quarta-feira, 21 de março de 2012

Como dissipar as nuvens sobre a China



Por Martin Wolf - Valor 21/03

A China está entrando em uma transição difícil: para menor crescimento e diferente padrão de crescimento. Essa é a conclusão que tirei do Fórum de Desenvolvimento da China deste ano, em Pequim. Além disso, é provável que a transição seja tanto política como econômica. Essas duas transições também interagem mutuamente de formas complexas. O histórico passado de sucesso econômico, sob o comando do Partido Comunista, não assegura um futuro de sucesso comparável.

Os leitores não precisam aceitar o que digo. Eles podem ouvir o que disse Wen Jiabao, premiê em vias de deixar o cargo, em 14 de março: "A reforma na China chegou a um estágio crítico. Sem o êxito de uma reforma estrutural política, será impossível instituirmos plenamente uma reforma estrutural na economia. Os avanços que obtivemos em termos de reforma e desenvolvimento poderão ser perdidos, novos problemas que surgiram na sociedade chinesa não poderão ser solucionados fundamentalmente e uma tragédia histórica, como a Revolução Cultural, poderia voltar a acontecer".

Estas questões políticas são de grande importância. Mas a transição econômica em si mesma será bastante difícil. A China está chegando ao fim do que os economistas denominam "crescimento extensivo" - estimulado por crescentes insumos de mão de obra e de capital. O país precisa, agora, passar para um "crescimento intensivo" - estimulado por progressos em capacitação e tecnologia. Entre outras consequências, a taxa de crescimento da China desacelerará fortemente, de sua taxa anual média de cerca de 10% nas últimas três décadas. O que torna essa transição mais difícil é a natureza do crescimento extensivo chinês, particularmente a extraordinária taxa de investimentos e a forte dependência em relação aos investimentos como uma fonte de demanda.

A China está deixando de ser um país com mão de obra excedente, em termos do modelo de desenvolvimento criado por Arthur Lewis, agraciado com o prêmio Nobel. Lewis argumentou que a renda de subsistência do excedente de mão de obra na agricultura define um teto baixo para os salários no setor modernizado. Isso tornou esse setor extremamente rentável. Desde que os elevados lucros fossem reinvestidos, como na China, a taxa de crescimento do setor moderno e, portanto, da economia seria bastante elevado. Mas, em algum momento, a mão de obra se tornaria mais escassa na agricultura, acarretando aumentos no preço da mão de obra no setor moderno. Os lucros seriam espremidos e a poupança e os investimento cairiam, à medida que a economia amadurecesse.

A China de 35 anos atrás era uma economia com excedente de mão de obra. Hoje, isso já não é verdade, em parte porque o crescimento e a urbanização foram tão rápidos: desde o início de reformas, a economia chinesa cresceu mais de 20 vezes, em termos reais, e metade da população da China é agora urbana. Além disso, a taxa de natalidade chinesa implica que a população em idade economicamente ativa (15 a 64 anos) atingirá um pico de 996 milhões em 2015. Um estudo de Cai Fang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, afirma que a "escassez de mão de obra tornou-se galopante em todo o país depois que irrompeu nas zonas costeiras, em 2004. Em 2011, as empresas industriais depararam-se com dificuldades sem precedentes e generalizadas na contratação de pessoal". O estudo de Fang fornece provas irrefutáveis do resultante aumento dos salários reais e de lucros cada vez menores.

A China está agora no "ponto de inflexão de Lewis". Uma das consequências é que, a uma determinada taxa investimento, a relação capital/trabalho crescerá mais rapidamente e os retornos também cairão mais rápido. De fato, fortes evidências dessa elevação na intensidade de capital surgiu antes mesmo do ponto de inflexão de Lewis. De acordo com Louis Kuijs, um ex-economista do Banco Mundial, a contribuição do aumento da relação capital/trabalho (em oposição à contribuição de maior "produtividade total dos fatores" (PTF), ou produtividade geral) para maior produtividade da mão de obra subiu de 45 % entre 1978 e 1994 para 64% entre 1995 e 2009.

Isto terá de mudar. O crescimento da China precisa ser impulsionado por crescente PTF, que sustentará os lucros, em vez de puxado por crescentes proporções capital/trabalho, que produzirão quedas nos lucros, especialmente agora que os salários reais estão subindo rapidamente. Alguma queda nos lucros é desejável, dada a má distribuição de renda. Levada muito longe, prejudicará o crescimento potencial.

A dificuldade de fazer a transição para um crescimento impulsionado por progresso técnico é uma das razões pelas quais tantos países caíram no que veio a ser denominada "armadilha da renda média". A China, agora um país de renda média, está determinada a tornar-se um país de alta renda até 2030. Isso exigirá reformas profundas, que são explicadas em notável recente relatório conjunto do Banco Mundial e do Centro de Pesquisas de Desenvolvimento do Conselho de Estado*. Essas reformas afetarão negativamente interesses estabelecidos, particularmente em governos locais e em empresas estatais. Essa é certamente uma grande razão pela qual Wen julga relevantes as reformas políticas.

A necessidade de realizar difíceis reformas para sustentar o crescimento nas próximas duas décadas é o desafio de longo prazo para a China. Na tentativa de chegar lá, o país enfrenta os riscos de curto prazo de uma aterrissagem brusca, como salientou Nouriel Roubini, da Stern School of Business, da New York University, na conferência. A meta do governo chinês é de um crescimento anual de 7,5% para este ano e de 7% no período do atual plano quinquenal. Parte dessa desaceleração parece inevitável. À medida que o crescimento cair, também diminuirá a necessidade de taxas de investimento extraordinárias.

No entanto, sair de uma taxa de investimento de 50% do Produto Interno Bruto (PIB) para outra, de 35%, sem uma profunda recessão no meio do caminho, exige um crescimento correspondente no consumo. A China não tem nenhuma maneira fácil de engendrar tal surto, razão pela qual sua reação à crise tem sido investir ainda mais. Além disso, a China passou a depender fortemente de investimentos na construção civil: nos últimos 13 anos o investimento em habitações tem crescido a uma taxa média anual de 26%. Esse crescimento não persistirá.

A China poderá, efetivamente, administrar a transição para um tipo muito distinto de crescimento econômico. O país ainda tem um enorme potencial para progredir. Mas as dificuldades para se adaptar ao novo padrão serão enormes. Muitos são os países de renda média que não tiveram êxito nisso. É difícil argumentar contra a China, em vista de seus sucessos anteriores. A melhor razão para confiança é que os decisores máximos não exibam tal complacência. (Tradução de Sergio Blum)

* China 2030 www.worldbank.org



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 20 de março de 2012

Novo recorde de produção de petróleo em janeiro



Fonte: Assessoria de Imprensa da ANP - (21) 2112-8333 - imprensa@anp.gov.br


Em janeiro de 2012 houve novo recorde na produção de petróleo no Brasil e, pelo segundo mês consecutivo, foi superada a marca de 2,2 milhões de barris diários. Foram produzidos aproximadamente 2,231 milhões de barris/dia (bbl/d) de petróleo, o que representa um aumento de aproximadamente 5,1% na comparação com o mesmo mês em 2011. Em relação a dezembro de 2011, o crescimento foi de 0,8%. O principal motivo do novo recorde de janeiro de 2012 foi o aumento da produção da P-56 no campo de Marlim Sul.

A produção de gás natural no Brasil foi de aproximadamente 71,1 milhões de metros cúbicos/dia (m³/d), um incremento de 7,3% frente ao mesmo mês em 2011 e de 0,3% se comparada ao mês anterior. A produção de petróleo e gás natural no Brasil foi de aproximadamente 2,678 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d). As informações estão no Boletim da Produção de janeiro de 2012 que a ANP divulga hoje em sua página na internet.

No mês de janeiro de 2012, 309 concessões operadas por 26 empresas foram responsáveis pela produção nacional. Destas, 80 são marítimas e 229, terrestres. Das 309 concessões, onze se encontram em atividades exploratórias e produziram por meio de testes de longa duração (TLD), e outras nove são de campos licitados contendo acumulações marginais. A produção de petróleo e gás natural no Brasil foi oriunda de 9.077 poços. O grau API médio do petróleo produzido no mês foi de aproximadamente 23,7°, sendo que 8% da produção é considerada óleo leve (>=31°API), 55% é óleo médio (>=22°API e <31°API) e 37% é óleo pesado (<22°API) (classificação de acordo com a Portaria ANP nº 09/2000).

Queima de gás


A queima de gás natural foi de aproximadamente 4,5 milhões de m³/d, uma redução de aproximadamente 25,9% em relação ao mesmo mês em 2011 e de 11,9% na queima de gás natural se comparada a dezembro de 2011.

Do total de gás natural queimado, 85,2% é oriundo de campos produtores e 14,8% de TLDs da Fase de Exploração. Considerando apenas as concessões na fase de produção, o aproveitamento de gás natural no mês foi de 94,6%.

Campos produtores

O campo de Marlim Sul foi o com maior produção de petróleo e também de gás natural. Este campo também foi o que teve o maior crescimento de produção de petróleo e gás natural, com aproximadamente 53,7 mil boe/d a mais do que em dezembro de 2011. Os poços interligados à plataforma P-56, em operação desde agosto de 2011, foram responsáveis por 89% deste crescimento.

Os três campos terrestres com maior produção de petróleo e gás natural, em barris de óleo equivalente, foram Rio Urucu, Leste do Urucu e Carmópolis, respectivamente. Seis poços terrestres estão entre os 30 poços com maior produção de gás natural, sendo quatro do campo de Rio Urucu e dois do campo de Leste do Urucu.

Campos operados pela Petrobras foram responsáveis por em torno de 91,6% da produção de petróleo e gás natural em janeiro de 2012. Aproximadamente 92,1% da produção de petróleo e 76,8% da produção de gás natural do Brasil foram extraídos de campos marítimos. Dos 20 maiores campos produtores de petróleo e gás natural, três são operados por empresas estrangeiras: Peregrino/Statoil (11º), Frade/Chevron (12º), e Ostra/Shell (16º).

Dois campos iniciaram a produção neste mês: Cupiúba, na bacia de Solimões, com em torno de 487,8 boe/d, e Rio Mariricu Sul, na bacia de espírito Santo, com cerca de 1 boe/d. O campo com o maior número de poços produtores foi Canto do Amaro, Bacia de Potiguar, com 1.118 poços

Pré-sal

A produção do pré-sal foi de 152,3 mil bbl/d de petróleo e 4,8 milhões de m³/d de gás natural, totalizando 182,5 milhões de boe/d, uma redução de 9% em relação ao mês passado. A redução se deve ao fim dos testes de produção no poço 1BRSA108AESS, no campo de Jubarte. Produção é oriunda de oito poços: 6BRSA639ESS em Jubarte, 9BRSA716RJS, 3BRSA496RJS e 9BRSA908DRJS em Lula, 6BRSA806RJS em Caratinga e Barracuda, 6BRSA817RJS em Marlim Leste, 6BRSA770DRJS em Marlim e Voador, e 3BRSA861SPS no TLD-BM-S-9 (Carioca Nordeste).

