quinta-feira, 24 de maio de 2012
Com forte saída de dólar, BC muda postura
Por Eduardo Campos e João José Oliveira - Valor 24/05
De São Paulo
A percepção de saída de recursos do país ganha números. A avaliação é de que os estrangeiros que estão saindo da Bovespa estão remetendo dinheiro para fora do país. O saldo estrangeiro na bolsa estava negativo em US$ 3,085 bilhões em maio até o dia 21. No mesmo período, o Ibovespa acumulava queda de 8,5%.
Os dados sobre o fluxo cambial divulgados ontem também mostram remessas. Agora em maio até o dia 18, a conta financeira mostra saída de US$ 5,196 bilhões. Tal resultado é o pior desde dezembro de 2008 (ver texto abaixo).
Ontem, pela primeira vez, o Banco Central explicitou preocupação com a disparada do dólar. O recado chegou pelo diretor de política econômica do Banco Central, Carlos Hamilton, o que, juntamente com a atuação do BC no mercado, contribuiu para que o dólar invertesse a tendência e fechasse em forte queda, depois de ter testado o limite de R$ 2,10 mais cedo.
Segundo o diretor executivo da NGO Corretora, Sidnei Nehme, a saída financeira de dólares é um sinal de alerta. Como a conta comercial está firme e positiva, com entrada de US$ 3,686 bilhões, o resultado líquido do fluxo cambial no mês até o dia 18 é negativo de "apenas" US$ 1,511 bilhão.
Segundo Nehme, esse aumento das exportações pode ser visto como uma "antecipação no tempo". Em função da taxa favorável há um maior número de fechamento de contratos de câmbio e mesmo ingressos relacionados ao comércio externo. No entanto, esse ingresso pode não se mostrar muito sustentável. Com isso, essa conta negativa do fluxo ficaria ainda mais negativa.
"Esses fluxos comerciais mascaram a saída financeira. Não se pode falar em fuga de dólares do país, mas esse número precisa ser acompanhado", diz Nehme.
Segundo o especialista, essa saída financeira pode ser composta por retirada de investimentos e pela não rolagem de captações externas, conforme as condições deixaram de ser favoráveis.
"Meu receio é que, se o fluxo continuar negativo, vai acabar consumido a posição comprada dos bancos. E esse problema que está localizado no mercado futuro de dólar chega ao mercado à vista. Essa saída de US$ 5 bilhões é um aviso", diz Nehme.
Com o fluxo negativo de US$ 1,511 bilhão em maio até o dia 18 é possível estimar que a posição comprada dos bancos no mercado à vista tenha caído de US$ 5,99 bilhões no fim de abril, para cerca de US$ 4,5 bilhões. Ou seja, ainda há dólares disponíveis no mercado à vista.
Ampliando a análise, Nehme aponta que a avaliação sobre o Brasil mudou, o julgamento é mais crítico com relação ao país.
Na visão do especialista, mesmo que a crise abra boas oportunidades de investimento, esses recursos esbarram na avaliação de que o país é "caro" em diversos sentidos, como tributação e falta de infraestrutura.
As posições em derivativos de bancos e fundos locais têm estoques entre os maiores já registrados. A posição vendida (pró-real) dos bancos em dólar futuro está em US$ 8,48 bilhões, a maior desde setembro do ano passado. Colocando na conta a posição em cupom cambial (DDI - juro em dólar no mercado local), o estoque vendido é de US$ 18,570 bilhões.
Na ponta oposta estão os fundos, com uma posição comprada (pró-dólar) de US$ 15,417 bilhões, são US$ 7,15 bilhões em dólar futuro e US$ 8,267 bilhões comprados em cupom cambial.
Os estrangeiros estão "pequenos", com posição líquida comprada de US$ 2,367 bilhões.
No mercado de câmbio, ontem, o leilão de swap cambial (que equivale à venda de dólares no mercado futuro) e o aceno de que o excesso de volatilidade é preocupante, dado por Carlos Hamilton, abriram espaço para a venda de dólares depois de uma arrancada de alta que levou as cotações a testar a linha de R$ 2,10.
O dólar comercial terminou o dia com baixa de 1,97%, segunda maior queda percentual do ano, a R$ 2,039 na venda. Antes disso, a moeda subiu a R$ 2,106 (+1,25%).
E uma baixa já está contrata para a abertura do pregão desta quinta-feira, já que o preço à vista descolou do futuro. Na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), onde os negócios encerram às 18 horas, o dólar para junho caiu 2,91%, para R$ 2,0345. Na máxima testou R$ 2,111 (+0,74%).
Pelas análises gráficas, o dólar cumpriu objetivo de alta de R$ 2,10. Agora, entra em regime de correção com primeira parada a R$ 2,0, seguida por R$ 1,97.
Os swaps e o discurso de Hamilton, primeira sinalização de atenção do BC sobre a recente disparada do dólar, tiraram os compradores da zona de conforto.
A compra de dólar ficou mais arriscada em função desse aceno de maior disposição em atuar.
No entanto, diz um operador, além de falar, o BC tem de seguir atuando. Caso contrário, o mercado vai para cima dele novamente. "O discurso é bom, mas o mercado, agora, vai esperar a atuação. De fato, a melhor comunicação do BC é pela mesa de operação dele. O mercado não entende outra coisa que não seja prejuízo", diz. Para esse especialista, boa parcela da alta recente pode ser credita ao mercado "testando" a paciência do BC e do governo com a alta do dólar.
No mercado de juros, as taxas caíram depois de três dias de firme ajuste de alta. O que determinou o movimento de venda foi a percepção de que a crise da zona do euro ganha a cada dia contornos mais preocupantes - o risco da saída da Grécia do bloco cresce, detonando uma nova onda de "flight to quality". Isso se reflete na queda dos juros americanos e estimula a venda por aqui também.
Além da euforia (I)
Por Fabio Giambiagi
Acabo de lançar, com Armando Castelar Pinheiro, o livro "Além da euforia" (Editora Campus). O livro faz uma análise da economia brasileira nos últimos anos, destacando a natureza excepcional de um conjunto de circunstâncias positivas que beneficiaram o país, mas apontando para uma série de deficiências do nosso modelo de desenvolvimento. Começo hoje uma série de cinco artigos tratando das principais ideias do livro. Ele trata dos elementos que tendem a prejudicar a perspectiva de um maior dinamismo futuro da nossa economia, elementos esses que, na euforia consumista dos últimos tempos, os brasileiros tendemos a ignorar.
Aqueles que acompanham as colunas que escrevi no Valor nos últimos anos talvez se sintam confusos pelo que pode parecer, numa primeira impressão, como manifestações de expressões contraditórias por parte do mesmo autor. De fato, nos últimos 10 anos ajudei a organizar vários livros e, em mais de um deles havia uma imagem positiva do país. Como é possível - pode indagar o leitor - transmitir uma visão positiva e crítica ao mesmo tempo?
Na verdade, ambas atitudes se justificam e a coexistência entre essas visões se explica com base na velha imagem do copo "cheio pela metade e vazio pela metade". Os avanços do Brasil ao longo dos últimos 25 anos a 30 anos foram muito grandes - e, em alguns casos, acentuados depois de 2003.
De forma genérica, pode-se dizer que o país se assumiu como uma democracia complexa; modernizou o parque produtivo em relação ao seu estado nos anos 80; estabilizou a economia; mudou o regime fiscal em relação à desordem que imperou durante décadas; melhorou a distribuição de renda; diminuiu o número de pessoas miseráveis; reduziu a taxa de desemprego; acumulou reservas internacionais; etc. Os méritos disso foram compartilhados por vários governos: originalmente, Sarney comandou a transição política nos anos 80; a gestão Collor deu uma "virada de leme" na orientação da economia no começo dos anos 90; com Itamar Franco tivemos o Plano Real; FHC liderou reformas fundamentais que mudaram a economia do país depois de 1994; e no governo Lula todos os indicadores econômicos e sociais melhoraram de forma inequívoca na última década.
Não obstante isso, persiste entre um grupo de analistas - entre os quais, modestamente, me incluo - a percepção de que o Brasil não aproveitou plenamente uma "combinação zodiacal" inédita para dar passos mais avançados rumo ao desenvolvimento. Em particular, essa visão, que o livro escrito com Castelar tenta condensar, sustenta que parte dos êxitos na primeira década do atual século - e, em particular, nos últimos anos - se apoiou no comportamento atípico de algumas variáveis-chave da economia internacional - notadamente os preços das "commodities" e as taxas de juros - e que se estas sofrerem uma reversão no futuro, o país não terá se preparado devidamente para encarar um cenário hostil.
A abordagem crítica se baseia em quatro pontos:
1) a taxa de investimento da economia brasileira continua sendo baixa, como expressão de uma poupança doméstica inferior à que prevalecia em 1994 e que, depois de algumas oscilações e de aumentar entre 1999 e 2004, voltou a cair entre 2004 e 2011;
2) os níveis de educação da população brasileira, em média e mesmo entre os mais jovens, são constrangedoramente baixos para poder aspirar a taxas maiores de crescimento, em um mundo cada vez mais competitivo;
3) a situação do balanço de pagamentos - base da reviravolta favorável da situação do setor externo do país na primeira metade da primeira década do século - dá sinais de reversão, apenas mitigados até 2011 por termos de troca exuberantes; e
4) a demografia, que no Brasil até aqui tem sido uma aliada do crescimento, passará gradualmente a se tornar um entrave para uma maior expansão, devido à combinação de menor crescimento da População Economicamente Ativa e maior incremento da população idosa - na bonança, estamos sacando contra o futuro.
O resultado disso é uma economia que tem crescido se aproveitando dos bons ventos da economia internacional e da existência, no começo desse ciclo, em 2003, de um "exército de trabalhadores de reserva" então desempregados, estoque esse que gradualmente foi sendo esgotado pelo próprio processo de expansão.
A chave para entender as limitações desse processo está na frase de um analista estrangeiro (Gray Newman) acerca da América Latina, numa das epígrafes do livro: "O risco é esquecer o desafio colocado para os 'policy makers': o de aproveitar os atuais fluxos de capitais para construir melhores condições para o crescimento sustentável. Poucas coisas foram mais prejudiciais para a região que o excesso de confiança em fluxos transitórios".
A frase é de 2005 e 7 anos depois os fluxos ainda se mantêm, mas o alerta é mais válido do que nunca. Convidamos o leitor interessado a compartilhar nossa reflexão e nossas dúvidas. Aprofundarei esses temas nos meus próximos quatro artigos.
Fabio Giambiagi, economista, co-organizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus). E-mail: fgiambia@terra.com.br.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Dólar chega a R$ 2,10, mas recua após atuação do Banco Central
FSP 23/05
A sessão no mercado de câmbio é marcada pela volatilidade nesta quarta-feira. Depois de engatar valorização de 1%, operando na faixa de R$ 2,10, o dólar mudou de rumo diante do anúncio da oferta de swap cambial tradicional, operação que equivale à venda de dólar no mercado futuro, realizada pelo Banco Central.
Por volta de 13h41, a moeda recuava 1,05% e era cotada a R$ 2,058, após máxima a R$ 2,106 (+1,25%). O giro estimado para o mercado interbancário estava ao redor de US$ 500 milhões, metade do considerado normal.
A operação movimentou US$ 1,309 bilhão, o que representa 33% da oferta total de 80.000 contratos, ou US$ 4 bilhões distribuídos entre os vencimentos de 2 de julho e 1 de agosto.
O swap com vencimento em 2 de julho movimentou 18.600 contratos, ou US$ 922,6 milhões. E o contrato para 1 de agosto girou 7.800 contratos, ou US$ 386,4 milhões.
No mesmo horário, a Bovespa recuava 3,34%, aos 53.198 pontos.
VOLATILIDADE
O diretor de política econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, afirmou nesta quarta-feira que o excesso de volatilidade no câmbio é preocupante, mas que a instituição não tem uma meta para a taxa de câmbio.
