segunda-feira, 23 de julho de 2012
Euro e a síndrome de Estocolmo
Por Henrique Forno e Márcio Araujo e Rubens Teixeira - Valor 23/07
A síndrome de Estocolmo, em termos simples, é um estado psíquico em que uma pessoa, vítima de algum tipo de submissão tal como o sequestro, passa a se identificar e a aceitar os atos do seu opressor. Trata-se, aparentemente, de um processo inconsciente por parte do indivíduo cativo. A origem do termo vem de um fato real ocorrido em agosto de 1973 na cidade sueca de Estocolmo, no qual as vítimas de um assalto passaram a justificar os atos de seus captores, mesmo depois de sua libertação, após seis dias de confinamento.
Sabe-se há algum tempo que o comportamento psíquico do ser humano afeta suas decisões por meio de processos que não passam inicialmente pela análise racional. Vários pesquisadores buscam aplicar na área da ciência econômica tais percepções. No estudo das decisões de gasto dos indivíduos, por exemplo, há espaço para contribuições provenientes da psicologia, como já feito por reputados economistas, tais como Keynes. Expressões do tipo "espírito animal" e "comportamento de manada" procuram sintetizar fatores relevantes que não são facilmente incorporados a uma modelagem mais tradicional. Até mesmo a neurociência e alguns ramos mais aplicados da filosofia estudam os mecanismos de resposta do indivíduo a fatores externos e se tais mecanismos passariam ou não por um processo racional.
Onde entra a zona do euro nessa história? Para início de conversa, a própria história dos eventos que desencadearam a unificação monetária europeia é relevante nessa abordagem. O euro existe como moeda escritural desde 1º de janeiro de 1999, e como moeda física desde 1º janeiro de 2002. Pode-se dizer que foi criada como uma estratégia que visava ao lançamento de uma moeda de reserva internacional, concorrendo com o dólar americano. Pressupõe-se, com isso, que o sucesso dessa estratégia deveria trazer benefícios no longo prazo que superariam as restrições associadas à renúncia de parte da soberania que os diferentes países participantes sofreriam.
Uma consequência da criação do euro foi o retorno dos efeitos de um sistema de câmbio semifixo existente na Europa até o ano de 1992. A necessidade de atrair capitais para financiar a reunificação alemã de 1990 fez com que o Bundesbank aumentasse significativamente suas taxas de juros, tornando insustentável a manutenção desse tipo de câmbio entre os países da região. O euro traria de volta não apenas um câmbio semifixo, mas um câmbio fixo de fato. Com a posterior redução da taxa de juros, os capitais voltaram a fluir para os países da periferia do euro, por meio não apenas de investimento direto, mas também de endividamento.
A estratégia parecia agradar a todos: aos alemães, que tinham feito um pacto trabalhista interno, segurando a transferência dos ganhos de competitividade para os salários, e com isso ganhando mercado para seus produtos industriais no mercado doméstico europeu, e para os outros países, que puderam comprá-los e se financiar com taxas de juros que traduziam um risco de crédito quase que germânico, experimentando um convidativo acréscimo em seu padrão de vida.
O que deu errado? A crise americana de 2008? A pergunta não coloca bem o problema, pois em um sistema de acumulação capitalista, em especial com forte viés financeiro, espera-se que ocorram ciclos, flutuações e crises. Minsky já escreveu sobre isso, explicando a natureza intrinsecamente instável desse sistema.
Talvez a pergunta correta fosse: o que é necessário para o bom funcionamento de uma economia com assimetrias internas importantes, em especial quanto ao grau de desenvolvimento?
O economista Kenneth Rogoff, em artigo recente ("O risco da moeda europeia"), fez um mapeamento, recordando-nos dos principais requisitos para esse bom funcionamento, alguns deles já descritos por Robert Mundell na década de 1960: livre mobilidade de mão de obra e de capitais, existência de um sistema de transferência fiscal e regras claramente definidas em relação ao emprestador de última instância, não apenas para os bancos, mas também para Estados e municipalidades. Um país como o Brasil, ou os Estados Unidos, possuem em maior ou menor grau esses requisitos, a comunidade do euro não os construiu.
Dado esse diagnóstico, fica a pergunta: qual a vantagem para um país da periferia do euro em continuar na moeda única? Se sua condição desfavorecida em termos de competitividade não pode ser compensada por mecanismos previstos em um acordo e se, por outro lado, também não dispõe de um mecanismo cambial para o acerto de suas condições de troca, qual o benefício em se manter na moeda? Se esse diagnóstico está correto, uma inferência a que podemos chegar é a de que os países periféricos da zona do euro são prisioneiros da moeda. O possível ganho no longo prazo de fazer parte de uma comunidade que emite moeda de reserva internacional não parece ser suficiente face aos sacrifícios que a população desse país terá que passar. Os noticiários mostram apenas o começo das dificuldades pelas quais já passam países como Irlanda, Grécia, Portugal, Itália e Espanha, isso fora a pecha de receberem a denominação de "PIIGS".
Quando líderes de países da periferia aceitam o receituário dado pela troica (FMI, BCE e Comunidade Europeia), pode-se supor que há uma indefinição quanto ao verdadeiro desejo de suas populações. Quando referendos confirmam o desejo dessas populações em permanecer na moeda única, mesmo com o preço alto que isso possa representar, podemos imaginar a situação do preso que começa a tentar entender os motivos do seu algoz e a racionalizá-los, justificando-os. Talvez o campo preferencial para esse tipo de análise esteja mais para uma psicologia das massas do que para uma economia que ainda se vangloria das virtudes da racionalidade.
Henrique Dezemone Forno, Márcio Silva de Araujo e Rubens Teixeira da Silva são doutores em economia.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Custo Brasil
Por Roberto Pereira D'Araujo - Valor 20/07
O tema da desindustrialização tomou conta dos debates. O "custo Brasil", com sua fartura de impostos, clama pela sempre adiada reforma tributária, mas, agora, há um novo elemento nessa conta: tarifas de energia elétrica. Nunca dantes nesse país hidroelétrico o quilowatt-hora (kWh) ficou tão caro. Alguma coisa está muito errada, pois, afinal, ele vem principalmente de energia solar e gravidade.
A Agência Internacional de Energia (AIE) registra que o Brasil tem a quarta tarifa industrial do planeta. Como mostra o estudo "Quanto Custa a Energia Elétrica no Brasil e no Mundo para o Setor Industrial" da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), comparado aos Brics, o país tem uma tarifa 134% maior do que a média da China, Índia e Rússia. Em relação aos nossos vizinhos latinos, somos 67% mais caros. Se o confronto for feito com sistemas semelhantes, tais como os de algumas províncias canadenses e alguns estados americanos1, os dados são inacreditáveis. Um carioca paga o dobro de um morador da capital canadense Ottawa e o triplo de um cidadão de Montreal ou de Washington! Um habitante enquadrado como "baixa renda" do Maranhão paga o mesmo que um morador de Nova York!
A denúncia fácil é a carga tributária, mas, no setor residencial, a Dinamarca (55%), a Noruega (33%), Áustria (28%), Itália (29%), Finlândia (30%), França (30%), Alemanha (44%)2 são exemplos de que o Brasil não é o único a taxar o kWh. Outro acusado é o câmbio, mas, para termos uma tarifa semelhante à do Canadá, país de matriz semelhante à nossa, só se o dólar valesse R$ 4,50!
Pode-se culpar o custo de capital, mas, no setor elétrico, o BNDES tem oferecido crédito subsidiado para 80% dos investimentos. Portanto, apesar da decisão de reduzir a carga tributária sobre a energia e as alterações do câmbio, é preciso examinar outras causas, além destas.
Coisas estranhas aconteceram desde a adoção do modelo mercantil. Descontratação de hidráulicas baratas para contratação de térmicas caras, aumentos de mais de 30% para as distribuidoras compensando o racionamento, parcelas da conta de luz indexadas ao IGP-M, criação de energia "de reserva", apesar de termos uma energia "assegurada", custos fixos nas contas das distribuidoras majorados, uso de geração térmica não prevista e um crescimento explosivo do mercado livre. Ali, um excêntrico sistema de preços impede saber quem vende, por quanto e quem compra, pois tudo é "estratégico". Mas, não há mágica. Se alguns pagam menos, outros pagam mais. Fechando a bizarra lista, uma proliferação de encargos, ironicamente criados após a reforma mercantil do setor.
Poderia ser pior? Bem, desde 2003, as empresas geradoras federais foram usadas para conter a explosão tarifária, iniciada em 1995. Com a retração da demanda após 20013, a descontratação compulsória das empresas pôs energia quase de graça no mercado. Obrigadas a gerar pela lógica operativa, grande quantidade de energia foi liquidada por até R$ 4/mWh (megawatt) no spot brasileiro. Onde foi parar a energia a esse preço? Certamente não conteve a explosão tarifária. Além disso, em 2004, "aliviando" a descontratação, as estatais se viram obrigadas a um leilão com entrega a preço fixo por oito anos. Uma "liquidação de longo prazo", também inédita no mundo. Como não se conseguiu vender tudo, até 2006, sobras eram "liquidadas" por preços inacreditavelmente baixos no mercado livre.
Portanto, poderia ser muito pior. Como a tarifa continua subindo, com o fim das concessões em 2015, as estatais serão novamente convocadas para conter o apetite tarifário do modelo. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), afoita com a licitação das usinas, prometeu reduções da ordem de 30%, dizendo que o consumidor "já pagou" por elas! Ora, supondo que os novos donos, altruisticamente, entregassem energia de graça, nem assim se conseguiria tal redução. São 22% do parque, que, em média, é responsável por 80% da geração total. Como a energia adquirida representa 40% da conta de luz, basta multiplicar os percentuais para ver que a redução máxima não chegaria a 7%.
O que é bizarro é que, desde 2003, não existe um kWh sendo gerado pelo regime de serviço público ou "pelo custo". Hoje, tudo é mercado.
O governo não tem como reduzir muito os impostos, já que a questão fiscal é prioritária. Assim, mesmo com a renovação das concessões, as vítimas serão, mais uma vez, as estatais, pois sofrerão redução de rentabilidade. Com a decepção do resultado, vamos ter que examinar porque, apesar de ter uma configuração totalmente singular no planeta, o país mergulhou numa reforma no seu setor elétrico à imagem e semelhança de sistemas de base térmica, tendo que adotar uma complexa adaptação.
O modelo mercantil tem custos. Theo MacGregor (Electricity Restructuring in Britain: Not a model to follow - Spectrum - IEEE May 2001) mostra que a Inglaterra, ícone do modelo mercantil, fazendo leilões reais de meia em meia hora, assumiu um custo extra de US 1,4 bilhões só para implantar a contabilização. A literatura especializada também registra avisos. Paul L. Joskow (Restructuring, Competition and Regulatory Reform in the U.S. Electricity Sector - The Journal of Economic Perspectives, Volume 11, Issue 3 1997, 119- 138) grande especialista em regulação, avalia que os modelos competitivos têm muita dificuldade em replicar as eficiências de sistemas com despacho centralizado e sinergia entre transmissão e geração, justamente o caso brasileiro.
Esse poderia ser o momento para uma boa reflexão sobre o nosso modelo elétrico.
