sexta-feira, 18 de maio de 2012
Quando a poupança é o (falso) problema
A caderneta de poupança, criada em um ambiente de forte inflação, tornou-se popular pela simplicidade de seu funcionamento e, principalmente, pela garantia que oferece ao cidadão comum que busca precaver-se contra necessidades futuras e não se confunde com os especuladores que têm como finalidade o ganho fácil propiciado pelas aplicações voláteis. O que mais importa aos poupadores é o rendimento real, isto é, a taxa descontada a inflação. O artigo é de Idalvo Toscano.
Idalvo Toscano (*)
Ver artigo completo publicado na Carta Maior
Produção de petróleo despenca
Fonte: Assessoria de Imprensa da ANP - (21) 2112-8333 - imprensa@anp.gov.br
A produção de petróleo no Brasil em março foi de 2,085 milhões de barris/dia (bbl/d), apresentando crescimento de 0,1% em relação ao mesmo mês de 2011. Na comparação com o fevereiro a queda foi de 5,4%. A produção de gás natural foi de aproximadamente 66 milhões de metros cúbicos/dia. Houve aumento de 7,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado, e queda de 1,4% em relação ao mês anterior. A maior redução foi verificada no campo de Frade, devido à interrupção de produção da concessão.
A Petrobras respondeu por 92,7% da produção de petróleo e gás natural. Os campos marítimos foram responsáveis por 91,4% da produção de petróleo e 74,9% da produção de gás natural.
Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, três são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (11º), Ostra/Shell (15º) e Frade/Chevron (17º). Dois campos terrestres também integram a lista: Carmópolis (18º) e Canto do Santo Amaro (20º), com vazão média de 22,4 mil barris/dia (24 Mbbl/d) e 19,3 mil barris dia (19,3 Mbbl/d).
O grau API médio do petróleo produzido março foi de 23,7º. Deste total, 8% da produção é considerada óleo leve (superior ou igual a 31ºAPI), 55% de óleo médio (entre 22º e 31º API) e 37% de óleo pesado (inferior a 22º API).
Queima de Gás
A queima de gás natural foi de aproximadamente 3,7 milhões de metros cúbicos/dia. Houve redução de 0,1% em relação ao mesmo mês em 2011 e aumento de 11,3% na comparação com fevereiro. O principal aumento foi registrado no campo de Lula, devido ao início de um novo teste no poço 4BRSA711RJS com a plataforma FPSO Cidade de São Vicente.
Pré-sal
A produção do pré-sal teve crescimento de 12% em relação ao mês passado, chegando a 158,5 mil barris dia de óleo equivalente (158,5 Mboe/d), sendo 130,7 Mbbl/d de petróleo e 4,4 MMm³. A produção foi oriunda de oito poços nas bacias de Jubarte (1), Lula (5), Caratinga e Barracuda (1) e Marlim Leste (1).
Bacias Maduras
A produção oriunda das Bacias maduras terrestres (campos/TLDsdas Bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 175,4 mil barris de óleo equivalente/dia (175,4 Mboe/d), sendo 145,1 mil mil barris de petróleo/d (145,1 bbl/d) de petróleo e 4,8 milhões de metros cúbicos de (4,8 MMm³/d) de gás natural.
A produção de petróleo no Brasil em março foi de 2,085 milhões de barris/dia (bbl/d), apresentando crescimento de 0,1% em relação ao mesmo mês de 2011. Na comparação com o fevereiro a queda foi de 5,4%. A produção de gás natural foi de aproximadamente 66 milhões de metros cúbicos/dia. Houve aumento de 7,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado, e queda de 1,4% em relação ao mês anterior. A maior redução foi verificada no campo de Frade, devido à interrupção de produção da concessão.
A Petrobras respondeu por 92,7% da produção de petróleo e gás natural. Os campos marítimos foram responsáveis por 91,4% da produção de petróleo e 74,9% da produção de gás natural.
Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, três são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (11º), Ostra/Shell (15º) e Frade/Chevron (17º). Dois campos terrestres também integram a lista: Carmópolis (18º) e Canto do Santo Amaro (20º), com vazão média de 22,4 mil barris/dia (24 Mbbl/d) e 19,3 mil barris dia (19,3 Mbbl/d).
O grau API médio do petróleo produzido março foi de 23,7º. Deste total, 8% da produção é considerada óleo leve (superior ou igual a 31ºAPI), 55% de óleo médio (entre 22º e 31º API) e 37% de óleo pesado (inferior a 22º API).
Queima de Gás
A queima de gás natural foi de aproximadamente 3,7 milhões de metros cúbicos/dia. Houve redução de 0,1% em relação ao mesmo mês em 2011 e aumento de 11,3% na comparação com fevereiro. O principal aumento foi registrado no campo de Lula, devido ao início de um novo teste no poço 4BRSA711RJS com a plataforma FPSO Cidade de São Vicente.
Pré-sal
A produção do pré-sal teve crescimento de 12% em relação ao mês passado, chegando a 158,5 mil barris dia de óleo equivalente (158,5 Mboe/d), sendo 130,7 Mbbl/d de petróleo e 4,4 MMm³. A produção foi oriunda de oito poços nas bacias de Jubarte (1), Lula (5), Caratinga e Barracuda (1) e Marlim Leste (1).
Bacias Maduras
A produção oriunda das Bacias maduras terrestres (campos/TLDsdas Bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 175,4 mil barris de óleo equivalente/dia (175,4 Mboe/d), sendo 145,1 mil mil barris de petróleo/d (145,1 bbl/d) de petróleo e 4,8 milhões de metros cúbicos de (4,8 MMm³/d) de gás natural.
A última chance de resgate do euro
Por Philip Stephens - Valor 18/05
Os líderes da Europa deveriam parar de brincar no parque infantil. O debate do euro tornou-se uma algazarra infantil a respeito de uma série de escolhas ilusórias: austeridade fiscal versus crescimento; os cortes de gastos "contra" a criação de empregos; reformas de mercado ou inclusão social. Isso beira a insanidade e a certeza de desintegração da moeda única.
O relógio agora mostra um minuto para a meia-noite. A Grécia provavelmente está além da salvação. Os primeiros sinais de corrida aos bancos na Espanha e em outras economias periféricas indicam que o vírus do contágio consolida-se mesmo antes de Atenas decidir-se sobre a realização de uma segunda eleição geral. As autoridades políticas têm menos tempo do que imaginavam há apenas alguns dias.
A eleição de François Hollande na França vem sendo vista amplamente como uma ameaça à coerência da região do euro. Em vez disso, o reequilíbrio da relação entre Berlim e Paris deveria ser visto como a última chance para uma conversa adulta. Com ou sem a Grécia, a região do euro precisa de uma nova estratégia - uma grande negociação, se você preferir. Os ingredientes vitais necessários são clareza e credibilidade.
Em busca da clareza, os governos deveriam começar concordando publicamente sobre o que de fato podem concordar. Todos, supostamente, podem aceitar a ideia de que déficits e dívidas devem ser reduzidos a níveis sustentáveis. Todos deveriam poder admitir que restaurar a competitividade das economias periféricas exigirá violentas reformas estruturais. Também é autoevidente que, sem crescimento econômico, as dívidas e déficits vão continuar altas e que o consenso político vai se evaporar. Não é preciso ser keynesiano para reconhecer as armadilhas do endividamento. Por fim, uma melhora no comércio exterior das economias mais fracas da região do euro exige superávits menores nas economias mais fortes.
Angela Merkel, da Alemanha, está certa ao dizer que os países da Europa não podem sair dos problemas por meio da captação de mais empréstimos. Não se pode contradizer Hollande quando ele diz que o crescimento é essencial para recuperar a sustentabilidade fiscal. Mario Monti, o outro membro central da troica de líderes europeus, está no caminho certo quando diz que deve haver uma dimensão pan-europeia tanto para os investimentos em estímulos ao crescimento quanto para as reformas estruturais com base nos mercados. A Alemanha poderia dar a partida, abrindo seu setor de serviços para a concorrência do resto do continente.
Os políticos precisam enfrentar outra simples verdade. Nos últimos séculos, a Europa determinou os termos de seu engajamento com a maior parte do resto do mundo. Suas estruturas sociais e econômicas foram ajustadas de acordo com isso. A ascensão do resto virou essa suposição de cabeça para baixo. Isso não significa que se deve jogar fora o modelo social europeu. Isso exige, no entanto, uma remodelação radical.
O ponto central - gritantemente óbvio, mas que se perdeu em meio à cacofonia - é que o importante é a combinação e o ordenamento das políticas escolhidas. A redução de déficits depende do crescimento, mas o crescimento é sustentável apenas no contexto de uma disciplina fiscal pré-programada. Pensar em termos de escolhas binárias é autodestrutivo: quando a discussão se torna Keynes versus Hayek, o jogo está perdido.
Como, então, conseguir a combinação correta de políticas? É aqui que entra a credibilidade. O começo da sabedoria está em reconhecer aqui que a credibilidade é um alvo móvel. Há um ou dois anos, tudo parecia fácil e natural: a crise financeira deixou como legado gigantescos déficits e dívidas governamentais e criou uma realimentação letal entre a solvência dos bancos e a capacidade creditícia dos captadores soberanos. A única forma de restaurar a confiança era via queda nos gastos públicos, elevação nos impostos e redução de déficits.
Era o que parecia. Vale dizer que isso não se trata de alguma trama da Alemanha para tomar o controle da região do euro. Por estar fora da união monetária, o Reino Unido não precisa aceitar sermões de Berlim. A primeira decisão tomada pela coalizão de David Cameron, no entanto, foi acelerar os planos para acabar com o déficit estrutural britânico. Sem esse compromisso, declarou, a credibilidade iria se evaporar e as taxas de juros, decolar. Pelo que me lembro, a estratégia foi aplaudida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).
Esta semana viu a confirmação de que grande parte da região do euro está atolada em um recessão. O Reino Unido está no mesmo barco. Os cortes de gastos e aumentos de impostos não trouxeram os declínios esperados nos déficits. Como resultado, os mercados vêm reconsiderando qual seria a estratégia mais confiável. Por sinal, é o que também vêm fazendo especialistas do FMI e OCDE. Até em Berlim, vem ocorrendo uma sutil mudança de tom. Inexplicavelmente, apenas Cameron parece determinado a pregar-se, seja como for, na cruz da austeridade.
A implosão dos principais partidos na Grécia adicionou o risco político à equação da confiança. O fortalecimento fiscal só pode ser confiável se tiver consentimento do eleitorado. Na ausência de crescimento econômico, por quanto tempo os eleitores espanhóis, portugueses, irlandeses e italianos vão tolerar as aflições de um aperto fiscal? As políticas de austeridade arquitetadas para sustentar a credibilidade agora começam a ter precisamente o efeito contrário.
Não será nada fácil encontrar uma combinação que recupere a confiança dos investidores. Os líderes europeus tornariam a tarefa menos complicada se oferecessem concessões políticas contrárias às que costumam defender. Hollande poderia dizer que os esforços para sustentar a economia europeia vão ser acompanhados na França por sérias reformas estruturais. Merkel poderia prometer que os compromissos blindados de disciplina fiscal vão ser acompanhados por uma Alemanha liderando os esforços de promoção do crescimento.
Isso ainda deixaria argumentos de sobra por discutir: o tamanho e alcance dos "muros de proteção financeira", a ampliação do papel do Banco Central Europeu (BCE), a mutualização das dívidas, o formato da união fiscal e todo o resto. O que se precisa primeiramente, no entanto, é uma clareza que traga credibilidade. Sem esses ingredientes, todo o resto pertence à esfera acadêmica. (Tradução de Sabino Ahumada)
Philip Stephens é editor e comentarista político do FT.
Dólar alto ajuda indústria, mas pressiona os custos
Editorial Valor 18/05
Deve-se tomar cuidado com aquilo que se deseja. A forte elevação do dólar nos últimos meses, festejada pelo governo como impulso para a indústria por encarecer os produtos importados, tem um outro lado. Está também elevando os custos de insumos importantes para a própria indústria, que nem sempre consegue repassar o aumento para o consumidor.
