Os desafios da (re)industrialização
Por Luiz Gonzaga Belluzzo
Nos anos 80 do século passado, sob a inspiração de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, as políticas industriais e de fomento coordenadas pelo Estado foram lançadas no rol dos pecados sem remissão. No Brasil, o desenvolvimentismo foi alvejado por maldições e imprecações.
A desorganização financeira e fiscal que se seguiu à crise da dívida externa forneceu combustível para alastrar as chamas da purificação mercadista. O apelo à liberalização geral e irrestrita explicitava o fim do consenso em torno do objetivo comum do desenvolvimento fundado na industrialização. Entre as camadas dominantes, o dissenso neoliberal incluía o desconforto com o reconhecimento dos direitos sociais e econômicos consagrado na Constituição Cidadã de 1988. A dificuldade de se reconstituir, em novas bases, um objetivo compartilhado foi agravada pelo enfraquecimento da capacidade coordenadora de um Estado financeiramente prostrado diante da crise fiscal e monetária e dos programas impostos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Depois da bem-sucedida estabilização de 1994, os "reformistas liberais" brasileiros apoiaram sua estratégia em cinco pontos: 1) a estabilidade de preços criou condições para o cálculo econômico de longo prazo, estimulando o investimento privado; 2) a abertura comercial imporia disciplina competitiva aos produtores domésticos, forçando-os a realizar ganhos substanciais de produtividade; 3) as privatizações e o investimento estrangeiro removeriam os gargalos de oferta na indústria e na infraestrutura, reduzindo custos e melhorando a eficiência; 4) a liberalização cambial, associada à previsibilidade quanto à evolução da taxa real de câmbio, atrairia "poupança externa" em escala suficiente para complementar o esforço de investimento doméstico e para financiar o déficit em conta corrente; 5) o gotejamento da renda promovida pela acumulação de riqueza na camadas superiores - auxiliada pela ação das políticas sociais "focalizadas" - seria a forma mais eficiente de reduzir a desigualdade e eliminar a pobreza.
Na verdade, a privatização desarticulou um dos mecanismos mais importantes de governança e de coordenação estratégica da economia brasileira. O setor produtivo estatal - num país periférico e de industrialização tardia - funcionava como um provedor de externalidades positivas para o setor privado: 1) O investimento público era o componente "autônomo" da demanda efetiva (sobretudo nas áreas de energia e transportes) e corria à frente da demanda corrente; 2) as empresas do governo ofereciam insumos generalizados em condições e preços adequados; e, 3) começavam a se constituir - ainda de forma incipiente - em centros de inovação tecnológica.
Os celebrados efeitos da privatização sobre a eficiência da economia não se concretizaram. Senão vejamos: 1) a indexação das tarifas e preços das empresas privatizadas produziu um aumento expressivo dos custos dos insumos de uso generalizado e; 2) o investimento em infraestrutura passou a correr atrás da demanda, gerando pontos de estrangulamento; 3) as grandes empresas "exportaram" os seus departamentos de P&D e os escritórios de engenharia reduziram dramaticamente seus quadros; 4) e iniciativas importantes, como o Centro de Pesquisas da Telebrás, foram praticamente desativadas.
No debate em curso sobre a situação da indústria brasileira, há quem proclame o "mito da desindustrialização". Mal sabem que a encrenca vai além dos problemas criados pelas importações predatórias, danosas à produção corrente e à ocupação da capacidade já instalada. A dilaceração das cadeias produtivas pelo "real forte" e a estagnação dos investimentos só serão reparadas com o aumento dos gastos na formação da nova capacidade, sobretudo, nos setores novos e intensivos em tecnologia. Isto vai demandar, sim, o exercício do "animal spirits" dos dirigentes empresariais, a centralização do capital, agora disperso em empresas sem a escala requerida para participar do atual estágio da concorrência global e a elevação do gasto autônomo do Estado.
O salto de escala e tecnológico das indústrias brasileiras não vai ocorrer sem políticas adequadas que estimulem o mercado de capitais. A experiência histórica demonstra que isso exige a constituição de bancos universais de grande porte, rigorosamente regulados e supervisionados, capazes de desenvolver instrumentos financeiros destinados para o crédito de longo prazo.
O esperado efeito "acelerador" decorrente desse arranjo vai dinamizar os setores já existentes, cuja "proteção" não deve ser concedida sem contrapartidas de desempenho nas exportações, na inovação tecnológica e na substituição de importações. A economia mundial está diante de capacidade de oferta excedente em quase todos os setores e isso vai tornar ainda mais acirrada a conquista de mercados.
Sobre a utilização dos recursos decorrentes da exploração do pré-sal: a avalanche de moeda estrangeira que certamente advirá da exportação de petróleo ameaça tornar incontrolável o vício nativo cevado nas delícias tão sedutoras quanto e viciosas do câmbio valorizado. O ideal para o país detentor de uma riqueza natural abundante é constituir um fundo soberano e aplicar no exterior os recursos gerados pelas exportações, utilizando no âmbito doméstico tão somente os recursos gerados nas vendas internas e os rendimentos obtidos das aplicações no exterior. Esses fundos são genuinamente "fundos de poupança", poupança de longuíssimo prazo.
Proteção à indústria deve ter limites
Por Gustavo Loyola
Em seu último comparecimento ao Senado Federal, o ministro Guido Mantega listou a queda da taxa Selic entre as chamadas "medidas de defesa cambial" adotadas pelo governo para salvaguardar a indústria manufatureira nacional. Parece não haver melhor evidência do que esta para indicar que a política de juros não mais objetiva exclusivamente o controle da inflação, o que seria de se esperar em um país que pratica o regime de metas para inflação. No Brasil, pelo que se depreende da apresentação do ministro Mantega, na fixação dos juros, o Copom também visaria evitar a sobrevalorização da moeda brasileira e prejuízos a nossa indústria.
Há sérios riscos nessa estratégia, caso ela de fato prevaleça. Ao desviar o uso do principal instrumento de política monetária para outros fins que não o da estabilidade de preços, o governo aumenta o risco da criação de desequilíbrios internos que levariam à aceleração da inflação e ao não cumprimento da meta nos próximos anos. Além disso, o Banco Central passa a depender mais fortemente do apelo a outros instrumentos para integrar o cardápio da política monetária, em um contexto no qual a taxa de juros serve a vários fins ao mesmo tempo, o que acaba por trazer distorções adicionais ao mercado de crédito, sem obter-se plenamente a mesma eficácia no controle da demanda agregada.
As preocupações com a indústria, por mais legítimas que sejam, não podem ser atendidas com políticas que prejudicam a estabilidade macroeconômica. Este fato é tão óbvio que deveria dissuadir o governo do emprego da política cambial e da política de juros como instrumentos de estímulo ao setor manufatureiro nacional. Porém, o que se vê nos últimos meses é certa relativização da importância do equilíbrio macroeconômico, em favor da necessidade urgente de defesa da produção doméstica contra as várias "guerras" externas, imaginárias ou reais.
O governo acredita ser possível desvalorizar o câmbio real, com uma política simultânea de restrição à entrada de capitais, intervenções do Banco Central (BC) no mercado cambial e redução da taxa real doméstica de juros. Ao mesmo tempo, pretende manter o salário real em crescimento, como sinaliza, por exemplo, a atual política de reajustes do salário-mínimo. Tudo isso, combinado com uma meta declarada de manter o crescimento do PIB acima dos 4% ao ano, pode desaguar na aceleração inflacionária que, como resultado, acabaria por apreciar o câmbio real e reduzir os salários reais, na contramão, portanto, das intenções originais do governo. Em tal contexto, a manutenção do contraponto positivo observado em 2011 com o aumento do superávit primário tornou-se ainda mais relevante e imprescindível, mas as pressões derivadas do reajuste do salário-mínimo e da necessidade de manter os investimentos públicos provavelmente levarão a política fiscal a se mostrar mais expansionista no corrente ano.
Quanto às vicissitudes da indústria nacional, entendo que a manutenção do tripé de políticas macroeconômicas - câmbio flutuante, regime de metas para inflação e superávits fiscais primários - é condição necessária para se encontrar uma solução sustentável para os elevados custos domésticos e a falta de competitividade observados na produção doméstica de manufaturas. Por outro lado, considero não ser tampouco razoável uma postura passiva nas políticas públicas, atribuindo-se as dificuldades da indústria apenas às suas desvantagens comparativas no sentido ricardiano do termo. Isso seria fechar os olhos à existência de uma série de distorções domésticas que, embora atingindo todos os setores da economia brasileira, parecem recair mais fortemente sobre alguns setores industriais.
Sendo assim, a correta resposta do governo estaria primordialmente em políticas horizontais que reduzissem o "custo Brasil". Entre elas, poderíamos mencionar a redução da complexidade do sistema tributário e a eliminação completa de tributos que oneram as exportações. Ainda no campo dos impostos e contribuições, é necessária a redução da taxação fortemente incidente sobre insumos como a energia elétrica, mediante uma redistribuição inteligente da carga tributária. Além disso, a redução dos custos associados à folha salarial também se mostra relevante, notadamente numa conjuntura de redução sustentada do desemprego no país. A melhora da infraestrutura - principalmente na área da logística - também deveria constar entre as prioridades do governo, havendo ainda muito a se aperfeiçoar no ambiente regulatório com o intuito de atrair investimentos privados para esse setor.
Finalmente, vale mencionar que uma política de restrições às importações não pode ser considerada como parte da solução dos problemas da indústria doméstica. Ao contrário, o aumento da competitividade no setor manufatureiro doméstico passa necessariamente pelo livre comércio, fonte importante e insubstituível de incremento da produtividade na indústria. Por óbvio, isso não implica adotar postura passiva sempre quando houver evidência de práticas desleais de comércio por outros países.
Gustavo Loyola, doutor em economia pela EPGE/FGV, foi presidente do Banco Central e é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo.
Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Preço da energia dispara com chuvas fracas
Por Daniel Rittner - Valor 03/04
De Brasília
Os preços da energia elétrica no mercado "spot" subiram nesta semana para R$ 187,82 por megawatt-hora, o valor mais alto em 17 meses, após o fim do fenômeno climático La Niña e a diminuição das chuvas a partir de meados de fevereiro. As águas de março também ficaram abaixo da média histórica - o registro das últimas oito décadas - em todos os subsistemas da rede: 64% no Sudeste/Centro-Oeste, 58% no Sul, 55% no Norte e 44% no Nordeste. Esse volume se refere não à divisão geográfica dessas regiões, mas às chuvas que caíram nas "áreas de armazenamento" das usinas hidrelétricas (reservatórios e cabeceiras de rios).
A disparada de preços causou rebuliço no mercado de energia à vista, no qual grandes consumidores vendem seus excedentes ou compram sobras de outras empresas, que já estava acostumado com uma longa temporada de valores baixos. Em todo o período de estiagem no ano passado, por exemplo, o megawatt-hora se manteve abaixo de R$ 50.
Analistas são unânimes em apontar que o preço tem reagido de forma excessiva e desproporcional ao baixo volume de chuvas, ignorando o fato de que os reservatórios das grandes hidrelétricas estão muito acima do nível mínimo de segurança, sem nenhum risco de racionamento.
Os preços no mercado "spot", contudo, já subiram 236%, nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Sul, desde a terceira semana de fevereiro. No subsistema Nordeste, onde o megawatt-hora partiu de um ponto mais comportado, o valor atual de R$ 174,02 por megawatt-hora representa um aumento acumulado de 1.326%.
A alta repentina de preços agitou o mercado. Grandes indústrias e varejistas (como shopping centers e hipermercados) que são consumidores livres - têm demanda superior a 3 MW e podem escolher com liberdade seus fornecedores de energia - estão pagando mais caro em contratos de eletricidade no médio prazo.
O preço de liquidação de diferenças (PLD), uma espécie de encontro de contas entre quem tem energia sobrando e quem precisa completar suas necessidades de abastecimento, não é apenas a referência do mercado "spot". Ele também acaba guiando esses contratos de prazo mais extenso.
"Em dezembro de 2011, fechavam-se contratos para todo o ano de 2012 por R$ 80 a R$ 90 o megawatt-hora", afirma Paulo Toledo, sócio-diretor da Ecom Energia, uma das principais comercializadoras do país. "Hoje estamos fechando contratos de seis meses, para o segundo semestre, entre R$ 130 e R$ 140", compara.