1 www.hydro.mb.ca/regulatory_affairs/energy_rates/electricity/utility_rate_comp.shtml.
2 Electricity Information Prices and Taxes - IEA Statistics - 2012. Em geral, a taxa sobre a indústria é menor, mas a Alemanha surpreende com 29,4%, a Itália com 27,8% e a Noruega com 20%.
3 A demanda se contraiu em 15% após o racionamento.
Roberto Pereira D'Araujo é engenheiro eletricista (Master of Science, PUC-RJ), consultor, ex-membro do conselho de administração de Furnas (2003-2005).
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Crise de legitimidade das finanças
Por Simon Johnson - Valor 19/07
A recente saída de Robert Diamond do Barclays é um divisor de águas. Sem dúvida, executivos-chefes de grandes bancos já foram forçados a deixar seus cargos no passado. Chuck Prince perdeu o emprego no Citigroup por ter assumido riscos excessivos no período prévio à crise ao deixar de coibir operações não autorizadas da ordem de US$ 2,3 bilhões.
Diamond, no entanto, supostamente era um executivo de banco no cume do setor. O Barclays, asseverava-se, havia passado pela crise de 2008/2008 sem precisar de auxílio financeiro do governo. E, embora tivesse sido descoberto que seu banco havia violado várias regras, sobre produtos vendidos a consumidores e a forma como informava taxas de juros, Diamond havia conseguido distanciar-se dos problemas.
Relatos na imprensa indicavam que os órgãos de regulamentação estavam dispostos a dar a Diamond um passe livre - até o momento em que houve uma profunda reação política. Diamond começou a reagir, apontando o dedo acusador ao Banco da Inglaterra, autoridade monetária do Reino Unido. Teve de desistir.
Há três grandes lições a tirar do fim de Diamond no Barclays.
Primeira, a reação política não veio do "baixo clero" ou de espectadores mal informados, à margem das correntes predominantes. Importantes políticos de todos os partidos no Reino Unido uniram-se na condenação às ações do Barclays, particularmente no que se refere à fraude sistemática na divulgação das taxas de juros, exposta no escândalo da Libor (a taxa interbancária do mercado de Londres, que é referencial essencial para as captações e concessões de créditos em todo o mundo e até para a precificação de derivativos).
Aliás, o ministro das Finanças do Reino Unido, George Osborne, chegou a dizer: "Fraude é crime nas atividades comuns; por que não deveria sê-lo na bancária?". A clara implicação é que fraudes haviam sido cometidas no Barclays - uma acusação séria para um ministro das finanças britânico.
Depois de cinco anos de escândalos em grande escala no setor financeiro mundial, a paciência começa a se esgotar. Nas palavras de Eduardo Porter, no "The New York Times": "Mercados maiores permitem fraudes maiores. Empresas maiores, com balanços patrimoniais mais complexos, têm mais lugares para escondê-las. E bancos, quando ficam grandes o suficiente para que nenhum governo os deixe quebrar, têm o maior incentivo de todos."
Segunda, Diamond aparentemente pensou que poderia enfrentar o "establishment" britânico. Sua equipe vazou o conteúdo de uma conversa que ele disse ter tido com Paul Tucker, alto funcionário do Banco da Inglaterra, sugerindo que a instituição havia orientado o Barclays a informar números imprecisos sobre as taxas de juros.
Aparentemente, Diamond esqueceu que a continuidade da existência de qualquer banco com um balanço patrimonial relativamente grande em relação a sua economia doméstica - e sua capacidade de gerar retorno aos acionistas - depende inteiramente de manter uma boa relação com os órgãos de regulamentação. O Barclays tinha ativos totais em torno a US$ 2,5 trilhões - quase o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) anual do Reino Unido - e é o quinto ou oitavo maior banco do mundo. Bancos desse tamanho beneficiam-se de gigantescas garantias implícitas do governo: é isso que significa ser "grande demais para falir".
Diamond, ao que parece, acreditava em sua própria retórica - que ele e seu banco eram cruciais para a prosperidade econômica do Reino Unido. As autoridades reguladoras aceitaram o desafio e o obrigaram a renunciar. O preço das ações do Barclays subiu ligeiramente com a notícia.
A lição final é que os grandes enfrentamentos entre a democracia e os grandes executivos de bancos ainda estão por vir - tanto nos Estados Unidos como na Europa continental. Na superfície, os bancos mantêm-se poderosos, embora sua legitimidade continue a desmoronar.
O executivo-chefe do JP Morgan Chase, Jamie Dimon, presidiu este ano uma assunção imprudente de riscos de quase US$ 6 bilhões (poderíamos chamá-la de uma debacle "triplo Grübel"), mas seu cargo parece continuar assegurado. Dimon continua até no conselho do Federal Reserve regional de Nova York, apesar do fato de a instituição estar profundamente envolvida na investigação não apenas das perdas com as operações arriscadas do JP Morgan Chase, mas também de sua ligação potencial com a escalada no escândalo da Libor.
Como Dennis Kelleher1, presidente do grupo de defesa do interesse público Better Markets, documentou em seu recente testemunho no Congresso2, dois anos depois da aprovação da lei Dodd-Frank, o sistema bancário dos Estados Unidos continua a lutar com veemência - e eficiência - para minar a força de reformas significativas. (O testemunho de Kelleher é uma avaliação essencial, assim como sua declaração de abertura3 na audiência).
Há, no entanto, progressos sendo obtidos. Dimon é a face pública da resistência dos megabanco a reformas; as repetidas humilhações públicas dessa face em particular fortalecem os que querem domar a assunção de risco excessiva e irresponsável.
Paralelamente, a situação europeia parece explosiva. A abordagem da União Europeia à regulamentação bancária encorajou instituições financeiras a se carregar de títulos de dívidas governamentais - supostamente um ativo "livre de riscos". Agora, tendo em vista a profundidade da crise das dívidas soberanas na periferia da região do euro, calotes governamentais ameaçam derrubar os grandes bancos. O Banco Central Europeu (BCE) ofereceu imensos volumes de "liquidez" de emergência aos bancos, que, por sua vez, os vêm usando para comprar ainda mais títulos soberanos. Isso mantém os juros mais baixos no curto prazo, mas cria perdas potenciais ainda maiores no caso de uma possível inadimplência.
Bancos e políticos estão profundamente entrelaçados em todas as economias avançadas. Diamond descobriu que, no fim das contas, os políticos triunfam sobre os executivos de banco - pelo menos no Reino Unido.
Você realmente acredita na noção, cada vez mais duvidosa, de que os megabancos, como constituídos atualmente, são bons para o resto do setor privado e, portanto, para o crescimento econômico e a criação de empregos? Ou você começa a considerar mais seriamente a proposição, cada vez mais predominante, de que os megabancos internacionais e seus líderes simplesmente tornaram-se poderosos e perigosos demais? (Tradução de Sabino Ahumada)
1www.nytimes.com/2012/05/31/business/kelleher-leads-a-nonprofit-better-markets-in-fight-for-stricter-banking-rules.html?_r=2&pagewanted=all
2 www.bettermarkets.com/sites/default/files/Full%20Testimony%207-10-12_0.pdf
3 www.bettermarkets.com/sites/default/files/Opening%20Statement%207-10-12_0.pdf
Simon Johnson foi economista-chefe do FMI e é cofundador do blog sobre economia BaselineScenario.com, professor da MIT Sloan, membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional e coautor de "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You" (Casa Branca em chamas: os pais fundadores, nossa dívida nacional e por que isso é importante para você, em inglês), com James Kwak. Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Formas de limpar essa sujeira
Por Martin Wolf - Valor 18/07
O escândalo da taxa interbancária do mercado de Londres (Libor) foi o último prego no caixão da reputação dos bancos. Depois da imensa crise financeira e da longa lista de escândalos, os bancos agora são vistos como firmas aproveitadoras e incompetentes comandadas por parasitas. Essa indignação com o que Paul Tucker, vice-presidente do Banco da Inglaterra, autoridade monetária do Reino Unido, chamou de "esgoto" é bastante natural. Mas, só a indignação não é capaz de modelar reformas. Aqui estão minhas sete sugestões sobre a melhor forma de resposta.
Primeira, aceitem que haverá mau comportamento, particularmente quando há tanto dinheiro em jogo. É positivo que o público reaja com tanta veemência, uma vez que isso desencorajará a despreocupação administrativa. Mas sejamos realistas: os banqueiros estão nisso por dinheiro e, goste-se ou não, sempre será assim.
Segunda, há formas de reduzir o risco de repetição de escândalos do tipo: penas pesadas são uma delas, mais transparência, outra. Deveriam ser usados dados de transações reais. A transparência não é a panaceia para os males da atividade bancária. Mas ajudaria.
Terceira, os bancos precisam de muito mais patrimônio. Isso, também, é relevante no escândalo da Libor. As autoridades de regulamentação teriam ficado bem menos preocupadas com as taxas Libor relativamente altas em outubro de 2008 se as pessoas não acreditassem que os bancos estavam perigosamente perto do colapso. A resposta a esse medo é mais capital, como Robert Jenkins, membro da nova Comissão de Política Financeira do Banco da Inglaterra, argumentou..
Quarta, mais capital não pode significar 100% em patrimônio. Laurence Kotlikoff não está sugerindo o que chama de "propósito bancário limitado", mas o fim da atividade bancária. Reconheço que a alavancagem de 33 para 1, como agora proposto oficialmente, é assustadoramente alta. Mas não posso entender por que a resposta correta deveria ser acabar com a alavancagem.
Quinta, ao determinar essas exigências de capital, é essencial reconhecer que os chamados ativos "ponderados pelo risco" podem e vão ser extrapolados tanto por bancos como por autoridades de regulamentação. Como Per Kurowski, ex-diretor-executivo do Banco Mundial, sempre me recorda, as crises acontecem quando o que se pensava ser de baixo risco acaba se revelando ser de risco muito grande. Por esse motivo, a alavancagem não ponderada é importante. Precisa ser muito menor do que atual.
Sexta, as justificativas para adotar todas as recomendações da Comissão Independente sobre a Atividade Bancária (ICB, na sigla em inglês), da qual fui membro, são agora mais fortes. Continua vital que os bancos possam passar por um processo fácil de reestruturação, no caso de contratempos: a blindagem, com a separação parcial das operações de investimento em relação às atividades dos bancos de varejo, cuja continuidade dos serviços é essencial, deve facilitar isso. Também é vital assegurar que as subsidiárias e o grupo como um todo tenham volumes suficientes de capital para serem solventes sob quase todas as circunstâncias e tenham títulos conversíveis em capital suficientes para absorver prejuízos, de forma a poderem ser reestruturados com facilidade. Em resumo, os bancos precisam de uma grande margem de segurança, em todos os momentos.
A blindagem com a separação parcial da atividade bancária de varejo também reduziria sua contaminação pela cultura de corretagem de curto prazo da área de banco de investimento. Esse é um dos motivos pelos quais o governo deveria reconsiderar sua decisão de deixar os bancos de varejo oferecerem derivativos "simples". Mas não sejamos ingênuos a respeito disso: os bancos de varejo continuarão podendo ter comportamento inadequado e quebrar.
