segunda-feira, 16 de julho de 2012

Martinho Lutero e a zona do euro



Por Stephan Richter - Valor 16/07

Martinho Lutero, o teólogo e reformador alemão do século XVI, foi a mais crucial ausência quando os líderes europeus reuniram-se em Maastricht em 1992, para estabelecer os critérios para a União Econômica e Monetária Europeia. Em espírito e em termos de registro histórico, Lutero poderia ter fornecido uma regra de ouro adequada para identificar quais países deveriam participar da zona do euro - quais não deveriam.

Se um país europeu abandonou o catolicismo e abraçou o luteranismo (ou, mais amplamente, o protestantismo) após o início dos anos 1500, quando Martinho Lutero e alguns poucos outros reformadores, como Zwingli e Calvino lançaram a Reforma, isso teria sido uma boa indicação de que a nação estaria qualificada à adoção da moeda comum europeia cerca de cinco séculos mais tarde. Se tivesse permanecido predominantemente católica, ou mesmo Grega Ortodoxa, então não.

Com poucas exceções, essa regra simples teria poupado a centenas de milhões de pessoas em todo o mundo muito desespero, bem como grande parte da animosidade e frustração que agora prevalece - sem mencionar os trilhões de euros em valor de ativos.

Obviamente, sob essa regra, a Alemanha teria entrado para a zona do euro, assim como a Dinamarca, a Suécia e a Noruega. É interessante registrar que a Suíça, financeiramente sólida, também faria parte do grupo. O mesmo aconteceria, ainda mais surpreendentemente, com o Reino Unido.

Irlanda? Espanha? Portugal? Itália? Não. Que dirá a Grécia, esse extremado país não ortodoxo, quando se trata de conduzir uma política econômica limpa e apropriada.

Lutero, se consultado em Maastricht, teria vetado imediatamente qualquer sugestão de incluir esses países. "Leia meus lábios: países católicos não reformados", teria pronunciado ele. A zona do euro, como resultado, teria resultado bem mais coesa - e a economia europeia teria herdado muito menos problemas.

Os casos interessantes, e possíveis exceções, a considerar no contexto da "Regra de Lutero", são a Áustria, a França e a Polônia. Os dois primeiros adotaram o euro, o último, ainda não, apesar de suas políticas fiscais e gestão econômica terem sido verdadeiramente notáveis. Seriam uma saudável adição à zona do euro.

No que diz respeito à Áustria e à Polônia, dois países verdadeiramente católicos, pode-se argumentar, é claro, que são as exceções que confirmam a regra. Mas também poderíamos dizer que eles, assim como a França, estão na vizinhança imediata do país base de Lutero, a Alemanha.

Localizados, como estão, na órbita direta da Alemanha, alguns observadores afirmam que a Alemanha simplesmente não deixou a seus vizinhos do sul, leste e oeste qualquer outra escolha, que impôs sua vontade sobre eles. Uma vez que isso é muito difícil de implementar (embora os alemães certamente tenham tentado repetidamente fazê-lo em eras passadas), a explicação mais provável é que essas três nações julgaram mais apropriado a seu autointeresse adaptarem-se a seu ambiente mais amplo. Católicos, talvez, mas com uma saudável dose do protestantismo fiscal.

O que ajudou ainda mais, sem dúvida, foi o exemplo positivo das nações ao norte da Alemanha, na Escandinávia e até mesmo nos Bálticos. Sem exceção, pequenas, mas de caráter fortemente protestante, essas nações deram a outros países maiores vizinhos à Alemanha, a confiança de que não é preciso ser grande para ter uma sólida política fiscal.

Visto da perspectiva oposta, considere o leitor os países que nunca conseguiram superar a prática da Igreja Católica na época das exigentes indulgências (dinheiro doado à igreja em troca de perdão de pecados). Excessivo catolicismo, ou assim parece, é prejudicial à saúde fiscal de um país, ainda hoje, no Século XXI. Indulgências naquela época e incapacidade de gerir adequadamente as finanças públicas hoje. (Falo como alguém que nasceu católico e, portanto, não pode ser acusado de praticar qualquer forma de intolerância inter-religiosa.) Quando vistas dessa perspectiva, corrupção, evasão fiscal enorme e disseminada (veja-se a Itália e a Grécia) podem ser vistas como decorrente de uma tradição cultural de oferecer dinheiro para ter perdoadas suas transgressões. Em outras palavras, não há problemas em pecar, mesmo que tratem-se, atualmente, predominantemente, pecados fiscais.
Antes que o leitor considere esta análise como um caso grave de estereótipo religioso, permitam-me apontar para algumas importantes nuances que se constituem em exceção ao padrão sugerido acima. Considere a Eslováquia. Os eslovacos são católicos e sempre praticaram uma ética de trabalho vastamente superior, ao contrário de noções de Max Weber ou da "regra da Lutero" apresentada acima.

E o que dizer sobre a Itália? Não há uma entidade única denominada Itália. Existem duas Itálias completamente distintas. Num campo, há o velho Reino de Nápoles e as Duas Sicílias, de Roma para o sul. Ele continua a ser um ralo corrupto. Depois, há outro campo, a Itália setentrional, inclusive a Toscana, que é uma das mais bem administradas e mais eficientes economias industriais no planeta. E são ambos católicos. Mario Monti aponta para o único caminho disponível para tirar a Itália de seu pântano que já dura meio século.

Como solucionar a charada? Simples. Considere-a como uma mescla do princípio biológico de adaptação. Apesar de as ideias de Lutero não terem conseguido fixar raízes nesses lugares, mesmo áreas predominantemente católicas como a Eslováquia, a Áustria e o norte da Itália adaptaram gradualmente os valores econômicos, a ética de trabalho e a integridade do doutor Lutero e de João Calvino. A França, tão orgulhosa de suas modernas raízes anticlericais, continua vivendo à altura das verdadeiras consequências autodisciplinantes dessa afirmação.

Isso faz de Martinho Lutero, hoje, um profeta fiscal de alta estatura na Europa tanto católica protestante. (Tradução de Sergio Blum).



Stephan Richter é editor-chefe do theglobalist.com e presidente do Centro de Pesquisas Globalist

A deterioração do cenário externo foi "uma espécie de gatilho" para a desaceleração da economia brasileira


Valor 16/07


A deterioração do cenário externo foi "uma espécie de gatilho" para a desaceleração da economia brasileira, que cresceu a taxas mais fortes nos últimos anos em grande parte devido ao boom de commodities e à forte demanda externa por seus produtos, diz Barry Eichengreen, professor de Economia e Ciência Política da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. Para ele, o país precisa enfatizar o investimento em capital humano e o aumento da produtividade para voltar a crescer mais, dados os limites do consumo para impulsionar a economia e o delicado quadro internacional. O americano será um dos principais convidados do seminário "O Brasil e o Mundo em 2022", patrocinado pelo BNDES em comemoração aos seus 60 anos. O evento vai ocorrer no Rio de Janeiro nos dias 23 e 24, no Espaço Tom Jobim.

Para Eichengreen, é "compreensível" que o crescimento do Brasil tenha caído para níveis mais baixos num momento em que pioram as perspectivas para os preços de commodities e as condições externas se deterioraram. Nesse cenário, é um desafio crescer 4% ao ano, um nível que, segundo ele, o Brasil deveria ter como meta. No entanto, como o país tem espaço para aumentar a produtividade e a força de trabalho é crescente, é possível almejar esse objetivo, desde que o país siga "boas políticas".

De acordo com Eichengreen, "todo mundo sabe" que o Brasil precisa investir mais em educação e capacitação e elevar a produtividade no setor manufatureiro. "O Brasil tem algumas indústrias exportadoras líderes, algumas histórias famosas de sucesso, e precisa de muito mais histórias como essas", afirma ele, lembrando que, nos últimos anos, muito se ouviu falar da nova classe média brasileira e da importância do consumo.

A experiência de países como Grécia, Espanha e Portugal, porém, mostra que, se a economia depende demais da demanda interna, a tendência é que isso cause problemas em algum momento, diz ele. "O que o Brasil precisa investir em educação, capacitação e treinamento, e aumentar a produtividade, e o consumo não faz isso."

Eichengreen afirma que os juros mais baixos e o câmbio mais desvalorizado ainda não surtiram efeito sobre a atividade porque isso leva tempo. "Nós sabemos pelas evidências históricas que cortes de juros e movimentos na taxa de câmbio demoram pelo menos nove meses antes que os impactos se façam sentir completamente na economia", diz. Ele pondera, porém, que o real parece seguir num nível ainda forte, prejudicial à competitividade do exportador, apesar da recente desvalorização.

O economista americano vê o desenrolar da crise europeia com preocupação. Para ele, a decisão da cúpula da União Europeia no fim de junho, de fazer uma recapitalização direta dos bancos e caminhar para uma união bancária, é um passo importante, mas ainda há problemas nada desprezíveis. Como as medidas não são para agora, continua sem solução a questão dos bancos subcapitalizados, que não emprestam, por exemplo. "O segundo problema é que a crise bancária é apenas uma parte da crise europeia", ressalta Eichengreen. Há também uma crise da dívida soberana, uma de crescimento, uma de competitividade e uma política. "O acordo para criar uma união bancária é parte da solução, mas apenas uma parte. E há uma oposição muito forte à ideia crescendo na Alemanha."

Segundo Eichengreen, na Alemanha e nos países do norte da Europa permanece o desejo de se mover lentamente, e de apenas usar o dinheiro dos contribuintes para recapitalizar os bancos depois de que todas as instituições e salvaguardas estiverem prontas. "No entanto, se a crise piorar outra vez, com sinais de corrida bancária na Espanha ou na Itália, eles vão retornar ao assunto e agir mais rapidamente. Mas este é obviamente um modo muito perigoso de agir. Seria muito melhor fazê-lo antes da intensificação da crise."

Ele também critica o excesso de ênfase na austeridade fiscal que há em toda Europa. "Ela não está funcionando para eliminar os déficits fiscais porque deprime a atividade econômica e, com isso, afeta as receitas de impostos." Outro problema é que, com uma situação econômica delicada, perde-se o apoio político para reformas estruturais. "Está claro que eles precisam de uma estratégia diferenciada, o que significa menos austeridade agora e mais austeridade depois. Além disso, é importante que haja menos austeridade em países do norte da Europa que têm espaço fiscal. Em terceiro lugar, se a política fiscal vai ser contracionista, outra política tem que ser expansionista, e o Banco Central Europeu (BCE) não tem respondido adequadamente", avalia Eichengreen.

Para ele, o BCE deveria adotar o chamado afrouxamento quantitativo - a política monetária ultraexpansionista, de compra de títulos, que teria como um dos efeitos um euro mais fraco em relação a outras moedas, e isso ajudaria no crescimento. "Mais crescimento na Europa ajudaria a fortalecer o apoio político às reformas e a melhorar os resultados fiscais", diz.

Eichengreen diz que um colapso do euro seria muito pior do que foi a quebra do Lehman Brothers em 2008, causando uma catástrofe financeira. Devido a essa avaliação, a sua percepção sempre foi a de que os líderes europeus fariam o necessário para manter a união monetária. "Mas, à medida que a crise continua, eu, como todo mundo, fico menos confiante de que eles farão o necessário."
Nesse cenário, a Europa caminha para a sua década perdida, sem crescimento, dada a falta de capacidade de promover reformas, sustentar a demanda e encorajar a oferta. Dada a demografia desfavorável, com envelhecimento da população e força de trabalho estagnada ou encolhendo, os países europeus já caminhavam para um período longo de baixo crescimento, diz ele. A incapacidade de combater a crise tende a levar a algo pior - uma era de estagnação.