Além disso, segundo ele, houve um freio no interesse das empresas para a negociação de novos contratos, enquanto elas aguardam um panorama mais claro. "Quando há mudanças muito bruscas de preço, o mercado adota uma postura mais cautelosa e há uma diminuição no volume de negócios", diz Toledo.
O presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Paulo Pedrosa, diz que empresas de maior porte não devem ser muito afetadas pelo aumento recente de preços porque deixam apenas uma parcela mínima de suas necessidades - entre 5% a 10% do consumo total - com exposição ao mercado à vista. "Elas tendem a manter contratos de longo prazo. Quanto maior a indústria, menor o apetite à exposição a riscos no fornecimento de energia elétrica", diz o executivo.
No entanto, Pedrosa avalia que "pode ocorrer" e "até positivo" - para o funcionamento do mercado - que algumas indústrias reduzam a produção para vender excedentes de energia. Há situações, como no fim de 2007 e no início de 2008, em que algumas indústrias eletrointensivas diminuíram o ritmo de suas fábricas para gerar receita colocando sobras de eletricidade no mercado "spot". Naquela ocasião, em meio a temores de um novo racionamento, o megawatt-hora alcançou um valor recorde de R$ 569.
Ninguém ainda se arrisca a dizer se isso pode ocorrer novamente, mas são grandes as apostas de que o PLD não baixe muito antes da volta do período chuvoso. "A variação das últimas semanas contaminou os preços do ano inteiro", opina Paulo Toledo.
O diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, explica por que as chuvas mudaram subitamente de intensidade. Com um arsenal de relatórios meteorológicos, ele diz que "vinha chovendo bem e onde interessava", até meados de fevereiro. "Mas houve uma mudança abrupta: a temperatura começou a aquecer no Pacífico Equatorial, na altura da costa do Peru, e a esfriar no Atlântico Sul", comenta Chipp.
Nos relatórios do ONS, o panorama do clima não é positivo para abril, quando as chuvas devem superar a média histórica apenas na região Norte, com 102%. Nos demais subsistemas, as precipitações vão ficar abaixo do normal: 75% no Sudeste/Centro-Oeste, 73% no Nordeste e 56% no Sul.
A perspectiva só se torna mais favorável, segundo Chipp, a partir do fim de maio ou do início de junho. Com isso, os preços da energia devem baixar em seguida. "A tendência é que, em meados do ano, caracterize-se o fenômeno El Niño", afirma. Isso significa que a região Sul pode enfrentar um inverno mais seco, mas que tanto o Sudeste quanto o Nordeste teriam um segundo semestre com chuvas mais fartas.
Chipp recomenda a busca de um modelo de preços que reflita "maior equilíbrio entre nível dos reservatórios e afluência [volume de chuvas]", mas ressalta que essa "não é uma solução simples e nem de imediato". "Não se deve criar a expectativa de uma mudança rápida nos modelos."
Parte dos especialistas alerta, no entanto, que o sistema elétrico ficará progressivamente mais dependente da intensidade das chuvas. Os modelos usados nos cálculos de preços já refletem parcialmente isso, inclusive, porque projetam cenários por cinco anos à frente. "O problema é que o Brasil começou a construir hidrelétricas sem grandes reservatórios", observa Walter Fróes, presidente da comercializadora CMU. As megausinas do rio Madeira (Santo Antônio e Jirau), além de Belo Monte, têm capacidade reduzida de armazenamento para inundar menos área. "Hoje, por questões socioambientais, a preferência tem sido por usinas a fio d'água", lembra o executivo.
O próprio Hermes Chipp, na condição de operador do sistema, sugere mais investimentos em termelétricas como forma de complementar a energia de fonte hídrica. Ele vê espaço, por exemplo, para mais 1.500 MW de térmicas a carvão na região Sul.
Glossário
Mercado cativo
É onde atuam as 64 distribuidoras do país e seus consumidores - na maioria, residenciais e comerciais. As geradoras vendem energia às distribuidoras, que enviam as contas de luz aos consumidores no fim do mês, conforme tarifas definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)
Mercado livre
Grandes consumidores de energia - com demanda acima de 3 MW, que equivale a uma conta de R$ 500 mil por mês - podem comprar diretamente de geradoras de energia ou de distribuidoras fora de suas áreas de atuação. Assim, uma indústria em São Paulo pode comprar energia da carioca Light ou da geradora Tractebel, por exemplo. Muitas vezes, contratam uma comercializadora de energia para fazer a gestão de seus contratos. Os preços são praticados livremente
Mercado "spot"
Quando uma indústria produz mais do que o inicialmente planejado, consumindo mais energia do que o montante contratado, vai a esse mercado para completar suas necessidades. Normalmente, há outras empresas que tiveram sobras de energia, porque tinham mais volume contratado do que o efetivamente usado. A compensação entre as "sobras" e os "excedentes" constitui o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), que muda a cada semana e é definido pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), conforme subsistema (região)
Política do Fed e risco inflacionário
Por Martin Feldstein - Valor 03/04
Durante os últimos quatro anos, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) injetou enorme liquidez no sistema bancário comercial americano - e, portanto, na economia americana. Muitos observadores temem que, no futuro, essa liquidez produza o aumento no volume de crédito, causando um rápido incremento da oferta monetária e da subsequente taxa de inflação.
Esse risco é real, porém não inevitável, porque a relação entre as reservas mantidas no Fed e o subsequente estoque de dinheiro e de crédito não é mais o que costumava ser. A explosão de reservas ainda não alimentou a inflação e o grande volume de reservas poderia, em princípio, ser revertido mais tarde. Mas reverter essa liquidez poderá ser politicamente difícil, bem como tecnicamente problemática.
Qualquer pessoa preocupada com a inflação tem de se concentrar no volume de reservas que está sendo criado pelo Fed. Tradicionalmente, o volume de depósitos bancários, que constitui a oferta monetária ampla, aumenta o volume de reservas que os bancos comerciais têm à sua disposição. De modo geral, no passado, aumentos no estoque de dinheiro levaram a aumentos do nível de preços. Por isso, um crescimento mais rápido das reservas resultou em um crescimento mais rápido da oferta monetária - e em taxa de inflação mais elevada. Na prática, o Fed controlava - ou, por vezes, não conseguia controlar - a inflação mediante a limitação da taxa de crescimento das reservas.
O Fed iniciou uma política agressiva de flexibilização quantitativa no verão de 2008, no auge da crise econômica e financeira. O volume total de reservas havia permanecido praticamente inalterado durante a década anterior, variando entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões. Essas reservas, então, dobraram, entre agosto e setembro de 2008, e explodiram para mais de US$ 800 bilhões, um ano mais tarde. Em junho passado, era de US$ 1,6 trilhão e, a partir de então, permaneceu nesse nível.
Mas o crescimento das reservas não se traduziu em expansão rápida dos depósitos nos bancos comerciais, porque o Fed começou a pagar juros sobre essas reservas em outubro. Os bancos comerciais podiam colocar os seus recursos excedentes em depósitos sem risco no Fed, em vez de emprestá-los a tomadores privados. Como resultado, a oferta monetária cresceu apenas 25% desde 2008, apesar de as reservas terem crescido 40 vezes desde aquele momento.
No ano passado, o Fed incrementou ainda mais a liquidez do sistema bancário - e da economia americana - por meio da Operação Twist, ou seja, comprando US$ 400 bilhões em títulos de longo prazo em troca de títulos de curto prazo do Tesouro. Os bancos que detêm esses títulos do Tesouro podem vendê-los a qualquer momento, usando os recursos assim auferidos para financiar empréstimos comerciais.
A enorme substituição de reservas por títulos de prazo mais alongado durante o período de "afrouxamento quantitativo" e de títulos do Tesouro por títulos de longo prazo na Operação Twist conseguiu reduzir as taxas de juro de longo prazo. A combinação de juros baixos em cada horizonte de maturação e a substituição de títulos de curto prazo por ativos de longo prazo também teve êxito em elevar os preços das ações.
Mas não está claro que as taxas de juros mais baixas e os preços mais altos das ações produziram algum efeito significativo sobre a atividade econômica real. As empresas têm uma grande quantidade de liquidez e não dependem de tomar empréstimos para investir mais em instalações e equipamentos. A construção de moradias não foi reaquecida, porque os preços dos imóveis estão em queda. Os consumidores aumentaram temporariamente seus gastos em resposta à alta no mercado de ações no fim de 2010, mas esses gastos ficaram, recentemente, bem mais lentos.
O risco é de que os bancos comerciais possam decidir-se a começar a usar o excedente de reservas, abrindo mão da baixa taxa de juros pagos sobre depósitos pelo Fed (apenas 0,25%), e passando a emprestar esses recursos a empresas e famílias. Esses empréstimos se somariam aos depósitos e fariam com que a oferta monetária crescesse. Eles também incrementariam os gastos dos tomadores de empréstimos, contribuindo diretamente para pressões inflacionárias.
Quando a economia começar a se recuperar e as empresas tiverem condições de elevar os preços, os bancos comerciais desejarão aumentar o volume de seus empréstimos. Isso será bem-vindo, desde que ocorra em escala excessivamente grande ou rapidamente demais. O Fed, corretamente, desejará limitar a expansão dos empréstimos bancários. É sobre isso que o Fed costumava falar como sendo sua "estratégia de saída". Essencialmente, isso implicaria aumentar os juros sobre os depósitos do Fed e permitir que os juros, de modo mais geral, subissem. Se isso for feito oportunamente e na escala adequada, o Fed terá sucesso em impedir que a grande liquidez atual gere inflação mais elevada.
O que me preocupa é que a estrutura do desemprego nos EUA é muito diferente, na atual crise, do que no passado. Quase metade dos desempregados estão sem trabalho há seis meses ou mais. No passado, a duração correspondente do desemprego foi de apenas 10 semanas. Portanto, existe um risco de que as pessoas desempregadas há mais tempo sejam reabsorvidas pelo mercado de trabalho muito mais lentamente do que em retomadas econômicas anteriores.
Se a taxa de desemprego ainda estiver muito alta quando os mercados de produtos começarem a ficar apertados, o Congresso americano desejará que o Fed permita um crescimento mais rápido para baixar o desemprego, apesar do risco inflacionário resultante. O Fed é tecnicamente responsável perante o Congresso, que poderia se aplicar pressão sobre o Fed, ameaçando reduzir sua independência.
Assim, a inflação é um risco, mesmo que isso não seja inevitável. O grande volume de reservas, juntamente com a liquidez criada pela flexibilização quantitativa e pela Operação Twist, torna o risco maior. Serão necessárias habilidade e coragem política para o Fed evitar um aumento da inflação criada pela liquidez existente.
Martin Feldstein, professor de Economia em Harvard, foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Ronald Reagan e foi presidente do Birô Nacional de Investigação Econômica dos EUA.
A hora é agora
Por Antonio Delfim Netto - Valor 03/04
O avanço físico de apenas 0,1% do setor manufatureiro, principal responsável pelo pequeno crescimento nacional de 2,7% em 2011, acendeu a luz vermelha. Mobilizou o governo não apenas para tomar medidas defensivas de curto prazo, mas para cooptar o setor privado e auxiliá-lo a superar os problemas que afligem a economia brasileira há muito tempo. Emergiu o reconhecimento que temos problemas estruturais e que problemas estruturais se resolvem com reformas estruturais!
Os homens levaram 150 mil anos testando e superando muitas formas de organização política. Chegaram à democracia por uma seleção natural cujo processo adaptativo continua. Ela talvez não seja o regime "ideal", mas seguramente é melhor do que qualquer organização alternativa que eles já tentaram implantar para construir a sua humanidade. É evidente que um regime tão complexo só pode funcionar se bem regulado por uma Constituição legitimamente construída e controlada por um Supremo Tribunal Federal independente. Esse é o "garante" das liberdades individuais e protege o cidadão dos eventuais abusos do poder incumbente, ou seja, é o "garante" do regime republicano, que o Brasil já construiu.
O regime democrático tem uma característica: quem pode mobiliza suas forças na defesa dos seus interesses. Os partidos que apoiam o governo (que também obedece a seus próprios interesses e preferências) têm, por construção, o objetivo maior de conquistar mais poder. Para isso usam todos os movimentos permitidos pelo jogo democrático, principalmente o blefe, como vimos há poucos dias na "espuma" que se produziu no Congresso Nacional...
