segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A excepcionalidade europeia



Por Jean-Claude Trichet - Valor 17/09

A criação da união monetária e econômica da Europa é única na história dos Estados soberanos. A região do euro formou uma "sociedade de Estados" de um tipo totamente novo, que transcende o conceito tradicional de soberania de Vestfália.

Como indivíduos em uma sociedade, os países da região do euro são tanto independentes como interdependentes. Eles podem afetar uns aos outros tanto de forma positiva como negativa. A boa governança requer que cada país-membro e as instituições da União Europeia (UE) cumpram suas responsabilidades. Acima de tudo, união monetária e econômica significa exatamente isso: duas uniões, uma monetária e outra econômica.

A união monetária europeia funcionou notavelmente bem. Desde o lançamento do euro em 1999, manteve-se estabilidade de preços em 17 países com 332 milhões de pessoas, cuja inflação anual média foi de apenas 2,03% - melhor do que o histórico da Alemanha de 1955 a 1999. Além disso, a região do euro criou 14,5 milhões de novos empregos desde 1999, em comparação aos 8,5 milhões a 9 milhões criados nos Estados Unidos. Isso não quer dizer que a Europa não tem um sério problema de desemprego; mas não há inferioridade óbvia na Europa: todas as economias avançadas precisam impulsionar a criação de empregos.

Da mesma forma, em termos consolidados, a conta corrente da região do euro está equilibrada, sua relação entre endividamento e Produto Interno Bruto (PIB) é bem menor que a do Japão e o déficit anual das finanças públicas é bem menor que o dos EUA, Japão e Reino Unido.

O euro, por si só, não explica por que a região do euro tornou-se o "homem doente" da economia mundial. Para entender isso, é preciso considerar a debilidade da união econômica da Europa.

Em primeiro lugar, o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), cujo objetivo era assegurar políticas fiscais sólidas na região, nunca foi adotado corretamente. Ao contrário, em 2003 e 2004, França, Itália e Alemanha procuraram enfraquecê-lo. A Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e os países pequenos e médios da região impediram que o PEC fosse desmantelado, mas seu espírito ficou gravemente comprometido.

Além disso, a governança na região do euro não incluiu o monitoramento e fiscalização dos indicadores de competitividade - as tendências dos custos e preços nominais nos países-membros e os desequilíbrios externos dentro da região do euro (em 2005, muito antes da crise, defendi, em nome do Conselho do BCE, que houvesse uma fiscalização apropriada de vários indicadores nacionais, como o custo da unidade de trabalho).

Uma terceira fonte de fragilidade foi o fato de não terem sido imaginadas ferramentas de administração de crises quando o euro foi lançado. Em grande parte do mundo naquela época, a "negligência benigna" estava na ordem do dia, particularmente nas economias avançadas.

Por fim, a alta correlação entre a capacidade creditícia dos bancos comerciais de um país e a de seu governo cria uma fonte adicional de vulnerabilidade, que é particularmente prejudicial para a região do euro.

Felizmente, houve muitos progressos, como as melhoras significativas no PEC e a criação de formas de supervisão dos desequilíbrios nacionais e dos indicadores de competitividade. Foram criadas novas ferramentas de administração de crises. E há consenso de que a estabilidade e prosperidade da UE exigem a conclusão do mercado único e reformas estruturais obrigatórias para todos os 27 membros. A proposta de união bancária ajudaria a separar a capacidade creditícia dos bancos comerciais da de seus governos.
Nada disso, no entanto, é suficiente. Em vez de impor multas sobre países que descumprem regras e ignoram recomendações, como o PEC supostamente deveria fazer, a Comissão Europeia, o Conselho Europeu e - isto é essencial - o Parlamento Europeu deveriam decidir diretamente as medidas a adotar de imediato no país em questão. A política fiscal e determinadas políticas econômicas deveriam estar sujeitas à ativação de uma "federação de exceção" da região do euro.

A ideia de que compartilhar uma moeda única também significa aceitar limitações à soberania fiscal não é nova. Uma "federação de exceção" simplesmente delineia as consequências lógicas da ineficiência das multas previstas pelo PEC e é integralmente consistente com o conceito de subsidiariedade que vem sendo aplicado desde a criação do PEC: enquanto a política econômica nacional estiver cumprindo os referenciais, não há sanções.

O elemento mais importante da "federação de exceção" talvez seja sua forte âncora democrática. Sua ativação estaria sujeita a um processo de decisões totalmente democrático, com responsabilização política clara. Mais precisamente, as decisões de adotar as medidas propostas pela Comissão Europeia e aprovadas pelo Conselho Europeu exigiriam voto majoritário do Parlamento Europeu - ou seja, dos representantes eleitos pelos países-membros da UE.

Em circunstâncias excepcionais como essa, o Parlamento do país em questão deveria ter a oportunidade de explicar ao Parlamento Europeu por que não pôde adotar as recomendações propostas, enquanto Parlamento Europeu poderia explicar por que a prosperidade e a estabilidade da região do euro estão em jogo. A palavra final, no entanto, seria do Parlamento Europeu.

No passado, sugeri a criação de um ministério das finanças para a região do euro, que seria responsável por ativar a federação fiscal e econômica quando e onde fosse necessária e por administrar as novas ferramentas de administração de crises, como o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM). Também seria responsável por supervisionar a união bancária e representaria a região do euro em todas as instituições financeiras e grupos informais.

Ainda mais importante, no entanto, a "federação de exceção" em algum momento deixaria de ser uma exceção. O ministro das Finanças seria um membro do futuro braço executivo da UE, juntamente com os outros ministros responsáveis por outros departamentos federais.

A partir desse ponto de vista, a Comissão Europeia pressagia um futuro governo europeu democrático, como sugeriu o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, que propôs instituir um presidente eleito. O Conselho, por sua vez, parece antecipar a futura Câmara Alta do Parlamento Europeu, com a Câmara Baixa já sendo eleita por todos os cidadãos da UE.

Tenho plena consciência da ousadia do que proponho. Os europeus, contudo, precisam aprender as lições do passado recente. Precisamos deixar clara a natureza do que precisa ser feito para assegurar uma governança que seja democrática e tão efetiva como exigem as circunstâncias. (Tradução de Sabino Ahumada)



Jean-Claude Trichet é membro do conselho de diretores do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Foi presidente do Banco Central Europeu (BCE), de 2003 a 2011 e do Banco da França (1993-2003). Copyright: Project Syndicate, 2012.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Desordem na engrenagem da civilização



Por Luiz Gonzaga Belluzzo - Valor 14/09

O Valor me convida para arriscar prognósticos a respeito da crise internacional e avançar projeções sobre o desempenho da economia brasileira. Não sei se abuso da confiança que me empresta o jornal, mas vou traduzir livremente o significado de prognósticos. Sabedor das precariedades que cercam as previsões em geral e especialmente as antecipações dos economistas, farei "Perguntas ao Futuro".

Para começo de conversa, digo que as questões suscitadas nas origens da vida moderna ainda não obtiveram resposta. Nos tempos de prosperidade, elas hibernam e aí dos que ousam despertá-las. Mas no fragor das crises elas voltam a assombrar o mundo dos vivos. Nesses tempos, a incômoda pergunta não quer calar: em que momento homens e mulheres - sob o manto da liberdade e de igualdade - vão desfrutar da abundância e dos confortos que o capitalismo oferece em seu desatinado desenvolvimento?

O capitalismo da grande indústria, da finança e da construção do espaço global, entre crises e recuperações, exercitou os poderes de transformar e dominar a natureza - até mesmo de reinventá-la - suscitando desejos, ambições e esperanças. A versão panglossiana desses prodígios nos ensina que a admirável inclinação para revolucionar as forças produtivas hão de aproximar homens e mulheres do momento em que as penas do trabalho subjugado pelo mando de outrem seriam substituídas pelas delícias e liberdades do ócio com dignidade.
Para muitos, estaria prestes a se realizar a utopia de trabalhar menos para viver mais. Os avanços da microeletrônica, da informática, da automação dos processos industriais já permitem vislumbrar, dizem os otimistas, a libertação das fadigas que padecemos em nome de uma ética do trabalho que só engorda os cabedais dos que nos dominam. Veja o caro leitor que alguns cidadãos já podem trabalhar em casa, longe dos constrangimentos da hierarquia da grande empresa e assim escolher à vontade entre o tempo livre e as fadigas do labor.

Esses enredos foram contados nos bons tempos da globalização e das bolhas financeiras e de consumo: a economia da inovação e da inteligência estaria prestes a substituir a economia da fábrica, dos ruídos atormentadores e dos gases tóxicos. As transformações tecnológicas e suas consequências sociais ensejariam a proeza de realizar o projeto da autonomia do indivíduo, aquele inscrito nos pórticos da modernidade. A autonomia do indivíduo significa a sua autorrealização dentro das regras das liberdades republicanas e do respeito ao outro.

O projeto da autonomia do sujeito é uma crítica permanente e inescapável da submissão aos poderes - públicos e privados - que o cidadão não controla. A globalização, o avanço tecnológico e transformação das formas de trabalho estariam a realizar esta maravilhosa promessa da modernidade.

Até mesmo os críticos mais impiedosos reconhecem que a economia capitalista engendrou formas de sociabilidade que descortinaram a possibilidade de libertar a vida humana e suas necessidades das limitações impostas pela natureza e pela submissão pessoal. A indústria moderna, essa formidável máquina de eliminação da escassez, oferece aos homens e mulheres a "realidade possível" da satisfação dos carecimentos e da libertação de todas as opressões pelo outro.
Mas qual é a realidade que se esconde sob os pretextos dessa fantasia?

Na marcha de sua realidade real, o capitalismo incitou os anseios de realização pessoal, mas também fez emergir estruturas técnico-econômicas e formas de dependência que agem sobre o destino dos protagonistas da vida social como forças naturais que frequentemente destroem a natureza, fora do controle da ação humana.
Em "Eros e Civilização", Marcuse falou da mútua e estranha fecundação entre liberdade e dominação na sociedade contemporânea. Para ele, a produção e o consumo reproduzem e justificam a dominação. Mas isso não altera o fato de que seus benefícios são reais: amplia as perspectivas da cultura material, facilita a obtenção das necessidades da vida, torna o conforto e o luxo mais baratos, atrai áreas cada vez mais vastas para a órbita da indústria. Mas, ao mesmo tempo, o indivíduo paga com o sacrifício de seu tempo, de sua consciência e de seus sonhos nunca realizados.

A concorrência generalizada se impõe aos indivíduos como uma força externa, irresistível. Por isso é preciso intensificar o esforço no trabalho na busca do improvável equilíbrio entre a incessante multiplicação das necessidades e os meios necessários para satisfazê-las, buscar novas emoções, cultivar a angustia porque é impossível ganhar a paz.

O avanço tecnológico e os ganhos de produtividade não impediram a intensificação do ritmo de trabalho. Essa foi a conclusão de estudos recentes da Organização Internacional do Trabalho e de outras instituições que lidam com o assunto. Entre os que estão empregados, o trabalho se intensificou. Nos Estados Unidos, por exemplo, as horas trabalhadas cresceram em todos os setores.

