quinta-feira, 19 de abril de 2012

Cambio avoante



Por Ronaldo Pignataro


Parece que a política cambial passa de flutuante a avoante de acordo com as interferências pesadas da autoridade monetária no mercado cambial nestes últimos dias.

De fato, a moeda norte-americana tem se mantido comportada em relação ao euro rondando os 1,31 no último mês ao passo que o real em relação ao euro está temperado à baiana, um pouco mais picante que o usual na moeda verde. O que será que pode estar acontecendo?

Em condições normais, a resposta a uma corrida deste tipo, entraria o BC vendendo, até como forma de aliviar seus 370 bilhões de dólares aplicados à taxas negativas, mas o que acontece já ganhou manchetes em vários jornais:

Dólar na maior cotação: R$ 1,877


Diario do Nordeste 19/04/12


São Paulo Com as incertezas externas no radar, o fluxo cambial negativo de US$ 799 milhões neste mês no mercado local e a intenção explícita do governo de desvalorizar o real, o dólar manteve demanda forte ontem, que sustentou seu preço em alta ante o real pela quarta vez consecutiva. O Banco Central repetiu dois leilões de compra à vista pela quinta sessão seguida, ajudando a potencializar o ganho da moeda, já que aceitou pagar taxas acima do preço de mercado.


O dólar à vista praticamente saltou dois níveis de preço: passou de R$ 1,854 no balcão, na terça-feira, para R$ 1,877 ontem, com ganho diário de 1,24% e no maior valor desde 25 de novembro de 2011 (em R$ 1,885). O resultado não só zerou as perdas no ano como levou a moeda americana a uma alta de 0,43% ante o real em 2012. Nesses quatro pregões no azul, o dólar no balcão valorizou-se 2,74%, o que equivale ao ganho acumulado em abril.

Então a pergunta que não quer calar é por que o BC tem aceitado pagar taxas acima do preço de mercado?

Se é que isso é verdade, convenhamos um tanto estranho essa de “aceitar” taxas acima do mercado, porém tal assertiva já me fez olhar com certa cobiça a nota de um dólar que levo em minha carteira, refuto a isso o efeito psicológico da noticia.

Com o adubo no dito popular de tudo que sobe desce e com o fato plantado no meu cérebro viro a página do jornal para a próxima manchete:


Colheita da soja avança para fase final no Brasil, diz Céleres


SÃO PAULO, 16 Abr (Reuters) - A colheita da soja se aproxima da fase final, com 90 por cento das áreas semeadas nesta temporada no centro-sul do Brasil colhidas até a última sexta-feira, apontou a Céleres em relatório desta segunda-feira.


O índice de colheita está próximo dos 89 por cento registrados neste mesmo período do ano passado. Na semana, o avanço foi de quatro pontos percentuais, segundo a consultoria.


Em todo o país, a colheita atingiu 88 por cento, contra 82 por cento na semana anterior e 85 por cento de igual período de 2011. Trata-se de um ritmo avançado se considerada a média brasileira dos cinco anos anteriores, que é de 80 por cento.


A safra de soja sofreu perdas com a estiagem nos Estados do Sul e sul de Mato Grosso do Sul, sendo rebaixada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a 65,6 milhões de toneladas em 2011/12, após o recorde de 75,3 milhões de toneladas do ciclo anterior.


A Céleres estima a safra brasileira de soja em 67,9 milhões de toneladas.


A comercialização da soja também segue em ritmo firme, beneficiada pela alta recente da oleaginosa no mercado internacional.


As vendas da atual safra somaram 72 por cento do total, contra 60 por cento da mesma época do ano passado e 56 por cento da média dos cinco anos anteriores.


Para a Céleres, diante do cenário menos otimista para a recuperação na zona do euro, as cotações da soja podem ter alguma retração na semana.


"Todavia, os fundamentos de mercado (oferta e demanda) ainda deverão prover sustentação para as cotações da oleaginosa durante o ano de 2012", previu a consultoria.


Engraçado como funciona o cérebro. De repente me vi um grande produtor de soja, feliz e repleto de agradecimentos.

Copom segue o script e reduz juro para 9% ao ano



Por Mônica Izaguirre e Murilo Rodrigues Alves - Valor 19/04
De Brasília

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) cumpriu o que sinalizou na ata da reunião de março e reduziu a taxa básica de juros da economia em mais 0,75 ponto percentual. A decisão foi tomada em reunião encerrada há pouco. O corte, que levou a Selic para 9% ao ano, já era esperado pelo mercado. A decisão foi unânime.
No comunicado, o Copom "considera que, neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação. O colegiado nota ainda que, até agora, dada a fragilidade da economia global, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária. Diante disso, dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 9% ao ano, sem viés".
A grande pergunta que faz o mercado a partir de agora é por quanto tempo a taxa permanecerá nesse nível. Na ata da reunião anterior, quando a Selic caiu de 10,5% para 9,75% ao ano, o Copom sinalizou que o ciclo de afrouxamento monetário iniciado no fim de agosto de 2011 terminaria quando o juro básico chegasse a 9% ao ano.

No texto, o comitê disse ser "elevada a probalibilidade de concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares ligeiramente acima dos mínimos históricos e nesses patamares se estabilizando".

O mínimo histórico é de 8,75% ao ano, nível que vigorou de 23 de julho de 2009 a 28 de abril de 2010. Daí, a expectativa de que a Selic se estabilize em 9%. A questão é por quanto tempo.

Pesquisa feita pelo Valor com 32 instituições mostrou que 29 acreditam que a Selic não cai de novo neste ano. Somente três das empresas consultadas acreditam que haverá no corte ainda em 2012, de 0,25 ponto percentual, para 8,75% ao ano.

A mediana das projeções colhidas pelo BC na última edição da pesquisa Focus sugere que a Selic deverá permanecer nesse nível pelo menos até o fim de 2012. As projeções das cinco instituições que mais acertam previsões também apontam Selic em 9% ao ano em dezembro de 2012.

A mediana do agregado só se diferencia da mediana do chamado Top 5 no que se refere ao nível da Selic no fim de 2013. Enquanto a do conjunto da pesquisa aponta juro em 10% ao ano, a do Top 5 indica que a taxa permanecerá em 9% ao ano até fim do ano que vem.

Copom deixa porta aberta para novos cortes na Selic


O esperado comunicado da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) não indicou que a Selic seguirá caindo, tão pouco foi claro em dizer que o ciclo de corte acabou.

Com isso, a perspectiva é de queda nas taxas de juros futuros negociadas na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F).

As taxas futuras já vinham mostrando uma chance de 50% de redução da Selic para baixo dos 9%. E tal movimentação pode ser reforçada hoje.

Na avaliação do economista para América Latina do Standard Chartered, Ítalo Lombardi, o comentário do BC foi curto e sem grandes novidades, ainda assim, o tom foi de tranquilidade.

O BC fala em riscos limitados para a trajetória da inflação e que dada a fragilidade da economia mundial, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária.
"O tom do comunicado parece deixar a porta aberta para novas reduções", diz o economista.

Ainda de acordo com Lombardi, não é possível extrair informação de que o BC entrou em pausa. Ou seja, segura a taxa em 9%, com a possibilidade de novas reduções até o fim do ano.

Na visão do economista-sênior do Espirito Santo Investment Bank, Flávio Serrano, o comunicado não deixa claro que o ciclo de afrouxamento acabou.

Por isso mesmo, não pode ser descartada a possibilidade de novas reduções.

Como o BC foi "curto e grosso" no comunicado, a ata será elemento fundamental para a formação mais clara das expectativas. Segundo Lombardi, o foco estará voltado ao parágrafo no qual a autoridade monetária revelou sua intenção de levar a Selic para próximo das mínimas históricas.

Se fôssemos levar a comunicação oficial ao pé da letra, seria possível afirmar que o BC encerrou o ciclo ou colocou em pausa, pois o objetivo era levar o juro básico para próximo de 8,75%, justamente a mínima histórica.

O economista-chefe do Santander, Maurício Molan, observa que a redução anunciada ontem coloca a taxa real de juros brasileira em 3,5% ao ano, se considerada a diferença entre a nova Selic e a expectativa da inflação para os próximos 12 meses.

Ele destaca que esse nível de juro real é o mínimo histórico, "o que demonstra uma preocupação da autoridade monetária com o ritmo de crescimento da economia e com o ambiente internacional volátil".

O corte decidido pelo Copom estaria associado, portanto, à preocupação com o nível da atividade econômica e não só com a inflação, em tese, única meta que o Banco Central deve perseguir.

Molan reconhece, no entanto, que "a conjuntura inflacionária é begnina", o que "permite uma ação de política monetária mais agressiva".
A inflação do IPCA acumulada em 12 meses deve fechar o terceiro trimestre deste ano em 4,7%, segundo as projeções do Santander.

O economista-chefe da instituição acrescenta que "o forte afrouxamento monetário" tende a contribuir para redução da inadimplência dos empréstimos e financiamentos, para a expansão do crédito e para a retomada de um crescimento mais forte ainda em 2012.

A redução de 0,75 ponto percentual nesta reunião do Copom era a aposta majoritária do mercado. A pesquisa feita pelo Valor na semana passada mostrou que 31 de um total de 32 instituições consultadas acreditavam que esse seria o tamanho do corte. Apenas uma apostava em redução de meio ponto percentual.

O patamar de 9% decidido é o menor desde 29 de abril de 2010.

Fim da bonança das commodities?



Por Maria Clara R. M. do Prado - Valor 19/04

Como que pisando em areia movediça, o Fundo Monetário Internacional (FMI) declara que a economia mundial tende a crescer mais em 2012 e em 2013, mas diz também que sérios riscos continuam presentes, principalmente na zona do euro. De fato, um relatório divulgado ontem indica que os bancos europeus continuam sob forte pressão. A isso se somam as desanimadoras perspectivas de crescimento para a região em 2012 que desta vez atingem também a Alemanha (apenas 0,6% de expansão) e a França (0,5% de incremento), sem falar nos demais países que continuam mergulhados em ondas de desconfiança.

A experiência recente mostra que o FMI não tem sido muito bom em prognósticos. No ano passado, tão logo o relatório mundial veio a público em setembro apontando certo otimismo com a recuperação da Europa, a zona do euro sofreu nova recaída. Projeções para a economia chinesa também têm sido superestimadas. Está claro que, sendo um organismo essencialmente político, o FMI sofre constrangimentos em pintar um cenário negro pela frente. É sempre melhor pecar pelo excesso de otimismo!