Desde o início do ano, o dólar subiu 7%; e desde março, quando começou a arrancada recente, a alta é de 13,5%. A cotação do dólar saiu de R$ 1,70 no fim de fevereiro para cerca de R$ 2,00 atualmente. A alta foi patrocinada principalmente pelo Banco Central (BC), que entrou 16 vezes no mercado de câmbio só em abril, comprando dólar muitas vezes quando a cotação já estava em alta, em um total de US$ 7,2 bilhões, sinalizando claramente ao mercado o desejo de aumentar o patamar de negociação da moeda americana. Mais recentemente, o BC ganhou ajuda do aumento da turbulência na zona do euro, que valorizou o dólar no mercado mundial.
Reportagens recentes do Valor mostram que a alta do dólar já tem impacto ainda que pequeno na redução da importação de bens industriais. Dois levantamentos mostram isso. Os produtos importados atenderam 22,6% da demanda de bens industrializados no primeiro trimestre deste ano, menos do que os 24% registrados nos últimos três meses de 2011, de acordo com cálculos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em 20 dos 33 setores analisados houve queda das importações nesse período, com destaque para aeronaves, material eletrônico, aparelhos de comunicação e artefatos de couro. Nas contas feitas pela consultoria LCA, a redução da participação dos importados no consumo de bens industriais foi menor, de 22,8% para 22,5% no mesmo período, mas também ocorreu.
A penetração dos produtos industriais importados no mercado doméstico também diminuiu com a redução da demanda causada pelo enfraquecimento da economia. A comemoração ficou pela metade porque a produção da indústria diminuiu 2,9% no primeiro trimestre.
Mas o encarecimento dos produtos importados também prejudica a própria indústria, que, nos últimos anos, passou a comprar cada vez mais insumos e semielaborados no exterior para reduzir seus custos. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), 43,8% das importações de janeiro a abril são matérias-primas e bens intermediários, totalizando US$ 31,2 bilhões. Em alguns casos, houve outras pressões no preço, além do dólar. As resinas plásticas, por exemplo, que representam cerca de 60% do preço de um produto plástico, subiram com o dólar e com o petróleo, o que provocou a queda de 6% da venda de transformados plásticos. O aço subiu 5% nos últimos 30 dias, puxado pelo dólar e pelo minério de ferro; e o preço do papelão, 8% por causa da celulose e também do câmbio. Entre os insumos industriais, as maiores altas em abril foram da borracha (7%), barrilha (4%), placa de aço (4,1%), resina plástica (4%) e papel kraft (1,5%).
O aumento desses produtos repercute no IGP-DI, índice que acompanha de perto os preços no atacado. No IGP-DI de abril, o subgrupo materiais para manufatura avançou 3% após o aumento de 0,74% em março. Pode ser uma mudança de padrão.
Não é certo que esse aumento de custos chegue ao varejo. Algumas indústrias estão conseguindo segurar os preços porque fizeram encomendas quando o dólar estava mais baixo. Além disso, fraca demanda inibe reajustes vigorosos de preços. Há ainda a expectativa de que o dólar não se mantenha no patamar atual. A expectativa do mercado financeiro para a cotação do dólar no fim do ano, apurada na pesquisa Focus desta semana, subiu pouco, apesar da escalada recente da moeda. A previsão agora é que o dólar vai fechar o ano em R$ 1,85; há um mês era de R$ 1,80.
Após a aceleração expressiva do IPCA, de 0,21% em março para 0,64% em abril, não se espera muita alteração na trajetória de baixa do índice acumulado em 12 meses, até porque estão saindo da conta números muito altos de 2011. Há ainda o impacto positivo da sinalização de queda dos juros dada pelo governo, agora sem o freio da remuneração da caderneta de poupança. Convergir a inflação para o centro da meta como insiste o BC em toda ata do Copom, porém, é cada vez mais difícil. Apesar de tudo, as previsões do mercado são de uma inflação razoavelmente abaixo do teto da meta neste ano e no próximo.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Para 'guru', dólar não escapará de um colapso
Valor 17/05
Peter Schiff insistiu antes do estouro da crise de 2008 que uma bolha financeira com base em ativos hipotecários se inchava nos Estados Unidos. Comentarista das redes de TV Bloomberg, CNBC, e Fox News, ele acertou em muitos pontos - especialmente quanto à desmontagem do setor imobiliário -, mas também previu um colapso do dólar logo em seguida, que não ocorreu. Hoje, ele insiste no declínio da moeda americana, prefere economias asiáticas a latinas e critica reservas em dólar mantidas por países como o Brasil, como dito em entrevista ao Valor durante rápida visita a São Paulo.
Diretor-executivo e estrategista-chefe da gestora de recursos Euro Pacific Capital, Schiff criticou as reservas brasileiras aplicadas em ativos em dólar porque acredita em um colapso "de grandes proporções" da moeda para breve. Segundo ele, a forte perda de valor do dólar será entre 2013 e 2015, decorrente principalmente de uma crise de dívida soberana nos EUA parecida com aquela vista hoje na Europa, "só que em proporções muito maiores". Por isso, Schiff avalia que o modelo de desvalorização cambial para o real é perigoso, e que as reservas estrangeiras do país deveriam ser feitas em ouro, e não em dólar.
"A quantidade de dólares em mãos de bancos centrais de países emergentes, entre eles o do Brasil, é enorme. É como se o mundo acumulasse uma grande pilha de dinheiro que não valerá nada no futuro", diz o economista, ao ponderar que a China figura como uma exceção, por ter aumentado a proporção das suas reservas em ouro.
Schiff não revela qual a proporção dos investimentos da sua gestora, cuja sede fica em Westport, Connecticut, em ativos de países emergentes, mas também deixa clara a sua falta de apetite pelo Brasil. Ele contou que a empresa investe no país por meio de fundos mútuos que compram principalmente ações dos setores de telecomunicações e energia, mas a exposição a Sudeste Asiático ainda é maior.
"Preferimos o sudeste asiático porque há uma cultura de menor dependência e interferência do governo que o Brasil", disse o especialista, que esteve em São Paulo para fechar a Terceira Conferência da Escola Austríaca, corrente econômica que defende interferência mínima dos governos na economia.
"A crise na Europa só alimenta uma crise futura nos Estados Unidos. O mundo ainda compra treasuries (papéis de dívida soberana dos EUA) e dólares, e assim apenas ganhamos tempo. Só que não poderemos pagar por tudo isso. É como se fizéssemos um pacto com o diabo", acrescentou o "guru". Para ele, os grandes bancos americanos, como J.P. Morgan, Bank of America e Citigroup, estão extremamente alavancados, não sobreviveriam a um cenário de juros mais altos e estarão no olho do furacão que hoje se forma lentamente.
Em tom ácido e típico do noticiário televisivo americano, Schiff não poupou a economia de seu próprio país de comparações apelativas. "Lembre-se da Grécia: há alguns anos eles estavam tão quebrados quanto hoje, e ninguém ligava."
Peter Schiff insistiu antes do estouro da crise de 2008 que uma bolha financeira com base em ativos hipotecários se inchava nos Estados Unidos. Comentarista das redes de TV Bloomberg, CNBC, e Fox News, ele acertou em muitos pontos - especialmente quanto à desmontagem do setor imobiliário -, mas também previu um colapso do dólar logo em seguida, que não ocorreu. Hoje, ele insiste no declínio da moeda americana, prefere economias asiáticas a latinas e critica reservas em dólar mantidas por países como o Brasil, como dito em entrevista ao Valor durante rápida visita a São Paulo.
Diretor-executivo e estrategista-chefe da gestora de recursos Euro Pacific Capital, Schiff criticou as reservas brasileiras aplicadas em ativos em dólar porque acredita em um colapso "de grandes proporções" da moeda para breve. Segundo ele, a forte perda de valor do dólar será entre 2013 e 2015, decorrente principalmente de uma crise de dívida soberana nos EUA parecida com aquela vista hoje na Europa, "só que em proporções muito maiores". Por isso, Schiff avalia que o modelo de desvalorização cambial para o real é perigoso, e que as reservas estrangeiras do país deveriam ser feitas em ouro, e não em dólar.
"A quantidade de dólares em mãos de bancos centrais de países emergentes, entre eles o do Brasil, é enorme. É como se o mundo acumulasse uma grande pilha de dinheiro que não valerá nada no futuro", diz o economista, ao ponderar que a China figura como uma exceção, por ter aumentado a proporção das suas reservas em ouro.
Schiff não revela qual a proporção dos investimentos da sua gestora, cuja sede fica em Westport, Connecticut, em ativos de países emergentes, mas também deixa clara a sua falta de apetite pelo Brasil. Ele contou que a empresa investe no país por meio de fundos mútuos que compram principalmente ações dos setores de telecomunicações e energia, mas a exposição a Sudeste Asiático ainda é maior.
"Preferimos o sudeste asiático porque há uma cultura de menor dependência e interferência do governo que o Brasil", disse o especialista, que esteve em São Paulo para fechar a Terceira Conferência da Escola Austríaca, corrente econômica que defende interferência mínima dos governos na economia.
"A crise na Europa só alimenta uma crise futura nos Estados Unidos. O mundo ainda compra treasuries (papéis de dívida soberana dos EUA) e dólares, e assim apenas ganhamos tempo. Só que não poderemos pagar por tudo isso. É como se fizéssemos um pacto com o diabo", acrescentou o "guru". Para ele, os grandes bancos americanos, como J.P. Morgan, Bank of America e Citigroup, estão extremamente alavancados, não sobreviveriam a um cenário de juros mais altos e estarão no olho do furacão que hoje se forma lentamente.
Em tom ácido e típico do noticiário televisivo americano, Schiff não poupou a economia de seu próprio país de comparações apelativas. "Lembre-se da Grécia: há alguns anos eles estavam tão quebrados quanto hoje, e ninguém ligava."
Uma relação estratégica
Por José Manuel García-Margallo y Marfil - Valor 17/05
Na primeira vez que vim ao Brasil, fiquei surpreso. Não foi só pela natureza exuberante aos olhos de um europeu, nem pelo tratamento próximo e aconchegante dos seus cidadãos. Fiquei impressionado pelo seu enorme potencial. Desde então voltei mais de seis vezes. E em cada uma delas me surpreendi de novo, pela sua rápida e positiva transformação.
Brasil é hoje uma das locomotivas que impulsionam a economia global. Tem se confirmado como uma democracia avançada e consolidada. Conseguiu se destacar no continente sul-americano como uma grande potência regional e a sua voz é respeitada nos principais foros internacionais. Mas tão admirável como a sua trajetória política e econômica é o seu modelo de crescimento, que avança junto à coesão social. Brasil encontrou o seu caminho para se transformar num país moderno e desenvolvido.
O Brasil e a Espanha viveram processos paralelos rumo à democracia e à modernização das suas economias. E de uma forma natural os dois países começaram a desenvolver poderosos interesses comuns que estimularam uma melhora qualitativa nas suas relações. Temos que destacar o esforço que faz da Espanha o segundo investidor estrangeiro na economia brasileira (46,572 bilhões de euros desde 1993 até o fim de 2011) com uma importante contribuição para a modernização de setores como o energético, o financeiro, as telecomunicações ou as infra-estruturas. Também cresceu o nosso comércio bilateral, que em 2011 chegou a níveis históricos. E temos que mencionar o amplo intercâmbio que está acontecendo no âmbito da educação, da ciência e da cultura.
Por tudo isso, a Espanha pode proclamar que o Brasil é um sócio privilegiado. E o Brasil pode constatar que a Espanha é um grande amigo com quem pode colaborar em muitos âmbitos e que o capital espanhol veio para ficar, para gerar emprego, benefícios compartilhados, transferir tecnologia e conhecimentos e, em definitiva, contribuir com o desenvolvimento econômico e social deste grande país.
