quarta-feira, 18 de abril de 2012

A União sobreviveu a Tocqueville



Por Martin Wolf - Valor 18/04

Se a soberania da União viesse a envolver-se num embate com a dos Estados, no dias atuais, sua derrota poderia ser confiantemente prevista, e não é provável que tal embate seja seriamente empreendido. Se um dos Estados optasse por remover seu nome do contrato, seria difícil negar seu direito a assim fazê-lo, e o Governo Federal não teria meios de sustentar de imediato suas reivindicações, seja pela força ou pelo direito".

Alexis de Tocqueville, autor dessas palavras sobre as perspectivas para os EUA, foi o mais agudo observador estrangeiro sobre o país. Mas ele não conseguiu prever o resultado de uma guerra civil. Analogamente, durante os 10 dias que passei nos EUA, descobri que os americanos bem informados acreditam que a zona do euro não sobreviverá. Isso porque a veem como um casamento de conveniência econômica, assim como Tocqueville viu os EUA como um casamento de conveniência política.

O paralelo é inexato, mas esclarecedor. É inexato, porque a zona do euro não é país. Se fosse, as tensões econômicas a que está sujeita seriam fáceis de administrar. É esclarecedor, porque mostra que a sobrevivência de qualquer construção política depende do vigor das forças centrífugas e centrípetas em ação. No caso dos EUA, as primeiras foram suficientes para convencer os Confederados a empreender a separação, mas as segundas foram suficiente para derrotar essa tentativa.

O que podemos, então, dizer sobre as forças em atuação na zona euro? As forças econômicas centrífugas são dolorosamente evidentes.

Em primeiro lugar, uma vez que a zona euro é uma união monetária sem retaguardas fiscais, a pressão de ajustes recai sobre mercados de trabalho notoriamente inflexíveis. Uma vez que o objetivo acordado é inflação baixa, isso significa uma pressão descendente sobre os salários nominais. Isso implica disparada do desemprego, economias em colapso e deflação da dívida.

Em segundo lugar, o nascimento do euro coincidiu com um boom mundial de crédito. A convergência dos juros decorrentes de sua criação foi reforçada pelo desaparecimento dos spreads de risco. O resultado foi uma onda de empréstimos transfronteiras - tanto para o setor público como para o privado -, reduzida pressão por consolidação fiscal em países altamente endividados (como a Itália) e o surgimento de enormes desequilíbrios de pagamentos e divergências de competitividade. Depois vieram os choques financeiros, que produziram "paradas súbitas" nos empréstimos, um colapso na tomada de empréstimos e nos gastos privados e uma onda de crises fiscais.

Em terceiro lugar, em tal crise, a zona euro não dispunha de um meio eficaz para sustentar sistemas bancários, financiar países em dificuldades ou assegurar ajustes proporcionados por parte de economias credoras e devedoras. Em vez disso, vemos improvisação: o avião da zona do euro está sendo reprojetado enquanto cai.

Agora, consideremos as forças centrífugas políticas. Eu gostaria de citar duas. Em primeiro lugar, a solidariedade continua em grande parte nacional. Afinal, falamos dos Estados de bem-estar mais generosos do mundo. Mas a disponibilização relativamente modesta de financiamento transfronteiras para ajudar as economias em dificuldades revelou-se muito difícil. É por isso que, na prática, o Banco Central Europeu emergiu como financiador transfronteiriço principal.

Em segundo lugar, o poder repousa nos Estados membros. No caso do euro, o poder está concentrado nas mãos da Alemanha, o maior país credor. Por isso, a zona do euro funciona, politicamente, como um arranjo multipaíses, não como um país. Os alemães compreenderam o problema desde o início. Os franceses, com frequência, não.

Por último, consideremos as ideias. A mais importante força centrífuga é o amplo desacordo sobre o que deu errado e como corrigir. Em particular, a visão alemã é de que a crise reflete indisciplina fiscal. Outros insistem (com razão) que o problema central foi excessiva concessão de empréstimos, competitividade divergente e desequilíbrios externos.

Essa discordância é relevante porque os ajustes não podem simplesmente ser impostos. Em vista da opção de saída (do euro), eles têm de ser negociados. Em tal negociação, os países credores precisam compreender seu papel na crise. Se eles quiserem preservar seus superávits, devem financiar seus devedores. Se quiserem ver pago o que emprestaram, precisam progredir no sentido de um déficit. Os dois lados - finanças e comércio - têm de ser realinhados.

São essas forças centrífugas suficientemente poderosas para romper o sistema? Para dar uma resposta, precisamos também examinar as forças centrípetas.

A principal força econômica que agora mantém o sistema coeso é o medo de uma ruptura. Uma justificação adicional para a união, nos países atingidos pela crise, é a útil pressão por reforma. Muitos acreditam que a moeda única oferece, no longo prazo, uma recompensa econômica positiva, embora essa visão precise ser temperada pelos custos do enfrentamento das crises e da redução da integração financeiro entre países.

A principal força política é o compromisso para com o ideal de uma Europa integrada, juntamente com o enorme investimento da elite nesse projeto. Essa motivação enormemente importante é muitas vezes subestimada por forasteiros. Embora a zona do euro não seja um país, é muito mais do que uma união monetária. Para a Alemanha, de longe o membro mais importante, a zona euro é o clímax de um processo de integração com seus vizinhos que ajudou a produzir estabilidade e prosperidade após os desastres na primeira metade do Século XX. O que está em jogo, para países membros importantes, é enorme.

Assim, a grande ideia que aproxima os países membros é a de seu lugar na Europa e no mundo. As elites políticas dos Estados membros, e grande parte de sua população, continuam a acreditar na agenda do pós-guerra, ainda que não tão apaixonadamente como antes. Em termos mais estritamente econômicos, poucos acreditam que flexibilização monetária poderia ajudar. Muitos continuam a acreditar que desvalorizações apenas gerariam inflação mais elevada.

Se esse fosse um simples casamento de conveniência, um divórcio conturbado pareceria provável. Mas trata-se de muito mais do que um casamento, mesmo que permanecerá sendo muito menos do que uma união federativa. Quem olha de fora não deveria subestimar a força da vontade por trás dele.

O desfecho mais provável - embora longe de assegurado - é um compromisso entre as ideias germânicas e uma emaranhada realidade Europeia. O apoio aos países em dificuldade crescerá. A inflação alemã vai subir e seus superávits externos cairão. O ajuste irá ocorrer. O casamento será extremamente infeliz. Mas ele é capaz de resistir. (Tradução de Sergio Blum)



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Combustível caro assombra setor aéreo





Empresas se queixam de aumento de preço do querosene da aviação e pedem redução de tributos ao governo



Segundo o Ministério do Fazenda, no curto prazo, não é possível atender nenhum pedido das companhias



FSP 18/04
A Secretaria de Aviação Civil (SAC) se preocupa com os impactos do aumento do combustível de aviação, mas o Ministério da Fazenda ainda não encontrou uma fórmula para aliviar as empresas.

Os principais pleitos das companhias aéreas são o controle do preço do combustível de aviação pela Petrobras, a redução do ICMS e a isenção de alguns tributos federais.

Nenhum deles é visto na Fazenda como possível de atender no curto prazo. No médio prazo, está no horizonte do governo começar a discutir um teto para a alíquota de ICMS sobre o combustível.

O combustível de aviação teve aumento de 33,5% em 2011 e foi o item de maior impacto nos prejuízos das duas maiores companhias aéreas do país, a TAM e a Gol. A Petrobras é a única fornecedora do combustível.

Para reverter o quadro, as empresas cortam linhas e reduzem drasticamente os descontos nas tarifas aéreas.

Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que a tarifa média das passagens aéreas subiu 44% de julho a novembro de 2011 (último mês pesquisado). No período, a inflação oficial ficou em 1,8%. Em julho, a tarifa média estava em R$ 223,40 e passou em novembro para R$ 322,30.

Segundo o Sindicato Nacional da Empresas Aeroviárias (Snea), o combustível corresponde a 40% das despesas das companhias. A média mundial é de 32%.

"Se você tem um custo dessa monta, naturalmente repassa para a tarifa", diz Ronaldo Jenkins, diretor do Snea, lembrando que outros fatores como a alta do dólar e das tarifas aeroportuárias também influenciaram.

Maior companhia aérea do país e com mais voos internacionais, a TAM informou que "registrou elevação de 21,3% nos gastos com combustível e de 10,1% no volume consumido na comparação com o ano anterior".

Ainda segundo a empresa, o impacto desse aumento nas despesas da companhia foi considerado "significativo". A empresa registrou prejuízo de R$ 335 milhões no ano.

No caso da Gol, a segunda do ranking nacional, o diretor de Relações com Investidores, Edimar Lopes Neto, afirmou que a companhia reverteria a maior parte do seu prejuízo de R$ 710 milhões -teria lucro antes do pagamento de impostos- se o combustível tivesse se mantido no mesmo preço de 2010.

De 2007 a 2011, a Petrobras importou, segundo a Agência Nacional do Petróleo, 15,4 milhões de litros de combustível de aviação (QAV) e produziu no país 330,5 milhões. Apesar de importar só 5% do consumo, a empresa cobra das empresas como se todo o QAV vendido no país viesse do golfo do México, com custos correspondentes de importação e transporte. A Petrobras não se manifestou.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma bolha pode estar em formação



Por Mary Anastasia O'Grady

Juntamente com a Rússia, a Índia e a China, aponta-se o Brasil como um tigre econômico do século XXI. Então, como se explica que tenha crescido míseros 2,7% no ano passado?

Segundo a presidente Dilma Rousseff, é a política de juros baixos do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) que está tornando seu país não competitivo e, portanto, "prejudicando o crescimento". Ela disse isso em uma visita a Washington na semana passada.

Não é uma acusação nova. O Brasil tem se queixado há algum tempo da política de dinheiro fácil do presidente do Fed, Ben Bernanke. Ao ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, é creditado o termo "guerra cambial" para descrever a vantagem exportadora de um país mediante desvalorização de sua moeda nacional.

Sem dúvida, a "flexibilização quantitativa" do Fed e a política de juros quase nulos implicam haver muitos dólares em busca de melhores retornos nos mercados de energia. Isso alimentou uma corrida ao Brasil, onde foram descobertas abundantes reservas petrolíferas no mar que, em contraste com reservas nos EUA, têm sido alvo de exploração. Ao contrário do que ocorre no México, o Brasil está permitindo que empresas estrangeiras participem do processo. Também na agricultura, o Brasil emprega a mais sofisticada tecnologia disponível e a usa para tornar-se um produtor de classe mundial numa época de preços crescentes dos alimentos.
Quando os investidores colocam seu dinheiro nesses ativos rentáveis no Brasil, o valor do real sobe. Nesses termos, Dilma tem razão em que Bernanke, ao "jogar dinheiro do helicóptero", está desempenhando um papel fundamental na economia brasileira. Os investidores também têm razão em serem cautelosos num jogo envolvendo commodities fortemente dependente da política de crédito fácil do Fed.

Uma bolha pode estar em formação. Se a produção não for rentável a preços mais baixos, um estouro de bolha poderá acontecer.

Mas, uma moeda forte torna os brasileiros mais ricos, algo que a presidente deveria comemorar. Então, por que ela está se lamentando? A resposta está no poder político dos industriais nacionais.