Minimizado, porém, o aspecto "estava escrito nas estrelas", vale ressaltar a importância do banco de dados do FMI, o maior de todos em termos de estatísticas econômicas. E as variadas análises combinatórias que buscam levantar comportamentos do passado para entender o presente e as possíveis tendências do futuro.

O Panorama Econômico Mundial, principal documento do FMI, tornado público esta semana, durante a chamada "reunião da primavera", em Washington, dedica algumas páginas ao mercado de commodities (pág. 27 a 35 no link www.imf.gov/external/pubs/ft/weo/2012/01/pdf/text.pdf). É o trecho mais relevante para alguém que queira ter uma ideia sobre: 1) para onde vão os preços das commodities e 2) como isso tende a afetar a economia brasileira.

Há uma preocupação com o efeito da queda dos preços médios de metais, produtos agrícolas e outras matérias-primas sobre a economia dos países exportadores de commodities. Nos primeiros meses de 2012 os preços daqueles produtos continuam abaixo, em termos reais, dos níveis registrados em fins de 2010, exceção feita apenas ao petróleo que se mantém em alta por motivos políticos regionais. A questão interessa aos países que na última década puderam sustentar a expansão de suas economias internas com as elevadas receitas obtidas com a venda de café, soja, algodão, minério de ferro, cobre, estanho, zinco, e outros. Encaixa-se como uma luva no caso brasileiro.

A motivação para a piora dos preços vem, obviamente, da redução da demanda mundial provocada pela retração econômica que se seguiu à crise de 2008. No entanto, o que muitos se perguntam é se a queda ocorrida mais recentemente nos preços das commodities tende a se aprofundar e quanto disso estaria ou não relacionado à piora do quadro econômico ou mesmo à manutenção da situação atual?

Os economistas do FMI, depois de fuçarem aqui e ali, concluíram que nunca houve na história do comportamento das commodities um período tão largo, de mais de dez anos, em que todos os tipos de produtos (com exceção, de novo, do petróleo) mantiveram-se em alta independente da origem, se agropecuária ou mineral. Reputam isso à extraordinária fase de expansão mundial com baixa inflação vivenciada a partir de meados da década de 1990 até 2008.

A posição do Brasil não é muito confortável, de acordo com trabalho dos economistas Gustavo Adler e Sebastián Sosa, do FMI, divulgado em dezembro. No quesito "Concentração das Exportações" - que considera a participação das exportações brutas de commodities no total das exportações - situa-se na terceira faixa, de 40 a 50, em escala de 0 a mais de 70. No quesito "Dependência de Commodities", que envolve a exportação líquida de commodities como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), há certo alívio: o país fica na segunda faixa, de 0 a 5, em escala de 0 a mais de 20. A menor dependência neste quesito deve-se ao peso das importações de petróleo, uma vez que exportação líquida é o resultado da exportação menos a importação.

E por que tudo isso é importante? Basta ler o artigo do economista Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre da FGV da Praia de Botafogo, na edição de abril da "Conjuntura Econômica". Ele argumenta que o PIB, a preços de 2011, cresceu 31,8%, entre 2004 e 2011, enquanto que a absorção (demanda doméstica) aumentou 40,1% no mesmo período, significando crescimento de 6,3 pontos percentuais do PIB de 2011.

No mesmo período, nota-se aumento de 3,8 pontos de percentagem do PIB no saldo de transações correntes que corresponderiam à absorção de poupança externa. Os ganhos de termos de troca responderiam pelos restantes 2,5 pontos percentuais do PIB da expansão da demanda doméstica. Ele conclui que 61% do aumento da absorção no período, equivalente a 6,3% do PIB, deveu-se à elevação da absorção de poupança externa e 39% aos ganhos de termos de troca.

Ou seja, os altos preços das commodities que contribuíram para os ganhos dos termos de troca respondem em boa parte pela expansão do mercado doméstico, que impulsionou a economia brasileira nos últimos anos. Se o mercado de commodities tiver uma reviravolta, a economia brasileira vai sofrer, ainda mais quando se imagina que justamente o mercado interno tem sido um dos atrativos para o capital estrangeiro. Cabe ao governo começar a se preparar para enfrentar um eventual pior cenário.



Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro "A Real História do Real".

O problema do paternalismo libertário



Por Raghuram Rajan - Valor 19/04

Há muitos argumentos contra governos paternalistas: além de limitar escolhas individuais (por exemplo, a opção de ficar sem seguro no atual debate sobre a assistência médica nos Estados Unidos) e evitar que as pessoas aprendam, a história mostra repetidamente que a noção predominante na sociedade está errada. E, como os governos normalmente tentam colocar em vigor a noção predominante, as consequências podem ser desastrosas, porque são amplificadas pelo poder de coordenação - e coerção - do Estado.

Um exemplo claro é a regulamentação financeira, que em vários aspectos é uma forma de paternalismo. Nos EUA, o baixo risco atribuído a "títulos lastreados por hipotecas" (MBS, na sigla em inglês) sênior tornou-os instrumentos atraentes para bancos, tendo em vista o retorno relativamente alto que ofereciam. Os papéis, no entanto, mostraram ser investimentos nem um pouco seguros, apesar da noção predominante prévia. Como os reguladores haviam declarado que eram seguros, muitos bancos se sobrecarregaram com os papéis, que ficaram ainda mais arriscados quando todos tentaram vendê-los ao mesmo tempo.

Há exemplos de sobra do perigo do poder de coordenação dos governos paternalistas. Enquanto dirijo para o centro de Chicago, passo por uma série de projetos residenciais que em sua época almejaram ser a cura miraculosa para a falta de moradia, pobreza, desemprego e crime. Hoje, são vistos como a melhor forma para concentrar e perpetuar muitos desses males.

Esses projetos residenciais não apenas ficaram a uma boa distância das áreas onde estavam os bons empregos, como se caracterizaram por ter poucos residentes com famílias e meios de vida estáveis.

A moda hoje é integrar as famílias mais pobres em comunidades prósperas. Sem dúvida, no futuro descobriremos consequências que não se imaginavam e o poder de coordenação do governo vai fazer com que essas consequências sejam amplas e generalizadas.

Certa dose de paternalismo, contudo, é necessária em sociedades civilizadas. A previdência social é uma forma paternalista de obrigar a poupar para a velhice, impedindo que as pessoas consumam e poupem ao bel-prazer. Existe, em parte, porque as pessoas sabem que as sociedades civilizadas nunca vão ficar paradas e ver os idosos passarem fome. As pessoas, então, são forçadas a economizar para impedir que abusem do sistema - ao não poupar quando jovens, por saber que está garantido um nível mínimo de apoio da sociedade quando ficarem velhos. Da mesma forma, a compra obrigatória de seguro no projeto de assistência médica do governo Obama é uma tentativa de evitar que os jovens e os que estão em boas condições não estejam segurados e acabem recorrendo ao governo em busca de ajuda apenas quando descobrem que precisam.

Se o paternalismo, então, possui tanto benefícios como custos, como conseguir apenas as vantagens? Meu colega Richard Thaler, em conjunto com Cass Sunstein, que atualmente trabalha no governo Obama, escreveram "Nudge", livro sucesso de vendas no qual sugerem uma forma de reduzir nossa inquietação com o paternalismo. Essencialmente, por meio da exploração de peculiaridades comportamentais, eles incentivam (nudge, em inglês) as pessoas a tomar decisões que são boas para eles, mesmo enquanto possuem total liberdade para seguir outros rumos. O "paternalismo libertário", na visão deles, portanto, elimina uma das principais objeções ao paternalismo - a de que limita as escolhas individuais.

Por exemplo, ao decidir como o dinheiro para sua aposentadoria será alocado, a maioria das pessoas escolhe o plano padrão oferecido pelo empregador. Muitas vezes, esse padrão é inadequado para a maioria - por exemplo, normalmente se aloca todo o dinheiro em fundos de baixo retorno no mercado monetário. Sunstein e Thaler fariam com que o empregador oferecesse uma alternativa-padrão que fosse boa para a maioria das pessoas, como 60% em renda variável, 30% em bônus e 10% em fundos do mercado monetário.

Essa é a parte paternalista. A parte libertária é que o funcionário teria o direito de optar por não seguir o plano-padrão. Como as pessoas raramente saem do padrão, a escolha paternalista do empregador prevaleceria e teríamos um paternalismo libertário. Como não gostar disso?

O problema é que a aparência de direito à escolha no paternalismo libertário é uma ilusão. A escolha continua não sendo exercida porque as pessoas não escolhem conscientemente. Se suas escolhas podem ser direcionadas e então isso não se trata de paternalismo, mas de algo ainda mais sinistro, já que as pessoas não têm consciência de estarem sendo incentivadas e, portanto, não podem levantar sua guarda?

Uma resposta é indicar que a maioria dos planos já possui uma alternativa-padrão de alocação do dinheiro economizado. Sunstein e Thaler dizem que o padrão deveria ser estruturado de uma maneira que seja boa para as pessoas, sendo que, claramente, eles sabem o que é "boa".

Aqui está, então, o cerne do problema. Ao escolher um padrão, o governo ou o empregador estimula todos os funcionários a aceitar a moda prevalecente, como "compre renda variável pensando no longo prazo". Isso, acreditam, é melhor do que a atual alternativa típica, de colocar o dinheiro da aposentadoria das pessoas em fundos de mercado monetário. Isso, no entanto, pode ser pior: orientar todos a seguir investimentos em ativos de risco pode ser mais perigoso do que orientá-los a investimentos tediosos, como os fundos de mercado monetário.

Poderia haver alguma alternativa melhor? E se não houvesse alternativa-padrão e as pessoas recebessem lembretes repetidamente, e cada vez mais prementes, para que escolham como seu dinheiro ser alocado, caso ainda não o tenham feito? A noção predominante poderia ser oferecida como recomendação, juntamente com explicações dos motivos pelos quais ela faz sentido, mas sem que esteja configurada como padrão. Isso obrigaria as pessoas a exercer o direito de escolha. Algumas pessoas vão pensar diferente da noção predominante, beneficiando o sistema com certa variedade e resiliência.

Em termos mais gerais, a falha em certas formas de paternalismo libertário é que a liberdade de escolha que parece oferecer, na verdade, mantém o paternalismo, em grande parte, sem restrições. Não seria muito melhor forçar a escolha consciente, para limitar as consequências dos erros do paternalismo? (Tradução de Sabino Ahumada)


Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), é professor de finanças na Booth School of Business, da University of Chicago, e autor de "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy" (Linhas de falhas: como fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

Krugman elogia política monetária do BC brasileiro

Valor 19/04

O Banco Central brasileiro está certo em sua política de redução dos juros, disse ontem o economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008. "A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória", afirmou ao Valor. "O relaxamento monetário é apropriado."