"O câmbio repercute [neste momento] essencialmente a aversão ao risco no mercado internacional, mas isso faz parte. Tem certos momentos em que o câmbio responde mais a fundamentos domésticos que aversão ao risco, em outros momentos essa relação diminui", disse após apresentação do Boletim Regional do BC, em Curitiba.
"O importante é que o mercado de câmbio esteja funcionando adequadamente de modo a refletir as situações. O que nos preocupa é o excesso de volatilidade. Não temos, nunca tivemos, [foco] no nível de taxa de câmbio."
GRÉCIA
Os mercados caíram hoje com rumores de que haveria planos preparatórios para a saída da Grécia da zona do euro.
Depois da tentativa de recuperação motivada pela expectativa de que alguma medida para conter a crise da zona do euro seria discutida em reunião da União Europeia, os mercados se voltaram para o fato de que não há nada de concreto para ser divulgado agora.
Esse ambiente tenso fez investidores fugirem mais uma vez do risco em direção ao dólar e aos títulos do tesouro dos Estados Unidos e da Alemanha. O euro chegou a cair ao nível mais baixo desde agosto de 2010, a US$ 1,2615.
As bolsas em Wall Street intensificam as perdas, assim como a Bovespa.
Às 13h22 (horário de Brasília), o indicador Dow Jones caía 1,43%, a 12.323 pontos, enquanto o S&P 500 tinha desvalorização de 1,45%, a 1.297 pontos. O índice de tecnologia Nasdaq perdia, por sua vez, 1,42%, a 2.798 pontos.
Nem mesmo a divulgação de números mais positivos do setor imobiliário dos Estados Unidos impedia a desvalorização das Bolsas nesta sessão. As vendas de imóveis residenciais novos nos EUA subiram 3,3% em abril em relação a março, para uma taxa anualizada de 343 mil unidades, de acordo com dados ajustados sazonalmente. Analistas previam alta de 2,1%. Na comparação com abril do ano passado, houve aumento de 9,9%.
A sessão no mercado de câmbio é marcada pela volatilidade nesta quarta-feira. Depois de engatar valorização de 1%, operando na faixa de R$ 2,10, o dólar mudou de rumo diante do anúncio da oferta de swap cambial tradicional, operação que equivale à venda de dólar no mercado futuro, realizada pelo Banco Central.
Por volta de 13h41, a moeda recuava 1,05% e era cotada a R$ 2,058, após máxima a R$ 2,106 (+1,25%). O giro estimado para o mercado interbancário estava ao redor de US$ 500 milhões, metade do considerado normal.
A operação movimentou US$ 1,309 bilhão, o que representa 33% da oferta total de 80.000 contratos, ou US$ 4 bilhões distribuídos entre os vencimentos de 2 de julho e 1 de agosto.
O swap com vencimento em 2 de julho movimentou 18.600 contratos, ou US$ 922,6 milhões. E o contrato para 1 de agosto girou 7.800 contratos, ou US$ 386,4 milhões.
No mesmo horário, a Bovespa recuava 3,34%, aos 53.198 pontos.
VOLATILIDADE
O diretor de política econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, afirmou nesta quarta-feira que o excesso de volatilidade no câmbio é preocupante, mas que a instituição não tem uma meta para a taxa de câmbio.
"O câmbio repercute [neste momento] essencialmente a aversão ao risco no mercado internacional, mas isso faz parte. Tem certos momentos em que o câmbio responde mais a fundamentos domésticos que aversão ao risco, em outros momentos essa relação diminui", disse após apresentação do Boletim Regional do BC, em Curitiba.
"O importante é que o mercado de câmbio esteja funcionando adequadamente de modo a refletir as situações. O que nos preocupa é o excesso de volatilidade. Não temos, nunca tivemos, [foco] no nível de taxa de câmbio."
GRÉCIA
Os mercados caíram hoje com rumores de que haveria planos preparatórios para a saída da Grécia da zona do euro.
Depois da tentativa de recuperação motivada pela expectativa de que alguma medida para conter a crise da zona do euro seria discutida em reunião da União Europeia, os mercados se voltaram para o fato de que não há nada de concreto para ser divulgado agora.
Esse ambiente tenso fez investidores fugirem mais uma vez do risco em direção ao dólar e aos títulos do tesouro dos Estados Unidos e da Alemanha. O euro chegou a cair ao nível mais baixo desde agosto de 2010, a US$ 1,2615.
As bolsas em Wall Street intensificam as perdas, assim como a Bovespa.
Às 13h22 (horário de Brasília), o indicador Dow Jones caía 1,43%, a 12.323 pontos, enquanto o S&P 500 tinha desvalorização de 1,45%, a 1.297 pontos. O índice de tecnologia Nasdaq perdia, por sua vez, 1,42%, a 2.798 pontos.
Nem mesmo a divulgação de números mais positivos do setor imobiliário dos Estados Unidos impedia a desvalorização das Bolsas nesta sessão. As vendas de imóveis residenciais novos nos EUA subiram 3,3% em abril em relação a março, para uma taxa anualizada de 343 mil unidades, de acordo com dados ajustados sazonalmente. Analistas previam alta de 2,1%. Na comparação com abril do ano passado, houve aumento de 9,9%.
A frágil Europa precisa mudar já
Por Martin Wolf - Valor 23/05
Simpatizo com os alemães. Não por concordar com sua visão predominante de como a crise aconteceu e o que se deve fazer a respeito. Simpatizo porque os que fazem parte da elite alemã foram os que compreenderam o que implicava criar o euro. Perceberam que uma união monetária não poderia funcionar sem união política. A elite francesa, no entanto, queria em vez disso acabar com a humilhante dependência que sentia em relação à política monetária do Bundesbank, o banco central alemão. Agora, 20 anos depois, os parceiros da Alemanha, incluindo a França, aprenderam uma dolorosa lição. Longe de estarem liberados do controle alemão, ficaram sujeitos a ele muito mais firmemente. Em grandes crises, os credores mandam.
Vejamos como a Europa estaria muito melhor se o mecanismo cambial, em vez disso, tivesse continuado com faixas amplas. As taxas de juros nos países atingidos provavelmente estariam mais altas, enquanto os déficits em conta corrente e as bolhas no preço dos ativos, menores. Quando houve a reviravolta nos fluxos financeiros, as crises cambiais de fato teriam acontecido. O dracma grego, a libra irlandesa, o escudo português, a peseta espanhola, a lira italiana e, talvez, o franco francês teriam se desvalorizado em relação ao marco alemão. O nível dos preços nesses países teria apresentado um salto temporário. A culpa por qualquer consequência, no entanto, teria recaído de forma predominante em casa. Eu receava que, em uma crise, o euro enfraqueceria a sensação de confiança mútua, em vez de reforçá-la. Isso já ficou demonstrado, mesmo com a região do euro mal tendo começado o ajuste.
Por que, então, os que mandam em tempos de crise são os credores? A resposta é simples: eles podem captar a um custo barato. Como aqueles que concedem crédito se afastaram dos países com capacidade creditícia enfraquecida, a taxa de juros dos "bunds", títulos do governo alemão, caiu para 1,3%, abaixo dos 5,8% observados na Itália e 6,2% na Espanha. Com o Produto Interno Bruto (PIB) nominal estagnado, os países com altas taxas de juros correm o risco de cair na armadilha do endividamento. Precisam de ajuda para controlar os custos de captação dos empréstimos que apenas os credores podem lhes fornecer.
Como Harold James, da Princeton University, Ronald McKinnon, de Stanford, e muitos outros ressaltaram, Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos, deparou-se com um desafio não muito diferente diante as dívidas tomadas pelos Estados durante a guerra de independência do país. Hamilton usou os poderes da (segunda e mais centralizadora) constituição para assumir essas dívidas, lançando novas dívidas federais em seu lugar. No longo prazo, surgiram o sistema federal dos EUA, com limites ao endividamento estadual; um banco central (pela terceira vez); e um orçamento federal para estabilizar a economia.
Uma vez que o desmantelamento da região do euro seria muito custoso, como argumentei na semana passada, será que uma união como essa poderia lidar com as atuais dificuldades? A resposta é sim, na teoria. A região do euro já tem um banco central. O querido pacto fiscal da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, poderia ser o equivalente à regra de equilíbrio nos orçamentos dos Estados dos EUA. Então, o que falta para um final do tipo "felizes para sempre"? A resposta parece ser um acordo fiscal sólido, para amortecer o impacto das crises, ajudar os países-membros a administrar suas dívidas e cortar a interdependência entre os bancos e títulos de governos fragilizados.
Está fora de questão, contudo, a assunção das dívidas por um Tesouro central ou a substituição dos mecanismos fiscais nacionais por federais. O orçamento da União Europeia (UE) é de 1% do PIB. Não há disposição para torná-lo maior.
Em vez dessa ação central, seria preciso haver uma maior solidariedade entre os países-membros. Acho difícil acreditar, entretanto, que tais medidas sobreviveriam. O Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM, na sigla em inglês), elaborado nesta crise para ajudar os países em dificuldades, é pequeno demais, de apenas 5% do PIB da região do euro. A resposta teria de ser algum tipo de bônus da região do euro, com respaldo individual e conjunto. Encontraria apoio bastante limitado. Os membros com boa capacidade creditícia tendem a antipatizar com o apoio a "irresponsáveis". Os eleitores não gostam de compartilhar com os não eleitores. Um ponto crucial é que a solução de Hamilton foi precedida pela constituição federal dos EUA, embora o grande endividamento tenha sido um motivo para sua ratificação.
Se acabar com o euro está fora de questão, não há financiamento genuinamente federal disponível e a solidariedade mútua vai continuar limitada, então, o que resta? A resposta é um ajuste mais rápido, para devolver a saúde às economias. A região do euro não pode tornar as economias enfraquecidas de hoje em regiões com depressões, permanentemente sustentadas por transferências, uma política que assolou o sul da Itália.
Como, então, se obtém um ajuste mais rápido? A resposta é por meio de uma economia mais aquecida na região do euro e de salários e inflação maiores nas economias centrais do que nas da periferia debilitada. Além disso, a estratégia de crescimento necessária não é, definitivamente, apenas uma questão de políticas voltadas à oferta. De acordo com previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB nominal da região do euro terá se expandido meros 20% entre 2008 e 2017, ano em que será 16% menor do que se tivesse continuado a crescer no ritmo de 4% observado entre 1999 e 2008 (consistente com crescimento real de 2% e inflação de 2%). Para as economias em dificuldades, um crescimento tão magro é um desastre: significa que a região do euro como um todo tende a reforçar, e não anular, suas contrações de crédito e rigor fiscal. Elas podem atribuir a culpa à adoção generalizada de rigor fiscal e às políticas do Banco Central Europeu (BCE), que deixou a base monetária estagnar.
O que isso tem a ver com o risco de saída da Grécia e, caso isso aconteça, com a necessidade de administrar as consequências? Tudo e nada. Nada, porque ainda será necessário administrar o pânico, quase certamente por meio de apoio ilimitado do BCE, como o ministro das Finanças da Polônia, Jacek Rostowski, argumentou no "Financial Times". Tudo, porque em um cenário de grandes diferenças de competitividade, baixa solidariedade fiscal e bancos enfraquecidos, é vital haver uma perspectiva plausível de ajuste voltado ao crescimento.
