quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A hora da dolorosa



Por Alexandre Schwartsman - Valor 06/09

Há um ano o Banco Central (BC) começou um processo de redução de taxa de juros cujo fim foi sinalizado na reunião do Copom da semana passada (embora, dado o histórico recente de comunicação do BC, possa haver distância astronômica entre sinalização e gesto). Também na semana passada foi divulgado o resultado do Produto Interno Bruto (PIB), revelando que nos 12 meses até junho o crescimento econômico atingiu anêmico 1,2% contra 4,7% acumulados nos 12 meses até junho de 2011. À luz disso pode-se dizer que o BC acertou ao mudar radicalmente o curso da política monetária?

Acredito que não. Acredito também que perdi 80% dos meus 18 leitores depois da afirmativa acima, talvez minha própria mãe, mas peço aos hesitantes 20% que leiam até o final e então julguem se minha resposta faz sentido.

Desde 1999 o BC está submetido ao regime de metas para a inflação. Concretamente isso requer que o BC calibre sua política de modo que a inflação convirja para a meta, no caso 4,5%. Assim, quando o Copom anunciou a inesperada redução da taxa Selic argumentou que "para 2012, as projeções de inflação (...) recuaram, posicionando-se ao redor do valor central da meta (...)."

Já no "cenário alternativo, construído e analisado sob a perspectiva de um modelo de equilíbrio geral dinâmico estocástico de médio porte, [que] admite que a atual deterioração do cenário internacional cause um impacto sobre a economia brasileira equivalente a um quarto do impacto observado durante a crise internacional de 2008/2009 (...) a taxa de inflação se posiciona em patamar inferior ao que seria observado caso não fosse considerado o supracitado efeito da crise internacional".
No entanto, se o desempenho brasileiro está longe de ser brilhante, é também distante daquele imaginado pelo Copom. Entre o terceiro trimestre de 2008 e o primeiro de 2009 o PIB caiu quase 5,5%, enquanto a taxa de desemprego, descontados os efeitos do desalento, subiu cerca de 2 pontos percentuais. Já o nível de utilização de capacidade na indústria (Nuci) caiu cerca de 8 pontos percentuais, segundo a FGV.
Em contraste, o PIB brasileiro cresceu modestamente (0,7%) entre o terceiro trimestre de 2011 e o segundo deste ano, o Nuci se manteve praticamente inalterado e a taxa de desemprego caiu. Por qualquer critério que se olhe, o cenário que balizou o corte de juros não se manifestou.

Por outro lado, é verdade que a inflação se reduziu, mas isso não configura o sucesso da política do BC. Em primeiro lugar porque a inflação reage, como se sabe, com defasagens às decisões de política monetária. A redução da inflação neste ano estava encomendada pelas ações tomadas na primeira metade de 2011, o que, aliás, transparecia na queda continuada das expectativas de inflação para este ano, conforme computadas pela pesquisa Focus.

Isto dito, o Copom não prometeu apenas reduzir a inflação, mas afirmou que "um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação à meta em 2012". Contudo, o consenso de mercado hoje sugere que a inflação deste ano permanecerá bem acima da meta, em torno de 5,20%.

Em segundo lugar a queda da inflação foi exacerbada por fatores que nada têm a ver com a política monetária. Não vai aqui qualquer crítica à mudança da ponderação do IPCA por conta da nova Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, mas o fato é que, caso a ponderação permanecesse a mesma, a inflação, que nos últimos 12 meses acumulou 5,24%, teria atingido 5,88%. Parte da queda da inflação é, portanto, mera ilusão estatística.

Houve adicionalmente medidas de redução temporárias de impostos, que geram efeitos também passageiros sobre a inflação. Vale dizer, considerada a informação disponível na data da decisão e dadas as previsões do BC à época, fica claro que a evolução da inflação foi muito pior do que o Copom antevia.
É verdade que parcela disto reflete o aumento dos preços internacionais de alimentos, fator que estaria fora do controle do BC e é referido erroneamente pelas autoridades como um choque de oferta, cujos efeitos não deveriam ser debitados na conta da autoridade monetária.

Já eu creio que deveriam sim ser contabilizados entre os passivos do BC. Não, é claro, a seca que assolou a agricultura americana, mas a política cambial que, ao impedir a resposta natural da taxa de câmbio brasileira (baratear o dólar quando preços de commodities aumentam), também não permitiu que o aumento dos preços internacionais de alimentos fosse absorvido, como no passado, pelo câmbio mais forte.

Em suma, mesmo com o crescimento na faixa de 1,5% a inflação este ano superará a meta (e mais ainda no ano que vem), o que, em função do mandato do BC, determinado pelo Decreto 3.088/99, configura um erro mensurável na condução de política monetária. Erro tanto maior porque ao longo do processo o BC perdeu o controle duramente conquistado sobre as expectativas de inflação. Quando (e se) finalmente se decidir por fazer a inflação retornar à meta, pagaremos um preço bem mais alto em termos de produção e emprego do que no passado. A conta chega, sempre chega.



Alexandre Schwartsman, doutor em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, é sócio-diretor da Schwartsman & Associados.


Depois do recorde em janeiro produção de petroleo cai abaixo dos valores de 2010


No Brasil, a produção de petróleo foi de aproximadamente 2,023 milhões de barris/dia, apresentando queda de 2,6% em relação a julho de 2011 e de 0,5% na comparação com junho deste ano. A produção de gás chegou 71 MMm3, crescimento de 6,1% em relação ao mesmo mês de 2011 e redução de 1,4% na comparação com o mês anterior. A plataforma P-52, localizada em Roncador, produziu 151,1 Mboe/dia e foi a que teve a maior produção.

As maiores reduções de produção de petróleo e gás natural, em relação ao mês anterior, foram observadas nos campos de Marimbá e Albacora Leste, devido às paradas programadas para manutenção das plataformas P-08 (Marimbá) e P-50 (Albacora Leste). O campo de Marlim Sul, na Bacia de Campos, foi o que teve a maior produção de petróleo e segundo maior produtor de gás natural, com produção média de 321,9 Mboe/d.

A queima de gás natural, de 3,6MMm3/d, apresentou redução de 30,7% em relação a julho de 2011 e aumento de 0,4% na comparação com o mês anterior.

No mês de julho de 2012, 308 concessões, operadas por 26 empresas foram responsáveis pela produção nacional. Destas, 79 são concessões marítimas e 229 terrestres. Vale ressaltar que, do total das concessões

produtoras, sete encontram-se em atividades exploratórias e produzindo através de Testes de Longa Duração (TLD), e outras 11 são relativas a contratos de áreas contendo Acumulações Marginais.

O grau API médio do petróleo produzido no mês foi de aproximadamente 23,8º, sendo que 8% da produção é considerada óleo leve (>=31°API), 57% é óleo médio (>=22°API e <31 09="09" 1.113="1.113" 35="35" 755="755" 8.250="8.250" 9.005="9.005" a="a" acordo="acordo" amaro="amaro" anp="anp" bacia="bacia" brasil="brasil" campo="campo" canto="canto" classifica="classifica" com="com" da="da" de="de" do="do" e="e" foi="foi" g="g" leo="leo" maior="maior" mar="mar" mero="mero" n="n" natural="natural" no="no" o="o" oriunda="oriunda" os.="os." os="os" pesado="pesado" petr="petr" po="po" portaria="portaria" potiguar="potiguar" produ="produ" produtores="produtores" s="s" sendo="sendo" terrestres.="terrestres." timos="timos">

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Mundo armado e paz subfinanciada



Por Ban Ki-moon - Valor 05/09

Em julho deste ano, interesses conflitantes impediram um acordo sobre um tratado essencial que teria reduzido o terrível custo humano provocado pelo mal regulado comércio de armas internacional. Enquanto isso, os esforços de desarmamento nuclear permanecem paralisados, apesar do forte e crescente sentimento popular global em apoio a esta causa.

O fracasso dessas negociações e os aniversários, em agosto, dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki proporcionam uma boa oportunidade para explorar o que deu errado, por que o desarmamento e o controle de armas têm se mostrado tão difíceis de se alcançar e como a comunidade internacional pode voltar ao caminho desses objetivos de vital importância.

Muitos estabelecimentos de defesa reconhecem agora que a segurança significa muito mais do que proteger as fronteiras. Preocupações graves de segurança podem surgir como resultado das tendências demográficas, da pobreza crônica, da desigualdade econômica, da degradação ambiental, de doenças pandêmicas, do crime organizado, da governança repressiva e de outros acontecimentos que nenhum Estado pode controlar sozinho. Armas não podem resolver essas preocupações.

No entanto, houve um atraso preocupante entre reconhecer esses novos desafios de segurança e lançar novas políticas para enfrentá-los. Prioridades orçamentais nacionais ainda tendem a refletir os velhos paradigmas. Gastos militares maciços e novos investimentos na modernização de armas nucleares deixaram o mundo mais armado - e a paz subfinanciada.

No ano passado, os gastos militares globais declarados ultrapassaram US$ 1,7 trilhão - mais de US$ 4,6 bilhões por dia, o que representa quase o dobro do orçamento da ONU para um ano inteiro. Essa generosidade inclui mais bilhões para a modernização dos arsenais nucleares para as décadas futuras.

Esse nível de gastos militares é difícil de explicar em um mundo pós-Guerra Fria e em meio a uma crise financeira global. Os economistas chamam isso de "custo de oportunidade". Eu chamo de oportunidades humanas perdidas. Orçamentos de armas nucleares estão especialmente maduros para sofrer cortes profundos.

Essas armas são inúteis contra as ameaças atuais à paz e à segurança internacionais. Sua existência é desestabilizadora: quanto mais são apregoadas como indispensáveis, maior é o incentivo para a sua proliferação. Riscos adicionais surgem decorrentes de acidentes e dos efeitos ambientais e de saúde da manutenção e desenvolvimento de tais armas.

Chegou a hora de reafirmar compromissos de desarmamento nuclear e garantir que esse término comum seja refletido em orçamentos, planos e instituições nacionais.

Há quatro anos, eu esbocei uma proposta de desarmamento de cinco pontos destacando a necessidade de uma convenção sobre armas nucleares ou um quadro de instrumentos para alcançar este objetivo.

No entanto, o impasse sobre o desarmamento continua. A solução claramente depende de mais esforços por parte dos Estados no sentido de harmonizar suas ações para alcançar objetivos comuns. Aqui estão algumas ações específicas que todos os Estados e a sociedade civil deveriam perseguir para superar este impasse: apoiar esforços da Federação Russa e dos Estados Unidos para negociar profundos cortes verificados em seus arsenais nucleares, tanto os à disposição para uso quanto os armazenados.

Obter a adesão de outros que possuem tais armas para se juntar ao processo de desarmamento.

Estabelecer moratória sobre as armas nucleares em desenvolvimento ou em produção ou sobre novos sistemas de distribuição.

Negociar um tratado multilateral proibindo materiais físseis que possam ser usados em armas nucleares.

Acabar com as explosões nucleares e pôr em vigor o Tratado Global para banir testes nucleares.

Parar de implantar armas nucleares em solo estrangeiro e remover tais armas.

Garantir que os Estados que possuam armas nucleares se reportem a um repositório público da ONU sobre o desarmamento nuclear, incluindo detalhes sobre o tamanho da matriz, material físsil, sistemas de distribuição e o progresso para alcançar os objetivos de desarmamento.