Professor da Universidade de Princeton, nos EUA, Krugman vê problemas na valorização do real, por criar pressões que minam a competitividade da indústria. Ao mesmo tempo, lembrou que o Brasil mantém a própria moeda, que pode ser desvalorizada em algum momento, diferentemente do que se passa com os países da zona do euro. Segundo ele, a situação cambial do Brasil se parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80. Naquela época, o dólar estava forte demais, mas não foi difícil desvalorizá-lo. " Krugman deu breve entrevista antes de participar do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), que teve apoio do Valor.

Valor: A presidente Dilma Rousseff reclama do "tsunami monetário', que seria causado pela política monetária dos países desenvolvidos. Diz que isso mina a competitividade dos emergentes e provoca uma guerra cambial. O sr. concorda com ela?

Paul Krugman: Não, embora entenda o problema. Há muito capital buscando os países emergentes e grande valorização da taxa de câmbio. Isso é um problema, mas não por causa de política monetária não apropriada nos países avançados. Esses países têm uma crise econômica grave. Ainda há grande crise de desalavancagem, o que mantém as economias deprimidas. É claro que os juros estão muito baixos. Há excesso de poupança nos países avançados. Se você olha para relação histórica entre desemprego, inflação e juros, as taxas dos Fed Funds deveriam estar em menos 4,5%. É razoável que esteja em zero. Eu entendo, a presidente tem suas preocupações. Há, de algum modo, um tsunami de dinheiro, mas não por causa de Ben Bernanke [presidente do Fed] ou Mario Draghi [do BC Europeu].

Valor: Quão preocupante é a valorização do real?

Krugman: Não é algo positivo, porque cria pressões. O setor manufatureiro perde competitividade e vai ser difícil recuperá-la. De outro lado, o Brasil ainda tem sua própria moeda. O real pode se desvalorizar de novo. O Brasil não tem muita dívida em moeda estrangeira. Quando olho para o Brasil, penso que pelo menos não é a Espanha. A Espanha teve uma valorização em termos reais nos bons anos do euro [devido aos diferenciais de inflação] parecida com a brasileira, mas está numa crise terrível, porque não pode desvalorizar. O Brasil pode. A situação do Brasil parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80, quando o dólar ficou muito forte, mas não foi um processo especialmente difícil desvalorizar a moeda de novo.

Valor: Há um grande debate no Brasil sobre desindustrialização. Em 2011, a participação da indústria de transformação no PIB ficou abaixo de 15%. O governo deve tentar proteger a indústria?

Krugman: Não fiz muita lição de casa sobre a situação brasileira, mas acho que há de fato uma questão aí. O Brasil tem os fluxos de capital e as exportações de commodities, e faz algum sentido pelo menos tentar lidar contra os efeitos desses fatores.

Valor: O BC adotou postura mais agressiva desde agosto, quando começou a cortar os juros, apesar de algumas pressões inflacionárias, especialmente nos preços de serviços. Como o sr. vê a política monetária brasileira?

Krugman: Não tenho uma visão forte a respeito, mas acho que é razoável. A economia está claramente em desaceleração, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória. O relaxamento monetário é apropriado.


'Amor' pelo Brasil contribui para real valorizado, diz economista

O economista Paul Krugman traçou ontem um quadro razoavelmente positivo para a economia brasileira, elogiando as taxas razoáveis de crescimento, a resistência à crise global e a redução da desigualdade nos últimos anos, mas fez alguns alertas ao país - o Brasil é "amado demais" pelos mercados, algo que também ocorreu por vários anos com Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia, os países hoje mais encrencados da zona do euro. Esse "amor" contribui para a valorização exagerada do câmbio, ao lado dos preços elevados das commodities, dos quais o Brasil é grande exportador, destacou o americano, professor da Universidade de Princeton, nos EUA.

Krugman mostrou ainda uma visão pessimista sobre as perspectivas para os países desenvolvidos, especialmente a Europa. A insistência europeia em promover políticas de austeridade fiscal só aprofunda uma situação que já é recessiva. Já os EUA passam por uma situação "terrível", ainda que não desesperadora. Para ele, a recuperação será lenta, com desemprego alto por alguns anos.

O economista disse que o Brasil não tem apresentado taxas de crescimento "ao estilo asiático", mas exibe um ritmo de expansão da economia sólido e razoável. Vulnerabilidades importantes que no passado faziam o país sofrer em cenários de crise global não estão mais presentes, afirmou, destacando que o Brasil não tem dívida expressiva em moeda estrangeira. Para Krugman, o Brasil resistiu bem ao cenário global adverso dos últimos anos porque foi menos complacente com o risco e as dívidas, uma atitude diferente da registrada nos países desenvolvidos, como os EUA. "O setor público e o setor privado foram mais cautelosos por aqui", disse ele, que participou ontem do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com apoio do Valor.

Mesmo que não cresça a um ritmo exuberante, o Brasil se tornou uma opção das mais atraentes para os investidores em comparação com os países desenvolvidos. "Isso ocorreu não porque as coisas melhoraram dramaticamente no Brasil, mas porque se tornaram dramaticamente piores nos países desenvolvidos." Esse movimento é decisivo para a valorização do real, assim como os altos preços de commodities. Para ele, essa "é uma situação desconfortável" para um país que já mostrou grande capacidade para produzir bens manufaturados sofisticados.

Ainda que acredite numa correção do valor do real em algum momento, hoje muito apreciado, Krugman disse que o Brasil deverá continuar a receber fluxos de capitais expressivos dos países desenvolvidos por um bom tempo. Ao mesmo tempo, os preços de commodities deverão se manter em níveis historicamente altos, dado o ritmo de crescimento mais forte de outros emergentes, como a China.

Para o economista, contudo, a valorização do real é um problema que pode ser em parte enfrentado pela imposição de impostos e limites que desencorajem a vinda desses capitais para o país, como tem feito o governo brasileiro. "E, se não há ameaças à inflação, é possível ainda cortar os juros."

Ele disse ainda que reclamar da política monetária dos EUA e da Europa, como vem fazendo a presidente Dilma Rousseff, não é eficaz. "O Brasil vem gastando um esforço considerável em criticar a política monetária do Fed [o BC americano], e esse esforço é em vão. O Fed está fazendo o que deve fazer, e devia até fazer mais", disse ele, para quem também seria importante o BC Europeu ser mais incisivo. "Gritar com os banqueiros centrais dos países desenvolvidos não vai resolver. Eles têm mais coisas com o que se preocupar do que em tornar as coisas menos difíceis para o Brasil."

Krugman tem defendido medidas agressivas de política monetária nos países desenvolvidos para tentar estimular a anêmica atividade econômica, mesmo que isso se traduza em inflação na casa de 4% - o que, na atual situação, seria uma boa notícia.

O economista mostra preocupação em especial com a situação europeia. Ele cita o caso da Espanha, onde a taxa de desemprego beira os 24%, superando os 50% entre os jovens, e insiste em políticas de austeridade fiscal, que contribuem apenas para acentuar a recessão, sem restaurar a confiança dos investidores. Ele acha possível que algum país abandone a zona do euro, como a Grécia, ainda que muitos analistas vejam a opção como catastrófica.

Quanto aos EUA, Krugman foi um pouco menos pessimista. "O mercado de trabalho está dando sinais de melhora, o mercado imobiliário também, em parte porque não construímos praticamente nenhuma casa nos últimos seis anos." Mesmo assim, descreve a situação dos EUA como terrível.

Também presente ao evento, o ex-ministro Antonio Delfim Netto disse que o câmbio é valorizado em boa parte devido aos juros elevados. O dólar barato prejudica a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% em 2011, uma das principais explicações para a expansão de 2,7% do PIB no ano passado. Para ele, é para conter essa dinâmica que o governo está promovendo medidas para reanimar o setor manufatureiro.

Em relação às críticas de que as medidas são protecionistas, Delfim avaliou que as reclamações contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio são semelhantes às de outros países. "O Brasil não é nem mais nem menos protecionista que os EUA." Ele enfatizou a necessidade de corrigir distorções do sistema tributário e de um controle rígido dos gastos de custeio, para o governo investir mais.


TED - Richard Wilkinson: Como a desigualdade econômica prejudica as sociedades

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fluxo é forte, mas dólar segue em alta



Por Eduardo Campos - Valor 18/04
De São Paulo

Nos últimos quatro dias, cerca de US$ 10 bilhões foram movimentados no mercado interbancário de câmbio, onde são contabilizadas entradas e saídas de moeda estrangeira. No entanto, essa montanha de dinheiro não foi vista nas mesas de operação.

Como o Banco Central (BC) está firme na compra de moeda no mercado à vista, tendo realizado oito atuações no período, a ideia é que a maior parte dos dólares adquirido seja resultado de entrada de moeda estrangeira.

No entanto, nem o preço do dólar, nem o mercado de cupom cambial (taxa de juro em dólar no mercado local) sugerem isso. O mercado não identificou qualquer pressão de baixa. O preço do dólar continua subindo.

Desde quinta-feira, o dólar comercial subiu 1,25%. Apenas no pregão de ontem, a moeda avançou 0,76%, para R$ 1,858 na venda, segunda maior cotação do ano. A esse preço, a perda do dólar em 2012 foi praticamente zerada, caindo para 0,60%.

No mercado de cupom cambial, a taxa de curto prazo que estava em 0,80% no fim de março, fechou ontem a 1,75%, a maior desde o começo de fevereiro. Basicamente, essa taxa sobe quando a oferta de moeda à vista cai.

Interessante notar, também, que, por ora, toda a movimentação está concentrada no mercado físico de moeda, tendo em vista que as posições dos principais agentes do mercado futuro não apresentam variação expressiva agora em abril.

Com isso, cresce a expectativa sobre os dados do fluxo cambial que saem hoje e na próxima semana. Com eles será possível ver por qual conta (comercial ou financeira) esse dinheiro todo foi movimentado, quanto o BC tirou de circulação (lembrando aqui, que são os bancos que decidem vender ou não para o BC) e como está a posição das instituições financeiras no mercado à vista.

Por ora, apenas especulações sobre o que pode estar ocorrendo. Segundo um tesoureiro, mesmo com o volume crescendo nos últimos dias, o BC deixou o mercado "seco" com suas atuações.
A autoridade monetária fez leilões de compra mesmo com o dólar em firme alta. Para alguns agentes, isso mostraria que o BC não está simplesmente enxugando fluxo, mas sim tentando influenciar preço.