Pense o que aconteceria se os responsáveis pela política monetária permitissem uma valorização do real. À medida que os dólares afluíssem para o país e fossem usados para comprar reais, a taxa de câmbio apreciaria. A valorização do real daria aos brasileiros maior poder de compra em todo o mundo para modernizar suas instalações produtivas, melhorando a produtividade e, assim, a competitividade.

Esse seria um processo de acumulação de riqueza. Mas os planejadores centrais brasileiros têm outras ideias. Eles sempre imaginaram o país como um gigante industrial, e o governo vem, de longa data, subsidiando os produtores nacionais - a teoria das indústrias nascentes - e oferecendo proteção contra a concorrência estrangeira. Isso era mais fácil quando a moeda local era fraca. Os brasileiros não conseguiam pagar as importações do país e as exportações pareciam mais atraentes para os compradores estrangeiros.

Hoje o real forte está expondo a debilidade da indústria brasileira, que mesmo antes do "boom de Bernanke" estava diminuindo em importância econômica. De acordo com o economista brasileiro Raúl Velloso, a indústria de transformação, como percentual do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro é agora metade do que no fim de 1980. Um total de 65% da economia corresponde, hoje, ao setor de serviços, e esse setor emprega quatro vezes mais brasileiros do que a indústria de transformação.

Mesmo assim, os produtores nacionais continuam politicamente poderosos e eles estão exercendo pressão sobre Brasília para impedir a valorização do real. Para fazer isso, o Banco Central tem de comprar o afluxo de dólares, emitir novos reais e, em seguida, emitir títulos para remover esses reais de circulação para que não gerem inflação. O banco tem agora mais de US$ 400 bilhões em reservas e as emissões de títulos têm empurrado os juros para cima.

Taxas de juros mais altas atraem mais compradores de reais em busca de rendimentos mais elevados. Assim, ao invés de enfraquecer a moeda, a intervenção do banco a torna mais forte. Juros mais altos também encarecem manter as reservas. Outro problema é que pode ser mais provável que os investidores coloquem seu dinheiro em títulos do governo, em vez de convertê-los nos investimentos necessários para aumentar a capacidade produtiva.

O governo também está devorando a poupança necessária para investimentos fomentando o consumo em uma diversidade de maneiras. O impulso ao consumo, inclusive a expansão de crédito subsidiado do BNDES, o banco nacional de desenvolvimento, é perigoso.

À medida que a demanda se aquece, a baixa taxa brasileira de investimentos em relação ao PIB (18%) em comparação com a chinesa (50%) implica a necessidade de importações. O protecionismo bloqueia as importações, de modo que os preços dos produtos comercializáveis sobem. Os preços dos serviços, que não são importados, também sobem.

Maior consumo sem a correspondente capacidade produtiva provoca inflação, elevando os custos salariais para os fabricantes nacionais que o governo deseja ajudar. O banco central precisa apoiar-se em juros elevados para controlar a situação. O crescimento sofre.

A saída dessa armadilha é aproveitar o real forte e as vantagens comparativas do país em serviços e commodities. Permitir que a indústria de transformação planejada centralmente se reestruture não será indolor. Mas é melhor fazê-lo agora, ao lado de reformas pró-crescimento nas áreas tributária e de regulamentação, do que esperar a inevitável crise



Mary Anastasia O'Grady é colunista do Wall Street Journal Americas

(In) solúvel: de como se mata a exportação



Por Antonio Delfim Netto - Valor 17/04

Das exportações de nossos produtos industrializados talvez nenhum tenha a gloriosa história do café solúvel. Sua vantagem comparativa foi construída na dura disputa de uma década com a administração dos EUA, que queriam que impuséssemos um imposto de "exportação" para proteger seus produtores.

Foi o tempo de "o que importa é exportar". A exportação garantia alta taxa de crescimento do PIB sem crises no balanço em conta corrente. Tudo isso hoje parece muito distante, mas se você ficar parado, a história pode voltar a passar por aqui.

Mas qual é o problema? Comecemos pelo começo: 1) o desastrado sistema tributário: com a instituição da Lei Kandir, que entrou em vigor em setembro de 1996, foi criada uma grande distorção no sistema tributário. Enquanto as exportações de café verde ficaram totalmente isentas do recolhimento do ICMS, as indústrias de café solúvel, que compram o café verde de outros Estados para industrialização, foram obrigadas a recolher o ICMS. Com isso acumulam créditos de ICMS cobrados sobre os insumos (café verde) usados na fabricação dos seus produtos.

Esses recursos ficam indisponíveis até que os fiscos estaduais se predisponham a devolvê-los, sem qualquer atualização monetária. O mais indecente é que quando o Estado libera os créditos de ICMS, o faz na forma de "certificados de crédito", que as empresas negociam com um deságio médio de 10%. Isso é prejuízo líquido da empresa transferido como lucro para outros.

Os exportadores também acumulam impostos federais, como PIS e Cofins. O motivo do acúmulo dos créditos é o mesmo do ICMS. Entre ICMS, PIS e Cofins, estima-se que o crédito acumulado do setor em 31/12 de 2011 era de aproximadamente R$ 130 milhões, consumindo o capital de giro das empresas. Isso as obriga a tomar empréstimos bancários a juros extorsivos, que destroem ainda mais a sua competitividade. Em que mundo vive tal manicômio fiscal?

2) o descuido da política comercial externa: o Brasil é o único entre os 20 principais fornecedores de café para a União Europeia (UE) que tem exportações de solúvel taxadas em 9%. O Vietnã e a Indonésia, respectivamente segundo e terceiro maiores produtores mundiais de café, mais a Índia, são taxados em apenas 3,1%, de acordo com o Generalized System of Preferences (GSP). Colômbia, hoje o quarto maior produtor mundial de café, México e Equador estão isentos de taxa de importação, beneficiados por acordos bilaterais com a UE.

O Japão, um dos principais mercados do café brasileiro, ratificou acordo de cooperação econômica com os países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) para a eliminação gradual de taxa de importação para o café solúvel e o extrato de café exportados do bloco, que inclui, entre outros, Vietnã, Indonésia e Malásia.

A Indonésia já está isenta de taxa, a Malásia será isenta em 2013, e hoje apenas é taxada em 1,1%. O Vietnã será isento em 2016. Hoje, é taxado em 4,4%. O Brasil tem seu café solúvel taxado em 8,8%, enquanto se enrola em discursos multilaterais! E pior, o extrato de café é taxado em 15% no Japão, nosso maior mercado. Em que mundo perdido vivem o Itamaraty e o nosso Ministério de Indústria e Comércio?

3) Protecionismo mal disfarçado: Vietnã, Indonésia, Colômbia, Índia, México, Equador e Malásia são responsáveis por 60% do volume total de exportação de solúvel. Todos permitem que suas indústrias desfrutem do benefício universal do "drawback" de matéria-prima, para que se mantenham permanentemente competitivos no mercado internacional, alcancem os mais diversos mercados consumidores e ofereçam "blends" diferenciados.

Sob a falsa alegação de "defesa sanitária", o Brasil não dá essa condição, o que deixa sua indústria sem condições de operar com competitividade. A produção de conillon é insuficiente para atender às demandas de consumo interno, exportação in natura e industrialização para o solúvel, mas o setor é impossibilitado de buscar matéria-prima em um ambiente regulado pelo mercado internacional onde estão seus clientes. Com isso, fica refém de preços artificiais e distorcidos do mercado interno nacional de café verde, não podendo importar matéria-prima para exportar produto de maior valor agregado.

Todas essas situações combinadas têm estimulado a expansão da indústria no exterior, que vem recebendo grandes investimentos em novas fábricas e incremento de capacidade das já existentes, enquanto as nossas estão sendo destruídas. Ao liberar o "drawback", sinalizaríamos claramente que temos as condições permanentes para nos manter competitivos a médio e longo prazo. Isso provavelmente daria segurança às indústrias de países consumidores para desativarem suas plantas, transferindo-as para o Brasil. Afinal, onde anda o Ministério da Agricultura?

Diante desses fatos não é tão difícil entender por que a Alemanha e a Suíça tornaram-se grandes exportadores de café torrado e moído, enquanto matamos nossa indústria de solúvel. Notaram que não se falou nas taxas de câmbio?



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Revisitando a economia mundial



Por Luiz Carlos Mendonça de Barros - Valor 16/04

Vou deixar de lado os problemas da economia neste início do segundo ano do governo Dilma e olhar para fora do Brasil. Afinal, como sabe o leitor do Valor, o analista precisa ter um olho no peixe - o Brasil - mas o outro no gato, que hoje é representado pelos Estados Unidos, Europa e principalmente a China.

Depois de algumas semanas de certa calmaria, a flutuação violenta dos preços dos ativos negociados pelo mundo afora voltou à ordem do dia. Por exemplo, a Bovespa caiu 1,2% na segunda passada, 1,9% na terça, 0,7% na quarta, para subir 2,9% no dia seguinte e quase 2% na sexta (no momento em que escrevia esta coluna). Esse mesmo vai e vem ocorre nas bolsas americanas, nos mercados de câmbio e nos negócios com títulos de renda fixa nos quatro cantos do mundo.

Confesso que nunca vivi um período de irracionalidade tão grande. E uso o termo irracionalidade aqui para descrever a falta de sintonia entre o comportamento dos mercados e o que acontece de fato nas principais economias do mundo. Essa sintonia sempre foi uma das âncoras que ligou as questões macro e a composição das carteiras de ativos dos grandes investidores. Embora ela não seja perfeita, e de tempos em tempos apresente divergências importantes, é um dos elementos centrais na tarefa de se prever com alguma racionalidade o futuro nos mercados financeiros.

Mas a já longa crise que estamos vivendo mudou a forma como previsões econômicas e preços dos ativos financeiros se inter-relacionam. Nos últimos dois anos os investidores passaram a reagir de forma violenta à publicação de certos dados que não fazem parte do grupo de indicadores que realmente contam na tarefa de acompanhar o pulsar das economias. São os chamados indicadores de alta frequência, que sofrem influências sazonais fortíssimas, o que leva os analistas a usar métodos estatísticos sofisticados para tentar transformá-los em sinais mais críveis. Pois nos dias de hoje esses dados voláteis, e que são divulgados de forma bruta pela imprensa, passaram a fazer a cabeça dos investidores e a mover os mercados.

Outra característica dos dias atuais é a prevalência dos dados passados sobre aqueles que procuram construir o futuro via instrumentos bastante sofisticados de análise. São os chamados indicadores antecedentes e que, sem chegarem à perfeição, apresentam um resultado bastante satisfatório nessa sua difícil missão. Mas nos últimos tempos eles não têm conseguido influenciar o comportamento dos mercados, centrados que estão na miríade de informações divulgadas diariamente pela imprensa. Prova disso foi a forma fria, e sem respeito, com que foi tratada a divulgação dos indicadores antecedentes construídos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o segundo trimestre do ano e que mostram uma recuperação sustentada nas economias dos Estados Unidos, da China e do Brasil, entre outros.

Passei os últimos dias tentando entender as razões para essa quebra de padrão nos mercados financeiros. E a mais sólida explicação que encontrei foi o fato de que a grande parte dos recursos dos grandes investidores institucionais no mundo todo está hoje aplicada em títulos que pagam juros fixos. São majoritariamente papéis de curto e médio prazo, emitidos pelos governos nacionais, denominados em moedas seguras como o dólar americano e que pagam juros baixíssimos, bem abaixo da taxa de inflação. Mas a insegurança e a volatilidade de ativos mais rentáveis ao longo dos últimos dois anos fez da perda de capital de pequena monta a melhor de todas as outras alternativas.