Não tenhamos ilusões. No presidencialismo de coalizão que construímos, as "reformas estruturais" dependem, fundamentalmente, da cooptação pelo Executivo de uma segura maioria no Congresso. E esse só se move quando o poder incumbente tem ampla legitimidade e é capaz de pôr em movimento pressões sociais na direção correta por meio do diálogo e do esclarecimento dos eleitores. Há aqui um aparente paradoxo: como é possível que os representantes da sociedade (a Câmara) e dos interesses dos Estados (o Senado) se recusem a fazer as "reformas" pedidas por aqueles que os elegeram?
A resposta é simples. Ainda que a Câmara e o Senado se apresentem como instituições homogêneas, elas são constituídas por partes heterogêneas, que representam e defendem interesses diferenciados. Cada uma utiliza o princípio do "max-min": tenta tirar o máximo proveito do mínimo que já conquistaram e continuam tentando ampliá-lo.
As "reformas" encontram resistência exatamente porque significam mudanças nas posições relativas das partes heterogêneas. Elas significam uma "redistribuição" das posições conquistadas e às quais se acomodaram. Por que, aparentemente, as reformas a despeito de serem desagradáveis e estressantes agora precisam mesmo ser feitas? Pela simples e boa razão que o processo esgotou-se: não se pode distribuir o que ainda não foi produzido!
O "jogo" civilizatório da redistribuição melhorou de forma espetacular a inclusão social, ampliou o mercado interno e funcionou muito bem aumentando a demanda global. Infelizmente, não acompanhamos no mesmo ritmo, e com a mesma disposição, a ampliação da oferta global. Não há mais espaço disponível. O resultado natural é que a diferença entre a demanda e a oferta globais se dissipa, inexoravelmente, num aumento da inflação interna nos preços dos bens não transacionáveis (os serviços) e externamente, numa ampliação do déficit em conta corrente.
Um dos efeitos colaterais muito importantes desse processo foi a imensa valorização da relação câmbio nominal/salário nominal, que é o indicador do câmbio "real". O gráfico abaixo mostra a relação entre a tragédia do setor de bens de capital e essa variável. É claro que câmbio não é tudo. Há, sim, o famigerado "custo Brasil" que desde o Plano Real está na pauta e avançou apenas alguns milímetros nas últimas duas décadas, enquanto avançamos quilômetros na piora dos preços dos insumos básicos (energia principalmente) e no regressivo (com relação aos cidadãos) e progressivo (com relação ao governo) sistema tributário. Mas nada disso mudou entre 2008 e 2012, a não ser a valorização do câmbio que nos custou um crescimento de 0,1% do setor manufatureiro e nos subtraiu quase 1% do crescimento do PIB.
É hora, portanto, de cuidar da emergência, mas não descuidar das reformas. É hora de apoiar e ajudar a presidente na sua batalha para cumprir o que está propondo.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Governo e fundos tiram força do real
Por Eduardo Campos - Valor 02/04
De São Paulo
A moeda brasileira foi destaque mundial de baixa no mês que ficou para trás. No período, o dólar comercial subiu 6,16%, maior ganho mensal desde novembro.
O mês foi marcado pela retomada das batalhas da "guerra cambial", com o governo editando quatro medidas cambias, subindo o tom das ameaças e se comprometendo em não deixar o real se valorizar. No período, o Banco Central (BC) foi a mercado 13 vezes, com operações à vista e via swap reverso. No ano são 25 intervenções.
Tudo isso mudou a perspectiva para a moeda brasileira, que vinha como destaque mundial de alta, depois de um tombo de 12% em 2011.
Boa parte da valorização do dólar se deve ao medo dos agentes quanto a novas ações do governo. O dólar parece ter um piso informal não mais em R$ 1,70, mas sim em R$ 1,80.
A movimentação dos fundos de investimento, que compraram mais de US$ 5 bilhões em contratos futuros de dólar ao longo do mês, também tem participação importante nessa alta do dólar.
A dúvida agora é como o dólar se comportará nos próximos meses. Conforme o real cai e seus pares emergentes sobem ou caem menos, cresce o apelo das operações de arbitragem. Fora isso, o carregamento de posição comprada incorre em custos e não se sabe até que ponto esses fundos estão dispostos a seguir com a posição.
Para o economista para América Latina do Standard Chartered, Ítalo Lombardi, o pano de fundo para o mercado de câmbio brasileiro ainda não mudou. "A raiz da atratividade ainda é o diferencial de juros e a possibilidade de investimentos, principalmente na área de infraestrutura", explica.
No entanto, diz o economista, a falta de tendência da moeda americana nos últimos 15 a 20 dias está relacionada aos sinais que o governo mandou sobre a valorização cambial.
Ainda de acordo com Lombardi, os fundos e outros agentes locais que correram para o dólar parecem ter se movimentado com base na ideia de que muito das notícias positivas já estão no preço. Percepção reforçada pelo aumento de incerteza externa nas últimas semanas. Tudo somado, temos o dólar andando em "um corredor bem estreito", diz Lombardi.
Mas o economista mantém a percepção positiva quanto ao comportamento da moeda brasileira no médio prazo.
Com outra visão, o diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Nehme, acredita que a alta do dólar ainda está por vir. Para Nehme, o fluxo cambial não deve ser tão positivo quanto se imagina.
E, além disso, temos um governo que busca a valorização da moeda brasileira e não apenas a manutenção de um piso, algo que pode constranger o "fluxo bom" de dólares.
Quanto aos juros, o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, aponta que o BC nunca foi tão explícito em sua comunicação, mas, ao mesmo tempo, nunca deixou o mercado com tantas dúvidas. Com isso, a movimentação na curva futura de juros está "engessada".
Como o BC acenou que vai cortar a Selic para próximo das mínimas históricas e o mercado já colocou no preço uma taxa básica de juros de 9%, os contratos curtos não têm muito para onde ir.
Olhando para frente, diz Leal, salvo algum evento novo, há a impressão de que o BC terá de fazer um aperto monetário no fim de 2012 ou começo de 2013.
"Mas vale frisar o termo aperto monetário, pois não estou falando em subida de taxa de juros. Durante muito tempo os termos eram sinônimos. Agora não são mais", explica.
A curva futura mostra um aperto de 150 pontos-base. Mas a dúvida, segundo o economista, é se esses 150 pontos serão entregues via alta de juros ou medida prudencial, ou mesmo uma mistura dos dois.
Em função disso não há parâmetros para grandes apostas na curva de juros.
Bancos chineses aportam no país
Por Filipe Pacheco - Valor 02/04
De São Paulo
O mercado bancário brasileiro está no radar dos gigantes bancos estatais da China, também os maiores do mundo em valor de mercado. O ICBC (Industrial and Commercial Bank of China), maior deles, espera desde o ano passado o sinal verde presidencial para poder atuar no país, mas já está com contrato de locação assinado para ocupar um escritório no coração financeiro de São Paulo. O segundo maior, o China Construction Bank (CCB), sonda há meses possibilidades de entrada por meio de aquisições de bancos de pequeno ou médio porte. Já o Bank of China, menor que os outros dois e o único que já conta com unidade por aqui, aberta em 2009, começará só agora a "atuar para valer", segundo as palavras de seu atual presidente. Juntos, os três somam números impressionantes: valor de mercado próximo de US$ 570 bilhões e mais de 40 mil agências na China - todos são de controle estatal. Um quarto interessado seria o China Bank of Communications, menor que os outros três e em estágio ainda preliminar de prospecção do mercado doméstico.
O ICBC, cujo valor na bolsa de Hong Kong é de US$ 238,2 bilhões, ainda não tem permissão oficial para operar no Brasil, mas fechou contrato para ocupar 1.500 metros quadrados no mesmo prédio que já abriga o BTG Pactual, Banco Espírito Santo e J.P. Morgan, na Av. Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. O capital inicial declarado ao BC em abril do ano passado foi de US$ 100 milhões, o que caracteriza um banco com operações de porte tímido em comparação às cifras da matriz. Não há prazo limite para que a concessão seja dada. Seu futuro presidente já está no país há alguns meses e executivos brasileiros estariam sendo abordados para compor o time. No total, entre 40 e 70 funcionários devem ocupar a unidade, e o ICBC procura no momento 12 apartamentos residenciais na mesma região para os funcionários chineses mais graduados que virão. A KPMG e o escritório Tozzini Freire Advogados têm auxiliado o banco.
Em agosto do ano passado o ICBC pagou US$ 600 milhões por 80% da unidade do Standard Bank na Argentina, sendo que em março de 2008 já havia se tornado o sócio majoritário da matriz do Standard Bank. Comprou, por US$ 5,4 bilhões, 20% do banco sul-africano que opera no Brasil como banco de investimento. Segundo uma fonte próxima do ICBC, ainda não está clara qual será a estratégia em relação aos dois bancos no país.
Já o CCB (US$ 200,8 bilhões na bolsa de Hong Kong) tem cogitado uma outra via de entrada. Desde o ano passado executivos do banco estudam o mercado brasileiro, e a matriz em Pequim já teria aprovado a aquisição de um banco que poderia ser tanto de capital 100% nacional como uma subsidiária de um grupo estrangeiro interessado em deixar o país. Segundo Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, que tem assessorado executivos do CCB, o valor autorizado para a compra estaria entre US$ 500 milhões e US$ 600 milhões. Em março, um grupo de seis executivos do banco, dentre eles um diretor de aquisições estratégicas, esteve em São Paulo e no Rio para avançar nas conversas. Uma das oportunidades consideradas seria a unidade local do banco alemão West LB, que passa por reestruturação global e anunciou no dia 16 de março que a subsidiária brasileira está à venda.
O Bank of China é o único já autorizado a operar no país e abriu um banco múltiplo no começo de 2009. Até agora, entretanto, pouco ou nada fez. No momento, passa pela troca de sua direção local, o que, espera-se, anime os negócios. No fim de abril, Zhang Dongxiang deve assumir a operação no Brasil, sendo que o atual presidente, Jianhua Zhang, voltará para Pequim para atuar como uma espécie de conselheiro para os assuntos relativos à unidade brasileira perante a cúpula da instituição.
O Bank of China começou a operar com capital de US$ 60 milhões e contava com valor próximo de R$ 138 milhões em patrimônio líquido no final de 2011. Uma examinada em seu balanço mostra que a instituição limitou-se, até agora, a comprar papéis do governo brasileiro. Em 31 de dezembro, tinha cerca de R$ 111 milhões em títulos de valores mobiliários (a grande maioria de notas do Tesouro de curto prazo), e uma carteira de crédito tímida, próxima de R$ 27,8 milhões.
Segundo Jianhua, os primeiros anos no país serviram para "conhecer as regras do mercado brasileiro" e, a partir de agora, o banco deve de fato começar a liberar crédito com mais força.
Os bancos chineses, ainda que comecem a atuar timidamente por aqui, devem acabar brigando pelo mesmo filão de clientes. O que mais lhes interessa é prestar serviços a grandes empresas chinesas de porte global que agora começam a desembarcar em escala cada vez maior no Brasil. O interesse maior é na concessão de linhas de crédito e na realização de operações de câmbio, dizem fontes próximas aos bancos.
De acordo com dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), os investimentos chineses de 2003 até março de 2011 (diretos ou decorrentes de fusões e aquisições) somaram US$ 37,1 bilhões, em um total de 86 operações. O mais recente plano quinquenal chinês prevê cerca de US$ 500 bilhões de investimentos estrangeiros até 2015, e uma fatia importante desse valor deve ser destinada à América Latina e, especialmente, ao Brasil.
Alguns exemplos: em outubro de 2010 a China Petroleum & Chemical Corp, ou Sinopec, pagou US$ 7 bilhões por uma participação de 40% na unidade brasileira da companhia petrolífera espanhola Repsol. Em novembro do ano passado, a montadora Chery anunciou investimentos de US$ 400 milhões em uma fábrica em Jacareí, no interior de São Paulo, que deve começar a operar em 2013.
Nova liderança para o Banco Mundial
Por Jeffrey D. Sachs - Valor 02/04
No mês passado, defendi que o Banco Mundial seja comandado por um especialista em desenvolvimento internacional, em vez de executivos de banco ou políticos. "O banco precisa de profissional competente para enfrentar os grandes desafios do desenvolvimento sustentável desde o primeiro dia", escrevi. Agora, que o presidente do Estados Unidos, Barack Obama, indicou Jim Yong Kim para o cargo, o mundo terá justamente um líder excelente em desenvolvimento.