Para o diretor da Renova Corretora de Câmbio, Carlos Alberto Abdalla, parte dessa movimentação do câmbio pode ser relacionada com o corte da Selic esperado para hoje.

"Não teria outro motivo para tal comportamento da moeda" diz o especialista, acreditando que a nova redução do juro básico (ou a expectativa de mais cortes) não estaria completamente embutida na taxa de câmbio e nos contratos que relacionam o dólar com a taxa de juros.

Mais no campo da percepção do que dos fatos passíveis de comprovação, alguns gestores avaliam que o BC está sim atuando para influir na direção do dólar.

Afinal de contas, a Selic está caindo, bem como o ritmo da atividade doméstica e a inflação no mercado local. Assim sendo, nada mais natural do que uma taxa de câmbio menos valorizada.

Encerrando com os juros futuros, o mercado ganhou volume e as taxas apontaram para baixo.

Os contratos mostram uma redução de 0,75 ponto percentual na Selic, que cairia a 9% ao ano, ao fim da reunião de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom).

As taxas futuras também embutem a possibilidade de 50% de mais uma redução, só que de 0,25 ponto, na reunião de maio.

Atenção voltada ao comunicado, que pode acenar ou não o fim do ciclo de corte da Selic.

Acerca da "terciarização" das ocupações no Brasil



Por Fábio José Ferreira da Silva - Valor 18/04

Nos últimos anos, o mercado de trabalho vem apresentando uma evolução favorável, como se evidencia pela acentuada redução da taxa de desemprego aliada a maiores rendimentos e maior formalização do emprego. Contudo, é nítida uma mudança na composição setorial dos postos de trabalho gerados. De acordo com os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego, no triênio 2002-2004, para cada emprego gerado fora do setor de serviços no Brasil - na indústria ou agropecuária - foram gerados 2,4 empregos no setor de serviços. Baseando-se nas informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), estima-se que essa relação atingiu 6,3 no triênio 2009-2011. O que representa o avanço do setor terciário ("terciarização") no mercado de trabalho?

Antes de analisar algumas consequências, deve-se considerar que, para alguns, não faz diferença em quais setores os empregos são gerados. Em um modelo de pleno emprego, sem rigidez (ou seja, permitindo que trabalhadores tenham mobilidade, acesso a informações e condições de migrar), o funcionamento do mercado alocaria os empregos nos setores de bens comercializáveis e serviços de forma eficiente, maximizando o bem-estar social.

Outros poderiam identificar essa tendência como algo natural, alegando que, seguindo o curso do desenvolvimento econômico, após a industrialização, as economias tendem a presenciar um aumento do peso dos serviços (seja no PIB ou no emprego) em detrimento da indústria. O presente artigo contra-argumenta, contextualizando o aumento de participação de serviços no país e buscando analisar possíveis desdobramentos e limitações para o mercado de trabalho.

Pode-se relacionar a "terciarização" ao menos a dois componentes. Em primeiro lugar, a perda de competitividade da indústria de transformação nacional, em um ambiente de apreciação do real, acentuada com o aumento de liquidez promovido pelas maiores autoridades monetárias mundiais no pós-crise do subprime. O gráfico mostra que o nível de ocupação formal da indústria de transformação encontra-se cerca de 7% acima do patamar pré-crise, enquanto que o de serviços avançou 18%.

O segundo fator é o aumento da demanda por serviços, associado às necessidades da classe média em ascensão. Conforme as famílias vão melhorando a condição econômica, o peso dos serviços na cesta de consumo aumenta em detrimento da participação dos bens. As que utilizavam a rede pública de saúde e educação passam a pagar pelos serviços para ter melhor qualidade; empregados domésticos e serviços de estética são mais demandados; o varejo cria vagas.

Para que a trajetória de melhora do mercado de trabalho se sustente é necessária a geração de postos de trabalho em quantidade e qualidade compatíveis com as potencialidades do país e com a capacitação dos trabalhadores. Além de reempregar os demitidos da indústria de transformação - o que não é simples, tampouco imediato, já que a experiência profissional pode ser pouco útil na nova atividade - deve-se considerar que o Brasil ainda é um país jovem, que precisa gerar oportunidades aos que chegam ao mercado de trabalho. Aos que dizem que o país está em pleno emprego, é bom lembrar que o desemprego oculto - que considera o trabalhador em atividade precária (o popular "bico") e o desalentado como desempregados - ainda corresponde a 9,5% da população economicamente ativa (PEA), de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Acerca da qualidade, as ocupações dos serviços não são necessariamente piores que as da indústria. O setor de serviços é heterogêneo, cobrindo desde segmentos de alta tecnologia até aqueles mais tradicionais, como os de comércio e serviços domésticos. No entanto, até o momento, tem sido mais frequente a criação de vagas de salários mais baixos. Enquanto a remuneração paga aos admitidos do setor de serviços, em 2011, foi de R$ 899, a dos demitidos da indústria de transformação foi de R$ 1.038 em média. Melhores oportunidades também vão ao encontro dos jovens que, cada vez mais, postergam a entrada no mercado de trabalho para estudar mais, porém encontram dificuldade de encontrar empregos na área em que se especializaram.

Sabe-se que a indústria é o setor de mais alta produtividade e onde a existência de cadeias produtivas torna seus segmentos dependentes entre si. O setor de serviços é menos dinâmico, mas seu comportamento está em parte relacionado com o setor industrial. Empresas rentáveis têm maiores condições de investir em tecnologia (pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, por exemplo) e de contratar melhores serviços de apoio. Essa complementaridade acontece no sentido indústria-serviços, mas a recíproca não é necessariamente verdadeira porque os bens industriais podem ser importados, o que não ocorre com os serviços.

Outro aspecto a se considerar diz respeito à composição da indústria nacional. A ascensão da China como um dos maiores parques industriais do mundo tem afetado de forma mais intensa os segmentos intensivos em trabalho no Brasil (como têxtil e calçados, por exemplo) ao mesmo tempo em que incentiva atividades intensivas em recursos naturais. Essa mudança de composição reduz a elasticidade da geração de empregos em relação ao crescimento industrial. Essa tendência implica em um número cada vez menor de postos de trabalho criados para um dado crescimento industrial.

Dessa forma, no médio e longo prazo, é mais razoável supor que a geração de postos de trabalho no setor de serviços se beneficiaria de um desempenho mais dinâmico da indústria, de modo que um crescimento econômico mais equilibrado oferece perspectivas mais favoráveis à evolução do mercado de trabalho.



Fábio José Ferreira da Silva é mestre em Economia pela FGV/SP e analista do Banco Central do Brasil.

A União sobreviveu a Tocqueville



Por Martin Wolf - Valor 18/04

Se a soberania da União viesse a envolver-se num embate com a dos Estados, no dias atuais, sua derrota poderia ser confiantemente prevista, e não é provável que tal embate seja seriamente empreendido. Se um dos Estados optasse por remover seu nome do contrato, seria difícil negar seu direito a assim fazê-lo, e o Governo Federal não teria meios de sustentar de imediato suas reivindicações, seja pela força ou pelo direito".

Alexis de Tocqueville, autor dessas palavras sobre as perspectivas para os EUA, foi o mais agudo observador estrangeiro sobre o país. Mas ele não conseguiu prever o resultado de uma guerra civil. Analogamente, durante os 10 dias que passei nos EUA, descobri que os americanos bem informados acreditam que a zona do euro não sobreviverá. Isso porque a veem como um casamento de conveniência econômica, assim como Tocqueville viu os EUA como um casamento de conveniência política.

O paralelo é inexato, mas esclarecedor. É inexato, porque a zona do euro não é país. Se fosse, as tensões econômicas a que está sujeita seriam fáceis de administrar. É esclarecedor, porque mostra que a sobrevivência de qualquer construção política depende do vigor das forças centrífugas e centrípetas em ação. No caso dos EUA, as primeiras foram suficientes para convencer os Confederados a empreender a separação, mas as segundas foram suficiente para derrotar essa tentativa.

O que podemos, então, dizer sobre as forças em atuação na zona euro? As forças econômicas centrífugas são dolorosamente evidentes.

Em primeiro lugar, uma vez que a zona euro é uma união monetária sem retaguardas fiscais, a pressão de ajustes recai sobre mercados de trabalho notoriamente inflexíveis. Uma vez que o objetivo acordado é inflação baixa, isso significa uma pressão descendente sobre os salários nominais. Isso implica disparada do desemprego, economias em colapso e deflação da dívida.

Em segundo lugar, o nascimento do euro coincidiu com um boom mundial de crédito. A convergência dos juros decorrentes de sua criação foi reforçada pelo desaparecimento dos spreads de risco. O resultado foi uma onda de empréstimos transfronteiras - tanto para o setor público como para o privado -, reduzida pressão por consolidação fiscal em países altamente endividados (como a Itália) e o surgimento de enormes desequilíbrios de pagamentos e divergências de competitividade. Depois vieram os choques financeiros, que produziram "paradas súbitas" nos empréstimos, um colapso na tomada de empréstimos e nos gastos privados e uma onda de crises fiscais.

Em terceiro lugar, em tal crise, a zona euro não dispunha de um meio eficaz para sustentar sistemas bancários, financiar países em dificuldades ou assegurar ajustes proporcionados por parte de economias credoras e devedoras. Em vez disso, vemos improvisação: o avião da zona do euro está sendo reprojetado enquanto cai.

Agora, consideremos as forças centrífugas políticas. Eu gostaria de citar duas. Em primeiro lugar, a solidariedade continua em grande parte nacional. Afinal, falamos dos Estados de bem-estar mais generosos do mundo. Mas a disponibilização relativamente modesta de financiamento transfronteiras para ajudar as economias em dificuldades revelou-se muito difícil. É por isso que, na prática, o Banco Central Europeu emergiu como financiador transfronteiriço principal.

Em segundo lugar, o poder repousa nos Estados membros. No caso do euro, o poder está concentrado nas mãos da Alemanha, o maior país credor. Por isso, a zona do euro funciona, politicamente, como um arranjo multipaíses, não como um país. Os alemães compreenderam o problema desde o início. Os franceses, com frequência, não.

Por último, consideremos as ideias. A mais importante força centrífuga é o amplo desacordo sobre o que deu errado e como corrigir. Em particular, a visão alemã é de que a crise reflete indisciplina fiscal. Outros insistem (com razão) que o problema central foi excessiva concessão de empréstimos, competitividade divergente e desequilíbrios externos.