Eichengreen não se mostra otimista em relação aos EUA. Para ele, o país deverá evitar o risco de uma contração fiscal violenta em 2013, impedindo a combinação de um forte corte de gastos e uma alta exagerada de impostos, mas não vai resolver a questão de vez. Ele acredita ainda que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) caminha em direção à terceira rodada de afrouxamento quantitativo, pois, com exceção do mercado imobiliário, sobram indicadores ruins, das vendas no varejo à produção industrial, passando pela confiança do consumidor. Para ele, o Fed já deveria ter sido mais agressivo e adotado essa política.

O economista acredita que a China vai driblar o risco de um pouso forçado, mas vai insistir nos estímulos ao investimento e às exportações. Com isso, adiará a mudança em prol da maior ênfase ao consumo privado, vista como necessária pela maioria dos analistas. Os desequilíbrios chineses, desse modo, vão continuar a crescer.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Selic ao menor nível histórico


Valor 12/07


A taxa básica de juros da economia brasileira caiu para 8% ao ano, menor patamar da história do Comitê de Política Monetária (Copom), criado em 1996. A decisão foi tomada em meio a uma expectativa quase unânime quanto ao tamanho do corte. A maioria esmagadora dos analistas de mercado já esperava que a Selic caísse 0,50 ponto percentual, o que se confirmou.
Como na reunião de maio, houve consenso entre os diretores do Banco Central, que formam o colegiado. A reunião foi a mais longa desde agosto de 2011, quando começou o ciclo de afrouxamento monetário e durou mais de 3 horas e meia.

No seu tradicional e breve comunicado, o Copom repetiu o texto de maio: "O Copom considera que, neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação. O comitê nota ainda que, até agora, dada a fragilidade da economia global, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária. Diante disso, dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 8% ao ano, sem viés".

A inflação em queda, a piora de indicadores da indústria e do comércio, o incerto cenário mundial, que também é de desaceleração, explicam por que o mercado já esperava um novo corte. Por outro lado, quase ninguém apostava em redução maior do que 0,50 ponto por causa das sinalizações de parcimônia dadas pelo BC. Na ata de maio e no último relatório trimestral de inflação, a autoridade defendeu que o processo de flexibilização deveria ser conduzido com parcimônia porque reduções anteriores na taxa básica de juros ainda não produziram todo o seu efeito potencial sobre a economia.

"A opção pela parcimônia de 0,5 ponto percentual se manteve fiel à comunicação recente do BC", diz o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros. Na sua opinião, "tanto o Banco Central quanto o governo estão atuando de acordo com a conjuntura, possivelmente com alguma insegurança inconfessável diante da hipótese de eventualmente estarem dando estímulos monetários e setoriais fiscais exagerados, caso as expectativas melhorem um pouco no cenário global". Para Barros, o cenário mundial "certamente não está pior atualmente do que antes. Pode-se dizer que ele até melhorou residualmente na Europa".
O economista destaca que o monitoramento da conjuntura global (China, Europa e EUA) será crucial para a trajetória dos juros. Ele acredita que o Copom seguirá reduzindo a Selic também de olho nos sinais da atividade econômica. Na sua avaliação, se a atividade não se mostrar claramente melhor no terceiro trimestre, a Selic poderá chegar a 7,75% ou 7,50% ao ano ou até menos. "Se a atividade voltar apenas no quarto trimestre, os juros irão ainda mais abaixo", diz. Ele acrescenta, por outro lado, que não há dúvida sobre a proximidade do fim do ciclo de afrouxamento monetário iniciado em agosto de 2011. Desde então, a Selic já caiu 4,5 pontos percentuais, saindo de 12,5% para 8% ao ano.

A última edição da pesquisa Focus, feita pelo BC junto a uma centena de empresas e bancos, indica que o mercado acredita em mais um corte de 0,50 ponto percentual em agosto. Seria o último do atual ciclo, com a Selic em 7,5% ao ano.

O economista-chefe da BB DTVM, Marcelo Arnosti, diz que o "balanço confortável de riscos" permitiu ao Copom fazer esse novo corte. Entre os fatores, ele destaca o comportamento do IPCA, cuja variação acumulada em 12 meses vem recuando e já está abaixo de 5%. Até junho, a inflação do índice nesse critério foi de 4,92%. E para o ano calendário de 2012, as expectativas de mercado, que também cederam, apontam inflação de 4,85%, ressalta Arnosti.

O economista Antônio Madeira, da LCA Consultores, afirma que o quadro econômico pouco se alterou nos últimos 45 dias para justificar uma decisão diferente da postura parcimoniosa sinalizada na ata de maio. A recuperação da economia doméstica está bastante lenta e, pelo canal externo, seguem pressões de baixas de preços. Para a LCA, está dado como certo mais um corte de 0,5 ponto percentual em agosto, o que levaria a taxa básica para 7,5% ao ano, nível no qual ficaria até o quarto trimestre de 2013.

Segundo o economista-sênior do Espirito Santo Investment Bank, Flávio Serrano, o mercado de juros futuros deve ver uma intensificação das apostas de que a Selic pode cair para baixo de 7,5%. Ou seja, além do 0,50 ponto em agosto, que fica "contratado" pela repetição do comunicado, haveria redução, também em outubro.

No entanto, pondera o economista, o espaço para ajustes de baixa nas taxas parece um pouco limitado, pois os contratos futuros já colocam um corte de 0,15 ponto no Copom de outubro.

Outro ponto destacado por Serrano é o aumento nas avaliações de que a Selic pode levar mais tempo para subir. A curva futura mostra a possibilidade de alta de juro em junho de 2013, com probabilidade de 1,25 ponto de alta. Antes, o ciclo de alta projetado teria início em abril, com 1,5 ponto de aperto monetário.

O foco estará agora, na ata da reunião, que sai na próxima semana. Para Serrano, o documento deve reforçar a surpresa com o fraco crescimento da economia, mas manter as indicações de que o segundo semestre será de recuperação.

O economista-sênior para a América Latina da empresa de análises de mercado 4Cast, Pedro Tuesta, destaca que ao manter o mesmo comunicado de maio, o BC não dá senso de urgência à tomada de decisão. Com isso, a avaliação do especialista segue em mais um corte de 0,50, com Selic a 7,5% ao ano e juro estável por longo período de tempo. Para Tuesta, o BC deve trocar o espaço para cortes adicionais de juros pela possibilidade de não precisar subir a taxa tão cedo.

A reunião de ontem marcou a estreia de Luiz Edson Feltrim, até então secretário Executivo do BC, nomeado diretor de Assuntos Especiais, após ser sabatinado e ter seu nome aprovado pelo Senado Federal. Trata-se de uma diretoria nova do BC, que vai cuidar, dentre outros assuntos, da comunicação externa, principalmente com os usuários do sistema financeiro.

A taxa de juros e a doença holandesa



Por Adalberto Cardoso - Valor 12/07

Na segunda metade da década de 2000 foi intensa a discussão entre economistas e jornalistas especializados sobre estarmos ou não sofrendo da chamada "doença holandesa". O termo não faz justiça aos holandeses, mas generalizou-se como conceito aplicável a situações de desindustrialização resultante da apreciação cambial provocada pela exportação de commodities. O caso holandês é tomado como expressão típica disso. Nos anos 1960 o país descobriu grandes jazidas de gás natural, que rapidamente se tornou seu principal produto de exportação, provocando longeva entrada de dólares, o que levou à valorização do florim e à perda de competitividade de sua indústria, e consequente desindustrialização.

Autores como Luiz Carlos Bresser-Pereira e Antônio Delfim Netto não têm dúvidas de que o Brasil vive sua doença holandesa. O aumento acentuado do preço das commodities (soja, carnes de todo tipo, minérios, celulose, madeira, açúcar...) exportadas pelo Brasil ao longo da década de 2000, responsável pelo boom exportador que sustentou o crescimento econômico e a redução de nossa estrutural fragilidade externa até pelo menos 2010, teria provocado excessiva e duradoura valorização cambial, gerando aqui o mesmo efeito do gás natural na Holanda: desestruturação da malha industrial, com perda importante de elos da cadeia produtiva; aumento da dependência de importações para suprimento da indústria sobrevivente, com impactos negativos sobre a balança comercial setorial; perda de competitividade internacional dos produtos; enfim, desindustrialização.

A controvérsia em torno do tema é grande, já que outros autores (como Maílson da Nóbrega, por exemplo) argumentam na direção contrária. Para eles, as cadeias de produção de commodities têm efeitos positivos sobre diversos segmentos da malha industrial e de serviços, além de gerar as divisas de que o país precisou para honrar seus compromissos nos últimos anos.

Seja como for, parece fora de dúvidas que a indústria brasileira vive momento complicado. Em maio de 2012, segundo dados do IBGE, o setor industrial como um todo havia acumulado perda de 1,76% em 12 meses. A queda fora maior em setores como têxtil (13,1%) vestuário (10,4%) calçados e artigos de couro (9,3%), máquinas e equipamentos de informática para escritório e máquinas e aparelhos de material elétrico (mais de 7% cada), mais sensíveis à competição externa, principalmente da China. Malgrado a crise internacional, que contribui para o fraco desempenho dos segmentos exportadores da indústria nacional, talvez seja mesmo o caso de que a taxa de câmbio tenha ficado por tempo demais abaixo do que os especialistas consideram "taxa de equilíbrio", isto é, algo em torno de R$ 2,00 por dólar, com isso provocando por aqui os sintomas da doença holandesa.

Nos debates sobre nossa possível doença, contudo, costuma-se mencionar apenas a crescente especialização da pauta exportadora e o preço das commodities como causas da apreciação do câmbio. Quase nunca se menciona a taxa de juros como fator de atração de capital, o que não deixa de ser espantoso, já que o país praticou as maiores taxas de juros do mundo por uma década e meia. E os números são portentosos.

Segundo dados do Banco Central, entre janeiro de 1996 a maio de 2012 investidores estrangeiros, aplicaram a bagatela de US$ 420 bilhões (em valores de maio de 2012, atualizados pelo INPC) em títulos da dívida pública brasileira (sobretudo em renda fixa), títulos lastreados, portanto, nas taxas de juros oficiais. A exportação de produtos básicos no mesmo período atingiu a cifra de US$ 850 bilhões, também em valores atualizados. Logo, entraram no país, pela porta da dívida pública interna, metade de tudo o que país exportou em commodities em 15 anos. A taxa de juros atraiu, sozinha, mais dólares do que cada commodity em particular. E vale notar que o investimento dos brasileiros em renda fixa limitou-se a US$ 46 bilhões, ou pouco mais de 10% do que os estrangeiros aplicaram.

Outro dado relevante: no mesmo período o Brasil pagou a esses investidores (repita-se, em sua imensa maioria estrangeiros), na forma de juros sobre a dívida interna, nada mais nada menos que US$ 1,4 trilhão, o que equivalia a duas vezes o PIB da Holanda de 2010, e a 65% do PIB brasileiro de maio de 2012, ainda segundo dados do Banco Central. A taxa de juros funcionou, portanto, como uma draga de duas bocas, que injetou recursos por uma porta e sugou riqueza nacional pela outra.