Dos oito poços produtores de reservatórios do pré-sal, sete estão entre os 30 poços com maior produção total, em barris de óleo equivalente. Destaque para os três poços produzindo atualmente no Campo de Lula que figuram na lista dos 30 maiores produtores. O poço 9BRSA716RJS, de Lula, segue como poço com a maior produção de petróleo, pelo nono mês seguido, com uma produção de 27,2 mil bbl/d. O segundo poço com maior produção, 3BRSA496RJS, também está localizado no campo de Lula, e produziu em torno de 25,9 mil bbl/d.

Plataformas

A P-57, localizada no campo de Jubarte, produziu, através de 11 poços a ela interligados, cerca de 142,0 mil boe/d foi a plataforma com maior produção.

Bacias maduras

A produção oriunda das bacias maduras terrestres (campos/TLDs das Bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 172 mil boe/d, sendo 141,6 mil bbl/d de petróleo 4,8 milhões m³/d de gás natural. Desse total, 3,2 mil boe/d foram produzidos por concessões não operadas pela Petrobras, sendo 421,8 boe/d em Alagoas, 986,3 boe/d na Bahia, 24,3 boe/d no Espírito Santo, 1.387,6 boe/d no Rio Grande do Norte e 440,1 boe/d em Sergipe.

Os campos com acumulações marginais produziram ao todo 113,7 bbl/d de petróleo e 33,7 mil m³/d de gás natural. Dentre esses campos, Bom Lugar, operado pela Alvorada, foi o maior produtor de petróleo, com 37,6 bbl/d, e Morro do Barro, operado pela Panergy, foi o maior produtor de gás natural, com 31,5 mil m³/d.





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ENTREVISTA DO ECONOMISTA LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS AO CANAL LIVRE (PARTE 1)  TEMPO: 00:35:34

ENTREVISTA DO ECONOMISTA LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS AO CANAL LIVRE (PARTE 2)  TEMPO: 00:01:11

ENTREVISTA DO ECONOMISTA LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS AO CANAL LIVRE (PARTE 3) TEMPO: 00:12:00


Em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, o economista e ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros fala sobre os desafios da indústria brasileira, a manutenção do crescimento econômico, políticas de incentivo ao consumo e a guerra cambial

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GOVERNO AUTORIZA REAJUSTE DE QUASE 6% NO PREÇOS DOS REMÉDIOS TEMPO: 00:02:00


O governo federal autorizou os laboratórios a aumentarem os preços dos remédios em quase 6% a partir do dia 31 deste mês. O reajuste de 5,85% é a variação do Índice de Preço ao Consumidor (IPCA) dos últimos 12 meses. Com isso, segundo o governo, a alta ficou menor que no ano passo.

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AUDITOR FISCAL DA RECEITA TIRA DÚVIDAS SOBRE O ENVIO DA DECLARAÇÃO DO IR TEMPO: 00:09:2



Mais de 3,2 milhões de pessoas já fizeram a declaração do Imposto de Renda. Em entrevista ao Edição das Dez, o auditor fiscal da Receita Federal, Leônidas Quaresma, tira as dúvidas de telespectadores na hora de enviar a declaração. SONORA:*LEÔNIDAS QUARESMA, o auditor fiscal da Receita Federal.

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Não há uma "siesta" espanhola



Por Wolfgang Münchau - Valor 20/03

Os mercados chegaram à conclusão de que a crise da zona do euro terminou. Vários políticos disseram que também eles acreditam que o pior já passou. A complacência está de volta. Lembro-me de declarações semelhantes no passado. Sempre que há algum progresso técnico - uma operação de socorro, uma injeção de liquidez, uma troca de dívida bem sucedida - o otimismo retorna.

Se você acha que as políticas do Banco Central Europeu (BCE) "compraram tempo", deveria perguntar-se: tempo para quê? A situação da dívida da Grécia permanece insustentável; o mesmo se aplica a Portugal, bem como ao setor bancário europeu e também ao espanhol. Mesmo que o BCE venha a oferecer financiamento barato e ilimitado durante o resto da década, isso não seria suficiente.

Na Espanha, a maior parte da dívida tóxica foi assumida pelo setor privado. O nível de endividamento do setor privado, especificamente das famílias e das empresas não financeiras, era equivalente a 227,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no fim de 2010, segundo o Eurostat. Os dados do ano passado ainda não foram divulgados, mas o número será apenas um pouco menor. Uma das áreas onde o ajustamento está acontecendo é o mercado imobiliário. O melhor índice para a Espanha é a nova série compilada pelo Instituto Nacional de Estatística, que mostra que o índice geral de preços das casas caiu 11,2% só no ano passado, mas baixou apenas 21,7% desde o pico no terceiro trimestre de 2007. Devemos lembrar que a bolha espanhola foi muito mais extrema do que outras, mas os preços só baixaram cerca de 20%. Na região de Madri, os movimentos podem ter sido mais intensos, com uma queda de 29,5%.

Segundo minhas estimativas, o ajuste nos preços das casas na Espanha ainda não chegou à metade. Em termos reais, o boom imobiliário americano já foi quase completamente cancelado. Os gráficos de bolhas históricas, se expressos em preços reais, tem belas curvas em forma de sino. Isso faz sentido, uma vez que a propriedade doméstica é um ativo real improdutivo. Na Espanha, como em outros países, seria razoável supor que os preços reais acabarão por cair para onde estavam entre meados e fim da década de 1990.

O governo espanhol obrigou os bancos de poupança a depreciar suas carteiras de imóveis em € 50 bilhões neste ano. Isso é apenas uma pequena parte do que será necessário se o mercado imobiliário cair como, acredito, acontecerá. Estimativas oficiais assumem quedas suaves de preços e uma recuperação rápida da economia. Ambas as hipóteses são delirantes. Como poderá ocorrer uma recuperação da economia espanhola, se os setores privado e público estão se desalavancando ao mesmo tempo - e provavelmente assim continuarão por muitos anos?

A desalavancagem do setor público será maligna. O déficit ficou em 8,5% do PIB no ano passado. Essa foi uma arremetida exagerada, mas o motivo não foi indisciplina fiscal. Isso foi necessário para evitar um desaquecimento maior. A meta recentemente revisada é de 5,3% para este ano e 3% para 2013. Assim, o ajuste total do setor público necessário em vista da regras europeias impostas para os déficits é de incríveis 5,5% em dois anos - isso, em meio a uma recessão. Se observarmos o grau de desalavancagem mundial que se avizinha, tanto no setor público como no privado, a questão não é se a economia espanhola conseguirá se recuperar em 2012 ou 2013, mas se poderá efetivamente recuperar-se antes do fim desta década.

A típica reação europeia a essa última afirmação é dizer que as reformas econômicas aumentarão a confiança e produzirão crescimento. Os otimistas apontam para a Itália, onde a nomeação de Mario Monti para o posto de primeiro-ministro produziu um círculo aparentemente virtuoso de reformas e taxas de juros de mercado mais baixas. A principal reforma nos dois países foi um moderado relaxamento da leis trabalhistas. Embora isso seja provavelmente necessário, eu ficaria surpreso se produzirá um impacto relevante sobre as taxas de crescimento no longo prazo. Se assim for, grande parte da literatura sobre o mercado de trabalho teria que ser reescrita.

Para a Espanha, a política correta de ajuste seria um programa para forçar uma deslavancagem do setor privado em três a cinco anos, apoiado por déficits continuamente substanciais do setor público e, sim, acompanhada também por reformas econômicas. O momento para enfrentar o déficit do setor público será após a desalavancagem do setor privado ter sido concluída. Tal política não apenas facilitaria o ajuste. Ela o aceleraria.

Mas uma combinação de políticas monetárias ultrafrouxas e contenção fiscal atrasaria o inevitável ajuste. A Espanha continua aprisionada numa armadilha de endividamento cada vez mais profunda, cuja única saída será um calote. Se o país implementar as políticas acordadas, terminará onde estão Grécia, Portugal e Irlanda - sob um guarda-chuva de socorro. Esse é o cenário mais provável para a Espanha.
Em novembro, eu disse que os líderes europeus tinham apenas 10 dias para salvar o euro. Meu diagnóstico, então e agora, é que eles falharam. As políticas do BCE não compraram tempo. Elas frearam o ritmo dos processos políticos e do ajustamento econômico necessário para solucionar a crise. O pior, temo, ainda está por vir. (Tradução de Sergio Blum)



Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.

A Abimaq e o PIB



Por Antonio Delfim Netto

Em condições normais, a importação é um fator de produção tanto quanto o trabalho ou o estoque de capital. Mas, quando temos "condições normais"? Quando a taxa de câmbio é o preço relativo que (com uma estrutura de tarifa efetiva adequada) produz o equilíbrio entre o valor do fluxo das exportações e das importações de bens e serviços produtivos e a política fiscal tem espaço para acomodar, sem custos exorbitantes, as eventuais flutuações produzidas pelo aumento das oportunidades de investimento estrangeiro. Isso exige que a taxa de juro real interna seja igual à externa. Para que haja reciprocidade na alocação eficiente dos fatores as mesmas condições devem valer para todos os participantes do comércio internacional. Não é assim, quando os parceiros fazem manobras para desvalorizar as suas moedas e expandir as suas exportações, à custa da redução da produção nacional dos outros.

A taxa de câmbio é, sempre, de uma forma explícita ou velada, sujeita à vigilância das autoridades de cada país, atenta aos seus efeitos que podem ser devastadores quando o desequilíbrio pode durar alguns anos e produzir cicatrizes definitivas na estrutura produtiva do país. Não tenhamos ilusão: a taxa de câmbio sempre foi, é e será instrumentalizada.

Alguns ficaram surpresos com o resultado do pequeno crescimento do PIB em 2011. Não deviam. Era evidente que nossa política monetária usando as medidas prudenciais e a alta da taxa de juros no início do ano estava tentando controlar a demanda global. O crescimento da economia estava rodando a 7,5% ao ano no quarto trimestre de 2010 com relação ao seu homólogo de 2009 e já no 1º trimestre de 2011 havia caído para 2,7% na mesma comparação. Terminamos com um crescimento de 2,7%. Qual o principal fator dessa desaceleração?

A resposta é simples: o afundamento da indústria de transformação. Ela cresceu apenas 0,1% no ano e registrou uma queda de 2,5% no 4º trimestre com relação ao 3º. Se tivesse se expandido no ano apenas 3%, o PIB provavelmente teria crescido 3,5% pelos efeitos multiplicadores do setor. É claro que não se tratou apenas do "controle da demanda", que era necessário, mas deveria ser evidente que o tal crescimento de 7,5% em 2010 era produto de um efeito estatístico. O crescimento médio do PIB entre 2008 e 2010 foi de 4,1%.

Entre 2008 e 2011 o saldo da balança comercial da indústria de transformação passou do equilíbrio a um déficit de US$ 43 bilhões. O que mudou na "produtividade" do setor a não ser a "supervalorização cambial" e a ação dos países predadores com suas moedas desvalorizadas (especialmente a China) que se defenderam da crise invadindo os mercados dos países incautos? Um cálculo grosseiro mostra que a nossa relação câmbio/salário (a taxa de câmbio real) caiu cerca de 30% no período. Com o yuan administrativamente "desvalorizado" em pelo menos 30% (além dos subsídios de toda a natureza: juros, transporte, ausência de assistência social, preços políticos do aço, energia etc) pode-se falar, sem corar, em "competição" ou diferença de "produtividade"? De resto, há evidências empíricas que a produtividade por homem/hora no chão da fábrica no Brasil e na China são praticamente iguais. A diferença está fora do portão da fábrica! Mas há muito mais. Sustentando o yuan desvalorizado, a exportação chinesa desloca deslealmente a nossa para os EUA, para a Europa e para o Mercosul. Produz um duplo efeito sobre nosso PIB: reduz o valor adicionado no nosso setor industrial e corta-lhe as exportações. Tudo sob os olhos complacentes da OMC.