No outro lado da cerca, estão os que se tornaram compulsoriamente independentes do trabalho, os desempregados. O desemprego global cresceu muito no mundo desenvolvido, ao mesmo tempo em que o trabalho se intensificou nas regiões para onde se deslocou a produção manufatureira. As estratégias de localização da corporação globalizada introduziram importantes mutações nos padrões organizacionais: constituição de empresas-rede, com centralização das funções de decisão e de inovação e terceirização das operações comerciais, industriais e de serviços em geral.

As novas formas financeiras contribuíram para aumentar o poder das corporações internacionalizadas sobre grandes massas de trabalhadores, permitindo a "arbitragem" entre as regiões e nivelando por baixo a taxa de salários. As fusões e aquisições acompanharam o deslocamento das empresas que operam em múltiplos mercados. Esse movimento não só garantiu um maior controle dos mercados, mas também ampliou o fosso entre o desempenho dos sistemas empresariais "globalizados" e as economias territoriais submetidas à regras jurídico-politicas do Estados Nacionais. A abertura dos mercados e o acirramento da concorrência coexistem com a tendência ao monopólio e debilitam a força dos sindicatos e dos trabalhadores "autônomos", fazendo periclitar a sobrevivência dos direitos sociais e econômicos, considerados um obstáculo à operação das leis de concorrência.

Restringem, portanto, a soberania estatal e impedem que os cidadãos, no exercício da política democrática, tenham capacidade de decidir sobre a própria vida.

As reformas realizadas nas últimas décadas cuidaram de transferir os riscos para os indivíduos dispersos, ao mesmo tempo em que buscaram o Estado e sua força coletiva para enfrentar a concorrência desaçaimada e, nos tempos de crise, limitar as perdas provocadas pelos episódios de desvalorização da riqueza. A intensificação da concorrência entre as empresas no espaço global não só acelerou o processo de concentração da riqueza e da renda como submeteu os cidadãos às angústias da insegurança.

Os efeitos do acirramento da concorrência entre empresas e trabalhadores são inequívocos: foram revertidas as tendências à maior igualdade observadas no período que vai do final da Segunda Guerra até meados dos anos 70 - tanto no interior das classes sociais quanto entre elas. Na era do capitalismo "turbinado" e financeirizado, os frutos do crescimento se concentraram nas mãos dos detentores de carteiras de títulos que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza. Para os demais, perduram a ameaça do desemprego, a crescente insegurança e precariedade das novas ocupações, a exclusão social.

Para os mais fracos, a "liberação" do esforço e das penas do trabalho se realiza sob a forma do desemprego, da crescente insegurança e precariedade das novas ocupações, da queda dos salários reais, da exclusão social.

Nos Estados Unidos, os fatores decisivos para o comportamento decepcionante dos rendimentos da maioria da população foram, sem dúvida, a diminuição do poder dos sindicatos e a redução no número de sindicalizados, o crescimento do trabalho em tempo parcial e a título precário e a destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria de transformação, sob o impacto da concorrência chinesa.

O lento crescimento da renda das famílias de classe média foi acompanhado pelo aumento das horas trabalhadas, por conta da maior participação das mulheres, das casadas em particular, no mercado de trabalho. Nas famílias com filhos, as mulheres acrescentaram, entre 1979 e 2000, 500 horas de trabalho ao total despendido pelo casal.

Não resta sequer a ilusão de que a maior desigualdade foi compensada por uma maior mobilidade das famílias e dos indivíduos, desde os níveis mais baixos até os mais elevados da escala de renda e riqueza. Para surpresa de muitos, o estudo mostra que a mobilidade social nunca foi tão baixa no país das oportunidades. Há 40 anos, se alguém perdesse o emprego, poderia se mobilizar contra o patronato ou o governo, acusando-o de estar executando uma política econômica equivocada. Ainda que se possa fazer isso hoje, provavelmente o governo vai responder que tudo ocorreu como consequência inevitável da globalização.

Escrevendo em 1933, das profundezas da Grande Depressão, Keynes confessou que, nos momentos de crise grave, a relação entre a observação crítica e as soluções pode se esgarçar. Ele dizia: "O capitalismo internacional e individualista decadente, sob o qual vivemos desde a Primeira Guerra, não é um sucesso. Não é inteligente, não é bonito, não é justo, não é virtuoso - "and it doesn't deliver the goods". Em suma, não gostamos dele e já começamos a menosprezá-lo. Mas, quando imaginamos o que se poderia colocar no seu lugar, ficamos extremamente perplexos."

Na crise atual, assim como nos anos 30 do século passado, os homens e mulheres do poder deliram entre as fantasias do eterno retorno do mesmo e as ilusões do decisionismo incondicionado e descolado da correlação de forças sociais. Para uns, os da margem esquerda, se houver vontade política, tudo é possível. Na outra margem, a da direita, multiplicam-se as falácias do economicismo, a capitulação diante da "objetividade" das condições existentes.

Nos Estados Unidos dos republicanos e na Europa da senhora Merkel está em curso uma tentativa de reestruturação regressiva. David Brooks, colunista do "The New York Times" e autor do livro "Bobos in Paradise", escreveu um artigo intitulado "O que pensam os Republicanos". Os Republicanos, diz Brooks, pensam que o capitalismo americano está ameaçado pela segurança excessiva concedida aos cidadãos pelo Estado do bem-estar, em detrimento do espírito de iniciativa e da inovação. A fuzilaria dos ultraconservadores concentra a pontaria na proteção à velhice e aos doentes. Caso esse peso morto não seja extirpado, a sociedade americana será entregue às letargias da estagnação.

"Nos Estados Unidos, assim como na Europa, afirmam os republicanos, o Estado do bem-estar não oferece segurança nem dinamismo. A rede de segurança é tão dispendiosa que deixará de existir para as próximas gerações. Ao mesmo tempo, o atual modelo transfere recursos dos setores inovadores para setores estatais já inchados, como saúde e educação. O modelo de bem-estar social privilegia a segurança em lugar da inovação. Esse modelo... se tornou uma máquina a gigantesca que redistribui dinheiro do futuro para a população mais velha."

Cada vez mais inclinada à direita, a opinião republicana deplora o peso excessivo do Estado munificente e investe contra as tentativas de disciplinar as forças simultaneamente criadoras e destrutivas do capitalismo. A visão republicana da economia e da sociedade advoga abertamente a concorrência darwinista: a sobrevivência do mais forte é a palavra de ordem. Tombem os fracos pelo caminho.

A ação do Estado, particularmente da sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do individualismo que se opõe a qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza, da renda e do consumo efetuado através do mercado capitalista.

Cresce a resistência à utilização de transferências fiscais e previdenciárias, aumentando ao mesmo tempo as restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque a globalização, ao tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos grupos integrados, desarticulou a velha base tributária do Estado do bem-estar, erigida sobre a prevalência dos impostos diretos sobre a renda e a riqueza.

A ética da solidariedade é substituída pela ética da eficiência e, desta forma, os programas de redistribuição de renda, reparação de desequilíbrios sociais e assistência a grupos marginalizados têm encontrado forte resistência na casamata republicana. Não há dúvida de que este novo individualismo tem sua base social originária na grande classe média produzida pela longa prosperidade e pelos processos mais igualitários que predominaram na era keynesiana.

Hoje, o novo individualismo encontra reforço e sustentação no aparecimento de milhões de empresários terceirizados e autonomizados, que são criaturas das mudanças nos métodos de trabalho e na organização das grandes empresas.

A ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da "deslegitimação" do poder administrativo e na desvalorização da política. Aparentemente estamos numa situação histórica em que a "grande transformação" ocorre no sentido contrário ao previsto por Karl Polanyi: a economia trata de se libertar dos grilhões da sociedade.

A resposta esperançosa à Pergunta ao Futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência global. Desgraçadamente, no momento em que escrevo este artigo, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlados pela hegemonia das banalidades. Desconfio que o mundo não padeça apenas sofrimentos de uma crise periódica do capitalismo, mas, sim, as dores de um desarranjo nas engrenagens que sustentam a vida civilizada, sob o olhar perplexo e impotente das vítimas.



Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Os pilares para salvar o euro e a UE



Por Roland Berger - Valor 13/09

A dívida pública da Europa e a crise monetária estão em seu terceiro ano, e os políticos limitam cada vez mais seus esforços de socorro a dois pacotes de ações: austeridade para os países mais atingidos pela crise e financiamento para os países ainda saudáveis da zona do euro. Ambos são adequados e necessários, mas não são suficientes para impedir um colapso da moeda comum, ou talvez até mesmo da União Europeia.

Essa limitação levou a Europa a uma crise tripla. Primeiro, a dívida pública e a crise do euro estão piorando. Segundo, as economias na zona do euro e a União Europeia foram arrastadas para uma recessão, conduzida pelos países devedores. E, terceiro, a unidade europeia está sofrendo uma séria crise política. As economias estão encolhendo, o que torna as coisas piores para os países que foram duramente atingidos pela crise: o desemprego está aumentando, a riqueza está evaporando e as tensões sociais estão crescendo. Os países ao norte, embora ainda estejam seguros financeiramente, estão em uma posição delicada. Eles não querem arriscar suas economias para ajudar países vizinhos a financiar dívidas que eles arrumaram por "não manterem suas casas em ordem". A Europa está profundamente dividida.

É necessário um crescimento econômico para restaurar a confiança do povo em sua moeda e em sua União. Contudo, os programas de crescimento, patrocinados pelo Estado, não são o caminho a seguir. Por um lado, eles poderiam criar mais dívida pública. Por outro, poderiam não resolver a crise de crescimento, pois ela não é econômica, mas uma crise estrutural de competitividade. A única forma de restaurar essa confiança é realizar reformas estruturais, como o corte de gastos, salários e custos. Então, o que fazer?

O caminho para sair da crise é um programa de crescimento com apoio político e financiamento privado, que funcione suportado pela economia de mercado. Esse programa deve ter por objetivo expandir e modernizar a infraestrutura da Europa. Estima-se que o investimento necessário seja de, pelo menos, €1 trilhão na UE. Para financiá-lo, podemos recorrer aos cerca de €170 trilhões distribuídos por todo o mundo e em poder do setor privado, porém dependemos da ajuda dos políticos no direcionamento do capital privado para projetos de infraestrutura. Eles podem fazer isso aprovando leis de incentivo à concorrência e aos investimentos, e colocando em vigor condições legalmente sólidas, baseadas na economia de mercado.

No topo da lista de projetos potenciais está a infraestrutura de telecomunicações, que precisa de uma ampla rede de dados de banda larga para chegar ao próximo nível tecnológico. O investimento privado nesta área simplesmente não é atraente. Isto quer dizer que grandes provedoras de serviços de telecomunicações não podem mobilizar nenhum capital privado. Se os políticos aprovassem regras inovadoras alinhadas ao mercado, dispararia um crescimento significativo: investir mais de € 270 bilhões na infraestrutura de comunicação criaria não apenas empregos na Europa, mas aumentaria a produtividade dos usuários no setor privado e na administração pública. A Europa veria o desenvolvimento de sua própria indústria de TI e internet - assim como visto nos EUA, com Google, Amazon e Facebook.