Na verdade, a questão que o Reino Unido agora precisa enfrentar é se existe um modelo bancário de varejo sólido, tendo em vista as atuais baixas taxas de juros. Eu argumentaria que a dolorosa história de escândalos nos bancos de varejo, incluindo o tratamento brutal aos saques a descoberto não autorizados e a venda enganosa de "seguros de crédito", reflete a ausência de formas saudáveis cobranças para arcar com os custos de se proporcionar serviços bancários.
Por fim, não vejo agora uma justificativa mais persuasiva para a separação total entre as atividades de banco de varejo e de banco de investimento do que antes do escândalo, desde que o financiamento do banco de investimento seja separado da base de depósitos do varejo. Os bancos de varejo também precisam manter um capital adequado. Não se esqueçam de que a atividade bancária de varejo também é arriscada. A blindagem proposta, com separação financeira parcial, traria o mesmo que uma separação completa, mas teria o benefício da diversificação dentro de um grupo de maior escala.
Com maiores exigências de capital e a perda de depósitos cativos e subsídios implícitos dos governos, o custo dos fundos para a área de banco de investimento aumentaria. Mas isso seria positivo. Se a remuneração dos executivos de banco de investimento também ficasse mais alinhada com os interesses dos credores sem garantia, muitas das formas mais irresponsáveis de assunção de risco desapareceriam com o tempo.
É compreensível que os recentes escândalos tenham enfurecido o público. Mas a fúria é sempre uma base perigosa para a definição de políticas. Os dias em que o gerente de banco local era quase tão respeitado como o médico local ficaram bem para trás. Nunca iremos transformar os executivos de bancos em santos. Mas podemos mudar os incentivos que os influenciam, a estrutura dos bancos e o foco da regulamentação. Os aspectos em que eu iria mais longe seriam a busca de uma alavancagem substancialmente menor e de uma transparência significativamente maior. Além disso, faria todo o possível para eliminar a ideia de que o Estado garante a atividade de banco de investimento. Essa ideia é insana. Esse é um dos motivos pelos quais a blindagem com separação financeira parcial é vital. Não podemos ter esperança de milagres. Mas podemos tornar os executivos de banco mais úteis e menos perigosos. Concentrem a atenção nisso. (Tradução de Sabino Ahumada)
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Eurocéticos têm melhores argumentos
Por Wolfgang Münchau - Valor 17/07
Existem paralelos assustadores entre os debates sobre o euro feitos no Reino Unido no fim dos anos 90 e os feitos hoje no norte da região do euro. Naquela época, o grupo dos antieuro no Reino Unido ressaltava as deficiências na construção da região da nova moeda - uma análise que acabou se revelando acertada - e também previa corretamente que a união monetária exigiria também uma união política para ser bem-sucedida no longo prazo. Também havia questões emocionais, como a figura da rainha estampada nas notas de dinheiro. Foi, no entanto, uma posição com coerência interna.
Não compartilho dessa ideia, mas lembro-me de admitir na época que se não se aceitasse uma união política, logicamente não se deveria aceitar o euro. Nunca houve uma justificativa puramente econômica para a moeda.
A campanha favorável ao euro no Reino Unido, em contraste, foi patética. Era baseada na noção de que a campanha contrária ao euro era exagerada e que uma moeda única não era algo tão complicado assim. De qualquer forma, argumentavam os partidários do euro, era de interesse da Grã-Bretanha continuar no centro da Europa, seja lá o que for que isso significasse. Contestei um jovem parlamentar pró-euro na época. Sua resposta foi que defender uma união política na Grã-Bretanha era algo impossível; portanto, uma campanha para minimizar a importância das implicações seria a melhor opção.
Avance 13 anos. Na semana passada, mais de 200 economistas assinaram petição organizada por Hans-Werner Sinn, diretor do instituto alemão de pesquisas econômicas Ifo e maior voz eurocética entre os economistas do país. Ele ainda não defendeu a saída do euro, mas suas recomendações não são consistentes com a continuidade da região do euro em sua forma atual. A petição concentrou-se na união bancária e em por que isso abriria a porta para a união fiscal e o compartilhamento dos encargos fiscais em larga escala.
Outros economistas, então, lançaram uma contrapetição argumentando que uma união bancária é um prolongamento lógico de uma união monetária. Isso, por si só, está correto. Assim como os partidários pró-euro no Reino Unido na década de 90, no entanto, eles minimizaram a importância das implicações. Dizem que uma união bancária não é nada a se temer; não haverá transferências; não se trata de uma questão de a Alemanha vir a assumir as dívidas bancárias dos outros.
Discordo das opiniões do professor Sinn e de seu grupo. Tenho de admitir, contudo, que sua posição tem coerência interna. Opõe-se a transferências e, em última análise, aceita o desmembramento da região do erro.
A posição do assim chamado movimento pró-euro, entretanto, é bem menos coerente. Uma união bancária estruturada adequadamente implicaria, é claro, transferências permanentes, da mesma forma que uma união fiscal bem definida. A ideia de que se pode resolver a crise da região do euro sem transferências de qualquer tipo é ilusória. Como o sistema bancário alemão é relativamente mais forte que o espanhol, uma união bancária, naturalmente, implicaria perdas para a Alemanha. Se houver garantia conjunta para os depósitos e uma recapitalização bancária conjunta, certamente haverá transferências - da mesma forma como ocorre hoje dentro dos próprios países.
Assim como no Reino Unido há 13 anos, os que agora fazem campanha pró-Europa na Alemanha, fingem ser pragmáticos. É por isso que concordam com a rejeição, pela primeira-ministra alemã, Angela Merkel, a bônus conjuntos da região do euro. A ideia não é uma proposição possível de ser vendida na Alemanha, dizem. Da mesma forma, concordam que o ajuste econômico da região do euro não pode ser simétrico, também sob o argumento que não é uma proposição vendível. Pelo mesmo motivo, apoiam todas as regras para os déficits, apesar do fato de nunca terem funcionado. Também rejeitam mudanças nos poderes do Banco Central Europeu (BCE). Com pró-europeus como esses, quem precisa de eurocéticos? De forma hilária, muitos professores assinaram ambos os documentos.
A proposta do conselho alemão de assessores econômicos para o chamado fundo para resgatar dívidas cai na mesma categoria. É outro tributo ao santuário do pragmatismo. Parece ser pró-europeu, mas olhando de perto, não vai resolver a crise das dívidas. Um fundo de resgate de dívidas é um instrumento para agrupar uma porção dos títulos de cada país em troca da emissão de um bônus conjunto da região do euro. A ideia, no entanto, é que as dívidas sejam pagas, portanto, a emissão de bônus teria de ser honrada no vencimento. Isso pode funcionar para valores relativamente baixos, mas a dívida em "excesso" da Itália gira em torno a €1 trilhão. A ideia de que Roma possa pagar suas dívidas em excesso em 25 anos é insana, a menos que se presuma uma milagrosa recuperação sustentável no crescimento econômico.
Como no Reino Unido dos anos 90, os pró-europeus de hoje são incapazes de defender a ideia de que uma união monetária exige uma união bancária, uma união fiscal minimamente suficiente com poderes para elevar impostos e uma união política com mandato legislativo independente dos países-membros. Os eurocéticos estão dizendo que não querem nada disso. Os pró-europeus querem obscurecer a situação.
Embora odeie admitir, o grupo do professor Sinn é intelectualmente mais consistente do que o grupo cujos objetivos principais compartilho. (Tradução do Sabino Ahumada).
Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.
O juro contra o derrotismo
Por Antonio Delfim Netto - Valor 17/07
As políticas macroprudenciais foram adotadas pelo mundo afora quando, desiludidos pelos erros que cometeram, supondo os "mercados perfeitos e honestos", os bancos centrais redescobriram que sua tarefa principal é garantir a estabilidade do sistema financeiro e, complementarmente, controlar a taxa de inflação.
E mais. Redescobriram:
1) que uma taxa de inflação baixa e estável está longe de ser condição suficiente para garantir a estabilidade do sistema financeiro; e 2) que este, quando desregulado, tem propensão a autodestruir-se. Basta ver os dois mais recentes escândalos: o previsível do J.P. Morgan e o quase inacreditável do Barclays, poderosos dissolventes da confiança do público sem a qual nada funciona. O "affair" Libor logo atravessará o Atlântico...
Se, por um lado, não há desenvolvimento sem inovação e sem banqueiro que corra o risco de financiá-la, de outro, a desabrida tomada de risco os leva a destruir o que ajudaram a criar. Para seu próprio benefício (e da sociedade), é evidente a necessidade de uma regulação que não lhes impeça de fazer o seu papel com eficiência, mas, ao mesmo tempo, controle cuidadosamente a sua infinita imaginação para inventar instrumentos de destruição em massa (como foram alguns derivativos).
Quatro anos depois da crise iniciada com a falência da Lehman Brothers, em setembro de 2008, que paralisou a economia americana e colocou luz nas patifarias feitas por alguns países da eurolândia com a conivência do sistema financeiro, a experiência e a teorização que a seguiram sugerem que a intuição original estava certa: taxa de juros e medidas macro e microprudenciais podem ser, numa certa medida e em determinadas situações, complementos para atingir o duplo objetivo de estabilizar o sistema financeiro e produzir uma baixa taxa de inflação (talvez igual à dos parceiros internacionais), sem o que o crescimento pode ser comprometido.
A experiência mostrou que a ideia de uma substituição do papel da taxa de juros por medidas macro e microprudenciais é equivocada. No longo prazo, as manobras na taxa de juros têm um espectro de influência sobre o sistema econômico que transcende ao seu papel de estabilizar a taxa de inflação.
Procurar baixar a taxa de juros real no Brasil ao nível internacional é fundamental sob múltiplos aspectos, todos favoráveis à aceleração do desenvolvimento econômico: 1) o valor dos ativos (os imóveis) das famílias tende a crescer, aumentando a sua capacidade de endividamento e estimulando o seu consumo; 2) tende a aumentar o valor dos ativos financeiros, nas bolsas de valores (o que aumenta também o patrimônio das famílias e o consumo) e o valor das empresas. Quando esse ultrapassa o seu custo de reposição, tende a aumentar os investimentos (efeito Tobin), acelerando duplamente a demanda global. E vice-versa: se o valor cai abaixo dele não há investimento. A queda do valor dos bancos, por sua vez, reduz diretamente a capacidade de financiamento da economia, prejudicando o crescimento. O sistema de economia de mercado é insitamente instável, porque a resposta da oferta é defasada da demanda, e porque os agentes são também ciclotímicos. Estão sempre ou num estado de euforia, ou em pessimismo, sobre o qual o valor dos ativos nas bolsas parece, também, exercer papel importante; 3) melhora a qualidade e a quantidade dos empréstimos bancários e os estimula, porque aumenta os lucros das empresas e diminui o risco de inadimplência; 4) reduz o custo do financiamento da dívida pública e libera recursos para o aumento do investimento público; e 5) dá à taxa de câmbio o seu papel de preço relativo, que equilibra o fluxo de valor das exportações ao das importações, mantendo uma taxa de câmbio real saudável, que estimula o crescimento. O contrário ocorre quando há absoluta liberdade de movimento de capitais e a taxa de juro real interna é permanentemente superior à externa, situação na qual a taxa de câmbio transforma-se num ativo financeiro sujeito a toda sorte de especulação.
