segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O limitado poder de escolha dos EUA



Por Mohamed A. El-Erian - Valor 06/08

Acrença geral sobre as eleições presidenciais de novembro nos Estados Unidos está apenas em parte correta. Sim, as questões econômicas terão grande papel na determinação do resultado. O passo seguinte no argumento - de que o vencedor de uma disputa cada vez mais detestável poderá dar-se o luxo de buscar políticas significativamente diferentes do oponente - é, no entanto, muito mais duvidoso.

Quando o próximo mandato presidencial começar, em janeiro de 2013, ao contrário dos atuais discursos nas campanhas de Obama e Romney, o mandatário se verá com espaço limitado para manobrar a política econômica. De fato, as possíveis diferenças para os EUA estão em outros fatores e ainda precisam ser compreendidas pelos eleitores. Elas concentram-se nas políticas sociais que acompanharão um conjunto de medidas econômicas em grande medida similares; e, aqui, as diferenças entre os candidatos são cruciais.

Seja quem for o vencedor, se deparará com uma economia crescendo a um vagaroso ritmo de apenas 2%, ou menos, por ano, com o incômodo risco de completa estagnação. O desemprego ainda estará alto demais e quase metade disso será de difícil reversão, a chamada falta de emprego de longo prazo.

O aspecto financeiro da economia também será fonte de preocupação. O déficit fiscal continuará a flertar com a faixa dos 10% do Produto Interno Bruto (PIB), intensificando os receios quanto à dinâmica de médio prazo dos títulos de dívidas do país. O setor bancário ainda estará "livrando-se [de investimentos] de risco", limitando o fluxo de crédito para pequenas e médias empresas e afetando as contratações e investimentos em fábricas e equipamentos. E as famílias terão percorrido apenas em parte sua dolorosa fase de desalavancagem.

O front das políticas econômicas será igualmente inquietante. Depois ter brigado e hesitado por tempo demais, o Congresso dos EUA encontrará cada vez mais dificuldade para adiar medidas que enfrentem esses desafios. Enquanto isso, o incomum ativismo do Federal Reserve (Fed, autoridade monetária dos EUA), incluindo uma crescente lista de medidas experimentais, vai render poucos benefícios e acarretar riscos e custos cada vez maiores.

A economia dos EUA também estará operando em meio a um cenário internacional mais difícil. Nos próximos meses, a crise da dívida europeia, com muita probabilidade, se agravará. Com as economias emergentes (incluindo a China) em desaceleração e com a falta de ações adequadas de coordenação política multilateral estendendo-se por mais tempo, as pressões protecionistas vão crescer à medida que as principais potências do comércio exterior passarem a concorrer por um bolo que deixou de crescer.

Portanto, independentemente de o presidente Barack Obama ou Mitt Romney ganharem em novembro, o próximo presidente se verá limitado pelas necessidades "gêmeas" de estabilização econômica premente e de reformas de longo prazo. E, com os ventos contrários vindos da Europa e da desaceleração mundial sincronizada, os candidatos não terão escolha a não ser adotar, pelo menos de início, políticas econômicas similares para restaurar uma criação de empregos dinâmica e a estabilidade financeira.

Para encontrar o equilíbrio certo entre estímulos econômicos imediatos e sustentabilidade fiscal de médio prazo, a medida mais urgente será conter apropriadamente o chamado "abismo fiscal" - quando acabem as reduções temporárias de impostos e passem a valer automaticamente profundos cortes generalizados de gastos públicos - que se aproxima.


São necessárias reformas orçamentárias sérias no médio prazo para lidar com o legado dos sucessivos erros do Congresso. E, caso seja abastecido com números realistas, o próximo presidente logo perceberá que a combinação adequada de reformas nos impostos e nos gastos recai em uma faixa muito mais estreita de possibilidades do que os discursos políticos rivais da atualidade sugerem.

As reformas fiscais funcionam melhor em economias dinâmicas. Com essa ideia, Obama e Romney precisarão levantar os impedimentos ao crescimento e à criação de empregos.

Isso, no entanto, não significa que não há espaços para diferenças. Há; e elas refletem o fato de que as tendências econômicas gerais serão acompanhadas de dinâmicas com diferentes velocidades nas mais variadas esferas.

Depois de uma "era" de alavancagem excessiva, emissão de dívidas e facilidade de crédito que culminou com a crise financeira mundial de 2008, os EUA ainda se deparam com o complicado desafio de lidar com perdas acumulativas que inibem continuamente os investimentos, empregos e competitividade. Até agora, a excessiva polarização política no Congresso traduziu-se em uma abordagem que empurrou ainda mais os encargos do ajuste sobre aqueles que têm menos capacidade para suportá-lo.

Em um mundo ideal, o próximo presidente dos EUA rapidamente embarcaria em uma estratégia de dois passos para recuperar o dinamismo do emprego e a solidez financeira. Primeiro, elaboraria um conjunto abrangente de iniciativas de política econômica que sejam tanto desejáveis como viáveis - e, de novo, o espaço para diferenças substanciais aqui é limitado. Segundo, acompanharia isso com um conjunto explícito de políticas sociais que resolva a necessidade de compartilhar de forma equitativa os encargos.

Esta não é realmente uma eleição sobre temas polêmicos como transferência de produção ao exterior ou discussões acaloradas como aumento de impostos versus reformas nos benefícios sociais; controle da produção pelo governo versus atividade irrestrita do setor privado; ou criadores de empregos versus "aproveitadores" da ajuda do Estado. Trata-se muito mais dos conceitos que acompanham esses temas, como justiça social, benefícios sociais, igualdade e, sim, padrões de comportamento para uma sociedade rica e civilizada.

Esta é uma eleição sobre responsabilidade social - a obrigação da sociedade de ajudar aqueles que estão em dificuldade, por culpa de outros, a encontrar empregos e a ter o suficiente para suas despesas. É sobre a reforma de um sistema de ensino que não atende apropriadamente a juventude americana. Entre as várias questões de justiça e igualdade, esta é uma eleição sobre os ricos devolvendo algo ao sistema que lhes trouxe uma riqueza inimaginável.

É aqui que as diferenças entre Obama e Romney são importantes. Quanto antes os debates da campanha se voltarem a isso, maior a probabilidade de que os americanos venham a fazer uma escolha estando mais bem informados e, portanto, se envolvam no esforço coletivo necessário para acabar com as mazelas que afetam o país.



Mohamed A El-Erian executivo-chefe e codiretor-executivo de informações da PIMCO, é autor de "When Markets Collide" (quando mercados colidem, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.



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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Integrar para desenvolver



Por Rodrigo Vilaça - Valor 03/08

É bastante animadora, especialmente para aqueles que atuam nos setores da infraestrutura, a determinação da presidente Dilma Rousseff no sentido de integrar os projetos de construção de rodovias, ferrovias e portos para agilizar os resultados desses investimentos, conforme recentes notícias publicadas na imprensa.

Para acelerar o crescimento econômico, o Brasil precisa vencer urgentemente o desafio logístico. Nossas vias de escoamento da produção, considerando-se todos os modais, ainda são muito precárias em comparação com outros países de grandes dimensões. Já somos a sexta economia do mundo mas ainda estamos na 45ª posição no ranking de desempenho logístico do Banco Mundial. É grande o esforço de todos - governo e iniciativa privada - e temos conseguido melhorar significativamente as condições de competitividade logística do país, porém as demandas atuais exigem um ritmo mais intenso e investimentos muito mais vultosos.

O governo vê com clareza que não há mais tempo de esperar as regiões se desenvolverem para então se tornar viável a construção de novas ferrovias. É preciso construir vias férreas cruzando todo o país, de forma que as locomotivas impulsionem o progresso e os vagões transportem crescimento econômico e social, integrando as diversas regiões. Este sim, é um investimento correto em infraestrutura.

A construção de ferrovias estruturantes vai dar ao Brasil um traçado de malhas que nunca tivemos antes. É o caso da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), ligando o litoral da Bahia à Norte-Sul no estado do Tocantins, e também da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), atravessando horizontalmente todo o Mato Grosso do Sul até Goiás. Assim como a Nova Transnordestina, que vai ligar dois portos importantes do Nordeste (Pecém e Suape) ao sul do Piauí, onde também haverá uma conexão com a Norte-Sul.

Quando nosso território estiver integrado em artérias multimodais de Norte a Sul e de Leste a Oeste, aí sim o Brasil poderá alcançar o nível de desenvolvimento que todos almejamos. Nesse cenário a ferrovia é fundamental, por ser o modal mais competitivo e eficiente para cargas de grande volume e a longas distâncias. É por isso que nos principais países de grandes dimensões territoriais os trilhos conduzem mais de metade das cargas, enquanto no Brasil a participação do modal ferroviário está em 25% na matriz de transportes e as rodovias ainda predominam, com mais de 65%.

Mas sabemos que todos os projetos de expansão da malha ferroviária seriam insuficientes sem a integração com rodovias, hidrovias e portos. A intermodalidade é a única forma de atingirmos níveis competitivos de eficiência na infraestrutura de transporte de cargas. Sabe-se também que não basta investir na construção de novas ferrovias, sem solucionar os gargalos da malha existente.

Daí a importância de obras como o Ferroanel de São Paulo, que finalmente será construído, para solucionar uma situação que já se tornara absurda em uma metrópole como São Paulo. Quando estiverem prontas as vias férreas contornando a capital, os trens de carga não mais precisarão atravessar toda a cidade, nos mesmos trilhos usados pelos trens de passageiros. O fato de termos hoje composições com centenas de vagões parados durante várias horas, esperando para seguir viagem, compromete seriamente a produtividade do transporte de produtos vitais para a economia do país.

O Ferroanel de São Paulo vai beneficiar diretamente a população, que sofre com as precariedades do transporte público ou no trânsito congestionado pelo excesso de caminhões. Soma-se a esse benefício social o ganho ambiental, pois uma composição ferroviária com 100 vagões, por exemplo, corresponde a cerca de 350 caminhões. Portanto, um empreendimento como esse beneficia a qualidade de vida da população, não só pelo alívio para o trânsito da cidade e das estradas, como pela emissão cinco vezes menor de CO2 e pela economia de combustíveis que os trens propiciam.

Em termos econômicos, o retorno é significativo em vários aspectos além do frete. Ou seja, a movimentação mais eficiente das cargas beneficia também outros setores da economia. São ganhos que ultrapassam em muito as vantagens econômicas para os operadores e os clientes das ferrovias de carga.