Mas não quero que estas linhas sejam interpretadas como um exercício de auto-complacência. Temos feito muito juntos, mas acho que podemos fazer ainda muito mais.
Com a nossa tecnologia e capacidade no desenvolvimento de infraestrutura de transporte, nossos dois países podem colaborar em áreas como a de alta velocidade ferroviária, gestão de aeroportos, rodovias ou portos, onde estamos à frente no ranking mundial. Nossa experiência na organização de grandes eventos pode auxiliar na preparação dos próximos acontecimentos esportivos como a Copa do Mundo de Futebol ou a Olimpíada de 2016.
Além disso, a Espanha pode contribuir com pessoal altamente qualificado ao desenvolvimento econômico brasileiro. Muitos jovens espanhóis formados em cursos técnicos estariam dispostos a vir ao Brasil para trabalhar durante um tempo determinado. O governo espanhol está aberto para chegar a um acordo nesse âmbito
Estamos já participando no programa "Ciência sem Fronteiras", que começará com força o próximo mês de outubro acolhendo, no meu país, a mais de 1500 estudantes brasileiros. Também estamos prontos para desenvolver projetos conjuntos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D, I) em áreas como a nanotecnologia, a biotecnologia, a biomedicina, as tecnologias da saúde, as energias renováveis, os bicombustíveis e até na agricultura, piscicultura e pecuária.
A expansão econômica que vive o Brasil aumenta o potencial de internacionalização das suas empresas. Nesse processo, a Espanha, pela sua proximidade geográfica com o continente africano, pode ser um importante colaborador. Por exemplo, as Ilhas Canárias não poderiam ser a plataforma logística das grandes empresas brasileiras na África? A União Europeia é outra importante linha de frente onde as empresas brasileiras podem se consolidar. E a Espanha, nesse sentido, pode ser uma porta de entrada.
Nestes momentos difíceis que vive a Europa, nosso compromisso com a zona do euro é total. A Espanha, como europeísta convicta, é favorável a uma maior integração e ao cumprimento dos objetivos econômicos que estabelece a União Europeia.
O governo espanhol tem se mostrado firme na hora de tomar medidas que melhorem a nossa economia, preservando o Estado do bem-estar. Estamos implementando o plano de reformas mais amplo dos últimos trinta anos, que inclui a consolidação fiscal, a reforma da legislação laboral e o saneamento do setor financeiro. Mas ainda temos caminho a percorrer. A Espanha realizará em breve outras mudanças estruturais do mercado energético e do sistema educativo, assim como novas melhoras na liberação do setor de serviços.
Os nossos governos são conscientes das vantagens que têm trazido a enorme aproximação dos últimos anos. As nossas relações passaram a ser estratégicas, mas temos que seguir nos aprimorando nas mesmas e nos esforçando para aproximar ainda mais as nossas sociedades, os nossos artistas e criadores, os nossos pensadores e empresários. Em particular, temos que intensificar o diálogo político de alto nível.
José Manuel García-Margallo y Marfil é ministro de Negócios Estrangeiros e Cooperação da Espanha
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Poder americano e pragmatismo
Por Martin Wolf - Valor 16/05
Qual será o papel dos Estados Unidos no século XXI? Essa é a questão que aceitei, imprudentemente, discutir na semana passada no Carnegie Council em Nova York. Na análise, também levei em conta um assunto bastante relacionado, que também mexe com os americanos: Será que o futuro dos EUA está em suas próprias mãos? A resposta é: sim, mas apenas até certo ponto. Os EUA podem controlar o que fazem, mas não podem controlar o que os outros fazem.
O domínio histórico dos EUA é fruto de seus atributos excepcionais. O país é uma potência continental cercada por oceanos a leste e oeste e por vizinhos amigáveis ao norte e sul. Possui imensos recursos naturais, embora declinantes. Tem a maior economia do mundo e a maior produção per capita desde o fim do século XIX. Sua economia, orientada pelos mercados, é a mais inovadora do mundo desde, pelo menos, a mesma época.
Os EUA são lar dos mercados financeiros mais influentes do mundo, embora tenham sido os mesmos que desencadearam a Grande Depressão e, nos últimos anos, a Grande Recessão. São emissores da principal moeda de reserva cambial desde a primeira Guerra Mundial. São um dos maiores mercados de importações do mundo, superados apenas pelas importações externas da União Europeia (UE).
Os EUA possuem as Forças Armadas mais fortes e avançadas do mundo. Desde a Segunda Guerra Mundial o país é sede de mais universidades e institutos de pesquisa importantes do que qualquer outro. Tem a cultura popular mais influente do mundo. Seus valores políticos ainda estão arraigados à imaginação mundial, mesmo que, na prática, tenham deixado a desejar. Seu sistema democrático mostrou-se suficientemente legítimo e flexível para lidar com os vários desafios que a história lhe jogou pela frente.
De posse de todos esses atributos, o país conseguiu formar alianças fortes e vencer suas guerras no século XX, tanto a quente como a fria. Modelou a economia aberta internacional que nasceu após a Segunda Guerra Mundial e tornou-se global depois do colapso do império soviético. Apresentou o modelo de modernidade mais influente do mundo. Goste-se ou não, vivemos, todos, no mundo que os EUA fizeram.
Quantos desses atributos os EUA vão manter neste século?
A ameaça mais óbvia é a que se apresenta contra sua posição de maior economia do mundo. Pelas taxas de câmbio de mercado, sua economia ainda tem aproximadamente o dobro de tamanho em comparação à chinesa. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), no entanto, pela paridade do poder de compra (PPC), é apenas 30% maior. Como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, pelo PPC, da China ainda é de apenas 20% do verificado nos EUA, ainda há grande distância a ser percorrida pelos chineses. O crescimento da China deverá desacelerar-se nas próximas décadas, mas convergirá ainda mais para os níveis de produtividade dos EUA. A probabilidade é de que a China tenha uma economia maior do que a dos EUA no início dos anos 2020. A China, ao contrário, por exemplo, do Japão, tem os números a seu lado. Se seu PIB per capita chegasse à metade do observado nos EUA, seria tão grande quanto as economias dos EUA e UE somadas.
As exportações brutas de bens da China já superaram as dos EUA. Em breve, o mesmo ocorrerá com suas importações. Sendo um país relativamente pobre em recursos, a China deverá continuar uma maior comerciante externa em relação ao PIB do que os EUA. Uma questão mais controversa é como o yuan vai rivalizar com o dólar como moeda de reservas internacionais. A ascensão do comércio exterior chinês indica que a resposta seria: em breve. Eu poderia argumentar que o Estado de partido único da China, não estando sujeito ao Estado de direito e com o receio de perder o controle, não teria condições de abrir os mercados de capitais no grau que os estrangeiros desejariam caso fossem manter seus ativos mais seguros investidos em yuans. Essa mudança deverá levar décadas, não anos.
Em princípio, os EUA também poderiam manter sua posição de liderança em inovações comerciais e científicas. Como meu colega Edward Luce mostra em seu novo e intelectualmente instigante livro, no entanto, a combinação de xenofobia com hostilidade à ciência, restrições fiscais autoimpostas e prioridades peculiares de gastos ameaça roubar dos EUA seu acesso aos maiores talentos do mundo e seu compromisso de liderança mundial em inovação e pesquisa *. Nada captura melhora essa ideia do que esta declaração implacável: "Em 1990, [a Califórnia] gastava em suas universidades o dobro que em suas prisões. Agora, gasta quase o dobro em suas prisões." O fato de os EUA terem o maior índice de encarceramento do mundo não é só uma estatística social; também é econômica. O mesmo vale para o alto custo e a ineficiência do sistema de assistência médica, que é o principal motivo para as perspectivas fiscais de longo prazo do país parecerem tão sombrias.
O que se precisa são de reformas sérias. Isso, entretanto, tornou-se impossível, em função do papel cada vez maior do dinheiro na política e da crescente intransigência do Partido Republicano. Em um sistema construído sob um governo dividido, considerar as concessões como uma fraqueza ameaça trazer o caos repetidas vezes.
A economia dos EUA não vem trazendo mais benefícios que sejam compartilhados amplamente pela população, como outrora. Em seu último ciclo econômico completo, entre 2002 e 2007, cerca de 65% do aumento de renda foi absorvido pela faixa dos 1% mais ricos, sendo que quase 35% ficou com a parcela dos 0,1% mais ricos. Uma economia de soma zero desse tipo gera desespero e insatisfação. A crise agravou muito mais essa irritação.
Tudo isso também afetará a capacidade de os EUA desempenharem seu papel histórico no mundo. O aperto fiscal que se aproxima vai corroer os gastos militares. Ainda mais importante, a crise financeira e outros grandes erros roubaram dos modelos sociais, econômicos e políticos dos EUA o prestígio do qual gozavam. A Europa não está em melhor situação, mas isso apenas significa que o Ocidente como um todo está menos confiável e, por enquanto, menos capaz para atuar como líder.
Não importa o que ocorrer dentro dos EUA, sua influência será menor no século XXI do que foi no XX. Isso, em grande parte, porque os demais aprenderam muito com o país. Ainda assim, os EUA podem manter uma influência imensa, possivelmente inigualável, uma vez que seus principais rivais enfrentam desafios ainda maiores. Para que os EUA, no entanto, sejam de fato o que podem ser, precisam redescobrir o pragmatismo que por tanto tempo marcou sua elaboração de políticas. Nenhuma democracia pode prosperar se seus cidadãos veem o próprio governo como o maior inimigo. Se os americanos optarem por fazer seu governo fracassar, o mesmo acontecerá com os EUA.
* "Time to Start Thinking" (hora de começar a pensar, em inglês), Atlantic Monthly Press, 2012." (Tradução de Sabino Ahumada)
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Ingerência do governo tem prejudicado a bolsa?
Valor 15/05
Por André Rocha
A bolsa brasileira tem mostrado movimento errático no ano. Após subir 20,5% até o dia 13 de março, o Ibovespa vem caindo sistematicamente desde então. Quais as razões para a queda? Alguns analistas sustentam que o aumento da interferência governamental é responsável pelo mau desempenho. Será?
O Ibovespa fechou 2011 a 56.754 pontos. Até meados de março, a bolsa apresentou forte valorização, atingindo 68.394 pontos em 13 de março. “Dia de muito, véspera de pouco”, diria o provérbio popular. Desde então, a bolsa caiu 13,1% até 11/05/2011. No ano, a bolsa ainda sobe 4,7%.
Cresce no mercado a interpretação de que a bolsa adquiriu esse comportamento após o incremento do ativismo politico. Há vários exemplos que retratariam a maior interferência governamental sobre a economia :
1) A decisão do governo de incentivar os bancos públicos a reduzir suas taxas de juros sobre o crédito de forma a pressionar os bancos privados a adotarem a mesma estratégia o que teria como consequência a queda do spread bancário;
2) Ingerência do governo sobre o mercado cambial que contribuíram para a apreciação do dólar frente ao real nos últimos meses;
3) Discussão para incremento do royalty sobre as atividades de mineração;
4) Não repasse do aumento do preço do barril de petróleo para o dos combustíveis que prejudica a geração de caixa da Petrobras;
5) Mudança no cálculo da caderneta de poupança, sinalizando queda mais acentuada dos juros;
6) Alterações, nos últimos seis meses, na direção da Embraer, que possui como sócios o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BB) e o BNDES.
Comunicado de abril do conceituado fundo Verde do Credit Suisse Hedging-Griffo também vai nessa linha. Ele trata de uma teoria concebida pelo gestor americano Peter Thiel, responsável pelo hedge fund Clarium Capital. A ideia é que, tal como nos ciclos econômicos, existem também ciclos políticos onde há maior (“bull market in politics”) e menor (“bear market”) interferência governamental. A conclusão é de que, após a crise de 2008, a Europa e os EUA entraram em um período de “bull market in politics”. O Brasil teria ingressado nesse clube em agosto de 2011. E segundo a carta, “a evidência histórica mostra que os mercados acionários passam por quedas estruturais dos múltiplos em períodos de ‘bull market in politics’”.
