quinta-feira, 9 de agosto de 2012
China na África: mercado x democracia
Por Stephan Richter - Valor 09/08
As formas e meios pelos quais os chineses estão penetrando no continente africano são tema de debates acalorados em todo o mundo - e em nenhum lugar mais do que nos EUA. A visita de 10 dias de Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, a toda a África colocou o debate em foco detalhado.
De um lado, os que afirmam que os chineses estão comportando-se como neocolonialists (ocidentais), ansiosos por explorar as vastas riquezas de matérias-primas e minerais do continente. Eles veem a China como interessada em ocupar cada espaço não coberto por empresas multinacionais ocidentais.
Do outro lado, principalmente fora dos EUA e predominantemente na África e nos mercados emergentes, estão os que aplaudem a ascensão da China e apontam para os seus sucessos como uma forma tardia de justiça econômica. Estes acreditam que finalmente é hora de uma potência não ocidental rica e mirando horizontes de tempo de longo prazo emergir como parceira viável para o continente.
Melhor ainda, argumentam essas vozes, os chineses - com a sua proposta de construção de infraestrutura em t roca da exploração de matérias-primas - estão apenas cumprindo o que acabaram revelando-se promessas vazias, feitas há um século pelas potências ocidentais.
Construção de ferrovias ligando áreas do interior à costa? A eventual perspectiva de formar uma rede cobrindo a África Subsaariana? Formação de redes de rodovias e autoestradas de quatro pistas a preços acessíveis em todo o continente? Disponibilizar moderníssimos complexos de escritórios, construídos dentro de orçamentos que as nações africanas têm condições de custear?
Essas são, certamente, metas que os líderes africanos vêm perseguindo há muito tempo. Mas, no passado, uma combinação tóxica de sua própria corruptibilidade, laços obscuros entre ex-países colonizadores (e suas elites empresariais) e os novos governantes, bem como estruturas de planejamento excessivamente complexas, muito frequentemente resultaram em projetos proibitivamente caros.
Considerando que o crescimento econômico da África tem sido retardado pela inexistência de infraestrutura de transportes confiável - nos países e entre eles - essa é uma oferta mais que tentadora. Ela representa uma oportunidade de proporções históricas.
Sim, o continente tem uma abundância de aeroportos e de telefones celulares, mas devido à infraestrutura totalmente insuficiente, o comércio continua sendo dificultado de uma maneira reminiscente da Europa pré-1820.
Nesse sentido, as iniciativas empreendidas pelos chineses na África são, agora, o equivalente histórico do que as guerras napoleônicas trouxeram para um país como a Alemanha. Representam um há muito tempo necessário brado de alerta para o abandono de tradições ultrapassadas, para um avanço à era de intercâmbio e comércio modernos.
Sem ignorar os problemas inerentes à maneira como os chineses operam, inclusive o fato de que empregam predominantemente mão de obra de suas próprias empresas de construção civil, mesmo para projetos no interior da África subsaariana, a visão chinesa é muito distinta da abordagem ocidental nos últimos 50 anos.
A fórmula do Ocidente aplicada à África pós-independência, pós-1960, é priorizar a construção da democracia em detrimento da construção de mercados. Os chineses, como se sabe, optam exatamente pelo oposto.
Em tese, é sempre preferível concentrar-se em estruturas democráticas. E a secretária Clinton certamente referiu-se enfaticamente a isso durante sua visita. Mas em países onde a pobreza continua excessiva, um contra-argumento desconfortável pode ser sustentado, apoiado no histórico dos últimos 50 anos.
E se uma democracia atrofiada constituiu-se em obstáculo ao surgimento de um verdadeiro mercado para as economias nacionais? Nessas circunstâncias, não será preferível privilegiar a construção de um mercado para produzir uma estrutura mercantil suficientemente distribuída?
Esse é, sem dúvida, um dilema bastante desconfortável para ser analisado pelos ocidentais. Mas, claramente, são os africanos que precisam optar por seguir ou não o conceito ocidental de "democracia primeiro".
Melhor ainda, os defensores da estratégia chinesa para a África podem apontar para o fato de que a África não é a China. A preservação do poder em um Estado de partido único não está em causa na maior parte da África.
Em outras palavras, concentrem-se primeiro em acabar com a fome; depois, disseminem-se os benefícios não tão materiais da democracia. Esse foco assegura a formação de um eleitorado com melhor formação educacional e autoconfiante, não suscetível à compra barata de votos.
Essa abordagem também implica que o desenvolvimento econômico produza desenvolvimento político. Coincidentemente, isso é bastante semelhante ao que ocorreu na história da Europa. Lá, a tomada das rédeas da economia catalisou a demanda por mais direitos políticos por parte das classes mercantis, que terminou por colocar a Europa no rumo de democracia plena.
Por enquanto, em grande parte da África, a evolução política permanece tão atrofiada quanto o desenvolvimento econômico. Dito de outro modo, mas em última análise no mesmo sentido, a maturidade política - no sentido de democracia suficientemente robusta para que as eleições resultem em mudança efetiva no poder - só funciona praticamente em países como Gana, onde o desenvolvimento econômico é suficientemente avançado e amplo.
Ponderar esse tipo de sequenciamento é certamente desconfortável para os ocidentais que têm uma preferência instintiva pela democracia. Apesar disso, essa preferência é também desconcertante - especialmente tendo em vista a forte ênfase dos americanos em economia de mercado em seu país. Os americanos, como sabemos, foram afortunados em seu caso histórico especial, onde os desenvolvimentos econômico e político caminharam de mãos dadas.
É muito desconcertante observar nesse debate sobre construção de mercado versus construção de democracia - que são os chineses, e não os americanos - que podem argumentar persuasivamente que seu foco na África é a criação de futuros clientes e parceiros comerciais.
Esse foco em clientes parece contrário à doutrina marxista. E, de fato, os chineses podem citar ninguém menos que o admirável Adam Smith como sua testemunha principal. Ao avaliar estratégias econômicas de grandes impérios, escreveu ele: "Fundar um grande império com o propósito único de criar um povo de clientes pode, à primeira vista, parecer um projeto capaz de servir a uma nação de lojistas. Trata-se, porém, de um projeto totalmente impróprio para uma nação de lojistas. Mas extremamente adequado a uma nação cujo governo é influenciado por lojistas".
Embora os direitos ao voto não possam ser considerados um luxo, na realidade africana, ao menos, o foco central na construção da democracia, em vez da construção de mercados, tem tido o efeito perverso de asfixiar, e não de promover, o crescimento econômico. (Tradução de Sergio Blum)
Stephan Richter é editor chefe do "The Globalist".
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Uma moeda, muitos mercados
Por Hans-Helmut Kotz - Valor 07/08
A união monetária europeia está "cantando os pneus" rumo ao abismo, involuntária, mas, ao que tudo indica, inexoravelmente. A Grécia muito provavelmente não satisfará os critérios para que receba mais ajuda financeira de seus parceiros na zona do euro e do Fundo Monetário Internacional. Os europeus, então, precisarão decidir se deixam a Grécia partir. A opção de saída não melhorará as chances de a Grécia realizar um ajuste bem sucedido, e ocorreria a um preço exorbitante para a zona euro.
A saída grega poderá, esperamos, ser administrada. O Banco Central Europeu conteria os danos colaterais inundando o sistema bancário europeu com liquidez (contra garantias deficientes).
Assim, circunstâncias dramáticas mais uma vez forçariam a mão do BCE. Como maior instituição europeia, (o BCE) fica sistematicamente vulnerável a ser tomado como refém, obrigado a subscrever mais um socorro capaz de prolongar a vida do euro. Por essa razão, a recente promessa do presidente do BCE, Mario Draghi, de fazer "(tudo) o que for necessário" para salvar o euro não surpreendeu.
Em 1999, pareceu que Jacques Rueff, um conselheiro de Charles de Gaulle, tinha razão: "L'Europe se fera par la monnaie". Onze países europeus decidiram abrir mão de suas moedas nacionais (ou, mais tecnicamente, de suas taxas de câmbio nominais).
Esses países entenderam "moeda única", como um corolário quase físico de "mercado único". Políticas monetárias nacionais independentes em um mercado comum eram corretamente consideradas inviáveis, dada a preferência europeia por taxas de câmbio estáveis e mercados financeiros abertos. Isso exigia uma moeda única - e, portanto, responsabilidade compartilhada pela política monetária.
Hoje, no entanto, talvez seja necessário reformular o axioma de Rueff: "Et l'Europe se défait par les marchés financiers", isto é, a não ser que a Europa idealize um projeto institucional viável.
Dado as atuais agruras do euro, é instrutivo recordar os argumentos enfatizados na reta final para a união monetária. Como disseram Robert Mundell, agraciado com o Nobel de Economia, e outros analistas na década de 1960, abrir mão das taxas de câmbio nominais enfatiza três mecanismos alternativos para absorver o ajuste regional: transferências fiscais inter-regionais, migração entre países na união e, mais importante, mercados de trabalho capazes de se adaptar a choques.
Infelizmente, esses mecanismos foram anátema na ocasião. Transmitir a mensagem de que nada teria de mudar pareceu ser bem mais atraente. Assim, não se deu ouvidos aos argumentos de Mundell quando da concepção do planejamento institucional do euro. Na verdade, o Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como a cláusula europeia impeditiva de prestação de socorros, ignoraram a teoria econômica pertinente (qualquer teoria econômica, dizem alguns).
Somente após o fato, desde o outono de 2009, tornou-se majoritária a percepção da insustentabilidade dos déficits em conta corrente no âmbito da união, acumulados durante mais de uma década. Agora, com a união monetária, o ajuste precisa ser efetivado modificando os preços domésticos em relação aos bens comerciáveis - ou seja, promovendo uma depreciação da taxa de câmbio real.
Mas a crise em curso também evidencia uma segunda falha de projeto, não citada no argumento de Mundell: os problemas decorrentes de mercados financeiros integrados (inclusive os obstáculos à credibilidade da cláusula de proibição de prestação de socorro). Em circunstâncias normais, os fluxos desimpedidos de capital entre países proporcionam todos as vantagens propagandeadas em termos de melhor alocação de recursos e maior produtividade. Na esteira da crise, porém, dado o destino compartilhado dos governos nacionais e dos bancos, reemergiu um significativo viés nacionalista. Iniciativas de blindagem tornaram-se a opção automática dos supervisores nacionais e as condições monetárias voltaram a ser segmentadas segundo orientações nacionais.
Isso se traduz em uma disparidade significativa dos custos de acesso a fundos por instituições financeiras. A consequência imediata é uma divergência substancial no custo de capital para as empresas, e muitas empresas de pequeno e médio portes chegam a perder inteiramente seu acesso a crédito. Como resultado, os investimentos de capital - já frágeis em vista da fraca demanda - caíram, deflagrando um círculo vicioso de contração do PIB.
O problema é que não apenas essa heterogeneidade de condições do acesso a fundos torna difícil conduzir uma política monetária comum. Mais importante, tendo em vista que algumas regiões agora enfrentam spreads de juros que são o equivalente funcional de ter suas próprias moedas (sem ter um banco central), alguns membros da zona do euro podem questionar por que não formalizar o que é efetivamente uma realidade.
Nada disso é inevitável. O euro não foi criado por razões puramente econômicas. Se for considerado um projeto meritório, e for visto como benéfico para todos os participantes, a zona do euro poderia ser viabilizada. Para isso, certas condições mínimas precisam ser respeitadas. Além de mercados de trabalho flexíveis, uma zona do euro viável pressupõe um mecanismo (mínimo) de seguro fiscal. E isso exige não só regulamentação financeira comum, como também supervisão das instituições financeiras no âmbito de toda a zona do euro - inclusive seguro comum para os depósitos e um esquema compartilhado de solução para problemas financeiros estruturais de bancos.