Quando se investe em ferrovias, portanto, melhora o transporte, a qualidade de vida, a saúde da população, o custo Brasil fica menor, são muitos os benefícios. Esse é um tipo de investimento que não se recupera só com o frete cobrado pelas concessionárias, e sim em melhorias para todos os segmentos da sociedade. Seu alcance social e ambiental justifica, sem dúvida alguma, a participação do governo nesse tipo de investimento, em parceria com a iniciativa privada.

O investimento das concessionárias deve retornar nos fretes, um tipo de retorno que demora anos para ser amortizado. Quantos anos? Obviamente, isso depende do montante investido. E qual é o parâmetro para a definição do prazo de concessão? Quando se instituiu o modelo atual, no final do século passado, e foram estabelecidas concessões com prazo de 30 anos, não havia a dinâmica de investimentos que se exige hoje. O horizonte era diferente. A preocupação do governo era livrar-se do absurdo déficit da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Era urgente estancar o prejuízo crescente, já na casa dos bilhões, que o sistema ferroviário, estatizado, fazia recair sobre as contas públicas. Hoje, a demanda é muito maior do que antes. É preciso investir fortemente, mas esse investimento tem que ser sustentável. Precisa de prazo suficiente para ser recuperado.

Essa é a lógica, bastante simples, do modelo de concessões. É impossível para o governo assumir toda a demanda de recursos necessários à infraestrutura e a iniciativa privada quer investir, mas precisa viabilizar seus investimentos. A agenda do crescimento, que está sendo anunciada pelo governo federal, certamente leva em conta todos esses fatores, ao planejar de modo integrado novas rodovias, ferrovias e portos.



Rodrigo Vilaça é presidente-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF).

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crise e capitalismo de Estado




Por Jorge Arbache - Valor 02/08

A "The Economist" publicou um provocativo relatório especial sobre capitalismo de Estado, modelo que, segundo a revista, "combina as forças do Estado com as forças do capitalismo". Desde então, o assunto ganhou atenção mundo afora e tem contribuído para os debates sobre a crise econômica e sobre modelos de desenvolvimento. A crescente influência das economias emergentes na economia mundial e a sua resiliência à crise financeira estariam por detrás do grande interesse pelo assunto. Contrariamente ao dirigismo muitas vezes observado até recentemente em muitos países em desenvolvimento, o capitalismo de Estado se utilizaria, segundo a revista, de instrumentos e métodos de gestão de mercado para atingir seus objetivos. O relatório justifica o foco nas experiências recentes dos países emergentes, notadamente a da China, porque elas "parecem ser cada vez mais a tendência futura".

As manifestações do capitalismo de Estado são variadas e podem ser complexas e sofisticadas, como as políticas públicas de apoio aos conglomerados privados sul-coreanos, ou a montagem de fundos soberanos com crescente influência nos fluxos de capitais e investimentos. Mas as experiências de capitalismo de Estado de países emergentes coexistem com manifestações de forte intervencionismo estatal na economia também nos países desenvolvidos, como no caso da empresa de petróleo estatal norueguesa, Statoil, e das políticas americana e europeia de subsídios ao setor agrícola. As experiências das diferentes vertentes de capitalismo de Estado sugerem haver em comum entre elas uma tensão, em maior ou menor grau, entre pragmatismo e ideologia.

Mais recentemente, as inéditas e massivas intervenções na economia pelos governos dos países no epicentro da crise financeira por meio de "quantitative easing" e "bailouts", por exemplo, têm provocado profundas repercussões na alocação de recursos e formação de preços não apenas no plano doméstico, mas, também, internacional. Essas intervenções, muitas delas oportunistas, são especialmente intrusivas devido ao tamanho dessas economias e ao fato de suas moedas serem reserva de valor internacional, criando e agravando desequilíbrios macroeconômicos internacionais e acentuando as condições já assimétricas de competição.

O emprego de políticas de capitalismo de Estado parece estar se popularizando mundo afora à medida que a crise econômica e as incertezas se agravam. O capitalismo de Estado da China e o fracasso de políticas econômicas ultra-liberais, como algumas perseguidas pelos Estados Unidos até antes da crise, nos ajudam a entender porque um dos prováveis legados dessa crise para os políticos é a lição de que governos não devem limitar os seus papéis na economia.

Embora seja compreensível a atratividade do capitalismo de Estado num contexto de crise econômica, a sua multiplicação em escala global tem implicações deletérias. De fato, parece ser pouco plausível que muitos países possam se beneficiar, simultaneamente, de políticas de capitalismo de Estado devido à falácia da composição e devido às externalidades negativas por elas provocadas, que tendem a desorganizar o sistema econômico, fomentar reações mercantilistas e alimentar tensões políticas entre países. Por isso, é muito provável que a popularização dessas políticas dificulte a recuperação da economia mundial. O emprego de políticas de capitalismo de Estado também suscita questões associadas às escolhas entre interesses nacionais e compromissos internacionais, como os do G-20, com reflexos para a credibilidade do sistema multilateral.

Para que se mitiguem a proliferação do capitalismo de Estado e seus potenciais riscos para o crescimento econômico mundial, será preciso que os países, notadamente Estados Unidos, União Europeia e China, reconheçam a interdependência das políticas micro e macroeconômicas nacionais e seus impactos nos países em desenvolvimento. Será preciso, assim, redobrar os esforços de coordenação de políticas e de gestão de interesses conflitantes. No entanto, experiências como o colapso do Acordo de Doha, crise do Euro e as dificuldades de avanço nos acordos do clima ilustram os desafios de coordenação e de solução de controvérsias em períodos de crise.

Como as políticas de capitalismo de Estado têm significativos impactos adversos na economia brasileira, incluindo valorização cambial, especulação com preços de ativos e barreiras ao comércio e ao investimento, torna-se necessário o emprego de estratégias de desenvolvimento e de inserção internacional que busquem mitigar esses impactos. Tais estratégias deveriam levar em conta a combinação dos benefícios do comércio com os das políticas públicas de promoção da indústria conciliada com o desenvolvimento e a exploração das vantagens produtivas e competitivas nacionais. Deveriam, também, reconhecer as relações entre comércio e variáveis macroeconômicas como câmbio, juros e política fiscal e seus impactos na indústria e no comércio, buscar o reconhecimento internacional dos impactos dos grandes desequilíbrios macroeconômicos e das políticas de outros países na economia brasileira, e intensificar esforços indutores do aumento da competitividade através da redução dos custos de produção e aumento da produtividade e dos investimentos em capital humano e inovação.



Jorge Arbache é professor de economia da UnB. jarbache@gmail.com

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A China e a desaceleração



Por Yu Yongding - Valor 01/08

O crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelerou-se de 8,1% no primeiro trimestre para 7,6% no segundo, a menor expansão desde o mesmo período de 2009. Os dados recém-divulgados sobre a expansão podem ter dissipado os temores de uma aterrissagem forçada da China, mas mesmo assim levaram muitos a argumentar que a China precisa estimular mais sua economia para garantir um crescimento anual de 8%.

Desde o início de 2010, o governo chinês apertou sua política monetária para conter a inflação e evitar bolhas nos preços das propriedades. Como resultado, a inflação caiu para 2,2% em junho, menor patamar em 29 meses, e os preços residenciais, cujos dados oficiais a Agência Nacional de Estatísticas infelizmente deixou de divulgar, parecem estar se estabilizando e podem até ter recuado, ainda que de forma moderada.

A desaceleração do índice de crescimento da China é, até certo ponto, reflexo do sucesso dos esforços do governo para domar a bolha do setor imobiliário, assim como de outras políticas voltadas ao reequilíbrio da economia. O crescimento dos investimentos em projetos imobiliários, que representam diretamente mais de 10% do PIB, caiu 16,3 pontos percentuais no primeiro semestre de 2012 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Isso levou a uma desaceleração nos investimentos em muitos setores relacionados como os de materiais de construção, móveis e eletrodomésticos, o que, por sua vez, levou a expansão anual nos investimentos em ativos fixos a cair de 25,6% para 20,4%.

A tendência de consumo das famílias está menos clara. Muitos economistas, entretanto, encontraram evidências de que o crescimento no consumo das famílias no primeiro semestre foi maior do que mostraram os dados oficiais.

A desaceleração da economia em 2012 deveria ter sido antecipada em 2011 pelo governo. No início de 2012, em seu discurso na abertura da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o governo explicou por que a meta indicativa de expansão econômica do governo em 2012 era de 7,5%, destacando que o objetivo era "guiar as pessoas de todos os setores a focar seu trabalho na aceleração da transformação do padrão de desenvolvimento econômico e tornar o desenvolvimento econômico mais sustentável e eficiente".

Na verdade, para poder criar uma margem de espaço adequada para mudar o padrão de crescimento centrado no PIB, o 12º Plano Quinquenal da China fixou uma meta de crescimento anual de 7% do PIB para o período entre 2010 e 2015.
A taxa de investimentos na China está em cerca de 50% do PIB, contando os 10% de investimentos do setor imobiliário. Tendo em vista o predomínio de construções que se duplicam e o desperdício generalizado, a eficiência dos investimentos vem se deteriorando rapidamente. Com um índice de crescimento anual de 10%, ter uma taxa de investimentos de 50% implica um quociente de cinco entre capital e produção, o que é extraordinariamente alto em relação a outros países.
A taxa de consumo na China é de 36%. Embora os dados do governo não sejam inteiramente confiáveis, esse número é simplesmente muito baixo. Enquanto volumes imensos de dinheiro vêm sendo despejados na infraestrutura física, os gastos públicos em capital humano e segurança social estão abaixo da média mundial. Mais recursos deveriam ser realocados da formação de capital físico para a formação de capital humano.

Graças aos persistentes superávits em conta corrente e conta de capital obtidos por 20 anos, a China acumulou US$ 3,2 trilhões em reservas internacionais. A China, no entanto, com seus gigantescos ativos líquidos internacionais, possui déficit na conta de renda de investimentos. Desde 2008, o superávit em conta corrente caiu de forma significativa. Ainda assim, o país exibe esses superávits "gêmeos" e há as dúvidas persistentes se a queda é estrutural ou cíclica.

De fato, a China precisa acelerar seu ajuste econômico, mesmo que à custa do crescimento. De outra forma, terá de pagar um custo ainda maior com um ajuste no futuro.

Por muitos, anos, o governo manteve uma meta implícita de crescimento mínimo de 8% por ano, o que era considerado necessário para criar dez milhões de empregos anuais. Variações demográficas e outras mudanças estruturais, contudo, podem ter alterado as condições do mercado de trabalho: até agora, apesar do crescimento inferior a 8%, parece haver poucos sinais de problemas.

A questão agora é se o governo se deixará inquietar pelo desempenho trimestral mais fraco dos últimos três anos e lançará algum grande pacote de estímulo, com as consequências que a China experimenta quando tais medidas são adotadas.