Obama mostrou genuína liderança com a indicação. Ele colocou o desenvolvimento na dianteira, dizendo explicitamente: "É hora de um profissional em desenvolvimento comandar a maior agência de desenvolvimento do mundo".
A indicação de Kim é um grande avanço para o Banco Mundial, que também espero ver estendido a outras instituições internacionais. Até agora, os EUA haviam recebido uma espécie de carta branca para indicar qualquer um que desejassem para a presidência do Banco Mundial. Foi assim que o comando do Banco Mundial acabou em mãos inadequadas, que não tinham o conhecimento necessário para liderar o combate à pobreza.
Para quebrar essa tradição e ressaltar a importância crucial de escolher um líder em desenvolvimento para o comando do Banco Mundial, eu mesmo entrei na campanha e fiquei honrado pelo apoio que recebi publicamente de uma dúzia de países e de muitos outros, reservadamente. A indicação de Kim foi uma vitória para todos e tive prazer em retirar minha candidatura para apoiá-lo.
Kim é um dos grandes líderes mundiais em saúde pública. Ele trabalhou com outro grande líder da mesma área, Paul Farmer, pioneiro na ampliação do tratamento para doenças como aids e tuberculose para as pessoas mais pobres do mundo. Mais recentemente, foi presidente do Dartmouth College, importante universidade dos EUA. Ele reúne, portanto, capacidade profissional, experiência internacional e considerável conhecimento administrativo - credenciais perfeitas para a presidência do Banco Mundial.
Trabalhei próximo a Kim por muitos anos. Ele é um visionário, conseguindo perceber a possibilidade de proporcionar assistência quando ela ainda inexiste. Ele é ousado, disposto a enfrentar grandes desafios. E ele é absolutamente metódico em sua forma de pensar, elaborando novos protocolos e sistemas de distribuição para comunidades de baixa renda. Ele comandou os esforços da Organização Mundial da Saúde (OMS) para ampliar o tratamento da aids para pessoas em países de baixa renda e fez um trabalho exemplar.
A indicação feita pelos EUA não é o fim da história. Os 25 diretores executivos do Banco Mundial, que representam os 187 países-membros, agora precisam confirmar a escolha entre três indicados. Ele concorre com a respeitada ministra das Finanças da Nigéria, Ngozi Okonjo-Iweala, e o ex-ministro das Finanças da Colômbia José Antonio Campo. Kim, entretanto, é o favorito disparado para conseguir o cargo, especialmente por seu impressionante histórico de feitos.
Os últimos 30 dias trouxeram outros lembretes sobre os motivos pelos quais o Banco Mundial é tão importante e por que enfatizei a necessidade premente de profissionalizar seu comando. Tragicamente, o governo de Mali foi derrubado por um golpe militar. Ironicamente, havia eleições marcadas para o segundo trimestre, quando o país ganharia novo governo.
Relaciono o golpe e o Banco Mundial pelo seguindo motivo: Mali é mais um exemplo de país onde a extrema pobreza, fome, doença e escassez de alimentos provocam instabilidade política e violência. Conheço bem o país. O Instituto Terra (que dirijo) tem um grande escritório em Mali. Há muitos anos, o governo de Mali recorreu a mim para ajudar a combater o agravamento da pobreza no país. Tentei arregimentar apoio internacional a Mali, mas o Banco Mundial e outras instituições mal responderam. Não viam os perigos que eram tão evidentes para todos nós, que trabalhávamos nos vilarejos pelo país. Naturalmente, a pobreza não é a única causa de instabilidade em Mali. Divisões étnicas, o amplo mercado de armamentos, a disseminação da violência na Líbia e outros fatores desempenham grande papel. Em todo o mundo, contudo, a pobreza é a condição essencial que acelera a violência.
A seca deste ano agravou a situação em Mali, que já era ruim. Venho dizendo e escrevendo há anos que as regiões secas do Oeste a Leste - de Senegal a Mali, Níger, Chade, Sudão, Somália, Iêmen, Iraque, Irã, Paquistão e Afeganistão - são um barril de pólvora cada vez maior, onde secas, fome e crescimento populacional criam crescente instabilidade.
Essa instabilidade, com terrível frequência, resulta em guerras. Como especialista em desenvolvimento que trabalhou em campo nas regiões afetadas pela seca, sei que nenhuma solução militar conseguirá estabilizar essa vasta área enquanto as pessoas continuem passando fome e sofrendo com a falta de alimentos e água; sem esperança e sem meios de sustento. O desenvolvimento sustentável é o único caminho para a paz sustentável.
O governo dos EUA, enfim, está acordando para essa nova e assustadora realidade. Um estudo feito por agências de inteligência americanas, divulgado em fevereiro, sustenta que "durante os próximos dez anos, os problemas com a água contribuirão para a instabilidade em Estados importantes para os interesses de segurança nacional dos EUA" (www.dni.gov/nic/ ICA_Global%20Water%20Security.pdf).
É claro, não é apenas a segurança dos Estados Unidos que está em jogo; também o estão a segurança mundial e a sobrevivência e o bem-estar de grandes números de pessoas. E não é preciso esperar os próximos dez anos: a realidade sombria prevista pelo informe já está entre nós.
Tudo isso ressalta a importância do Banco Mundial e do papel de Kim no comando. O Banco Mundial pode estar onde o mundo convergir para enfrentar os problemas terríveis - mas que podem ser resolvidos - de desenvolvimento sustentável, agrupando governos, cientistas, acadêmicos, organizações da sociedade civil e o público para avançar nessa grande causa. Trata-se de um imperativo mundial e podemos, todos, contribuir para realizá-lo, assegurando que o Banco Mundial seja uma instituição genuinamente voltada ao mundo, comandada com experiência e integridade. A indicação de Kim é um passo enorme em direção a esse objetivo.
Jeffrey D. Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, da Columbia University. É também assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas no tema das Metas de Desenvolvimento do Milênio.
Competitividade passa pela queda do preço da energia
Por Paulo Pedrosa - Valor 02/04
Vivemos nas últimas semanas com a sensação de que a crise de competitividade da indústria brasileira se instalou de repente, por problemas de câmbio ou de juros, ou até mesmo por causa das quebradeiras na Europa, e que prontamente o governo federal tratou de buscar medidas para resolvê-la e proteger o país. Esse sentimento causado pelos números do Produto Interno Bruto (PIB) só reflete, entretanto, uma situação que vem se estruturando há alguns anos.
Por mais que possam ser necessárias (em alguns casos, de produtos que chegam a nosso mercado com preços subsidiados), não será respondendo com proteções que o país vai concorrer de igual para igual no comércio mundial de forma sustentável, pois todos sabem que esses mecanismos têm efeitos colaterais importantes e são insustentáveis no longo prazo. O que a indústria quer é condição permanente de competição, suportada por ganhos contínuos de produtividade e condições favoráveis na infraestrutura nacional, o que passa necessariamente por uma redução nos custos da energia, seja elétrica ou gás natural.
A grande indústria brasileira, que alimenta cadeias econômicas inteiras e gera empregos de qualidade em todo o país, tem esses insumos entre seus maiores custos de produção. A conta de energia chega a representar mais de 50% do que algumas indústrias gastam para produzir. Tanto o governo federal como lideranças importantes no Congresso dão sinais de ter percebido essa realidade, mas é necessária atenção na forma de como conduzir o processo para se chegar à efetiva modicidade dos custos da energia.
No caso da energia elétrica, integrantes do poder executivo têm dito que é preciso um novo pacto entre Estados para a redução do ICMS. É fato, o imposto estadual tem uma alíquota de 25%, em média, sobre as contas de energia. Mas não podemos jogar o problema para uma questão que precisa de unanimidade entre todos os governadores da federação, por meio do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e que tomará tempo para ser equacionada. Além disso, sob o ângulo da competitividade, boa parte da indústria se credita desse imposto e, portanto, reduzi-lo não trará estímulos imediatos para a retomada da produção. É só uma questão de fluxo de caixa.
Por outro lado, se a solução passasse pela redução dos encargos, que são verdadeiros penduricalhos de políticas públicas embutidos no custo da energia, e pela condução adequada da questão do vencimento das concessões, o custo da eletricidade poderia cair aproximadamente 20% e beneficiar todos os consumidores, dos residenciais à indústria, sem qualquer tipo de protecionismo ou subsídio. Além disso, automaticamente se pagaria menos ICMS, sendo este um percentual sobre as tarifas.
Um discurso recorrente de alguns membros do governo federal é que os encargos não oneram a energia elétrica. Poderia ser verdade, se o consumidor pagasse apenas o encargo de Pesquisa & Desenvolvimento e Eficiência Energética, por exemplo, que representa 1% das contas. Ou se pagasse apenas a Reserva Geral de Reversão (RGR), que soma mais 2%. Ou se pagássemos apenas a Conta de Consumo de Combustível (CCC), que representa 5%, ou somente a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que seria 3%. Mas pagamos todos eles e, se somarmos esses exemplos, já estamos falando de 11% que o consumidor poderia pagar a menos.
E vale a pergunta: afinal, o que se faz com os recursos arrecadados por esses encargos? Essa questão deveria ser respondida com mais transparência, acompanhada de uma avaliação clara de benefícios e custos de cada uma das iniciativas incorporadas nas contas de energia.
De grande significado para evidenciar as distorções que encarecem a energia está o pagamento, pelos consumidores, de compensações aos governos dos Estados recentemente interligados à malha energética nacional pela perda do ICMS - que arrecadavam com a venda de combustível a termelétricas ineficientes. Outro bom exemplo está no contingenciamento dos recursos da Taxa de Fiscalização da Aneel - que, na prática, embute nas contas de energia uma "contribuição ao equilíbrio fiscal".
Todos os encargos foram criados com propósitos específicos, que, na maioria dos casos, se desviaram no meio do caminho. O investimento obrigatório em P&D, com o dinheiro do consumidor, não tem se refletido em ganhos que correspondam aos seus custos na cadeia do setor de energia. Com a CCC e CDE, hoje se faz política social e de desenvolvimento regional, ações que deveriam ser bancadas pelo Tesouro Nacional, portanto pelo contribuinte e não pelo consumidor. A RGR, por sua vez, foi criada para pagar a reversão de concessões. Se elas vão ser renovadas, como já indicou o governo, o encargo não tem mais razão de existir e os quase R$ 20 bilhões desse fundo deveriam voltar para os consumidores. Além disso, o tratamento das concessões que vencem poderia reduzir em até 10% o custo da energia.
E o que se dizer do Encargo de Serviços do Sistema, para pagar o combustível de quando se aciona algumas termelétricas, e do Encargo da Energia de Reserva? Os dois servem para dar segurança ao sistema, mas não consideram alternativas mais eficientes de equilibrar oferta e demanda. Além disso, seus custos são distribuídos a todos os consumidores - inclusive aos que já pagaram pela segurança em contratos de longo prazo -, enquanto seus benefícios se concentram em alguns agentes do mercado, justamente aqueles cujo comportamento pode estar colocando o sistema em risco.
Obviamente a indústria quer uma reforma tributária que envolva a redução do ICMS da energia. Mas precisa sobreviver para poder participar dessa discussão.
Paulo Pedrosa é presidente-executivo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace).
sexta-feira, 30 de março de 2012
TV ON LINE
JULIANA ROSA ANALISA DADOS DA FGV SOBRE O CRESCIMENTO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA TEMPO: 00:03:30
Em comentário ao Jornal Edição das Dez, da Globo News, a editora de economia Juliana Rosa analisou um levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) sobre a confiança do empresário da indústria. Além disso, ela comentou o anúncio da presidente Dilma Rousseff acerca da criação de medidas para ajudar no crescimento da economia brasileira.
*DILMA ROUSSEFF, presidente do Brasil.
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: EDIÇÃO DAS OITO
APRESENTADOR: MARIA PAULA CARVALHO
5,5% DOS FINANCIAMENTOS DE CARROS NÃO FORAM PAGOS EM FEVEREIROS, REVELA BC TEMPO: 00:02:40
Depois do recorde de produção e vendas de veículos em 2011. surge um novo número que não é positivo. A quantidade de pessoas que não conseguem pagar o financiamento dos carros é a maior dos últimos doze anos. Segundo o Banco Central, 5,5% dos financiamentos de carros não foram pagos em fevereiros.