Tem razão, portanto, o Banco Central quando coloca alta prioridade na redução da taxa de juro real, aproveitando a "janela" que se abriu diante das fantásticas dificuldades que atacam o sistema financeiro internacional e, por consequência, o produtivo. Vamos crescer pouco em 2012 Talvez nada muito diferente do que 2%, mas os efeitos das medidas já tomadas sugerem que deveremos estar rodando a 4%-4,5% no fim de 2012 com relação ao fim de 2011.
É hora de perseverar no bom controle fiscal e encontrar um mecanismo suave que, sem comprometer o equilíbrio nos próximos 12 meses, seja capaz de ampliar, com a cooperação dos Estados, o prazo de pagamento dos impostos que hoje são recolhidos, em média, sete semanas antes do produtor receber a fatura! Esse aumento líquido de caixa (principalmente nas pequenas e médias empresas) - sem a interferência de BNDES e de bancos- acelerá os efeitos das medidas já tomadas e reduzirá o pessimismo do nosso setor industrial. Uma condição necessária para a recuperação é resistir ao conluio sindicalista que se arma na Câmara para destruir o equilíbrio fiscal com a ampliação dos gastos de custeio dos três níveis do governo.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Captação cai 74%
Valor 16/07
A crise da dívida soberana na Europa continua ditando o ritmo das captações externas. Depois de um início de ano bastante ativo, fruto de uma melhora do humor dos investidores internacionais, o segundo trimestre mostrou novamente que as turbulências estão longe do fim.
O total de recursos atraídos pelo país somou US$ 6,5 bilhões, entre abril e junho deste ano, com a emissão de bônus e a tomada de recursos no exterior por empresas brasileiras e pelo Tesouro Nacional. O volume caiu 74% em relação a 2011 e só não foi pior do que o primeiro trimestre de 2009, quando a crise atingiu seu momento mais grave nos Estados Unidos e os efeitos foram fortemente sentidos pela economia brasileira. Naquele momento, as captações atingiram US$ 3,4 bilhões.
Parte desse recuo se explica pelo próprio comportamento das companhias brasileiras. Aquelas que acessam regularmente o mercado externo preferiram se resguardar durante os últimos meses, depois de aproveitar o começo do ano, quando a volatilidade estava menor, para antecipar a busca por linhas externas. Em função desse movimento, nos primeiros três meses deste ano, o país atraiu US$ 24,1 bilhões com o lançamento de bônus para investidores internacionais e empréstimos sindicalizados, segundo dados levantados pelo Valor Data.
Devido ao ritmo menos intenso dos últimos meses, o balanço dos primeiros seis meses do ano foi marcado por um total de captações de recursos por empresas brasileiras no exterior bem mais modesto que o visto no mesmo período do ano passado. O total de emissão dívida e empréstimos feito no exterior no primeiro semestre de 2012 foi de US$ 30,6 bilhões, uma queda de 27% sobre o mesmo período de 2011 e um crescimento de apenas 2,7% em relação à mesma época de 2010.
O valor incluiu uma captação de US$ 7 bilhões decorrente da emissão de títulos com quatro vencimentos diferentes feita pela Petrobras em fevereiro, a maior do ano até aquele momento. A emissão da gigante do petróleo sozinha é bem maior que o levantado pelas dez empresas que realizaram captações no segundo trimestre, que incluiu alguns nomes de peso da economia nacional - como Embraer, Banco do Brasil, Odebrecht e Brasil Foods.
Houve ainda uma concentração no lançamento de bônus e uma forte queda dos empréstimos, decorrente das amarras impostas pelo governo ao longo do ano, taxando os financiamentos abaixo de 5 anos com IOF de 6%. Além disso, houve uma combinação de aperto nas torneiras do crédito visto em grandes bancos estrangeiros e um momento de pouquíssimos investimentos da indústria nacional.
Com isso, o total captado via empréstimos na primeira metade do ano foi de apenas US$ 200 milhões, valor irrisório perante os US$ 13,6 bilhões do mesmo período de 2011.
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Valor, a queda na captação de recursos tanto em bônus como em empréstimos não decorreu apenas da falta de "janelas de oportunidades". As empresas estavam mais cautelosas e sem grandes necessidades de endividamento, já que não investem por aqui.
Segundo o executivo de um grande banco nacional, no fim de maio e início de junho houve uma boa oportunidade para colocação de papéis no exterior, mas nenhuma empresa quis se arriscar. "Recomendamos a nossos clientes naquele momento que fossem a mercado, principalmente empresas que pretendiam reabrir operações já concluídas, mas ninguém quis fazer colocações", diz a fonte, lembrando que havia um número razoável de empresas preparadas para fazer lançamento de bônus.
A ausência de companhias brasileiras no mercado externo também abre espaço para um segundo semestre mais forte e com mais emissões, acredita Rubens Cardoso da Silva, diretor do Banco do Brasil responsável pela BB Securities em Nova York.
Segundo ele, pode haver uma ou outra colocação nas próximas semanas, mas o mercado deve mesmo reabrir somente a partir de 3 de setembro, após as férias de verão do Hemisfério Norte. E as ofertas devem continuar concentradas em empresas de primeira linha.
Neste mês, além da Vale, que captou € 750 milhões, e da Braskem , que emitiu US$ 250 milhões com a reabertura de um bônus com vencimento em 2041, o Itaú BBA tomou um empréstimo de US$ 340 milhões do International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial, para financiamentos para as regiões Norte e Nordeste. O BB também prepara um lançamento na moeda japonesa, o iene. Em contrapartida, o Banco Pine desistiu de uma emissão prevista de notas denominadas em franco suíços, que totalizariam cerca de US$ 100 milhões.
Para a Pimco, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, e que compra títulos corporativos brasileiros, a estimativa é que o próximo semestre concentre cerca de US$ 150 bilhões fluindo para papéis de países emergentes. Do total latino-americano, espera-se que metade venha para o Brasil.
E o perfil das empresas de nações emergentes que recorrem aos mercados deve repetir o que foi visto na primeira metade do ano: 75% com grau de investimento e apenas 25% daquelas consideradas "high yield", que pagam retornos aos investidores mais altos (ver texto ao lado).
"Com os rendimentos dos Treasuries (títulos soberanos dos Estados Unidos) a um nível baixo, e devido à falta de papel no mercado secundário em função de emissões mais fracas nos meses anteriores, muitos investidores continuam buscando papéis para investir", diz Brigitte Posch, uma das responsáveis pelo portfólio de mercados emergentes da Pimco. "Isso já permitiu que vários emissores captassem com rendimentos (ao investidor) mais baixos no primeiro trimestre."
Carlos Gribel, diretor da Tradewire Securities, acredita que o retorno do mercado em setembro pode até ter espaço para empresas com graus de risco mais elevados, especialmente da indústria, mas restrito ainda a nomes que já acessaram o exterior no passado.
Um dos indicadores dessa possibilidade é o preço dos papéis brasileiros no mercado secundário, perto das máximas e com boa demanda. Ele pondera, no entanto, que ainda é muito cedo para fazer previsões por causa da enorme volatilidade do mercado. "Em setembro, o mercado deve reabrir com muita gente captando se não houver uma deterioração na Europa entre julho e agosto".
Já para o chefe do segmento de mercado de capitais de um banco estrangeiro, a segunda metade do ano tende a contar com a emissão de empresas de grande porte e perfil de dívida seguro do Brasil e do México, que continuam a atrair o interesse dos investidores estrangeiros.
Martinho Lutero e a zona do euro
Por Stephan Richter - Valor 16/07
Martinho Lutero, o teólogo e reformador alemão do século XVI, foi a mais crucial ausência quando os líderes europeus reuniram-se em Maastricht em 1992, para estabelecer os critérios para a União Econômica e Monetária Europeia. Em espírito e em termos de registro histórico, Lutero poderia ter fornecido uma regra de ouro adequada para identificar quais países deveriam participar da zona do euro - quais não deveriam.
Se um país europeu abandonou o catolicismo e abraçou o luteranismo (ou, mais amplamente, o protestantismo) após o início dos anos 1500, quando Martinho Lutero e alguns poucos outros reformadores, como Zwingli e Calvino lançaram a Reforma, isso teria sido uma boa indicação de que a nação estaria qualificada à adoção da moeda comum europeia cerca de cinco séculos mais tarde. Se tivesse permanecido predominantemente católica, ou mesmo Grega Ortodoxa, então não.
Com poucas exceções, essa regra simples teria poupado a centenas de milhões de pessoas em todo o mundo muito desespero, bem como grande parte da animosidade e frustração que agora prevalece - sem mencionar os trilhões de euros em valor de ativos.
Obviamente, sob essa regra, a Alemanha teria entrado para a zona do euro, assim como a Dinamarca, a Suécia e a Noruega. É interessante registrar que a Suíça, financeiramente sólida, também faria parte do grupo. O mesmo aconteceria, ainda mais surpreendentemente, com o Reino Unido.
Irlanda? Espanha? Portugal? Itália? Não. Que dirá a Grécia, esse extremado país não ortodoxo, quando se trata de conduzir uma política econômica limpa e apropriada.
Lutero, se consultado em Maastricht, teria vetado imediatamente qualquer sugestão de incluir esses países. "Leia meus lábios: países católicos não reformados", teria pronunciado ele. A zona do euro, como resultado, teria resultado bem mais coesa - e a economia europeia teria herdado muito menos problemas.
Os casos interessantes, e possíveis exceções, a considerar no contexto da "Regra de Lutero", são a Áustria, a França e a Polônia. Os dois primeiros adotaram o euro, o último, ainda não, apesar de suas políticas fiscais e gestão econômica terem sido verdadeiramente notáveis. Seriam uma saudável adição à zona do euro.
No que diz respeito à Áustria e à Polônia, dois países verdadeiramente católicos, pode-se argumentar, é claro, que são as exceções que confirmam a regra. Mas também poderíamos dizer que eles, assim como a França, estão na vizinhança imediata do país base de Lutero, a Alemanha.
Localizados, como estão, na órbita direta da Alemanha, alguns observadores afirmam que a Alemanha simplesmente não deixou a seus vizinhos do sul, leste e oeste qualquer outra escolha, que impôs sua vontade sobre eles. Uma vez que isso é muito difícil de implementar (embora os alemães certamente tenham tentado repetidamente fazê-lo em eras passadas), a explicação mais provável é que essas três nações julgaram mais apropriado a seu autointeresse adaptarem-se a seu ambiente mais amplo. Católicos, talvez, mas com uma saudável dose do protestantismo fiscal.
O que ajudou ainda mais, sem dúvida, foi o exemplo positivo das nações ao norte da Alemanha, na Escandinávia e até mesmo nos Bálticos. Sem exceção, pequenas, mas de caráter fortemente protestante, essas nações deram a outros países maiores vizinhos à Alemanha, a confiança de que não é preciso ser grande para ter uma sólida política fiscal.