A Abimaq acaba de divulgar um trabalho preocupante que deve ser analisado e levado a sério, porque os números estão cuidadosamente verificados. Entre 2004 e 2009, os preços de máquinas e equipamentos (IPA) cresceram 21,1% e o faturamento líquido do setor 32,8%, o que sugere um crescimento físico do setor da ordem de 1,9% ao ano, enquanto o PIB cresceu a 3,6% ao ano. Os preços dos insumos cresceram à taxa de 6,3% ao ano, os salários à taxa de 9%, e os encargos e benefícios à taxa de 10%. No caso dos insumos em 2011, por exemplo, a tonelada de aço no Brasil custava 30% acima do preço internacional e o gás natural, por milhão de BTU, seis vezes mais do que nos EUA!

Com esses fatos não é difícil "explicar" porque a balança comercial de bens de capital acumulou um déficit de US$ 63 bilhões entre 2004 e 2011 e a indústria química assistiu a um crescimento exponencial do seu déficit comercial no último quinquênio, atingindo US$ 26 bilhões em 2011. Nem porque o "coeficiente de penetração" nos bens de capital cresceu de 22% em 2004 para 40% em 2011, enquanto para o setor manufatureiro global passou de 11% para 20%.

O efeito acumulado do crescimento dos preços dos insumos básicos internos, da proteção da tarifa efetiva de insumos básicos importados e da "supervalorização" da taxa de câmbio entregou o mercado das indústrias de transformação à produção estrangeira, dando-lhe as condições para ocupar sua capacidade ociosa e aproveitar os ganhos de escala. Não foi sem razão, portanto, que o crescimento de 0,1% do nosso setor manufatureiro nos roubou quase 1% do crescimento do PIB. É hora de cuidar do câmbio e de proporcionar condições isonômicas para nossos produtores, o que agora tenta fazer o governo federal.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Em 8 anos, energia sobe 246% no País e 35,3% nos EUA

Agencia Estado

SÃO PAULO - Os preços pagos na indústria pela energia elétrica subiram espantosos 246% no Brasil entre 2003 e 2011, enquanto a alta nos Estados Unidos foi de 35,3%, aponta levantamento da MB Associados.

O gás natural - outro importante insumo para a produção industrial - custa hoje US$ 15 por milhão de BTU (British Thermal Unit - medida padrão do setor) em Camaçari, na Bahia.

Em Henry Hub, na Louisiana, o gás natural está cotado a US$ 2,50 por milhão de BTU. Essa é a região usada para balizar os preços dos contratos futuros de gás na Bolsa de Nova York.
De acordo com Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, os preços do gás natural devem se manter baixos nos Estados Unidos por causa do início da exploração das imensas jazidas de gás de xisto do país.

"Com insumos e mão de obra mais baratos, os Estados Unidos estão se tornando novamente atrativos para a produção industrial", disse Vale.

China. Não é só em relação ao Brasil que o remédio amargo da crise fortaleceu a indústria dos Estados Unidos. Estudo do Boston Consulting Group (BCG) prevê que em apenas cinco anos os custos de produção dos EUA e da China estarão praticamente equiparados.

O levantamento projeta um aumento de 15% a 20% para o salário médio na China por ano até 2015. Os chineses ainda vão receber menos que os americanos, mas a diferença não vai compensar gastos com transporte, aluguéis ou tarifas de importação.

A expectativa é que as unidades instaladas na China se voltem para o mercado local, que promete crescer à medida que o governo estimula o consumo.

Já os EUA começariam a recuperar parte do parque industrial que perderam para o gigante asiático. "A realocação industrial está em fase inicial e vai variar de setor para o setor, mas os EUA estão se tornando um país de baixo custo", diz o BCG. "Carolina do Sul, Tennessee e Alabama vão se transformar em alguns dos lugares de menor custo de produção do mundo."







Economia americana resiste bem ao petróleo caro, mas até quando?



Por Ben Casselman e Phil Izzo
The Wall Street Journal

Os preços em alta do petróleo não emperraram a recuperação econômica dos EUA. Mas isso não significa que eles não podem fazê-lo nos próximos meses.

Altas do petróleo podem assolar uma economia, derrubar a confiança do consumidor, inibir o consumo, elevar os preços e acabar freando contratações e investimentos. A boa notícia é que isso ainda não aconteceu. "Os consumidores ainda não se abalaram", disse Ellen Zentner, economista da Nomura Securities International.

Um relatório da Universidade de Michigan e da agência Thomson-Reuters mostrou, na sexta-feira, uma pequena queda na confiança do consumidor desde a sua última medição, mas o índice permanece acima do nível registrado no final do ano passado, quando os preços começaram a subir.

Dos 50 economistas que responderam a pesquisa mensal de previsões do "The Wall Street Journal", 37 (quase três quartos) disseram que os preços do petróleo ainda não tiveram um impacto relevante no crescimento. Mas, quando o assunto é o futuro, há muito menos consenso. Questionados que preço teria um efeito significativo, os economistas responderam com valores que iam desde US$ 115 o barril, apenas um pouco acima do preço atual, até US$ 250 por barril, o que implica uma quase catastrófica crise de suprimento.

Os economistas dizem que o impacto do petróleo na economia vai depender de quatro questões.

1. Até onde os preços vão subir? Especialistas costumam falar como se os preços da gasolina só pudessem subir. No curto prazo, eles podem até estar certos. Os preços do petróleo levam semanas para chegar até os consumidores nos EUA. Assim, altas recentes ainda não foram totalmente sentidas na bomba. O preço da gasolina tende ainda a subir no segundo trimestre, atingindo o máximo em maio.

Mas, para além disso, o caminho é menos nítido. O preço do petróleo se estabilizou nos últimos dias, embora ninguém saiba quanto isso vá durar. Os mercado de futuros mostram os preços da gasolina chegando a um máximo de pouco mais que US$ 4 por galão (US$ 1,06 por litro) nos próximos meses, na mesma faixa de 2008. Isso tudo importa porque pesquisas já mostraram que os consumidores reagem muito mais quando os preços atingem novos recordes do que quando eles só voltam a picos antigos.

2. Com que rapidez os preços vão subir? Preços viram manchetes, mas muitos especialistas argumentam que a velocidade da alta é o que importa. Uma alta longa e gradual dá a consumidor e empresas mais tempo para se ajustarem.

"Se chegarmos a US$ 5 daqui a dois anos e os preços até lá subirem devagar, não vai ser um grande problema", disse Dean Maki, economista-chefe nos EUA do Barclays Capital. "Se chegarmos a US$ 5 amanhã, vai ser um problema."

3. Por que os preços estão subindo? Os preços do petróleo sobem por alta da demanda ou queda da oferta. Os dois têm consequências diferentes para a economia.

Em geral, uma alta derivada de aumento na demanda não preocupa os economistas tanto quanto uma causada por diminuição na oferta. Isso porque uma demanda maior geralmente é sinal de uma economia em crescimento. Se os preços aumentam o suficiente para frear o crescimento, então a demanda também vai diminuir, fazendo os preços caírem também.

Uma interrupção no suprimento tem consequências mais graves, pois pode elevar os preços mesmo numa economia fraca. Foi isso que ocorreu no ano passado: a guerra na Líbia e os conflitos em outros países do Oriente Médio fizeram os preços dispararem, numa hora em que os EUA estavam muito fracos para aguentar o golpe.

O bom senso indica que, este ano, a alta é ao menos em parte causado pela oferta, afetada agora pelas tensões no Irã, embora alguns economistas acreditem que a demanda crescente também está tendo influência. Um aumento nas tensões pode elevar ainda mais os preços nos próximos meses.

4. O resto da economia está forte? No ano passado, os preços do petróleo puseram a economia dos EUA à prova, e ela foi reprovada. Vai ser melhor este ano?

Alguns economistas acham que sim. O mercado de trabalho é o mais desde que a recessão começou. As pessoas tiveram mais um ano para pagar dívidas e equilibrar suas finanças. O setor imobiliário está mostrando sinais cautelosos de melhora. O fato de que os preços do petróleo ainda não descarrilaram a recuperação indica um nível de estabilidade que não havia em boa parte dos últimos dois anos. Mas não conte com essa estabilidade se os preços do petróleo derem nova guinada para cima.

O debate sobre a crise na indústria




Por Luiz Carlos Mendonça de Barros - Valor 19/03

Volto hoje ao tema da crise na indústria brasileira. O retorno a um assunto de que já tratei neste espaço não se faz por falta de alternativa, mas pela relevância desta questão no debate atual. Nos últimos dias vários analistas também refletiram sobre as causas estruturais da incrível perda de energia que assistimos nos últimos tempos na indústria manufatureira do Brasil.

A divulgação de um desastroso índice de produção industrial no ultimo mês de janeiro - queda de mais de 2% em relação ao mês de dezembro - provocou um choque na opinião pública. O governo entrou em pânico e reagiu com medidas pontuais de grande intensidade, como a aceleração dos cortes de juros por parte do Banco Central (BC) e novas ações para tentar brecar a entrada de capitais financeiros. A presidente ameaçou o mercado com uma medida provisória a cada dia para estancar a especulação cambial que ainda é vista em Brasília como a causa última e mais importante da paralisia que parece tomar contas das fábricas brasileiras.

Felizmente este choque negativo de expectativas também provocou um aprofundamento das reflexões de analistas fora do governo. A excitação da mídia em relação a este tema fez com que questões centrais, que vinham sendo deixadas de lado, passassem à primeira linha de preocupações, dando outra dimensão ao debate. Dou um exemplo que me parece exemplar: vários órgãos da imprensa trouxeram à luz do dia a questão da absurda carga de tributos - federais e estaduais - que onera o custo da energia elétrica para a indústria. Isto em um país que tem a felicidade de ter na barata e limpa energia de origem hidráulica a parte mais importante de sua matriz energética.

Mais uma vez insisto na minha tese de que são causas estruturais que estão por trás da crise atual. Com o fortalecimento do real e a abertura de nossa economia às importações, uma série de aleijões, que se escondiam por trás de uma economia fechada por um longo período, começaram a atingir a competitividade da indústria brasileira. Costumo dizer que o fortalecimento de nossas contas externas representou a queda do Muro de Berlim que limitava a entrada das importações na matriz de oferta de produtos industriais nos mercados brasileiros. Da mesma forma como aconteceu na Alemanha, sem este divisor artificial entre mercado interno e externo, uma verdadeira revolução ocorreu em vários mercados nos últimos anos no Brasil.

Para enfrentar este choque de competição o governo - e algumas das lideranças empresariais - preferiram o caminho mais fácil de eleger inimigos externos como responsáveis pelas dificuldades criadas para as empresas nacionais. Sem entender - e aceitar - o caráter racional destas mudanças preferiram buscar medidas pontuais que restrinjam a competição das importações. Afinal reformas estruturais sempre atingem padrões de comportamento firmemente estabelecidos na sociedade e implicam em perdas para alguns setores.