A maior ingerência do governo na agenda econômica pode ter contribuído para a queda da bolsa, especialmente a incerteza sobre o comportamento da inflação após a redução dos juros e a depreciação do real. E aqui me alinho à corrente “anti-governo”, pois também não estou convencido de que a inflação permanecerá comportada. Contudo o desempenho do mercado acionário não é reflexo apenas de um fator. Tal como os acidentes aéreos são resultados de causas diversas. Logo não quero atrelar a queda da bolsa apenas a maior interferência governamental.
Além disso, o mercado financeiro possui uma agenda liberal, logo é natural a aversão às atividades governamentais. Mas cabe relembrar episódios recentes onde o mercado financeiro se equivocou. Logo é prudente ter um distanciamento crítico:
1) Em 1999 após a desvalorização cambial, houve corretoras americanas alardeando inflação de 80% ao ano. A realidade se mostrou bem distinta com o IPCA alcançando 8,9% naquele ano;
2) Economistas ortodoxos rejeitavam aumentos reais do salário mínimo receosos de uma explosão da inflação. Embora o ganho real empreendido no salário mínimo pelo governo petista tenha contribuído para um aumento discreto da inflação, o aumento da massa salarial tem sido importante para a manutenção da atividade econômica. O fortalecimento da classe média tornou-se um ativo cobiçado por investidores estrangeiros;
3) Após o inesperado corte da Selic em agosto, o BC foi duramente criticado. Após nove meses, boa parte do mercado fez um “mea culpa”, aplaudindo a decisão da autoridade monetária.
Acredito que a razão da queda da bolsa desde março está mais associada a dois eventos externos e a um movimento técnico:
1) O aumento das incertezas na zona do euro no último mês decorrentes da vitória do candidato socialista na França com um discurso de menor austeridade fiscal, do resultado das eleições gregas que aumentaram as chances de o país deixar a moeda europeia e da estatização do banco espanhol Bankia;
2) A atividade econômica mais fraca na China o que pode comprometer o preço de nossas commodities afetando algumas importantes companhias brasileiras como a Vale;
3) A realização de lucros após o forte rali do início do ano.
Assim um olho na Europa e na China e outro na inflação interna. Esses são os indicadores chaves para determinar o futuro desempenho da bolsa brasileira.
Tributação e crescimento
Por Antonio Delfim Netto - Valor 15/05
Como a história ensina, há aritméticas "desagradáveis" que impõem realismo às políticas sociais e econômicas com excessivo viés quer para o consumo (como é o caso brasileiro) quer para o investimento (como é o caso chinês). Elas sempre terminam de forma traumática quando não pressentidas e corrigidas no momento adequado. Há poucos dias a presidenta Dilma deu uma indicação precisa desse pressentimento quando afirmou que precisamos reduzir e melhorar a qualidade de nossa estrutura tributária, sem prejudicar as políticas públicas civilizatórias. No fundo foi uma reafirmação do seu programa inaugural: "Fazer mais com menos", ou seja, aumentar a eficiência do governo para acelerar o crescimento sem reduzir a política social de inclusão social.
A carga tributária bruta do Brasil é, de longe, a mais elevada de todos os países que têm uma renda per capita parecida com a sua e, pior: 1º) é absolutamente disfuncional. Tributa demais os investimentos que são o crescimento futuro e as exportações que financiam esse crescimento sem criar problemas externos; 2º) é absolutamente injusta e regressiva; 3º) é, talvez, a mais complexa do mundo; 4º) o Fisco persegue apenas a "facilidade" da tributação, como é o caso generalizado do "contribuinte substituto"; e 5º) conserva o mau hábito que tinha justificativa quando havia hiperinflação: o imposto é recolhido antes de o produto ser faturado e seu valor recebido pelo produtor.
É sempre difícil (e contestável) estimar as consequências sobre a taxa de crescimento do PIB de um sistema tributário que não começou muito bem na Constituição de 1988 e foi cuidadosa e sistematicamente distorcido ao longo das últimas duas décadas. Mas é possível ter uma ideia das profundas modificações estruturais que ele produziu nas relações entre o Estado e o setor privado.
Para ter uma intuição física do que aconteceu desde então, até 2011, imaginemos o PIB como a soma de uma "mistura" cujos componentes são, proporcionalmente, representados por todos os produtos produzidos no país. Suponhamos que em 1995 escolhemos uma unidade de medida que meça o PIB em 100 unidades dessa "mistura" (que inclui proporcionalmente desde o mais simples produto ou serviço, até o mais sofisticado equipamento de comunicação). Com um pouco mais de esforço, suponhamos que a população do Brasil (159 milhões de habitantes) no mesmo ano, seja também dividida em 100 unidades. Assim teríamos, em 1995, 100 unidades de PIB produzidas por 100 unidades de população, ou seja, "idealmente", uma unidade de PIB produzida por uma unidade de população.
Tomemos como "base" o ano de 1995. Como evoluíram o volume físico do PIB e a população até 2011? Usando os números do IBGE, o primeiro atingiu 161,9 unidades da mistura equivalente de 2005 (ignorando lentas mudanças produtivas estruturais). Se alguém quiser uma imagem mais "concreta", poderá simplesmente supor que em 1995 o PIB era igual a 100 toneladas da tal mistura e em 2011 atingiu 161,9 toneladas. Estamos interessados em saber como foi apropriado pelo governo e pelo setor privado o aumento das 61,9 unidades da mistura (ou toneladas).
O quadro abaixo mostra isso de forma esquemática, usando as informações disponíveis. É evidente que uma parcela do que foi "apropriado pelo governo" voltou, sob seu comando, ao setor privado por meio das políticas sociais civilizatórias de redução da pobreza absoluta, da melhoria da distribuição de renda, do déficit da Previdência e do pagamento dos seus serviços e investimentos, cuja eficiência e qualidade o governo precisa melhorar.
O quadro mostra que tivemos um crescimento medíocre nos últimos 15 anos, da ordem de 3,3% ao ano. Como a população cresceu a 1,4% ao ano, isso nos deixou com um crescimento econômico per capita da ordem de 1,9%. A linha 2 da tabela mostra o único avanço robusto: o crescimento do PIB apropriado e distribuído pelo governo cresceu a 4,8% ao ano. Isso não pode deixar de ser preocupante do ponto de vista do crescimento econômico equilibrado, que depende, fundamentalmente, dos investimentos públicos que só agora parecem adquirir musculatura com a decisão de cooptar o setor privado por meio de concessões. Na margem, o governo se apropriou e distribuiu 48% do ganho de 61,9 unidades do PIB sem que, praticamente, tenha aumentado o seu investimento.
Outro ponto significativo é que desde 1995, a carga tributária bruta cresceu à taxa de 1,5% ao ano! O crescimento apropriado e distribuído pelo governo cresceu à taxa anual de 4,8% impulsionado pelos seguintes fatores: 1) crescimento da população, 1,4%; 2) crescimento PIB per capita, 1,9%; 3) crescimento da tributação, 1,5%
Não é necessário muita sofisticação para reconhecer que a produtividade do governo é menor do que a do setor privado e que, portanto, o aumento exacerbado do setor público tende a reduzir a taxa de crescimento econômico e, no fim, do social. É preciso, portanto, que a sociedade dê suporte a uma necessária reforma tributária que, esperamos, o governo tentará implementar no futuro próximo.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
"Novo petróleo" promete mudar mapa geopolítico da energia
BBC 02 de maio de 2012 • 05h00 • atualizado 05h23
Ruth Costas
Novas tecnologias para explorar petróleo e gás prometem revolucionar o mapa geopolítico da energia, segundo especialistas no setor. Imagine um mundo em que os Estados Unidos não se importam tanto com o que acontece no Oriente Médio - porque abastecer as frotas de Nova York ou Chicago não depende de um combustível vindo do Iraque ou da Arábia Saudita.
O poder da influente Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) está esvaziado. A Europa não precisa do gás russo e a China não está tão preocupada em financiar regimes africanos para garantir sua fatia da produção local de combustíveis fósseis.
É mais ou menos esse o cenário de médio prazo pintado por consultorias e especialistas entusiasmados com novas tecnologias, que permitem a exploração de reservas de gás e petróleo de difícil acesso ou cujo produto precisa passar por processos químicos específicos antes de ser utilizado. São os chamados combustíveis fósseis "não convencionais".
Eles apontam que não só as fontes de petróleo e gás não devem se esgotar em um futuro próximo - como previam estudos proféticos das últimas décadas -, como a distribuição geográfica das novas reservas é muito mais democrática, o que favorece grandes consumidores.
"Até pouco tempo, eram dominantes as previsões de que os países importadores aumentariam sua dependência do Oriente Médio e não haveria solução para altos preços do petróleo", diz o geólogo e economista Robin Mills, autor do livro O Mito da Crise do Petróleo ("The Mith of the Oil Crisis") e consultor em Dubai.
"Com os avanços tecnológicos dos últimos anos, ganham força expectativas de que, ao menos no médio prazo, os preços dos combustíveis fósseis voltem a cair, países que eram importadores de recursos energéticos se tornem autossuficientes ou até exportadores e a OPEC seja mais pressionada a revisar suas práticas", disse.
São muitas as tecnologias que estão ajudando a traçar um novo mapa da energia no mundo. A começar pelas que permitem a exploração de petróleo em águas profundas - caso do pré-sal brasileiro. Outro exemplo é o aproveitamento do petróleo arenoso - encontrado em Alberta, no Canadá - também só é possível graças ao aprimoramento de processos físicos e químicos que purificam esse petróleo de baixa qualidade.
A técnica que mais desperta entusiasmo, porém, é de longe a relacionada à exploração do petróleo e, principalmente, do gás de xisto, obtidos a partir da rocha de mesmo nome. Segundo o especialista do mercado de petróleo Daniel Yergin, trata-se da maior invenção da área de energia da década.
Em centros de estudos e consultorias especializadas, o termo "revolução do gás de xisto" já virou corrente, e a respeitada Agência Internacional de Energia (AIE) chegou a perguntar em um relatório no ano passado: "Estaríamos entrando na ''era dourada do gás''"?
''Revolução do gás''
A causa do entusiasmo está relacionada aos bons resultados obtidos na exploração desse recurso nos Estados Unidos. Até 2008, os americanos importavam cerca de 13% do gás consumido no país do Canadá, segundo um relatório da consultoria KPMG.
Hoje, com a exploração das reservas de xisto, não só o país se tornou autossuficiente, como já pensa em exportar. Para completar, o preço do produto está caindo de forma acentuada, com os custos de extração cobertos pela venda de outros produtos químicos produzidos no processamento do gás.]
"Nesse cenário, não é de se estranhar que hoje uma das grandes corridas tecnológicas nos Estados Unidos seja para desenvolver e aprimorar meios de transporte a gás, permitindo a redução do consumo de petróleo convencional", diz Frank Umbach, especialista em segurança energética do Centre for European Security Strategies, com sede em Munique.
Reservas de gás de xisto são exploradas na Pensilvânia, na Louisiana e no Texas e já representam 30% do consumo de gás no país. Já o petróleo de xisto é produzido em Dakota do Norte e no Texas.
As expectativas criadas por tais mudanças também ajudam a explicar por que a Argentina expropriou neste mês a petrolífera YPF, controlada pela espanhola Repsol, que explorava as reservas de petróleo e gás de xisto nos campos de Vaca Muerta.
"A percepção de que essa nova fonte de combustível fóssil pode mudar significativamente a posição dos países no mercado de energia cria um senso de urgência com relação a exploração desses campos", explica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), em São Paulo. "A Argentina pedia mais investimentos para avançar nessa corrida, mas o governo continua limitando o preço cobrado pela energia internamente, o que reduz o interesse das empresas."