Visto da perspectiva oposta, considere o leitor os países que nunca conseguiram superar a prática da Igreja Católica na época das exigentes indulgências (dinheiro doado à igreja em troca de perdão de pecados). Excessivo catolicismo, ou assim parece, é prejudicial à saúde fiscal de um país, ainda hoje, no Século XXI. Indulgências naquela época e incapacidade de gerir adequadamente as finanças públicas hoje. (Falo como alguém que nasceu católico e, portanto, não pode ser acusado de praticar qualquer forma de intolerância inter-religiosa.) Quando vistas dessa perspectiva, corrupção, evasão fiscal enorme e disseminada (veja-se a Itália e a Grécia) podem ser vistas como decorrente de uma tradição cultural de oferecer dinheiro para ter perdoadas suas transgressões. Em outras palavras, não há problemas em pecar, mesmo que tratem-se, atualmente, predominantemente, pecados fiscais.
Antes que o leitor considere esta análise como um caso grave de estereótipo religioso, permitam-me apontar para algumas importantes nuances que se constituem em exceção ao padrão sugerido acima. Considere a Eslováquia. Os eslovacos são católicos e sempre praticaram uma ética de trabalho vastamente superior, ao contrário de noções de Max Weber ou da "regra da Lutero" apresentada acima.
E o que dizer sobre a Itália? Não há uma entidade única denominada Itália. Existem duas Itálias completamente distintas. Num campo, há o velho Reino de Nápoles e as Duas Sicílias, de Roma para o sul. Ele continua a ser um ralo corrupto. Depois, há outro campo, a Itália setentrional, inclusive a Toscana, que é uma das mais bem administradas e mais eficientes economias industriais no planeta. E são ambos católicos. Mario Monti aponta para o único caminho disponível para tirar a Itália de seu pântano que já dura meio século.
Como solucionar a charada? Simples. Considere-a como uma mescla do princípio biológico de adaptação. Apesar de as ideias de Lutero não terem conseguido fixar raízes nesses lugares, mesmo áreas predominantemente católicas como a Eslováquia, a Áustria e o norte da Itália adaptaram gradualmente os valores econômicos, a ética de trabalho e a integridade do doutor Lutero e de João Calvino. A França, tão orgulhosa de suas modernas raízes anticlericais, continua vivendo à altura das verdadeiras consequências autodisciplinantes dessa afirmação.
Isso faz de Martinho Lutero, hoje, um profeta fiscal de alta estatura na Europa tanto católica protestante. (Tradução de Sergio Blum).
Stephan Richter é editor-chefe do theglobalist.com e presidente do Centro de Pesquisas Globalist
A deterioração do cenário externo foi "uma espécie de gatilho" para a desaceleração da economia brasileira
Valor 16/07
A deterioração do cenário externo foi "uma espécie de gatilho" para a desaceleração da economia brasileira, que cresceu a taxas mais fortes nos últimos anos em grande parte devido ao boom de commodities e à forte demanda externa por seus produtos, diz Barry Eichengreen, professor de Economia e Ciência Política da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. Para ele, o país precisa enfatizar o investimento em capital humano e o aumento da produtividade para voltar a crescer mais, dados os limites do consumo para impulsionar a economia e o delicado quadro internacional. O americano será um dos principais convidados do seminário "O Brasil e o Mundo em 2022", patrocinado pelo BNDES em comemoração aos seus 60 anos. O evento vai ocorrer no Rio de Janeiro nos dias 23 e 24, no Espaço Tom Jobim.
Para Eichengreen, é "compreensível" que o crescimento do Brasil tenha caído para níveis mais baixos num momento em que pioram as perspectivas para os preços de commodities e as condições externas se deterioraram. Nesse cenário, é um desafio crescer 4% ao ano, um nível que, segundo ele, o Brasil deveria ter como meta. No entanto, como o país tem espaço para aumentar a produtividade e a força de trabalho é crescente, é possível almejar esse objetivo, desde que o país siga "boas políticas".
De acordo com Eichengreen, "todo mundo sabe" que o Brasil precisa investir mais em educação e capacitação e elevar a produtividade no setor manufatureiro. "O Brasil tem algumas indústrias exportadoras líderes, algumas histórias famosas de sucesso, e precisa de muito mais histórias como essas", afirma ele, lembrando que, nos últimos anos, muito se ouviu falar da nova classe média brasileira e da importância do consumo.
A experiência de países como Grécia, Espanha e Portugal, porém, mostra que, se a economia depende demais da demanda interna, a tendência é que isso cause problemas em algum momento, diz ele. "O que o Brasil precisa investir em educação, capacitação e treinamento, e aumentar a produtividade, e o consumo não faz isso."
Eichengreen afirma que os juros mais baixos e o câmbio mais desvalorizado ainda não surtiram efeito sobre a atividade porque isso leva tempo. "Nós sabemos pelas evidências históricas que cortes de juros e movimentos na taxa de câmbio demoram pelo menos nove meses antes que os impactos se façam sentir completamente na economia", diz. Ele pondera, porém, que o real parece seguir num nível ainda forte, prejudicial à competitividade do exportador, apesar da recente desvalorização.
O economista americano vê o desenrolar da crise europeia com preocupação. Para ele, a decisão da cúpula da União Europeia no fim de junho, de fazer uma recapitalização direta dos bancos e caminhar para uma união bancária, é um passo importante, mas ainda há problemas nada desprezíveis. Como as medidas não são para agora, continua sem solução a questão dos bancos subcapitalizados, que não emprestam, por exemplo. "O segundo problema é que a crise bancária é apenas uma parte da crise europeia", ressalta Eichengreen. Há também uma crise da dívida soberana, uma de crescimento, uma de competitividade e uma política. "O acordo para criar uma união bancária é parte da solução, mas apenas uma parte. E há uma oposição muito forte à ideia crescendo na Alemanha."
Segundo Eichengreen, na Alemanha e nos países do norte da Europa permanece o desejo de se mover lentamente, e de apenas usar o dinheiro dos contribuintes para recapitalizar os bancos depois de que todas as instituições e salvaguardas estiverem prontas. "No entanto, se a crise piorar outra vez, com sinais de corrida bancária na Espanha ou na Itália, eles vão retornar ao assunto e agir mais rapidamente. Mas este é obviamente um modo muito perigoso de agir. Seria muito melhor fazê-lo antes da intensificação da crise."
Ele também critica o excesso de ênfase na austeridade fiscal que há em toda Europa. "Ela não está funcionando para eliminar os déficits fiscais porque deprime a atividade econômica e, com isso, afeta as receitas de impostos." Outro problema é que, com uma situação econômica delicada, perde-se o apoio político para reformas estruturais. "Está claro que eles precisam de uma estratégia diferenciada, o que significa menos austeridade agora e mais austeridade depois. Além disso, é importante que haja menos austeridade em países do norte da Europa que têm espaço fiscal. Em terceiro lugar, se a política fiscal vai ser contracionista, outra política tem que ser expansionista, e o Banco Central Europeu (BCE) não tem respondido adequadamente", avalia Eichengreen.
Para ele, o BCE deveria adotar o chamado afrouxamento quantitativo - a política monetária ultraexpansionista, de compra de títulos, que teria como um dos efeitos um euro mais fraco em relação a outras moedas, e isso ajudaria no crescimento. "Mais crescimento na Europa ajudaria a fortalecer o apoio político às reformas e a melhorar os resultados fiscais", diz.
Eichengreen diz que um colapso do euro seria muito pior do que foi a quebra do Lehman Brothers em 2008, causando uma catástrofe financeira. Devido a essa avaliação, a sua percepção sempre foi a de que os líderes europeus fariam o necessário para manter a união monetária. "Mas, à medida que a crise continua, eu, como todo mundo, fico menos confiante de que eles farão o necessário."
Nesse cenário, a Europa caminha para a sua década perdida, sem crescimento, dada a falta de capacidade de promover reformas, sustentar a demanda e encorajar a oferta. Dada a demografia desfavorável, com envelhecimento da população e força de trabalho estagnada ou encolhendo, os países europeus já caminhavam para um período longo de baixo crescimento, diz ele. A incapacidade de combater a crise tende a levar a algo pior - uma era de estagnação.
Eichengreen não se mostra otimista em relação aos EUA. Para ele, o país deverá evitar o risco de uma contração fiscal violenta em 2013, impedindo a combinação de um forte corte de gastos e uma alta exagerada de impostos, mas não vai resolver a questão de vez. Ele acredita ainda que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) caminha em direção à terceira rodada de afrouxamento quantitativo, pois, com exceção do mercado imobiliário, sobram indicadores ruins, das vendas no varejo à produção industrial, passando pela confiança do consumidor. Para ele, o Fed já deveria ter sido mais agressivo e adotado essa política.
O economista acredita que a China vai driblar o risco de um pouso forçado, mas vai insistir nos estímulos ao investimento e às exportações. Com isso, adiará a mudança em prol da maior ênfase ao consumo privado, vista como necessária pela maioria dos analistas. Os desequilíbrios chineses, desse modo, vão continuar a crescer.
sábado, 14 de julho de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Selic ao menor nível histórico
Valor 12/07
A taxa básica de juros da economia brasileira caiu para 8% ao ano, menor patamar da história do Comitê de Política Monetária (Copom), criado em 1996. A decisão foi tomada em meio a uma expectativa quase unânime quanto ao tamanho do corte. A maioria esmagadora dos analistas de mercado já esperava que a Selic caísse 0,50 ponto percentual, o que se confirmou.
Como na reunião de maio, houve consenso entre os diretores do Banco Central, que formam o colegiado. A reunião foi a mais longa desde agosto de 2011, quando começou o ciclo de afrouxamento monetário e durou mais de 3 horas e meia.
No seu tradicional e breve comunicado, o Copom repetiu o texto de maio: "O Copom considera que, neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação. O comitê nota ainda que, até agora, dada a fragilidade da economia global, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária. Diante disso, dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 8% ao ano, sem viés".
A inflação em queda, a piora de indicadores da indústria e do comércio, o incerto cenário mundial, que também é de desaceleração, explicam por que o mercado já esperava um novo corte. Por outro lado, quase ninguém apostava em redução maior do que 0,50 ponto por causa das sinalizações de parcimônia dadas pelo BC. Na ata de maio e no último relatório trimestral de inflação, a autoridade defendeu que o processo de flexibilização deveria ser conduzido com parcimônia porque reduções anteriores na taxa básica de juros ainda não produziram todo o seu efeito potencial sobre a economia.
"A opção pela parcimônia de 0,5 ponto percentual se manteve fiel à comunicação recente do BC", diz o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros. Na sua opinião, "tanto o Banco Central quanto o governo estão atuando de acordo com a conjuntura, possivelmente com alguma insegurança inconfessável diante da hipótese de eventualmente estarem dando estímulos monetários e setoriais fiscais exagerados, caso as expectativas melhorem um pouco no cenário global". Para Barros, o cenário mundial "certamente não está pior atualmente do que antes. Pode-se dizer que ele até melhorou residualmente na Europa".