Criar um Oriente Médio livre de armas nucleares e de outras armas de destruição em massa.

Garantir a adesão universal nos tratados que proíbem armas biológicas e químicas.

Perseguir esforços paralelos sobre controle de armas convencionais, incluindo um tratado de comércio de armas; controles fortalecidos sobre o comércio ilícito de armas pequenas e armas leves; adesão universal às Convenções de Proibição de Minas, de Munições de Dispersão e de Armas Inumanas; e participação ampliada no Relatório da ONU sobre Gastos Militares e no Registro das Nações Unidas de Armas Convencionais.

Desenvolver iniciativas diplomáticas e militares para manter a paz e a segurança em um mundo sem armas nucleares, incluindo novos esforços para resolver disputas regionais.

E talvez, acima de tudo, temos de abordar as necessidades humanas básicas e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A pobreza crônica corrói a segurança. Vamos reduzir drasticamente os gastos com armas nucleares e, no lugar, investir em desenvolvimento social e econômico, que serve aos interesses de todos ao expandir mercados, reduzir motivações para conflitos armados e proporcionar aos cidadãos uma participação em seu futuro comum. Como o desarmamento nuclear e a não proliferação, tais objetivos são essenciais para garantir a segurança humana e um mundo de paz para as gerações futuras.

Sem desenvolvimento não há paz. Sem desarmamento não existe segurança. No entanto, quando ambos avançam, o mundo avança com maior segurança e prosperidade para todos. Estes são objetivos comuns que merecem o apoio de todas as nações.



Ban Ki-moon é secretário-geral da ONU

Desintoxicação dos juros altos



Por Zeina Latif - Valor 05/09

A adoção de elevadas taxas de juros no Brasil foi parte do receituário que permitiu a superação dos graves desequilíbrios da economia. A implantação do regime de metas de inflação, em 1999, e a melhora dos fundamentos tem permitido a progressiva redução das taxas de juros, acelerada recentemente. Novos patamares têm sido sucessivamente "testados" pelo Banco Central. A crise global, que trouxe a reboque um quadro de juros internacionais excepcionalmente baixos e, no geral, um ambiente desinflacionário, tem auxiliado para que o BC acelere o processo de queda dos juros para níveis inéditos. Retirar o remédio amargo, porém, traz desafios quase comparáveis à superação da própria doença.
O desafio de administrar as consequências de taxas de juros baixas inéditas não é particularidade brasileira. Nos EUA especula-se os impactos desconhecidos de taxas de juros próximas de zero por um período prolongado, bem como de aumento sem precedentes da liquidez. Não por acaso o presidente do Banco Central americano (Fed), Ben Bernanke, discute os riscos que necessitam ser monitorados, sistematicamente, tanto para administrar possível reforço do receituário de novos estímulos monetários, como para retirá-los no futuro.

Tempos excepcionais têm permitido certo experimentalismo na política econômica, gerando riscos que necessitam ser monitorados e administrados.

Ainda que a comunicação do BC com os mercados nem sempre seja clara, há mérito no seu esforço. Com juros mais próximos do padrão internacional, distorções poderão ser removidas, o que poderá se traduzir adiante em maior eficiência da economia. A experiência brasileira difere da norte-americana. Enquanto o Fed lida com anomalias, o BC lida com a oportunidade de remover distorções na economia e aperfeiçoar o arcabouço institucional do país. Bom problema a ser enfrentado.

O que não significa que seja tarefa fácil. O caminho terá que ser descoberto e experimentado com cautela. E o tamanho do ajuste será enorme, pois o funcionamento do sistema econômico se moldou para operar com juros elevados. Mais do que isso, ficou dependente desse remédio. A desintoxicação é penosa e complexa, mas imprescindível para se levar uma vida normal.

Poupadores acostumaram-se com a renda garantida de juros altos financiando parcialmente seu consumo.

Fundos de pensão com metas atuariais, que hoje se revelam inadequadas aos novos tempos, encontram-se com grandes desafios: garantir os benefícios prometidos sem as receitas esperadas, em um contexto de complexa decisão de flexibilizar metas atuariais.

A indústria de fundos, pressionada pela busca por rendimento, almeja novos instrumentos financeiros, o que exigirá aperfeiçoamento de regras e supervisão para garantir o bom funcionamento e solidez do sistema.

Importante ajuste também ocorrerá no setor produtivo que, estrategicamente, opera com elevados recursos em caixa. De acordo com o Centro de Estudos do Mercado de Capitais, entre 2000 e 2011, 55,8% do investimento de empresas e famílias foi feito com recursos próprios. A receita financeira de curto prazo pode ter contribuído para a viabilidade econômica de muitos negócios. Há, portanto, desafios às empresas, não apenas à gestão do caixa, mas tambem à sua gestão estratégica, pois perdem uma importante fonte de receita. A menor taxa de retorno sobre a poupança doméstica pode estar impactando, de forma inesperada, a economia no curto prazo.

Comparando o desempenho da produção industrial brasileira e mundial nas últimas décadas, notam-se três fases distintas. Na primeira, até a eclosão da crise global de 2008, ambas caminhavam juntas, o que não chegava a ser um bom resultado para o Brasil, uma vez que o desempenho dos emergentes era superior. A razão pode estar na baixa taxa de investimento e no elevado, e em muitos casos crescente, custo da infra-estrutura, que limita o potencial de crescimento do país.

Na segunda fase, passada a recuperação em "V" em 2009, a produção brasileira estagnou, descolando-se da média global em lenta elevação. O aumento do custo da mão-de-obra, decorrente do sobreaquecimento do mercado de trabalho, é possível explicação para esse descolamento perverso.

A nova rodada de crise internacional no segundo semestre de 2011 inaugurou a terceira fase, onde se amplia o hiato entre produção global e brasileira, que por sua vez inicia um movimento de queda frente à produção global resiliente. O ciclo de estoques, que se correlaciona com a piora da confiança do empresário, contribuiu para isso. Porém, como o ajuste tende a ser rápido, provavelmente outros elementos concorrem para explicar a fraqueza da nossa indústria mais recentemente.

A depreciação cambial pode ser um deles. O real enfraquecido, no curto prazo, tem efeito perverso para a indústria, pois eleva o custo de produção, em decorrência da crescente penetração de insumos e bens de capital importados, e aumenta o passivo de empresas com dívidas em moeda estrangeira.

É possível que a queda da receita de juros também esteja contribuindo para explicar as dificuldades recentes da indústria, com impacto sobre investimento e produção. Seria um efeito de curto prazo, fruto do ineditismo do atual momento. Não se trata de inverter a ordem de causação; cortes de juros tendem a reativar a produção industrial, até antes mesmo de estimular o consumo, já que empresários podem antecipar o aumento da demanda. Mas esse não tem sido ainda o caso. Pelas defasagens usuais da política monetária, sinais de retomada da indústria já deveriam estar evidentes, o que já foi verificado nas vendas do varejo.

Fiquemos preparados para um período ainda marcado por sinais ambíguos de crescimento, por conta dos ajustes aos novos patamares de juros. Que esse período seja de renovação da agenda, sempre com atenção a possíveis ajustes que se façam necessários em tempos surpreendentes. Muita atenção a cada sinal emitido pela economia. O médico não pode descuidar ou desprezar os sinais mínimos revelados pelo paciente. O caminho do paciente em recuperacão precisa estar bem pavimentado. E previnido quanto ao inesperado em tempos de desintoxicacão.



Zeina Latif, doutora em economia pela USP, foi economista-chefe para América Latina no Royal Bank of Scotland (RBS) e economista-chefe para Brasil nos bancos ING e ABN-Amro Real. (zeina.latif@terra.com.br).

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O futuro da Gol



Bloomberg

A dívida líquida de US$ 1,6 bilhão (R$ 3,2 bilhões) da Gol, o maior dentre o de todas as grandes companhias áreas do mundo em relação aos lucros, está alimentando especulações de que a companhia vai vender ativos para levantar caixa, ou vai se fundir a outra companhia aérea.

O endividamento líquido da Gol chegou a 25 vezes o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebtida, na sigla em inglês) nos 12 meses encerrados em 30 de junho, a maior relação entre 31 companhias aéreas com valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão, segundo dados compilados pela Bloomberg. Isso se compara a uma relação de 3,4 para a Latam Airlines, do Chile; 1,3 para a United Continental, dos Estados Unidos; e 0,2 para a companhia aérea de descontos Ryanair, a menos endividada do mundo.
A Gol nomeou um novo presidente-executivo, eliminou empregos e reduziu o número de voos neste ano, depois de registrar perdas em quatro dos últimos cinco trimestres e ceder participação de mercado à TAM, da Latam Airlines. A Gol pretende abrir o capital de sua unidade de programas de milhagem Smiles no segundo semestre de 2013, segundo informou uma pessoa a par da transação à Bloomberg em 15 de agosto. "Não gostaria de estar na pele deles", diz Eric Conrads, que ajuda a administrar US$ 1 bilhão em ações para o ING em Nova York. "Eles poderiam aumentar os preços das passagens, mas eles não são líderes de mercado e isso significa que eles sacrificariam mais participação de mercado. E eles não estão em posição de sacrificar participação de mercado no momento."

Uma decisão sobre a abertura de capital da Smiles será tomada até o fim do ano, segundo disse o diretor financeiro da Gol, Edmar Prado Lopes Neto, em uma entrevista por telefone em 28 de agosto. A ação da Gol subiu 1,4% na Bolsa de Valores de São Paulo em 31 de agosto, para R$ 9,70, levando a perda acumulada no ano para 22%, em comparação à valorização de 0,5% do índice Bovespa.

A ação da Gol, segunda maior companhia aérea brasileira em valor de mercado, é negociada a 1,7 vezes o valor contábil, em comparação a 2,2 para a Latam Airlines e 1,2 para o índice Bovespa. A companhia de São Paulo está tentando transformar a Smiles em uma unidade de negócios separada até o fim do ano, antes de iniciar o processo de abertura de capital, segundo disse uma fonte familiarizada com o plano, que pediu para não ser identificada porque as negociações são sigilosas.

A Gol anunciou em dezembro que a Delta Air Lines, a segunda maior companhia aérea do mundo em tráfego, acertou a compra de uma participação de US$ 100 milhões e que as duas companhias começarão a agendar passageiros nos aviões uma da outra.

"A Gol apresentou alguns resultados bem fracos nos últimos trimestres, com a moeda mais fraca elevando cada vez mais o endividamento da companhia, disse Fausto Gouveia, que ajuda a administrar R$ 380 milhões na Legan Administração de Recursos, em uma entrevista por telefone de São Paulo. "Eles precisam fazer algumas grandes mudanças para recuperar as coisas. Vender a unidade Smiles seria um passo positivo."

O endividamento líquido da companhia atingiu R$ 3,27 bilhões em junho, dos quais 70% estão atrelados ao dólar. O real acumula uma desvalorização de 8,1% no ano, a moeda de pior desempenho entre os 25 mercados emergentes monitorados pela Bloomberg.

"A maior parte de nossa dívida vence em quatro anos a partir de agora", diz Lopes Neto, o diretor financeiro da Gol. "Até lá, as margens serão recuperadas."