Essa discordância é relevante porque os ajustes não podem simplesmente ser impostos. Em vista da opção de saída (do euro), eles têm de ser negociados. Em tal negociação, os países credores precisam compreender seu papel na crise. Se eles quiserem preservar seus superávits, devem financiar seus devedores. Se quiserem ver pago o que emprestaram, precisam progredir no sentido de um déficit. Os dois lados - finanças e comércio - têm de ser realinhados.

São essas forças centrífugas suficientemente poderosas para romper o sistema? Para dar uma resposta, precisamos também examinar as forças centrípetas.

A principal força econômica que agora mantém o sistema coeso é o medo de uma ruptura. Uma justificação adicional para a união, nos países atingidos pela crise, é a útil pressão por reforma. Muitos acreditam que a moeda única oferece, no longo prazo, uma recompensa econômica positiva, embora essa visão precise ser temperada pelos custos do enfrentamento das crises e da redução da integração financeiro entre países.

A principal força política é o compromisso para com o ideal de uma Europa integrada, juntamente com o enorme investimento da elite nesse projeto. Essa motivação enormemente importante é muitas vezes subestimada por forasteiros. Embora a zona do euro não seja um país, é muito mais do que uma união monetária. Para a Alemanha, de longe o membro mais importante, a zona euro é o clímax de um processo de integração com seus vizinhos que ajudou a produzir estabilidade e prosperidade após os desastres na primeira metade do Século XX. O que está em jogo, para países membros importantes, é enorme.

Assim, a grande ideia que aproxima os países membros é a de seu lugar na Europa e no mundo. As elites políticas dos Estados membros, e grande parte de sua população, continuam a acreditar na agenda do pós-guerra, ainda que não tão apaixonadamente como antes. Em termos mais estritamente econômicos, poucos acreditam que flexibilização monetária poderia ajudar. Muitos continuam a acreditar que desvalorizações apenas gerariam inflação mais elevada.

Se esse fosse um simples casamento de conveniência, um divórcio conturbado pareceria provável. Mas trata-se de muito mais do que um casamento, mesmo que permanecerá sendo muito menos do que uma união federativa. Quem olha de fora não deveria subestimar a força da vontade por trás dele.

O desfecho mais provável - embora longe de assegurado - é um compromisso entre as ideias germânicas e uma emaranhada realidade Europeia. O apoio aos países em dificuldade crescerá. A inflação alemã vai subir e seus superávits externos cairão. O ajuste irá ocorrer. O casamento será extremamente infeliz. Mas ele é capaz de resistir. (Tradução de Sergio Blum)



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Combustível caro assombra setor aéreo





Empresas se queixam de aumento de preço do querosene da aviação e pedem redução de tributos ao governo



Segundo o Ministério do Fazenda, no curto prazo, não é possível atender nenhum pedido das companhias



FSP 18/04
A Secretaria de Aviação Civil (SAC) se preocupa com os impactos do aumento do combustível de aviação, mas o Ministério da Fazenda ainda não encontrou uma fórmula para aliviar as empresas.

Os principais pleitos das companhias aéreas são o controle do preço do combustível de aviação pela Petrobras, a redução do ICMS e a isenção de alguns tributos federais.

Nenhum deles é visto na Fazenda como possível de atender no curto prazo. No médio prazo, está no horizonte do governo começar a discutir um teto para a alíquota de ICMS sobre o combustível.

O combustível de aviação teve aumento de 33,5% em 2011 e foi o item de maior impacto nos prejuízos das duas maiores companhias aéreas do país, a TAM e a Gol. A Petrobras é a única fornecedora do combustível.

Para reverter o quadro, as empresas cortam linhas e reduzem drasticamente os descontos nas tarifas aéreas.

Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que a tarifa média das passagens aéreas subiu 44% de julho a novembro de 2011 (último mês pesquisado). No período, a inflação oficial ficou em 1,8%. Em julho, a tarifa média estava em R$ 223,40 e passou em novembro para R$ 322,30.

Segundo o Sindicato Nacional da Empresas Aeroviárias (Snea), o combustível corresponde a 40% das despesas das companhias. A média mundial é de 32%.

"Se você tem um custo dessa monta, naturalmente repassa para a tarifa", diz Ronaldo Jenkins, diretor do Snea, lembrando que outros fatores como a alta do dólar e das tarifas aeroportuárias também influenciaram.

Maior companhia aérea do país e com mais voos internacionais, a TAM informou que "registrou elevação de 21,3% nos gastos com combustível e de 10,1% no volume consumido na comparação com o ano anterior".

Ainda segundo a empresa, o impacto desse aumento nas despesas da companhia foi considerado "significativo". A empresa registrou prejuízo de R$ 335 milhões no ano.

No caso da Gol, a segunda do ranking nacional, o diretor de Relações com Investidores, Edimar Lopes Neto, afirmou que a companhia reverteria a maior parte do seu prejuízo de R$ 710 milhões -teria lucro antes do pagamento de impostos- se o combustível tivesse se mantido no mesmo preço de 2010.

De 2007 a 2011, a Petrobras importou, segundo a Agência Nacional do Petróleo, 15,4 milhões de litros de combustível de aviação (QAV) e produziu no país 330,5 milhões. Apesar de importar só 5% do consumo, a empresa cobra das empresas como se todo o QAV vendido no país viesse do golfo do México, com custos correspondentes de importação e transporte. A Petrobras não se manifestou.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma bolha pode estar em formação



Por Mary Anastasia O'Grady

Juntamente com a Rússia, a Índia e a China, aponta-se o Brasil como um tigre econômico do século XXI. Então, como se explica que tenha crescido míseros 2,7% no ano passado?

Segundo a presidente Dilma Rousseff, é a política de juros baixos do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) que está tornando seu país não competitivo e, portanto, "prejudicando o crescimento". Ela disse isso em uma visita a Washington na semana passada.

Não é uma acusação nova. O Brasil tem se queixado há algum tempo da política de dinheiro fácil do presidente do Fed, Ben Bernanke. Ao ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, é creditado o termo "guerra cambial" para descrever a vantagem exportadora de um país mediante desvalorização de sua moeda nacional.

Sem dúvida, a "flexibilização quantitativa" do Fed e a política de juros quase nulos implicam haver muitos dólares em busca de melhores retornos nos mercados de energia. Isso alimentou uma corrida ao Brasil, onde foram descobertas abundantes reservas petrolíferas no mar que, em contraste com reservas nos EUA, têm sido alvo de exploração. Ao contrário do que ocorre no México, o Brasil está permitindo que empresas estrangeiras participem do processo. Também na agricultura, o Brasil emprega a mais sofisticada tecnologia disponível e a usa para tornar-se um produtor de classe mundial numa época de preços crescentes dos alimentos.
Quando os investidores colocam seu dinheiro nesses ativos rentáveis no Brasil, o valor do real sobe. Nesses termos, Dilma tem razão em que Bernanke, ao "jogar dinheiro do helicóptero", está desempenhando um papel fundamental na economia brasileira. Os investidores também têm razão em serem cautelosos num jogo envolvendo commodities fortemente dependente da política de crédito fácil do Fed.

Uma bolha pode estar em formação. Se a produção não for rentável a preços mais baixos, um estouro de bolha poderá acontecer.

Mas, uma moeda forte torna os brasileiros mais ricos, algo que a presidente deveria comemorar. Então, por que ela está se lamentando? A resposta está no poder político dos industriais nacionais.

Pense o que aconteceria se os responsáveis pela política monetária permitissem uma valorização do real. À medida que os dólares afluíssem para o país e fossem usados para comprar reais, a taxa de câmbio apreciaria. A valorização do real daria aos brasileiros maior poder de compra em todo o mundo para modernizar suas instalações produtivas, melhorando a produtividade e, assim, a competitividade.

Esse seria um processo de acumulação de riqueza. Mas os planejadores centrais brasileiros têm outras ideias. Eles sempre imaginaram o país como um gigante industrial, e o governo vem, de longa data, subsidiando os produtores nacionais - a teoria das indústrias nascentes - e oferecendo proteção contra a concorrência estrangeira. Isso era mais fácil quando a moeda local era fraca. Os brasileiros não conseguiam pagar as importações do país e as exportações pareciam mais atraentes para os compradores estrangeiros.

Hoje o real forte está expondo a debilidade da indústria brasileira, que mesmo antes do "boom de Bernanke" estava diminuindo em importância econômica. De acordo com o economista brasileiro Raúl Velloso, a indústria de transformação, como percentual do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro é agora metade do que no fim de 1980. Um total de 65% da economia corresponde, hoje, ao setor de serviços, e esse setor emprega quatro vezes mais brasileiros do que a indústria de transformação.

Mesmo assim, os produtores nacionais continuam politicamente poderosos e eles estão exercendo pressão sobre Brasília para impedir a valorização do real. Para fazer isso, o Banco Central tem de comprar o afluxo de dólares, emitir novos reais e, em seguida, emitir títulos para remover esses reais de circulação para que não gerem inflação. O banco tem agora mais de US$ 400 bilhões em reservas e as emissões de títulos têm empurrado os juros para cima.

Taxas de juros mais altas atraem mais compradores de reais em busca de rendimentos mais elevados. Assim, ao invés de enfraquecer a moeda, a intervenção do banco a torna mais forte. Juros mais altos também encarecem manter as reservas. Outro problema é que pode ser mais provável que os investidores coloquem seu dinheiro em títulos do governo, em vez de convertê-los nos investimentos necessários para aumentar a capacidade produtiva.

O governo também está devorando a poupança necessária para investimentos fomentando o consumo em uma diversidade de maneiras. O impulso ao consumo, inclusive a expansão de crédito subsidiado do BNDES, o banco nacional de desenvolvimento, é perigoso.

À medida que a demanda se aquece, a baixa taxa brasileira de investimentos em relação ao PIB (18%) em comparação com a chinesa (50%) implica a necessidade de importações. O protecionismo bloqueia as importações, de modo que os preços dos produtos comercializáveis sobem. Os preços dos serviços, que não são importados, também sobem.

Maior consumo sem a correspondente capacidade produtiva provoca inflação, elevando os custos salariais para os fabricantes nacionais que o governo deseja ajudar. O banco central precisa apoiar-se em juros elevados para controlar a situação. O crescimento sofre.