O economista destaca que o monitoramento da conjuntura global (China, Europa e EUA) será crucial para a trajetória dos juros. Ele acredita que o Copom seguirá reduzindo a Selic também de olho nos sinais da atividade econômica. Na sua avaliação, se a atividade não se mostrar claramente melhor no terceiro trimestre, a Selic poderá chegar a 7,75% ou 7,50% ao ano ou até menos. "Se a atividade voltar apenas no quarto trimestre, os juros irão ainda mais abaixo", diz. Ele acrescenta, por outro lado, que não há dúvida sobre a proximidade do fim do ciclo de afrouxamento monetário iniciado em agosto de 2011. Desde então, a Selic já caiu 4,5 pontos percentuais, saindo de 12,5% para 8% ao ano.
A última edição da pesquisa Focus, feita pelo BC junto a uma centena de empresas e bancos, indica que o mercado acredita em mais um corte de 0,50 ponto percentual em agosto. Seria o último do atual ciclo, com a Selic em 7,5% ao ano.
O economista-chefe da BB DTVM, Marcelo Arnosti, diz que o "balanço confortável de riscos" permitiu ao Copom fazer esse novo corte. Entre os fatores, ele destaca o comportamento do IPCA, cuja variação acumulada em 12 meses vem recuando e já está abaixo de 5%. Até junho, a inflação do índice nesse critério foi de 4,92%. E para o ano calendário de 2012, as expectativas de mercado, que também cederam, apontam inflação de 4,85%, ressalta Arnosti.
O economista Antônio Madeira, da LCA Consultores, afirma que o quadro econômico pouco se alterou nos últimos 45 dias para justificar uma decisão diferente da postura parcimoniosa sinalizada na ata de maio. A recuperação da economia doméstica está bastante lenta e, pelo canal externo, seguem pressões de baixas de preços. Para a LCA, está dado como certo mais um corte de 0,5 ponto percentual em agosto, o que levaria a taxa básica para 7,5% ao ano, nível no qual ficaria até o quarto trimestre de 2013.
Segundo o economista-sênior do Espirito Santo Investment Bank, Flávio Serrano, o mercado de juros futuros deve ver uma intensificação das apostas de que a Selic pode cair para baixo de 7,5%. Ou seja, além do 0,50 ponto em agosto, que fica "contratado" pela repetição do comunicado, haveria redução, também em outubro.
No entanto, pondera o economista, o espaço para ajustes de baixa nas taxas parece um pouco limitado, pois os contratos futuros já colocam um corte de 0,15 ponto no Copom de outubro.
Outro ponto destacado por Serrano é o aumento nas avaliações de que a Selic pode levar mais tempo para subir. A curva futura mostra a possibilidade de alta de juro em junho de 2013, com probabilidade de 1,25 ponto de alta. Antes, o ciclo de alta projetado teria início em abril, com 1,5 ponto de aperto monetário.
O foco estará agora, na ata da reunião, que sai na próxima semana. Para Serrano, o documento deve reforçar a surpresa com o fraco crescimento da economia, mas manter as indicações de que o segundo semestre será de recuperação.
O economista-sênior para a América Latina da empresa de análises de mercado 4Cast, Pedro Tuesta, destaca que ao manter o mesmo comunicado de maio, o BC não dá senso de urgência à tomada de decisão. Com isso, a avaliação do especialista segue em mais um corte de 0,50, com Selic a 7,5% ao ano e juro estável por longo período de tempo. Para Tuesta, o BC deve trocar o espaço para cortes adicionais de juros pela possibilidade de não precisar subir a taxa tão cedo.
A reunião de ontem marcou a estreia de Luiz Edson Feltrim, até então secretário Executivo do BC, nomeado diretor de Assuntos Especiais, após ser sabatinado e ter seu nome aprovado pelo Senado Federal. Trata-se de uma diretoria nova do BC, que vai cuidar, dentre outros assuntos, da comunicação externa, principalmente com os usuários do sistema financeiro.
A taxa de juros e a doença holandesa
Por Adalberto Cardoso - Valor 12/07
Na segunda metade da década de 2000 foi intensa a discussão entre economistas e jornalistas especializados sobre estarmos ou não sofrendo da chamada "doença holandesa". O termo não faz justiça aos holandeses, mas generalizou-se como conceito aplicável a situações de desindustrialização resultante da apreciação cambial provocada pela exportação de commodities. O caso holandês é tomado como expressão típica disso. Nos anos 1960 o país descobriu grandes jazidas de gás natural, que rapidamente se tornou seu principal produto de exportação, provocando longeva entrada de dólares, o que levou à valorização do florim e à perda de competitividade de sua indústria, e consequente desindustrialização.
Autores como Luiz Carlos Bresser-Pereira e Antônio Delfim Netto não têm dúvidas de que o Brasil vive sua doença holandesa. O aumento acentuado do preço das commodities (soja, carnes de todo tipo, minérios, celulose, madeira, açúcar...) exportadas pelo Brasil ao longo da década de 2000, responsável pelo boom exportador que sustentou o crescimento econômico e a redução de nossa estrutural fragilidade externa até pelo menos 2010, teria provocado excessiva e duradoura valorização cambial, gerando aqui o mesmo efeito do gás natural na Holanda: desestruturação da malha industrial, com perda importante de elos da cadeia produtiva; aumento da dependência de importações para suprimento da indústria sobrevivente, com impactos negativos sobre a balança comercial setorial; perda de competitividade internacional dos produtos; enfim, desindustrialização.
A controvérsia em torno do tema é grande, já que outros autores (como Maílson da Nóbrega, por exemplo) argumentam na direção contrária. Para eles, as cadeias de produção de commodities têm efeitos positivos sobre diversos segmentos da malha industrial e de serviços, além de gerar as divisas de que o país precisou para honrar seus compromissos nos últimos anos.
Seja como for, parece fora de dúvidas que a indústria brasileira vive momento complicado. Em maio de 2012, segundo dados do IBGE, o setor industrial como um todo havia acumulado perda de 1,76% em 12 meses. A queda fora maior em setores como têxtil (13,1%) vestuário (10,4%) calçados e artigos de couro (9,3%), máquinas e equipamentos de informática para escritório e máquinas e aparelhos de material elétrico (mais de 7% cada), mais sensíveis à competição externa, principalmente da China. Malgrado a crise internacional, que contribui para o fraco desempenho dos segmentos exportadores da indústria nacional, talvez seja mesmo o caso de que a taxa de câmbio tenha ficado por tempo demais abaixo do que os especialistas consideram "taxa de equilíbrio", isto é, algo em torno de R$ 2,00 por dólar, com isso provocando por aqui os sintomas da doença holandesa.
Nos debates sobre nossa possível doença, contudo, costuma-se mencionar apenas a crescente especialização da pauta exportadora e o preço das commodities como causas da apreciação do câmbio. Quase nunca se menciona a taxa de juros como fator de atração de capital, o que não deixa de ser espantoso, já que o país praticou as maiores taxas de juros do mundo por uma década e meia. E os números são portentosos.
Segundo dados do Banco Central, entre janeiro de 1996 a maio de 2012 investidores estrangeiros, aplicaram a bagatela de US$ 420 bilhões (em valores de maio de 2012, atualizados pelo INPC) em títulos da dívida pública brasileira (sobretudo em renda fixa), títulos lastreados, portanto, nas taxas de juros oficiais. A exportação de produtos básicos no mesmo período atingiu a cifra de US$ 850 bilhões, também em valores atualizados. Logo, entraram no país, pela porta da dívida pública interna, metade de tudo o que país exportou em commodities em 15 anos. A taxa de juros atraiu, sozinha, mais dólares do que cada commodity em particular. E vale notar que o investimento dos brasileiros em renda fixa limitou-se a US$ 46 bilhões, ou pouco mais de 10% do que os estrangeiros aplicaram.
Outro dado relevante: no mesmo período o Brasil pagou a esses investidores (repita-se, em sua imensa maioria estrangeiros), na forma de juros sobre a dívida interna, nada mais nada menos que US$ 1,4 trilhão, o que equivalia a duas vezes o PIB da Holanda de 2010, e a 65% do PIB brasileiro de maio de 2012, ainda segundo dados do Banco Central. A taxa de juros funcionou, portanto, como uma draga de duas bocas, que injetou recursos por uma porta e sugou riqueza nacional pela outra.
Sugou, sobretudo, recursos que poderiam ter sido canalizados para o investimento em infraestrutura por exemplo, reconhecido gargalo que aumenta os custos e reduz competitividade da indústria. Portos, estradas, ferrovias, aeroportos, refinarias de petróleo, metrôs e também pessoal qualificado de nível superior, jovens e adolescentes formados em escolas públicas de qualidade, hospitais mais bem equipados, médicos e professores melhor remunerados, tudo isso virou fumaça na draga reversa dos juros altos. Juros, aliás, que consumiram o equivalente a três vezes o orçamento do Ministério da Saúde entre 1996 e 2011, e a cinco vezes o orçamento do Ministério da Educação no mesmo período.
A analogia com a doença holandesa, portanto, escamoteia um elemento central de nossa própria "doença", mesmo que seu efeito desindustrializante ainda precise ser provado: por aqui, a pressão sobre o câmbio decorreu tanto da sobrevalorização das commodities (que em 2011 representaram 50% da renda proveniente de exportações) quanto das altas taxas de juros, praticadas por período longo demais. Estas últimas ainda tiveram o custo adicional de sugar a riqueza gerada localmente, o que limitou a capacidade de investimento do Estado visando o bem estar da população e maior eficiência do investimento produtivo.
Adalberto Cardoso é doutor em sociologia, professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Depois da euforia (III): poupança escassa
Por Fabio Giambiagi - Valor 11/07
Este é o terceiro de cinco artigos sobre meu livro com Armando Castelar Pinheiro ("Além da euforia", Editora Campus). Depois de um primeiro artigo geral e de outro sobre a produtividade, hoje irei tratar da nossa baixa poupança doméstica. Na discussão sobre o papel do Estado, que ressurgiu com força no Brasil na crise de 2008/2009, os defensores de uma maior participação do governo têm utilizado o argumento que, em circunstâncias em que o setor privado hesita em investir, o investimento público - ou financiado com recursos públicos - teria um papel fundamental para o aumento do investimento.
Há, porém, uma questão que não tem sido levada devidamente em conta. O problema que existe para o aumento do investimento não é se ele será feito pelo setor público ou pelo setor privado e sim como se ganha espaço para isso na composição da demanda agregada. Não adianta pretender que a Petrobras gaste mais no pré-sal, que a União dote o país de aeroportos decentes para a Copa de 2014 ou que os Estados pavimentem mais estradas, se não forem tomadas medidas para conter o ritmo de expansão do consumo, caso a economia opere perto da plena carga.
É interessante olhar as duas tabelas deste artigo. Uma delas mostra a igualdade entre a Formação Bruta de Capital (FBK) e a poupança e a decomposição desta entre a poupança doméstica e a externa, sendo que esta última é a soma da renda líquida enviada ao exterior (RLEE) com o déficit de transações das contas de bens e serviços com o exterior. A outra tabela apresenta as taxas de variação reais médias dos componentes da demanda agregada em períodos específicos: 1) os primeiros anos do Plano Real; 2) os anos de ajuste do governo FHC e, já no governo Lula, da ortodoxia de Antonio Palocci; e 3) o pós-2004.