Medidas recentes de corte de custos poderão ser suficientes para aliviar a pressão para a venda de ativos ou para uma fusão, diz Henrique Florentino, analista da UM Investimentos. "As margens operacionais devem melhorar nos próximos trimestres", diz ele, que tem uma recomendação de "manter" para a ação. A Gol não vê espaço para uma redução nos preços das passagens mesmo no momento em que a TAM conquista mais passageiros, disse Paulo Kakinoff, que assumiu como presidente-executivo em julho, em uma entrevista por telefone em 16 de agosto.

"A pressão dos custos é tão alta no momento, que não conseguimos pensar em uma redução do yield", disse ele. Yield é o preço médio da passagem para cada assento por quilômetro voado, um índice que reflete a receita e a demanda. A participação de mercado da Gol caiu para cerca de 33% em julho, em comparação a 38% um ano antes, enquanto que a da TAM aumentou de 41% para 42%.

A perda de participação de mercado poderá aumentar as pressões para uma fusão, na medida em que o setor doméstico de transporte aéreo for se consolidando, diz Laurence Balter, que supervisiona US$ 100 milhões para a Oracle Investment Research, nos Estados Unidos. Segundo ele, as medidas de corte de custos poderão não ser suficientes.

Estatizantes e privatistas?



Por Antonio Delfim Netto - Valor 04/09

O Brasil não resiste a uma boa dicotomia, mesmo que ela seja meramente semântica e, principalmente, se desprovida de conteúdo. Todos têm de ser ou keynesianos ou não keynesianos; marxistas ou contra Marx; defensores do "mainstream" ou heterodoxos; defensores do Estado mínimo e do setor privado máximo, ou vice-versa, um Estado máximo e um setor privado mínimo; desenvolvimentistas ou monetaristas. Cada uma dessas categorias é um conjunto vazio.

É verdade absoluta que: Marx nunca foi marxista e tinha dúvidas sobre eles; Keynes nunca foi keynesiano e desconfiava de quem declarasse que o fosse; Samuelson, o criador da síntese neoclássica, teve frequentes achaques de fraqueza heterodoxa; o sempre abusado Hayek foi muito melhor e mais sofisticado do que o que supõem os "não hayekianos". Nunca defendeu o mercado perfeito e desconfiava das "perturbações" financeiras.

Nem o mais míope dos desenvolvimentistas nega as restrições impostas pelas limitações da poupança interna, os riscos da externa e a necessidade do equilíbrio monetário; nem o mais exagerado monetarista ignora o fato que o "equilíbrio monetário" não é fim em si mesmo, mas instrumento para acelerar o crescimento e, não, inibi-lo...

Pois não é que neste momento importante, em que se procura (e se espera, com leilões bem feitos) transferir boa parte dos investimentos de infraestrutura para o setor privado - que é mais eficiente e tem como obter recursos fora do Tesouro -, a mídia descobre que o governo está supostamente infectado no setor aeroportuário por duas novas categorias: os "privatistas" e os "estatizantes". Divergem sobre o papel da Infraero, papel sobre o qual, aliás, a sociedade brasileira tem sérias críticas, e de cuja eficiência é licito duvidar-se dado ao seu mal de origem...

A Infraero, como todo ser (público ou privado), tem no seu DNA a inexorável propensão à sobrevivência e à sua reprodução. Eles são organismos vivos, cujos colaboradores buscam a sua cota de poder, aumentando o número de seus subordinados, como afirma a velha lei de Parkinson. A questão nada tem de ideológica. Tem a ver com o poder detido nas mãos dos administradores! Tudo absolutamente humano, natural, quase biológico! Com que misteriosa racionalidade há de convencer-se alguém que deve ceder o seu pequeno "espaço de poder", duramente conquistado e bravamente defendido a cada ano no Congresso Nacional para ampliar o seu orçamento?

O mundo não está ameaçado pelos problemas dos mercados (que são muitos), ou do "capitalismo privado", mas por uma falha dos governos, que foram incapazes de manter sob a rígida regulação (construída nos anos 30 do século passado) o sistema financeiro. Apesar de todas as incertezas que nos cercam, resta uma certeza: o mundo não vai acabar. Vai sair desta crise melhor do que entrou: mais eficiente e mais igualitário. É apenas uma questão de tempo, talvez anos.

Continua a atuar o processo civilizatório, iniciado com a incorporação e expansão do uso do conhecimento científico e tecnológico, combinado com o sistema de sufrágio universal, na grande maioria dos países. Foi ele que trouxe o mundo da Idade da Pedra à da informática. Gozamos do benefício de estar no mundo e vamos pagar o ônus de nele estar, mas é mais do que evidente que temos uma boa margem de manobra para prosseguir no nosso crescimento. Temos, obviamente, uma miríade de problemas a resolver, mas não podemos atacá-los ao mesmo tempo. Temos de hierarquizá-los.

É mais do que claro que hoje os constrangimentos impostos pela deficiência de nossa infraestrutura, e suas consequências logísticas, colocam-na como primeira prioridade. Acertadamente, o governo acaba de lançar um grande programa de concessões e recriar uma empresa para cuidar do problema logístico, abandonado desde 1985. O problema fundamental é que não existem recursos públicos para atendê-los. É preciso, portanto, cooptar o setor privado, que tem recursos, com leilões seguros, que fixem as condições mais adequadas para sua compatibilização com o interesse público.

Não adianta tergiversar ou filosofar. O governo - e muito menos o BNDES - não cria recursos. Na melhor das hipóteses, o primeiro pode economizar no custeio e aumentar seus investimentos. No limite, poderia aumentar os impostos e desperdiçá-los na baixa produtividade dos investimentos que faz diretamente, reduzindo ainda mais o crescimento.

O Tesouro só tem recursos se houver um superávit fiscal autêntico, ou um aumento do endividamento junto ao público que, para ser efetivo, tem de reduzir ou o consumo, ou o investimento privado, diluindo parte do seu efeito no crescimento.

Deve ser claro que tal disputa (se existir!) não é sobre racionalidade econômica, mas sobre as conveniências do "poder" de controlar diretamente a atividade. Isso nos leva ao eterno problema: a maior influência política na execução direta dos investimentos é, frequentemente, acompanhada de maior desperdício e menor eficiência à custa do desenvolvimento social e econômico do país.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Obama precisa justificar o governo



Por Gideon Rachman - Valor 04/09

Campanhas presidenciais podem focar trivialidades. Por isso, o fato de Paul Ryan, candidato republicano a vice-presidente, ter mentido sobre ter corrido uma maratona em menos de três horas, poderá ser bizarramente importante. Na convenção do partido Republicano, na semana passada, Ryan foi apresentado como um indômito contador de verdades. Os democratas argumentaram que, na realidade, seu discurso continha mentiras sobre tudo: do Medicare ao fechamento de uma fábrica de automóveis.

Mas a reforma do Medicare é difícil de compreender. Por outro lado, subtrair uma hora de seu tempo de percurso numa maratona é facilmente compreensível. Isso faz Ryan parecer um tanto ridículo e desonesto. Os democratas vão deitar e rolar em cima das afirmações do homem da maratona em sua própria convenção, nesta semana.

A gafe é ainda mais irritante para os republicanos porque eles recém-promoveram uma convenção muito bem-sucedida. Em Tampa, na semana passada, o partido Republicano trancou seus tios loucos no sótão - com exceção de Clint Eastwood, a quem permitiu-se uma breve aparição. Falou-se muito pouco sobre religião, aborto, imigração, a certidão de nascimento de Barack Obama ou sobre a ameaça de lei sharia ser imposta em Michigan.

Em vez disso, os republicanos martelaram um único tema. Eles são o partido que encarna o otimismo e o individualismo do sonho americano. Por outro lado, Obama foi retratado como um bom homem que "não saca (as coisas)": como alguém que pensa que todas as coisas boas vêm do governo e denigre o esforço individual. Para que Obama seja reeleito ele terá de repelir esse ataque justificando o governo. Ele terá que defender seu estímulo econômico. Ele terá de defender o "ObamaCare". Acima de tudo, o presidente terá de resgatar a ideia mais poderosa e sedutora na política americana - o sonho americano.

Essa é uma tarefa muito delicada. As possibilidades de acidentes são sublinhadas por um discurso improvisado que o presidente fez, alguns meses atrás, em que ele pareceu zombar dos esforços dos donos de pequenas empresas. A frase fatal empregada por Obama - "você não construiu isso (seu negócio)", foi repetida interminavelmente durante a convenção republicana. Uma sucessão de pequenos empresários foi trazida ao palco para afirmar, em termos indignados, que tinham, efetivamente, "construído" (seus empreendimentos).

A defesa dos democratas é de que o presidente estava simplesmente falando sobre a necessidade de o governo disponibilizar serviços vitais, como (a construção de) infraestrutura. Eles insistem em que suas observações foram tiradas de contexto. Mas, na verdade, elas também não soam muito bem em contexto. Obama zombou de pessoas bem sucedidas, que pensam: "bem (meu êxito) deve ser simplesmente porque eu sou muito inteligente". Uma gafe política é mais perigosa quando parece confirmar o que os eleitores já suspeitam. E o presidente já era vulnerável à ideia de que tem escassa simpatia em relação ao homem comum.

Mas parte da munição que Obama necessitará para reagir contra seus adversários e defender o papel do governo pode ser encontrado na própria convenção republicana. A primeira noite foi encenada contra o pano de fundo de um enorme retrato de Neil Armstrong, que morreu na véspera do encontro. Mas Armstrong foi à Lua não porque "perseguiu seu sonho" e fundou uma pequena empresa - mas porque o governo federal o colocou lá. Qual é a diferença entre a Nasa, a respeitada agência espacial, e os temidos "planejadores centrais" ridicularizados por Ryan?
O candidato a vice-presidente argumentou que Obama abraçou ideias alienígenas europeias segundo as quais as pessoas são limitadas por suas circunstâncias sociais. "Eu nunca me vi como alguém aprisionado a algum status em minha vida", gabou-se Ryan. Mas é preciso atentar para o fato de que tanto Ryan e (ainda mais) Romney nasceram em circunstâncias confortáveis, embora os dois tenham se empenhado ao máximo para ressaltar algo que se assemelhasse a enfrentar dificuldades em suas vidas.

Por outro lado, Condoleezza Rice, a ex-secretária de Estado, uma menina negra que nasceu no segregado Alabama, fez muito menos alarde sobre sua história muito mais notável. Talvez por ela ter realmente obtido sucesso partindo de uma origem difícil, Rice mostrou-se mais aberta a aceitar a ideia que Ryan ridicularizou - a de que as circunstâncias sociais fazem diferença. Hoje professora da Universidade de Stanford, ela perguntou: "Se posso checar seu código postal e afirmar se você terá um bom ensino, poderei realmente dizer que não importa de onde você vem?" Corrigir essa desigualdade de oportunidades, disse Rice, é a "questão de direitos civis de nosso tempo". É difícil ver como isso pode ser concretizado sem alguma forma de intervenção governamental ou de reformas.

Se pressionarmos um pouco mais, desnudaremos mais incoerências ainda não reveladas na posição republicana. A enfática defesa do Medicare (sistema de saúde financiado pelo governo em benefício dos idosos) pelos republicanos é incompatível com a noção de uma América onde o principal papel do governo é simplesmente sair da frente.

Obama poderá citar esses pontos e o fará. Porém, mesmo ao esmagar argumentos de seu oponente, ele terá de tomar cuidado para não pisotear o sonho americano. A ideia de "terra das oportunidades", onde um indivíduo é livre para abrir seu próprio caminho, continua inspirando - e é muito mais inspiradora, para a maioria dos americanos, do que a noção de uma rede de segurança social. O argumento no qual ele precisa insistir é de que o governo é o amigo do sonho americano, não seu inimigo.

