terça-feira, 5 de junho de 2012

Microdesencontros da macroeconomia




Por Luiz Gonzaga Belluzzo - Valor 05/06


Sábado, 2 de junho, Paul Krugman distribuiu mais cacetadas lógicas nos adeptos da austeridade europeia. Desta vez, sobrou para o inglês David Cameron e seus ministros. Segundo o colunista do "The New York Times" e da "Folha de S. Paulo", os "austeros" ingleses equiparam o problema da dívida nacional de uma economia aos problemas da dívida de uma família. Se uma família acumulou dívidas demais, deve apertar os cintos. Os governos não devem fazer o mesmo?

A resposta de Krugman: uma economia não é uma família endividada. "Nossa dívida (privada) consiste principalmente de dinheiro que devemos uns aos outros; ainda mais importante, nossa renda provém principalmente de vender coisas uns aos outros. Seu gasto é minha renda e meu gasto é sua renda. Assim, o que acontece se todo mundo reduzir gasto simultaneamente a fim de reduzir suas dívidas? Resposta: a renda cai".

Quando se trata de cuidar do funcionamento da economia como um todo, ou seja, de questões ditas macroeconômicas, os vícios do senso comum e do individualismo metodológico levam a recomendações suicidas de política econômica, como as oferecidas por Cameron, Merkel & Cia.

As trapalhadas começam com a definição da chamada macroeconomia como "a economia dos agregados". Nessa visão apologética, a "agregação" dos comportamentos individuais racionais leva necessariamente ao equilíbrio do conjunto da economia, o que torna nocivas as intervenções dos governos. Não por acaso, os economistas da corrente principal se empenham com denodo na descoberta dos fundamentos microeconômicos da macroeconomia, assim como os alquimistas buscavam a pedra filosofal. Essa proeza intelectual pretende convencer os incautos de que o movimento do "macro" é resultado da agregação das decisões no âmbito "micro".

Keynes, o fundador da macroeconomia, escreve nos manuscritos preparatórios da "Teoria Geral" de 1933 que a economia monetária da produção funciona segundo o circuito "macro" do dinheiro-mercadoria-dinheiro (D-M-D'), "a profícua descoberta de Karl Marx". Ele utiliza Marx com o propósito de afirmar o caráter "originário" das decisões de gasto monetário do conjunto da classe capitalista, num triplo sentido: 1) a propriedade das empresas e o acesso ao crédito conferem a essa classe social a faculdade de gastar acima de sua renda (lucros) corrente; 2) as decisões de gasto na produção corrente e na formação de nova capacidade (investimento) criam o espaço de valor (a renda nominal da economia como um todo), mediante o pagamento dos salários e geração de lucros sob a forma monetária. 3) A "criação" da renda e do lucro gera os fluxos de consumo e de poupanças. Estas últimas encarnam-se em reinvindicações genéricas à riqueza e à renda futura - a massa de ativos financeiros formados pelo rastro de dívidas e pelos direitos de propriedade, ambos avaliados diariamente em mercados organizados.

Contemporaneamente a Keynes, o economista polonês Michael Kalecki valeu-se dos esquemas de reprodução de Marx para formular o princípio da demanda efetiva. Kalecki investiga as condições de reprodução da economia composta de três macrodepartamentos: bens de consumo dos trabalhadores, bens de produção e bens de consumo dos capitalistas. Ao utilizar os esquemas de reprodução, Kalecki procura mostrar que o princípio da demanda efetiva já está posto no volume 3 de "O Capital". Aí Marx distingue as condições de produção do valor das condições de sua realização. As primeiras dependem da capacidade produtiva da sociedade, as segundas decorrem da disposição dos capitalistas de renovar o circuito de valorização do capital-dinheiro, D-M-D'.

Assim, ao comentar a equação: "lucros brutos = investimento bruto + consumo dos capitalistas", Kalecki se pergunta sobre o seu significado: "Significa ela, por acaso, que os lucros, em um dado período, determinam o consumo e o investimento dos capitalistas, ou o inverso, disso? A resposta a essa questão depende de se determinar qual desses itens está sujeito diretamente às decisões dos capitalistas. Fica claro, pois, que os capitalistas podem decidir consumir e investir mais em um dado período, do que no precedente. Mas eles não podem decidir ganhar mais. São, portanto, suas decisões de investimento e consumo que determinam os lucros e não vice-versa".

As análises de Keynes e de Kalecki podem ser aplicadas às decisões de gasto do governo: as autoridades podem decidir gastar mais ou menos, mas não podem determinar o resultado fiscal. Déficits ou superávits vão depender da resposta do setor privado ao estímulo do gasto público. Se o governo corta o gasto em uma conjuntura de desalavancagem do setor privado - empresas e famílias - a queda da renda "agregada" vai inexoravelmente levar a uma trajetória perversa dos déficits e das dívidas públicas e privadas, com efeitos indesejáveis sobre os bancos financiadores. Essas são as lições da crise europeia.

Nos debates que se seguiram à publicação da "Teoria Geral", Keynes não conseguiu demonstrar a seus críticos e comentadores - Hayek e Hicks entre eles - que o princípio da demanda efetiva era uma ruptura radical com os postulados da chamada teoria clássica. Na tentativa de não assustar a tigrada e a si mesmo, Keynes, enfant terrible do establishment britânico, refugiou-se numa argumentação contemporizadora que escondeu a natureza revolucionária do conceito de demanda efetiva. Keynes procurou traduzir para a linguagem de seus críticos a inversão radical produzida nas relações de determinação entre os fluxos de gasto e renda, investimento e poupança. Não sublinhou com a ênfase devida as consequências da avaliação nos mercados financeiros dos estoques de dívida e de direitos de propriedade (rastros da riqueza já criada) sobre as decisões de gasto das empresas, das famílias e dos governos.



Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp

As pernas quebradas do comércio



Por Jagdish Bhagwati - Valor 05/06

A Rodada Doha, a mais recente série de negociações multilaterais de comércio exterior, fracassou em novembro de 2011, depois de dez anos de conversas, apesar dos esforços oficiais de muitos países, incluindo o Reino Unido e Alemanha, e de quase todos os estudiosos especializados em comércio. Embora o fracasso das negociações anteriores, em Cancún, em 2003, tenha sido atribuído, por representantes de comércio dos Estados Unidos e União Europeia (UE), às exigências excessivas dos países em desenvolvimento do G-22, desta vez há consenso de que foram as demandas dos EUA, injustificadas (e inflexíveis), que derrubaram as conversas. E agora?

O fracasso em obter uma liberalização multilateral do comércio exterior via Rodada Doha significa que o mundo deixou de ganhar todas as vantagens decorrentes do comércio que um tratado bem-sucedido teria proporcionado. Isso, no entanto, está longe de ser o fim do problema: o fracasso de Doha praticamente paralisará o processo de liberalização do comércio multilateral por vários anos.

As negociações multilaterais de comércio, naturalmente, são apenas uma das três pernas nas quais a Organização Mundial do Comércio (OMC) se sustenta. Quebrar essa perna, no entanto, afeta negativamente o funcionamento das outras duas: o mecanismo de resolução de disputas comerciais e sua autoridade de formular leis. Aqui, os custos também podem ser grandes.

Até agora, os Acordos de Comércio Preferencial (ACPs) entre pequenos grupos de países coexistiam com as rodadas não discriminatórias de liberalização comercial multilaterais. Como resultado, as regras que regem o comércio exterior, como os impostos antidumping e os direitos compensatórios como forma de contrabalançar subsídios ilegais, estavam dentro da esfera de domínio tanto dos ACPs como da OMC. Quando havia algum conflito, no entanto, prevaleciam as regras da OMC, pois conferiam direitos aplicáveis a todos os países-membros da OMC, enquanto as dos ACPs valiam apenas para os poucos integrantes de tal tratado.

Dessa forma, enquanto países poderosos e "hegemônicos", como os EUA conseguiram impor suas próprias regras em parceiros mais fracos nos ACPs que ajudaram a disseminar, grandes economias emergentes, como Índia, Brasil, China e África do Sul insistiram em rejeitar tais exigências quando eram apresentadas como parte de rodadas multilaterais de comércio como a de Doha.

Agora, no entanto, com a era das rodadas comerciais multilaterais e as regras de amplo alcance ficando para trás, os ACPs estabelecem-se como única alternativa, e os modelos estabelecidos pelas potências hegemônicas, em tratados de comércio desiguais com países mais fracos economicamente, passarão a prevalecer cada vez mais. Na verdade, esses modelos agora vão além de questões comerciais convencionais (por exemplo, proteção ao setor agrícola) e chegam a várias áreas não relacionadas, como padrões trabalhistas, regras ambientais, políticas de expropriação e a capacidade de impor controles sobre as contas de capitais em crises financeiras.

O blitzkrieg de relações públicas, encabeçado pelos EUA, já começou, com Wendy Cutler, assistente da representante de Comércio Exterior do país, descrevendo o mais recente ACP, o Acordo de Livre Comércio Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), como um acordo de "alto padrão". Outras autoridades dos EUA passaram a chamar os ACPs como "os acordos comerciais do século XXI". Quem poderia ir contra o século XXI?

O mais perturbador é a forma como muitos economistas especialistas em comércio exterior em Genebra e Washington capitularam diante dessa propaganda e consideram a rendição da OMC como uma forma de "salvar" e remodelar a instituição. A OMC, assim como os vilarejos durante a Guerra do Vietnã, precisa ser destruída para poder ser salva.

Infelizmente, esse ataque insidioso à segunda perna da OMC também se estende à terceira, o mecanismo de resolução de disputas comerciais. O sistema é o orgulho da OMC: é o único mecanismo imparcial e de cumprimento obrigatório para julgar e aplicar deveres contratuais definidos pela OMC e aceitos por seus países-membros. É uma plataforma que dá voz a todos os integrantes, sejam pequenos ou grandes.
Uma vez que se estabeleçam mecanismos de resolução de disputas com base em ACPs, contudo, a determinação de disputas refletirá as assimetrias de poder, beneficiando os parceiros comerciais mais fortes. Além disso, outros países, que podem ter seus interesses afetados pela forma como tal determinação for estruturada, terão pouco espaço para influenciar mecanismos de resolução baseados em ACPs.

Tendo em vista que os EUA abandonaram qualquer pretensão de liderança no comércio mundial, cabe às grandes economias emergentes e aos países desenvolvidos com mentalidade similar criar seu próprio modelo, que siga objetivos comerciais e rejeite o que os grupos de pressão com interesses especiais em poderes hegemônicos como os EUA tentam impingir nos ACPs. É isso exatamente o que a Índia fez com a UE, que agora está removendo tais pontos de sua proposta de ACP.

Outros países - como Brasil, África do Sul e China, entre as grandes economias emergentes, e Japão e Austrália, entre os países desenvolvidos - deveriam apoiar "limpar" os ACPs da mesma forma para remover esses pontos. Essa pode ser exatamente a forma mais adequada para repelir a ascensão dos ACPs, cujo principal objetivo é servir apenas aos interesses hegemônicos - talvez, possa até ser suficiente para retomar o caminho da abordagem multilateral.


