terça-feira, 14 de agosto de 2012

Projeto nacional e greves do funcionalismo



Por Antonio Delfim Netto - 14/08

A censura frequente aos governos das últimas duas décadas é que eles não têm um "projeto": faltam medidas "estruturantes", seja lá o que isso for. Os críticos ignoram que desde a Constituição de 1988 (a maioria deles a abomina por suas "utopias"), o Brasil tem um "megaprojeto superestruturante"! Nela, os legítimos representantes do povo estabeleceram a organização social em que gostariam de viver os brasileiros.

Que projeto foi estabelecido na Constituição? Trata-se de organizar sólidas instituições que permitam a construção:

1º) de uma república, ou seja, um Estado no qual todos, inclusive os governos, estão sujeitos à mesma lei, sob o controle de um Supremo Tribunal Federal independente, que é o "garante" de nossas liberdades e o controlador da irresistível indiscrição dos governos de plantão;

2º) de uma democracia, isto é, um sistema de sufrágio absolutamente universal (para maiores de 16 anos) no qual escolhe-se o poder incumbente em períodos certos, em eleições livres organizadas por partidos e que satisfazem a condição mínima da democracia: eleições competitivas cujo resultado é incerto; e

3º) de uma sociedade onde se caminhe, permanentemente, na direção do aumento da igualdade de oportunidades. Em poucas palavras, a situação final dos indivíduos deve ser cada vez menos dependente das circunstâncias em que foram gerados. O que alguns veem como a mais utópica das propostas da Constituição de 1988: educação e saúde universais e gratuitas (não por obra dos céus, mas com recursos fornecidos proporcionalmente por todos), é o que há de mais importante na construção de uma sociedade razoavelmente "justa", objetivo fundamental para dar um mínimo de moralidade ao mecanismo do mercado.

Esses são os três vetores cuja direção todos os governos, desde 1988, têm seguido, com resultados razoavelmente satisfatórios, como provam recentes pesquisas internacionais (Pew Research Center, July 12,2012). Elas mostram que os brasileiros revelaram-se dos mais satisfeitos e com maior esperança de que o futuro será melhor do que o presente. Estamos desenvolvendo uma sociedade onde a liberdade de iniciativa, a inclusão social e o respeito às limitações impostas pela conservação da natureza estão sendo introjetadas no comportamento coletivo.

É muito importante reconhecer que a possibilidade de sua construção é condicionada pela qualidade de sua organização produtiva. Essa deve ser capaz de gerar os recursos que tornem possível realizá-la. No fundo, só o aumento físico e a melhoria organizacional da capacidade produtiva pode fazê-lo. Isso coloca um dilema: como administrar os resultados do processo produtivo (o PIB) entre o consumo presente e o investimento que aumenta a capacidade produtiva e o consumo no futuro? Um país como o Brasil precisa de um crescimento médio do PIB da ordem de 5% ao ano e isso só é sustentável com um investimento médio da ordem de 25% do PIB.

Para conseguir 25% do PIB, como investimento, temos de poupar (ou importar poupança externa) no mesmo nível. A contabilidade nacional é indiferente à ideologia, cara feia, passeatas ou ameaças sindicais! Trata-se de um problema aritmético. Por que o Brasil pôde crescer 7,5% ao ano, durante 30 anos (1948-1980)? Porque a carga tributária bruta era de 24% e o investimento público de 4% a 5%. Por que crescemos nos últimos 30 anos à média de 2,8% ao ano? Esqueçamos a "chinoiserie" enganadora e extravagante: insegurança jurídica, falta de instituições, produto potencial, intervenção nos mercados, incertezas externas, juros, câmbio que podem ter alguma responsabilidade. A razão fundamental é que com uma carga tributária bruta de 34% a 35% do PIB, o investimento público não chega a 2% dele!

Pois bem. O setor privado brasileiro continua investindo mais de 25% de sua renda líquida (PIB menos tributação, nas contas nacionais). Quem desinveste liquidamente é o governo! Agora ele se prepara para dar um passo avante e acelerar o crescimento por meio de investimentos da ordem de R$ 100 bilhões nos próximos cinco anos, em projetos de infraestrutura, com concessões mais bem estudadas e com taxas de retorno capazes de atrair, numa dura competição, o que há de melhor e de mais confiável na engenharia nacional. Eles elevarão o baixo investimento no setor sem sobrecarregar o orçamento federal (no qual não cabe o que já está lá dentro!) fazendo crescer a renda e o consumo imediatamente e ampliando a capacidade produtiva futura (a produtividade total da economia) quando estiverem executados.

O momento exige uma enorme responsabilidade do governo, que deve manter sadias as suas contas para não pressionar, na frente, a elevação da taxa de juros pelo aumento do déficit fiscal e o aumento da relação dívida pública bruta/PIB, que anda em torno de 65%. Gostemos ou não, esse é o parâmetro, seguramente imperfeito, pelo qual se mede, universalmente aquela relação que influi no "risco Brasil" e, no fim, na taxa de juros real interna.

A presidente Dilma tem absoluta razão quando diz que não se pode "brincar com as finanças públicas". Se quisermos continuar a crescer com estabilidade não podemos transigir com os aumentos salariais "exigidos" (sic) pelo funcionalismo sindical. É preciso que os 196 milhões de cidadãos "excluídos" apoiem fortemente, pela palavra e pela ação, a disposição do governo de resistir. É mais do que claro que o modelo da Constituição não se compadece com uma república sindicalista e muito menos ainda, uma república controlada pelo sindicalismo público!



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Insegurança jurídica na AL



Por Eduardo F. P. Matias - Valor 13/08

Um fantasma assombra a América Latina - o fantasma da insegurança jurídica. E ele vem assustando não apenas as empresas, mas também os cidadãos e até mesmo os próprios governantes, tanto no plano nacional quanto no regional.

Assusta as empresas, como ocorreu na Argentina quando o Congresso aprovou a expropriação da participação da Repsol na YPF e o vice-ministro da Economia afirmou que "segurança jurídica e ambiente de negócio são palavras horríveis", deixando claro que a empresa espanhola teria dificuldades em obter sua indenização. Isso, é claro, tem seu preço. O volume de capital estrangeiro aplicado na América Latina subiu 31% em 2011. Porém, enquanto ao Brasil foram destinados 43% do total, a Argentina recebeu apenas 5% desses recursos, e a Venezuela, 3,5%. Obviamente, a leitura desses números deve considerar a dimensão econômica de cada país - o que torna a comparação com o Brasil desigual. Mas o Chile, com PIB de US$ 248 bilhões, recebeu 11% dos investimentos externos, o dobro da Argentina e o triplo da Venezuela - com PIB de US$ 445 e US$ 316 bilhões, respectivamente.

Coloca temor também na população, como no caso da Venezuela, onde a Human Rights Watch constatou em relatório recente que o acúmulo de poder pelo Executivo e a eliminação das garantias institucionais permitem intimidar e censurar aqueles que se opõem aos interesses do governo. E a insegurança jurídica pode tirar o sono até dos próprios governantes, como descobriu o paraguaio Fernando Lugo ao ser deposto sem o adequado direito de defesa.

Ironicamente, no plano regional, a mesma Venezuela se aproveitou da suspensão do Paraguai para entrar no Mercosul. Claro que a saída do presidente paraguaio, se foi legal, foi pouco legítima. Mas os demais países membros do Mercosul, ao incluírem a Venezuela às pressas no bloco, também deram mostras de não levar tão a sério o devido processo legal.

Isso porque o Protocolo de Ushuaia (assinado em 24/6/1998 por Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, Bolívia e Chile reafirmando o compromisso democrático) estabelece a necessidade de consultas antes de suspender um membro no qual possa ter havido ruptura da ordem democrática. Essa suspensão é uma decisão grave, que mereceria maior discussão. Ainda mais quando ela acaba possibilitando a entrada de um novo integrante, o que, pelas regras do bloco, exigiria a unanimidade de seus membros.

É triste que a segurança jurídica seja vista como uma "palavra horrível" ou como um conceito a ser distorcido quando se opõe a interesses conjunturais. Ela é um princípio que visa garantir a estabilidade, a confiança e a previsibilidade nas relações entre o Estado e os cidadãos, assegurando que um direito não será alterado apenas em razão de certas circunstâncias ou conveniências. Está relacionada a outros princípios, como a coisa julgada, o direito adquirido e a irretroatividade da lei, que estabelecem que não se deve modificar relações jurídicas validamente consolidadas. Não é um conceito inventado para proteger grandes investidores, cidadãos privilegiados ou o grupo político que está no poder. Busca resguardar também as pessoas comuns, uma vez que garante, por exemplo, àquele que junta dinheiro a vida inteira para comprar uma casa que, caso esta seja desapropriada para alguma obra pública, isso será feito dentro da lei e lhe dará direito a uma indenização justa. Ou que aquele vereador de oposição de uma pequena cidade não terá o seu mandato cassado sem motivo. Ou que o país que assume determinadas obrigações em um processo de integração deverá ter, no mínimo, o direito a se defender quando for questionado por seus colegas de bloco, ainda que a legitimidade de seus atos possa ser considerada duvidosa.

Assim, se no plano nacional, a segurança jurídica é princípio constitucional, essencial para o Estado de Direito, internacionalmente, ela também deve ser perseguida e garantida. Os investimentos estrangeiros estão amparados não apenas pelo direito do país receptor, mas também em instrumentos como os tratados bilaterais de investimento e a arbitragem, que procuram propiciar o mesmo ambiente de confiança e estabilidade que deveria ser assegurado aos investidores nacionais. Os direitos humanos, igualmente, evoluíram na direção de garantir a sua proteção internacional, por meio de instituições como a Corte Interamericana de Direitos Humanos. E os blocos regionais contam com seus próprios mecanismos de proteção aos direitos de seus participantes.

Tanto no plano nacional quanto no regional ou internacional, a ideia de justiça está diretamente vinculada à de ordem, que deve ser assegurada pelas instituições. Está comprovado que o sucesso de uma civilização está diretamente relacionado à solidez de suas instituições. Admitir que estas são frágeis a ponto de não garantir a segurança jurídica seria reconhecer o fracasso. Talvez, até por isso, nenhum país ou região menosprezem esse princípio de forma ostensiva, ou se gabem de não lhe dar valor - mesmo aqueles onde a segurança jurídica de fato não existe. Pelo menos não até estas declarações e eventos recentes...



Eduardo Felipe P. Matias é doutor em direito internacional pela USP, sócio de Nogueira, Elias, Laskowski e Matias Advogados e autor do livro "A Humanidade e suas Fronteiras: do Estado soberano à sociedade global".

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A solidariedade europeia



Por Peter Sutherland - Valor 10/08

Quando Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, proclamou publicamente que o BCE fará "o que for necessário" para assegurar a estabilidade futura do euro, o efeito de suas observações foi imediato e notável. O custo da tomada de empréstimos caiu drasticamente para os governos da Itália e da Espanha; os mercados de ações subiram e o recente declínio no valor externo do euro foi contido.