Sugou, sobretudo, recursos que poderiam ter sido canalizados para o investimento em infraestrutura por exemplo, reconhecido gargalo que aumenta os custos e reduz competitividade da indústria. Portos, estradas, ferrovias, aeroportos, refinarias de petróleo, metrôs e também pessoal qualificado de nível superior, jovens e adolescentes formados em escolas públicas de qualidade, hospitais mais bem equipados, médicos e professores melhor remunerados, tudo isso virou fumaça na draga reversa dos juros altos. Juros, aliás, que consumiram o equivalente a três vezes o orçamento do Ministério da Saúde entre 1996 e 2011, e a cinco vezes o orçamento do Ministério da Educação no mesmo período.

A analogia com a doença holandesa, portanto, escamoteia um elemento central de nossa própria "doença", mesmo que seu efeito desindustrializante ainda precise ser provado: por aqui, a pressão sobre o câmbio decorreu tanto da sobrevalorização das commodities (que em 2011 representaram 50% da renda proveniente de exportações) quanto das altas taxas de juros, praticadas por período longo demais. Estas últimas ainda tiveram o custo adicional de sugar a riqueza gerada localmente, o que limitou a capacidade de investimento do Estado visando o bem estar da população e maior eficiência do investimento produtivo.



Adalberto Cardoso é doutor em sociologia, professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Depois da euforia (III): poupança escassa



Por Fabio Giambiagi - Valor 11/07

Este é o terceiro de cinco artigos sobre meu livro com Armando Castelar Pinheiro ("Além da euforia", Editora Campus). Depois de um primeiro artigo geral e de outro sobre a produtividade, hoje irei tratar da nossa baixa poupança doméstica. Na discussão sobre o papel do Estado, que ressurgiu com força no Brasil na crise de 2008/2009, os defensores de uma maior participação do governo têm utilizado o argumento que, em circunstâncias em que o setor privado hesita em investir, o investimento público - ou financiado com recursos públicos - teria um papel fundamental para o aumento do investimento.

Há, porém, uma questão que não tem sido levada devidamente em conta. O problema que existe para o aumento do investimento não é se ele será feito pelo setor público ou pelo setor privado e sim como se ganha espaço para isso na composição da demanda agregada. Não adianta pretender que a Petrobras gaste mais no pré-sal, que a União dote o país de aeroportos decentes para a Copa de 2014 ou que os Estados pavimentem mais estradas, se não forem tomadas medidas para conter o ritmo de expansão do consumo, caso a economia opere perto da plena carga.

É interessante olhar as duas tabelas deste artigo. Uma delas mostra a igualdade entre a Formação Bruta de Capital (FBK) e a poupança e a decomposição desta entre a poupança doméstica e a externa, sendo que esta última é a soma da renda líquida enviada ao exterior (RLEE) com o déficit de transações das contas de bens e serviços com o exterior. A outra tabela apresenta as taxas de variação reais médias dos componentes da demanda agregada em períodos específicos: 1) os primeiros anos do Plano Real; 2) os anos de ajuste do governo FHC e, já no governo Lula, da ortodoxia de Antonio Palocci; e 3) o pós-2004.

As duas tabelas conjuntamente contam uma história em três capítulos: 1) deterioração da poupança doméstica nos primeiros anos do Plano Real, com piora da situação externa; 2) ajuste de 1999 a 2004, revertendo tais processos com contenção do consumo, aumento da poupança doméstica e notável mudança do resultado das transações correntes com o exterior; e 3) nova inflexão depois de 2004, com maior consumo, redução da poupança doméstica e piora das contas externas. O "novo modelo de desenvolvimento" que sucedeu ao fim da era Palocci nada mais foi do que o velho modelo de crescer com poupança externa.

A discussão em torno do papel do Estado ignora tais questões. Pode até fazer sentido conduzir a Petrobras em ritmo de "pau na máquina" ou "turbinar" as instituições financeiras oficiais para alavancar seus empréstimos. O que não faz sentido é fazer isso, ao mesmo tempo em que o crédito continua crescendo bastante e se adotam regras generosas de aumento do salário mínimo - mecanismos que reforçam o crescimento do consumo - e depois reclamar que a conta corrente está com um déficit muito alto! É preciso entender que um dos problemas críticos a serem enfrentados pela economia brasileira para poder crescer mais chama-se: "escassez de poupança".

Até agora, depois de 2004, foi possível implementar uma política que "driblou" qualquer tentativa de fazer escolhas, uma vez que tanto o consumo como o investimento aumentaram a taxas vigorosas, ao mesmo tempo em que o país exibia indicadores externos confortáveis e inflação baixa. Isso ocorreu, porém, partindo de uma situação muito peculiar, quando no começo dessa história de sucesso havia grande capacidade ociosa e superávit em conta corrente, com muita "gordura" para queimar. Entretanto, se o Brasil continuar exibindo um descompasso entre o crescimento da absorção doméstica e do PIB e tendo, como corolário disso, um aumento do "quantum" de importações significativamente superior ao das exportações, haja pré-sal para equacionar esse desequilíbrio na segunda metade da década!



O livro será lançado hoje, 11 de julho, em São Paulo, na Livraria Cultura, Av. Paulista 2073 (Conjunto Nacional).



Fabio Giambiagi, economista, coorganizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus).

Ainda temos a sensação de afundar



Por Martin Wolf - Valor 11/07

Faz quase cinco anos que a crise financeira abateu um mundo desavisado - agosto de 2007. Como estão hoje os países de alta renda atingidos pela crise? Mal.

Das seis maiores economias de alta renda (mais a zona do euro), somente EUA e Alemanha estão acima de picos anteriores. Desde que os EUA foram o epicentro dos choques iniciais, sua recuperação foi relativamente boa. Mas nenhum desses países pode estar feliz com seu desempenho. Enquanto nos EUA o Produto Interno Bruto (PIB) tem se mostrado maior do que o desses outros países, a taxa de desemprego mais que dobrou, de 4,7% em julho de 2007 para 10% em outubro de 2009. Mas os EUA ainda tiveram um desempenho melhor do que a zona euro, cuja economia está estagnada e cuja mais recente taxa de desemprego é de 11,1%, contra 8,2% nos EUA.

As economias estão estagnadas, ao mesmo tempo em que as políticas de juros estão agressivas. A maior taxa de juros de curto prazo oferecida por quaisquer dos bancos centrais das grandes economias de alta renda é 0,75%, praticada pelo Banco Central Europeu (BCE). Em relação ao PIB, os balanços patrimoniais dos bancos centrais também dobraram nos grandes países de alta renda desde 2007. Japão, EUA e Reino Unido continuam a incorrer em déficits fiscais muito grandes para tempos de paz. mas, apesar de enormes déficits fiscais, as taxas de juro de longo prazo remuneradas por títulos dos governos japonês, americano e britânico estão muito baixas, 0,8%, 1,5% e 1,6%, respectivamente.

David Levy, do Jerome Levy Forecasting Center, rotula de "depressão contida" essa conjuntura de estagnação econômica com enormes estímulos de política monetária. A explicação é clara: importantes economias estão em dificuldades em face de sua excessiva alavancagem, particularmente em seus setores familiar e financeiro. Nos EUA, por exemplo, a dívida total do setor privado cresceu de 112% do PIB em 1976 para um pico de 296% em 2008. Essa proporção tinha recuado para 250% até o fim do primeiro trimestre de 2012, posição em que esteve em 2003. Em 2007, o endividamento bruto privado dos EUA foi de 29% do PIB. Em 2009, 2010 e 2011, porém, o percentual foi negativo.

Acima de tudo, os setores privados estão incorrendo em grandes excedentes de renda sobre gastos. Nos EUA, o balanço financeiro do setor privado passou de um déficit de 2,4% do PIB no terceiro trimestre de 2007 para um superávit de 8,2% no segundo trimestre de 2009. Essa enorme inflexão teria certamente causado uma depressão enorme, se o governo não tivesse aceito incorrer em déficits fiscais compensatórios. Dessa forma é que a depressão foi contida.

O FMI prevê que os setores privados em todos os grandes países de alta renda ficarão em equilíbrio ou registrarão superávits neste ano. Isso implica que esses países devem estar incorrendo em grandes superávits em conta corrente ou em grandes déficits fiscais. A Alemanha está no primeiro caso. Os outros estão incorrendo em déficits fiscais. Dada a improbabilidade de que esses países grandes possam, coletivamente, registrar grandes superávits em conta corrente (em relação a quem poderiam fazê-lo?), eles têm de incorrer em déficits fiscais quando seus setores privados registram superávits enormes. Esses superávits, por sua vez, são explicados em parte pelo desejo de desalavancar, em parte por inapetência para tomar empréstimos e em parte pelo fato de o setor financeiro não poder ou não querer conceder empréstimos. Assim, tudo isso é a dolorosa ressaca depois da grande farra de crédito.

Assim, a grande história continua a ser de desalavancagem do setor privado temperada por uma política monetária frouxa e compensada pela alavancagem do balanço patrimonial do governo. A disposição das autoridades para fazer ambas as coisas, a despeito de críticas tolas, nos impediu de viver uma segunda grande depressão e continua a fazê-lo. Parece fantástica a ideia de que esses grandes déficits fiscais estão "expulsando" os gastos privados, quando as taxas de juros estão tão baixas em países abençoados por não estarem na zona do euro.

No entanto, alguns observadores institucionais estão inquietos diante dessas políticas. Em seu último relatório anual, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) aparentemente defende apertos monetário e fiscal nos países de alta renda. No entanto, o BIS não apresenta nenhuma análise compreensível sobre as consequências. O BIS observa, por exemplo, que "multiplicadores fiscais em uma 'recessão de balanço patrimonial (governamental)' pode ser menor do que em recessões normais. Em particular, numa "recessão de balanço patrimonial (governamental), agentes excessivamente endividados - atualmente, as famílias estão normalmente mais propensas a alocar uma maior fração de cada unidade adicional de renda à redução de seu endividamento, em vez de ampliar seus gastos com bens opcionais". Isso é efetivamente possível. A conclusão é que os déficits fiscais, facilmente financiados em países importantes, precisam ser ainda maiores, porque devem tanto facilitar a desalavancagem como sustentar a demanda. A outra maneira plausível de acelerar a desalavancagem é falências em massa, também denominada depressão. É isso o que deseja o BIS?

Sabemos que as grandes crises financeiras projetam longas sombras, especialmente em países cuja taxa estrutural de crescimento é modesta, o que torna a desalavancagem lenta. A política governamental deve tanto sustentar a demanda como facilitar a desalavancagem. Isso significa agressivas políticas monetárias e fiscais, articuladas com intervenções destinadas a recapitalizar bancos e acelerar a reestruturação da dívida privada. O governo Obama tentou tudo isso. Mas não foi suficientemente ambicioso. Também foi frustrado pela intransigência dos republicanos. No entanto, desde que os EUA evitem mergulhar em seu "abismo fiscal" no fim deste ano, deverá ocorrer uma moderada recuperação puxada pelo setor privado. Depois que isso estiver firmemente implementado, poderá ter início uma séria consolidação fiscal.

