terça-feira, 24 de abril de 2012
Inadimplência estoura
Inadimplência segue em alta e Bradesco breca o crédito
Valor 24/04
Num momento em que os bancos privados estão sob pressão para reduzir as taxas de juros, o Bradesco mostra que continua a conviver com a alta dos calotes. Com o aumento da inadimplência no período entre janeiro e março, as despesas com provisões para devedores duvidosos na instituição atingiram R$ 3,09 bilhões, um crescimento de 30,1% na comparação com igual trimestre de 2011. O estoque de crédito ficou praticamente estável em relação ao quarto trimestre de 2011, com leve alta de 0,4%, para R$ 269,7 bilhões (sem avais, fianças e outros).
A comparação entre o fim do ano, um período tradicionalmente mais forte para o crédito por causa do 13º salário, é sempre pouco precisa para indicar tendências. Mas, de janeiro a março do ano passado, a carteira de empréstimos do Bradesco tinha crescido mais: 4% em relação ao período encerrado em dezembro de 2010. "No primeiro trimestre, apenas o consignado (+ 3,3%) e o financiamento imobiliário (+10,3%) tiveram uma expansão significativa em relação a dezembro", escreveram ontem os analistas do Goldman Sachs em relatório. Em 12 meses, o crescimento do estoque de empréstimos no Bradesco foi de 12,4%. O resultado disso foi também uma expansão mais modesta do lucro líquido no primeiro trimestre, que cresceu 3,4% em relação ao mesmo período de 2011, para R$ 2,79 bilhões. Em relação ao quatro trimestre de 2011, o crescimento foi de 2,5%.
A piora na qualidade da carteira deveu-se principalmente ao maior atraso no pagamento das pessoas físicas e das micro, pequenas e médias empresas. A inadimplência total acima de 90 dias atingiu 4,1%, com aumento de 0,2 ponto percentual em relação ao quarto trimestre de 2011. Na comparação com igual trimestre de 2011, a alta foi de 0,5 ponto percentual.
O banco prevê que o ano termine com uma taxa de inadimplência de 3,9%, igual à registrada em dezembro do ano passado. Segundo Luiz Carlos Angelotti, diretor-gerente do banco, o índice já deve mostrar estabilidade ao longo deste trimestre, com redução a partir de julho. O banco espera uma estabilização do volume de pagamentos atrasados desde agosto do ano passado, mas os índices só têm crescido, acompanhando a tendência do sistema financeiro.
Em teleconferência com jornalistas, Angelotti não descartou a possibilidade de nova redução das taxas de juros de algumas linhas como forma de se defender da concorrência. "Estamos avaliando. Novas providências devem ser adotadas." Diante da estratégia mais agressiva dos bancos públicos, o executivo afirmou que o objetivo do Bradesco é ao menos manter a participação de mercado atual no crédito, de 12%.
O que contribuiu para o resultado do banco foram as operações de tesouraria, a desaceleração dos gastos administrativos e o resultado da seguradora do grupo. A Bradesco Seguros representou 32% do resultado do banco, contra 28% no primeiro trimestre de 2011 e 31% no quarto trimestre.
Depois de abrir mais de mil agências no ano passado, os gastos administrativos do banco começaram a entrar em rota de queda. No primeiro trimestre deste ano, houve uma redução de 8% nos gastos administrativos e de pessoal na comparação com o último trimestre de 2011. "O banco buscará compensar a pressão nas margens com a maior busca por eficiência", disse Angelotti.
Com os problemas enfrentados pelo crédito, o retorno sobre o patrimônio líquido do banco encerrou março em 21,4%, com uma queda de 2,8 pontos percentuais ante igual período de 2011 e estável (- 0,1 ponto percentual) em relação ao quarto trimestre.
O ritmo mais vagaroso da expansão do crédito divulgado pelo Bradesco pode ser a tônica do que está por vir ao longo desta semana nos balanços dos demais bancos privados, explicando também a campanha que o governo iniciou pela redução das taxas de juros cobradas nos empréstimos. Hoje é a vez de o Itaú Unibanco mostrar seu balanço, seguido pelo Santander Brasil na quinta-feira.
Na quarta-feira, o Banco Central (BC) divulgará o relatório das operações de crédito do sistema financeiro nacional em março. Até fevereiro, os dados oficiais indicavam uma expansão de 0,2% do crédito no acumulado do ano e de 17,3% em 12 meses. Mas os bancos públicos vinham mais acelerados, com alta de 0,8% no ano e de 22,2% em 12 meses. Com as recentes campanhas de redução do custo do crédito, Banco do Brasil e, principalmente, Caixa Econômica Federal podem acabar roubando mercado dos bancos privados, dependendo do contra-ataque que Bradesco, Itaú e Santander montarem.
Com inadimplência em alta, lucro do Itaú cai 3% no 1º trimestre
FSP 24/03
O Itaú Unibanco informou nesta terça-feira que teve lucro líquido de R$ 3,426 bilhões no primeiro trimestre, queda de 2,95% na comparação com o mesmo período de 2011 e retração de 6,93% ante o quarto trimestre do ano passado. A instituição trabalha com a maior taxa de inadimplência em mais de dois anos, em meio a um cenário de redução dos juros bancários.
Já o lucro líquido recorrente (excluindo ganhos e perdas extraordinárias), atingiu R$ 3,544 bilhões entre janeiro e março, redução de 2,6% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 5,4% frente ao trimestre anterior.
"Essas reduções devem-se ao continuado cenário de aumento da inadimplência na economia brasileira que impacta a qualidade do crédito", informou no comunicado.
Os pagamentos com atraso acima de 90 dias atingiram 5,1% do total de empréstimos, crescendo 0,2 ponto percentual em relação a dezembro de 2011 e 0,9 ponto percentual em relação a março do ano anterior. A taxa é a maior desde dezembro de 2009. No caso do consumidor pessoa física, a inadimplência ficou em 6,7%, pior resultado desde março de 2010, quando ficou no mesmo nível.
Diante desse cenário, o banco elevou o valor reservado para créditos duvidosos, em que há risco de calote. A cifra cresceu 37,7% na comparação com o mesmo período do ano passado, para R$ 6,03 bilhões, e pesou sobre o desempenho do grupo no trimestre.
Preocupante, o dado sinaliza que será difícil para as instituições financeiras, especialmente as privadas, reduzir agressivamente os juros e elevar a oferta de crédito no país, como propagam Banco do Brasil, Caixa Econômica e o governo Dilma.
A carteira de crédito, incluindo operações de avais e fianças, alcançou o saldo de R$ 400,519 bilhões em 31 de março, com acréscimo de 0,9% em relação ao saldo do quarto trimestre de 2011 e de 16,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
No segmento de pessoas físicas, os destaques no trimestre foram as carteiras de crédito imobiliário e de crédito pessoal, com evoluções de 8,5% e 6,5%, respectivamente.
Entre pessoas jurídicas, houve crescimento de 1,1% no trimestre.
Os ativos totais do Itaú Unibanco somaram R$ 896,8 bilhões entre janeiro e março, alta anual de 15%, enquanto o retorno sobre patrimônio líquido médio anualizado caiu de 22,7% para 19,3% em 12 meses.
Calotes em alta derrubam lucro do Itaú Unibanco
Valor 25/04
Depois de arranhar os números do Bradesco, a inadimplência deste começo de ano deixou marcas também no balanço do Itaú Unibanco, divulgado ontem.
O lucro líquido do maior banco privado do país recuou para R$ 3,42 bilhões no acumulado de janeiro a março, uma queda de 2,96% na comparação com igual período de 2011. "A inadimplência é o ponto de maior atenção [do banco] agora. O crescimento dos pagamentos em atraso tem sido muito grande desde 2010", disse Rogério Calderón, diretor de relações com investidores do Itaú, em teleconferência com analistas.
O banco registrou no trimestre despesas de R$ 6 bilhões para cobrir os pagamentos em atraso, que estão em ascensão no Itaú desde setembro de 2010. O índice de inadimplência encerrou março em 5,1% do total da carteira de crédito, com alta de 0,2 ponto percentual na comparação com dezembro.
Analistas de diversas casas manifestaram preocupação com a tendência dos calotes no Itaú. As ações caíram 1,06%, num dia em que o Ibovespa subiu 0,7%. E a notícia para os investidores não foi das mais animadoras: a qualidade da carteira de empréstimos ainda vai piorar mais. "A inadimplência ainda crescerá nos próximos dois trimestres. E, depois, a queda será mais lenta do que o crescimento que houve", afirmou Calderón.
Uma pista disso é que os atrasos de curto prazo (que vão de 15 a 90 dias) permanecem em elevação. No caso das pessoas físicas, atingiu os 7,9% - aumento de um ponto percentual sobre dezembro.
O Itaú Unibanco fez questão de destacar que a deterioração dos atrasos torna difícil atender o pleito do governo de reduzir os spreads bancários. "O banco gostaria de poder reduzir mais as taxas de juros, mas enxergamos a inadimplência ainda em alta", acrescentou o executivo.
O relatório do Itaú destacou que o spread líquido do banco, já descontadas perdas com inadimplência, ficou em 7,4% em março, com uma queda de 0,6 ponto percentual em relação a dezembro -o spread bruto ficou em 13,5%. A redução, disse Calderón, se deve ao crescimento da inadimplência, que já vem corroendo parcela dos ganhos das instituições financeiras. O Itaú fez questão de evidenciar em sua divulgação de resultados o crescimento da inadimplência e a consequente redução do spread líquido. E fez isso levando em conta toda a polêmica atual em torno da redução dos spreads bancários. Analistas aventaram a hipótese de que os bancos poderiam lançar mão de provisões mais caprichadas, com consequente redução do lucro nesse contexto.
No entanto, embora as despesas com provisões estejam em ascenção em termos absolutos, o volume do estoque de provisões como proporção dos créditos em atraso - conhecido como índice de cobertura da carteira - está em queda no banco desde setembro de 2010. Chegou agora a 148% dos atrasos acima de 90 dias, com uma queda de quase 50 pontos percentuais desde setembro de 2010, quando a instituição financeira começou a sentir a inadimplência. E essa redução do índice vem num cenário de crescimento minguado do crédito, ou seja, é ditada pelo aumento da inadimplência.
Diante dos pagamentos em atraso, o Itaú decidiu desacelerar os desembolsos de novos créditos. Em relação a dezembro, a carteira de financiamentos e empréstimos (sem avais e fianças) teve um crescimento de 0,55%, para R$ 347,3 bilhões, puxado por empresas.
Nas operações de varejo, o banco não apresentou crescimento, e até encolheu no caso das transações de veículos e com cartão de crédito. Em relação a março de 2011, a carteira de empréstimos teve uma expansão de 14,4%.
Apesar dos números mais fracos, o banco optou por ainda não mudar a projeção de expansão da carteira neste ano, que está entre 14% e 17%. Eventuais mudanças, segundo Calderón, serão feitas em meados do ano.
Enquanto as condições de crédito pioraram, o Itaú Unibanco mostrou uma melhora de eficiência no primeiro trimestre deste ano. O índice de eficiência - que mede o quanto um banco precisa gastar para gerar receitas - encerrou março em 44,5%, melhor patamar dos últimos oito trimestres. Em dezembro, esse indicador estava em 47%. Quanto menor o índice do banco, mais eficiente ele é.
Concluída a integração de Itaú e Unibanco, que se uniram em 2008, o banco quer chegar a 2013 com um índice de eficiência de 41%. "As despesas administrativas caíram 10,6% (R$ 405 milhões) e as despesas de pessoal aumentaram 2,5% (R$ 84 milhões) no trimestre", informou o banco em relatório.
