhos para o fato de países de crescimento rápido no Leste Asiático adquirirem tecnologias e capacitação industrial ocidental por meio de políticas não ortodoxas.
Agora, porém, quando os países ricos estão em dificuldades, eles aplicarão maior pressão sobre os países em desenvolvimento para que cumpram as regras da Organização Mundial do Comércio. A manutenção de moedas em patamares desvalorizados não passará despercebida. Politicamente, será difícil resistir à adoção de protecionismo, mesmo que de forma não ostensiva,.
A indústria de transformação continuará sendo a "escada rolante industrial" dos países pobres, mas ela não funcionará tão rapidamente nem irá tão alto. O crescimento terá de se basear em grau bem maior na melhoria sustentada do capital humano, das instituições e de governança. E isso significa que o crescimento continuará a ser lento e difícil, na melhor das hipóteses. (Tradução de Sergio Blum)
Dani Rodrik professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy. Copyright: Project Syndicate, 2012.
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Visão de Keynes sobre probabilidade
Por John Kay - Valor 15/08
Em semanas recentes, descrevi como as pessoas consideram riscos. Elas usam abordagens muito diferentes daquelas incorporadas nos modelos de finanças quantitativas e teorias da decisão. Elas são influenciadas pelo que é saliente, e não pelo que é provável. Eventos que são excepcionalmente improváveis - ganhar um grande prêmio de loteria ou o rapto de uma criança por um pedófilo - influenciam o pensamento das pessoas em grau desproporcional porque chamam a atenção. Poucas pessoas pensam sobre incerteza em termos de distribuições estatísticas e são capazes de atribuir probabilidades cuja soma seja 100% a um conjunto bem definido de resultados díspares. Em vez disso, as pessoas contam histórias sobre o futuro.
Fazemos essas coisas não por que somos irracionais, em qualquer sentido comum da palavra, ou porque sejamos matematicamente analfabetos, apesar de muitas pessoas que tomam decisões, grandes e pequenas, sejam de fato irracionais e ignorantes sobre matemática básica. Nós fazemos essas coisas porque é impossível lidar com um mundo complexo e o grande volume de informações sobre ele com que nos defrontamos sob outros ângulos.
Todo mundo conhece as idéias de John Maynard Keynes sobre política macroeconômica, porém muito menos gente sabe de suas contribuições à teoria da probabilidade. Esse foi o tema de sua dissertação para admissão ao King's College, em Cambridge, antes da Primeira Guerra Mundial. Keynes obteve o cargo e rapidamente estabeleceu-se como uma figura pública. Após ele ter abandonado enojado a Conferência de Versalhes que, temporariamente, levou a guerra a um fim, ele converteu essa experiência num livro. Seu biógrafo, Robert Skidelsky, acredita que para compreender a abordagem de Keynes à teoria da probabilidade é fundamental compreender grande parte do restante de seu trabalho - e eu acho que ele está certo.
Keynes acreditava que o ambiente financeiro e de negócios é caracterizado por "radical incerteza". A única resposta razoável para a pergunta "qual será a taxa de juros daqui a 20 anos?" é "simplesmente não sabemos". E esse foi um comentário premonitório: 20 anos após a publicação de "Um Tratado sobre Probabilidades" por Keynes nos levam a 1941, quando o Reino Unido lutava pela manutenção de sua existência num momento crucial da Segunda Guerra Mundial. Keynes tinha visto o futuro mais claramente do que a maioria, mas quando se tratava de como eventos específicos se desdobrariam, ele simplesmente não sabia. Como todo mundo.
Para Keynes, probabilidade tinha a ver com credibilidade, e não frequência. Ele negou que nosso pensamento pudesse ser descrito por uma distribuição de probabilidades associada a todos os possíveis eventos futuros, uma distribuição estatística que poderia ser desvendada por meio de análises astutas - ou descoberta apresentando um menu de apostas alternativas. Na década de 1920 ele se envolveu em uma batalha intelectual sobre essa questão, em que os protagonistas principais, de um lado, eram Keynes e o economista Frank Knight, de Chicago, contra Frank Ramsey, um filósofo de Cambridge, e posteriormente Jimmie Savage, também de Chicago.
Keynes e Knight perderam esse debate, e Ramsey e Savage venceram, e a abordagem probabilística manteve sua primazia acadêmica a partir de então. A principal razão foi a comprovação, por Ramsey, de que qualquer pessoa que não siga seus preceitos - qualquer pessoa que não aja com base em uma avaliação subjetiva de probabilidades de eventos futuros - sairia sempre perdedor, ficaria "Dutch booked".