Ainda não está claro quão duradouros serão os efeitos da intervenção de Draghi - ou o apoio público que lhe é proporcionado por Angela Merkel, a chanceler alemã, por François Hollande, o presidente francês, e por Mario Monti, o primeiro-ministro italiano. O que podemos dizer com certeza é que os comentários de Draghi e a reação que eles evocaram demonstram que os problemas fundamentais da zona do euro não são essencialmente financeiros ou econômicos, são políticos, psicológicos e institucional.

Os observadores internacionais reconheceram em tal medida o compromisso de Draghi de fazer "o que for necessário" para salvar o euro porque muitos deles chegaram a duvidar do comprometimento de outros principais atores europeus de fazerem o mesmo. (Algumas dessas dúvidas são, naturalmente, produto de auto-interesse político ou financeiro; um certo modelo de capitalismo financeiro vê o euro como uma ameaça, e seus adeptos farão tudo o que puderem para provocar sua extinção.)

Mas a incapacidade dos líderes da zona do euro de amenizar dúvidas sobre seu engajamento com o euro, após dois anos e meio de crise, sugere que o problema está profundamente enraizado. Em sua defesa, os ministros da zona do euro citam o conjunto de reformas que introduziram nos últimos 30 meses, que promoverão uma modernização econômica, saneamento das finanças públicas e coordenação econômica mais estreita.

Infelizmente, muitas dessas reformas serviram como "atividade de deslocamento" - válidas em si mesmas, mas não para reagir à questão urgente: estão os maiores e mais prósperos membros zona do euro inteiramente comprometidos com sua manutenção?

Ninguém duvida que a Alemanha e a maioria dos outros membros da zona do euro prefeririam a manutenção da moeda única. A preocupação hoje é se essa preferência poderá ser atropelada por considerações políticas nacionais ou pelo ressentimento diante do ritmo lento da reforma em alguns países da zona euro.

Com efeito, um provérbio alemão que diz que "é bom confiar, mas é melhor controlar" tem sido a base da política de líderes da zona do euro desde que a crise da dívida dos países desenvolvidos se abateu sobre o sistema de governança da moeda única. A implicação é clara: a confiança entre os membros da região não pode ser tida como assegurada, tem que ser conquistada e mantida.

As limitações dessa abordagem foram agora reveladas. Embora os países mais ricos da zona do euro tenham efetivamente feito muito para ajudar seus vizinhos em dificuldades, eles o fizeram de maneira intrusivamente condicional, transitória e incremental.

Em determinado nível, é inteiramente compreensível que a Alemanha e outros países da zona do euro devam exigir garantias de que seus recursos não serão desperdiçados. Mas essa constante necessidade de tranquilizar (os envolvidos) - no sentido de limitar ao mínimo os riscos e o envolvimento necessários - desperta o temor de que em algum momento a Alemanha e outros países considerarão insuficientes as garantias de seus parceiros e intoleráveis os riscos que correm para ajudá-los. Se, e quando, isso acontecer, a morte do euro não estará muito distante.

O Tratado de Roma, firmado em 1957, representou uma nobre e ambiciosa mudança na história europeia. Solidariedade e previsibilidade em relações internacionais, baseadas em instituições e interesses comuns, poderiam assegurar prosperidade e estabilidade à Europa com eficácia, muito mais do que o arriscado malabarismo diplomático tradicional, cujos praticantes muitas vezes fracassaram.

O euro foi fundado nesse espírito de solidariedade, e sua contribuição para a limitação de instabilidade econômica e financeira na Europa nos últimos cinco anos não deve ser subestimada. O exemplo da década de 1930 é um lembrete de como as coisas poderiam ter sido piores. A tentação dos líderes da zona do euro de reverter a modelos anteriores e desacreditados de relacionamentos europeus foi suportável por um tempo, mas já atingiu o limite de sua tolerablidade.

Minha impressão é que a opinião pública e política alemã está começando a reconhecer a devastação econômica de uma ruptura do euro para a Europa e a Alemanha. Os políticos alemães têm a responsabilidade democrática importante de reforçar essa percepção e de defender os passos necessários para evitar uma catástrofe.

Não pode fazer parte de uma democracia em bom funcionamento que os líderes escondam verdades desagradáveis de seus eleitores. Seria uma ilusão imaginar que basta à zona euro seguir seu caminho atual para assegurar o futuro da moeda única. A atual trajetória acentua inaceitavelmente as diferenças entre Estados membros de uma maneira que é politicamente e economicamente insustentável a longo prazo.

A filosofia de controle e reciprocidade que até agora caracterizou a maneira como a zona do euro tem enfrentado sua crise de governança precisa ser substituída por um instrumento de solidariedade e tudo o que dele decorre. Isso significa uma política econômica mais equilibrada no âmbito da zona euro, um reforço no papel do BCE, uma real união bancária e financeira, e um roteiro para mutualização parcial e condicional da dívida herdada.

Os líderes da zona do euro têm falado sobre tudo isso, mas chegou a hora para engajamentos inequívocos e um calendário realista de ação. Estamos agora perigosamente perto do momento em que "empurrar com a barriga" poderia dar lugar a nova crise. Assim, o zelo moralista do Bundesbank em afirmar que suas responsabilidades são de alguma forma mais graves - e implicam mais obediência - do que as de outros bancos centrais é perigosamente equivocado. "Nein" apenas traz a calamidade para mais perto.

Nenhum dos problemas financeiros europeus pareceria remotamente difícil, hoje, se as dúvidas sobre o futuro da zona do euro tivessem se dissipado dois anos atrás. No longo prazo, solidariedade é uma opção mais barata para todos os envolvidos, ao passo que sua ausência poderia tornar-se ruinosamente cara no futuro previsível. (Tradução de Sergio Blum).



Peter Sutherland foi Comissário da UE para Políticas de Concorrência. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O que o dinheiro pode comprar



Por Raghuram Rajan - Valor 08/08

Em recente e interessante livro, "What Money Can't Buy: The Moral Limits of the Market" (o que o dinheiro não pode comprar: os limites morais do mercado), Michael Sandel, filósofo em Harvard cita a gama de coisas que o dinheiro pode comprar nas sociedades modernas e tenta delicadamente atiçar nossa indignação diante do crescente predomínio do mercado. Terá ele razão em dizer que deveríamos ficar alarmados?

Embora Sandel se preocupe com a natureza corrupta de algumas transações monetizadas (será que as crianças desenvolvem um amor da leitura se forem subornadas para que leiam livros?), ele também se diz preocupado com o acesso desigual ao dinheiro, que torna intercâmbios monetários desiguais. Mais amplamente, ele crê que a expansão do intercâmbio monetário anônimo corrói a coesão social e defende a redução do papel do dinheiro na sociedade.

As preocupações de Sandel não são inteiramente novas, mas seus exemplos merecem reflexão. Nos EUA, algumas empresas pagam desempregados para que fiquem em filas para conseguir ingressos gratuitos para audiências públicas no Congresso. Elas, então, vendem os ingressos para lobistas e advogados de companhias com interesses nas audiências, mas demasiado ocupadas para esperar nas filas. Sem dúvida, as audiências públicas são elemento importante da democracia participativa. Todos os cidadãos devem ter igual acesso. Então vender acesso parece uma perversão dos princípios democráticos.

O problema fundamental, porém, é de escassez. Nós não podemos acomodar numa sala todos que possam ter interesse em uma audiência particularmente importante. Por isso, temos de "vender" entradas. Na disputa de lugares, podemos permitir que as pessoas usem seu tempo na fila para disputar lugares ou podemos permitir que as pessoas usem seu dinheiro participando de leilões. O primeiro (sistema) parece mais justo, porque todos os cidadãos aparentemente começam em igualdade de condições. Mas terá uma mãe solteira que trabalhe numa função exigente e três filhos pequenos igual tempo livre que um estudante em férias de verão? E seria a sociedade beneficiada se ela, conselheira jurídica de uma grande empresa, passasse boa parte de seu tempo na fila?

Dizer se é melhor alocar entradas em troca de tempo ou de dinheiro, portanto, depende do que esperamos alcançar. Se queremos melhorar a eficiência produtiva da sociedade, a disposição das pessoas de pagar com dinheiro representa um indicador razoável de quanto ganharão se tiverem acesso a audiências. O leilão de lugares em troca de dinheiro faz sentido - um advogado contribui mais para a sociedade mediante a preparação de argumentos do que ficando numa fila.

Mas, se for importante que cidadãos jovens e impressionáveis vejam como funciona sua democracia, e que construamos solidariedade social fazendo com que executivos fiquem em filas junto com adolescentes desempregados, faz sentido obrigar as pessoas a disputar os assentos usando seu tempo e tornar as entradas intransferíveis. Mas se considerarmos que os dois objetivos - eficiência e solidariedade - devam desempenhar algum papel, talvez devêssemos fazer vista grossa à contratação de desempregados para ficarem na fila, em vez de advogados atarefados, desde que não monopolizem todos os lugares.

E quanto à venda de órgãos humanos, outro exemplo com que Sandel se preocupa? Algo parece errado quando um pulmão ou um rim é vendido em troca de dinheiro. Apesar disso, nós comemoramos a bondade de um estranho que doa um rim para uma criança. Portanto, claramente, não é a transferência do órgão que nos deixa indignados - não acreditamos que o doador esteja mal informado sobre o valor de um rim ou esteja sendo enganado para que dele se separe. Também, creio, não temos reparos aos escrúpulos da pessoa que vende o órgão - afinal, ela está se alienando de forma irreversível de algo que lhe é precioso por um preço que poucos de nós aceitariam.

Creio que parte de nosso desconforto tem a ver com as circunstâncias em que a transação ocorre. Em que tipo de sociedade vivemos, se as pessoas têm de vender seus órgãos para sobreviver?

Mas, embora a proibição de venda de órgãos possa nos fazer sentir melhor, será que isso realmente beneficia mais a sociedade? Possivelmente, se fizer a sociedade trabalhar para garantir que as pessoas nunca sejam colocadas em circunstâncias que as façam contemplar essa possibilidade. E provavelmente não, se permitir que a sociedade ignore o problema fundamental, seja levando esse comércio para um mercado negro ou forçando essas pessoas a recorrer a remédios piores.

Então, de novo, parte de nosso mal-estar provavelmente tem a ver com o que percebemos como uma troca desigual. O vendedor está cedendo parte de seu corpo numa transação irreversível. O comprador está dando apenas dinheiro - talvez ganho num golpe de sorte em negócios com ações ou num emprego superbem remunerado. Se esse dinheiro tivesse sido ganho com a venda de parte de um pulmão ou representasse uma poupança dolorosamente acumulada durante anos de trabalho árduo, poderíamos considerar a troca mais igualitária.