"Deveríamos continuar adotando políticas fiscais pró-ativas e uma política monetária prudente, enquanto damos maior prioridade à manutenção do crescimento", disse o primeiro-ministro Wen Jiabao recentemente. Além disso, nos últimos meses, o governo aprovou alguns grandes projetos siderúrgicos e energéticos, e mais anúncios do tipo devem estar por vir.

Sem dúvida, é acertado que governos respondam a mudanças nas circunstâncias no momento oportuno. A desaceleração no crescimento anual para 7,8% no primeiro semestre de 2012, no entanto, não justifica uma mudança da direção das políticas econômicas. A China precisa escolher entre um crescimento maior ou um ajuste estrutural mais rápido. Não pode ter os dois ao mesmo tempo. Diante da atual desaceleração, a China pode dar-se ao luxo, ao menos por enquanto, de manter o rumo. (Tradução de Sabino Ahumada).



Yu Yongding é ex-membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China e ex-diretor do Instituto de Economia e Política Mundial, da Academia Chinesa de Ciências. Copyright: Project Syndicate, 2012.



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Nível de gasto do brasileiro com dívida bancária preocupa o FMI



Por Fernando Travaglini - Valor 01/08
De São Paulo

Apesar dos avanços do Brasil nas áreas de regulação e supervisão bancária, o Fundo Monetário Internacional ainda vê riscos decorrentes da expansão acelerada do crédito nos últimos anos e enxerga indícios de tensões em algumas classes de ativos, especialmente nos empréstimos às famílias e no setor imobiliário, que poderiam, no ambiente de queda dos juros, levar à formação de bolhas.

De acordo com dados citados pelo FMI, o endividamento do brasileiro não está entre os mais altos, hoje na casa dos 30% de toda a renda disponível. Entretanto, o nível de comprometimento da renda com os serviços da dívida, ou seja, com o pagamento das parcelas mensais, está entre os maiores do continente americano.

Por aqui, 23% da renda mensal das famílias é gasta com o pagamento de juros e a amortização da dívida, enquanto no México, na Colômbia e no Peru essa relação está ao redor ou abaixo de 10% (ver gráfico).

Até mesmo nos Estados Unidos, onde o endividamento total corresponde a 100% da renda disponível, a relação dos gastos mensais com as prestações toma apenas 10% da renda dos americanos a cada mês, ou seja, menos da metade dos brasileiros.
Em outras palavras, o brasileiro tem baixo endividamento, mas mesmo assim compromete uma expressiva parcela de seus ganhos mensais com suas dívidas. Por conta disso, qualquer queda na renda ou piora do emprego, em uma conjuntura mais difícil, poderia ser explosiva para as famílias, como alerta o Fundo.

"Apesar de parecer sustentável por enquanto, com os altos níveis de emprego e renda, as famílias podem se mostrar altamente endividadas em um cenário de desaquecimento econômico", diz o Fundo. "Além disso, a tendência atual do crédito e da inadimplência sugere que alguns segmentos de dívida podem já estar sob pressão."

O que explica a diferença entre os números do Brasil e do restante dos países são as taxas de juros elevadas, quase três vezes maiores do que em países como México e Chile, e os prazos dos empréstimos, bem mais curtos que os demais - nesse caso como consequência do baixo volume de financiamento imobiliário na comparação internacional.

E não é apenas o endividamento que preocupa o FMI. "Há indícios de crescente tensão em alguns setores e classes de ativos, com destaque para o endividamento das famílias e o rápido aumento dos preços dos imóveis nas principais regiões, como São Paulo e Rio de Janeiro."

A avaliação está no mais recente relatório elaborado dentro do Programa de Avaliação do Setor Financeiro, executado pelo FMI em conjunto com o Banco Mundial em 25 países emergentes. O documento, que reconhece avanços do sistema financeiro do país e elogia a fiscalização do Banco Central, destaca que os ativos do setor financeiro mais do que dobraram ao longo da última década e as autoridades precisam estar atentas os riscos externos e internos.

O FMI pondera que as "incertezas são mitigadas pela supervisão bancária robusta e pelos elevados níveis de proteção em termos de capital e liquidez nos bancos, mas é preciso manter a vigilância, aperfeiçoar os dados e estar pronto para intervir e controlar essas fontes de aquecimento se necessário."

O documento vai além ao afirmar que até uma bolha de ativos poderia ser causada por um aquecimento acima do usual em um cenário de queda dos juros. "À medida que os juros no Brasil continuam a cair e se aproximar de níveis internacionais, a procura cada vez maior dos investidores internos por rendimentos mais altos pode levar a uma subestimação do preço do risco e à formação de bolhas de preços de ativos", avalia o Fundo, apesar de ressaltar que o risco sistêmico é pequeno hoje.

O Banco Internacional de Compensações já havia alertado sobre os riscos do crescimento acelerado do crédito no país em seu informe anual, de junho.

Com relação às ameaças externas, o FMI avalia que assim como o restante da economia brasileira, o sistema financeiro está exposto "aos efeitos da volatilidade dos mercados internacionais", sobretudo pelas variações nos preços das commodities e pela mobilidade do capital estrangeiro.

"Um novo conjunto de riscos pode ser vislumbrado no horizonte, o que exigirá um monitoramento cuidadoso daqui em diante", diz o diretor assistente do departamento de mercados monetários e de capitais do FMI, Dimitri Demekas, em nota.

Para ele, a expansão acelerada do crédito nos últimos anos apoiou o crescimento da economia interna e o aumento da inclusão financeira, mas essa expansão também pode gerar vulnerabilidades. "Existe o risco de que o sistema financeiro se torne vítima de seu próprio sucesso no país", diz Demekas, que chefiou a equipe encarregada da avaliação, realizada entre os dias 6 e 21 de março.

Ainda de acordo com o FMI, para afastar o sistema financeiro do atual equilíbrio entre taxas de juros elevadas e prazos médios curtos e ainda atender ao objetivo de crescimento econômico de longo prazo, serão necessárias uma "condução cuidadosa" e amplas reformas. "Em vez de olhar para trás, o sistema deve ser fortalecido para poder suportar uma variada gama de possíveis choques no futuro", diz Demekas. Entre as medidas, está a necessidade de uma regulamentação sobre centrais de avaliação de crédito, o fortalecimento do mecanismo do Banco Central para concessão de financiamento emergencial aos bancos no caso de crise no sistema financeiro e o reforço da proteção jurídica de todos os supervisores do setor.

O Fundo lembra que a reforma da governança do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já foi implementada, mas é preciso tornar mais rigorosos os critérios para concessão de ajuda aos bancos e garantir uma fonte de recursos segura e em nível suficiente no caso de uma crise.

Nessa mesma linha, o FMI recomenda que se fortaleça a comissão encarregada do monitoramento de riscos sistêmicos e da preparação contra crises e que se inclua nessa comissão o FGC.

O FMI vê avanços no sistema bancário brasileiro, incluindo um quadro de gestão de crise que ajudou a proteger o sistema financeiro contra o impacto da crise mundial em 2008. O fundo avalia ainda que o Brasil melhorou a fiscalização de seu sistema financeiro. "[A fiscalização] é profunda e complexa, se baseia no risco e apresenta um elevado grau de conformidade com as normas internacionais."

Além de apoiar o sistema contra futuros choques, diz o Fundo, o principal desafio nos próximos anos será aumentar a contribuição do setor financeiro para o crescimento do Brasil no longo prazo. Nesse contexto, o FMI alerta que será preciso tomar medidas para "reformar o crédito imobiliário e modificar o papel dos bancos estatais, sobretudo do BNDES".


BC diz monitorar avanço rápido do crédito

Por Claudia Safatle
De Brasília

O relatório sobre a estabilidade do sistema financeiro, elaborado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e divulgado ontem, traz uma radiografia minuciosa e positiva da situação dos bancos no Brasil. O Fundo chama a atenção, contudo, para eventuais riscos decorrentes da acelerada expansão do credito, do aumento no endividamento das famílias e das pressões sobre os preços dos imóveis.

Os bancos são sólidos, seguros, registram elevado capital mínimo e liquidez, têm boa lucratividade e o provisionamento cobre os riscos de inadimplência. O sistema, submetido a testes de stress, revela-se resistente a choques graves, como o de uma recessão global. Pondera, porém, que as instituições de pequeno e médio porte "são relativamente mais vulneráveis ao risco de liquidez".

O diretor de assuntos internacionais e regulação financeira do Banco Central, Luiz Pereira Awazu, considerou o relatório equilibrado, com aspectos bastante positivos e ressaltou que, no geral, coincide com a avaliação que o próprio BC faz. Ele salientou, ainda, que as conclusões do fundo sobre a solidez do sistema financeiro doméstico e sobre o alto padrão da supervisão bancária no país - abaixo apenas da nota dada ao Canadá - são importantes sobretudo num momento de ciclotimia, quando a euforia dos investidores com o Brasil vem se transformando em uma certa descrença.

A participação dos bancos estrangeiros no mercado doméstico é modesta e mesmo instituições europeias como o Santander - com 9% dos ativos do sistema local- e o HSBC - com 3% - estão focadas no mercado doméstico, obedecem as regras prudenciais do país e não colocam riscos de contágio da crise externa sobre o mercado local, atestou o Fundo.
Quanto às vulnerabilidades apontadas no relatório, os técnicos do FMI alertam para o rápido crescimento do crédito - "tema que temos discutido muito", comenta o diretor. "Eles dizem que isso decorre do processo de transformações sociais experimentado pelo país, com a inclusão financeira." Houve um crescimento do crédito de 25% para 50% do PIB e, segundo o FMI, isso ocorre com os países onde a base de partida é pequena.

Mais do que olhar o endividamento geral das famílias como proporção do PIB - da ordem de 23% - o BC, segundo ele, está monitorando o grau de endividamento por faixas de renda e criou uma diretoria específica para tratar do relacionamento com o cidadão e investir na educação financeira. Os índices de preços dos imóveis no país precisam ser vistos com certa cautela. O BC está, junto com a FGV e o IBGE, construindo um índice mais rigoroso.

Ao contrário do que ocorreu com as instituições financeiras americanas e europeias, que passam por problemas de difícil equação desde a crise de 2008/2009, os bancos brasileiros estão sob uma supervisão bastante conservadora e "intrusiva" e isso faz enorme diferença na exposição a riscos. A quantidade de informações diárias de que o BC dispõe lhe permite, inclusive, detectar problemas de liquidez numa determinada instituição antes mesmo que ela saiba que está sob stress, disse ele.