Novo perfil dificulta previsão de inadimplência
Os bancos podem até tentar, mas como bem sabem os profetas, prever o futuro não é tarefa das mais fáceis. Que o diga o Itaú, que viu uma salto inesperado da inadimplência corroer seus resultados. "Houve uma redução do crescimento do país, o que não era esperado", disse Rogério Calderón, diretor de relações com investidores do Itaú Unibanco.
A consequência é que os modelos de análise de risco de crédito, ferramenta estatística usada pelos bancos para projetar a inadimplência das carteiras, passam por revisão. "Os modelos são sempre revisitados. Essa desaceleração do crescimento já nos levou a uma mudança do modelo no fim de 2010 e início de 2011. Reduzimos a aprovação de cartão de crédito e de financiamento de veículos, por exemplo", disse.
O caso do Itaú serve de exemplo para um problema que atormenta o sistema bancário brasileiro: como adaptar os modelos de análise de crédito a um mercado que é radicalmente diferente do visto no passado?
"Nos últimos anos, o mercado de crédito passou por uma mudança estrutural grande. As alterações dos modelos precisam acompanhar essas transformações", diz o professor Alberto Borges Matias, da Universidade de São Paulo. No coração dessa mudança, ele posiciona a entrada das classes C e D no mercado e a concentração do sistema em poucos participantes.
Como os modelos de risco são essencialmente baseados no passado, fica difícil acertar em meio às mudanças qual é o perfil do tomador que vai dar calote. Segundo um executivo da área de crédito de um grande banco brasileiro, a onda de novos participantes do sistema financeiro, com um comportamento distinto do observado historicamente, exige que as instituições financeiras refinem as modelagens no critério de renda. "A arte está em calibrar seu apetite de risco. Não é sempre que se acerta nessa medida", diz.
"Sistemas que explicavam a inadimplência com maior enfoque no desemprego já não funcionam. Algumas variáveis do passado já não se aplicam", diz Wermeson França, economista da LCA Consultores. Ele acredita que o comprometimento da renda deve ganhar espaço como critério usado na concessão de empréstimos.
É justamente esse critério que vem sendo reforçado no financiamento a veículos. Se em 2010, os bancos costumavam exigir que o cliente tivesse uma renda superior a três vezes o crédito contratado, hoje essa relação é de quatro vezes, conta Antonio Carlos Altheim, da concessionária Volkswagen Corujão, em Curitiba.
A mudança no perfil da classe média também é um fator que dificulta a previsão de calote. "A antiga classe média tinha sempre um lastro para fazer caixa. Era um segundo carro, um terreno, um dinheiro com parente... A classe média de hoje recorre a mais crédito quando falta dinheiro no caixa", diz Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi).
O paradoxo da poupança
Por Marcelo Côrtes Neri - Valor 24/04
Mistérios são frutos da falta de conhecimento. Nossa ignorância sobre poupança impressiona pela sua centralidade ao desenvolvimento do país. A taxa de poupança doméstica brasileira é metade da chinesa e um quarto da taxa familiar deles.
Nosso parco conhecimento sobre poupança é restrito à área macro, destaque aos estudos de João Issler e Samuel Pessoa. Trabalhos microeconométricos, mesmo tabelinhas descritivas são raros aqui, contrastando com a riqueza de estudos sobre pobreza. A ONU escolheu o Brasil como sede do International Poverty Center, seu think tank global no tema.
Há tempos me interessei pelo tema poupança. Minha tese de mestrado na PUC foi sobre o boom de consumo do Cruzado. Fui a Princeton estudar com Angus Deaton, o maior especialista vivo no tema. Ganhei de brinde aulas com Ben Bernanke, John Campbell e cia. Não foi pela falta de bons guias que perdi o rumo da poupança. O fato é que me juntei à bela manada de pesquisadores sobre pobreza e desigualdade, antes a mania era inflação.
Seria falta de dados? O Brasil recordista mundial de inflação teve sempre forte demanda por pesquisas de orçamento familiares (POF). POFs permitem incorporar efeitos-substituição de aumentos de preço, gerando índices de inflação mais precisos e baixos. O governo deveria ter financiado mais POFs, nem que fosse só para pagar menos correção monetária na dívida pública. Pelo menos hoje dispomos de POFs nacionais que permitem não só estimar os determinantes de poupança, como medir melhor indicadores de pobreza e de desigualdade.
Seria a acumulação de poupança tema de sociedades ricas? A literatura de desenvolvimento nega. O jovem agricultor indiano que poupa frente às intempéries climáticas, ou sofre as consequências de não fazê-la, é figurinha fácil nos estudos internacionais. A anedota do campo é que há mais estudos sobre poupadores rurais indianos do que entrevistados em pesquisas domiciliares sobre o tema.
A baixa taxa de poupança familiar inibe o financiamento do investimento requerido para sustentar altas taxas de crescimento. O Brasil encontra-se num círculo virtuoso onde democracia, equidade e crescimento se retroalimentam. Agora a minha positividade é inversamente proporcional com a perspectiva de taxa de poupança das famílias. Nossa taxa condicionada às suas causas centrais é ainda menor. Senão vejamos:
Desigualdade em queda inibe a poupança. Famílias mais pobres, em particular naquelas em que os filhos estudaram mais tendem a consumir uma parte maior de sua renda. Na década passada a renda da metade mais pobre cresceu 588% mais que a dos 10% mais ricos. A desigualdade de renda brasileira continua caindo pelo efeito combinado de melhoria na distribuição de educação e de programas sociais.
Poupança precaucional é desincentivada pela crescente estabilidade macroeconômica e pela ampliação do Estado de bem-estar. Para além de melhora das rendas correntes, elas provocam redução dos riscos de renda das famílias. A conquista do "investiment grade" e os novos programas sociais sob a égide do Brasil Sem Miséria implicam menor motivação a poupar. Se redistribuir é preciso, Bolsa Família com incentivos à poupança, tipo fundos de pensão, também é preciso.
Envelhecimento diminui a poupança. Na teoria do Ciclo de Vida do Nobel Franco Modigliani, idosos despoupam, em particular sob nossas regras constitucionais. Na transição demográfica em curso, a população idosa cresce três vezes mais rápido que a total. O aumento de renda dos idosos anunciado pelo gatilho do salário mínimo, acaba de disparar reajuste de 14%, prova fumegante do nosso viés gerocrático, ferindo de morte a poupança.
Juros mais baixos, em particular na captação, desestimulam a poupança. As sucessivas quedas da Selic e a pressão sobre os spreads bancários configuram outro viés de baixa poupança.
Crédito é despoupança. Apesar da razão crédito/PIB ter dobrado nos últimos oito anos, é ainda baixa para padrões internacionais. A diminuição das restrições de crédito como no consignado são exemplares.
Fatia do trabalho e formalização maiores desestimulam a poupança, dadas garantias do aviso prévio, FGTS e seguro desemprego.
Minha Casa, Minha Vida sem incentivos à acumulação prévia também. Países quase sem crédito imobiliário, como Japão e Itália, apresentam taxas de poupança financeiras mais altas, voltadas à compra prospectiva de imóveis. Por outro lado, imóveis (e educação) sintetizam bem o hábito construído ao longo de décadas de instabilidade inflacionária de alocar o binômio poupança/investimento em ativos reais.
Otimistas por natureza, como na fábula da cigarra e da formiga, poupam menos. Em quatro pesquisas do CPS/FGV, somos tetra campeões mundiais de felicidade futura. Não há sinal de queda do brasileiro, profissão esperança.
Paradoxalmente, quanto mais otimista sou com as conquistas tupiniquins em desigualdade, incertezas, informalidade, trabalho, longevidade, juros e spreads, crédito e habitação; mais pessimista fico com as perspectivas da poupança das famílias brasileiras. Em tempos de nova classe média e de inevitável mexida na caderneta, é preciso inovar nas políticas pró-poupança
Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da EPGE, Fundação Getulio Vargas. Autor dos livros "Ensaios Sociais", "Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas" e "Microcrédito, o Mistério Nordestino e o Grammen brasileiro". mcneri@fgv.br.
Câmbio e soja provocam alta de projeções para IGPs
Por Arícia Martins - Valor 24/04
De São Paulo
A recente depreciação do câmbio, aliada à alta da soja no mercado internacional, é o que está provocando revisões para cima nas projeções para a inflação dos Índices Gerais de Preços (IGPs) em 2012 observadas no boletim Focus divulgado pelo BC, avaliam economistas consultados pelo Valor. O mercado elevou de 4,84% para 4,91% as estimativas para o IGP-M, sétimo aumento semanal consecutivo, de acordo com o Focus Para o IGP-DI, o aumento foi mais expressivo, de 4,89% para 5,05%.
Os IGPs têm 60% de sua composição atrelada aos preços no atacado - muitos deles cotados no mercado internacional - e, portanto, respondem mais à variação da moeda americana, que tem se valorizado nas últimas semanas. O dólar deixou a casa de R$ 1,70 em fevereiro, subiu para cerca de R$ 1,80 em março e encerrou a semana passada cotado a R$ 1,87. Como o impacto desse movimento no varejo é diluído, a mediana das projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2012 se manteve em 5,08%.
Thiago Curado, da Tendências Consultoria, aumentou de 0,63% para 0,73% sua previsão para o IGP-M de abril após os dados das prévias do mês terem vindo acima do esperado. Segundo o economista, a quebra de safra de grãos do início do ano está surtindo efeito tardio sobre os preços da soja e do feijão, e o câmbio já afeta os produtos industriais. Na segunda medição do mês, a soja avançou 9,9%, enquanto os preços industriais subiram 0,71% e os agrícolas, 0,94%.
"É uma aceleração bastante acentuada", diz. Essa trajetória, no entanto, não deve atingir a inflação ao consumidor no médio prazo, sustenta Curado, já que tanto os preços industriais como agrícolas têm impacto indireto e defasado sobre o varejo.
"Em um primeiro momento, a alta da soja não tem maior impacto, mas como é um insumo básico, num segundo momento promove uma aceleração dos índices ao consumidor", pondera o analista, que colocou viés de baixa na previsão de 5,5% para o IPCA em 2012.
Segundo Daniel Lima, da Rosenberg & Associados, o mercado está reticente em revisar para cima projeções para o IPCA após a surpresa positiva no primeiro trimestre, quando o indicador acumulou elevação de 1,22%, mais de um ponto percentual abaixo dos 2,44% registrados em igual período de 2011.
Depois do resultado de março, quando o IPCA subiu apenas 0,21%, Lima cortou para 5,2% a estimativa para a alta do índice em 2012, mesmo após o reajuste de mais de 20% nos preços dos cigarros e aumento dos remédios. "Além disso, o impacto do dólar nos preços ao consumidor é diluído ao longo da cadeia", afirma.
Para os IGPs, no entanto, o cenário é de aceleração, diz ele. A soja, segundo Lima, subiu 8% em reais na média diária de abril contra março, puxando avanço de 4% de uma cesta de commodities agrícolas em igual período. "A soja tem mostrado alta consistente desde a segunda quinzena de dezembro."