As duas tabelas conjuntamente contam uma história em três capítulos: 1) deterioração da poupança doméstica nos primeiros anos do Plano Real, com piora da situação externa; 2) ajuste de 1999 a 2004, revertendo tais processos com contenção do consumo, aumento da poupança doméstica e notável mudança do resultado das transações correntes com o exterior; e 3) nova inflexão depois de 2004, com maior consumo, redução da poupança doméstica e piora das contas externas. O "novo modelo de desenvolvimento" que sucedeu ao fim da era Palocci nada mais foi do que o velho modelo de crescer com poupança externa.
A discussão em torno do papel do Estado ignora tais questões. Pode até fazer sentido conduzir a Petrobras em ritmo de "pau na máquina" ou "turbinar" as instituições financeiras oficiais para alavancar seus empréstimos. O que não faz sentido é fazer isso, ao mesmo tempo em que o crédito continua crescendo bastante e se adotam regras generosas de aumento do salário mínimo - mecanismos que reforçam o crescimento do consumo - e depois reclamar que a conta corrente está com um déficit muito alto! É preciso entender que um dos problemas críticos a serem enfrentados pela economia brasileira para poder crescer mais chama-se: "escassez de poupança".
Até agora, depois de 2004, foi possível implementar uma política que "driblou" qualquer tentativa de fazer escolhas, uma vez que tanto o consumo como o investimento aumentaram a taxas vigorosas, ao mesmo tempo em que o país exibia indicadores externos confortáveis e inflação baixa. Isso ocorreu, porém, partindo de uma situação muito peculiar, quando no começo dessa história de sucesso havia grande capacidade ociosa e superávit em conta corrente, com muita "gordura" para queimar. Entretanto, se o Brasil continuar exibindo um descompasso entre o crescimento da absorção doméstica e do PIB e tendo, como corolário disso, um aumento do "quantum" de importações significativamente superior ao das exportações, haja pré-sal para equacionar esse desequilíbrio na segunda metade da década!
O livro será lançado hoje, 11 de julho, em São Paulo, na Livraria Cultura, Av. Paulista 2073 (Conjunto Nacional).
Fabio Giambiagi, economista, coorganizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus).
Ainda temos a sensação de afundar
Por Martin Wolf - Valor 11/07
Faz quase cinco anos que a crise financeira abateu um mundo desavisado - agosto de 2007. Como estão hoje os países de alta renda atingidos pela crise? Mal.
Das seis maiores economias de alta renda (mais a zona do euro), somente EUA e Alemanha estão acima de picos anteriores. Desde que os EUA foram o epicentro dos choques iniciais, sua recuperação foi relativamente boa. Mas nenhum desses países pode estar feliz com seu desempenho. Enquanto nos EUA o Produto Interno Bruto (PIB) tem se mostrado maior do que o desses outros países, a taxa de desemprego mais que dobrou, de 4,7% em julho de 2007 para 10% em outubro de 2009. Mas os EUA ainda tiveram um desempenho melhor do que a zona euro, cuja economia está estagnada e cuja mais recente taxa de desemprego é de 11,1%, contra 8,2% nos EUA.
As economias estão estagnadas, ao mesmo tempo em que as políticas de juros estão agressivas. A maior taxa de juros de curto prazo oferecida por quaisquer dos bancos centrais das grandes economias de alta renda é 0,75%, praticada pelo Banco Central Europeu (BCE). Em relação ao PIB, os balanços patrimoniais dos bancos centrais também dobraram nos grandes países de alta renda desde 2007. Japão, EUA e Reino Unido continuam a incorrer em déficits fiscais muito grandes para tempos de paz. mas, apesar de enormes déficits fiscais, as taxas de juro de longo prazo remuneradas por títulos dos governos japonês, americano e britânico estão muito baixas, 0,8%, 1,5% e 1,6%, respectivamente.
David Levy, do Jerome Levy Forecasting Center, rotula de "depressão contida" essa conjuntura de estagnação econômica com enormes estímulos de política monetária. A explicação é clara: importantes economias estão em dificuldades em face de sua excessiva alavancagem, particularmente em seus setores familiar e financeiro. Nos EUA, por exemplo, a dívida total do setor privado cresceu de 112% do PIB em 1976 para um pico de 296% em 2008. Essa proporção tinha recuado para 250% até o fim do primeiro trimestre de 2012, posição em que esteve em 2003. Em 2007, o endividamento bruto privado dos EUA foi de 29% do PIB. Em 2009, 2010 e 2011, porém, o percentual foi negativo.
Acima de tudo, os setores privados estão incorrendo em grandes excedentes de renda sobre gastos. Nos EUA, o balanço financeiro do setor privado passou de um déficit de 2,4% do PIB no terceiro trimestre de 2007 para um superávit de 8,2% no segundo trimestre de 2009. Essa enorme inflexão teria certamente causado uma depressão enorme, se o governo não tivesse aceito incorrer em déficits fiscais compensatórios. Dessa forma é que a depressão foi contida.
O FMI prevê que os setores privados em todos os grandes países de alta renda ficarão em equilíbrio ou registrarão superávits neste ano. Isso implica que esses países devem estar incorrendo em grandes superávits em conta corrente ou em grandes déficits fiscais. A Alemanha está no primeiro caso. Os outros estão incorrendo em déficits fiscais. Dada a improbabilidade de que esses países grandes possam, coletivamente, registrar grandes superávits em conta corrente (em relação a quem poderiam fazê-lo?), eles têm de incorrer em déficits fiscais quando seus setores privados registram superávits enormes. Esses superávits, por sua vez, são explicados em parte pelo desejo de desalavancar, em parte por inapetência para tomar empréstimos e em parte pelo fato de o setor financeiro não poder ou não querer conceder empréstimos. Assim, tudo isso é a dolorosa ressaca depois da grande farra de crédito.
Assim, a grande história continua a ser de desalavancagem do setor privado temperada por uma política monetária frouxa e compensada pela alavancagem do balanço patrimonial do governo. A disposição das autoridades para fazer ambas as coisas, a despeito de críticas tolas, nos impediu de viver uma segunda grande depressão e continua a fazê-lo. Parece fantástica a ideia de que esses grandes déficits fiscais estão "expulsando" os gastos privados, quando as taxas de juros estão tão baixas em países abençoados por não estarem na zona do euro.
No entanto, alguns observadores institucionais estão inquietos diante dessas políticas. Em seu último relatório anual, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) aparentemente defende apertos monetário e fiscal nos países de alta renda. No entanto, o BIS não apresenta nenhuma análise compreensível sobre as consequências. O BIS observa, por exemplo, que "multiplicadores fiscais em uma 'recessão de balanço patrimonial (governamental)' pode ser menor do que em recessões normais. Em particular, numa "recessão de balanço patrimonial (governamental), agentes excessivamente endividados - atualmente, as famílias estão normalmente mais propensas a alocar uma maior fração de cada unidade adicional de renda à redução de seu endividamento, em vez de ampliar seus gastos com bens opcionais". Isso é efetivamente possível. A conclusão é que os déficits fiscais, facilmente financiados em países importantes, precisam ser ainda maiores, porque devem tanto facilitar a desalavancagem como sustentar a demanda. A outra maneira plausível de acelerar a desalavancagem é falências em massa, também denominada depressão. É isso o que deseja o BIS?
Sabemos que as grandes crises financeiras projetam longas sombras, especialmente em países cuja taxa estrutural de crescimento é modesta, o que torna a desalavancagem lenta. A política governamental deve tanto sustentar a demanda como facilitar a desalavancagem. Isso significa agressivas políticas monetárias e fiscais, articuladas com intervenções destinadas a recapitalizar bancos e acelerar a reestruturação da dívida privada. O governo Obama tentou tudo isso. Mas não foi suficientemente ambicioso. Também foi frustrado pela intransigência dos republicanos. No entanto, desde que os EUA evitem mergulhar em seu "abismo fiscal" no fim deste ano, deverá ocorrer uma moderada recuperação puxada pelo setor privado. Depois que isso estiver firmemente implementado, poderá ter início uma séria consolidação fiscal.
Infelizmente, os EUA não são a única das grandes economias em dificuldades. A crise também causou uma profunda fratura na zona do euro, a segunda maior economia no mundo. A impossibilidade de a eurozona articular uma resposta é garantia de turbulência. As pessoas que estão dando forma à política econômica estão mais preocupadas com o risco moral que com o pânico. Isso tudo torna muitíssimo possível uma onda de crises soberanas e bancárias, culminando em controles de câmbio e desintegração da zona euro.
Um número excessivo de abordagens e recomendações de política econômica não reconhece os desafios pós-crise nem elabora respostas eficazes. A essência da solução está em acelerar a desalavancagem, ao mesmo tempo em que se estimula a recuperação. Por esse critério, as políticas hoje executadas estão, infelizmente, muito longe de serem suficientemente boas. (Tradução de Sergio Blum).
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Ceticismo ronda estratégia de BCs
Por Eduardo Campos - Valor 10/07
De São Paulo
O modelo de resposta dos bancos centrais à crise iniciada em 2008 dá cada vez mais indicações de desgaste. A crise caminha para o quarto ano e não há sinais de que o crescimento da economia sairá dos discursos e virá dar as caras no mundo real. Dentro desse ambiente, o investimento em ações perde apelo, as taxas de juros globais devem seguir em baixa e o dólar, por mais contraditório que pareça, pode reafirmar posição como "porto seguro" em função de sua elevada liquidez.
Mais um aceno de que a estratégia composta por juros baixos e impressão de dinheiro não convence mais ninguém veio na semana passada. Banco Central Europeu (BCE) e Banco da China cortaram juros e o Banco da Inglaterra (BoE) ampliou seu programa de compra de ativos. A resposta foi zero nos mercados. Nada de corrida eufórica para os ativos de risco.
Tem até banco apelando para o desconhecido, como o Banco da Dinamarca, que instituiu juro negativo para as instituições que quiserem estacionar seus depósitos junto à autoridade monetária.
"Me parece que estamos em um fim de jogo. Políticas velhas e ineficazes não estão impactando mais o psicológico dos agentes de mercado e as empresas não acreditam num ambiente econômico melhor", diz o sócio da Teórica Investimentos, Rogério Freitas.
A política do dólar fraco instituída pelo Federal Reserve (Fed), banco central americano, desde 2008 também já deixou de funcionar. Com o juro baixo e a impressora de dólares ligada, pintando o mundo de verde, o BC americano tinha três objetivos principais: afastar a deflação, dar confiança aos consumidores e ampliar as exportações do país.
A deflação seria afastada via aumento no preço das commodities, algo obtido pela perda de valor do dólar. O juro baixo e a moeda fraca também resultariam em aumento nos índices de ações, melhorando a confiança dos consumidores. E por fim, o dólar baixo impulsionaria as exportações americanas, contribuindo para reativar a atividade.
Durante um período essa política funcionou bem, o dólar perdia valor, as bolsas subiam e as commodities também. Mas, novamente, tal estratégia é colocada em xeque.
Para Freitas, os últimos dados sobre a criação de empregos nos Estados Unidos - 80 mil postos em junho ante 100 mil previstos - mostram que o setor privado não está contratando, não está investindo e não acredita num futuro mais otimista.