Jagdish Bhagwati é professor de economia e direito na Columbia University e membro associado em questões de economia internacional do Council on Foreign Relations. Foi copresidente do Grupo de Especialistas de Alto Nível, indicado pelos governos do Reino Unido, Alemanha, Indonésia e Turquia. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

BBC Brasil - Notícias - Cinco propostas para enfrentar uma ruptura na zona do euro



Em meio ao agravamento da crise na zona do euro, um centro de estudos de políticas públicas britânico lançou um desafio tentador a economistas: premiará com 250 mil libras (R$ 784 mil) quem conceber o melhor plano de contingenciamento para uma potencial ruptura no bloco dos países de moeda única.




BBC Brasil - Notícias - Cinco propostas para enfrentar uma ruptura na zona do euro

segunda-feira, 4 de junho de 2012

TV on line

EX-MINISTRO DELFIM NETTO ANALISA ECONOMIA BRASILEIRA - PARTE I

EX-MINISTRO DELFIM NETTO ANALISA ECONOMIA BRASILEIRA - PARTE II

EX-MINISTRO DELFIM NETTO ANALISA ECONOMIA BRASILEIRA - PARTE III








Em entrevista ao programa Canal Livre, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto analisou a economia brasileira e a crise econômica mundial.

SONORA:

* DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda.

TV: TV BAND
PROGRAMA: CANAL LIVRE
APRESENTADOR: FERNANDO MITRE


Que país é este?

Por Roberto Giannetti da Fonseca - Valor 04/06

Vou lançar mão como título deste artigo, dessa expressão bem conhecida dos brasileiros, e muito usada quando indignados e perplexos com fatos sucedidos em nossa nação, perguntamo-nos a nós mesmos: "Que país é este?"

Dias atrás, proferiu uma palestra na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), um dos maiores especialistas internacionais em política industrial, o sul-coreano Ha-Joon Chang, professor de economia da Universidade de Cambridge na Inglaterra. Sendo ele um profundo conhecedor das políticas públicas e dos ambientes de negócio nos mais variados países do mundo, apresentou aos empresários brasileiros uma visão comparativa nas últimas décadas do desempenho econômico e social entre diversas economias desenvolvidas e em desenvolvimento. Para nossa tristeza, mas sem nenhuma surpresa, verifica-se como o Brasil perdeu e continua perdendo posição em relação a vários outros países emergentes, especialmente asiáticos, que têm praticado a correta política de estimular investimentos e seus empreendedores. Lá não hesitam em publicamente prestigiar os empreendedores, aqueles que se lançam ao risco de criar riqueza, empregos, renda, valor adicionado, inovação tecnológica, em troca do reconhecimento material e institucional para seu empreendimento.

Recentemente em reunião com um seleto grupo de empresários no Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff lançou mão de uma outra famosa expressão cunhada nos anos 30 pelo famoso economista inglês John Maynard Keynes sobre a necessidade de "despertar o espírito animal" dos empreendedores brasileiros, para que invistam mais, criem mais empresas e empregos no país, única forma de promover o verdadeiro e sustentável desenvolvimento econômico e social que tanto desejamos. Pois bem, foi exatamente por meio do estímulo a esse espírito empreendedor que nações como a Coreia do Sul, que até os anos 70 apresentavam uma renda per capita menor que a brasileira, hoje tem mais que o dobro da nossa, e suas empresas multinacionais, seus carros, produtos eletrônicos e equipamentos industriais se encontram espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Sabedor da potencialidade de nossa economia, da qualidade de nossos empreendedores, da abundante disponibilidade dos fatores de produção (recursos naturais, mão de obra, energia, etc.), e da dimensão de nosso mercado interno, pergunta o professor Chang, por que o Brasil continua sendo eternamente o país do futuro? Diplomático, foi discreto nas críticas aos equívocos de nossa política econômica nos últimos 30 a 40 anos, mas despertou em nós, empresários, o saudável sentimento da autocrítica que nos leva então a perguntar:

Que país é este que pratica já por mais de 15 anos os juros mais altos do mundo mesmo estando sua economia hoje em dia classificada em grau de investimento e com razoável estabilidade política e econômica?

Que país é este no qual a taxa de câmbio apreciada sufoca a competitividade das indústrias, e leva sua economia a um precoce e acelerado processo de desindustrialização?

Que país é este na qual a excessiva carga tributária e a péssima estrutura de tributos e impostos, resultam num ambiente de permanente litígio entre o fisco e os contribuintes, além de um ambiente de insegurança jurídica, por conta das frequentes mudanças de leis, normas, e regras?

Que país é este onde a Justiça demora mais de uma década para concluir o julgamento de um processo, e que em muitas vezes sem o menor critério, determina em primeira instância a desconsideração da pessoa jurídica litigante e permite a penhora de bens de pessoas físicas e jurídicas que remotamente tem a ver com a dívida fiscal, trabalhista, ou financeira em questão?

Que país é este no qual governadores eleitos pelo povo, defendem publicamente incentivos tributários inconstitucionais às importações por meio de seus Estados, mesmo sabendo que, por conta dessa ganância fiscal, estarão levando a eliminação de empresas e empregos industriais nos seus Estados vizinhos?

Que país é este que mais pune do que incentiva as atividades de exportação, inovação tecnológica e de investimento produtivo, pois tributa o investimento na origem, ao invés de estimulá-lo com isenções e facilidades, que reconhece o resíduo tributário nas exportações, mas pouco ou nada faz para ressarcir aos exportadores os créditos tributários acumulados ao longo da cadeia produtiva exportadora?

Que país é este que, apesar de ser hoje em dia uma das maiores economias do planeta, ainda oferece um baixíssimo nível de escolaridade à sua população, e no qual 40% de suas residências ainda não têm acesso aos serviços de saneamento básico de água e esgoto?

Muitas outras perguntas da mesma espécie poderiam ser formuladas caso o espaço permitisse, mas poderíamos responder a todas elas com a mesma decepção: este país infelizmente é o Brasil. Seremos nós capazes de mudar a curto prazo esse hostil ambiente de negócios e assim promover nosso crescimento econômico de forma saudável e sustentável? Cabe a cada um de nós, responsáveis pela parte e pelo todo do que fazemos no dia a dia, responder a esta última pergunta. A próxima geração de brasileiros poderia não mais pertencer ao país do futuro, mas sim ao país do presente.



Roberto Giannetti da Fonseca é economista e empresário, presidente da Kaduna Consultoria e diretor-titular de Relações Internacionais e de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).


sexta-feira, 1 de junho de 2012

'Brasil precisa se contentar com crescimento baixo'


Valor 01/06

O Brasil e o governo precisam se contentar com um crescimento baixo, na casa dos 3%, em decorrência do ambiente muito difícil internacionalmente, acredita Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de política monetária do Banco Central e sócio da administradora de recursos Mauá Sekular. Segundo ele, se o governo tiver tranquilidade, ao final desse processo o Brasil estará vários passos à frente dos outros países. "As respostas em termos de política econômica, às vezes com certa confusão, têm sido apropriadas e não têm criado fragilidades. Mas é preciso se contentar com crescimento menor, porque estamos em um ambiente muito ruim."

Ele alerta, no entanto, que é preciso manter a atual política macroeconômica que vem sendo aplicada nos últimos anos, sem "rompantes de voluntarismo", sob o risco de comprometer o espaço existente hoje para o Banco Central continuar com o processo de redução de juros. "Daqui um ano, mesmo com o mundo em situação ainda difícil, o país estará em boa situação para crescer", pondera. Mas admite que caso a economia continue andando pouco no segundo semestre, mesmo com os estímulos, "não teria nada demais reduzir o fiscal, desde que não seja para gastos correntes".

Segundo ele, dois fatores explicam porque o país tem crescido menos do que o esperado, mesmo com a série de impulsos adotados pelo governo. O primeiro fator é a situação internacional, que reduz o crescimento. O segundo, diz ele, é o esgotamento do canal do crédito para estimular a economia, como ocorreu nos últimos anos. "Sem um evento mais sério na Europa, apenas se deteriorando, enquanto internamente o canal do crédito se mostra mais frágil, é possível que a Selic fique mais perto de 7%".

Com relação ao cenário internacional, ele se mostra bastante pessimista. Os Estados Unidos ainda têm uma economia fragilizada, com crescimento abaixo do histórico por mais alguns anos, na casa de 2%, mas sem sinais de recessão. Ao mesmo tempo, a China não terá o mesmo papel que teve em 2009, quando puxou a recuperação econômica. Por fim, a Europa chegou a uma situação, segundo ele, que não tem mais retorno.

Valor: Como está a situação na Europa?

Luiz Fernando Figueiredo Está absolutamente claro e em xeque a sustentabilidade de vários países da Europa e do próprio euro. Muitos dos países, e não só periféricos, estão em uma situação que não é mais sustentável. É o caso de Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália. Não estamos falando mais de um processo que possa retroagir de maneira autônoma, ou seja, sem uma resposta muito relevante de toda a comunidade.

Valor: Já há um processo de fuga de depósitos?

Figueiredo Há dois indicadores interessantes que mostram isso. Um deles vem da clearing do sistema monetário europeu, chamada Target2. Quando o dinheiro vai de um país para outro, ele não sai fisicamente. Há uma câmara de compensação em que um país fica com um débito e o outro com um crédito. O volume de recursos ou de créditos que países como Alemanha está acumulando é sem precedentes, assim como o de dívida dos países em dificuldades. A razão principal pela qual isso acontece de maneira tão intensa e rápida é que há fuga de um país para outro. Para dar uma ideia, a Alemanha tem algo como € 700 bilhões em créditos contra o resto da região.

Valor: Qual o outro indicador?

Figueiredo Um segundo indicador é a taxa de juros. A curva de juros hoje não reflete só o desempenho econômico, mas sim uma procura dos investidores por um porto seguro. E isso está muito espalhado. Aconteceu nos EUA e na Alemanha. Na Suíça, dependendo do prazo, há retorno negativo sobre ativos que você compra. Na Austrália, a curva de 2 anos e de 10 anos caiu muito fortemente, sintoma de que parte dos recursos também está indo para lá. O mesmo no Japão. É um processo muito avançado e é muitíssimo pouco provável que se consiga retroagir e ter um período mais estável.

Valor: O que isso significa em termos de perspectiva para a região?

Figueiredo Não está mais em discussão se a economia europeia está em recessão. Estamos diante de uma situação de crise financeira que está muito mais perto do que se imaginava de uma situação de colapso. O meu cenário não é que a economia europeia vai entrar em colapso, mas sim que o processo está entrando num nível que exige uma resposta absolutamente dramática da comunidade europeia.

Valor: Qual seria a resposta?

Figueiredo A resposta tem duas vertentes, que são meio similares. A primeira é criar a garantia de depósitos bancários que atinja toda a União Europeia. Se eu tenho dinheiro na Espanha ou em Portugal, não teria medo de que, se o país sair do euro, eu teria uma perda de 30%, 40%. Sei que os meus depósitos estão garantidos, independentemente da solvência da instituição em que tenho meus depósitos. Segundo, que sem isso, na minha visão, não tem volta, é só uma questão de quando vai acontecer, é preciso ter algum tipo forte de consolidação fiscal. É preciso consolidar fiscalmente a região e criar metas de desempenho fiscal etc. O processo financeiro está levando a uma urgência muito grande para que esse tipo de decisão seja tomada.

Valor: Isso é possível politicamente?

Figueiredo Eventualmente, de uma maneira não tão ortodoxa, uma solução seria fazer algum mecanismo por meio do Banco Central Europeu, que seria a maneira mais simples de se fazer.

Valor: Mas a Alemanha não poderia sair do euro?

Figueiredo Esse tempo já passou. Ela está envolvida demais nesse processo. A Alemanha deve ter de € 2 trilhões a € 3 trilhões nesse jogo. Se sair, vai colocar em risco elevar sua dívida. Será que vai continuar a ser 'AAA'? E a moeda ainda vai se valorizar de 30 a 40%, perdendo competitividade.

Valor: E os outros países? Como está hoje a economia americana?

Figueiredo Os EUA passaram por um processo para poder digerir, ao longo do tempo e de uma maneira mais organizada, o excesso de endividamento da crise de 2008. Do ponto de vista estrutural, a economia está bem, apesar de o Estado estar com uma dívida muita alta, em torno de 100% do PIB. Mas como ainda é um dos países que têm mais credibilidade no mundo, existe uma, digamos, boa vontade dos investidores de que eles vão ter responsabilidade de trazer a dívida ao longo do tempo para um patamar mais palatável. Agora, enquanto acontece esse processo de digestão, a economia americana vai crescer menos do que cresceria normalmente. Nosso número de bolso aqui é algo em torno de 2%, um pouco menos, um pouco mais.

Valor: Mas há fragilidades?

Figueiredo Existe uma certa fragilidade, mas não é suficiente para acharmos que há um risco de recessão muito presente. Existe um risco político associado à questão fiscal. Há uma série de isenções e vantagens fiscais que vencem no fim do ano, algo em torno de 3,5% do PIB a 4% do PIB, e não se sabe se o próximo governo terá capacidade de adiar essas isenções. Acredita-se que eles vão parcialmente conseguir, o que significa que a contração fiscal do ano que vem relativamente ao que ocorre hoje será de algo entre 1,5% e 2% do PIB, que é um pouco mais palatável. O que não significa que será um processo tranquilo. Provavelmente teremos muita dúvida sobre o sucesso da postergação dessas isenções, principalmente no último trimestre, com eleições.

Valor: Crescerá a 2% por quanto tempo?

Figueiredo Por enquanto é até onde a vista alcança. Os americanos têm uma capacidade muito grande de se refazer, se reinventar. Então pode ser que esse processo seja mais rápido. O banco central americano [Federal Reserve] diz que a economia mais fraca deve perdurar até pelo menos 2014.

Valor: E o papel da China na recuperação econômica?

Figueiredo Hoje a economia tem uma cara mais fraca do que o crescimento de 7,5% a 8%, o que muito provavelmente que dizer que nas próximas semanas, ou meses, o governo deve vir com uma resposta expansionista para que esse crescimento mais fraco não perdure. Também é importante que não tenha uma economia tão aquecida para fazer a mudança do modelo de investimento e exportação para um voltado mais ao consumo doméstico. Ou seja, dessa vez, se estivermos entrando em uma espiral de menor crescimento, recessão em várias partes do mundo, provavelmente a China consegue ajudar muito menos o mundo do que 2008/09. Isso não quer dizer que vai atrapalhar. Eles têm muitos instrumentos para fazer o chamado "soft lending" [pouso suave] da economia com uma certa tranquilidade.

Valor: Mas isso tem consequência para o mundo e o Brasil?

Figueiredo Sim. Aquele super ciclo de alta de commodities deve ter chegado ao fim. Especialmente as metálicas - as agrícolas têm uma dinâmica um pouco diferente. É possível que se veja até uma queda dos preços das commodities, mas isso depende do que acontecerá na Europa.

Valor: E qual o resultado desse quadro para o Brasil?

Figueiredo Está acontecendo um fenômeno novo na economia brasileira. Vários impulsos foram dados e a economia não respondeu em termos de atividade econômica como se esperava. A economia brasileira está rodando hoje ao redor de 2,5%, no máximo a 3% ao ano, na margem. Provavelmente mais para 2%, 2,5%. Isso é muito abaixo do potencial.

Valor: Precisaria de mais estímulos?

Figueiredo Claro que o BC está reduzindo a taxa de juros e esse impacto é gradual. Achamos que a economia vai acelerar, mas muito pouco. Não estou considerando um crise dramática na Europa, mas sim a economia do G-7, de maneira crônica, ou seja, intensa e longa, como um fator desinflacionário e de redução do crescimento no Brasil. Há um outro elemento, que também é novo. Olhando vários sinais nesse mercado, parece que se esgotou o crescimento acelerado do credito ao consumo. As pessoas estão um pouco com a língua de fora. Não parece que elas consigam comprometer mais da sua renda fazendo compra de bens.

Valor: Quais são os sinais?

Figueiredo A renda indo bem, o desemprego muito baixo e mesmo assim a inadimplência muita alta. Além disso, o aumento do crédito tem se dado naquelas linhas mais caras, tipo cheque especial e cartão de crédito. O crédito ao consumo foi um motor importante para o crescimento. Se de fato isso for uma coisa mais permanente, passamos para um outro nível de crédito ao consumo, isso quer dizer que esse motor que ajudou tanto a economia vai ajudar menos e a economia vai tender a crescer menos por conta do canal de crédito. Para compensar isso, claro, o Banco Central pode ter uma taxa de juros mais baixa.

Valor: Quanto mais baixa?

Figueiredo Não sabemos. Isso é algo que tem que ser testado ao longo do tempo. Há ainda outras questões, como o cenário externo. A queda da confiança tem reduzido bastante o investimento. Na margem, o último dado foi de um crescimento zero do investimento. Por outro lado o governo tem feito uma série de estímulos, mas mesmo assim temos uma economia mais fraca. Provavelmente por essa questão externa, enquanto o mundo está nessa situação difícil, a taxa de juros no Brasil poderia ficar bem mais baixa. É uma situação cíclica, mas a gente não sabe por quanto tempo. Segundo nossos modelos, essa mudança do crescimento nos últimos anos no setor externo traz a taxa de juros neutra, em termos reais, de 2% a 3% mais baixa do que seria normalmente.

Valor: Há espaço para cortar mais os juros?

Figueiredo Se considerarmos todo o conjunto de medidas, mais o canal do crédito, um resultado fiscal de 3%, os bancos públicos que até agora não têm expandido muito o seu crédito, as medidas macroprudenciais, isso tudo faz com que o BC tenha um espaço muito maior de corte de juros. Quando se soma o impacto do que acontece lá fora na economia a esse conjunto de políticas, mais o canal de crédito que hoje está enfraquecido, a consequência é que a taxa de juros pode ser muito mais baixa.

Valor: Mas é conjuntural?

Figueiredo O fenômeno local traz a taxa de juro neutra mais para baixo de uma maneira estrutural. E somada a essa questão conjuntural externa, que pode ser longa. Pode durar dois, três, cinco anos. E inclusive piorar mais e ter um efeito mais desinflacionário, como o BC fala. Isso faz com que o BC possa reduzir bem mais os juros.

Valor: Quanto?

Figueiredo Hoje está em 8,5%. Muito provavelmente na próxima reunião [do Copom] vai para 8%. A partir daí, tem que olhar um pouco. Mas se nosso cenário estiver minimamente correto, não imaginando um evento mais sério, mas um processo que vem se deteriorando principalmente na Europa, enquanto por aqui o crédito permanece com a mesma fragilidade, a mesma política fiscal, é possível, talvez até provável, que o Banco Central possa chegar mais perto de 7%. Claro que, quanto mais você reduz a taxa de juros, mais dependente fica dos sinais da economia aqui e lá fora. Mas não é por outro motivo que o BC faz reuniões a cada 45 dias.

Valor: Esse espaço se deve ao "mix" de política monetária?

Figueiredo Quando se olham as políticas macroeconômicas, vemos que há um equilíbrio que tem ajudado o BC, embora recentemente estejamos ouvindo muitas tentativas em muitos setores do governo de se fazer 'isso ou aquilo'. Se o Brasil, que na minha visão é o mais provável, se contentar em crescer de maneira sustentável, sem ficar criando artificialismos, porque estamos em um ambiente externo muito mais complicado, provavelmente o Brasil sairá lá na frente muito mais fortalecido.

Valor: Quanto o Brasil cresce este ano?

Figueiredo Na margem, achamos que vai crescer mais perto de 3%. Para o acumulado do ano, deve ficar mais perto de 2,7%, ou de 2,6%.

Valor: Se as medidas não estão reativando o crescimento, o que precisaria ser feito?

Figueiredo É um processo mais longo, mas seria necessário reduzir a carga tributária para as empresas. Segundo, o governo poderia de alguma forma investir. Terceiro, atacar a questão da infraestrutura no Brasil para reduzir o custo de produção. É preciso dar mais espaço para empresas investirem e ser tornarem mais produtivas em um mundo com falta de demanda. Ou seja, reduzir o peso do Estado para quem produz no país - governo abrir mão de receita e cortar despesas, produzindo um ambiente macro para que o BC possa ter taxa de juro mais perto do nível internacional. Reduzir os juros com voluntarismo é muito fácil. Mas depois precisa aumentar. Como foi em 2008/09. A Selic chegou em 8,75%, mas a economia começou a voltar e foi preciso subir muito a taxa de juros. Se o governo continuar com esse conjunto de políticas, ou seja, um fiscal firme, reduz o que der a carga tributária reduzindo despesa corrente, investir alguma coisa, ajudar via concessão, o que for, a infraestrutura, e se ficar mais tranquilo com alguns rompantes de voluntarismo, provavelmente daqui a um ano, mesmo com o mundo em uma situação mais difícil, o Brasil estará muito mais fortalecido, com muito mais condição de crescer sustentavelmente e dar voos mais altos. É normal que o governo queira reagir, porque a economia está muito devagar mesmo. Agora, quanto mais firme estiver nas políticas hoje, mais do ponto de vista estrutural, ou seja, permanente, melhor a gente vai estar lá na frente.

Valor: Mas o que fazer no caso de a economia permanecer devagar?

Figueiredo Se a economia brasileira no segundo semestre estiver andando muito pouco, na minha visão não tem nada demais reduzir o fiscal desde que não seja para gasto corrente. Tem que ser para reduzir a carga tributária e/ou aumentar o investimento. É um ambiente muito difícil. A nossa resposta em termos de política econômica, às vezes com certa confusão, tem sido apropriada. Não estamos gerando fragilidades internamente. O governo tem uma série de mecanismos e a própria experiência de 2008/2009 para responder a um momento mais agudo. O que precisamos é nos contentar com um crescimento menor porque estamos em um ambiente muito ruim. Mas se o governo, se o Brasil tiver tranquilidade, ao final desse processo, quando o mundo começar a ficar melhor, o Brasil vai estar vários passos à frente dos outros países.

Valor: Por quanto tempo? Um ou dois anos?

Figueiredo Não tenha muita dúvida não.


Riscos e lacunas do modelo brasileiro



Por Armando Castelar Pinheiro - Valor 01/06

No seu relatório anual sobre a competitividade global, o Institute for Management Development (IMD) mostra mais uma vez que o Brasil caminha para trás no ranking das nações mais competitivas. Em 2012 caiu duas posições, passando à 46ª colocação entre os 59 países analisados.

Como conciliar esse desempenho com a visão que passamos a ter do Brasil, de "queridinho" dos investidores estrangeiros e estrela ascendente no cenário econômico e político global? Qual das duas visões está correta, a de que o futuro de que falava Stefan Zweig finalmente chegou para o Brasil ou a que continua nos identificando com um país de risco elevado e ambiente de negócios ruim, este o sétimo pior entre os analisados pelo IMD?

Em livro que escrevi com Fabio Giambiagi, intitulado "Além da Euforia", lançado há um par de semanas, mostramos que hoje dois Brasis coexistem, o que se livrou de alguns dos piores vícios do passado e aquele em que subsistem problemas antigos, em alguns casos até agravados.
Começamos o livro reconhecendo os muitos avanços das duas últimas décadas. Sem querer ser exaustivos, podemos citar da abertura comercial aos avanços no mercado de crédito, passando pelo Plano Real e as alterações nas regras fiscais consolidadas na Lei de Responsabilidade Fiscal, assim como o saneamento e as novas regulações do setor financeiro. Entendemos, portanto, que houve inúmeros progressos na qualidade das nossas instituições e políticas econômicas, tornando o Brasil um destino mais atraente para os investidores estrangeiros, avanços dos quais devemos nos orgulhar.

O livro não se destina, porém, a tecer louros sobre o passado, mas a apontar dois problemas centrais do nosso atual "modelo" de desenvolvimento. O primeiro é a provável exaustão de alguns fatores que explicam boa parte significativa do bom desempenho econômico dos últimos anos. A importância desses fatores não é devidamente reconhecida no desenho da política econômica, que atribui os resultados recentes aos fundamentos da nossa economia, colocando o país em uma dinâmica econômica que nos parece insustentável. O segundo problema é que o sucesso recente nos fez esquecer os gargalos que subsistem na nossa economia e limitam o nosso potencial de crescimento, como revelam pesquisas como a do IMD.

Um dos desequilíbrios dinâmicos tratados em "Além da Euforia", que recentemente passou a ocupar espaço na mídia, envolve o crescimento da demanda acima daquele do Produto Interno Bruto (PIB) potencial, com base em forte expansão do crédito e das importações. Ainda que essa estratégia tenha funcionado na segunda metade da década passada, isso ocorreu por que o país partiu de elevados níveis de desemprego, um superávit em conta corrente de 2,5% do PIB e baixos níveis de endividamento. Hoje a taxa de desemprego é baixa; a conta corrente deve fechar o ano com déficit acima de 2,5% do PIB; e o endividamento das famílias é alto, considerando juros, prazo e que uma parcela pequena dele se destina à compra de imóveis.

Além disso, é dado um crédito insuficiente ao papel das condições externas, tanto ao efeito da melhoria dos termos de troca, que impediu que a alta nas importações se transformasse em um déficit em conta corrente mais elevado, como à entrada de capital externo, que alimentou a expansão do crédito. Para avaliar a importância desses efeitos basta ver que a América Latina como um todo acelerou o crescimento do PIB ao mesmo tempo e tanto quanto o Brasil, com quedas de desemprego em alguns países ainda maiores do que a nossa. De fato, em 2011 o Brasil teve a menor expansão de PIB em toda a América do Sul.

Também analisamos no livro a dinâmica insustentável na área fiscal, calcada na expansão do gasto corrente e da carga tributária sistematicamente acima do PIB. Ainda que em algum momento vá se tornar difícil continuar aumentando impostos - e a carga elevada e complexa é um dos fatores que constrange o investimento no país - a transição demográfica em curso já traz contratado um aumento significativo de gastos nas áreas de previdência, saúde e assistência a idosos. Nesse sentido, mostramos a necessidade de mudar as regras de aposentadoria, sob risco de tornar o sistema inviável daqui a uns anos.

Além desses desequilíbrios dinâmicos, o livro analisa uma série de áreas em que a necessidade de reformas ficou esquecida em função dos bons resultados dos últimos anos: educação, infraestrutura, ambiente de negócios, produtividade são alguns dos temas tratados em capítulos individuais no livro. Também dedicamos um capítulo ao pré-sal, discutindo como evitar que esse se transforme numa fonte de atraso, como ocorre em alguns países não tão distantes de nós.

"Além da Euforia" foi escrito em uma linguagem acessível aos não especialistas, com vários números para ilustrar nossos argumentos. Acreditamos que isso torna a sua leitura mais agradável e, esperamos, ajude a fomentar uma discussão mais realista sobre o Brasil atual.



Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do IBRE/FGV e professor do IE/UFRJ.


Economia cresce 0,2% no primeiro trimestre, aponta IBGE



Por Alessandra Saraiva e Juliana Ennes - colaboraram Arícia Martins, Francine De Lorenzo e Tainara Machado
Valor - 01/06

RIO - A economia brasileira, medida pelo desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), cresceu 0,2% nos primeiros três meses deste ano na comparação com os últimos três meses de 2011, na série com ajuste sazonal, informou hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Já em relação ao mesmo período do ano passado o crescimento foi de 0,8%.

Análise: PIB sugere que crescimento robusto exigirá mais que crédito

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deverá comentar os números ainda hoje.

No último trimestre de 2011, o PIB cresceu 0,2% (dado revisado, ante 0,3% divulgado anteriormente) sobre o terceiro trimestre, na série dessazonalizada.

Expectativa

O resultado ficou abaixo da média de 0,55% apurada junto a 11 analistas consultados pelo Valor. As estimativas variavam de 0,50% a 0,80%.

O PIB do primeiro trimestre veio em linha, por outro lado, com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do PIB, e que mostrou crescimento de 0,15% na passagem do último trimestre de 2011 para o primeiro de 2012, na série com ajuste sazonal.

Relação ao trimestre anterior

No lado da oferta, a indústria subiu 1,7%, o que representa a maior alta desde o primeiro trimestre de 2010, quando tinha havido expansão de 2,6%. O setor de serviços registrou alta de 0,6% e a agropecuária teve contração de 7,3%.

Pelo lado da demanda, o consumo das famílias cresceu 1% no primeiro trimestre de 2012 ante o último de 2011. A demanda do governo aumentou 1,5% e a formação bruta de capital fixo (que representa o investimento em máquinas e equipamentos e na construção civil) caiu 1,8%, sempre na mesma base de comparação e na série com ajuste sazonal.

A taxa de investimento atingiu 18,7% do PIB no primeiro trimestre.

Comparação com um ano antes

Em relação ao primeiro trimestre de 2011, pelo lado da oferta, a indústria subiu 0,1%, o setor de serviços registrou alta de 1,6% e a agropecuária teve contração de 8,5%.

Pelo lado da demanda, o consumo das famílias cresceu 2,5% no primeiro trimestre de 2012, também ante o mesmo período de 2011. A demanda do governo aumentou 3,4% e a formação bruta de capital fixo (que representa o investimento em máquinas e equipamentos e na construção civil) caiu 2,1%, sempre na mesma base de comparação.

Investimento em baixa




O investimento, que responde à situação de fraqueza da indústria e de queda da confiança ante um cenário internacional conturbado, recuou 1,8% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o quarto trimestre do ano passado, com ajuste sazonal. Esse é o terceiro trimestre consecutivo de retração no investimento nesta base de comparação.

O recuo foi maior do que o esperado. A média das projeções coletadas pelo Valor Data para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e equipamentos e na construção civil) era de queda de 1,26%, com intervalo entre queda de 4,1% e alta de 0,4%.

O comportamento do investimento piorou em relação ao quarto trimestre do ano passado, quando caiu 0,6% na comparação com o terceiro trimestre de 2011, feitos os ajustes sazonais. O dado referente aos três últimos meses de 2011 foi revisado pelo IBGE, que anteriormente havia informado elevação de 0,2% no período.

Famílias consumiram mais



O crescimento de 0,2% PIB entre janeiro e março de 2012 foi novamente puxado, sob a ótica da demanda, pelo consumo das famílias, que avançou 1% no período, sempre na comparação com o quarto trimestre, feitos os ajustes sazonais. O avanço ficou em linha com as estimativas coletadas pelo Valor Data com nove instituições. De acordo com a média das projeções, a expectativa era de alta de 1,04% na mesma base de comparação, com intervalo entre 0,6% e 1,5%.

Em relação ao último trimestre, quando o crescimento do consumo das famílias também foi de 1% ante o trimestre imediatamente anterior, com ajuste sazonal, houve estabilidade. Na comparação com o primeiro trimestre de 2011, a alta foi de 2,5%.

Os economistas projetavam essa variação com base no aumento da renda real no período, influenciada pelo ajuste de 14% do salário mínimo em janeiro. No entanto, ponderaram, o impulso poderia ter sido maior se não fosse o aumento do comprometimento da renda das famílias e a alta da inadimplência. De acordo com os dados do Banco Central, os pagamentos com atraso superior a 90 dias nas linhas de crédito ao financiamento de automóveis aumentaram 2,7 pontos entre março de 2011 e o mesmo mês deste ano.

Consumo do governo

Ainda sob a ótica da demanda, o consumo do governo avançou 1,5% nos primeiros três meses deste ano em relação ao último trimestre do ano passado, com ajuste sazonal. A compilação da média das estimativas captadas pelo Valor Data com nove instituições era de alta de 0,48%, na mesma base de comparação. As projeções variavam de um mínimo de -0,20% a um máximo de +1,10%. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, houve crescimento de 3,4% para o indicador.

Retração do agronegócio

As secas que atingiram o Sul e o Nordeste neste início de ano provocaram quebras de safra e prenunciavam um resultado pior para o PIB do segmento agropecuário, que recuou 7,3% na passagem do último trimestre de 2011 para o primeiro deste ano, feitos os ajustes sazonais.
Oito instituições ouvidas pelo Valor Data trabalhavam com aumento médio de 0,33% para o PIB agropecuário no período, com intervalo entre queda de 2,2% e alta de 1,9%. No resultado anterior, o PIB agropecuário havia recuado 0,1% entre o terceiro e o quarto trimestre de 2011.

A atividade nordestina encolheu 1% no período, enquanto a queda no Sul foi de 0,4%, feitos os ajustes sazonais, de acordo com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) para cada uma das regiões. Dados divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) também apontam que a safra 2011/2012 de grãos no Sul foi 17,9% menor do que a anterior. No Nordeste, o recuo foi de 15,9%.

Surpresa da indústria

O desempenho da indústria no primeiro trimestre surpreendeu ao crescer 1,7% no período, sempre na comparação dessazonalizada, variação que ficou acima das estimativas coletadas pelo Valor Data com nove instituições.

Nove instituições ouvidas pelo Valor Data esperavam alta de 0,32% no PIB industrial no primeiro trimestre do ano, de acordo com a média de projeções. O intervalo variava entre recuo de 0,6% e elevação de 2,2%. No último trimestre de 2011, o PIB da indústria havia encolhido 0,5% sobre o trimestre anterior. Para analistas, a indústria deve mostrar recuperação mais pronunciada a partir da segunda metade do ano, quando já estará surtindo efeito sobre a economia todo o arsenal de medidas do governo.

Avanço dos serviços

O setor de serviços também contribuiu para o crescimento econômico no primeiro trimestre do ano. Esse componente da oferta registrou alta de 0,6% sobre o último trimestre do ano passado, feitos os ajustes sazonais.

De acordo com a média de nove projeções, a expectativa era de alta de 0,92% nesta base de comparação, com intervalo entre 0,6% e 1,3%. O resultado atual representa aceleração frente ao último trimestre de 2011, quando o PIB de serviços havia crescido 0,4% sobre o terceiro trimestre daquele ano.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

América Latina deve cooperar mais




Por Helen Clark - Valor 31/05

Cerca de 40 ministros de desenvolvimento social da América Latina e Caribe e da África estiveram reunidos desde o dia 29 até hoje em Brasília para discutir como as duas regiões podem compartilhar experiências e impulsionar a cooperação para acabar com a pobreza. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) tem o orgulho de ter sido o facilitador desse encontro histórico, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
Esse fórum acontece a menos de um mês da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Lá, líderes mundiais, ao lado de milhares de participantes de governos, do setor privado e de organizações da sociedade civil irão discutir como construir um futuro mais sustentável - um desafio crucial tanto para países desenvolvidos como para aqueles em desenvolvimento.

Está claro que os países não podem mais se dar ao luxo de crescer primeiro e tentar limpar o meio ambiente depois. Ou de crescer antes para depois tentar acabar com a desigualdade. O crescimento econômico, separado dos avanços em desenvolvimento humano e sem consideração pelo meio ambiente, não só é incapaz de sustentar avanços como também destrói ecossistemas dos quais dependemos para a vida neste planeta.

Duas semanas atrás, apresentei em Nairóbi, com o presidente queniano Mwai Kibaki, o primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano do Pnud para a África. Apesar das significativas taxas de crescimento econômico da África Subsaariana, a fome segue afetando quase um quarto de sua população, o que significa mais que toda a população brasileira.
No ano passado, os países do Chifre da África vivenciaram a pior crise de segurança alimentar da região dos últimos 20 anos. No Sahel, apenas dois anos depois da última grave crise de segurança alimentar e nutrição, uma combinação de seca, pobreza, altos preços de grãos, degradação ambiental e, em alguns países, instabilidade e conflitos, estão exigindo da comunidade internacional uma nova resposta em grande escala. As últimas estimativas sugerem que mais de 15 milhões de pessoas são diretamente afetadas, sem que a crise tenha ainda atingido seu pico.

Há mais de 30 anos, o arquiteto do paradigma de desenvolvimento humano e prêmio Nobel de Economia, Amartya Sen, desafiou a noção de que a fome é causada simplesmente pelo declínio da oferta de alimentos. Ele argumentou que a fome é consequência de instituições que não funcionam bem, da inexistência do Estado de Direito e do acesso limitado a mercados ou a alimentos com preços acessíveis. Ele também ressaltou que onde os governos são inclusivos e têm capacidade de resposta rápida, as crises de fome não existem.

O Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento convida todos a refletir sobre uma abordagem compreensiva para a construção da segurança alimentar, priorizando a nutrição nas políticas públicas, empoderando as mulheres e ajudando as nações a aumentar a resiliência às adversidades. Em todo o mundo, trabalhamos para promover uma governança mais eficaz e com maior capacidade de resposta e para promover igualmente o Estado de Direito.

Há muita experiência a ser compartilhada entre América Latina e África na erradicação da pobreza e da fome, em especial por meio de sistemas de proteção social. O programa brasileiro Bolsa Família tem sido muito elogiado, e sua atual expansão, com o Brasil Sem Miséria, também tem atraído grande interesse. O Brasil se propôs como objetivo a erradicar a pobreza extrema até 2014, e tem feito progressos consideráveis nesse sentido.

As discussões que ocorreram esta semana, no V Fórum Ministerial para o Desenvolvimento, vão incentivar ainda mais a cooperação entre as nações da América Latina e da África. O intercâmbio e a cooperação Sul-Sul destacam soluções de desenvolvimento que, adaptadas aos contextos nacionais, podem ajudar as nações a atingirem seus objetivos. Eles podem também fazer muito para ajudar o progresso global nos elos econômico, social e ambiental que compõem o desenvolvimento sustentável.



Helen Clark é a administradora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e ex-primeira ministra da Nova Zelândia.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ranking das maiores economias mundiais até 2017



U.S. remains biggest in size but doesn't rank on growth. See rankings throughout the years


http://money.cnn.com/news/economy/world_economies_gdp/?iid=HP_River

A charada do interesse da Alemanha



Por Martin Wolf - Valor 30/05

Como vão acabar as crises internas da região do euro? Muitas pessoas me perguntaram isso nos Estados Unidos. Outra dúvida é como a região do euro poderá sair da crise e chegar à estabilidade? Para resolver a questão, precisamos distinguir três aspectos da confusão: para onde a região do euro está indo; para onde a Alemanha quer que a região do euro vá; e para onde a região do euro precisa ir.

A atual posição da região do euro parece deprimentemente clara. Alguns países-membros, sendo dois deles grandes (Itália e Espanha), já estão à beira de ter governos incapazes de administrar seu endividamento público sem auxílio externo. Grande parte dessas dívidas está em mãos de seus bancos. Muitos desses bancos estão abalados, principalmente os de países que tiveram bolhas imobiliárias gigantescas, grandes déficits fiscais ou ambos. Os governos com baixa solvência sentem-se pressionados a resgatar seus frágeis sistemas bancários, que, por sua vez, supostamente deveriam financiar esses mesmos governos que lhes querem ajudar: é o bêbado tentando ficar de pé encostando-se no outro bêbado.

Além disso, vem sendo requerido que os governos busquem políticas de austeridade fiscal, em um momento em que os setores privados se retraem: entre 2007 e 2012, o balanço financeiro do setor privado passou de déficit para um superávit de 16% do Produto Interno Bruto (PIB) na Espanha. A austeridade enfraquece ainda mais tanto as economias como os bancos. Isso, por sua vez, eleva o desemprego e reduz a arrecadação governamental, tornando a austeridade fiscal ineficaz. Enquanto isso, a baixa demanda no núcleo da região do euro agrava a fraqueza na periferia, em vez de enfrentá-la.

Com os bancos enfraquecidos, a demanda privada abalada, a demanda do governo em contração e a demanda externa baixa, é provável que daqui a dois ou três anos, as economias mais frágeis estejam com um desemprego maior e uma produção menor do que hoje. O prêmio por suportar dores hoje será enfrentar mais dores amanhã.

Independente de a Grécia ser "salva" ou não, é difícil acreditar neste momento que a região do euro sobrevirá a isso em sua forma atual, particularmente quando o principal argumento a seu favor - o da integração econômica e financeira - está sendo destruído. As empresas, especialmente as instituições financeiras, buscam crescentemente equiparar ativos e passivos em cada país. Da mesma forma, apenas as empresas mais corajosas vão fazer planos de produção com a convicção de que o risco cambial foi eliminado. Com uma parte crescente do risco transnacional agora sendo assumida pelo Banco Central Europeu (BCE), o caminho para o desmembramento vem ficando mais desimpedido.

Isso parece uma longa jornada noite adentro. Pode levar semanas, meses ou anos, mas o rumo sendo seguido, infelizmente, parece bastante claro.

Agora, vejamos o segundo aspecto. Como a Alemanha quer que a região do euro se organize? Entendo as ideias do governo e autoridades monetárias alemãs da seguinte forma: nada de bônus conjuntos da região do euro; nada de aumento nos fundos disponíveis para o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM), atualmente de 500 bilhões; nada de auxílio conjunto ao sistema bancário; nada de desvio da austeridade fiscal, nem da própria Alemanha; nada de financiamento monetário de governos; nada de relaxamento da política monetária da região do euro; e nada de forte incentivo ao crédito na Alemanha. O país credor, em cujas mãos está o poder durante crises, disse "nein" pelo menos sete vezes.
Como eu suponho que as autoridades políticas alemãs pensam que interromperão a espiral destrutiva da região do euro? Tenho duas hipóteses. A primeira: eles acham que não conseguirão. Supõem que a vida de algumas das economias mais vulneráveis vai ficar tão miserável, que acabarão saindo voluntariamente. Encolheriam, portanto, a região do euro para um núcleo com ideias afins e reduziriam os riscos à própria estabilidade fiscal e monetária da Alemanha decorrentes de qualquer pressão para resgatar os países mais frágeis. A segunda hipótese é que os alemães realmente pensam que essas políticas podem vir a funcionar. Uma possibilidade, portanto, seria a de que os países mais fracos tivessem uma "desvalorização interna" tão grande que passariam a ter grandes superávits externos em relação ao resto do mundo, o que restauraria sua atividade econômica. A outra possibilidade seria que a combinação de reformas estruturais radicais e de vendas emergenciais de ativos atraísse uma onda de investimentos diretos. Isso financiaria o déficit em conta corrente no curto prazo e geraria nova atividade econômica no longo.

Talvez as autoridades políticas acreditem que haverá ou um ajuste rigoroso ou uma saída ágil. O "risco moral", no entanto, pelo menos estaria contido e a exposição da Alemanha, limitada, não importa o resultado.

A alternativa da "saída dos fracos", contudo, parece muito arriscada e a do "ajuste doloroso e vendas emergenciais", tão implausível quanto. O risco, além disso, não recai apenas sobre os países mais fracos. A Alemanha envia apenas 5% de suas exportações para a China, em comparação aos 42% que fluem para o resto da região do euro e que, em grande parte, seriam impactados em caso de um colapso. O acontecido até agora já enfraqueceu sua economia, dependente das exportações: o PIB do primeiro trimestre foi apenas 1% maior do que no mesmo no mesmo período há quatro anos. Mais além desses perigos econômicos com os danos à união "irrevogável", certamente há à espreita um duradouro desastre político para o poder hegemônico da região do euro.

Em resumo, a região do euro agora segue uma direção rumo ao desmembramento; e a Alemanha mostra pouca disposição em alterá-la. Não é por falta de alternativas concebíveis que isso ocorre. O que é necessário é tornar alguns desses "nãos" em "sins": mais financiamento, de preferência, por meio de algum bônus comum da região do euro; apoio conjunto aos bancos; menor contração fiscal; mais políticas monetárias expansionistas; e uma demanda mais forte na Alemanha. Essas mudanças não vão garantir o sucesso, mas pelo menos darão à região do euro a chance de evitar o custo de um desmembramento parcial ou total. Para funcionar no longo prazo, tais mudanças também exigem maior integração política.

Em outubro de 1939, Winston Churchill disse: "Não posso prever-lhes as ações da Rússia. É uma charada, encoberta por um mistério, dentro de um enigma; mas, talvez, haja uma chave. Essa chave é o interesse nacional russo". A chave para a Europa hoje é a percepção da Alemanha quanto a seu interesse nacional. Quando ficar evidente que as condições defendidas pelo país não vão funcionar, os líderes alemães terão de escolher entre naufragar ou mudar de rumo. Não sei o que a Alemanha vai escolher. Não sei se seus líderes sabem. Dessa escolha, no entanto, depende o destino da Europa. (Tradução de Sabino Ahumada)



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O sonho frustrado da França


Por Martin Feldstein - Valor 29/05


A crise na região do euro é resultado da busca persistente da França por um "projeto europeu", o objetivo de unificação política iniciado depois da Segunda Guerra Mundial, quando dois dos principais políticos franceses, Jean Monnet e Robert Schuman, propuseram a criação dos Estados Unidos da Europa.

Monnet e Schuman argumentavam que uma união política similar à do EUA evitaria os tipos de conflito que haviam provocado três grandes guerras europeias - uma ideia atraente, mas que fez vistas grossas à terrível Guerra Civil dos EUA. Uma união política europeia também poderia tornar a Europa uma potência política comparável aos Estados Unidos e, portanto, dar à França, com seu apurado serviço de relações exteriores, um papel de importância nos assuntos europeus e mundiais.

O sonho de Monnet e Schuman levou ao Tratado de Roma, de 1956, que estabeleceu uma pequena área de livre comércio, posteriormente ampliada na forma da Comunidade Econômica Europeia (CEE). O estabelecimento da CEE teve efeitos econômicos favoráveis, mas, da mesma forma que o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), não diminuiu o senso de identificação nacional nem criou a ideia de unidade política.

Esse foi o propósito do Tratado de Maastricht, de 1992, que criou a União Europeia. O influente relatório "One market, one money" * (um mercado, uma moeda, em inglês), publicado em 1990, sob a liderança de Jacques Delors, então ministro das Finanças da França, defendia a criação de uma moeda única, fiando-se no ilusório argumento de que o mercado único não poderia funcionar bem de outra forma. De forma mais realista, defensores de uma moeda única argumentavam que sua criação levaria as pessoas a se identificar como europeus e que a criação de um Banco Central Europeu (BCE) prenunciaria um afastamento do poder dos governos nacionais.

A Alemanha resistia à ideia do euro, sustentando que, primeiro, deveria haver uma união política integral. Como não havia chance de os outros países aceitarem uma união política, a posição alemã parecia uma manobra técnica para evitar o estabelecimento da moeda única. O país estava relutante em abrir mão do marco alemão, símbolo de seu poder econômico e de seu compromisso com a estabilidade de preços. A Alemanha acabou concordando com a criação do euro, apenas quando o presidente francês François Mitterrand a colocou como condição para apoiar a reunificação alemã.

Além disso, sob pressão da França, a exigência do Tratado de Maastricht de que os países pudessem adotar o euro apenas se o endividamento nacional fosse inferior a 60% do Produto Interno Bruto (PIB) foi relaxada para também permitir a admissão de países que pareciam estar "evoluindo" para essa meta. A modificação permitiu a entrada da Grécia, Espanha e Itália.

Os políticos favoráveis ao euro ignoraram os alertas de economistas, de que impor uma moeda única a uma dúzia de países heterogêneos era algo destinado a criar sérios problemas econômicos. Consideraram os riscos econômicos como pouco importantes em relação à sua agenda de unificação política.

A adoção do euro, no entanto, resultou em uma queda acentuada nas taxas de juros nos países periféricos, o que levou à criação de bolhas imobiliárias alimentadas por dívidas e encorajou os governos a captar mais para financiar seus aumentos de gastos. Surpreendentemente, os mercados financeiros internacionais ignoraram os riscos de crédito desses títulos de dívidas soberanos, pedindo apenas pequenas diferenças de rendimento entre os bônus alemães e os da Grécia ou outros países periféricos.

Isso acabou em 2010, depois de a Grécia admitir ter mentido sobre seu endividamento e déficits orçamentários. Os mercados financeiros reagiram exigindo taxas muito maiores para os bônus de países com alto endividamento governamental e sistemas bancários enfraquecidos pelo excesso de dívidas hipotecárias.

Três países pequenos (Grécia, Irlanda e Portugal) se viram obrigados a pedir ajuda financeira ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e adotar dolorosos cortes fiscais com efeitos restritivos. As condições na Grécia agora são desesperadoras e deverão levar a mais calotes e à saída da região do euro. A Espanha também está em sérios problemas como resultado dos déficits orçamentários de seus governos regionais tradicionalmente independentes, da fragilidade de seus bancos e da necessidade de rolar grandes volumes de dívidas soberanas a cada ano.

Já ficou claro que o recém-acertado "pacto fiscal" da UE não vai conter os déficits nacionais nem reduzir as dívidas nacionais. A Espanha foi a primeira a insistir em que não conseguiria cumprir as condições com as quais havia acabado de concordar; e outros países logo virão a seguir. O presidente da França, François Hollande, propôs equilibrar os limites de déficits com iniciativas voltadas ao crescimento, como a França havia pressionado anteriormente para que o Pacto de Estabilidade da UE virasse o Pacto da Estabilidade e Crescimento. O pacto fiscal é um gesto vazio, que pode ser a última tentativa para fingir que os países-membros da UE movem-se em direção a uma unificação política.

O projeto europeu claramente deixou de alcançar o que os líderes políticos franceses queriam desde o início. Em vez da amizade e do sentimento de motivação sonhados por Monnet e Schuman, há conflito e desordem. O papel internacional da Europa vem encolhendo, com o antigo G-5 tendo evoluído para o G-20. E, com a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, estabelecendo as condições para a região do euro, a ambição francesa de dominar a política europeia viu-se frustrada.

Mesmo se a maioria dos países da região do euro mantiver a moeda única, isso se dará porque abandonar a moeda seria financeiramente doloroso. Agora que suas fragilidades estão claras, o euro continuará como uma fonte de problemas, em vez de um caminho para o poder político.(Tradução de Sabino Ahumada)



* www.ec.europa.eu/economy_finance/publications/publication7454_en.pdf


Martin Feldstein é professor de economia em Harvard, foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e foi presidente do Gabinete Nacional de Análises Econômicas dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

Mercado interno para quem?


Por Luiz Carlos Bresser-Pereira e Nelson Marconi - Valor 29/05


O mercado interno é o maior ativo que a economia de um país pode possuir; sua magnitude é definida por seu Produto Interno Bruto (PIB), pela soma dos salários, dos lucros e das rendas do capital. Foi buscando aproveitar esse mercado que os desenvolvimentistas brasileiros defenderam nos anos 1950 o modelo de industrialização por substituição de importações. Foi procurando ampliar esse mercado interno que, a partir do fim dos anos 1960, esses mesmos economistas, vendo que o processo de substituição de importações se esgotara, apoiaram o exitoso processo de ampliação das exportações de manufaturados que, concomitantemente, aumentou o mercado interno. Hoje, depois de muitos anos de baixas taxas de crescimento e de queda da participação dos manufaturados nas exportações totais, coloca-se novamente o problema do aproveitamento e da ampliação do mercado interno.

No mundo atual, as economias são muito mais abertas que no passado; competir em pé de igualdade pelos mercados de manufaturados (leia-se bens com maior valor adicionado e que incorporam e disseminam maior progresso técnico para o restante da economia) é necessário para o aumento da produtividade e o alcançamento de taxas mais elevadas de desenvolvimento econômico. Dado que não faz sentido voltar a reduzir o coeficiente de importações, o desenvolvimento econômico brasileiro será limitado pela taxa de crescimento das exportações.

Entretanto, uma parcela dos economistas brasileiros defende uma estratégia de crescimento wage-led, baseada no aumento dos salários. Preferem conviver com a sobreapreciação cambial existente, porque o custo de se colocar a taxa de câmbio no nível de equilíbrio (a do equilíbrio industrial, que torna competitivas as empresas industriais eficientes) implicará alguma redução dos salários reais e em aumento da inflação (ambos temporários). No fundo, querem voltar ao modelo de substituição de importações, mas não propõem as altas taxas aduaneiras que seriam necessárias para voltar a uma estratégia desse tipo, incompatível com o estágio de desenvolvimento do Brasil.
A estratégia de desenvolvimento não deve ser export-led ou wage-led, mas growth-led; deve propiciar oportunidades de investimento lucrativas para os empresários que garantam uma taxa de crescimento satisfatório. Se o patamar de crescimento é insatisfatória, como acontece agora, este fato é causado principalmente por uma taxa de câmbio apreciada e uma taxa de juros alta em termos reais, que resultam em baixas oportunidades de investimento lucrativos para as empresas industriais - justamente aquelas que proporcionam maior valor adicionado per capita.

Como, a partir de 2004, a economia brasileira pareceu haver retomado o crescimento baseado em uma estratégia do tipo wage-led - baseada no aumento real do salário mínimo, na Bolsa Família e no crédito consignado, enquanto a taxa de câmbio se apreciava fortemente - surgiu a tese de que seria possível para a economia brasileira crescer a partir da expansão do consumo no mercado interno, não havendo necessidade de se depreciar a taxa de câmbio.

Aquele crescimento, porém, só foi possível porque uma economia mundial aquecida antes da crise elevou os preços de nossos produtos exportados, principalmente das commodities (160% entre 2002 e 2008, enquanto os preços das exportações de manufaturados cresceram 53% no mesmo período), fato que possibilitou à economia brasileira financiar o aumento das importações decorrente desta estratégia sem gerar um desequilíbrio significativo no saldo em transações correntes.

Mas a continuidade desse modelo é inviável, primeiro, porque o cenário externo não permite continuar a contar com o aumento do preço das commodities, e, segundo, porque o câmbio sobreapreciado faz com que o mercado interno seja suprido por importações: com uma pequena defasagem esse mercado interno foi entregue de graça aos exportadores de outros países, principalmente aos chineses, e a indústria brasileira entrou em crise. As exportações de manufaturados, calculadas em quantum, estão em declínio desde 2007, sendo que em 2011 foram 15% inferiores às daquele ano, enquanto o quantum das importações de manufaturados aumentou 59% no mesmo período.

Os dados das Contas Trimestrais a preços constantes mostram que, em média, 34% do incremento da demanda agregada no país foi atendido por importações nos anos de 2010 e 2011, enquanto esse percentual foi de cerca 10% entre 2000 e 2005. Não é a magnitude deste percentual que impressiona, mas a velocidade da elevação das importações nos últimos anos. Enquanto a produção industrial encontra-se praticamente no mesmo patamar que vigorava antes dos reflexos mais significativos da crise no Brasil (a média de 2011 foi 2,7% superior à média de 2008), o volume de vendas do comércio varejista foi 25,3% superior na mesma base de comparação. Graças ao último aumento do salário mínimo, o mercado interno brasileiro continua grande, mas não está dando emprego para brasileiros, e sim aos exportadores de manufaturados para o Brasil.

Não se trata, portanto, de adotar uma estratégia "export-led" ao invés de "wage-led". Trata-se de defender uma estratégia "growth-led", uma estratégia que garanta o crescimento do mercado interno e dos salários de 5% a 6% ao ano ao invés de a 3% como voltou a acontecer depois do boom das commodities. O limite desse crescimento é o do crescimento das exportações. Alcançar esse crescimento graças aos preços das commodities não é mais realista; tentar transformar o Brasil em uma grande fazenda é uma loucura. Felizmente, a presidente Dilma Rousseff parece ter entendido isto e está gradualmente tirando a economia brasileira da armadilha dos juros altos e do câmbio sobreapreciado.



Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas. Autor de "Globalização e Competição".



Nelson Marconi é professor de Economia da EESP-FGV e bolsista do Ipea.

Virtuosos e bandalhos



Por Antonio Delfim Netto - Valor 29/05

Analistas culpam os países devedores ("gastadores") pela crise que estamos vivendo, ressaltando a moderação virtuosa dos países credores. Tratam de afastar o "foco" das patifarias feitas pelos intermediários financeiros, com o apoio das "teorias" que continuam a defender. Não pode haver a menor dúvida. A crise foi construída pela desmontagem da regulação financeira aprovada nos anos 30 e pela péssima política monetária dos Bancos Centrais apoiados pela parte mais vocal e instrumentalizada da Academia.

Para entender a crise da Eurolândia a contabilidade nacional pode ajudar. Como a Terra é finita, a soma das exportações totais de todos os países é, necessariamente, igual à soma das importações totais de todos os países, de onde se deduz que o balanço em contas correntes de um país só pode crescer se o de outros diminuírem na mesma magnitude. O Fundo Monetário Internacional nasceu para controlar os déficits em conta corrente autorizando mudanças eventuais das taxas de câmbio fixas. Quando se generalizou a teoria que os movimentos de capitais eram absolutamente virtuosos, o sistema de câmbio flutuante passou a desempenhar esse papel.

Não há instrumento eficaz para impedir o país de manter um saldo em conta corrente permanentemente positivo para aumentar o seu PIB. De uma forma ou de outra, ele encontra a contrapartida no déficit em conta corrente de outros que veem reduzir o seu PIB. O que fazer quando a "importação" transforma-se numa importante componente do PIB do país devedor? Sem ela o PIB desaba, com ela a demanda interna cai e o PIB retrai-se. Pela Contabilidade Nacional, a demanda total é igual às despesas de consumo somadas à de investimento, dos gastos do governo e do saldo em conta corrente. Quando esse último é negativo, reduz o crescimento do PIB e o consumo e o investimento privado têm pouca probabilidade de aumentarem. Se o governo deseja manter (como todo governo que se preza) um alto nível de utilização do seu capital e de sua mão de obra, a sua propensão é aumentar os gastos públicos e incorrer em déficits fiscais.

Uma das mais interessantes identidades da Contabilidade Nacional é que, por construção, a soma da diferença entre os tributos e os gastos públicos e a diferença entre a poupança e o investimento privados é, necessariamente, igual ao déficit em conta corrente. Mas uma identidade não revela qualquer relação de causalidade. Ela foi, entretanto, a origem da lenda urbana dos déficits gêmeos: os déficits do governo causam o déficit em conta corrente, coisa que até hoje alguns analistas das melhores famílias continuam repetindo.

Economistas são exímios contadores de histórias que, em geral, não contêm um substrato empírico realmente seguro. A história que estamos contando aqui é que existe um outro lado: é o déficit em conta corrente que enfraquece o PIB que leva à ação defensiva dos governos que geram os déficits públicos! É tão boa quanto a anterior e, também, sem substrato empírico seguro. A solução do problema pelos mais sofisticados instrumentos econométricos que estudam a direção da causalidade foi incapaz, até agora, de resolvê-lo acima de qualquer dúvida.

Mas não importa o que dizem as "histórias" e o que não diz a econometria: os dois déficits têm consequências. O déficit fiscal acumulado vai produzindo uma dívida interna (e externa quando o governo usa tais recursos para cobrir seu custeio ou investimento) que com o tempo levanta dúvida sobre sua solvência e pressiona a taxa de juro real interna, o que tende a valorizar a taxa de câmbio e ampliar o déficit em conta corrente. O déficit em conta corrente acumulado vai, por sua vez, aumentando a dívida externa e produzindo o mesmo efeito, gerando dúvida sobre sua solvência dificultando paulatinamente o seu financiamento, o que eleva o "risco país" e, com ele, o custo de todo o estoque da dívida.

O Brasil já viveu a dramaticidade dos momentos em que os "credores" perdem a paciência com os "devedores" e gera-se uma crise de "morte súbita". Felizmente soubemos aproveitar os últimos anos: 1º) aprovando uma Lei de Responsabilidade Fiscal que paradoxalmente fortaleceu nosso federalismo desregrado e criou, de fato, uma área monetária ótima; e 2º) um vento de cauda do comércio exterior que sem nenhum esforço exportador (continuamos a ter a mesma percentagem, 1,3%, que há 50 anos temos nas exportações totais) resolveu nosso problema externo.

E isso é tudo que falta à zona do euro, a única moeda que não tem um país! Os argumentos anteriores mostram que a ideia que os "credores" são virtuosos e os "devedores", bandalhos gozadores da vida, pode ser incorreta. Os credores com suas políticas exportadoras agressivas só tiveram sucesso porque os outros não quiseram, ou não puderam, tomar medidas defensivas como a desvalorização cambial e o aumento de tarifas. Alguns países de fato cometeram excesso fiscal maior do que os mais virtuosos, mas nada que se compare, em importância, aos déficits externos que a mecânica de funcionamento do euro lhes impôs.
É por isso que virtuosos como a Alemanha precisam agora contribuir: 1º) aumentando a sua demanda global para ajudar as exportações dos outros; 2º) aceitando que o Banco Central Europeu cumpra o seu papel de emprestador de última instância; e 3º) aprovando a emissão de títulos solidários para atrair o setor privado no financiamento dos investimentos.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O futuro dos bancos centrais



Por Jairo Saddi - Valor 28/05

Sir Mervyn King, governador do Banco da Inglaterra há mais de uma década, numa conferência em Plymouth, questionado sobre o que seria a boa atividade de um banqueiro central respondeu: "boring is best" ("ser chato é o melhor"). Inflação e metas monetárias sob controle, crescimento econômico sem precedentes, enfim, realmente, os banqueiros centrais só poderiam realmente achar que a melhor opção de ação seria aquela que fosse previsível, consistente, contínua e, portanto, a mais chata.

É desnecessário lembrar a diferença que uma crise mundial faz a esse tipo de mentalidade. Nos últimos quatro anos, a atividade dos bancos centrais pode ter sido tudo, menos chata... Aliás, as grandes injeções de liquidez e de estímulo monetário são provas vivas disso. Segundo Philipp Hilderand, ex-presidente do Banco Nacional da Suíça, em artigo no "Financial Times" (12 de maio 2012, p. 11), eles agiram com coragem e determinação e impediram o sistema econômico mundial de naufragar, o que os aproximou do status de heróis públicos. Muitos, contudo, não concordam - por exemplo, Martin Wolf alega, no mesmo Financial Times (2 de maio, p. 9), que não se pode dar crédito a alguém por um evento hipotético, em que há muitas premissas falsas no processo de resgate. Em resumo, há muito ainda a indagar sobre o futuro dos banqueiros centrais.

Caberia aqui um primeiro comentário fundamental: o futuro será incerto, com a única certeza de que ele não será monótono, ao contrário, será bem agitado. Bancos centrais terão que administrar o paradoxo da estabilidade financeira e monetária com riscos e volatilidades crescentes. E terão cada vez mais aspectos controversos a gerenciar, que praticamente não existiam até antes da crise, já que perseguir baixa inflação e uma meta monetária definida era consenso universal sobre suas funções, assim, o impacto de suas decisões será sentido cada vez mais na economia. Além disso, nunca se discutiu a solidez dos bancos centrais, mas, com seus balanços inchados de ativos mais problemáticos, isso parece cada vez mais próximo.

Nesse panorama, verifica-se que será preciso administrar melhor as intervenções microscópicas. Prover liquidez - função de prestamista de última instância e que desde o século XIX é reconhecida como uma das funções clássicas de qualquer banco central -, irá requerer muito mais atenção. O risco de uma intervenção prematura, aumentando o risco de moral hazard, só não é pior do que a intervenção tardia, na qual o remendo sempre será mais difícil. No entanto, impactos fiscais só são sentidos muito tempo depois e, inevitavelmente, com elevados custos. Resta saber se tais desafios institucionais terão o necessário apoio político, nem sempre disponível quando mais se precisa dele.

Ademais, há evidente pressão para que os bancos centrais deixem de se ocupar apenas com a inflação e passem a se concentrar também no crescimento econômico e no desenvolvimento nacional. Ou, em outras palavras, como assegurar a estabilidade monetária e o padrão de compra do valor da moeda com políticas que muitas vezes são expansionistas além da estabilidade do sistema financeiro e dos meios de crédito? Aliás, conciliar estabilidade e risco é o grande desafio da sociedade financeira pós-crise 2008. E, com tudo o que houve, não há como não aceitar o fato de que o sistema financeiro tem uma propensão natural ao risco: deixado ao léu, a chance de bobagem é realmente elevada.

Finalmente, há a credibilidade. Bancos centrais têm na credibilidade seu maior ativo. Credibilidade pode ser definida como qualidade daquilo em que se pode crer ou se toma como verdade, implicando julgamentos de confiança e segurança. Um banco central que não goze de credibilidade faz com que os agentes econômicos superestimem as taxas corretivas de preços, de moeda, de inflação e de câmbio, e, principalmente, a taxa de juros. Quanto menos confiável a ação do banco central, maior a taxa de juros oferecida ao mercado, para que seus títulos ou aqueles que oferece sejam detidos, sob o risco de a moeda fluir para outros ativos ou mesmo para o consumo.

Ao contrário, bancos centrais com credibilidade acabam gerando moedas fortes. Não impõem um prêmio ou um risco por suas operações, por não estarem enfrentando vieses inflacionários. Paradoxalmente, maior credibilidade dá-lhes o instrumental necessário à condução das políticas monetárias mais restritivas no curto prazo, em épocas de crise e de tormenta, se assim for necessário.



Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, professor de direito do Insper

Um novo "New Deal" mundial



Por Jomo Kwame Sundaram - Valro 28/05

Recentes acontecimentos políticos, como a derrota dos governistas na França e Grécia, indicam que a tolerância do público com políticas econômicas que não reduzem o desemprego implodiu. De fato, tendo em vista a atual situação alarmante na economia e no emprego em muitos países e a falta de perspectivas de recuperação no horizonte, há probabilidades de mais turbulências políticas à frente, a menos que as autoridades mudem de rumo de forma condizente.

A crise econômica eliminou mais de 50 milhões de empregos, na sequência de anos de aumento na desigualdade e de crescimento econômico baixo e pobre em geração de empregos nos países mais ricos. Desde 2007, os índices de emprego subiram em apenas seis entre 36 economias avançadas, enquanto o desemprego aumentou na grande maioria tanto dos países emergentes como dos já consolidados.

No curto prazo, a crise mundial deverá tornar-se pior, já que muitos governos, especialmente nas economias avançadas, priorizam a austeridade fiscal e reformas rigorosas no mercado de trabalho, mesmo que essas medidas corroam a renda, meios de vida e o tecido social.

Paralelamente, apesar da flexibilização monetária quantitativa, muitas empresas veem-se com acesso limitado ao crédito, o que contém investimentos e reduz a criação de empregos. O crédito fácil antes da crise encorajou o excesso de investimentos em setores que se imaginavam lucrativos, como o imobiliário. Não é de surpreender que o excesso de capacidade resultante agora desencoraje os investimentos privados na economia real.

Com o aumento da desigualdade e o desemprego e o encolhimento da renda e dos mercados domésticos, todos esperam recuperar-se exportando - uma solução obviamente impossível. Os países em desenvolvimento, por muito tempo encorajados e até pressionados a exportar e aderir à globalização, foram aconselhados repentinamente a mudar de direção: a produzir para o mercado doméstico e importar mais. A ironia é que esse conselho chega quando boa parte de sua antiga capacidade produtiva desapareceu.

Muitas economias de mercados emergentes, no entanto, depois de várias crises no câmbio e nas contas de capitais em tempos de maior abertura, ainda se sentem inclinadas a acumular reservas internacionais gigantescas como forma de proteção diante da maior volatilidade financeira mundial. Enquanto isso, o "espaço de políticas" nacionais para recuperar as economias encolheu desde a crise.
Investimentos públicos e proteções sociais básicas podem ajudar a mudar isso, criando milhões de empregos. Apesar das fortes evidências em contrário, no entanto, a suposição de que o investimento público tira de cena o capital privado continua a desencorajar esforços de recuperação econômica encabeçados por governos.

Na verdade, historicamente, as economias mais avançadas já viveram com déficits fiscais bem maiores do que os atuais, e não apenas em tempos de guerra. Esses déficits financiaram expansões sólidas, sustentáveis e inclusivas, não apenas para suas próprias economias, mas também para o exterior - como o Plano Marshall nos Estados Unidos, tão importante para a reconstrução e recuperação europeia do pós-guerra.

Agora, contudo, como a transferência avassaladora de recursos financeiros dos governos para salvar determinadas instituições privadas consideradas grandes demais para falir levou a um aumento drástico no endividamento soberano, as autoridades impuseram a austeridade fiscal em deferência às exigências dos mercados de bônus. Enquanto isso, os países da região do euro veem-se restringidos, não apenas por seu fetiche fiscal, mas também por sua falta de flexibilidade no câmbio.

Além disso, a cooperação multilateral em favor da recuperação mundial vem sendo decepcionante desde 2009 - o ano dos encontros do G-20 em Londres e Pittsburgh e do Pacto Mundial pelo Emprego *, que trouxe poucos progressos significativos desde então. Como resultado, os últimos três anos testemunharam poucas ações orientadas ao desenvolvimento e adoção de estratégias que tragam uma recuperação sólida, sustentável e inclusiva. Em vez disso, vimos emergir um protecionismo gradual, e não apenas no front do comércio exterior.

Como, então, o mundo pode escapar desse beco sem saída construído pelas perspectivas de curto prazo dos mercados financeiros e da política eleitoral?

Embora o multilateralismo inclusivo tenha sido abalado por vários desafios, incluindo sua aparente desordem e progresso lento, continua como a melhor opção, por vários motivos. O sistema da Organização das Nações Unidas (ONU) precisa ser mais proeminente, mas interesses poderosos também precisam permitir que desempenhe um papel maior.

Em 2009, admitindo que apenas as forças de mercado não iriam gerar os investimentos necessários para atenuar as mudanças climáticas assim como alimentos acessíveis para todos, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon propôs um "New Deal Verde Mundial", com parcerias público-privadas e entre países, especialmente para gerar energia renovável e aumentar a produção sustentável de alimentos.

Sob a recente liderança francesa, o Fundo Monetário Internacional (FMI), depois de décadas promovendo a globalização e a liberalização econômica - especialmente financeira -, tornou-se mais cuidadoso, se não cético, quanto às suas análises, prescrições e atividades prévias. Da mesma forma, iniciativas recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) - como a Globalização Justa**, o Pacto Mundial pelo Emprego e o Piso de Proteção Social*** - são diretamente relevantes, todas, para lidar com a estagnação atual.

A estrutura única da OIT entre as organizações internacionais, de inclusão de trabalhadores e empregadores como parceiros sociais em sua governança tripartite lhe permite ajudar a liderar os processos, certamente complicados, necessários para assegurar um crescimento e uma recuperação sólidos, sustentáveis e inclusivos. Portanto, talvez mais do que nunca nas últimas décadas, as instituições multilaterais inclusivas agora estão na mesma página. Seus esforços precisam, agora, do apoio que merecem. (Tradução de Sabino Ahumada)

* www.ilo.org/jobspact/lang--en/index.htm

** www.ilo.org/public/english/wcsdg/docs/report.pdf

*** www.un.org/en/ga/second/64/socialprotection.pdf

Jomo Kwame Sundaram é secretário-geral assistente para Desenvolvimento Econômico na Organização das Nações Unidas (ONU) e coordenador de análises do G-24. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Dólar cai após nova intervenção do BC



Por Eduardo Campos e João José Oliveira - Valor 25/05
De São Paulo

O dólar teve novo pregão de baixa, o segundo consecutivo. Não parece grande coisa, mas a moeda americana não cai por dois dias desde o começo de abril.
A instabilidade foi grande, com o dólar comercial subindo a R$ 2,054 (+0,74%), antes de fechar com baixa de 0,49%, a R$ 2,029.

O Banco Central (BC) voltou a ofertar dólares no mercado futuro via swap cambial. Desde que retomou as operações na sexta-feira passada, já foram cinco leilões de swap que somam US$ 4,7 bilhões.
Da mínima do ano, registrada em 28 de fevereiro a R$ 1,699, o dólar acumula valorização de 19,4%. No mês, a alta está em 6,4%. Boa parcela do ganho pode ser atribuída à piora externa. Em maio, o DXY, que mede o dólar ante uma cesta de moedas, tem alta de 4,45%, enquanto o euro cai 5,3%, negociado na linha de US$ 1,25, preço não visto desde julho de 2010.

No entanto, essa degradação de ambiente externo só conta parte da história. Muito da valorização do dólar por aqui é reflexo de fatores domésticos e da especulação, vetor congênito de qualquer mercado.

Para o economista e professor da PUC-Rio, André Cabus Klotzle, a especulação está entre os primeiros fatores a explicar a alta.

Mas mais interessante do que isso, é que os especuladores contam com ajuda do governo.

Ao manter uma defesa consistente e ininterrupta de que a cotação do dólar não traz preocupações inflacionárias e que os benefícios à indústria compensam os efeitos colaterais, o governo facilitou a vida dos especuladores.

"A postura do governo levou diversos agentes a apostar que existe um piso para o dólar, mas não um teto", diz o professor.

Com tal sinalização e um ambiente global avesso ao risco, diz Klotzle, torna-se bastante oportuno testar até onde vai a "parcimônia" do BC com a alta do dólar.

Outro ponto que favorece a compra é o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 1% sobre a ampliação da posição vendida em dólar futuro. Desde 27 de julho do ano passado, o mercado está em permanente desequilíbrio, conforme o vendedor de dólar futuro paga pedágio e o comprador não.

"As operações de hedge se tornam assimétricas. A venda embute custo fiscal e a compra não. Assim, a demanda por divisa se eleva mais rapidamente do que a oferta, pressionando as cotações", diz.

Outro IOF, esse sobre o empréstimo externo inferior a cinco anos, representa uma barreira à renovação das captações (rolagens), diz Klotzle. Dados apresentados pelo BC mostram que a taxa de rolagem dos empréstimos do setor privado em abril foi de 67%, menor percentual desde o começo da crise de 2008.

Sendo o Brasil um país carente de poupança e com barreiras à captação de poupança externa, o professor acredita que o mercado tenta pressionar o governo a rever, mesmo que parcialmente, essas medidas restritivas.

Para Klotzle, mesmo com o BC realizando operações de swap, a tendência do dólar não muda. Todos os fatores seriam favoráveis à alta de preço: cenário externo, discursos do governo, restrições normativas e juros internos em queda livre. "E esse contexto facilita e torna ainda mais eficaz a especulação", diz o professor.

No mercado de juros, as taxas futuras voltaram a subir seguindo os títulos americanos de dez anos que retomaram a linha de 1,77%, depois de recuar para baixo de 1,72% na quarta-feira.

Um operador disse que o leilão de 5,5 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTNs) também influenciou os preços. O mercado pediu mais prêmio para os papéis de longo prazo - reflexo de incertezas sobre a atuação do BC, disse.

Alexandre Schwartsman, sócio da Schwartsman & Associados e ex-diretor do BC, apontou em estudo que até o terceiro trimestre do ano passado, o BC conseguiu reduzir a taxa real de juros no país até a casa dos 7% ao ano e manter, simultaneamente, as expectativas de inflação rondando o centro da meta de inflação.

Mas essa linha mudou. A taxa real cai agora independentemente das expectativas de inflação. "O mercado entendeu totalmente que o BC não está mais comprometido em estabilizar a inflação", diz Schwartsman.

Para a Nomura, a rédea larga do BC abriu espaço para uma especulação mais franca no mercado de juros. E os bancos que conseguiram arbitrar primeiro no ciclo recente de afrouxamento monetário optaram agora por embolsar os ganhos obtidos. Para o banco, esse motivo técnico é mais plausível do que uma alta dos DIs motivada pela reavaliação de uma queda da Selic que pararia em 8,5%.