O governo não entende que em uma economia de mercado organizada - e este é o caso do Brasil hoje - existe uma integração racional entre seus vários setores. Em outras palavras, a economia responde naturalmente a mudanças estruturais causadas por novas condições externas e internas. E qualquer tentativa artificial - principalmente por parte de intervenções pontuais do governo - de impedir que esta acomodação ocorra vai gerar tensões e, no longo prazo, distorções perigosas em vários mercados.

Vivemos nestes últimos tempos um destes momentos em que, para tentar proteger o setor industrial de reflexos negativos criados pela nova situação externa da economia brasileira, o governo prejudica setores que se beneficiam de condições extraordinárias de eficiência e de produtividade, como é o caso da agricultura e do setor mineral.

Dou um exemplo dramático e que ainda não foi devidamente percebido. Durante décadas a agricultura brasileira viveu à míngua por conta da escassez de recursos para financiar suas atividades de custeio e investimento. Os empresários do setor dependiam quase integralmente do crédito do Banco do Brasil que, como os cometas, aparecia e desaparecia em função das crises fiscais do governo federal. Pois, mais recentemente, em função da confiança externa no setor e em nossa moeda, uma modalidade de crédito criada pelo mercado passou a irrigar o campo: antecipação de pagamentos por conta de exportações futuras de seus produtos. Como as commodities têm seus preços denominados em dólares, há um casamento perfeito entre o endividamento dos produtores e suas receitas de exportação.

Nesta situação os juros baixos dos mercados internacionais de crédito passaram a beneficiar diretamente os produtores brasileiros. Pois uma das medidas mais recentes tomadas pelo governo na sua cruzada contra a valorização especulativa do real - a imposição de um IOF de 6% na entrada destes recursos - tornou muito mais caro e difícil a obtenção destes recursos por parte dos exportadores brasileiros e entre eles, nossos agricultores. Será que o governo avaliou corretamente esta medida? Parece-me que não.



Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

Brasil frente às tendências da política monetária



Por Felipe Tâmega - Valor 19/03

A crise internacional de 2008/09 foi quase sem precedentes e a reação também teve que ser proporcionalmente enérgica. Costurou-se uma combinação de estímulos monetários e fiscais de forma a promover uma política keynesiana para reverter a queda do produto. Entretanto, a margem de manobra fiscal e monetária era limitada. Por um lado, no passado, a política fiscal não fora perfeitamente anticíclica, mas sim enviesada para o lado do gasto. Por outro lado, o espaço para estímulos monetários também era reduzido, já que a combinação de juros baixos com inflação baixa, numa conjuntura recessiva, rapidamente levou alguns países a uma armadilha de liquidez.

Criou-se, assim, o espaço para relaxamentos monetários heterodoxos ("quantitative easing", ou simplesmente QE) que miram os agregados monetários. De fato, relaxamentos monetários acabaram sendo adotados por diversos países desde a crise de 2008/9. O que é novidade hoje é a sincronização da implementação dos mesmos.

A liquidez assim gerada no mundo desenvolvido acabará por transbordar para as economias emergentes, atraída por melhores perspectivas de crescimento e por maiores taxas de juros. Por sua vez, esse fluxo de entrada de divisas estrangeiras gera uma pressão por apreciação cambial das moedas dos emergentes que seria equivalente a um aperto monetário. Assim, um novo equilíbrio seria gerado com moeda mais forte e menor crescimento nos emergentes.

O problema é que os países emergentes não querem deixar suas moedas se apreciarem frente às moedas dos países que estão fazendo o relaxamento monetário e tampouco pretendem desaquecer mais suas economias. Os bancos centrais emergentes encontram-se assim num dilema: pretendem evitar a apreciação de suas moedas, via controle de capitais e intervenções no câmbio, mas, ao fazerem isso, diminuem o ímpeto do processo de arbitragem internacional que geraria uma taxa de juros mais baixa internamente. Portanto, a estratégia dos emergentes acabará gerando queda dos juros numa conjuntura de pouca apreciação de suas moedas e ambiente favorável ao aumento das taxas de inflação.

O maior nível de atividade desses países poderia gerar algum equilíbrio via deterioração de seus balanços de pagamentos (via aumento das importações e diminuição das exportações), mas tal efeito fica limitado pela manutenção de taxas de câmbio artificialmente desvalorizadas e de um possível aumento do protecionismo. Portanto, a correção dos desequilíbrios existentes provavelmente se dará da pior forma possível: via aumento das taxas de inflação.

Estamos, dessa forma, caminhando para um mundo mais leniente com o risco inflacionário. Nos países sob relaxamento monetário, a expectativa é de que o aumento da liquidez gere inflação no futuro, enquanto que nos emergentes a combinação de câmbio controlado com inflação de custos (via commodities) gera mais inflação hoje. Estamos também caminhando para um mundo com menos restrições fiscais nos emergentes e com mais restrições fiscais nos avançados. Do ponto de vista dos emergentes, e do Brasil em particular, fluxos abundantes de capital ajudam a aliviar as restrições fiscais domésticas. É necessário que o Brasil seja responsável do ponto de vista fiscal para não padecer do mesmo mal que os países desenvolvidos se encontram hoje, quando precisam dar estímulos fiscais e não podem devido ao histórico de aumento do endividamento ao longo dos anos. Ainda que os ajustes fiscais brasileiros recentes tenham sido bastante tímidos, eles representam passos na direção correta.

Estamos ainda caminhando para uma mudança na forma como a política monetária é hoje conduzida. Desde a década de 1990, havia um consenso implícito de que o sistema de metas de inflação, cujo instrumento primordial é a taxa de juros, balizava melhor as decisões de política econômica. Hoje, os juros se tornaram ineficazes em alguns países desenvolvidos por conta de armadilhas de liquidez, enquanto que na maior parte do mundo emergente a arbitragem de juros vem gerando "indesejável" aperto monetário por meio da apreciação cambial.

Dessa forma, instrumentos heterodoxos de política monetária vêm ganhando espaço ao redor do mundo. Além disso, análises recentes sobre a crise de 2008/09 apontam para um maior escopo de atuação dos bancos centrais, notadamente para manter a estabilidade financeira. A preocupação é legítima e engendra novos objetivos para a autoridade monetária que podem ser incorporados de maneira relativamente simples nas funções de reação dos bancos centrais.

Nesse ponto, vale ressaltar, contudo, os resultados de Bernanke & Gertler (2000, 2001): bancos centrais que respondem agressivamente à inflação estabilizam melhor o crescimento econômico comparado a bancos centrais que também respondem a bolhas em preços de ativos. Além disso, essas funções de reação ampliadas podem, por vezes, implicar maior inflação, já que é possível que os objetivos de política monetária e de estabilidade financeira sejam temporariamente conflitantes.

A preocupação maior é também que essa mudança institucional possa abrir espaço para uma leniência maior ao risco inflacionário nos países emergentes (notadamente no Brasil), onde preocupações sobre a estabilidade financeira possuem dimensão e natureza distintas.



Felipe Tâmega é economista-chefe do Banco Modal.

O único show na cidade



Por Martin Wolf - Valor 19/03

O ônus da política macroeconômica do Reino Unido recai sobre o Banco da Inglaterra. George Osborne, ministro da Economia, em vez disso, deu claros sinais de que apostará até o fim na disciplina fiscal. Não importa que engenhosidade apareça no orçamento da próxima semana, provavelmente fará pouca diferença no desempenho imediato da economia, como meu colega Chris Giles destacou na semana passada. Isso não tira a importância do orçamento. Como também mostrou Paul Johnson, diretor do Instituto de Estudos Fiscais, um sistema tributário destituído de princípios e repleto de truques é imprevisível e, portanto, é fonte de incertezas prejudiciais. Infelizmente, é improvável que isso mude.

A grande dúvida macroeconômica é se a "flexibilização monetária quantitativa", conhecida em inglês pelas siglas "QE", de fato funciona. As somas envolvidas são espantosas. Quando sua terceira rodada de compras de ativos estiver concluída, o Banco da Inglaterra terá 325 bilhões de libras esterlinas (US$ 511 bilhões) em ativos financeiros, predominantemente bônus governamentais do Reino Unido, os "gilts", que terão sido comprados com a impressão de novo dinheiro. Terá em mãos perto de um terço do mercado de gilts. Sim, trata-se de uma monetização. Mas, então, isso é algo eficiente ou mesmo perigoso?

A opinião do Banco da Inglaterra é que a flexibilização quantitativa é uma extensão natural da política monetária, necessária quando a taxa de juros está em 0,5%, a menor nos 318 anos de existência do banco central*. Com as medidas convencionais esgotadas, o Banco da Inglaterra, assim como o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) e o Banco Central Europeu (BCE), foram levados, em vez disso, a tentar medidas altamente incomuns.

O Banco da Inglaterra sustenta que as compras de ativos funcionam porque recuperam a confiança, sinalizam a política futura, obrigam o reequilíbrio das carteiras de investimento, melhoram a liquidez e aumentam a base monetária quando o mecanismo-padrão - empréstimos aos bancos - fica congelado. Em termos gerais, a análise do Banco da Inglaterra indica que a flexibilização quantitativa inicial, de 200 bilhões de libras, elevou o Produto Interno Bruto (PIB) entre 1,5% e 2% e a inflação entre 0,75% e 1,50%. Se for isso, evitou uma recaída recessiva, embora tenha agravado uma inflação que já era alta - uma troca razoável. Se as rodadas posteriores de flexibilização quantitativa, acertadas em outubro de 2011 (75 bilhões de libras) e fevereiro de 2012 (50 bilhões de libras) tiveram impacto proporcional, podem ter elevado o PIB em 1% a 1,25% - algo bom, mas não decisivo. É impressionante o quanto o banco central precisa fazer quando a demanda agregada, oferta de crédito e confiança das empresas ficam tão abaladas.
Uma preocupação válida sobre a eficiência das medidas é que a política do Banco da Inglaterra não ajude as pequenas e médias empresas. Compreensivelmente, esse é um tópico de discussão acalorada na Comissão do Tesouro na Câmara dos Comuns. O Banco da Inglaterra argumenta que cabe ao Tesouro assumir riscos de crédito. A situação nos Estados Unidos e na região do euro é diferente: seus Tesouros estão com a capacidade afetada. A posição do Banco da Inglaterra, sem dúvida, é razoável. Se o governo for assumir riscos, deveria fazê-lo sob um programa acordado e legislado.

Se a política é perigosa? Uma histeria comum é que a flexibilização quantitativa teria colocado o Reino Unido na rota da hiperinflação. Se for assim, a preocupação não é a de que os efeitos da flexibilização monetária seriam muito pequenos, mas que seriam enormes e impossíveis de reverter no momento apropriado. Nenhuma dessas opiniões parece fazer sentido. Em um sistema bancário contemporâneo, não há uma relação de correspondência imediata entre reservas e empréstimos. Tomara que pudesse ser assim! Seria muito fácil arquitetar a recuperação. Uma vez que os empréstimos enfim se recuperassem e fosse apropriado apertar a política monetária, então a flexibilização quantitativa poderia ser rapidamente revertida, deixando que alguns gilts vencessem e vendendo outros ao mercado. É por isso que o Banco da Inglaterra deveria manter os gilts em vez de permitir que sejam cancelados. Dizer que essa política é perigosa é como dizer que a quimioterapia é perigosa. Condições perigosas exigem terapias fortes. O medo de que não se possa lidar com essas terapias é desespero.