Lendas urbanas
Por Antonio Delfim Netto - Valor 24/04
Para dar a dimensão adequada a algumas lendas urbanas que dominam certas análises da situação atual da economia brasileira, é preciso, de início, combinar algumas coisas:
1) que o desenvolvimento social e econômico não se faz sem um Estado constitucionalmente controlado, com instituições adequadas e capacidade para regular os mercados, particularmente, o financeiro;
2) que o desenvolvimento econômico depende da quantidade e qualidade dos fatores de produção que o país dispõe, e que, em condições normais de pressão e temperatura, a importação é, também, um fator de produção;
3) que a velocidade do crescimento depende do volume e da qualidade do investimento e, portanto, da distribuição do PIB produzido entre consumo presente e o que se destina ao investimento, ou seja, ao emprego e ao consumo futuros;
4) que no regime democrático essa distribuição não é um fato econômico determinado pelo mercado. É um fato político determinado pela urna. No regime de sufrágio universal, as duas instituições se autocontrolam e determinam a velocidade do crescimento econômico e da inclusão social civilizatória;
5) que devido à finitude dos fatores de produção internos e do limite do crédito para financiar as importações, não é permanentemente possível maximizar, ao mesmo tempo, o crescimento econômico e a inclusão social sem produzir ou um aumento da taxa de inflação, que anula e torna uma ilusão a inclusão social, ou um déficit em conta corrente não financiável, que acaba matando ao mesmo tempo o crescimento e a inclusão. O problema é físico e não ilidível por mágicas monetárias, fiscais ou cambiais; e
6) que os atuais modelos econômicos, como confessou o ex-presidente do Banco Central Europeu Jean-Claude Trichet (em conferência feita em março, na Harvard´s Kennedy School), não lhe deram o menor conforto (e não nos dão!): "o estado da arte da macroeconomia foi praticamente inútil para lidarmos com a crise que se iniciou em 2007". Isso significa que devemos ter muito cuidado e grande humildade quando declaramos que as ações da política econômica e social do governo produzem "distorções" medidas com relação a modelos abstratos, dos quais obviamente não podemos extrair recomendações normativas.
A primeira lenda urbana é a frequente afirmação que "não há nada de errado com nossa taxa de câmbio, pois ela reflete apenas o resultado natural das nossas vantagens comparativas". No exemplo do livro escolar, cada país se especializa: o Brasil, por hipótese, em produtos agrominerais, e a China em produtos industriais. É esse o futuro que queremos para o Brasil? Os países podem construir vantagens comparativas, como foi o caso do Brasil no passado e é hoje na China.
Quem tem dúvida sobre isso não deve perder o WP/12/79, do FMI, "The Global Welfare Impact of China", de Giovanni, J.-Levchenko e Zhang, J., onde se afirma que "o mundo, inclusive os países desenvolvidos, fica muito melhor quando o crescimento chinês favorece os atualmente desvantajosos setores competitivos".
A segunda lenda urbana é que nosso BC teria abandonado a política de metas inflacionárias, o que, "dado à experiência histórica vivida até 1994, pode colocar-nos numa rota hiperinflacionária". É claro que num regime de câmbio flutuante, quando a taxa de juro real interna é igual à externa, a taxa de inflação mais conveniente é a que for igual à de nossos competidores. Mas não há qualquer evidência empírica sólida que uma taxa de inflação acidentalmente acima da meta de 4,5%, que continua a ser perseguida pelo BC, seja prejudicial ao crescimento e ao emprego.
A terceira lenda urbana, que perturba o sono de alguns ingênuos adoradores da religião da plena liberdade de comércio, é a que leva a sério a OMC e jura que toda taxa de câmbio é de equilíbrio. O que mais poderia ser, se é o mercado quem a determina? E ainda se atribui ao Brasil a prática de "terrível surto protecionista que, se seguido por outros países, colocará em risco o crescimento mundial".
Essa afirmação é desmontada com os dados do "Trade Tensions Mount: The 10th GTA Report", do Global Trade Alert, de novembro de 2011, que incluem as medidas de intervenção no comércio de 19 países. As "tensões no comércio internacional crescem", mas o Brasil não é um caso especial ou notório, como revela a tabela abaixo. Na coluna A, estão registrados os números de 11 países cujas medidas contrariam o interesse do país, e na coluna B, o número de países afetados por suas medidas, exclusive medidas antidumping, antissubsídios e de salvaguarda.
Vemos que o Brasil (até o terceiro trimestre de 2011) havia sido atingido por medidas tomadas em 66 países e, por sua vez, tomado medidas que atingiram 131 países. No caso da China, os números são, respectivamente, 75 e 193. Os números mostram que não há nada que possa nos incriminar como "poderosos destruidores do equilíbrio mundial"...
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
A inadimplência bancária
Por Jairo Saddi - Valor 23/04
Recentemente, as ações dos bancos foram castigadas no mercado de bolsa. Além da eterna discussão sobre a redução do spread bancário, um fato pouco surpreendente vem chamando a atenção mais uma vez: a inadimplência elevada e o interesse do governo em fortalecer o crédito nos bancos oficiais como impulso ao desenvolvimento nacional. Segundo o discurso oficial, entre as razões pelas quais o juro básico já caiu 350 pontos, mas os spreads ainda não, está a inadimplência bancária.
De acordo com dados do Banco Central (BC), a inadimplência está hoje em 5,8% sobre o crédito total, sendo que a inadimplência das famílias aumentou de 5,7%, no início de 2011, para 7,6%, neste ano. Ao mesmo tempo, o nível de endividamento chegou a 43% da renda acumulada dos últimos 12 meses, bem acima dos níveis históricos de comprometimento de até 30% da renda mensal.
Voltou ao cerne, portanto, a preocupação com a inadimplência bancária. O primeiro grande problema téorico da inadimplência é a informação, uma vez que os bancos desconhecem quem são os bons devedores, ou, em outras palavras, não consegue distingui-los dos maus pagadores. Claro que na prática, o bom uso de sistemas de informação reduz esse problema, mas, em tese, toda informação positiva é ex-ante, enquanto a inadimplência é sempre um fato ex-post. Ademais, o banco simplesmente não pode controlar as ações do devedor, nem o ambiente de negócios em que ele está inserido, tampouco as crises com que pode se defrontar.
Os problemas que surgem da relação banco-devedor podem parecer triviais, mas são extremamente complexos e envolvem decisões do tipo: 1) escolher quem são os agentes econômicos que merecem crédito; e 2) decidir emprestar, na taxa de juros do mercado (e desejada pelo banco, na sua equação risco-retorno), ao melhor devedor, ou ao devedor que está disposto a aceitar tomar recursos àquela taxa.
É consenso que o sistema financeiro processa informação e serve como um meio de atenuar as assimetrias informacionais enquanto intermediário de crédito. O banco não conhece tudo sobre seus clientes, nem sobre a sua capacidade, ou integridade, de honrar seus débitos. Aliás, não dispõe de nenhuma informação a seu respeito. Pode-se dizer que ocorre assimetria informacional quando uma parte detém mais informação sobre outra, conceito que foi mais bem explicitado por George Ackerlof em relação a determinados produtos ou atributos de um dado bem, quando o consumidor não é capaz de pagar por eles. O exemplo dado por Ackerlof é o de um carro usado - nos EUA, "lemons" -, cujo vendedor dispõe de muito mais informação do que o comprador (por exemplo, se o carro foi batido ou se o motor está avariado).
Nos mercados de crédito, há assimetria informacional no sentido de que o devedor sabe mais sobre a sua capacidade de pagar pelo crédito do que o banqueiro, e aí há maior espaço para comportamentos oportunistas após a celebração do contrato - o que fatalmente acaba por elevar os custos da transação. Isso acarreta o que se conhece como "seleção adversa", ou seja, apenas os maus pagadores acabam "selecionando" os ofertantes de crédito.
Uma das formas tradicionais de mitigar a falta de informação é apelar para os chamados birôs de créditos - úteis se, e somente se, a informação for confiável, precisa e de fácil acesso. Resumidamente, estas são algumas características, reconhecidas pelo Banco Mundial como fundamentais para a avaliação correta do crédito de um consumidor ou empresa: 1) informação positiva (empréstimos em aberto, histórico de pagamento, ativos etc.), além de informação negativa (inadimplência ou fraude no pagamento); 2) informações gerenciais tanto do indivíduo como da empresa; 3) informações sobre o histórico de pagamentos e de compras, tanto dos varejistas como das companhias de serviço público, como telefonia, eletricidade, gás e água; 4) informações de seu histórico de crédito por, no mínimo, cinco anos consecutivos.
Para fortalecer o aumento do crédito no Brasil, é preciso ampliar o uso dos vários sistemas de informações e buscar a redução dos custos de transação. O Brasil precisa disso com urgência.
Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, professor de Direito do Insper
A luta da China para desacelerar-se
Por Yu Yongding - Valor 23/04
Na abertura da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o parlamento chinês, o premiê Wen Jiabao anunciou que a meta de crescimento econômico anual para 2012 era de 7,5%. Com a economia mundial ainda às voltas para recuperar-se, o anúncio por Wen de um encolhimento tão significativo no índice de expansão da China, naturalmente, provocou preocupações generalizadas por todo o mundo.
É importante destacar, no entanto, que Wen estava expressando uma política e não uma previsão de desempenho. O propósito de buscar um crescimento menor, explicou premiê, é "guiar as pessoas por todos os setores a focar seu trabalho na aceleração da transformação do padrão de desenvolvimento econômico e tornar o desenvolvimento econômico mais sustentável e eficiente".
Os investimentos em ativos fixos são o motor mais importante de crescimento da China. Como país em desenvolvimento com renda per capita anual inferior a US$ 5 mil, ainda há espaço significativo para a China aumentar seu estoque de capital. O ritmo de crescimento dos investimentos, contudo, é alto demais. A questão não é se a China precisa de mais investimentos, mas se a capacidade de absorção da China pode continuar a acomodar o elevado ritmo de crescimento dos investimentos visto nos últimos dez anos.
Nesse sentido, a relação entre investimentos e Produto Interno Bruto (PIB), que na China é próxima a 50% e está em alta, pode ser considerada como indicador da tensão que o investimento de capital fixo exerce sobre a economia. Não é completo exagero dizer que a capacidade da economia de absorver o crescimento nos investimentos chegou a seu limite.
A recente debacle dos trens de alta velocidade é um bom exemplo. Em 2003, a China construiu seu primeiro projeto de trem de alta velocidade. Foi um componente fundamental do pacote de estímulos econômicos de 4 trilhões de yuans (US$ 630 bilhões) lançado durante a crise financeira mundial de 2008 e 2009, de forma que os investimentos na construção de ferrovias de alta velocidade aumentaram a grandes passos. No fim de 2010, a rede em operação superava os 8 mil quilômetros, com mais 17 mil quilômetros em construção. Em contraste, todos os países ocidentais combinados levaram meio século para construir um total de 6,5 mil quilômetros. Diante de tal rapidez na construção, uma catástrofe era quase inevitável.
Quando o crescimento nos investimentos supera a capacidade de absorção da economia, isso leva à rápida deterioração na eficiência desses investimentos, o que por sua vez prejudica as perspectivas de crescimento de longo prazo. Atualmente, há evidências generalizadas disso na China. Para reverter essa tendência, em uma economia guiada pelos lucros, certa trégua no crescimento dos investimentos não é apenas necessária, mas inevitável.
Além da relação entre investimentos e PIB da China precisar ser reduzida a um patamar mais sustentável, um desafio igual ou mais importante é ajustar a estrutura dos investimentos. Por muitos anos, o segmento mais importante de investimento na China foi o de desenvolvimento imobiliário, que representa cerca de 10% do PIB e 25% dos investimentos totais. Os recursos, no entanto, precisam ser alocados a projetos que desenvolvam o capital humano, proporcionem bens públicos e alimentem a criatividade e inovação. Ajustar a estrutura de investimentos, contudo, inevitavelmente vai desacelerar o ritmo de crescimento dos investimentos, pelo menos no período de transição, e, portanto, desacelerar a expansão total do PIB.