O documento preparado pelo FMI envolveu cerca de 60 pessoas. O Fundo começou a fazer esse acompanhamento por recomendação do G-20 logo após a crise asiática do fim dos anos 90. Ao Banco Mundial coube uma tarefa de mais longo prazo, de avaliação das perspectivas de desenvolvimento do sistema financeiro em cada um dos países do G-20.

O FMI ressaltou a importância da ação dos bancos federais em resposta à crise de 2008/2009, mas apontou a necessidade de se criar alternativas ao financiamento de longo prazo hoje nas mãos do BNDES, assim como de desenvolvimento do mercado de capitais.

Salientou, também, que embora o Banco Central do Brasil tenha autonomia de fato, ele não tem independência para tomar diretamente medidas de regulação prudencial, tendo que submetê-las à aprovação do Conselho Monetário Nacional (CMN).

O relatório abarca as áreas de seguros e fundos de pensão e, para essas, recomenda um reforço legal tanto para melhorar a supervisão como para dar maior independência operacional aos órgãos reguladores como a Susep (seguros) e a Previc (fundos de pensão). Luiz Pereira concordou que há muito a fazer, mas entende que "estamos fazendo a coisa certa".

terça-feira, 31 de julho de 2012

Segundo Rabobank real pode ficar forte


Valor 31/07

O real tem se desvalorizado ante o dólar desde o segundo semestre do ano passado, mas os fundamentos ainda amparam a moeda brasileira, segundo o economista-chefe do Rabobank Brasil, Robério Costa. Para ele, a continuidade dos fluxos de investimento estrangeiro direto ao país é um dos principais fatores para a provável recuperação do real. No entanto, esse movimento será acompanhado de perto pelo governo, que agirá para defender a banda informal entre R$ 2,00 e R$ 2,10. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: A tendência de valorização do real permanece?

Costa : Certamente. Um dos motivos para isso é que, na parte do investimento direto, não estamos sendo fortemente afetados. Isso acontece porque o capital precisa ser rentabilizado de alguma forma. E se as multinacionais vão querer alocar esse capital em alguma região certamente não é naquela que está mais vulnerável à crise. Fazer expansão na Europa nos próximos cinco, dez anos, parece loucura. Então o investidor vai procurar os países que têm potencial de crescimento. Mesmo a gente fraquejando agora, o horizonte do Brasil é muito melhor. Portanto, esse tipo de capital (IED) tende a continuar forte. No caso da renda fixa, por exemplo, qual é a alternativa? Você vai aplicar num título da Espanha? Da Itália? Da Alemanha, que rende zero? Ou num título brasileiro que rende cerca de 7%?

Valor: O Brasil ainda vive um regime de câmbio flutuante? Pode-se falar em política de intervenção?

Costa : O câmbio flutuante puro ninguém tem. O Japão intervém no câmbio, a Suíça... e o governo brasileiro atua quando acha que é conveniente. Antes havia um embate entre Fazenda e Banco Central, hoje você vê um alinhamento. Embora as duas partes estejam agindo juntas, eu não chamaria isso de política de intervenção, mas sim de decisão de tomar medidas diversas. Pode ser via instrumentos legais, como o aumento de IOF, pode ser por swap, pode ser por compra de dólares no spot, pode ser até verbal. Isso ficou bem claro quando o Aldo [Mendes, diretor de política monetária do BC] veio e falou que o dólar abaixo de R$ 2,00 não é bom para a indústria. É uma forma de ele dizer que há um risco considerável de se vender dólar. Isso reforça a ideia de que foi criada uma espécie de "banda cambial", uma faixa na qual o BC se sente confortável com o dólar. E dito do jeito que foi pelo Aldo Mendes dá para acreditar que abaixo de R$ 2,00 é provável que aconteça alguma outra ação para puxar o dólar para cima.

Valor: Mas isso é garantido?

Costa : Não, porque existem outras forças que podem mudar as circunstâncias. A crise lá fora, de uma hora para outra, pode criar um cenário novo, o próprio fluxo de dinheiro para o Brasil também pode alterar esse jogo, para cima ou para baixo. Se houver um encaminhamento da solução na Europa de tal modo que o mercado desarme, haveria fluxo de dólares ao Brasil, que o BC teria que fazer muito malabarismo para conter. Aí a discussão da banda poderia mudar. Por enquanto, entre R$ 2,00 e R$ 2,10 é confortável. Muito acima tem o problema da inflação, muito abaixo incomoda a indústria. Essa banda não é ilegítima. É uma decisão de governo. Enquanto houver essa determinação, dificilmente o dólar vai para baixo.

Na incerteza essencial, a saída é o Estado



Por Antonio Delfim Netto - Valor 31/07

A primeira coisa que um economista tem que aprender é que, a despeito do que dizem os mais sofisticados e artificialmente matematizados livros de microeconomia, o homem-indivíduo não existe.

Só existe a "rede" de relações em que está imerso no universo econômico, controlado pelas instituições que ele mesmo foi "descobrindo" ao longo de sua história para a sua subsistência material (alimento, vestimenta e abrigo): o Estado e o mercado. O primeiro garante as condições de um razoável funcionamento do segundo, impondo-lhe normas de comportamento em troca da garantia de sua existência.

Os dois polos dessa organização foram evoluindo lentamente para uma combinação que permita - agora sim - ao homem-indivíduo gozar crescentemente de valores que aprecia: 1) sua liberdade de escolha e a apropriação dos benefícios que dela eventualmente decorram; e 2) o uso relativamente eficiente de seu esforço para produzir os bens e serviços de que necessita para o seu bem-estar. Essa "necessidade" aumenta naturalmente por uma disposição psicológica. É a "eficiência" que lhe proporciona maior tempo livre para procurar sua humanidade.

Não há leis naturais na economia e não existe equilíbrio de longo prazo que possa determinar a combinação ótima da relação Estado versus mercado. A história mostra que um Estado constitucionalmente controlado, suficientemente forte para impor regulação aos mercados (particularmente ao financeiro), parece ser uma combinação razoável, que permite um aumento da quantidade de bens e serviços com os recursos sempre escassos de que dispõem as sociedades.
A antinomia Estado versus mercado é disfuncional. Mas há mais. Há um terceiro valor que o homem-indivíduo inserido nas relações econômicas procura, além da liberdade e da eficiência: uma preferência pela relativa igualdade. Inserido na "rede", ele aparentemente tem maior alegria quando suas relações se realizam com membros em condições próximas às suas.

O problema é que essa maior igualdade não pode ser obtida pelo funcionamento dos mercados. Esses combinam liberdade individual com eficiência individual, mas, por serem altamente competitivos, estimulam a desigualdade. Estudos empíricos sugerem que a partir de certo ponto essa desigualdade é também disfuncional com relação à eficiência coletiva.

Há, por outro lado, um fato empiricamente bem comprovado. Os mercados, apesar de suas virtudes, têm um problema sério: são inerentemente instáveis. A ilusão criada pela teoria neoclássica, que os economistas tinham descoberto políticas econômicas que tornavam as crises "obsoletas" (como afirmou um prêmio Nobel em 2003!), foi enterrada "à la lumière des flambeaux" na crise de 2007...

Dois fatos: 1) a possibilidade que o mercado possa produzir um nível de desigualdade não funcional; e 2) o fracasso da ideia que tínhamos entrado num período de "grande moderação", por conta das políticas econômicas fiscal, monetária e cambial desenvolvidas nos últimos 30 anos, deixou claro que a economia é um tipo de conhecimento muito complexo. Ele está longe de poder ser dominado pelo cientificismo produzido pela inveja da física, que encantou alguns economistas.

O papel fundamental de um Estado constitucionalmente controlado transcende - e muito - o de ser o "garante" das instituições que permitem aos mercados serem instrumentos úteis (indispensáveis, mesmo) para o desenvolvimento social e econômico. Ele é o único instrumento capaz de, em condições especiais e com medidas corretas, eventualmente, corrigir as flutuações do emprego e da produção, quando os agentes sociais congelam diante da incerteza absoluta.

É importante entender que essa incerteza não é do tipo do risco atuarial, que tem uma história e ao qual pode aplicar-se o cálculo das probabilidades. É a incerteza essencial à qual se referia Keynes, do tipo: o que será a eurolândia daqui a cinco anos? É a incerteza produzida pelo fato que o passado não tem qualquer informação sobre o futuro. Alguém acha que o destino da União Monetária Latina no século XIX pode nos informar como terminará a União Econômica Europeia no século XXI?

Quando isso acontece, destrói-se a "rede" social, porque desaparece o seu elemento essencial: a confiança mútua. Termina instantaneamente o crédito interbancário e com ele destrói-se parte da demanda global do setor privado. Para sustentar o nível de emprego e de renda, só resta tentar substituí-la pela demanda pública. O consumo é a parte mais importante da demanda e mais resistente à flutuação do PIB principalmente pelas medidas anticíclicas da política fiscal. O investimento é menor, mas é mais volátil, porque depende da expectativa do futuro e da possível taxa de retorno (o lucro esperado) que são mortalmente atingidos pela incerteza.

Nessa circunstância, só o investimento público pode socorrer a economia, porque ele amplia a demanda e, ao mesmo tempo, a capacidade produtiva. Para não comprometer o equilíbrio fiscal, o melhor é realizá-lo através do setor privado, com concessões e parcerias com taxas de retorno adequadas e descentralizá-lo para obter um efeito mais rápido e generalizado, como parece ser a atual tentativa de cooptação dos Estados e dos municípios.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Desaquecimento da economia salvou Brasil de enfrentar um novo apagão



Por Daniel Rittner - Valor 30/07
De Brasília


O atraso na construção de 35 usinas térmicas outorgadas a dois grupos com pouca experiência no setor elétrico - a Bertin e a Multiner - só não levou o país a uma crise de abastecimento por causa da forte desaceleração da economia brasileira desde o ano passado. Basta uma olhada rápida nos números para ter ideia da dimensão do problema.

Todas essas térmicas, movidas a óleo ou a gás natural, deveriam entrar em operação entre janeiro de 2010 e janeiro de 2013. À medida que começassem a funcionar, aumentariam a oferta de energia em até 4.265 megawatts (MW) médios, volume superior à produção somada das hidrelétricas do rio Madeira - Santo Antônio e Jirau -, em Rondônia.

Nada disso obedece ao cronograma estabelecido nos leilões, obrigando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a mexer no planejamento do que está ou não disponível para ser acionado. Nas estimativas do ONS, que balizam todos os preços praticados no setor, só 2.497 MW médios (quase 60% de todo o volume efetivamente contratado) realmente devem sair do papel.

O problema é que, segundo analistas respeitados de mercado, essa projeção ainda é bastante otimista. A consultoria PSR calcula que apenas 784 MW médios têm chances reais de entrar em operação. Mesmo assim, mais da metade disso só deve se transformar em oferta de energia a partir de janeiro de 2014, com a conclusão de duas térmicas que foram vendidas pela Bertin à MPX.