Seria bom acreditar que a eleição americana focará, em última instância, o profundo debate sobre o papel do governo. Mas poderá, com igual probabilidade, transformar-se em uma batalha de gafes: o "você não construiu isso", de Obama, contra a maratona de três horas, de Ryan. (Tradução de Sergio Blum)



Gideon Rachman é o principal analista de assuntos internacionais no FT.

A indústria em perigo



Por Luiz Gonzaga Belluzzo - Valor 04/09

Relembrando: durante todo o pós-guerra, até a crise da dívida externa de 1982, o Brasil manteve um ritmo acelerado de crescimento econômico. Entre 1947 e 1980 o PIB cresceu em média 7,1%, uma marca não igualada, no período, nem mesmo pelo Japão ou pelos celebrados Tigres asiáticos.

Comparado a esta "era de alto crescimento" o desempenho econômico dos últimos 35 anos tem sido sofrível. Perde, por exemplo, para a "recessão" que apareceu entre 1962 e 1967, nos anos de crise e estabilização, em que a economia cresceu miseravelmente para os padrões da época: apenas 3,2% ao ano.

A perda de dinamismo da industrialização brasileira provocou, no início dos anos 90, uma reação estremada nas hostes liberais: abrir a economia e expor os empresários letárgicos aos ares benfazejos da globalização. O silogismo em que se desdobra a premissa é grotesco em sua simplicidade: se a indústria brasileira perdeu a capacidade de investir ou de se modernizar, a solução é submeter a incompetente à disciplina da concorrência externa.

Quase todos concordam que se esgotaram as formas de financiamento, de incentivos e de proteção, responsáveis pela sustentação do desenvolvimento industrial brasileiro ao longo de mais de cinco décadas. Custa muito trabalho, além de imaginação, construir as novas instituições financeiras, pensar na reforma fiscal, enfim dar tratos à bola para estabelecer uma nova relação entre o Estado e o setor privado.

Um estudo encomendado pela União Europeia revela aspectos importantes do processo de internacionalização dos anos 90 e 2000: 1) nos países em desenvolvimento, os benefícios do investimento estrangeiro - tais como absorção de tecnologia, adensamento de cadeias industriais, crescimento das exportações - dependeram das políticas nacionais; 2) os países em desenvolvimento que cresceram mais e exportaram melhor foram os que conseguiram administrar uma combinação favorável entre câmbio desvalorizado e juros baixos.

Na era da arrancada chinesa, é superstição acreditar que a abertura financeira e a exposição pura e simples do setor industrial à concorrência externa são capazes de promover a modernização tecnológica e os ganhos de competitividade. Os estudos mais especializados e aprofundados sobre o tema mostram que a concorrência nos mercados contemporâneos está marcada por características que não guardam qualquer semelhança com as crendices simplificadoras das vantagens comparativas.

Até mesmo os estudiosos conservadores reconhecem a existência de economias de escala e de escopo, economias externas, estratégias de ocupação e diversificação dos mercados, conglomeração e acordos de cooperação. Neste jogo só entra quem tem cacife tecnológico, poder financeiro e amparo político dos Estados nacionais. O resto está na arquibancada batendo palmas.

Estas características essenciais da concorrência e do comportamento das empresas, sobretudo na área industrial, estão completamente ausentes das elucubrações dos que pretendem nos ensinar as virtudes milagrosas do curandeirismo que aspira foros de ciência.

Algumas correntes de opinião cultivam com esmero o hábito de ignorar a experiência alheia e, pior, tratam de desqualificar e desfigurar o seu próprio passado, quando não se empenham denodadamente em promover o seu completo esquecimento.

Não há exemplo nos países periféricos \- aí incluídos o Chile e os "Tigres Asiáticos", a China, de renúncia a políticas deliberadas de reestruturação produtiva ou de estímulo à modernização e à conquista de mercados. Seja qual for a estratégia adotada - liderança das exportações ou preeminência do mercado interno - os casos bem sucedidos de avanço industrial e produtivo na dita "era da globalização" têm um traço comum: intencionalidade e coordenação pública.

É insensato subestimar os efeitos causados pelas mudanças da geoeconomia mundial: a expansão sino-asiática vai continuar ameaçando as estruturas industriais do Velho e do Novo Mundo. As políticas asiáticas de promoção e integração industrial estão alicerçadas em ganhos expressivos nas relações produtividade/salário e salário/câmbio na manufatura. Esse processo é amparado por um sistema de crédito voltado para o investimento manufatureiro privado e para a sustentação dos programas públicos de gastos em infraestrutura.

A despeito da crise global e da inevitável desaceleração chinesa, o estilo de desenvolvimento sino-asiático vai prosseguir em seus trabalhos de ganhar a dianteira na porfia competitiva global. Não é por desvio ideológico ou coisa parecida que as medidas protecionistas se espalham e se aprofundam silenciosamente no mundo inteiro, enquanto os adeptos das teorias das vantagens comparativas se lamentam, entre gemidos e murmúrios. Nessas circunstâncias, a valorização cambial é um erro grave, assim como a hesitação em promover políticas adequadas de defesa comercial e de estímulo às exportações.

Em artigo escrito com Júlio Sérgio Gomes de Almeida sugeri que a falsa inserção competitiva da economia brasileira está cobrando o seu preço. Falsa, porque as políticas dos anos 90 entendiam que bastava expor a economia à concorrência externa e privatizar para lograr ganhos de eficiência micro e macro econômicas. Percorremos o caminho inverso dos asiáticos que abriram a economia para as importações redutoras de custos. A abertura estava, portanto, comprometida com os ganhos de produtividade voltado para aumento das exportações. As relações importações/exportações faziam parte das políticas industriais, ou seja, do projeto que combinava o avanço das grandes empresas nacionais nos mercados globais e a proteção do mercado interno. As importações não tinham o objetivo de abastecer o consumo das populações. Estas se beneficiaram, sim, dos ganhos de produtividade e da diferenciação da estrutura produtiva assentada em elevadas taxas de investimento.



Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

China, aos olhos de quem a vê



Por Minxin Pei - Valor 03/09

Uma das mais flagrantes, ainda que despercebidas, coisas estranhas sobre a China, hoje, é como as percepções sobre seus líderes divergem conforme o observador. Aos olhos da opinião pública chinesa, os funcionários governamentais são venais, incompetentes e interessados apenas em obter nomeações lucrativas. Mas os executivos ocidentais invariavelmente descrevem as autoridades chinesas como inteligentes, decisivas, experientes e perspicazes - mais ou menos os mesmos adjetivos antes usados para descrever Bo Xilai, chefe do Partido Comunista Chongqing que caiu em desgraça, antes de ele ter sido expurgado).

É impossível conciliar esses pontos de vista. De duas, uma: ou é impossível agradar o público chinês ou os executivos ocidentais estão irremediavelmente errados. Mas, tendo em vista que a experiência diária situa os cidadãos chineses em posição infinitamente melhor do que os executivos ocidentais para avaliar as autoridades chinesas e sua conduta, teríamos de concluir que os primeiros estão, muito provavelmente, certos. E isso significa que os ocidentais que passaram um tempo considerável na China e consideram-se experientes "veteranos em China" precisam questionar-se sobre por que estão tão errados.

Uma explicação óbvia é que os funcionários governamentais chineses são extremamente bons em seduzir empresários ocidentais com gestos amistosos e promessas generosas. Os mesmos funcionários que ditam as regras para o cidadão chinês comum frequentemente projetam um charme irresistível para atrair investidores ocidentais.

Outro ponto de atração, para os executivos ocidentais, é que muitos funcionários chineses têm formação em engenharia, em contraste com os seus homólogos ocidentais, em sua maioria advogados. Para os empresários, os engenheiros são solucionadores de problemas práticos, ao passo que advogados revelam-se obcecados por complexidade procedural e tendem a explorar brechas contratuais. Além disso, a maioria dos funcionários governamentais chineses aprenderam o jargão empresarial ocidental e são capazes de falar inteligentemente sobre os problemas que as empresas precisam resolver.

Uma razão mais sutil capaz de explicar a percepção dos executivos ocidentais é o referencial subconsciente que usam para a avaliar as autoridades chinesas. Altos executivos de empresas multinacionais tendem a ter noções preconcebidas sobre a China, assumida como apenas mais um país em desenvolvimento, e por isso avaliam as autoridades chinesas comparando-as com as de outros países em desenvolvimento.

Essa comparação inconsciente geralmente resulta favorável às autoridades chinesas, que são, em seu conjunto, melhor instruídas, mais cosmopolitas e mais focadas em negócios (porque o Partido Comunista usa o crescimento econômico e o investimento estrangeiro como critério para promover funcionários). E, como organização, o Estado chinês é muito mais forte e mais focado em objetivos do que os Estados em países em desenvolvimento mais típicos.

Mas, embora possa ser natural, para os empresários ocidentais, comparar a China a outros países em desenvolvimento, os cidadãos chineses têm padrões bem mais elevados, por que não se consideram apenas mais um país em desenvolvimento. Eles vêem a China como especial, uma potência reemergentes a caminho de passar a fazer parte do grupo de países mais avançados do mundo, e as práticas de governança que seus jornais citam como modelos são, invariavelmente, os de sociedades ricas, e não de países em desenvolvimento. Na verdade, uma maneira de insultar os chineses é dizer-lhes que deveriam sentir-se afortunados por que têm um governo melhor do que os indianos ou os brasileiros.

A terceira razão pela qual os empresários ocidentais têm uma impressão errada sobre a China é que sua admiração pelo governo chinês é reflexo de suas frustrações com seus próprios governos. Eles mostram-se impacientes em face da desordem do processo democrático, de regulamentações sufocantes, de impostos elevados e da fiscalização da mídia. Em contraste, no Estado chinês de partido único, os empresários verificam ser mais fácil fazer negócios com funcionários que podem tomar decisões rápidas e implementá-las quase instantaneamente.

Claro, às vezes esses executivos ignoram concretamente o Estado de direito que prevalece no Ocidente. Mas, em comparação com empresários privados chineses, os representantes de grandes empresas ocidentais são um grupo privilegiado, e não são tão frequentemente vitimados pela corrupção oficial. Como resultado, eles têm escassa percepção do pior aspecto do regime de partido único: uma elite voraz sem freios legais.

O aspecto mais lamentável das concepções equivocadas dos executivos ocidentais sobre o governo chinês é que elas tenderão a persistir, ao menos entre aqueles que não têm experiência direta com o lado sombrio do Estado chinês. Os executivos ocidentais são bem sucedidos, inteligentes e têm elevado grau de confiança em seu discernimento político. Além disso, as companhias ocidentais são hierárquicas e autocráticas, semelhantes, nesse aspecto, ao Estado de partido único chinês, de modo que erros de executivos de avaliação de altos executivos são raramente contestados por seus subordinados.