Infelizmente, os EUA não são a única das grandes economias em dificuldades. A crise também causou uma profunda fratura na zona do euro, a segunda maior economia no mundo. A impossibilidade de a eurozona articular uma resposta é garantia de turbulência. As pessoas que estão dando forma à política econômica estão mais preocupadas com o risco moral que com o pânico. Isso tudo torna muitíssimo possível uma onda de crises soberanas e bancárias, culminando em controles de câmbio e desintegração da zona euro.

Um número excessivo de abordagens e recomendações de política econômica não reconhece os desafios pós-crise nem elabora respostas eficazes. A essência da solução está em acelerar a desalavancagem, ao mesmo tempo em que se estimula a recuperação. Por esse critério, as políticas hoje executadas estão, infelizmente, muito longe de serem suficientemente boas. (Tradução de Sergio Blum).



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Ceticismo ronda estratégia de BCs



Por Eduardo Campos - Valor 10/07
De São Paulo

O modelo de resposta dos bancos centrais à crise iniciada em 2008 dá cada vez mais indicações de desgaste. A crise caminha para o quarto ano e não há sinais de que o crescimento da economia sairá dos discursos e virá dar as caras no mundo real. Dentro desse ambiente, o investimento em ações perde apelo, as taxas de juros globais devem seguir em baixa e o dólar, por mais contraditório que pareça, pode reafirmar posição como "porto seguro" em função de sua elevada liquidez.

Mais um aceno de que a estratégia composta por juros baixos e impressão de dinheiro não convence mais ninguém veio na semana passada. Banco Central Europeu (BCE) e Banco da China cortaram juros e o Banco da Inglaterra (BoE) ampliou seu programa de compra de ativos. A resposta foi zero nos mercados. Nada de corrida eufórica para os ativos de risco.

Tem até banco apelando para o desconhecido, como o Banco da Dinamarca, que instituiu juro negativo para as instituições que quiserem estacionar seus depósitos junto à autoridade monetária.
"Me parece que estamos em um fim de jogo. Políticas velhas e ineficazes não estão impactando mais o psicológico dos agentes de mercado e as empresas não acreditam num ambiente econômico melhor", diz o sócio da Teórica Investimentos, Rogério Freitas.

A política do dólar fraco instituída pelo Federal Reserve (Fed), banco central americano, desde 2008 também já deixou de funcionar. Com o juro baixo e a impressora de dólares ligada, pintando o mundo de verde, o BC americano tinha três objetivos principais: afastar a deflação, dar confiança aos consumidores e ampliar as exportações do país.

A deflação seria afastada via aumento no preço das commodities, algo obtido pela perda de valor do dólar. O juro baixo e a moeda fraca também resultariam em aumento nos índices de ações, melhorando a confiança dos consumidores. E por fim, o dólar baixo impulsionaria as exportações americanas, contribuindo para reativar a atividade.

Durante um período essa política funcionou bem, o dólar perdia valor, as bolsas subiam e as commodities também. Mas, novamente, tal estratégia é colocada em xeque.

Para Freitas, os últimos dados sobre a criação de empregos nos Estados Unidos - 80 mil postos em junho ante 100 mil previstos - mostram que o setor privado não está contratando, não está investindo e não acredita num futuro mais otimista.

"As políticas com estratégia de reflacionar os preços dos ativos, criando inflação, não surtiram efeito, nem surtirão. O Fed vem insistindo em encontrar a saída do excesso de dívida através da criação de mais inflação, mas, depois de quatro anos sem resultado, a conta fiscal está chegando", diz Freitas.

A ideia de "empurrar a economia" com as medidas de liquidez e juro baixo e, assim, adiar o pagamento da conta fiscal está parando de funcionar. A conta de tal estratégia está chegando antes do resultado (crescimento) aparecer.

"O aperto fiscal que está por vir no início de 2013 é gigantesco, mas inadiável, dada a deterioração das contas do governo americano", diz Freitas.

Uma série de incentivos fiscais vai expirar no começo do próximo ano, ameaçando "roubar" alguns pontos percentuais do PIB dos EUA. O assunto ainda não atingiu o mercado em cheio, mas já está na agenda do presidente do Fed, Ben Bernanke, que vem pedindo aos políticos para lidarem com essa questão. A ideia seria em diluir o aperto fiscal para não ameaçar o já fraco desempenho da economia.

Para Freitas, o modelo de transferência de recursos do setor público para o privado via empresas parou de funcionar. As injeções de liquidez não circulam na economia. Elas estão, em última instância, retidas nos balanços das empresas, que constroem um colchão de liquidez em função de um futuro nebuloso.
Com isso, o setor privado não contrata e não investe. Dentro desse quadro perverso, o desemprego tende a aumentar e o consumo a diminuir ainda mais.

"Aquele ambiente onde as empresas ficavam imunes ao baixo crescimento, porque tinham caixa e ainda pagavam algum dividendo melhor do que os juros zero, está com os dias contados", avalia.

Para Freitas, as ações do BC visam adiar o inevitável. O doloroso caminho da desalavancagem não só nos EUA, mas no mundo todo. O sistema parece não aguentar o volume de dívidas e alavancagem oriundos da crise e mais a montanha de dívida "nova" criada para lidar com o endividamento "antigo".

Esse complexo quadro se agrava mais conforme a agenda fiscal aperta nos EUA e está em constate discussão na zona do euro.

Estado das expectativas de longo prazo



Por Yoshiaki Nakano - Valor 10/07

A enorme disparidade entre a evolução das vendas dos varejistas, que em grande medida reflete o comportamento dinâmico da demanda agregada e da produção industrial, sobretudo da produção manufatureira, que sinaliza a evolução da oferta agregada, sintetiza o problema que a economia brasileira vem enfrentando no período recente, particularmente neste momento em que a crise internacional se torna mais aguda.

As vendas no varejo aumentaram 87% entre o ano 2000 até abril, enquanto que a produção industrial (indústria geral) aumentou apenas 35% nesse mesmo periodo. A rigor, a produção de manufaturados apresentou uma queda de 6%, se considerarmos setembro 2008 como base para o índice, antes da crise, portanto.

Observe-se no gráfico que as vendas no varejo, isto é, a demanda agregada ganha uma nova dinâmica a partir de 2003, expandindo-se de forma contínua. A produção industrial também se recupera, crescendo continuamente até 2008, ativada inclusive pelo boom de exportações de manufaturados até 2005. Percebe-se claramente que a crise financeira internacional teve pequeno impacto na demanda, pois o dinamismo tem origem doméstica, enquanto do lado da oferta, sofre um colapso. A pronta e bem-sucedida reação do governo, promoveu uma rápida recuperação em 2009/10. A partir dessa data a indústria brasileira andou de lado, distanciando-se cada vez mais da expansão da demanda doméstica.

A conclusão é que os problemas centrais da economia brasileira, particularmente graves neste momento, não estão do lado da demanda, mas do lado da oferta. A demanda agregada ganhou uma nova dinâmica a partir de 2003/04, com a geração de novos empregos e evolução positiva da produtividade na indústria, acompanhado do aumento da massa salarial. Essa dinâmica tinha todas as condições para se tornar virtuosa, autossustentável por muitos anos, senão décadas.

O problema é que nossa capacidade produtiva não acompanha a evolução da demanda de forma que os efeitos dinâmicos desta última são, em grande parte, transferidos para o exterior, com o aumento das importações. Os efeitos dinâmicos do mercado domestico, ao invés de resultarem em maior taxa de investimento e maior geração de emprego doméstico, estão gerando maior produção e empregos no exterior.

Os dados de importações e exportações confirmam com absoluta nitidez esse fato. Enquanto o quantum de importações dispara, depois da crise financeira, as exportações estão estagnadas. A produção manufatureira nacional está sendo substituída pelas importações. É esse fato que chamamos de desindustrialização.

Diante disso, coloca-se a questão central: por que no Brasil a expansão da demanda não gera efeitos virtuosos aumentando a taxa de investimento e, portanto, a expansão da oferta agregada? Por que as medidas fiscais e creditícias do governo têm efeitos tão efêmeros e não há resposta do lado dos investimentos?

Keynes dizia que as decisões de produção, dada a capacidade produtiva, eram baseadas em expectativas de curto prazo, que são revistas gradual e continuamente tendo em vista os resultados alcançados. Certamente, as medidas de estímulo do consumo dadas pelo governo afetaram essas expectativas e houve resposta positiva. As decisões de investimento produtivo são guiadas pelo "estado das expectativas de longo prazo", ainda segundo Keynes, este depende dos retornos esperados no futuro que são em parte baseados em fatos conhecidos com maior ou menor certeza e, em parte, eventos futuros que podem ser previstos com grau maior ou menor de confiança.

Assim é o estado de confiança com que os empresários fazem prognósticos sobre o futuro que é o fator relevante que determina a demanda de investimento. As recentes medidas do governo não mudaram em nada o estado de confiança dos empresários; ao contrário, as informações mais recentes mostram deterioração.

De fato, não devemos esquecer que nos últimos anos os empresários se cansaram de ver a produção nacional ser sistematicamente substituída pelas importações e os industriais se transformando em comerciantes, fechando suas fábricas que são convertidas em armazéns de produtos importados. Enquanto essa tendência continuar e estiver embutida solidamente no nosso regime de política econômica (juros elevados e câmbio apreciado), as ações de estímulos do governo são pontuais e de vida curta.

É necessário que o governo tome medidas mais profundas, que efetivamente revertam as expectativas de longo prazo e reestabeleçam a confiança dos empresários.



Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP.

Solução da crise nem em 20 anos



Por Wolfgang Münchau - Valor 10/07

Eu fiquei imaginando: quem compra ativos de risco depois de uma dessas "históricas" declarações do Conselho Europeu. Às vezes a alta dura algumas horas, outras vezes, apenas dias. A mais recente terminou em menos de uma semana; os spreads italianos e espanhóis já estão acima dos níveis pré-cúpula.
O consenso entre os observadores era de que a União Europeia (UE) tinha dado um importante passo na direção certa, adotando um caminho para a união bancária, mas que não havia feito o suficiente quanto à resolução de crises. Discordo dessa afirmação. Acredito ter sido um passo muito grande - na direção errada. A cúpula fez com que a solução concreta para a crise dependesse de uma decisão futura, que será ainda mais difícil de tomar e, portanto, ainda mais improvável.

Foi acordado que não haverá uma recapitalização bancária coletiva até que seja estabelecida uma união bancária completa, e o Bundesbank nos lembrou que isso não é possível sem uma união política. A conclusão lógica é que não vamos resolver a crise em menos de 20 anos.

O que sabemos agora é que a Alemanha não concordará com um seguro coletivo sobre depósitos. Os alemães sequer concordam em dar ao Mecanismo de Estabilidade Europeu uma "licença bancária" para que possa alavancar-se. Se a Alemanha não pode fazer o mínimo necessário agora, por que alguém imaginaria que poderá aceitar uma união política? Mais fácil é acreditar na promessa de um alcoólatra de que deixará de beber daqui a cinco anos.

A política de socorro ao euro cruzou um importante limiar na Alemanha. Uma pequena maioria ainda é favorável ao euro, mas a maioria é contrária a novos socorros. Um grupo de 160 economistas, liderado por Hans-Werner Sinn, presidente do instituto econômico Ifo, publicou na semana passada um manifesto contra uma união bancária. O documento veio recheado de som e fúria, mas o mais importante é que reflete uma visão consensual.