Se os países enfrentarem um ano apático de deflação e depressão após o outro, o euro corre o risco de tornar-se um símbolo odiado de empobrecimento. Os EUA, enquanto união federal forte, conseguiriam enfrentar tal situação de decepções prolongadas. A região do euro, muito mais enfraquecida, não. (Tradução de Sabino Ahumada)
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
terça-feira, 22 de maio de 2012
O necessário equilíbrio
Por Antonio Delfim Netto - Valor 22/05
Neste momento de incerteza em que parece que o país não tem rumo, que parece viver de pequenos expedientes e no qual se exige um "coerente programa nacional em que o Brasil explicite com clareza o que quer de si mesmo", é bom lembrar que ele existe. A Constituição tem, ínsita, uma linha de desenvolvimento político, social e econômico que, com as dificuldades naturais, vem sendo seguida. Afinal, que tipo de sociedade os brasileiros escolheram para viver através dos seus constituintes? Não é coisa fácil de definir porque a Constituição é extremamente analítica, mas podemos definir o seu "espírito original" em três grandes vetores:
1) uma sociedade republicana em que todo cidadão, independente de sua origem, cor, credo, gênero, educação ou patrimônio, obedecerá à mesma lei, à qual se submeterá, inclusive, o Estado; 2) uma sociedade democrática, controlada pelo sufrágio universal com voto secreto, amplo e irrestrito no qual, em princípio, quem vota pode também ser votado; 3) um Estado forte, mas constitucionalmente controlado, que garanta o funcionamento de uma sociedade aberta, onde os indivíduos têm plena liberdade para iniciativa lícita e podem apropriar-se dos seus benefícios; com poder para regular a organização econômica que sustenta o uso dos mercados na alocação de bens e serviços; e com poder para ir ampliando a construção de uma sociedade onde cada vez mais adquire significado concreto a igualdade de oportunidades. É preciso dizer que diante desse programa civilizatório não há a menor dicotomia entre Estado e mercado.
Para entender porque os economistas podem ser úteis, não no estabelecimento desse objetivo, mas na facilitação da sua realização é preciso reconhecer que a condição preliminar para atingi-los é o aumento da produtividade do trabalho, que encolhe o tempo necessário do homem para construir sua sobrevivência física e expande o tempo disponível para que ele conquiste a sua humanidade. O desenvolvimento é apenas o instrumento que, eventualmente, tornará possível ao homem realizar-se plenamente.
O problema é que, por maior que sejam nossos desejos e por melhor que sejam as "instruções" da Constituição para a construção do nosso processo civilizatório, há realidades físicas que obstruem a sua marcha e decisões políticas que podem acelerá-la ou retardá-la. Para entender isso observe-se o gráfico abaixo, já publicado nesta coluna uma meia dúzia de vezes, ao longo dos últimos 12 anos. Numa simplificação radical ele revela a essência do processo de desenvolvimento numa economia fechada. Da população total (N) extraímos a população economicamente ativa (com seu nível de educação e saúde) e, dela, a Força de Trabalho (L), os que podem e querem trabalhar. Esses, usando o Estoque de Capital (K), que é trabalho do passado congelado na forma de infraestrutura, máquinas etc. produzem o PIB. É fato empírico bem comprovado que a "produtividade" da combinação do capital (K) com o trabalho (L) depende, dentro de certos limites da intensidade da relação entre eles (K/L), ou seja, da quantidade de capital (K) de que dispõe cada unidade da mão de obra (L).
Trata-se, obviamente, de uma metáfora não mensurável que permite entender que o tamanho do PIB depende do estoque de capital (K), da disponibilidade do trabalho (L) e da sua "produtividade" (K/L). A velocidade do processo é determinada pelo ritmo de crescimento do capital com relação ao do trabalho. Há, portanto, uma clara relação entre o ritmo possível do consumo e a velocidade desejada de crescimento.
Até aqui o processo é puramente físico e a economia tem muita coisa útil para dizer e ensinar sobre ele. Uma vez produzido, entretanto, a distribuição do PIB entre o consumo que volta para a população (N) e o investimento que retorna ao estoque de capital (K) para repor o capital consumido na produção (depreciação) e aumentá-lo, é um processo político. Nas democracias ele é resolvido nas urnas. Nos regimes autoritários pelo arbítrio, fora do alcance da economia e dos economistas. O que esses podem fazer é apontar os inevitáveis resultados práticos das escolhas políticas e o nível de sua coerência no longo prazo com os objetivos estabelecidos pela sociedade.
Não é preciso ser um físico quântico para compreender que sem um equilíbrio entre o consumo e o investimento, o sistema não tem energia para se manter funcionando adequadamente. Quando há ênfase exagerada no consumo (como no Brasil) ou no investimento (como na China) o sistema perde funcionalidade no longo prazo. Chega a hora de mudar. O Brasil precisa dar ênfase ao investimento e às exportações sem recuar na inserção social. A China precisa reduzir os investimentos e a exportação para dar ênfase ao consumo.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
A classe média brasileira é mundial
Por Marcelo Côrtes Neri - Valor 22/05
A mediana da renda mundial pode ser pensada como uma variante econômica da linha do Equador. Ela é a linha que por definição divide a população mundial em duas partes iguais com rendas diferentes, enquanto a do Equador divide o mundo em duas áreas geográficas de tamanhos iguais. O gráfico compara a renda mundial com a distribuição de renda dentro de um grupo de países selecionados. Ele foi gerado a partir dos dados do trabalho seminal de Branko Milovic do Banco Mundial.
Os mais pobres dos pobres americanos têm 60% da população mundial mais pobre que eles. Ou seja, nenhum percentil da distribuição americana sequer toca a mediana mundial. No extremo oposto, 95% dos indianos se situam abaixo da mediana mundial.
As linhas permitem comparar pessoas na mesma posição relativa em seus respectivos países. Enxergamos com clareza que os EUA são mais ricos que a Rússia que é mais rica que a China que por sua vez supera a Índia.
Mas onde está o Brasil? Os brasileiros estão em todas as partes. Nossos mais pobres dos pobres são tão pobres quanto os intocáveis indianos, e os nossos mais ricos não ficam muito atrás dos americanos abastados.
A distribuição de renda brasileira é próxima de uma linha diagonal imaginária com inclinação (tangente) unitária, ou seja caminha quase de mãos dadas com a distribuição mundial de renda. O Brasil é maquete do mundo. Já havíamos mostrado aqui que a desigualdade brasileira medida pelo índice de Gini, embora seja a 12ª mais alta do mundo, está muito próxima do Gini entre países ponderados pela população.
A renda per capita média brasileira também é similar à mundial, ambas ajustadas por diferenças de custo de vida. Isso apesar de quase 80% da população mundial viver em países mais pobres do que o Brasil. O Brasil não é um país pobre mas tem muitos pobres em função da alta desigualdade. A linha oficial de pobreza extrema é de US$ 1,25 dia, com 8,5% da população abaixo dela. Já a renda média americana, mesmo após a crise de 2008, era de US$ 100 por dia por americano. Qualquer povo fora da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) será considerado pobre usando a métrica do imaginário da classe média "Made in USA": dois carros, dois cachorros e dois filhos.
Por que importar para o Brasil definições prontas de classe média de países ricos do hemisfério norte? Devemos usar a nossa própria realidade para medi-la. Há várias alternativas com a vantagem de, ao mergulharmos no Brasil, encontrarmos o mundo. Nosso mais recente estudo revela que o acesso médio à internet em casa do brasileiro é idêntico ao observado na aldeia global (www.fgv.br/cps/telefonica).
Uma possibilidade seria dividir em três partes arbitrárias. Na nossa metáfora geográfica, a classe média poderia estar circunscrita entre dois trópicos. O método usado pela FGV divide a sociedade em três grupos, escolhendo linhas de corte de forma que os três grupos fossem os mais homogêneos dentro de si e os mais diferentes dos demais grupos, como na medida de polarização EGR. Depois mantemos constante o valor das linhas para obter as variações absolutas das classes (vide www.fgv.br/cps/ ncm2014). Por exemplo, os 40 milhões que entraram na classe média entre 2003 e 2011.
Nossa estratégia consegue explicar 33% mais da desigualdade brasileira do que a que usa três partes com populações iniciais iguais. O resultado foi que a nossa classe média brasileira vivia aproximadamente entre mediana e a linha que divide os 10% com mais renda, tudo dentro do hemisfério rico global.
Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas e professor da EPGE/FGV. Autor de a Nova Classe Média (Editora Saraiva), Microcrédito: o Mistério Nordestino e o Grameen Brasileiro (FGV) e Cobertura Previdenciária: Diagnósticos e Propostas (MPS).
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Estranheza no BC
BC muda postura e oferta dólares via swap cambial
O pregão de sexta-feira marcou uma mudança na postura do Banco Central (BC) no mercado de câmbio. A autoridade monetária ofertou dólares, apenas 15 dias depois de fazer compra de moeda americana.
Por mais técnica que tenha sido a postura do BC, pois o dólar subia mais de 2,5% - estava descolado do sinal externo, e o cupom cambial (juro em dólar no mercado local) disparava -, a sinalização transmitida é de que R$ 2,0 seria um "teto" para o dólar.
Mesmo com o BC, o dólar subiu 0,65% na sexta, para R$ 2,019. Na semana, teve alta de 3,22%.
A ação também causa certa estranheza, pois em abril o BC tirou de circulação US$ 7,223 bilhões via compras no mercado à vista, contra um fluxo positivo de US$ 6,588 bilhões. Sendo que boa parte das compras em abril aconteceu quando o dólar já tinha adquirido viés de alta em função da piora de humor externo.
Fica aberto o espaço, também, para críticas à postura do governo brasileiro. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, é o criador do termo "guerra cambial" e a presidente Dilma Rousseff do "tsunami monetário".
Como dizer que o Brasil luta contra essas mazelas impostas pelos bancos centrais desenvolvidos ofertando dólares? Até então, a "guerra cambial" e o "tsunami monetário" eram as justificativas para as medidas de restrição ao capital externo impostas pelo governo.
De fato, em entrevistas recentes, Mantega disse que dólar a R$ 2,0 não preocupava o governo, muito menos a presidente Dilma. O dólar alto é bom, pois dá competitividade à indústria, dizia o ministro. Parece que faltou combinar com os russos.
Na sexta-feira, o BC veio a mercado e vendeu dólares no mercado futuro via swap cambial, algo que não acontecia desde outubro do ano passado. Foram 13 mil contratos de swap ou US$ 654,3 milhões.
Uma fonte da área econômica reforça que a atuação do BC visa garantir o bom funcionamento do mercado. O BC não tem meta para taxa de câmbio e a essa venda de swap foi uma mera antecipação da rolagem de contratos que venceriam em 1º de junho.
Na avaliação do diretor da Pioneer Corretora, João Medeiros, foi exatamente isso que o BC fez. Ele deu saída aos investidores que estavam de posse de swaps reversos que venceriam na virada do mês.
Fica a expectativa, agora, se o BC fará ofertas líquidas de swap ou se vai antecipar mais vencimentos. Em 1º de julho, vencem outros US$ 2,5 bilhões em swaps reversos (instrumento de compra de dólar no mercado futuro).
Ainda de acordo com Medeiros, o BC não estaria preocupado com o preço, mas sim com a velocidade de valorização do dólar.
Para o economista-chefe da CM Capital Markets, Darwin Dib, a atuação do BC mostra que não quer dólar a R$ 2,0. As razões para isso são bem claras. Primeiro, é o impacto do dólar na inflação. Segundo, é que o câmbio depreciado afeta negativamente a absorção doméstica, ou seja, afeta o crescimento da economia.
Ainda de acordo com Dib, com essa atuação do BC, o mercado ganha um nova "banda" de oscilação, com piso em R$ 1,90 e teto em R$ 2,0. Claro que os pisos e tetos oscilam conforme o mercado.
O economista aponta, ainda, que o BC nunca teve tantos instrumentos à disposição para dar fim a qualquer disparada no preço do dólar ("overshooting").
Tem reservas internacionais, o swap e o leilão de linha. Fora isso, existem as medidas administrativas que podem ser retiradas com uma canetada.
São elas: o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% para renda fixa; o IOF de 6% para captações externas inferiores a 720 dias; a limitação à posição vendida dos bancos no mercado à vista de dólar; e o IOF de 1% sobre ampliação de posição vendida no mercado de derivativos - uma das mais potentes restrições, segundo Dib.
Nos juros, a cena externa ruim se aliou ao baixo crescimento doméstico. Alta de 3% do PIB vai exigir muita transpiração e, como o governo está comprometido com o crescimento, a resposta na BM&F é vender ainda mais contratos de juro futuro. A ideia de "parcimônia" perde força e crescem as apostas de corte de 0,75 ponto percentual na Selic no encontro do dia 30 do Copom.