A saída dessa armadilha é aproveitar o real forte e as vantagens comparativas do país em serviços e commodities. Permitir que a indústria de transformação planejada centralmente se reestruture não será indolor. Mas é melhor fazê-lo agora, ao lado de reformas pró-crescimento nas áreas tributária e de regulamentação, do que esperar a inevitável crise



Mary Anastasia O'Grady é colunista do Wall Street Journal Americas

(In) solúvel: de como se mata a exportação



Por Antonio Delfim Netto - Valor 17/04

Das exportações de nossos produtos industrializados talvez nenhum tenha a gloriosa história do café solúvel. Sua vantagem comparativa foi construída na dura disputa de uma década com a administração dos EUA, que queriam que impuséssemos um imposto de "exportação" para proteger seus produtores.

Foi o tempo de "o que importa é exportar". A exportação garantia alta taxa de crescimento do PIB sem crises no balanço em conta corrente. Tudo isso hoje parece muito distante, mas se você ficar parado, a história pode voltar a passar por aqui.

Mas qual é o problema? Comecemos pelo começo: 1) o desastrado sistema tributário: com a instituição da Lei Kandir, que entrou em vigor em setembro de 1996, foi criada uma grande distorção no sistema tributário. Enquanto as exportações de café verde ficaram totalmente isentas do recolhimento do ICMS, as indústrias de café solúvel, que compram o café verde de outros Estados para industrialização, foram obrigadas a recolher o ICMS. Com isso acumulam créditos de ICMS cobrados sobre os insumos (café verde) usados na fabricação dos seus produtos.

Esses recursos ficam indisponíveis até que os fiscos estaduais se predisponham a devolvê-los, sem qualquer atualização monetária. O mais indecente é que quando o Estado libera os créditos de ICMS, o faz na forma de "certificados de crédito", que as empresas negociam com um deságio médio de 10%. Isso é prejuízo líquido da empresa transferido como lucro para outros.

Os exportadores também acumulam impostos federais, como PIS e Cofins. O motivo do acúmulo dos créditos é o mesmo do ICMS. Entre ICMS, PIS e Cofins, estima-se que o crédito acumulado do setor em 31/12 de 2011 era de aproximadamente R$ 130 milhões, consumindo o capital de giro das empresas. Isso as obriga a tomar empréstimos bancários a juros extorsivos, que destroem ainda mais a sua competitividade. Em que mundo vive tal manicômio fiscal?

2) o descuido da política comercial externa: o Brasil é o único entre os 20 principais fornecedores de café para a União Europeia (UE) que tem exportações de solúvel taxadas em 9%. O Vietnã e a Indonésia, respectivamente segundo e terceiro maiores produtores mundiais de café, mais a Índia, são taxados em apenas 3,1%, de acordo com o Generalized System of Preferences (GSP). Colômbia, hoje o quarto maior produtor mundial de café, México e Equador estão isentos de taxa de importação, beneficiados por acordos bilaterais com a UE.

O Japão, um dos principais mercados do café brasileiro, ratificou acordo de cooperação econômica com os países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) para a eliminação gradual de taxa de importação para o café solúvel e o extrato de café exportados do bloco, que inclui, entre outros, Vietnã, Indonésia e Malásia.

A Indonésia já está isenta de taxa, a Malásia será isenta em 2013, e hoje apenas é taxada em 1,1%. O Vietnã será isento em 2016. Hoje, é taxado em 4,4%. O Brasil tem seu café solúvel taxado em 8,8%, enquanto se enrola em discursos multilaterais! E pior, o extrato de café é taxado em 15% no Japão, nosso maior mercado. Em que mundo perdido vivem o Itamaraty e o nosso Ministério de Indústria e Comércio?

3) Protecionismo mal disfarçado: Vietnã, Indonésia, Colômbia, Índia, México, Equador e Malásia são responsáveis por 60% do volume total de exportação de solúvel. Todos permitem que suas indústrias desfrutem do benefício universal do "drawback" de matéria-prima, para que se mantenham permanentemente competitivos no mercado internacional, alcancem os mais diversos mercados consumidores e ofereçam "blends" diferenciados.

Sob a falsa alegação de "defesa sanitária", o Brasil não dá essa condição, o que deixa sua indústria sem condições de operar com competitividade. A produção de conillon é insuficiente para atender às demandas de consumo interno, exportação in natura e industrialização para o solúvel, mas o setor é impossibilitado de buscar matéria-prima em um ambiente regulado pelo mercado internacional onde estão seus clientes. Com isso, fica refém de preços artificiais e distorcidos do mercado interno nacional de café verde, não podendo importar matéria-prima para exportar produto de maior valor agregado.

Todas essas situações combinadas têm estimulado a expansão da indústria no exterior, que vem recebendo grandes investimentos em novas fábricas e incremento de capacidade das já existentes, enquanto as nossas estão sendo destruídas. Ao liberar o "drawback", sinalizaríamos claramente que temos as condições permanentes para nos manter competitivos a médio e longo prazo. Isso provavelmente daria segurança às indústrias de países consumidores para desativarem suas plantas, transferindo-as para o Brasil. Afinal, onde anda o Ministério da Agricultura?

Diante desses fatos não é tão difícil entender por que a Alemanha e a Suíça tornaram-se grandes exportadores de café torrado e moído, enquanto matamos nossa indústria de solúvel. Notaram que não se falou nas taxas de câmbio?



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Revisitando a economia mundial



Por Luiz Carlos Mendonça de Barros - Valor 16/04

Vou deixar de lado os problemas da economia neste início do segundo ano do governo Dilma e olhar para fora do Brasil. Afinal, como sabe o leitor do Valor, o analista precisa ter um olho no peixe - o Brasil - mas o outro no gato, que hoje é representado pelos Estados Unidos, Europa e principalmente a China.

Depois de algumas semanas de certa calmaria, a flutuação violenta dos preços dos ativos negociados pelo mundo afora voltou à ordem do dia. Por exemplo, a Bovespa caiu 1,2% na segunda passada, 1,9% na terça, 0,7% na quarta, para subir 2,9% no dia seguinte e quase 2% na sexta (no momento em que escrevia esta coluna). Esse mesmo vai e vem ocorre nas bolsas americanas, nos mercados de câmbio e nos negócios com títulos de renda fixa nos quatro cantos do mundo.

Confesso que nunca vivi um período de irracionalidade tão grande. E uso o termo irracionalidade aqui para descrever a falta de sintonia entre o comportamento dos mercados e o que acontece de fato nas principais economias do mundo. Essa sintonia sempre foi uma das âncoras que ligou as questões macro e a composição das carteiras de ativos dos grandes investidores. Embora ela não seja perfeita, e de tempos em tempos apresente divergências importantes, é um dos elementos centrais na tarefa de se prever com alguma racionalidade o futuro nos mercados financeiros.

Mas a já longa crise que estamos vivendo mudou a forma como previsões econômicas e preços dos ativos financeiros se inter-relacionam. Nos últimos dois anos os investidores passaram a reagir de forma violenta à publicação de certos dados que não fazem parte do grupo de indicadores que realmente contam na tarefa de acompanhar o pulsar das economias. São os chamados indicadores de alta frequência, que sofrem influências sazonais fortíssimas, o que leva os analistas a usar métodos estatísticos sofisticados para tentar transformá-los em sinais mais críveis. Pois nos dias de hoje esses dados voláteis, e que são divulgados de forma bruta pela imprensa, passaram a fazer a cabeça dos investidores e a mover os mercados.

Outra característica dos dias atuais é a prevalência dos dados passados sobre aqueles que procuram construir o futuro via instrumentos bastante sofisticados de análise. São os chamados indicadores antecedentes e que, sem chegarem à perfeição, apresentam um resultado bastante satisfatório nessa sua difícil missão. Mas nos últimos tempos eles não têm conseguido influenciar o comportamento dos mercados, centrados que estão na miríade de informações divulgadas diariamente pela imprensa. Prova disso foi a forma fria, e sem respeito, com que foi tratada a divulgação dos indicadores antecedentes construídos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o segundo trimestre do ano e que mostram uma recuperação sustentada nas economias dos Estados Unidos, da China e do Brasil, entre outros.

Passei os últimos dias tentando entender as razões para essa quebra de padrão nos mercados financeiros. E a mais sólida explicação que encontrei foi o fato de que a grande parte dos recursos dos grandes investidores institucionais no mundo todo está hoje aplicada em títulos que pagam juros fixos. São majoritariamente papéis de curto e médio prazo, emitidos pelos governos nacionais, denominados em moedas seguras como o dólar americano e que pagam juros baixíssimos, bem abaixo da taxa de inflação. Mas a insegurança e a volatilidade de ativos mais rentáveis ao longo dos últimos dois anos fez da perda de capital de pequena monta a melhor de todas as outras alternativas.

Pois a redução da importância desses investidores, que se pautam mais pelos fundamentos econômicos e menos pela especulação de curto prazo, abriu espaço para os que adoram o que chamam de volatilidade dos mercados. São operadores do curto prazo e que dão pouca importância aos verdadeiros fundamentos de uma economia de mercado. E com isso a sintonia entre preços e fundamentos enfraqueceu e os mercados, sem esta referência, passaram a funcionar aos trancos e ao sabor dos dados de alta frequência.
Na última sexta feira tivemos um exemplo desse novo padrão de comportamento. A China divulgou os principais indicadores econômicos relativos ao primeiro trimestre deste ano. Como sempre ocorre nessas situações, as informações divulgadas dividiram-se em dois grandes grupos. O primeiro trouxe os dados sobre o PIB e que vieram abaixo das expectativas do mercado. Esperava-se um crescimento de 8,4% ao ano e o número real foi de apenas 8,1%, ou seja, um crescimento entre o último trimestre de 2011 e agora abaixo dos 8% ao ano. Isso foi suficiente para fazer com que os mercados reagissem de forma extremada, com quedas generalizadas nas bolsas de valores mundo afora e a valorização do dólar em relação às moedas emergentes.

Foram deixados de lado pelos operadores todos os indicadores que apontam para o futuro, como a normalização na concessão de crédito pelo sistema bancário, a expansão monetária no período e o dinamismo do consumo interno. Aliás, foram esses dados que levaram a OCDE a mostrar uma inflexão na curva do crescimento chinês nos próximos meses e a prever a volta de uma expansão da economia a taxas acima dos 8% em 2012. Mas o mercado vai navegar ainda algum tempo com a imagem de um quase colapso na segunda economia do mundo.



Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

México sai da sombra do Brasil



Por John Paul Rathbone Valor 16/04

Perguntei certa vez a Carlos Slim por que os mexicanos mostravam-se tão desanimados em relação a seu país e os brasileiros tão eufóricos com o deles. O homem mais rico do mundo, cujos principais investimentos espalham-se pelos dois países, respondeu: "É simples. Eles são brasileiros. Nós somos mexicanos."