Isso é muito difícil. E levará tempo para ser implementado. Mas a alternativa imediata de curto prazo - deixar a Grécia sair - implicaria um preço considerável. Os países periféricos seriam obrigados a pagar um prêmio significativo para compensar os investidores por assumirem uma redenominação (calote parcial) do risco. E, com isso, a zona do euro ficaria tão vulnerável quanto revelou-se, historicamente, qualquer sistema de câmbio fixo. (Tradução de Sergio Blum).
Hans-Helmut Kotz é pesquisador sênior no Centro de Estudos Financeiros da Universidade Goethe, em Frankfurt, e professor residente no Centro de Estudos Europeus da Universidade de Harvard, foi membro da diretoria do Deutsche Bundesbank de 2002 a 2010, incumbido de estabilidade financeira, mercados e estatísticas. Copyright: Project Syndicate, 2012.
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É o desemprego, tontos!
Por Antonio Delfim Netto - Valor 07/08
Na preparação e na expansão dos fatos que levaram à crise que estamos vivendo não existem inocentes: os governos falharam miseravelmente, o setor financeiro sem regulação - como o velho escorpião da fábula - cumpriu o seu objetivo matando o setor real da economia e alguns economistas, gloriosamente, "teorizaram matematicamente" a alta qualidade dos malfeitos...
Seria ridículo e pretensioso dizer que os economistas foram causa eficiente da crise. Eles foram apenas coadjuvantes (e algumas vezes beneficiários) do processo. Ajudaram a criar uma "ideologia" que pretendia dar base "científica" ao papel do mercado financeiro desregulado na aceleração do desenvolvimento econômico e do bem-estar do mundo. A mensagem construída a partir da fantástica hipótese dos "mercados perfeitos" tinha com consequência subliminar a ideia do velho presidente Reagan: "Os governos não são a solução, são o problema!" Mas é ridículo, também, isentá-los de qualquer responsabilidade. Produziriam trabalhos científicos na Academia, onde se faria "ciência pela ciência", na qual não é proibido inventar universos que não existem, como uma sociedade com um único produto, com uma função agregada de produção domesticada, com um agente representativo que incorpora todos os consumidores e os produtores, mas onde não há nem o crédito, nem as bolsas de valores. Agora esforçam-se em incorporá-los no famoso modelo designado de DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium, Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico). Não teriam, entretanto, responsabilidade pelo mau uso dos seus modelos, mesmo porque esses não se referem, necessariamente, a este mundo...
Paradoxalmente, nesse processo no qual parece não haver ator que tenha sido sua causa eficiente, há quem esteja recebendo a conta do malfeito. São os mais de 30 milhões de desempregados que estão nas ruas recusando-se a pagar as "falhas" dos governos - que provavelmente corrigirão nas urnas - e as "falhas" do mercado financeiro, cujos responsáveis esperam ver julgados e condenados pela Justiça. Acreditaram que os governos e os mercados sabiam o que faziam. Continuam sendo ignorados pelos estudos mais recentes de economistas ainda presos ao paradigma que a crise destruiu.
Não se estuda o verdadeiro "custo social do imenso desemprego". Insiste-se em continuar a estimar os efeitos sobre o bem-estar (o consumo) produzidos pelas flutuações do PIB, na velha e abusada tradição de Robert Lucas (o brilhante Prêmio Nobel de 1995) para quem as flutuações do emprego são pouco mais do que ataques de vagabundagem que, ciclicamente, atingem a mão de obra. Chega-se à conclusão que sobre esse ser inefável e metafísico - o consumidor representativo - ele é pequeno. Aliás, as estimativas variam fortemente porque todos conhecem - mas ninguém leva a sério - a afirmação do economista C. Otrok ("On measuring the welfare cost of business cycles", "Journal of Monetary Economics", 47, 2001, 61:92) que é "trivial fazer o custo do bem-estar produzido pela variação do PIB do tamanho que cada um quiser, simplesmente escolhendo uma forma conveniente da preferência" [do consumidor]. Repete apenas o grande Vilfredo Pareto, que já no século XIX afirmou: "Me deem as hipóteses adequadas e provarei qualquer coisa"...
A demonstração mais evidente dessa "disfunção teórica" é um recente trabalho de E. B. Yehoue também inspirado em Robert Lucas ("On Price Stability and Welfare", IMF Working Paper 12/189, julho de 2012). Suas conclusões são interessantes: "Usando um agente-representativo conservador num modelo de equilíbrio geral e baseado em parâmetros consistentes com os dados dos EUA, estimamos o custo social associado com diferentes níveis de metas inflacionárias, em particular 2%, 4% e 10%. O trabalho sugere que o custo social adicional de elevar a meta de inflação de 2% para 4% é igual a 0,3% do PIB real. Se a elevação for de 2% para 10%, esse custo se eleva a 1%. Com outros valores para os parâmetros na curva de demanda de moeda chega-se a 7% quando se eleva a inflação de 2% para 4%, e a 30% quando se passa de 2% para 10%" (página 4).
Em poucas palavras, vale "a fortiori", o que disse - repetindo Pareto - o economista C. Otrok citado acima. Quando as hipóteses são arbitrárias, "Deus está morto e tudo é permitido!"
Mas o ponto realmente importante no trabalho de Yehoue é que, salvo algum engano, ele menciona uma única vez nas 35 páginas do artigo, a palavra "desemprego" (página 21) referindo-se ao economista prático Arthur M. Okun (1928-80), que mostrou uma regularidade entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento do desemprego agora conhecida como "Lei de Okun". Obviamente, Yehoue não a utilizou porque ela introduziria ainda mais "ruído" nas suas conclusões. Aliás, uma coisa me intriga: seria o "custo social" produzido por um eventual aumento da meta de inflação de 2% para 4% nos EUA menor do que o custo do desemprego causado pela sua persistência ao longo dos últimos cinco anos de pelo menos 3% (dos 8% atuais para os 5% "normais")? É sugestivo que nas 58 referências do artigo, nenhuma tenha no título a palavra "desemprego"!
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Petrobras - produção estagnada
Fonte ANP
A produção de petróleo em junho foi de aproximadamente 2.033 Mbbl/dia, com redução de 4,9% na comparação com junho de 2011 e de 0,7% em relação a maio deste ano. O campo de Marlim Sul foi o de maior produção de petróleo e o segundo maior produtor de gás natural, com uma produção média de 331,Mboe/dia. O campo de Manati foi o maior produtor de gás natural, com produção média de 6,7 MMm3/dia.
Cerca de 94 % da produção de petróleo e gás natural são provenientes de campos operados pela Petrobras. Os campos marítimos responderam por aproximadamente 91% da produção de petróleo e 76,2% de gás natural. Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, dois são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (11º) e Ostra/Shell (15º).
Agência Estado
RIO/SÃO PAULO - A presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, afirmou que a menor produção de petróleo nacional levou à queda das exportações de petróleo no segundo trimestre, de 497 mil barris por dia para 554 mil barris por dia, na comparação com o trimestre anterior. O maior volume de óleo nacional processado no parque de refino também contribuiu para a menor exportação. Já o aumento do consumo doméstico, principalmente de diesel, levou à maior importação de derivados, que conduziu a um saldo da balança negativo em 170 mil barris por dia, contra 50 mil barris por dia no primeiro trimestre.
A produção da Petrobrás no campo de Cascade, a 250 km da costa do Estado norte-americano da Louisiana, deve alcançar 10 mil barris por dia (bpd) até o final do ano, revelou nesta segunda-feira a presidente da estatal Maria das Graças Foster, em teleconferência com analistas e investidores. A atividade no local, onde o início de produção ocorreu no primeiro trimestre deste ano, está em aproximadamente 2,8 mil barris por dia.
O salto virá da curva de maturação das atividades no primeiro poço e do começo das atividades em um segundo poço. A Petrobrás opera na região o FPSO (navio-plataforma) BW Pioneer, o primeiro equipamento do gênero em atividade em um campo de petróleo no Golfo do México norte-americano.
2012
Maria das Graças Foster disse que a meta de produção de petróleo da companhia para este ano está mantida em 2,1 milhões de barris diários de petróleo (bpd) no Brasil. A presidente da estatal afirmou que essa projeção considera uma variação de 2%, tanto para cima quanto para baixo.
A produção total de óleo e gás natural da Petrobrás somou 2.579 milhões de barris diários no segundo trimestre de 2012, uma retração de 1,07% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Em relação ao primeiro trimestre de 2012, o indicador apresentou retração de 4%.
Valor - 06/08
No vermelho
O prejuízo de R$ 1,34 bilhão da Petrobras no segundo trimestre deste ano foi empurrado por despesas de R$ 2,73 bilhões decorrentes de poços secos, R$ 2,1 bilhões maiores que as contabilizados no trimestre anterior. Assim, somente no primeiro semestre foram registrados R$ 3,28 bilhões como custos exploratórios. Essas despesas não afetam o lucro bruto da empresa, mas têm impacto direto no resultado operacional, incluindo o lucro antes de impostos, depreciação e amortização (ebitda, na sigla em inglês).
O valor tão alto levou a companhia a ter seu primeiro prejuízo em 13 anos - desde a maxidesvalorização do real, no primeiro trimestre de 1999. Naquela ocasião a companhia registrou perda de R$ 3,57 bilhões em valores atualizados pela inflação. Antes disso o único prejuízo desse vulto, equivalente a R$ 3,93 bilhões ajustados, aconteceu no quarto trimestre de 1991, em meio a um período conturbado do governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992).
Em julho de 2009 o Valor mostrou que dos 28 poços perfurados pela estatal no pré-sal das bacias de Campos e Santos até então, 32% estavam secos ou poderiam ser classificados como produtores subcomerciais de petróleo ou gás segundo dados da Agência Nacional do Petróleo disponíveis na época.
Ao explicar a baixa de poços no segundo trimestre, a Petrobras não deu detalhes. Disse apenas que o aumento dos gastos nessa linha se explicam principalmente "pelas maiores baixas de poços secos ou subcomerciais, perfurados principalmente no período 2009-2012, a custos mais elevados, com destaque para áreas de novas fronteiras exploratórias".
Pela contabilidade, quando ela realiza exploração de poços as despesas entram como investimento, sem afetar o resultado do período. Mas no momento em que se verifica que o poço é seco ou subcomercial é preciso reconhecer aquele gasto como despesa, e aí sim ela afeta o lucro. Ao apresentar o resultado, Graça Foster identificou todos os ítens que prejudicaram o balanço, dizendo que a companhia está trabalhando para recuperar a rentabilidade.
Apesar de esperarem um péssimo resultado, nenhum analista previu um prejuízo da magnitude anunciada pela Petrobras. Os mais pessimistas esperavam um lucro de R$ 1,9 bilhão a R$ 2 bilhões, o que já seria um péssimo resultado comparado aos R$ 10,94 bilhões do mesmo período de 2011, ou com o lucro de R$ 9,21 bilhões entregues no primeiro trimestre deste ano.
"Estou anestesiado", brincou o analista de um grande banco na sexta-feira, logo depois da divulgação do resultado. Esse analista observou que nunca imaginou que a empresa apresentasse prejuízo em um trimestre em que o preço médio do petróleo "brent" no mercado internacional foi de US$ 108,47 por barril.
A impressão que ficou do primeiro balanço da gestão de Graça Foster na presidência da Petrobras é de que ela está "limpando o balanço" para, a partir daí, registrar resultados mais aderentes, o que no longo prazo é bom para a companhia.
Outro item que ajudou a afundar o resultado da estatal, já esperado, foi o prejuízo de R$ 7,03 bilhões da área de abastecimento e refino, onde são lançados os custos com importação de combustíveis vendidos no país mais barato que o preço de aquisição. Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), no primeiro semestre de 2012 a Petrobras acumulou saldo líquido negativo de R$ 9,4 bilhões em função da diferença entre as despesas com a importação de gasolina e diesel e a receita obtida com as vendas no país.
Outra causa foi a variação cambial no período (o dólar se valorizou 11% em relação ao real), que trouxe impacto de R$ 7,17 bilhões sobre a dívida líquida em dólares. Mesmo assim, na avaliação de outro experiente analista o câmbio, sozinho, não seria capaz de fazer um estrago tão grande.