Um argumento diferente é o de que a política é injusta, porque prejudica os poupadores prudentes. Toda política monetária, contudo, tem efeitos de distribuição. Não podem ser evitados. Nesse caso, o acúmulo de enorme exposição financeira antes da crise foi em grande parte consequência do aumento dos preços das propriedades. Os vendedores e seus herdeiros se beneficiaram. Os que foram obrigados a captar para comprar propriedades caras perderam. Não houve nada justo nisso e nada garantido sobre a renda que as pessoas poderiam ganhar com esses patrimônios artificialmente inflados. Se as taxas de juros agora fossem ficar substancialmente maiores, a economia ficaria mais fraca, os preços residenciais cairiam, haveria uma onda de falências pessoais e até os ativos financeiros estariam em risco. Isso não seria melhor nem para os poupadores supostamente prudentes.

Outro argumento, mais plausível, é o de que a política de taxas baixíssimas ameaça criar empresas insolventes que continuam a operar, as "empresas zumbis" e, portanto, uma economia zumbi. Na pior hipótese, o dinheiro baratíssimo do banco central poderia fracassar em recuperar a economia no curto prazo e, dessa forma, criar uma economia de empresas zumbis no longo prazo. Esse resultado precisa ser evitado.

A solução é obrigar os bancos a ampliar o capital e dar baixa contábil nos empréstimos de difícil recuperação. Sim, a flexibilização quantitativa é uma necessidade perturbante. Mas é uma necessidade. O medo, mais adequadamente, deveria ser o de que não funcione bem o suficiente, não o de que será prejudicial.



* "The United Kingdom's quantitative easing policy" (A política de flexibilização monetária quantitativa do Reino Unido, em inglês. Quarterly Bulletin, Terceiro Trimestre de 2011. www.bankofengland.co.uk



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

sexta-feira, 16 de março de 2012

BC indica que taxa Selic cairá só até 9%



Por Mônica Izaguirre e Murilo Rodrigues Alves - Valor 16/03
De Brasília

O Banco Central sinalizou, ontem, que o ciclo de afrouxamento monetário iniciado em agosto de 2011 se encerrará quando a taxa básica de juros brasileira chegar a 9% ao ano. A indicação está na ata da reunião em que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 10,5% para 9,75% ao ano. Segundo o documento, o Copom vê grande probabilidade de que a taxa se estabilize em patamar ligeiramente acima do mínimo histórico, que é de 8,75%.

"O Copom atribui elevada probabilidade à concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares ligeiramente acima dos mínimos históricos, e nesses patamares se estabilizando", diz o texto.

Esse mínimo, de 8,75% ao ano, vigorou de 23 de julho de 2009 a 28 de abril de 2010. A redução da taxa na ocasião também foi uma resposta à crise financeira internacional e seus efeitos negativos sobre a economia doméstica.

Dois dos sete integrantes do Copom queriam, na semana passada, que a Selic fosse reduzida em 0,5 ponto percentual, corte da mesma magnitude dos quatro anteriores. A ata sugere que não houve divergência quanto ao tamanho do ajuste total da taxa, ou seja, até que nível o juro básico deve cair no atual ciclo. A discordância refere-se à distribuição do ajuste no tempo.

Os votos divergentes basearam-se no argumento de que, na visão do colegiado, a inflação evoluiu conforme o esperado desde a reunião de janeiro e que, por isso, não houve "mudanças substantivas nas estimativas para o ajuste total das condições monetárias". A maioria, entretanto, entendeu que a situação da economia recomenda, neste momento, "redistribuição temporal do ajuste total das condições monetárias como a estratégia mais apropriada".

A desaceleração da economia brasileira, que já tinha justificado os cortes anteriores, voltou a ser apontada pelo comitê como um dos fatores da nova redução da Selic. A queda no ritmo de crescimento no segundo semestre do ano passado foi maior do que a prevista, reafirma a ata. Em outro trecho, o documento destaca que a produção industrial caiu 2,1% em janeiro, depois de ter crescido 0,5% em dezembro. O texto não deixa claro, no entanto, se o comportamento dos indicadores do nível de atividade doméstica foi mesmo o principal motivo da decisão de fazer um corte maior do que os anteriores na Selic.

O Comitê acha que houve "alguma melhora" das perspectivas para a economia mundial. Mesmo assim, considera que o quadro externo ainda é de incerteza "muito acima da usual", com perspectivas deterioradas para o nível de atividade econômica e riscos elevados para a atividade financeira global.
O cenário melhorou "na margem", entre outros fatores, porque caiu a aversão ao risco e consolidou-se uma percepção mais positiva em relação à economia americana. Também contribuiu a recente atuação do Banco Central Europeu (BCE), no sentido de dar liquidez ao sistema financeiro da Europa, o que, na visão do Copom, reduziu, "no curto prazo, a probabilidade de eventos bancários extremos".

Por outro lado, o Copom acha que a melhora foi marginal porque, nos Estados Unidos, ainda persistem riscos, como a recente alta dos preços do petróleo e a perspectiva de contenção fiscal. Na Europa, persistem riscos elevados para a estabilidade financeira global, devido à exposição de bancos internacionais às dívidas soberanas de países com desequilíbrios fiscais. Ainda em relação à Europa, a ata afirma que eventos recentes indicam a postergação de uma solução definitiva para a crise financeira do continente. Por tudo isso, o cenário externo continua sendo "desinflacionário", diz a ata.

No cenário central com que trabalha o Banco Central, a inflação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) evoluiu dentro do esperado desde o início do ano e fechará 2012 em torno do centro da meta, fixado em 4,5%.

O Copom admite que o descompasso entre o crescimento da oferta e da demanda em segmentos específicos da economia brasileira persiste. Mas avalia que os riscos daí derivados são decrescentes. Além disso, vê espaço para que as indústrias atendam ao crescimento de demanda sem pressionar preços, uma vez que a utilização da capacidade instalada está "abaixo da tendência de longo prazo". Os preços das commodities também estão ajudando a aliviar pressões inflacionárias.

Por outro lado, o Copom continua achando estreita a margem de ociosidade do mercado de trabalho. Nessa circunstância, a possibilidade de aumentos de salários incompatíveis com o aumento da produtividade representa um risco importante para a dinâmica da inflação, entende o colegiado.

A ata reitera a avaliação de que a demanda doméstica segue "robusta", especialmente o consumo das famílias, devido a fatores como crescimento da renda e expansão do crédito, que deve permanecer moderada.

Já o setor público deverá contribuir para conter a demanda interna da economia, por causa da política fiscal de geração de superávits primários. O BC pressupõe um superávit de 3,1% em 2012 e 2013.

Câmbio mínimo para indústria está em R$ 1,80, indica pesquisa



Por Tainara Machado - valor 16/03
De São Paulo

A taxa mínima de câmbio para que as exportações sejam competitivas está em queda desde março de 2009, embora com períodos de leve alta, segundo pesquisa mensal do departamento econômico do Bradesco feita com cerca de 2.000 empresas do setor industrial. Em 2009, o dólar deveria valer no mínimo R$ 2,20 para que as exportações mantivessem competitividade.

Acompanhando a valorização do real, o câmbio aceitável pelos industriais também veio ganhando força e chegou a R$ 1,70 em junho do ano passado. Após leve repique no segundo semestre de 2011, o patamar mínimo para o dólar indicado na pesquisa chegou a R$ 1,80 em março, abaixo do que reivindicam muitos setores organizados.

O diretor do departamento de pesquisa e estudos econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, avalia que a capacidade de alguns setores de lidar com uma taxa de câmbio mais valorizada é sinal que, nos últimos anos, uma fatia relevante das empresas conseguiu adaptar sua estrutura de custos para arcar com os desafios do real mais forte.

"Uma parcela importante das empresas mudou o mix de componentes, com a importação de partes. Para as empresas com fornecedores internacionais, uma taxa de câmbio depreciada não é interessante", afirmou.

Barros afirma que um câmbio de R$ 1,80 para a média do setor industrial seria muito razoável em um horizonte de curto prazo. No entanto, diz, é um desafio para alguns segmentos, entre eles o têxtil, que passa por problemas estruturais e gostaria, de acordo com a mediana das respostas obtidas pela pesquisa, de um câmbio mínimo de R$ 1,98 para exportar.

Para Ruy Baumer, presidente do Sindicato da Indústria de Artigos e Equipamentos Odontológicos, Médicos e Hospitalares do Estado de São Paulo (Sinaemo), o ideal, para que a indústria pudesse competir de igual para a igual no mercado internacional, seria que a moeda brasileira perdesse força e voltasse para um patamar entre R$ 2,20 e R$ 2,30 em relação ao dólar.

"As empresas, porém, conseguem sobreviver com o câmbio a R$ 1,80, ao reduzir ao máximo os custos e trocar os fornecedores nacionais de matérias-primas e componentes por insumos importados", afirmou. Outra iniciativa, explica Baumer, foi ampliar a capacidade de produção para minimizar o custo por unidade.

Como decorrência da contínua valorização da moeda nacional ante o dólar, as empresas passaram a reduzir preços e comprimir margens. "Por isso, cada vez menos companhias têm capacidade de investir em inovação, o que limitará ainda mais a competitividade dessas empresas no mercado internacional futuramente", disse o presidente do Sinaemo.

No setor, a taxa mínima de câmbio para que as exportações continuem a competir com os concorrentes internacionais é de R$ 1,79 hoje, ante R$ 1,85 em março do ano passado, de acordo com a mediana das respostas obtidas pelo Bradesco.

As importações também foram a saída encontrada por outros segmentos industriais, como o de equipamentos elétricos e eletrônicos. Para Luiz Cezar Rochel, gerente de economia da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o setor está desnacionalizando componentes ou parte do portfólio. Nesse caso, se antes a empresa produzia cinco produtos aqui, agora fabrica três e importa os outros dois. Desse modo, o crescimento do faturamento é mantido, mas o nível de produção é bem mais fraco.

Mesmo com essa alternativa, algumas linhas de produção da indústria eletroeletrônica estão sendo fechadas, diz Rochel. Por isso, o gerente da Abinee afirma que "a taxa de câmbio a R$ 1,80 é o mínimo aceitável para que a indústria possa sobreviver, mas minha sensibilidade é de que deveria estar em torno de R$ 2,30".

No caso da indústria de móveis, as importações de produtos finais incomodam menos, mas a formação de joint ventures entre empresas brasileiras e internacionais facilitou o desembarque de componentes, como material para gavetas e armários, com custo bastante favorável, afirma Lipel Custódio, diretor da Associação Brasileira das Indústrias do Imobiliário (Abimóvel). Como parte da cadeia é hoje alimentada por importados, o câmbio mínimo para as empresas do setor, que era de R$ 1,91 em março do ano passado, passou para R$ 1,79.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Plástica (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho, é mais duro e afirma que o atual patamar de câmbio é proibitivo e tira do jogo as empresas brasileiras do campo de competição internacional. "A participação das exportações na receita das empresas caiu e elas estão perdendo terreno também no mercado interno", afirma.

Segundo Coelho, o real menos apreciado serviria de contraponto ao custo Brasil, como os preços de energia elétrica e gás natural, a carga tributária e o complicado sistema de arrecadação de impostos, além da infraestrutura deficitária. Essas seriam soluções de médio e longo prazos, diz Coelho, e a indústria precisa de remédio no curtíssimo prazo, o que seria possível com a desvalorização do real.