Isso é uma pena. Poucos executivos ocidentais compreendem as consequências políticas de seus equívocos. Seu louvor à qualidade e eficácia de autoridades chinesas é frequentemente percebida pelo Partido Comunista como um endosso internacional a suas políticas e sua legitimidade - apesar de os cidadãos chineses comuns saberem que a realidade é outra. (Tradução de Sergio Blum)



Minxin Pei é professor de Governo na Faculdade Claremont McKenna e pesquisador não residente sênior no German Marshall Fund dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2012.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O capitalismo americano



Por José Luís Fiori Valor 29/08


Years before the Declaration of Independence…Benjamin Franklin, George Washington and Thomas Jefferson, as well as a considerable ratio of New England's most proeminent Congregationalist ministers already talked of America reaching the Mississippi or even the Pacific to become the next century great empire. Kevin Phillips, "The Cousins' Wars", Basic Books, New York, 1999, p.116

A publicação, em 1894, do livro do economista inglês, John A. Hobson (1858-1940), "A Evolução do Capitalismo Moderno", transformou-se numa referência obrigatória para a interpretação do desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Depois de Hobson, vários historiadores e economistas retomaram sua tese sobre a originalidade radical do capitalismo americano, vis-á-vis o desenvolvimento europeu. Em particular, depois da Guerra de Secessão (1861-1865), com o surgimento das grandes corporações e do capital financeiro que teriam revolucionado a organização microeconômica, e mudado a face do capitalismo mundial. Do nosso ponto de vista, entretanto, estas transformações ajudam a entender o "milagre econômico" americano do início do século XX, mas não explicam as próprias transformações.

Os Estados Unidos foram o primeiro estado nacional que nasceu fora da Europa, mas não nasceu fora do sistema geopolítico e econômico europeu. Pode-se dizer, inclusive, que a "Guerra da Independência" americana foi, em grande parte, um capítulo da disputa entre a Inglaterra e a França pela supremacia mundial. E sua conquista definitiva ocorreu entre as duas grandes guerras ("Dos 7 Anos" e "Bonapartista") que definiram a hierarquia de poder internacional, e a supremacia inglesa, dentro e fora da Europa, a partir de 1815. Durante esse período de guerras, os Estados Unidos sempre se sentiram "cercados" e ameaçados - simultânea ou sucessivamente - pela Inglaterra, França e Espanha, e tiveram que negociar seu reconhecimento e suas fronteiras com o "núcleo duro" das Grandes Potências europeias.
Assim mesmo, os EUA acabaram se transformando no único estado nacional extra-europeu que nasceu de um império e de uma economia em plena expansão vitoriosa. Mais do que isto, durante a chamada "revolução industrial" que transformou os Estados Unidos - imediatamente - na primeira periferia "primário-exportadora" de sucesso da economia industrial inglesa. Situação econômica privilegiada que se consolidou e expandiu durante todo o século XIX, antes e depois da Guerra de Secessão, enquanto a Inglaterra abria espaços de expansão comercial para sua ex-colônia, e assumia a responsabilidade - em alguns momentos - por cerca de 60% do investimento direto dentro de todo o território americano, que passou a fazer parte de uma espécie de "zona de co-prosperidade" anglo-saxônica, ou mesmo, num caso "avant la lettre", de "desenvolvimento a convite", da Inglaterra.

Por outro lado, desde sua independência, os Estados Unidos foram governados por uma elite coesa e com um "intense commitment" imperial, e mantiveram um ritmo de expansão política e territorial contínua, por meio da guerra, da diplomacia e do comércio. Antes da Guerra Civil, foram 37 "guerras indígenas", e mais as Guerras do Texas e do México, em 1837 e 1846, responsáveis pela duplicação do território americano. Mais a frente, vieram a Guerra Civil e a Guerra Hispano-Americana, e uma sucessão de intervenções militares no Caribe, num movimento de expansão que se acelerou no século XX, alcançando Europa, Ásia, Oriente Médio e África.

De forma que nos cerca de 250 anos de história independente, os EUA iniciaram - em média- uma guerra a cada três anos, exatamente como a Inglaterra. Contando com a vantagem de ser "membro por nascimento" da pequena comunidade dos estados produtores da "ética internacional" que arbitram as "guerras justas" e o "livre-comércio". A história segue e é extensa, mas já se pode dizer que ela fornece fortes indícios de que:

1- o desenvolvimento econômico dos EUA não foi uma exceção, pelo contrário, foi uma parte essencial da expansão e das contradições do sistema inter-estatal e do capitalismo europeu;

2- o sucesso do capitalismo americano não foi puramente endógeno, nem foi apenas uma obra das grandes corporações e do capital financeiro que nasceram à sombra da Guerra Civil;

3- o "apoio externo" foi decisivo para o sucesso da economia americana, que foi sempre a principal "fronteira de expansão" do capital financeiro inglês;

4- a "guerra contínua" teve um papel estratégico no desenho das políticas industrial e agrícola, e no desenvolvimento científico e tecnológico dos EUA; e por fim, a expansão política, territorial e bélica dos EUA foi na frente do processo de internacionalização das grandes corporações, do capital financeiro e da moeda americana.

Uma história de desenvolvimento econômico como a das demais potências do sistema mundial, mas muito diferente da interpretação economicista de Hobson e seus discípulos.



José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A última chance dos republicanos



Por Gideon Rachman - Valor 28/08

A história política mais significativa nos EUA neste ano nada tem a ver com a política. Veio em um artigo no "The New York Times" intitulado "Brancos representam menos de metade dos nascimentos nos EUA".

Parte do sentimento de medo e ira que muitos eleitores republicanos dirigem contra Barack Obama está certamente relacionada com a percepção de que o presidente representa "a outra América", os EUA não brancos que acabarão por constituir uma maioria na população do país.

É possível perceber a raiva no popular slogan "Quero meu país de volta". Podemos vê-la na cobrança, na convenção do partido, por políticas cada vez mais duras contra imigrantes ilegais. Podemos identificar traços dessa raiva nas denúncias de conotação racial contra o "Obamacare", que tem por objetivo proporcionar cobertura de saúde a 44 milhões de americanos não segurados.

As mudanças no perfil demográfico americano e as considerações políticas que as caracterizam colocam um grande dilema estratégico para os republicanos. Um importante estrategista partidário argumenta que a eleição presidencial de 2012 já se resume a uma batalha entre economia e demografia. Economia fraca e desemprego elevado favorecem os republicanos. Mas as tendências demográficas beneficiam os democratas. O crescimento do voto hispânico significa que três Estados onde George W. Bush venceu em 2004 - Nevada, Colorado e Novo México - estão se inclinando em favor de Obama.

A Califórnia, maior Estado do país e Estado natal de Richard Nixon e de Ronald Reagan, votou nos republicanos em todas as eleições presidenciais de 1968 a 1988. Mas os democratas lá ganharam desde 1992 e Obama está seguramente na dianteira, lá. Muitos analistas identificam a mudança na preferência estadual pelos republicanos aos "ataques" cada vez mais estridentes contra a imigração ilegal.

As pesquisas mais recentes ressaltam em que medida Mitt Romney vai mal entre os hispânicos. Uma pesquisa NBC-Wall Street Journal na semana passada mostrou que Obama lidera entre os hispânicos por 63% a 28%. O campo de Romney fala esperançosamente sobre ampliar sua participação para 38% do voto hispânico até o dia das eleições, mas é difícil acreditar nisso.

Havia rumores de que o candidato republicano poderia escolher o senador Marco Rúbio, da Flórida, um cubano-americano, como seu companheiro de chapa. Mas ele optou pelo congressista Paul Ryan - cuja escolha parece, segundo as pesquisas, ter efetivamente diminuído o apelo da chapa junto aos eleitores hispânicos.

A convenção do Partido Republicano em Tampa deverá adotar uma plataforma partidária de linha dura em questões cruciais para os eleitores hispânicos, em especial a imigração ilegal. Na convenção, será reivindicada a conclusão da construção de uma cerca com dupla camada, na fronteira com o México, e a adoção de um sistema eletrônico, chamado "E-Verify", exigindo que todos os empregadores confirmem o status legal de novos contratados. Até mesmo a maioria dos hispânicos, que têm todo o direito de viver nos EUA, tendem a se opor às políticas focadas nos ilegais ou que os ameacem com deportação.

Durante as primárias, Romney manifestou-se a favor de "autodeportação" - termo que empregou para indicar a adoção de leis trabalhistas tão rígidas que os imigrantes ilegais veriam-se na impossibilidade de encontrar trabalho e optariam por voltar para casa. Como suspira um estrategista republicano: "É difícil conseguir que as pessoas votem em você quando, para começo de conversa, elas acham que você não as quer no país".

A caminho da convenção, Romney tinha se igualado a Obama, segundo muitas pesquisas. Ele, claramente, tem uma boa chance de vitória. Mas, se perder, as chances de os republicanos reconquistaram a Casa Branca diminuirão a cada eleição - a menos que consigam um desempenho muito melhor entre os eleitores minoritários, em geral, e os eleitores hispânicos, em particular.

Neste momento, cerca de 63% da população americana é branca. Mas, por volta de 2040, o país provavelmente terá um perfil "maioria-minoria". Os hispânicos representam atualmente 16% da população americana. Mas 26% dos bebês nos EUA, no ano passado, nasceram em famílias hispânicas.

Os republicanos correm o risco de ficar aprisonados num círculo vicioso. Em razão de tantos eleitores participantes em suas primárias serem "anglos" idosos revoltados com as mudanças demográficas nos EUA, os candidatos à indicação pelos republicanos são mais ou menos obrigados a adotar posições radicais na questão da imigração, que provavelmente pesarão muito contra eles quando pedirem votos ao eleitorado hispânico na eleição geral.

Republicanos confortam-se imaginando que a filiação dos eleitores hispânicos poderá mudar ao longo do tempo. Muitos hispânicos têm posições socialmente conservadoras que poderão se encaixar bem no moderno Partido Republicano. Ted Cruz, candidato do partido ao Senado dos EUA pelo Texas, em novembro, é latino-americano e um queridinho do movimento Tea Party.

Candidatos como Cruz e Rubio mantêm acesa a esperança de criar um Partido Republicano que seja bem mais atraente aos eleitores hispânicos. No entanto, os republicanos não podem assumir que um grande número de hispânicos aderirão mais ao partido com o passar do tempo. As atitudes políticas que se formam nos duros anos iniciais, na esteira da chegada das pessoas aos EUA, podem ser muito duráveis. A grande maioria dos judeus ainda vota nos democratas.

A incapacidade de atrair os votos das minorias étnicas em geral e, em particular, dos hispânicos, é uma grande desvantagem para os republicanos nessa eleição, mas uma chapa Romney-Ryan ainda poderá superá-la. Em eleições futuras, ela poderá ser fatal. Romney enfrenta uma batalha muito difícil, nos próximos meses. Futuros candidatos republicanos poderão concluir que o trabalho dele foi fácil. (Tradução de Sergio Blum)



Gideon Rachman é o principal analista de assuntos internacionais no FT.

O problema brasileiro


Por Antonio Delfim Netto - Valor 28/08

É impossível chegar a um consenso sobre o Brasil que gostaríamos de legar à geração que amadurecerá em 2030. Há fatos demográficos já inscritos que, com toda a probabilidade, se realizarão, a não ser que sejamos atropelados por uma improvável invasão marciana.