"O resultado é uma lástima. É o que dá quando não se pratica paridade de preços. O câmbio andou afetando o balanço mas os preços continuam aquém [do mercado internacional], o que impacta o resultado operacional. Uma coisa não compensa a outra", observou.
Como as perdas com importação devem cair por causa do aumento dos preços do diesel e da gasolina, e a variação cambial e as estrondosas despesas com poços secos não recorrentes, em tese esses itens não devem se repetir no terceiro trimestre.
"O reajuste nos preços da gasolina e do diesel ocorrido no final de junho ainda não teve muito efeito nos números, mas deve contribuir para minimizar os impactos causados pelos altos custos de derivados importados nos próximos resultados", observaram analistas do BB Investimentos.
O limitado poder de escolha dos EUA
Por Mohamed A. El-Erian - Valor 06/08
Acrença geral sobre as eleições presidenciais de novembro nos Estados Unidos está apenas em parte correta. Sim, as questões econômicas terão grande papel na determinação do resultado. O passo seguinte no argumento - de que o vencedor de uma disputa cada vez mais detestável poderá dar-se o luxo de buscar políticas significativamente diferentes do oponente - é, no entanto, muito mais duvidoso.
Quando o próximo mandato presidencial começar, em janeiro de 2013, ao contrário dos atuais discursos nas campanhas de Obama e Romney, o mandatário se verá com espaço limitado para manobrar a política econômica. De fato, as possíveis diferenças para os EUA estão em outros fatores e ainda precisam ser compreendidas pelos eleitores. Elas concentram-se nas políticas sociais que acompanharão um conjunto de medidas econômicas em grande medida similares; e, aqui, as diferenças entre os candidatos são cruciais.
Seja quem for o vencedor, se deparará com uma economia crescendo a um vagaroso ritmo de apenas 2%, ou menos, por ano, com o incômodo risco de completa estagnação. O desemprego ainda estará alto demais e quase metade disso será de difícil reversão, a chamada falta de emprego de longo prazo.
O aspecto financeiro da economia também será fonte de preocupação. O déficit fiscal continuará a flertar com a faixa dos 10% do Produto Interno Bruto (PIB), intensificando os receios quanto à dinâmica de médio prazo dos títulos de dívidas do país. O setor bancário ainda estará "livrando-se [de investimentos] de risco", limitando o fluxo de crédito para pequenas e médias empresas e afetando as contratações e investimentos em fábricas e equipamentos. E as famílias terão percorrido apenas em parte sua dolorosa fase de desalavancagem.
O front das políticas econômicas será igualmente inquietante. Depois ter brigado e hesitado por tempo demais, o Congresso dos EUA encontrará cada vez mais dificuldade para adiar medidas que enfrentem esses desafios. Enquanto isso, o incomum ativismo do Federal Reserve (Fed, autoridade monetária dos EUA), incluindo uma crescente lista de medidas experimentais, vai render poucos benefícios e acarretar riscos e custos cada vez maiores.
A economia dos EUA também estará operando em meio a um cenário internacional mais difícil. Nos próximos meses, a crise da dívida europeia, com muita probabilidade, se agravará. Com as economias emergentes (incluindo a China) em desaceleração e com a falta de ações adequadas de coordenação política multilateral estendendo-se por mais tempo, as pressões protecionistas vão crescer à medida que as principais potências do comércio exterior passarem a concorrer por um bolo que deixou de crescer.
Portanto, independentemente de o presidente Barack Obama ou Mitt Romney ganharem em novembro, o próximo presidente se verá limitado pelas necessidades "gêmeas" de estabilização econômica premente e de reformas de longo prazo. E, com os ventos contrários vindos da Europa e da desaceleração mundial sincronizada, os candidatos não terão escolha a não ser adotar, pelo menos de início, políticas econômicas similares para restaurar uma criação de empregos dinâmica e a estabilidade financeira.
Para encontrar o equilíbrio certo entre estímulos econômicos imediatos e sustentabilidade fiscal de médio prazo, a medida mais urgente será conter apropriadamente o chamado "abismo fiscal" - quando acabem as reduções temporárias de impostos e passem a valer automaticamente profundos cortes generalizados de gastos públicos - que se aproxima.
São necessárias reformas orçamentárias sérias no médio prazo para lidar com o legado dos sucessivos erros do Congresso. E, caso seja abastecido com números realistas, o próximo presidente logo perceberá que a combinação adequada de reformas nos impostos e nos gastos recai em uma faixa muito mais estreita de possibilidades do que os discursos políticos rivais da atualidade sugerem.
As reformas fiscais funcionam melhor em economias dinâmicas. Com essa ideia, Obama e Romney precisarão levantar os impedimentos ao crescimento e à criação de empregos.
Isso, no entanto, não significa que não há espaços para diferenças. Há; e elas refletem o fato de que as tendências econômicas gerais serão acompanhadas de dinâmicas com diferentes velocidades nas mais variadas esferas.
Depois de uma "era" de alavancagem excessiva, emissão de dívidas e facilidade de crédito que culminou com a crise financeira mundial de 2008, os EUA ainda se deparam com o complicado desafio de lidar com perdas acumulativas que inibem continuamente os investimentos, empregos e competitividade. Até agora, a excessiva polarização política no Congresso traduziu-se em uma abordagem que empurrou ainda mais os encargos do ajuste sobre aqueles que têm menos capacidade para suportá-lo.
Em um mundo ideal, o próximo presidente dos EUA rapidamente embarcaria em uma estratégia de dois passos para recuperar o dinamismo do emprego e a solidez financeira. Primeiro, elaboraria um conjunto abrangente de iniciativas de política econômica que sejam tanto desejáveis como viáveis - e, de novo, o espaço para diferenças substanciais aqui é limitado. Segundo, acompanharia isso com um conjunto explícito de políticas sociais que resolva a necessidade de compartilhar de forma equitativa os encargos.
Esta não é realmente uma eleição sobre temas polêmicos como transferência de produção ao exterior ou discussões acaloradas como aumento de impostos versus reformas nos benefícios sociais; controle da produção pelo governo versus atividade irrestrita do setor privado; ou criadores de empregos versus "aproveitadores" da ajuda do Estado. Trata-se muito mais dos conceitos que acompanham esses temas, como justiça social, benefícios sociais, igualdade e, sim, padrões de comportamento para uma sociedade rica e civilizada.
Esta é uma eleição sobre responsabilidade social - a obrigação da sociedade de ajudar aqueles que estão em dificuldade, por culpa de outros, a encontrar empregos e a ter o suficiente para suas despesas. É sobre a reforma de um sistema de ensino que não atende apropriadamente a juventude americana. Entre as várias questões de justiça e igualdade, esta é uma eleição sobre os ricos devolvendo algo ao sistema que lhes trouxe uma riqueza inimaginável.
É aqui que as diferenças entre Obama e Romney são importantes. Quanto antes os debates da campanha se voltarem a isso, maior a probabilidade de que os americanos venham a fazer uma escolha estando mais bem informados e, portanto, se envolvam no esforço coletivo necessário para acabar com as mazelas que afetam o país.
Mohamed A El-Erian executivo-chefe e codiretor-executivo de informações da PIMCO, é autor de "When Markets Collide" (quando mercados colidem, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Integrar para desenvolver
Por Rodrigo Vilaça - Valor 03/08
É bastante animadora, especialmente para aqueles que atuam nos setores da infraestrutura, a determinação da presidente Dilma Rousseff no sentido de integrar os projetos de construção de rodovias, ferrovias e portos para agilizar os resultados desses investimentos, conforme recentes notícias publicadas na imprensa.
Para acelerar o crescimento econômico, o Brasil precisa vencer urgentemente o desafio logístico. Nossas vias de escoamento da produção, considerando-se todos os modais, ainda são muito precárias em comparação com outros países de grandes dimensões. Já somos a sexta economia do mundo mas ainda estamos na 45ª posição no ranking de desempenho logístico do Banco Mundial. É grande o esforço de todos - governo e iniciativa privada - e temos conseguido melhorar significativamente as condições de competitividade logística do país, porém as demandas atuais exigem um ritmo mais intenso e investimentos muito mais vultosos.
O governo vê com clareza que não há mais tempo de esperar as regiões se desenvolverem para então se tornar viável a construção de novas ferrovias. É preciso construir vias férreas cruzando todo o país, de forma que as locomotivas impulsionem o progresso e os vagões transportem crescimento econômico e social, integrando as diversas regiões. Este sim, é um investimento correto em infraestrutura.
A construção de ferrovias estruturantes vai dar ao Brasil um traçado de malhas que nunca tivemos antes. É o caso da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), ligando o litoral da Bahia à Norte-Sul no estado do Tocantins, e também da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), atravessando horizontalmente todo o Mato Grosso do Sul até Goiás. Assim como a Nova Transnordestina, que vai ligar dois portos importantes do Nordeste (Pecém e Suape) ao sul do Piauí, onde também haverá uma conexão com a Norte-Sul.
Quando nosso território estiver integrado em artérias multimodais de Norte a Sul e de Leste a Oeste, aí sim o Brasil poderá alcançar o nível de desenvolvimento que todos almejamos. Nesse cenário a ferrovia é fundamental, por ser o modal mais competitivo e eficiente para cargas de grande volume e a longas distâncias. É por isso que nos principais países de grandes dimensões territoriais os trilhos conduzem mais de metade das cargas, enquanto no Brasil a participação do modal ferroviário está em 25% na matriz de transportes e as rodovias ainda predominam, com mais de 65%.
Mas sabemos que todos os projetos de expansão da malha ferroviária seriam insuficientes sem a integração com rodovias, hidrovias e portos. A intermodalidade é a única forma de atingirmos níveis competitivos de eficiência na infraestrutura de transporte de cargas. Sabe-se também que não basta investir na construção de novas ferrovias, sem solucionar os gargalos da malha existente.
Daí a importância de obras como o Ferroanel de São Paulo, que finalmente será construído, para solucionar uma situação que já se tornara absurda em uma metrópole como São Paulo. Quando estiverem prontas as vias férreas contornando a capital, os trens de carga não mais precisarão atravessar toda a cidade, nos mesmos trilhos usados pelos trens de passageiros. O fato de termos hoje composições com centenas de vagões parados durante várias horas, esperando para seguir viagem, compromete seriamente a produtividade do transporte de produtos vitais para a economia do país.
O Ferroanel de São Paulo vai beneficiar diretamente a população, que sofre com as precariedades do transporte público ou no trânsito congestionado pelo excesso de caminhões. Soma-se a esse benefício social o ganho ambiental, pois uma composição ferroviária com 100 vagões, por exemplo, corresponde a cerca de 350 caminhões. Portanto, um empreendimento como esse beneficia a qualidade de vida da população, não só pelo alívio para o trânsito da cidade e das estradas, como pela emissão cinco vezes menor de CO2 e pela economia de combustíveis que os trens propiciam.
Em termos econômicos, o retorno é significativo em vários aspectos além do frete. Ou seja, a movimentação mais eficiente das cargas beneficia também outros setores da economia. São ganhos que ultrapassam em muito as vantagens econômicas para os operadores e os clientes das ferrovias de carga.
Quando se investe em ferrovias, portanto, melhora o transporte, a qualidade de vida, a saúde da população, o custo Brasil fica menor, são muitos os benefícios. Esse é um tipo de investimento que não se recupera só com o frete cobrado pelas concessionárias, e sim em melhorias para todos os segmentos da sociedade. Seu alcance social e ambiental justifica, sem dúvida alguma, a participação do governo nesse tipo de investimento, em parceria com a iniciativa privada.