Outro exemplo é o fornecimento de energia. Nos próximos anos, a Europa precisará investir €220 bilhões em redes e armazenagem, especialmente depois da transformação energética da Alemanha. Isso exigirá uma política energética europeia e planejamento. Nenhuma das duas coisas foi feita ainda. Outros exemplos são os sistemas de tratamento de esgoto e águas residuais, que precisam de, pelo menos, € 200 bilhões, e a construção de estradas, que exige um investimento estimado em cerca de €180 bilhões.

Infelizmente, a ideologia predominante na Europa é a de que a infraestrutura deve ficar o máximo possível nas mãos do governo, com diferenças em alguns países. Por exemplo, na França, a água é fornecida por empresas privadas, mas o governo é responsável pela eletricidade, enquanto na Alemanha é exatamente o oposto. Muitos países têm estradas pedagiadas financiadas pelo setor privado, mas por alguma razão isso não acontece na Alemanha, que é um dos principais países da Europa em termos de trânsito. A lista desse tipo de inconsistências vai longe.

Até mesmo um programa de infraestrutura parcialmente financiado pelo setor privado, projetado para um crescimento europeu baseado no mercado, poderia servir como o terceiro pilar que falta para um programa consistente de socorro financeiro para o euro. Os outros são a mudança estrutural - criada pela austeridade para melhorar a competitividade e a disciplina orçamentária no sul -, e o financiamento fornecido pela Alemanha aos países escandinavos do euro para acalmar os mercados financeiros.

Dessa forma, a Europa poderia criar uma economia altamente inovadora e produtiva com uma infraestrutura excelente, mesmo no meio da crise. Como fornecedoras, as empresas privadas lucrariam com o crescimento e a maior produtividade. Já os funcionários se beneficiariam do número crescente de empregos com maior qualidade. O crescimento da arrecadação fiscal e a diminuição dos gastos públicos poderiam ajudar na redução da dívida pública. Um benefício adicional seria a restauração da confiança das pessoas no euro e na integração europeia.



Roland Berger é fundador da Roland Berger Strategy Consultants

Exportação cresce para os EUA e cai para o Mercosul



Valor 13/09


De janeiro a agosto as exportações brasileiras para os Estados Unidos ultrapassaram as destinadas para o bloco do Mercosul, com mais de US$ 3 bilhões de diferença. O último ano cheio em que os americanos compraram mais produtos brasileiros que os parceiros do bloco foi em 2008, última vez em que o Brasil ainda tinha superávit na balança com os Estados Unidos. Desde então o Brasil vem tendo déficits crescentes com os americanos.

De janeiro a agosto deste ano as exportações para os EUA aumentaram - petróleo, produtos de ferro e aço e etanol estão entre os itens que mais ajudaram -13,4% e as vendas para os países do Mercosul, com o efeito Argentina, caíram também 16,2%. A queda de venda aos argentinos foi de 18%.

O desempenho, porém, ainda não foi suficiente para o Brasil voltar a ter superávit com os americanos, embora o déficit tenha se reduzido dos US$ 5,4 bilhões de janeiro a agosto do ano passado para US$ 2,8 bilhões nos mesmos meses deste ano. Em igual comparação, os embarques para a União Europeia tiveram queda de 7,4%, com superávit caindo de US$ 5,1 bilhões para US$ 1,1 bilhão. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento (Mdic).

Para José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), a exportação aos americanos deve manter a tendência atual e terminar o ano à frente dos embarques ao Mercosul. "O ritmo da exportação aos EUA não deve mudar muito e as dificuldades com a Argentina certamente não irão ser solucionadas logo."
A fatia ainda considerável de manufaturados na pauta de exportação brasileira para os Estados Unidos ajudou a elevar os embarques aos americanos, diz Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). "A queda da exportação brasileira de manufaturados foi menor que a dos básicos e a dos semimanufaturados. Isso também contribuiu para o melhor desempenho do comércio com os Estados Unidos."

De acordo com dados do Mdic, a exportação total do Brasil de manufaturados caiu, de janeiro a agosto, 1,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Na mesma comparação os embarques de básicos e de semimanufaturados tiveram redução de 3,8% e 9,1%, respectivamente. As exportações para os americanos, porém, tiveram comportamento diferente. De janeiro a julho deste ano, a venda de manufaturados aos americanos cresceu 21,4% em relação aos sete primeiros meses do ano passado enquanto básicos tiveram alta de 13,82% e os semimanufaturados, de 7,8%.

A exportação de manufaturados dentro da pauta de exportação brasileira aos americanos tem fatia representativa, de 46%. Os Estados Unidos compram 15% do total de manufaturados embarcados pelo Brasil.

Branco lembra, porém, que esse desempenho já foi bem melhor. Em 2005, segundo levantamento da Funcex, os americanos compravam um quarto dos manufaturados exportados pelo Brasil e essa classe de produtos representava 72% da vendas brasileiras aos EUA. Mais do que isso, lembra Branco, os produtos brasileiros perderam espaço no total das importações americanas, caindo de 1,51% em 2005 para 1,27% em 2010.

As exportações aos americanos atualmente estão crescendo, na verdade, muito ancoradas no petróleo, diz Castro. Com aumento de 25% na venda brasileira aos americanos até agosto, o petróleo representa um quarto da pauta de exportação aos EUA. Logo depois vêm os produtos semimanufaturados de ferro ou aço e, depois, o etanol, cujos embarques aumentaram de US$ 230,7 milhões de janeiro a agosto de 2011 para US$ 712,9 milhões no mesmo período deste ano.

Na verdade, analisa Branco, o desempenho do petróleo está muito mais ligado a uma questão política do que comercial. A exportação brasileira está relacionada à decisão americana de privilegiar as importações brasileiras e reduzir a dependência de fornecimento pelo Oriente Médio.

O desempenho com os EUA, acredita, o economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, está relacionada à economia americana, que deve crescer 2% neste ano. Ele lembra, porém, que o crescimento da exportação não está acompanhado por diversificação e um problema da grande representatividade do petróleo nas vendas aos EUA está na volatilidade das condições de negociação. "Uma queda de preços afeta rapidamente o valor das exportações. "

Na OMC, Washington reclama do aumento de tarifas feito pelo Brasil

O governo dos Estados Unidos acusou o Brasil e a Argentina de quebrarem compromisso internacional com a elevação das barreiras nas importações, ainda mais num momento que Washington considera especialmente delicado para a economia mundial.

O embaixador americano na Organização Mundial de Comércio (OMC), Michael Punke, disse que os EUA estão "extremamente preocupados" em ver a ação do Brasil e Argentina, estimando que isso complica ainda mais esforços de negociação em Genebra para desbloquear a Rodada Doha.

"Estou perplexo porque eles estão se movendo nessa direção", afirmou ontem, numa coletiva à imprensa, em Genebra. Sem surpresa, o representante americano considerou "extremamente desapontador" o anúncio pelo Brasil de elevar em 25% as alíquotas de importação de cem produtos, incluindo siderúrgicos, autopeças, pneus e químicos. Para Punke, o que o Brasil e a Argentina estão fazendo é "inconsistente com os compromissos no G-20", dos quais fazem parte, para evitar novos obstáculos ao comércio internacional.

Os americanos dizem não entender como Brasília impõe mais taxa sobre químicos, por exemplo, levando em conta que isso vai causar custos adicionais para produtores brasileiros.

Exportadores dos EUA estão sentindo mais dificuldades. Suas exportações caíram 1% no mês passado, depois de queda de 1,2% no mês anterior. As vendas para a zona do euro caíram 6,6% na comparação com o mês anterior e se estagnaram para a China.

Por sua vez, o embaixador brasileiro na OMC, Roberto Azevedo, defendeu a medida brasileira. "Todos, em algum momento, adotam medidas que não são do gosto dos parceiros comerciais. Há países que nessa situação de dificuldades econômicas estão caminhando na direção de aumento dos dispêndios de subsídios distorcivos em agricultura, que causarão prejuízos ainda maiores aos agricultores brasileiros", disse, em referência a futura Lei Agrícola dos EUA.

Azevedo reiterou ontem que as medidas brasileiras estão dentro das regras acertadas na OMC. "Não há motivo para nenhuma reclamação da parte de qualquer país."

O Itamaraty também minimizou a queixa de Punke. "É uma manifestação isolada e não reflete a boa relação e o entendimento dos dois governos em questões econômicas, financeiras e comerciais", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Tovar Nunes.

O Itamaraty classifica a relação com os EUA como a "mais densa" entre os interlocutores do Brasil. Somam 18 os mecanismos de diálogo em temas variados. Em reuniões informais, os dois países vêm, ainda, discutindo que fazer em relação ao contencioso do algodão, pelo qual a OMC determinou serem ilegais os subsídios americanos ao setor e autorizou o Brasil a retaliar, caso não sejam retirados. Para os diplomatas brasileiros, o tom acusador adotado por Punke é comum em discussões na OMC, mas não reflete as conversas mantidas pelos dois governos.

Enquanto os EUA planejam levantar o problema em algum comitê normal na OMC, para marcar sua posição sobre a alta de tarifas no Brasil, no caso da Argentina os americanos deflagram diretamente o mecanismos de disputa. Os argentinos reagiram denunciando na OMC barreiras impostas por Washington à entrada de alguns de seus produtos agrícolas.

Dívida pública e taxa de juros



Por José Luis Oreiro - Valor 13/09

A equipe econômica do governo Dilma Rousseff tem reiteradas vezes afirmado que um elemento crucial na estratégia de redução da taxa de juros, iniciada em meados de 2011, é a obtenção de um superávit primário robusto o suficiente para permitir uma queda consistente e contínua da relação dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o diagnóstico da equipe econômica, a taxa real no Brasil é mais elevada do que a prevalecente em outros países emergentes em função da elevada dívida pública como proporção do PIB. Sendo assim, a austeridade fiscal, mesmo em momentos de crescimento baixo como o que estamos vivenciando nos últimos 18 meses, é condição necessária para viabilizar uma redução permanente da taxa real de juros.

Os dados da economia brasileira, contudo, parecem desmentir esse diagnóstico. Como podemos visualizar na figura abaixo, no período 2003-2011 a relação dívida pública líquida/PIB apresentou uma redução de 19%; ao passo que a taxa real de juros - calculada a partir da taxa Selic média de cada ano deflacionada pela variação do IPCA - apresentou uma queda três vezes maior, igual a 60,67%!!!

A teoria econômica convencional não estabelece uma relação clara entre o nível do endividamento do setor público e a taxa real de juros. Com efeito, o modelo macroeconômico padrão para economias abertas, o modelo Mundell-Fleming, estabelece que no equilíbrio de longo prazo a taxa real de juros de uma pequena economia aberta que opera com mobilidade de capitais e câmbio flutuante (o que, em tese, seria o caso brasileiro) deve ser igual a taxa de juros internacional acrescido do prêmio de risco país, tomado como variável exógena e, portanto, independente da política fiscal.