O comércio internacional desempenhou papel central no desenvolvimento econômico da China nos últimos 30 anos. O mercado mundial, entretanto, não é mais capaz de absorver as gigantescas exportações chinesas, para não mencionar o impacto imediato das mazelas econômicas na Europa e Estados Unidos sobre a demanda por exportações. Além disso, o aumento nos custos da mão de obra e a valorização do yuan também vão minar o setor exportador da China, provocando a desaceleração da expansão do PIB neste ano.
Poucos negariam a necessidade de a China passar a exibir um crescimento econômico menor, porém melhor. O problema é que se a China quiser encolher a expansão do PIB dos 9,2% em 2011 para 7,5% em 2012, sem piorar o padrão de crescimento elevando ainda mais a alta relação entre investimentos e PIB, o crescimento anual dos investimentos precisa ser igual ou menor a esses 7,5%.
Um cálculo aproximado é suficiente para mostrar que, a menos que o governo esteja disposto a tolerar um aumento na relação entre investimento e PIB, atingir a meta de crescimento de 7,5% do PIB implica queda significativa no ritmo de crescimento dos investimentos. Para compensar o impacto negativo na expansão do PIB, também afetado pela limitação ao aumento das exportações decorrente da fraca demanda mundial, o consumo local precisa crescer de forma ainda mais acentuada, o que é difícil de imaginar. Em outras palavras, reduzir a alta do PIB para 7,5% sem tornar o padrão de crescimento da China ainda mais irracional é uma missão impossível.
Um cenário mais provável para 2012, portanto, é de crescimento menor do que em 2011, mas ainda significativamente acima de 7,5%. De forma correspondente, seu padrão de crescimento, puxado pelos investimentos, será ainda mais fortalecido, embora a um ritmo menor de crescimento. De outra forma, seria difícil evitar que a política provocasse uma aterrissagem brusca.
De fato, conseguir um índice de crescimento econômico mais moderado sem provocar um pouso brusco é um dos desafios mais complicados enfrentados pelo governo chinês. Uma aterrissagem brusca, simplesmente, não é uma opção a ser cogitada.
Com a posição fiscal do país ainda positiva, é difícil imaginar que a liderança chinesa seja tão teimosa na busca pela "aceleração da transformação do padrão de desenvolvimento econômico" a ponto de arriscar-se a deparar-se com tal opção. Mesmo se fosse, os governos locais, endividados e obcecados com o PIB, provavelmente lutariam para alcançar o maior crescimento possível para eles, seguindo apenas da boca para fora a convocação de Wen para desacelerar-se. É por isso que, apesar da meta oficial, a maioria dos economistas chineses ainda aposta em um índice de crescimento econômico bem acima dos 8% em 2012. (Tradução de Sabino Ahumada)
Yu Yongding é presidente da China Society of World Economics, ex-membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China e ex-diretor do Instituto de Economia e Política Mundial, da Academia Chinesa de Ciências. Copyright: Project Syndicate, 2012.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
TV ON LINE
JOELMIR BETING FALA SOBRE COMPRAS DE DÓLARES PARA REDUZIR A DESVALORIZAÇÃO DA MOEDA TEMPO: 00:01:35
Em comentário ao Jornal da Band, Joelmir Beting fala sobre as medidas protecionistas – compras de dólares- adotadas pelo Banco Central para reduzir a desvalorização da moeda americana no Brasil.
TV: TV BAND
PROGRAMA: JORNAL DA BAND
APRESENTADOR: JOELMIR BETING
ECONOMISTA-CHEFE DA AUSTIN RATING COMENTA A ECONOMIA BRASILEIRA TEMPO: 00:06:53
Em entrevista ao Conta Corrente, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, falou sobre cenário econômico brasileiro e os efeitos na redução da taxa básica de juros.
*ALEX AGOSTINI, Economista-chefe da Austin Rating
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
CRESCE INADIMPLÊNCIA DE CARROS FINANCIADOS TEMPO: 00:02:32
Cresceu o número de brasileiros que não conseguem pagar carros comprados a prazo. Em um ano a inadimplência chegou a 5,5% do total, Muitas vezes a dívida é maior que o valor do carro.
SONORA:
*REINALDO DOMINGOS, consultor financeiro.
TV: TV RECORD DF
PROGRAMA: DIRETO DA REDAÇÃO
APRESENTADOR: LÍVIA BRAZ
PRESIDENTE DO CONSELHO DE ECONOMIA DA FECOMÉRCIO COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO DO BRASIL - PARTE 1 TEMPO: 00:04:28
PRESIDENTE DO CONSELHO DE ECONOMIA DA FECOMÉRCIO-SP COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO DO BRASIL - PARTE 2 TEMPO: 00:02:53
O presidente do Conselho de Economia da Fecomércio, Paulo Rabello de Castro, durante entrevista ao Conta Corrente, falou sobre o cenário econômico e as declarações do ex-ministro Delfin Neto, e do Prêmio Nobel de economia, Paul Krugman.
*PAULO RABELLO DE CASTRO, presidente do Conselho de Economia da Fecomércio
*DELFIN NETO, ex-ministro da Fazenda
MENÇÃO
*PAUL KRUGMAN, Prêmio Nobel de economia
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
Em comentário ao Jornal da Band, Joelmir Beting fala sobre as medidas protecionistas – compras de dólares- adotadas pelo Banco Central para reduzir a desvalorização da moeda americana no Brasil.
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ECONOMISTA-CHEFE DA AUSTIN RATING COMENTA A ECONOMIA BRASILEIRA TEMPO: 00:06:53
Em entrevista ao Conta Corrente, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, falou sobre cenário econômico brasileiro e os efeitos na redução da taxa básica de juros.
*ALEX AGOSTINI, Economista-chefe da Austin Rating
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CRESCE INADIMPLÊNCIA DE CARROS FINANCIADOS TEMPO: 00:02:32
Cresceu o número de brasileiros que não conseguem pagar carros comprados a prazo. Em um ano a inadimplência chegou a 5,5% do total, Muitas vezes a dívida é maior que o valor do carro.
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PRESIDENTE DO CONSELHO DE ECONOMIA DA FECOMÉRCIO COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO DO BRASIL - PARTE 1 TEMPO: 00:04:28
PRESIDENTE DO CONSELHO DE ECONOMIA DA FECOMÉRCIO-SP COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO DO BRASIL - PARTE 2 TEMPO: 00:02:53
O presidente do Conselho de Economia da Fecomércio, Paulo Rabello de Castro, durante entrevista ao Conta Corrente, falou sobre o cenário econômico e as declarações do ex-ministro Delfin Neto, e do Prêmio Nobel de economia, Paul Krugman.
*PAULO RABELLO DE CASTRO, presidente do Conselho de Economia da Fecomércio
*DELFIN NETO, ex-ministro da Fazenda
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*PAUL KRUGMAN, Prêmio Nobel de economia
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Contradições do ativismo keynesiano brasileiro
Por André Nassif - Valor 20/04
Não há dúvida de que a adoção da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (2004), da Política de Desenvolvimento Produtivo (2009) e do Plano Brasil Maior (2011) marcou a tentativa de resgate da política industrial no Brasil, depois de mais de uma década de difusão da ideia de que reformas econômicas liberalizantes per se seriam condição suficiente para restabelecer o desenvolvimento econômico brasileiro.
Apesar de repetida à exaustão a ideia da inexistência de argumentos para a defesa de políticas industriais setoriais na década de 1990, a verdade é que há uma abundante literatura teórica e empírica defendendo a tese contrária. O economista Dani Rodrik, de Harvard, procurou dar cabo à controvérsia utilizando a expressão "política industrial, não me perguntem por que, mas como", que pode ser interpretada em dois sentidos: primeiro, não basta apenas justificar a necessidade, mas é preciso contar com um diagnóstico preciso dos gargalos e setores prioritários, além de uma eficiente execução e acompanhamento dos resultados; segundo, a política industrial deve ser adotada nas instâncias micro, meso e macroeconômicas, que se encarregam de sua coordenação com as políticas tecnológica, de comércio exterior, monetária, fiscal e cambial.
Ainda que o atual governo venha fazendo um enorme esforço, por enquanto sem sucesso, para consolidar tal coordenação, desde 2004 o real tem mostrado tendência persistente de excessiva sobrevalorização. Embora a política monetária ultraexpansionista praticada nos países desenvolvidos em resposta à crise de 2008-2009 tenha agravado o problema do desalinhamento cambial no Brasil, convertendo a enorme liquidez internacional pré-crise no atual "tsunami monetário", o fato é que a questão cambial não é apenas um problema externo, mas principalmente doméstico.
Da mesma forma que os países ricos têm adotado medidas radicais para defender o crescimento e o emprego, nós também deveríamos encontrar meios igualmente radicais, se necessário, para deter o processo de semiestagnação que nos acompanha desde o início da década de 1980.
Dependendo dos conceitos utilizados para definir a taxa de câmbio real mais adequada para o desenvolvimento, os estudos empíricos apontam que o dólar deveria estar entre R$ 2,40 e R$ 2,90. Tamanho nível de desalinhamento cambial evidencia que os incentivos governamentais divulgados no início de abril, cujos impactos podem conceder apenas algum alívio temporário à indústria, não serão capazes de deter o processo em curso de desindustrialização no Brasil e muito menos assegurar taxas de crescimento significativamente superiores e sustentáveis no curto ou no longo prazo. Com efeito, os empresários sempre considerarão elevados os custos de oportunidade para ampliar os investimentos se observarem que as taxas de juros reais continuam muito superiores às internacionais e a moeda doméstica com tendência persistente à sobrevalorização.
Embora o problema cambial não seja recente, o Brasil tem sido fortemente afetado pelas expectativas negativas do cenário internacional adverso, que refreia a demanda privada por novos projetos, situação agravada pela avalanche de capitais externos de curto prazo que reafirmam a tendência à sobrevalorização. Os incentivos governamentais adotados no início do mês, por focarem basicamente o lado da oferta, só seriam efetivos para acelerar o crescimento se o contexto macroeconômico corrente fosse favorável à demanda privada orientada para projetos de investimento, de inovações e de exportações. Mas como o problema é de expectativas negativas e de fraca coordenação entre as políticas monetária, fiscal e cambial, a agenda prioritária deveria estar localizada na esfera da política macroeconômica, e não da política industrial.
O Banco Central (BC) tem procurado melhorar a coordenação com a Fazenda no sentido de reduzir as taxas de juros e reverter a convenção dos agentes com respeito às expectativas futuras das taxas de juros. A equipe econômica, por sua vez, tem tentado impor medidas ad hoc e homeopáticas de controle de capitais, mesmo sabendo que estas só podem impor um piso para a moeda brasileira apreciada, mas não são capazes de restaurar um nível de taxa de câmbio real pró-crescimento.
Embora autoridades do governo relembrem que possuem um arsenal bélico à disposição para deter o "tsunami monetário", é preciso sangue frio e coragem para dispará-lo. Afinal, dado o contexto de expectativas negativas e com um déficit em conta corrente projetado para cerca de US$ 69 bilhões em 2012 (em torno de 3% do PIB), dificilmente teremos uma saída organizada para o realinhamento cambial, com ou sem nova crise global.
Então, a agenda da política macroeconômica deveria priorizar dois alvos: primeiro, o fiscal, no sentido de reduzir temporariamente as metas de superávit primário, direcionando maior parcela do orçamento público para investimentos em infraestrutura (além dos já previstos para a Copa do Mundo e Olimpíada). Ainda que estes não tenham a pretensão de compensar a baixa taxa de investimento privado, poderiam induzir à decisão de investimento dos empresários por meio do efeito multiplicador de renda keynesiano e pela melhoria do estado de confiança futura, que impulsiona o animal spirits empresarial; e, segundo, o cambial. Neste caso, o arsenal bélico deve ser corajosamente ativado: adoção de "quarentena" de um ano a todo novo influxo de capital, seja de curto, médio ou longo prazo. Muitos poderiam afirmar que essa medida acarretaria forte depreciação da moeda brasileira e inflação.