Para Barros, do Bradesco, no entanto, não é o câmbio o principal agravante para o problema de falta de competitividade da indústria brasileira. "A maior dificuldade da indústria hoje é o fato do mundo estar abarrotado de produtos industriais, com empresas desesperadas por mercados em que há crescimento do consumo", afirma. Como o varejo no Brasil apresenta dinamismo, ainda que venha se desacelerando, o país é um claro destino para exportações, avalia.

BC compra dólares e R$ 1,80 pode ser "novo piso"


De São PauloDepois de sete dias apenas observando a movimentação do mercado, conforme o dólar saia de R$ 1,730 para R$ 1,80, o Banco Central (BC) voltou a marcar presença no mercado de câmbio.
Foram duas compras à vista, que não impediram uma queda no preço da moeda americana, mas serviram para manter o dólar acima de R$ 1,80.

Ao retomar atuação quando o dólar ameaçou perder tal linha de preço, o raciocínio imediato é de que R$ 1,80 seria o "novo piso" para o preço do dólar, depois da luta em torno do R$ 1,70.

Segundo o vice-presidente de tesouraria do Banco WestLB, Ures Folchini, o governo tem uma nova estratégia para o câmbio. Antes, esperava o dólar atingir R$ 1,70 para lançar as atuações e medidas. Agora, o BC e o governo não devem esperar para ver até onde o dólar pode cair. "Ele está querendo mudar o patamar da moeda", diz Folchini

Na visão do tesoureiro, essa "guerra cambial" tem de ser observada dentro de uma ótica de política de governo, que está focada, agora, no crescimento econômico e na manutenção dos níveis de emprego. Duas variáveis que podem ser afetadas pelo preço da moeda.

Segundo o superintendente de tesouraria do Banco Banif, Rodrigo Trotta, as atuações do BC não estavam no programa.

A sua percepção era de que a autoridade monetária deixaria o mercado trabalhar sozinho com o real no atual nível de preço. "Não que o BC tenha acenado um nível de preço. Não acredito nisso", diz o especialista. Para Trotta, ainda é cedo para se pensar nisso. Pode ser que o BC tenha atuado para retirar excesso de moeda do mercado e não para defender uma linha de preço.

De fato, o volume estimado para o mercado interbancário foi elevado, com giro de cerca de US$ 2,1 bilhões, concentrados no período da tarde. Por isso, diz Trotta, é melhor aguardar as próximas sessões para ver qual será a postura da autoridade monetária.

No fim do pregão, o dólar comercial mostrava baixa de 0,17%, a R$ 1,804 na venda. Mas antes disso caiu a R$ 1,788 (-1,05%) e subiu a R$ 1,812 (+0,28%). No mês, a moeda sobe 4,88%.

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o dólar para abril perdia 0,46%, a R$ 1,8075, antes do ajuste final.

O BC comprou dólares às 12h10, pagando R$ 1,8057 e voltou ao mercado por volta das 15h40, tomando moeda a R$ 1,8046. O dólar chegou a subir após os leilões, mas não se sustentou.

Os pobres podem salvar o mundo?



Por Jean-Michel Severino e Olivier Ray - Valor 16/03

Os acontecimentos até agora em 2012 confirmaram uma nova assimetria mundial. Espremidos entre uma insegurança financeira sem precedentes e perspectivas econômicas nebulosas, os países ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e suas classes médias temem sofrer enfraquecimento geopolítico e mobilidade social descendente. Em grande parte da Ásia, África e América Latina, no entanto, reina otimismo.

Entre os países desenvolvidos, essa mudança inesperada incitou medidas protecionistas, exemplificadas na defesa pela França de uma "desglobalização". Enquanto isso, entre os países emergentes, o orgulho por vezes manifestou-se como arrogância, que após décadas de prepotência do Ocidente, também chega com um quê de "schadenfreude", o prazer pelo sofrimento alheio. As economias emergentes, em desenvolvimento e desenvolvidas, no entanto, estão ligadas tão intimamente no mundo atual que, ou conseguem sair remando da crise juntas, ou entrarão em uma zona de perigo como não se vê desde a década de 30.

Depois da Segunda Guerra Mundial, emergiu uma nova economia global, na qual um número cada vez maior de países em desenvolvimento adotou modelos de crescimento impulsionados pelas exportações, proporcionando matérias-primas e bens de uso doméstico aos países industrializados. Essa nova economia foi um sucesso inegável: mais pessoas deixaram a pobreza no século XX do que nos dois milênios anteriores. E enriqueceu os países da OCDE, uma vez que a importação de bens e serviços baratos fortaleceu seu poder de compra.

O modelo, contudo, também enfraqueceu as estruturas sociais dos países ricos. Ampliou desigualdades e excluiu uma proporção cada vez maior de suas populações do mercado de trabalho. Além disso, é responsável pelos desequilíbrios financeiros que nos afligem atualmente: para conter os efeitos do aumento da desigualdade e menor crescimento, os países da OCDE impulsionaram o consumo caindo em dívidas - tanto públicas (o que levou à crise das dívidas governamentais da Europa) como privadas (o que facilitou a crise das hipotecas "subprime" dos Estados Unidos).

Isso teria sido impossível se os principais fornecedores de energia e bens industrializados dos países da OCDE não tivessem, ao longo do tempo, se tornado seus credores. Em uma extraordinária inversão da história, graças a grandes reservas internacionais, os pobres do mundo agora financiam os ricos. De fato, a hipertrofia do setor financeiro mundial de hoje em grande parte reflete os esforços para reciclar os crescentes superávits dos países emergentes para cobrir os déficits cada vez maiores dos países ricos.
Até recentemente, essa dinâmica era considerada transitória. O crescimento dos países emergentes necessariamente levaria a uma convergência mundial de salários e preços, portanto, interrompendo a erosão da indústria nos países da OCDE. A transição demográfica nos países emergentes encorajaria o desenvolvimento de seus mercados domésticos, a queda em seus índices de poupança e o reequilíbrio do comércio mundial.

Isso pode ser verdadeiro na teoria, mas a duração desse período de transição, que está no cerne da crise financeira mundial, foi terrivelmente subestimada. A "reversão das carências" - a nova abundância de homens e mulheres que participam ativamente da economia mundial, combinada com os limites cada vez mais visíveis para os recursos naturais outrora abundantes no mundo - ameaça prolongar a transição indefinidamente, por dois motivos.

Primeiro, a partir do ponto de vista macroeconômico, não podemos mais contar com a queda nos preços das matérias-primas, um dos estabilizadores econômicos em tempos de crise. Dada a crescente demanda nos países emergentes, o custo dos recursos naturais está destinado a ser um limitador cada vez maior.

Segundo, do ponto de vista social, depois de a força de trabalho no mercado laboral mundial ter dobrado no século XX, surgiu outro "exército industrial de reserva" na China e entre os três bilhões de habitantes dos países em desenvolvimento do mundo.

Um reequilíbrio do crescimento mundial demasiado rápido, por meio da redução dos desequilíbrios financeiros entre as economias da OCDE e seus mercados emergentes credores é arriscado, porque provocaria uma profunda recessão nos países da organização - e depois nas economias emergentes. Além disso, isso é improvável, porque presume que os países emergentes terão déficits comerciais com os países da OCDE e que os mercados domésticos dos emergentes se tornarão motores do crescimento mundial.

Se a análise for correta, uma nova estratégia de reequilíbrio mundial precisará começar em algum outro lugar que não nas economias ricas da OCDE. A adoção de novos modelos de crescimento no mundo em desenvolvimento - as partes do Sudeste Asiático, América Latina e África que não adotaram estratégias impulsionadas pelas exportações - pode proporcionar, pelo menos em parte, a demanda em falta que a economia mundial precisa tão urgentemente.

O sucesso desse cenário depende da combinação de três elementos. Primeiro, o comércio entre países em desenvolvimento e países emergentes precisa acelerar-se, desenvolvendo, portanto, o mesmo tipo de relação entre consumidor e fornecedor existente entre países avançados e emergentes. Segundo, os mercados internos dos países mais pobres do mundo precisam ser desenvolvidos de forma a alimentar mais crescimento doméstico. E, terceiro, os fluxos financeiros para os países em desenvolvimento - sejam investimentos externos diretos ou fundos assistenciais ao desenvolvimento - precisam aumentar e precisam vir não apenas das economias industrializadas, mas também dos países emergentes e dos exportadores de petróleo.

Reciclar os superávits mundiais por meio dos "bilhões na base da pirâmide" pressupõe uma completa reformulação dos modelos econômicos convencionais, o que essencialmente supõe que o milagre econômico asiático pode ser replicado. Afinal, mesmo se o mundo conseguir crescimento econômico significativo até 2050, dois bilhões dos nove bilhões de pessoas do mundo ainda estarão vivendo com menos de US$ 2 por dia e outro bilhão terá pouco mais do que isso.

Os pobres do mundo não deveriam ser vistos como um fardo, tanto pelas economias emergentes como pelos países ricos. Na atual crise econômica mundial, são a melhor estratégia de saída que temos.

Jean-Michel Severino é diretor de análises da Fondation pour les Études et Recherches sur le Développement International (FERDI) e gerente da Manager of Investisseur et Partenaire



Olivier Ray é economista do desenvolvimento do Ministério de Relações Exteriores da França. São coautores de "Africa's Moment" (A hora da África, em inglês).


quinta-feira, 15 de março de 2012

Desigualdade democrática



Por Raghuram Rajan Valor 15/03

Por que o índice de poupança das famílias nos Estados Unidos despencou antes da Grande Recessão? Dois de meus colegas na University of Chicago, Marianne Bertrand e Adair Morse, propõem uma resposta intrigante: o crescimento na desigualdade de renda.

Bertrand e Morse detectaram que nos anos prévios à crise, em regiões (normalmente Estados) em que o consumo estava alto entre as famílias na faixa dos 20% mais ricos da distribuição de renda, o consumo também estava elevado nas faixas mais baixas. Depois de descartar várias explicações possíveis, eles concluíram que as famílias mais pobres imitavam o padrão de consumo das mais ricas em suas regiões.

De forma consistente com a ideia de que as famílias nas faixas de renda mais baixas estavam "acompanhando o ritmo dos Vanderbilt", os não ricos (mas não realmente pobres) morando nas proximidades de consumidores de alta renda e altos gastos inclinavam-se a gastar muito mais em itens que os ricos consumem normalmente, como joias, serviços domésticos, produtos de beleza e em esportes. Na verdade, muitos captaram empréstimos para financiar seus gastos, de forma que a proporção de famílias pobres com problemas financeiros ou declarando falência foi muito maior em áreas em que os ricos ganhavam (e gastavam) mais. Se não fosse por essa imitação dos padrões de consumo, as famílias não ricas teriam poupado anualmente, em média, mais de US$ 800 nos últimos anos.

Trata-se de um dos primeiros estudos detalhados sobre os efeitos adversos da desigualdade de renda que já vi. Vai além do debate sobre os "1%" - que costuma capturar as manchetes - e mostra que mesmo a desigualdade do dia a dia ante a qual a maioria dos americanos se depara - por exemplo, a desigualdade entre a renda dos leitores típicos deste artigo e o restante - possui profundos efeitos nocivos.