TV: SBT DF
PROGRAMA: JORNAL DO SBT
APRESENTADOR: CARLOS NASCIMENTO
ECONOMISTA FALAM SOBRE O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL - PARTE 1 TEMPO: 00:14:00
ECONOMISTA FALAM SOBRE O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL - PARTE 2 TEMPO: 00:12:23
Em entrevista ao Programa Miriam Leitão, o economista da PUC do Rio de Janeiro, Marcelo de Paiva Abreu, e o economista da FGV, Armando Castelar, falaram sobre o cenário econômico nacional e o protecionismo na indústria brasileira.
SONORA
*MARCELO DE PAIVA ABREU, economista - PUC/RIO
*ARMANDO CASTELAR, economista - FGV
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: MIRIAM LEITÃO
APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO
Em comentário ao Jornal Edição das Dez, da Globo News, a editora de economia Juliana Rosa analisou um levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) sobre a confiança do empresário da indústria. Além disso, ela comentou o anúncio da presidente Dilma Rousseff acerca da criação de medidas para ajudar no crescimento da economia brasileira.
*DILMA ROUSSEFF, presidente do Brasil.
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: EDIÇÃO DAS OITO
APRESENTADOR: MARIA PAULA CARVALHO
5,5% DOS FINANCIAMENTOS DE CARROS NÃO FORAM PAGOS EM FEVEREIROS, REVELA BC TEMPO: 00:02:40
Depois do recorde de produção e vendas de veículos em 2011. surge um novo número que não é positivo. A quantidade de pessoas que não conseguem pagar o financiamento dos carros é a maior dos últimos doze anos. Segundo o Banco Central, 5,5% dos financiamentos de carros não foram pagos em fevereiros.
TV: SBT DF
PROGRAMA: JORNAL DO SBT
APRESENTADOR: CARLOS NASCIMENTO
ECONOMISTA FALAM SOBRE O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL - PARTE 1 TEMPO: 00:14:00
ECONOMISTA FALAM SOBRE O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL - PARTE 2 TEMPO: 00:12:23
Em entrevista ao Programa Miriam Leitão, o economista da PUC do Rio de Janeiro, Marcelo de Paiva Abreu, e o economista da FGV, Armando Castelar, falaram sobre o cenário econômico nacional e o protecionismo na indústria brasileira.
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*MARCELO DE PAIVA ABREU, economista - PUC/RIO
*ARMANDO CASTELAR, economista - FGV
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: MIRIAM LEITÃO
APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO
Petróleo segue firme e preço dos metais recua em março
Por Vanessa Dezem - Valor 30/03
De São Paulo
Enquanto o petróleo retorna ao pico verificado no início do ano passado - quando o mundo vivenciava os piores momentos da primavera árabe -, as commodities industriais, à frente os metais não ferrosos, vão bem no ano, apesar do recuo nas cotações em março. Mesmo com caminhos opostos, o momento do mercado internacional tem um ponto em comum: os preços têm sido mais influenciados pelas notícias sobre a recuperação da economia global e questões geopolíticas do que pelos fundamentos econômicos de oferta e demanda.
"Não é exatamente a demanda e a oferta que estão no foco. As crises geopolíticas têm sido o fator principal de estímulo das cotações do petróleo", afirmou o analista da Ágora Corretora, Luiz Otávio Broad. "Muitos dos fundamentos não têm apresentado influência direta nos preços. As cotações dos metais na LME (a Bolsa de Metais de Londres) têm sido amplamente influenciadas pelo fluxo de notícias, como as que envolvem a Grécia", completou Giles Lloyd, consultor da CRU International, consultoria global do setor de mineração.
O primeiro trimestre representou para os preços do petróleo uma alta de 13,81% na comparação com a última cotação de 2011. O Brent, de Londres - que fechou ontem a US$ 121,63 o barril - vem registrando um movimento de valorização que tem feito com que a commodity atinja os mesmos patamares verificados entre março e abril do ano passado. Enquanto naquela época os investidores temiam o desabastecimento devido à ebulição das crises políticas que ocorriam em diversos países produtores no Oriente Médio e no norte da África, hoje a preocupação está concentrada no Irã. A República Islâmica tem sofrido sanções da comunidade internacional, diante de sua insistência no programa nuclear. "As notícias do embargo do petróleo iraniano têm impulsionado os preços. Não há um grande alavancador da demanda por petróleo que justifique esse avanço", afirmou Broad.
A performance das commodities metálicas, por outro lado, tem sido bastante variada. Em geral, desde o início do ano, as cotações na LME têm apresentado recuperação, mas nos últimos dias esse movimento se inverteu.
O cobre, por exemplo, apresenta alta de 10,11% no acumulado do ano. Em março, no entanto, foi registrada queda de quase 3%. Ontem, a cotação do metal fechou a US$ 8.335 a tonelada. Aos US$ 2.146,50 a tonelada, o alumínio avançou 7,7% no acumulado do ano, mas recuou 8,33% neste mês. Depois da baixa dos preços no segundo semestre do ano passado, o nível em que esses metais se encontram atualmente é semelhante aos registrados no pós-crise, no terceiro trimestre de 2010.
Em janeiro, o impulso dos metais se deu diante dos sinais de que a economia americana - grande consumidora de commodities - estava se recuperando. Para o cobre, esse cenário se somou às expectativas de que a China estaria programando a reconstrução de seus estoques para o segundo semestre, o que deve fazer com que a oferta do país recue, ao mesmo passo que a demanda avance. "O alumínio, por sua vez, ganhou com anúncios de cortes na produção por parte das empresas e a demanda melhor do que o esperado nos EUA", afirmou o chefe para alumínio da CRU, Marco Georgiou.
Esse momento positivo, no entanto, passou a ser questionado. Há na cabeça dos investidores uma incerteza sobre a capacidade das economias emergentes de apresentarem uma demanda cujo desempenho compense a apatia dos países desenvolvidos. Os dados macroeconômicos chineses que têm revelado uma desaceleração da economia do país tem ficado no centro das atenções. "O declínio do final do primeiro trimestre é resultado de uma antecipação do mercado à possível redução da atividade econômica global no período de abril a junho", afirmou o gerente executivo do Instituto de Metais Não Ferrosos (ICZ), Ricardo Suplicy Goes.
Para 2012, analistas estimam menores flutuações. O BofA Merrill Lynch estima um avanço pequeno para a cotação do alumínio, para US$ 2.275 por tonelada. O cobre deve ter recuo, para US$ 7.750. Já o Brent deve alcançar a média de US$ 118 o barril.
Competitividade na incerteza
Por Stéphane Garelli - Valor 30/03
O World Competitiveness Center do IMD está preparando o Relatório Anual de Competitividade Mundial 2012, em meio a uma incerteza econômica global sem precedentes. Interpretar a enxurrada constante de informações - positivas e negativas - não é uma tarefa fácil.
Mas tudo será revelado quando o ranking for divulgado no final de maio. Enquanto isso, veja quatro tendências que irão influenciar a pontuação da competitividade deste ano:
1) A economia global está se fragmentando. É muito difícil falar de uma "economia global", pois há inúmeros modelos econômicos. Alguns países passam por um superaquecimento, como a China e talvez a Turquia. Outros estão em recessão, como - obviamente - a Grécia, e talvez a Espanha ainda este ano. Alguns estão sob o risco da inflação, como a Rússia e a Índia, enquanto outros podem experimentar a deflação, como o Japão e, possivelmente, a Suíça.
Talvez um dos maiores impactos da recessão tenha sido a fragmentação da economia global - um pouco como a difração da luz. A economia global era uma luz branca, mas agora há todos os tipos de tons, e as empresas não estão sabendo lidar bem com isso.
Elas terão de adotar modelos de negócios paralelos. Alguns serão orientados para países com inflação alta, outros para mercados com uma classe média forte. Nas economias emergentes, por exemplo, há um rápido crescimento de uma classe de "menos pobres", e as empresas precisarão adequar um modelo de negócio para isso também.
Portanto, as empresas precisam ser flexíveis, ágeis e sintonizadas com os mercados locais ou regionais. A dificuldade é gerir essa diversidade de modelos de maneira altamente eficiente.
2) As empresas usarão seu caixa. Grande parte do pessimismo atual provém de instituições financeiras e governos, e o mercado é extremamente sensível a isto. Porém, há um grande número de empresas - incluindo aquelas que vêm ao IMD - que estão melhores do que o esperado.
Por exemplo: no final de 2011, empresas norte-americanas tiveram US$ 2,15 bilhões em caixa em seus balanços (a Apple tinha cerca de US$ 98 bilhões - alguns bilhões a mais do que o Tesouro dos EUA). Nunca houve tanto dinheiro em caixa nos balanços corporativos.
O que as empresas fazem com todo esse dinheiro? Primeiramente, elas compram de volta suas ações e aumentam ligeiramente o preço, pois sentem que estão subvalorizadas e querem se proteger de uma possível oferta pública de aquisição. A segunda ação é adquirir outras empresas, então é de se esperar muitas fusões e aquisições em 2012.
Do ponto de vista do investidor, uma boa compra para 2012 será de empresas internacionais blue-chip que têm uma diversificação de risco e bastante dinheiro. Ainda há mercado, as pessoas ainda estão comprando e, provavelmente, farão o possível para manter seu preço de ação.
3) Economias desenvolvidas precisam se reindustrializar. Em 2012, o modelo "Made in" será um aspecto crítico por um motivo bastante simples: os índices de desemprego estão péssimos. A taxa é de 10,4% na Europa e 8,6% nos EUA. Entre os jovens, o índice dobra: 18,5% nos EUA, 21,3% na Europa e chega a 48,7% na Espanha. Isso é uma bomba-relógio social; e é inaceitável - especialmente agora com a proximidade das eleições na França, EUA e em outros lugares.
Como os países criam empregos? Eles têm de fabricar e exportar. Então, vão redescobrir a industrialização. Nos últimos 20 anos, os EUA, Europa e Japão perderam cerca de 20% de sua indústria em termos de percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), e isso também é inaceitável.
Economias desenvolvidas terão de retomar a fabricação doméstica - o que é um grande problema nos EUA. Jeff Immelt, CEO da General Electric, defende fortemente esta empreitada, assim como Sarkozy na França, e estão certos em fazê-lo. O "Made in" é importante porque é o que define, fundamentalmente, um país.
Paralelamente, esperamos ver uma força de mão-de-obra muito mais flexível em todo o mundo. Em vez de demitir pessoas, muitas empresas tentarão reduzir horas de trabalho e baixar levemente os salários. Tanto os empregadores quanto os sindicatos têm um enorme papel a desempenhar.
4) O euro vai sobreviver. O euro não vai desaparecer. Por quê? Porque seria um choque tão grande para todos; porque muito foi investido politicamente; e porque abandonar não é bem do interesse das economias periféricas da zona do euro.
Se a Grécia retomasse o dracma, ainda teria que pagar suas importações em euros ou dólares. Isto seria terrível pois elevaria sua inflação para níveis altíssimos como de Zimbábue.
Portanto, este problema do euro tem de ser resolvido, e a moeda única tem que funcionar. É essencial que os mercados vejam a Europa como o "credor de última instância". E tem que ser o Banco Central Europeu - ou uma instituição que diga: "Aqui está. Seja o que for a dívida, vamos pagá-la". O preço de fazer isso será alto, mas o preço de abandonar o euro será ainda maior.
O sonho da globalização - de uma economia mundial e modelo de negócios global unificada - claramente não se realizará em 2012. O maior desafio para os altos executivos este ano será de gerenciar simultaneamente os diversos modelos de negócios.
A principal preocupação é de que as empresas têm ouvido tantas más notícias de bancos e governos ultimamente, que muitos elaboraram um Plano B por precaução. O problema é que quando todo mundo faz um Plano B, o cenário desse plano pode realmente acontecer.
Stéphane Garelli é diretor do World Competitiveness Center do IMD e leciona no programa Orchestrating Winning Performance.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Defasagem no preço e importação de combustíveis pressionam Petrobras
Por Cláudia Schüffner - Valor 29/03
Do Rio
Os preços da gasolina e do diesel vendidos no Brasil estão 28% mais baratos no Brasil quando comparados aos preços praticados nos Estados Unidos. Os valores se referem aos preços da gasolina A (antes da mistura com álcool) e do diesel com baixo teor de enxofre vendidos nas refinarias da Petrobras no país (antes do pagamento de impostos ao consumidor), comparados aos valores praticados no Golfo do México, incluindo custos com frete, na terça-feira.