Tecnologias cruciais
Duas tecnologias foram cruciais para viabilizar a exploração do gás de xisto. A primeira é a técnica de perfuração horizontal, que permite o aproveitamento de reservas espalhadas por grandes áreas geográficas, mas pouco profundas. A segunda é a de fraturamento hidráulico, que consiste no bombeamento de uma mistura de água, areia e produtos químicos para dentro dos poços de exploração.
O impacto produzido por esse jorro de alta pressão produz pequenas fissuras nas rochas, liberando o gás que é canalizado para os dutos.
A exploração de petróleo de xisto (na realidade, um óleo semelhante mas não idêntico ao petróleo convencional) é um pouco diferente. Ás vezes esse combustível líquido é encontrado entre as rochas, mas em geral ele é produzido com o aquecimento do xisto.
Para o especialista em petróleo e energia Jed Bailey, da Energy Narrative, nos EUA, o que faz do xisto um dos motores de uma revolução na geopolítica da energia é a forma democrática como essas rochas estão distribuídas geograficamente.
Reservas desse material estão sendo encontradas de norte a sul do globo, em todos os continentes. Por enquanto, as maiores estão na China, Argentina, México, África do Sul, Estados Unidos, Canadá e Austrália, mas também há reservas na Colômbia, França, Polônia e Grã-Bretanha, entre outros países. No Brasil, a Petrobrás produz petróleo de xisto no Paraná.
Pires chama a atenção para o fato de que Estados Unidos e China, países que lideram o ranking de consumo de energia no mundo, também concentram algumas das maiores reservas. "O gás de xisto e todas essas outras fontes não convencionais alimentam as esperanças de importadores de energia de reduzirem sua dependência de exportadores problemáticos ou instáveis", explica.
Para Bailey, no caso dos EUA, uma diversificação para além do petróleo tradicional poderia fazer com que, no longo prazo, houvesse menos justificativa e apoio político para interferências no Oriente Médio, por exemplo. "No entanto, isso não quer dizer que a região sairia de vez do radar americano, por causa da sua influência na formação de preços no mercado global de energia", diz.
Problemas ambientais
Há algumas ressalvas importantes no que diz respeito a exploração desses combustíveis fósseis não convencionais. A primeira é a questão dos altos custos, que fazem com que a utilização de muitas dessas tecnologias só se justifique se os preços de seus produtos se mantiverem em um patamar relativamente elevado.
Um segundo porém é que o sucesso da exploração dessas novas fontes de petróleo e gás desanima a busca de fontes de energia renováveis e usos mais eficientes de energia. O petróleo não convencional é tão poluente quanto o convencional.
"E mesmo que o gás de xisto substitua o carvão e o petróleo, fontes de energia mais sujas, não deixa de ser uma fonte suja também, porque sua queima emite poluentes", explica Bailey. "Além disso, com o preço do gás caindo, a energia eólica ou solar hoje parece cada vez menos vantajosa."
No caso da exploração de gás de xisto, outro agravante é que ainda não há clareza sobre os riscos de contaminação do lençol freático pelos produtos químicos usados em sua exploração. Também acredita-se que o gás liberado no processo de extração possa causar pequenas explosões subterrâneas e tremores, embora a tese ainda não esteja comprovada.
Por causa dessa preocupações, a França foi o primeiro país a proibir as técnicas de fraturamento hidráulico, em julho de 2011, banindo até pesquisas nessa área. Na Grã-Bretanha, grupos ambientalistas têm se oposto a exploração de uma reserva em Lancashire, embora uma comissão no Parlamento tenha avaliado a técnica como segura. "Existe uma corrida por essas novas tecnologias por questões de conveniência econômica e interesses geopolíticos, mas isso não quer dizer que elas sejam sustentáveis do ponto de vista ambiental", diz Pires.
BCE já admite saída da Grécia do euro
Por Ralph Atkins
Financial Times, de Frankfurt
Representantes do Banco Central Europeu (BCE) falaram pela primeira vez publicamente, neste fim de semana, sobre o "gerenciamento" de uma possível saída da Grécia da zona do euro, na medida em que as tentativas frustradas para a formação de um governo de coalizão elevam as chances de um calote do país.
Comentários de membros do conselho do BCE mostram que o risco de uma fragmentação da união monetária é levado de forma cada vez mais séria no órgão.
Isso marca uma mudança de postura do BCE, que até então vinha dizendo que acordos europeus não permitem retiradas de países, e que uma quebra de tratado traria prejuízos econômicos incalculáveis. "Creio que um divórcio amigável, se for em algum momento necessário, seria possível. Mas eu ainda sentiria muito [se isso ocorresse]", disse Luc Coene, representante da Bélgica no Banco Central Europeu.
"Podem acontecer coisas que não foram imaginadas nos acordos", acrescentou Patrick Honohan, da Irlanda, durante uma conferência na Estônia. "Tecnicamente, [a saída da Grécia da zona do euro] pode ser administrada... não é necessariamente fatal, mas tampouco algo atraente".
"As consequência para [uma saída da Grécia] seriam mais sérias para a Grécia que para o restante da zona do euro", complementou Jens Weidmann, presidente do Bundesbank (o banco central alemão) e também membro do conselho do BCE.
Junto a outras autoridades monetárias da Europa, o BCE aumentou a pressão sobre a Grécia para que o país mantenha o seu programa de austeridade fiscal - advertindo que um descumprimento de medidas acordadas internacionalmente levaria ao corte da ajuda financeira ao país.
Até a noite passada, a Grécia parecia fadada a novas eleições nacionais, depois que as conversações para um novo governo de coalização, presididas pelo presidente Karolos Papoulias, terminaram sem consenso entre conservadores, socialistas e líderes de esquerda. Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, de centro-direita, acusou o Syriza, de extrema esquerda, de impedir um acordo - e isso mesmo depois de circular no encontro uma carta do premiê Lucas Papademos listando a deterioração da posição fiscal do país. Em uma tentativa de solução, o presidente ainda reuniu-se com líderes de quatro partidos menores que ganharam assentos no Parlamento.
Para os analistas, ainda é difícil saber o que acontecerá a seguir. Um observador conservador afirmou ser possível alguns legisladores de direita migrarem para o Nova Democracia, o que daria aos defensores do euro uma pequena maioria. Outros, no entanto, ainda acreditam que, pelo andar da carruagem, a Grécia não escapará de novas eleições nacionais.
A centralidade da manufatura
Por Igor Lopes Rocha - Valor 14/05
Desde o início da revolução industrial na Inglaterra, a atividade manufatureira tem sido a principal via de desenvolvimento econômico e "catching-up" das nações. Em meados do século XX, diversas economias hoje consideradas desenvolvidas já apresentavam um elevado grau de industrialização. Em países em desenvolvimento, como Brasil, México, Índia e China, o processo de industrialização ainda era incipiente, apenas intensificando-se em anos posteriores a partir de um movimento de mudança estrutural, que resultaria em grandes declínios relativos da participação da agricultura no Produto Interno Bruto (PIB) e aumentos da indústria.
Em 1950, a participação da indústria manufatureira no PIB dos países em desenvolvimento - representados aqui pela América Latina e Ásia em desenvolvimento - correspondia a 13%, enquanto nos países desenvolvidos esse número girava em torno de 31%. Na Ásia, essa parcela se aproximava de 10%, ao passo que na América Latina se encontrava em 16%. Esses números seguiram de forma ascendente, com a América Latina em patamares superiores aos asiáticos até 1980, quando atingiu 23%. Todavia, a partir daquela década, considerada "perdida" para os países latino-americanos, ocorreu uma mudança nessa trajetória, com queda da participação da indústria manufatureira no PIB e crescimento econômico extremamente insatisfatório.
Ao contrário da tendência da América Latina, as economias asiáticas persistiram no processo de industrialização, alcançando uma participação do setor manufatureiro no PIB de 28% em 2010. As participações mais elevadas em 2010 ficaram a cargo da China com 42%, seguida por Índia e Asean-4 (Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas) - com 24,5%.
O peso da indústria de transformação nas economias desenvolvidas caiu em 1980 de 24% para 21% em 1990, 18% em 2000 e 14% em 2010. No que tange à produtividade, assim como ocorrera no processo de industrialização dos países desenvolvidos, as economias asiáticas não deixaram a desejar. Motivados pelos efeitos dinamizadores da indústria de transformação, registraram-se extraordinários ganhos de produtividade na China, com médias de crescimento de 5,6% ao ano na década de 1990 e 10,3% ao ano nos anos 2000. De forma inversa, os países latino-americanos patinaram, com médias anuais de 1,3% nas décadas de 1990 e 2000.
Em conformidade com os fatos históricos apresentados, diversos estudos têm procurado teorizar a respeito da importância do setor manufatureiro como motor do crescimento econômico. Primeiro, há de se destacar uma relação empírica entre o grau de industrialização e a renda per capita nos países em desenvolvimento. Embora não haja uma correlação perfeita, pode-se afirmar, em grande medida, associação estreita entre o crescimento do PIB e o crescimento da indústria manufatureira.
Segundo, a produtividade é maior no setor industrial do que no setor agrícola. Desta forma, durante o processo de industrialização ocorre uma transferência de recursos da agricultura para a manufatura, engatilhando o processo de mudança estrutural. Neste quesito, pelo entendimento à la Kaldor depreende-se a ideia de que os ganhos de produtividade da indústria de transformação são superiores aos dos demais setores da economia. Mais recentemente, a literatura neo-schumpeteriana, em conformidade com a kaldoriana, tem procurado demonstrar que o valor adicionado na indústria foi sempre superior ao da agricultura. A trajetória recente de crescimento dos países da Ásia em desenvolvimento vis-à-vis os latino-americanos exemplifica esse aspecto.
Terceiro, o setor manufatureiro oferece oportunidades especiais para as economias de escala que não são encontradas na mesma intensidade na agricultura ou em serviços. Isso, no entanto, carece de uma observação adicional. Apesar de a literatura enfatizar os efeitos das economias de escala na indústria de transformação, essa propriedade especial da indústria manufatureira não é mais tão exclusiva, principalmente devido à ascensão de serviços associados às novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Essa observação parece condizente com as estratégias adotadas por países em desenvolvimento de articular a expansão das indústrias de transformação e das TICs, tal como explorado em relatório do Banco Mundial (Information and Communications for Development, 2009).
Quarto, em comparação com a agricultura, a indústria manufatureira proporciona maiores oportunidades de acumulação de capital. Isto porque, por questões geográficas, esse processo pode ser realizado mais facilmente na manufatura do que na agricultura. Isso contribui para justificar a importância da constituição da indústria manufatureira no crescimento e desenvolvimento das economias. Ademais, embora estimativas do estoque de capital para países em desenvolvimento sejam muito limitadas, os dados disponíveis indicam que após 1950, apesar do significativo incremento da mecanização do setor agrícola, a indústria manufatureira tem sido muito mais capital intensiva do que outros setores, reiterando sua importância no processo de acumulação capitalista.
Por último, o setor manufatureiro oferece oportunidades particulares para a difusão do progresso tecnológico direta e indiretamente à sua cadeia. Em outras palavras, o avanço tecnológico que se concentra no setor manufatureiro se difunde por meio de "spillovers" para outros setores econômicos, como o de serviços ou mesmo a agricultura. Isso se dá não somente pela maior quantidade e intensidade dos índices de ligação para frente e para trás da cadeia, como também ao chamado "power-of-pull" - "poder de arrasto" - da indústria manufatureira sobre os demais setores da economia.
Sem dúvida, o setor industrial constitui o motor do crescimento e de "catching-up" das economias em desenvolvimento. Desta forma, reconhecer a centralidade da manufatura, suas limitações e especificidades constitui a via de acesso ao desenvolvimento econômico. Mais do que isso, a política de desenvolvimento não pode ser enxergada por uma ótica exclusivamente macro ou microeconômica. Neste cenário, especialmente para o caso brasileiro, faz-se mister aos "policy makers" entenderem que essas esferas devem ser combinadas num movimento de rearticulação do tripé entre política cambial, industrial e de comércio exterior. O sucesso asiático é a prova inequívoca disso.