A endogenização do prêmio de risco país pode ser feita se considerarmos a hipótese do risco financeiro crescente de Mickael Kalecki, segundo a qual um aumento do nível de endividamento do tomador de decisão - firma ou governo - deverá induzir os bancos a cobrar taxas de juros cada vez mais altas para a concessão de novos empréstimos. Nesse contexto, deveria existir uma relação positiva entre o nível de endividamento do setor público - medido pela relação dívida pública/PIB - e o valor da taxa real de juros que o governo tem que pagar sobre a sua dívida.

A literatura empírica que trata da relação entre dívida pública e taxa de juros parece apontar para a existência de uma relação não-linear entre as duas variáveis. Por exemplo, Caselli et al. (2004)1 constrói um painel para 16 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), abrangendo o período de 1960 a 2002. Suas conclusões são de que tanto o déficit quanto a dívida pública afetam a taxa de juros real de maneira não linear, ou seja, a taxa de juros apresenta uma reação maior a um aumento da dívida pública quando esta se encontra em um nível superior a um certo patamar crítico.

A existência de uma relação não linear entre dívida pública/PIB e taxa real de juros foi testada mais recentemente numa dissertação de mestrado2 que orientei no programa de pós-graduação em economia da UnB. Nesse trabalho foi construído um painel com dados de 49 países, todos eles emergentes, incluindo o Brasil. Após testar várias especificações do modelo econométrico - controlando-se para os efeitos sobre a taxa de juros da variabilidade do PIB, superávit primário, inflação e poupança doméstica - conclui-se que existem fortes evidências apontando para uma relação não-linear entre as variáveis em consideração.

Se for verdade que a relação entre dívida pública/PIB e taxa real de juros é não linear então os ganhos a serem obtidos em termos de redução de taxa real de juros podem ser relativamente pequenos a partir do momento que a dívida pública como proporção do PIB cai abaixo de certo nível. Ao que tudo indica este é o caso do Brasil. Com efeito, a política de geração de robustos superávits primários, iniciada no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, e aprofundada no primeiro mandato do presidente Lula, foi bem sucedida em trazer a relação dívida/PIB para um patamar abaixo de 40%.
Desde então os ganhos em termos de redução de juros parecem ser mais o resultado da flexibilização do regime de metas de inflação do que da continuidade da queda da relação dívida pública/PIB. Assim, o governo da presidente Dilma pode estar cometendo um erro crasso ao manter um elevado superávit primário durante uma fase de desaceleração do crescimento, na tentativa de reduzir a dívida pública/PIB abaixo de 30%. Mais sensato seria reduzir o superávit primário e usar a "folga de caixa" para aumentar o investimento público em infraestrutura. Essa política permitiria um aumento da produtividade do capital, em função dos claros efeitos de transbordamento positivos do investimento público sobre os investimentos do setor privado, viabilizando assim um crescimento mais robusto do PIB no médio e longo prazo.



1 CASELLI, Francesco; ARDAGNA, Silvia; LANE, Timothy. (2004). "Fiscal Discipline and the Cost of Public Debt Service: Some Estimates for OECD Countries".



2 LEITÃO, Paulo (2012). "O Prêmio de risco endógeno e a relação entre taxa de juros e variáveis fiscais: um estudo utilizando dados em painel". Dissertação de Mestrado: Departamento de Economia/UnB.



José Luis Oreiro é professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília. E-mail: joreiro@unb.br.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Depois da euforia (V): a demografia



Por Fabio Giambiagi - Valor 12/09

Encerro hoje a série de artigos acerca do meu livro com Armando Castelar ("Além da euforia", Editora Campus) sobre os problemas que todos sabem que caracterizam a economia brasileira, mas diante dos quais agimos como se não existissem. Além da apresentação inicial das principais ideias do livro, os artigos trataram das questões da produtividade, da poupança doméstica e da educação. Hoje iremos abordar o desafio demográfico. As regras de aposentadoria no Brasil são o nosso "lado grego".

O que se disse da Grécia nos últimos 2 ou 3 anos? "Eles não aproveitaram a bonança de anos anteriores para fazer o dever de casa", "continuaram se aposentando muito cedo", "o resto do mundo se cansou de sustentar os gregos" e toda sorte de comentários de teor similar.

É evidente que o Brasil não é a Grécia. Basta dizer que a dívida pública bruta grega como proporção do PIB é da ordem de duas vezes a nossa, além do nosso setor público ser credor líquido do exterior e de termos flexibilidade cambiária, todos esses elementos que representam diferenças cruciais. Ninguém, em sã consciência, pode argumentar que o Brasil está nas proximidades de correr risco de "default". Tendo deixado isso claro, porém, proponho ao leitor um exercício: já percebeu como ficam aquelas frases se substituirmos a expressão "os gregos" por "os brasileiros"?
O leitor ouviu falar da "crise da Áustria"? Não, porque não houve crise. Menos ainda de "crise da Alemanha", cuja economia teve um desempenho estupendo depois de 2008/2009. Pois bem, quem olha para os dados da tabela pode ter uma pequena pista de por que Portugal entrou em crise e a Alemanha não: em Portugal, as pessoas podem antecipar a aposentadoria já com 55 anos, enquanto que na Alemanha isso só pode ocorrer aos 63.

Ocorre que a tabela mostra também a idade em que, na média, as pessoas se aposentam por tempo de contribuição no Brasil pelo INSS: aos 54 anos os homens e aos 52 as mulheres. Vamos ser francos: dado algum dos que foram tão citados na crise grega nunca foram novidade. O mercado sabia dos fatos há muito tempo - e, não obstante isso, com a miopia própria das bonanças, ignorou a realidade durante anos, comprando alegremente títulos gregos a taxas pouco acima das associadas aos títulos germânicos. Foi só quando as labaredas da crise estavam chegando no quarto andar que tais números passaram a ser expostos em alto e bom som como prova do desleixo dos países da periferia da União Europeia na época das "vacas gordas". O leitor já pensou o que podem dizer do Brasil no futuro, se o mercado se tornar hostil? A pergunta que não quer calar (e que ninguém quer ouvir) é: há alguém que não esteja informado acerca da última linha da tabela?

As projeções demográficas estão no site do IBGE para qualquer um que se dispuser a analisar os dados. Elas nos informam que no Brasil o número de pessoas com 60 anos ou mais de idade passará de 19 milhões para 64 milhões de pessoas entre 2010 e 2050, ao mesmo tempo em que a população de 15 a 59 anos vai encolher ligeiramente. E o que fizemos diante desse mega-desafio? Duas coisas: a) aumentamos as aposentadorias nas duas pontas da escala social, dando fortes aumentos reais ao longo de quase 20 anos a 2 de cada 3 aposentados do INSS (os que ganham o salário mínimo) e aos próximos aposentados da administração pública, que com os aumentos reais dos últimos anos vão passar para a inatividade com uma renda muito superior à média dos seus salários de contribuição; e b) houve um empenho firme e deliberado no sentido de convencer a população em peso de que mudar as regras de aposentadoria seria uma ideia "neoliberal". Isso, para não falar dos projetos divorciados da matemática elementar do senador Paulo Paim, aprovados com apoio unânime no plenário quando levados a votação e dependentes do veto presidencial.

O livro com Armando Castelar se inicia com uma epígrafe de J. Kennedy, segundo o qual "a melhor época para consertar o telhado é quando o tempo está bom". À luz das tendências demográficas e da benevolência das nossas regras de aposentadoria, nesse sentido pode-se afirmar que nos últimos anos não colocamos nem um mísero prego no telhado do Regime Geral da Previdência Social. No dia em que chover, poderemos pagar as consequências.



Fabio Giambiagi, economista, coorganizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus)

Sozinho Draghi não salva o euro



Por Martin Wolf - Valor 12/09

A decisão tomada na semana passada pelo Banco Central Europeu (BCE) de realizar compras ilimitadas de bônus governamentais nos mercados secundários foi tanto necessária como ousada. O presidente do BCE, Mario Draghi, merece crédito por ter conseguido chegar a um acordo para levar adiante a controversa medida diante da oposição, solitária, mas significativa, de Jens Weidmann, presidente do temível Bundesbank, a autoridade monetária da Alemanha. É uma pena que o BCE não a tenha tomado antes da crise das dívidas soberanas ter alcançado Espanha e Itália. O atraso, no entanto, não foi surpresa: talvez tenha sido inevitável que as autoridades monetárias da região do euro tenham feito muito pouco e muito tarde.

Não é culpa do BCE que a medida represente muito pouco. Seu objetivo é eliminar o risco de um desmembramento da região do euro forçado pelos mercados. A instituição, no entanto, não tem como conseguir isso por si só. Assegurar a sobrevivência da região do euro é uma decisão política. O BCE pode apenas influenciar, e não determinar, o resultado.

A lógica apresentada para o programa de "Transações Monetárias Diretas" (OMT, na sigla em inglês) é engenhosa. O BCE insiste que a intenção não é financiar governos em dificuldades financeiras. Isso, insiste, é mero subproduto. Em entrevista coletiva na semana passada, Draghi declarou: "Almejamos preservar a unicidade de nossa política monetária e assegurar a correta transmissão de nossas políticas para a economia real em toda a região. As OMTs nos permitirão enfrentar profundas distorções nos mercados de bônus governamentais que se originam de, particularmente, medos infundados por parte dos investidores quanto à reversibilidade do euro."
Para justificar a ideia, Draghi argumentou: "Você tem grandes partes da área do euro com o que chamamos de 'mau equilíbrio' [...] Portanto, há justificativas para intervir [...] para 'quebrar' essas expectativas, que [...] não se referem apenas a países específicos, mas à área do euro como um todo. E isso justifica a intervenção do banco central". O comentário marca, portanto, uma aceitação tardia dos sólidos argumentos apresentados pelo economista belga Paul de Grauwe, na London School of Economics.

Representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI), em suas "consultas do Artigo 4" sobre a região do euro, publicadas em julho, argumentam que apesar da políticas de baixos juros, as condições de crédito estão extremamente rigorosas em alguns países membros. Isso se deve, sustentam, a percepções divergentes quanto aos riscos interconectados dos bancos e governos e ao encolhimento das concessões de empréstimos entre países, uma vez que há esforços para aumentar as proteções de capital e colchões de liquidez em casa e para deixar os depósitos de um dia no BCE. Hoje, em consequência, "as condições de financiamento menos favoráveis são as dos países em que a crise é mais profunda". Essa grave situação confere forte justificativa para a nova política.

O BCE não vai intervir de forma incondicional e só o fará se os países atenderem condições específicas, que não serão determinadas por ele. Draghi informou que caberá aos governos, à União Europeia (UE), à Comissão Europeia (CE) e ao FMI decidir sobre essas condições. Uma vez acertadas, no entanto, precisarão ser respeitadas. Essa é a exigência do BCE.