No entanto, enquanto a depreciação do real seria a solução definitiva para realinhar os preços relativos em direção ao crescimento e ao aumento das exportações e aí, sim, tornar efetivas as medidas de política industrial já adotadas, não há qualquer razão teórica ou empírica para esperar que o efeito inflacionário decorrente seja permanente, desde que mantida a atuação do Banco Central no sentido de inverter a antiga convenção das expectativas inflacionárias. Se isso implicará a mudança ou mesmo a eliminação do regime de metas de inflação, as autoridades econômicas melhor dirão.
André Nassif é professor de economia internacional da Universidade Federal Fluminense e economista do BNDES.
Sem soja, exportação para China cai 6%
Por Rodrigo Pedroso - Valor 20/04
De São Paulo
Nos três primeiros meses do ano, as exportações brasileiras para a China desaceleraram. Elas somaram US$ 7,9 bilhões, representando um aumento de 10,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Esse foi o menor crescimento dos últimos anos.
O aumento de 10% foi garantido principalmente pela exportação da soja, que cresceu 127%, impulsionada por uma antecipação de compras do grão. Sem esse produto, as vendas do Brasil para a China teriam caído 6% no período. Minério de ferro e petróleo, que somados responderam por mais da metade de tudo o que foi vendido aos asiáticos no ano passado, tiveram queda nas vendas e puxaram o resultado para baixo, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Os três produtos - soja, minério e petróleo - responderam no ano passado por 80% da exportação brasileira para a China, sendo, portanto, fundamentais para indicar o rumo do comércio entre os dois países.
Produto mais procurado pelos chineses, as vendas de minério de ferro cresceram 5% em volume no período, mas a queda do preço no mercado internacional fez a commodity render 12% a menos de divisas do que no primeiro trimestre do ano passado, com as vendas totais chegando a US$ 3,3 bilhões. O preço do petróleo ficou em patamar semelhante ao de 2011, mas a desaceleração do apetite chinês pelo produto fez o volume cair 32%, o que diminuiu em 17% as exportações em dólares, que somaram US$ 1 bilhão, segundo estudo elaborado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) com base nos dados do Mdic.
Para André Soares, coordenador e analista de pesquisas do Conselho, a queda das exportações brasileiras de minério de ferro e petróleo respondeu ao movimento de desaceleração da China que, de acordo com a estimativa oficial, espera crescimento de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano ante 9,2% de 2011. "Os dois casos foram acentuados, mas acompanharam a demanda total de certa forma. Em toneladas, as importações chinesas de minério no trimestre cresceram 6%, enquanto em dólares elas caíram 8%. No petróleo, a diminuição foi de 10% em peso e de 23% em dólares", diz ele.
Apesar de o volume crescer, a tendência é que as vendas de minério de ferro rendam menos aos exportadores neste ano, segundo o presidente em exercício da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) José Augusto de Castro. Em março do ano passado, o Brasil vendeu a tonelada do produto a US$ 116. Doze meses depois, a US$ 100. "A média em 2011 ficou em US$ 128, com picos de US$ 136. Mantendo o patamar atual, vai haver um impacto grande na balança até o fim do ano, pois o minério é o produto mais vendido aos chineses", diz.
O substancial aumento da soja, que registrou US$ 2 bilhões em vendas, deu-se em virtude da intensificação das exportações desde o fim do ano passado em função dos preços favoráveis do produto, de acordo com Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. "Entre janeiro e fevereiro, exportamos US$ 640 milhões. Nos mesmos meses do ano passado, as vendas foram de US$ 53 milhões. Houve um esforço na exportação dos estoques do mercado brasileiro por causa da relativa escassez do produto no mercado mundial."
As importações vindas da China, por outro lado, cresceram mais do que as exportações - 13,8%, refletindo na balança comercial entre os dois países. No primeiro trimestre do ano passado, o déficit no comércio com os chineses foi de US$ 51 milhões. Em função do crescimento maior das compras brasileiras, capitaneadas por máquinas, instrumentos e aparelhos eletrônicos, o saldo negativo pulou para US$ 292 milhões no primeiro trimestre de 2012.
O déficit, no entanto, poderia ter sido maior, já que as compras de carros chineses caíram para menos de US$ 4 milhões no trimestre. Em volume, vieram 834 carros de janeiro a março deste ano, situação que está relacionada à forte importação do último trimestre do ano passado, quando as importações somaram 200 milhões e corresponderam a entrada de 31,4 mil automóveis. O movimento foi uma reação ao aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre o produto que passou a valer no fim de dezembro.
O resultado dos três primeiros meses no comércio entre Brasil e China acompanha a previsão para o ano. "Prevê-se desaceleração na produção deles de veículos e linha branca, gerando uma demanda menor por aço e energia que vai acabar impactando o preço das commodities exportadas pelo Brasil", diz Silveira, que manteve a previsão de superávit de US$ 20 bilhões para a balança comercial do Brasil em 2012. "No fim do ano passado já prevíamos crescimento menor das vendas à China."
A AEB também manteve a previsão feita em dezembro e vai esperar para refazer seus cálculos. "Trabalhamos com um superávit de US$ 3 bilhões. Com base na conjuntura atual eu o aumentaria para cerca de US$ 8 bilhões, mas o cenário pode mudar até julho, quando será feita a revisão", diz Castro
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Cambio avoante
Por Ronaldo Pignataro
Parece que a política cambial passa de flutuante a avoante de acordo com as interferências pesadas da autoridade monetária no mercado cambial nestes últimos dias.
De fato, a moeda norte-americana tem se mantido comportada em relação ao euro rondando os 1,31 no último mês ao passo que o real em relação ao euro está temperado à baiana, um pouco mais picante que o usual na moeda verde. O que será que pode estar acontecendo?
Em condições normais, a resposta a uma corrida deste tipo, entraria o BC vendendo, até como forma de aliviar seus 370 bilhões de dólares aplicados à taxas negativas, mas o que acontece já ganhou manchetes em vários jornais:
Dólar na maior cotação: R$ 1,877
Diario do Nordeste 19/04/12
São Paulo Com as incertezas externas no radar, o fluxo cambial negativo de US$ 799 milhões neste mês no mercado local e a intenção explícita do governo de desvalorizar o real, o dólar manteve demanda forte ontem, que sustentou seu preço em alta ante o real pela quarta vez consecutiva. O Banco Central repetiu dois leilões de compra à vista pela quinta sessão seguida, ajudando a potencializar o ganho da moeda, já que aceitou pagar taxas acima do preço de mercado.
O dólar à vista praticamente saltou dois níveis de preço: passou de R$ 1,854 no balcão, na terça-feira, para R$ 1,877 ontem, com ganho diário de 1,24% e no maior valor desde 25 de novembro de 2011 (em R$ 1,885). O resultado não só zerou as perdas no ano como levou a moeda americana a uma alta de 0,43% ante o real em 2012. Nesses quatro pregões no azul, o dólar no balcão valorizou-se 2,74%, o que equivale ao ganho acumulado em abril.
Então a pergunta que não quer calar é por que o BC tem aceitado pagar taxas acima do preço de mercado?
Se é que isso é verdade, convenhamos um tanto estranho essa de “aceitar” taxas acima do mercado, porém tal assertiva já me fez olhar com certa cobiça a nota de um dólar que levo em minha carteira, refuto a isso o efeito psicológico da noticia.
Com o adubo no dito popular de tudo que sobe desce e com o fato plantado no meu cérebro viro a página do jornal para a próxima manchete:
Colheita da soja avança para fase final no Brasil, diz Céleres
SÃO PAULO, 16 Abr (Reuters) - A colheita da soja se aproxima da fase final, com 90 por cento das áreas semeadas nesta temporada no centro-sul do Brasil colhidas até a última sexta-feira, apontou a Céleres em relatório desta segunda-feira.
O índice de colheita está próximo dos 89 por cento registrados neste mesmo período do ano passado. Na semana, o avanço foi de quatro pontos percentuais, segundo a consultoria.
Em todo o país, a colheita atingiu 88 por cento, contra 82 por cento na semana anterior e 85 por cento de igual período de 2011. Trata-se de um ritmo avançado se considerada a média brasileira dos cinco anos anteriores, que é de 80 por cento.
A safra de soja sofreu perdas com a estiagem nos Estados do Sul e sul de Mato Grosso do Sul, sendo rebaixada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a 65,6 milhões de toneladas em 2011/12, após o recorde de 75,3 milhões de toneladas do ciclo anterior.
A Céleres estima a safra brasileira de soja em 67,9 milhões de toneladas.
A comercialização da soja também segue em ritmo firme, beneficiada pela alta recente da oleaginosa no mercado internacional.
As vendas da atual safra somaram 72 por cento do total, contra 60 por cento da mesma época do ano passado e 56 por cento da média dos cinco anos anteriores.
Para a Céleres, diante do cenário menos otimista para a recuperação na zona do euro, as cotações da soja podem ter alguma retração na semana.
"Todavia, os fundamentos de mercado (oferta e demanda) ainda deverão prover sustentação para as cotações da oleaginosa durante o ano de 2012", previu a consultoria.
Engraçado como funciona o cérebro. De repente me vi um grande produtor de soja, feliz e repleto de agradecimentos.
Copom segue o script e reduz juro para 9% ao ano
Por Mônica Izaguirre e Murilo Rodrigues Alves - Valor 19/04
De Brasília
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) cumpriu o que sinalizou na ata da reunião de março e reduziu a taxa básica de juros da economia em mais 0,75 ponto percentual. A decisão foi tomada em reunião encerrada há pouco. O corte, que levou a Selic para 9% ao ano, já era esperado pelo mercado. A decisão foi unânime.
No comunicado, o Copom "considera que, neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação. O colegiado nota ainda que, até agora, dada a fragilidade da economia global, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária. Diante disso, dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 9% ao ano, sem viés".
A grande pergunta que faz o mercado a partir de agora é por quanto tempo a taxa permanecerá nesse nível. Na ata da reunião anterior, quando a Selic caiu de 10,5% para 9,75% ao ano, o Copom sinalizou que o ciclo de afrouxamento monetário iniciado no fim de agosto de 2011 terminaria quando o juro básico chegasse a 9% ao ano.
No texto, o comitê disse ser "elevada a probalibilidade de concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares ligeiramente acima dos mínimos históricos e nesses patamares se estabilizando".
O mínimo histórico é de 8,75% ao ano, nível que vigorou de 23 de julho de 2009 a 28 de abril de 2010. Daí, a expectativa de que a Selic se estabilize em 9%. A questão é por quanto tempo.
Pesquisa feita pelo Valor com 32 instituições mostrou que 29 acreditam que a Selic não cai de novo neste ano. Somente três das empresas consultadas acreditam que haverá no corte ainda em 2012, de 0,25 ponto percentual, para 8,75% ao ano.
A mediana das projeções colhidas pelo BC na última edição da pesquisa Focus sugere que a Selic deverá permanecer nesse nível pelo menos até o fim de 2012. As projeções das cinco instituições que mais acertam previsões também apontam Selic em 9% ao ano em dezembro de 2012.
A mediana do agregado só se diferencia da mediana do chamado Top 5 no que se refere ao nível da Selic no fim de 2013. Enquanto a do conjunto da pesquisa aponta juro em 10% ao ano, a do Top 5 indica que a taxa permanecerá em 9% ao ano até fim do ano que vem.