Pois a redução da importância desses investidores, que se pautam mais pelos fundamentos econômicos e menos pela especulação de curto prazo, abriu espaço para os que adoram o que chamam de volatilidade dos mercados. São operadores do curto prazo e que dão pouca importância aos verdadeiros fundamentos de uma economia de mercado. E com isso a sintonia entre preços e fundamentos enfraqueceu e os mercados, sem esta referência, passaram a funcionar aos trancos e ao sabor dos dados de alta frequência.
Na última sexta feira tivemos um exemplo desse novo padrão de comportamento. A China divulgou os principais indicadores econômicos relativos ao primeiro trimestre deste ano. Como sempre ocorre nessas situações, as informações divulgadas dividiram-se em dois grandes grupos. O primeiro trouxe os dados sobre o PIB e que vieram abaixo das expectativas do mercado. Esperava-se um crescimento de 8,4% ao ano e o número real foi de apenas 8,1%, ou seja, um crescimento entre o último trimestre de 2011 e agora abaixo dos 8% ao ano. Isso foi suficiente para fazer com que os mercados reagissem de forma extremada, com quedas generalizadas nas bolsas de valores mundo afora e a valorização do dólar em relação às moedas emergentes.

Foram deixados de lado pelos operadores todos os indicadores que apontam para o futuro, como a normalização na concessão de crédito pelo sistema bancário, a expansão monetária no período e o dinamismo do consumo interno. Aliás, foram esses dados que levaram a OCDE a mostrar uma inflexão na curva do crescimento chinês nos próximos meses e a prever a volta de uma expansão da economia a taxas acima dos 8% em 2012. Mas o mercado vai navegar ainda algum tempo com a imagem de um quase colapso na segunda economia do mundo.



Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

México sai da sombra do Brasil



Por John Paul Rathbone Valor 16/04

Perguntei certa vez a Carlos Slim por que os mexicanos mostravam-se tão desanimados em relação a seu país e os brasileiros tão eufóricos com o deles. O homem mais rico do mundo, cujos principais investimentos espalham-se pelos dois países, respondeu: "É simples. Eles são brasileiros. Nós somos mexicanos."

Foi um comentário perceptivo. Muitos mexicanos sentem-se deprimidos com seu país e o mundo compartilhou essa desesperança. Enquanto isso, a confiança da onda de crescimento do Brasil - que pôde ser vista durante a visita da presidente Dilma Rousseff a Washington nesta semana - arraigou-se na imaginação popular. A mais recente manifestação disso é a iminente oferta pública inicial de ações de US$ 20 bilhões do BTG, o banco de investimento brasileiro que quer ser, entre outras coisas, um " Goldman Sachs tropical". Só isso deveria fazer-nos observar de novo - especialmente quando os humores nacionais eram tão diferentes há apenas dez anos.

Na época, havia um debate caloroso sobre qual era o verdadeiro líder econômico da América Latina. Para muitos mexicanos, a resposta era óbvia. O país havia acabado de concluir a transição para a democracia. Sua economia era maior do que a do Brasil. Tinha até um sistema bancário sólido. O Brasil, enquanto isso, acabava de sair de uma crise cambial e os investidores estavam aterrorizados porque o país estava para eleger um perigoso esquerdista, Luiz Inácio Lula da Silva. Com que rapidez a mesa virou. O Brasil tornou-se um dos tão alardeados países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), ficando atrás apenas da China no grupo. O México ficou para trás, com sua economia agora sendo a metade do monstro brasileiro de US$ 2,6 trilhões. O que aconteceu?

A resposta, em grande parte, é a China. Sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) trouxe menores preços do que os da indústria mexicana, que perdeu negócios para rivais de custos bem menores. A liderança política também foi frágil. A economia doméstica mexicana continua sufocada por monopólios - especialmente o da petrolífera estatal Pemex. A confiança nacional ficou ainda mais abalada com a guerra contra o crime organizado, que matou 50 mil pessoas nos últimos seis anos.

Em contraste, o Brasil ganhou cada vez mais importância. Sua economia beneficiou-se da demanda voraz da China, seu maior parceiro comercial, por commodities. Lula esteve longe de ser o bicho-papão que tantos temiam. O Brasil enfrentou oligopólios em seu mercado doméstico de uma maneira melhor que os mexicanos e liberou sua petrolífera estatal, a Petrobras, permitindo que abrisse o capital e se aliasse a empresas estrangeiras para explorar reservas petrolíferas gigantescas. Enquanto os Estados Unidos, maior parceiro comercial do México, cambaleou da crise das empresas "pontocom" para o estouro da bolha das hipotecas de baixa qualidade, o Brasil entrou em uma onda lucrativa. De fato, parecia ser "o melhor país do mundo" [em português, no original]. Certamente, era um dos mais sortudos.

Agora, essa sorte pode estar mudando. Pela primeira vez em dez anos há bons motivos para ser menos otimista em relação à China - e, portanto, quanto ao Brasil também. Também há bons motivos para ser mais otimista sobre os EUA - e, portanto, em relação ao México também. A China perdeu competitividade, afetada pelo aumento nos custos com mão de obra e transporte. Se a economia dos EUA se recuperar, a indústria mexicana deverá sair-se bem.

O México também se tornou um fabricante mundial de automóveis. A indústria gerou exportações de US$ 23 bilhões em 2011 - mais do que o petróleo e o turismo. Não se tratam das baratas operações "maquiladoras": Volkswagen e Nissan usam a rede de acordos de comércio exterior do México para exportar seus carros para todo o mundo. Quanto à "guerra contra as drogas" do México, a outrora onda vertiginosa de aumento da violência desacelerou-se e, em algumas áreas, até diminuiu. Os motivos não estão claros, mas a elevação de 74% nos gastos federais em segurança acabará fazendo diferença.

O Brasil, no entanto, chegou a um quebra-molas. Não pode mais contar com a alta dos preços das commodities para sempre. Ainda mais crucial, o país criou um sério problema de custos. Mesmo levando em conta apenas a moeda local - sem incluir o impacto da impressão de dinheiro pelo Ocidente, nas chamadas "guerras cambiais" - o custo da mão de obra brasileira subiu 25% em termos reais nos últimos dez anos. Isso ameaçou a indústria local e causou uma disputa comercial protecionista inconveniente com o México, o que fez a integração regional regredir. Os brasileiros podem ter um otimismo inato, como disse Slim. Tudo isso, no entanto, deixa o Brasil parecendo temeroso e o México, bastante confiante.

Essa reversão parcial da sorte relativa obscureceu algo do brilho brasileiro. Autoridades mexicanas ciumentas não franzem mais o cenho quando ouvem falar do país que começa com "B" como costumavam fazer. Ainda assim, o Brasil oferece pelo menos uma lição importante. Nos últimos 17 anos gozou de uma sequência encantada de presidentes notáveis, a começar por Fernando Henrique Cardoso. Em contraste, o último presidente mexicano a mostrar liderança genuína foi Carlos Salinas - e seu mandato acabou de forma controversa em 1994. Pode ser esperar demais que Enrique Peña Nieto, de 45 anos e boa presença na TV, candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), traga uma visão estratégica no estilo brasileiro, caso vença a eleição de 1º de julho, como indicam as pesquisas de opinião pública. É verdade que Peña se comprometeu a abrir a Pemex ao capital externo e a economia a uma maior concorrência. O PRI, no entanto, passou 12 anos na oposição derrubando iniciativas similares, portanto, há dúvidas legítimas.

Com o tamanho do Brasil, é improvável que o país volte a ceder a liderança na América Latina. Ainda assim, pensando no longo prazo, as perspectivas para o México podem ser bem mais favoráveis do que muitos - como os mexicanos melancólicos descritos por Slim - acreditam. (Tradução de Sabino Ahumada)



John Paul Rathbone, é editor de América Latina do FT.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Parem-me quando ouvirem algo que gostem

Ex-BC não acredita em expansão do crédito


A redução das taxas de juros das linhas de crédito pessoal dos bancos públicos, anunciada na semana passada, não deve trazer um crescimento maior do crédito neste ano, avalia Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor de política monetária do BC e atual economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

O Banco Central espera um crescimento nas operações de crédito de 15% para este ano, inferior à expansão verificada no ano passado que foi de 19%.

Para o ex-diretor do BC, o endividamento das famílias brasileiras está muito alto, o que limita a disposição para a contratação de novas linhas de crédito. A parcela da renda mensal dos brasileiros comprometida com o pagamento de dívidas atingiu em dezembro 22,3%, maior percentual para o mês desde 2005, segundo o último dado do BC.

A iniciativa do governo para pressionar os bancos privados a reduzirem os custos dos empréstimos é mais uma das medidas utilizadas para incentivar o crescimento da economia e uma forma de não ter que ampliar a redução da taxa básica de juros. O BC já sinalizou um piso para a queda da taxa Selic neste ano, atualmente em 9,75%, que deve ficar ligeiramente acima da mínima histórica de 8,75%.

Apesar da queda da Selic, o spread bancário, que representa a diferença entre a taxa que os bancos captam e a repassada nos empréstimos, aumentou do final do ano passado para fevereiro, passando de 17,9% para 18,8% ao ano no caso de pessoa jurídica, e de 33,7% para 35,8% para pessoa física. A inadimplência referente às operações com pessoa física também cresceu, mas em patamar menor, indo de 7,4% para 7,6%. "Com a Selic caindo, as taxas de juros finais têm de cair e rápido. É um absurdo os juros finais crescerem nesse cenário", afirma Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Ciesp.

Em 2008, com o agravamento da crise financeira nos Estados Unidos, o governo ampliou a concessão de crédito dos bancos públicos e implementou um programa de liberação dos depósitos recolhidos pelos bancos junto ao BC (o recolhimento compulsório). Freitas destaca, no entanto, que a liberação do depósito compulsório não tem grande efeito no estímulo à economia. "Só resolveria se fosse condicionada ao aumento da concessão em determinadas linhas de crédito. Caso contrário, os bancos vão investir os recursos em títulos públicos", avalia.

O diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, afirma que, embora não seja condição para a queda do spread, algumas medidas do governo poderiam favorecer esse processo, como a eliminação da tributação sobre o financiamento ao investimento e a liberação de compulsório não remunerado nos desembolsos de recursos direcionados exclusivamente a linhas de investimento remuneradas pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP).

Estudo da Fiesp mostra que a participação do spread bancário no custo das operações de capital de giro passou de R$ 28,5 bilhões em 2007 para R$ 43,59 bilhões em setembro de 2011. O capital de giro representava em 2011, segundo a Fiesp, 7,5% do preço dos produtos industrializados, superior à média de um grupo de países formado por Chile, Itália, Japão, Malásia e Noruega, para o qual essa participação era de 1,97%. Na avaliação de Freitas, da CNC, os bancos brasileiros estão pouco alavancados e teriam espaço para ampliar as concessões de crédito.

Os bancos exigem do governo a adoção de uma série de medidas que poderiam reduzir os custos dos empréstimos, como redução de tributos e maiores garantias nas operações bancárias.