Tal condicionalidade é perfeitamente compreensível. Ela, contudo, vai militar contra os objetivos do novo programa. O BCE está dizendo que vai buscar eliminar a ameaça de desmembramento, a não ser nos casos em que ela é mais real, que são, é claro, precisamente quando os países não conseguem cumprir as condições de políticas monetárias. Os investidores sabem que o eleitorado pode escolher um governo que não tenha intenção de se ater às condições acertadas. O que acontece então? A resposta é: ou o BCE deixa de comprar, caso em que o mercado de bônus implode, ou o BCE continua a comprar, caso em que a condicionalidade é jogada ao mar.
A possibilidade de abandono da condicionalidade é mais provável: será difícil para o BCE parar de comprar. Isso, contudo, também poderia ter consequências sérias. Incitadas pela oposição do Bundesbank ao plano, parcelas significativas da opinião pública alemã detestam o que vem ocorrendo com seu dinheiro, como meu colega Wolfgang Munchau explicou em recente coluna. É fácil imaginar o que aconteceria dentro da Alemanha se algum importante país-membro começasse a descumprir as condições acertadas e o BCE continuasse a comprar seus bônus. A grande fúria resultante dificilmente fortaleceria a confiança na irreversibilidade do euro. Ninguém pode ter certeza sobre como optariam por reagir os políticos alemães - ou como teriam condições de reagir. No momento, o governo é bastante favorável ao BCE. Mas isso não se sustentará sob qualquer circunstância.
Em resumo, um programa condicional de compra de bônus, adotado contra a vontade do Bundesbank, não tem como tornar a região do euro irreversível de forma crível. Há alguma forma por meio da qual o BCE, sozinho, poderia tornar a continuidade da região do euro mais crível?

A resposta é: "sim" e "não".

"Sim"; se as pessoas acreditarem que integrar a região do euro é do interesse de todos - sua sobrevivência será muito mais crível. Para que isso ocorra, os países deficitários precisam ter crescimento e novos empregos. O BCE poderia contribuir pisando mais fundo no acelerador monetário. Afinal, as perspectivas econômicas de curto prazo são deprimentes: as previsões do BCE de crescimento econômico real para a região do euro variam entre 0,6% e 0,2% negativos neste ano e 0,4% negativo e 1,4% positivo em 2013. No segundo trimestre de 2012, o Produto Interno Bruto (PIB) nominal da região do euro foi apenas 3,4% maior do que o do primeiro trimestre de 2008.

Infelizmente, a resposta também é "não", porque uma política monetária mais agressiva confirmaria os medos da Alemanha de que o BCE está se tornando a Banca d'Italia, a autoridade monetária italiana. A dificuldade para o BCE é que as medidas apropriadas e relevantes são vistas na Alemanha como um passo gigante em direção ao terrível caminho da ruína hiperinflacionária. Enquanto o caso for esse, o BCE não terá como fazer o euro parecer irreversível. Esse fato vai corroer os mercados. Isso vai obrigar o BCE a comprar mais, tornando, portanto, a política ainda menos crível.

O BCE fez o que pôde diante do cenário político. A decisão por vir da corte constitucional alemã e o resultado das eleições na Holanda podem ajudar. Mas os riscos de desmembramento não podem ser descartados. Para que sejam, os cidadãos dos países devedores precisam ver um caminho plausível rumo ao crescimento e os cidadãos dos países credores precisam acreditar que não estão despejando seu dinheiro em um poço sem fundo. O que o BCE fez foi ganhar algum tempo. Não ganhou o jogo. (Tradução de Sabino Ahumada).



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Para além da temporada dos furacões



Por Fernando Cardim de Carvalho - Valor 11/09

Poucos momentos da história do capitalismo no pós-Segunda Guerra foram tão marcados pelos riscos de uma catástrofe econômica internacional como o que se abre nas próximas semanas. O fim das férias de verão europeias marca o término da trégua criada pela letargia dos mercados de dívida soberana de países da eurozona durante o período que vai de julho ao final de setembro.

A relativa calmaria desses meses contrasta dramaticamente com a repetição de momentos de pânico vividos no primeiro semestre deste ano, mas se explica menos pela adoção de instrumentos reconhecidos como eficientes de administração da crise do euro, do que pelo apego de europeus a suas férias, mesmo em meio a turbulências profundas como a que assistimos. O fim das férias desperta as consciências amortecidas pelo sol e pelo calor e traz de volta as preocupações com as graves ameaças que pairam sobre a área euro, especialmente no que tange ao status da Grécia e à possibilidade de que Espanha e, possivelmente, Itália se vejam forçadas a finalmente pedir o socorro financeiro formal da chamada troica, constituída pela União Europeia (UE), pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Como nas séries policiais de televisão, em maio e junho deste ano, algumas medidas de suporte foram prometidas aos países mais ameaçados, gerando algum alívio. Mas isso durou pouco tempo. A chamada união bancária, que serviria mais imediatamente para ancorar sistemas bancários frágeis como o espanhol sem submeter o governo do país às mesmas extensas exigências impostas à Grécia, Portugal e Irlanda, foi uma das medidas recebidas com relativo entusiasmo pelos mercados financeiros, antes que ficassem claras as difíceis pré-condições para que essa união fosse criada, incluindo-se aí o espinhoso tema da redefinição das responsabilidades e da estrutura do BCE para administrar essa iniciativa.

Na ausência de medidas concretas no período de férias, pequenas ondas, marolinhas mesmo, foram sendo criadas, ora por alguma declaração do presidente do BCE, Mario Draghi, ora por críticas de autoridades monetárias alemãs, sempre hostis a qualquer medida que envolva o BCE alem do previsto nos seus estatutos de criação, ora por acenos de líderes políticos, ou rumores de acenos dos mesmos líderes, etc.
A partir deste mês, se aproxima a hora da verdade para a zona do euro. Por um lado, uma pressão cada vez mais forte vai se acumulando sobre a Grécia com o objetivo aparente, mas sempre negado, de forçá-la a pedir sua saída da área e, talvez, até mesmo da União Europeia. Os estatutos da UE e do euro não preveem a possibilidade de excluir membros. O caminho preferido dos membros mais fortes seria certamente receber um pedido de saída por parte da Grécia, e sabe-se lá quem mais, de modo a marcar de modo claro a responsabilidade por essa saída. Seria impossível entender de outra forma, não só a insistência da troica em exigências que obviamente não podem ser satisfeitas como também ao aumento periódico de demandas sobre o país.

Mas se a Grécia é o exemplo mais extremo, certamente não é o único. A população de Portugal, por exemplo, se prepara para conhecer nos próximos dias as medidas adicionais o governo local que terá de tomar para cumprir as metas impostas pela troica como preço para seu apoio, que, sem nenhuma surpresa, deixaram novamente de serem atingidas. Espanhóis vivem na expectativa de novos anúncios de cortes em serviços públicos, aumentos de impostos e, naturalmente, de novas quedas de seu Produto Interno Bruto (PIB). À sucessão infernal de contração da demanda pública e aprofundamento da recessão e do desemprego, que impedem o cumprimento de metas fiscais e levam a nova contração de demanda pública e assim por diante, a UE tem pouco a oferecer senão a perspectiva de novos sacrifícios e novas exigências sobre países que já se debatem em crises profundas.

Por quanto tempo ainda? Impossível saber, até pelas incertezas políticas envolvidas, mas a certeza vai crescendo que o tempo está acabando para que alguma solução possa ser encontrada. A própria percepção de que talvez o euro e até mesmo a própria UE não tenham saída pode levar a uma rápida deterioração da situação e a uma ruptura de grandes proporções.
A economia americana teve até agora um 2012 melhor que a UE, exibindo uma pequena redução na taxa de desemprego e uma expansão do produto positiva, ainda que pequena e claudicante. No entanto, espera-se a virada do ano com certo tremor, pela enorme (e quase inacreditável) ameaça do chamado penhasco fiscal ("fiscal cliff"). Em dezembro expiram as reduções de impostos decididas pelo ex-presidente Bush em favor de grupos de renda mais alta com as adições adotadas pelo presidente Obama, que beneficiaram setores da classe média. Enquanto o segundo quer eliminar os benefícios concedidos por Bush aos mais ricos, mantendo a redução para a classe média, os republicanos não aceitam a medida nesses termos. O impasse pode levar simplesmente ao termino do prazo da validade das medidas de redução dos impostos, aumentando de modo importante a tributação das pessoas físicas.

Por outro lado, também no início de 2012 deverão entrar em vigor cortes de despesas públicas em face da incapacidade da comissão bipartidária criada pelo atual presidente para sugerir medidas de reequilíbrio fiscal em chegar a propostas consensuais politicamente aceitáveis.

Finalmente, voltará a novela da ampliação do teto da dívida pública americana que, se impedida, implicará o estrangulamento dos gastos públicos no país. Se tudo der errado, como é perfeitamente possível, já que a mesma causa, o impasse político dos últimos anos gerado pela radicalização do partido Republicano na defesa de teses extremistas, responde pelas três ameaças, a frágil recuperação da economia americana enfrentará um obstáculo possivelmente fatal, e o "duplo mergulho", isto é, a queda em uma nova recessão, se tornará inevitável.

As consequências para a economia mundial de uma coincidência de tragédias econômicas, na UE e nos Estados Unidos, seriam provavelmente arrasadoras e teriam impactos duradouros.

Um colapso do euro é, porém, relativamente improvável. Embora seja dolorosamente claro para qualquer um que siga o desenrolar da crise que as lideranças políticas da região não tenham o estofo necessário para pensar e implementar alguma política mais ousada, seja na direção da federalização, seja na direção da definição de instrumentos de administração da crise mais eficazes, elas têm alguma prática no anúncio de paliativos que tem permitido o adiamento repetido de impasses fatais e não há razão para supor que o arsenal tenha se esgotado de forma permanente.

Já a probabilidade de queda no "penhasco fiscal" nos Estados Unidos é muito mais difícil de avaliar, dada a influência que elementos largamente irracionais tem tido no debate político daquele país. Parece se alimentar da desfuncionalização do Estado americano a principal ameaça de colapso da economia. A importância de posturas irracionais, de diagnósticos no mínimo malformulados, mas mais provavelmente simplesmente falsos, e a desintegração política que vem definindo aquele país aos olhos do mundo tornam quase impossível fazer qualquer previsão mais segura.

Otimistas dirão que alguma coisa será feita, nem que seja no último minuto. Se esta é a esperança, porém, as chances de sucesso são pequenas, porque a economia, e mais especialmente os mercados financeiros não esperam por "últimos minutos", são as expectativas desses últimos momentos que contam, e elas são formadas, e se tornam decisivas, muito antes.

De qualquer forma, a existência de ameaças excepcionais não deve desviar a atenção dos analistas de que evitar o desastre não significa que a conjuntura internacional vá passar por alguma melhora significativa, mas, sim, apenas que uma ruptura explosiva talvez possa ser evitada. Em caso positivo, as economias, tanto da UE quanto dos Estados Unidos, devem seguir sua trajetória de semiestagnação enraizada na crise financeira de 2008.


Devem restar poucas dúvidas, em 2012, que a economia mundial se debate numa depressão. Em profundidade, extensão e duração, a crise iniciada no setor financeiro americano em 2007, que se espraiou pelo mundo em 2008, especialmente após a quebra do Lehman Brothers, só se compara à da década de 1930. Como nos anos 30, uma crise financeira de graves proporções parece desarmar os mecanismos espontâneos com que uma economia empresarial conta para se recuperar de recessões, no que se chama usualmente de "crises cíclicas". Uma depressão é caracterizada exatamente pela paralisia desses mecanismos e pela perpetuação de uma situação de semiestagnação.