Alguns acadêmicos holandeses buscaram, infrutiferamente, rastrear as origens desse termo ofensivo. Um "Dutch book" ("livro holandês") é um conjunto de opções tal que uma seleção aparentemente atraente entre elas faz com que a pessoa que as seleciona perca dinheiro na certa.
Eu costumava dizer aos alunos que me indagavam sobre a premissa de comportamento "racional" nos mercados financeiros - onde médias racionais são baseadas em probabilidades bayesianas subjetivas - que pessoas tinham que se comportar dessa maneira por que, se não o fizessem, pessoas iriam bolar esquemas capazes de ganhar dinheiro à sua custa. Eu hoje acredito que a observação é correta, mas não implica o corolário que eu pretendia. As pessoas não se comportam de acordo com essa teoria, e a consequência é que outros, nos mercados financeiros, de fato criam mecanismos com os quais ganham dinheiro a custa das pessoas.
Na realidade, é nisso que se baseia uma proporção lamentável da atividade no mercado financeiro. O maior e mais famoso "livro holandês" seria o conjunto de engenhosos produtos estruturados que o RBS adquiriu ao comprar o ABN Amro, banco com sede em Amsterdã. Nós sabemos o que aconteceu depois. (Tradução de Sergio Blum)
John Kay é professor visitante na London School of Economics. Publicou diversos livros, entre eles "Obliquity: Why our goals are best achieved indirectly" (obliquidade: por que a melhor maneira de alcançar nossos objetivos é indiretamente),
China está derrubando o preço do minério de ferro
Valor 15/08
O aprofundamento da crise global e a redução do ritmo de crescimento da China está derrubando o preço do minério de ferro, que ontem bateu em US$ 114,00 no spot chinês, o nível mais baixo desde o fim de 2009. Para especialistas do setor de mineração isto pode ser "o fundo do poço", mas ficam em duvida devido as incertezas atuais que cercam este mercado.
Em 15 dias, o preço da commodity, que era de US$ 121,50, tem registrado quedas da ordem de 6,17%. O mercado de minério tem sido pressionado por aumento da oferta do produto australiano na Ásia, principalmente na China, e pelo redirecionamento de minério de outros mercados para aquele país, por conta da crise. De janeiro a julho, a demanda chinesa cresceu 2%, num ritmo mais lento porque o país está crescendo menos e isso influi na formação dos preços da commodity definidos no mercado livre chinês.
Ontem, durante evento no Rio, Roberto Castello Branco, diretor de Relações com Investidores da Vale, comentou a situação da economia chinesa que, na sua avaliação, dificilmente retomará os patamares de crescimento de 10% registrados nos últimos anos. "Não sou pessimista, sou mais realista. Para a China, segunda maior economia do mundo, crescer a 7% ou 8% vai ser muito bom também. Mas não deve chegar a 10%", previu, fazendo um alerta: "os anos dourados desse país acabaram".
Segundo Castello Branco, a China demonstra hoje ter virado uma economia madura. "Pode até eventualmente, em um ano de recuperação, chegar a isso [10% de crescimento], mas a tendência é mais baixa", completou. "Ser realista na vida é bom, pois ao ser 'superotimista' você se arrisca a perder", declarou o executivo. "A economia mundial só tinha vento de popa, criamos as bases de uma companhia global, e agora temos que nos adaptar aos novos tempos", salientou.
O executivo constatou, em sua palestra, que a Vale tem perdido espaço no mercado de minério de ferro para empresas australianas, mas pretende manter sua liderança global com projetos previstos para 2016, principalmente a mina de Serra Sul de Carajás, no Pará, que vai colocar mais 90 milhões de toneladas de minério de ferro no mercado mundial, nos próximos cinco anos.
A empresa brasileira permanece como a maior produtora mundial de minério de ferro, mas nos últimos quatro anos tem perdido participação para as australianas Rio Tinto, segunda maior produtora mundial, e para a BHP Billiton, que está em terceiro no ranking de produção.
"Somos os maiores produtores mundiais de minério de ferro, perdemos participação, mas em produção e venda, continuamos na liderança. Estamos produzindo a um ritmo de 300 milhões de toneladas por ano, enquanto a Rio Tinto, segunda maior, tem produzido 190 milhões. Há uma diferença grande que pretendemos ampliar".
A estratégia para retomar a fatia de mercado perdida é focar investimentos futuros em Carajás, e Serra Sul ajudará a Vale a enfrentar o cenário adverso de desaceleração da China, um de seus principais importadores. "Temos muitas reservas para lidar com os desafios", disse Castello Branco.
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