Segundo o ex-diretor do BC, os bancos privados devem seguir o movimento das instituições financeiras públicas se não quiserem perder fatia de mercado. O economista não vê, no entanto, risco de uma elevação das taxas de inadimplência nessas instituições financeiras.

Baixa do dólar é limitada por intervenções


Coerente com a tendência que se estabeleceu desde o início da semana, o mercado local segue correlacionado com o que acontece lá fora. Como a quinta-feira foi dia de vender dólar e correr para o risco nos principais mercados, por aqui, não foi diferente.

No entanto, o movimento de baixa foi limitado pelas atuações do Banco Central (BC). A autoridade monetária fez duas compras à vista, algo que não acontecia desde o dia 15 de março.

Com isso, a queda do dólar comercial ficou limitada a 0,27%, para R$ 1,83, depois de uma mínima intradia de R$ 1,823.
 
No mercado futuro, a baixa foi de 0,51%, com o contrato para maio valendo R$ 1,834, antes do ajuste final de posições.

O giro estimado para o interbancário ficou em US$ 2,2 bilhões, cifra elevada e que dá respaldo à percepção de que o dia contou com firme entrada de recursos externos pela conta financeira.

No câmbio externo, no entanto, as variações foram mais expressivas. O rand sul-africano, o dólar australiano, o dólar canadense e o peso mexicano ganharam entre 0,80% a 1,5% sobre a moeda americana.

O Dollar Index, que mede o desempenho da divisa americana ante uma cesta de moedas, caiu 0,52%, a 79,32 pontos. Enquanto o euro subiu 0,60%, a US$ 1,318.

O mercado parece funcionar na lógica do "quanto pior melhor", já que os sinais de menor crescimento econômico nos Estados Unidos e os renovados problemas com o custo das dívidas soberanas europeias aumentaram a perspectiva de mais medidas de estímulo por parte das autoridades monetária.

Outra história que circulou pelas mesas de operações foi a de que o Produto Interno Bruto (PIB) da China poderia surpreender para cima.

Segundo um economista, o mercado está em modo "bipolar". Alterna pessimismo extremo e euforia em questão de dias (quando não no mesmo pregão), quase sempre sem base em fundamentos, mas sim em expectativas e dados de alta frequência. Para esse especialista, esse tipo de comportamento denota a total falta de previsibilidade sobre o rumo da economia mundial.

No mercado de juros futuros, as taxas voltaram a cair depois do suspiro de alta da quarta-feira. A tese de Selic abaixo de 9% ganhou novo fôlego com as informações da jornalista Claudia Safatle publicadas na edição de quinta-feira do Valor.

De acordo com o texto, a surpresa positiva com o comportamento da inflação pode levar o BC a fazer uma parada não muito longa no movimento de baixa dos juros e, então, retomar o corte da taxa básica.

No mercado a visão é que a fórmula de rendimento da poupança é uma barreira à queda mais pronunciada da Selic.

O ponto interessante levantado pelo texto é que esse "limite" de baixa poderia estar abaixo dos 9%. "Para fontes oficiais, porém, essa não é uma métrica rigorosa. Os administradores de fundos de investimento ainda teriam margem para cortar as taxas de administração, avaliam. Mas só farão isso se sentirem 'um calor'", diz o texto.

Vale lembrar que, na segunda-feira, a Febraban divulgou estudo apontando que uma taxa básica de 8,75% já poderia promover um esvaziamento dos fundos de renda fixa. Além da questão dos spreads bancários, essa discussão em torno da poupança parece ser mais um ponto de enfrentamento entre o governo e os bancos.

Investimento estrangeiro direto cresce 16,5%, a US$ 1,67 tri


O fluxo global de investimentos estrangeiros diretos (IED) cresceu 16,5% no ano passado, para um valor estimado de US$ 1,664 trilhão, mas o movimento não se traduziu em expansão equivalente da capacidade produtiva, segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

No Brasil, a entidade destacou entrada de recursos atraídos pelo juro mais alto, inclusive de afiliadas de companhias brasileiras no exterior.

A cifra global registrada em 2011 - que superou o nível pré-crise mas ainda está 25% abaixo do pico alcançado em 2007 - foi obtida em grande parte por aquisições no exterior e aumento das reservas em dinheiro mantidas em afiliadas localizados com outros países - "ao invés do tão necessário investimento em novos ativos produtivos por meio de projetos novos ("greenfield") ou gastos com afiliadas já existentes".

O fluxo originado apenas nos países em desenvolvimento caiu 7% e, como resultado, a participação dessas economias no IED global recuou de 31% em 2010 para 26% - mas ainda ficou no segundo maior nível já registrado. "A expansão do fluxo de IED a partir de economias em desenvolvimento visto nos últimos anos parece ter perdido ímpeto em 2011 devido a declínios significativos no IED gerado na região de América Latina e Caribe e uma desaceleração no crescimento referente aos países em desenvolvimento da Ásia", destacou a Unctad em relatório.

Somente América Latina e Caribe foram responsáveis por uma queda de 29% na geração de IED no ano passado, após forte avanço, de 82%, em 2010. No caso do Brasil, especificamente, houve um salto nas provisões e pagamento de empréstimos por afiliadas brasileiras no exterior para as matrizes no Brasil que levou os empréstimos intercompanhia para um recorde negativo de US$ 21 bilhões - ou seja, houve entrada de recursos acima das saídas nesse quesito.

"Isso pode ser explicado, em parte, pela busca de maneiras para aportar capital no ambiente de juro elevado do Brasil sem ter que pagar imposto sobre transações estrangeiras", diz o relatório da entidade, referindo-se ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) - utilizado em diversos momentos pelo governo para brecar a entrada de recursos no Brasil e evitar a valorização da moeda brasileira.

Considerando apenas as atividade de fusão e aquisição, houve uma queda de 34,6% nos dados do Brasil (para US$ 5,5 bilhões). Nos chamados projetos greenfield, o declínio foi ainda mais pronunciado, de 56,1% (para US$ 4,6 bilhões).

De acordo com relatório do Banco Central, o Brasil recebeu no ano passado o recorde de US$ 66,66 bilhões em investimento estrangeiro direto.

Mudanças na economia brasileira?



Por Armando Castelar Pinheiro - Valor 13/04

Francisco Lopes comentou certa feita que a estabilização iniciada com o Plano Real só se completaria quando a inflação caísse para taxas próximas às de expansão do Produto Interno Bruto (PIB). Nos últimos 15 anos, porém, o PIB cresceu em média 2,8% ao ano, contra alta média anual de 6,6% dos preços. Esses números se comparam, respectivamente, às taxas de 2,4% e 2,5% nos EUA e de 1,7% e 1,9% na área do euro. Nossa estabilização está, portanto, incompleta.

Desde o Plano Real, 2006-08 foi o único triênio em que o PIB subiu mais que os preços. Já em 2009, porém, as duas taxas começaram outra vez a divergir, com altas médias de preços e do PIB de 5,6% e 3,3%, respectivamente, em 2009-11. Em 2011, os preços ao consumidor aumentaram mais do que o dobro do PIB.

Essa dinâmica reflete fatos conhecidos sobre nossa economia. Primeiro, o PIB passou a crescer acima do seu potencial, como revelam a queda do desemprego, o aumento do déficit em conta corrente - a despeito da evolução favorável dos termos de troca - e, mais recentemente, a inflação sistematicamente acima da meta, o que, por si só, já é alta para padrões internacionais. Segundo, que o crescimento foi amplamente liderado pela demanda doméstica, com expansão de 5,2% ao ano em 2005-11.

Terceiro, que o desempenho setorial foi muito heterogêneo. Assim, a expansão foi puxada pelo comércio e pela intermediação financeira, responsáveis por 34% do crescimento do PIB nos últimos sete anos, apesar de só responderem por 17% do PIB em 2004. A construção teve uma influência semelhante, ainda que menor. Se esses três setores tivessem crescido à mesma taxa que os demais, o PIB (a preços básicos) teria se expandido 3% ao ano, em vez dos 3,7% observados.
Uma contrapartida da forte expansão desses três setores foi o fraco desempenho da indústria de transformação: apesar de responder por 19% do PIB em 2004, ela contribuiu com apenas 8% da expansão do nível de atividade em 2005-11.

Uma consequência (e causa) desse padrão de crescimento foi a alta do emprego. Em 2004, foram necessários 34 trabalhadores para gerar um milhão de reais de PIB na indústria de transformação; na média dos três setores mais dinâmicos, essa relação foi de 57 trabalhadores por milhão de reais de PIB. A expansão em 2005-11 foi, portanto, intensiva em trabalho. Isso ajuda a explicar, junto com o aumento do salário mínimo, a alta real de 3,4% ao ano no rendimento médio, assim como por que o mercado de trabalho continua pujante.

Assim, uma interpretação dos anos 2005-11 é a seguinte: por diversos fatores, com destaque para reformas institucionais e a forte entrada de capitais externos, houve acentuada expansão no crédito às pessoas físicas (14% ao ano acima da inflação), que puxou os setores de instituições financeiras, comércio e construção. Isso gerou forte alta no emprego, pois são setores trabalho-intensivos, e nos rendimentos, o que, junto com a apreciação cambial, diminuiu a competitividade da indústria de transformação.

Com a demanda crescendo mais que a oferta, o hiato foi fechado por importações em setores em que o Brasil é pouco competitivo - leia-se, indústria de transformação. Com isso, esta cresceu pouco e perdeu participação no PIB.

Um efeito colateral foi que a inflação passou a ser mais influenciada pelo que acontece no mercado de trabalho do que no de bens, em que a importação, o real apreciado e a lenta expansão da indústria de transformação limitam a alta dos preços. Assim, nos últimos 48 meses, a inflação de itens não comercializáveis internacionalmente (por exemplo, serviços) foi em média de 7,1% ao ano, contra 5% para os bens comercializáveis, como produtos manufaturados.

O governo vem tentando estimular a demanda doméstica reduzindo a Selic e os spreads bancários nos bancos públicos, assim como ampliando o crédito público e isentando de impostos artigos de consumo. Além disso, elevou barreiras às importações e promoveu a desvalorização do real, na expectativa de que a demanda se dirija ao produto nacional. Por outro lado, espera uma queda da inflação para 4,5%, dois pontos percentuais a menos que em 2011.

Será possível obter simultaneamente mais crescimento, com diferente perfil setorial e menos inflação? Sim, mas há riscos. Em especial, o estímulo à demanda pode gerar mais inflação e pouca alta do PIB, se este não mudar de composição. Isso pode ocorrer, por exemplo, se as famílias estiverem pouco dispostas a adquirir bens de consumo duráveis, devido ao elevado endividamento e alguma saturação de compra, enquanto o desemprego reduzido pode fazer com que a alta da demanda por não comercializáveis vire inflação, em vez de mais oferta. Por outro lado, é possível que os estímulos à demanda gerem pouco resultado, caso a redução dos spreads leve a uma contração na oferta de crédito, já premida pela alta na inadimplência.

De um jeito ou de outro, o modelo brasileiro está mudando. Se na direção de completar a estabilização ou não, só saberemos mais à frente.



Armando Castelar Pinheiro é coordenador de Economia Aplicada do IBRE/FGV e professor do IE/UFRJ.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Devolvendo o Gini à garrafa - Paul Krugman - Estadao.com.br

Será que a política econômica é capaz de transformar a desigualdade? Em especial, será que os governos são capazes de reduzir a desigualdade sem assassinar a economia? Como parte da preparação para um curso, tenho analisado uma história que, ao que me parece, tem sido pouquíssimo debatida nos Estados Unidos, mas é no mínimo muito interessante: o notável declínio na desigualdade ocorrido na América Latina.