O crescimento não é impossível, mas é incerto e frágil, sempre ameaçado por bombas-relógio plantadas na economia. É conhecido como a preocupação do presidente americano Roosevelt com déficits públicos o levou a superestimar a extensão em que a economia americana tinha se recuperado da queda de 1931 a 1933, e a adotar políticas de austeridade fiscal que jogaram o país em nova crise, da qual só saiu com o início da Segunda Guerra. O Japão, nos anos 1990 e 2000, repetiu o mesmo erro, mais de uma vez.

Mas não são apenas os impactos sobre finanças públicas que importam. A destruição de riqueza financeira de famílias, firmas, bancos, e até mesmo governos, passa a inibir duravelmente seus gastos, impedindo qualquer recuperação significativa de demanda agregada.

A única grande esperança que parece restar é a demanda externa, por mais que pareça (seja) absurdo imaginar que todos os países possam ter exportações líquidas positivas.

Finalmente, o aumento de alavancagem a que todos, famílias, firmas, bancos e governos, recorreram no tempo das vacas gordas finalmente apresenta sua conta. Os que sobrevivem, levam muito tempo para recuperar qualquer forma de vida normal.

Nesse contexto, tornam-se visíveis e urgentes desequilíbrios entre setores da economia, regiões, países mesmo, como no caso da UE, que permaneciam ocultos. À periferia da zona euro, por exemplo, cuja prosperidade se assentava no endividamento externo, agora sem financiadores a quem recorrer, só resta o caminho eufemisticamente chamado de "desvalorização doméstica". Impedidos de desvalorizar a moeda nacional, que já não existe, só lhes resta a saída de reduzir seus custos de forma a superar o enorme gap de competitividade que sofrem.

Na falta de qualificação de sua mão-de-obra, o que resta a gregos, portugueses, e mesmo, ainda que em grau um pouco menor, espanhóis, italianos e outros periféricos para reduzir seu custo de produção? O rebaixamento de salários até o ponto em que os produtos produzidos nesses países possa se tornar competitivo com o que é produzido nos países líderes.

Países que têm sua própria moeda usufruem, nesse processo, de vantagens, especialmente com a possibilidade de desvalorização cambial, mas em um mundo em prolongada e profunda contração, o comércio exterior não é mais que uma dança de cadeiras em que, sempre, alguém tem de sair perdendo.

Em suma, não há razão para supor que qualquer forma de normalidade venha a ser recuperada na economia mundial em menos do que quatro ou cinco anos, provavelmente ainda mais. Não se pode esquecer que a outra depressão só foi resolvida por um grande choque exógeno de demanda, o início da Segunda Guerra. Mesmo o melhor cenário, aquele em que autoridades europeias subitamente iluminadas consigam construir modos de administração da crise do euro de modo mais construtivo e em que autoridades norte-americanas milagrosamente iluminadas consigam romper o impasse que mantem paralisado o governo do país nos últimos anos, permanece muito ruim, o de atividade econômica em expansão lenta e incerta, sujeita a interrupções constantes, sempre ameaçada por novas crises.

Em um cenário assim, é improvável que a China possa repetir o papel que teve na primeira fase da crise, de locomotiva, pelo menos para alguns países, inclusive o Brasil. Forçada a relativizar a ênfase em mercados externos que se mostram extremamente claudicantes, a China parece voltar-se para seu mercado interno como motor de crescimento, mas não é pacífico que essa estratégia possa sustentar as taxas de crescimento que o país precisa para manter sua estabilidade política e social.
Nesse quadro, as perspectivas para o Brasil no futuro próximo não podem deixar de ser preocupantes. A ênfase no mercado doméstico é destino, mais do que escolha. Não se pode descurar das exportações, até mesmo para poder pagar pelas importações necessárias sem aumento excessivo do nosso passivo externo que possa, no futuro, por em risco nossa segurança, mas a dependência das exportações de matérias primas não nos augura um futuro próspero e a sobrevalorização do real nos impede de brigar de forma efetiva por espaço na arena internacional.

Por outro lado, voltar-se para o mercado interno implica dinamizar investimentos e repensar a ênfase dada pelo consumo (especialmente aquele financiado por endividamento) nos últimos anos. Esse gênero de estratégia não acelera nossa acumulação de capital, não aumenta nossa produtividade e competitividade, não estimula de forma eficaz o tipo de investimento que o país precisa nesta hora e fragiliza a economia. O consumo deve crescer, mas induzido pela expansão de investimentos e não pelo endividamento. O anúncio recente de uma estratégia para estimular investimentos em infraestrutura, nesse sentido, é um bom augúrio, esperemos que represente uma nova compreensão do que o país necessita e não se esgote nessa iniciativa.

Em outra série como esta do Valor, eu enfatizei minha preocupação com o futuro que minha neta Carolina viria a ter de enfrentar. Essas preocupações, se mudaram desde então, se tornaram mais aflitivas (e agora não só com o futuro de Carolina, mas também de Daniel, meu neto que está para chegar).

O Brasil tem o privilégio de contar com um mercado interno promissor. Resta saber se teremos a perícia necessária para concretizar essa promessa.

Fernando Cardim de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Jackson Hole, Wyoming, 2012!



Por Antonio Delfim Netto - Valor 11/09

Os que se interessam pelo desenvolvimento da teoria econômica têm dois momentos anuais da maior importância: 1) a reunião da American Economic Society, onde se explora todo o campo; e 2) a Conferência Anual de Jackson Hole, no Estado de Wyoming, promovida pelo Federal Reserve Bank of Kansas City, onde se analisam, especificamente, os problemas monetários. A última dessas, com o título significativo de "The Changing Policy Landscape", ocorreu entre os dias 31 de agosto e 1º de setembro.

Como é tradição, o chairman do Fed, no caso Ben Bernanke, abriu o simpósio. Fez longa e cuidadosa defesa da política do "quantitative easing". Analisou seus custos e benefícios. Afirmou que ela aumentou em 3% o PIB americano e empregou pelo menos 2 milhões de trabalhadores com custos relativamente pequenos. A firmeza da sua conclusão leva à crença de que ele está preparando um novo "round".

Não é exagerado dizer que o "espírito" da conferência foi relativamente crítico à ação do Fed. Os economistas mais à esquerda (a ideologia emergiu com força na discussão), criticaram o Fed por não ter feito o que deveria fazer. Os mais à direita, centraram sua crítica no que chamam de "excessivo ativismo" do Fed. Talvez a melhor síntese desse debate tenha sido a afirmação do competente Adam Posen, quando afirmou que as dificuldades da política monetária não estavam na "estrutura da economia", mas na falta de coragem de utilizá-la de forma mais ampla e diferente, por conta de "tabus autoimpostos" produzidos por uma forma de pensar "pré-histórica"...

Importante contribuição ao simpósio foi o artigo "The United States Labor Market: Status Quo or A New Normal?", de E.P. Lazear e Spletzer, J.R., que esclareceu a dúvida se o alto nível de desemprego seria estrutural ou conjuntural, concluindo, convincentemente, que ele é conjuntural.

Por que isso é importante para a crítica da política monetária? Pela simples e boa razão que a "conjuntural" está ligada à demanda global, potencialmente controlada pelo Fed, que não o fez. Pelo contrário, mais de uma vez seus modelos sugeriam que, diferentemente das outras crises, na de 2007-2008 a recuperação do emprego seria mais lenta, porque seria estrutural. O trabalho de Lazear e Spletzer desmontou essa tese e sugere que o Fed, de fato, fez menos do que podia e do que devia.

O trabalho mais importante, sugestivo e mais longo (nada menos do que 97 páginas) é de autoria do professor Michael Woodford (o guru de muitos de nossos economistas), adjetivado com exagero (na minha modesta opinião) como "o maior economista monetário do mundo da sua geração". A grande verdade é que, antes de 2007, os modelos monetários de Woodford não incluem nem a moeda, nem o crédito! Mas ele tem se vingado. Desde então tem feito um sério e competente esforço para incluí-los!

O ponto interessante é que o trabalho de Woodford contraria diretamente as proposições de Bernanke acima referidas. Para ele, o "quantitative easing" teve um efeito modesto e de difícil quantificação e, o que é pior, nem era teoricamente robusto. Isso fortaleceu a posição dos que afirmam que o Fed de Bernanke não teve imaginação, nunca foi afirmativo o bastante e sempre chegou tarde...

Mas a parte mais interessante e analiticamente mais forte do trabalho é a adesão de Woodford à conveniência do Fed de fixar, como objetivo, o Produto Interno Bruto Nominal (o GDPN). Uma ideia antiga, explorada nos anos 70 pelo grande James Mead (Nobel de 1977) e reativada pelos "economistas-blogueiros", que hoje constroem, criticamente, em tempo real, novos conhecimentos econômicos. Dentre eles, temos o nosso competente João Marcus Marinho Nunes.

No fundo, o simpósio foi um apelo à realidade. Pode haver dúvidas sobre as consequências e a potência do "quantitative easing" para enfrentar a crise criada pelo desastre do sistema financeiro desregulado, mas não pode haver dúvida sobre:
1) o desemprego continua alto e não dá sinais de que diminuirá. E o Fed continua a não saber se ele é estrutural (contra o qual ele nada pode fazer) ou conjuntural, contra o qual ele acha "que já fez o que podia"!;

2) a taxa de inflação está mais do que comportada e, a despeito dos choques de oferta, não apresenta sinais de que vai deixar de sê-lo;

3) a taxa de crescimento é medíocre e sua perspectiva nada brilhante.

Tudo isso indica que a política monetária de fato produziu efeitos pífios, além de comprometer o equilíbrio fiscal. É hora de mudar. De derrubar os "tabus autoimpostos". De esquecer o pensamento monetário "pré-histórico", que tem condicionado a política de todos os bancos centrais. É hora de inovar, como fez Woodford - sem dúvida com muita dificuldade para vencer suas velhas ideias. Isso só acontece nos momentos em que "o mesmo de sempre" prova definitivamente sua inadequação.

A política proposta por Woodford é "manter a taxa de juros baixa até que o PIB nominal volte ao que seria sem a crise", porque o "modelo neokeynesiano standard implica que um alto nível de PIB real esperado, ou de inflação, no futuro, cria incentivos para o aumento do PIB real e dos preços no presente", recuperando o crescimento.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Rumo à Selic de 5% - Amir Khair - Estadão

Rumo a 5% - economia - versaoimpressa - Estadão

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os jornais e a internet


Valor 10/09

Três dias de discussões e apresentações sobre experiências de veículos de comunicação de todo o mundo não deixam dúvida. Os jornais terão de investir mais e mais em inovações em meios digitais, a despeito de os resultados financeiros obtidos até agora nessas plataformas serem insuficientes para compensar as perdas de publicidade e receita de circulação nos jornais. Para dois terços de 150 veículos consultados em todo o mundo pela Associação Mundial de Jornais (WAN, na sigla em inglês), as plataformas digitais respondem por menos de 10% do faturamento com publicidade. O número foi divulgado durante o 64º Congresso Mundial dos Jornais e o 19º Fórum Mundial de Editores, realizados simultaneamente na semana passada em Kiev, na Ucrânia.