O investimento das concessionárias deve retornar nos fretes, um tipo de retorno que demora anos para ser amortizado. Quantos anos? Obviamente, isso depende do montante investido. E qual é o parâmetro para a definição do prazo de concessão? Quando se instituiu o modelo atual, no final do século passado, e foram estabelecidas concessões com prazo de 30 anos, não havia a dinâmica de investimentos que se exige hoje. O horizonte era diferente. A preocupação do governo era livrar-se do absurdo déficit da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Era urgente estancar o prejuízo crescente, já na casa dos bilhões, que o sistema ferroviário, estatizado, fazia recair sobre as contas públicas. Hoje, a demanda é muito maior do que antes. É preciso investir fortemente, mas esse investimento tem que ser sustentável. Precisa de prazo suficiente para ser recuperado.
Essa é a lógica, bastante simples, do modelo de concessões. É impossível para o governo assumir toda a demanda de recursos necessários à infraestrutura e a iniciativa privada quer investir, mas precisa viabilizar seus investimentos. A agenda do crescimento, que está sendo anunciada pelo governo federal, certamente leva em conta todos esses fatores, ao planejar de modo integrado novas rodovias, ferrovias e portos.
Rodrigo Vilaça é presidente-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF).
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Crise e capitalismo de Estado
Por Jorge Arbache - Valor 02/08
A "The Economist" publicou um provocativo relatório especial sobre capitalismo de Estado, modelo que, segundo a revista, "combina as forças do Estado com as forças do capitalismo". Desde então, o assunto ganhou atenção mundo afora e tem contribuído para os debates sobre a crise econômica e sobre modelos de desenvolvimento. A crescente influência das economias emergentes na economia mundial e a sua resiliência à crise financeira estariam por detrás do grande interesse pelo assunto. Contrariamente ao dirigismo muitas vezes observado até recentemente em muitos países em desenvolvimento, o capitalismo de Estado se utilizaria, segundo a revista, de instrumentos e métodos de gestão de mercado para atingir seus objetivos. O relatório justifica o foco nas experiências recentes dos países emergentes, notadamente a da China, porque elas "parecem ser cada vez mais a tendência futura".
As manifestações do capitalismo de Estado são variadas e podem ser complexas e sofisticadas, como as políticas públicas de apoio aos conglomerados privados sul-coreanos, ou a montagem de fundos soberanos com crescente influência nos fluxos de capitais e investimentos. Mas as experiências de capitalismo de Estado de países emergentes coexistem com manifestações de forte intervencionismo estatal na economia também nos países desenvolvidos, como no caso da empresa de petróleo estatal norueguesa, Statoil, e das políticas americana e europeia de subsídios ao setor agrícola. As experiências das diferentes vertentes de capitalismo de Estado sugerem haver em comum entre elas uma tensão, em maior ou menor grau, entre pragmatismo e ideologia.
Mais recentemente, as inéditas e massivas intervenções na economia pelos governos dos países no epicentro da crise financeira por meio de "quantitative easing" e "bailouts", por exemplo, têm provocado profundas repercussões na alocação de recursos e formação de preços não apenas no plano doméstico, mas, também, internacional. Essas intervenções, muitas delas oportunistas, são especialmente intrusivas devido ao tamanho dessas economias e ao fato de suas moedas serem reserva de valor internacional, criando e agravando desequilíbrios macroeconômicos internacionais e acentuando as condições já assimétricas de competição.
O emprego de políticas de capitalismo de Estado parece estar se popularizando mundo afora à medida que a crise econômica e as incertezas se agravam. O capitalismo de Estado da China e o fracasso de políticas econômicas ultra-liberais, como algumas perseguidas pelos Estados Unidos até antes da crise, nos ajudam a entender porque um dos prováveis legados dessa crise para os políticos é a lição de que governos não devem limitar os seus papéis na economia.
Embora seja compreensível a atratividade do capitalismo de Estado num contexto de crise econômica, a sua multiplicação em escala global tem implicações deletérias. De fato, parece ser pouco plausível que muitos países possam se beneficiar, simultaneamente, de políticas de capitalismo de Estado devido à falácia da composição e devido às externalidades negativas por elas provocadas, que tendem a desorganizar o sistema econômico, fomentar reações mercantilistas e alimentar tensões políticas entre países. Por isso, é muito provável que a popularização dessas políticas dificulte a recuperação da economia mundial. O emprego de políticas de capitalismo de Estado também suscita questões associadas às escolhas entre interesses nacionais e compromissos internacionais, como os do G-20, com reflexos para a credibilidade do sistema multilateral.
Para que se mitiguem a proliferação do capitalismo de Estado e seus potenciais riscos para o crescimento econômico mundial, será preciso que os países, notadamente Estados Unidos, União Europeia e China, reconheçam a interdependência das políticas micro e macroeconômicas nacionais e seus impactos nos países em desenvolvimento. Será preciso, assim, redobrar os esforços de coordenação de políticas e de gestão de interesses conflitantes. No entanto, experiências como o colapso do Acordo de Doha, crise do Euro e as dificuldades de avanço nos acordos do clima ilustram os desafios de coordenação e de solução de controvérsias em períodos de crise.
Como as políticas de capitalismo de Estado têm significativos impactos adversos na economia brasileira, incluindo valorização cambial, especulação com preços de ativos e barreiras ao comércio e ao investimento, torna-se necessário o emprego de estratégias de desenvolvimento e de inserção internacional que busquem mitigar esses impactos. Tais estratégias deveriam levar em conta a combinação dos benefícios do comércio com os das políticas públicas de promoção da indústria conciliada com o desenvolvimento e a exploração das vantagens produtivas e competitivas nacionais. Deveriam, também, reconhecer as relações entre comércio e variáveis macroeconômicas como câmbio, juros e política fiscal e seus impactos na indústria e no comércio, buscar o reconhecimento internacional dos impactos dos grandes desequilíbrios macroeconômicos e das políticas de outros países na economia brasileira, e intensificar esforços indutores do aumento da competitividade através da redução dos custos de produção e aumento da produtividade e dos investimentos em capital humano e inovação.
Jorge Arbache é professor de economia da UnB. jarbache@gmail.com
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
A China e a desaceleração
Por Yu Yongding - Valor 01/08
O crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelerou-se de 8,1% no primeiro trimestre para 7,6% no segundo, a menor expansão desde o mesmo período de 2009. Os dados recém-divulgados sobre a expansão podem ter dissipado os temores de uma aterrissagem forçada da China, mas mesmo assim levaram muitos a argumentar que a China precisa estimular mais sua economia para garantir um crescimento anual de 8%.
Desde o início de 2010, o governo chinês apertou sua política monetária para conter a inflação e evitar bolhas nos preços das propriedades. Como resultado, a inflação caiu para 2,2% em junho, menor patamar em 29 meses, e os preços residenciais, cujos dados oficiais a Agência Nacional de Estatísticas infelizmente deixou de divulgar, parecem estar se estabilizando e podem até ter recuado, ainda que de forma moderada.
A desaceleração do índice de crescimento da China é, até certo ponto, reflexo do sucesso dos esforços do governo para domar a bolha do setor imobiliário, assim como de outras políticas voltadas ao reequilíbrio da economia. O crescimento dos investimentos em projetos imobiliários, que representam diretamente mais de 10% do PIB, caiu 16,3 pontos percentuais no primeiro semestre de 2012 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Isso levou a uma desaceleração nos investimentos em muitos setores relacionados como os de materiais de construção, móveis e eletrodomésticos, o que, por sua vez, levou a expansão anual nos investimentos em ativos fixos a cair de 25,6% para 20,4%.
A tendência de consumo das famílias está menos clara. Muitos economistas, entretanto, encontraram evidências de que o crescimento no consumo das famílias no primeiro semestre foi maior do que mostraram os dados oficiais.
A desaceleração da economia em 2012 deveria ter sido antecipada em 2011 pelo governo. No início de 2012, em seu discurso na abertura da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o governo explicou por que a meta indicativa de expansão econômica do governo em 2012 era de 7,5%, destacando que o objetivo era "guiar as pessoas de todos os setores a focar seu trabalho na aceleração da transformação do padrão de desenvolvimento econômico e tornar o desenvolvimento econômico mais sustentável e eficiente".
Na verdade, para poder criar uma margem de espaço adequada para mudar o padrão de crescimento centrado no PIB, o 12º Plano Quinquenal da China fixou uma meta de crescimento anual de 7% do PIB para o período entre 2010 e 2015.
A taxa de investimentos na China está em cerca de 50% do PIB, contando os 10% de investimentos do setor imobiliário. Tendo em vista o predomínio de construções que se duplicam e o desperdício generalizado, a eficiência dos investimentos vem se deteriorando rapidamente. Com um índice de crescimento anual de 10%, ter uma taxa de investimentos de 50% implica um quociente de cinco entre capital e produção, o que é extraordinariamente alto em relação a outros países.
A taxa de consumo na China é de 36%. Embora os dados do governo não sejam inteiramente confiáveis, esse número é simplesmente muito baixo. Enquanto volumes imensos de dinheiro vêm sendo despejados na infraestrutura física, os gastos públicos em capital humano e segurança social estão abaixo da média mundial. Mais recursos deveriam ser realocados da formação de capital físico para a formação de capital humano.
Graças aos persistentes superávits em conta corrente e conta de capital obtidos por 20 anos, a China acumulou US$ 3,2 trilhões em reservas internacionais. A China, no entanto, com seus gigantescos ativos líquidos internacionais, possui déficit na conta de renda de investimentos. Desde 2008, o superávit em conta corrente caiu de forma significativa. Ainda assim, o país exibe esses superávits "gêmeos" e há as dúvidas persistentes se a queda é estrutural ou cíclica.
De fato, a China precisa acelerar seu ajuste econômico, mesmo que à custa do crescimento. De outra forma, terá de pagar um custo ainda maior com um ajuste no futuro.
Por muitos, anos, o governo manteve uma meta implícita de crescimento mínimo de 8% por ano, o que era considerado necessário para criar dez milhões de empregos anuais. Variações demográficas e outras mudanças estruturais, contudo, podem ter alterado as condições do mercado de trabalho: até agora, apesar do crescimento inferior a 8%, parece haver poucos sinais de problemas.
A questão agora é se o governo se deixará inquietar pelo desempenho trimestral mais fraco dos últimos três anos e lançará algum grande pacote de estímulo, com as consequências que a China experimenta quando tais medidas são adotadas.
"Deveríamos continuar adotando políticas fiscais pró-ativas e uma política monetária prudente, enquanto damos maior prioridade à manutenção do crescimento", disse o primeiro-ministro Wen Jiabao recentemente. Além disso, nos últimos meses, o governo aprovou alguns grandes projetos siderúrgicos e energéticos, e mais anúncios do tipo devem estar por vir.
Sem dúvida, é acertado que governos respondam a mudanças nas circunstâncias no momento oportuno. A desaceleração no crescimento anual para 7,8% no primeiro semestre de 2012, no entanto, não justifica uma mudança da direção das políticas econômicas. A China precisa escolher entre um crescimento maior ou um ajuste estrutural mais rápido. Não pode ter os dois ao mesmo tempo. Diante da atual desaceleração, a China pode dar-se ao luxo, ao menos por enquanto, de manter o rumo. (Tradução de Sabino Ahumada).
Yu Yongding é ex-membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China e ex-diretor do Instituto de Economia e Política Mundial, da Academia Chinesa de Ciências. Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Nível de gasto do brasileiro com dívida bancária preocupa o FMI
Por Fernando Travaglini - Valor 01/08
De São Paulo
Apesar dos avanços do Brasil nas áreas de regulação e supervisão bancária, o Fundo Monetário Internacional ainda vê riscos decorrentes da expansão acelerada do crédito nos últimos anos e enxerga indícios de tensões em algumas classes de ativos, especialmente nos empréstimos às famílias e no setor imobiliário, que poderiam, no ambiente de queda dos juros, levar à formação de bolhas.
De acordo com dados citados pelo FMI, o endividamento do brasileiro não está entre os mais altos, hoje na casa dos 30% de toda a renda disponível. Entretanto, o nível de comprometimento da renda com os serviços da dívida, ou seja, com o pagamento das parcelas mensais, está entre os maiores do continente americano.