"O Brasil foi salvo pela recessão", diz Jorge Trinkenreich, diretor da PSR. Como o aumento da demanda tem crescido bem menos do que o esperado, o atraso na construção das usinas gerou menos dor de cabeça e até causou um problema curioso: as distribuidoras ficaram sobrecontratadas, ou seja, o consumo está abaixo do que imaginavam e elas agora têm energia demais em mãos. "Parece que o país gosta de viver perigosamente", ironiza o especialista, retomando a seriedade em seguida e frisando que a confusão não deve ser celebrada.

Por incrível que pareça, a revogação das autorizações para a Bertin construir suas térmicas - independentemente da adoção de penalidades pela Aneel - pode até resolver a situação das distribuidoras. Elas continuam sobrecontratadas. Com a revogação, reverte-se em grande parte o problema e abre-se espaço para a realização de um novo leilão de projetos novos (A-3) até o fim deste ano, segundo o diretor da agência Julião Coelho.

BARRY EICHENGREEN: COMO A HISTÓRIA ASSOMBRA O EURO

BARRY EICHENGREEN: COMO A HISTÓRIA ASSOMBRA O EURO E COMO O BC DO BRASIL ENSINA AO MUNDO COMO UM BC COMPETENTE DEVE AGIR


21:14 BARRY EICHENGREEN: COMO A HISTÓRIA ASSOMBRA O EURO

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,como-a-historia--assombra-o-euro-,907453,0.htm



Depois de passar boa parte da semana no Brasil, tive a impressão de que havia um único assunto na cabeça dos meus interlocutores: a crise na Europa. É difícil ser encorajador. Não há muito que o Brasil possa fazer para se isolar da crise na zona do euro. A saída da Grécia e a crescente intensidade das ondas de choque financeiras irradiadas a partir da Europa estão se aproximando, e não há muito que possamos fazer quanto a isto. O melhor conselho, que não chega a ser muito útil, é fechar bem as escotilhas, pois teremos mares agitados pela frente.

Na verdade, minhas conversas no Brasil levantaram uma questão importante a respeito da crise na Europa. É claro que a Europa tem muitos problemas. O continente vive uma crise de endividamento, uma crise bancária, uma crise de competitividade e uma crise política. Mas alguns destes problemas têm sido desnecessariamente agravados pela falta de flexibilidade do Banco Central Europeu. O BCE tem sido lento no corte aos juros. Cortes nos juros implementados pelo BCE tornaria mais fácil o pagamento dos encargos das dívidas nacionais – principalmente se os cortes nos juros forem acompanhados pelo afrouxamento quantitativo, com o BCE comprando títulos no mercado secundário.

Além disso, a relutância do BCE em fazer cortes manteve a taxa de câmbio do euro demasiadamente fortalecida. Um câmbio mais fraco é exatamente o que a Europa precisa para começar a controlar seus problemas. Suas exportações se tornariam mais competitivas. Sua economia começaria a crescer. O crescimento tornaria mais fácil a restauração da confiança entre os países e entre os eleitoras, pré-requisito para a formação de um consenso quanto às medidas a serem adotadas.

Por fim, um afrouxamento quantitativo adicional por parte do BCE faria com que os preços começassem a subir. O custo dos produtos no Sul da Europa precisa cair em relação ao custo na Alemanha. Isto pode ser conseguido de maneira menos dolorosa por meio de uma inflação um pouco mais alta na Alemanha, somada a salários e preços mais estáveis no sul, em vez da estabilidade de salários e preços na Alemanha que implica a necessidade de cortes impossíveis nos países do sul.

Mas o BCE se recusa a adotar tais medidas. Tudo que vimos nos últimos meses foi um corte aleatório nos juros e nenhuma medida adotada com relação ao afrouxamento quantitativo. A situação se tornou tão ruim que até o Fundo Monetário Internacional, instituição que não é conhecida exatamente por sua irresponsabilidade, deseja agora medidas de resposta mais agressivas por parte do BCE.

Quando indagamos por que o BCE reluta tanto em agir, a maioria das pessoas aponta para o medo que os alemães têm da inflação. Depois da terrível experiência de hiperinflação vivida pelo país nos anos 20, os alemães temem a possibilidade de a inflação estar à espreita, aguardando o momento de atacar. Eles criaram o Banco Central Europeu à imagem do seu próprio BundesBank. Consequentemente, o BCE se recusa a fazer qualquer coisa que possa criar o mais remoto risco de inflação.

Em particular, a Alemanha rejeita todas as propostas que pedem a compra de títulos do governo por parte do BCE, temendo que isto leve à impressão de ainda mais dinheiro, incentivando os governos a burlar as regras orçamentárias da UE.

E, no ambiente atual, contexto em que é a Alemanha quem dá as cartas na economia europeia, os alemães impõem seu estilo aos demais.

É neste ponto que a comparação com o Brasil se torna interessante. O Brasil também tem uma história de alta inflação – ainda mais próxima do que a da Alemanha, já que foi vivenciada em primeira mão pelos brasileiros ainda vivos. O Brasil tem também uma história de governos estaduais que burlam as regras orçamentárias. Mas o Banco Central do Brasil se sentiu livre para cortar os juros acentuadamente na desaceleração atual, como deveria fazer um banco central competente.

Diferentemente do BCE, o BCB não foi inibido pela história de inflação do Brasil e seguiu práticas adequadas para uma instituição de seu tipo.

Por que tal diferença? Suspeito que os alemães tenham tamanha fobia da inflação – a ponto de colocar em risco sua moeda única – porque a sabedoria popular alemã diz que a inflação causou o colapso da República de Weimar, o fim da democracia e a ascensão dos nazistas. Ninguém no Brasil deseja ver o retorno da inflação, mas a experiência inflacionária brasileira foi menos traumática, pois não levou ao colapso do sistema político.

O único problema é que a sabedoria popular alemã está errada. Os estudos modernos concordam que não foi a hiperinflação dos anos 20, e sim a Grande Depressão e o alto desemprego dos anos 30 que fomentaram o apoio político aos nazistas. Ao exigir do BCE que apague imediatamente todas as fagulhas de inflação – algo que, no ambiente atual, só agrava o desemprego – a Alemanha está portanto alimentando justamente o problema do extremismo político que o pais tanto teme.

Não será fácil contrariar a sabedoria popular alemã, algo que, por sua vez, não nos dá muita esperança de uma solução amena para a crise da zona do euro. Mas, no Brasil, a situação é mais alegre. Os brasileiros aprenderam a lição certa com sua própria crise inflacionária.


Fortalecer as regras fiscais sob as quais os governos estaduais operam. Dar ao banco central independência estatutária. E então se afastar para que o banco central possa fazer seu trabalho.



A natureza da estagnação brasileira



Por José Luis Oreiro - Valor 30/07

Os dados divulgados recentemente pelo Banco Central confirmam a continuidade do estado de semi-estagnação da economia brasileira que eu havia mencionado num artigo publicado em janeiro deste ano no Valor ("O retorno à semi-estagnação"). Naquela ocasião eu havia argumentado que essa semi-estagnação era o resultado de um processo de natureza estrutural que vem se desenvolvendo na economia brasileira nos últimos anos, ou seja, a desindustrialização.

Dessa forma, o retorno a taxas de crescimento mais robustas exigem a adoção de políticas que induzam a mudança estrutural da economia brasileira com vistas ao aumento da participação da indústria de transformação no PIB. As políticas keynesianas tradicionais de estímulo a demanda agregada não são a forma mais adequada de se induzir esse processo, pois o problema fundamental da economia brasileira atualmente não é "encher de ar quente um balão semi vazio", mas sim mudar a natureza do material usado na confecção do mesmo. Em outras palavras, o problema fundamental de nossa economia é mudar a composição da demanda agregada em direção a bens tradeables, em vez de aumentar ainda mais o nível de demanda. A validade dessa afirmação fica comprovada pela simples inspeção da figura ao lado.

Nessa figura observamos a evolução da média móvel dos últimos 12 meses da taxa de desemprego (RM) e do grau de utilização da capacidade produtiva da indústria entre fevereiro de 2004 e abril de 2012. No início do período em consideração o grau de utilização da capacidade produtiva era relativamente baixo e a taxa de desemprego era bastante elevada.

Nessas condições, a economia brasileira operava como um "balão semi-vazio" de tal forma que o problema econômico fundamental era criar demanda agregada para induzir um maior nível de utilização tanto do capital como da força de trabalho. Isso foi obtido por intermédio da adoção de um modelo de crescimento do tipo "finance-led" no qual a expansão do crédito bancário, aliada a um aumento moderado da renda salarial, estimula um forte crescimento dos gastos de consumo das famílias, gerando assim a demanda agregada requerida para viabilizar um uso mais intenso dos recursos produtivos existentes.

O problema é que esse modelo de crescimento dá sinais inequívocos de esgotamento. Com efeito, no período analisado constata-se uma tendência de redução da taxa de desemprego e de aumento do grau de utilização da capacidade produtiva. Apesar da desaceleração recente do crescimento, essas variáveis encontram-se em patamares tais que é pouco provável a continuidade do crescimento por intermédio da simples expansão da demanda de consumo. Dificilmente a taxa de desemprego poderá cair muito abaixo de 5% da força de trabalho, além do que um grau de utilização da capacidade produtiva em torno de 82 a 85% parece ser o nível "normal" de longo prazo. Sendo assim, o espaço para a continuidade do crescimento com base na expansão da demanda de consumo é muito restrito.

A retomada do crescimento em bases sustentáveis exige um aumento combinado da capacidade produtiva e da taxa de crescimento da produtividade do trabalho. Isso pode ser obtido se a demanda agregada for direcionada para aquele setor de atividade econômica que é a fonte dos retornos crescentes de escala e do progresso tecnológico na economia, qual seja, a indústria de transformação. Isso exige que a política econômica seja mudada com o objetivo de produzir uma mudança na composição da demanda agregada, reduzindo-se participação do consumo e aumentando-se a participação do investimento na demanda agregada. Para tanto, é necessária a continuidade do processo de desvalorização da taxa de câmbio, uma redução maior do custo do capital e um aumento significativo do investimento público em infraestrutura.

Estimular o consumo por intermédio de reduções semi-permanentes de impostos e estímulos ao aumento do endividamento das famílias são contrários ao que se deve fazer para restabelecer o dinamismo da economia brasileira. Cabe à presidente Dilma Rousseff a tarefa de ouvir as vozes daqueles que, embora critiquem a política econômica do seu governo, estão no mesmo campo político-ideológico que ela, a saber o novo-desenvolvimentismo.