Espere aí – os países latino-americanos não são extremamente desiguais? Sim, eles – ainda – são. Mas esta desigualdade é hoje muito menos gritante do que já foi. Politicamente, a região avançou para a esquerda perto do ano 2000, voltando parcialmente as costas para o Consenso de Washington – e houve uma reversão dramática nas tendências que regem a desigualdade:



Devolvendo o Gini à garrafa - Paul Krugman - Estadao.com.br

O capitalismo vai sobreviver. Mais uma vez




Autor : Maílson da Nóbrega

Veja - 02/04/2012

A atual crise do sistema capitalista animou a esquerda velha e os que ainda sonham com a ordem socialista. Vai fracassar desta vez? Muitos reivindicaram o retomo de carcomidos tipos de intervenção do estado na economia. Os que esfregam as mãos na expectativa de assistir ao colapso do capitalismo vão se decepcionar. O capitalismo já demonstrou capacidade extraordinária de se renovar e de sobreviver a crises e aos seus críticos desde Karl Marx (1818-1883). Nada o supera na capacidade de mobilizar as energias da sociedade em prol do desenvolvimento e da geração de bem-estar. Todos os países ricos são capitalistas.

Marx escreveu com Friedrich Engels (1820-1895) uma das mais brilhantes análises da evolução do sistema de mercado, que é a expressão sinônima de capitalismo. Seu Manifesto Comunista (1848) começa afirmando que a história das sociedades até então existentes era "a história da luta de classes", que se tornaria o mote do marxismo. A burguesia - que havia posto fim ao feudalismo - daria lugar à classe do proletariado como fonte de poder. O comunismo substituiria o capitalismo. Grande ironia, o comunismo sucumbiu à superioridade do capitalismo.

O comunismo viabilizou dois inéditos experimentos econômicos controlados: nas duas Alemanhas e nas duas Coreias. Em cada um dos grupos havia a mesma cultura, a mesma língua, a mesma história e o mesmo sistema de valores, mas a prosperidade foi privilégio de quem adotou o capitalismo: a Alemanha Ocidental e a Coreia do Sul.

O capitalismo, que deve seu nome à obra essencial de Marx, O Capital, mostrou que é a melhor forma de organização econômica. Suas primeiras manifestações teriam aparecido por volta de 6000 anos antes de Cristo, na Mesopotâmia. O advento da especialização e das trocas 4000 anos antes, na era neolítica, teria sido seu impulso inicial. Os comerciantes expulsos do templo por Jesus Cristo praticavam uma forma primitiva de capitalismo.

O moderno capitalismo começou a se enraizar com o Iluminismo, entre os séculos XVII e XVIII, na esteira da evolução da ciência, do comércio internacional. do sistema financeiro e das instituições que garantem direitos de propriedade e respeito aos contratos. Os avanços da tecnologia e das inovações nesses dois séculos forjaram as bases da Revolução Industrial. Novidade: o desenvolvimento podia ser construído com políticas públicas geradoras do ambiente institucional propício ao florescimento capitalista.

Adam Smith (1723-1790) evidenciou o papel do mercado, o qual, guiado por uma mão invisível, coordenava inúmeros interesses em favor do bem comum. Desde então, o capitalismo se renovou ao longo de crises e de mutações da realidade. Bancos centrais foram criados para regular o sistema financeiro e lidar com crises bancárias. Leis antitruste surgiram nos Estados Unidos para coibir o domínio dos mercados por monopólios e oligopólios. O advento da energia elétrica e das telecomunicações exigiu a ação regulatória do estado. Os sindicatos combateram os abusos do capitalismo e asseguraram aos trabalhadores parte substancial dos ganhos de produtividade. Na segunda metade do século XX, vieram os programas sociais para combater a tendência à concentração de renda inerente ao capitalismo.

A crise financeira global, como todas as anteriores, nasceu essencialmente de falhas de regulação, da assunção irresponsável de riscos pelo sistema financeiro e de políticas públicas equivocadas. Tal como antes, euforias típicas de períodos de prosperidade contribuíram para a leniência diante dos riscos e para o desastre.

Desde Adam Smith, o capitalismo se reinventou. Não será diferente desta vez. Os desafios incluem a reforma dos marcos regulatórios e ações para reverter a concentração de renda de alguns países ricos. Dificilmente a renovação virá sob a forma do capitalismo de estado da China e de países emergentes ou do capitalismo de compadres, que se nutre da escolha de vencedores pela burocracia e da concessão de benefícios aos amigos do rei.

As vantagens do capitalismo superam largamente os seus defeitos. Nenhum outro regime econômico será capaz de substituí-lo com sucesso. Está provado.

Educação e trabalho



Por Marcio Pochmann - Valor 12/04

A partir do último quartel do século XX, com alterações significativas no conteúdo e nas condições de produção e gestão em rede das empresas, novos requisitos à formação para o trabalho foram introduzidos, cada vez mais distantes do tradicional sistema de educação e formação profissional herdado da sociedade urbano-industrial. O avanço da economia de serviços, assentada na disseminação do trabalho imaterial, exige uma profunda transformação no atual sistema de formação para que o ensino superior seja universalizado e a educação se torne um ativo para a vida toda.

Ao contrário do problema do analfabetismo rudimentar reinante nos séculos XIX e XX, tem destaque atual o analfabetismo funcional, imposto pela mudança técnica e informacional. Nesse sentido, expandem-se as ocupações que utilizam maior informação e exigem o exercício de atividades multifuncionais, geralmente aquelas sustentadas pelas exigências de maior escolaridade e qualificação profissional ao longo da vida laboral.

Isso, por si só, não corresponde, necessariamente, à garantia da elevação do nível geral de emprego, nem mesmo à melhor qualidade das condições de trabalho. A inserção nacional na Divisão Internacional do Trabalho determina cada vez mais a estrutura do sistema produtivo que exerce, por sua vez, pressão interna sobre o nível quantitativo e qualitativo das ocupações.

No caso da distribuição ocupacional nas economias capitalistas percebe-se a trajetória de longa duração iniciada com a transição das ocupações no setor primário (agropecuário) para os empregos na manufatura até atingir, mais recentemente, o trabalho generalizado no setor terciário. Com o movimento de redução relativa do emprego no setor industrial, ganha cada vez maior destaque as ocupações nos serviços.

Mesmo o intenso crescimento do setor terciário não tem sido suficiente para compensar a queda na participação relativa das ocupações nos setores industrial e agropecuário, o que faz presente o excedente da força de trabalho expresso pelo desemprego. Neste contexto, a reorganização em curso do trabalho material para o imaterial pressupõe uma profunda reflexão a respeito da formação profissional ao longo do século XXI. Com os avanços da nova economia da tecnologia, os sistemas de formação educacional e formativos para o exercício do trabalho heterônomo herdados da sociedade urbano-industrial tornam-se cada vez mais antiquados.

Por força do avanço do trabalho imaterial, a condição de trabalho pressupõe cada vez mais a alteração profunda do ciclo de vida e de estudo. Isso porque as condições tradicionais de coesão social encontram-se fraturadas, com padrão familiar fortemente superado por arranjos monoparentais e a extensão do individualismo sobrepondo a sociabilidade mecânica.

Na sociedade pós-industrial, o conhecimento torna-se estratégico na inserção e configuração das novas trajetórias ocupacionais portadoras de maior articulação da vida com o estudo e trabalho. Sobre o resgate da formação profissional não cabe partir da mera reprodução do passado, mas de sua reinvenção nos termos necessários à reorganização da vida e trabalho em plano superior ao atualmente existente.

Com isso, a educação deixa de ser algo centrado nas fases precoces da vida (crianças, adolescente, jovens e alguns poucos adultos), como no passado, para ser algo necessário ao longo da vida. Ao invés da separação do tempo de inatividade com o tempo de trabalho presente na sociedade urbano-industrial, chega-se cada vez mais à transição do tempo da inatividade com a atividade pelo trabalho imanente do conhecimento.

Para haver educação comprometida com o ciclo completo da vida (infância, adulto e velhice), cuja expectativa aproxima-se dos 100 anos de idade, os sistemas de formação profissional precisam incorporar cada vez mais os pressupostos do diálogo desenvolvidos pelo conjunto dos atores sociais. Novas formas de produção e de reorganização do trabalho não existem sustentavelmente sem uma base recorrente de educação e formação profissional.
O resgate da educação e da formação profissional deve compreender o saber como elemento central do rearranjo básico entre os atores sociais, como a postergação do ingresso no mercado de trabalho e a conexão alongada da qualificação educacional para os segmentos populacionais envelhecidos. Sem isso, o processo de metamorfose no trabalho tende a obstaculizar as possibilidades de universalização das oportunidades da sociedade fundadas no conhecimento.

Na atual transição do sistema de formação para o trabalho da sociedade urbano-industrial para pós-industrial, o entendimento entre os atores sociais relevantes torna-se a condição necessária para maior eficiência alocativa dos meios de produção regulados pelo Estado. Da mesma forma, reveste-se de extrema importância a possibilidade de compartilhar os novos ganhos de produtividade com patamar de civilidade superior ao do século XX.

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Produção de petróleo fica acima de 2,2 milhões de barris/dia pelo terceiro mês consecutivo



Fonte: Assessoria de Imprensa da ANP - (21) 2112-8333 - imprensa@anp.gov.br


A produção de petróleo no Brasil em fevereiro foi de aproximadamente 2,205 milhões de barris/dia (bbl/d), permanecendo, pelo terceiro mês consecutivo, acima de 2,2 milhões de bbl/d. Houve aumento de aproximadamente 6,9% na produção de petróleo em comparação com o mesmo mês em 2011 e redução em torno de 1,1% em relação ao mês anterior. A produção de gás natural no Brasil ficou em torno de 67 milhões de metros cúbicos/dia (m³/d), um aumento de aproximadamente 6,8% frente ao mesmo mês em 2011 e redução de aproximadamente 5,7%, se comparada a janeiro deste ano.

Mais de 90% (91,7%) da produção de petróleo e gás natural é proveniente de campos operados pela Petrobras. Desde junho do ano passado, a produção de petróleo das demais empresas concessionárias se mantém acima de 200 mil bbl/d. Em fevereiro, foi de aproximadamente 207 mil bbl/d. Em torno de 91,9% da produção de petróleo e 76% da produção de gás natural do Brasil foram extraídos de campos marítimos.

O campo de Marlim Sul foi o de maior produção de petróleo e também de gás natural, com uma média de 352,8 mil barris de óleo equivalente/dia (boe/d). Dois campos iniciaram a produção antecipada neste mês em função das declarações de comercialidade: Baúna, com aproximadamente 16,9 mil boe/d, e Piracaba, com em torno de 9,1 mil boe/d,concessões localizadas na bacia de Santos, 100% pela Petrobras.

Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, três são operados por empresas estrangeiras: Frade/Chevron (11º lugar), Peregrino/Statoil (12º), e Ostra/Shell (15º). Os três campos terrestres com maior produção de petróleo e gás natural, em barris de óleo equivalente, foram Leste do Urucu, Rio Urucu e Carmópolis, respectivamente.