A resposta de Angela Merkel foi reveladora. Ela disse não haver nenhum motivo para preocupações. A união bancária diz respeito a supervisão coletiva, disse ela. Não haverá seguro conjunto de depósitos. Ela tem um entendimento muito distinto do Banco Central Europeu (BCE) sobre o que significa uma união bancária. Acredito que essa nova união bancária cubra os 25 maiores bancos e deixará as "cajas" e os "Landesbanken" sob controles nacionais. É como um alcoólatra prometendo doravante beber apenas os melhores conhaques.

A união bancária necessária é aquela que a Alemanha não aceitará: regulamentação e supervisão centralizadas, um fundo comum para reestruturação e seguro de depósitos. Isso levaria anos para ser criado. Se conduzido apropriadamente, isso exigiria uma mudança das constituições nacionais e de tratados europeus, ao menos para redefinir o papel do BCE. É loucura total sujeitar a solução da crise ao êxito do que seria o maior exercício de integração europeia na história.

Com as taxas de juro dos títulos de 10 anos acima de 6%, tanto a Itália como a Espanha poderão sustentar sua participação na zona do euro. Isso é o que Mario Monti e Mariano Rajoy deveriam ter deixado claro a Merkel durante a cúpula. Eles deveriam ter dito a ela que seus governos irão se preparar para saírem da zona do euro caso não haja mudança na política. Uma solução exige eurotítulos - ou alguma outra forma de mutualização da dívida - tanto do setor público como do setor privado, e compras de títulos pelo BCE. A Alemanha não aceita a primeira condição. O BCE não aceita a segunda.

Se algo não é sustentável nem autocorretivo, sobram apenas dois cursos de ação. A primeira é esperar pacientemente até que ocorra uma ruptura na situação. Essa é a estratégia seguida pelo Conselho Europeu e por alcoólatras. A alternativa é começar a fazer os preparativos - e tomar cuidado para não provocar uma ruptura nesse processo. É difícil imaginar uma saída sem desrespeitar centenas de leis nacionais e europeias. É por essa razão que ninguém está fazendo isso. (O país que o fizesse) precisaria alegar "força maior" em sua defesa. Levou uma década para que o euro fosse criado. Será preciso mais do que um fim de semana prolongado para destruí-lo. Um colapso se constituiria no maior choque econômico de nossa época. Mas, entre uma lista de opções de ruptura, algumas são melhores que outras. Escreverei sobre isso em uma coluna futura.

Em novembro, escrevi que o Conselho Europeu tinha dez dias para salvar o euro. Se naquele momento tivessem lançado as bases para uma união bancária e fiscal, poderiam estar agora em condições de obter um consenso em torno de uma estratégia eficaz para solução da crise baseada em recapitalização dos bancos e compras de títulos. Não o fizeram naquele momento. E não estão em condição de solucionar a crise agora.

Para mim, a mensagem da cúpula é de que a zona euro não solucionará a crise. Nesse sentido, foi, de fato, uma reunião "histórica". (Tradução de Sergio Blum).



Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O poder da China no novo mundo



Por Jean-Pierre Lehmann - Valor 09/07


Não há como questionar as tendências. A China está com tudo.
O paradoxo é que embora o Ocidente tenha impulsionado a globalização na era moderna, os países ocidentais cada vez mais se enredam em torno a políticas isolacionistas. Os principais motivos são a ansiedade, medo e mal-entendidos sobre a China. Os tempos incertos também se refletem na volatilidade dos mercados. Estamos claramente em um novo mundo, cada vez mais orientado em direção à China. É vital entender de que ponto a China saiu para que seja possível ajustar-se ao desafio da globalização do século XXI.

Entre aproximadamente os séculos II a.C. e XV d.C., durante cerca de 1.700 anos, a "globalização" - a integração dos mercados por meio de fluxos entre fronteiras de bens, capital (seja qual for a forma), pessoas e conhecimento - foi dominada pela Rota da Seda, que se estendia por terra do Leste da China até o Mediterrâneo Ocidental e foi posteriormente complementada pela Rota das Especiarias, de Java, pelo Oceano Índico, até Veneza e, pela costa Africana, até a Somália. Entre os agentes da globalização estavam os chineses, indianos, mongóis, centro-asiáticos, persas, árabes, egípcios e, na ponta final receptora, os europeus.
Com o passar do tempo e as invenções científicas, houve consideráveis melhoras na cartografia, construção naval e navegação. No início do século XV, a China parecia ostensivamente estar no comando e, a priori, encaminhada a tornar-se senhora do universo. O grande almirante Zheng He fez viagens no período de 1405 a 1433 navegando pelo Mar do Sul da China, Mar de Java, Oceano Índico até a Baía de Bengala, Mar Árabe, Golfo Pérsico, Mar Vermelho e pela costa da África até Mombasa. Alguns acreditam que ele teria chegado até a América. No que continua sendo uma notável mudança de rumo, logo quando a China tinha os recursos para expandir-se pelos mares, os imperadores Ming decidiram suspender as expedições e proibir a navegação pelos mares, com o que os navios da frota da Zheng He foram destruídos e toda a construção de embarcações para grandes viagens marítimas foi proibida.

À medida que a China se fechava em si mesma, a Europa avançava. O Império Ultramarino Português emergiu e estendeu-se pelo Atlântico (com a descoberta da América e a colonização do Brasil em 1500) e pelos oceanos Índico e Pacífico, incluindo postos avançados em Malaca, Goa e Macau. Iniciou, portanto, a ascensão inexorável do domínio global pelo Ocidente. As potências europeias podem ter ascendido e decaído isoladamente - como foi caso dos impérios português e espanhol -, mas, então, outros assumiram o domínio global, mantendo-o firmemente nas mãos do Ocidente, como a Holanda, Grã-Bretanha e França; quando a Europa passou o bastão, por assim dizer, os Estados Unidos o pegaram.

A história realmente importante entre o início dos séculos XVI e XXI foi a transferência de riqueza e poder da Ásia para o Ocidente. Entre 1500 e 1600 a Ásia era responsável por mais de 65% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial; em 1700, à medida que o impacto da ascensão das grandes empresas holandesas e britânicas no Leste Asiático começou a ser sentido, a participação começou a declinar, embora ainda mantendo-se em 60%. No início do século XIX a Ásia ainda parecia estar mais ou menos se mantendo por conta própria. De fato, só a China era responsável por 33% do PIB mundial. Então, os diques da industrialização e imperialismo ocidental estouraram. Em 1950, a Ásia tinha 60% da população mundial e 17% do PIB. A Ásia estava pobre, muito pobre. Em 1975, 25 anos depois, havia aumentado a participação no PIB mundial para 22%.

Estamos testemunhando hoje uma mudança tão profunda quanto a ocorrida há meio milênio, com a ascensão do Império Ultramarino Português. Em razão da tecnologia, no entanto, esta era de transformações na qual vivemos vem fluindo ao longo de um período de tempo muito comprimido; a situação vem mudando a uma velocidade alucinante - tão alta, que muitos, especialmente no Ocidente, as pessoas não percebem.

O que é esse "novo mundo"? Para começar, é um mundo que não é mais dominado pelo Ocidente. Há 20 anos, a participação do mundo em desenvolvimento no PIB era de 35%; hoje é de 50% e segue em alta. Há 20 anos, os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) eram o centro da economia mundial com outras regiões girando a seu redor passivamente. Hoje, a maior parte do comércio exterior e dos fluxos de investimentos internacionais se dá dentro ou entre as outrora regiões periféricas do mundo. O comércio entre China e Brasil multiplicou-se mais de 20 vezes entre 2000 e de 2010. A China, que estava à margem das relações econômicas da maioria dos países do mundo em desenvolvimento, hoje ultrapassou os Estados Unidos e União Europeia (UE) e se tornou o maior parceiro comercial do Brasil. Uma tendência similar pode ser vista nos laços econômicos da China com outros países da Ásia, África e América Latina. Os laços e a influência chinesa não estão limitados aos países em desenvolvimento. Pequim possui cerca de US$ 1,8 trilhão investidos em bônus do Tesouro dos EUA; a China é, como Hillary Clinton admitiu recentemente, o banqueiro dos EUA.
O novo mundo está cada vez mais sinocêntrico. A China tornou-se o centro de produção industrial mundial, o centro da cadeia de fornecimento mundial. Superou os EUA e Alemanha como maior potência comercial do mundo. Superou o Japão e tornou-se a segunda maior economia do mundo e quase certamente passará os EUA, em termos de PIB agregado, antes do fim da década. Naturalmente, em PIB per capita, a China ainda continua relativamente pobre; de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em termos nominais, a China ocupava a 88ª posição (entre 183 países). Ainda assim, a China viu 600 milhões de pessoas saírem da linha da pobreza nos últimos 20 anos; uma crescente urbanização e a ascensão meteórica da classe de "renda média", atualmente estimada em 350 milhões de pessoas, com projeções de que poderá chegar a 1 bilhão em 20 anos.

Desde o abandono das expedições marítimas de Zheng He até recentemente, a China estava voltada para dentro. Fracassou (ao contrário do Japão) em adaptar-se aos desafios da industrialização e imperialismo que emanavam do Ocidente no século XIX. Embora Mao tenha conquistado a independência política da China, seu regime seguiu um regime de autarquia econômica.

Em 1978, a liderança chinesa, sob o comando de Deng Xiaoping, decidiu, nas palavras do economista Zheng Bijian, acolher a globalização. O resto, como se costuma dizer, é a história dos últimos 30 anos e é algo que marcará as próximas décadas. A revolução mundial sinocêntrica realmente está apenas em seu início. (Tradução de Sabino Ahumada).



(*) Angus Maddison, The World Economy: a Millennial Perspective



Jean-Pierre Lehmann é professor emérito de Política Econômica Internacional no IMD, diretor-fundador do Evian Group no IMD e pesquisador sênior do Fung Global Institute em Hong Kong.


Carta Maior - Gilberto Maringoni - São Paulo entre 5 e 9 de julho

Carta Maior - Gilberto Maringoni - São Paulo entre 5 e 9 de julho

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Juros caem mas ainda são indecentes


Valor 06/07

A cruzada da presidente Dilma Rousseff contra os juros altos cobrados pelos bancos no Brasil tem um resultado que pode ser analisado pela velha metáfora do copo meio cheio ou meio vazio. Entre março e junho, os maiores bancos de varejo do país - Banco do Brasil, Itaú, Caixa, Bradesco, Santander e HSBC - reduziram as taxas cobradas nas principais linhas de crédito para pessoas físicas e jurídicas, como crédito pessoal, veículos e capital de giro, num intervalo médio que vai de 12% a 17%.

Porém, quando se observam as taxas cobradas após os cortes e a intensidade das reduções principalmente nos bancos privados fica claro que o país ainda está longe de ter custo de crédito em níveis civilizados, especialmente nas linhas de curtíssimo prazo.

No cheque especial, por exemplo, com exceção da Caixa Econômica Federal, que cortou a taxa pela metade, os outros cinco bancos seguiam cobrando, até 20 de junho, taxas médias mensais efetivas acima de 8% ao mês, ou mais de 160% ao ano. No crédito pessoal, embora haja discrepâncias para os dois lados, o custo médio ainda ronda 50% ao ano, ante uma taxa básica de juros de 8,5%.