Igor Lopes Rocha é economista, mestre pelo IE/Unicamp e doutorando da Universidade de Cambridge, Inglaterra.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
A classe média toma o poder
Por Philip Stephens - Valor 27/04
Tropeço a toda hora com previsões inabaláveis de que o futuro pertence à China. Ou de que o Reino Médio sempre terá dificuldades para desafiar a primazia dos Estados Unidos. Não pergunte como a Índia e Brasil se encaixam nessa história. Esse tipo de exercício sobre como será a reconstrução do cenário geopolítico, por mais divertido que seja, também acaba desviando um pouco as atenções. O século XXI não será modelado pelas escolhas abstratas de países. O poder transformador pertencerá à nova classe média mundial.
A história dos últimos 20 anos foi a de uma grande transferência de peso econômico e influência geopolítica do Ocidente para o Oriente. Esse reequilíbrio ainda tem caminho a percorrer. As comparações sobre a posição relativa das potências estabelecidas e emergentes obscurecem alguns dos motores mais importantes da mudança. O que acontece dentro dos Estados é tão interessante quanto o que pode mudar nas relações entre eles. Em 20 anos, o mundo que agora é pobre de forma predominante passará a ser em sua maioria de classe média.
Os Estados, é claro, continuarão a forma dominante de organização política. É improvável que o aumento da riqueza remova identidades nacionais e culturais. Em alguns casos, pode muito bem reforçá-las. O nacionalismo ressurgente poderia mostrar-se uma das grandes ameaças à segurança e paz internacional. A forma como a maioria dos novos atores globais se comportará, no entanto, será guiada pela redistribuição inédita de poder, dos governantes para os governados.
Os números brutos estão delineados em um relatório convincente - Tendências Mundiais 2030- recém-publicado pelo Instituto de Estudos de Segurança (ISS, na sigla em inglês), com sede em Paris. Pelas tendências atuais, destaca o informe, as fileiras da classe média mundial passarão das cerca de 2 bilhões de pessoas atuais para 3,2 bilhões em 2020 e para 4,9 bilhões em 2030, quando a população mundial total seria de pouco mais de 8 bilhões. Dito de outra forma, pela primeira vez na história humana, haveria mais pessoas na classe média do que na pobre.
Os economistas podem debater a definição precisa. Para o ISS, o que constitui ser de classe média é ter renda disponível entre US$ 10 e US$ 100 por dia. Outros elevam um pouco o nível, considerando valores a partir de US$ 15. Pelos padrões ocidentais mesmo essa faixa é bastante baixa - mas leve em conta, então, quantas pessoas sobrevivem com US$ 1 por dia. O mais importante é que mesmo as suposições mais conservadoras indicam que haverá uma redistribuição irrevogável de poder econômico.
Como seria de se esperar, a transformação será mais pronunciada na Ásia. A China já possui mais de 160 milhões de consumidores de classe média, atrás apenas dos EUA. O número, contudo, representa apenas cerca de 12% da população chinesa. Até 2030, de acordo com as projeções da ISS, a proporção poderá ser de 74%. Na Índia, metade da população deverá supera o limite de US$ 10 diários antes de 2025. Em 2040, 90% estarão na classe média.
Essas tendências irão além da Ásia. Quase 70% dos brasileiros deverão estar na classe média em 2030. No mesmo ano, a América Central e América Latina terão tantos consumidores da classe média quanto a América do Norte. A transição será mais lenta na África, mas mesmo lá os números deverão mais do que dobrar em relação a 2030.
Esses novos consumidores ainda terão renda disponível bem menor do que seus pares na América do Norte e Europa. A proporção dos países ricos no consumo da classe média mundial, no entanto, deverá ser cortada em mais da metade, de 64% para 30%, até 2030.
As implicações dessa transformação serão tão profundas para as dinâmicas da ordem política dentro dos Estados ascendentes quanto as relações entre esse países e as potências estabelecidas. Classes médias maiores e mais afluentes provavelmente exigirão maior prestação de contas por seus governos. Isso não significa necessariamente que haverá um clamor por democracias representativas no estilo ocidental. Indica, no entanto, que as elites atuais, muitas vezes autoritárias, ficarão pressionadas.
A demanda das classes médias por mais voz na organização de suas sociedades será amplificada pelo maior acesso à educação - especialmente entre as mulheres - e pelo avanço incansável da tecnologia digital. O impacto da revolução digital já deixou sua marca no mundo árabe. O acesso compartilhado a comunicações instantâneas e praticamente gratuitas dá às classes médias mundiais uma arma potente na luta para ter maior controle sobre suas vidas. Já há mais usuários de internet na China do que cidadãos nos EUA.
Para o Ocidente, a perspectiva encorajadora de bilhões de pessoas saindo da pobreza chega acompanhada da probabilidade de que muitos - talvez a maioria - acolherão valores básicos, como a liberdade individual, dignidade humana e o Estado de direito. Não há relação automática entre a riqueza de uma sociedade e o grau de liberdade individual. Nem uma linha direta entre prosperidade e democracia. Há evidências de sobra, no entanto, indicando que mais cidadãos se identificam com um amplo conjunto de valores universais, quanto mais ricos ficam e mais anos de ensino acumulam. Governos opressivos por todos os lados terão problemas para resistir a esse despertar político.
Isso não quer dizer que o mundo será um lugar mais estável e pacífico. Grandes potências ainda concorrerão. Regimes sob pressão em casa podem muito bem sair à busca de inimigos externos. A concorrência por recursos naturais e a distância entre as expectativas da nova classe média global e a capacidade dos Estados de atendê-las será um convite para que regimes autoritários despertem os demônios da xenofobia. Uma provável desarticulação das instituições de governança global não será de nenhuma ajuda.
Mas e quanto às perspectivas de um mundo universalmente mais próspero e mais comprometido com a liberdade? Certamente, surgirão boas notícias a partir disso.
Philip Stephens é editor e comentarista político do FT.
Desindustrialização?
Por Naercio Menezes Filho - Valor 27/04
A participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) tem declinado nos últimos anos, atingindo 15% em 2011. Esse fato tem levado vários analistas a afirmar que está em curso um processo de desindustrialização no país. O governo, hiperativo, tem tomado várias medidas para salvar a indústria, como desonerações fiscais e aumento de impostos dos produtos importados. Mas, será que a desindustrialização existe mesmo? Em caso positivo, será que as medidas recentes do governo podem realmente salvar a indústria brasileira?
O processo que hoje chamamos de desindustrialização é conhecido na literatura econômica como mudança estrutural ("structural change"). Ele começa com o deslocamento dos trabalhadores da agricultura para a indústria e serviços, decorrente do crescimento da produtividade na agricultura. Isso ocorre porque, segundo Adam Smith "o desejo de alimentação é limitado em todos os homens pelo tamanho do seu estômago". Depois disso, começa a transição dos trabalhadores da indústria para o setor de serviços, pois o número de geladeiras que uma família precisa é limitado, mas o número de vezes que ela pode viajar não. Esse processo tende ser reforçado pelo aumento da produtividade no setor industrial, que faz com que um número menor de trabalhadores seja necessário para atender a demanda por produtos e máquinas na indústria. Retração como sinal de sucesso.
Assim, a participação do emprego na indústria de transformação nos EUA, que em 1965 era de 24%, passou para apenas 11% em 2005. No entanto, esse processo não levou à estagnação da economia americana, uma vez que a produtividade de seus trabalhadores aumentou continuamente, inclusive nos serviços. Assim, a participação da indústria no PIB americano tem permanecido estável nos últimos 50 anos. Da mesma forma, a participação do emprego na indústria tem declinado na grande maioria dos países do mundo, incluindo os latino-americanos, ao longo das últimas décadas.
Curiosamente, a participação do emprego industrial no Brasil manteve-se estável nas últimas décadas, em cerca de 20%. Assim, o processo de mudança estrutural ocorrido na maioria dos outros países não tem ocorrido no Brasil, ao contrário dos que advogam a tese de desindustrialização. Mas, a participação da indústria no PIB tem declinado. Qual o segredo?
O problema está na nossa produtividade industrial. Como mostra a figura ao lado, a produtividade do trabalho na indústria de transformação brasileira cresceu entre 1965 e 1980, mas declinou continuamente nos anos 80. E, após um breve aumento no início da década de 90 (provocado pela liberalização comercial), está estagnada desde então. Enquanto isso, a produtividade do trabalhador industrial americano vem aumentando continuamente desde 1965, o mesmo acontecendo com o coreano, que ultrapassou o brasileiro no início da década de 90. Isso afeta diretamente a participação da nossa indústria no PIB e nas nossas exportações. Por que isso ocorre?
Tudo começa com as nossas conhecidas deficiências de educação e infraestrutura. Além disso, as leis trabalhistas e tributárias que são alteradas todos os anos geram grande instabilidade jurídica e institucional. As mudanças recentes para ajudar a indústria, por exemplo, criaram um emaranhado de regras e burocracias que tende a piorar a produtividade, tamanho o esforço necessário para entendê-las.
Além disso, uma parte dos nossos empresários parece mais preocupada em fazer lobby no governo e na mídia do que em aumentar sua produtividade. Nas últimas décadas, o investimento em capital físico e a taxa de inovações tecnológicas na indústria têm sido pífios. Além disso, as técnicas gerenciais utilizadas por grande parte das empresas industriais brasileiras são bastante ultrapassadas.
Em suma, enquanto na maior parte dos países a perda de emprego industrial foi compensada pelo aumento da produtividade, no Brasil a participação da indústria no PIB e nas exportações caiu devido à estagnação da produtividade. Para reverter esse quadro o governo teria que reduzir os custos tributários, melhorar a qualidade da nossa educação e infraestrutura e parar de alterar as regras a todo o momento. Além disso, teríamos que gerar mais competição e promover a eficiência. O governo não vai conseguir aumentar a produtividade da indústria à força de leis, nem transferindo mais dinheiro da sociedade para esse setor.
Naercio Menezes Filho, professor titular - Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, é professor associado da FEA-USP
O spread do Banco Central versus o spread dos bancos
Valor 27/04
Enquanto o Banco Central aponta spread médio de 28% ao ano, os três maiores bancos privados divulgaram nesta semana junto com seus balanços que, segundo seus cálculos, seus spreads médios com operações de crédito rodaram em torno de 13% ao ano no primeiro trimestre.
O indicador calculado pelo BC e divulgado mensalmente virou argumento central do governo contra os bancos na recente cruzada para forçar para baixo o alto spread - diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros dos empréstimo aos clientes - praticado no país.
Na quarta-feira, o BC divulgou a nota de crédito referente a março, que indicou spread médio de 18,4% ao ano nos empréstimos para empresas e de 35,1% para pessoas físicas, além de ter cravado o spread geral de 28%. O Itaú informou que seu spread de janeiro a março foi de 13,5% ao ano, enquanto o Santander apontou 12,4%. No balanço do Bradesco, o dado não é explícito.
O tamanho da diferença intriga. E os bancos começam a empreender um esforço para explicá-la, com o objetivo de ganhar algum terreno na polêmica que se instalou nas últimas três semanas em torno do custo do crédito.
"Qual dos dois está certo? O fato é que o spread do BC e o dos bancos mostram coisas diferentes", pontua um banqueiro. "O spread do BC é baseado em poucos produtos. Virou verdade porque tem o selo do BC", diz um ex-presidente da Febraban, a federação dos bancos.