"As políticas com estratégia de reflacionar os preços dos ativos, criando inflação, não surtiram efeito, nem surtirão. O Fed vem insistindo em encontrar a saída do excesso de dívida através da criação de mais inflação, mas, depois de quatro anos sem resultado, a conta fiscal está chegando", diz Freitas.
A ideia de "empurrar a economia" com as medidas de liquidez e juro baixo e, assim, adiar o pagamento da conta fiscal está parando de funcionar. A conta de tal estratégia está chegando antes do resultado (crescimento) aparecer.
"O aperto fiscal que está por vir no início de 2013 é gigantesco, mas inadiável, dada a deterioração das contas do governo americano", diz Freitas.
Uma série de incentivos fiscais vai expirar no começo do próximo ano, ameaçando "roubar" alguns pontos percentuais do PIB dos EUA. O assunto ainda não atingiu o mercado em cheio, mas já está na agenda do presidente do Fed, Ben Bernanke, que vem pedindo aos políticos para lidarem com essa questão. A ideia seria em diluir o aperto fiscal para não ameaçar o já fraco desempenho da economia.
Para Freitas, o modelo de transferência de recursos do setor público para o privado via empresas parou de funcionar. As injeções de liquidez não circulam na economia. Elas estão, em última instância, retidas nos balanços das empresas, que constroem um colchão de liquidez em função de um futuro nebuloso.
Com isso, o setor privado não contrata e não investe. Dentro desse quadro perverso, o desemprego tende a aumentar e o consumo a diminuir ainda mais.
"Aquele ambiente onde as empresas ficavam imunes ao baixo crescimento, porque tinham caixa e ainda pagavam algum dividendo melhor do que os juros zero, está com os dias contados", avalia.
Para Freitas, as ações do BC visam adiar o inevitável. O doloroso caminho da desalavancagem não só nos EUA, mas no mundo todo. O sistema parece não aguentar o volume de dívidas e alavancagem oriundos da crise e mais a montanha de dívida "nova" criada para lidar com o endividamento "antigo".
Esse complexo quadro se agrava mais conforme a agenda fiscal aperta nos EUA e está em constate discussão na zona do euro.
Estado das expectativas de longo prazo
Por Yoshiaki Nakano - Valor 10/07
A enorme disparidade entre a evolução das vendas dos varejistas, que em grande medida reflete o comportamento dinâmico da demanda agregada e da produção industrial, sobretudo da produção manufatureira, que sinaliza a evolução da oferta agregada, sintetiza o problema que a economia brasileira vem enfrentando no período recente, particularmente neste momento em que a crise internacional se torna mais aguda.
As vendas no varejo aumentaram 87% entre o ano 2000 até abril, enquanto que a produção industrial (indústria geral) aumentou apenas 35% nesse mesmo periodo. A rigor, a produção de manufaturados apresentou uma queda de 6%, se considerarmos setembro 2008 como base para o índice, antes da crise, portanto.
Observe-se no gráfico que as vendas no varejo, isto é, a demanda agregada ganha uma nova dinâmica a partir de 2003, expandindo-se de forma contínua. A produção industrial também se recupera, crescendo continuamente até 2008, ativada inclusive pelo boom de exportações de manufaturados até 2005. Percebe-se claramente que a crise financeira internacional teve pequeno impacto na demanda, pois o dinamismo tem origem doméstica, enquanto do lado da oferta, sofre um colapso. A pronta e bem-sucedida reação do governo, promoveu uma rápida recuperação em 2009/10. A partir dessa data a indústria brasileira andou de lado, distanciando-se cada vez mais da expansão da demanda doméstica.
A conclusão é que os problemas centrais da economia brasileira, particularmente graves neste momento, não estão do lado da demanda, mas do lado da oferta. A demanda agregada ganhou uma nova dinâmica a partir de 2003/04, com a geração de novos empregos e evolução positiva da produtividade na indústria, acompanhado do aumento da massa salarial. Essa dinâmica tinha todas as condições para se tornar virtuosa, autossustentável por muitos anos, senão décadas.
O problema é que nossa capacidade produtiva não acompanha a evolução da demanda de forma que os efeitos dinâmicos desta última são, em grande parte, transferidos para o exterior, com o aumento das importações. Os efeitos dinâmicos do mercado domestico, ao invés de resultarem em maior taxa de investimento e maior geração de emprego doméstico, estão gerando maior produção e empregos no exterior.
Os dados de importações e exportações confirmam com absoluta nitidez esse fato. Enquanto o quantum de importações dispara, depois da crise financeira, as exportações estão estagnadas. A produção manufatureira nacional está sendo substituída pelas importações. É esse fato que chamamos de desindustrialização.
Diante disso, coloca-se a questão central: por que no Brasil a expansão da demanda não gera efeitos virtuosos aumentando a taxa de investimento e, portanto, a expansão da oferta agregada? Por que as medidas fiscais e creditícias do governo têm efeitos tão efêmeros e não há resposta do lado dos investimentos?
Keynes dizia que as decisões de produção, dada a capacidade produtiva, eram baseadas em expectativas de curto prazo, que são revistas gradual e continuamente tendo em vista os resultados alcançados. Certamente, as medidas de estímulo do consumo dadas pelo governo afetaram essas expectativas e houve resposta positiva. As decisões de investimento produtivo são guiadas pelo "estado das expectativas de longo prazo", ainda segundo Keynes, este depende dos retornos esperados no futuro que são em parte baseados em fatos conhecidos com maior ou menor certeza e, em parte, eventos futuros que podem ser previstos com grau maior ou menor de confiança.
Assim é o estado de confiança com que os empresários fazem prognósticos sobre o futuro que é o fator relevante que determina a demanda de investimento. As recentes medidas do governo não mudaram em nada o estado de confiança dos empresários; ao contrário, as informações mais recentes mostram deterioração.
De fato, não devemos esquecer que nos últimos anos os empresários se cansaram de ver a produção nacional ser sistematicamente substituída pelas importações e os industriais se transformando em comerciantes, fechando suas fábricas que são convertidas em armazéns de produtos importados. Enquanto essa tendência continuar e estiver embutida solidamente no nosso regime de política econômica (juros elevados e câmbio apreciado), as ações de estímulos do governo são pontuais e de vida curta.
É necessário que o governo tome medidas mais profundas, que efetivamente revertam as expectativas de longo prazo e reestabeleçam a confiança dos empresários.
Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP.
Solução da crise nem em 20 anos
Por Wolfgang Münchau - Valor 10/07
Eu fiquei imaginando: quem compra ativos de risco depois de uma dessas "históricas" declarações do Conselho Europeu. Às vezes a alta dura algumas horas, outras vezes, apenas dias. A mais recente terminou em menos de uma semana; os spreads italianos e espanhóis já estão acima dos níveis pré-cúpula.
O consenso entre os observadores era de que a União Europeia (UE) tinha dado um importante passo na direção certa, adotando um caminho para a união bancária, mas que não havia feito o suficiente quanto à resolução de crises. Discordo dessa afirmação. Acredito ter sido um passo muito grande - na direção errada. A cúpula fez com que a solução concreta para a crise dependesse de uma decisão futura, que será ainda mais difícil de tomar e, portanto, ainda mais improvável.
Foi acordado que não haverá uma recapitalização bancária coletiva até que seja estabelecida uma união bancária completa, e o Bundesbank nos lembrou que isso não é possível sem uma união política. A conclusão lógica é que não vamos resolver a crise em menos de 20 anos.
O que sabemos agora é que a Alemanha não concordará com um seguro coletivo sobre depósitos. Os alemães sequer concordam em dar ao Mecanismo de Estabilidade Europeu uma "licença bancária" para que possa alavancar-se. Se a Alemanha não pode fazer o mínimo necessário agora, por que alguém imaginaria que poderá aceitar uma união política? Mais fácil é acreditar na promessa de um alcoólatra de que deixará de beber daqui a cinco anos.
A política de socorro ao euro cruzou um importante limiar na Alemanha. Uma pequena maioria ainda é favorável ao euro, mas a maioria é contrária a novos socorros. Um grupo de 160 economistas, liderado por Hans-Werner Sinn, presidente do instituto econômico Ifo, publicou na semana passada um manifesto contra uma união bancária. O documento veio recheado de som e fúria, mas o mais importante é que reflete uma visão consensual.
A resposta de Angela Merkel foi reveladora. Ela disse não haver nenhum motivo para preocupações. A união bancária diz respeito a supervisão coletiva, disse ela. Não haverá seguro conjunto de depósitos. Ela tem um entendimento muito distinto do Banco Central Europeu (BCE) sobre o que significa uma união bancária. Acredito que essa nova união bancária cubra os 25 maiores bancos e deixará as "cajas" e os "Landesbanken" sob controles nacionais. É como um alcoólatra prometendo doravante beber apenas os melhores conhaques.
A união bancária necessária é aquela que a Alemanha não aceitará: regulamentação e supervisão centralizadas, um fundo comum para reestruturação e seguro de depósitos. Isso levaria anos para ser criado. Se conduzido apropriadamente, isso exigiria uma mudança das constituições nacionais e de tratados europeus, ao menos para redefinir o papel do BCE. É loucura total sujeitar a solução da crise ao êxito do que seria o maior exercício de integração europeia na história.
Com as taxas de juro dos títulos de 10 anos acima de 6%, tanto a Itália como a Espanha poderão sustentar sua participação na zona do euro. Isso é o que Mario Monti e Mariano Rajoy deveriam ter deixado claro a Merkel durante a cúpula. Eles deveriam ter dito a ela que seus governos irão se preparar para saírem da zona do euro caso não haja mudança na política. Uma solução exige eurotítulos - ou alguma outra forma de mutualização da dívida - tanto do setor público como do setor privado, e compras de títulos pelo BCE. A Alemanha não aceita a primeira condição. O BCE não aceita a segunda.
Se algo não é sustentável nem autocorretivo, sobram apenas dois cursos de ação. A primeira é esperar pacientemente até que ocorra uma ruptura na situação. Essa é a estratégia seguida pelo Conselho Europeu e por alcoólatras. A alternativa é começar a fazer os preparativos - e tomar cuidado para não provocar uma ruptura nesse processo. É difícil imaginar uma saída sem desrespeitar centenas de leis nacionais e europeias. É por essa razão que ninguém está fazendo isso. (O país que o fizesse) precisaria alegar "força maior" em sua defesa. Levou uma década para que o euro fosse criado. Será preciso mais do que um fim de semana prolongado para destruí-lo. Um colapso se constituiria no maior choque econômico de nossa época. Mas, entre uma lista de opções de ruptura, algumas são melhores que outras. Escreverei sobre isso em uma coluna futura.
Em novembro, escrevi que o Conselho Europeu tinha dez dias para salvar o euro. Se naquele momento tivessem lançado as bases para uma união bancária e fiscal, poderiam estar agora em condições de obter um consenso em torno de uma estratégia eficaz para solução da crise baseada em recapitalização dos bancos e compras de títulos. Não o fizeram naquele momento. E não estão em condição de solucionar a crise agora.
Para mim, a mensagem da cúpula é de que a zona euro não solucionará a crise. Nesse sentido, foi, de fato, uma reunião "histórica". (Tradução de Sergio Blum).
Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.
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