Graças ao processo civilizatório, que, felizmente, foi introjetado pela mulher brasileira, que hoje estuda mais, gera menos filhos (e um pouco mais tarde) e aumenta a participação na força de trabalho, vivemos uma revolução demográfica e econômica. Há menos de quatro décadas, temia-se que o Brasil, com sua então fantástica taxa de fecundidade, estaria condenado a ser um país miserável. A tabela abaixo dá alguns números que revelam a preocupação então existente.
É preciso fazer justiça a alguns economistas e aos demógrafos mais recatados, que nunca aceitaram aquele crescimento exponencial. Seus modelos eram um pouco sofisticados. Implicavam a aceitação de uma função logística com assíntotas precariamente determinadas. De qualquer forma, a situação parecia mesmo muito preocupante. Na década de 60 do século passado, a média de filhos por mulher era de 6,3!

Não foi, sem alguma razão, que naquele momento o Brasil namorou com um processo de "controle da natalidade", que sofreu forte oposição do Vaticano. Pois bem. Foi o processo civilizatório da mulher brasileira que reduziu em menos de duas gerações a sua taxa de fecundidade para 1,94, abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1 filhos.

Qual o seu resultado? O Censo de 2010 revelou que a população brasileira era de 191 milhões, praticamente 65% do propalado terrorismo demográfico dos anos 60! O Brasil é hoje um país com pequeno crescimento populacional e com aumento significativo da expectativa de vida ao nascer. Esses fatos estão registrados no gráfico 1, abaixo.

Como se vê, vamos passar por um máximo populacional em 2040, acompanhado de um envelhecimento significativo. A pirâmide etária, revelada no gráfico 2, mostra que o aumento da população não será apenas quantitativo, mas também, e principalmente, qualitativo, com uma mudança profunda na estrutura da demanda de bens e serviços: menos crianças para serem educadas e mais idosos para serem cuidados...

É esse fato demográfico insuperável que coloca, na minha opinião, o mais importante problema que temos de deixar solucionado para a próxima geração. Hoje, temos 130 milhões de pessoas entre 15 e 64 anos. Em 2030, teremos 150 milhões: cidadãos mais velhos, mais educados e, tudo sugere, mais exigentes com relação à administração do país.

O mais importante problema nacional é este: como vamos organizar a sociedade brasileira para propiciar empregos, de boa qualidade e salários adequados, a 150 milhões de pessoas que constituirão a população em idade ativa em 2030? A resposta não é simples, nem clara.

O que é simples e claro é que isso não se fará simplesmente aprofundando a estrutura produtiva atual, apoiada na sofisticadíssima e produtiva agroindústria nacional, que agrega mais valor do que em geral se quer admitir, mas que é poupadora de mão de obra. E muito menos com a exploração mineral (inclusive o petróleo), atividades altamente capital-intensivas, com altíssima tecnologia e trabalho superespecializado.

Se quisermos ter em 2030 algo parecido com o nível de renda per capita em paridade de poder de compra de Portugal de hoje, temos de crescer em torno de 5% ao ano (mais ou menos 4% do PIB per capita), em média, nos próximos 18 anos. Isso pedirá cuidadosa e rigorosa política fiscal, capaz de sustentar a política monetária (que produzirá o equilíbrio interno), e adequada política cambial (que produzirá o equilíbrio externo).

Nas condições atuais de pressão e temperatura, isso exigirá um investimento bruto anual, até 2030, da ordem de 25% do PIB (com talvez um déficit em conta corrente de não mais do que 1,5% ao ano). O nosso Estado forte, constitucionalmente controlado, precisa cooptar, com regulação segura e amigável, o nosso eficiente setor privado!

É preciso superar a desconfiança mútua, ainda existente entre eles, com a transferência - por concessão ou parcerias - do investimento em infraestrutura para o setor privado, através de leilões bem projetados, que determinem as justas taxas de retorno para garantirem a quantidade e a qualidade dos serviços no presente e no futuro.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A perda de alimentos amplia o "Custo Brasil"



Por Adalberto Luis Val - Valor 27/08

O Brasil está há pelo menos meia década em franca expansão econômica. Mas uma questão que ainda emperra o desenvolvimento e o crescimento é o chamado custo Brasil. Entre as questões colocadas por um investidor antes de aplicar o seu capital no país estão: os impostos são reduzidos? A mão de obra é barata? Os juros são baixos? Existe uma boa infraestrutura de transportes? A energia é abundante? Há informação científica robusta disponível? Há suporte técnico-científico para as atividades planejadas?

Porém, há um aspecto que também afeta a conta final do custo Brasil mas que é pouco abordado. É a questão da fome e do desperdício de alimentos. O Brasil está entre os dez países que mais desperdiçam comida no mundo. Se reduzisse essas perdas, o país poderia oferecer mais produtos para o mercado interno, barateando os preços, e também exportar mais. Ou seja, o mercado consumidor se beneficiaria de preços mais baixos, entrariam divisas e o gasto governamental com todo o sistema seria menor, podendo-se investir em outros setores, como educação, ciência, tecnologia, inovação e infraestrutura. Boa parcela do chamado custo Brasil poderia ser equacionada.

Órgãos governamentais e pesquisadores de entidades públicas e privadas se debruçam sobre o problema diariamente, com o intuito de encontrar soluções para os diversos gargalos que o circuito dos alimentos enfrenta no Brasil. E o esforço para vencê-los precisará ser grande. Cerca de 35% de toda a produção agrícola vai para o lixo. Pesquisas apontam que é na fase de colheita que ocorrem as maiores perdas e os motivos são diversos. Um exemplo é a falta de regulação, operação e manutenção adequadas das colheitadeiras ou equívocos na identificação do grau de maturação do produto. As dificuldades se repetem na pós-colheita. Falta infraestrutura na rede de armazenagem e no transporte da produção brasileira. Nessa fase, os estragos podem ocorrer tanto do ponto de vista físico como da qualidade do produto.

Na prática, isso significa que mais de 10 milhões de toneladas de alimentos poderiam estar na mesa de milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Do total de desperdício no país, 10% ocorrem durante a colheita, 50% no manuseio e no transporte dos alimentos, 30% nas centrais de abastecimento e os últimos 10% ficam diluídos entre supermercados e consumidores. Por exemplo, segundo o IBGE, a estimativa é de que 67% das cargas brasileiras sejam deslocadas pelo modal rodoviário, o menos vantajoso para longas distâncias.
Entre os consumidores, os números também são alarmantes. Uma família brasileira desperdiça, em média, 20% dos alimentos que compra no período de uma semana. Em valores, isso representa US$ 1 bilhão, dinheiro suficiente para alimentar 500 mil famílias. Na mesa do consumidor, a situação não é melhor. A Embrapa Agroindústria de Alimentos realizou uma pesquisa em que demonstra que o brasileiro joga fora mais alimentos do que efetivamente leva à mesa. Nas 10 principais capitais do país, o consumo anual de vegetais é de 35 quilos por habitante. No entanto, o desperdício chega a 37 quilos por habitante ao ano, parte do qual relacionado à qualidade inicial do produto e parte relacionada a armazenamento inadequado.

Levantamento da Secretaria de Abastecimento e Agricultura do Estado de São Paulo, no final da década passada, mostra que todos os alimentos não aproveitados ao longo da cadeia produtiva representam 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, um rombo de R$ 17,25 bilhões no faturamento do setor agropecuário. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), o Brasil deverá atingir a meta da Organização das Nações Unidas (ONU) de reduzir pela metade o número de famintos no país até 2015, de 13 milhões para 7 milhões. Sem dúvida, a redução do desperdício com uso otimizado dos produtos pode contribuir para que se atinja efetivamente essa meta.

Por outro lado, o país está ciente de que "ampliar a produção agrícola" não é o único fator da equação, e que segurança alimentar e nutricional é uma meta transversal, que envolve esforços múltiplos no campo da economia (enfrentar crises financeiras e flutuação de preços dos alimentos, por exemplo), da saúde (disseminar conhecimento sobre produção e consumo saudável), dos transportes e infraestrutura (melhorar a logística de distribuição) e da política (reduzir desequilíbrios sociais e regionais), entre outros. Cabe a todos nós fazermos a nossa parte.

Um esforço louvável no campo institucional é a criação, nos estados, de Observatórios Socioambientais em Segurança Alimentar e Nutricional. No Piauí, por exemplo, a Universidade Estadual, com apoio do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea-PI), deverá criar nos próximos meses este instrumento. Mas o projeto, no âmbito nacional, conta com a participação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Os observatórios socioambientais realizarão um monitoramento das políticas públicas e avaliarão a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PNSAN) em todo o país.

A ideia é que todos os estados tenham um polo para gerir cada observatório de forma autônoma. A coordenação geral do projeto de implantação dos observatórios está a cargo Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estado cuja experiência de implantação servirá de base para a implantação da Rede de Observatórios nos demais estados.

Esse monitoramento vai gerar uma coleta de dados dos municípios que informam indicadores de produção e disponibilidade de alimentos; renda e condições de vida; acesso à alimentação adequada e saudável; saúde, nutrição e acesso a serviços relacionados; educação, programas e ações relacionadas a segurança alimentar e nutricional.



Adalberto Luis Val é diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI) e membro do Conselho de Administração da Fundação Bunge.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Selic cai há um ano, sem reação



Por Lucinda Pinto, Conrado Mazzoni, Fernando Travaglini e Flavia Lima - Valor 24/08
De São Paulo


Em 31 de agosto de 2011, o Banco Central iniciou um inesperado ciclo de alívio monetário, que testaria níveis históricos da taxa básica de juros. Sem intervalo ou aviso prévio, a autoridade monetária interrompeu a trajetória de alta da taxa, então fixada em 12,5%, e anunciou um corte de 0,5 ponto percentual, surpreendendo a expectativa unânime dos especialistas de que a Selic ficaria estável.

Como os mercados não gostam de surpresas, sobraram críticas ao Copom, acusado de agir precipitadamente, já que as projeções de inflação não apontavam para a meta; de não se comunicar adequadamente, como prevê o sistema de metas de inflação; e de colocar em risco a credibilidade conquistada a duras penas ao longo de anos.

Passado um ano da fatídica reunião, o mercado parece ter se rendido ao fato de que o BC enxergou antes a deterioração das condições econômicas globais que estaria por vir. E agiu antecipadamente à consolidação do quadro de retração mundial, que atinge até mesmo a China, até então o motor da recuperação. A credibilidade da autoridade monetária ganhou pontos, embora os benefícios colhidos pela estratégia não sejam ainda completamente percebidos. "Claro que ninguém sabe o que estaria acontecendo se os juros não tivessem caído", pondera Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC.

O que parece certo é que houve uma radical mudança de política econômica, que alterou os pontos de equilíbrio a serem observados, tanto no câmbio quanto na inflação e na atividade. "A economia brasileira vive uma situação extraordinária, que eu nunca vivi, nem quando estava no BC, nem fora dele", afirma o ex-diretor do BC e estrategista da Tandem Global Partners, Paulo Vieira da Cunha.

"A queda dos juros em curso não é uma decisão normal de politica monetária, mas de politica econômica mais ampla. Eles estão tentando colocar um novo regime econômico. Se der certo, será ótimo, mas só saberemos disso daqui a cinco anos", diz ele.

O economista lembra que o BC sempre buscou uma oportunidade para fazer um "choque" na economia capaz de corrigir o nível do juro, considerado uma anomalia. Agora, o governo, em uma ação coordenada, parece aproveitar a situação global de juros baixos, perto de zero nas economias desenvolvidas, para fazer o ajuste. "Mas é um desejo, mais do que qualquer coisa, da presidente Dilma."