Os bancos apontam que o spread do BC só pega 52,9% do crédito para pessoas físicas do sistema e 39,1% dos empréstimos para empresas; e essa seria a principal falha da metodologia. Abrange basicamente créditos concedidos a partir dos chamados recursos livres, aqueles que não têm direcionamento obrigatório (como rural e imobiliário) e não contam com subsídio, como os financiamentos do BNDES. Justamente linhas como as do BNDES e o crédito imobiliário têm boas garantias e, portanto, risco mais baixo e spreads menores. Os grandes bancos são grandes repassadores dos recursos do BNDES e assumem o risco de crédito das operações que fecham.
O argumento não é novo. No site da Febraban, é possível encontrar estudos publicados desde outubro de 2009 exatamente com o mesmo raciocínio. Os estudos são atualizados mensalmente e elaborados pelo economista-chefe da instituição, Rubens Sardenberg.
Segundo aponta Sardenberg, no spread para pessoa física entram as linhas de cheque especial, crédito pessoal, de compra de veículos e outros bens. Ficam de fora cartão de crédito, imobiliário e leasing, por exemplo. Já no spread das empresas, entram desconto de duplicatas e notas promissórias, capital de giro, conta garantida, aquisição de bens e repasses externos e ACCs. BNDES, crédito rural e leasing não integram a conta e respondem por quase 60% dos empréstimos para empresas.
"Produtos com taxas mais altas e mais sensíveis a flutuações de curto prazo estão super representados na amostra utilizada pelo BC para cálculo do spread bancário", afirma o estudo. Exemplo citado: o crédito pessoal representa 27,1% do saldo das operações para pessoas físicas e, segundo a Febraban, tem peso de 54,4% no saldo das operações incluídas no cálculo do spread. Outro: a conta garantida é 8,9% do saldo de empréstimos para empresas e tem peso de 13,5% no estoque considerado para o spread; enquanto o ACC é 4,3% do estoque e 8,5% do spread.
Sardenberg chega a recalcular o spread, incluindo, entre outros, o imobiliário, que tem spread de 6% ao ano. E, nas suas contas, o spread em fevereiro deste ano para pessoas físicas não seria de 35,8% ao ano, como apontou o BC, mas de 28,4%. O cálculo da Febraban baseia-se em 78,6% do estoque (ante 52,9% do BC) e não chega a 100% porque deixa de fora modalidades como empréstimos de cooperativas e saldos não financiados no cartão de crédito, que não têm taxas acompanhadas pelo BC.
Para empresas, o spread recalculado da Febraban para fevereiro é de 13,5%, ante os 18,8% do BC. De novo, ficam de fora da conta da entidade modalidades não acompanhadas pela autoridade e entram no cálculo 67,9% do estoque (em comparação a 39,1% do BC).
Banqueiros apontam outro "defeito" do spread do BC. "O spread é calculado sobre o fluxo de empréstimos e os prazos desses empréstimos não são ponderados. Com isso, os créditos de 30 dias, mais caros, têm o mesmo peso no cálculo do que os financiamentos de longo prazo", diz um deles.
Três executivos de instituições distintas ouvidos pelo Valor contam a mesma história para explicar a origem do cálculo feito pelo BC: ele foi idealizado na gestão de Armínio Fraga à frente do BC, em 1999, com o objetivo de acompanhar a tendência da taxa no tempo e não para ser a reprodução exata daquilo que é praticado. A um interlocutor, recentemente, Armínio Fraga não teria endossado a história e teria dito que o cálculo deveria refletir a realidade.
O curioso é que o autor do estudo inicial mencionado pelos banqueiros sobre spread no BC, sob a gestão de Fraga, foi justamente Alexandre Tombini, o atual presidente do Banco Central e que, à época, chefiava o departamento de estudos e pesquisas da autarquia. Isso situa Tombini no coração do debate atual. A pressão sobre os bancos tem sido puxada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e pela presidente Dilma Rousseff, enquanto o BC, que fiscaliza e regula os bancos, tem se mantido silente. Mas o tema é próximo de Tombini. Ele conduziu o estudo logo depois da implementação do regime de metas de inflação no país, que criou o ambiente de estabilidade econômica que pavimentou o caminho para a expansão do crédito desde então.
Algumas das sugestões de medidas para baixar o spread feitas por Tombini há 13 anos constam também da lista entregue ao governo pela Febraban há duas semanas. Outras foram implementadas, como a ampliação da base de cobertura da central de risco do BC, que abrangia empréstimos de R$ 50 mil para cima em 1999 e agora chega a R$ 1.000. Vale a pena revisitar o texto.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Um mundo à deriva
Por Jeffrey D. Sachs - Valor 26/04
Os encontros anuais de primavera (no hemisfério Norte) do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial proporcionaram uma oportunidade para observar duas tendências fundamentais que vêm guiando a economia e a política mundial. A geopolítica afasta-se de forma decisiva de um mundo dominado por Europa e EUA para um com várias potências regionais, sem líder mundial. E uma nova era de instabilidade econômica está próxima, decorrente tanto dos limites ao crescimento como da turbulência financeira.
A crise econômica europeia dominou os encontros deste ano do FMI e Banco Mundial. O FMI busca criar um mecanismo de resgate emergencial para o caso de as economias europeias, fragilizadas, precisarem de outro pacote de auxílio financeiro e voltou-se às grandes economias emergentes - Brasil, China, Índia, aos exportadores de petróleo do Golfo Pérsico e outros - para ajudar a fornecer os recursos necessários. A resposta deles foi clara: sim, mas apenas em troca de maior poder e mais direito a voto no FMI. A União Europeia (UE) quer um escudo financeiro internacional; terá de concordar.
A demanda das economias emergentes por mais poder, naturalmente, já é uma história bem conhecida. Em 2010, na ocasião anterior em que o FMI aumentou seus recursos financeiros, os países emergentes aceitaram o acordo apenas depois de ver seu direito a voto no FMI ser aumentado em 6%, com a Europa perdendo cerca de 4%. Agora, os mercados emergentes exigem poder ainda maior.
Não é difícil entender qual é o motivo básico. De acordo com os próprios dados do FMI, os atuais membros da UE representavam 31% da economia mundial em 1980 - calculado a partir do Produto Interno Bruto (PIB) de cada país, ajustado pela paridade de poder de compra. Em 2011, a proporção caiu para 20% e o FMI projeta que até 2017 diminuirá ainda mais, para 17%.
O declínio reflete o baixo crescimento da Europa tanto em termos de população como de produção por pessoa. Por outro lado, a participação dos países em desenvolvimento asiáticos, como China e Índia, no PIB mundial, aumentou de cerca de 8% em 1980 para 25% em 2011 e deverá chegar a 31% em 2017.
Os EUA, em atitude típica dos tempos atuais, garantem que não se juntarão a nenhum novo pacote de auxílio do FMI. O Congresso dos EUA vem adotando políticas econômicas cada vez mais isolacionistas, especialmente no que se refere a auxílio financeiro a outros países. Isso, também, reflete a diminuição do poder dos EUA no longo prazo. A participação dos EUA no PIB mundial, em torno a 25% em 1980 caiu para 19% em 2011 e deverá passar a 18% em 2017, ano em que o FMI prevê que a China terá superado a economia americana em tamanho absoluto (ajustado pela paridade do poder de compra).
A transferência de poder global, no entanto, é mais complexa do que apenas uma questão de declínio do Atlântico Norte (UE e EUA) e a ascensão das economias emergentes, especialmente o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Também estamos passando de um mundo unipolar, liderado principalmente pelos EUA, para um mundo genuinamente multipolar, em que EUA, UE, Brics e potências menores (como Nigéria e Turquia) possuem peso regional, mas são reticentes em assumir liderança global, especialmente pelos encargos financeiros que isso acarretaria. A questão não é apenas o fato de haver cinco ou seis grandes potências atualmente; também é que todas querem avançar à custa das outros.
A passagem para um mundo multipolar tem a vantagem de que nenhum país ou bloco pequeno pode dominar os outros. Cada região pode acabar tendo espaço de manobra para encontrar seus próprios caminhos. Um mundo multipolar, no entanto, também traz riscos, especialmente o fato de que importantes desafios mundiais não serão abordados, porque nenhum país ou região é capaz de coordenar uma reação mundial ou mesmo de participar de uma.
Os EUA passaram rapidamente da liderança global para esse tipo de tentativa de avançar à custa dos outros, parecendo ter contornado o estágio de cooperação mundial. Os EUA, dessa forma, atualmente se eximem da cooperação mundial sobre mudanças climáticas, dos pacotes de auxílio financeiro do FMI, das metas de apoio ao desenvolvimento mundial e de outros pontos de colaboração mundial para proporcionar bens públicos mundialmente.
A fragilidade da cooperação em políticas globais é especialmente preocupante diante da gravidade dos desafios que precisam ser enfrentados. A atual crise financeira, é claro, vem logo à mente, mas há outros desafios ainda mais significativos.
Os encontros do FMI e Banco Mundial, na verdade, também abordaram um segundo desafio fundamental na economia mundial: a alta volatilidade e os altos preços das commodities primárias são atualmente uma grande ameaça para a estabilidade e crescimento econômico mundial.
Desde 2005, os preços das principais commodities dispararam. O petróleo, carvão, cobre, ouro, trigo, milho, minério de ferro e muitas outras commodities dobraram, triplicaram ou subiram ainda mais. A tendência de alta incluiu combustíveis, grãos e minerais. Alguns atribuíram a elevação a bolhas nos preços, amplificadas pelas baixas taxas de juros e facilidade de crédito para a especulação com commodities. A explicação mais convincente, no entanto, é quase certamente ligada a fundamentos.
O problema, no entanto, vai além de limitações na oferta. O crescimento econômico mundial também provoca uma crise ambiental cada vez maior. Os preços dos alimentos estão elevados atualmente, em parte porque regiões produtoras por todo o mundo sofrem com os impactos adversos de mudanças climáticas induzidas pelo homem (como mais secas e tempestades mais graves) e da escassez de água, decorrente do uso excessivo de água doce de rios e aquíferos.
Em resumo, a economia mundial passa por uma crise de sustentabilidade, na qual as limitações de recursos naturais e as pressões ambientais vêm provocando grandes choques nos preços e instabilidade ecológica. O desenvolvimento econômico precisa rapidamente tornar-se um desenvolvimento sustentável, adotando tecnologias e estilos de vida que reduzam as pressões nocivas sobre os ecossistemas da Terra. Isso, também, vai exigir um grau de cooperação mundial ainda não visto em nenhum lugar.
Os encontros do FMI e Banco Mundial nos lembram de uma verdade predominante: nosso mundo interconectado e superpovoado tornou-se uma embarcação muito complicada de navegar. Para que sigamos adiante, precisamos começar a remar na mesma direção, mesmo sem ter um capitão único na direção. (Tradução de Sabino Ahumada)
Jeffrey D. Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, da Columbia University. É também assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas no tema das Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
BC e governo mantêm real descolado do mundo
Por Eduardo Campos - Valor 26/04
De São Paulo
A valorização do dólar no pregão de ontem não foi nada impressionante, 0,11%, mas foi suficiente para levar a moeda para nova máxima do ano a R$ 1,884. De fato, o dólar não sai da linha de R$ 1,88 faz cinco pregões. E o comportamento da moeda independe do que se passa com o euro, outras moedas emergentes, preço das commodities, risco soberano ou volatilidade.
O que se nota é a permanente assimetria do mercado de câmbio local. O viés de alta permanece maior do que o de baixa, independentemente de qualquer fundamento. E a explicação para isso passa pelas atuações do Banco Central (BC) e pela postura do governo, que a cada oportunidade reforça a ideia de que pode tomar novas medidas no câmbio.
Agora em abril, o BC já fez 15 compras à vista, em comparação a 25 atuações à vista, a termo e via swap reverso (equivalente à compra de dólar futuro) realizadas em todo o primeiro trimestre.
Essa postura do BC e do governo foi um dos fatores que levou o Bank of America Merrill Lynch a mudar sua previsão para a taxa de câmbio brasileira.