Igualmente interessante é a conexão que o estudo encontra entre a desigualdade de renda e a política econômica pré-crise. Parlamentares republicanos de distritos com maiores níveis de desigualdade de renda mostraram maior disposição em votar a favor de leis para expandir o crédito imobiliário aos pobres nos anos prévios à crise (quase todos os democratas votaram a favor dessas leis, o que torna difícil distinguir seus motivos). E o impacto dos gastos das famílias ricas nos gastos das não ricas foi maior em áreas em que os preços residenciais podiam oscilar mais, sugerindo que o crédito residencial e a capacidade de endividamento graças à alta no patrimônio residencial pode ter respaldado o consumo excessivo dos não ricos.

Fiquei mais fascinado, no entanto, pela diferença entre a reação dos parlamentares à desigualdade no passado e nos dias de hoje. Em estudo sobre as votações parlamentares da Lei McFadden de 1927, que buscou aumentar a concorrência na concessão de créditos, Rodney Ramcharan, do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), e eu concluímos que os congressistas de distritos com alta desigualdade na distribuição de terras - a agricultura era a fonte principal de renda em muitos distritos na época - tendiam a votar contra a lei. A maior desigualdade levava os parlamentares, pelo menos nesse caso, a preferir menos concorrência e menos expansão nos empréstimos. E descobrimos que os condados com menos concorrência no setor bancário passaram por uma expansão agrícola mais moderada e, portanto, por uma queda menor nos anos antes da Grande Depressão.

A lição óbvia a ser extraída desses episódios é a importância das consequências imprevistas. No início do século XX, os proprietários ricos de terras tinham grande probabilidade de também ser donos dos bancos locais de seus distritos ou de ter parentesco ou amizade com os donos. Eles se beneficiavam da concorrência limitada e do controle ao acesso a financiamentos.

Os deputados votavam em nome dos interesses poderosos de seus distritos. Eles preferiam ter menos concorrência nos mercados de crédito, não por preocupação com agricultores imprudentes, mas para defender os lucros das poderosas instituições de crédito. Eles os defenderam, mas um efeito colateral imprevisto foi proteger esses distritos e evitar sua entrada na onda de frenesi financeiro.

Por que os congressistas do século XXI se comportaram de forma diferente? A opinião questionadora, cada vez mais popular, é que novamente eles estavam votando com o bolso - todas as leis financeiras aprovadas no período anterior à crise de 2008 teriam sido supostamente motivadas pelo apetite do setor financeiro por mais clientes para devorar seus créditos tentadores e hipotecas duvidosas.

Mas, se a votação fosse influenciada pelo setor financeiro, o suposto do partido dos plutocratas, o Republicano, deveria ter votado em peso a favor dessas leis. Em vez disso, ficaram divididos com base no grau de desejo de obtenção de financiamento por seus eleitores não ricos. No século XXI, os congressistas passaram uma impressão mais democrática, reagindo aos desejos de seus eleitores, mesmo que possivelmente imprudentes, em vez de ouvir primeiramente os interesses financeiros poderosos.

De fato, uma vez que as consequências imprevistas de suas ações - mais pressão financeira para os não ricos depois da crise - ficaram mais claras, Bertrand e Morse mostraram que os congressistas em distritos com mais desigualdade agiram contra o setor financeiro para proteger seus eleitores, votando a favor de limitar as taxas de juros cobradas pelas instituições de crédito de curto prazo (que emprestam para captadores de baixa renda muito endividados a juros altíssimos). Naturalmente, essa lei terá consequências imprevistas, que estudos futuros desvendarão, mas as intenções por trás dela não podem ser questionadas.

Não devemos pensar, a partir desses episódios, que expandir o acesso ao financiamento é algo negativo. Em geral, expandir o acesso é benéfico (apenas não antes de crises!), mas o financiamento é uma ferramenta poderosa que precisa ser usada de forma sensata. O acesso é bom; o excesso é ruim.

Mas há uma questão mais importante: embora existam muitas diferenças entre a intenção e as consequências de uma lei, no fim das contas os parlamentares parecem realmente importar-se mais com seus eleitores de menor renda do que no passado. A democracia está mais forte. Em tempos céticos como os atuais, isso é encorajador.

Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), é professor de Finanças na Booth School of Business, da University of Chicago, e autor de "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy" (Linhas de falhas: como fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial, em inglês).



Copyright: Project Syndicate, 2012.



Alta da mão de obra na Ásia aumenta custo da indústria



Por James Hookway, Patrick Barta e Dana Mattioli
The Wall Street Journal, de Kuala Lumpur, Bangkok e Nova York

Mais governos asiáticos estão pressionando empresas a aumentar os salários como uma forma de evitar conflitos trabalhistas, o que pode levar a um salto nos custos industriais de multinacionais - e nos preços dos produtos que elas vendem em todo o mundo.

Na medida mais recente, o gabinete da Malásia aprovou, pela primeira vez na história do país, a adoção de um salário mínimo, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. A decisão segue medidas similares no resto da região, onde vários governos, da Tailândia à Indonésia, vêm seguindo os esforços da China nos últimos dois anos para elevar os salários depois de anos de um aumento na desigualdade entre ricos e pobres.

Empresas multinacionais já começaram a enfrentar custos trabalhistas mais altos na China no passado, apesar da fraca economia global, à medida que os trabalhadores passaram a exigir uma participação maior do boom econômico do país. Nos últimos meses, a pressão intensificou-se também em países do Sudeste Asiático que tinham se estabelecido como alternativas para empresas que buscam escapar dos custos crescentes da China, deixando essas companhias agora com menos lugares para onde levar suas operações.

Durante o ano passado, por exemplo, a varejista americana de roupa masculina Jos. A. Banks Clothiers Inc. transferiu parte de sua produção da China para locais mais baratos da Ásia, como a Indonésia, à medida que os custos trabalhistas da China subiam. O diretor-presidente, Neal Black, disse que ainda não notou uma inflação salarial na Indonésia, mas que ela está a caminho. "O ramo das confecções sempre se muda ao redor do mundo em desenvolvimento", disse Black. "Ele gera empregos, dá novas habilidades profissionais às pessoas, que depois se mudam para outros produtos, como os eletrônicos."

Com isso em mente, a Jos. A Banks, que também tem fábricas no Sri Lanka e na Malásia, está aumentando sua capacidade em outras partes do mundo, incluindo a América Central e países como o Haiti e a Jordânia.

Os governos asiáticos, em alguns casos, estão abraçando a causa de salários mais altos, em parte para evitar a propagação do tipo de agitação que recentemente derrubou regimes do Oriente Médio e acalmar a crescente militância trabalhista em seus países.

Eles também esperam que um aumento dos salários ajude os consumidores a gastar mais, proporcionando um novo motor de crescimento num momento em que a baixa demanda por exportações no Ocidente e preços do petróleo mais altos preocupam os formuladores de políticas em toda a região.

Os líderes políticos dizem que não têm outra escolha senão agir, à medida que os eleitores ficam mais atentos aos ganhos salariais em outros países, já que agora podem pesquisar na internet. Protestos recentes de trabalhadores de baixa renda em lugares como a Indonésia e a Tailândia aumentaram a pressão sobre os governos para aumentarem os salários.

"Há um verdadeiro sentimento entre os segmentos de baixa renda [da população asiática] de que não houve muito progresso nos últimos anos", já que a desigualdade entre ricos e pobres aumentou em algumas regiões, disse Edward Teather, economista do UBS em Cingapura.

Economistas argumentam que, em alguns aspectos, aumentos no salário mínimo em países como a Tailândia só estão colocando alguns trabalhadores de volta onde estavam há uma década atrás, depois de computada a inflação.

Pequim aumentou o salário mínimo em 8,6%, para 1.260 yuans (US$ 199) a partir de janeiro, segundo a agência de notícias estatal Xinhua. Em fevereiro, a próspera cidade de Shenzhen, no sul do país, aumentou seu salário mínimo em quase 14%, para 1.500 yuanes por mês. A cidade portuária de Tianjin, no nordeste, elevará seu salário mínimo em quase 13%, para 1.310 yuanes a partir de abril, informou a Xinhua.

Essas medidas na China, em parte, ajudaram a impulsionar mudanças similares na região. Trabalhadores da Indonésia, em alguns setores, conseguiram garantir aumentos de mais de 20% no salário mínimo nos últimos meses. A Tailândia planeja subir o salário mínimo em abril, o que levará a um aumento de cerca de 40% dos salários em muitas áreas do país. Advogados trabalhistas do Camboja, do Sri Lanka e de Bangladesh também estão defendendo melhores salários. Na Malásia, pessoas a par da situação dizem que o governo está trabalhando nos detalhes de um novo salário mínimo para país, que foi aprovado recentemente pelo gabinete em antecipação às eleições nacionais, previstas para os próximos meses.

A propagação de salários mais altos provavelmente apresentará novos desafios para empresas que há muito dependiam das operações de produção na Ásia para manter seus custos baixos, potencialmente incluindo multinacionais como a Nike Inc., a Adidas AG, a Dell Inc. ou seus fornecedores.

A varejista americana de confecções femininas New York & Co. Inc. começou a transferir a produção para fora da China em 2009 e 2010, quando os salários começaram a subir, levando boa parte dela para o Vietnã.

"O custo trabalhista na China, definitivamente, subiu no último ano e meio, o que nos levou a considerar outros países", disse Greg Scott, diretor-presidente da empresa.

Numa base porcentual, acrescenta Scott, os aumentos salariais no Vietnã têm acompanhado os da China, mas os salários ainda são menores. "Neste momento, ainda é um lugar muito bom para nossa produção", disse Scott.

Anthony Romano, diretor-presidente da Charming Shoppes Inc., transferiu a produção para a Indonésia e para o Vietnã para diversificar as operações de manufatura para fora da China, onde Romano disse que "os custos trabalhistas são um desafio significativo".

Embora a China ainda seja uma parte importante da base de produção da Charming, a expansão da economia do país está gerando alguns problemas. Depois do Ano Novo Lunar, por exemplo, cerca de 60% dos trabalhadores em uma manufatureira contratada pela Charming decidiram não voltar para a fábrica e, em vez disso, acharam empregos mais próximos de suas casas, disse o executivo.

Mas a empresa, que opera nos Estados Unidos cerca de 2.000 lojas das marcas Lane Bryant, Fashion Bug e Catherines, também viu os salários subirem entre 10% e 12% na Indonésia e no Vietnã no ano passado.

"Muita gente está procurando estes países para levar sua produção, por isso os custos estão aumentando", disse.

Apesar dos salários em alta, a Charming planeja fabricar entre 25% a 30% de seus produtos no Vietnã e na Indonésia, acrescentou Romano. A empresa está estudando também países como o Egito e a Jordânia para se beneficiar dos seus programas de isenção de impostos.

O aumento dos salários mínimos poderia desencadear inflação num momento em que os bancos centrais se preocupam com os preços do petróleo em alta. Tal cenário pode tornar bens básicos inacessíveis para as mesmas pessoas que os salários mais altos deveriam ajudar. Além disso, há o risco de que as vagas disponíveis se reduzam, caso as multinacionais decidam abandonar países com custos em alta.