Foi um comentário perceptivo. Muitos mexicanos sentem-se deprimidos com seu país e o mundo compartilhou essa desesperança. Enquanto isso, a confiança da onda de crescimento do Brasil - que pôde ser vista durante a visita da presidente Dilma Rousseff a Washington nesta semana - arraigou-se na imaginação popular. A mais recente manifestação disso é a iminente oferta pública inicial de ações de US$ 20 bilhões do BTG, o banco de investimento brasileiro que quer ser, entre outras coisas, um " Goldman Sachs tropical". Só isso deveria fazer-nos observar de novo - especialmente quando os humores nacionais eram tão diferentes há apenas dez anos.

Na época, havia um debate caloroso sobre qual era o verdadeiro líder econômico da América Latina. Para muitos mexicanos, a resposta era óbvia. O país havia acabado de concluir a transição para a democracia. Sua economia era maior do que a do Brasil. Tinha até um sistema bancário sólido. O Brasil, enquanto isso, acabava de sair de uma crise cambial e os investidores estavam aterrorizados porque o país estava para eleger um perigoso esquerdista, Luiz Inácio Lula da Silva. Com que rapidez a mesa virou. O Brasil tornou-se um dos tão alardeados países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), ficando atrás apenas da China no grupo. O México ficou para trás, com sua economia agora sendo a metade do monstro brasileiro de US$ 2,6 trilhões. O que aconteceu?

A resposta, em grande parte, é a China. Sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) trouxe menores preços do que os da indústria mexicana, que perdeu negócios para rivais de custos bem menores. A liderança política também foi frágil. A economia doméstica mexicana continua sufocada por monopólios - especialmente o da petrolífera estatal Pemex. A confiança nacional ficou ainda mais abalada com a guerra contra o crime organizado, que matou 50 mil pessoas nos últimos seis anos.

Em contraste, o Brasil ganhou cada vez mais importância. Sua economia beneficiou-se da demanda voraz da China, seu maior parceiro comercial, por commodities. Lula esteve longe de ser o bicho-papão que tantos temiam. O Brasil enfrentou oligopólios em seu mercado doméstico de uma maneira melhor que os mexicanos e liberou sua petrolífera estatal, a Petrobras, permitindo que abrisse o capital e se aliasse a empresas estrangeiras para explorar reservas petrolíferas gigantescas. Enquanto os Estados Unidos, maior parceiro comercial do México, cambaleou da crise das empresas "pontocom" para o estouro da bolha das hipotecas de baixa qualidade, o Brasil entrou em uma onda lucrativa. De fato, parecia ser "o melhor país do mundo" [em português, no original]. Certamente, era um dos mais sortudos.

Agora, essa sorte pode estar mudando. Pela primeira vez em dez anos há bons motivos para ser menos otimista em relação à China - e, portanto, quanto ao Brasil também. Também há bons motivos para ser mais otimista sobre os EUA - e, portanto, em relação ao México também. A China perdeu competitividade, afetada pelo aumento nos custos com mão de obra e transporte. Se a economia dos EUA se recuperar, a indústria mexicana deverá sair-se bem.

O México também se tornou um fabricante mundial de automóveis. A indústria gerou exportações de US$ 23 bilhões em 2011 - mais do que o petróleo e o turismo. Não se tratam das baratas operações "maquiladoras": Volkswagen e Nissan usam a rede de acordos de comércio exterior do México para exportar seus carros para todo o mundo. Quanto à "guerra contra as drogas" do México, a outrora onda vertiginosa de aumento da violência desacelerou-se e, em algumas áreas, até diminuiu. Os motivos não estão claros, mas a elevação de 74% nos gastos federais em segurança acabará fazendo diferença.

O Brasil, no entanto, chegou a um quebra-molas. Não pode mais contar com a alta dos preços das commodities para sempre. Ainda mais crucial, o país criou um sério problema de custos. Mesmo levando em conta apenas a moeda local - sem incluir o impacto da impressão de dinheiro pelo Ocidente, nas chamadas "guerras cambiais" - o custo da mão de obra brasileira subiu 25% em termos reais nos últimos dez anos. Isso ameaçou a indústria local e causou uma disputa comercial protecionista inconveniente com o México, o que fez a integração regional regredir. Os brasileiros podem ter um otimismo inato, como disse Slim. Tudo isso, no entanto, deixa o Brasil parecendo temeroso e o México, bastante confiante.

Essa reversão parcial da sorte relativa obscureceu algo do brilho brasileiro. Autoridades mexicanas ciumentas não franzem mais o cenho quando ouvem falar do país que começa com "B" como costumavam fazer. Ainda assim, o Brasil oferece pelo menos uma lição importante. Nos últimos 17 anos gozou de uma sequência encantada de presidentes notáveis, a começar por Fernando Henrique Cardoso. Em contraste, o último presidente mexicano a mostrar liderança genuína foi Carlos Salinas - e seu mandato acabou de forma controversa em 1994. Pode ser esperar demais que Enrique Peña Nieto, de 45 anos e boa presença na TV, candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), traga uma visão estratégica no estilo brasileiro, caso vença a eleição de 1º de julho, como indicam as pesquisas de opinião pública. É verdade que Peña se comprometeu a abrir a Pemex ao capital externo e a economia a uma maior concorrência. O PRI, no entanto, passou 12 anos na oposição derrubando iniciativas similares, portanto, há dúvidas legítimas.

Com o tamanho do Brasil, é improvável que o país volte a ceder a liderança na América Latina. Ainda assim, pensando no longo prazo, as perspectivas para o México podem ser bem mais favoráveis do que muitos - como os mexicanos melancólicos descritos por Slim - acreditam. (Tradução de Sabino Ahumada)



John Paul Rathbone, é editor de América Latina do FT.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Parem-me quando ouvirem algo que gostem

Ex-BC não acredita em expansão do crédito


A redução das taxas de juros das linhas de crédito pessoal dos bancos públicos, anunciada na semana passada, não deve trazer um crescimento maior do crédito neste ano, avalia Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor de política monetária do BC e atual economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

O Banco Central espera um crescimento nas operações de crédito de 15% para este ano, inferior à expansão verificada no ano passado que foi de 19%.

Para o ex-diretor do BC, o endividamento das famílias brasileiras está muito alto, o que limita a disposição para a contratação de novas linhas de crédito. A parcela da renda mensal dos brasileiros comprometida com o pagamento de dívidas atingiu em dezembro 22,3%, maior percentual para o mês desde 2005, segundo o último dado do BC.

A iniciativa do governo para pressionar os bancos privados a reduzirem os custos dos empréstimos é mais uma das medidas utilizadas para incentivar o crescimento da economia e uma forma de não ter que ampliar a redução da taxa básica de juros. O BC já sinalizou um piso para a queda da taxa Selic neste ano, atualmente em 9,75%, que deve ficar ligeiramente acima da mínima histórica de 8,75%.

Apesar da queda da Selic, o spread bancário, que representa a diferença entre a taxa que os bancos captam e a repassada nos empréstimos, aumentou do final do ano passado para fevereiro, passando de 17,9% para 18,8% ao ano no caso de pessoa jurídica, e de 33,7% para 35,8% para pessoa física. A inadimplência referente às operações com pessoa física também cresceu, mas em patamar menor, indo de 7,4% para 7,6%. "Com a Selic caindo, as taxas de juros finais têm de cair e rápido. É um absurdo os juros finais crescerem nesse cenário", afirma Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Ciesp.

Em 2008, com o agravamento da crise financeira nos Estados Unidos, o governo ampliou a concessão de crédito dos bancos públicos e implementou um programa de liberação dos depósitos recolhidos pelos bancos junto ao BC (o recolhimento compulsório). Freitas destaca, no entanto, que a liberação do depósito compulsório não tem grande efeito no estímulo à economia. "Só resolveria se fosse condicionada ao aumento da concessão em determinadas linhas de crédito. Caso contrário, os bancos vão investir os recursos em títulos públicos", avalia.

O diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, afirma que, embora não seja condição para a queda do spread, algumas medidas do governo poderiam favorecer esse processo, como a eliminação da tributação sobre o financiamento ao investimento e a liberação de compulsório não remunerado nos desembolsos de recursos direcionados exclusivamente a linhas de investimento remuneradas pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP).

Estudo da Fiesp mostra que a participação do spread bancário no custo das operações de capital de giro passou de R$ 28,5 bilhões em 2007 para R$ 43,59 bilhões em setembro de 2011. O capital de giro representava em 2011, segundo a Fiesp, 7,5% do preço dos produtos industrializados, superior à média de um grupo de países formado por Chile, Itália, Japão, Malásia e Noruega, para o qual essa participação era de 1,97%. Na avaliação de Freitas, da CNC, os bancos brasileiros estão pouco alavancados e teriam espaço para ampliar as concessões de crédito.

Os bancos exigem do governo a adoção de uma série de medidas que poderiam reduzir os custos dos empréstimos, como redução de tributos e maiores garantias nas operações bancárias.

Segundo o ex-diretor do BC, os bancos privados devem seguir o movimento das instituições financeiras públicas se não quiserem perder fatia de mercado. O economista não vê, no entanto, risco de uma elevação das taxas de inadimplência nessas instituições financeiras.

Baixa do dólar é limitada por intervenções


Coerente com a tendência que se estabeleceu desde o início da semana, o mercado local segue correlacionado com o que acontece lá fora. Como a quinta-feira foi dia de vender dólar e correr para o risco nos principais mercados, por aqui, não foi diferente.

No entanto, o movimento de baixa foi limitado pelas atuações do Banco Central (BC). A autoridade monetária fez duas compras à vista, algo que não acontecia desde o dia 15 de março.

Com isso, a queda do dólar comercial ficou limitada a 0,27%, para R$ 1,83, depois de uma mínima intradia de R$ 1,823.
 
No mercado futuro, a baixa foi de 0,51%, com o contrato para maio valendo R$ 1,834, antes do ajuste final de posições.

O giro estimado para o interbancário ficou em US$ 2,2 bilhões, cifra elevada e que dá respaldo à percepção de que o dia contou com firme entrada de recursos externos pela conta financeira.

No câmbio externo, no entanto, as variações foram mais expressivas. O rand sul-africano, o dólar australiano, o dólar canadense e o peso mexicano ganharam entre 0,80% a 1,5% sobre a moeda americana.

O Dollar Index, que mede o desempenho da divisa americana ante uma cesta de moedas, caiu 0,52%, a 79,32 pontos. Enquanto o euro subiu 0,60%, a US$ 1,318.

O mercado parece funcionar na lógica do "quanto pior melhor", já que os sinais de menor crescimento econômico nos Estados Unidos e os renovados problemas com o custo das dívidas soberanas europeias aumentaram a perspectiva de mais medidas de estímulo por parte das autoridades monetária.

Outra história que circulou pelas mesas de operações foi a de que o Produto Interno Bruto (PIB) da China poderia surpreender para cima.

Segundo um economista, o mercado está em modo "bipolar". Alterna pessimismo extremo e euforia em questão de dias (quando não no mesmo pregão), quase sempre sem base em fundamentos, mas sim em expectativas e dados de alta frequência. Para esse especialista, esse tipo de comportamento denota a total falta de previsibilidade sobre o rumo da economia mundial.

No mercado de juros futuros, as taxas voltaram a cair depois do suspiro de alta da quarta-feira. A tese de Selic abaixo de 9% ganhou novo fôlego com as informações da jornalista Claudia Safatle publicadas na edição de quinta-feira do Valor.

De acordo com o texto, a surpresa positiva com o comportamento da inflação pode levar o BC a fazer uma parada não muito longa no movimento de baixa dos juros e, então, retomar o corte da taxa básica.

No mercado a visão é que a fórmula de rendimento da poupança é uma barreira à queda mais pronunciada da Selic.

O ponto interessante levantado pelo texto é que esse "limite" de baixa poderia estar abaixo dos 9%. "Para fontes oficiais, porém, essa não é uma métrica rigorosa. Os administradores de fundos de investimento ainda teriam margem para cortar as taxas de administração, avaliam. Mas só farão isso se sentirem 'um calor'", diz o texto.

Vale lembrar que, na segunda-feira, a Febraban divulgou estudo apontando que uma taxa básica de 8,75% já poderia promover um esvaziamento dos fundos de renda fixa. Além da questão dos spreads bancários, essa discussão em torno da poupança parece ser mais um ponto de enfrentamento entre o governo e os bancos.

Investimento estrangeiro direto cresce 16,5%, a US$ 1,67 tri


O fluxo global de investimentos estrangeiros diretos (IED) cresceu 16,5% no ano passado, para um valor estimado de US$ 1,664 trilhão, mas o movimento não se traduziu em expansão equivalente da capacidade produtiva, segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

No Brasil, a entidade destacou entrada de recursos atraídos pelo juro mais alto, inclusive de afiliadas de companhias brasileiras no exterior.

A cifra global registrada em 2011 - que superou o nível pré-crise mas ainda está 25% abaixo do pico alcançado em 2007 - foi obtida em grande parte por aquisições no exterior e aumento das reservas em dinheiro mantidas em afiliadas localizados com outros países - "ao invés do tão necessário investimento em novos ativos produtivos por meio de projetos novos ("greenfield") ou gastos com afiliadas já existentes".

O fluxo originado apenas nos países em desenvolvimento caiu 7% e, como resultado, a participação dessas economias no IED global recuou de 31% em 2010 para 26% - mas ainda ficou no segundo maior nível já registrado. "A expansão do fluxo de IED a partir de economias em desenvolvimento visto nos últimos anos parece ter perdido ímpeto em 2011 devido a declínios significativos no IED gerado na região de América Latina e Caribe e uma desaceleração no crescimento referente aos países em desenvolvimento da Ásia", destacou a Unctad em relatório.

Somente América Latina e Caribe foram responsáveis por uma queda de 29% na geração de IED no ano passado, após forte avanço, de 82%, em 2010. No caso do Brasil, especificamente, houve um salto nas provisões e pagamento de empréstimos por afiliadas brasileiras no exterior para as matrizes no Brasil que levou os empréstimos intercompanhia para um recorde negativo de US$ 21 bilhões - ou seja, houve entrada de recursos acima das saídas nesse quesito.

"Isso pode ser explicado, em parte, pela busca de maneiras para aportar capital no ambiente de juro elevado do Brasil sem ter que pagar imposto sobre transações estrangeiras", diz o relatório da entidade, referindo-se ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) - utilizado em diversos momentos pelo governo para brecar a entrada de recursos no Brasil e evitar a valorização da moeda brasileira.

Considerando apenas as atividade de fusão e aquisição, houve uma queda de 34,6% nos dados do Brasil (para US$ 5,5 bilhões). Nos chamados projetos greenfield, o declínio foi ainda mais pronunciado, de 56,1% (para US$ 4,6 bilhões).

De acordo com relatório do Banco Central, o Brasil recebeu no ano passado o recorde de US$ 66,66 bilhões em investimento estrangeiro direto.

Mudanças na economia brasileira?



Por Armando Castelar Pinheiro - Valor 13/04

Francisco Lopes comentou certa feita que a estabilização iniciada com o Plano Real só se completaria quando a inflação caísse para taxas próximas às de expansão do Produto Interno Bruto (PIB). Nos últimos 15 anos, porém, o PIB cresceu em média 2,8% ao ano, contra alta média anual de 6,6% dos preços. Esses números se comparam, respectivamente, às taxas de 2,4% e 2,5% nos EUA e de 1,7% e 1,9% na área do euro. Nossa estabilização está, portanto, incompleta.

Desde o Plano Real, 2006-08 foi o único triênio em que o PIB subiu mais que os preços. Já em 2009, porém, as duas taxas começaram outra vez a divergir, com altas médias de preços e do PIB de 5,6% e 3,3%, respectivamente, em 2009-11. Em 2011, os preços ao consumidor aumentaram mais do que o dobro do PIB.

Essa dinâmica reflete fatos conhecidos sobre nossa economia. Primeiro, o PIB passou a crescer acima do seu potencial, como revelam a queda do desemprego, o aumento do déficit em conta corrente - a despeito da evolução favorável dos termos de troca - e, mais recentemente, a inflação sistematicamente acima da meta, o que, por si só, já é alta para padrões internacionais. Segundo, que o crescimento foi amplamente liderado pela demanda doméstica, com expansão de 5,2% ao ano em 2005-11.

Terceiro, que o desempenho setorial foi muito heterogêneo. Assim, a expansão foi puxada pelo comércio e pela intermediação financeira, responsáveis por 34% do crescimento do PIB nos últimos sete anos, apesar de só responderem por 17% do PIB em 2004. A construção teve uma influência semelhante, ainda que menor. Se esses três setores tivessem crescido à mesma taxa que os demais, o PIB (a preços básicos) teria se expandido 3% ao ano, em vez dos 3,7% observados.
Uma contrapartida da forte expansão desses três setores foi o fraco desempenho da indústria de transformação: apesar de responder por 19% do PIB em 2004, ela contribuiu com apenas 8% da expansão do nível de atividade em 2005-11.

Uma consequência (e causa) desse padrão de crescimento foi a alta do emprego. Em 2004, foram necessários 34 trabalhadores para gerar um milhão de reais de PIB na indústria de transformação; na média dos três setores mais dinâmicos, essa relação foi de 57 trabalhadores por milhão de reais de PIB. A expansão em 2005-11 foi, portanto, intensiva em trabalho. Isso ajuda a explicar, junto com o aumento do salário mínimo, a alta real de 3,4% ao ano no rendimento médio, assim como por que o mercado de trabalho continua pujante.

Assim, uma interpretação dos anos 2005-11 é a seguinte: por diversos fatores, com destaque para reformas institucionais e a forte entrada de capitais externos, houve acentuada expansão no crédito às pessoas físicas (14% ao ano acima da inflação), que puxou os setores de instituições financeiras, comércio e construção. Isso gerou forte alta no emprego, pois são setores trabalho-intensivos, e nos rendimentos, o que, junto com a apreciação cambial, diminuiu a competitividade da indústria de transformação.

Com a demanda crescendo mais que a oferta, o hiato foi fechado por importações em setores em que o Brasil é pouco competitivo - leia-se, indústria de transformação. Com isso, esta cresceu pouco e perdeu participação no PIB.

Um efeito colateral foi que a inflação passou a ser mais influenciada pelo que acontece no mercado de trabalho do que no de bens, em que a importação, o real apreciado e a lenta expansão da indústria de transformação limitam a alta dos preços. Assim, nos últimos 48 meses, a inflação de itens não comercializáveis internacionalmente (por exemplo, serviços) foi em média de 7,1% ao ano, contra 5% para os bens comercializáveis, como produtos manufaturados.

O governo vem tentando estimular a demanda doméstica reduzindo a Selic e os spreads bancários nos bancos públicos, assim como ampliando o crédito público e isentando de impostos artigos de consumo. Além disso, elevou barreiras às importações e promoveu a desvalorização do real, na expectativa de que a demanda se dirija ao produto nacional. Por outro lado, espera uma queda da inflação para 4,5%, dois pontos percentuais a menos que em 2011.

Será possível obter simultaneamente mais crescimento, com diferente perfil setorial e menos inflação? Sim, mas há riscos. Em especial, o estímulo à demanda pode gerar mais inflação e pouca alta do PIB, se este não mudar de composição. Isso pode ocorrer, por exemplo, se as famílias estiverem pouco dispostas a adquirir bens de consumo duráveis, devido ao elevado endividamento e alguma saturação de compra, enquanto o desemprego reduzido pode fazer com que a alta da demanda por não comercializáveis vire inflação, em vez de mais oferta. Por outro lado, é possível que os estímulos à demanda gerem pouco resultado, caso a redução dos spreads leve a uma contração na oferta de crédito, já premida pela alta na inadimplência.

De um jeito ou de outro, o modelo brasileiro está mudando. Se na direção de completar a estabilização ou não, só saberemos mais à frente.



Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do IBRE/FGV e professor do IE/UFRJ.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Devolvendo o Gini à garrafa - Paul Krugman - Estadao.com.br

Será que a política econômica é capaz de transformar a desigualdade? Em especial, será que os governos são capazes de reduzir a desigualdade sem assassinar a economia? Como parte da preparação para um curso, tenho analisado uma história que, ao que me parece, tem sido pouquíssimo debatida nos Estados Unidos, mas é no mínimo muito interessante: o notável declínio na desigualdade ocorrido na América Latina.

Espere aí – os países latino-americanos não são extremamente desiguais? Sim, eles – ainda – são. Mas esta desigualdade é hoje muito menos gritante do que já foi. Politicamente, a região avançou para a esquerda perto do ano 2000, voltando parcialmente as costas para o Consenso de Washington – e houve uma reversão dramática nas tendências que regem a desigualdade:



Devolvendo o Gini à garrafa - Paul Krugman - Estadao.com.br