José Luis Oreiro é professor do departamento de economia da Universidade de Brasília. E-mail: joreiro@unb.br.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tv on line

GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 1


GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 2


GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 3



GUSTAVO LOYOLA E PAULO SKAF FALAM SOBRE AS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS BRASILEIRA - PARTE 4




O programa Tema Quente, da Rede TV, convidou o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, para falar sobre as perspectivas da economia brasileira.

SONORA

*PAULO SKAF, presidente da Fiesp;

*GUSTAVO LOYOLA, ex-pres. do BC;

MENÇÃO

*DILMA ROUSSEFF, pres. da República;

TV: REDE TV
PROGRAMA: REDE TV NEWS
APRESENTADOR: APRESENTADOR

IMPORTAÇÃO DE GASOLINA BATE RECORDE  TEMPO: 00:01:00


Sem etanol suficiente e com a disparada no consumo o Brasil teve que aumentar e muito a importação da gasolina em 2012. Em comentário ao Jornal das Dez o jornalista, Dony de Nuccio, falou sobre o consumo de gasolina no Brasil.
SONORA
*DONY DE NUCCIO, jornalista

TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: JORNAL DAS DEZ
APRESENTADOR: MARIANA GODOY





Do descolar ao naufrágio



Por Ernesto Lozardo - Valor 27/07

Na década passada, os países emergentes tiveram maior participação na produção global: registraram um aumento de 20% para 34%. Trata-se de um feito memorável. Nesse mesmo período, os países desenvolvidos - Estados Unidos, União Europeia e Japão - reduziram sua participação de 71% para 57%. Constatou-se uma assimetria de 14 pontos percentuais entre os emergentes e os desenvolvidos na produção global. Os países emergentes cresceram em média quatro pontos percentuais acima dos desenvolvidos. Diante desses fatos, alguns especialistas deduziram que a dependência dos emergentes em relação ao crescimento econômico dos países desenvolvidos havia chegado ao fim. Nomeou-se esse feito de descolar ou decoupling.

A ideia do descolar pressupõe que o crescimento dos países emergentes rompeu as vinculações econômicas com a conjuntura dos países desenvolvidos. No entanto, a história econômica prova que, quando os países desenvolvidos crescem, aumenta a demanda por importações de bens e serviços. Nesse aspecto, os países que puderem suprir essas necessidades expandem suas exportações e estimulam seus investimentos, o nível de emprego e o crescimento.
A globalização dos mercados de produção tem favorecido o crescimento econômico dos países emergentes. Há décadas os países do Leste Asiático norteiam o processo de desenvolvimento nacional para a modernização da estrutura produtiva por meio da abertura econômica. Em 1978, a China representou 0,8% das exportações globais; em 2010, atingiu 10,4%. Em 1978, os emergentes representaram 19% das exportações globais; em 2010, alcançaram 42%. Esses resultados constituem o ponto de partida para analisar a fragilidade do pressuposto sobre o decoupling do crescimento dos países emergentes.

Os Estados Unidos e os países da União Europeia, desde 1992 até 2007, cresceram, em média, 3% e 2,5% ao ano, respectivamente. Esse fato estimulou o crescimento do comércio global. Nessas duas regiões, a demanda de recursos para investimentos, o aumento da demanda e a necessidade de financiamento do déficit em conta-corrente foram supridos, em grande parte, pelas exportações de bens de consumo e de capital da China.

Em 2011, no comércio internacional, as exportações e importações chinesas totalizaram US$ 3,7 trilhões, correspondendo US$ 1,961 trilhão a exportações e US$ 1,739 trilhão a importações, o que consiste numa alta de 22% em relação ao ano anterior. Na importação de manufaturados, 60% foram utilizados para compor os produtos exportados. As exportações chinesas são direcionadas da seguinte forma: 45% para os países desenvolvidos - Estados Unidos, União Europeia e Japão; 33% para o Sudeste Asiático; 22% para outros países.

O comércio dos países do Sudeste e Leste Asiático em relação às demais economias emergentes representou 75%. Desse total, a China participou com 40%. A China, ao importar commodities dos emergentes e bens de capital e tecnologia dos desenvolvidos para atender à demanda global, estimulou as exportações dos emergentes e o crescimento global.
Enquanto a China exportou para os países desenvolvidos produtos de elevado conteúdo tecnológico (45% das suas exportações), os emergentes exportaram para a China e para o Leste Asiático commodities com baixo valor agregado. Desse modo, a China tornou-se um país formador de preços, e os emergentes tomadores de preços internacionais. Em face da elevada competitividade dos produtos chineses nos mercados dos países desenvolvidos, os emergentes passaram a depender do crescimento chinês. A dinâmica das exportações e o crescimento econômico chinês têm sido o fio condutor da prosperidade dos países emergentes. O suposto decoupling dos emergentes - América Latina, África, Oriente Médio e os países Sudeste Asiático - mudou-se para a China, porém todos dependem da conjuntura dos desenvolvidos. Mesmo assim, a estrutura de produção desses países permanece a mesma: fornecedores de matérias-primas e de produtos de baixo valor agregado para os Asiáticos e estes exportadores de produtos de maior conteúdo tecnológico para os países desenvolvidos. Ao fechar o círculo da dependência econômica conclui-se que: o crescimento dos emergentes depende das perspectivas econômicas dos desenvolvidos.

O descolamento é inconsistente com os fundamentos da globalização, pois nele encontra-se o capitalismo interconectado e interdependente entre as nações do Norte e as do Sul. Essa interdependência representa o sopro da esperança para reduzir as discrepâncias da renda por habitante, tecnológicas e institucionais entre as nações desenvolvidas e emergentes. Caso a crise dos países desenvolvidos se agrave, a economia internacional crescerá menos que 3,0% até o final desta década. O comércio chinês que já expandiu acima de 20% ao ano, ficará abaixo de 10% e o seu produto, que já cresceu 12% ao ano, deverá permanecer abaixo de 8% ao ano. Neste mundo de relações globais, com o prolongamento da crise financeira global, nenhum país sairá ileso, e muitos naufragarão.



Ernesto Lozardo é professor de Economia da EAESP-FGV, autor do livro Globalização: a certeza imprevisível das nações (2.ª edição. Editora do Autor, 2008)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A cura para a síndrome do Lehman



Por Martin Sandbu - Valor 26/07

A maneira como os desequilíbrios da zona do euro estão sendo corrigidos está envenenando a solidariedade que a união monetária costumava ter. É que causa certo desconforto o fato desses desequilíbrios terem sido causados por investidores privados. Quando o dinheiro fluiu, por exemplo, da Alemanha para a Espanha ou para a Irlanda, isso ocorreu entre gestores de bancos de poupança, companhias seguradoras e fundos de pensão alemães e bancos irlandeses e espanhóis.

A atual crise da dívida decorreu também de decisões de investimento privadas que podem fazer sentido individualmente, mas são coletivamente irracionais. Os políticos são incapazes de solucionar a crise porque sucumbiram à mesma irracionalidade.

Na primeira década do euro esses investidores privados canalizaram enormes fluxos do núcleo mais rico, mais antigo e mais poupador para uma periferia pobre e mais jovem que pareceu oferecer melhores oportunidades para investimentos. Na prática, eles apenas ofereceram tomadores de empréstimos mais vorazes.

Os investidores estão agora tentando reverter esses fluxos. A seca do crédito na periferia; rendimentos anormalmente altos em alguns países e anormalmente baixos em outros; a reestatização do sistema bancário europeu - são, todos, sintomas do empenho dos credores de países superavitários no sentido de repatriar os créditos que acumularam sobre os devedores radicados nos países deficitários.

Mas isso é impossível. Mesmo que a carteira de créditos de qualquer investidor individual - de títulos do governo grego, digamos, ou de dívidas de bancos espanhóis - tenha liquidez, (ou seja, possa ser trocada por seu valor em dinheiro), isso não é verdade para a classe de investidores como um todo. Essa é uma característica geral de mercados financeiros, e não apenas de investimentos inter nações. No âmbito de uma única economia fechada, os titulares de depósitos bancários podem, individualmente, retirar seu dinheiro quando quiserem. Mas se todos os poupadores tentarem zerar suas contas bancárias ao mesmo tempo, assim como no filme "It's a Wonderful Life", de Frank Capra, descobrirão que seus recursos "líquidos" estão cimentados em casas construídas sobre hipotecas financiadas por seus depósitos.

O mesmo acontece na zona do euro. Poupadores alemães, franceses ou outros podem ter contas bancárias, pensões, apólices de seguros. A realidade econômica é que suas poupanças estão incorporadas a edifícios irlandeses ou espanhóis de pequeno valor ou vinculados a inflacionados salários gregos do setor público consumidos anos atrás. Esses créditos não podem ser resgatados. Na melhor das hipóteses, eles podem, com o passar do tempo, ser honrados - mas somente se o crescimento retornar aos devedores.

O pânico entre os investidores produz o oposto. Eles não têm como repatriar o capital investido ou consumido, mas sua tentativa de fazê-lo implicou uma parada abrupta de novos financiamentos. A necessidade da periferia de reduzir os déficits em conta corrente de forma igualmente abrupta é a principal causa das recessões. Ao recusarem-se a conceder novos financiamentos, os investidores estão arruinando suas chances de recuperar seus próprios investimentos.
O que podem fazem as autoridades? Sua melhor esperança é que os mercados financeiros desistam de uma ruína coletiva. Mas esperança não é política de governo. Se desejam influenciar os acontecimentos, os líderes da zona do euro podem comprar ativos de investidores privados determinados a fugir - ou administrar as consequências. O primeiro equivale a um seguro sobre depósitos em uma corrida a bancos.

Isso foi tentado na Europa, timidamente. Fundos de socorro, refinanciamento e recompras de títulos pelo Banco Central Europeu e balanços patrimoniais de bancos centrais em crescimento acelerado não constituem novas exposições do centro à periferia, mas, sim, substituição de credores privados por públicos. Em escala muito menor do que aquela que poderia fazer diferença, esses socorros a credores privados dos países principais atingiram os limites políticos.

Isso deixa uma opção: uma reestruturação organizada dos créditos que os investidores insistem, impossivelmente, em cobrar de uma só vez. Isso foi feito na Grécia e o mundo não acabou (mas um desconto contábil excessivamente pequeno, feito tarde demais, também não solucionou o problema). Dublin reestruturou a dívida bancária júnior e credores não garantidos, na Dinamarca, aceitaram receber com deságio.