Copom deixa porta aberta para novos cortes na Selic
O esperado comunicado da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) não indicou que a Selic seguirá caindo, tão pouco foi claro em dizer que o ciclo de corte acabou.
Com isso, a perspectiva é de queda nas taxas de juros futuros negociadas na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F).
As taxas futuras já vinham mostrando uma chance de 50% de redução da Selic para baixo dos 9%. E tal movimentação pode ser reforçada hoje.
Na avaliação do economista para América Latina do Standard Chartered, Ítalo Lombardi, o comentário do BC foi curto e sem grandes novidades, ainda assim, o tom foi de tranquilidade.
O BC fala em riscos limitados para a trajetória da inflação e que dada a fragilidade da economia mundial, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária.
"O tom do comunicado parece deixar a porta aberta para novas reduções", diz o economista.
Ainda de acordo com Lombardi, não é possível extrair informação de que o BC entrou em pausa. Ou seja, segura a taxa em 9%, com a possibilidade de novas reduções até o fim do ano.
Na visão do economista-sênior do Espirito Santo Investment Bank, Flávio Serrano, o comunicado não deixa claro que o ciclo de afrouxamento acabou.
Por isso mesmo, não pode ser descartada a possibilidade de novas reduções.
Como o BC foi "curto e grosso" no comunicado, a ata será elemento fundamental para a formação mais clara das expectativas. Segundo Lombardi, o foco estará voltado ao parágrafo no qual a autoridade monetária revelou sua intenção de levar a Selic para próximo das mínimas históricas.
Se fôssemos levar a comunicação oficial ao pé da letra, seria possível afirmar que o BC encerrou o ciclo ou colocou em pausa, pois o objetivo era levar o juro básico para próximo de 8,75%, justamente a mínima histórica.
O economista-chefe do Santander, Maurício Molan, observa que a redução anunciada ontem coloca a taxa real de juros brasileira em 3,5% ao ano, se considerada a diferença entre a nova Selic e a expectativa da inflação para os próximos 12 meses.
Ele destaca que esse nível de juro real é o mínimo histórico, "o que demonstra uma preocupação da autoridade monetária com o ritmo de crescimento da economia e com o ambiente internacional volátil".
O corte decidido pelo Copom estaria associado, portanto, à preocupação com o nível da atividade econômica e não só com a inflação, em tese, única meta que o Banco Central deve perseguir.
Molan reconhece, no entanto, que "a conjuntura inflacionária é begnina", o que "permite uma ação de política monetária mais agressiva".
A inflação do IPCA acumulada em 12 meses deve fechar o terceiro trimestre deste ano em 4,7%, segundo as projeções do Santander.
O economista-chefe da instituição acrescenta que "o forte afrouxamento monetário" tende a contribuir para redução da inadimplência dos empréstimos e financiamentos, para a expansão do crédito e para a retomada de um crescimento mais forte ainda em 2012.
A redução de 0,75 ponto percentual nesta reunião do Copom era a aposta majoritária do mercado. A pesquisa feita pelo Valor na semana passada mostrou que 31 de um total de 32 instituições consultadas acreditavam que esse seria o tamanho do corte. Apenas uma apostava em redução de meio ponto percentual.
O patamar de 9% decidido é o menor desde 29 de abril de 2010.
Fim da bonança das commodities?
Por Maria Clara R. M. do Prado - Valor 19/04
Como que pisando em areia movediça, o Fundo Monetário Internacional (FMI) declara que a economia mundial tende a crescer mais em 2012 e em 2013, mas diz também que sérios riscos continuam presentes, principalmente na zona do euro. De fato, um relatório divulgado ontem indica que os bancos europeus continuam sob forte pressão. A isso se somam as desanimadoras perspectivas de crescimento para a região em 2012 que desta vez atingem também a Alemanha (apenas 0,6% de expansão) e a França (0,5% de incremento), sem falar nos demais países que continuam mergulhados em ondas de desconfiança.
A experiência recente mostra que o FMI não tem sido muito bom em prognósticos. No ano passado, tão logo o relatório mundial veio a público em setembro apontando certo otimismo com a recuperação da Europa, a zona do euro sofreu nova recaída. Projeções para a economia chinesa também têm sido superestimadas. Está claro que, sendo um organismo essencialmente político, o FMI sofre constrangimentos em pintar um cenário negro pela frente. É sempre melhor pecar pelo excesso de otimismo!
Minimizado, porém, o aspecto "estava escrito nas estrelas", vale ressaltar a importância do banco de dados do FMI, o maior de todos em termos de estatísticas econômicas. E as variadas análises combinatórias que buscam levantar comportamentos do passado para entender o presente e as possíveis tendências do futuro.
O Panorama Econômico Mundial, principal documento do FMI, tornado público esta semana, durante a chamada "reunião da primavera", em Washington, dedica algumas páginas ao mercado de commodities (pág. 27 a 35 no link www.imf.gov/external/pubs/ft/weo/2012/01/pdf/text.pdf). É o trecho mais relevante para alguém que queira ter uma ideia sobre: 1) para onde vão os preços das commodities e 2) como isso tende a afetar a economia brasileira.
Há uma preocupação com o efeito da queda dos preços médios de metais, produtos agrícolas e outras matérias-primas sobre a economia dos países exportadores de commodities. Nos primeiros meses de 2012 os preços daqueles produtos continuam abaixo, em termos reais, dos níveis registrados em fins de 2010, exceção feita apenas ao petróleo que se mantém em alta por motivos políticos regionais. A questão interessa aos países que na última década puderam sustentar a expansão de suas economias internas com as elevadas receitas obtidas com a venda de café, soja, algodão, minério de ferro, cobre, estanho, zinco, e outros. Encaixa-se como uma luva no caso brasileiro.
A motivação para a piora dos preços vem, obviamente, da redução da demanda mundial provocada pela retração econômica que se seguiu à crise de 2008. No entanto, o que muitos se perguntam é se a queda ocorrida mais recentemente nos preços das commodities tende a se aprofundar e quanto disso estaria ou não relacionado à piora do quadro econômico ou mesmo à manutenção da situação atual?
Os economistas do FMI, depois de fuçarem aqui e ali, concluíram que nunca houve na história do comportamento das commodities um período tão largo, de mais de dez anos, em que todos os tipos de produtos (com exceção, de novo, do petróleo) mantiveram-se em alta independente da origem, se agropecuária ou mineral. Reputam isso à extraordinária fase de expansão mundial com baixa inflação vivenciada a partir de meados da década de 1990 até 2008.
A posição do Brasil não é muito confortável, de acordo com trabalho dos economistas Gustavo Adler e Sebastián Sosa, do FMI, divulgado em dezembro. No quesito "Concentração das Exportações" - que considera a participação das exportações brutas de commodities no total das exportações - situa-se na terceira faixa, de 40 a 50, em escala de 0 a mais de 70. No quesito "Dependência de Commodities", que envolve a exportação líquida de commodities como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), há certo alívio: o país fica na segunda faixa, de 0 a 5, em escala de 0 a mais de 20. A menor dependência neste quesito deve-se ao peso das importações de petróleo, uma vez que exportação líquida é o resultado da exportação menos a importação.
E por que tudo isso é importante? Basta ler o artigo do economista Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre da FGV da Praia de Botafogo, na edição de abril da "Conjuntura Econômica". Ele argumenta que o PIB, a preços de 2011, cresceu 31,8%, entre 2004 e 2011, enquanto que a absorção (demanda doméstica) aumentou 40,1% no mesmo período, significando crescimento de 6,3 pontos percentuais do PIB de 2011.
No mesmo período, nota-se aumento de 3,8 pontos de percentagem do PIB no saldo de transações correntes que corresponderiam à absorção de poupança externa. Os ganhos de termos de troca responderiam pelos restantes 2,5 pontos percentuais do PIB da expansão da demanda doméstica. Ele conclui que 61% do aumento da absorção no período, equivalente a 6,3% do PIB, deveu-se à elevação da absorção de poupança externa e 39% aos ganhos de termos de troca.
Ou seja, os altos preços das commodities que contribuíram para os ganhos dos termos de troca respondem em boa parte pela expansão do mercado doméstico, que impulsionou a economia brasileira nos últimos anos. Se o mercado de commodities tiver uma reviravolta, a economia brasileira vai sofrer, ainda mais quando se imagina que justamente o mercado interno tem sido um dos atrativos para o capital estrangeiro. Cabe ao governo começar a se preparar para enfrentar um eventual pior cenário.
Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro "A Real História do Real".
O problema do paternalismo libertário
Por Raghuram Rajan - Valor 19/04
Há muitos argumentos contra governos paternalistas: além de limitar escolhas individuais (por exemplo, a opção de ficar sem seguro no atual debate sobre a assistência médica nos Estados Unidos) e evitar que as pessoas aprendam, a história mostra repetidamente que a noção predominante na sociedade está errada. E, como os governos normalmente tentam colocar em vigor a noção predominante, as consequências podem ser desastrosas, porque são amplificadas pelo poder de coordenação - e coerção - do Estado.
Um exemplo claro é a regulamentação financeira, que em vários aspectos é uma forma de paternalismo. Nos EUA, o baixo risco atribuído a "títulos lastreados por hipotecas" (MBS, na sigla em inglês) sênior tornou-os instrumentos atraentes para bancos, tendo em vista o retorno relativamente alto que ofereciam. Os papéis, no entanto, mostraram ser investimentos nem um pouco seguros, apesar da noção predominante prévia. Como os reguladores haviam declarado que eram seguros, muitos bancos se sobrecarregaram com os papéis, que ficaram ainda mais arriscados quando todos tentaram vendê-los ao mesmo tempo.
Há exemplos de sobra do perigo do poder de coordenação dos governos paternalistas. Enquanto dirijo para o centro de Chicago, passo por uma série de projetos residenciais que em sua época almejaram ser a cura miraculosa para a falta de moradia, pobreza, desemprego e crime. Hoje, são vistos como a melhor forma para concentrar e perpetuar muitos desses males.
Esses projetos residenciais não apenas ficaram a uma boa distância das áreas onde estavam os bons empregos, como se caracterizaram por ter poucos residentes com famílias e meios de vida estáveis.
A moda hoje é integrar as famílias mais pobres em comunidades prósperas. Sem dúvida, no futuro descobriremos consequências que não se imaginavam e o poder de coordenação do governo vai fazer com que essas consequências sejam amplas e generalizadas.
Certa dose de paternalismo, contudo, é necessária em sociedades civilizadas. A previdência social é uma forma paternalista de obrigar a poupar para a velhice, impedindo que as pessoas consumam e poupem ao bel-prazer. Existe, em parte, porque as pessoas sabem que as sociedades civilizadas nunca vão ficar paradas e ver os idosos passarem fome. As pessoas, então, são forçadas a economizar para impedir que abusem do sistema - ao não poupar quando jovens, por saber que está garantido um nível mínimo de apoio da sociedade quando ficarem velhos. Da mesma forma, a compra obrigatória de seguro no projeto de assistência médica do governo Obama é uma tentativa de evitar que os jovens e os que estão em boas condições não estejam segurados e acabem recorrendo ao governo em busca de ajuda apenas quando descobrem que precisam.
Se o paternalismo, então, possui tanto benefícios como custos, como conseguir apenas as vantagens? Meu colega Richard Thaler, em conjunto com Cass Sunstein, que atualmente trabalha no governo Obama, escreveram "Nudge", livro sucesso de vendas no qual sugerem uma forma de reduzir nossa inquietação com o paternalismo. Essencialmente, por meio da exploração de peculiaridades comportamentais, eles incentivam (nudge, em inglês) as pessoas a tomar decisões que são boas para eles, mesmo enquanto possuem total liberdade para seguir outros rumos. O "paternalismo libertário", na visão deles, portanto, elimina uma das principais objeções ao paternalismo - a de que limita as escolhas individuais.