Claro, a virtude central do dinheiro é, justamente, seu anonimato. Nada preciso saber sobre a nota de dólar que recebo, para poder usá-la. Mas, uma vez que o anonimato do dinheiro obscurece sua proveniência, ele pode ser socialmente menos aceitável como meio de pagamento por alguns objetos.

Nos dois exemplos - entradas para o Congresso e vendas de órgãos - Sandel sugere reduzir o papel do dinheiro. Mas o dinheiro tem muitas virtudes no sentido de facilitar transações - daí seu uso onipresente. Assim, talvez a mensagem mais importante é que a tolerância da sociedade à monetização é proporcional à legitimidade atribuída à distribuição do dinheiro.

Quanto mais gente acreditar que são as pessoas mais trabalhadoras as que têm dinheiro, mais ficarão dispostas a tolerar as transações com dinheiro (embora algumas transações permaneçam tabu). Mas se as pessoas acreditam que os endinheirados são principalmente as pessoas bem conectadas ou vigaristas, sua tolerância a transações monetárias diminui.

Em vez de focar a proibição de transações monetárias, talvez uma lição mais importante transmitida nos exemplos de Sandel é que deveríamos trabalhar continuamente para melhorar a legitimidade percebida da distribuição de dinheiro. (Tradução de Sergio Blum)



Raghuram Rajan ex- economista chefe do FMI, é professor de finanças na Booth School of Business, da Universidade de Chicago e autor de Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy (linhas de fraturas: como falhas ocultas ainda ameaçam a economia mundial. Copyright: Project Syndicate, 2012.



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O que está barato na bolsa?


Valor 09/08


Em momentos como o atual, de grande incerteza e volatilidade nas bolsas, fica difícil para os investidores saber o que está caro ou barato no mundo das ações. Mas uma análise utilizando o múltiplo preço sobre lucro (P/L) - que dá uma ideia do tempo do retorno da aplicação - pode auxiliar o aplicador. Embora os especialistas ressaltem que um P/L alto ou baixo não diga pura e simplesmente se um papel está depreciado ou não, o múltiplo auxilia na comparação de preços e na montagem de estratégias setoriais no mercado acionário.

Uma pesquisa realizada pela XP Investimentos mostra que mineração, construção civil e bancos são os setores da Bovespa com múltiplos P/L mais baixos do momento. Problemas setoriais específicos e perspectivas negativas sobre o crescimento da economia global estão entre os fatores citados por analistas para explicar porque as ações desses segmentos parecem, pela ótica do P/L, 'baratas' na bolsa.

Do outro lado estão os papéis de locadoras de automóveis, farmácias, companhias aéreas e shoppings. Ligados à economia local, cuja performance ainda supera a dos países desenvolvidos, esses setores atraíram os investidores por serem menos afetados pela crise externa. A pesquisa da XP leva em conta um P/L com o lucro das empresas projetado para 2012. A cotação das ações é a do fechamento de 7 de agosto.

Segundo a pesquisa, o P/L do setor mineração - Vale, Bradespar e MMX - é de 5,6 vezes. O segmento, segundo analistas, é representado basicamente por Vale, que enfrenta uma situação paradoxal. Apesar da situação econômica mundial ruim atualmente, o mercado espera lucro mais alto para a empresa, com manutenção das vendas para a China. A expectativa de crescimento do lucro combinada com a falta de fôlego das ações - a PNA sobe apenas 0,11% no ano (até 7 de agosto), ao passo que a ON cai 2,19% -, puxa o P/L da Vale para baixo. "O segmento está bastante barato", diz o analista chefe da Bradesco Corretora, Carlos Firetti.

Entre as questões que seguraram o preço dos papéis da Vale no curto prazo, por exemplo, está a discussão de um novo marco regulatório, que apresenta maior taxação e cobrança de royalties sobre o minério. A empresa tem ainda questões pendentes como o litígio envolvendo a cobrança de tributos pelo governo sobre lucro de subsidiárias no exterior.
O setor de construção civil fica em segundo lugar, com P/L de 7,9 vezes para as blue chips (Brookfield, Cyrela, Gafisa, MRV, PDG Realty e Rossi Residencial), 10,3 vezes para as de capitalização média (Even, Eztec, Helbor, Mills e Tecnisa) e 10,5 vezes para as menores (CCDI, CR2, Direcional, Trisul e Viver). Firetti lembra que o setor passou por sérios problemas de execução de obras recentemente, sobretudo as companhias maiores, o que levou à queda dos preços das ações.

O estrategista do BB Investimentos, Hamilton Moreira Alves, acrescenta que o modelo de negócios do segmento agrada o investidor estrangeiro, que comprou dois terços das ofertas iniciais de ações. "O investidor externo é o fiel da balança do setor e ele não está animado com os papéis ultimamente; está se desfazendo de posições."

A estrategista da Fator Corretora, Lika Takahashi, pondera que as empresas devem entregar resultados no longo prazo, o que deixa as perspectivas de lucro mais altas. "As projeções de expansão com os eventos como Copa do Mundo e Olimpíada ainda estão aí", complementa Alves, do BB. Michael Viriato Araujo, professor de finanças do Insper, acrescenta que há expectativas no mercado de mais medidas do governo para impulsionar o setor de construção. Mais uma vez, a perspectiva de alta dos lucros com preços deprimidos explica o múltiplo P/L reduzido.

Bancos vêm em seguida na lista de menores P/Ls, com as instituições de médio porte (ABC, Pine, Sofisa, Banrisul, Bicbanco, Daycoval, Indusval e PanAmericano) a 8,6 vezes e os de grande porte (Banco do Brasil, Bradesco, BTG Pactual, Itaú Unibanco, Itaúsa e Santander) com 9,4 vezes. Debates sobre aumento de inadimplência e pressões do governo para queda de spreads dominaram o noticiário nos últimos meses, puxando os papéis para baixo. Firetti, do Bradesco, diz que o múltiplo do setor financeiro está abaixo da média, que gira entre 11,5 vezes e 12 vezes.

Na outra ponta do mercado, as locadoras de automóveis - Localiza e Locamérica - lideram com P/L de 44,4 vezes. Em seguida, aparece o segmento de farmácias - BR Pharma e Raia Drogasil - com 43,7 vezes. Na terceira posição, surge o setor de aviação - Gol e TAM -, cujo P/L é de 28,4 vezes. O segmento de shopping centers, por sua vez, tem um múltiplo de 27,1 vezes. Segundo o professor Araujo, do Insper, quase todos esses segmentos subiram na bolsa com as perspectivas ainda positivas para o crescimento brasileiro. No caso das locadoras, a questão da redução de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) - que facilita a compra de veículos e desestimula o aluguel - atrapalhou um pouco e pode ter sido responsável por ajustes para baixo nas estimativas nos lucros, o que ampliou ainda mais o P/L.

Já as farmácias, lembra Alves, do BB Investimentos, passaram por um movimento de consolidação, com a fusão entre Raia e Drogasil, e subiram com perspectivas de aproveitamento de sinergias. O setor de aviação, por sua vez, passa por um momento específico. As ações sobem este ano, mas as empresas vêm perdendo rentabilidade com o passar dos meses, segundo a área de análise da XP. A casa lembra que a estrutura de custos piorou, com altas seguidas nos preços dos combustíveis. Com isso, as projeções de lucros foram ajustadas para baixo. A XP não recomenda exposição ao segmento.

O fato de os P/Ls estarem historicamente depreciados está longe de guiar o comportamento do mercado. Às vezes, gestores e investidores podem deixar de lado o múltiplo para se concentrar em outros aspectos na hora de escolher um papel. "Há dúvidas sobre se um setor barato pelo múltiplo está realmente barato, já que os preços podem cair ainda mais se as empresas não entregarem os resultados esperados", diz Firetti, da Bradesco Corretora. Na visão dele, o mercado brasileiro vem dando um peso menor à análise fundamentalista - cuja métrica mais tradicional é justamente o P/L - pelo menos desde o ano passado.

China na África: mercado x democracia



Por Stephan Richter - Valor 09/08

As formas e meios pelos quais os chineses estão penetrando no continente africano são tema de debates acalorados em todo o mundo - e em nenhum lugar mais do que nos EUA. A visita de 10 dias de Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, a toda a África colocou o debate em foco detalhado.

De um lado, os que afirmam que os chineses estão comportando-se como neocolonialists (ocidentais), ansiosos por explorar as vastas riquezas de matérias-primas e minerais do continente. Eles veem a China como interessada em ocupar cada espaço não coberto por empresas multinacionais ocidentais.

Do outro lado, principalmente fora dos EUA e predominantemente na África e nos mercados emergentes, estão os que aplaudem a ascensão da China e apontam para os seus sucessos como uma forma tardia de justiça econômica. Estes acreditam que finalmente é hora de uma potência não ocidental rica e mirando horizontes de tempo de longo prazo emergir como parceira viável para o continente.

Melhor ainda, argumentam essas vozes, os chineses - com a sua proposta de construção de infraestrutura em t roca da exploração de matérias-primas - estão apenas cumprindo o que acabaram revelando-se promessas vazias, feitas há um século pelas potências ocidentais.

Construção de ferrovias ligando áreas do interior à costa? A eventual perspectiva de formar uma rede cobrindo a África Subsaariana? Formação de redes de rodovias e autoestradas de quatro pistas a preços acessíveis em todo o continente? Disponibilizar moderníssimos complexos de escritórios, construídos dentro de orçamentos que as nações africanas têm condições de custear?
Essas são, certamente, metas que os líderes africanos vêm perseguindo há muito tempo. Mas, no passado, uma combinação tóxica de sua própria corruptibilidade, laços obscuros entre ex-países colonizadores (e suas elites empresariais) e os novos governantes, bem como estruturas de planejamento excessivamente complexas, muito frequentemente resultaram em projetos proibitivamente caros.

Considerando que o crescimento econômico da África tem sido retardado pela inexistência de infraestrutura de transportes confiável - nos países e entre eles - essa é uma oferta mais que tentadora. Ela representa uma oportunidade de proporções históricas.

Sim, o continente tem uma abundância de aeroportos e de telefones celulares, mas devido à infraestrutura totalmente insuficiente, o comércio continua sendo dificultado de uma maneira reminiscente da Europa pré-1820.

Nesse sentido, as iniciativas empreendidas pelos chineses na África são, agora, o equivalente histórico do que as guerras napoleônicas trouxeram para um país como a Alemanha. Representam um há muito tempo necessário brado de alerta para o abandono de tradições ultrapassadas, para um avanço à era de intercâmbio e comércio modernos.

Sem ignorar os problemas inerentes à maneira como os chineses operam, inclusive o fato de que empregam predominantemente mão de obra de suas próprias empresas de construção civil, mesmo para projetos no interior da África subsaariana, a visão chinesa é muito distinta da abordagem ocidental nos últimos 50 anos.

A fórmula do Ocidente aplicada à África pós-independência, pós-1960, é priorizar a construção da democracia em detrimento da construção de mercados. Os chineses, como se sabe, optam exatamente pelo oposto.