Fabricantes de vestuário, calçados e eletrônicos do Japão, Taiwan e Coreia do Sul que operam na Indonésia, por exemplo, dizem que estão considerando levar suas fábricas para outro lugar. Algunos dizem temer novos aumentos de salários, já que os políticos locais estão buscando agradar o eleitorado em antecipação a eleições que ocorrem nos próximos dois anos.



quarta-feira, 14 de março de 2012

Longo caminho pelas dívidas



Por Martin Wolf - Valor 14/03

"Desalavancar" é uma palavra feia que descreve uma viagem detestável: a jornada para reduzir o excesso de endividamento depois de uma bolha de créditos. O que torna esse esforço particularmente complicado atualmente é o fato de afetar os Estados Unidos e outras grandes economias. Trata-se de um evento global, não apenas local.

Em janeiro, o McKinsey Global Institute publicou uma versão atualizada de sua inestimável pesquisa sobre desalavancagem*. É um documento que dá o que pensar: mostra que a desalavancagem ainda tem um longo caminho pela frente; felizmente, também mostra que a economia dos EUA é a que está mais avançada na desalavancagem.

Não é possível livrar-se de dívidas assumindo mais dívidas. Quantas vezes você já leu alguma declaração do tipo? É um clichê. Como o estudo do McKinsey Global Institute destaca, além de clichê, também é falsa. Suécia e Finlândia, ambas atingidas por crises no início dos anos 90, são bons exemplos disso.

A história desdobra-se assim: um grande aumento na alavancagem resulta em uma enorme crise financeira; o governo rapidamente reestrutura o sistema financeiro; captadores de empréstimos privados excessivamente endividados reduzem suas dívidas por meio de cortes de gastos; os bancos centrais reduzem as taxas de juros; o desmoronamento da atividade econômica e dos lucros resultante de tudo isso empurra o governo para imensos déficits fiscais, que servem de suporte para a economia; por fim, a economia se recupera, auxiliada pelas exportações e o governo começa seu recuo fiscal.

O aumento temporário dos déficits fiscais, portanto, ajuda a proteger a economia do recuo forçado do setor privado. A alternativa seria uma depressão, na qual as dívidas são reduzidas por falências em massa - e não pelo pagamento das obrigações. Infelizmente, o caminho de ajuste suave leva tempo. Também depende da capacidade creditícia do governo, que precisa ser muito melhor do que a do setor privado. Isso vale para os EUA e Reino Unido, mas não para a Espanha, que vem sendo coagida a entrar em uma redução violenta de gastos.

O perigo é que o setor privado nunca se recupere totalmente, como parece ter ocorrido no Japão. O informe do McKinsey detalha o que precisa ocorrer para evitar o risco. A lista inclui: estabilidade no setor bancário; planos convincentes de sustentabilidade fiscal; reformas estruturais; aumento nos investimentos e exportações; e estabilidade no mercado residencial e recuperação na construção civil.

O grau de alavancagem que a economia pode suportar depende de quem captou o empréstimo, de quem o cedeu, do valor da garantia e, não menos importante, da atividade econômica. A forma mais certeira de impor uma redução desnecessária e destrutiva na alavancagem é permitir o colapso da economia. É por isso que são importantes políticas monetárias agressivas e grandes déficits fiscais temporários. Se o setor público não sustentar os gastos enquanto o setor privado recua, o recuo privado será excessivo e provocará danos desnecessariamente profundos à economia.

Em que ponto, então, está a desalavancagem agora? No caso dos EUA, a alavancagem em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) caiu 16 pontos porcentuais entre 2008 e o segundo trimestre de 2011. No mesmo período, a alavancagem subiu no Reino Unido e Espanha. Isso em parte porque os EUA foi mais bem sucedido em sustentar a produção econômica do que o Reino Unido e Espanha. Os EUA também presenciaram uma desalavancagem bem sucedida dos setores empresariais financeiro e não financeiro. No Reino Unido e Espanha, os setores financeiros não se desalavancaram. Acima de tudo, os EUA reduziu a alavancagem dos consumidores em maior grau do que o Reino Unido e Espanha. Os EUA até tiveram uma queda absoluta no endividamento das famílias, em grande parte graças à inadimplência. As dívidas das famílias dos EUA até retomaram sua tendência de longo prazo, embora as famílias americanas tenham percorrido apenas um terço do caminho das suecas em sua desalavancagem nos anos 90.

Em geral, o cenário pós-crise nos EUA parece estar em melhor forma do que nessas duas outras economias. A alavancagem agregada (em 279% do PIB no segundo trimestre de 2011) está bem menor do que no Reino Unido (507%) e Espanha (363%). A capacidade de captação do governo dos EUA continua forte. Os custos de captação do governo do Reino Unido também continuam baixos. Os enormes balanços patrimoniais do setor financeiro no Reino Unido, em 219% do PIB, explicam grande parte da alavancagem elevada. O governo do Reino Unido, no entanto, vem reduzindo gastos, enquanto a desalavancagem do setor privado é muito baixa. O custo de captação governamental é muito maior na Espanha do que nos EUA, enquanto a desalavancagem do setor privado espanhol continua muito limitada, até agora.

Todas essas economias deparam-se com riscos em sua jornada para sair da crise. Os EUA, por exemplo, carecem de um plano de sustentabilidade fiscal e são demasiados grandes para esperar mais do que um impulso apenas modesto graças às exportações. Os investimentos, incluindo na construção civil, precisarão guiar sua recuperação. Na ausência de uma grande elevação dos investimentos privados - que não seja resultante do aumento da alavancagem - eliminar o déficit fiscal pode mostrar-se uma tarefa difícil. De novo, aumentos nos investimentos das empresas e nas exportações líquidas são essenciais para que a economia do Reino Unido se recupere e os déficits fiscais sejam eliminados, como o governo deseja.

O Reino Unido enfrenta a ameaça adicional de dissolução da região do euro, o que poderia provocar sérios danos a seu setor financeiro. No caso da Espanha, o papel principal na recuperação precisa ser desempenhado por uma rápida mudança nas exportações líquidas, até porque o setor empresarial não financeiro espanhol já é altamente alavancado, com endividamento de 134% do PIB no segundo trimestre de 2011, em comparação aos 109% no Reino Unido e 72% nos EUA.

Levando tudo isso em conta, vai levar um bom tempo para escaparmos da maior crise financeira desde os anos 30 e de suas sequelas. Uma boa notícia é que a depressão foi evitada. Outra boa notícia é que a desalavancagem do setor privado vem progredindo, especialmente nos EUA. À medida que os preços dos ativos se estabilizarem e as economias se ajustarem, deverá ser possível eliminar as medidas excepcionais de suporte fiscal e monetário. A má notícia é que provavelmente levará mais tempo do que muitos esperavam. A retirada prematura das ações de suporte fiscal e monetário poderia levar as economias afetadas de volta à recessão, com impactos devastadores na confiança. No longo prazo, além disso, serão necessárias grandes mudanças nas contas externas para que se evitem uma nova rodada de captações privadas irresponsáveis ou novos déficits fiscais gigantescos.

O caminho para a desalavancagem será longo e árduo. É essencial planificar o trajeto, inclusive em direção à consolidação fiscal. É ainda mais importante não se imaginar que se está perto do fim do caminho, quando ainda se está no início.


* Debt and deleveraging (dívida e desalavancagem, em inglês), www.mckinsey.com/Insights/MGI.



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 13 de março de 2012

Nova medida puxa dólar para R$ 1,80



Por Eduardo Campo  - Valor 13/03
De São Paulo

A semana começou com forte volatilidade no mercado de câmbio. O dia teve momentos de pânico com o dólar subindo 2,75% no mercado à vista e 2,30% no mercado futuro, onde a linha de R$ 1,840 foi rompida na máxima do dia.

Mas no fechamento, parece que todo o mal foi apenas momentâneo. O dólar comercial encerrou com alta de 1,12%, a R$ 1,805 na venda. No mercado futuro, o contrato para abril subia apenas 0,27%, a R$ 1,8065, antes do ajuste final, menor preço do dia.

Da mínima do ano, registrada em 28 de fevereiro, a R$ 1,699, o dólar comercial sobe 6,24%. No ano, a moeda perde 3,4%. Mas essa queda no ano já chegou a 9,10%.

Na relação inversa, o real é a moeda que mais perde para o dólar ante pares emergentes e desenvolvidos no mundo neste começo de mês.

O fim do pregão foi o exato oposto do que se ouviu ao longo do dia. Os comentários davam conta de ingressos de exportadores e investidores realizando lucros em posições compradas em moeda americana.

Até então, o que reinava era o medo de mais medidas cambiais aliado a uma sequência de "stop loss", no mercado. Quem tinha posição vendida em moeda americana foi obrigado a mudar de mão e rápido para não perder mais dinheiro. E sempre que esses "stops" são acionados, o movimento de alta do dólar ganha ainda mais fôlego.

De acordo com um operador, foi perceptível a presença dos investidores estrangeiros na compra de dólar futuro no pregão de ontem. Tal percepção será confirmada hoje, quando a BM&F atualizar as posições.

Esse mesmo operador acredita que enquanto o não residente comprou, os fundos locais venderam. Afinal de contas, esses agentes tinham tomado mais de US$ 1 bilhão em contratos futuros de dólar na sexta-feira.

Conforme o real apresenta uma perda de preço mais acentuada que seus pares externos, cresce a atratividade de montar novas apostas de valorização da moeda brasileira, não só ante o dólar, mas também contra o peso mexicano e dólar australiano, por exemplo.

No entanto, o investidor tem de escolher entre a perspectiva de lucro e o risco de peitar a vontade do governo.

Segundo o chefe de economia e estratégia para o Brasil do Bank of America Merrill Lynch, David Beker, a sequência de intervenções e medidas cambiais deixa o mercado nervoso. Sai a percepção de que o governo olhava a linha de R$ 1,70, e cresce a ideia de que o "preço ideal" estaria mais próximo de R$ 1,80.

"Está claro que tem muita coordenação dentro do governo. No passado, parecia não existir tamanha coordenação entre Fazenda, Banco Central e a presidente. E parece que eles vão utilizar tudo o que têm em mãos para manter a taxa de câmbio", diz.

Ainda de acordo com o especialista, a nova ampliação no prazo mínimo de captações isentas de 6% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), de três para cinco anos, foi uma grande surpresa. Primeiro, a regra já tinha sido alterada em 1º de março. E segundo, a mudança veio em um momento em que o real já estava mais depreciado.
"O mercado está com medo da atuação do governo no câmbio", diz o especialista.

No entanto, pondera Beker, há um limite para essa depreciação do real, principalmente em função da inflação.

E a linha emblemática para o mercado é R$ 1,90, que no fim do ano passado obrigou o BC a vir a mercado ofertar moeda.

É um ajuste fino, diz o estrategista, entre um câmbio mais fraco, mas até que ponto mais fraco em função do risco de inflação.

"Ainda mais agora que as expectativas começam a se mover para cima. O dólar muito alto não favorece o Banco Central", diz.

No fim das contas, diz Beker, o que vai definir o comportamento do real no decorrer do ano é a cena externa. Se o enfraquecimento do dólar continuar como fenômeno global, mais difícil a tarefa do governo.

Mas, no curto prazo, esse não parece o quadro, pois a chance de novas medidas de estímulo pelo Federal Reserve (Fed), banco central americano, está menor.

Hoje, o colegiado do Fed estará reunido e um aceno sobre a possibilidade ou não de novo "Quantitative Easing" deve ficar mais evidente.