Por aqui, 23% da renda mensal das famílias é gasta com o pagamento de juros e a amortização da dívida, enquanto no México, na Colômbia e no Peru essa relação está ao redor ou abaixo de 10% (ver gráfico).
Até mesmo nos Estados Unidos, onde o endividamento total corresponde a 100% da renda disponível, a relação dos gastos mensais com as prestações toma apenas 10% da renda dos americanos a cada mês, ou seja, menos da metade dos brasileiros.
Em outras palavras, o brasileiro tem baixo endividamento, mas mesmo assim compromete uma expressiva parcela de seus ganhos mensais com suas dívidas. Por conta disso, qualquer queda na renda ou piora do emprego, em uma conjuntura mais difícil, poderia ser explosiva para as famílias, como alerta o Fundo.
"Apesar de parecer sustentável por enquanto, com os altos níveis de emprego e renda, as famílias podem se mostrar altamente endividadas em um cenário de desaquecimento econômico", diz o Fundo. "Além disso, a tendência atual do crédito e da inadimplência sugere que alguns segmentos de dívida podem já estar sob pressão."
O que explica a diferença entre os números do Brasil e do restante dos países são as taxas de juros elevadas, quase três vezes maiores do que em países como México e Chile, e os prazos dos empréstimos, bem mais curtos que os demais - nesse caso como consequência do baixo volume de financiamento imobiliário na comparação internacional.
E não é apenas o endividamento que preocupa o FMI. "Há indícios de crescente tensão em alguns setores e classes de ativos, com destaque para o endividamento das famílias e o rápido aumento dos preços dos imóveis nas principais regiões, como São Paulo e Rio de Janeiro."
A avaliação está no mais recente relatório elaborado dentro do Programa de Avaliação do Setor Financeiro, executado pelo FMI em conjunto com o Banco Mundial em 25 países emergentes. O documento, que reconhece avanços do sistema financeiro do país e elogia a fiscalização do Banco Central, destaca que os ativos do setor financeiro mais do que dobraram ao longo da última década e as autoridades precisam estar atentas os riscos externos e internos.
O FMI pondera que as "incertezas são mitigadas pela supervisão bancária robusta e pelos elevados níveis de proteção em termos de capital e liquidez nos bancos, mas é preciso manter a vigilância, aperfeiçoar os dados e estar pronto para intervir e controlar essas fontes de aquecimento se necessário."
O documento vai além ao afirmar que até uma bolha de ativos poderia ser causada por um aquecimento acima do usual em um cenário de queda dos juros. "À medida que os juros no Brasil continuam a cair e se aproximar de níveis internacionais, a procura cada vez maior dos investidores internos por rendimentos mais altos pode levar a uma subestimação do preço do risco e à formação de bolhas de preços de ativos", avalia o Fundo, apesar de ressaltar que o risco sistêmico é pequeno hoje.
O Banco Internacional de Compensações já havia alertado sobre os riscos do crescimento acelerado do crédito no país em seu informe anual, de junho.
Com relação às ameaças externas, o FMI avalia que assim como o restante da economia brasileira, o sistema financeiro está exposto "aos efeitos da volatilidade dos mercados internacionais", sobretudo pelas variações nos preços das commodities e pela mobilidade do capital estrangeiro.
"Um novo conjunto de riscos pode ser vislumbrado no horizonte, o que exigirá um monitoramento cuidadoso daqui em diante", diz o diretor assistente do departamento de mercados monetários e de capitais do FMI, Dimitri Demekas, em nota.
Para ele, a expansão acelerada do crédito nos últimos anos apoiou o crescimento da economia interna e o aumento da inclusão financeira, mas essa expansão também pode gerar vulnerabilidades. "Existe o risco de que o sistema financeiro se torne vítima de seu próprio sucesso no país", diz Demekas, que chefiou a equipe encarregada da avaliação, realizada entre os dias 6 e 21 de março.
Ainda de acordo com o FMI, para afastar o sistema financeiro do atual equilíbrio entre taxas de juros elevadas e prazos médios curtos e ainda atender ao objetivo de crescimento econômico de longo prazo, serão necessárias uma "condução cuidadosa" e amplas reformas. "Em vez de olhar para trás, o sistema deve ser fortalecido para poder suportar uma variada gama de possíveis choques no futuro", diz Demekas. Entre as medidas, está a necessidade de uma regulamentação sobre centrais de avaliação de crédito, o fortalecimento do mecanismo do Banco Central para concessão de financiamento emergencial aos bancos no caso de crise no sistema financeiro e o reforço da proteção jurídica de todos os supervisores do setor.
O Fundo lembra que a reforma da governança do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já foi implementada, mas é preciso tornar mais rigorosos os critérios para concessão de ajuda aos bancos e garantir uma fonte de recursos segura e em nível suficiente no caso de uma crise.
Nessa mesma linha, o FMI recomenda que se fortaleça a comissão encarregada do monitoramento de riscos sistêmicos e da preparação contra crises e que se inclua nessa comissão o FGC.
O FMI vê avanços no sistema bancário brasileiro, incluindo um quadro de gestão de crise que ajudou a proteger o sistema financeiro contra o impacto da crise mundial em 2008. O fundo avalia ainda que o Brasil melhorou a fiscalização de seu sistema financeiro. "[A fiscalização] é profunda e complexa, se baseia no risco e apresenta um elevado grau de conformidade com as normas internacionais."
Além de apoiar o sistema contra futuros choques, diz o Fundo, o principal desafio nos próximos anos será aumentar a contribuição do setor financeiro para o crescimento do Brasil no longo prazo. Nesse contexto, o FMI alerta que será preciso tomar medidas para "reformar o crédito imobiliário e modificar o papel dos bancos estatais, sobretudo do BNDES".
BC diz monitorar avanço rápido do crédito
Por Claudia Safatle
De Brasília
O relatório sobre a estabilidade do sistema financeiro, elaborado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e divulgado ontem, traz uma radiografia minuciosa e positiva da situação dos bancos no Brasil. O Fundo chama a atenção, contudo, para eventuais riscos decorrentes da acelerada expansão do credito, do aumento no endividamento das famílias e das pressões sobre os preços dos imóveis.
Os bancos são sólidos, seguros, registram elevado capital mínimo e liquidez, têm boa lucratividade e o provisionamento cobre os riscos de inadimplência. O sistema, submetido a testes de stress, revela-se resistente a choques graves, como o de uma recessão global. Pondera, porém, que as instituições de pequeno e médio porte "são relativamente mais vulneráveis ao risco de liquidez".
O diretor de assuntos internacionais e regulação financeira do Banco Central, Luiz Pereira Awazu, considerou o relatório equilibrado, com aspectos bastante positivos e ressaltou que, no geral, coincide com a avaliação que o próprio BC faz. Ele salientou, ainda, que as conclusões do fundo sobre a solidez do sistema financeiro doméstico e sobre o alto padrão da supervisão bancária no país - abaixo apenas da nota dada ao Canadá - são importantes sobretudo num momento de ciclotimia, quando a euforia dos investidores com o Brasil vem se transformando em uma certa descrença.
A participação dos bancos estrangeiros no mercado doméstico é modesta e mesmo instituições europeias como o Santander - com 9% dos ativos do sistema local- e o HSBC - com 3% - estão focadas no mercado doméstico, obedecem as regras prudenciais do país e não colocam riscos de contágio da crise externa sobre o mercado local, atestou o Fundo.
Quanto às vulnerabilidades apontadas no relatório, os técnicos do FMI alertam para o rápido crescimento do crédito - "tema que temos discutido muito", comenta o diretor. "Eles dizem que isso decorre do processo de transformações sociais experimentado pelo país, com a inclusão financeira." Houve um crescimento do crédito de 25% para 50% do PIB e, segundo o FMI, isso ocorre com os países onde a base de partida é pequena.
Mais do que olhar o endividamento geral das famílias como proporção do PIB - da ordem de 23% - o BC, segundo ele, está monitorando o grau de endividamento por faixas de renda e criou uma diretoria específica para tratar do relacionamento com o cidadão e investir na educação financeira. Os índices de preços dos imóveis no país precisam ser vistos com certa cautela. O BC está, junto com a FGV e o IBGE, construindo um índice mais rigoroso.
Ao contrário do que ocorreu com as instituições financeiras americanas e europeias, que passam por problemas de difícil equação desde a crise de 2008/2009, os bancos brasileiros estão sob uma supervisão bastante conservadora e "intrusiva" e isso faz enorme diferença na exposição a riscos. A quantidade de informações diárias de que o BC dispõe lhe permite, inclusive, detectar problemas de liquidez numa determinada instituição antes mesmo que ela saiba que está sob stress, disse ele.
O documento preparado pelo FMI envolveu cerca de 60 pessoas. O Fundo começou a fazer esse acompanhamento por recomendação do G-20 logo após a crise asiática do fim dos anos 90. Ao Banco Mundial coube uma tarefa de mais longo prazo, de avaliação das perspectivas de desenvolvimento do sistema financeiro em cada um dos países do G-20.
O FMI ressaltou a importância da ação dos bancos federais em resposta à crise de 2008/2009, mas apontou a necessidade de se criar alternativas ao financiamento de longo prazo hoje nas mãos do BNDES, assim como de desenvolvimento do mercado de capitais.
Salientou, também, que embora o Banco Central do Brasil tenha autonomia de fato, ele não tem independência para tomar diretamente medidas de regulação prudencial, tendo que submetê-las à aprovação do Conselho Monetário Nacional (CMN).
O relatório abarca as áreas de seguros e fundos de pensão e, para essas, recomenda um reforço legal tanto para melhorar a supervisão como para dar maior independência operacional aos órgãos reguladores como a Susep (seguros) e a Previc (fundos de pensão). Luiz Pereira concordou que há muito a fazer, mas entende que "estamos fazendo a coisa certa".
terça-feira, 31 de julho de 2012
Segundo Rabobank real pode ficar forte
Valor 31/07
O real tem se desvalorizado ante o dólar desde o segundo semestre do ano passado, mas os fundamentos ainda amparam a moeda brasileira, segundo o economista-chefe do Rabobank Brasil, Robério Costa. Para ele, a continuidade dos fluxos de investimento estrangeiro direto ao país é um dos principais fatores para a provável recuperação do real. No entanto, esse movimento será acompanhado de perto pelo governo, que agirá para defender a banda informal entre R$ 2,00 e R$ 2,10. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
Valor: A tendência de valorização do real permanece?
Costa : Certamente. Um dos motivos para isso é que, na parte do investimento direto, não estamos sendo fortemente afetados. Isso acontece porque o capital precisa ser rentabilizado de alguma forma. E se as multinacionais vão querer alocar esse capital em alguma região certamente não é naquela que está mais vulnerável à crise. Fazer expansão na Europa nos próximos cinco, dez anos, parece loucura. Então o investidor vai procurar os países que têm potencial de crescimento. Mesmo a gente fraquejando agora, o horizonte do Brasil é muito melhor. Portanto, esse tipo de capital (IED) tende a continuar forte. No caso da renda fixa, por exemplo, qual é a alternativa? Você vai aplicar num título da Espanha? Da Itália? Da Alemanha, que rende zero? Ou num título brasileiro que rende cerca de 7%?
Valor: O Brasil ainda vive um regime de câmbio flutuante? Pode-se falar em política de intervenção?
Costa : O câmbio flutuante puro ninguém tem. O Japão intervém no câmbio, a Suíça... e o governo brasileiro atua quando acha que é conveniente. Antes havia um embate entre Fazenda e Banco Central, hoje você vê um alinhamento. Embora as duas partes estejam agindo juntas, eu não chamaria isso de política de intervenção, mas sim de decisão de tomar medidas diversas. Pode ser via instrumentos legais, como o aumento de IOF, pode ser por swap, pode ser por compra de dólares no spot, pode ser até verbal. Isso ficou bem claro quando o Aldo [Mendes, diretor de política monetária do BC] veio e falou que o dólar abaixo de R$ 2,00 não é bom para a indústria. É uma forma de ele dizer que há um risco considerável de se vender dólar. Isso reforça a ideia de que foi criada uma espécie de "banda cambial", uma faixa na qual o BC se sente confortável com o dólar. E dito do jeito que foi pelo Aldo Mendes dá para acreditar que abaixo de R$ 2,00 é provável que aconteça alguma outra ação para puxar o dólar para cima.