Apesar disso, as autoridades econômicas na zona euro consideram os descontos em relação ao valor de face da dívida como um anátema. Eles sofrem da "síndrome do Lehman": um temor de que a reestruturação (das dívidas) seja apocalíptica. Mas há razões para julgar que isso é exatamente o que necessitam as economias em ressaca pós-booms de crédito. Os investidores poderiam voltar e com eles o crescimento - se não precisarem temer ficar no fim de uma fila de credores. E a reestruturação da dívida privada ou subnacional pouparia de sofrimento os contribuintes nacionais do fisco sem condições de quitar todas as dívidas de outros.

A zona do euro poderá terminar chegando a esse ponto. Quando for eliminado tudo o que é politicamente impossível, o que sobrar, não importa quão desagradável, deverá ser uma política melhor. (Tradução de Sergio Blum)



Martin Sandbu é articulista do FT


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ilhas de isolamento



Por Guy Sorman - Valor 25/07

Os japoneses e os britânicos podem parecer muito diferentes, mas um olhar mais atento revela algo como um destino paralelo nesses dois povos insulares. Com suas velhas ambições imperiais e indiferença generalizada pelo grandes continentes dos quais são apartados pelos mais estreitos dos mares, tanto britânicos como japoneses são vulneráveis ao canto da sereia do isolacionismo. Infelizmente, agora parecem estar sucumbindo a essa tentação perigosa.

Talvez geografia seja destino. Como ilhéus, britânicos e japoneses mantiveram relações cautelosas com - e muitas vezes um complexo de superioridade em relação a - seus grandes vizinhos continentais, Europa e China, respectivamente. Ambos, historicamente, compensaram seu isolamento com fortes governos centrais, poderosas marinhas, dinâmico empreendedorismo, vibrante cultura e ambição imperial.

Hoje, o Japão e o Reino Unido são, supostamente, sociedades abertas, e partícipes no processo de globalização. Na realidade, ambos permanecem predominantemente introspectivos e preocupados com a desintegração de sua cultura original. Ambos tentam desesperadamente manter os imigrantes a distância, quer por meio de segregação cultural no Reino Unido ou, no caso do Japão, mediante rejeição pura e simples. Quanto mais civilizações tornam-se entrelaçadas na nova ordem mundial, mais os japoneses e britânicos ficam tentados a permanecer indiferentes e distantes.

No Japão, a tentação isolacionista é expressa na nostalgia atual pelo período Edo, de 1600-1868, antes de o imperador Meiji ter aberto o Japão para o mundo. O "Retorno a Edo" tornou-se um estado de espírito dominante e tema de debates públicos, promovidos por escritores, analistas e historiadores, como Inose Naoki (também vice-prefeito de Tóquio), para os quais os japoneses eram muito mais felizes em seu mundo fechado, isolado da perseguição de sucesso material e status internacional.

Esse discurso de "Regresso a Edo" se traduz na recusa de jovens japoneses a aprender línguas estrangeiras ou viajar ao exterior. Com efeito, na Europa, América do Norte e em outros lugares, os onipresentes turistas japoneses da década de 1970 foram substituídos por chineses e coreanos. O número de japoneses que estudam no exterior está em nova baixa, exatamente no momento em que sul-coreanos e chineses estão enxameando nas universidades europeias e americanas. Até mesmo nas grandes universidades, de Harvard a Oxford, diminui a presença de estudantes japoneses.

Nesse aspecto, os ingleses estão imitando intensamente os japoneses: cada vez menos estão aprendendo línguas estrangeiras, estudando no exterior e seguindo o velho caminho de trabalhar em Hong Kong, Singapura ou Austrália. Tão prevalente é o clima de "pequena Inglaterra", que o governo do primeiro-ministro David Cameron está agora tentado a realizar um referendo para perguntar aos britânicos se desejam permanecer no seio da União Europeia, uma votação cujos riscos até mesmo a arquieurocética Margaret Thatcher nunca assumiu.

A perspectiva de um referendo reflete o clima generalizado entre os conservadores, que às vezes mencionam a Noruega - um membro não pertencente à UE cujo principal papel nos assuntos globais é a atribuição do Prêmio Nobel da Paz - como modelo para o papel do Reino Unido no mundo. Sabemos que a Noruega tem a renda per capita mais alta do mundo. Mas esse não é o padrão relevante contra o qual o Reino Unido ou outros países ocidentais deveriam comparar-se, porque a Noruega tem uma população pequena, homogênea e possui vastos - e bem administrados - recursos naturais.

Se consultados num referendo, os britânicos poderão abandonar a UE, da qual nunca gostaram. Isso teria como consequência não intencional fortalecer os federalistas no Continente, acelerando, assim, a integração dinâmica que os britânicos agora querem deter.

Com efeito, os britânicos sairiam exatamente no momento em que a Islândia, Sérvia, Turquia e Ucrânia, apesar da atual crise europeia, estão tentando entrar. E embora a zona do euro possa estar em crise, a Polônia, entre outros, continua querendo aderir em futuro próximo. Os britânicos podem torcer seu nariz diante do euro - ao qual até mesmo o supostamente independente franco suíço é atrelado - mas a moeda quase certamente continuará sendo usada por quase 300 milhões de europeus.

Isolacionismo, seja no Japão ou no Reino Unido, não é apenas uma opção míope, especialmente para o Japão, como pode também ser perigosa, dada a ascensão da vizinha China. Tanto o Japão como o Reino Unido, por mais que não queiram admiti-lo, dependem do mercado mundial. O isolacionismo deixaria seus cidadãos despreparados para enfrentar a concorrência e excluiria seus governos das decisões que impactam a economia e o comércio mundial. E o isolacionismo também não pode garantir a segurança nacional num momento de crescentes ameaças de grupos terroristas e de crescentes ambições da China e da Rússia.

A nostalgia da era Edo no Japão e a sedução do modelo norueguês no Reino Unido não são escolhas racionais. Elas simplesmente canalizam os temores nacionais num momento de competição mundial entre culturas, economias e ambições estratégicas emergentes.

Por vezes, nações, como pessoas, ficam fatigadas e anseiam por sua juventude idealizada - um fenômeno recorrente que os historiadores denominam "declinismo". Quer usemos esse rótulo ou digamos tratar-se de um desejo de "tirar férias da história", o Japão e Reino Unido hoje parecem estar optando por um caminho que somente acelerará seu declínio. (Tradução de Sergio Blum).



Guy Sorman, filósofo e economista francês, é o autor de "Economics Does Not Lie" (a economia não mente). Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org
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terça-feira, 24 de julho de 2012

Carta Maior - Blog das Frases - O "novo normal"

Carta Maior - Blog das Frases - O "novo normal"

O Brasil é manipulador de câmbio?



Por Antonio Delfim Netto - Valor 24/07

Este é um bom momento para lembrar como a introdução de um pouco mais de cuidado e realismo corrige as conclusões que se extraem automaticamente de modelos abstratos. Todos lembram a crítica feroz que sofreu o governo brasileiro quando sugeriu: 1) que existia uma espécie de "guerra cambial"; e 2) que o problema da subvalorização prolongada de algumas moedas (particularmente o yuan) deveria, sim, ser discutido na Organização Mundial de Comércio (OMC), uma vez que o FMI não tinha nenhum poder para fazer valer o seu papel de "vigilante" dos desequilíbrios fundamentais dos balanços em conta corrente. A surpreendente resposta do sistema financeiro internacional foi atacar o Brasil, por "exagerar na manipulação da sua moeda"!

A lição vem de um interessante e meticuloso trabalho do economista J.E.Gagnon, "Combating Widespread Currency Manipulation" (Peterson Institute for International Economics, Policy Brief 12-19, July 2012). O autor começa reconhecendo que, "ainda que as manipulações cambiais para aumentar o balanço comercial de um país sejam uma violação dos artigos do acordo que instituiu o Fundo Monetário Internacional (FMI), não existe, na prática como puni-lo". E continua: "O melhor fórum para produzir sanções contra as manipulações cambiais é a Organização Mundial do Comércio (OMC), em consulta com o FMI. Os países prejudicados por tais manipulações devem ser autorizados a impor tarifas alfandegárias às importações dos países manipuladores".

Uma curiosa sugestão de Gagnon é a alternativa de "taxar ou restringir a compra pelos países manipuladores de ativos financeiros dos EUA e da zona do euro", o que dificultaria e aumentaria os custos e os riscos da acumulação de reservas.
O importante no trabalho é a pergunta preliminar do autor: o que é, afinal, uma manipulação cambial? Ele formula uma definição cuidadosa: "Ocorre uma manipulação cambial quando um governo compra ou vende a moeda estrangeira para colocar a taxa cambial longe do seu equilíbrio, ou impedir que ela se mova para atingir aquele equilíbrio". E como ele define a "taxa de equilíbrio"?

"É aquela que é sustentável no longo prazo, ou seja, em que o balanço em conta corrente não está gerando aumento explosivo dos ativos estrangeiros líquidos relativamente à riqueza interna e externa. A sustentabilidade geralmente implica um pequeno valor para o balanço em conta corrente. Entretanto, as economias em rápido crescimento podem manter déficits em conta corrente, na medida em que seus passivos não cresçam mais do que o seu PIB e que tal passivo seja relativamente pequeno com relação aos passivos totais do mundo".

Que características têm que ter uma economia para ser considerada uma "manipuladora de câmbio"? O autor estabelece três condições que devem ser simultaneamente satisfeitas para que isso ocorra:

1) o país deve ter reservas externas que superem seis meses do valor de suas importações de bens e serviços;

2) o país deve ter tido, na média de 2001-2011, um balanço em conta corrente, como percentagem do PIB, maior do que zero. O autor exclui a possibilidade que o país possa estar tentando apenas reduzir o seu déficit em conta corrente;

3) o país deve ter visto crescer a relação reserva/PIB nos últimos dez anos.

Os países de "baixa renda" são excluídos da análise pelo princípio que eles devem ter maior liberdade do que os outros para implementar políticas de desenvolvimento, que podem ter externalidades negativas. Examinando os restantes países-membros do FMI e da OMC, J.E.Gagnon identifica 20 que satisfazem, simultaneamente, às condições para serem classificados como "manipuladores de câmbio". Ele os divide em quatro grupos:

1) velhas economias desenvolvidas, como Japão e Suíça;

2) novos países industrializados, como Israel, Cingapura e Taiwan;

3) os países asiáticos em desenvolvimento, como China, Malásia e Tailândia;

4) países exportadores de petróleo, como Argélia, Rússia e Arábia Saudita.

Para tristeza de alguns de nossos economistas, o Brasil não é classificado como "manipulador" por lhe faltar a condição "2" acima. Não acontece o mesmo com a Argentina, com a qual temos, não sem alguma razão, exercido uma paciência chinesa.