A conta dos investimentos em inovação e criação de plataformas e aplicativos de distribuição de conteúdo digital continua sendo paga pelas edições impressas. No ano passado, após um 2010 de declínio, a circulação de jornais (pagos e gratuitos) voltou a crescer. Metade da população adulta do mundo lê ao menos um jornal por dia. São 2,5 bilhões de exemplares diários, em comparação com 600 milhões de edições digitais. Uma análise mais detalhada dos números, porém, mostra que essa expansão está fortemente concentrada na Ásia (Índia e China), enquanto em países de economia madura as vendas de jornais continuam caindo. Na Europa Ocidental e América do Norte a circulação caiu 17% nos últimos cinco anos. Na América Latina, cerca de 3%. As vendas de publicidade em edições impressas também não são animadoras: entre 2007 e 2012, a receita publicitária em jornais caiu de US$ 128 bilhões para US$ 96 bilhões.

A difícil equação entre queda na receita publicitária e de venda de jornais impressos e a necessidade de investimentos maciços em inovação tem levado as empresas de comunicação a mudarem suas estratégias de negócios. O conteúdo, antes gratuito na web, está cada vez mais atrás de muros de pagamento, os chamados "paywalls". É uma maneira de equilibrar as receitas entre venda de publicidade - que é muito mais barata nos meios digitais - e venda de assinaturas. No "The New York Times", que adotou no ano passado o "paywall", inspirado por modelos do "The Wall Street Journal" e do "Financial Times", já são 500 mil assinaturas puramente digitais, em comparação com 700 mil do impresso.
"Estamos chegando a um período em que os jornais não mais serão rentáveis. Em contrapartida, também estamos próximos de um novo modelo de negócio", afirmou Greg Hywood, principal executivo da Fairfax Media Limited, da Austrália. Essa empresa decidiu reduzir de forma planejada as vendas da edição impressa e fechar a gráfica na qual havia investido US$ 500 milhões, há dez anos, para jogar as fichas na área digital. "Se se consegue aumentar a receita de publicidade e de assinatura digitais e se livrar dos custos de impressão e distribuição, o negócio torna-se viável", disse Hywood, que prevê o dia em que não será mais rentável imprimir jornais.

A mudança de mentalidade em relação ao conteúdo gratuito nos meios digitais ganhou força com o lançamento do iPad, no início de 2010. O conceito de loja de aplicativos mostrou que há disposição das pessoas em pagar pelo conteúdo. Por outro lado, o tablet trouxe mobilidade de fato à edição impressa. Pesquisa apresentada no congresso da WAN indica, por exemplo, que os leitores veem os aplicativos muito mais como uma extensão do jornal impresso do que como extensão da web. "E quem vê os aplicativos dessa forma está disposto a pagar mais por ele", disse Florian Bauer, fundador da Vocatus AG, da Alemanha.

A relação do tablet com a edição impressa também foi detectada pelo "The Telegraph", que lançou sua primeira versão do aplicativo em setembro de 2010 e uma segunda em maio de 2011, paga. "Nos seis meses em que o aplicativo permaneceu gratuito, oferecido por um patrocinador, fizemos uma extensa pesquisa com os leitores. Eles nos disseram que queriam um produto mais próximo do jornal, que publicasse uma seleção das notícias mais importantes e que tivesse anúncios de página inteira, em vez dos tradicionais banners da internet."

A análise dos dados de tráfego do aplicativo do "Telegraph" indica ainda que, no tablet, o hábito de consumo de notícias é diferente. Há um pico pela manhã e outro após as 6h da tarde, com o fim do expediente - um quadro reforçado por vários executivos em apresentações na Ukrainian House, no centro de Kiev. É um horário de leitura mais relaxado, que permite o consumo de textos mais longos e também de produtos anunciados em publicidade.
"Temos que entender como são consumidas as notícias", afirmou Mario Garcia, CEO da Garcia Media, especializada em design de publicações. "Você vai tomar a sopa, tanto faz se de pé na cozinha ou na sala de jantar. O importante é como você vai apresentar a notícia em cada plataforma", disse ele. Enquanto na internet e no celular as pessoas querem ler notícias resumidas, pois são plataformas para se ler de forma rápida, o tablet, à semelhança do jornal, é para a leitura de maior reflexão, ou para ler histórias que de alguma forma surpreendam.

O tablet, porém, não é suficiente para indicar que os meios de comunicação encontraram a saída. Um ponto de atenção é o fato de que ele não é exatamente um produto para jovens. A idade média dos leitores do aplicativo de notícias do "Telegraph", por exemplo, é de 50 anos, inferior à dos assinantes da versão impressa, mas ainda assim superior à do leitor do site (42) e dos aplicativos de smartphones (35). É por isso que, embora estejam felizes com os resultados que vêm obtendo com os tablets, os "publishers" estão com seus olhos voltados para os celulares com acesso à internet. Os smartphones são considerados a nova onda da revolução que vem ocorrendo na distribuição de conteúdo noticioso.

Em 2020, cerca de 3 bilhões de pessoas em todo o mundo estarão conectadas à internet via celulares, segundo Earl Wilkinson, presidente executivo da International Newsmedia Marketing Association (INMA), com base em dados do livro "Abundance". Em poucos anos prevê-se que todo cidadão estará conectado com algum tipo de dispositivo móvel. Tor Jacobsen, CEO da VG Mobile, do grupo Schibsted, da Noruega, observa que o celular é muito importante para empresas de mídia porque "ele é de uso muito pessoal, está em todo lugar e é usado o dia todo". Mas não basta transpor o modelo do tablet para o aplicativo do celular. No tablet, a leitura é mais imersiva. No celular, é de utilidade, de consumo rápido, fragmentado. Por conta dessa fragmentação, há quem acredite que o modelo de "paywall" não se aplica aos celulares. "Estamos gastando energia em colocar muros em plataformas móveis", diz Raju Narisetti, editor executivo do americano The Wall Street Journal Digital Network. Mais uma vez, os jornais terão que investir para encontrar o modelo de negócio que pode ser aplicado aos celulares e também para capturar a atenção desse público de consumo de conteúdo fragmentado. O lado bom da história, diz Jacobsen, é que a experiência tem mostrado que os dispositivos móveis também são muito mais efetivos para os anunciantes do que o impresso e a internet.

Mas não basta transpor o modelo do tablet para o aplicativo do celular. No tablet, a leitura é mais imersa. No celular, é de utilidade, de consumo rápido. Mais uma vez, os jornais terão que investir para capturar a atenção desse público. O lado bom, disse Jacobsen, é que a experiência tem mostrado que os dispositivos móveis também são muito mais efetivos para os anunciantes do que o impresso e a internet.

Com edições impressas, sites, aplicativos para tablets e também para celulares, os veículos de comunicação têm atingido uma audiência cada vez maior. Na Austrália, por exemplo, os produtos da Fairfax são consumidos por 40% da população do país, um recorde absoluto na história da companhia. Gerenciar esses produtos todos, porém, tornou-se muito mais complexo.

Conhecer quem consome o que, em qual horário, com que tipo de interação e com que resultados para os anunciantes são dados vitais para que empresas otimizem seus recursos e esforços. As áreas de análise desses dados, o "data analytics", ganharam novo status nas companhias. As estratégias contribuem para aumentar a audiência e a fidelidade dos leitores, a transformá-los em assinantes e a torná-los consumidores pagantes de vários produtos, de acordo com Laura Evans, chefe da área de análise de dados da Dow Jones nos Estados Unidos. Um de seus trabalhos tem sido olhar os números não apenas para entender o passado, mas para fazer previsões - e estabelecer metas - para o futuro em vários segmentos das companhias de mídia, do editorial ao comercial.

A necessidade de conhecer profundamente seu consumidor para saber pelo que ele se interessa pode parecer óbvia para a maior parte dos setores industriais e comerciais. Para a indústria de jornais, entretanto, é mais uma mudança cultural enfrentada nos últimos anos. Quando o foco era exclusivamente nas edições impressas, a principal fonte de receita era a venda de anúncios. As assinaturas respondiam por uma parte bem menor do faturamento. Conhecer o público, portanto, era uma necessidade para poder vender publicidade. A qualificação do leitor indicava que tipo de anunciante poderia ser atraído. Agora, com o crescimento cada vez maior das assinaturas digitais e de sua importância no mix de faturamento, é preciso entregar exatamente o que ele precisa. O foco passa a ser o leitor e a experiência do usuário.

Conhecer como o leitor interage com o conteúdo, seja ele texto, foto, vídeo, comentário, infografia ou um post em uma rede social, é uma das grandes facetas dessa nova cultura. Mas a mudança vai além. Há consultores que têm ajudado as empresas de comunicação a entender como age psicologicamente um leitor ao escolher uma entre as várias opções atuais de pacotes de assinaturas. Bauer, da Vocatus, por exemplo, citou dados da revista "The Economist" para mostrar como a psicologia afeta a decisão de compra. A revista inglesa fez dois testes. No primeiro, ofereceu sua versão digital (e-paper) por US$ 59 anuais, sua versão impressa por US$ 125 e um combo com os dois produtos por US$ 125 anuais. No fim, 84% dos leitores optaram pelo combo, 16% pela primeira opção, do e-paper, e nenhum pela assinatura apenas da edição impressa.

No segundo teste, entretanto, quando se excluiu a opção da edição exclusivamente impressa, já que ninguém havia optado por ela, o resultado foi completamente diferente: 68% dos leitores escolheram ficar com a alternativa mais barata, de US$ 59 apenas para o e-paper. Apenas 32% ficaram com o combo. "Isso mostra como montar os combos, os pacotes, passou a ser um dos principais desafios das companhias", afirmou Bauer.

A inflação está de volta?



Por Martin Feldstein - Valor 10/09

A inflação está, atualmente, baixa em todos os países industriais e a combinação de elevado desemprego e lento crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) elimina as habituais fontes de pressão sobre os preços. No entanto, os investidores financeiros estão cada vez mais preocupados que a inflação vá, finalmente, começar a subir, devido à grande expansão das reservas dos bancos comerciais engendradas pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) e pelo Banco Central Europeu (BCE). Alguns investidores recordam que um aumento da inflação normalmente acompanha a expansão monetária, e temem que dessa vez não seja diferente.

Os investidores reagiram a esses temores comprando ouro, terras agrícolas e outros seguros tradicionais contra a inflação. O preço do ouro atingiu recentemente um pico em quatro meses e está se aproximando de US$ 1,7 mil por onça. O preço por acre de terra em Iowa e Illinois subiu mais de 10% em relação ao ano passado. E a recente divulgação de minutas da diretoria do Fed, que sinaliza suporte a uma nova rodada de flexibilização quantitativa, provocou fortes saltos nos preços do ouro, prata, platina e de outros metais.