Valor: Mas isso é garantido?
Costa : Não, porque existem outras forças que podem mudar as circunstâncias. A crise lá fora, de uma hora para outra, pode criar um cenário novo, o próprio fluxo de dinheiro para o Brasil também pode alterar esse jogo, para cima ou para baixo. Se houver um encaminhamento da solução na Europa de tal modo que o mercado desarme, haveria fluxo de dólares ao Brasil, que o BC teria que fazer muito malabarismo para conter. Aí a discussão da banda poderia mudar. Por enquanto, entre R$ 2,00 e R$ 2,10 é confortável. Muito acima tem o problema da inflação, muito abaixo incomoda a indústria. Essa banda não é ilegítima. É uma decisão de governo. Enquanto houver essa determinação, dificilmente o dólar vai para baixo.
Na incerteza essencial, a saída é o Estado
Por Antonio Delfim Netto - Valor 31/07
A primeira coisa que um economista tem que aprender é que, a despeito do que dizem os mais sofisticados e artificialmente matematizados livros de microeconomia, o homem-indivíduo não existe.
Só existe a "rede" de relações em que está imerso no universo econômico, controlado pelas instituições que ele mesmo foi "descobrindo" ao longo de sua história para a sua subsistência material (alimento, vestimenta e abrigo): o Estado e o mercado. O primeiro garante as condições de um razoável funcionamento do segundo, impondo-lhe normas de comportamento em troca da garantia de sua existência.
Os dois polos dessa organização foram evoluindo lentamente para uma combinação que permita - agora sim - ao homem-indivíduo gozar crescentemente de valores que aprecia: 1) sua liberdade de escolha e a apropriação dos benefícios que dela eventualmente decorram; e 2) o uso relativamente eficiente de seu esforço para produzir os bens e serviços de que necessita para o seu bem-estar. Essa "necessidade" aumenta naturalmente por uma disposição psicológica. É a "eficiência" que lhe proporciona maior tempo livre para procurar sua humanidade.
Não há leis naturais na economia e não existe equilíbrio de longo prazo que possa determinar a combinação ótima da relação Estado versus mercado. A história mostra que um Estado constitucionalmente controlado, suficientemente forte para impor regulação aos mercados (particularmente ao financeiro), parece ser uma combinação razoável, que permite um aumento da quantidade de bens e serviços com os recursos sempre escassos de que dispõem as sociedades.
A antinomia Estado versus mercado é disfuncional. Mas há mais. Há um terceiro valor que o homem-indivíduo inserido nas relações econômicas procura, além da liberdade e da eficiência: uma preferência pela relativa igualdade. Inserido na "rede", ele aparentemente tem maior alegria quando suas relações se realizam com membros em condições próximas às suas.
O problema é que essa maior igualdade não pode ser obtida pelo funcionamento dos mercados. Esses combinam liberdade individual com eficiência individual, mas, por serem altamente competitivos, estimulam a desigualdade. Estudos empíricos sugerem que a partir de certo ponto essa desigualdade é também disfuncional com relação à eficiência coletiva.
Há, por outro lado, um fato empiricamente bem comprovado. Os mercados, apesar de suas virtudes, têm um problema sério: são inerentemente instáveis. A ilusão criada pela teoria neoclássica, que os economistas tinham descoberto políticas econômicas que tornavam as crises "obsoletas" (como afirmou um prêmio Nobel em 2003!), foi enterrada "à la lumière des flambeaux" na crise de 2007...
Dois fatos: 1) a possibilidade que o mercado possa produzir um nível de desigualdade não funcional; e 2) o fracasso da ideia que tínhamos entrado num período de "grande moderação", por conta das políticas econômicas fiscal, monetária e cambial desenvolvidas nos últimos 30 anos, deixou claro que a economia é um tipo de conhecimento muito complexo. Ele está longe de poder ser dominado pelo cientificismo produzido pela inveja da física, que encantou alguns economistas.
O papel fundamental de um Estado constitucionalmente controlado transcende - e muito - o de ser o "garante" das instituições que permitem aos mercados serem instrumentos úteis (indispensáveis, mesmo) para o desenvolvimento social e econômico. Ele é o único instrumento capaz de, em condições especiais e com medidas corretas, eventualmente, corrigir as flutuações do emprego e da produção, quando os agentes sociais congelam diante da incerteza absoluta.
É importante entender que essa incerteza não é do tipo do risco atuarial, que tem uma história e ao qual pode aplicar-se o cálculo das probabilidades. É a incerteza essencial à qual se referia Keynes, do tipo: o que será a eurolândia daqui a cinco anos? É a incerteza produzida pelo fato que o passado não tem qualquer informação sobre o futuro. Alguém acha que o destino da União Monetária Latina no século XIX pode nos informar como terminará a União Econômica Europeia no século XXI?
Quando isso acontece, destrói-se a "rede" social, porque desaparece o seu elemento essencial: a confiança mútua. Termina instantaneamente o crédito interbancário e com ele destrói-se parte da demanda global do setor privado. Para sustentar o nível de emprego e de renda, só resta tentar substituí-la pela demanda pública. O consumo é a parte mais importante da demanda e mais resistente à flutuação do PIB principalmente pelas medidas anticíclicas da política fiscal. O investimento é menor, mas é mais volátil, porque depende da expectativa do futuro e da possível taxa de retorno (o lucro esperado) que são mortalmente atingidos pela incerteza.
Nessa circunstância, só o investimento público pode socorrer a economia, porque ele amplia a demanda e, ao mesmo tempo, a capacidade produtiva. Para não comprometer o equilíbrio fiscal, o melhor é realizá-lo através do setor privado, com concessões e parcerias com taxas de retorno adequadas e descentralizá-lo para obter um efeito mais rápido e generalizado, como parece ser a atual tentativa de cooptação dos Estados e dos municípios.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Desaquecimento da economia salvou Brasil de enfrentar um novo apagão
Por Daniel Rittner - Valor 30/07
De Brasília
O atraso na construção de 35 usinas térmicas outorgadas a dois grupos com pouca experiência no setor elétrico - a Bertin e a Multiner - só não levou o país a uma crise de abastecimento por causa da forte desaceleração da economia brasileira desde o ano passado. Basta uma olhada rápida nos números para ter ideia da dimensão do problema.
Todas essas térmicas, movidas a óleo ou a gás natural, deveriam entrar em operação entre janeiro de 2010 e janeiro de 2013. À medida que começassem a funcionar, aumentariam a oferta de energia em até 4.265 megawatts (MW) médios, volume superior à produção somada das hidrelétricas do rio Madeira - Santo Antônio e Jirau -, em Rondônia.
Nada disso obedece ao cronograma estabelecido nos leilões, obrigando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a mexer no planejamento do que está ou não disponível para ser acionado. Nas estimativas do ONS, que balizam todos os preços praticados no setor, só 2.497 MW médios (quase 60% de todo o volume efetivamente contratado) realmente devem sair do papel.
O problema é que, segundo analistas respeitados de mercado, essa projeção ainda é bastante otimista. A consultoria PSR calcula que apenas 784 MW médios têm chances reais de entrar em operação. Mesmo assim, mais da metade disso só deve se transformar em oferta de energia a partir de janeiro de 2014, com a conclusão de duas térmicas que foram vendidas pela Bertin à MPX.
"O Brasil foi salvo pela recessão", diz Jorge Trinkenreich, diretor da PSR. Como o aumento da demanda tem crescido bem menos do que o esperado, o atraso na construção das usinas gerou menos dor de cabeça e até causou um problema curioso: as distribuidoras ficaram sobrecontratadas, ou seja, o consumo está abaixo do que imaginavam e elas agora têm energia demais em mãos. "Parece que o país gosta de viver perigosamente", ironiza o especialista, retomando a seriedade em seguida e frisando que a confusão não deve ser celebrada.
Por incrível que pareça, a revogação das autorizações para a Bertin construir suas térmicas - independentemente da adoção de penalidades pela Aneel - pode até resolver a situação das distribuidoras. Elas continuam sobrecontratadas. Com a revogação, reverte-se em grande parte o problema e abre-se espaço para a realização de um novo leilão de projetos novos (A-3) até o fim deste ano, segundo o diretor da agência Julião Coelho.
BARRY EICHENGREEN: COMO A HISTÓRIA ASSOMBRA O EURO
BARRY EICHENGREEN: COMO A HISTÓRIA ASSOMBRA O EURO E COMO O BC DO BRASIL ENSINA AO MUNDO COMO UM BC COMPETENTE DEVE AGIR
21:14 BARRY EICHENGREEN: COMO A HISTÓRIA ASSOMBRA O EURO
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,como-a-historia--assombra-o-euro-,907453,0.htm
Depois de passar boa parte da semana no Brasil, tive a impressão de que havia um único assunto na cabeça dos meus interlocutores: a crise na Europa. É difícil ser encorajador. Não há muito que o Brasil possa fazer para se isolar da crise na zona do euro. A saída da Grécia e a crescente intensidade das ondas de choque financeiras irradiadas a partir da Europa estão se aproximando, e não há muito que possamos fazer quanto a isto. O melhor conselho, que não chega a ser muito útil, é fechar bem as escotilhas, pois teremos mares agitados pela frente.
Na verdade, minhas conversas no Brasil levantaram uma questão importante a respeito da crise na Europa. É claro que a Europa tem muitos problemas. O continente vive uma crise de endividamento, uma crise bancária, uma crise de competitividade e uma crise política. Mas alguns destes problemas têm sido desnecessariamente agravados pela falta de flexibilidade do Banco Central Europeu. O BCE tem sido lento no corte aos juros. Cortes nos juros implementados pelo BCE tornaria mais fácil o pagamento dos encargos das dívidas nacionais – principalmente se os cortes nos juros forem acompanhados pelo afrouxamento quantitativo, com o BCE comprando títulos no mercado secundário.
Além disso, a relutância do BCE em fazer cortes manteve a taxa de câmbio do euro demasiadamente fortalecida. Um câmbio mais fraco é exatamente o que a Europa precisa para começar a controlar seus problemas. Suas exportações se tornariam mais competitivas. Sua economia começaria a crescer. O crescimento tornaria mais fácil a restauração da confiança entre os países e entre os eleitoras, pré-requisito para a formação de um consenso quanto às medidas a serem adotadas.
Por fim, um afrouxamento quantitativo adicional por parte do BCE faria com que os preços começassem a subir. O custo dos produtos no Sul da Europa precisa cair em relação ao custo na Alemanha. Isto pode ser conseguido de maneira menos dolorosa por meio de uma inflação um pouco mais alta na Alemanha, somada a salários e preços mais estáveis no sul, em vez da estabilidade de salários e preços na Alemanha que implica a necessidade de cortes impossíveis nos países do sul.
Mas o BCE se recusa a adotar tais medidas. Tudo que vimos nos últimos meses foi um corte aleatório nos juros e nenhuma medida adotada com relação ao afrouxamento quantitativo. A situação se tornou tão ruim que até o Fundo Monetário Internacional, instituição que não é conhecida exatamente por sua irresponsabilidade, deseja agora medidas de resposta mais agressivas por parte do BCE.
Quando indagamos por que o BCE reluta tanto em agir, a maioria das pessoas aponta para o medo que os alemães têm da inflação. Depois da terrível experiência de hiperinflação vivida pelo país nos anos 20, os alemães temem a possibilidade de a inflação estar à espreita, aguardando o momento de atacar. Eles criaram o Banco Central Europeu à imagem do seu próprio BundesBank. Consequentemente, o BCE se recusa a fazer qualquer coisa que possa criar o mais remoto risco de inflação.