O momento G-Zero dos EUA
Por Ian Bremmer - Valor 21/05
Acrise financeira de 2008 marcou o fim da ordem mundial como a conhecíamos. É impossível ignorar o fato de que, pela primeira vez em 70 anos, os Estados Unidos não conseguem guiar a agenda internacional nem exercer liderança global em todos os problemas mais prementes da atualidade.
De fato, os EUA restringiram sua presença no exterior, recusando-se a contribuir no resgate financeiro da região do euro, a intervir na Síria ou a usar a força para conter a investida nuclear do Irã (apesar do pesado apoio israelense). O presidente Barack Obama encerrou oficialmente a Guerra do Iraque e vem retirando tropas americanas do Afeganistão em ritmo limitado apenas pela necessidade de manter o prestígio. Os EUA estão passando o bastão da liderança - mesmo sem haver nenhum outro país ou grupo de países disposto ou capacitado a agarrá-lo.
Em resumo, a política externa dos EUA pode até estar tão ativa como sempre, mas vem sendo enxugada e se tornando mais precisa em suas prioridades. Como resultado, muitos desafios mundiais - mudanças climáticas, comércio exterior, escassez de recursos, segurança internacional, guerra cibernética e proliferação nuclear, para citar alguns - devem ficar ainda maiores.
Bem-vindo ao mundo G-Zero, um ambiente mais incerto e turbulento, no qual a coordenação das questões políticas mundiais vai se perdendo ao longo do caminho. Paradoxalmente, esse novo cenário, embora intimidador, é menos problemático para os EUA; na verdade, traz novas oportunidades para o país aproveitar sua posição singular. O mundo G-Zero não é inteiramente ruim para os EUA - caso o país saiba jogar as cartas certas.
Muitas forças residuais ganham maior importância em um mundo assim; e os EUA continuam como única verdadeira superpotência do mundo, além de sua maior economia - ainda mais de duas vezes maior que a da China. Seus gastos militares representam quase a metade do total mundial e superam os dos 17 países seguintes combinados. O dólar permanece como a moeda de reserva mundial e os investidores correm em busca de títulos do governo americano a cada repique da crise desde 2008 tendo ressaltado o status de refúgio dos EUA (mesmo nas crises provocadas pelos próprios EUA).
Da mesma forma, os EUA continuam líderes no empreendedorismo, pesquisa e desenvolvimento, educação superior e inovação tecnológica. Além disso, atualmente são o maior produtor mundial de gás natural e exportador de calorias, o que reduz sua vulnerabilidade a choques de preço e escassez alimentar.
Não há país que rivalize com os EUA na promoção do Estado de direito, democracia liberal, transparência e livre iniciativa. Embora outros países certamente apoiem esses valores, apenas os EUA tiveram disposição, força e o tamanho suficiente para assegurar que prevalecessem. À medida que os EUA forem restringindo sua liderança mundial, portanto, ela será mais procurada.
Considere-se a Ásia, por exemplo. À medida que a importância econômica e influência regional da China crescem, seus vizinhos buscam aprofundar seus laços com os EUA. Japão, Austrália, Indonésia e Taiwan assinaram recentemente acordos comerciais e de segurança com os EUA. Até Mianmar entrou na onda, retomando relações diplomáticas com os EUA, enquanto tenta sair da sombra da China.
Em outras palavras, em um mundo G-Zero, um ambiente mundial cada vez mais agressivo torna os EUA ainda mais atraentes para países que buscam proteger suas apostas. Como resultado, os EUA têm a oportunidade para agir de modo mais preciso na defesa de seus próprios interesses. Exercer menos liderança permite ao país ponderar os custos de oportunidade antes de agir, assim como selecionar os assuntos e circunstâncias que mais lhe convém. Nesse cenário, a intervenção na Líbia não exige fazer o mesmo na Síria.
Ainda está por ver-se até que ponto os EUA vão aproveitar essas oportunidades. Na realidade, as vantagens de curto prazo dos EUA representam o maior obstáculo a suas perspectivas de longo prazo. Chame-se isso de a "maldição do porto seguro": enquanto os EUA permanecerem como o porto mais seguro diante de qualquer tempestade, não sofrerão nenhuma pressão imediata para enfrentar suas fragilidades.
Por exemplo, apesar de todas as lamúrias sobre o endividamento nacional dos EUA, os investidores vão continuar a emprestar dinheiro aos EUA. No longo prazo, contudo, as autoridades políticas dos EUA terão de obter progressos sólidos na recuperação da confiança da saúde fiscal do país, reduzindo programas políticos sagrados, como os de previdência social, de assistência médica Medicare e o militar. As autoridades terão de deixar de lado motivações de curto prazo e ortodoxias partidárias para reforçar a infraestrutura envelhecida do país, reformar seus sistemas de imigração e educação e buscar a consolidação fiscal no longo prazo.
As vantagens dos EUA no mundo G-Zero conferem ao país a chance de investir no futuro, mas também de servir de proteção contra riscos suficientemente calamitosos, as mesmas vantagens permitem aos EUA procrastinar. Os políticos americanos precisam admitir essa nova realidade G-Zero e reconstruir as fontes internas de força dos EUA, mesmo que seja apenas de forma gradual. Se o fizerem, os EUA terão o vigor e a flexibilidade para modelar a próxima ordem mundial.
O sistema político dos EUA normalmente funciona bem em crises, mas graças a suas vantagens residuais em um mundo sem liderança, os EUA não precisam esperar por uma crise para agir. Precisam apenas aproveitar o momento G-Zero. (Tradução de Sabino Ahumada)
Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group e autor de "Every Nation for Itself: Winners and Losers in a G-Zero World" (em tradução livre, cada nação por si: vencedores e perdedores no mundo do G-Zero, em inglês) Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Quando a poupança é o (falso) problema
A caderneta de poupança, criada em um ambiente de forte inflação, tornou-se popular pela simplicidade de seu funcionamento e, principalmente, pela garantia que oferece ao cidadão comum que busca precaver-se contra necessidades futuras e não se confunde com os especuladores que têm como finalidade o ganho fácil propiciado pelas aplicações voláteis. O que mais importa aos poupadores é o rendimento real, isto é, a taxa descontada a inflação. O artigo é de Idalvo Toscano.
Idalvo Toscano (*)
Ver artigo completo publicado na Carta Maior
Produção de petróleo despenca
Fonte: Assessoria de Imprensa da ANP - (21) 2112-8333 - imprensa@anp.gov.br
A produção de petróleo no Brasil em março foi de 2,085 milhões de barris/dia (bbl/d), apresentando crescimento de 0,1% em relação ao mesmo mês de 2011. Na comparação com o fevereiro a queda foi de 5,4%. A produção de gás natural foi de aproximadamente 66 milhões de metros cúbicos/dia. Houve aumento de 7,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado, e queda de 1,4% em relação ao mês anterior. A maior redução foi verificada no campo de Frade, devido à interrupção de produção da concessão.
A Petrobras respondeu por 92,7% da produção de petróleo e gás natural. Os campos marítimos foram responsáveis por 91,4% da produção de petróleo e 74,9% da produção de gás natural.
Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, três são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (11º), Ostra/Shell (15º) e Frade/Chevron (17º). Dois campos terrestres também integram a lista: Carmópolis (18º) e Canto do Santo Amaro (20º), com vazão média de 22,4 mil barris/dia (24 Mbbl/d) e 19,3 mil barris dia (19,3 Mbbl/d).
O grau API médio do petróleo produzido março foi de 23,7º. Deste total, 8% da produção é considerada óleo leve (superior ou igual a 31ºAPI), 55% de óleo médio (entre 22º e 31º API) e 37% de óleo pesado (inferior a 22º API).
Queima de Gás
A queima de gás natural foi de aproximadamente 3,7 milhões de metros cúbicos/dia. Houve redução de 0,1% em relação ao mesmo mês em 2011 e aumento de 11,3% na comparação com fevereiro. O principal aumento foi registrado no campo de Lula, devido ao início de um novo teste no poço 4BRSA711RJS com a plataforma FPSO Cidade de São Vicente.
Pré-sal
A produção do pré-sal teve crescimento de 12% em relação ao mês passado, chegando a 158,5 mil barris dia de óleo equivalente (158,5 Mboe/d), sendo 130,7 Mbbl/d de petróleo e 4,4 MMm³. A produção foi oriunda de oito poços nas bacias de Jubarte (1), Lula (5), Caratinga e Barracuda (1) e Marlim Leste (1).
Bacias Maduras
A produção oriunda das Bacias maduras terrestres (campos/TLDsdas Bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 175,4 mil barris de óleo equivalente/dia (175,4 Mboe/d), sendo 145,1 mil mil barris de petróleo/d (145,1 bbl/d) de petróleo e 4,8 milhões de metros cúbicos de (4,8 MMm³/d) de gás natural.
A produção de petróleo no Brasil em março foi de 2,085 milhões de barris/dia (bbl/d), apresentando crescimento de 0,1% em relação ao mesmo mês de 2011. Na comparação com o fevereiro a queda foi de 5,4%. A produção de gás natural foi de aproximadamente 66 milhões de metros cúbicos/dia. Houve aumento de 7,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado, e queda de 1,4% em relação ao mês anterior. A maior redução foi verificada no campo de Frade, devido à interrupção de produção da concessão.
A Petrobras respondeu por 92,7% da produção de petróleo e gás natural. Os campos marítimos foram responsáveis por 91,4% da produção de petróleo e 74,9% da produção de gás natural.
Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, três são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (11º), Ostra/Shell (15º) e Frade/Chevron (17º). Dois campos terrestres também integram a lista: Carmópolis (18º) e Canto do Santo Amaro (20º), com vazão média de 22,4 mil barris/dia (24 Mbbl/d) e 19,3 mil barris dia (19,3 Mbbl/d).
O grau API médio do petróleo produzido março foi de 23,7º. Deste total, 8% da produção é considerada óleo leve (superior ou igual a 31ºAPI), 55% de óleo médio (entre 22º e 31º API) e 37% de óleo pesado (inferior a 22º API).
Queima de Gás
A queima de gás natural foi de aproximadamente 3,7 milhões de metros cúbicos/dia. Houve redução de 0,1% em relação ao mesmo mês em 2011 e aumento de 11,3% na comparação com fevereiro. O principal aumento foi registrado no campo de Lula, devido ao início de um novo teste no poço 4BRSA711RJS com a plataforma FPSO Cidade de São Vicente.
Pré-sal
A produção do pré-sal teve crescimento de 12% em relação ao mês passado, chegando a 158,5 mil barris dia de óleo equivalente (158,5 Mboe/d), sendo 130,7 Mbbl/d de petróleo e 4,4 MMm³. A produção foi oriunda de oito poços nas bacias de Jubarte (1), Lula (5), Caratinga e Barracuda (1) e Marlim Leste (1).
Bacias Maduras
A produção oriunda das Bacias maduras terrestres (campos/TLDsdas Bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 175,4 mil barris de óleo equivalente/dia (175,4 Mboe/d), sendo 145,1 mil mil barris de petróleo/d (145,1 bbl/d) de petróleo e 4,8 milhões de metros cúbicos de (4,8 MMm³/d) de gás natural.
A última chance de resgate do euro
Por Philip Stephens - Valor 18/05
Os líderes da Europa deveriam parar de brincar no parque infantil. O debate do euro tornou-se uma algazarra infantil a respeito de uma série de escolhas ilusórias: austeridade fiscal versus crescimento; os cortes de gastos "contra" a criação de empregos; reformas de mercado ou inclusão social. Isso beira a insanidade e a certeza de desintegração da moeda única.
O relógio agora mostra um minuto para a meia-noite. A Grécia provavelmente está além da salvação. Os primeiros sinais de corrida aos bancos na Espanha e em outras economias periféricas indicam que o vírus do contágio consolida-se mesmo antes de Atenas decidir-se sobre a realização de uma segunda eleição geral. As autoridades políticas têm menos tempo do que imaginavam há apenas alguns dias.
A eleição de François Hollande na França vem sendo vista amplamente como uma ameaça à coerência da região do euro. Em vez disso, o reequilíbrio da relação entre Berlim e Paris deveria ser visto como a última chance para uma conversa adulta. Com ou sem a Grécia, a região do euro precisa de uma nova estratégia - uma grande negociação, se você preferir. Os ingredientes vitais necessários são clareza e credibilidade.
Em busca da clareza, os governos deveriam começar concordando publicamente sobre o que de fato podem concordar. Todos, supostamente, podem aceitar a ideia de que déficits e dívidas devem ser reduzidos a níveis sustentáveis. Todos deveriam poder admitir que restaurar a competitividade das economias periféricas exigirá violentas reformas estruturais. Também é autoevidente que, sem crescimento econômico, as dívidas e déficits vão continuar altas e que o consenso político vai se evaporar. Não é preciso ser keynesiano para reconhecer as armadilhas do endividamento. Por fim, uma melhora no comércio exterior das economias mais fracas da região do euro exige superávits menores nas economias mais fortes.
Angela Merkel, da Alemanha, está certa ao dizer que os países da Europa não podem sair dos problemas por meio da captação de mais empréstimos. Não se pode contradizer Hollande quando ele diz que o crescimento é essencial para recuperar a sustentabilidade fiscal. Mario Monti, o outro membro central da troica de líderes europeus, está no caminho certo quando diz que deve haver uma dimensão pan-europeia tanto para os investimentos em estímulos ao crescimento quanto para as reformas estruturais com base nos mercados. A Alemanha poderia dar a partida, abrindo seu setor de serviços para a concorrência do resto do continente.
Os políticos precisam enfrentar outra simples verdade. Nos últimos séculos, a Europa determinou os termos de seu engajamento com a maior parte do resto do mundo. Suas estruturas sociais e econômicas foram ajustadas de acordo com isso. A ascensão do resto virou essa suposição de cabeça para baixo. Isso não significa que se deve jogar fora o modelo social europeu. Isso exige, no entanto, uma remodelação radical.
O ponto central - gritantemente óbvio, mas que se perdeu em meio à cacofonia - é que o importante é a combinação e o ordenamento das políticas escolhidas. A redução de déficits depende do crescimento, mas o crescimento é sustentável apenas no contexto de uma disciplina fiscal pré-programada. Pensar em termos de escolhas binárias é autodestrutivo: quando a discussão se torna Keynes versus Hayek, o jogo está perdido.
Como, então, conseguir a combinação correta de políticas? É aqui que entra a credibilidade. O começo da sabedoria está em reconhecer aqui que a credibilidade é um alvo móvel. Há um ou dois anos, tudo parecia fácil e natural: a crise financeira deixou como legado gigantescos déficits e dívidas governamentais e criou uma realimentação letal entre a solvência dos bancos e a capacidade creditícia dos captadores soberanos. A única forma de restaurar a confiança era via queda nos gastos públicos, elevação nos impostos e redução de déficits.
Era o que parecia. Vale dizer que isso não se trata de alguma trama da Alemanha para tomar o controle da região do euro. Por estar fora da união monetária, o Reino Unido não precisa aceitar sermões de Berlim. A primeira decisão tomada pela coalizão de David Cameron, no entanto, foi acelerar os planos para acabar com o déficit estrutural britânico. Sem esse compromisso, declarou, a credibilidade iria se evaporar e as taxas de juros, decolar. Pelo que me lembro, a estratégia foi aplaudida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).
Esta semana viu a confirmação de que grande parte da região do euro está atolada em um recessão. O Reino Unido está no mesmo barco. Os cortes de gastos e aumentos de impostos não trouxeram os declínios esperados nos déficits. Como resultado, os mercados vêm reconsiderando qual seria a estratégia mais confiável. Por sinal, é o que também vêm fazendo especialistas do FMI e OCDE. Até em Berlim, vem ocorrendo uma sutil mudança de tom. Inexplicavelmente, apenas Cameron parece determinado a pregar-se, seja como for, na cruz da austeridade.
A implosão dos principais partidos na Grécia adicionou o risco político à equação da confiança. O fortalecimento fiscal só pode ser confiável se tiver consentimento do eleitorado. Na ausência de crescimento econômico, por quanto tempo os eleitores espanhóis, portugueses, irlandeses e italianos vão tolerar as aflições de um aperto fiscal? As políticas de austeridade arquitetadas para sustentar a credibilidade agora começam a ter precisamente o efeito contrário.
Não será nada fácil encontrar uma combinação que recupere a confiança dos investidores. Os líderes europeus tornariam a tarefa menos complicada se oferecessem concessões políticas contrárias às que costumam defender. Hollande poderia dizer que os esforços para sustentar a economia europeia vão ser acompanhados na França por sérias reformas estruturais. Merkel poderia prometer que os compromissos blindados de disciplina fiscal vão ser acompanhados por uma Alemanha liderando os esforços de promoção do crescimento.
Isso ainda deixaria argumentos de sobra por discutir: o tamanho e alcance dos "muros de proteção financeira", a ampliação do papel do Banco Central Europeu (BCE), a mutualização das dívidas, o formato da união fiscal e todo o resto. O que se precisa primeiramente, no entanto, é uma clareza que traga credibilidade. Sem esses ingredientes, todo o resto pertence à esfera acadêmica. (Tradução de Sabino Ahumada)
Philip Stephens é editor e comentarista político do FT.
Dólar alto ajuda indústria, mas pressiona os custos
Editorial Valor 18/05
Deve-se tomar cuidado com aquilo que se deseja. A forte elevação do dólar nos últimos meses, festejada pelo governo como impulso para a indústria por encarecer os produtos importados, tem um outro lado. Está também elevando os custos de insumos importantes para a própria indústria, que nem sempre consegue repassar o aumento para o consumidor.
Desde o início do ano, o dólar subiu 7%; e desde março, quando começou a arrancada recente, a alta é de 13,5%. A cotação do dólar saiu de R$ 1,70 no fim de fevereiro para cerca de R$ 2,00 atualmente. A alta foi patrocinada principalmente pelo Banco Central (BC), que entrou 16 vezes no mercado de câmbio só em abril, comprando dólar muitas vezes quando a cotação já estava em alta, em um total de US$ 7,2 bilhões, sinalizando claramente ao mercado o desejo de aumentar o patamar de negociação da moeda americana. Mais recentemente, o BC ganhou ajuda do aumento da turbulência na zona do euro, que valorizou o dólar no mercado mundial.
Reportagens recentes do Valor mostram que a alta do dólar já tem impacto ainda que pequeno na redução da importação de bens industriais. Dois levantamentos mostram isso. Os produtos importados atenderam 22,6% da demanda de bens industrializados no primeiro trimestre deste ano, menos do que os 24% registrados nos últimos três meses de 2011, de acordo com cálculos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em 20 dos 33 setores analisados houve queda das importações nesse período, com destaque para aeronaves, material eletrônico, aparelhos de comunicação e artefatos de couro. Nas contas feitas pela consultoria LCA, a redução da participação dos importados no consumo de bens industriais foi menor, de 22,8% para 22,5% no mesmo período, mas também ocorreu.
A penetração dos produtos industriais importados no mercado doméstico também diminuiu com a redução da demanda causada pelo enfraquecimento da economia. A comemoração ficou pela metade porque a produção da indústria diminuiu 2,9% no primeiro trimestre.
Mas o encarecimento dos produtos importados também prejudica a própria indústria, que, nos últimos anos, passou a comprar cada vez mais insumos e semielaborados no exterior para reduzir seus custos. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), 43,8% das importações de janeiro a abril são matérias-primas e bens intermediários, totalizando US$ 31,2 bilhões. Em alguns casos, houve outras pressões no preço, além do dólar. As resinas plásticas, por exemplo, que representam cerca de 60% do preço de um produto plástico, subiram com o dólar e com o petróleo, o que provocou a queda de 6% da venda de transformados plásticos. O aço subiu 5% nos últimos 30 dias, puxado pelo dólar e pelo minério de ferro; e o preço do papelão, 8% por causa da celulose e também do câmbio. Entre os insumos industriais, as maiores altas em abril foram da borracha (7%), barrilha (4%), placa de aço (4,1%), resina plástica (4%) e papel kraft (1,5%).
O aumento desses produtos repercute no IGP-DI, índice que acompanha de perto os preços no atacado. No IGP-DI de abril, o subgrupo materiais para manufatura avançou 3% após o aumento de 0,74% em março. Pode ser uma mudança de padrão.
Não é certo que esse aumento de custos chegue ao varejo. Algumas indústrias estão conseguindo segurar os preços porque fizeram encomendas quando o dólar estava mais baixo. Além disso, fraca demanda inibe reajustes vigorosos de preços. Há ainda a expectativa de que o dólar não se mantenha no patamar atual. A expectativa do mercado financeiro para a cotação do dólar no fim do ano, apurada na pesquisa Focus desta semana, subiu pouco, apesar da escalada recente da moeda. A previsão agora é que o dólar vai fechar o ano em R$ 1,85; há um mês era de R$ 1,80.
Após a aceleração expressiva do IPCA, de 0,21% em março para 0,64% em abril, não se espera muita alteração na trajetória de baixa do índice acumulado em 12 meses, até porque estão saindo da conta números muito altos de 2011. Há ainda o impacto positivo da sinalização de queda dos juros dada pelo governo, agora sem o freio da remuneração da caderneta de poupança. Convergir a inflação para o centro da meta como insiste o BC em toda ata do Copom, porém, é cada vez mais difícil. Apesar de tudo, as previsões do mercado são de uma inflação razoavelmente abaixo do teto da meta neste ano e no próximo.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Para 'guru', dólar não escapará de um colapso
Valor 17/05
Peter Schiff insistiu antes do estouro da crise de 2008 que uma bolha financeira com base em ativos hipotecários se inchava nos Estados Unidos. Comentarista das redes de TV Bloomberg, CNBC, e Fox News, ele acertou em muitos pontos - especialmente quanto à desmontagem do setor imobiliário -, mas também previu um colapso do dólar logo em seguida, que não ocorreu. Hoje, ele insiste no declínio da moeda americana, prefere economias asiáticas a latinas e critica reservas em dólar mantidas por países como o Brasil, como dito em entrevista ao Valor durante rápida visita a São Paulo.
Diretor-executivo e estrategista-chefe da gestora de recursos Euro Pacific Capital, Schiff criticou as reservas brasileiras aplicadas em ativos em dólar porque acredita em um colapso "de grandes proporções" da moeda para breve. Segundo ele, a forte perda de valor do dólar será entre 2013 e 2015, decorrente principalmente de uma crise de dívida soberana nos EUA parecida com aquela vista hoje na Europa, "só que em proporções muito maiores". Por isso, Schiff avalia que o modelo de desvalorização cambial para o real é perigoso, e que as reservas estrangeiras do país deveriam ser feitas em ouro, e não em dólar.
"A quantidade de dólares em mãos de bancos centrais de países emergentes, entre eles o do Brasil, é enorme. É como se o mundo acumulasse uma grande pilha de dinheiro que não valerá nada no futuro", diz o economista, ao ponderar que a China figura como uma exceção, por ter aumentado a proporção das suas reservas em ouro.
Schiff não revela qual a proporção dos investimentos da sua gestora, cuja sede fica em Westport, Connecticut, em ativos de países emergentes, mas também deixa clara a sua falta de apetite pelo Brasil. Ele contou que a empresa investe no país por meio de fundos mútuos que compram principalmente ações dos setores de telecomunicações e energia, mas a exposição a Sudeste Asiático ainda é maior.
"Preferimos o sudeste asiático porque há uma cultura de menor dependência e interferência do governo que o Brasil", disse o especialista, que esteve em São Paulo para fechar a Terceira Conferência da Escola Austríaca, corrente econômica que defende interferência mínima dos governos na economia.
"A crise na Europa só alimenta uma crise futura nos Estados Unidos. O mundo ainda compra treasuries (papéis de dívida soberana dos EUA) e dólares, e assim apenas ganhamos tempo. Só que não poderemos pagar por tudo isso. É como se fizéssemos um pacto com o diabo", acrescentou o "guru". Para ele, os grandes bancos americanos, como J.P. Morgan, Bank of America e Citigroup, estão extremamente alavancados, não sobreviveriam a um cenário de juros mais altos e estarão no olho do furacão que hoje se forma lentamente.
Em tom ácido e típico do noticiário televisivo americano, Schiff não poupou a economia de seu próprio país de comparações apelativas. "Lembre-se da Grécia: há alguns anos eles estavam tão quebrados quanto hoje, e ninguém ligava."
Peter Schiff insistiu antes do estouro da crise de 2008 que uma bolha financeira com base em ativos hipotecários se inchava nos Estados Unidos. Comentarista das redes de TV Bloomberg, CNBC, e Fox News, ele acertou em muitos pontos - especialmente quanto à desmontagem do setor imobiliário -, mas também previu um colapso do dólar logo em seguida, que não ocorreu. Hoje, ele insiste no declínio da moeda americana, prefere economias asiáticas a latinas e critica reservas em dólar mantidas por países como o Brasil, como dito em entrevista ao Valor durante rápida visita a São Paulo.
Diretor-executivo e estrategista-chefe da gestora de recursos Euro Pacific Capital, Schiff criticou as reservas brasileiras aplicadas em ativos em dólar porque acredita em um colapso "de grandes proporções" da moeda para breve. Segundo ele, a forte perda de valor do dólar será entre 2013 e 2015, decorrente principalmente de uma crise de dívida soberana nos EUA parecida com aquela vista hoje na Europa, "só que em proporções muito maiores". Por isso, Schiff avalia que o modelo de desvalorização cambial para o real é perigoso, e que as reservas estrangeiras do país deveriam ser feitas em ouro, e não em dólar.
"A quantidade de dólares em mãos de bancos centrais de países emergentes, entre eles o do Brasil, é enorme. É como se o mundo acumulasse uma grande pilha de dinheiro que não valerá nada no futuro", diz o economista, ao ponderar que a China figura como uma exceção, por ter aumentado a proporção das suas reservas em ouro.
Schiff não revela qual a proporção dos investimentos da sua gestora, cuja sede fica em Westport, Connecticut, em ativos de países emergentes, mas também deixa clara a sua falta de apetite pelo Brasil. Ele contou que a empresa investe no país por meio de fundos mútuos que compram principalmente ações dos setores de telecomunicações e energia, mas a exposição a Sudeste Asiático ainda é maior.
"Preferimos o sudeste asiático porque há uma cultura de menor dependência e interferência do governo que o Brasil", disse o especialista, que esteve em São Paulo para fechar a Terceira Conferência da Escola Austríaca, corrente econômica que defende interferência mínima dos governos na economia.
"A crise na Europa só alimenta uma crise futura nos Estados Unidos. O mundo ainda compra treasuries (papéis de dívida soberana dos EUA) e dólares, e assim apenas ganhamos tempo. Só que não poderemos pagar por tudo isso. É como se fizéssemos um pacto com o diabo", acrescentou o "guru". Para ele, os grandes bancos americanos, como J.P. Morgan, Bank of America e Citigroup, estão extremamente alavancados, não sobreviveriam a um cenário de juros mais altos e estarão no olho do furacão que hoje se forma lentamente.
Em tom ácido e típico do noticiário televisivo americano, Schiff não poupou a economia de seu próprio país de comparações apelativas. "Lembre-se da Grécia: há alguns anos eles estavam tão quebrados quanto hoje, e ninguém ligava."
Uma relação estratégica
Por José Manuel García-Margallo y Marfil - Valor 17/05
Na primeira vez que vim ao Brasil, fiquei surpreso. Não foi só pela natureza exuberante aos olhos de um europeu, nem pelo tratamento próximo e aconchegante dos seus cidadãos. Fiquei impressionado pelo seu enorme potencial. Desde então voltei mais de seis vezes. E em cada uma delas me surpreendi de novo, pela sua rápida e positiva transformação.
Brasil é hoje uma das locomotivas que impulsionam a economia global. Tem se confirmado como uma democracia avançada e consolidada. Conseguiu se destacar no continente sul-americano como uma grande potência regional e a sua voz é respeitada nos principais foros internacionais. Mas tão admirável como a sua trajetória política e econômica é o seu modelo de crescimento, que avança junto à coesão social. Brasil encontrou o seu caminho para se transformar num país moderno e desenvolvido.
O Brasil e a Espanha viveram processos paralelos rumo à democracia e à modernização das suas economias. E de uma forma natural os dois países começaram a desenvolver poderosos interesses comuns que estimularam uma melhora qualitativa nas suas relações. Temos que destacar o esforço que faz da Espanha o segundo investidor estrangeiro na economia brasileira (46,572 bilhões de euros desde 1993 até o fim de 2011) com uma importante contribuição para a modernização de setores como o energético, o financeiro, as telecomunicações ou as infra-estruturas. Também cresceu o nosso comércio bilateral, que em 2011 chegou a níveis históricos. E temos que mencionar o amplo intercâmbio que está acontecendo no âmbito da educação, da ciência e da cultura.
Por tudo isso, a Espanha pode proclamar que o Brasil é um sócio privilegiado. E o Brasil pode constatar que a Espanha é um grande amigo com quem pode colaborar em muitos âmbitos e que o capital espanhol veio para ficar, para gerar emprego, benefícios compartilhados, transferir tecnologia e conhecimentos e, em definitiva, contribuir com o desenvolvimento econômico e social deste grande país.
Mas não quero que estas linhas sejam interpretadas como um exercício de auto-complacência. Temos feito muito juntos, mas acho que podemos fazer ainda muito mais.
Com a nossa tecnologia e capacidade no desenvolvimento de infraestrutura de transporte, nossos dois países podem colaborar em áreas como a de alta velocidade ferroviária, gestão de aeroportos, rodovias ou portos, onde estamos à frente no ranking mundial. Nossa experiência na organização de grandes eventos pode auxiliar na preparação dos próximos acontecimentos esportivos como a Copa do Mundo de Futebol ou a Olimpíada de 2016.
Além disso, a Espanha pode contribuir com pessoal altamente qualificado ao desenvolvimento econômico brasileiro. Muitos jovens espanhóis formados em cursos técnicos estariam dispostos a vir ao Brasil para trabalhar durante um tempo determinado. O governo espanhol está aberto para chegar a um acordo nesse âmbito
Estamos já participando no programa "Ciência sem Fronteiras", que começará com força o próximo mês de outubro acolhendo, no meu país, a mais de 1500 estudantes brasileiros. Também estamos prontos para desenvolver projetos conjuntos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D, I) em áreas como a nanotecnologia, a biotecnologia, a biomedicina, as tecnologias da saúde, as energias renováveis, os bicombustíveis e até na agricultura, piscicultura e pecuária.
A expansão econômica que vive o Brasil aumenta o potencial de internacionalização das suas empresas. Nesse processo, a Espanha, pela sua proximidade geográfica com o continente africano, pode ser um importante colaborador. Por exemplo, as Ilhas Canárias não poderiam ser a plataforma logística das grandes empresas brasileiras na África? A União Europeia é outra importante linha de frente onde as empresas brasileiras podem se consolidar. E a Espanha, nesse sentido, pode ser uma porta de entrada.
Nestes momentos difíceis que vive a Europa, nosso compromisso com a zona do euro é total. A Espanha, como europeísta convicta, é favorável a uma maior integração e ao cumprimento dos objetivos econômicos que estabelece a União Europeia.
O governo espanhol tem se mostrado firme na hora de tomar medidas que melhorem a nossa economia, preservando o Estado do bem-estar. Estamos implementando o plano de reformas mais amplo dos últimos trinta anos, que inclui a consolidação fiscal, a reforma da legislação laboral e o saneamento do setor financeiro. Mas ainda temos caminho a percorrer. A Espanha realizará em breve outras mudanças estruturais do mercado energético e do sistema educativo, assim como novas melhoras na liberação do setor de serviços.
Os nossos governos são conscientes das vantagens que têm trazido a enorme aproximação dos últimos anos. As nossas relações passaram a ser estratégicas, mas temos que seguir nos aprimorando nas mesmas e nos esforçando para aproximar ainda mais as nossas sociedades, os nossos artistas e criadores, os nossos pensadores e empresários. Em particular, temos que intensificar o diálogo político de alto nível.
José Manuel García-Margallo y Marfil é ministro de Negócios Estrangeiros e Cooperação da Espanha
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Poder americano e pragmatismo
Por Martin Wolf - Valor 16/05
Qual será o papel dos Estados Unidos no século XXI? Essa é a questão que aceitei, imprudentemente, discutir na semana passada no Carnegie Council em Nova York. Na análise, também levei em conta um assunto bastante relacionado, que também mexe com os americanos: Será que o futuro dos EUA está em suas próprias mãos? A resposta é: sim, mas apenas até certo ponto. Os EUA podem controlar o que fazem, mas não podem controlar o que os outros fazem.
O domínio histórico dos EUA é fruto de seus atributos excepcionais. O país é uma potência continental cercada por oceanos a leste e oeste e por vizinhos amigáveis ao norte e sul. Possui imensos recursos naturais, embora declinantes. Tem a maior economia do mundo e a maior produção per capita desde o fim do século XIX. Sua economia, orientada pelos mercados, é a mais inovadora do mundo desde, pelo menos, a mesma época.
Os EUA são lar dos mercados financeiros mais influentes do mundo, embora tenham sido os mesmos que desencadearam a Grande Depressão e, nos últimos anos, a Grande Recessão. São emissores da principal moeda de reserva cambial desde a primeira Guerra Mundial. São um dos maiores mercados de importações do mundo, superados apenas pelas importações externas da União Europeia (UE).
Os EUA possuem as Forças Armadas mais fortes e avançadas do mundo. Desde a Segunda Guerra Mundial o país é sede de mais universidades e institutos de pesquisa importantes do que qualquer outro. Tem a cultura popular mais influente do mundo. Seus valores políticos ainda estão arraigados à imaginação mundial, mesmo que, na prática, tenham deixado a desejar. Seu sistema democrático mostrou-se suficientemente legítimo e flexível para lidar com os vários desafios que a história lhe jogou pela frente.
De posse de todos esses atributos, o país conseguiu formar alianças fortes e vencer suas guerras no século XX, tanto a quente como a fria. Modelou a economia aberta internacional que nasceu após a Segunda Guerra Mundial e tornou-se global depois do colapso do império soviético. Apresentou o modelo de modernidade mais influente do mundo. Goste-se ou não, vivemos, todos, no mundo que os EUA fizeram.
Quantos desses atributos os EUA vão manter neste século?
A ameaça mais óbvia é a que se apresenta contra sua posição de maior economia do mundo. Pelas taxas de câmbio de mercado, sua economia ainda tem aproximadamente o dobro de tamanho em comparação à chinesa. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), no entanto, pela paridade do poder de compra (PPC), é apenas 30% maior. Como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, pelo PPC, da China ainda é de apenas 20% do verificado nos EUA, ainda há grande distância a ser percorrida pelos chineses. O crescimento da China deverá desacelerar-se nas próximas décadas, mas convergirá ainda mais para os níveis de produtividade dos EUA. A probabilidade é de que a China tenha uma economia maior do que a dos EUA no início dos anos 2020. A China, ao contrário, por exemplo, do Japão, tem os números a seu lado. Se seu PIB per capita chegasse à metade do observado nos EUA, seria tão grande quanto as economias dos EUA e UE somadas.
As exportações brutas de bens da China já superaram as dos EUA. Em breve, o mesmo ocorrerá com suas importações. Sendo um país relativamente pobre em recursos, a China deverá continuar uma maior comerciante externa em relação ao PIB do que os EUA. Uma questão mais controversa é como o yuan vai rivalizar com o dólar como moeda de reservas internacionais. A ascensão do comércio exterior chinês indica que a resposta seria: em breve. Eu poderia argumentar que o Estado de partido único da China, não estando sujeito ao Estado de direito e com o receio de perder o controle, não teria condições de abrir os mercados de capitais no grau que os estrangeiros desejariam caso fossem manter seus ativos mais seguros investidos em yuans. Essa mudança deverá levar décadas, não anos.
Em princípio, os EUA também poderiam manter sua posição de liderança em inovações comerciais e científicas. Como meu colega Edward Luce mostra em seu novo e intelectualmente instigante livro, no entanto, a combinação de xenofobia com hostilidade à ciência, restrições fiscais autoimpostas e prioridades peculiares de gastos ameaça roubar dos EUA seu acesso aos maiores talentos do mundo e seu compromisso de liderança mundial em inovação e pesquisa *. Nada captura melhora essa ideia do que esta declaração implacável: "Em 1990, [a Califórnia] gastava em suas universidades o dobro que em suas prisões. Agora, gasta quase o dobro em suas prisões." O fato de os EUA terem o maior índice de encarceramento do mundo não é só uma estatística social; também é econômica. O mesmo vale para o alto custo e a ineficiência do sistema de assistência médica, que é o principal motivo para as perspectivas fiscais de longo prazo do país parecerem tão sombrias.
O que se precisa são de reformas sérias. Isso, entretanto, tornou-se impossível, em função do papel cada vez maior do dinheiro na política e da crescente intransigência do Partido Republicano. Em um sistema construído sob um governo dividido, considerar as concessões como uma fraqueza ameaça trazer o caos repetidas vezes.
A economia dos EUA não vem trazendo mais benefícios que sejam compartilhados amplamente pela população, como outrora. Em seu último ciclo econômico completo, entre 2002 e 2007, cerca de 65% do aumento de renda foi absorvido pela faixa dos 1% mais ricos, sendo que quase 35% ficou com a parcela dos 0,1% mais ricos. Uma economia de soma zero desse tipo gera desespero e insatisfação. A crise agravou muito mais essa irritação.
Tudo isso também afetará a capacidade de os EUA desempenharem seu papel histórico no mundo. O aperto fiscal que se aproxima vai corroer os gastos militares. Ainda mais importante, a crise financeira e outros grandes erros roubaram dos modelos sociais, econômicos e políticos dos EUA o prestígio do qual gozavam. A Europa não está em melhor situação, mas isso apenas significa que o Ocidente como um todo está menos confiável e, por enquanto, menos capaz para atuar como líder.
Não importa o que ocorrer dentro dos EUA, sua influência será menor no século XXI do que foi no XX. Isso, em grande parte, porque os demais aprenderam muito com o país. Ainda assim, os EUA podem manter uma influência imensa, possivelmente inigualável, uma vez que seus principais rivais enfrentam desafios ainda maiores. Para que os EUA, no entanto, sejam de fato o que podem ser, precisam redescobrir o pragmatismo que por tanto tempo marcou sua elaboração de políticas. Nenhuma democracia pode prosperar se seus cidadãos veem o próprio governo como o maior inimigo. Se os americanos optarem por fazer seu governo fracassar, o mesmo acontecerá com os EUA.
* "Time to Start Thinking" (hora de começar a pensar, em inglês), Atlantic Monthly Press, 2012." (Tradução de Sabino Ahumada)
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Ingerência do governo tem prejudicado a bolsa?
Valor 15/05
Por André Rocha
A bolsa brasileira tem mostrado movimento errático no ano. Após subir 20,5% até o dia 13 de março, o Ibovespa vem caindo sistematicamente desde então. Quais as razões para a queda? Alguns analistas sustentam que o aumento da interferência governamental é responsável pelo mau desempenho. Será?
O Ibovespa fechou 2011 a 56.754 pontos. Até meados de março, a bolsa apresentou forte valorização, atingindo 68.394 pontos em 13 de março. “Dia de muito, véspera de pouco”, diria o provérbio popular. Desde então, a bolsa caiu 13,1% até 11/05/2011. No ano, a bolsa ainda sobe 4,7%.
Cresce no mercado a interpretação de que a bolsa adquiriu esse comportamento após o incremento do ativismo politico. Há vários exemplos que retratariam a maior interferência governamental sobre a economia :
1) A decisão do governo de incentivar os bancos públicos a reduzir suas taxas de juros sobre o crédito de forma a pressionar os bancos privados a adotarem a mesma estratégia o que teria como consequência a queda do spread bancário;
2) Ingerência do governo sobre o mercado cambial que contribuíram para a apreciação do dólar frente ao real nos últimos meses;
3) Discussão para incremento do royalty sobre as atividades de mineração;
4) Não repasse do aumento do preço do barril de petróleo para o dos combustíveis que prejudica a geração de caixa da Petrobras;
5) Mudança no cálculo da caderneta de poupança, sinalizando queda mais acentuada dos juros;
6) Alterações, nos últimos seis meses, na direção da Embraer, que possui como sócios o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BB) e o BNDES.
Comunicado de abril do conceituado fundo Verde do Credit Suisse Hedging-Griffo também vai nessa linha. Ele trata de uma teoria concebida pelo gestor americano Peter Thiel, responsável pelo hedge fund Clarium Capital. A ideia é que, tal como nos ciclos econômicos, existem também ciclos políticos onde há maior (“bull market in politics”) e menor (“bear market”) interferência governamental. A conclusão é de que, após a crise de 2008, a Europa e os EUA entraram em um período de “bull market in politics”. O Brasil teria ingressado nesse clube em agosto de 2011. E segundo a carta, “a evidência histórica mostra que os mercados acionários passam por quedas estruturais dos múltiplos em períodos de ‘bull market in politics’”.
A maior ingerência do governo na agenda econômica pode ter contribuído para a queda da bolsa, especialmente a incerteza sobre o comportamento da inflação após a redução dos juros e a depreciação do real. E aqui me alinho à corrente “anti-governo”, pois também não estou convencido de que a inflação permanecerá comportada. Contudo o desempenho do mercado acionário não é reflexo apenas de um fator. Tal como os acidentes aéreos são resultados de causas diversas. Logo não quero atrelar a queda da bolsa apenas a maior interferência governamental.
Além disso, o mercado financeiro possui uma agenda liberal, logo é natural a aversão às atividades governamentais. Mas cabe relembrar episódios recentes onde o mercado financeiro se equivocou. Logo é prudente ter um distanciamento crítico:
1) Em 1999 após a desvalorização cambial, houve corretoras americanas alardeando inflação de 80% ao ano. A realidade se mostrou bem distinta com o IPCA alcançando 8,9% naquele ano;
2) Economistas ortodoxos rejeitavam aumentos reais do salário mínimo receosos de uma explosão da inflação. Embora o ganho real empreendido no salário mínimo pelo governo petista tenha contribuído para um aumento discreto da inflação, o aumento da massa salarial tem sido importante para a manutenção da atividade econômica. O fortalecimento da classe média tornou-se um ativo cobiçado por investidores estrangeiros;
3) Após o inesperado corte da Selic em agosto, o BC foi duramente criticado. Após nove meses, boa parte do mercado fez um “mea culpa”, aplaudindo a decisão da autoridade monetária.
Acredito que a razão da queda da bolsa desde março está mais associada a dois eventos externos e a um movimento técnico:
1) O aumento das incertezas na zona do euro no último mês decorrentes da vitória do candidato socialista na França com um discurso de menor austeridade fiscal, do resultado das eleições gregas que aumentaram as chances de o país deixar a moeda europeia e da estatização do banco espanhol Bankia;
2) A atividade econômica mais fraca na China o que pode comprometer o preço de nossas commodities afetando algumas importantes companhias brasileiras como a Vale;
3) A realização de lucros após o forte rali do início do ano.
Assim um olho na Europa e na China e outro na inflação interna. Esses são os indicadores chaves para determinar o futuro desempenho da bolsa brasileira.
Tributação e crescimento
Por Antonio Delfim Netto - Valor 15/05
Como a história ensina, há aritméticas "desagradáveis" que impõem realismo às políticas sociais e econômicas com excessivo viés quer para o consumo (como é o caso brasileiro) quer para o investimento (como é o caso chinês). Elas sempre terminam de forma traumática quando não pressentidas e corrigidas no momento adequado. Há poucos dias a presidenta Dilma deu uma indicação precisa desse pressentimento quando afirmou que precisamos reduzir e melhorar a qualidade de nossa estrutura tributária, sem prejudicar as políticas públicas civilizatórias. No fundo foi uma reafirmação do seu programa inaugural: "Fazer mais com menos", ou seja, aumentar a eficiência do governo para acelerar o crescimento sem reduzir a política social de inclusão social.
A carga tributária bruta do Brasil é, de longe, a mais elevada de todos os países que têm uma renda per capita parecida com a sua e, pior: 1º) é absolutamente disfuncional. Tributa demais os investimentos que são o crescimento futuro e as exportações que financiam esse crescimento sem criar problemas externos; 2º) é absolutamente injusta e regressiva; 3º) é, talvez, a mais complexa do mundo; 4º) o Fisco persegue apenas a "facilidade" da tributação, como é o caso generalizado do "contribuinte substituto"; e 5º) conserva o mau hábito que tinha justificativa quando havia hiperinflação: o imposto é recolhido antes de o produto ser faturado e seu valor recebido pelo produtor.
É sempre difícil (e contestável) estimar as consequências sobre a taxa de crescimento do PIB de um sistema tributário que não começou muito bem na Constituição de 1988 e foi cuidadosa e sistematicamente distorcido ao longo das últimas duas décadas. Mas é possível ter uma ideia das profundas modificações estruturais que ele produziu nas relações entre o Estado e o setor privado.
Para ter uma intuição física do que aconteceu desde então, até 2011, imaginemos o PIB como a soma de uma "mistura" cujos componentes são, proporcionalmente, representados por todos os produtos produzidos no país. Suponhamos que em 1995 escolhemos uma unidade de medida que meça o PIB em 100 unidades dessa "mistura" (que inclui proporcionalmente desde o mais simples produto ou serviço, até o mais sofisticado equipamento de comunicação). Com um pouco mais de esforço, suponhamos que a população do Brasil (159 milhões de habitantes) no mesmo ano, seja também dividida em 100 unidades. Assim teríamos, em 1995, 100 unidades de PIB produzidas por 100 unidades de população, ou seja, "idealmente", uma unidade de PIB produzida por uma unidade de população.
Tomemos como "base" o ano de 1995. Como evoluíram o volume físico do PIB e a população até 2011? Usando os números do IBGE, o primeiro atingiu 161,9 unidades da mistura equivalente de 2005 (ignorando lentas mudanças produtivas estruturais). Se alguém quiser uma imagem mais "concreta", poderá simplesmente supor que em 1995 o PIB era igual a 100 toneladas da tal mistura e em 2011 atingiu 161,9 toneladas. Estamos interessados em saber como foi apropriado pelo governo e pelo setor privado o aumento das 61,9 unidades da mistura (ou toneladas).
O quadro abaixo mostra isso de forma esquemática, usando as informações disponíveis. É evidente que uma parcela do que foi "apropriado pelo governo" voltou, sob seu comando, ao setor privado por meio das políticas sociais civilizatórias de redução da pobreza absoluta, da melhoria da distribuição de renda, do déficit da Previdência e do pagamento dos seus serviços e investimentos, cuja eficiência e qualidade o governo precisa melhorar.