Os dados são de levantamento feito pelo Valor sobre os juros cobrados por esses seis bancos em nove linhas de crédito desde janeiro. Os dados são do Banco Central e representam a taxa média efetiva cobrada dos tomadores, incluindo encargos.

Com a análise por bancos, é possível fazer uma lista decrescente daqueles que reduziram os juros com mais intensidade. A Caixa foi, com folga, a mais agressiva nos cortes, seguida pelo BB, que tem intensificado as reduções paulatinamente, e recentemente acabou com a exigência de que os clientes aderissem a um pacote de serviços para ter acesso às taxas menores.

Entre os privados, o Itaú fez as maiores baixas em linhas relevantes como crédito pessoal e financiamento de veículos, seguido na ordem por Bradesco e Santander. O HSBC fez mudanças tímidas, praticamente limitando-se a repassar a queda de 1,25 ponto percentual ao ano da taxa Selic desde março.

Segundo a Caixa, as concessões de novos empréstimos aumentaram 36% no segundo trimestre e, junto com aumento da base de clientes, deve compensar o efeito da queda dos juros.


Caixa lidera corte de taxas e Itaú é o mais agressivo entre privados

Por Fernando Torres
De São Paulo

As taxas médias de juros de algumas das principais linhas de crédito para pessoas físicas e empresas caíram de forma consistente desde março, mas a intensidade dos cortes varia bastante entre os bancos até agora. Do lado dos clientes, isso significa que há espaço para pesquisas e para barganhas. Do ponto de vista dos investidores, que o impacto nos resultados das instituições não será linear.

O Valor fez um levantamento detalhado sobre os juros cobrados por Banco do Brasil, Itaú, Caixa, Bradesco, Santander e HSBC em nove linhas de crédito desde janeiro (os resultados podem ser vistos no site do Valor). Os dados são do Banco Central e representam a taxa média efetiva cobrada dos tomadores, incluindo encargos.

Eles diferem do dado consolidado divulgado pelo BC até maio porque a autoridade monetária leva em conta o volume de crédito tomado em cada banco. Se apenas um banco reduz a taxa e todos os clientes migram para essa instituição naquele mês, o dado do BC apontará a taxa contratada nesse banco específico, e não quanto os demais cobraram.

Conforme os dados levantados, a Caixa foi a mais agressiva nos cortes e as reduções mais drásticas ocorreram no cheque especial e no capital de giro pré. A taxa anual do cheque especial do banco estatal diminuiu de 151% para 65% ao ano entre março e junho, com o custo caindo em 57%. No capital de giro, o juro foi derrubado de 25% para 14% ao ano na mesma comparação, uma redução de 44%.

Já o Banco do Brasil liderou a baixa na taxa para o financiamento de veículos, que diminuiu 33%, de 22,5% para 15% ao ano. O BB também foi o que mais cortou a taxa do desconto de duplicatas, em 17%, e do capital de giro com taxas flutuantes, concedido a grandes empresas, cujo custo baixou 22%.

Entre os privados, o Itaú Unibanco fez os movimentos mais agressivos. A taxa do banco para crédito pessoal caiu 20%, passando de 62% para 50% ao ano. Na linha de veículos, o custo anual diminuiu 20%, saindo de 24,5% para 19,5% ao ano. No Bradesco, as reduções ficaram em torno de 10% nas linhas de crédito pessoal, veículos e capital de giro. A maior queda, no entanto, foi no crédito para aquisição de bens para pessoa física, com o custo diminuindo 17%, de 42% para 34,5% ao ano.

O maior corte feito pelo Santander ocorreu no financiamento a veículos, em que a taxa anual caiu 13%, saindo de 22,9% para 19,9%. No crédito pessoal e no capital de giro, a baixa ficou em 8% e 10%, respectivamente. Segundo o diretor de produtos do banco de origem espanhola, Nilo Carvalho, a queda menor que a dos rivais no crédito pessoal e em veículos se explica. "Nossos juros caíram menos em algumas linhas porque já tínhamos taxa mais barata que os concorrentes [do setor privado]", afirma.

Em relação ao cheque especial, em que o Santander cobra a maior taxa, de 222% ao ano, o executivo destaca a prática do banco, herdada do Banco Real, de oferecer dez dias sem juros nessa modalidade. "Essa é uma linha emergencial. E quando o cliente usa direito, paga a menor taxa do mercado, que é zero."
O HSBC reduziu as taxas muito levemente, e em cerca de metade dos casos as margens ficaram praticamente estáveis quando se considera a queda da Selic.

Ao se tentar capturar o impacto dos juros menores nos resultados dos bancos, os dados indicam que o efeito será maior na Caixa, que tem a União como única acionista. Mas apesar de reconhecer que os juros menores afetam negativamente o resultado, o banco estatal confia que o crescimento do volume das operações, o aumento da base de clientes e cortes de custos vão permitir que seu lucro aumente em 2012, na comparação com o resultado do ano passado. "Não repetirá a alta de quase 30% vista entre 2010 e 2011, mas o lucro deste ano deve mostrar crescimento", diz o superintendente nacional de contabilidade e tributos da Caixa, Marcos Brasiliano Rosa.

Segundo ele, o volume de crédito comercial contratado por mês no banco estatal subiu de R$ 11 bilhões no primeiro trimestre para R$ 15 bilhões entre abril e junho, uma alta de 36%. "Estamos colhendo os frutos da ousadia", afirmou Rosa, que disse que a expansão supera a projeção inicial quando os cortes de taxas começaram.

No caso de BB, Itaú e Bradesco, o efeito dos juros menores também deve existir, mas deve ser menor, seja pela intensidade das baixas ou pelo tamanho maior do estoque antigo de crédito comercial, contratado com taxas maiores, que levará mais tempo para ser renovado. No Santander, o impacto deve ser ainda menor, já que as reduções foram menos agressivas.
A despeito da queda de mais de 20% no preço de suas ações desde março, o BB disse, em resposta por e-mail, que "os investidores entenderam como essas iniciativas se reverterão na geração de resultados sustentáveis no longo prazo". Segundo o banco, a queda nas taxas foi uma decisão estratégica, tendo em vista a queda da Selic e o aumento da competição, "principalmente após o início da livre opção bancária para servidores públicos". Questionado sobre o motivo de as taxas não terem caído na mesma intensidade que na Caixa, o BB afirmou apenas que "detém taxas fortemente competitivas, posicionando-se, em muitas linhas, como a menor do mercado".

Procurados, o Itaú enviou nota dizendo que tem processo contínuo de revisão de taxas de juros de empréstimos, com ajustes constantes para adequá-las à realidade do mercado brasileiro, e que vai continuar promovendo ajustes, "especialmente quando houver cortes na taxa básica de juros da economia". Também em nota, o Bradesco disse que "as reduções de taxas realizadas pelo Bradesco são recentes e, portanto, ainda não refletem efeito no estoque de crédito". O banco lembrou ainda que aqueles que optarem pelo produto "Conta Fácil" contam com taxas de cheque especial de 3,95% ao mês. O HSBC não quis se pronunciar.

Petrobras patina



Fonte: Assessoria de Imprensa da ANP - (21) 2112-8333 - imprensa@anp.gov.br


A produção de petróleo no Brasil em maio foi de 2,048 milhões de barris/dia (bbl/d), apresentando redução de 1,2% em relação ao mesmo mês de 2011. Na comparação com abril de 2012, houve aumento de 1,3%. A produção de gás natural foi de aproximadamente 68 milhões de metros cúbicos/dia. Houve aumento de 2,6% na comparação com o mesmo mês do ano passado e de 4,7% em relação ao mês anterior.

A Petrobras respondeu por 94,4% da produção de petróleo e gás natural. Os campos marítimos foram responsáveis por 91,1% da produção de petróleo e 75,4% da produção de gás natural.

O campo de Marlim Sul foi o maior produtor de petróleo e gás natural, com vazão média de 341,1 mil barris de óleo equivalente por dia (341,1 Mboe/d). Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, dois são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (13º) e Ostra/Shell (14º). Três campos terrestres integram a lista de maiores produtores de petróleo: Carmópolis (15º), Canto do Santo Amaro (17º) e Leste do Urucu (20º), com vazão média de 21,7 Mbbl/d, 20,5 Mbbl/d e 16,9 Mbbl/d, respectivamente.

O grau API médio do petróleo produzido março foi de 23,8º. Deste total, 8% da produção é considerada óleo leve (superior ou igual a 31ºAPI), 56% de óleo médio (entre 22º e 31º API) e 36% de óleo pesado (inferior a 22º API).
Queima de Gás

A queima de gás natural foi de aproximadamente 3,6 milhões de metros cúbicos/dia. Houve redução de 9,7% em relação ao mesmo mês em 2011 e queda de 0,6% na comparação com abril de 2012. Considerando apenas as Concessões na fase de produção, o aproveitamento de gás natural foi de 95,1% em maio.

Pré-sal

A produção do Pré-sal teve crescimento de 4,8% em relação ao mês passado, chegando a 171,3 mil barris dia de óleo equivalente (171,3 Mboe/d), sendo 142,3 Mbbl/d de petróleo e 4,6 MMm³ de gás natural. A produção foi oriunda de dez poços nos campos de Jubarte (1), Lula (5), Caratinga e Barracuda (1) e Marlim Leste (1), Marlim Voador (1) e Barracuda (1).

Bacias Maduras

A produção oriunda das bacias maduras terrestres (campos/TLDs das bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 181,1 mil barris de óleo equivalente/dia (181,1 Mboe/d), sendo 149,1 mil barris de petróleo/dia (149,1 Mbbl/d) de petróleo e 5,1 milhões de metros cúbicos/dia (5,1 MMm³/d) de gás natural.



Cai volume de exportação de petróleo e minério de ferro à China no 2º trimestre



Por Marta Watanabe - Valor 06/07
De São Paulo

A desaceleração da economia chinesa começou a ter efeitos mais amplos no comércio exterior do Brasil. No primeiro trimestre as exportações de minério de ferro e petróleo já sentiam os efeitos da queda de preço das commodities, devido a uma menor demanda chinesa. No segundo trimestre, porém, a desaceleração da China afetou também as quantidades de minério de ferro e de petróleo embarcadas ao país asiático.

A venda de minério de ferro para os chineses caiu 2,1% em volume no segundo trimestre, na comparação com mesmo período do ano passado. Em valor, caiu 26,9%. No primeiro trimestre a exportação do minério já havia caído 11,9% em valores, mas ainda havia elevação de volume de 4,9%.

O volume de exportação de petróleo brasileiro à China teve queda de 27,2% no segundo trimestre. A redução em valores foi menor, de 19,4%. A venda de petróleo aos chineses já havia caído no primeiro trimestre, com redução de 31,9% no volume e de 17,4% em valores.

José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), diz que o cenário começa a mostrar que os efeitos da desaceleração podem afetar não só os preços de itens importantes da pauta como também as quantidades. "Ainda é cedo para falar em queda de volume, mas o quadro do segundo trimestre sugere cautela. Em junho vários produtos exportados tiveram queda de quantidade, mas é preciso verificar a evolução dos próximos meses." Castro lembra que no início do ano as estimativas gerais do economistas levavam mais em consideração o efeito dos preço nas exportações. A possível redução das quantidades exportadas, porém, vem sendo analisada pela AEB, que pode revisar o saldo da balança comercial previsto para este ano.