Em particular, a Alemanha rejeita todas as propostas que pedem a compra de títulos do governo por parte do BCE, temendo que isto leve à impressão de ainda mais dinheiro, incentivando os governos a burlar as regras orçamentárias da UE.
E, no ambiente atual, contexto em que é a Alemanha quem dá as cartas na economia europeia, os alemães impõem seu estilo aos demais.
É neste ponto que a comparação com o Brasil se torna interessante. O Brasil também tem uma história de alta inflação – ainda mais próxima do que a da Alemanha, já que foi vivenciada em primeira mão pelos brasileiros ainda vivos. O Brasil tem também uma história de governos estaduais que burlam as regras orçamentárias. Mas o Banco Central do Brasil se sentiu livre para cortar os juros acentuadamente na desaceleração atual, como deveria fazer um banco central competente.
Diferentemente do BCE, o BCB não foi inibido pela história de inflação do Brasil e seguiu práticas adequadas para uma instituição de seu tipo.
Por que tal diferença? Suspeito que os alemães tenham tamanha fobia da inflação – a ponto de colocar em risco sua moeda única – porque a sabedoria popular alemã diz que a inflação causou o colapso da República de Weimar, o fim da democracia e a ascensão dos nazistas. Ninguém no Brasil deseja ver o retorno da inflação, mas a experiência inflacionária brasileira foi menos traumática, pois não levou ao colapso do sistema político.
O único problema é que a sabedoria popular alemã está errada. Os estudos modernos concordam que não foi a hiperinflação dos anos 20, e sim a Grande Depressão e o alto desemprego dos anos 30 que fomentaram o apoio político aos nazistas. Ao exigir do BCE que apague imediatamente todas as fagulhas de inflação – algo que, no ambiente atual, só agrava o desemprego – a Alemanha está portanto alimentando justamente o problema do extremismo político que o pais tanto teme.
Não será fácil contrariar a sabedoria popular alemã, algo que, por sua vez, não nos dá muita esperança de uma solução amena para a crise da zona do euro. Mas, no Brasil, a situação é mais alegre. Os brasileiros aprenderam a lição certa com sua própria crise inflacionária.
Fortalecer as regras fiscais sob as quais os governos estaduais operam. Dar ao banco central independência estatutária. E então se afastar para que o banco central possa fazer seu trabalho.
21:14 BARRY EICHENGREEN: COMO A HISTÓRIA ASSOMBRA O EURO
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,como-a-historia--assombra-o-euro-,907453,0.htm
Depois de passar boa parte da semana no Brasil, tive a impressão de que havia um único assunto na cabeça dos meus interlocutores: a crise na Europa. É difícil ser encorajador. Não há muito que o Brasil possa fazer para se isolar da crise na zona do euro. A saída da Grécia e a crescente intensidade das ondas de choque financeiras irradiadas a partir da Europa estão se aproximando, e não há muito que possamos fazer quanto a isto. O melhor conselho, que não chega a ser muito útil, é fechar bem as escotilhas, pois teremos mares agitados pela frente.
Na verdade, minhas conversas no Brasil levantaram uma questão importante a respeito da crise na Europa. É claro que a Europa tem muitos problemas. O continente vive uma crise de endividamento, uma crise bancária, uma crise de competitividade e uma crise política. Mas alguns destes problemas têm sido desnecessariamente agravados pela falta de flexibilidade do Banco Central Europeu. O BCE tem sido lento no corte aos juros. Cortes nos juros implementados pelo BCE tornaria mais fácil o pagamento dos encargos das dívidas nacionais – principalmente se os cortes nos juros forem acompanhados pelo afrouxamento quantitativo, com o BCE comprando títulos no mercado secundário.
Além disso, a relutância do BCE em fazer cortes manteve a taxa de câmbio do euro demasiadamente fortalecida. Um câmbio mais fraco é exatamente o que a Europa precisa para começar a controlar seus problemas. Suas exportações se tornariam mais competitivas. Sua economia começaria a crescer. O crescimento tornaria mais fácil a restauração da confiança entre os países e entre os eleitoras, pré-requisito para a formação de um consenso quanto às medidas a serem adotadas.
Por fim, um afrouxamento quantitativo adicional por parte do BCE faria com que os preços começassem a subir. O custo dos produtos no Sul da Europa precisa cair em relação ao custo na Alemanha. Isto pode ser conseguido de maneira menos dolorosa por meio de uma inflação um pouco mais alta na Alemanha, somada a salários e preços mais estáveis no sul, em vez da estabilidade de salários e preços na Alemanha que implica a necessidade de cortes impossíveis nos países do sul.
Mas o BCE se recusa a adotar tais medidas. Tudo que vimos nos últimos meses foi um corte aleatório nos juros e nenhuma medida adotada com relação ao afrouxamento quantitativo. A situação se tornou tão ruim que até o Fundo Monetário Internacional, instituição que não é conhecida exatamente por sua irresponsabilidade, deseja agora medidas de resposta mais agressivas por parte do BCE.
Quando indagamos por que o BCE reluta tanto em agir, a maioria das pessoas aponta para o medo que os alemães têm da inflação. Depois da terrível experiência de hiperinflação vivida pelo país nos anos 20, os alemães temem a possibilidade de a inflação estar à espreita, aguardando o momento de atacar. Eles criaram o Banco Central Europeu à imagem do seu próprio BundesBank. Consequentemente, o BCE se recusa a fazer qualquer coisa que possa criar o mais remoto risco de inflação.
Em particular, a Alemanha rejeita todas as propostas que pedem a compra de títulos do governo por parte do BCE, temendo que isto leve à impressão de ainda mais dinheiro, incentivando os governos a burlar as regras orçamentárias da UE.
E, no ambiente atual, contexto em que é a Alemanha quem dá as cartas na economia europeia, os alemães impõem seu estilo aos demais.
É neste ponto que a comparação com o Brasil se torna interessante. O Brasil também tem uma história de alta inflação – ainda mais próxima do que a da Alemanha, já que foi vivenciada em primeira mão pelos brasileiros ainda vivos. O Brasil tem também uma história de governos estaduais que burlam as regras orçamentárias. Mas o Banco Central do Brasil se sentiu livre para cortar os juros acentuadamente na desaceleração atual, como deveria fazer um banco central competente.
Diferentemente do BCE, o BCB não foi inibido pela história de inflação do Brasil e seguiu práticas adequadas para uma instituição de seu tipo.
Por que tal diferença? Suspeito que os alemães tenham tamanha fobia da inflação – a ponto de colocar em risco sua moeda única – porque a sabedoria popular alemã diz que a inflação causou o colapso da República de Weimar, o fim da democracia e a ascensão dos nazistas. Ninguém no Brasil deseja ver o retorno da inflação, mas a experiência inflacionária brasileira foi menos traumática, pois não levou ao colapso do sistema político.
O único problema é que a sabedoria popular alemã está errada. Os estudos modernos concordam que não foi a hiperinflação dos anos 20, e sim a Grande Depressão e o alto desemprego dos anos 30 que fomentaram o apoio político aos nazistas. Ao exigir do BCE que apague imediatamente todas as fagulhas de inflação – algo que, no ambiente atual, só agrava o desemprego – a Alemanha está portanto alimentando justamente o problema do extremismo político que o pais tanto teme.
Não será fácil contrariar a sabedoria popular alemã, algo que, por sua vez, não nos dá muita esperança de uma solução amena para a crise da zona do euro. Mas, no Brasil, a situação é mais alegre. Os brasileiros aprenderam a lição certa com sua própria crise inflacionária.
Fortalecer as regras fiscais sob as quais os governos estaduais operam. Dar ao banco central independência estatutária. E então se afastar para que o banco central possa fazer seu trabalho.
A natureza da estagnação brasileira
Por José Luis Oreiro - Valor 30/07
Os dados divulgados recentemente pelo Banco Central confirmam a continuidade do estado de semi-estagnação da economia brasileira que eu havia mencionado num artigo publicado em janeiro deste ano no Valor ("O retorno à semi-estagnação"). Naquela ocasião eu havia argumentado que essa semi-estagnação era o resultado de um processo de natureza estrutural que vem se desenvolvendo na economia brasileira nos últimos anos, ou seja, a desindustrialização.
Dessa forma, o retorno a taxas de crescimento mais robustas exigem a adoção de políticas que induzam a mudança estrutural da economia brasileira com vistas ao aumento da participação da indústria de transformação no PIB. As políticas keynesianas tradicionais de estímulo a demanda agregada não são a forma mais adequada de se induzir esse processo, pois o problema fundamental da economia brasileira atualmente não é "encher de ar quente um balão semi vazio", mas sim mudar a natureza do material usado na confecção do mesmo. Em outras palavras, o problema fundamental de nossa economia é mudar a composição da demanda agregada em direção a bens tradeables, em vez de aumentar ainda mais o nível de demanda. A validade dessa afirmação fica comprovada pela simples inspeção da figura ao lado.
Nessa figura observamos a evolução da média móvel dos últimos 12 meses da taxa de desemprego (RM) e do grau de utilização da capacidade produtiva da indústria entre fevereiro de 2004 e abril de 2012. No início do período em consideração o grau de utilização da capacidade produtiva era relativamente baixo e a taxa de desemprego era bastante elevada.
Nessas condições, a economia brasileira operava como um "balão semi-vazio" de tal forma que o problema econômico fundamental era criar demanda agregada para induzir um maior nível de utilização tanto do capital como da força de trabalho. Isso foi obtido por intermédio da adoção de um modelo de crescimento do tipo "finance-led" no qual a expansão do crédito bancário, aliada a um aumento moderado da renda salarial, estimula um forte crescimento dos gastos de consumo das famílias, gerando assim a demanda agregada requerida para viabilizar um uso mais intenso dos recursos produtivos existentes.
O problema é que esse modelo de crescimento dá sinais inequívocos de esgotamento. Com efeito, no período analisado constata-se uma tendência de redução da taxa de desemprego e de aumento do grau de utilização da capacidade produtiva. Apesar da desaceleração recente do crescimento, essas variáveis encontram-se em patamares tais que é pouco provável a continuidade do crescimento por intermédio da simples expansão da demanda de consumo. Dificilmente a taxa de desemprego poderá cair muito abaixo de 5% da força de trabalho, além do que um grau de utilização da capacidade produtiva em torno de 82 a 85% parece ser o nível "normal" de longo prazo. Sendo assim, o espaço para a continuidade do crescimento com base na expansão da demanda de consumo é muito restrito.
A retomada do crescimento em bases sustentáveis exige um aumento combinado da capacidade produtiva e da taxa de crescimento da produtividade do trabalho. Isso pode ser obtido se a demanda agregada for direcionada para aquele setor de atividade econômica que é a fonte dos retornos crescentes de escala e do progresso tecnológico na economia, qual seja, a indústria de transformação. Isso exige que a política econômica seja mudada com o objetivo de produzir uma mudança na composição da demanda agregada, reduzindo-se participação do consumo e aumentando-se a participação do investimento na demanda agregada. Para tanto, é necessária a continuidade do processo de desvalorização da taxa de câmbio, uma redução maior do custo do capital e um aumento significativo do investimento público em infraestrutura.
Estimular o consumo por intermédio de reduções semi-permanentes de impostos e estímulos ao aumento do endividamento das famílias são contrários ao que se deve fazer para restabelecer o dinamismo da economia brasileira. Cabe à presidente Dilma Rousseff a tarefa de ouvir as vozes daqueles que, embora critiquem a política econômica do seu governo, estão no mesmo campo político-ideológico que ela, a saber o novo-desenvolvimentismo.
José Luis Oreiro é professor do departamento de economia da Universidade de Brasília. E-mail: joreiro@unb.br.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Tv on line
GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 1
GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 2
GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 3
GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 4
O programa Tema Quente, da Rede TV, convidou o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, para falar sobre as perspectivas da economia brasileira.