Por exemplo, ao decidir como o dinheiro para sua aposentadoria será alocado, a maioria das pessoas escolhe o plano padrão oferecido pelo empregador. Muitas vezes, esse padrão é inadequado para a maioria - por exemplo, normalmente se aloca todo o dinheiro em fundos de baixo retorno no mercado monetário. Sunstein e Thaler fariam com que o empregador oferecesse uma alternativa-padrão que fosse boa para a maioria das pessoas, como 60% em renda variável, 30% em bônus e 10% em fundos do mercado monetário.
Essa é a parte paternalista. A parte libertária é que o funcionário teria o direito de optar por não seguir o plano-padrão. Como as pessoas raramente saem do padrão, a escolha paternalista do empregador prevaleceria e teríamos um paternalismo libertário. Como não gostar disso?
O problema é que a aparência de direito à escolha no paternalismo libertário é uma ilusão. A escolha continua não sendo exercida porque as pessoas não escolhem conscientemente. Se suas escolhas podem ser direcionadas e então isso não se trata de paternalismo, mas de algo ainda mais sinistro, já que as pessoas não têm consciência de estarem sendo incentivadas e, portanto, não podem levantar sua guarda?
Uma resposta é indicar que a maioria dos planos já possui uma alternativa-padrão de alocação do dinheiro economizado. Sunstein e Thaler dizem que o padrão deveria ser estruturado de uma maneira que seja boa para as pessoas, sendo que, claramente, eles sabem o que é "boa".
Aqui está, então, o cerne do problema. Ao escolher um padrão, o governo ou o empregador estimula todos os funcionários a aceitar a moda prevalecente, como "compre renda variável pensando no longo prazo". Isso, acreditam, é melhor do que a atual alternativa típica, de colocar o dinheiro da aposentadoria das pessoas em fundos de mercado monetário. Isso, no entanto, pode ser pior: orientar todos a seguir investimentos em ativos de risco pode ser mais perigoso do que orientá-los a investimentos tediosos, como os fundos de mercado monetário.
Poderia haver alguma alternativa melhor? E se não houvesse alternativa-padrão e as pessoas recebessem lembretes repetidamente, e cada vez mais prementes, para que escolham como seu dinheiro ser alocado, caso ainda não o tenham feito? A noção predominante poderia ser oferecida como recomendação, juntamente com explicações dos motivos pelos quais ela faz sentido, mas sem que esteja configurada como padrão. Isso obrigaria as pessoas a exercer o direito de escolha. Algumas pessoas vão pensar diferente da noção predominante, beneficiando o sistema com certa variedade e resiliência.
Em termos mais gerais, a falha em certas formas de paternalismo libertário é que a liberdade de escolha que parece oferecer, na verdade, mantém o paternalismo, em grande parte, sem restrições. Não seria muito melhor forçar a escolha consciente, para limitar as consequências dos erros do paternalismo? (Tradução de Sabino Ahumada)
Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), é professor de finanças na Booth School of Business, da University of Chicago, e autor de "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy" (Linhas de falhas: como fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Krugman elogia política monetária do BC brasileiro
Valor 19/04
O Banco Central brasileiro está certo em sua política de redução dos juros, disse ontem o economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008. "A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória", afirmou ao Valor. "O relaxamento monetário é apropriado."
Professor da Universidade de Princeton, nos EUA, Krugman vê problemas na valorização do real, por criar pressões que minam a competitividade da indústria. Ao mesmo tempo, lembrou que o Brasil mantém a própria moeda, que pode ser desvalorizada em algum momento, diferentemente do que se passa com os países da zona do euro. Segundo ele, a situação cambial do Brasil se parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80. Naquela época, o dólar estava forte demais, mas não foi difícil desvalorizá-lo. " Krugman deu breve entrevista antes de participar do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), que teve apoio do Valor.
Valor: A presidente Dilma Rousseff reclama do "tsunami monetário', que seria causado pela política monetária dos países desenvolvidos. Diz que isso mina a competitividade dos emergentes e provoca uma guerra cambial. O sr. concorda com ela?
Paul Krugman: Não, embora entenda o problema. Há muito capital buscando os países emergentes e grande valorização da taxa de câmbio. Isso é um problema, mas não por causa de política monetária não apropriada nos países avançados. Esses países têm uma crise econômica grave. Ainda há grande crise de desalavancagem, o que mantém as economias deprimidas. É claro que os juros estão muito baixos. Há excesso de poupança nos países avançados. Se você olha para relação histórica entre desemprego, inflação e juros, as taxas dos Fed Funds deveriam estar em menos 4,5%. É razoável que esteja em zero. Eu entendo, a presidente tem suas preocupações. Há, de algum modo, um tsunami de dinheiro, mas não por causa de Ben Bernanke [presidente do Fed] ou Mario Draghi [do BC Europeu].
Valor: Quão preocupante é a valorização do real?
Krugman: Não é algo positivo, porque cria pressões. O setor manufatureiro perde competitividade e vai ser difícil recuperá-la. De outro lado, o Brasil ainda tem sua própria moeda. O real pode se desvalorizar de novo. O Brasil não tem muita dívida em moeda estrangeira. Quando olho para o Brasil, penso que pelo menos não é a Espanha. A Espanha teve uma valorização em termos reais nos bons anos do euro [devido aos diferenciais de inflação] parecida com a brasileira, mas está numa crise terrível, porque não pode desvalorizar. O Brasil pode. A situação do Brasil parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80, quando o dólar ficou muito forte, mas não foi um processo especialmente difícil desvalorizar a moeda de novo.
Valor: Há um grande debate no Brasil sobre desindustrialização. Em 2011, a participação da indústria de transformação no PIB ficou abaixo de 15%. O governo deve tentar proteger a indústria?
Krugman: Não fiz muita lição de casa sobre a situação brasileira, mas acho que há de fato uma questão aí. O Brasil tem os fluxos de capital e as exportações de commodities, e faz algum sentido pelo menos tentar lidar contra os efeitos desses fatores.
Valor: O BC adotou postura mais agressiva desde agosto, quando começou a cortar os juros, apesar de algumas pressões inflacionárias, especialmente nos preços de serviços. Como o sr. vê a política monetária brasileira?
Krugman: Não tenho uma visão forte a respeito, mas acho que é razoável. A economia está claramente em desaceleração, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória. O relaxamento monetário é apropriado.
'Amor' pelo Brasil contribui para real valorizado, diz economista
O economista Paul Krugman traçou ontem um quadro razoavelmente positivo para a economia brasileira, elogiando as taxas razoáveis de crescimento, a resistência à crise global e a redução da desigualdade nos últimos anos, mas fez alguns alertas ao país - o Brasil é "amado demais" pelos mercados, algo que também ocorreu por vários anos com Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia, os países hoje mais encrencados da zona do euro. Esse "amor" contribui para a valorização exagerada do câmbio, ao lado dos preços elevados das commodities, dos quais o Brasil é grande exportador, destacou o americano, professor da Universidade de Princeton, nos EUA.
Krugman mostrou ainda uma visão pessimista sobre as perspectivas para os países desenvolvidos, especialmente a Europa. A insistência europeia em promover políticas de austeridade fiscal só aprofunda uma situação que já é recessiva. Já os EUA passam por uma situação "terrível", ainda que não desesperadora. Para ele, a recuperação será lenta, com desemprego alto por alguns anos.
O economista disse que o Brasil não tem apresentado taxas de crescimento "ao estilo asiático", mas exibe um ritmo de expansão da economia sólido e razoável. Vulnerabilidades importantes que no passado faziam o país sofrer em cenários de crise global não estão mais presentes, afirmou, destacando que o Brasil não tem dívida expressiva em moeda estrangeira. Para Krugman, o Brasil resistiu bem ao cenário global adverso dos últimos anos porque foi menos complacente com o risco e as dívidas, uma atitude diferente da registrada nos países desenvolvidos, como os EUA. "O setor público e o setor privado foram mais cautelosos por aqui", disse ele, que participou ontem do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com apoio do Valor.
Mesmo que não cresça a um ritmo exuberante, o Brasil se tornou uma opção das mais atraentes para os investidores em comparação com os países desenvolvidos. "Isso ocorreu não porque as coisas melhoraram dramaticamente no Brasil, mas porque se tornaram dramaticamente piores nos países desenvolvidos." Esse movimento é decisivo para a valorização do real, assim como os altos preços de commodities. Para ele, essa "é uma situação desconfortável" para um país que já mostrou grande capacidade para produzir bens manufaturados sofisticados.
Ainda que acredite numa correção do valor do real em algum momento, hoje muito apreciado, Krugman disse que o Brasil deverá continuar a receber fluxos de capitais expressivos dos países desenvolvidos por um bom tempo. Ao mesmo tempo, os preços de commodities deverão se manter em níveis historicamente altos, dado o ritmo de crescimento mais forte de outros emergentes, como a China.
Para o economista, contudo, a valorização do real é um problema que pode ser em parte enfrentado pela imposição de impostos e limites que desencorajem a vinda desses capitais para o país, como tem feito o governo brasileiro. "E, se não há ameaças à inflação, é possível ainda cortar os juros."
Ele disse ainda que reclamar da política monetária dos EUA e da Europa, como vem fazendo a presidente Dilma Rousseff, não é eficaz. "O Brasil vem gastando um esforço considerável em criticar a política monetária do Fed [o BC americano], e esse esforço é em vão. O Fed está fazendo o que deve fazer, e devia até fazer mais", disse ele, para quem também seria importante o BC Europeu ser mais incisivo. "Gritar com os banqueiros centrais dos países desenvolvidos não vai resolver. Eles têm mais coisas com o que se preocupar do que em tornar as coisas menos difíceis para o Brasil."
Krugman tem defendido medidas agressivas de política monetária nos países desenvolvidos para tentar estimular a anêmica atividade econômica, mesmo que isso se traduza em inflação na casa de 4% - o que, na atual situação, seria uma boa notícia.
O economista mostra preocupação em especial com a situação europeia. Ele cita o caso da Espanha, onde a taxa de desemprego beira os 24%, superando os 50% entre os jovens, e insiste em políticas de austeridade fiscal, que contribuem apenas para acentuar a recessão, sem restaurar a confiança dos investidores. Ele acha possível que algum país abandone a zona do euro, como a Grécia, ainda que muitos analistas vejam a opção como catastrófica.
Quanto aos EUA, Krugman foi um pouco menos pessimista. "O mercado de trabalho está dando sinais de melhora, o mercado imobiliário também, em parte porque não construímos praticamente nenhuma casa nos últimos seis anos." Mesmo assim, descreve a situação dos EUA como terrível.
Também presente ao evento, o ex-ministro Antonio Delfim Netto disse que o câmbio é valorizado em boa parte devido aos juros elevados. O dólar barato prejudica a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% em 2011, uma das principais explicações para a expansão de 2,7% do PIB no ano passado. Para ele, é para conter essa dinâmica que o governo está promovendo medidas para reanimar o setor manufatureiro.
Em relação às críticas de que as medidas são protecionistas, Delfim avaliou que as reclamações contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio são semelhantes às de outros países. "O Brasil não é nem mais nem menos protecionista que os EUA." Ele enfatizou a necessidade de corrigir distorções do sistema tributário e de um controle rígido dos gastos de custeio, para o governo investir mais.
O Banco Central brasileiro está certo em sua política de redução dos juros, disse ontem o economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008. "A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória", afirmou ao Valor. "O relaxamento monetário é apropriado."