O Brasil talvez tenha exagerado, mas não mentiu: 1) uma certa "guerra cambial" existe; 2) é preciso mesmo envolver a combinação FMI-OMC (câmbio e tarifa) para enfrentá-la e restabelecer o equilíbrio do comércio internacional; e 3) cometeu apenas pecado venial. Salvou-se do pecado capital da "manipulação" por uma análise mais profunda e cuidadosamente isenta do viés antigoverno que continua a dominar alguns de nossos analistas.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A união bancária na Europa



Por Jairo Saddi - Valor 23/07

Herman van Rompuy foi na adolescência um fã ardoroso de Elvis Presley. "If I can dream", célebre canção de Earl Brown escrita especialmente para Elvis, por volta de 1968, afirma a certa altura que "estamos perdidos numa nuvem espessa de chuva, estamos presos num mundo perturbado pela dor" ("We're lost in a cloud / with too much rain / we're trapped in a world / that's troubled with pain"). Nada mais profético para o atual adulto Herman van Rompuy, belga que hoje ocupa a presidência do Conselho Europeu, órgão executivo (mas não legislativo), que, por força do Tratado de Lisboa, de 1º de dezembro de 2009, define as orientações e prioridades políticas gerais da União Europeia.

No fim do mês passado, Rompuy preparou um relatório intitulado "Rumo a uma verdadeira união econômica e monetária", em que procura apresentar o que denominou de uma "visão para o futuro" da Europa, com o objetivo de "contribuir para o crescimento, o emprego e a estabilidade". Para sua elaboração, baseou-se em temas financeiros, questões orçamentárias fiscais e políticas econômicas. Na área financeira, defende uma supervisão bancária, um sistema de seguro de depósito e um arcabouço regulamentar supranacional, com o objetivo de enfrentar a gravíssima crise de confiança bancária que assola a Europa.

O relatório é mais amplo. Há quatro elementos nas suas premissas: a) um quadro financeiro integrado para garantir a estabilidade financeira na área do euro - tema deste artigo -; b) uma política orçamentária consolidada com metas fiscais e emissão comum de dívida; c) uma política econômica integrada; d) mudanças no processo decisório político, sem afetar os princípios basilares de democracia e soberania já existentes. Como os outros temas são ainda mais polêmicos e distantes, o foco do debate acabou por se centrar na discussão da união bancária e de suas premissas organizadoras
Sob o manto de um "quadro financeiro integrado", a União Bancária Europeia parte de três pressupostos centrais. Primeiro, aprender lições com a crise financeira atual, que demonstrou deficiências estruturais no quadro institucional da estabilidade financeira na área do euro, conforme o relatório, "atendendo à acentuada interdependência resultante da moeda única". Segundo, o regulador a implementar essa União deve estar ligado ao Banco Central Europeu (BCE) e ao European Banking Authority (EBA), instituições já existentes e reguladoras, mas que, por exemplo, ainda não têm qualquer competência de supervisão. Finalmente, não há qualquer intenção de a União Bancária Europeia não abranger a unidade e a integridade do mercado único no domínio dos serviços financeiros de todos os Estados-membros.

Todas as demais consequências de uma União Bancária daí decorrem: arsenal único de regras, supervisão bancária única e quadro comum de garantia de depósitos e de resolução, mesmo que, em cada caso, possa existir uma vertente europeia e uma vertente nacional, sendo a vertente europeia a última instância de responsabilidade.

Inicialmente, o tema da supervisão apresenta dificuldades formidáveis. Não há qualquer garantia de que um sistema como esse assegure a eficácia da supervisão dos bancos em todos os Estados-membros. A redução da probabilidade de falência dos bancos espanhóis, por exemplo, maior desafio atual, depende muito mais da concordância de países como a Alemanha do que da adesão unânime dos chamados países periféricos, e construir fundos conjuntos para garantia de depósitos pode ser uma conta inviável, estimada por Simon Samuels, analista do Barclays, em cerca de US$ 14 trilhões. Medidas de resolução prudencial dos bancos sujeitos à supervisão europeia, "a fim de [realizar] uma liquidação ordenada de instituições não viáveis e desse modo proteger os fundos dos contribuintes", também estão sujeitas aos regimes jurídicos locais e aos diferentes sistemas judiciários, que têm poucos denominadores em comum.

Outra proposta na mesma seara é o recém-criado "Mecanismo Europeu de Estabilidade", que poderá constituir a rede de segurança orçamental para a autoridade de garantia de depósitos e de resolução, passo inicial para a União Bancária. Aqui, enquanto as intenções parecem melhores, a construção é igualmente problemática. Por exemplo, qual país aceitaria reduzir políticas de crédito habitacional em épocas de crise (e de ativos deprimidos) em prol de uma estabilidade coletiva distante e cujo resultado pode afetar votos eleitorais incertos? Ou, ainda, será que países como a Inglaterra, que exportam serviços financeiros (e, portanto, regulatórios), estão dispostos a abrir mão de receitas para favorecer o bem comum?

Como diria Elvis, na canção apreciada por Rompuy, para questões como as que a união bancária apresenta: "No fundo do meu coração há uma pergunta ansiosa; mas estou certo de que a resposta virá de alguma forma".



Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, professor de Direito do Insper

Euro e a síndrome de Estocolmo



Por Henrique Forno e Márcio Araujo e Rubens Teixeira - Valor 23/07

A síndrome de Estocolmo, em termos simples, é um estado psíquico em que uma pessoa, vítima de algum tipo de submissão tal como o sequestro, passa a se identificar e a aceitar os atos do seu opressor. Trata-se, aparentemente, de um processo inconsciente por parte do indivíduo cativo. A origem do termo vem de um fato real ocorrido em agosto de 1973 na cidade sueca de Estocolmo, no qual as vítimas de um assalto passaram a justificar os atos de seus captores, mesmo depois de sua libertação, após seis dias de confinamento.

Sabe-se há algum tempo que o comportamento psíquico do ser humano afeta suas decisões por meio de processos que não passam inicialmente pela análise racional. Vários pesquisadores buscam aplicar na área da ciência econômica tais percepções. No estudo das decisões de gasto dos indivíduos, por exemplo, há espaço para contribuições provenientes da psicologia, como já feito por reputados economistas, tais como Keynes. Expressões do tipo "espírito animal" e "comportamento de manada" procuram sintetizar fatores relevantes que não são facilmente incorporados a uma modelagem mais tradicional. Até mesmo a neurociência e alguns ramos mais aplicados da filosofia estudam os mecanismos de resposta do indivíduo a fatores externos e se tais mecanismos passariam ou não por um processo racional.

Onde entra a zona do euro nessa história? Para início de conversa, a própria história dos eventos que desencadearam a unificação monetária europeia é relevante nessa abordagem. O euro existe como moeda escritural desde 1º de janeiro de 1999, e como moeda física desde 1º janeiro de 2002. Pode-se dizer que foi criada como uma estratégia que visava ao lançamento de uma moeda de reserva internacional, concorrendo com o dólar americano. Pressupõe-se, com isso, que o sucesso dessa estratégia deveria trazer benefícios no longo prazo que superariam as restrições associadas à renúncia de parte da soberania que os diferentes países participantes sofreriam.

Uma consequência da criação do euro foi o retorno dos efeitos de um sistema de câmbio semifixo existente na Europa até o ano de 1992. A necessidade de atrair capitais para financiar a reunificação alemã de 1990 fez com que o Bundesbank aumentasse significativamente suas taxas de juros, tornando insustentável a manutenção desse tipo de câmbio entre os países da região. O euro traria de volta não apenas um câmbio semifixo, mas um câmbio fixo de fato. Com a posterior redução da taxa de juros, os capitais voltaram a fluir para os países da periferia do euro, por meio não apenas de investimento direto, mas também de endividamento.

A estratégia parecia agradar a todos: aos alemães, que tinham feito um pacto trabalhista interno, segurando a transferência dos ganhos de competitividade para os salários, e com isso ganhando mercado para seus produtos industriais no mercado doméstico europeu, e para os outros países, que puderam comprá-los e se financiar com taxas de juros que traduziam um risco de crédito quase que germânico, experimentando um convidativo acréscimo em seu padrão de vida.

O que deu errado? A crise americana de 2008? A pergunta não coloca bem o problema, pois em um sistema de acumulação capitalista, em especial com forte viés financeiro, espera-se que ocorram ciclos, flutuações e crises. Minsky já escreveu sobre isso, explicando a natureza intrinsecamente instável desse sistema.

Talvez a pergunta correta fosse: o que é necessário para o bom funcionamento de uma economia com assimetrias internas importantes, em especial quanto ao grau de desenvolvimento?

O economista Kenneth Rogoff, em artigo recente ("O risco da moeda europeia"), fez um mapeamento, recordando-nos dos principais requisitos para esse bom funcionamento, alguns deles já descritos por Robert Mundell na década de 1960: livre mobilidade de mão de obra e de capitais, existência de um sistema de transferência fiscal e regras claramente definidas em relação ao emprestador de última instância, não apenas para os bancos, mas também para Estados e municipalidades. Um país como o Brasil, ou os Estados Unidos, possuem em maior ou menor grau esses requisitos, a comunidade do euro não os construiu.

Dado esse diagnóstico, fica a pergunta: qual a vantagem para um país da periferia do euro em continuar na moeda única? Se sua condição desfavorecida em termos de competitividade não pode ser compensada por mecanismos previstos em um acordo e se, por outro lado, também não dispõe de um mecanismo cambial para o acerto de suas condições de troca, qual o benefício em se manter na moeda? Se esse diagnóstico está correto, uma inferência a que podemos chegar é a de que os países periféricos da zona do euro são prisioneiros da moeda. O possível ganho no longo prazo de fazer parte de uma comunidade que emite moeda de reserva internacional não parece ser suficiente face aos sacrifícios que a população desse país terá que passar. Os noticiários mostram apenas o começo das dificuldades pelas quais já passam países como Irlanda, Grécia, Portugal, Itália e Espanha, isso fora a pecha de receberem a denominação de "PIIGS".

Quando líderes de países da periferia aceitam o receituário dado pela troica (FMI, BCE e Comunidade Europeia), pode-se supor que há uma indefinição quanto ao verdadeiro desejo de suas populações. Quando referendos confirmam o desejo dessas populações em permanecer na moeda única, mesmo com o preço alto que isso possa representar, podemos imaginar a situação do preso que começa a tentar entender os motivos do seu algoz e a racionalizá-los, justificando-os. Talvez o campo preferencial para esse tipo de análise esteja mais para uma psicologia das massas do que para uma economia que ainda se vangloria das virtudes da racionalidade.



Henrique Dezemone Forno, Márcio Silva de Araujo e Rubens Teixeira da Silva são doutores em economia.