Essa defasagem coloca pressão adicional sobre os custos da Petrobras, já elevados pela importação adicional de gasolina e diesel para atender ao consumo crescente. Se a situação permanecer ao longo de 2012, a Petrobras vai perder R$ 2,9 bilhões apenas com a importação dos dois combustíveis.
Pelos cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), somente em janeiro a Petrobras perdeu quase R$ 1 bilhão em função da defasagem do preço da gasolina e do diesel. Se a Petrobras continuar importando gasolina e diesel para atender ao mercado sem corrigir os preços, vai perder cerca de R$ 6 bilhões este ano, prevê Adriano Pires, do CBIE.
Outro fator que afeta a companhia é o aumento da demanda por combustíveis, que só começará a ser parcialmente atendida a partir de 2013, quando a refinaria de Pernambuco (Rnest), entrar em operação. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), no ano passado foram vendidos diariamente 489 mil barris de gasolina, o que exigiu, na média, importações diárias de 34 mil barris. O aumento do consumo de diesel exigiu importações de 162 mil barris/dia, já que a produção de 718 mil barris/dia não atendeu à demanda, de 880 mil barris/dia.
Com base no balanço de 2011, o aumento da demanda provocou elevação da parcela de combustíveis importados nas vendas da Petrobras, de 28% para 32% do total. No ano passado, o consumo aparente de gasolina A cresceu 15% em relação a 2010, e a importação cresceu 333% na mesma comparação. Já as vendas de gasolina C cresceram 18,8%, segundo dados da ANP. Já o consumo aparente de diesel cresceu 3% com relação a 2010, o que elevou em 3,6% as importações. Este ano a situação deve piorar para a companhia, devido à previsão de aumento no consumo.
O assunto se tornou fonte de constrangimento na Petrobras. Oficialmente, os diretores e a presidente da estatal, Graça Foster, afirmam que ainda não há perda. "Não existe defasagem, vendemos pela média", disse ontem uma fonte da companhia.
"Esse negócio de estar ou não na média é balela", afirma o analista de um grande banco, que prefere não ser identificado. "Ajuda a ter preços mais altos em determinados produtos, mas o problema é que como a empresa não tem capacidade de refino, tem que importar. E isso tem impacto no resultado."
O efeito da defasagem sobre os custos da empresa é grande, porque a Petrobras tem que comprar gasolina e diesel no mercado internacional, pagando preços estabelecidos com base em um barril de óleo que está custando mais caro do que o preço de venda no Brasil.
No último trimestre de 2011, o Preço Médio de Realização (PMR) - média do preço de vários combustíveis produzidos pela empresa, notadamente gasolina, diesel, nafta, GLP, combustível de aviação e óleo combustível - era de R$ 173,00 por litro, que equivaliam a US$ 96. O petróleo do tipo brent (utilizado como parâmetro nas contas da estatal) fechou ontem cotado a US$ 124,77 o barril.
Apesar de não comentar o assunto, a direção da Petrobras vem tentando faz tempo reajustar preços, sem sucesso. A Petrobras tem na presidência do conselho de administração o ministro da Fazenda, Guido Mantega. E é justamente a Fazenda quem segura os preços dos combustíveis para manter a inflação sob controle, como afirmou o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, em recente entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo".
Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria, se diz impressionado com as afirmações de Lobão. Segundo o economista e ex-ministro, as declarações mostram a intervenção do acionista controlador na companhia.
"Eu fui da época do controle de preços e a Petrobras se machucou muito. Mas era diferente, havia um processo hiperinflacionário e o controle de preços era parte dos instrumentos de controle do governo. Agora estão usando a Petrobras como instrumento para atingir a meta da inflação", critica, lembrando que, em 2011, o IPCA variou 6,5%, não por acaso o limite superior da meta de inflação. Ele vê aí riscos para a credibilidade do Banco Central e também para o regime de metas.
"No ano passado, o governo só conseguiu cumprir a meta de inflação. Se o cumprimento da meta depender de intervenções do governo em preços relevantes como o do petróleo, o regime de metas foi para o espaço", afirma Maílson. Na opinião do ex-ministro, a utilização da Petrobras para controlar preços da economia gera um ambiente de incertezas para quem investe na Petrobras.
Pires, do CBIE, acha que a situação hoje é pior que na época de controle de preços, quando existia a conta-petróleo. "A Petrobras vendia mais barato, mas se creditava junto ao Tesouro para receber essa diferença. Agora não. Sem controle de preços, o governo tunga o acionista e a empresa. É um dinheiro que ela nunca mais vai ver", afirma.
Desprotecionismo e desindustrialização
Por Luiz Carlos Bresser-Pereira - Valor 29/03
O Brasil vem se desindustrializando prematuramente desde 1980, primeiro, devido à crise da dívida externa e à alta inflação; depois, a partir de 1990, com a abertura comercial e financeira. Estas, além de permitir entradas de capital que apenas apreciavam o câmbio e aumentavam o consumo, implicaram na eliminação do imposto sobre exportações que existia implícito no sistema cambial e tarifário.
O Brasil ficou, assim, à mercê da tendência cíclica à sobreapreciação da taxa de câmbio que caracteriza os países em desenvolvimento que não a administram adequadamente. E sua taxa de câmbio tornou-se apreciada ciclicamente (depreciações ocorrendo nas crises financeiras) e cronicamente, ou seja, no longo prazo. A consequência de tudo isto foi a perda de competitividade da indústria manufatureira brasileira e um grave processo de desindustrialização.
As organizações representativas dos empresários industriais compreenderam esses fatos e desde 2005 passaram a colocar o câmbio como um problema central para o setor. Mas uma associação perversa da ortodoxia neoliberal com os restos do desenvolvimentismo dos anos 1950 vem dificultando uma ação mais decisiva do governo. De um lado temos rentistas e financistas, preocupados com a queda do juros, e representantes do agronegócio, preocupados com a volta do necessário imposto sobre exportações de commodities, e, de outro, desenvolvimentistas, preocupados com a pequena e temporária redução de salários reais que implica levar a taxa de câmbio para o nível de "equilíbrio industrial" (a taxa de câmbio que torna competitivas empresas utilizando tecnologia no estado da arte mundial). Enquanto isso, o governo, calado sobre a questão, buscou baixar os juros e limitar as entradas de capitais, mas, não tendo apoio na sociedade, suas ações foram tímidas e os resultados, incompletos.
As evidências, entretanto, se acumulavam. A participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 35,8% em 1984 para 15,3% em 2011; o saldo da balança comercial de manufaturados, que era positivo de US$ 29,8 bilhões em 2006 transformou-se em um enorme déficit de US$ 48,7 bilhões em 2011. O PIB cresceu apenas 2,7%, e a principal responsável por esse mau resultado foi a indústria que cresceu 0,3% do PIB.
A causa desse óbvio processo de desindustrialização prematura foi, naturalmente, a sobreapreciação do real - uma sobreapreciação que, segundo a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, é cíclica e crônica. Segundo estudo de André Nassif, Carmen Feijó e Eliane Araújo, "The trend of the real exchange rate overvaluation in open emerging economies: the case of Brazil", a taxa de câmbio em abril de 2011 estava valorizada em 80% em relação a seu nível "ótimo", ou seja, em seu nível "de equilíbrio industrial". O número pode ser discutido, mas o trabalho desses competentes economistas mostra que a sobreapreciação da taxa de câmbio no Brasil é muito grande.
Diante do acúmulo das evidências, foi necessário afinal reconhecer o problema da desindustrialização. Mas o câmbio continua a não ser o culpado para os analistas. Para a ortodoxia neoliberal, o culpado é o velho custo Brasil, é a infraestrutura insuficiente, são os impostos altos demais, é a oneração excessiva da folha de salários com direitos trabalhistas. E qual é a solução neoliberal? Resolver esses problemas. Ou seja, nada fazer além do que já está sendo feito, porque esses são problemas antigos e permanentes que todos os governos procuram resolver. Não são fatos novos que são necessários para explicar um fato novo: a desindustrialização.
Já os desenvolvimentistas de mercado interno têm uma outra solução. Ao invés de mexer no câmbio, que implicaria aceitar o "modelo exportador", vamos proteger o mercado interno: vamos fazer política industrial, vamos subsidiar as empresas envolvidas no PAC, vamos desonerar as empresas do IPI e de encargos trabalhistas.
O governo sabe que está em dificuldade, mas hesita em adotar uma política mais firme de depreciação cambial, não compreendendo que a dicotomia crescimento puxado pelo mercado interno ou pelas exportações não faz sentido. O governo Lula distribuiu renda com sucesso. Assim, ele teria "defendido" o mercado interno para a indústria nacional. Engano: defendeu por pouco tempo, até que as importações de bens industriais, que sempre apresentam uma defasagem em relação à apreciação da moeda, chegaram e o mercado interno foi entregue aos exportadores. O governo Dilma tenta replicar o êxito do governo anterior, no qual a distribuição prevaleceu sobre o crescimento, não compreendendo que isto só foi possível devido ao enorme aumento do preço das commodities.
Não obstante, o governo é taxado de "protecionista" pela primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, e o jornal "O Estado de S. Paulo" (26/3) descobriu 40 "medidas protecionistas" no governo Dilma. Não, senhora primeira-ministra, não, velha ortodoxia, o Brasil, com sua taxa de câmbio sobreapreciada, pratica, desde os anos 1990, desde que deixou de abrir em excesso sua economia, uma política econômica desprotecionista. As medidas de política industrial e de controle das entradas de capital que tem tomado nos últimos anos são acertadas, mas ficam longe, muito longe, de compensar uma taxa de câmbio que deveria girar em torno de R$ 2,30 e R$ 2,40 por dólar para ser uma taxa de câmbio equilibrada ou competitiva. E, assim, o Brasil continua a se desindustrializar e a crescer a taxas modestas, muito inferiores às dos países asiáticos dinâmicos.
Luiz Carlos Bresser-Pereira - Professor emérito da Fundação Getúlio Vargas. Autor de "Globalização e Competição"
quarta-feira, 28 de março de 2012
O Globo - Se meio ambiente contasse, PIB do Brasil seria de 3% e não 34% em duas décadas, diz especialista - O Globo
LONDRES — O Brasil paga um preço alto por seu rápido desenvolvimento econômico, de acordo com um novo estudo divulgado ontem na conferência Planeta sob Pressão, em Londres. Entre 1990 e 2008, a riqueza do país, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB) per capita, aumentou 34%. Mas o foco econômico do índice pode mostrar um quadro não muito fiel da realidade nacional, segundo o trabalho. No mesmo período, o capital natural, ou seja, a soma dos recursos naturais — de florestas a combustíveis fósseis — caiu 46%, como revela o Indicador Inclusivo de Riqueza, um índice criado experimentalmente para se contrapor ao PIB como forma de avaliar o progresso de uma nação.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/ciencia/se-meio-ambiente-contasse-pib-do-brasil-seria-de-3-nao-34-em-duas-decadas-diz-especialista-4436300#ixzz1qVNONVut
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Se meio ambiente contasse, PIB do Brasil seria de 3% e não 34% em duas décadas, diz especialista - O Globo
China defende acordo temporário sobre câmbio
Valor 28/03
Um dos mais altos representantes da China no setor financeiro defendeu ontem um cessar-fogo global na área cambial e a busca de cooperação após o confronto com os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre quem é o culpado pelas tensões atuais. "Temos de alcançar pelo menos um acordo temporário na comunidade internacional sobre como tratar da questão cambial", afirmou, em entrevista, Li Ruogu, o presidente do Export-Import Bank of China, depois de participar do primeiro grande seminário na OMC dedicado à relação entre comércio e taxa de câmbio, vista como central hoje.
Ao mesmo tempo, Ruogu acusou os EUA de negligenciar suas responsabilidades na gestão do dólar como moeda de reserva mundial, que Pequim aponta como o real causador de desequilíbrios na economia internacional. Foi a primeira vez que um representante chinês, que repete rigorosamente o roteiro traçado por Pequim, mencionou a possibilidade de acordo internacional na área cambial, num cenário de fricções sobre desvalorização competitiva de moedas e barreiras comerciais.