Em tese, é sempre preferível concentrar-se em estruturas democráticas. E a secretária Clinton certamente referiu-se enfaticamente a isso durante sua visita. Mas em países onde a pobreza continua excessiva, um contra-argumento desconfortável pode ser sustentado, apoiado no histórico dos últimos 50 anos.

E se uma democracia atrofiada constituiu-se em obstáculo ao surgimento de um verdadeiro mercado para as economias nacionais? Nessas circunstâncias, não será preferível privilegiar a construção de um mercado para produzir uma estrutura mercantil suficientemente distribuída?
Esse é, sem dúvida, um dilema bastante desconfortável para ser analisado pelos ocidentais. Mas, claramente, são os africanos que precisam optar por seguir ou não o conceito ocidental de "democracia primeiro".

Melhor ainda, os defensores da estratégia chinesa para a África podem apontar para o fato de que a África não é a China. A preservação do poder em um Estado de partido único não está em causa na maior parte da África.

Em outras palavras, concentrem-se primeiro em acabar com a fome; depois, disseminem-se os benefícios não tão materiais da democracia. Esse foco assegura a formação de um eleitorado com melhor formação educacional e autoconfiante, não suscetível à compra barata de votos.

Essa abordagem também implica que o desenvolvimento econômico produza desenvolvimento político. Coincidentemente, isso é bastante semelhante ao que ocorreu na história da Europa. Lá, a tomada das rédeas da economia catalisou a demanda por mais direitos políticos por parte das classes mercantis, que terminou por colocar a Europa no rumo de democracia plena.

Por enquanto, em grande parte da África, a evolução política permanece tão atrofiada quanto o desenvolvimento econômico. Dito de outro modo, mas em última análise no mesmo sentido, a maturidade política - no sentido de democracia suficientemente robusta para que as eleições resultem em mudança efetiva no poder - só funciona praticamente em países como Gana, onde o desenvolvimento econômico é suficientemente avançado e amplo.

Ponderar esse tipo de sequenciamento é certamente desconfortável para os ocidentais que têm uma preferência instintiva pela democracia. Apesar disso, essa preferência é também desconcertante - especialmente tendo em vista a forte ênfase dos americanos em economia de mercado em seu país. Os americanos, como sabemos, foram afortunados em seu caso histórico especial, onde os desenvolvimentos econômico e político caminharam de mãos dadas.

É muito desconcertante observar nesse debate sobre construção de mercado versus construção de democracia - que são os chineses, e não os americanos - que podem argumentar persuasivamente que seu foco na África é a criação de futuros clientes e parceiros comerciais.

Esse foco em clientes parece contrário à doutrina marxista. E, de fato, os chineses podem citar ninguém menos que o admirável Adam Smith como sua testemunha principal. Ao avaliar estratégias econômicas de grandes impérios, escreveu ele: "Fundar um grande império com o propósito único de criar um povo de clientes pode, à primeira vista, parecer um projeto capaz de servir a uma nação de lojistas. Trata-se, porém, de um projeto totalmente impróprio para uma nação de lojistas. Mas extremamente adequado a uma nação cujo governo é influenciado por lojistas".

Embora os direitos ao voto não possam ser considerados um luxo, na realidade africana, ao menos, o foco central na construção da democracia, em vez da construção de mercados, tem tido o efeito perverso de asfixiar, e não de promover, o crescimento econômico. (Tradução de Sergio Blum)



Stephan Richter é editor chefe do "The Globalist".

Histórico da Crise do Euro

Carta Maior - Internacional - O dia em que o mundo entrou no vermelho

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma moeda, muitos mercados




Por Hans-Helmut Kotz - Valor 07/08

A união monetária europeia está "cantando os pneus" rumo ao abismo, involuntária, mas, ao que tudo indica, inexoravelmente. A Grécia muito provavelmente não satisfará os critérios para que receba mais ajuda financeira de seus parceiros na zona do euro e do Fundo Monetário Internacional. Os europeus, então, precisarão decidir se deixam a Grécia partir. A opção de saída não melhorará as chances de a Grécia realizar um ajuste bem sucedido, e ocorreria a um preço exorbitante para a zona euro.

A saída grega poderá, esperamos, ser administrada. O Banco Central Europeu conteria os danos colaterais inundando o sistema bancário europeu com liquidez (contra garantias deficientes).

Assim, circunstâncias dramáticas mais uma vez forçariam a mão do BCE. Como maior instituição europeia, (o BCE) fica sistematicamente vulnerável a ser tomado como refém, obrigado a subscrever mais um socorro capaz de prolongar a vida do euro. Por essa razão, a recente promessa do presidente do BCE, Mario Draghi, de fazer "(tudo) o que for necessário" para salvar o euro não surpreendeu.

Em 1999, pareceu que Jacques Rueff, um conselheiro de Charles de Gaulle, tinha razão: "L'Europe se fera par la monnaie". Onze países europeus decidiram abrir mão de suas moedas nacionais (ou, mais tecnicamente, de suas taxas de câmbio nominais).

Esses países entenderam "moeda única", como um corolário quase físico de "mercado único". Políticas monetárias nacionais independentes em um mercado comum eram corretamente consideradas inviáveis, dada a preferência europeia por taxas de câmbio estáveis e mercados financeiros abertos. Isso exigia uma moeda única - e, portanto, responsabilidade compartilhada pela política monetária.

Hoje, no entanto, talvez seja necessário reformular o axioma de Rueff: "Et l'Europe se défait par les marchés financiers", isto é, a não ser que a Europa idealize um projeto institucional viável.

Dado as atuais agruras do euro, é instrutivo recordar os argumentos enfatizados na reta final para a união monetária. Como disseram Robert Mundell, agraciado com o Nobel de Economia, e outros analistas na década de 1960, abrir mão das taxas de câmbio nominais enfatiza três mecanismos alternativos para absorver o ajuste regional: transferências fiscais inter-regionais, migração entre países na união e, mais importante, mercados de trabalho capazes de se adaptar a choques.

Infelizmente, esses mecanismos foram anátema na ocasião. Transmitir a mensagem de que nada teria de mudar pareceu ser bem mais atraente. Assim, não se deu ouvidos aos argumentos de Mundell quando da concepção do planejamento institucional do euro. Na verdade, o Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como a cláusula europeia impeditiva de prestação de socorros, ignoraram a teoria econômica pertinente (qualquer teoria econômica, dizem alguns).

Somente após o fato, desde o outono de 2009, tornou-se majoritária a percepção da insustentabilidade dos déficits em conta corrente no âmbito da união, acumulados durante mais de uma década. Agora, com a união monetária, o ajuste precisa ser efetivado modificando os preços domésticos em relação aos bens comerciáveis - ou seja, promovendo uma depreciação da taxa de câmbio real.

Mas a crise em curso também evidencia uma segunda falha de projeto, não citada no argumento de Mundell: os problemas decorrentes de mercados financeiros integrados (inclusive os obstáculos à credibilidade da cláusula de proibição de prestação de socorro). Em circunstâncias normais, os fluxos desimpedidos de capital entre países proporcionam todos as vantagens propagandeadas em termos de melhor alocação de recursos e maior produtividade. Na esteira da crise, porém, dado o destino compartilhado dos governos nacionais e dos bancos, reemergiu um significativo viés nacionalista. Iniciativas de blindagem tornaram-se a opção automática dos supervisores nacionais e as condições monetárias voltaram a ser segmentadas segundo orientações nacionais.

Isso se traduz em uma disparidade significativa dos custos de acesso a fundos por instituições financeiras. A consequência imediata é uma divergência substancial no custo de capital para as empresas, e muitas empresas de pequeno e médio portes chegam a perder inteiramente seu acesso a crédito. Como resultado, os investimentos de capital - já frágeis em vista da fraca demanda - caíram, deflagrando um círculo vicioso de contração do PIB.

O problema é que não apenas essa heterogeneidade de condições do acesso a fundos torna difícil conduzir uma política monetária comum. Mais importante, tendo em vista que algumas regiões agora enfrentam spreads de juros que são o equivalente funcional de ter suas próprias moedas (sem ter um banco central), alguns membros da zona do euro podem questionar por que não formalizar o que é efetivamente uma realidade.

Nada disso é inevitável. O euro não foi criado por razões puramente econômicas. Se for considerado um projeto meritório, e for visto como benéfico para todos os participantes, a zona do euro poderia ser viabilizada. Para isso, certas condições mínimas precisam ser respeitadas. Além de mercados de trabalho flexíveis, uma zona do euro viável pressupõe um mecanismo (mínimo) de seguro fiscal. E isso exige não só regulamentação financeira comum, como também supervisão das instituições financeiras no âmbito de toda a zona do euro - inclusive seguro comum para os depósitos e um esquema compartilhado de solução para problemas financeiros estruturais de bancos.

Isso é muito difícil. E levará tempo para ser implementado. Mas a alternativa imediata de curto prazo - deixar a Grécia sair - implicaria um preço considerável. Os países periféricos seriam obrigados a pagar um prêmio significativo para compensar os investidores por assumirem uma redenominação (calote parcial) do risco. E, com isso, a zona do euro ficaria tão vulnerável quanto revelou-se, historicamente, qualquer sistema de câmbio fixo. (Tradução de Sergio Blum).



Hans-Helmut Kotz é pesquisador sênior no Centro de Estudos Financeiros da Universidade Goethe, em Frankfurt, e professor residente no Centro de Estudos Europeus da Universidade de Harvard, foi membro da diretoria do Deutsche Bundesbank de 2002 a 2010, incumbido de estabilidade financeira, mercados e estatísticas. Copyright: Project Syndicate, 2012.



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É o desemprego, tontos!



Por Antonio Delfim Netto - Valor 07/08

Na preparação e na expansão dos fatos que levaram à crise que estamos vivendo não existem inocentes: os governos falharam miseravelmente, o setor financeiro sem regulação - como o velho escorpião da fábula - cumpriu o seu objetivo matando o setor real da economia e alguns economistas, gloriosamente, "teorizaram matematicamente" a alta qualidade dos malfeitos...

Seria ridículo e pretensioso dizer que os economistas foram causa eficiente da crise. Eles foram apenas coadjuvantes (e algumas vezes beneficiários) do processo. Ajudaram a criar uma "ideologia" que pretendia dar base "científica" ao papel do mercado financeiro desregulado na aceleração do desenvolvimento econômico e do bem-estar do mundo. A mensagem construída a partir da fantástica hipótese dos "mercados perfeitos" tinha com consequência subliminar a ideia do velho presidente Reagan: "Os governos não são a solução, são o problema!" Mas é ridículo, também, isentá-los de qualquer responsabilidade. Produziriam trabalhos científicos na Academia, onde se faria "ciência pela ciência", na qual não é proibido inventar universos que não existem, como uma sociedade com um único produto, com uma função agregada de produção domesticada, com um agente representativo que incorpora todos os consumidores e os produtores, mas onde não há nem o crédito, nem as bolsas de valores. Agora esforçam-se em incorporá-los no famoso modelo designado de DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium, Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico). Não teriam, entretanto, responsabilidade pelo mau uso dos seus modelos, mesmo porque esses não se referem, necessariamente, a este mundo...

Paradoxalmente, nesse processo no qual parece não haver ator que tenha sido sua causa eficiente, há quem esteja recebendo a conta do malfeito. São os mais de 30 milhões de desempregados que estão nas ruas recusando-se a pagar as "falhas" dos governos - que provavelmente corrigirão nas urnas - e as "falhas" do mercado financeiro, cujos responsáveis esperam ver julgados e condenados pela Justiça. Acreditaram que os governos e os mercados sabiam o que faziam. Continuam sendo ignorados pelos estudos mais recentes de economistas ainda presos ao paradigma que a crise destruiu.

Não se estuda o verdadeiro "custo social do imenso desemprego". Insiste-se em continuar a estimar os efeitos sobre o bem-estar (o consumo) produzidos pelas flutuações do PIB, na velha e abusada tradição de Robert Lucas (o brilhante Prêmio Nobel de 1995) para quem as flutuações do emprego são pouco mais do que ataques de vagabundagem que, ciclicamente, atingem a mão de obra. Chega-se à conclusão que sobre esse ser inefável e metafísico - o consumidor representativo - ele é pequeno. Aliás, as estimativas variam fortemente porque todos conhecem - mas ninguém leva a sério - a afirmação do economista C. Otrok ("On measuring the welfare cost of business cycles", "Journal of Monetary Economics", 47, 2001, 61:92) que é "trivial fazer o custo do bem-estar produzido pela variação do PIB do tamanho que cada um quiser, simplesmente escolhendo uma forma conveniente da preferência" [do consumidor]. Repete apenas o grande Vilfredo Pareto, que já no século XIX afirmou: "Me deem as hipóteses adequadas e provarei qualquer coisa"...

A demonstração mais evidente dessa "disfunção teórica" é um recente trabalho de E. B. Yehoue também inspirado em Robert Lucas ("On Price Stability and Welfare", IMF Working Paper 12/189, julho de 2012). Suas conclusões são interessantes: "Usando um agente-representativo conservador num modelo de equilíbrio geral e baseado em parâmetros consistentes com os dados dos EUA, estimamos o custo social associado com diferentes níveis de metas inflacionárias, em particular 2%, 4% e 10%. O trabalho sugere que o custo social adicional de elevar a meta de inflação de 2% para 4% é igual a 0,3% do PIB real. Se a elevação for de 2% para 10%, esse custo se eleva a 1%. Com outros valores para os parâmetros na curva de demanda de moeda chega-se a 7% quando se eleva a inflação de 2% para 4%, e a 30% quando se passa de 2% para 10%" (página 4).

Em poucas palavras, vale "a fortiori", o que disse - repetindo Pareto - o economista C. Otrok citado acima. Quando as hipóteses são arbitrárias, "Deus está morto e tudo é permitido!"

Mas o ponto realmente importante no trabalho de Yehoue é que, salvo algum engano, ele menciona uma única vez nas 35 páginas do artigo, a palavra "desemprego" (página 21) referindo-se ao economista prático Arthur M. Okun (1928-80), que mostrou uma regularidade entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento do desemprego agora conhecida como "Lei de Okun". Obviamente, Yehoue não a utilizou porque ela introduziria ainda mais "ruído" nas suas conclusões. Aliás, uma coisa me intriga: seria o "custo social" produzido por um eventual aumento da meta de inflação de 2% para 4% nos EUA menor do que o custo do desemprego causado pela sua persistência ao longo dos últimos cinco anos de pelo menos 3% (dos 8% atuais para os 5% "normais")? É sugestivo que nas 58 referências do artigo, nenhuma tenha no título a palavra "desemprego"!



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Choque na economia mundial em 2013 - 2014?

Petrobras - produção estagnada


Fonte ANP

A produção de petróleo em junho foi de aproximadamente 2.033 Mbbl/dia, com redução de 4,9% na comparação com junho de 2011 e de 0,7% em relação a maio deste ano. O campo de Marlim Sul foi o de maior produção de petróleo e o segundo maior produtor de gás natural, com uma produção média de 331,Mboe/dia. O campo de Manati foi o maior produtor de gás natural, com produção média de 6,7 MMm3/dia.


Cerca de 94 % da produção de petróleo e gás natural são provenientes de campos operados pela Petrobras. Os campos marítimos responderam por aproximadamente 91% da produção de petróleo e 76,2% de gás natural. Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, dois são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (11º) e Ostra/Shell (15º).


Agência Estado


RIO/SÃO PAULO - A presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, afirmou que a menor produção de petróleo nacional levou à queda das exportações de petróleo no segundo trimestre, de 497 mil barris por dia para 554 mil barris por dia, na comparação com o trimestre anterior. O maior volume de óleo nacional processado no parque de refino também contribuiu para a menor exportação. Já o aumento do consumo doméstico, principalmente de diesel, levou à maior importação de derivados, que conduziu a um saldo da balança negativo em 170 mil barris por dia, contra 50 mil barris por dia no primeiro trimestre.

A produção da Petrobrás no campo de Cascade, a 250 km da costa do Estado norte-americano da Louisiana, deve alcançar 10 mil barris por dia (bpd) até o final do ano, revelou nesta segunda-feira a presidente da estatal Maria das Graças Foster, em teleconferência com analistas e investidores. A atividade no local, onde o início de produção ocorreu no primeiro trimestre deste ano, está em aproximadamente 2,8 mil barris por dia.

O salto virá da curva de maturação das atividades no primeiro poço e do começo das atividades em um segundo poço. A Petrobrás opera na região o FPSO (navio-plataforma) BW Pioneer, o primeiro equipamento do gênero em atividade em um campo de petróleo no Golfo do México norte-americano.

2012

Maria das Graças Foster disse que a meta de produção de petróleo da companhia para este ano está mantida em 2,1 milhões de barris diários de petróleo (bpd) no Brasil. A presidente da estatal afirmou que essa projeção considera uma variação de 2%, tanto para cima quanto para baixo.

A produção total de óleo e gás natural da Petrobrás somou 2.579 milhões de barris diários no segundo trimestre de 2012, uma retração de 1,07% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Em relação ao primeiro trimestre de 2012, o indicador apresentou retração de 4%.


Valor - 06/08

No vermelho


O prejuízo de R$ 1,34 bilhão da Petrobras no segundo trimestre deste ano foi empurrado por despesas de R$ 2,73 bilhões decorrentes de poços secos, R$ 2,1 bilhões maiores que as contabilizados no trimestre anterior. Assim, somente no primeiro semestre foram registrados R$ 3,28 bilhões como custos exploratórios. Essas despesas não afetam o lucro bruto da empresa, mas têm impacto direto no resultado operacional, incluindo o lucro antes de impostos, depreciação e amortização (ebitda, na sigla em inglês).

O valor tão alto levou a companhia a ter seu primeiro prejuízo em 13 anos - desde a maxidesvalorização do real, no primeiro trimestre de 1999. Naquela ocasião a companhia registrou perda de R$ 3,57 bilhões em valores atualizados pela inflação. Antes disso o único prejuízo desse vulto, equivalente a R$ 3,93 bilhões ajustados, aconteceu no quarto trimestre de 1991, em meio a um período conturbado do governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992).

Em julho de 2009 o Valor mostrou que dos 28 poços perfurados pela estatal no pré-sal das bacias de Campos e Santos até então, 32% estavam secos ou poderiam ser classificados como produtores subcomerciais de petróleo ou gás segundo dados da Agência Nacional do Petróleo disponíveis na época.

Ao explicar a baixa de poços no segundo trimestre, a Petrobras não deu detalhes. Disse apenas que o aumento dos gastos nessa linha se explicam principalmente "pelas maiores baixas de poços secos ou subcomerciais, perfurados principalmente no período 2009-2012, a custos mais elevados, com destaque para áreas de novas fronteiras exploratórias".

Pela contabilidade, quando ela realiza exploração de poços as despesas entram como investimento, sem afetar o resultado do período. Mas no momento em que se verifica que o poço é seco ou subcomercial é preciso reconhecer aquele gasto como despesa, e aí sim ela afeta o lucro. Ao apresentar o resultado, Graça Foster identificou todos os ítens que prejudicaram o balanço, dizendo que a companhia está trabalhando para recuperar a rentabilidade.

Apesar de esperarem um péssimo resultado, nenhum analista previu um prejuízo da magnitude anunciada pela Petrobras. Os mais pessimistas esperavam um lucro de R$ 1,9 bilhão a R$ 2 bilhões, o que já seria um péssimo resultado comparado aos R$ 10,94 bilhões do mesmo período de 2011, ou com o lucro de R$ 9,21 bilhões entregues no primeiro trimestre deste ano.

"Estou anestesiado", brincou o analista de um grande banco na sexta-feira, logo depois da divulgação do resultado. Esse analista observou que nunca imaginou que a empresa apresentasse prejuízo em um trimestre em que o preço médio do petróleo "brent" no mercado internacional foi de US$ 108,47 por barril.

A impressão que ficou do primeiro balanço da gestão de Graça Foster na presidência da Petrobras é de que ela está "limpando o balanço" para, a partir daí, registrar resultados mais aderentes, o que no longo prazo é bom para a companhia.

Outro item que ajudou a afundar o resultado da estatal, já esperado, foi o prejuízo de R$ 7,03 bilhões da área de abastecimento e refino, onde são lançados os custos com importação de combustíveis vendidos no país mais barato que o preço de aquisição. Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), no primeiro semestre de 2012 a Petrobras acumulou saldo líquido negativo de R$ 9,4 bilhões em função da diferença entre as despesas com a importação de gasolina e diesel e a receita obtida com as vendas no país.

Outra causa foi a variação cambial no período (o dólar se valorizou 11% em relação ao real), que trouxe impacto de R$ 7,17 bilhões sobre a dívida líquida em dólares. Mesmo assim, na avaliação de outro experiente analista o câmbio, sozinho, não seria capaz de fazer um estrago tão grande.

"O resultado é uma lástima. É o que dá quando não se pratica paridade de preços. O câmbio andou afetando o balanço mas os preços continuam aquém [do mercado internacional], o que impacta o resultado operacional. Uma coisa não compensa a outra", observou.

Como as perdas com importação devem cair por causa do aumento dos preços do diesel e da gasolina, e a variação cambial e as estrondosas despesas com poços secos não recorrentes, em tese esses itens não devem se repetir no terceiro trimestre.

"O reajuste nos preços da gasolina e do diesel ocorrido no final de junho ainda não teve muito efeito nos números, mas deve contribuir para minimizar os impactos causados pelos altos custos de derivados importados nos próximos resultados", observaram analistas do BB Investimentos.

O limitado poder de escolha dos EUA



Por Mohamed A. El-Erian - Valor 06/08

Acrença geral sobre as eleições presidenciais de novembro nos Estados Unidos está apenas em parte correta. Sim, as questões econômicas terão grande papel na determinação do resultado. O passo seguinte no argumento - de que o vencedor de uma disputa cada vez mais detestável poderá dar-se o luxo de buscar políticas significativamente diferentes do oponente - é, no entanto, muito mais duvidoso.

Quando o próximo mandato presidencial começar, em janeiro de 2013, ao contrário dos atuais discursos nas campanhas de Obama e Romney, o mandatário se verá com espaço limitado para manobrar a política econômica. De fato, as possíveis diferenças para os EUA estão em outros fatores e ainda precisam ser compreendidas pelos eleitores. Elas concentram-se nas políticas sociais que acompanharão um conjunto de medidas econômicas em grande medida similares; e, aqui, as diferenças entre os candidatos são cruciais.

Seja quem for o vencedor, se deparará com uma economia crescendo a um vagaroso ritmo de apenas 2%, ou menos, por ano, com o incômodo risco de completa estagnação. O desemprego ainda estará alto demais e quase metade disso será de difícil reversão, a chamada falta de emprego de longo prazo.

O aspecto financeiro da economia também será fonte de preocupação. O déficit fiscal continuará a flertar com a faixa dos 10% do Produto Interno Bruto (PIB), intensificando os receios quanto à dinâmica de médio prazo dos títulos de dívidas do país. O setor bancário ainda estará "livrando-se [de investimentos] de risco", limitando o fluxo de crédito para pequenas e médias empresas e afetando as contratações e investimentos em fábricas e equipamentos. E as famílias terão percorrido apenas em parte sua dolorosa fase de desalavancagem.

O front das políticas econômicas será igualmente inquietante. Depois ter brigado e hesitado por tempo demais, o Congresso dos EUA encontrará cada vez mais dificuldade para adiar medidas que enfrentem esses desafios. Enquanto isso, o incomum ativismo do Federal Reserve (Fed, autoridade monetária dos EUA), incluindo uma crescente lista de medidas experimentais, vai render poucos benefícios e acarretar riscos e custos cada vez maiores.

A economia dos EUA também estará operando em meio a um cenário internacional mais difícil. Nos próximos meses, a crise da dívida europeia, com muita probabilidade, se agravará. Com as economias emergentes (incluindo a China) em desaceleração e com a falta de ações adequadas de coordenação política multilateral estendendo-se por mais tempo, as pressões protecionistas vão crescer à medida que as principais potências do comércio exterior passarem a concorrer por um bolo que deixou de crescer.

Portanto, independentemente de o presidente Barack Obama ou Mitt Romney ganharem em novembro, o próximo presidente se verá limitado pelas necessidades "gêmeas" de estabilização econômica premente e de reformas de longo prazo. E, com os ventos contrários vindos da Europa e da desaceleração mundial sincronizada, os candidatos não terão escolha a não ser adotar, pelo menos de início, políticas econômicas similares para restaurar uma criação de empregos dinâmica e a estabilidade financeira.

Para encontrar o equilíbrio certo entre estímulos econômicos imediatos e sustentabilidade fiscal de médio prazo, a medida mais urgente será conter apropriadamente o chamado "abismo fiscal" - quando acabem as reduções temporárias de impostos e passem a valer automaticamente profundos cortes generalizados de gastos públicos - que se aproxima.


São necessárias reformas orçamentárias sérias no médio prazo para lidar com o legado dos sucessivos erros do Congresso. E, caso seja abastecido com números realistas, o próximo presidente logo perceberá que a combinação adequada de reformas nos impostos e nos gastos recai em uma faixa muito mais estreita de possibilidades do que os discursos políticos rivais da atualidade sugerem.

As reformas fiscais funcionam melhor em economias dinâmicas. Com essa ideia, Obama e Romney precisarão levantar os impedimentos ao crescimento e à criação de empregos.

Isso, no entanto, não significa que não há espaços para diferenças. Há; e elas refletem o fato de que as tendências econômicas gerais serão acompanhadas de dinâmicas com diferentes velocidades nas mais variadas esferas.

Depois de uma "era" de alavancagem excessiva, emissão de dívidas e facilidade de crédito que culminou com a crise financeira mundial de 2008, os EUA ainda se deparam com o complicado desafio de lidar com perdas acumulativas que inibem continuamente os investimentos, empregos e competitividade. Até agora, a excessiva polarização política no Congresso traduziu-se em uma abordagem que empurrou ainda mais os encargos do ajuste sobre aqueles que têm menos capacidade para suportá-lo.

Em um mundo ideal, o próximo presidente dos EUA rapidamente embarcaria em uma estratégia de dois passos para recuperar o dinamismo do emprego e a solidez financeira. Primeiro, elaboraria um conjunto abrangente de iniciativas de política econômica que sejam tanto desejáveis como viáveis - e, de novo, o espaço para diferenças substanciais aqui é limitado. Segundo, acompanharia isso com um conjunto explícito de políticas sociais que resolva a necessidade de compartilhar de forma equitativa os encargos.

Esta não é realmente uma eleição sobre temas polêmicos como transferência de produção ao exterior ou discussões acaloradas como aumento de impostos versus reformas nos benefícios sociais; controle da produção pelo governo versus atividade irrestrita do setor privado; ou criadores de empregos versus "aproveitadores" da ajuda do Estado. Trata-se muito mais dos conceitos que acompanham esses temas, como justiça social, benefícios sociais, igualdade e, sim, padrões de comportamento para uma sociedade rica e civilizada.

Esta é uma eleição sobre responsabilidade social - a obrigação da sociedade de ajudar aqueles que estão em dificuldade, por culpa de outros, a encontrar empregos e a ter o suficiente para suas despesas. É sobre a reforma de um sistema de ensino que não atende apropriadamente a juventude americana. Entre as várias questões de justiça e igualdade, esta é uma eleição sobre os ricos devolvendo algo ao sistema que lhes trouxe uma riqueza inimaginável.

É aqui que as diferenças entre Obama e Romney são importantes. Quanto antes os debates da campanha se voltarem a isso, maior a probabilidade de que os americanos venham a fazer uma escolha estando mais bem informados e, portanto, se envolvam no esforço coletivo necessário para acabar com as mazelas que afetam o país.



Mohamed A El-Erian executivo-chefe e codiretor-executivo de informações da PIMCO, é autor de "When Markets Collide" (quando mercados colidem, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.



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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Integrar para desenvolver



Por Rodrigo Vilaça - Valor 03/08

É bastante animadora, especialmente para aqueles que atuam nos setores da infraestrutura, a determinação da presidente Dilma Rousseff no sentido de integrar os projetos de construção de rodovias, ferrovias e portos para agilizar os resultados desses investimentos, conforme recentes notícias publicadas na imprensa.

Para acelerar o crescimento econômico, o Brasil precisa vencer urgentemente o desafio logístico. Nossas vias de escoamento da produção, considerando-se todos os modais, ainda são muito precárias em comparação com outros países de grandes dimensões. Já somos a sexta economia do mundo mas ainda estamos na 45ª posição no ranking de desempenho logístico do Banco Mundial. É grande o esforço de todos - governo e iniciativa privada - e temos conseguido melhorar significativamente as condições de competitividade logística do país, porém as demandas atuais exigem um ritmo mais intenso e investimentos muito mais vultosos.

O governo vê com clareza que não há mais tempo de esperar as regiões se desenvolverem para então se tornar viável a construção de novas ferrovias. É preciso construir vias férreas cruzando todo o país, de forma que as locomotivas impulsionem o progresso e os vagões transportem crescimento econômico e social, integrando as diversas regiões. Este sim, é um investimento correto em infraestrutura.

A construção de ferrovias estruturantes vai dar ao Brasil um traçado de malhas que nunca tivemos antes. É o caso da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), ligando o litoral da Bahia à Norte-Sul no estado do Tocantins, e também da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), atravessando horizontalmente todo o Mato Grosso do Sul até Goiás. Assim como a Nova Transnordestina, que vai ligar dois portos importantes do Nordeste (Pecém e Suape) ao sul do Piauí, onde também haverá uma conexão com a Norte-Sul.

Quando nosso território estiver integrado em artérias multimodais de Norte a Sul e de Leste a Oeste, aí sim o Brasil poderá alcançar o nível de desenvolvimento que todos almejamos. Nesse cenário a ferrovia é fundamental, por ser o modal mais competitivo e eficiente para cargas de grande volume e a longas distâncias. É por isso que nos principais países de grandes dimensões territoriais os trilhos conduzem mais de metade das cargas, enquanto no Brasil a participação do modal ferroviário está em 25% na matriz de transportes e as rodovias ainda predominam, com mais de 65%.

Mas sabemos que todos os projetos de expansão da malha ferroviária seriam insuficientes sem a integração com rodovias, hidrovias e portos. A intermodalidade é a única forma de atingirmos níveis competitivos de eficiência na infraestrutura de transporte de cargas. Sabe-se também que não basta investir na construção de novas ferrovias, sem solucionar os gargalos da malha existente.

Daí a importância de obras como o Ferroanel de São Paulo, que finalmente será construído, para solucionar uma situação que já se tornara absurda em uma metrópole como São Paulo. Quando estiverem prontas as vias férreas contornando a capital, os trens de carga não mais precisarão atravessar toda a cidade, nos mesmos trilhos usados pelos trens de passageiros. O fato de termos hoje composições com centenas de vagões parados durante várias horas, esperando para seguir viagem, compromete seriamente a produtividade do transporte de produtos vitais para a economia do país.

O Ferroanel de São Paulo vai beneficiar diretamente a população, que sofre com as precariedades do transporte público ou no trânsito congestionado pelo excesso de caminhões. Soma-se a esse benefício social o ganho ambiental, pois uma composição ferroviária com 100 vagões, por exemplo, corresponde a cerca de 350 caminhões. Portanto, um empreendimento como esse beneficia a qualidade de vida da população, não só pelo alívio para o trânsito da cidade e das estradas, como pela emissão cinco vezes menor de CO2 e pela economia de combustíveis que os trens propiciam.

Em termos econômicos, o retorno é significativo em vários aspectos além do frete. Ou seja, a movimentação mais eficiente das cargas beneficia também outros setores da economia. São ganhos que ultrapassam em muito as vantagens econômicas para os operadores e os clientes das ferrovias de carga.

Quando se investe em ferrovias, portanto, melhora o transporte, a qualidade de vida, a saúde da população, o custo Brasil fica menor, são muitos os benefícios. Esse é um tipo de investimento que não se recupera só com o frete cobrado pelas concessionárias, e sim em melhorias para todos os segmentos da sociedade. Seu alcance social e ambiental justifica, sem dúvida alguma, a participação do governo nesse tipo de investimento, em parceria com a iniciativa privada.

O investimento das concessionárias deve retornar nos fretes, um tipo de retorno que demora anos para ser amortizado. Quantos anos? Obviamente, isso depende do montante investido. E qual é o parâmetro para a definição do prazo de concessão? Quando se instituiu o modelo atual, no final do século passado, e foram estabelecidas concessões com prazo de 30 anos, não havia a dinâmica de investimentos que se exige hoje. O horizonte era diferente. A preocupação do governo era livrar-se do absurdo déficit da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Era urgente estancar o prejuízo crescente, já na casa dos bilhões, que o sistema ferroviário, estatizado, fazia recair sobre as contas públicas. Hoje, a demanda é muito maior do que antes. É preciso investir fortemente, mas esse investimento tem que ser sustentável. Precisa de prazo suficiente para ser recuperado.

Essa é a lógica, bastante simples, do modelo de concessões. É impossível para o governo assumir toda a demanda de recursos necessários à infraestrutura e a iniciativa privada quer investir, mas precisa viabilizar seus investimentos. A agenda do crescimento, que está sendo anunciada pelo governo federal, certamente leva em conta todos esses fatores, ao planejar de modo integrado novas rodovias, ferrovias e portos.



Rodrigo Vilaça é presidente-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF).

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crise e capitalismo de Estado




Por Jorge Arbache - Valor 02/08

A "The Economist" publicou um provocativo relatório especial sobre capitalismo de Estado, modelo que, segundo a revista, "combina as forças do Estado com as forças do capitalismo". Desde então, o assunto ganhou atenção mundo afora e tem contribuído para os debates sobre a crise econômica e sobre modelos de desenvolvimento. A crescente influência das economias emergentes na economia mundial e a sua resiliência à crise financeira estariam por detrás do grande interesse pelo assunto. Contrariamente ao dirigismo muitas vezes observado até recentemente em muitos países em desenvolvimento, o capitalismo de Estado se utilizaria, segundo a revista, de instrumentos e métodos de gestão de mercado para atingir seus objetivos. O relatório justifica o foco nas experiências recentes dos países emergentes, notadamente a da China, porque elas "parecem ser cada vez mais a tendência futura".

As manifestações do capitalismo de Estado são variadas e podem ser complexas e sofisticadas, como as políticas públicas de apoio aos conglomerados privados sul-coreanos, ou a montagem de fundos soberanos com crescente influência nos fluxos de capitais e investimentos. Mas as experiências de capitalismo de Estado de países emergentes coexistem com manifestações de forte intervencionismo estatal na economia também nos países desenvolvidos, como no caso da empresa de petróleo estatal norueguesa, Statoil, e das políticas americana e europeia de subsídios ao setor agrícola. As experiências das diferentes vertentes de capitalismo de Estado sugerem haver em comum entre elas uma tensão, em maior ou menor grau, entre pragmatismo e ideologia.

Mais recentemente, as inéditas e massivas intervenções na economia pelos governos dos países no epicentro da crise financeira por meio de "quantitative easing" e "bailouts", por exemplo, têm provocado profundas repercussões na alocação de recursos e formação de preços não apenas no plano doméstico, mas, também, internacional. Essas intervenções, muitas delas oportunistas, são especialmente intrusivas devido ao tamanho dessas economias e ao fato de suas moedas serem reserva de valor internacional, criando e agravando desequilíbrios macroeconômicos internacionais e acentuando as condições já assimétricas de competição.

O emprego de políticas de capitalismo de Estado parece estar se popularizando mundo afora à medida que a crise econômica e as incertezas se agravam. O capitalismo de Estado da China e o fracasso de políticas econômicas ultra-liberais, como algumas perseguidas pelos Estados Unidos até antes da crise, nos ajudam a entender porque um dos prováveis legados dessa crise para os políticos é a lição de que governos não devem limitar os seus papéis na economia.

Embora seja compreensível a atratividade do capitalismo de Estado num contexto de crise econômica, a sua multiplicação em escala global tem implicações deletérias. De fato, parece ser pouco plausível que muitos países possam se beneficiar, simultaneamente, de políticas de capitalismo de Estado devido à falácia da composição e devido às externalidades negativas por elas provocadas, que tendem a desorganizar o sistema econômico, fomentar reações mercantilistas e alimentar tensões políticas entre países. Por isso, é muito provável que a popularização dessas políticas dificulte a recuperação da economia mundial. O emprego de políticas de capitalismo de Estado também suscita questões associadas às escolhas entre interesses nacionais e compromissos internacionais, como os do G-20, com reflexos para a credibilidade do sistema multilateral.

Para que se mitiguem a proliferação do capitalismo de Estado e seus potenciais riscos para o crescimento econômico mundial, será preciso que os países, notadamente Estados Unidos, União Europeia e China, reconheçam a interdependência das políticas micro e macroeconômicas nacionais e seus impactos nos países em desenvolvimento. Será preciso, assim, redobrar os esforços de coordenação de políticas e de gestão de interesses conflitantes. No entanto, experiências como o colapso do Acordo de Doha, crise do Euro e as dificuldades de avanço nos acordos do clima ilustram os desafios de coordenação e de solução de controvérsias em períodos de crise.

Como as políticas de capitalismo de Estado têm significativos impactos adversos na economia brasileira, incluindo valorização cambial, especulação com preços de ativos e barreiras ao comércio e ao investimento, torna-se necessário o emprego de estratégias de desenvolvimento e de inserção internacional que busquem mitigar esses impactos. Tais estratégias deveriam levar em conta a combinação dos benefícios do comércio com os das políticas públicas de promoção da indústria conciliada com o desenvolvimento e a exploração das vantagens produtivas e competitivas nacionais. Deveriam, também, reconhecer as relações entre comércio e variáveis macroeconômicas como câmbio, juros e política fiscal e seus impactos na indústria e no comércio, buscar o reconhecimento internacional dos impactos dos grandes desequilíbrios macroeconômicos e das políticas de outros países na economia brasileira, e intensificar esforços indutores do aumento da competitividade através da redução dos custos de produção e aumento da produtividade e dos investimentos em capital humano e inovação.



Jorge Arbache é professor de economia da UnB. jarbache@gmail.com

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A China e a desaceleração



Por Yu Yongding - Valor 01/08

O crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelerou-se de 8,1% no primeiro trimestre para 7,6% no segundo, a menor expansão desde o mesmo período de 2009. Os dados recém-divulgados sobre a expansão podem ter dissipado os temores de uma aterrissagem forçada da China, mas mesmo assim levaram muitos a argumentar que a China precisa estimular mais sua economia para garantir um crescimento anual de 8%.

Desde o início de 2010, o governo chinês apertou sua política monetária para conter a inflação e evitar bolhas nos preços das propriedades. Como resultado, a inflação caiu para 2,2% em junho, menor patamar em 29 meses, e os preços residenciais, cujos dados oficiais a Agência Nacional de Estatísticas infelizmente deixou de divulgar, parecem estar se estabilizando e podem até ter recuado, ainda que de forma moderada.

A desaceleração do índice de crescimento da China é, até certo ponto, reflexo do sucesso dos esforços do governo para domar a bolha do setor imobiliário, assim como de outras políticas voltadas ao reequilíbrio da economia. O crescimento dos investimentos em projetos imobiliários, que representam diretamente mais de 10% do PIB, caiu 16,3 pontos percentuais no primeiro semestre de 2012 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Isso levou a uma desaceleração nos investimentos em muitos setores relacionados como os de materiais de construção, móveis e eletrodomésticos, o que, por sua vez, levou a expansão anual nos investimentos em ativos fixos a cair de 25,6% para 20,4%.

A tendência de consumo das famílias está menos clara. Muitos economistas, entretanto, encontraram evidências de que o crescimento no consumo das famílias no primeiro semestre foi maior do que mostraram os dados oficiais.

A desaceleração da economia em 2012 deveria ter sido antecipada em 2011 pelo governo. No início de 2012, em seu discurso na abertura da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o governo explicou por que a meta indicativa de expansão econômica do governo em 2012 era de 7,5%, destacando que o objetivo era "guiar as pessoas de todos os setores a focar seu trabalho na aceleração da transformação do padrão de desenvolvimento econômico e tornar o desenvolvimento econômico mais sustentável e eficiente".

Na verdade, para poder criar uma margem de espaço adequada para mudar o padrão de crescimento centrado no PIB, o 12º Plano Quinquenal da China fixou uma meta de crescimento anual de 7% do PIB para o período entre 2010 e 2015.
A taxa de investimentos na China está em cerca de 50% do PIB, contando os 10% de investimentos do setor imobiliário. Tendo em vista o predomínio de construções que se duplicam e o desperdício generalizado, a eficiência dos investimentos vem se deteriorando rapidamente. Com um índice de crescimento anual de 10%, ter uma taxa de investimentos de 50% implica um quociente de cinco entre capital e produção, o que é extraordinariamente alto em relação a outros países.
A taxa de consumo na China é de 36%. Embora os dados do governo não sejam inteiramente confiáveis, esse número é simplesmente muito baixo. Enquanto volumes imensos de dinheiro vêm sendo despejados na infraestrutura física, os gastos públicos em capital humano e segurança social estão abaixo da média mundial. Mais recursos deveriam ser realocados da formação de capital físico para a formação de capital humano.

Graças aos persistentes superávits em conta corrente e conta de capital obtidos por 20 anos, a China acumulou US$ 3,2 trilhões em reservas internacionais. A China, no entanto, com seus gigantescos ativos líquidos internacionais, possui déficit na conta de renda de investimentos. Desde 2008, o superávit em conta corrente caiu de forma significativa. Ainda assim, o país exibe esses superávits "gêmeos" e há as dúvidas persistentes se a queda é estrutural ou cíclica.

De fato, a China precisa acelerar seu ajuste econômico, mesmo que à custa do crescimento. De outra forma, terá de pagar um custo ainda maior com um ajuste no futuro.

Por muitos, anos, o governo manteve uma meta implícita de crescimento mínimo de 8% por ano, o que era considerado necessário para criar dez milhões de empregos anuais. Variações demográficas e outras mudanças estruturais, contudo, podem ter alterado as condições do mercado de trabalho: até agora, apesar do crescimento inferior a 8%, parece haver poucos sinais de problemas.

A questão agora é se o governo se deixará inquietar pelo desempenho trimestral mais fraco dos últimos três anos e lançará algum grande pacote de estímulo, com as consequências que a China experimenta quando tais medidas são adotadas.

"Deveríamos continuar adotando políticas fiscais pró-ativas e uma política monetária prudente, enquanto damos maior prioridade à manutenção do crescimento", disse o primeiro-ministro Wen Jiabao recentemente. Além disso, nos últimos meses, o governo aprovou alguns grandes projetos siderúrgicos e energéticos, e mais anúncios do tipo devem estar por vir.

Sem dúvida, é acertado que governos respondam a mudanças nas circunstâncias no momento oportuno. A desaceleração no crescimento anual para 7,8% no primeiro semestre de 2012, no entanto, não justifica uma mudança da direção das políticas econômicas. A China precisa escolher entre um crescimento maior ou um ajuste estrutural mais rápido. Não pode ter os dois ao mesmo tempo. Diante da atual desaceleração, a China pode dar-se ao luxo, ao menos por enquanto, de manter o rumo. (Tradução de Sabino Ahumada).



Yu Yongding é ex-membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China e ex-diretor do Instituto de Economia e Política Mundial, da Academia Chinesa de Ciências. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

Nível de gasto do brasileiro com dívida bancária preocupa o FMI



Por Fernando Travaglini - Valor 01/08
De São Paulo

Apesar dos avanços do Brasil nas áreas de regulação e supervisão bancária, o Fundo Monetário Internacional ainda vê riscos decorrentes da expansão acelerada do crédito nos últimos anos e enxerga indícios de tensões em algumas classes de ativos, especialmente nos empréstimos às famílias e no setor imobiliário, que poderiam, no ambiente de queda dos juros, levar à formação de bolhas.

De acordo com dados citados pelo FMI, o endividamento do brasileiro não está entre os mais altos, hoje na casa dos 30% de toda a renda disponível. Entretanto, o nível de comprometimento da renda com os serviços da dívida, ou seja, com o pagamento das parcelas mensais, está entre os maiores do continente americano.

Por aqui, 23% da renda mensal das famílias é gasta com o pagamento de juros e a amortização da dívida, enquanto no México, na Colômbia e no Peru essa relação está ao redor ou abaixo de 10% (ver gráfico).

Até mesmo nos Estados Unidos, onde o endividamento total corresponde a 100% da renda disponível, a relação dos gastos mensais com as prestações toma apenas 10% da renda dos americanos a cada mês, ou seja, menos da metade dos brasileiros.
Em outras palavras, o brasileiro tem baixo endividamento, mas mesmo assim compromete uma expressiva parcela de seus ganhos mensais com suas dívidas. Por conta disso, qualquer queda na renda ou piora do emprego, em uma conjuntura mais difícil, poderia ser explosiva para as famílias, como alerta o Fundo.

"Apesar de parecer sustentável por enquanto, com os altos níveis de emprego e renda, as famílias podem se mostrar altamente endividadas em um cenário de desaquecimento econômico", diz o Fundo. "Além disso, a tendência atual do crédito e da inadimplência sugere que alguns segmentos de dívida podem já estar sob pressão."

O que explica a diferença entre os números do Brasil e do restante dos países são as taxas de juros elevadas, quase três vezes maiores do que em países como México e Chile, e os prazos dos empréstimos, bem mais curtos que os demais - nesse caso como consequência do baixo volume de financiamento imobiliário na comparação internacional.

E não é apenas o endividamento que preocupa o FMI. "Há indícios de crescente tensão em alguns setores e classes de ativos, com destaque para o endividamento das famílias e o rápido aumento dos preços dos imóveis nas principais regiões, como São Paulo e Rio de Janeiro."

A avaliação está no mais recente relatório elaborado dentro do Programa de Avaliação do Setor Financeiro, executado pelo FMI em conjunto com o Banco Mundial em 25 países emergentes. O documento, que reconhece avanços do sistema financeiro do país e elogia a fiscalização do Banco Central, destaca que os ativos do setor financeiro mais do que dobraram ao longo da última década e as autoridades precisam estar atentas os riscos externos e internos.

O FMI pondera que as "incertezas são mitigadas pela supervisão bancária robusta e pelos elevados níveis de proteção em termos de capital e liquidez nos bancos, mas é preciso manter a vigilância, aperfeiçoar os dados e estar pronto para intervir e controlar essas fontes de aquecimento se necessário."

O documento vai além ao afirmar que até uma bolha de ativos poderia ser causada por um aquecimento acima do usual em um cenário de queda dos juros. "À medida que os juros no Brasil continuam a cair e se aproximar de níveis internacionais, a procura cada vez maior dos investidores internos por rendimentos mais altos pode levar a uma subestimação do preço do risco e à formação de bolhas de preços de ativos", avalia o Fundo, apesar de ressaltar que o risco sistêmico é pequeno hoje.

O Banco Internacional de Compensações já havia alertado sobre os riscos do crescimento acelerado do crédito no país em seu informe anual, de junho.

Com relação às ameaças externas, o FMI avalia que assim como o restante da economia brasileira, o sistema financeiro está exposto "aos efeitos da volatilidade dos mercados internacionais", sobretudo pelas variações nos preços das commodities e pela mobilidade do capital estrangeiro.

"Um novo conjunto de riscos pode ser vislumbrado no horizonte, o que exigirá um monitoramento cuidadoso daqui em diante", diz o diretor assistente do departamento de mercados monetários e de capitais do FMI, Dimitri Demekas, em nota.

Para ele, a expansão acelerada do crédito nos últimos anos apoiou o crescimento da economia interna e o aumento da inclusão financeira, mas essa expansão também pode gerar vulnerabilidades. "Existe o risco de que o sistema financeiro se torne vítima de seu próprio sucesso no país", diz Demekas, que chefiou a equipe encarregada da avaliação, realizada entre os dias 6 e 21 de março.

Ainda de acordo com o FMI, para afastar o sistema financeiro do atual equilíbrio entre taxas de juros elevadas e prazos médios curtos e ainda atender ao objetivo de crescimento econômico de longo prazo, serão necessárias uma "condução cuidadosa" e amplas reformas. "Em vez de olhar para trás, o sistema deve ser fortalecido para poder suportar uma variada gama de possíveis choques no futuro", diz Demekas. Entre as medidas, está a necessidade de uma regulamentação sobre centrais de avaliação de crédito, o fortalecimento do mecanismo do Banco Central para concessão de financiamento emergencial aos bancos no caso de crise no sistema financeiro e o reforço da proteção jurídica de todos os supervisores do setor.

O Fundo lembra que a reforma da governança do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já foi implementada, mas é preciso tornar mais rigorosos os critérios para concessão de ajuda aos bancos e garantir uma fonte de recursos segura e em nível suficiente no caso de uma crise.

Nessa mesma linha, o FMI recomenda que se fortaleça a comissão encarregada do monitoramento de riscos sistêmicos e da preparação contra crises e que se inclua nessa comissão o FGC.

O FMI vê avanços no sistema bancário brasileiro, incluindo um quadro de gestão de crise que ajudou a proteger o sistema financeiro contra o impacto da crise mundial em 2008. O fundo avalia ainda que o Brasil melhorou a fiscalização de seu sistema financeiro. "[A fiscalização] é profunda e complexa, se baseia no risco e apresenta um elevado grau de conformidade com as normas internacionais."

Além de apoiar o sistema contra futuros choques, diz o Fundo, o principal desafio nos próximos anos será aumentar a contribuição do setor financeiro para o crescimento do Brasil no longo prazo. Nesse contexto, o FMI alerta que será preciso tomar medidas para "reformar o crédito imobiliário e modificar o papel dos bancos estatais, sobretudo do BNDES".


BC diz monitorar avanço rápido do crédito

Por Claudia Safatle
De Brasília

O relatório sobre a estabilidade do sistema financeiro, elaborado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e divulgado ontem, traz uma radiografia minuciosa e positiva da situação dos bancos no Brasil. O Fundo chama a atenção, contudo, para eventuais riscos decorrentes da acelerada expansão do credito, do aumento no endividamento das famílias e das pressões sobre os preços dos imóveis.

Os bancos são sólidos, seguros, registram elevado capital mínimo e liquidez, têm boa lucratividade e o provisionamento cobre os riscos de inadimplência. O sistema, submetido a testes de stress, revela-se resistente a choques graves, como o de uma recessão global. Pondera, porém, que as instituições de pequeno e médio porte "são relativamente mais vulneráveis ao risco de liquidez".

O diretor de assuntos internacionais e regulação financeira do Banco Central, Luiz Pereira Awazu, considerou o relatório equilibrado, com aspectos bastante positivos e ressaltou que, no geral, coincide com a avaliação que o próprio BC faz. Ele salientou, ainda, que as conclusões do fundo sobre a solidez do sistema financeiro doméstico e sobre o alto padrão da supervisão bancária no país - abaixo apenas da nota dada ao Canadá - são importantes sobretudo num momento de ciclotimia, quando a euforia dos investidores com o Brasil vem se transformando em uma certa descrença.

A participação dos bancos estrangeiros no mercado doméstico é modesta e mesmo instituições europeias como o Santander - com 9% dos ativos do sistema local- e o HSBC - com 3% - estão focadas no mercado doméstico, obedecem as regras prudenciais do país e não colocam riscos de contágio da crise externa sobre o mercado local, atestou o Fundo.
Quanto às vulnerabilidades apontadas no relatório, os técnicos do FMI alertam para o rápido crescimento do crédito - "tema que temos discutido muito", comenta o diretor. "Eles dizem que isso decorre do processo de transformações sociais experimentado pelo país, com a inclusão financeira." Houve um crescimento do crédito de 25% para 50% do PIB e, segundo o FMI, isso ocorre com os países onde a base de partida é pequena.

Mais do que olhar o endividamento geral das famílias como proporção do PIB - da ordem de 23% - o BC, segundo ele, está monitorando o grau de endividamento por faixas de renda e criou uma diretoria específica para tratar do relacionamento com o cidadão e investir na educação financeira. Os índices de preços dos imóveis no país precisam ser vistos com certa cautela. O BC está, junto com a FGV e o IBGE, construindo um índice mais rigoroso.

Ao contrário do que ocorreu com as instituições financeiras americanas e europeias, que passam por problemas de difícil equação desde a crise de 2008/2009, os bancos brasileiros estão sob uma supervisão bastante conservadora e "intrusiva" e isso faz enorme diferença na exposição a riscos. A quantidade de informações diárias de que o BC dispõe lhe permite, inclusive, detectar problemas de liquidez numa determinada instituição antes mesmo que ela saiba que está sob stress, disse ele.

O documento preparado pelo FMI envolveu cerca de 60 pessoas. O Fundo começou a fazer esse acompanhamento por recomendação do G-20 logo após a crise asiática do fim dos anos 90. Ao Banco Mundial coube uma tarefa de mais longo prazo, de avaliação das perspectivas de desenvolvimento do sistema financeiro em cada um dos países do G-20.

O FMI ressaltou a importância da ação dos bancos federais em resposta à crise de 2008/2009, mas apontou a necessidade de se criar alternativas ao financiamento de longo prazo hoje nas mãos do BNDES, assim como de desenvolvimento do mercado de capitais.

Salientou, também, que embora o Banco Central do Brasil tenha autonomia de fato, ele não tem independência para tomar diretamente medidas de regulação prudencial, tendo que submetê-las à aprovação do Conselho Monetário Nacional (CMN).

O relatório abarca as áreas de seguros e fundos de pensão e, para essas, recomenda um reforço legal tanto para melhorar a supervisão como para dar maior independência operacional aos órgãos reguladores como a Susep (seguros) e a Previc (fundos de pensão). Luiz Pereira concordou que há muito a fazer, mas entende que "estamos fazendo a coisa certa".