Os preços, lembra Castro, continuam sendo uma variável importante no segundo semestre. Ele lembra que no acumulado de janeiro a junho o volume de exportação do petróleo, por exemplo, caiu 5%, mas o preço subiu 10%, na comparação com os mesmos meses do ano anterior. Em junho, isoladamente, porém, o preço do petróleo já teve queda de 5,03%.

Para Fabio Silveira, sócio da RC Consultores, acredita que a perda de volume na exportação deverá ser mais importante do que se imaginava antes. A desaceleração da China pode surpreender neste ano, com um crescimento do país asiático muito menor do que se esperava antes. "Hoje muita gente fala num crescimento da China de 5% a 6%, enquanto antes, no início do ano, as estimativas eram de 8% a 10%." O esfriamento da economia chinesa deve contribuir fortemente para a queda do valor exportado pelo Brasil.

Silveira acredita que o saldo da balança comercial total brasileira deve cair dos US$ 29,8 bilhões de 2011 para US$ 17 bilhões neste ano. A receita de venda ao exterior com o minério de ferro, acredita, deve cair dos US$ 41,8 bilhões do ano passado para US$ 33,5 bilhões neste ano. Nessa estimativa, diz Silveira, a redução do volume de exportação tem contribuição semelhante à da queda no preço.

Para Silveira, com a crise, os chineses podem preferir o fornecimento australiano de minério de ferro, que paga frete menor para chegar à China e ganha mais competitividade num momento de preços menores. Em relação ao petróleo, diz, há vários fornecedores no mercado internacional e, dependendo da negociação comercial, pode haver substituição ao óleo fornecido pelo Brasil.

O minério de ferro, o petróleo e a soja são os principais produtos da pauta brasileira de exportação à China. Juntos, eles representam 85,7% do valor total exportado ao país asiático. Dos três produtos mais importantes vendidos para a China, o único que manteve crescimento no segundo trimestre foi a soja.

O volume de soja exportado aos chineses teve elevação de 21% no segundo trimestre, em termos de volume, e de 30,8% em valores. O desempenho da soja amenizou os efeitos da queda do petróleo e do minério de ferro no mesmo período. Castro lembra, porém, que houve grande antecipação da exportação de soja durante o primeiro semestre e, sazonalmente, os embarques do grão perdem força a partir de julho.

Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Associados, acredita que ainda é cedo para estimar o efeito da desaceleração econômica nas quantidades exportadas pelo Brasil. Para ele, a queda não só no preço como também no volume, se acontecer, deve reduzir o saldo comercial brasileiro a um terço do que foi no ano passado.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Cerca de 17,5% do total vendido pelo Brasil ao exterior vai para a China. Os Estados Unidos ficam em segundo lugar, com 12% e a Argentina vem em terceiro, com fatia de 7,7%.


Capitalismo (de novo) em crise




Por Samuel Brittan - Valor 06/07

"As pessoas da mesma profissão raramente se reúnem, seja para festejos ou diversão, mas quando isso ocorre, a conversa sempre termina em uma conspiração contra o público ou em algum artifício para aumentar preços. É, de fato, impossível impedir tais reuniões com qualquer lei que possa ser executada e que, ao mesmo tempo, seja consistente com a liberdade e justiça. Mas, embora a lei não possa impedir as pessoas da mesma profissão de se reunirem de vez em quando, não deve fazer nada para facilitar tais encontros e muito menos torná-los necessários." Adam Smith, A riqueza das nações

Sendo um dos poucos comentaristas que sempre defendeu o capitalismo de mercado competitivo, preciso perguntar-me algumas questões. Além dos escândalos como o da manipulação da taxa interbancária do mercado de Londres (Libor), tivemos o comportamento dos bancos antes da grande recessão; a tendência a uma concentração muito maior de renda e riqueza, espremendo os padrões de vida dos cidadãos comuns; e seria possível continuar com muito mais. Se alguém, no entanto, estiver esperando que eu faça uma convocação a favor de uma maior participação e supervisão do Estado, ficará desapontado.

Encabeçando os argumentos pelos mercados competitivos está a promoção à liberdade de escolha. Também ajudaram a gerar o maior aumento de riqueza na história da humanidade. Em sua forma ideal, têm uma tendência igualitária. Não uma igualdade literal de condições ou mesmo de oportunidades, mas uma tendência a que rendas excepcionalmente grandes sejam corroídas por novos participantes e a criar escadas que os mais ambiciosos podem subir. Isso, às vezes, é chamado de "o sonho americano", mas sua atratividade não é limitada geograficamente. Existiram vários esboços para uma economia de mercado não capitalista, mas apesar de alguns êxitos de cooperativas de trabalhadores, enquanto sistemas econômicos, eles continuaram apenas como esboços.

O que, então, saiu errado? Em termos gerais, é difícil ir além de Adam Smith. Poucos de nós gostam de concorrência; e a tendência a formar grupos coesos para manter forasteiros à margem é tão antiga quanto a raça humana. Como exemplo pré-capitalista, basta lembrar-se das guildas medievais, seja de artesãos ou de mestres-cantores. Mais sutis são as práticas de banqueiros, já que vêm disfarçadas como serviços para os clientes. Em resumo, o sucesso depende mais de quem se conhece e não do que se conhece. Daí os termos "capitalismo clientelista ou de compadres".

Um exemplo pungente é mostrado por Luizi Zingales, em seu recente livro, "A Capitalism for People" (Um capitalismo para as pessoas, em inglês). Ele foi aos Estados Unidos para escapar do capitalismo de compadres em sua Itália natal, onde as perspectivas dependiam quase inteiramente de ter os contatos adequados e de não perturbar as autoridades. Depois de 24 anos nos Estados Unidos, no entanto, ele está angustiado por ter encontrado uma nova versão de capitalismo clientelista alcançando-o lentamente. Os negócios modernos são complexos demais para permitir que muitos outros Henry Ford ou Bill Gates conquistem seu caminho. Também está a "captura" dos órgãos de regulamentação por aqueles que supostamente deveriam ser fiscalizados. Tudo isso, contudo, é auxiliado e instigado pela corrupção do sistema político, com um dos exemplos mais graves sendo a recente decisão da Suprema Corte dos EUA de conceder direitos quase ilimitados para intervenções de empresas no processo eleitoral.

Vou me arriscar a entrar em polêmica ao destacar que vejo processos similares, embora mais sutis, na União Europeia (UE). Um grupo, de políticos e autoridades que selecionam a si próprios, promoveu uma forma de integração burocrática e intrusiva, na qual os integrantes raramente consultam seus eleitorados. O que todas as formas de clientelismo têm em comum é a paixão pelo sigilo e o ódio pelas discussões abertas. A primeira vez que vi isso foi com as tentativas oficiais para abafar as discussões sobre a possibilidade de desvalorização no Reino Unido antes de 1967, ano em que isso acabou acontecendo. Mais recentemente, no entanto, me deparei com o mesmo quando um diretor de um dos vários órgãos bancários da UE, em geral, muito sensato, me disse sob completo sigilo que qualquer ruptura do euro era inimaginável e indiscutível.

A mais interessante das reformas sugeridas por Zingales é a redução em complexidade. A "reforma" financeira com a lei Dodd-Frank nos EUA em 2010 tinha 2.139 páginas e ficou popularmente conhecida como a "Lei do Pleno Emprego para Advogados e Consultores". A complexidade serve para esconder as lacunas. E não se pode esperar que nenhum político goste da proposta de Zingales de abolir todos os subsídios a setores produtivos. Medidas para limitar os grupos lobistas são tão importante quanto.

O maior obstáculo para a reforma é que os envolvidos podem devotar tempo e energia para manter suas posições. Para os cidadãos comuns, a reforma política é um espetáculo secundário que dificilmente compensa esses esforços. Os protestos nos centros financeiros têm boas intenções, mas são tentativas mal direcionadas para anular essa propensão.

Ainda assim, "nil desperandum", nunca se desespere. As "leis do milho" no Reino Unido foram derrubadas e as leis antitruste nos EUA, aprovadas; e, com o tempo, tanto financistas como "eurocratas" serão derrubados. (Tradução de Sabino Ahumada)



Samuel Brittan é comentarista econômico do FT desde 1966. Foi condecorado cavaleiro em 1993 por "serviços ao jornalismo econômico", mesmo ano em que se tornou "Chevalier de la Legion d'Honneur".


quinta-feira, 5 de julho de 2012

A redução dos custos da energia elétrica no Brasil



Por Nivalde J. de Castro, Roberto Brandão e Rubens Rosental - Valor 05/07

A presidente Dilma declarou que "a questão dos custos da energia é prioritária para o governo, sendo tão importante quanto os juros para a competitividade do país" (Valor, 6/6, página B8) colocando a energia elétrica em destaque na agenda da política econômica. Essa prioridade deve-se ao fato de a energia elétrica estar presente na estrutura de custos de todos os bens e serviços e do orçamento das famílias, sendo uma variável que influencia a competitividade da economia e o nível interno de preços.

Para avaliar as possíveis alternativas do governo é necessário analisar os três grandes componentes da estrutura de custo da energia elétrica e suas respectivas participações no faturamento médio do setor: 1) custos da indústria de energia elétrica: geração (32,4%), transmissão (6,4%) e distribuição (24,1%); 2) encargos setoriais (10,2%); e 3) impostos federais e estadual (21,7% e 5,2%).

Na indústria de energia elétrica o custo da geração e transmissão é repassado diretamente às tarifas refletindo contratos firmados no passado, que preveem repasses anuais automáticos da inflação. No curto prazo não há margem para o governo alterar estes custos. Mas, no médio prazo, o vencimento de 21,5 GW de concessões de hidrelétricas e de 73 mil quilômetros de linhas de transmissão em 2015 abre possibilidade para redução dos custos nesses segmentos. O governo já decidiu pela renovação, e está definindo a fórmula para o corte nas receitas dos concessionários e sua apropriação a favor da modicidade tarifária. Nos novos contratos da renovação das concessões deverá alterar a indexação automática ao IPCA, determinando menos aumentos no futuro e queda da inflação inercial vinculada às tarifas.
Nos custos de distribuição há condições para reduzir as tarifas. No curto prazo, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que fixa as tarifas do mercado regulado, onde predomina o consumo residencial e de pequenas e médias empresas, aprovou nova metodologia de cálculo da remuneração das distribuidoras no 3º Ciclo de Revisão Tarifária, que vai reduzir a remuneração média das distribuidoras, determinando diminuição de tarifas. Outra possibilidade de redução são os subsídios cruzados embutidos nas tarifas.

Trata-se de subvenções pagas pelos consumidores da distribuidora para: geração de fontes alternativas, consumidores de fontes de energia incentivada, irrigação, cooperativas, pequenas distribuidoras, autoprodutores e consumidores de baixa renda. Estes subsídios certamente têm méritos vinculados às políticas de incentivo e de transferência de renda. Mas, encarecem a conta de luz, diminuindo a competitividade das empresas e o poder aquisitivo dos consumidores. A questão que se coloca é saber em que medida a conta de luz deve financiar a solução de tantos problemas. Uma alternativa adotada por outros países é financiar os subsídios via recursos fiscais.