Já na sessão inicial do debate que a OMC teve de organizar, por iniciativa do Brasil, um ponto forte foi a fricção entre Pequim e Washington, com troca recíproca de acusação pelos problemas atuais. O subsecretário assistente do Tesouro dos EUA, Mark Sobel, pediu a palavra e começou a criticar a política cambial chinesa. Para Sobel, as tensões são resultado de intervenção direta de governos para controlar a taxa de câmbio, mais do que de volatilidade cambial induzida pelos mercados, conforme relataram alguns participantes do encontro a portas fechadas.
Ele perguntou ao representante brasileiro, o empresário Josué Gomes da Silva, de onde vinha a maior concorrência externa para os produtos brasileiros, procurando apontar os chineses como principais culpados. Ele respondeu que as importações vinham majoritariamente da Ásia, mas também dos EUA em razão do real valorizado e do dólar fraco.
Em seguida foi a vez de Li Ruogu jogar a culpa nos americanos. Ele acusou os EUA de política "errática", citando que Washington pedira no passado para Pequim não valorizar sua moeda. Foi uma forma de mencionar os benefícios das milhares de empresas americanas que exportam da China para o mundo todo.
Para a China, a principal fonte dos problemas cambiais vem das políticas fiscal e monetária frouxas dos EUA, com injeção maciça de liquidez nos mercados, provocando enormes fluxos de capital para outros países e forçando a valorização das moedas locais.
Ele argumentou que as estatísticas que apontam a China como o grande exportador mundial são distorcidas por causa das cadeias globais de produção. Ele exemplificou que a exportação de iPhones e iPads é atribuída à China, mas só uma pequena porcentagem do valor final é embolsada pelo país.
Na saída, Li Ruogu reclamou que o dólar americano é usado como moeda de reserva, mas que os EUA não assumem mais a responsabilidade pela questão. "Esse é o problema que temos de discutir. Os EUA têm o direito de dizer que não querem mais assumir esse papel, mas devemos perguntar a alguém ou a algum sistema para assumir esse papel", afirmou. Indagado se o yuan chinês poderia substituir a moeda americana, ele retrucou sorrindo muito: "A China não pode fazer isso, é ainda um país fraco, em desenvolvimento."
Pequim e Washington concordaram pelo menos num ponto: não é a OMC que deve tratar de câmbio para aliviar questões no comércio internacional. Os dois países, inclusive, exigiram da OMC que o seminário fosse fechado. Foi proibido fotografar os participantes, revelar nomes dos palestrantes e também não haverá sequer minuta dos debates.
Os EUA divulgaram comunicado dizendo que defenderam na OMC taxas de câmbio ajustadas em linha com os fundamentos, que resultariam em menos pressão por protecionismo. De seu lado, a China reiterou que os países devem discutir as raízes, e não os efeitos, dos problemas no sistema monetário internacional. Para o Brasil, os efeitos afetam duramente seu parque industrial e precisam de remédio pela OMC.
O embaixador brasileiro Roberto Azevedo reuniu a imprensa internacional no começo da noite, para relatar que nenhum país negou a existência de desalinhamento cambial. Mas tampouco há consenso sobre o tema na OMC.
Um dos mais altos representantes da China no setor financeiro defendeu ontem um cessar-fogo global na área cambial e a busca de cooperação após o confronto com os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre quem é o culpado pelas tensões atuais. "Temos de alcançar pelo menos um acordo temporário na comunidade internacional sobre como tratar da questão cambial", afirmou, em entrevista, Li Ruogu, o presidente do Export-Import Bank of China, depois de participar do primeiro grande seminário na OMC dedicado à relação entre comércio e taxa de câmbio, vista como central hoje.
Ao mesmo tempo, Ruogu acusou os EUA de negligenciar suas responsabilidades na gestão do dólar como moeda de reserva mundial, que Pequim aponta como o real causador de desequilíbrios na economia internacional. Foi a primeira vez que um representante chinês, que repete rigorosamente o roteiro traçado por Pequim, mencionou a possibilidade de acordo internacional na área cambial, num cenário de fricções sobre desvalorização competitiva de moedas e barreiras comerciais.
Já na sessão inicial do debate que a OMC teve de organizar, por iniciativa do Brasil, um ponto forte foi a fricção entre Pequim e Washington, com troca recíproca de acusação pelos problemas atuais. O subsecretário assistente do Tesouro dos EUA, Mark Sobel, pediu a palavra e começou a criticar a política cambial chinesa. Para Sobel, as tensões são resultado de intervenção direta de governos para controlar a taxa de câmbio, mais do que de volatilidade cambial induzida pelos mercados, conforme relataram alguns participantes do encontro a portas fechadas.
Ele perguntou ao representante brasileiro, o empresário Josué Gomes da Silva, de onde vinha a maior concorrência externa para os produtos brasileiros, procurando apontar os chineses como principais culpados. Ele respondeu que as importações vinham majoritariamente da Ásia, mas também dos EUA em razão do real valorizado e do dólar fraco.
Em seguida foi a vez de Li Ruogu jogar a culpa nos americanos. Ele acusou os EUA de política "errática", citando que Washington pedira no passado para Pequim não valorizar sua moeda. Foi uma forma de mencionar os benefícios das milhares de empresas americanas que exportam da China para o mundo todo.
Para a China, a principal fonte dos problemas cambiais vem das políticas fiscal e monetária frouxas dos EUA, com injeção maciça de liquidez nos mercados, provocando enormes fluxos de capital para outros países e forçando a valorização das moedas locais.
Ele argumentou que as estatísticas que apontam a China como o grande exportador mundial são distorcidas por causa das cadeias globais de produção. Ele exemplificou que a exportação de iPhones e iPads é atribuída à China, mas só uma pequena porcentagem do valor final é embolsada pelo país.
Na saída, Li Ruogu reclamou que o dólar americano é usado como moeda de reserva, mas que os EUA não assumem mais a responsabilidade pela questão. "Esse é o problema que temos de discutir. Os EUA têm o direito de dizer que não querem mais assumir esse papel, mas devemos perguntar a alguém ou a algum sistema para assumir esse papel", afirmou. Indagado se o yuan chinês poderia substituir a moeda americana, ele retrucou sorrindo muito: "A China não pode fazer isso, é ainda um país fraco, em desenvolvimento."
Pequim e Washington concordaram pelo menos num ponto: não é a OMC que deve tratar de câmbio para aliviar questões no comércio internacional. Os dois países, inclusive, exigiram da OMC que o seminário fosse fechado. Foi proibido fotografar os participantes, revelar nomes dos palestrantes e também não haverá sequer minuta dos debates.
Os EUA divulgaram comunicado dizendo que defenderam na OMC taxas de câmbio ajustadas em linha com os fundamentos, que resultariam em menos pressão por protecionismo. De seu lado, a China reiterou que os países devem discutir as raízes, e não os efeitos, dos problemas no sistema monetário internacional. Para o Brasil, os efeitos afetam duramente seu parque industrial e precisam de remédio pela OMC.
O embaixador brasileiro Roberto Azevedo reuniu a imprensa internacional no começo da noite, para relatar que nenhum país negou a existência de desalinhamento cambial. Mas tampouco há consenso sobre o tema na OMC.
Por que ficou tão caro produzir no Brasil?
Por José Ricardo Roriz Coelho - Valor 28/03
Caminhamos para ser a quinta economia global, mas até quando poderemos sustentar tal posição com tantas fragilidades no sistema produtivo, elevadas taxas de juros, alta carga tributária, infraestrutura precária e cara? Como queremos ostentar a condição de nação desenvolvida se os brasileiros pagam quase 40% de impostos e se deparam com um dos custos de vida mais elevados do mundo? Os graves efeitos do "Custo Brasil" na produção manufatureira são evidenciados em estudos de respeitados organismos nacionais e internacionais. O setor é o que mais sofre com os persistentes ônus.
Em 2011, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), os impostos pagos pelos brasileiros atingiram 33,99% do Produto Interno Bruto (PIB), superando os 32,72% de 2010. Isso está muito acima da média de 25,5% nos países com os quais competimos. Para a indústria de transformação o problema é mais grave. Embora responda por 16,2% do PIB (dados de 2010 - em 2011 sua participação diminuiu para apenas 14,6% do PIB), ela contribuiu com 33,9% dos impostos. O estudo "A Carga Tributária no Brasil: Repercussões na Indústria de Transformação", do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp, mostra que os tributos representam 40,3% dos preços dos produtos industriais, considerando-se toda a cadeia, à montante e à jusante.
Há, ainda, custos relativos ao pagamento dos impostos. A complexidade do sistema obriga a contratação de serviços não necessários em outros países. Segundo o estudo "Carga Extra na Indústria Brasileira", também do Decomtec/Fiesp, 1,16% do faturamento das empresas é gasto apenas para se manterem em acordo com a legislação, o que significa R$ 19,7 bilhões ao ano. Considerado o pagamento de tributos embutidos nos insumos, o índice sobe para 2,6%.
Além disso, o Bureau of Labor Statistics (BLS), responsável pelas estatísticas trabalhistas nos Estados Unidos, aponta que os encargos sobre a folha de pagamentos no Brasil, os mais altos dentre 34 países analisados, representam 32,4% dos custos com mão de obra na indústria de transformação. São 11 pontos percentuais acima da média das nações avaliadas (21,4%), ou 7,4 à frente da média europeia (25%). Mais grave é a diferença em relação aos emergentes: México, 27%; Argentina e Coreia do Sul, 17%.
O Brasil encontra-se em desvantagem também no custo da eletricidade. Nossa tarifa industrial foi estimada pelo Energy Information Administration (EIA), dos EUA, em US$ 138,00/MWh, a segunda mais alta do mundo. Um bom parâmetro para comparação é o Canadá, onde, como aqui, a matriz energética é baseada na hidroeletricidade. Mesmo assim, a tarifa brasileira é 182% maior. Os encargos e tributos contribuem para isso, mas, mesmo os eliminando, a energia brasileira ainda seria 108,3% mais cara. Resultado: a última Pesquisa Industrial Anual do IBGE mostra ser de 2,6% a participação da energia elétrica e consumo de combustíveis para aquecimento e operação de maquinaria nos custos totais da indústria brasileira de transformação. Ressalte-se: o cálculo não considera a cumulatividade na cadeia de valor.
Também são graves, conforme o Plano Nacional de Logística e Transportes (PNLT), do Ministério da Defesa, os custos nessa área, que representam 20% do PIB. Outro estudo, "Custos Logísticos no Brasil - 2006/2008", da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que o percentual da receita líquida das empresas comprometido com transporte, estoque e armazenagem foi de 7,5%.
Defrontamo-nos, ainda, com um dos mais elevados custos de capital do mundo, que se deve a dois fatores: taxa básica de juro real entre as mais elevadas do mundo e spreads bancários, que aumentaram significativamente após 2008, apesar da redução da Selic. Em função desses fatores, nosso custo financeiro é o mais alto do mundo, sendo 11,5 vezes maior do que o dos países que calculam os juros como o Brasil (Chile, Itália, Japão e Malásia).
Em outro estudo do Decomtec/Fiesp ("Juros em cascata sobre o capital de giro: o impacto sobre a indústria brasileira"), foi estimado que, em 2007, o custo do capital de giro para as indústrias equivaleu a 6,7% do preço dos produtos industrializados, contra 1,97% no conjunto de países incluídos no Índice de Competitividade da Fiesp. Em 2011, o impacto do custo de capital de giro aumentou para 7,5% do preço dos produtos industrializados, uma vez que cresce a taxa de juros para as empresas.
Os juros altos estão intimamente ligados à valorização cambial, cujo mercado é majoritariamente composto por fluxos financeiros, e os capitais são atraídos principalmente pelos juros elevados em comparação com as taxas baixíssimas dos países desenvolvidos. Tendo em vista o câmbio médio do ano e descontando a inflação do Brasil e dos Estados Unidos, o real valorizou-se 49,9% em relação ao dólar, entre 2006 e 2011. Isso é assustador frente a um aumento de produtividade física da indústria de transformação de apenas 9,2%, no mesmo período.