Quatro poços terrestres estão na relação dos 30 com maior produção de gás natural, sendo dois do campo de Rio Urucu e dois do campo de Leste do Urucu.

Queima de gás

Houve redução de 31,9% na queima de gás em fevereiro (aproximadamente 3,3 milhões de m³/d) se comparada ao mesmo mês em 2011 e de aproximadamente 26,8% em relação ao mês anterior. Os principais motivos para a redução da queima de gás natural foram a interrupção do TLD-BM-S-9 durante o mês de fevereiro e a redução da queima de gás natural em Marlim Sul, em função do período final das atividades de comissionamento da P-56.

Do total de gás natural queimado, 95,4% é oriundo de campos produtores e 4,6% de testes de longa duração (TLDs) de áreas na Fase de Exploração. Considerando os campos produtores, o aproveitamento de gás natural no mês foi de 95,3%.

Pré-sal

A produção do pré-sal foi de 117,9 mil bbl/d de petróleo e 3,7 milhões de m³/d de gás natural, totalizando 141,5 mil boe/d, uma redução de 22,5% em relação ao mês passado. Principal motivo para a redução foi a parada de produção do poço 3BRSA861SPS (TLD-BMS-9) devido ao acidente ocorrido na plataforma FPSO Dynamic Producer, no final de janeiro de 2012.

A produção foi oriunda de nove poços: 6BRSA639ESS em Jubarte, 9BRSA716RJS, 4BRSA711RJS, 3BRSA496RJS e 9BRSA908DRJS em Lula, 6BRSA806RJS em Caratinga e Barracuda, 6BRSA817RJS em Marlim Leste, 6BRSA770DRJS em Marlim e Voador, e 3BRSA861SPS no TLD-BM-S-9 (Carioca Nordeste). Dos nove poços produtores de reservatórios do pré-sal, seis estão entre os 30 com maior produção total, em barris de óleo equivalente. No campo de Lula, três dos quatro poços atualmente produzindo figuram na lista dos 30 maiores produtores. A P-57, localizada no campo de Jubarte, produziu através de 11 poços a ela interligados cerca de 154,5 mil boe/d e foi a plataforma com maior produção.

Bacias maduras

A produção das bacias maduras terrestres (campos/TLDs das Bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 175,7 mil boe/d, sendo 144,9 mil bbl/d de petróleo e 4,9 milhões de m³/d de gás natural. Deste total, 3,1 mil boe/d foram produzidos por concessões não operadas pela Petrobras, sendo 416,1 boe/d em Alagoas, 894,8 boe/d na Bahia, 3,0 boe/d no Espírito Santo, 1.512,6 boe/d no Rio Grande do Norte e 248,9 boe/d em Sergipe.

Os campos com acumulações marginais produziram ao todo 129,3 bbl/d de petróleo e 33,9 mil m³/d de gás natural. Dentre esses campos, Bom Lugar, operado pela Alvorada, foi o maior produtor de petróleo, com 47,0 bbl/d, e Morro do Barro, operado pela Panergy, foi o maior produtor de gás natural, com 31,4 mil m³/d.

O grau API médio do petróleo produzido no mês foi de aproximadamente 23,5°, sendo que 8% da produção é considerada óleo leve (>=31°API), 54% é óleo médio (>=22°API e <31°API) e 38% é óleo pesado (<22°API) (classificação de acordo com a Portaria ANP nº 09/2000).

A produção de petróleo e gás natural no Brasil foi oriunda de 9.008 poços. O campo com o maior número de poços produtores foi Canto do Amaro, Bacia Potiguar, com 1.113 poços.



tv on line

DILMA ENCERRA VISITA AOS EUA COM ACORDOS SOBRE CIÊNCIA E TECNOLOGIA TEMPO: 00:04:10



A presidente terminou a visita de dois dias com acordos importantes na área de ciência e tecnologia. Assinou um convênio com o MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachussets, um dos maiores centros de pesquisa do mundo. E respondeu perguntas sobre a corrupção no Brasil.

Em comentário ao Bom Dia Brasil, Miriam Leitão falou sobre o assunto.

*DILMA ROUSSEFF, presidente do Brasil;

*MIRIAM LEITÃO, comentarista.

TV: TV GLOBO DF
PROGRAMA: BOM DIA BRASIL
APRESENTADOR: CHICO PINHEIRO


GOVERNO PEDE MUTIRÃO AOS BANCOS PARA QUEDA DE JUROS E OUVE COBRANÇAS TEMPO: 00:04:40


Quem já precisou de um empréstimo ou caiu no cheque especial, sabe como são altos os juros cobrados pelos bancos. O assunto foi discutido nessa terça-feira em Brasília.O governo pediu um mutirão pela queda dos juros e ouviu dos bancos uma série de cobranças.
Os bancos privados até topam cortar os juros, mas em troca, entre outras coisas, querem menos impostos. Todos os pedidos foram entregues ao governo, são mais de 20 propostas. A discussão está só começando. Enquanto isso, os juros continuam altos

Em comentário ao Bom Dia Brasil, Miriam Leitão falou sobre o assunto.

SONORA:

*MURILO PORTUGAL, presidente da Febraban;

*ROBERTO PESCITELLI, economista - UnB;

*MIRIAM LEITÃO, comentarista.

TV: TV GLOBO DF
PROGRAMA: BOM DIA BRASIL
APRESENTADOR: CHICO PINHEIRO



SETOR BANCÁRIO LIDERA LUCROS NO BRASIL EM 2011 TEMPO: 00:01:37



O setor bancário, representado por 25 bancos, foi o que registrou o maior volume de lucro entre as empresas de capital aberto em 2011 no Brasil, de acordo com levantamento da consultoria Economatica, divulgado nesta terça-feira. O setor de energia elétrica ficou em segundo lugar com ganho de R$ 17,5 bilhões em 2011, uma alta de 2,5%.

TV: BAND NEWS
PROGRAMA: BAND NEWS NOITE
APRESENTADOR: CAROLINE NOGUEIRA


RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS


Entrevista com Tombini à Globo News em 09/04

Dilma diz que indústria sofre, mas...


Valor 11/04
A presidente Dilma Rousseff rejeitou ontem o protecionismo econômico como receita para o Brasil preservar a indústria nacional, em um discurso na prestigiada Universidade de Harvard, num momento em que crescem acusações de que o país impõe barreiras contra a concorrência de internacional. "Temos uma indústria complexa que sofre no momento atual, mas que sobreviverá", disse Dilma. Para ela, o eventual fechamento do mercado às importações não contribuiria em nada para o aumento da competitividade do país. "Pelo contrário", afirmou.

Respondendo a perguntas de uma plateia sobretudo de estudantes, Dilma evitou criticar o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e teve que responder sobre direitos humanos. Para ela, há uma politização do tema para acusar determinados países. "Não tenho como impedir o que acontece em todas as delegacias do Brasil", disse. "Sei o que acontece em Guantánamo." Ela defendeu a discussão do tema de forma multilateral, em todos os países. Dilma tem sido criticada pela suposta suavidade com que trata acusações de direitos humanos em países como Cuba.

Ela fez a defesa da política econômica brasileira um dia depois de, em declaração ao lado do presidente americano, Barack Obama, ter acusado os países desenvolvidos de adotarem políticas monetárias e cambiais que prejudicam o crescimento dos emergentes. Ela encerrou ontem uma visita oficial de dois dias aos Estados Unidos

Em Harvard, Dilma disse que países desenvolvidos superavitários e que detêm a confiança dos mercados se abstêm de promover expansões fiscais e fazem uso excessivo de políticas monetárias para expandir suas economias. Isso, afirmou, cria "uma forma de concorrência via desvalorização das moedas que afeta e produz graves problemas na indústria."

O Brasil vem sendo criticado no exterior por adotar algumas medidas de proteção, incluindo o aumento da tarifa de importação sobre automóveis para empresas que não têm fábricas no país. Os Estados Unidos se queixam da exigência de conteúdo nacional na exploração de petróleo.

Um assessor da presidência da República informou que Dilma convidou ontem uma das mais prestigiados institutos de ensino e pesquisa dos Estados Unidos, o Massachusetts Institute of Technology (MIT), a instalar uma unidade no Brasil, como parte de um esforço maior do governo para vencer alguns dos principais gargalos ao crescimento do país, os baixos investimentos em inovação e a falta de mão de obra especializada.

O ministro da Educação, Aloizio Mercandante, foi mais além e disse que o MIT já teria se comprometido a instalar uma unidade no país. Um porta-voz da universidade, porém, disse que "o MIT não estabelece filiais de seus campus no exterior". Ontem, Dilma se reuniu com a reitora do MIT, Susan Hockfield, nos segundo e último dia de sua visita oficial aos Estados Unidos. Durante a visita, foi assinado um memorando entre o MIT e o Instituto Tecnológico da Aeronaútica (ITA) que poderá incluir a colaboração em pesquisas aeroespaciais. Um assessor próximo de Dilma disse que, na ocasião, ela convidou o MIT a se instalar no país.

O diagnóstico do governo é que, sem investimentos em educação, pesquisa e tecnologia, será difícil o país sustentar altas taxas de crescimento econômico. A participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) caiu a 14,6% em 2011, bem abaixo do pico de 27,2% observado em 1985, em parte devido ao fracos ganhos de produtividade. O crescimento econômico tem pressionado o mercado de trabalho, incluindo setores mais especializados, como engenharia.

O governo pretende investir US$ 3,2 bilhões em bolsas de estudos para levar 75 mil estudantes brasileiros a estudar no exterior, dentro de um programa conhecido como "Ciência sem Fronteiras". Até agora, foram selecionados 15 mil bolsistas.

SÃO PAULO - O investimento em máquinas e equipamentos começou 2012 em queda. O consumo aparente de bens de capital encolheu 13,7% no primeiro bimestre deste ano na comparação com igual período do ano passado. O tombo da produção nacional (descontada a exportação) somada à importação no setor é o maior nessa base desde 1999, segundo cálculos do Itaú Unibanco, com exceção de 2009, ano em que a crise atingiu em cheio a demanda por máquinas e equipamentos e a absorção doméstica desses itens caiu 24% no acumulado de janeiro e fevereiro sobre o início de 2008.

Consumo interno de máquinas recua 13% no 1º bimestre



A capacidade ociosa da indústria, na visão de Aurélio Bicalho, economista do Itaú que fez os cálculos a pedido do Valor, ainda está elevada e desestimula investimentos para ampliar a oferta de bens manufaturados. Como uma fatia importante do investimento é determinada pela atividade industrial, a perspectiva é de recuperação lenta, mais visível a partir do segundo semestre. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), a média do Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) na indústria alcançou 83,7% no primeiro trimestre do ano, acima da média do quarto trimestre de 2011, mas ainda inferior à media dos três trimestres anteriores.

Para Bicalho, a forte retração, contudo, não deve ser vista como tendência para o ano. O resultado negativo está contaminado pela entrada em vigor das novas normas de emissão de poluentes para caminhões, que antecipou a fabricação de veículos pesados no ano passado e a paralisou em janeiro. No primeiro bimestre, a produção de bens de capital equipamentos de transporte - categoria onde se encaixam os caminhões - caiu 23,2% sobre o mesmo período de 2011, enquanto, na média, a indústria de bens de capital produziu 14,6% menos nessa comparação, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sem uma queda tão forte na produção de caminhões, o recuo no consumo interno de bens de capital seria menor. Se os equipamentos de transporte tivessem mostrado o crescimento médio dos últimos quatro meses de 2011 em janeiro e fevereiro, calcula Bicalho, o consumo aparente de máquinas teria caído 5,3% na comparação entre o primeiro bimestre de 2011 e o de 2012. O tombo seria menos drástico, mas não impediria um novo desempenho pífio do investimento dentro do Produto Interno Bruto (PIB) neste primeiro trimestre, na sua avaliação.