A instituição vê o dólar a R$ 1,92 no fim de 2012, ante previsão anterior de R$ 1,85. Para o fim de 2013, a taxa deve ir R$ 1,95, ante o R$ 1,92 estimado previamente.
Em relatório, o chefe de economia e estratégia para o Brasil, David Beker, nota que há uma clara mudança na política de intervenção cambial agora em 2012, com as autoridades brasileiras atuando para fortalecer o dólar.
"Essa forte coordenação não existia no passado, conforme a Fazenda ameaçava e promovia mudanças no IOF, o BC utilizava as intervenções no câmbio como uma ferramenta para suavizar a volatilidade", diz o especialista.
Agora, diz Beker, a percepção do mercado é de que as atuações do BC estão puxando o dólar para cima, e que essa valorização da moeda americana não será um problema, pois a dinâmica inflacionária está melhor.
O Bank of America Merrill Lynch lembra que o real tem sido um veículo global de operações de "carry trade" (arbitragem de taxas de juros) na última década e parece que o governo não quer que isso se repita no futuro.
"Nos parece que o que o BC realmente quer é que os investidores de curto prazo deixem de perseguir o real", diz o relatório.
Segundo os especialistas do banco, há duas formas de se conseguir isso. Reduzir o apelo das operações de carry trade via uma redução dramática da taxa de juros ou introduzir volatilidade no mercado local de câmbio em momentos inesperados.
"Não acreditamos que a primeira opção seja apropriada, já que trazer a taxa de carry trade para níveis normais pediria uma queda do juro doméstico tão forte que colocaria a inflação e a credibilidade do BC em risco", diz a instituição. Com isso, a segunda opção parece explicar bem o momento atual.
Para Beker, um dos objetivos dessa nova forma de atuação do BC, que busca colocar o dólar para cima, seria balancear a pressão de queda na cotação da moeda americana que poderia aparecer no futuro, quando o ciclo de política monetária sair de baixa para alta da Selic.
Outro ponto levantado é que qualquer corte de juro adicional que o BC fizer no curto prazo torna o trabalho de enfraquecer o real ainda mais fácil.
Um terceiro ponto levantado pelo banco e que permanece uma questão em aberto, é em que taxa o BC pode voltar a vender dólares. Para Beker e seu colegas no banco, a velocidade da valorização do dólar seria mais importante do que o nível de preço por si só. "Evidentemente, não parece provável que o BC venda dólares a R$ 1,95, como aconteceu no ano passado."
Os especialistas do banco não se mostram preocupados com algum episódio de forte queda no preço do dólar, dada a baixa probabilidade de um cenário desses em função da análise feita. Mas a instituição recomenda algum tipo de proteção contra uma forte alta da moeda americana.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Empréstimos puxam ingresso de capital
Por Mônica Izaguirre e Murilo Rodrigues Alves - Valor 25/04
De Brasilia
O ingresso líquido de capitais no país foi de US$ 13,6 bilhões em março, o maior volume de recursos vindos do exterior nos últimos 12 meses, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central. As filiais de empresas multinacionais brasileiras ajudaram a compor essa cifra, emprestando às suas matrizes quase US$ 7 bilhões na forma de operações de crédito intercompanhias, valor bem mais alto do que os US$ 1,47 bilhão de março de 2011.
A entrada líquida de capitais cobriu com larga folga o déficit de US$ 3,32 bilhões nas transações correntes com outros países no mês, fazendo com que o resultado global do balanço de pagamentos externos fosse positivo em US$ 10,59 bilhões em março. Desde setembro de 2010, quando o balanço foi superavitário em US$ 11,6 bilhões, não se via dados tão expressivos.
Já na comparação dos trimestres, por causa dos outros dois meses do ano, tanto o fluxo líquido de capitais quanto o resultado global do balanço recuaram em relação a 2011, caindo de US$ 43,64 bilhões para US$ 23,92 bilhões e de US$ 27,64 bilhões para US$ 12,36 bilhões, respectivamente.
O saldo da repatriação de investimentos brasileiros diretos (IBD) como um todo, categoria que inclui os empréstimos intercompanhias, ficou em US$ 5 bilhões em março, pois saíram US$ 1,624 bilhão para reforço de participações diretas no capital de empresas no exterior.
Os brasileiros também mandaram para fora do país US$ 1,780 bilhão para investir em títulos de renda fixa, aquisição de ações via mercado de capitais, derivativos e outros tipos de investimentos. Ainda assim, por causa dos empréstimos das filiais, os residentes responderam por ingresso líquido em torno de US$ 3,05 bilhões em março.
O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, lembra que os empréstimos intercompanhias são tributados com 6% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Portanto, afirma, o seu crescimento não se trata de tentativa de fugir do tributo para aproveitar as altas taxas de juros internas. O fato de a economia brasileira ainda estar crescendo acima da média mundial poderia ser uma explicação para o forte fluxo de recursos de filiais a matrizes de multinacionais brasileiras.
No acumulado do trimestre, essas operações de crédito geraram ingresso de US$ 8,6 bilhões, ante US$ 2,1 bilhões em igual período de 2011. Esse montante já é superior ao desembolso recebido em todo ano passado (US$ 8,512 bilhões).
Descontando as amortizações pagas pelas matrizes, as filiais de empresas brasileiras emprestaram ao país US$ 7,91 bilhões nos três primeiros meses do ano, cifra também superior à de 2011 inteiro (US$ 6,1 bilhões).
No ano passado, a principal contribuição das filiais para o balanço de pagamentos brasileiro se deu de outra forma: elas amortizaram US$ 14,45 bilhões de dívidas com as matrizes no Brasil.
Em 2012, também houve pagamentos e recebimentos em função de empréstimos de matrizes para filiais, mas o fluxo nesse caso foi irrelevante, ficando em apenas US$ 18 milhões negativos no mês e no trimestre.
Os recursos estrangeiros foram responsáveis, em março, por US$ 10,5 bilhões dos US$ 13,6 bilhões de saldo registrados pela conta de capitais do balanço de pagamentos. A contribuição dos não residentes veio, principalmente, dos investimentos estrangeiros diretos (IED), que somaram US$ 5,887 bilhões no mês, incluindo um fluxo líquido positivo de US$ 830 milhões de créditos intercompanhias envolvendo multinacionais estrangeiras e filiais no país.
O valor ficou abaixo do registrado em março de 2011 (US$ 6,787 bilhões). No acumulado do trimestre, o ingresso de IED somou US$ 14,939 bilhões, o que também foi inferior a igual período do ano passado (US$ 17,535 bilhões). No entanto, o desempenho do IED em março foi melhor do que o esperado pelo Banco Central, cuja projeção indicava entrada de US$ 4 bilhões. Tulio Maciel reconheceu que a estimativa da autoridade monetária para o ingresso desses recursos durante todo o ano (US$ 50 bilhões) se mostra conservadora diante do verificado no primeiro trimestre e deve ser revisada.
Os estrangeiros trouxeram ainda para o país US$ 1,27 bilhão na forma de investimentos em títulos de renda fixa, modalidade que no trimestre atraiu US$ 2,28 bilhões. Isso revela um interesse menor do que o verificado no primeiro trimestre de 2011, quando os estrangeiros aplicaram em títulos de renda fixa US$ 5,01 bilhões, dos quais US$ 1,84 bilhão em março. Aí se nota o efeito do aumento do IOF sobre captações externas imposto pelo governo a partir de março de 2011, diz Tulio Maciel.
Embora pouco expressivo em março (US$ 131 milhões), o fluxo de investimentos estrangeiros em ações chegou a US$ 5,2 bilhões no trimestre, bem mais do que os US$ 748 milhões verificados em igual período de 2011.
Já as demais modalidades de investimentos (créditos comerciais, empréstimos diretos, moedas e depósitos) atraíram este ano um volume menor de capitais estrangeiros do que no ano passado, tanto no mês, quanto no acumulado do trimestre. Em março, esse fluxo foi de US$ 3,1 bilhões, contra US$ 7,97 bilhões do mesmo mês de 2011. No trimestre, ficou em US$ 3,78 bilhões, ante US$ 11,31 bilhões de igual período do ano passado.
Os empréstimos externos diretos, ou seja, que não implicam emissão de títulos, também foram alcançados pelo aumento do IOF, que certamente influenciou o fluxo dessa modalidade de capital externo.
Com economia mais fraca, remessas de lucros e dividendos caem a US$ 1,96 bi
As remessas de lucros e dividendos ao exterior somaram US$ 1,96 bilhão em março, reforçando a tendência de queda dessas despesas este ano. Em igual mês do ano passado, elas atingiram US$ 3,71 bilhões (recuo de 47%). Na comparação do primeiro trimestre de cada ano, os gastos do país com esse item da conta de transações correntes com o exterior também recuaram, passando de US$ 8,39 bilhões para US$ 3,47 bilhões.
O chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, atribui a principal explicação ao nível da atividade econômica em 2011. Com o crescimento da economia em 2010, ano em que o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 7,5%, as multinacionais tiveram melhores resultados e puderam remeter mais lucros e dividendos no ano seguinte. A queda das remessas em 2012 reflete a desaceleração da economia em 2011. Mais recentemente, a desvalorização do real também pode ter desestimulado as empresas estrangeiras a enviar parte de seus resultados às matrizes, acrescentou o chefe do Depec.
O recuo dos gastos com lucros e dividendos tem ajudado a reduzir o déficit em transações correntes. No mês passado, esse déficit foi de US$ 3,32 bilhões, inferior, portanto, aos US$ 5,73 bilhões de igual período de 2011. A cifra foi mais baixa também do que a esperada pelo Banco Central, cuja projeção indicava saldo negativo de US$ 4,5 bilhões no mês.
Na comparação entre os primeiros trimestres de 2011 e 2012, o déficit em conta corrente também caiu, de US$ 14,77 bilhões para US$ 12,11 bilhões. Houve recuo ainda, pelo segundo mês consecutivo, do acumulado em 12 meses. No período encerrado em fevereiro, as despesas do país com comércio, serviços, transferências de renda e transferências unilaterais superaram as respectivas receitas em US$ 52,23 bilhões, o equivalente a 2,09% do PIB estimado pelo BC. No período encerrado em março, o saldo foi negativo em US$ 49,81 bilhões, ou 1,98% do PIB.
Dados preliminares de abril indicam que a conta de lucros e dividendos ao exterior será novamente menor do que em igual mês do ano passado. Até o dia 20, as remessas somaram US$ 618 milhões, valor bem inferior aos US$ 2,11 bilhões de abril de 2011.
As despesas dos brasileiros com viagens internacionais também contribuíram para atenuar o déficit em conta corrente, mas só no mês, quando somaram US$ 1,627 bilhão. Foi uma queda modesta em relação a março de 2011 (US$ 1,645 bilhão), embora a primeira na comparação entre um mês e o mesmo do ano anterior desde setembro de 2009. Segundo Maciel, o arrefecimento se deve ao comportamento do câmbio, que ficou desfavorável às viagens internacionais, e porque o Carnaval caiu em fevereiro neste ano.
No acumulado do trimestre, porém, os gastos dos turistas brasileiros bateram recorde, chegando a US$ 5,38 bilhões, expansão de 13,2% na comparação com o mesmo período do ano passado (US$ 4,75 bilhões). Já os estrangeiros, nos três primeiros meses do ano, gastaram US$ 1,92 bilhão no Brasil, crescimento de 11,7% na mesma base de comparação.
As despesas líquidas com aluguéis de equipamentos também foram recorde no mês passado e no acumulado do trimestre. Em março, elas somaram US$ 1,49 bilhão ante US$ 1,25 bilhão do mesmo mês de 2011. No acumulado do trimestre, o saldo negativo foi de US$ 4,30 bilhões, ante US$ 3,61 bilhões registrados nos três primeiros meses de 2011.
Tulio Maciel explicou que pesam para esse item vir crescendo continuamente a demanda do setor de extração mineral, que aluga os equipamentos para ampliar a capacidade de produção de petróleo e metais metálicos.
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