Devido a todas essas razões, e deprimida pela combinação da barata produção chinesa com a demanda combalida dos países ricos, a indústria defende a contínua e rápida redução da Selic e o equilíbrio do câmbio. A bomba que está estourando agora, atingindo primeiramente a manufatura, resulta de termos insistido muito tempo na combinação explosiva de câmbio livre com a maior taxa de juros do mundo. Por isso, o real teve valorização de 74,6%, de junho de 2004 a dezembro de 2011, sem que tivéssemos a mínima possibilidade de melhorar a nossa produtividade, devido ao brutal aumento de custos. Defendemos, sobretudo, a retomada das reformas estruturais, em especial a tributária e trabalhista. São medidas dependentes de políticas públicas, essenciais para conter a desindustrialização e resgatar a competitividade.
José Ricardo Roriz Coelho é presidente da Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast) e da Vitopel e diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp.
Nova era de choques do petróleo
Por Martin Wolf - Valor 28/03
Os preços do petróleo estão em alta. A culpa recai sobre Barack Obama. A solução é fazer perfurações nos Estados Unidos. Esse são os lemas dos críticos do presidente. Todos os presidentes tendem a receber a culpa quando os preços do petróleo estão elevados. Com o preço da gasolina se aproximando a US$ 4 por galão (3,785 litros), a culpa jorra em direção a Obama.
Talvez seja uma política eficiente. Mas é um absurdo. O petróleo, ao contrário do gás natural, é uma commodity negociada mundialmente, cujo preço é determinado nos mercados mundiais. Em 2010, os EUA produziram 7,8 milhões de barris por dia, 9% da oferta mundial. Ao contrário da Arábia Saudita, os EUA não possuem capacidade ociosa: é um seguidor de preços. Em resposta aos críticos Obama disse: "Estamos perfurando mais. Estamos produzindo mais. Mas o fato é que produzir mais petróleo em casa não é suficiente para fazer os preços caírem do dia para a noite". Esses comentários estão corretos, a não ser pelo fim. Produzir mais petróleo praticamente não terá impacto nos preços do petróleo.
Além disso, se há uma causa específica para a alta nos preços do petróleo, é o endurecimento das sanções contra o Irã, o que é apoiado pelos republicanos. Se, como muitos desejam, forem tomadas ações militares, o impacto sobre os preços do petróleo e a economia mundial será muito maior.
No longo prazo, uma grande redução na demanda do EUA, que ainda representa 20% do total mundial, poderia fazer diferença significativa nos preços. Mais do que isso, o relativo desperdício no uso de petróleo nos EUA, em comparação a outros países de alta renda, tornaria tal redução fácil de alcançar. A melhor forma de tornar isso realidade seria elevar os preços, por meio de impostos mais altos. Tal política, contudo, é considerada não americana. É uma política adequada apenas para os frouxos europeus.
Ainda assim, apesar da politicagem absurda, deveríamos estar preocupados quanto ao impacto econômico dos altos preços do petróleo: um aumento de US$ 10 no preço do petróleo transfere US$ 320 bilhões por ano dos consumidores de altos gastos para os produtores de baixos gastos, dentro e entre países. A alta de 15% desde dezembro de 2011 transferiu perto de US$ 500 bilhões. O preço real do petróleo também está muito alto pelos padrões históricos. Novos aumentos levarão o mundo a territórios inexplorados.
Em resumo, aumentos nos preços do petróleo são uma ameaça. Então, o que vai acontecer?
Em recente informe, o Goldman Sachs argumenta que uma alta de 10% nos preços do petróleo pode reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA em 0,2 ponto porcentual depois de um ano e em 0,4 ponto porcentual depois de dois. Na União Europeia (UE), o impacto é menor: redução de 0,2 ponto porcentual no primeiro ano, mas nenhuma no seguinte.
Como, na verdade, o aumento desde dezembro foi de 15%, o impacto nos PIBs dos EUA e UE será uma redução de 0,3 ponto porcentual no primeiro ano - considerável, mas não calamitoso. Esse aumento de preço reduz a renda das famílias dos EUA em cerca de 0,5%. Além disso, um galão de gasolina a mais de US$ 4 poderia ser significativo em um momento em que a confiança está fragilizada, como agora.
O Goldman Sachs também sugere que os fatores que vão determinar a escala de qualquer impacto adverso.
O primeiro é se a alta nos preços é causada pela demanda ou, ainda mais prejudicial, por choques na oferta. A resposta, indica, é que atualmente a demanda é a principal causa da alta dos preços, embora o endurecimento das sanções contra o Irã vai ser mais importante. Em seu informe mais recente, a Agência Internacional de Energia (AIE), com sede em Paris, até condiciona essa opinião. Concorda que "pode não haver interrupção real na oferta no momento decorrente da 'questão' iraniana". "Mas há interrupções fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) em um total em torno a 750 mil barris por dia".
O segundo fator se refere à atual capacidade ociosa. A resposta: não muita. Os estoques nos mercados de petróleo de alta renda estão baixos. A produção na Arábia Saudita é a maior nos últimos 30 anos, o que sugere capacidade ociosa limitada. Além disso, o crescimento da oferta mundial de petróleo vem se mostrando persistentemente baixo, de menos de 1% nos últimos dez anos, apesar dos preços elevados do petróleo em termos gerais. Com o crescimento econômico mundial potencial em 4% ao ano, a oferta de petróleo crescendo a 1% e a falta de alternativas simples para o petróleo como combustível para o transporte, a oferta provavelmente ficará mais espremida.
Um terceiro fator é o que acontece em outros mercados de commodities. Aqui, as notícias são boas: os preços do gás natural estão em baixa, enquanto os preços agrícolas não vêm se mostrando um grande problema neste ano. Isso deverá limitar o impacto inflacionário.
Uma consideração final é a reação monetária. As notícias continuam favoráveis. Os bancos centrais deverão ignorar as oscilações nos preços das commodities, particularmente as que tiverem impacto recessivo, desde que não sejam passadas para os salários. Estão certos em agir assim.
O Goldman Sachs conclui, em termos gerais, que o aumento nos preços é um "freio" não uma "ruptura" para o crescimento econômico. O economista-chefe da AIE, Fatih Birol, no entanto, alerta para o risco de excesso de complacência. Destaca que as importações líquidas de petróleo pela UE custarão 2,8% do PIB pelos preços correntes, em comparação ao 1,7% verificado entre 2000 e 2010. Tendo em vista as fragilidades da economia da UE, os perigos são evidentes.
Além disso, em um mercado de petróleo no atual estado de tensão, novos aumentos nos preços são uma possibilidade bem real. Uma guerra contra o Irã seria a possibilidade mais assustadora. Mas o perigo está sempre presente, dada a instabilidade política nos lugares em que o petróleo é produzido. O mundo vai continuar preso nessa zona de perigo, uma vez que a demanda por petróleo dos países emergentes de alto crescimento está em alta. A AIE indica que as vendas na China de veículos utilitários privados chegarão a 50 milhões por ano em 2035, mesmo sob um cenário de eficiência energética. As implicações de tal aumento nas frotas de veículos são bastante óbvias.
O mundo estará vulnerável aos altos preços do petróleo e à repetição de choques enquanto houver estagnação na oferta, aumento na demanda subindo e probabilidade de instabilidade - em resumo, enquanto continuar como está agora. Para os EUA, a melhor resposta seria reduzir a magnitude que o petróleo representa para sua economia, para assim reduzir sua vulnerabilidade a esses choques. A alta nos preços ajudará a conseguir isso. Mas por que deixar toda essa receita ir para os estrangeiros? Em vez disso, faz muito mais sentido tributar as importações e ficar com parte disso.
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
terça-feira, 27 de março de 2012
Resgate financeiro de fôlego curto
Por Wolfgang Münchau - Valor 27/03
Bem-vindos de volta à crise. E deverá ficar pior quando os mercados descobrirem que a região do euro pretende driblar a necessidade de aumento no "guarda-chuva" de proteção financeira contra a crise europeia. O argumento ouvido é um perfeito exemplo de lógica circular: não precisamos de um guarda-chuva maior porque as pressões do mercado arrefeceram.
Bem, as pressões do mercado voltaram a aumentar recentemente. Investidores estão preocupados com a Espanha.
Ao longo do fim de semana, Angela Merkel preparou uma de suas célebres mudanças de direção e lançou um balão de testes na imprensa alemã, o de que estava, no fim das contas, pronta para aceitar um aumento nos programas de resgate financeiro.
A aritmética, no entanto, é tediosa e a maioria das declarações que nos chega obscurece a questão, somando os mesmos números duas vezes. Os Estados Unidos e outros países do G-20, das principais economias mundiais, defendem que a contribuição da região do euro para o guarda-chuva de proteção total dobre, dos atuais € 500 bilhões para € 1 trilhão. Nesse caso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) entraria com mais € 500 bilhões
Para conseguir isso, a região do euro teria de tomar duas medidas. Primeira, precisaria combinar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês), o guarda-chuva temporário de € 440 bilhões, e seu sucessor permanente, o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM). Segunda, teria de tornar permanente a contribuição do EFSF, já que de outra forma o fundo acabaria em 2013. As duas medidas seriam necessárias para chegar um total próximo a € 1 trilhão. Merkel, entretanto, não vai oferecer isso. Nem de perto.
Da forma como compreendi, ela está preparada para oferecer apenas uma fusão parcial e, ainda assim, apenas por um período de transição. Especificamente, os alemães propõem agregar os compromissos existentes do EFSF - os programas da Grécia, Irlanda e Portugal - ao ESM. Isso nos levaria a um total aproximado de €700 bilhões. O problema é que esses números não podem ser somados simplesmente. Uma vez que os programas antigos expirem, eles acabaram. Mais dinheiro, portanto, teria de vir do ESM. Com o tempo, o teto voltaria aos € 500 bilhões. Esse acordo, no máximo, proporcionaria um aumento pequeno e temporário no teto.
Ainda assim, elevaria o risco máximo temporário da Alemanha de € 211 bilhões para cerca de € 280 bilhões. Isso representa um problema político enorme para a primeira-ministra, porque exigiria uma votação no Bundestag, o Parlamento alemão, que anteriormente havia acertado que o passivo total de € 211 bilhões não deveria ser superado. A quantia de € 211 bilhões ganhou ares simbólicos nos debates na Alemanha. Merkel e outros políticos comprometeram-se várias vezes a não quebrar o limite. O CSU, ala da Baviera do partido de Merkel, se opõe. Depois da eleição de domingo em Sarre, a coalizão da primeira-ministra enfrentará um desafio ainda maior na Renânia do Norte-Vestfália, com eleições marcadas para maio. Não se esqueçam que as eleições lá acabaram atrapalhando o primeiro pacote de resgate financeiro da Grécia.
A fusão total dos dois fundos, do EFSF e do ESM, elevaria temporariamente o risco da Alemanha para cerca de € 400 bilhões. Acho difícil de ver como o Parlamento alemão simplesmente aceitaria quase dobrar o risco, depois de ter dito e repetido que isso não seria necessário. E mesmo isso não iria satisfazer o resto do mundo, uma vez que seria apenas um aumento temporário.
A reação europeia típica a impasses do tipo é valer-se de contabilidades criativas. Ouvi a sugestão de que se poderia "esticar" o capital resgatável do ESM. Isso deixaria intocado o número mágico de € 211 bilhões. Também significaria, contudo, que a capacidade total de resgate em nenhum momento seria maior do que 500 bilhões de euros. O resultado, ainda assim, seria mais parecido a um revólver de brinquedo do que a uma "grande bazuca". O mercado precisou de várias semanas para entender o significado dos recentes desenvolvimentos políticos e econômicos na Espanha. Podem ser necessárias mais algumas até que se compreenda a posição da Alemanha sobre o ESM.
O significado real, contudo, apenas fica claro quando se avaliam as duas questões juntas.
O atual ESM é grande o suficiente para lidar com países pequenos, mas não com a Espanha. Acredito que Madri acabará tendo de solicitar algum programa, especificamente para lidar com as dívidas paralisantes do setor financeiro espanhol. Mesmo uma versão minimamente expandida do ESM, no entanto, não seria suficientemente grande.
O que esse impasse nos revela é que estamos nos aproximando dos limites políticos dos programas multilaterais. Caso se queira pedir recursos nessa escala, será necessária "responsabilidade conjunta e solidária" - ou seja, todos os países da região do euro precisam ser responsabilizados conjuntamente - sem passivos específicos para cada país. Chamem de eurobônus ou como quiserem. Caso tampouco se queira isso, então será preciso aceitar que simplesmente não haverá proteções para a Espanha. Como disse, bem-vindos de volta à crise.
Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.
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