Mas, ao contrário dos investidores privados, as autoridades do Fed insistem em que, desta vez, realmente será diferente. Eles salientam que a enorme expansão das reservas dos bancos comerciais não produziu um aumento comparável na oferta de moeda e de crédito. Embora as reservas tenham aumentado a uma taxa anual de 22% nos últimos três anos, a base monetária ampla (M2), que mais de perto acompanha o PIB nominal e a inflação durante longos períodos de tempo, cresceu menos de 6% nos mesmos três anos.

Em décadas recentes, grandes expansões das reservas bancárias causaram surtos de crédito que ampliaram a oferta monetária e alimentaram o crescimento de gastos inflacionários. Mas, agora, os bancos comerciais estão dispostos a manter seu excesso de reservas no Fed, que hoje paga juros sobre os depósitos. O BCE também paga juros sobre os depósitos, e por isso também pode, em princípio, evitar que o crescimento das reservas resulte numa explosão indesejada de empréstimos.

A capacidade do Fed de pagar juros é crucial para o que denomina sua "estratégia de saída" da flexibilização quantitativa anterior. Quando a recuperação econômica começar a acelerar, os bancos comerciais desejarão usar o grande volume de reservas que o Fed criou para conceder empréstimos a empresas e consumidores. Se o crédito crescer muito rapidamente, o Fed poderá elevar a taxa de juros que paga sobre os depósitos. Juros suficientemente altos induzirão os bancos comerciais a preferir a combinação de liquidez, segurança e rendimento proporcionada pelo Fed a expandir o volume de empréstimos privados.

Isso, de todo modo, é a teoria, ninguém sabe como funcionaria na prática. Até que nível o Fed - ou, a propósito, o BCE - teria de elevar os juros sobre os depósitos para evitar um crescimento excessivo do crédito bancário? E se a taxa de juros tiver de ser de 4% ou 6% ou mesmo 8%? Será que o Fed e o BCE elevarão suas taxas sobre os depósito a níveis tão altos, ou será que isso permitiria um crescimento rápido e potencialmente inflacionário dos empréstimos?

A natureza incomum do desemprego atual amplia ainda mais o risco de inflação futura. Quase metade dos desempregados nos EUA, por exemplo, já estão sem trabalho há seis meses ou mais, acima da tradicional mediana de duração do desemprego, de apenas 10 semanas. Os desempregados em longo prazo levarão bem mais tempo para serem recontratados, à medida que a recuperação da economia avançar, do que as pessoas desempregadas por um período de tempo muito mais breve.

O risco, portanto, é que os mercados de produtos fiquem apertados enquanto ainda houver elevado desemprego mensurado. A inflação começará nos mercados de produtos, e não no mercado de trabalho. As empresas vão querer tomar empréstimos e os bancos desejarão expandir seus empréstimos. Sob essas condições, o Fed desejará elevar os juros para evitar uma aceleração da inflação.

Mas, se a taxa de desemprego for, nesse momento, ainda relativamente elevada - por exemplo, acima de 7% - alguns membros da Comissão de Open Market do Fed poderão argumentar que a dupla missão do Fed - baixo desemprego e baixa inflação - implica ser cedo demais para subir os juros.

Poderá haver também forte pressão do Congresso americano para que não haja um aumento dos juros. Apesar de a "independência" legal do Fed implicar que a Casa Branca não pode ditar ao Fed o que fazer, o Fed é totalmente responsável perante o Congresso. A recente lei Dodd-Frank, de reforma financeira, eliminou alguns dos poderes do Fed, e o debate legislativo em torno do projeto de lei indicou que poderá haver amplo apoio para restrições adicionais, se o Congresso não gostar da política do Fed.

O desejo dos políticos de manter as taxas de juros baixas para reduzir o desemprego evidencia, muitas vezes, tensões em face da preocupação do Fed no sentido de agir oportunamente para manter a estabilidade de preços. Dessa vez, o grande número de desempregados em longo prazo poderá tornar o problema mais difícil, fazendo com que a taxa de desemprego permaneça elevada, mesmo quando os mercados de produtos começarem a experimentar um aumento da inflação.

Se isso acontecer, as autoridades do Fed terão de enfrentar uma escolha difícil: ou apertar a política monetária para conter o crescimento da aceleração dos preços, contrariando, assim, o Congresso, e, possivelmente, enfrentando restrições que dificultarão o combate futuro à inflação ou nada fazer. Quaisquer dessas opções significará uma taxa mais elevada de inflação futura, como temem os mercados financeiros.

Apesar de o BCE não ter de prestar contas diretamente a um poder legislativo, está agora claro que existem membros em seu Conselho Diretor que se opõem a taxas de juros mais altas e que existem pressões políticas de líderes governamentais e ministros das Finanças no sentido de manter as taxas baixas.

Um crescimento da inflação não é, certamente, inevitável, mas, tanto nos EUA como na Europa, tornou-se um risco a ser reconhecido. (Tradução de Sergio Blum)



Martin Feldstein é professor de economia em Harvard, foi presidente do conselho de assessores econômicos do presidente americano Ronald Reagan e do Gabinete Nacional de Análises Econômicas dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O polo de irradiação da Otan



Por Richard Weitz - Valor 06/09

O que deve fazer uma aliança quando seu membro líder decide reposicionar seu foco no outro lado do mundo? Os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vêm se debatendo com essa questão desde que presidente dos EUA, Barack Obama anunciou sua mudança de foco - agora na Ásia - no ano passado, obrigando-os a examinar o papel mundial da Aliança.

Os líderes da Otan têm examinado com atenção as relações com países como a China e a Rússia, que ainda veem a Otan como uma possível ameaça e não como um parceiro genuíno. E eles tiveram de considerar a possibilidade de engajar-se em mais missões além do Atlântico Norte, como as assumidas no Afeganistão, onde 22 países - entre eles El Salvador, Malásia, Mongólia, Cingapura e Tonga - mobilizaram forças sob o comando da Força Internacional de Assistência à Segurança, da Otan.

Desde a cúpula da Otan em Chicago, em maio, seus líderes têm se empenhado em tornar claro que o papel de segurança mundial da Aliança se estende para além do Afeganistão. Eles reafirmaram a importância da defesa coletiva, o que reforça sua capacidade de enfrentar os desafios de segurança - mesmo em tempos de austeridade econômica - em regiões externas ao Atlântico Norte, mais visivelmente na África (na Líbia e no Golfo de Aden).

De fato, no ano passado, mais de 150 mil soldados controlados pela Otan estavam envolvidos em seis operações em três continentes. E a maioria dos novos recursos que a Otan está adquirindo destinam-se a reforçar sua capacidade expedicionária, em vez de suas tradicionais defesas convencionais.

Os defensores da expansão das atividades extrarregionais da Aliança enfatizam que, embora a Otan seja uma aliança regional, enfrenta ameaças em âmbito mundial que só podem ser enfrentadas com ampla cooperação internacional. Eles esperam contornar a resistência a esse papel expansionista desenvolvendo um portfólio flexível de parceiros internacionais, e não afirmando predomínio fora da região do Atlântico Norte.
A Otan está, de certa forma, tornando-se mundial, ao forjar parcerias com países tão distantes quanto o Japão e a Austrália para participar de atividades de segurança em lugares tão remotos quanto a Ásia Central, a África e o Ártico. Essas novas parcerias beneficiam ambas as partes: os parceiros fazem contribuições concretas valiosas para o sucesso da aliança, enquanto esta melhora a sua segurança.

Apesar de alguns contratempos, as campanhas extra-regionais da Otan podem servir como evidência convincente de que a aliança é a única instituição de segurança multinacional capaz de conduzir operações de combate sustentadas e de alta intensidade em todo o mundo. Na Líbia e no Golfo de Aden ela reuniu ativos militares dos membros e contribuições de outros parceiros. A participação de tropas da Austrália, Coreia do Sul, Catar, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, entre outros, e o papel de liderança das Nações Unidas e da Liga Árabe na legitimação dessas campanhas demonstrou o papel emergente da Otan como polo de irradiação de uma rede mundial de parcerias.
Desde que assumiu o cargo em agosto de 2009, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, tem abraçado esse papel, argumentando que as principais ameaças de segurança à aliança derivam de desafios em âmbito mundial: estados inoperantes em regiões em desenvolvimento, cibercrime internacional, redes terroristas, proliferação de armas de destruição em massa, pirataria marítima, perturbações no suprimento de energia e mudanças climáticas. Assim, o novo conceito estratégico da Otan, adotado em novembro de 2010 durante a Cúpula de Lisboa, convida a aliança a tornar-se mais versátil para combater as novas ameaças de diversas fontes geográficas e tecnológicas.

Autoridades americanas abraçaram a visão de Rasmussen, citando sua lógica ao explicar seu foco na Ásia. Ao contrapor-se às ameaças de segurança mundiais que emanam da Ásia, eles estão protegendo seus aliados no Atlântico Norte.
Essas mudanças têm feito com que os observadores, particularmente fora da Europa, passassem a especular sobre a natureza da futura cooperação com a Otan. Será que ela assumirá um papel de liderança em missões de segurança coletiva, como no Afeganistão? Será que cooperará em parcerias com igual contribuição dos participantes, como ocorreu nos esforços para combater os piratas somalis? Ou será que estará disposta a desempenhar um papel de apoio, como com seu apoio logístico à União Africana e às Forças de Segurança iraquianas?

Além disso, essa "Otan mundial" tem gerado preocupações entre grandes potências. Embora ela possa contar com a Índia ou com o Brasil entre os seus futuros parceiros, China e Rússia continuam preocupadas com que essa organização possa prosseguir com uma estratégia de contenção mundial ou tentar marginalizar a ONU como instituição de segurança líder mundial.

Os líderes da Otan responderam a algumas dessas preocupações na cúpula de Chicago. Eles reafirmaram que, embora a Otan tenha adotado uma abordagem mundial à segurança, suas principais atividades externas à Europa e ao Afeganistão terão como principal componente um diálogo com parceiros ou, em casos especiais, medidas defensivas conjuntas com outras instituições de segurança sob mandato da ONU, como no Golfo de Aden. A Otan reconheceu o papel único da ONU na segurança mundial e enfatiza seu objetivo de colaborar com, e não substituir, a organização.

A cooperação da Otan com parceiros externos pode estender-se a questões como a gestão da mudanças climáticas e a promoção da segurança no Ártico e no ciberespaço. A aliança também poderá oferecer a novos parceiros algumas das ferramentas para reforma no setor de segurança que tem aplicado em países que pertenciam à União Soviética e, mais recentemente, no Oriente Médio, visando garantir que as forças armadas regionais respeitem os direitos humanos e as autoridades civis.

Mas os países da Otan apenas começaram a considerar quais políticas colocar em prática para enfrentar os desafios em âmbito mundial, quais recursos são necessários para atingir seus objetivos de segurança e como colaborar com instituições e países não ocidentais. Qualquer governo que espere beneficiar-se do novo papel mundial da Otan, ou que esteja preocupado com suas implicações, deveria ser envolvido na elaboração do processo. (Tradução de Sergio Blum)



Richard Weitz é pesquisador sênior e diretor do Centro de Análise Político-Militares no Instituto Hudson. Copyright: Project Syndicate, 2012.