O principal desejo do governo, o crescimento econômico, ainda não veio. Apesar dos primeiros sinais de recuperação, a atividade deve ter uma expansão inferior a 2% neste ano e a velocidade registrada no último trimestre deve ser determinante para o que ocorrerá em 2013, diz David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch.

Efeitos da redução da Selic ainda são tímidos

Na próxima semana completa-se um ano da já famosa reunião de 31 agosto de 2011, quando o Banco Central iniciou o atual ciclo de corte de juros com uma redução de 0,5 da Selic, surpreendendo quase todo o mercado. O primeiro efeito esperado, de evitar uma depressão da economia brasileira em meio ao agravamento da crise na Europa foi atingido e o BC ganhou pontos de credibilidade por ter acertado em cheio no diagnóstico.

Até agora, no entanto, a aceleração da atividade não veio. O que se vê é uma resposta ainda tímida, restrita ao consumo. Para a indústria, a resposta é pouco efetiva e, quando existe, está mais relacionada a desonerações tributárias. No primeiro trimestre do ano, a economia brasileira cresceu 0,2% em relação aos últimos três meses de 2011. Nessa base de comparação, enquanto o consumo das famílias e do governo cresceu 2,5% e 3,4%, respectivamente, o investimento em máquinas e equipamentos caiu 2,1%. E a expectativa é que tenha apresentado expansão entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, mesmo com o governo alardeando que o PIB reagiria.
Maurício Molan, economista-chefe do Santander, pondera que o atual ciclo de queda de juros só se tornou de fato um afrouxamento no começo deste ano. Entre agosto e dezembro, o BC reduziu 1,5 ponto percentual, mas o juro real ainda se mantinha acima de 5%, próximo, portanto, da média dos últimos três anos. Somente em abril, o juro real veio para a casa dos 3%. "Houve uma defasagem maior para a resposta da política monetária, que só passou a ser expansionistas no começo deste ano", diz Molan.

Para o ex-diretor do BC e estrategista da Tandem Global Partners, Paulo Vieira da Cunha, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem razão ao prever um crescimento anualizado de 4% no quarto trimestre, mas teme uma desaceleração do PIB à frente. "Meu medo é que, quando isso acontecer, o governo resolver dar ainda mais estímulos."

Essa é uma das críticas mais fortes que decorreram da decisão de agosto de 2011, a de que o BC passou a priorizar o crescimento em detrimento de um controle estrito da inflação. A avaliação é de que o BC passou a trabalhar com um objetivo de inflação mais ousado, perto de 6%. "É uma mudança não assumida, mas percebida, de que o limite para a inflação passou a ser 6%", diz Vieira da Cunha.

"Estamos diante de um Banco Central que não está disposto a sacrificar crescimento desde que você tenha inflação dentro das bandas. Foi isso o que aprendemos ao longo de todos esses meses", afirma Marcelo Salomon, economista-chefe para o Brasil do Barclays.

Salomon projeta inflação de 5% em 2012 e de 5,9% em 2013. "Então, não é um cenário de convergência de volta para as metas, mas é um cenário em que o BC não está disposto a sacrificar crescimento - mantendo a possibilidade de promover uma retomada mais incisiva o mais rápido possível - desde que você não comprometa o teto da meta porque o mundo ainda está muito incerto", afirma.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do BC acredita que o objetivo de inflação de até 6,5%. E isso explica o fato de as projeções estarem tão distantes do centro da meta, de 4,5% - as projeções para o IPCA se situam em 5,12% para este ano e em 5,5% para 2013.

Mesmo com a maior leniência com os preços, os benefícios da queda dos juros não foram percebidos claramente na atividade por causa de um diagnóstico errado, acredita Schwartsman. "A economia não está indo bem porque o BC tenta adotar a mesma receita de 2008 agora, sendo que as condições são completamente diferentes", afirma.

Schwartsman diz que, há quatro anos, a economia tinha um grau de ociosidade importante, tanto no emprego quanto na produção e no crédito, que explica a resposta rápida obtida com as medidas de estímulo adotadas naquele momento. "Agora, com o país em pleno emprego, o conjunto de política econômica parece não funcionar."

O economista Winston Fritsch, um dos integrantes do time que criou o Plano Real (1993-1994), não vê o BC mirando o ritmo de atividade da economia em detrimento do nível geral de preços. Para ele, o Copom "ganhou" do mercado ao notar antes dos agentes econômicos uma oportunidade única de reduzir a taxa básica de juro da economia brasileira, e estabelecer um novo padrão. "Eu acho que o BC não abandonou a meta de inflação. O impacto de contração da atividade foi muito rápido. Um choque de esfriamento que criou espaço para reduzir os juros sem contrapor a meta."

Fritsch pondera, no entanto, que a condição propícia à flexibilização do juro não é eterna e o ritmo de corte da taxa Selic, que foi reduzida até agora em 4,5 pontos percentuais, 8% ao ano, tende a ficar mais contido nos próximos meses. "Chegamos a um ponto para testar e ver o que acontece. Ninguém pode dizer que o BC está fora da meta."

A expectativa para a próxima reunião do Copom, que ocorre na semana que vem, é de novo corte de 0,5 ponto, seguida por nova redução em outubro, talvez de menor magnitude, especula o mercado. A partir daí, os especialistas se dividem entre uma estabilidade ao longo de 2013 ou uma leve alta dos juros. Todos estão de olho no atual repique inflacionário, fruto da alta dos preços das commodities (especialmente alimentos) no exterior e no aquecimento da economia doméstica.

De toda forma, há um novo equilíbrio macroeconômico defendido pelo BC: juro real baixo com câmbio depreciado. Para que isso se torne uma mudança estrutural, é necessário que se mantenha o atual rigor fiscal, além de depender ainda do desempenho da economia internacional, avalia David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil.

"O mix da política monetária de fato mudou e a depreciação da moeda brasileira é permanente. Mas a âncora desse novo modelo é a manutenção de um rigor fiscal razoável", diz Beker.

Mesmo com o alívio provocado pela queda do juro básico no perfil da dívida pública brasileira, as estimativas para o superávit primário estão menores do que o resultado consolidado no ano passado. As projeções indicam 2,8% para este ano e para 2013. Em 2011, o superávit primário foi de 3,11%.

No ambiente externo, Beker acredita que o cenário de baixo crescimento e juros próximos de zero se manterá por dois ou três anos, o que deve permitir que se mantenha a taxa de juro real brasileira em patamares historicamente baixos. "Ainda é cedo para dizer se a mudança no patamar da Selic é estrutural, mas mesmo que seja apenas conjuntural não necessariamente será de curto prazo".

Passado um ano das turbulências entre o mercado e o BC, os especialistas hoje já se acostumaram com a nova função de reação da autoridade monetária e sabem ler melhor os sinais dessa nova autoridade monetária. Antes, o BC não reduziria os juros quando a projeção de inflação se mostrava acima da meta. Hoje, a expectativa está acima de 5% e o BC continua cortando a Selic, lembra Molan, do Santander.

Outra mudança está no câmbio. Analistas que antes olhavam os fundamentos econômico como o preço das commodities e o movimento do dólar no mercado externo para estimar o valor da moeda americana no Brasil, estão mais atentos agora aos discursos do governo, seja via Ministério da Fazenda, seja via BC.

Mas condições para o processo de ajuste das taxas de juros para padrões internacionais não estão dadas, na opinião de Vieira da Cunha, uma vez que o peso do governo no sistema financeiro só faz crescer e o ajuste fiscal está focado na arrecadação, e não no gasto. E isso ajuda a explicar o resultado prático ainda limitado dessa medida. "Por enquanto, estamos pagando para ver."

O conservadorismo fiscal dos EUA



Por Simon Johnson - Valor 24/08

Na maioria dos países, ser "fiscalmente conservador" significa preocupar-se muito com o déficit orçamentário e a dívida pública - e pressionar para que essas questões sejam levadas ao topo da agenda de políticas governamentais. Em muitos países da zona euro, hoje, os "conservadores fiscais" são um grupo poderoso que insiste na necessidade de aumentar a receita dos governos e colocar os gastos sob controle. No Reino Unido, também, importantes conservadores recentemente mostravam-se dispostos a aumentar os impostos e tentaram limitar gastos futuros.

Os EUA são muito diferentes, a esse respeito. Lá, os líderes políticos que optam por denominar-se "conservadores fiscais" - como Paul Ryan, agora presumível candidato do Partido Republicano à vice-presidência ao lado do candidato presidencial Mitt Romney na disputa em novembro - preocupam-se mais com cortes de impostos, independentemente do efeito sobre o déficit federal e a dívida total. Por que os conservadores fiscais americanos importam-se tão pouco com a dívida pública, em comparação com seus colegas de outros países?

Não foi sempre assim. Por exemplo, em 1960, os assessores do presidente Dwight D. Eisenhower sugeriram que ele deveria cortar impostos com o objetivo de preparar o caminho para seu vice-presidente, Richard Nixon, ser eleito para a presidência. Eisenhower não o fez, em parte porque ele particularmente não gostava nem confiava em Nixon, mas principalmente por que ele acreditava ser importante entregar um orçamento mais quase equilibrado a seu sucessor.
O arcabouço da política macroeconômica americana mudou drasticamente quando o sistema monetário internacional quebrou em 1971. Os EUA já não podiam manter um câmbio fixo entre o dólar e o ouro - a pedra angular do sistema de Bretton Woods, implementado no pós-guerra. O esquema entrou em colapso porque os EUA não quiseram apertar a política monetária e executar uma política fiscal mais restritiva - manter os eleitores americanos felizes era, compreensivelmente, mais importante, para o presidente Nixon, do que a manutenção de um sistema mundial de câmbio fixo.

Ironicamente, porém, em vez de minar o papel internacional predominante do dólar, o fim de Bretton Woods, na realidade, impulsionou o uso da moeda americana em todo o mundo. Muito tem sido escrito, e muita preocupação tem sido manifestada, sobre o declínio do dólar nas últimas quatro décadas, mas a verdade é que os volumes de ativos denominados em dólares americanos em poder de estrangeiros, hoje, são muito maiores do que em 1971.

Isso acaba por ser uma faca de dois gumes, porque permitiu que os EUA se tornassem menos cuidadosos com suas contas fiscais. Estrangeiros já detêm cerca de metade de toda a dívida do governo federal dos EUA, e estão dispostos a mantê-la (em suas reservas) apesar de proporcionar um retorno muito baixo em dólares (e até mesmo quando o dólar se desvaloriza).

Na realidade, sempre que o mundo parece instável, os investidores querem manter mais ativos em dólares em seu poder - mesmo quando os EUA são a causa da instabilidade. Quando grandes bancos americanos estão em apuros ou quando os americanos envolvem-se em mais um debilitante embate político sobre suas finanças públicas, os investidores em todo o mundo disputam a posse de títulos do Tesouro americano. O embate parlamentar no ano passado sobre o teto da dívida federal pode ter custado aos EUA sua classificação AAA de dívida soberana atribuída pela Standard & Poor's, mas os custos de financiamento do governo federal estão na realidade mais baixos, agora, do que então.

O que fizeram os EUA com essa oportunidade: possivelmente o mais baixo custo de financiamento na história da humanidade? Não muito, em termos de investimento produtivo, de fortalecimento da educação ou de manutenção da infraestrutura essencial. Mas os EUA têm feito muita coisa em termos de adoção de cortes de impostos que aquecem o consumo em relação à renda e reduzem as receitas do governo em relação à despesa. Esse é o legado duradouro dos cortes "temporários" de impostos adotados pelo governo de George W. Bush no início de 2000.

E os americanos mudaram bastante, em termos de filosofias políticas - tanto à direita como à esquerda - que consideram a dívida pública apenas como um detalhe desimportante. Ou, como disse o ex-vice-presidente Dick Cheney, "Reagan nos ensinou que os déficits não importam" - querendo dizer que Ronald Reagan cortou impostos, incorreu em déficits maiores e não sofreu quaisquer consequências políticas adversas.

Ryan e membros da ala "Tea Party" do Partido Republicano sem dúvida querem reduzir o tamanho do governo federal, e eles têm planos articulados para fazer isso ao longo de várias décadas. Mas no curto prazo, o que prometem são, principalmente, cortes de impostos: seu programa inteiro, do ponto de vista prático, é carregado, em curto-prazo, nessa direção. O cálculo político é que isso se revelará popular (o que é, provavelmente, verdadeiro), ao mesmo tempo em que facilitará implementar cortes de gastos mais à frente (o que é menos evidente). A vulnerabilidade criada pelo aumento da dívida pública ao longo das próximas décadas é simplesmente ignorada.

Por exemplo, Ryan apoiou farra de gastos de George W. Bush. Ele também defende a manutenção dos gastos com a defesa em, ou perto de, seu nível atual - resistindo aos cortes que foram postos em vigor pela Lei de Controle do Orçamento de 2011.

O pressuposto aqui - não declarado e altamente questionável - é que os EUA serão capazes de vender uma quantidade ilimitada de dívida pública a juros baixos num futuro previsível. Não há nenhum outro país no mundo onde os conservadores fiscais gostariam de se verem associados a uma aposta de tão alto risco. (Tradução de Sergio Blum)



Simon Johnson foi economista-chefe do FMI e é cofundador do blog sobre economia www.BaselineScenario.com, professor da MIT Sloan, membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional e coautor de "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You" (Casa Branca em chamas: os pais fundadores, nossa dívida nacional e por que isso é importante para você, em inglês), com James Kwak. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

'Sal na ferida', seca nos EUA ainda promete mais danos



Por Ian Berry e Owen Fletcher
The Wall Street Journal, de Wausa, Nebraska

Um grupo de profissionais do setor agrícola marchava através de um milharal dizimado pela seca nesta cidade no centro produtivo dos Estados Unidos na segunda-feira, esmagando folhas e talos ressequidos pelo caminho.

A fazenda era uma das primeiras paradas em uma viagem de quatro dias pelos campos agrícolas do país. O evento anual, com a presença de dezenas de analistas e investidores de commodities, além de alguns agricultores, é usado para avaliar o estado da safra mais recente. Este ano, entretanto, não há muito que ver.

"Você não tem que ter medo de se perder neste campo", disse Marty Tegtmeier, um agricultor do Estado de Iowa que se integrou à turnê, enquanto observava a paisagem.

Embora a pior seca em décadas venha golpeando grande parte do cinturão agrícola americano durante meses, muitos na turnê disseram que foram surpreendidos pelo péssimo estado das culturas. A notícia triste tem sido relatada aos operadores e investidores de commodities em Chicago via celular e até pelo Twitter - provocando saltos nas cotações do milho e da soja.

Na terça-feira, o preço do milho fechou com um recorde de US$ 8,3125 por bushel (contrato com vencimento em setembro) e a soja ficou perto de um recorde, a US$ 17,5350 por bushel, na bolsa de Chicago. Ontem, ambos recuaram um pouco. O milho fechou a US$ 8,3025 e a soja, a US$ 17,48 (papeis para setembro).

Além de Wausa, Estado de Nebraska, a turnê, organizada pela empresa de consultoria Pro Farmer, visitará lavouras em sete Estados.

Alguns campos irrigados pareciam imunes à seca, com rendimentos estimados em 15,7 mil quilos por hectare em partes de Nebraska. O grupo também espera ainda encontrar lavouras saudáveis em áreas de plantio de Minnesota no último dia da turnê.

Mas os observadores tiveram dificuldades para encontrar campos de milho que ainda não tivessem sido transformados em alimento de gado no sudeste de Dakota do Sul e no nordeste de Nebraska, um sinal de que os agricultores tinham desistido de uma cultura que não seria capaz de produzir nenhum grão.

Em uma fazenda no leste do Illinois na terça-feira, Brian Grete, analista da Pro Farmer, disse que podia colocar sua mão inteira numa rachadura no solo que se formou devido à grave seca - antes de chuvas recentes tornarem o solo pegajoso. "É quase como esfregar sal na ferida o fato de que as chuvas vieram tarde demais para esta área", disse ele.

Nos campos em que ainda havia pés de milho, muitas vezes as plantas não tinha nenhuma espiga.

Apesar de a terra irrigada mostrar mais potencial, os observadores disseram que alguns desses campos também estavam sem brilho, notando que o calor extremo tinha parcialmente eliminado os benefícios da irrigação.

"Foi difícil [para a irrigação] manter o ritmo este ano", afirmou Jeff Mueller, um agrônomo da DuPont Pioneer, o braço agrícola da multinacional DuPont Co.

A turnê vai terminar hoje em Owatonna, Estado de Minnesota. Amanhã, a Pro Farmer vai lançar sua previsão para o rendimento médio de milho e de soja dos EUA na atual safra, com base, em parte, nos resultados das visitas.

Leituras iniciais em Dakota do Sul e em Ohio têm sido decepcionantes. Os organizadores das visitas relataram na segunda-feira um rendimento médio estimado das lavouras de milho em Ohio de 6,9 mil quilos por hectare, uma retração de 29% em comparação com o ano passado. As previsões para a soja ficaram em uma média de 1.033,7 vagens em uma área de menos de um metro quadrado, 17,5% abaixo do que no ano passado.

Em Dakota do Sul, os observadores esperam um rendimento médio 47% inferior que o registrado no ano passado, tanto para a soja quanto para o milho.

As estimativas do grupo para a produção de milho e soja em Ohio e em Dakota do Sul são substancialmente inferiores às feitas pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) no início deste mês, informou o diretor da turnê, Chip Flory.

De volta a Chicago, operadores e analistas disseram que estão monitorando o Twitter ou telefonando para amigos e colegas no grupo de observadores para coletar as últimas informações.

Incerteza não é emergência



Por José Graziano da Silva - Valor 23/08

É grande a probabilidade de que as três décadas encerradas na crise de 2007/2008 passem à história como o último ciclo longo de estabilidade dos preços dos alimentos.

Desde o início deste século a tendência declinante mudou; os preços passaram a subir e a volatilidade fez-se senhora dos mercados. As commodities agrícolas dispararam em 2008 e 2010 e voltaram a subir agora em 2012.

O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) de agosto aumentou 6% em relação ao mês anterior, alcançando 213 pontos, mas ainda abaixo dos 224 pontos de junho de 2008 e o recorde de 238 pontos de fevereiro de 2011.

A alavanca desta vez foram as cotações do milho, do trigo e do açúcar. A nova alta reafirma um tempo de preços erráticos que veio para ficar. No entanto, não configura uma explosão equivalente à de 2008.

O que aconteceu ali foi uma desastrosa espiral de preços que poderia ter sido evitada com um grau maior de coordenação internacional das políticas de importação e exportação, hoje possível.

Quebras de safras e demanda aquecida foram respondidas então com a suspensão de embarques de alguns países exportadores e muitas nações procuraram se defender da escalada dos preços elevando suas reservas internas.

A incerteza alimentou o pânico e fomentou a especulação descolada da função benigna de proteger produtores e compradores. Investir em mercados futuros de commodities mostrou-se a melhor aplicação financeira dos últimos cinco anos: rendeu 144% contra 143% do ouro, segundo cálculos do Deutsche Bank.

Hoje, a realidade é outra. Não estamos em crise e podemos evitar que ela ocorra.

Em 2008, o crescimento econômico empurrava a demanda. Hoje, a recessão na Europa e o desaquecimento na Ásia, associados ao baixo crescimento nos Estados Unidos, exercem um freio na demanda e na especulação nociva.

Agora, a seca no meio-oeste norte-americano atingiu um produto essencial da cadeia alimentar, o milho; mas os índices de preços dos derivados de leite e os do arroz permanecem estáveis; os da carne caíram. De modo geral, estoques disponíveis de trigo e, especialmente, de arroz são maiores que há quatro anos e seus mercados mostram-se relativamente equilibrados até agora.

O horizonte de instabilidade anunciado em 2008, porém, não se dissipou. A regulação financeira ainda engatinha; a equação do desequilíbrio climático é um enredo à espera de atores.

Com ou sem crise, a incerteza caracteriza a época em que vivemos e não pode mais ser respondida apenas com a emergência.

Informação e políticas coordenadas são essenciais para subtrair espaços à lógica da instabilidade.

O Sistema de Informações de Mercado Agrícola (AMIS, na sua sigla em inglês), criado pelo G20 após a última crise e coordenado pela FAO, aprimorou o acompanhamento das tendências de oferta e demanda. O AMIS inclui um Foro de Resposta Rápida, que dá aos países maior espaço para trocar informações e coordenar políticas com a velocidade necessária para responder a movimentos de preços como o atual. Integram esse sistema as nações que compõem o G20 e outros oito grande produtores e consumidores de alimentos.

No âmbito nacional, políticas de fomento agrícola para garantir o abastecimento doméstico figuram como o grande anteparo estrutural ao horizonte de incerteza que forma a nova regularidade do mundo.

A educação alimentar é parte indissociável dessa blindagem. Dados da FAO mostram que a substituição de alimentos é uma das principais respostas dos consumidores pobres à alta de preços. A educação alimentar e nutricional ajuda a manter a qualidade da dieta mesmo em momentos de flutuação da oferta. É papel do Estado democratizar o uso dessa ferramenta na sociedade.

Fortalecer as redes de proteção social, com a implantação e ampliação dos programas de transferências de renda, reafirma-se como outro imperativo incontornável de política pública.

Não se deve desperdiçar a dimensão regeneradora dos mercados, que também requerem políticas públicas para serem universalizadas. Preços altos são um estímulo ao plantio. A quebra na oferta do hemisfério norte incentiva a semeadura que começa agora em setembro em muitas lavouras do hemisfério sul.

Crucial, porém, é estender o alcance desse incentivo à agricultura familiar. 70% da população miserável do planeta vive em zonas rurais dos países em desenvolvimento.

A atenção à agricultura familiar não constitui apenas um requisito para combater a pobreza e prevenir a fome. Sua pertinência estende-se também à busca de respostas para eventos extremos, que vão se repetir com maior frequência e intensidade em função da mudança climática.

E, muitas vezes, sem qualquer anúncio. A seca no corn-belt norte-americano, a pior do último meio século, irrompeu um mês depois que as previsões meteorológicas e as de mercado indicavam uma colheita recorde.

Paradoxalmente, não foi um ponto fora da curva. A falta de água afetou também vários países da Europa do Leste e regiões da Índia. O comportamento anormal das chuvas reduziu a safra russa de trigo na Sibéria.

Desconcentrar a geografia da produção, estimulando os mercados locais de produtos não transáveis, é a melhor forma de prevenir os revezes do clima sobre a oferta. Políticas de desenvolvimento da agricultura familiar compõem, assim, um pedaço cada vez mais importante da resposta à insegurança alimentar em nosso tempo.



José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)