SONORA
*PAULO SKAF, presidente da Fiesp;
*GUSTAVO LOYOLA, ex-pres. do BC;
MENÇÃO
*DILMA ROUSSEFF, pres. da República;
TV: REDE TV
PROGRAMA: REDE TV NEWS
APRESENTADOR: APRESENTADOR
IMPORTAÇÃO DE GASOLINA BATE RECORDE TEMPO: 00:01:00
Sem etanol suficiente e com a disparada no consumo o Brasil teve que aumentar e muito a importação da gasolina em 2012. Em comentário ao Jornal das Dez o jornalista, Dony de Nuccio, falou sobre o consumo de gasolina no Brasil.
SONORA
*DONY DE NUCCIO, jornalista
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: JORNAL DAS DEZ
APRESENTADOR: MARIANA GODOY
GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 2
GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 3
GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 4
O programa Tema Quente, da Rede TV, convidou o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, para falar sobre as perspectivas da economia brasileira.
SONORA
*PAULO SKAF, presidente da Fiesp;
*GUSTAVO LOYOLA, ex-pres. do BC;
MENÇÃO
*DILMA ROUSSEFF, pres. da República;
TV: REDE TV
PROGRAMA: REDE TV NEWS
APRESENTADOR: APRESENTADOR
IMPORTAÇÃO DE GASOLINA BATE RECORDE TEMPO: 00:01:00
Sem etanol suficiente e com a disparada no consumo o Brasil teve que aumentar e muito a importação da gasolina em 2012. Em comentário ao Jornal das Dez o jornalista, Dony de Nuccio, falou sobre o consumo de gasolina no Brasil.
SONORA
*DONY DE NUCCIO, jornalista
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: JORNAL DAS DEZ
APRESENTADOR: MARIANA GODOY
Do descolar ao naufrágio
Por Ernesto Lozardo - Valor 27/07
Na década passada, os países emergentes tiveram maior participação na produção global: registraram um aumento de 20% para 34%. Trata-se de um feito memorável. Nesse mesmo período, os países desenvolvidos - Estados Unidos, União Europeia e Japão - reduziram sua participação de 71% para 57%. Constatou-se uma assimetria de 14 pontos percentuais entre os emergentes e os desenvolvidos na produção global. Os países emergentes cresceram em média quatro pontos percentuais acima dos desenvolvidos. Diante desses fatos, alguns especialistas deduziram que a dependência dos emergentes em relação ao crescimento econômico dos países desenvolvidos havia chegado ao fim. Nomeou-se esse feito de descolar ou decoupling.
A ideia do descolar pressupõe que o crescimento dos países emergentes rompeu as vinculações econômicas com a conjuntura dos países desenvolvidos. No entanto, a história econômica prova que, quando os países desenvolvidos crescem, aumenta a demanda por importações de bens e serviços. Nesse aspecto, os países que puderem suprir essas necessidades expandem suas exportações e estimulam seus investimentos, o nível de emprego e o crescimento.
A globalização dos mercados de produção tem favorecido o crescimento econômico dos países emergentes. Há décadas os países do Leste Asiático norteiam o processo de desenvolvimento nacional para a modernização da estrutura produtiva por meio da abertura econômica. Em 1978, a China representou 0,8% das exportações globais; em 2010, atingiu 10,4%. Em 1978, os emergentes representaram 19% das exportações globais; em 2010, alcançaram 42%. Esses resultados constituem o ponto de partida para analisar a fragilidade do pressuposto sobre o decoupling do crescimento dos países emergentes.
Os Estados Unidos e os países da União Europeia, desde 1992 até 2007, cresceram, em média, 3% e 2,5% ao ano, respectivamente. Esse fato estimulou o crescimento do comércio global. Nessas duas regiões, a demanda de recursos para investimentos, o aumento da demanda e a necessidade de financiamento do déficit em conta-corrente foram supridos, em grande parte, pelas exportações de bens de consumo e de capital da China.
Em 2011, no comércio internacional, as exportações e importações chinesas totalizaram US$ 3,7 trilhões, correspondendo US$ 1,961 trilhão a exportações e US$ 1,739 trilhão a importações, o que consiste numa alta de 22% em relação ao ano anterior. Na importação de manufaturados, 60% foram utilizados para compor os produtos exportados. As exportações chinesas são direcionadas da seguinte forma: 45% para os países desenvolvidos - Estados Unidos, União Europeia e Japão; 33% para o Sudeste Asiático; 22% para outros países.
O comércio dos países do Sudeste e Leste Asiático em relação às demais economias emergentes representou 75%. Desse total, a China participou com 40%. A China, ao importar commodities dos emergentes e bens de capital e tecnologia dos desenvolvidos para atender à demanda global, estimulou as exportações dos emergentes e o crescimento global.
Enquanto a China exportou para os países desenvolvidos produtos de elevado conteúdo tecnológico (45% das suas exportações), os emergentes exportaram para a China e para o Leste Asiático commodities com baixo valor agregado. Desse modo, a China tornou-se um país formador de preços, e os emergentes tomadores de preços internacionais. Em face da elevada competitividade dos produtos chineses nos mercados dos países desenvolvidos, os emergentes passaram a depender do crescimento chinês. A dinâmica das exportações e o crescimento econômico chinês têm sido o fio condutor da prosperidade dos países emergentes. O suposto decoupling dos emergentes - América Latina, África, Oriente Médio e os países Sudeste Asiático - mudou-se para a China, porém todos dependem da conjuntura dos desenvolvidos. Mesmo assim, a estrutura de produção desses países permanece a mesma: fornecedores de matérias-primas e de produtos de baixo valor agregado para os Asiáticos e estes exportadores de produtos de maior conteúdo tecnológico para os países desenvolvidos. Ao fechar o círculo da dependência econômica conclui-se que: o crescimento dos emergentes depende das perspectivas econômicas dos desenvolvidos.
O descolamento é inconsistente com os fundamentos da globalização, pois nele encontra-se o capitalismo interconectado e interdependente entre as nações do Norte e as do Sul. Essa interdependência representa o sopro da esperança para reduzir as discrepâncias da renda por habitante, tecnológicas e institucionais entre as nações desenvolvidas e emergentes. Caso a crise dos países desenvolvidos se agrave, a economia internacional crescerá menos que 3,0% até o final desta década. O comércio chinês que já expandiu acima de 20% ao ano, ficará abaixo de 10% e o seu produto, que já cresceu 12% ao ano, deverá permanecer abaixo de 8% ao ano. Neste mundo de relações globais, com o prolongamento da crise financeira global, nenhum país sairá ileso, e muitos naufragarão.
Ernesto Lozardo é professor de Economia da EAESP-FGV, autor do livro Globalização: a certeza imprevisível das nações (2.ª edição. Editora do Autor, 2008)
quinta-feira, 26 de julho de 2012
A cura para a síndrome do Lehman
Por Martin Sandbu - Valor 26/07
A maneira como os desequilíbrios da zona do euro estão sendo corrigidos está envenenando a solidariedade que a união monetária costumava ter. É que causa certo desconforto o fato desses desequilíbrios terem sido causados por investidores privados. Quando o dinheiro fluiu, por exemplo, da Alemanha para a Espanha ou para a Irlanda, isso ocorreu entre gestores de bancos de poupança, companhias seguradoras e fundos de pensão alemães e bancos irlandeses e espanhóis.
A atual crise da dívida decorreu também de decisões de investimento privadas que podem fazer sentido individualmente, mas são coletivamente irracionais. Os políticos são incapazes de solucionar a crise porque sucumbiram à mesma irracionalidade.
Na primeira década do euro esses investidores privados canalizaram enormes fluxos do núcleo mais rico, mais antigo e mais poupador para uma periferia pobre e mais jovem que pareceu oferecer melhores oportunidades para investimentos. Na prática, eles apenas ofereceram tomadores de empréstimos mais vorazes.
Os investidores estão agora tentando reverter esses fluxos. A seca do crédito na periferia; rendimentos anormalmente altos em alguns países e anormalmente baixos em outros; a reestatização do sistema bancário europeu - são, todos, sintomas do empenho dos credores de países superavitários no sentido de repatriar os créditos que acumularam sobre os devedores radicados nos países deficitários.
Mas isso é impossível. Mesmo que a carteira de créditos de qualquer investidor individual - de títulos do governo grego, digamos, ou de dívidas de bancos espanhóis - tenha liquidez, (ou seja, possa ser trocada por seu valor em dinheiro), isso não é verdade para a classe de investidores como um todo. Essa é uma característica geral de mercados financeiros, e não apenas de investimentos inter nações. No âmbito de uma única economia fechada, os titulares de depósitos bancários podem, individualmente, retirar seu dinheiro quando quiserem. Mas se todos os poupadores tentarem zerar suas contas bancárias ao mesmo tempo, assim como no filme "It's a Wonderful Life", de Frank Capra, descobrirão que seus recursos "líquidos" estão cimentados em casas construídas sobre hipotecas financiadas por seus depósitos.
O mesmo acontece na zona do euro. Poupadores alemães, franceses ou outros podem ter contas bancárias, pensões, apólices de seguros. A realidade econômica é que suas poupanças estão incorporadas a edifícios irlandeses ou espanhóis de pequeno valor ou vinculados a inflacionados salários gregos do setor público consumidos anos atrás. Esses créditos não podem ser resgatados. Na melhor das hipóteses, eles podem, com o passar do tempo, ser honrados - mas somente se o crescimento retornar aos devedores.
O pânico entre os investidores produz o oposto. Eles não têm como repatriar o capital investido ou consumido, mas sua tentativa de fazê-lo implicou uma parada abrupta de novos financiamentos. A necessidade da periferia de reduzir os déficits em conta corrente de forma igualmente abrupta é a principal causa das recessões. Ao recusarem-se a conceder novos financiamentos, os investidores estão arruinando suas chances de recuperar seus próprios investimentos.
O que podem fazem as autoridades? Sua melhor esperança é que os mercados financeiros desistam de uma ruína coletiva. Mas esperança não é política de governo. Se desejam influenciar os acontecimentos, os líderes da zona do euro podem comprar ativos de investidores privados determinados a fugir - ou administrar as consequências. O primeiro equivale a um seguro sobre depósitos em uma corrida a bancos.
Isso foi tentado na Europa, timidamente. Fundos de socorro, refinanciamento e recompras de títulos pelo Banco Central Europeu e balanços patrimoniais de bancos centrais em crescimento acelerado não constituem novas exposições do centro à periferia, mas, sim, substituição de credores privados por públicos. Em escala muito menor do que aquela que poderia fazer diferença, esses socorros a credores privados dos países principais atingiram os limites políticos.
Isso deixa uma opção: uma reestruturação organizada dos créditos que os investidores insistem, impossivelmente, em cobrar de uma só vez. Isso foi feito na Grécia e o mundo não acabou (mas um desconto contábil excessivamente pequeno, feito tarde demais, também não solucionou o problema). Dublin reestruturou a dívida bancária júnior e credores não garantidos, na Dinamarca, aceitaram receber com deságio.
Apesar disso, as autoridades econômicas na zona euro consideram os descontos em relação ao valor de face da dívida como um anátema. Eles sofrem da "síndrome do Lehman": um temor de que a reestruturação (das dívidas) seja apocalíptica. Mas há razões para julgar que isso é exatamente o que necessitam as economias em ressaca pós-booms de crédito. Os investidores poderiam voltar e com eles o crescimento - se não precisarem temer ficar no fim de uma fila de credores. E a reestruturação da dívida privada ou subnacional pouparia de sofrimento os contribuintes nacionais do fisco sem condições de quitar todas as dívidas de outros.
A zona do euro poderá terminar chegando a esse ponto. Quando for eliminado tudo o que é politicamente impossível, o que sobrar, não importa quão desagradável, deverá ser uma política melhor. (Tradução de Sergio Blum)
Martin Sandbu é articulista do FT
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