Professor da Universidade de Princeton, nos EUA, Krugman vê problemas na valorização do real, por criar pressões que minam a competitividade da indústria. Ao mesmo tempo, lembrou que o Brasil mantém a própria moeda, que pode ser desvalorizada em algum momento, diferentemente do que se passa com os países da zona do euro. Segundo ele, a situação cambial do Brasil se parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80. Naquela época, o dólar estava forte demais, mas não foi difícil desvalorizá-lo. " Krugman deu breve entrevista antes de participar do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), que teve apoio do Valor.
Valor: A presidente Dilma Rousseff reclama do "tsunami monetário', que seria causado pela política monetária dos países desenvolvidos. Diz que isso mina a competitividade dos emergentes e provoca uma guerra cambial. O sr. concorda com ela?
Paul Krugman: Não, embora entenda o problema. Há muito capital buscando os países emergentes e grande valorização da taxa de câmbio. Isso é um problema, mas não por causa de política monetária não apropriada nos países avançados. Esses países têm uma crise econômica grave. Ainda há grande crise de desalavancagem, o que mantém as economias deprimidas. É claro que os juros estão muito baixos. Há excesso de poupança nos países avançados. Se você olha para relação histórica entre desemprego, inflação e juros, as taxas dos Fed Funds deveriam estar em menos 4,5%. É razoável que esteja em zero. Eu entendo, a presidente tem suas preocupações. Há, de algum modo, um tsunami de dinheiro, mas não por causa de Ben Bernanke [presidente do Fed] ou Mario Draghi [do BC Europeu].
Valor: Quão preocupante é a valorização do real?
Krugman: Não é algo positivo, porque cria pressões. O setor manufatureiro perde competitividade e vai ser difícil recuperá-la. De outro lado, o Brasil ainda tem sua própria moeda. O real pode se desvalorizar de novo. O Brasil não tem muita dívida em moeda estrangeira. Quando olho para o Brasil, penso que pelo menos não é a Espanha. A Espanha teve uma valorização em termos reais nos bons anos do euro [devido aos diferenciais de inflação] parecida com a brasileira, mas está numa crise terrível, porque não pode desvalorizar. O Brasil pode. A situação do Brasil parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80, quando o dólar ficou muito forte, mas não foi um processo especialmente difícil desvalorizar a moeda de novo.
Valor: Há um grande debate no Brasil sobre desindustrialização. Em 2011, a participação da indústria de transformação no PIB ficou abaixo de 15%. O governo deve tentar proteger a indústria?
Krugman: Não fiz muita lição de casa sobre a situação brasileira, mas acho que há de fato uma questão aí. O Brasil tem os fluxos de capital e as exportações de commodities, e faz algum sentido pelo menos tentar lidar contra os efeitos desses fatores.
Valor: O BC adotou postura mais agressiva desde agosto, quando começou a cortar os juros, apesar de algumas pressões inflacionárias, especialmente nos preços de serviços. Como o sr. vê a política monetária brasileira?
Krugman: Não tenho uma visão forte a respeito, mas acho que é razoável. A economia está claramente em desaceleração, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória. O relaxamento monetário é apropriado.
'Amor' pelo Brasil contribui para real valorizado, diz economista
O economista Paul Krugman traçou ontem um quadro razoavelmente positivo para a economia brasileira, elogiando as taxas razoáveis de crescimento, a resistência à crise global e a redução da desigualdade nos últimos anos, mas fez alguns alertas ao país - o Brasil é "amado demais" pelos mercados, algo que também ocorreu por vários anos com Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia, os países hoje mais encrencados da zona do euro. Esse "amor" contribui para a valorização exagerada do câmbio, ao lado dos preços elevados das commodities, dos quais o Brasil é grande exportador, destacou o americano, professor da Universidade de Princeton, nos EUA.
Krugman mostrou ainda uma visão pessimista sobre as perspectivas para os países desenvolvidos, especialmente a Europa. A insistência europeia em promover políticas de austeridade fiscal só aprofunda uma situação que já é recessiva. Já os EUA passam por uma situação "terrível", ainda que não desesperadora. Para ele, a recuperação será lenta, com desemprego alto por alguns anos.
O economista disse que o Brasil não tem apresentado taxas de crescimento "ao estilo asiático", mas exibe um ritmo de expansão da economia sólido e razoável. Vulnerabilidades importantes que no passado faziam o país sofrer em cenários de crise global não estão mais presentes, afirmou, destacando que o Brasil não tem dívida expressiva em moeda estrangeira. Para Krugman, o Brasil resistiu bem ao cenário global adverso dos últimos anos porque foi menos complacente com o risco e as dívidas, uma atitude diferente da registrada nos países desenvolvidos, como os EUA. "O setor público e o setor privado foram mais cautelosos por aqui", disse ele, que participou ontem do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com apoio do Valor.
Mesmo que não cresça a um ritmo exuberante, o Brasil se tornou uma opção das mais atraentes para os investidores em comparação com os países desenvolvidos. "Isso ocorreu não porque as coisas melhoraram dramaticamente no Brasil, mas porque se tornaram dramaticamente piores nos países desenvolvidos." Esse movimento é decisivo para a valorização do real, assim como os altos preços de commodities. Para ele, essa "é uma situação desconfortável" para um país que já mostrou grande capacidade para produzir bens manufaturados sofisticados.
Ainda que acredite numa correção do valor do real em algum momento, hoje muito apreciado, Krugman disse que o Brasil deverá continuar a receber fluxos de capitais expressivos dos países desenvolvidos por um bom tempo. Ao mesmo tempo, os preços de commodities deverão se manter em níveis historicamente altos, dado o ritmo de crescimento mais forte de outros emergentes, como a China.
Para o economista, contudo, a valorização do real é um problema que pode ser em parte enfrentado pela imposição de impostos e limites que desencorajem a vinda desses capitais para o país, como tem feito o governo brasileiro. "E, se não há ameaças à inflação, é possível ainda cortar os juros."
Ele disse ainda que reclamar da política monetária dos EUA e da Europa, como vem fazendo a presidente Dilma Rousseff, não é eficaz. "O Brasil vem gastando um esforço considerável em criticar a política monetária do Fed [o BC americano], e esse esforço é em vão. O Fed está fazendo o que deve fazer, e devia até fazer mais", disse ele, para quem também seria importante o BC Europeu ser mais incisivo. "Gritar com os banqueiros centrais dos países desenvolvidos não vai resolver. Eles têm mais coisas com o que se preocupar do que em tornar as coisas menos difíceis para o Brasil."
Krugman tem defendido medidas agressivas de política monetária nos países desenvolvidos para tentar estimular a anêmica atividade econômica, mesmo que isso se traduza em inflação na casa de 4% - o que, na atual situação, seria uma boa notícia.
O economista mostra preocupação em especial com a situação europeia. Ele cita o caso da Espanha, onde a taxa de desemprego beira os 24%, superando os 50% entre os jovens, e insiste em políticas de austeridade fiscal, que contribuem apenas para acentuar a recessão, sem restaurar a confiança dos investidores. Ele acha possível que algum país abandone a zona do euro, como a Grécia, ainda que muitos analistas vejam a opção como catastrófica.
Quanto aos EUA, Krugman foi um pouco menos pessimista. "O mercado de trabalho está dando sinais de melhora, o mercado imobiliário também, em parte porque não construímos praticamente nenhuma casa nos últimos seis anos." Mesmo assim, descreve a situação dos EUA como terrível.
Também presente ao evento, o ex-ministro Antonio Delfim Netto disse que o câmbio é valorizado em boa parte devido aos juros elevados. O dólar barato prejudica a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% em 2011, uma das principais explicações para a expansão de 2,7% do PIB no ano passado. Para ele, é para conter essa dinâmica que o governo está promovendo medidas para reanimar o setor manufatureiro.
Em relação às críticas de que as medidas são protecionistas, Delfim avaliou que as reclamações contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio são semelhantes às de outros países. "O Brasil não é nem mais nem menos protecionista que os EUA." Ele enfatizou a necessidade de corrigir distorções do sistema tributário e de um controle rígido dos gastos de custeio, para o governo investir mais.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Fluxo é forte, mas dólar segue em alta
Por Eduardo Campos - Valor 18/04
De São Paulo
Nos últimos quatro dias, cerca de US$ 10 bilhões foram movimentados no mercado interbancário de câmbio, onde são contabilizadas entradas e saídas de moeda estrangeira. No entanto, essa montanha de dinheiro não foi vista nas mesas de operação.
Como o Banco Central (BC) está firme na compra de moeda no mercado à vista, tendo realizado oito atuações no período, a ideia é que a maior parte dos dólares adquirido seja resultado de entrada de moeda estrangeira.
No entanto, nem o preço do dólar, nem o mercado de cupom cambial (taxa de juro em dólar no mercado local) sugerem isso. O mercado não identificou qualquer pressão de baixa. O preço do dólar continua subindo.
Desde quinta-feira, o dólar comercial subiu 1,25%. Apenas no pregão de ontem, a moeda avançou 0,76%, para R$ 1,858 na venda, segunda maior cotação do ano. A esse preço, a perda do dólar em 2012 foi praticamente zerada, caindo para 0,60%.
No mercado de cupom cambial, a taxa de curto prazo que estava em 0,80% no fim de março, fechou ontem a 1,75%, a maior desde o começo de fevereiro. Basicamente, essa taxa sobe quando a oferta de moeda à vista cai.
Interessante notar, também, que, por ora, toda a movimentação está concentrada no mercado físico de moeda, tendo em vista que as posições dos principais agentes do mercado futuro não apresentam variação expressiva agora em abril.
Com isso, cresce a expectativa sobre os dados do fluxo cambial que saem hoje e na próxima semana. Com eles será possível ver por qual conta (comercial ou financeira) esse dinheiro todo foi movimentado, quanto o BC tirou de circulação (lembrando aqui, que são os bancos que decidem vender ou não para o BC) e como está a posição das instituições financeiras no mercado à vista.
Por ora, apenas especulações sobre o que pode estar ocorrendo. Segundo um tesoureiro, mesmo com o volume crescendo nos últimos dias, o BC deixou o mercado "seco" com suas atuações.
A autoridade monetária fez leilões de compra mesmo com o dólar em firme alta. Para alguns agentes, isso mostraria que o BC não está simplesmente enxugando fluxo, mas sim tentando influenciar preço.
Para o diretor da Renova Corretora de Câmbio, Carlos Alberto Abdalla, parte dessa movimentação do câmbio pode ser relacionada com o corte da Selic esperado para hoje.
"Não teria outro motivo para tal comportamento da moeda" diz o especialista, acreditando que a nova redução do juro básico (ou a expectativa de mais cortes) não estaria completamente embutida na taxa de câmbio e nos contratos que relacionam o dólar com a taxa de juros.
Mais no campo da percepção do que dos fatos passíveis de comprovação, alguns gestores avaliam que o BC está sim atuando para influir na direção do dólar.
Afinal de contas, a Selic está caindo, bem como o ritmo da atividade doméstica e a inflação no mercado local. Assim sendo, nada mais natural do que uma taxa de câmbio menos valorizada.
Encerrando com os juros futuros, o mercado ganhou volume e as taxas apontaram para baixo.
Os contratos mostram uma redução de 0,75 ponto percentual na Selic, que cairia a 9% ao ano, ao fim da reunião de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom).
As taxas futuras também embutem a possibilidade de 50% de mais uma redução, só que de 0,25 ponto, na reunião de maio.
Atenção voltada ao comunicado, que pode acenar ou não o fim do ciclo de corte da Selic.
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