"É um quadro parecido com o que temos visto nos últimos trimestres", diz, referindo-se ao recuo de 0,4% da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e construção civil) entre o terceiro e o quarto trimestre do ano passado, feitos os ajustes sazonais, e ao fraco crescimento de 0,2% no último trimestre de 2011.

Levando em conta o comportamento sofrível da produção de bens de capital no primeiro bimestre, Bicalho não descarta que a formação bruta de capital fixo registre queda no primeiro trimestre do ano em relação ao trimestre anterior na série dessazonalizada. Essa possibilidade reforça a análise do Itaú de que a economia irá deslanchar apenas a partir da segunda metade do ano, com ritmo mais rápido do investimento. Na avaliação dos economistas, quando a economia recuperar fôlego as recentes medidas adotadas pelo governo para acelerar o investimento, como a redução de juros nos programas do BNDES, surtirão mais efeito.

As estimativas do Itaú sobre o consumo aparente de máquinas também incluem uma maior venda da produção local ao exterior neste começo de ano. A exportação de bens de capital, segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), aumentou 23,9% em volume no primeiro bimestre frente igual período de 2011, número considerado forte por Rodrigo Branco, economista da Funcex.

Ele destaca que o desempenho das vendas externas não é uniforme entre os segmentos analisados. Enquanto o volume de exportação de outros equipamentos de transporte - que inclui maquinário agrícola - saltou 83,5% entre o primeiro bimestre de 2011 e igual período de 2012, as vendas de máquinas, aparelhos e materiais elétricos aumentou apenas 5,3% em igual período. "A Argentina é um grande produtor de bens agrícolas e importa muitas máquinas brasileiras", explica Branco, para quem a exportação expressiva desses bens é tendência.

Para Bicalho, o número alto do primeiro bimestre se deu em cima de uma base de comparação fraca e não sinaliza desempenho acima do normal para a exportação de máquinas, já que as vendas externas desses bens, na verdade, estão apenas voltando ao seu nível pré-crise. "Ainda não vejo uma recuperação muito forte", diz, ressaltando que o volume exportado de bens de capital no primeiro bimestre foi 21% menor do que no mesmo período de 2008.

Segundo o economista da Funcex, não é possível concluir que a produção se voltou para o exterior após enfraquecimento do consumo doméstico, já que, no primeiro bimestre do ano, a importação de bens de capital continuou crescendo. De acordo com a Funcex, a alta foi de 8,8% em relação ao primeiro bimestre de 2011. "A variação foi positiva, mas insuficiente para evitar a fraqueza nos dados de produção, que acabam sendo mais relevantes para a determinação do consumo aparente", observa Bicalho.

Em março, as importações totais subiram 1,7% pela média diária sobre o mesmo mês do ano anterior em valor, enquanto as compras de bens de capital recuaram 3,2% na mesma comparação, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Para especialistas, os dados refletem uma menor confiança da indústria.

Do lado da produção, o crescimento dos setores pesquisados pelo IBGE também é divergente nos primeiros dois meses do ano. A fabricação de bens de capital agrícolas cresceu 17,4% em relação ao primeiro bimestre de 2011 e a de bens de capital para fins industriais, 4,4%, ao passo que a produção de bens para o setor de energia elétrica caiu 31,4% no período, seguida pelo segmento da construção, cuja atividade encolheu 9,2%.

Segundo Bicalho, o avanço nos primeiros dois setores indicam que a produção foi exportada. Já no ramo de maquinaria para construção civil, o economista afirma que, embora esse setor não esteja passando por desaceleração significativa, é normal os investimentos serem adiados em um cenário de incerteza global. "O investimento se ressente de forma mais intensa nesse quadro."




Por que o Bundesbank está errado



Por Martin Wolf - Valor 11/04


Quanto a região do euro avançou para resolver sua crise? A resposta otimista seria a de que conseguiu salvar-se após um ataque cardíaco, mas ainda precisará administrar um difícil período de convalescença, com boas chances de novos ataques. Também precisará adotar um regime capaz de protegê-la de crises futuras. Essa tarefa, também, está incompleta. A região do euro, contudo, ganhou tempo. A grande questão é se agora conseguirá aproveitá-lo bem.

Possivelmente, o passo crucial é chegar a um consenso sobre a natureza da doença. Nesse aspecto, há progressos sendo alcançados agora, pelo menos entre economistas. É amplamente aceito que o balanço de pagamentos é fundamental para qualquer chance de compreensão da crise atual. De fato, o balanço de pagamentos pode ser mais importante para a região do euro do que para países sem uniões monetárias. Hans-Werner Sinn, do centro de estudos CESifo, em Munique, ajudou muito a explicar ao afirmar que "a União Monetária Europeia passa por uma grave crise no balanço de pagamentos interno, que é similar à crise do Sistema Bretton Woods, nos anos prévios a seu fim". Um número especial do CESIfo Forum, publicado em janeiro de 2012, é dedicado a esse tema. Em março, o centro de estudos Bruegel, com sede em Bruxelas, publicou o estudo "Sudden stops in the euro area" (Interrupções repentinas na região do euro, em inglês). Depois, no fim de março, Jens Weidmann, presidente do Bundesbank (banco central alemão), explorou a questão em discurso em Londres sobre como "reequilibrar a Europa".

Nos anos de euforia anteriores à crise, o capital privado fluiu livremente, especialmente a países da Europa Meridional. Grécia, Portugal e Espanha tinham déficits em conta corrente de 10% ou mais do Produto Interno Bruto (PIB). Essas ondas de expansão econômica também geraram grandes perdas na competitividade externa.
Então, vieram as "interrupções repentinas" nos fluxos privados de entrada. Como destaca o estudo da Bruegel, tais paradas ocorreram durante a crise mundial de 2008 (afetando Grécia e Irlanda), no segundo trimestre de 2010 (afetando Grécia, Irlanda e Portugal) e, por fim, na segunda metade de 2011 (afetando Itália, Portugal e Espanha). Em alguns casos, o que aconteceu foi além de meras interrupções nos fluxos. A Irlanda viveu uma grande fuga de capitais. Naturalmente, quando o capital deixou de fluir para o setor privado, o nível de atividade desmoronou e a posição fiscal piorou drasticamente.

A região do euro estava despreparada para tais interrupções no financiamento entre fronteiras: pensava-se que a hipótese era impossível. Uma vez que o dinheiro parou de fluir, a região do euro deparou-se com duas alternativas: forçar o ajuste externo dos países sem acesso aos mercados ou financiá-los via fontes oficiais. Optou-se pela segunda, com o Banco Central Europeu (BCE) como fonte predominante de financiamento, em seu papel de instituição de crédito de última instância para os bancos. O BCE tornou-se o "Fundo Monetário Europeu".

Então, o que deve ser feito? Weidmann descreve o que chama de "típica posição alemã" da seguinte forma: "Os países com déficits precisam se ajustar. Eles precisam resolver seus problemas estruturais. Eles precisam reduzir a demanda doméstica. Eles precisam tornar-se mais competitivos e eles precisam aumentar suas exportações."

Qual é o papel, nesse contexto, dos países superavitários? Quanto a isso, Weidmann é claro: "Às vezes, sugere-se que o reequilíbrio deveria ser promovido 'encontrando-se na metade', ou seja, tornando países superavitários como a Alemanha menos competitivos. Essa sugestão implica que tal ajuste deveria ser dividido entre os países superavitários e deficitários. A questão, contudo, que temos de nos perguntar é: 'Aonde isso nos levaria?' [...] Como a Europa pode ter sucesso [...] se nós [...] abrirmos mão de nossa competitividade conquistada tão duramente? Para ser bem-sucedida, a Europa como um todo precisa tornar-se mais dinâmica, mais inventiva, mais produtiva".

Infelizmente, esses comentários confundem produtividade com competitividade. São conceitos diferentes: os Estados Unidos, por exemplo, são mais produtivos, mas menos competitivos que a China. A competitividade externa é relativa. Além disso, na esfera mundial, o ajuste também precisa ser dividido. Weidmann sabe disso. Como diz ele: "É claro, os países superavitários acabarão sendo afetados à medida que os países deficitários se ajustem". A questão é: por meio de qual mecanismo?

A competitividade externa da região do euro depende da taxa de câmbio. Isso, contudo, não é uma variável. Os países-membros apenas podem tentar aumentar sua competitividade entre si. É exatamente isso que a Alemanha fez na década de 2000. Agora, isso precisa ser revertido. O Goldman Sachs apresentou duas análises excelentes sobre o que isso poderia implicar no texto "Achieving fiscal and external balance" (Como obter equilíbrio fiscal e externo, em inglês, de 15 e 22 de março). Conclui que, para obter-se uma posição externa sustentável, Portugal precisa de uma desvalorização real de 35% em sua taxa de câmbio; a Grécia, de 30%; a Espanha, de 20%, e a Itália, de 10% a 15%, enquanto a Irlanda atualmente já é competitiva.

Tais ajustes pressupõem uma valorização como contrabalanço nos países centrais. Além disso, com uma inflação média anual de 2% na região do euro e, digamos, de 0% nos países atualmente não competitivos, o ajuste demoraria 15 anos na Portugal e Grécia, dez anos na Espanha e cinco a dez anos na Itália. Isso também implicaria inflação anual de 4% no resto da região do euro.

Será que tal ajuste interno poderia ocorrer naturalmente? Sim, poderia. No momento, o BCE segue uma política expansionista. Ao mesmo tempo, os bancos alemães certamente querem conceder mais empréstimos em casa. Uma grande onda de aumento na concessão de empréstimos na Alemanha seria de grande ajuda.

Suponha, contudo, que isso não ocorra. Então, a região do euro hoje assolada pela austeridade acabaria passando por um período prolongado de baixa demanda. Isso poderia, como resultado, gerar uma grande mudança nas exportações líquidas. Para o resto do mundo, isso seria uma política de "empobrecimento do vizinho", impossível de tolerar em tempos difíceis.

Que a região do euro siga tal política, enquanto pede aos países de fora que aumentem o financiamento a seus membros em dificuldade, via recursos adicionais ao Fundo Monetário Internacional (FMI), seria agravar ainda mais a afronta. Os países de fora da região do euro deverão simplesmente dizer não. Em vez disso, deveriam insistir em que qualquer apoio financeiro adicional seja baseado em um ajuste interno de duas vias na região do euro.

A boa notícia é que há um consenso surgindo sobre o papel dos desequilíbrios no balanço de pagamentos na crise. A má notícia é que a região do euro ainda não concorda que a competitividade é necessariamente relativa. Assim que o fizer, o caminho a ser seguido para a recuperação pelo menos estará claro, não importa o quão complicado.