O quadro mostra que tivemos um crescimento medíocre nos últimos 15 anos, da ordem de 3,3% ao ano. Como a população cresceu a 1,4% ao ano, isso nos deixou com um crescimento econômico per capita da ordem de 1,9%. A linha 2 da tabela mostra o único avanço robusto: o crescimento do PIB apropriado e distribuído pelo governo cresceu a 4,8% ao ano. Isso não pode deixar de ser preocupante do ponto de vista do crescimento econômico equilibrado, que depende, fundamentalmente, dos investimentos públicos que só agora parecem adquirir musculatura com a decisão de cooptar o setor privado por meio de concessões. Na margem, o governo se apropriou e distribuiu 48% do ganho de 61,9 unidades do PIB sem que, praticamente, tenha aumentado o seu investimento.
Outro ponto significativo é que desde 1995, a carga tributária bruta cresceu à taxa de 1,5% ao ano! O crescimento apropriado e distribuído pelo governo cresceu à taxa anual de 4,8% impulsionado pelos seguintes fatores: 1) crescimento da população, 1,4%; 2) crescimento PIB per capita, 1,9%; 3) crescimento da tributação, 1,5%
Não é necessário muita sofisticação para reconhecer que a produtividade do governo é menor do que a do setor privado e que, portanto, o aumento exacerbado do setor público tende a reduzir a taxa de crescimento econômico e, no fim, do social. É preciso, portanto, que a sociedade dê suporte a uma necessária reforma tributária que, esperamos, o governo tentará implementar no futuro próximo.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
"Novo petróleo" promete mudar mapa geopolítico da energia
BBC 02 de maio de 2012 • 05h00 • atualizado 05h23
Ruth Costas
Novas tecnologias para explorar petróleo e gás prometem revolucionar o mapa geopolítico da energia, segundo especialistas no setor. Imagine um mundo em que os Estados Unidos não se importam tanto com o que acontece no Oriente Médio - porque abastecer as frotas de Nova York ou Chicago não depende de um combustível vindo do Iraque ou da Arábia Saudita.
O poder da influente Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) está esvaziado. A Europa não precisa do gás russo e a China não está tão preocupada em financiar regimes africanos para garantir sua fatia da produção local de combustíveis fósseis.
É mais ou menos esse o cenário de médio prazo pintado por consultorias e especialistas entusiasmados com novas tecnologias, que permitem a exploração de reservas de gás e petróleo de difícil acesso ou cujo produto precisa passar por processos químicos específicos antes de ser utilizado. São os chamados combustíveis fósseis "não convencionais".
Eles apontam que não só as fontes de petróleo e gás não devem se esgotar em um futuro próximo - como previam estudos proféticos das últimas décadas -, como a distribuição geográfica das novas reservas é muito mais democrática, o que favorece grandes consumidores.
"Até pouco tempo, eram dominantes as previsões de que os países importadores aumentariam sua dependência do Oriente Médio e não haveria solução para altos preços do petróleo", diz o geólogo e economista Robin Mills, autor do livro O Mito da Crise do Petróleo ("The Mith of the Oil Crisis") e consultor em Dubai.
"Com os avanços tecnológicos dos últimos anos, ganham força expectativas de que, ao menos no médio prazo, os preços dos combustíveis fósseis voltem a cair, países que eram importadores de recursos energéticos se tornem autossuficientes ou até exportadores e a OPEC seja mais pressionada a revisar suas práticas", disse.
São muitas as tecnologias que estão ajudando a traçar um novo mapa da energia no mundo. A começar pelas que permitem a exploração de petróleo em águas profundas - caso do pré-sal brasileiro. Outro exemplo é o aproveitamento do petróleo arenoso - encontrado em Alberta, no Canadá - também só é possível graças ao aprimoramento de processos físicos e químicos que purificam esse petróleo de baixa qualidade.
A técnica que mais desperta entusiasmo, porém, é de longe a relacionada à exploração do petróleo e, principalmente, do gás de xisto, obtidos a partir da rocha de mesmo nome. Segundo o especialista do mercado de petróleo Daniel Yergin, trata-se da maior invenção da área de energia da década.
Em centros de estudos e consultorias especializadas, o termo "revolução do gás de xisto" já virou corrente, e a respeitada Agência Internacional de Energia (AIE) chegou a perguntar em um relatório no ano passado: "Estaríamos entrando na ''era dourada do gás''"?
''Revolução do gás''
A causa do entusiasmo está relacionada aos bons resultados obtidos na exploração desse recurso nos Estados Unidos. Até 2008, os americanos importavam cerca de 13% do gás consumido no país do Canadá, segundo um relatório da consultoria KPMG.
Hoje, com a exploração das reservas de xisto, não só o país se tornou autossuficiente, como já pensa em exportar. Para completar, o preço do produto está caindo de forma acentuada, com os custos de extração cobertos pela venda de outros produtos químicos produzidos no processamento do gás.]
"Nesse cenário, não é de se estranhar que hoje uma das grandes corridas tecnológicas nos Estados Unidos seja para desenvolver e aprimorar meios de transporte a gás, permitindo a redução do consumo de petróleo convencional", diz Frank Umbach, especialista em segurança energética do Centre for European Security Strategies, com sede em Munique.
Reservas de gás de xisto são exploradas na Pensilvânia, na Louisiana e no Texas e já representam 30% do consumo de gás no país. Já o petróleo de xisto é produzido em Dakota do Norte e no Texas.
As expectativas criadas por tais mudanças também ajudam a explicar por que a Argentina expropriou neste mês a petrolífera YPF, controlada pela espanhola Repsol, que explorava as reservas de petróleo e gás de xisto nos campos de Vaca Muerta.
"A percepção de que essa nova fonte de combustível fóssil pode mudar significativamente a posição dos países no mercado de energia cria um senso de urgência com relação a exploração desses campos", explica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), em São Paulo. "A Argentina pedia mais investimentos para avançar nessa corrida, mas o governo continua limitando o preço cobrado pela energia internamente, o que reduz o interesse das empresas."
Tecnologias cruciais
Duas tecnologias foram cruciais para viabilizar a exploração do gás de xisto. A primeira é a técnica de perfuração horizontal, que permite o aproveitamento de reservas espalhadas por grandes áreas geográficas, mas pouco profundas. A segunda é a de fraturamento hidráulico, que consiste no bombeamento de uma mistura de água, areia e produtos químicos para dentro dos poços de exploração.
O impacto produzido por esse jorro de alta pressão produz pequenas fissuras nas rochas, liberando o gás que é canalizado para os dutos.
A exploração de petróleo de xisto (na realidade, um óleo semelhante mas não idêntico ao petróleo convencional) é um pouco diferente. Ás vezes esse combustível líquido é encontrado entre as rochas, mas em geral ele é produzido com o aquecimento do xisto.
Para o especialista em petróleo e energia Jed Bailey, da Energy Narrative, nos EUA, o que faz do xisto um dos motores de uma revolução na geopolítica da energia é a forma democrática como essas rochas estão distribuídas geograficamente.
Reservas desse material estão sendo encontradas de norte a sul do globo, em todos os continentes. Por enquanto, as maiores estão na China, Argentina, México, África do Sul, Estados Unidos, Canadá e Austrália, mas também há reservas na Colômbia, França, Polônia e Grã-Bretanha, entre outros países. No Brasil, a Petrobrás produz petróleo de xisto no Paraná.
Pires chama a atenção para o fato de que Estados Unidos e China, países que lideram o ranking de consumo de energia no mundo, também concentram algumas das maiores reservas. "O gás de xisto e todas essas outras fontes não convencionais alimentam as esperanças de importadores de energia de reduzirem sua dependência de exportadores problemáticos ou instáveis", explica.
Para Bailey, no caso dos EUA, uma diversificação para além do petróleo tradicional poderia fazer com que, no longo prazo, houvesse menos justificativa e apoio político para interferências no Oriente Médio, por exemplo. "No entanto, isso não quer dizer que a região sairia de vez do radar americano, por causa da sua influência na formação de preços no mercado global de energia", diz.
Problemas ambientais
Há algumas ressalvas importantes no que diz respeito a exploração desses combustíveis fósseis não convencionais. A primeira é a questão dos altos custos, que fazem com que a utilização de muitas dessas tecnologias só se justifique se os preços de seus produtos se mantiverem em um patamar relativamente elevado.
Um segundo porém é que o sucesso da exploração dessas novas fontes de petróleo e gás desanima a busca de fontes de energia renováveis e usos mais eficientes de energia. O petróleo não convencional é tão poluente quanto o convencional.
"E mesmo que o gás de xisto substitua o carvão e o petróleo, fontes de energia mais sujas, não deixa de ser uma fonte suja também, porque sua queima emite poluentes", explica Bailey. "Além disso, com o preço do gás caindo, a energia eólica ou solar hoje parece cada vez menos vantajosa."
No caso da exploração de gás de xisto, outro agravante é que ainda não há clareza sobre os riscos de contaminação do lençol freático pelos produtos químicos usados em sua exploração. Também acredita-se que o gás liberado no processo de extração possa causar pequenas explosões subterrâneas e tremores, embora a tese ainda não esteja comprovada.
Por causa dessa preocupações, a França foi o primeiro país a proibir as técnicas de fraturamento hidráulico, em julho de 2011, banindo até pesquisas nessa área. Na Grã-Bretanha, grupos ambientalistas têm se oposto a exploração de uma reserva em Lancashire, embora uma comissão no Parlamento tenha avaliado a técnica como segura. "Existe uma corrida por essas novas tecnologias por questões de conveniência econômica e interesses geopolíticos, mas isso não quer dizer que elas sejam sustentáveis do ponto de vista ambiental", diz Pires.
BCE já admite saída da Grécia do euro
Por Ralph Atkins
Financial Times, de Frankfurt
Representantes do Banco Central Europeu (BCE) falaram pela primeira vez publicamente, neste fim de semana, sobre o "gerenciamento" de uma possível saída da Grécia da zona do euro, na medida em que as tentativas frustradas para a formação de um governo de coalizão elevam as chances de um calote do país.
Comentários de membros do conselho do BCE mostram que o risco de uma fragmentação da união monetária é levado de forma cada vez mais séria no órgão.
Isso marca uma mudança de postura do BCE, que até então vinha dizendo que acordos europeus não permitem retiradas de países, e que uma quebra de tratado traria prejuízos econômicos incalculáveis. "Creio que um divórcio amigável, se for em algum momento necessário, seria possível. Mas eu ainda sentiria muito [se isso ocorresse]", disse Luc Coene, representante da Bélgica no Banco Central Europeu.
"Podem acontecer coisas que não foram imaginadas nos acordos", acrescentou Patrick Honohan, da Irlanda, durante uma conferência na Estônia. "Tecnicamente, [a saída da Grécia da zona do euro] pode ser administrada... não é necessariamente fatal, mas tampouco algo atraente".
"As consequência para [uma saída da Grécia] seriam mais sérias para a Grécia que para o restante da zona do euro", complementou Jens Weidmann, presidente do Bundesbank (o banco central alemão) e também membro do conselho do BCE.
Junto a outras autoridades monetárias da Europa, o BCE aumentou a pressão sobre a Grécia para que o país mantenha o seu programa de austeridade fiscal - advertindo que um descumprimento de medidas acordadas internacionalmente levaria ao corte da ajuda financeira ao país.
Até a noite passada, a Grécia parecia fadada a novas eleições nacionais, depois que as conversações para um novo governo de coalização, presididas pelo presidente Karolos Papoulias, terminaram sem consenso entre conservadores, socialistas e líderes de esquerda. Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, de centro-direita, acusou o Syriza, de extrema esquerda, de impedir um acordo - e isso mesmo depois de circular no encontro uma carta do premiê Lucas Papademos listando a deterioração da posição fiscal do país. Em uma tentativa de solução, o presidente ainda reuniu-se com líderes de quatro partidos menores que ganharam assentos no Parlamento.
Para os analistas, ainda é difícil saber o que acontecerá a seguir. Um observador conservador afirmou ser possível alguns legisladores de direita migrarem para o Nova Democracia, o que daria aos defensores do euro uma pequena maioria. Outros, no entanto, ainda acreditam que, pelo andar da carruagem, a Grécia não escapará de novas eleições nacionais.
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