O segundo componente da estrutura tarifária é o conjunto de nove encargos de diferentes tipos e objetivos. Como nos subsídios, os encargos são a forma encontrada para resolver problemas ou custear ações estratégicas no setor. A título de exemplo, pode-se destacar três deles. A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) custeia o programa de universalização dos serviços de energia elétrica: Luz para Todos. Esse programa criado em 2003 conseguiu levar eletricidade para 3 milhões de famílias, faltando ainda incorporar cerca de 600 mil famílias. Quando essa meta for concluída, o encargo poderá ser reduzido.

A Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) subsidia as tarifas de eletricidade dos consumidores que vivem na Região Amazônica em sistemas isolados atendidos por termelétricas com custos por MW muito acima da média nacional. Em 2013 serão concluídas as linhas de transmissão integrando Manaus e Macapá ao Sistema Interligado Nacional, quando o custo do CCC será reduzido de forma substancial. Outro encargo que pode diminuir é a Reserva Geral de Reversão (RGR), originalmente criado para indenizar os investidores pelos ativos não amortizados ao final do prazo de concessão. Com a decisão de renovar as concessões este encargo deixa de ter sentido formal.

O último componente da estrutura tarifária são os impostos federais (PIS/Cofins) e estadual (ICMS) que incidem, sobretudo o consumo residencial e pequenas empresas, pois as grandes empresas são reembolsadas via crédito fiscal. Há grande facilidade de arrecadar o ICMS no setor elétrico, pois o grau de cobertura da energia elétrica é superior 99% e a sua arrecadação compete basicamente às distribuidoras. Assim o setor elétrico acaba sendo o preferido da política fiscal dos Estados. Dada a alta dispersão do ICMS nas alíquotas estaduais, o governo federal pode reduzir este imposto buscando firmar acordo análogo à "guerra dos portos", onde foi possível ordenar a cobrança do ICMS. Como o governo federal afirmou que não fará uma reforma fiscal, mas ajustes cirúrgicos, um acordo poderia reduzir as alíquotas do ICMS. A redução do PIS-Cofins poderia ser usada como uma contraparte do governo federal nestas negociações pró-redução das tarifas elétricas, podendo começar alterando o status do PIS para cumulativo, como é aplicado às contas telefônicas permitindo redução de 25%.

Portanto, o governo federal poderá iniciar um consistente processo de redução do custo da energia elétrica numa perspectiva de curto, médio e longo prazo. A estratégia mais adequada e provável é reduzir, mesmo que em pequenos percentuais, todos os componentes da estrutura tarifária. Dessa forma, o governo daria sinal concreto à sociedade brasileira de que está empenhado com o aumento da competitividade industrial, o fortalecimento do poder aquisitivo das famílias, redução da inflação e da taxa de juros, atingindo estes objetivos estratégicos atuando direta e unicamente sobre setor de energia elétrica.



Nivalde J. de Castro é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel).

Roberto Brandão é pesquisador do Gesel-UFRJ.

Rubens Rosental é professor e pesquisador do Gesel-UFRJ.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Brent ganha fôlego e volta para os US$ 100



Por Vanessa Dezem  - Valor 04/07
De São Paulo

As cotações do petróleo no mercado internacional voltaram a superar o patamar dos US$ 100 o barril. Estimularam as negociações no pregão de ontem as expectativas de que a oferta global da commodity tende a diminuir diante das retaliações ao Irã, enquanto a demanda deve crescer com um novo possível movimento de aceleração da economia chinesa.

Em Londres, o Brent encerrou as operações com alta de 3,44%, para US$ 100,48 o barril. Esse foi o maior fechamento desde o dia 31 de maio, quando a cotação marcava US$ 101,43 o barril. O WTI, em Nova York, por sua vez, fechou aos US$ 88,03 o barril, apresentando alta de 4,61%.

O mercado se focou nas notícias que envolvem o Irã, grande produtor de petróleo. A mídia do país sugeriu que poderia haver uma interrupção na passagem de barris de petróleo no estreito de Hormuz, importante para o comércio da commodity.
Os EUA reforçaram sua presença no Golfo, enquanto o Irã testava um míssil balístico capaz de atingir Israel, como parte de um treinamento voltado a mostrar sua capacidade de retaliar caso seja atacado, afirmou a imprensa do país. Os lançamentos coincidem com reuniões entre especialistas e potências, que discutem o programa nuclear iraniano. Os EUA e a União Europeia têm imposto restrições à importação de petróleo iraniano, como forma de pressionar o país.

Também impulsionou as cotações um relatório do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), grupo que representa bancos internacionais. No documento, a instituição afirma que a perda de força do crescimento está se espalhando para além da Europa, fazendo crescer a necessidade de um afrouxamento monetário adicional em todo o mundo. Isso gerou expectativas de que essa política poderá ser adotada em alguns países.

Na China, a divulgação de indicadores que mostraram um possível reaquecimento do mercado trouxe ânimo aos investidores. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) de serviços subiu de 55,2 para 56,7 pontos entre maio e junho. Também teve influência positiva a informação publicada na imprensa chinesa sobre planos do governo de estimular o consumo e incentivar o crescimento por meio da flexibilização dos depósitos compulsórios.

Enfim um passo na direção certa



Por Martin Wolf - Valor 04/07

Durante esse último encontro de cúpula da região do euro eu me encontrava em Ischia, na costa de Nápoles. Muitos dos italianos presentes à premiação de jornalismo de Ischia deste ano acharam que a Itália havia conquistado duas vitórias sobre a Alemanha: uma no futebol, na Eurocopa; e outra na economia, na cúpula europeia. Veio, então, a final contra a Espanha. Quanto da euforia com a reunião europeia restará daqui a alguns meses? Acredito que a resposta seja: um pouco, mas não tanto assim. O 19º encontro de cúpula foi melhor do que muitas das decepcionantes reuniões anteriores. O jogo, contudo, ainda não mudou.
Foram adotadas medidas úteis. A mais importante foi o acordo para permitir que os fundos de auxílio financeiro da região do euro recapitalizem diretamente bancos subcapitalizados, em vez de fornecer os recursos via governos vulneráveis (algo particularmente vantajoso para a Espanha e muito vantajoso para a Irlanda), e para comprar bônus soberanos no mercado (vantajoso para a Itália e Espanha). Também foi acertado que os empréstimos dos fundos de resgate não terão garantia preferencial em relação aos empréstimos já existentes, o que deverá reduzir o risco de pânico entre as instituições de crédito. Os líderes europeus também acertaram um pacote de €120 bilhões com medidas para promover o crescimento econômico. Sob o princípio de que o apoio deve vir acompanhado de controle, o Banco Central Europeu (BCE) passará a ser responsável por um novo sistema de supervisão bancária europeu, um passo em direção ao que os protagonistas esperam que seja uma genuína união bancária.

O que é ainda mais importante, no entanto, é o que não foi acertado. Entre os itens nessa lista estão aumentos nos recursos disponíveis (ainda limitados a €500 bilhões) para o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM); qualquer tipo de bônus conjunto da região do euro; e um regime de liquidação de bancos ou de garantia de depósitos que englobe toda a região do euro. Além desses itens, ainda há o desafio de reequilibrar a competitividade dentro da região do euro, que continuará imenso e, na melhor das circunstâncias, por muito tempo. Vale ressaltar que, por enquanto, o BCE não tem intenção de ser comprador de última instância de bônus soberanos.

O elemento positivo mais importante, portanto, é o avanço em direção a romper os elos mutuamente destrutivos entre bancos e governos. É um passo em direção ao equivalente da região do euro para o programa governamental de recuperação de ativos problemáticos (Tarp, na sigla em inglês), dos Estados Unidos. Uma consequência terá de ser tomar a responsabilidade de supervisão das mãos dos governos nacionais. O resultado será um enorme aumento dos poderes do BCE. Ao mesmo tempo, é apenas um passo bem curto rumo a uma união bancária plena, que exigiria um suporte fiscal maior do que qualquer um disponível atualmente. Espanhóis e italianos racionais ainda não podem considerar os euros depositados em seus bancos tão seguros quanto os que estão nos bancos alemães, em grande parte porque persistem os altos riscos de insolvência e de separação.

Paralelamente, o pacote de crescimento, que em parte é ilusório e presumivelmente será distribuído durante alguns anos, é mera bagatela. Representa pouco mais de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) da região do euro. A decisão de deixar os fundos de socorro financeiro comprarem títulos de dívidas governamentais no mercado é ainda menos significativa e poderia mostrar-se destrutiva, como o economista belga Paul de Grauwe, agora na London School of Economics, argumentou em recente artigo *.

Os títulos por vencer da Itália e Espanha somam cerca de € 2,8 trilhões, pouco menos que seis vezes o tamanho do ESM. Sabe-se muito bem, a partir do trabalho do vencedor do Nobel, Paul Krugman, sobre crises cambiais, que especuladores podem apostar com segurança contra fundos que sabem ser pequenos demais para estabilizar o mercado. O único estabilizador confiável é uma entidade com poder de fogo infinito. No caso das finanças soberanas dentro da região do euro, a única entidade capaz de proteger um país contra fugas autorrealizáveis de suas dívidas soberanas é o BCE. Como o BCE não está disposto a atuar nesse papel e os líderes europeus não estão dispostos a dar ao ESM poderes para forçar a autoridade monetária a fazer isso, essas propostas equivalem a soprar contra os ventos financeiros. Os mercados podem ter concluído isso: embora a diferença de rendimento entre os bônus tenha caído, ainda continua perigosamente elevada.

O que faz os acordos parecerem potencialmente mais significativos do que o seu valor de face, entretanto, é o seguinte: primeiro, houve progresso real em direção a um maior grau de integração; e, segundo, uma coalizão formada entre França, Itália e Espanha. A coalizão indica que a dinâmica política da região do euro pode ter se alterado com a ascensão ao poder de François Hollande. Uma verdadeira união fiscal e bancária exigiria um senso de solidariedade muito maior do que agora existe.

Em sua essência, então, são passos curtos, incapazes de alcançar as três condições necessárias para acabar com a crise: a separação definitiva entre bancos e governos; o financiamento, sob condições administráveis durante longos períodos de ajuste e retração dos governos mais enfraquecidos; e, acima de tudo, a retomada do crescimento econômico saudável.

Não sejamos rabugentos: a decisão de permitir que o ESM recapitalize os bancos de forma direta, possivelmente, é muito importante, tanto por si só como pelo que prenuncia. Poderia transformar a situação na Irlanda. Ainda assim, o maior perigo é que a economia da região do euro se deteriore rápido. O índice de desemprego na região do euro chegou a 11,1% em maio, o maior já registrado. Ainda pior, além de sua recusa em intervir no mercado de dívidas soberanas na escala necessária, o BCE está irremediavelmente atrasado na adoção das medidas monetárias necessárias. Com a austeridade golpeando os países mais vulneráveis, todos estão sentindo as dores: nem a Alemanha está imune ao mau momento econômico de seus maiores parceiros comerciais. É concebível a ideia de que a região do euro tenha de ficar às voltas por muitos anos com essa guerra de trincheiras. Os custos - não apenas econômicos, mas também políticos -, no entanto, provavelmente serão enormes.

Sim, a região do euro precisa de uma nova constituição. A prioridade, contudo, é voltar a colocar as economias em movimento. Até lá, persistem os riscos de novas crises. (Tradução de Sabino Ahumada)



* "Why the EU summit decisions may destabilise government bond markets" (por que as decisões dos encontros de cúpula da UE podem desestabilizar os mercados de bônus governamentais, em inglês), www.voxeu.org.



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.