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A falsa medida da riqueza



Por Partha Dasgupta e Anantha Duraiappah - Valor 10/04

 Apesar dos muitos êxitos alcançados na criação de uma economia mundial mais integrada e estável, um novo informe da Comissão de Alto Nível sobre Sustentabilidade Global da Secretária-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) - "Resilient People, Resilient Planet: A Future Worth Choosing"* (pessoas resilientes, planeta resiliente: um futuro que vale a pena escolher, em inglês) - admite o fracasso e até a incapacidade da atual ordem mundial em promover as mudanças drásticas necessárias para a verdadeira "sustentabilidade".

O relatório da comissão apresenta como meta um "planeta sustentável, uma sociedade justa e uma economia em crescimento", assim como 56 políticas recomendadas para atingir esse objetivo. O informe possivelmente é a convocação internacional mais proeminente já feita em defesa de uma remodelação radical da economia mundial.

Apesar de todo seu rico conteúdo, "Resilient People, Resilient Planet", no entanto, carece de soluções práticas e concretas. Sua recomendação de curto prazo mais valiosa - a substituição dos atuais indicadores de desenvolvimento (Produto Interno Bruto ou variantes) por indicadores mais abrangentes e inclusivos da riqueza - parece ter sido acrescentada como algo secundário, como se fosse uma ideia de última hora. O relatório, se não vier acompanhado de ações internacionais rápidas e decisivas para priorizar a sustentabilidade por cima do status quo, corre o risco de ter o mesmo destino de seu documento antecessor, de 1987.

O pioneiro Relatório Brundtland lançou o conceito de sustentabilidade e, similarmente, defendeu a mudança de paradigma para, então, ser ignorado. "Resilient People, Resilient Planet" abre parafraseando Charles Dickens: o mundo de hoje vivencia "o melhor dos tempos e o pior dos tempos". Como um todo, a humanidade alcançou prosperidade sem precedentes; grandes progressos na redução da pobreza mundial vêm sendo obtidos; e avanços tecnológicos revolucionam nossas vidas, eliminando doenças e transformando as comunicações.

Por outro lado, a desigualdade continua teimosamente elevada e aumentando em muitos países. As estratégias econômicas e políticas de curto prazo incentivam o consumismo e o endividamento, que combinados com o crescimento da população (projetada em quase 9 bilhões de pessoas em 2040), sujeita o ambiente a pressões cada vez maiores. Em 2030, destaca a comissão, "o mundo precisará de pelo menos 50% a mais de alimentos, 45% a mais de energia e 30% a mais de água - tudo isso em um momento em que os limites ambientais estarão ameaçando a oferta". Apesar dos avanços significativos nos últimos 25 anos, a humanidade fracassou em conservar recursos, proteger ecossistemas e em assegurar sua própria viabilidade de longo prazo.

Será que um relatório burocrático - não importa sua força - pode gerar mudanças? Será que agora, ao contrário de 1987, o mundo se unirá para atender a convocação da comissão para "transformar a economia mundial"? De fato, talvez surjam ações genuínas a partir da própria crise. Como destaca a comissão, nunca esteve tão clara a necessidade de mudança de paradigma para que possamos ter um desenvolvimento mundial verdadeiramente sustentável.

Quem vai coordenar o processo internacional para estudar como encorajar tais mudanças e quem vai assegurar que as descobertas científicas levem a processos de políticas públicas substanciais?

Em primeiro lugar, deve haver esforços de pesquisa internacionais e interdisciplinares para abordar essas questões de forma abrangente; a recomendação da comissão para criar um grupo internacional de ciências é, portanto, um passo na direção certa. Criar tal órgão, contudo, levará tempo e o desafio é deixar rapidamente disponível o melhor da ciência para as autoridades políticas.

O Relatório 2010, da Comissão de Medição do Progresso Social e Desenvolvimento Econômico, criada pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, fez ecoar o atual consenso entre cientistas sociais de que estamos mensurando incorretamente nossas vidas ao usar o Produto Interno Bruto (PIB) per capita como referencial do progresso. Precisamos de novos indicadores que nos digam se estamos destruindo a base produtiva que sustenta nosso bem-estar.

O Programa Internacional de Dimensões Humanas da Universidade das Nações Unidas (UNU-IHDP, na sigla em inglês) já trabalha para encontrar esses indicadores para seu Relatório de Riqueza Inclusiva (IWR, em inglês), que propõe uma abordagem sobre a sustentabilidade baseada no capital social, humano, industrial e natural. O UNU-IHDP desenvolveu o IWR com o apoio do Programa Ambiental das Nações Unidas para poder oferecer uma análise abrangente dos diferentes componentes da riqueza, país a país; suas relações com o desenvolvimento econômico e o bem-estar das pessoas; e políticas que sejam baseadas na gestão social desse patrimônio.

O primeiro IWR, concentrado em 20 países, será oficialmente lançado na conferência Rio+20, no Rio de Janeiro. Os resultados preliminares serão apresentados durante a conferência "O Planeta sob Pressão", em Londres, em março.

O IWR representa um primeiro passo crucial para transformar o paradigma econômico mundial, assegurando que temos as informações corretas para poder avaliar nosso desenvolvimento econômico e bem-estar - e para reavaliar nossas necessidades e objetivos. Embora não tenha a pretensão de ser um indicador universal de sustentabilidade, oferece de fato uma estrutura para o diálogo entre múltiplos constituintes dos campos econômico, social e ambiental.

A situação é crítica. Como "Resilient People, Resilient Planet" coloca acertadamente "aparar as margens" não será mais suficiente - o que serve de alerta para os que contam com a economia verde e as tecnologias de fontes de energia renováveis para solucionar nossos problemas. A comissão ressuscitou a defesa de mudanças abrangentes no sistema econômico mundial. Nosso desafio desta vez é acompanhar as palavras com ações.



* www.un.org/gsp/sites/default/files/attachments/GSPReport_unformatted_30Jan.pdf



Partha Dasgupta é professor de economia na University of Cambridge e presidente da Comissão Científica do Programa Internacional de Dimensões Humanas das Mudanças Ambientais Mundiais.



Anantha Duraiappah é diretor-executivo do Programa Internacional de Dimensões Humanas das Mudanças Ambientais Mundiais e professor-visitante da Universidade Normal de Pequim. Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

O trio mortal



Por Yoshiaki Nakano - Valor 10/04

Em qualquer análise comparativa da macroeconomia brasileira com os demais países do mundo, três fatos colocam o Brasil como um "outlier". O Brasil tem mantido, nas últimas duas décadas, a maior taxa real de juros entre todos os países do mundo e a maior carga tributária entre países de renda per capita similar. Nos últimos dez anos foi o país que mais apreciou a sua moeda. Esse trio está destruindo a industria brasileira, colocando a nossa estrutura produtiva numa rota de especialização regressiva e, aos poucos, vamos estrangular a nossa "galinha de ovos de ouro": o dinâmico mercado doméstico.

Os dois preços fundamentais da macroeconomia, taxa de câmbio e taxa de juros, estão completamente fora do lugar e o governo apropria quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB) entre impostos e outras receitas. Com o governo gastando mal e investindo uma parcela ínfima, crescemos 2,7% no ano passado e o nosso desempenho no futuro não poderá ser melhor. Ou seria muito pior, não fora o grande prêmio de loteria que recebemos do exterior, com grande ganho em termos de troca a partir de 2003.

O mais contrastante é que o Brasil havia se tornado "a bola da vez". É óbvio que para o especulador financeiro nosso país se tornou o paraíso: a conjugação da maior taxa de juros com a maior apreciação do real, resulta em retornos recordes. O problema é que esse fantástico afluxo de capitais do exterior não moveu nenhum milímetro a nossa taxa de investimento produtivo, que se mantém oscilando abaixo dos 20% do PIB.

Mas não foi só isso que tornou o Brasil a "bola da vez". Muitos investidores mais de longo prazo passaram a acreditar no "grande potencial de crescimento da economia brasileira". Uma economia de dimensão continental em pleno "bônus demográfico", com mercado doméstico em forte expansão com a incorporação de mais de 40 milhões de pessoas para a classe média nos últimos dez anos, com complexa e moderna estrutura produtiva manufatureira e agropecuária, dotado de riqueza natural de fazer inveja frente a um mundo voraz, tornando os termos de troca extremamente favoráveis e ainda com potencial imenso de produção de energia verde e grande reserva de petróleo no pré-sal.

Diante desse potencial, qualquer analista que acreditasse que o Brasil teria um mínimo de competência para fazer políticas racionais voltadas para o crescimento econômico, apostaria mais em nós do que na China, India ou Rússia. Infelizmente, quando olhamos para a nossa triste realidade, nos deparamos com o trio mortal, (taxa real de câmbio apreciada, taxa de juros estratosférica e carga tributária crescendo ano após ano), arrastando o país para o limite inferior do seu potencial de crescimento.

Se o Brasil praticasse taxa de câmbio, taxa de juros e carga tributária próximas às da China e India, com certeza, poderíamos crescer, no mínimo, tanto quanto esses países, pois temos um potencial maior e um mercado doméstico mais dinâmico.

O trio mortal é persistente há muitos anos e um alimenta o outro. No passado, podíamos culpar o grande déficit público e o excessivo endividamento publico como os responsáveis pela elevada taxa de juros praticada no Brasil. Mas isso não é mais verdade, a situação fiscal melhorou muito. A taxa real de juros sofreu queda ao longo dos anos, mas encontra um piso que a mantém num nível recorde mundial. A explicação para isso é óbvia e muito simples: o Banco Central utiliza, inacreditavelmente, a taxa de juros paga pelos títulos públicos de longo prazo no "overnight", deslocando toda a curva de juros para cima. Se as nossas taxas de juros fossem equivalentes às internacionais, poderíamos reduzir a despesa pública e a carga tributária, em pelo menos, 4 a 5 pontos percentuais do PIB. Os investimentos, por sua vez, poderiam aumentar os mesmos pontos percentuais do PIB, o que aceleraria o crescimento da economia brasileira para 5%. Como o governo, ao longo dos anos, aumenta a carga tributária e realoca recursos de setores mais produtivos (indústria de transformação) para setores com menor produtividade e, menor dinamismo (serviços públicos etc), compromete o aumento de produtividade total da economia brasileira, isto é, o crescimento econômico.

A elevada carga tributária (não recuperável) e a elevada taxa de juros comprometem a competitividade da indústria brasileira, fazendo com ela perca participação, tanto no mercado doméstico (com invasão das importações), como no externo (nossas exportações perdendo espaço para países com política cambial mais agressiva). O diferencial de taxa de juros torna atrativo investir em reais, atrai um influxo de capitais especulativos de curto prazo tão grande do exterior que torna uma missão quase impossível administrá-los para controlar a taxa de câmbio.

Some-se a isso, o grande salto nos termos de troca e daí a tendência persistente à apreciação da taxa de câmbio no Brasil. O que agrava definitivamente a competividade da indústria de transformação brasileira. Com isso, ela está praticamente estagnada desde 2006, enquanto a demanda doméstica vem crescendo em torno de 6%. Como o setor com maior potencial de crescimento da produtividade - a indústria de transformação - não cresce, a produtividade média também não cresce e perdemos a maior arma para contrabalançar a tendência de apreciação da taxa de câmbio, em função do aumento de preços das commodities. Hoje a indústria de transformação representa apenas 15% do PIB.

Se mantivermos o trio mortal, o nosso futuro será regredirmos para uma economia primário-exportadora, como fomos no século XIX, conjugado com um imenso e inchado setor de serviços à la Grécia, Portugal ou Espanha.. Até que uma crise maior nos acorde.



Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP,