quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres à beira de um avanço




Por Heidi Hautala e Janamitra Devan - Valor 08/03

Em 2010, duas quenianas, Jamila Abbas e Susan Oguya, ficaram irritadas ao ler reportagens sobre a exploração de pequenos agricultores por intermediários. Em resposta, as duas profissionais de TI fundaram a M-Farm, uma empresa que envia em tempo real, para agricultores, os preços de produtos agrícolas e outras informações de mercado por meio de mensagens SMS, interligando-os diretamente a exportadores de alimentos e eliminando intermediários. Agora, menos de dois anos depois, a M-Farm chega a mais de 2 mil agricultores no Quênia, inclusive a muitas mulheres que cultivam pequenas propriedades - e ganhou vários prêmios internacionais.

Abbas e Oguya representam uma nova classe de mulheres inovadoras. Elas construíram um empreendimento lucrativo que dá poder às mulheres e contribui para uma sociedade mais aberta e inclusiva. São mulheres como elas - empreendedoras que fundam empresas, criam empregos e são pioneiras no estabelecimento de igualdade entre homens e mulheres no mundo em desenvolvimento - que comemoraremos no 101º Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.

De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Mundial de 2012, do Banco Mundial, que analisa a igualdade entre os sexos, os 3,5 bilhões de mulheres e meninas no mundo ainda enfrentam desigualdades nos campos da educação, emprego, salário e poder de decisão.

O relatório mostra que a desigualdade entre homens e mulheres tem um custo, ao passo que para as mulheres a igualdade pode criar oportunidades econômicas e aumentar a eficiência e a produtividade. Por exemplo, a Organização de Alimentos e Agricultura (FAO, sigla em inglês) das Nações Unidas estima que se as mulheres no meio rural tivessem o mesmo acesso a tecnologia, terra, serviços financeiros, educação e mercados que têm os homens, a produção agrícola poderia ser aumentada e o número de habitantes famintos seria reduzido em 100 a 150 milhões de pessoas.

Há sinais animadores no horizonte. A lista publicada pela revista Forbes - "100 Mulheres Mais Poderosas" - no ano passado listou seu tradicional elenco de autoridades, ativistas e líderes empresariais, mas também incluiu um novo elenco de mulheres no setor de tecnologia: capitalistas de risco, administradoras de jovens empresas de TI e engenheiras na dianteira de inovações tecnológicas.

Mulheres empreendedoras nos países em desenvolvimento enfrentam dificuldades especiais para fundar empresas na economia formal e expandí-las para formar empresas com potencial de crescimento. O relatório do Banco Mundial "Mulheres, Negócios e Direito" (2011), observou que as mulheres em 103 das 141 economias analisadas ainda sofrem discriminação jurídica com base em sexo. O fato de a M-Farm ter se originado no Quênia não é coincidência: segundo o mesmo relatório, o Quênia liderou o mundo em reformas promovendo igualdade entre os sexos nos últimos dois anos.

Novas tecnologias de comunicação também ajudam, não apenas como meio de fazer negócios, mas também em baixar as barreiras sociais. Abbas e Oguya conceberam a M-Farm como membro da AkiraChix, uma organização sediada em Nairóbi constituída por mulheres empresárias e tecnólogas determinadas a "mudar o futuro de África".

Programas de desenvolvimento inteligentes também desempenharam um papel. O programa Criação de Negócios Sustentáveis, um esforço colaborativo criado pelo governo finlandês, pela Nokia e pela InfoDev - uma parceria do Banco Mundial em nível internacional - apoiou a AkiraChix com verbas visando reforçar esse modelo para outras incubadoras empresariais e polos sociais sob gestão de mulheres.

Novas tecnologias também podem gerar empregos para o bilhão de mulheres mais pobres do mundo. Pessoas com nível de escolaridade limitado podem gerar sua própria renda realizando microtarefas, como entrada de dados. Isso muitas vezes requer acesso a um computador, mas um número crescente de firmas estão distribuindo microatividades que podem ser executadas via telefones celulares. Nos países em desenvolvimento estão 80% dos atuais seis bilhões de telefones celulares no mundo, e microatividades podem resultar na criação substancial de emprego e oportunidades para jovens, mulheres e pessoas com deficiências.

A população mundial está hoje em sete bilhões de pessoas e precisamos de homens e mulheres para reagir aos desafios de nosso tempo, como alterações climáticas, segurança alimentar e crescimento econômico sustentável. A história de Abbas e Oguya no Quênia pode ser uma inspiração para as mulheres em todo o mundo. O Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade para homenagear mulheres como elas - e lembrar que, tendo em vista que as mulheres representam metade das soluções do mundo, tecnologia e inovação também devem ser de sua alçada. (Tradução de Sergio Blum)



Heidi Hautala é ministra de Desenvolvimento Internacional da Finlândia e foi membro do Parlamento Europeu de 1995 a 2003 e de 2009 a 2011.



Janamitra Devan é vice-presidente de Desenvolvimento dos Setores Financeiro e Privado no Banco Mundial.

quarta-feira, 7 de março de 2012

TV ON LINE

BRASIL CULPA CRISE NA EUROPA PARA QUEDA NO CRESCIMENTO DA ECONOMIA TEMPO: 00:07:31 07/03/2012 - 00:38:00

Governo brasileiro pôs a culpa na crise europeia pelo fraco desempenho da economia do Brasil no ano passado. Os números foram divulgados nesta terça-feira (6).

O motor da economia ronca mais forte no campo. A produção maior de culturas como feijão, laranja e mandioca, e ganhos de produtividade, fizeram o setor superar a média da economia brasileira.

O PIB avançou 2,7% no ano passado, confirmando a forte desaceleração já esperada pelo mercado em relação a 2010, quando a economia brasileira cresceu 7,5%.

Em comentário ao Jornal da Globo, Carlos Alberto Sardenberg analisa o assunto.

* DILMA ROUSSEFF, Presidente da República;

* CARLOS ALBERTO SARDENBERG, comentarista de economia


MIRIAM LEITÃO ANALISA DADOS QUE APONTAM QUEDA DO PIB EM 2011 TEMPO: 00:04:55  07/03/2012 - 07:58:00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometeu medidas fortes para garantir um crescimento maior da economia da economia brasileira para este ano.

Em comentário ao Bom Dia Brasil, Miriam Leitão falou sobre os motivos que levaram o Produto Interno Bruto (PIB) a cair no ano passado. Miriam também analisou a colocação do Brasil como 6ª maior economia do mundo.

SONORA:

*GUIDO MANTEGA, ministro da Fazenda;

*MIRIAM LEITÃO, comentarista;

TV:TV GLOBO DF
PROGRAMA: BOM DIA BRASIL
APRESENTADOR: RENATA VASCONCELLOS


JULIANA ROSA ANALISA POSSÍVEL QUEDA NA TAXA BÁSICA DE JUROS TEMPO: 00:05:00  07/03/2012 - 11:40:00


A comentarista e editora do Jornal Edição das Dez, da Globo News, Juliana Rosa, falou sobre a taxa básica de Juros, a Selic, que pode cair no Brasil. Além disso, ela explica os impactos dessa queda no dia a dia dos brasileiros.

TV:GLOBO NEWS
PROGRAMA: EDIÇÃO DAS DEZ
APRESENTADOR: RAQUEL NOVAES




Exportação em queda comprime euro



Por Dow Jones Newswires

A zona do euro apresentou no quarto trimestre de 2011 a primeira queda de suas exportações em dois anos e meio, de 0,4%, um sinal do impacto da crise de dívida na região sobre a economia real. O desempenho foi incluído na segunda leitura do PIB da região para o período, que confirmou a retração de 0,3% que havia sido anunciada.

O recuo das exportações, o primeiro desde de 2009, quando o bloco estava em recessão, subtraiu 0,2 ponto porcentual do PIB. Consumo, investimento e gastos do governo também diminuíram.

"O detalhamento do PIB do quarto trimestre traz dados preocupantes porque mostra debilidade disseminada", disse o economista da consultoria IHS Global Insight Howard Archer. Segundo ele, o PIB deve continuar encolhendo até o segundo semestre de 2012.

Números recentes têm corroído a esperança de que a zona do euro possa escapar de uma recessão. O desemprego atingiu o nível mais alto em 15 anos em janeiro, o índice que mede a atividade em serviços e na indústria voltou ao território da contração e a inflação subiu, o que dificulta a oferta de estímulo pelo Banco Central Europeu.

País prepara 'arsenal" para controlar capitais



Por Claudia Safatle  - Valor 07/03
De Brasília

O governo prepara medidas mais fortes de controle do movimento de capitais. O foco dos estudos são os exportadores que estariam contratando operações de Adiantamento de Contrato de câmbio (ACC) para aplicar no mercado doméstico à taxa Selic e, também, os empréstimos intercompanhias, dentre outros. Tudo o que for investimento estrangeiro direto legítimo, apoio às exportações e investimentos no mercado acionário será preservado, asseguram fontes oficiais.

Os técnicos estão olhando com microscópio as transações intercompanhias (da matriz no exterior para a empresa sediada no país). O objetivo é tributar "o que não for comprovadamente IED" e, para se municiar a esse respeito, o governo pode vir a exigir que a instituição que intermediar a operação preste informações sobre o destino desses empréstimos.

Essa é uma medida de difícil implementação, admitem as fontes, mas no arsenal de "guerra contra o tsunami monetário", ela é um dos alvos. A medida que tributou com IOF de 6% os empréstimos em moeda estrangeira com prazo de até três anos, anunciada semana passada, alcançou os empréstimos intercompanhias, mas considera-se que talvez não seja suficiente para conter o fluxo de operações entre a matriz e a filial.

Outra proposta em discussão é a redução de prazos dos ACCs. Hoje, os exportadores podem contratar o adiantamento com prazo de até 360 dias e, segundo fontes da área econômica, estariam usando os recursos para obter ganhos de arbitragem (diferencial de juros externos e internos).

Embora o objetivo central do governo, no momento, seja conter a valorização da taxa de câmbio, o Ministério da Fazenda avalia, também, a ampliação da desoneração da folha de salários para outros segmentos da indústria de transformação. A estagnação desse setor preocupa o Planalto.

Não basta, porém, apenas estender para outras áreas a medida que transferiu a tributação da folha de salários para o faturamento das empresas. O governo reconhece que, para dar algum ganho de competitividade à indústria, será preciso baixar as alíquotas que incidem sobre o faturamento. Na medida original, de dezembro passado, a calibragem do imposto sobre faturamento, de 2,5% (para confecções, calçados) e de 1,5% (para softwares), não representou redução de carga tributária.

O uso do Fundo Soberano do Brasil (FSB) para comprar dólares é outra medida do "arsenal ilimitado". A vantagem, segundo fontes oficiais, é o elemento "surpresa" que pode introduzir no mercado de câmbio. Do ponto de vista operacional, está tudo pronto para associar a ação do FSB à do BC e há, inclusive, sobra de cerca de R$ 2 bilhões do fundo em operações compromissadas do BC.

Câmbio, de um lado, e crescimento econômico, de outro, são as duas fontes de preocupação do governo. Sabe-se que, se conseguir depreciar um pouco o real, a indústria de transformação pode reagir bem e reforçar o crescimento. A redução dos juros é crucial para reduzir os ganhos de arbitragem e os custos de carregamento das reservas cambiais. Hoje, o Copom decide mais um corte na Selic. Uma fonte qualificada dizia ontem: "O normal é um corte de 0,5 ponto. Mas se vier 0,75 não me surpreenderá".

A dor da Espanha vai testar o euro



Por Martin Wolf - Valor 07/03

Uma definição de insanidade é repetir uma mesma coisa e esperar resultados diferentes. A determinação alemã de impor uma penitência a seus parceiros na zona euro não funcionou no "pacto de estabilidade e crescimento". Será que funcionará no "tratado sobre estabilidade, coordenação e governança" acordado na semana passada? Duvido. O tratado reflete a visão de que a crise deveu-se a indisciplina fiscal, cuja solução é mais disciplina. Isso está longe de toda a verdade. A aplicação rigorosa de uma ideia enganosa é perigosa.

Tais preocupações podem agora parecer remotas. As operações de refinanciamento de longo prazo do Banco Central Europeu (BCE) aliviou a pressão tanto sobre os bancos como sobre os mercados financeiros, inclusive os mercados de dívida soberana. Em duas operações, os bancos tomaram emprestado mais de €1 trilhão durante três anos por apenas 1%. Os rendimentos dos títulos governamentais italianos e espanhóis de 10 anos caíram abaixo de 5% - de picos de 7,3% no caso da Itália e 6,7% no da Espanha no fim do ano passado. Igualmente importante foram as quedas dos swaps de risco de crédito referentes a ativos bancários: o spread do italiano Intesa Sanpaolo caiu de 623 pontos base em novembro de 2011, para 321 pontos na segunda-feira.

A crise não passou. Em graus variados, os países mais vulneráveis estão em dificuldades duradouras. Essas disciplinas fiscais teriam salvo a zona do euro das crises? Será que elas agora tirarão os países atingidos dessas crises? As respostas são não.

A nova regra fundamental é que o déficit fiscal estrutural de um país membro não deve exceder 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), exigindo que os países registrassem superávits estruturais. Se um país tem uma dívida superior a 60% do PIB, o excesso deve ser eliminado a uma taxa média de 20% do excesso a cada ano. Um país como a Itália, com a dívida aproximada de 120% do PIB, reduziria a relação a uma taxa de 3% do PIB por ano. Esse é o esquema que todos os membros da zona euro devem aderir. Essas regras deverão ser incorporadas em lei, preferencialmente na legislação constitucional.

Esse tratado levanta profundas questões legais, políticas e econômicas. Com efeito, faz sentido econômico público tomar como alvo os déficits corrigidos ajustados por suas variações cíclicas, em vez dos déficits reais. Mas a melhoria do enfoque econômico se dá à custa de uma redução na precisão. Ninguém sabe o que é um déficit estrutural.

Isso não é um sofisma. Considere as posições estruturais fiscais para 2007, o último ano praticamente pré-crise, estimadas pelo FMI em outubro de 2007 - em "tempo real", pode-se dizer. Esse foi um ano em que o indicador precisou gritar "crise". No entanto, ele mostrou a Espanha com um grande superávit estrutural e a Irlanda em equilíbrio estrutural. Ambos estavam em forma ainda melhor do que a Alemanha. A Grécia apresentava, efetivamente, um déficit estrutural considerável. Mas o déficit francês era pior do que o português. A regra não teria discriminado entre os países mais vulneráveis e aqueles imunes, porque ela ignora bolhas de ativos e febres financeiras.
O FMI reviu sua posições. Em outubro de 2011, o Fundo havia concluido que o déficit fiscal estrutural da Grécia em 2007 tinha sido de 10,4% do PIB, e não 4%, e que o da Irlanda fora 8,4%, e não 0,1%. Isto não é uma crítica ao FMI. O Fundo simplesmente mostra que o conceito que a zona do euro pretende incorporar ao novo tratado será falho, quando precisão é mais necessária. O déficit estrutural é insondável.

Considere as implicações políticas e legais. Irão governos eleitos aceitar estimativas "chutadas" por tecnocratas não obrigados a prestar contas a suas sociedades? Além disso, como iriam os juízes chegar a uma decisão? Deverão eles avaliar os méritos de modelos econométricos alternativos? Uma vez que são prováveis enormes mudanças nas estimativas dos déficits estruturais, como deveria um governo se adaptar? Converter em lei um conceito imensurável parece loucura.
Neste momento, atritos começam a se manifestar entre as instituições europeias e o recém-eleito governo espanhol de Mariano Rajoy. Este afirmou que seu governo assumirá, para o déficit orçamentário, uma meta de 5,8% do PIB, abaixo dos 8,5% conseguidos em 2011, mas bem acima dos 4,4% que acordaram com a Comissão, que não vai gostar. Mas não pode obrigar um governo soberano a fazer o que ela quiser. Os parceiros da Espanha poderão recusar ajuda, mas poderá repercutir danosamente sobre eles próprios.

As dificuldades fiscais da Espanha são uma consequência da crise, e não uma causa. O país viu enormes aumentos da dívida privada após 1990, especialmente por parte de empresas não financeiras. O excesso de construção de casas também inviabiliza um endividamento substancial das famílias. Diante disso, é extremamente improvável que uma forte redução do endividamento público seja compensada por mais empréstimos e gastos privados. É mais provável que o resultado seja recessão bem mais profunda, juntamente com pouco progresso na redução dos déficits fiscais reais. Na pior das hipóteses, poderá ocorrer um círculo vicioso descendente. Em vez de obrigar a Espanha a uma contenção orçamentária rápida, seria muito mais sensato dar ao país o tempo necessário para que as ousadas reformas em seus mercados produzam seus efeitos. Isso levará alguns anos.

Para que a zona do euro esteja disposta a conceder o tempo necessário para que tais ajustes ocorram, os países superavitários precisam estar conscientes do seu papel. Sem dúvida, a ascensão paralela de superávits e déficits em contas correntes, os fluxos de financiamentos entre países e a loucura dos bancos em suas operações em países estrangeiros desempenharam enormes papéis na origem da crise atual.

Em documento publicado no mês passado, a Comissão manifestou sua intenção de examinar alguns países com déficits externos, que são até citados nominalmente. Uma análise paralela é necessária também envolvendo os países superavitários. O documento chega até mesmo a levantar a questão. Mas não se atreve a identificar países superavitários específicos para ser submetidos a uma análise detalhada. A zona do euro está em guerra com a contabilidade de dupla entrada.

Portanto, o BCE comprou algum tempo para a zona do euro. Mas pouco sugere ter sido encontrado um caminho para o reequilíbrio da economia da zona euro e, sobretudo, um rumo no sentido do desejado mix de reforma, ajuste e rápido regresso ao crescimento. Porém, o caminho escolhido parece passar por anos de ajuste unilateral e dolorosa austeridade. Será que isso dará certo? Duvido muito. Na melhor das hipóteses, podemos esperar muitos solavancos ao longo dessa estrada. (Tradução de Sergio Blum)



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

BBC Brasil - Notícias - Crescimento baseado em consumo alimenta valorização cambial, diz Ricupero

Ao basear o crescimento econômico no consumo, o governo brasileiro fica de mãos amarradas para combater um problema que tem prejudicado gravemente a indústria nacional e elevado o custo de vida no Brasil: a valorização do real. A opinião é do embaixador Rubens Ricupero, ex-secretário geral da Unctad (Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco (1992-1994).



BBC Brasil - Notícias - Crescimento baseado em consumo alimenta valorização cambial, diz Ricupero

terça-feira, 6 de março de 2012

Metas inflacionárias



Por Antonio Delfim Netto - Valor 06/03

O sistema de metas inflacionárias tem características interessantes: 1) O poder incumbente eleito fixa a "meta" para a taxa de inflação. Reconhecendo as tecnicalidades e incertezas da tarefa, e a necessidade de preservá-la da influência da política partidária, escolhe para o comando do Banco Central, e submete ao Senado, nomes de técnicos independentes e competentes para atingi-la, atribuindo-lhes inamovibilidade com mandatos fixos; 2) Para cumpri-la, o Banco Central tem que construir sua credibilidade. Trabalhar não apenas para fazer a sociedade acreditar que pode fazê-lo, mas ancorar fortemente a "expectativa" da taxa de inflação com comportamento persistente e coerente; e 3) O Banco Central tem que criar relações de absoluta confiança com a sociedade, particularmente o seu setor produtivo (trabalhadores, industriais, banqueiros), com uma comunicação sem ruídos, total transparência e adequada prestação de contas ("accountability").

A entrega, pelo poder incumbente, eleito por milhões de votos, a um grupo de cidadãos sem representação direta, da responsabilidade de administrar um importante bem público (o valor da moeda) exige uma explicação convincente. Para construir uma ponte, atendendo à necessidade de quem o elegeu, o poder incumbente procura o melhor engenheiro especializado para projetá-la. É essa mesma exigência que justifica, pela especificidade da tarefa, a sua entrega a pessoas com um conhecimento adequado.

Mas há uma diferença. No caso da ponte existem conhecimentos físicos objetivos e materiais testados secularmente, que "garantem" que, em condições normais de pressão e temperatura ("ceteris paribus" = todo o resto igual), a ponte vai resistir à carga e servir por muitos anos. No caso da "garantia" do valor da moeda é diferente.

No sistema econômico, temos relações tênues entre o que se supõe causa e seu efeito. O tempo para uma causa produzir um efeito é variável e depende da circunstância que o cerca. Exatamente porque a complexidade do processo impede a existência de relações estáveis, o exercício da difícil arte de controlar o valor da moeda precisa ser entregue a profissionais que têm consciência de tais dificuldades e reconhecem os limites do seu conhecimento.

É uma grave ilusão supor que apenas a política monetária pode levar a um resultado satisfatório. Não apenas a teoria é precária, mas seu exercício envolve alguma bruxaria: adivinhar qual é a taxa de juro "neutra", qual é o "produto potencial", qual é a taxa de desemprego "natural" e, acima de tudo, "prever" a taxa de inflação. Basta olhar com atenção os resultados da recente pesquisa estimulada pelo Banco Central para senti-la.

As respostas não são completamente coerentes dentro dos modelos conhecidos. Olhando os gráficos, há sinais que eles parecem combinar "distribuições" produzidas por informantes com diferentes modelos e diferentes definições do objeto da estimativa. Sem o conhecimento de como essas foram produzidas, não há garantia que a mediana, a média e a moda façam sentido, da mesma forma que ocorre quando misturamos uma distribuição de pesos de laranja com outra de maçãs...

Nada disso sugere que não devamos levar a sério o sistema de metas inflacionárias. Quando a expectativa de inflação está bem ancorada, ele é um instrumento formidável para diminuir as tensões da distribuição da renda entre o trabalho e o capital. O seu exercício, entretanto, deve ser cuidadoso, como mostra o exemplo seguinte.

Lars Erik Oskar Svensson é um competente economista monetário sueco. É conhecido na academia e nos bancos centrais de todo o mundo como um dos mais importantes pesquisadores do sistema de metas inflacionárias. Desde 1990, Svensson foi assessor do Sveriges Riksbank, o banco central da Suécia, que há alguns anos utiliza o sistema. Em 2007, foi nomeado para a diretoria do banco para um mandato de seis anos e serviu por um ano como um dos seis membros do seu comitê executivo.

Ele acaba de publicar um artigo imperdível (Svensson, L. - "Practical Monetary Policy: Exemples from Sweden and the United States", NBER - WP. 17823, Feb. 2012) para mostrar o papel das "circunstâncias", isto é, das condicionalidades não explícitas, nas previsões que informam a política monetária. É um breviário contra a arrogância e a intolerância de alguns analistas.

No terceiro trimestre de 2010, os EUA e a Suécia estavam nas mesmas condições: 1) taxa de inflação abaixo da meta; e 2) taxa de desemprego maior que a natural. Tanto os EUA (com sua "meta" escondida, e agora anunciada) quanto a Suécia, que aplica o regime de metas, tinham de fazer a mesma coisa: reduzir a taxa de juros. Pois bem, os EUA fez o correto (baixou o juro, fez o QE2) e se deu mal. A Suécia fez o errado (elevou os juros) e se deu bem. Tudo por conta das "circunstâncias"...

Isso não é desculpa para fazermos o errado. A política monetária exige modéstia e cuidado e só funciona quando apoiada por uma robusta política fiscal. A nossa tem nos servido bem. O crescimento robusto sem pressões inflacionárias exige que enfrentemos corajosamente o desequilíbrio do mercado de trabalho e aceleremos a aprovação dos projetos de mudanças estruturais que estão dormindo no Congresso.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

O planeta que queremos



Por Jean-Pierre Lehmann - Valor 06/03

Ao olhar para o mundo em 2012, observamos que ele continua cheio de oportunidades, mesmo se comparado com apenas dez ou 20 anos atrás. No entanto, ainda estamos em choque por causa da crise de 2008 - financeira, sim; porém uma crise mais sistêmica e de confiança. A colaboração global - cada vez mais um paradoxo -, infelizmente carece de apoio em áreas-chave, como comércio, finanças, pobreza, doenças, alimentação, água, clima e geopolítica. O mundo mais parece um vulcão, podendo explodir a qualquer momento.

O "Financial Times" começou o ano de 2012 com uma série intitulada "O capitalismo em crise". Em um editorial, foi escrito: "O capitalismo ressurgente da década de 1980, sob a liderança de Ronald Reagan e Margaret Thatcher... provou-se não apenas instável, mas, em aspectos importantes, injusto".

O capitalismo e a economia de mercado global irão sobreviver apenas se houver reformas radicais. As reformas são essenciais não só nas instituições e políticas, mas também em cultura e mentalidades - as formas como concebemos o planeta e como o queremos. Então, enquanto me preparo para me aposentar como diretor do Evian Group no IMD e como professor de política econômica internacional no IMD, ofereço alguns "pensamentos de despedida" que parecem pertinentes ao contexto global e à agenda Evian/IMD. São pensamentos sobre erros e como corrigí-los, a fim de tornar o planeta um lugar em que gostaríamos de viver, e também onde gostaríamos de ver nossos filhos e netos.

As armadilhas da complacência - os mandamentos do realismo sóbrio. É verdade que a crise poderia ser prevista, mas claro que não em seus pormenores exatos. Mas note a seguinte frase, de Joseph Stiglitz, em 2002, em 'Globalização e suas insatisfações': "Hoje, o sistema capitalista está em uma encruzilhada, assim como esteve durante a Grande Depressão". Nos anos que precederam a crise houve um senso de complacência generalizado nos círculos governamentais e empresariais, pelo qual pagamos caríssimo.

As elites precisam mudar. Exceto alguns indivíduos excepcionais; em termos gerais, o planeta tem sido mal servido por suas elites. O que é surpreendente é seu altíssimo grau de incompetência, além de aparentarem ser insensíveis. As muitas manifestações, como Occupy Wall Street, não são motivadas pelo ressentimento contra a riqueza em si, mas como a riqueza é obtida. Precisamos de elites novas ou reformadas, com mais competência, responsabilidade, sensibilidade, consciência e muito mais humildade.

O financeiro deve vir em segundo plano; e a economia real, em primeiro. Recentemente, tem sido o inverso - as finanças em primeiro plano e a economia real, em segundo. A menos que o financeiro seja domado, a crise do capitalismo vai continuar e, provavelmente, acabará arruinando o sistema. Este é um imperativo também para abordar o verdadeiro câncer que está destruindo as sociedades em todo o mundo: a injustiça.

O imperativo de uma luta unificada e bem-sucedida contra a injustiça. O sentimento generalizado de injustiça provém de níveis altíssimos (e crescentes) de desigualdade - não só de renda, mas de oportunidades de educação, saúde e meio ambiente. Atacar a injustiça social tem de ser responsabilidade de todos, principalmente das elites. Mentalidades e cultura precisam de uma mudança radical.

Restaurando o respeito ao serviço público e o senso de comunidade. Ao tomar posse, em janeiro de 1961, o presidente dos EUA, John Kennedy, declarou: "Não perguntem o que seu país pode fazer por você - pergunte o que você pode fazer por seu país". Havia um pressuposto implícito da dignidade e obrigação do serviço público. Duas décadas depois, em sua cerimônia de posse, Ronald Reagan afirmou: "Nesta atual crise, o governo não é a solução para nosso problema: o governo é o problema". Desde então, e até a crise atual, tem havido uma tendência para venerar o mercado e denegrir o governo.

Tem de haver uma ênfase muito maior no serviço público e comunidade. As pessoas com vantagem trazem benefícios aos menos favorecidos. São também os modelos que buscamos, e que constroem o planeta que queremos.

Trazer as ciências humanas de volta. Outra causa da crise do capitalismo é a marginalização das ciências humanas em favor de matérias e cursos mais "práticos", como administração, contabilidade, marketing, etc. A elite reformada precisa ter uma base intelectual sólida e profunda. Para entender a condição humana e moldar o planeta que queremos, deveria haver muito mais estudos de história, geografia, literatura, arte, música, filosofia, antropologia, religião, etc.

Gerando a festa, não o choque de civilizações. O mundo não está se adaptando bem aos desafios da criação de uma aldeia global.

Elites ocidentais são, em sua maioria, muito mal preparadas para as transformações globais. Pouquíssimas têm experiência fora da Europa Ocidental e América do Norte; dificilmente falam chinês ou outras línguas asiáticas; e muito menos estudaram em universidades não-ocidentais. Este é outro aspecto fundamental em que precisamos de elites novas ou reformadas - aquelas que conhecem bem o planeta, e não apenas um canto dele!

Na criação da aldeia global, as ciências humanas são extremamente importantes. Não basta apenas ter conhecimento básico das fontes de cultura e civilização de uma sociedade, mas também uma "sensibilização" de suas atuais dinâmicas e aspirações. Isto pode ser realizado através da literatura contemporânea. Os conhecimentos obtidos também fornecem a possibilidade de se adquirir o fator tão essencial para a construção do planeta que queremos: a empatia.

Este último aspecto é o mais importante e relevante para a agenda Evian/IMD. Uma escola de negócios global precisa desenvolver alfabetização cultural global, compreensão e empatia. Embora a agenda Evian esteja focada principalmente no comércio, ela é bastante baseada na forte convicção filosófica de que um mercado global não pode funcionar sem uma aldeia global robusta.



Jean-Pierre Lehmann é professor de Política Econômica Internacional no IMD, diretor fundador do Evian Group no IMD e pesquisador sênior no Fung Global Institute em Hong Kong.

Derrubado pela indústria, PIB encerra 2011 com alta de 2,7%



Por Juliana Ennes, Diogo Martins e Tainara Machado
Valor 06/03

RIO E SÃO PAULO

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,7% em 2011. Pelo lado da oferta, agropecuária subiu 3,9%, indústria subiu 1,6% e o setor de serviços cresceu 2,7%%, todos os dados em relação a 2010. Naquele ano, o PIB registrou avanço de 7,5% sobre o ano anterior.

Pelo lado da demanda, o consumo das famílias cresceu 4,1%, enquanto o do governo subiu 1,9%, e o investimento (medido pela formação bruta de capital fixo) aumentou 4,7%. As exportações registraram alta de 4,5% e as importações, alta de 9,7%,

O resultado do PIB do ano de 2011, medido pelo IBGE, ficou em linha com o resultado do IBC-Br, o índice de atividade econômica calculado pelo Banco Central, com o objetivo de ser uma “proxy” do PIB brasileiro. O IBC-Br de 2011 apresentou expansão de 2,72% em relação a 2010, na série sem ajuste sazonal. No último boletim “Economia Brasileira em Perspectiva”, divulgado em fevereiro, o Ministério da Fazenda ainda estimativa um PIB de 3,2% para o ano passado, enquanto o relatório de inflação do BC de dezembro reduziu a projeção anterior para o PIB de 3,5% pra 3%. Para este ano, a estimativa oficial do governo é de uma expansão do PIB de 4,5%.

O resultado do PIB do ano de 2011, medido pelo IBGE, ficou em linha com o resultado do IBC-Br, o índice de atividade econômica calculado pelo Banco Central, com o objetivo de ser uma “proxy” do PIB brasileiro. O IBC-Br de 2011 apresentou expansão de 2,72% em relação a 2010, na série sem ajuste sazonal. No último boletim “Economia Brasileira em Perspectiva”, divulgado em fevereiro, o Ministério da Fazenda ainda estimativa um PIB de 3,2% para o ano passado, enquanto o relatório de inflação do BC de dezembro reduziu a projeção anterior para o PIB de 3,5% pra 3%. Para este ano, a estimativa oficial do governo é de uma expansão do PIB de 4,5%.
A forte desaceleração da economia no último ano atingiu todos os componentes do PIB, mas alguns com maior intensidade. Após crescer 7,5% em 2010, o governo e o Banco Central (BC) tomaram medidas para resfriar a demanda interna, com aumento da taxa básica de juros e aperto dos gastos públicos, por exemplo.
Pelo lado da demanda, o investimento, que costuma ter comportamento bastante pró-cíclico, foi o componente que mais perdeu fôlego ao longo de 2011, segundo os dados divulgados hoje pelo IBGE, pois havia registrado aumento expressivo de 21,3% em 2010. No consumo das famílias, o ritmo de 2011 também foi menor do que o do ano anterior, mas a queda foi menos intensa, pois esse segmento da demanda havia crescido 6,9% em 2010, abaixo da taxa média da economia.

Pelo lado da oferta, a indústria, pressionada também pelo real valorizado e pelo aumento da concorrência com importados, foi o que mais sentiu o peso das ações de política monetária e também a concorrência dos importados - em 2010, seu crescimento chegou a 10,4% em relação a 2009. O setor de serviços também desacelerou ao longo do ano passado, mas se provou mais resiliente, pois havia encerrado 2010 com alta de 5,5%.



segunda-feira, 5 de março de 2012

Chiclete do Banco Central

3 de março de 2012


Celso Ming

A política de juros do Banco Central mostra coerência interna. Mas o corpo de justificativas usadas para fundamentá-la é um chiclete que pega a forma de cada mastigada.

Na atual fase, o corte dos juros começou em agosto. Na ocasião, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, defendeu a derrubada dos juros como modo de melhor defender a economia brasileira para a catástrofe global que estaria próxima: seria o naufrágio de vários Titanics bancários, com todos os destroços que viriam com ele.
Logo se viu que esse pior dos mundos não se confirmaria: mal ou bem, os dirigentes dos países ricos ganharam tempo e blindaram o patrimônio dos bancos contra quebras em dominó. Mas a derrubada interna dos juros tinha de prosseguir.

A nova explicação veio da desaceleração do crescimento do PIB. Mesmo com desemprego recorde e expansão da massa salarial, os motores da indústria vinham batendo pino. Assim, passou a ser preciso, avisava o Banco Central, continuar a calibragem dos juros a essa quebra futura de poder aquisitivo do consumidor. Portanto, mesmo não se confirmando o quadro imaginado, o Banco Central estava correto, como quem atirasse no que viu, mas acertasse no que não viu.

Mas o governo Dilma parece contrariar esses prognósticos. Aposta num avanço do PIB para este ano entre 4,5% e 5,0% e não no devagar-quase-parando sugerido pelos documentos do Banco Central. Foi preciso, então, buscar nova justificativa para a derrubada dos juros. A ata da última reunião do Copom avisou que os juros neutros (ou seja, o nível dos juros que não provocam inflação) caíram substancialmente nos últimos anos, graças aos avanços de qualidade da economia. Não foi um argumento convincente e o próprio mercado passou a discordar abertamente do Banco Central.

Desse modo, o Copom está à procura de outras justificativas. As últimas manifestações de indignação da presidente Dilma Rousseff parecem ajudar o Banco Central nessa parada. Há um brutal tsunami de moeda estrangeira invadindo o mercado de câmbio do Brasil, adverte ela, não só por que melhorou a percepção global sobre a qualidade da economia, mas, também, porque as atuais condições favorecem a entrada de capitais destinados a especular com a diferença de juros.
Não é nada, o Banco Central Europeu acaba de despejar 1 trilhão de euros nos bancos em empréstimos de pai pra filho por três anos, a juros de apenas 1% ao ano. Para eles, a generosa acolhida do Brasil, que paga juros reais (descontada a inflação) de 4,0% a 4,5% ao ano, é sopa no mel.

Conclui-se pelo discurso presidencial que vivemos momento atípico, de forte canibalismo monetário. A melhor maneira de defender o Brasil desse jogo é manter implacavelmente a atual trajetória de derrubada dos juros. A hora é de dançar no salão a música que está sendo orquestrada pelos grandes bancos centrais – e injetar mais dinheiro na economia. O combate à inflação, se ela aparecer, fica para mais à frente.

Mas, afinal, estão certos ou errados o governo Dilma e o Banco Central, quando desenvolvem essa estratégia de política monetária? Podem até estar certos. Mas as explicações mudam a cada mastigada dos fatos.

Lições de uma guerra cambial


Por Sergio Leo - Valor 05/03

Ao criar obstáculos à entrada de moeda estrangeira no país, na semana passada, o governo apontou para um dos dois temores despertados em Brasília pelo que o ministro Guido Mantega definiu como "guerra cambial". Atacou-se o receio de que o país seja inundado por dinheiro especulativo, em busca de lucros com a diferença entre o baixo custo do capital no mundo e o alto rendimento pago aos investidores no Brasil. Há dúvidas se essa ação do governo será eficaz. E há ceticismo ainda maior em relação a maneira como se tem enfrentado o outro medo em Brasília, o de invasão de importações baratas, capazes de sufocar a indústria nacional.

Não se pode acusar o governo de não ter uma agenda clara e uma rota definida para lidar com os efeitos colaterais dessa guerra cambial, caracterizada por medidas monetárias nos principais mercados do mundo que, por diferentes caminhos, resultam na desvalorização das moedas desses países, tornando seus produtos e mercados mais competitivos.

A decisão de punir com maior imposto os empréstimos internacionais às exportações partiu da avaliação de que esses financiamentos encobriam a entrada de capital para especular no mercado interno, e antecipam um repertório ainda maior de medidas punitivas e de uma possível aceleração da queda de juros.

No caso da política comercial, há integrantes do governo que, em conversas reservadas, assumem que estão dispostos a levantar barreiras a importações mesmo que contrariem compromissos internacionais do país, como as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) - como foi o caso evidente do aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), sobre automóveis importados. Admite-se quebrar as regras com o argumento de que seria ingenuidade respeitá-las quando outros governos as abandonam, e o Brasil, além disso, se defronta com competição desleal turbinada pela desvalorização excessiva dos preços de mercadorias em dólar, euros ou yuan.

As medidas protecionistas, arrumadas na prateleira da defesa comercial, na maioria dos casos, porém, são reação à demanda das empresas instaladas no país. Muitas delas são justificadas e necessárias, como as barreiras a importações com dumping, preço abaixo do normal, ou falsificações, ou ainda a mercadorias subsidiadas ilegalmente pelos seus países de origem. Um sinal de que há racionalidade e não mero protecionismo em muitas das ações nesse campo foi a decisão da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), na semana passada, de mudar as regras de comprovação de norma de origem, para facilitar - e não dificultar - a entrada de mercadorias de países asiáticos que não concedem certificados aos exportadores locais antes do embarque.
Legais ou não, porém, as medidas protecionistas são armadura de pouca resistência. Seu efeito total sobre as importações brasileiras - e, portanto, sobre as contas externas do país - é limitado. Embora tenham garantido a sobrevivência de fabricantes em setores menores, como o de escovas ou de imãs de ferrite, as noventa medidas de defesa comercial dentro das regras da OMC em vigor não chegam perto de 5% dos US$ 255 bilhões de importações registrados no ano passado. E as medidas "criativas" de maior alcance, como o aumento do IPI de automóveis, só mostraram, até agora, como é perigoso improvisar nesse terreno.

O governo, que se prepara para anunciar o novo regime automotivo, com estímulos à instalação de fábricas e criação de pesquisa e desenvolvimento no país, argumenta que os anúncios bilionários de investimento por parte de montadoras estrangeiras, nos últimos meses, são sinal do sucesso do aumento do imposto, em 30 pontos percentuais, decidido no ano passado. Uma afirmação que só pode ser repetida pelos muito governistas ou muito crédulos.

A verdade é que praticamente todos os investimentos dos fabricantes de automóveis já estavam nos planos das empresas, alguns já tinham sido até anunciados. Se o aumento do IPI teve algum efeito foi o de criar incerteza entre esses investidores.

Fala-se no governo em eliminar o aumento do imposto para quem tiver planos de investir no país, mesmo que não cumpra de imediato as exigências de conteúdo nacional - que, aliás, até agora não ganharam definição clara. Na prática, isso significa recuar da decisão sobre o IPI até para montadoras chinesas, que, afinal, também estão vindo fabricar no Brasil. Um outro reconhecimento oficial da inutilidade do aumento do IPI foi o anúncio, pelo Planalto, da possível ruptura do acordo com o México, com o qual o Brasil tem livre comércio de produtos automobilísticos.

Mesmo antes do aumento, a balança comercial já mostrava uma escalada nas importações de automóveis do México que por causa do acordo automotivo, foram isentos do aumento de IPI. E, coerente com seu anúncio de preocupação com o forte influxo de importações, o governo decidiu forçar uma redução nas vendas mexicanas ao país, desta vez para surpresa das montadoras que têm no México um pilar de suas estratégia de produção.

Assim como não quer que o vigor da economia brasileira atraia capitais especulativos tornando o país mais vulnerável aos humores internacionais, a presidente Dilma Rousseff crê que seu projeto de estimular empregos e produção no país a partir das medidas de fortalecimento do mercado interno pode ser sabotado pelo crescimento de importações. É o que explica a pulsão protecionista em Brasília. Mas já há indicações suficientes para mostrar que as importações não são uma doença. São apenas sintoma de uma moléstia de muitas causas, chamada perda de competitividade da economia brasileira.



Grécia fora da UE não deve ser opção



Por Camila Villard Duran - Valor 05/03

Algumas vozes europeias têm sustentado que a saída da Grécia da zona monetária comum poderia ser uma resposta para os problemas econômicos que o país vem enfrentado. Esse processo poderia tornar a economia grega mais competitiva, via desvalorização monetária. Assim, a Grécia seguiria o "modelo" argentino do início da década passada que, ao reformar seu sistema monetário e entrar em default com seus credores externos, pôde se reconstruir e hoje apresenta taxas significativas de crescimento econômico.

O problema desse argumento é que a Grécia não é a Argentina e sua economia depende da importação de produtos relevantes, inclusive de alimentos. A desvalorização do dracma grego em relação ao euro, como decorrência da saída da zona comum, vai tornar o custo não somente de empresas, mas principalmente de famílias gregas, extremamente elevado. Esse processo desencadeará pobreza e marginalização de um grande número de cidadãos, que são europeus.

A saída da Grécia não deveria nem ao menos ser considerada. Se o esforço de ajuste fiscal implica problemas sociais e demanda uma política europeia específica de solidariedade financeira, que responda a essa questão), o que se pode dizer de um processo induzido de perda de confiança na moeda e de diminuição drástica do valor de unidades monetárias gregas? A comparação com o caso da Argentina tem se reduzido aos argumentos de benefícios econômicos. Entretanto, eles foram sentidos depois de anos de penúria popular.

O sofrimento de uma parte expressiva da população, que se viu pauperizada durante muito tempo e que enfrenta até hoje as dificuldades decorrentes, deveria ser considerado nesse debate. Além disso, esse tipo de medida tende a impactar especialmente a camada menos favorecida da população, uma vez que as classes sociais mais abastadas dispõem de instrumentos financeiros em outras moedas para se proteger. Adicionalmente, se o processo de saída da zona euro for anunciado previamente, uma corrida bancária, com vistas à retirada de euros para a proteção do valor de créditos, seria inevitável. Essa corrida acarretaria problemas ainda mais graves às instituições depositárias gregas. Países que viveram processos hiperinflacionários e de perda de confiança no padrão monetário conhecem bem os custos sociais e econômicos envolvidos - e a Alemanha é um deles.

Os gregos são, antes de tudo, cidadãos europeus. A grande maioria declara querer permanecer na zona euro. O avanço da moeda única não é somente econômico. Ele faz parte da construção da cidadania europeia. Ser cidadão europeu também é compartilhar uma referência monetária comum (ou aspirá-la) e fazer trocas entre fronteiras em uma linguagem comum: o euro. Nesse processo, as diferenças linguísticas também são ultrapassadas. Os processos de integração econômica e, especialmente, monetária são também processos de integração social.

A integração europeia é um exemplo de como a integração econômico-monetária pôde proporcionar benefícios sociais e de identificação cultural a um enorme contingente populacional de histórias diversificadas. A economia da Alemanha e dos países ditos do "norte" dependem do comércio europeu e dessa linguagem monetária comum. Os gregos e os países europeus do "sul" integram a riqueza econômica e cultural dessa região. A França parece ter um posicionamento central e estratégico nesse contexto: ela é capaz de articular negociações políticas entre países do "norte" e do "sul".

A solução para o impasse grego passa pela reconstrução do desenho institucional da zona monetária comum. A criação dos eurobonds, emissões de dívida solidária com garantias compartilhadas entre países membros em substituição às dívidas soberanas emitidas individualmente, e o aprofundamento da solidariedade financeira, via reforço de estruturas jurídico-econômicas como o fundo europeu de estabilização financeira, parecem ser medidas incontornáveis. Para o caso grego e, muito provavelmente, também para o português em um horizonte de curto prazo, que revelam problemas de solvência, a reestruturação da dívida e um default organizado (para além do corte já negociado) parecem ser necessários.

Para tanto, mecanismos de apoio a países com problemas de liquidez (como a Itália, a Espanha e a Irlanda) precisariam ser reforçados para evitar contágio. Uma maior atuação do BCE, na compra de títulos soberanos em mercado secundário, e uma ampliação dos poderes do fundo, inclusive financeiro, tornar-se-iam imperativos.

A segunda "frente" de reestruturação institucional tem se relacionado a medidas políticas de redução da dívida pública desses países e de medidas jurídicas de supervisão e sanção à assunção de déficits excessivos. No entanto, políticas de aperto fiscal precisariam ser dosadas por políticas de crescimento, que deveriam compreender investimento público dirigido a setores da economia promissores e dinâmicos, além de medidas de integração social. Ao contrário de outros países, entretanto, uma política monetária expansionista não poderia fazer parte desse conjunto de políticas, já que ela é proibida pelo tratado europeu. Uma integração fiscal cada vez mais acentuada parece constituir o cenário provável para a UE.



Camila Villard Duran é doutoranda em direito pela USP e pela Paris 1 Panthéon-Sorbonne.

Protecionistas são os outros



Por Robson Braga de Andrade - Valor 05/03

Críticas a uma suposta escalada protecionista do Brasil têm sido frequentes ultimamente. Os defensores da tese apoiam-se, essencialmente, no decreto que elevou a cobrança do IPI para automóveis importados, no uso mais intenso de medidas de defesa comercial pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e na política de conteúdo nacional executada pelo governo.

Antes de atirar a primeira pedra, é importante, contudo, definir com mais precisão o conceito de protecionismo. Trata-se, em resumo, de um conjunto de medidas econômicas e comerciais que beneficiam a atividade doméstica em detrimento da produção importada. Incluem-se aí não apenas as tarifas de importação - nas quais a maior parte das críticas à postura brasileira costuma se concentrar - mas instrumentos como a política tributária interna, financiamentos, barreiras sanitárias e a política cambial, que têm sido decisivos nos últimos anos.

Levando essas variáveis em conta, é possível afirmar que a indústria brasileira está protegida?

Ressalte-se, inicialmente, que entre as principais economias do mundo não há informação de países que ofereçam redução da alíquota de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) para bens importados, como fazem alguns Estados ao reduzir o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Vamos aos cálculos: em alguns Estados, o diferimento do ICMS alcança 14% sobre o valor do produto importado. De acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC), a média tarifária de importação efetivamente aplicada pelo Brasil está situada em 13,6%. Significa dizer que somente a guerra fiscal dos Estados nas importações tem o poder de anular a política tarifária do governo federal.

É um contrassenso, um retrocesso, contra os quais se opõe firmemente a indústria brasileira. Tanto é assim que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) ajuizou no Supremo Tribunal Federal (STF) cinco Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs), contra os benefícios do ICMS às importações.

Num outro aspecto, o Brasil não manipula sua taxa de câmbio para obter vantagens comerciais. A moeda brasileira é determinada pelo mercado. O real foi apontado pela revista "The Economist" como a quarta moeda mais sobrevalorizada do mundo em 2011, atrás apenas das moedas de nações como Suíça, Noruega e Suécia. Em contrapartida, a atual maior potência industrial exportadora, a China, opera com taxa de câmbio subvalorizada em torno de 25%. Nessa prática, os chineses têm a companhia de outras nações regionalmente integradas, como a Coreia do Sul, Malásia e Vietnã. Somando o diferimento do ICMS com o diferencial cambial, a vantagem do bem importado em relação ao nacional torna-se abissal.

Do ponto de vista da política comercial, o Brasil praticamente só faz uso de tarifas de importação para se proteger, com teto em 35%. Enquanto isso, os outros usam um arsenal de medidas para blindar seus mercados.

A Rússia aplica cotas tarifárias às carnes brasileiras (para carne de aves a tarifa extracota pode chegar a 95%) que, além de restringir as exportações, são inconstantes, inibindo o planejamento do produtor brasileiro. Os russos ainda aplicam IVA diferenciado na importação de automóveis, fazendo com que o imposto efetivamente pago pelos exportadores de veículos à Rússia alcance 70%.

Os Estados Unidos são outro exemplo de protecionismo. Para preservar sua indústria do aço, baixaram uma série de medidas de defesa comercial. No caso das salvaguardas, impuseram, de forma preventiva, barreira ao produto importado sem que fosse provado o dano à atividade doméstica. A iniciativa foi rechaçada pela OMC.

O Brasil, por meio da Secex, é criterioso na aplicação dessas medidas, de tal forma que é reconhecido por respeitar rigorosamente as regras internacionais. A defesa comercial, no nosso caso, cumpre sua função de lutar contra importações desleais. Não é protecionismo.

Não param de se multiplicar iniciativas de países que protegem seus mercados, como acaba de ocorrer com tarifas antidumping da África do Sul contra o frango brasileiro, sem fundamento e mal embasadas tecnicamente. Isso sem mencionar as barreiras técnicas impostas pela União Europeia e as restrições indianas ao investimento estrangeiro em diversos setores, como comércio, ferrovias e imobiliário.

Se o Brasil é tão protecionista como apregoam vários analistas, que não cansam de criticar o empresariado da indústria como defensor da ultrapassada reserva de mercado, como explicar o déficit de US$ 92 bilhões na balança comercial de bens manufaturados em 2011?

É evidente que a constatação do avanço do protecionismo lá fora não pode tirar o foco da urgência de se ampliar internamente a competitividade. O Brasil tem um longo e difícil dever de casa a fazer. Essa árdua tarefa passa por eliminar ou ao menos atenuar graves gargalos: uma infraestrutura deficiente, que inclui a terceira mais cara tarifa de energia elétrica do mundo, uma legislação trabalhista anacrônica e de alto custo, um sistema tributário perverso e complexo, uma educação de má qualidade.

Ainda assim, insistimos: o Brasil está mesmo protegido? Ou será que estamos assistindo a uma guerra comercial e por empregos em que os países fazem uso dos mais diversos instrumentos para defender seus mercados, enquanto tentam acessar novos, como é o caso do atrativo mercado brasileiro?


Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tecnologia transforma smartphone em cartão de crédito e chave do carro; conheça o NFC

A sigla é pouco conhecida, mas o conceito é bastante fácil: a tecnologia NFC* (Near Field Communication ou campo próximo de comunicação) permite que a você aproxime dois dispositivos um do outro para que eles troquem informações, sem precisar de fios ou contato físico. Com ela, dá para transformar celular em cartão de crédito ou até na chave do carro (no Brasil, a tecnologia ainda está em teste e necessita de aprovação regulatória do Banco Central); veja a seguir alguns exemplos apresentados na feira Mobile World Congress, em Barcelona.


Fonte: Uol Tecnologia


Nesta segunda feira, no Mobile World Congress em Barcelona, a Visa anunciou seu novo sistema de pagamento móvel, concorrente direto de serviços como o Google Wallet.



Para usar o serviço, o consumidor precisa ter um dos smartphones com suporte à tecnologia NFC e que sejam "certificados pela Visa". Depois, ele entra em contato com a empresa e ativa seu gadget para fazer pagamentos móveis.

O telefone estará linkado de maneira segura à conta bancária do usuário e pode, então, ser usado para fazer pagamentos onde quer que o sistema payWave da Visa seja aceito.

A empresa anunciou que smartphones e tablets que tenham processador Atom da Intel serão os primeiros a serem certificados para funcionamento do sistema. No Brasil, já existem cinco dispositivos certificados: Samsung Galaxy SII, LG Optimus NET NFC, BlackBerry Bold 9900, BlackBerry Bold 9790, BlackBerry Curve 9360 e BlackBerry Curve 9380).



Tecnologia transforma smartphone em cartão de crédito e chave do carro; conheça o NFC

China reduz participação de dólares em suas reservas



Por Tom Orlik e Bob Davis
The Wall Street Journal,de Pequim

Novos dados do Tesouro dos Estados Unidos indicam que a China perdeu o gosto por investir tanto das suas reservas, de US$ 3,2 trilhões, em dólares e pode estar aumentando as compras de papéis em euros numa época em que uma crise de dívida está assolando mercados europeus.

Economistas há muito têm avisado que se a China começar a reduzir suas compras de títulos de investimento americanos, os juros poderiam subir nos EUA, prejudicando a economia americana. A diversificação das vastas reservas da China, porém, ainda não causou danos, em parte por causa da forte demanda mundial por papéis americanos como um investimento seguro em tempos difíceis.

De maneira geral, a demanda estrangeira por investimento em dólar continua forte. As reservas em dólares fora dos EUA subiram em US$ 1,8 trilhão, ou cerca de 17%, para US$ 12,52 trilhões nos 12 meses até junho, segundo dados do Tesouro americano.

Mas os números, uma das raras pistas sobre como a China investe suas reservas, sugerem que a porcentagem de dólares nas reservas de Pequim caiu de 65% em 2010 para 54%, o nível mais baixo em 10 anos. As compras de papéis americanos foram iguais a apenas 15% do aumento das reservas chinesas nos 12 meses, caindo de 45% em 2010 e de uma média de 63% nos últimos cinco anos, segundo cálculos baseados em informação publicada pelo Tesouro dos EUA e pelo governo chinês.

Alguns economistas dizem que a mudança por parte da China foi bem calculada. "Seria ótimo para a China adotar uma estratégia contrária e escolher momentos em que o dólar está forte para diversificar agressivamente a composição cambial da carteira de sua reserva", disse Eswar Prasad, um especialista em China do centro de estudos americano Brookings Institution.

A China não diz como investe suas reservas estrangeiras, que cresceram muito nos últimos dez anos. Pequim tem usado seu controle sobre o câmbio como um pilar de sua estratégia de desenvolvimento e amealhou imensos superávits comerciais. Isso requer que o Departamento Nacional de Moeda Estrangeira do governo chinês - também conhecido pela sigla em inglês Safe - invista esses recursos no exterior. No passado, o Safe deu sinais de que cerca de dois terços de suas reservas estão em papéis dos EUA, uma porcentagem que geralmente está de acordo com os dados anuais recolhidos pelo Tesouro.

Os novos dados do Tesouro sugerem que a China começou a diversificar rapidamente sua carteira de moedas. "Isso indica claramente a intenção da China de não pôr todos os ovos na mesma cesta", disse Lu Feng, diretor do Centro de Pesquisas Macroeconômicas da China da Universidade de Pequim.

A China tem muitos motivos para tentar reduzir sua exposição ao dólar. Entre elas estão os juros baixíssimos dos títulos de dívida do Tesouro americano e a vulnerabilidade a decisões de Washington sobre a administração de sua dívida que poderiam causar inflação que corroeria o valor desses papéis. O debate no ano passado sobre aumentar o teto de endividamento dos EUA deflagrou temores de que o governo americano poderia deixar de fazer alguns pagamentos.

Para calcular a porcentagem de dólares nas reservas da China, dados do Tesouro dos EUA sobre compras chinesas de papéis americanos têm de ser comparados aos dados de Pequim sobre o montante de suas reservas. Esse cálculo é complicado pelo impacto de flutuações cambiais sobre o valor das reservas chinesas. Mesmo assim, está claro que a China está comprando menos papéis baseados em dólar do que vinha fazendo.

Dados do Tesouro mostram que as reservas da China em papéis dos EUA subiram 7%, para US$ 1,73 trilhão, em 30 de junho, o que se traduz num aumento de US$ 115 bilhões em relação a 12 meses antes. No mesmo período de tempo, as reservas chinesas cresceram em 30%, para US$ 3,2 trilhões, um aumento de US$ 743 bilhões. Essencialmente, o ritmo das compras chinesas de papéis americanos não chegou perto do ritmo de expansão de suas reservas, o que reduz a porcentagem de ativos em dólar no cofre de moeda estrangeira da China.

Nick Lardy, um especialista em economia chinesa no centro de estudos americano Peterson Institute, observou que uma queda nos investimentos chineses em dívida emitida pelas gigantescas agências hipotecárias estatais dos EUA Fannie Mae e Freddie Mac responderam pelo grosso do declínio. No período coberto pela pesquisa anual, a China continuou a engrossar sua carteira de dívida do Tesouro americano, disse ele.

Dados mensais sobre a carteira chinesa de dívida soberana dos EUA têm sido considerados menos confiáveis do que a pesquisa anual. Mas o Tesouro agora introduziu uma nova técnica de pesquisa com objetivo de melhorar a precisão dos dados. Os números mais recentes mostram que a carteira chinesa de papéis do governo americano caiu em US$ 156 bilhões, para US$ 1,15 trilhão, no período coberto pela pesquisa anual. Isso sugere que a diversificação da China para além dos dólares continuou no segundo semestre de 2011.

Enquanto a China pareceu perder seu apetite por dólares entre junho de 2010 e junho de 2011, a moeda americana caiu 9,2% versus um amplo leque de moedas, segundo o Federal Reserve, o banco central dos EUA. De lá para cá, ela subiu cerca de 3%, conforme a crise europeia se aprofundava e a economia americana mostrava sinais de recuperação.

Lawrence Summers, que foi secretário do Tesouro no governo Bill Clinton e economista da Casa Branca no de Barack Obama, alertou contra atribuir a alta e a queda do dólar às decisões de investimento da China. "Fundamentos econômicos são fatores muito mais importantes no valor de moedas do que realocações de carteira, mesmo de grandes investidores", disse Summers. "Mais importante para o dólar serão as decisões políticas em Washington, não decisões de investimento em Pequim."

Para onde foi o dinheiro não investido em dólares? A Safe não diz. Funcionários da agência de câmbio não responderam a perguntas enviadas por fax ontem. Mas líderes chineses têm sido mais enfáticos em que querem ajudar os 17 países que usam o euro a superar suas dificuldades.

Wang Tao, economista do UBS na China, disse que o montante de dinheiro que teria saído de investimentos em dólares é tão grande que seria difícil investir em outros papéis sem atribular os mercados. Ela disse que embora a China possa estar diversificando, provavelmente não o está fazendo na velocidade que os dados do Tesouro dos EUA sugerem.

Os impasses do contingenciamento



Por Mansueto Almeida e Alexandre Manoel e Helder Rebouças - Valor 02/03

O aperfeiçoamento da gestão e a busca do equilíbrio das contas públicas são, indiscutivelmente, preocupações que vêm marcando o governo da presidente Dilma. Nesse contexto, cabe um exame mais detalhado dos impactos do contingenciamento orçamentário, uma prática que tem sido comum no esforço de vários governos de cumprir as metas anunciadas de superávit primário. O tema é oportuno porque, recentemente, o governo contingenciou, por meio do Decreto nº 7.680, de 17 de fevereiro de 2012, cerca de R$ 55 bilhões de despesas do orçamento da União

O contingenciamento é amparado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, na hipótese (exclusiva) de expectativas de "frustração" de receita que possa comprometer resultados fiscais, como as metas de superávit primário. Vê-se, portanto, que a legitimidade do contingenciamento depende, essencialmente, da consistência e credibilidade das prognoses de "queda" de receitas alegadas pelo Executivo.

Do contrário, o decreto de contingenciamento, por ausência de motivação legítima, se tornaria um ato juridicamente defeituoso. Neste ano, para justificar o contingenciamento, o governo estimou uma redução de R$ 29,5 bilhões na receita líquida primária em relação às previsões trazidas pela lei orçamentária anual.

Em 2011, por exemplo, a lei de orçamento aprovada pelo Congresso previu receitas de R$ 990,5 bilhões. Naquela ocasião, o executivo, motivando o decreto de contingenciamento, refez sua previsão de receita para "baixo" e estimou que essas seriam de R$ 971,4 bilhões. A quatro meses para encerrar aquele ano, o volume de receitas já havia atingido o montante de R$ 997,4 bilhões, demonstrando que a previsão do executivo estava "equivocada". Em geral, essas inconsistências de prognoses têm ocorrido em vários anos, desde 2000, com consequências jurídicas e econômicas.

Do ponto de vista jurídico, há discussões teóricas importantes sobre a atuação do Judiciário no exame de "déficits" de prognoses de normas. A título de ilustração, o ministro Gilmar Mendes, do STF, produziu instigantes artigos acadêmicos sobre a matéria, chamando a atenção para o fato de que o controle de constitucionalidade comporta o exame das prognoses do legislador. De fato, conforme a posição dominante da doutrina jurídica vigente, quando a administração declara o motivo que determinou a prática de um ato administrativo, fica vinculada à existência do motivo por ela declarado. Assim, se houver desconformidade entre a realidade e o motivo declarado, torna-se possível a declaração de nulidade do ato pelo Poder Judiciário.

Outra dimensão jurídica relevante é a ampla discricionariedade que marca os decretos de contingenciamento. Se um ministério, em 2012, teve cortes de R$ 5 bilhões, por exemplo, como se dá a escolha de quais programas ou ações serão "sacrificados"? Diante do contingenciamento dos restos a pagar - despesas empenhadas e não pagas pelo governo -, como se decide quais delas serão "honradas"? Por que o decreto de contingenciamento inclui ações como "dinheiro direto na escola para o ensino fundamental" e "atenção à saúde da população para procedimentos em média e alta complexidade"? Lembre-se aqui que, no Estado Democrático de Direito, a "discricionariedade" dos decretos de contingenciamento não pode estar fundada somente na letra da lei, mas, principalmente, em princípios constitucionais.

Do ponto de vista econômico, as inconsistências das aludidas previsões geram, entre outras consequências, diminuição da governança do setor público, pois afeta a capacidade de os gestores federais implementarem de maneira eficiente políticas públicas e diminuem a contribuição do superávit primário para a redução da dívida pública federal.

De fato, quando o governo federal "erra" nas suas previsões de receitas nos decretos de contingenciamento, acaba postergando, para muito próximo do final do ano, a efetiva liberação dos recursos, para que as unidades orçamentárias empenhem, liquidem e paguem as despesas orçadas. Em consequência, surgem os restos a pagar, porque já não há tempo hábil para empenhar, liquidar e pagar várias dessas despesas.

Existem duas formas de honrar os restos a pagar. Na primeira, são usadas receitas do atual exercício financeiro, de maneira que os pagamentos dos restos a pagar acabam concorrendo com outras despesas programadas para o ano corrente e, assim, termina dando origem a novos restos a pagar para os próximos exercícios fiscais. Neste ano, por exemplo, o orçamento para investimento da União depois do contingenciamento é de R$ 55 bilhões; valor inferior aos restos a pagar para essa mesma rubrica, que está orçada em R$ 57 bilhões. Em suma, o orçamento, que deveria se orientar para o futuro, torna-se também uma peça de planejamento do passado, diminuindo, portanto, a governança federal.

A outra forma de pagamento dos restos a pagar dá-se pelo aumento de endividamento, por meio do lançamento de títulos no mercado. Diga-se, por oportuno, que, contabilmente falando, os restos a pagar não "entram" nas apurações tradicionais de dívida (dívida bruta ou dívida líquida do setor público), que são os indicadores divulgados sobre a saúde financeira do setor público. Ora, quando o governo lança mão de títulos para honrar os restos a pagar, estes acabam se transformando em operações de crédito, agora, sim, ampliando, por exemplo, a dívida bruta do governo. Esse incremento de dívida pressiona o governo a obter mais superávit, inclusive por meio de novos contingenciamentos, criando-se um verdadeiro círculo vicioso.

Em suma, o superávit das contas públicas, que deveria ser utilizado para efetivo pagamento dos juros e amortizações do estoque da dívida, acaba por "atender" também a essa nova dívida, criada pela emissão de títulos destinados aos restos a pagar. Essa prática pode, inclusive, ser um dos fatores que explicam a resistência da queda dos juros da economia, mesmo diante de "expressivos" superávits primários.

Há, portanto, amplo espaço para que a prática de contingenciamento de despesas no Brasil seja revista. No campo econômico, cabe introduzir regra de efetivo controle do crescimento do saldo dos restos a pagar. Na esfera jurídica, exige-se que os decretos tenham motivação consistente e maior legitimidade democrática, já que o contingenciamento transformou-se em poderoso instrumento de política fiscal, sem, no entanto, submeter-se aos crivos da deliberação pública ou parlamentar.



Mansueto Almeida e Alexandre Manoel são economistas do Ipea.



Helder Rebouças é consultor do Senado.

Livre comércio 'ad nauseam'



Por Jagdish Bhagwati - Valor 02/03

Tanto foi escrito, por tantas pessoas, contra as confusas ideias que devastaram o bom senso na política de comércio exterior dos Estados Unidos que é de se imaginar se ainda resta algo a dizer. Vale a pena lembrar, portanto, o que Pierre-Joseph Proudhon disse ao intelectual russo Alexander Herzen, segundo se noticiou: "E você acha que uma vez dito algo, isso é suficiente? [...] É preciso inculcá-lo nas pessoas, precisa ser repetido de novo e de novo."

O que precisamos agora é uma cartilha sobre as principais concepções equivocadas, na esperança de que ao contrário da Lei de Gresham - segundo a qual a má moeda tende a expulsar a boa moeda do mercado - as ciências econômicas boas expulsem as más. Quatro pontos, em particular, precisam ser corrigidos.

A primeira ideia equivocada é a de que as exportações criam empregos, enquanto as importações, não - uma falácia cuja origem Harry Johnson, um grande economista especializado em comércio, atribuiu ao mercantilismo e que os EUA ressuscitaram. Na verdade, em um mundo em que peças e componentes chegam de todos os lugares, interferir com as importações coloca em risco a competitividade. O sucesso das empresas de entregas, por exemplo, depende das importações, que precisam ser trazidas das fronteiras para o interior do território, assim como das exportações.

O segundo ponto é o fato de o credo "comércio, em vez de ajuda" ter dado lugar à crença equivocada de que o comércio é menos importante do que o auxílio internacional. O eleitorado trabalhista, sempre temeroso da concorrência das importações, minou a política de comércio exterior. Também desviou a política de auxílio para diretrizes que priorizam áreas em que os retornos pelos esforços dos EUA são relativamente minúsculos.

O Departamento de Estado dos EUA, portanto, deixou de ser defensor da liberalização multilateral do comércio, apesar de décadas de ganhos maciços decorrentes da remoção de obstáculos comerciais. Em vez disso, seu braço de programas de auxílio financeiro, a Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), retrocedeu e passou a dedicar-se a projetos de baixo rendimento, concebidos como experimentos aleatórios. Essa técnica impressiona Bill Gates e o novo administrador da Usaid, Rajiv Shah, tem experiência na área. No entanto, mesmo se todos esses programas forem bem-sucedidos, seus benefícios seriam uma pequena fração dos ganhos documentados que foram acumulados com o comércio e outras políticas na esfera macroeconômica, nas quais os EUA perderam o interesse.

Terceiro, muitos acreditam que a indústria merece apoio preferencial. Esse praticamente é o mantra do governo do presidente dos EUA, Barack Obama, o que lhe custou o apoio de muitas pessoas, seja da área econômica ou não, como Christina Romer, que presidiu seu Conselho de Assessores Econômicos. Em recente, comentário na imprensa, ela refutou praticamente todos os argumentos apresentados por lobistas do setor industrial em busca de tratamento especial.

Podemos somar aos críticos o prêmio Nobel de economia Robert Solow, defensor ferrenho do Partido Democrata de Obama. Ele concorda que há atividades que rendem maiores retornos sociais do que privados. O problema, ressalta, é que nem ele nem qualquer outra pessoa pode chegar a saber quais são essas atividades, enquanto os lobistas dizem que as conhecem com precisão.

Os defensores da política da "indústria em primeiro lugar" argumentam que "grupos" de empresas são mais produtivos do que empresas individualmente. Mas são difíceis de encontrar os efeitos resultantes de grandes agrupamentos. Os economistas Glenn Ellison e Edward Glaeser descobriram que os agrupamentos são apenas marginalmente melhores do que quando as empresas são distribuídas aleatoriamente. Além disso, é difícil não aceitar que estamos cada vez mais vendo a "morte da distância", para usar as famosas palavras da economista Frances Cairncross.

Por fim, o setor financeiro passou a ser visto como a ruína da moralidade. Em um mundo de fraudes financeiras e negociações com informações privilegiadas, é fácil acreditar nisso e aceitar que o setor financeiro precisa ser tributado. A moralidade, no entanto, está em todos os setores. Há muita gente honesta, assim como desonesta, em todas as áreas da vida. A visão quase marxista de que nossa moralidade decorre de nossa posição econômica negligencia o papel moralizador da família, religião, cultura e arte.

Tendo em vista essas ideias equivocadas, o protecionismo ressurgiu como um terrível inimigo. Em 1999, quando o encontro ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) viu-se em meio a ameaças de bombas e caos, perguntei ao então diretor-geral da instituição, Mike Moore, se não deveríamos estar preparados para morrer pela grande causa do livre comércio. Eu deveria ter dito: pelo menos deveríamos estar preparados a viver por ela.

Entre velhas e novas confusões e a certeza de que a demolição de cada má ideia apenas permite que outras ganhem raízes e cresçam em seu lugar, a tarefa do defensor do livre comércio nunca termina. (Tradução de Sabino Ahumada)



Jagdish Bhagwati é professor de economia e direito na Columbia University e membro associado em questões de economia internacional do Conselho de Relações Exteriores. É autor de "In Defense of Globalization" (em defesa da globalização, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org.

quinta-feira, 1 de março de 2012

BC vai para briga e dólar fecha a R$ 1,72


Valor 01/03


Um dia depois de perder a linha de R$ 1,70, o dólar comercial registou a maior alta percentual do ano, ao subir 1,24%, e encerrar o mês a R$ 1,72.

Mesmo com essa forte alta no dia, a moeda americana encerra fevereiro com baixa de 1,55%, e acumula queda de 7,97% no ano.

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o dólar para abril mostrava alta de 1,31%, a R$ 1,7315 antes do ajuste final.

Na há fato único por trás dessa puxada de alta, mas sim uma conjunção de fatores.

Além da maior volatilidade promovida pela rolagem e vencimento de contratos futuros de dólar, o dia contou com duas atuações do Banco Central (BC) no câmbio, grande instabilidade externa e novas conversas sobre medidas cambiais.

O pregão abriu pautado pelos vendedores, que levaram o dólar comercial para R$ 1,692 na mínima do dia, mas logo o BC acabou com a alegria dos vendidos ao anunciar uma oferta de swap cambial reverso (operação que equivale à compra de dólares no mercado futuro).

O anúncio de swap reverso já mudou o rumo do dólar, mas a alta tomou fôlego mesmo com a divulgação do resultado da operação, que mostrou firme demanda. Foram colocados 30,5 mil contratos, o equivalente a US$ 1,523 bilhão.

Ainda pela manhã, a autoridade monetária voltou à cena com uma compra à vista, que teve taxa de corte de R$ 1,7032. Em fevereiro, foram 12 atuações do BC nos mercados a termo, à vista e futuro (via swap reverso).

Olhando para frente, não há consenso sobre qual rumo o dólar pode tomar. Como o temor com possíveis medidas é crescente, alguns investidores mostraram preferência por zerar posições e esperar para ver.

Outros, no entanto, acreditam que a alta de ontem foi um importante ponto de entrada para quem perdeu a queda recente - ou seja, dólar para cima igual a oportunidade de venda.

Para o economista e professor da PUC-Rio, André Cabus Klotzle, o movimento comprador vem do BC e de alguns investidores realizando lucros, já que a atual injeção de recursos por parte do Banco Central Europeu (BCE) (mais € 500 bilhões), somada às demais medidas do Banco da Inglaterra (BoE) e Banco do Japão (BoJ) somam ainda mais liquidez ao mercado global, e esses recursos buscam rendimento em commodities, renda variável e, principalmente, moedas emergentes.

Nesse sentido, e tendo em vista o elevado diferencial entre a taxa de juros brasileira e internacional, além do baixo risco-país, sólido crescimento e bons fundamentos fiscais, o real se torna uma das moedas preferidas dos investidores estrangeiros", diz Klotzle.

Desse modo, acredita o economista, é possível antever que as atuações do Banco Central vão se tornar inócuas, tanto pelo montante de fluxo esperado, aumento de posições vendidas de estrangeiros e bancos, quanto pelo caráter de previsibilidade das intervenções.

No curto prazo, a autoridade monetária até consegue manter o câmbio acima de R$ 1,70, mas a médio prazo, diz Klotzle, o BC se torna perdedor, com prejuízos via ajuste de swaps cambiais reversos e perda de valor das reservas internacionais.

"Assim sendo, as apostas em alguma medida da Fazenda ou mesmo do BC elevam-se a cada dia. Taxar novamente a renda variável não seria prudente, assim como aumentar ainda mais a taxação das posições vendidas em derivativos. Algo macroprudencial no câmbio pode estar em voga", conclui o economista.

Como ocorre toda a quarta-feira, o BC deu nova prévia sobre o fluxo cambial. Pela segunda semana seguida, as saídas superaram as entradas. Entre os dias 22 e 24 de fevereiro, o fluxo foi negativo em US$ 1,27 bilhão. Com isso, o saldo no acumulado do mês até o dia 24 caiu para US$ 5,251 bilhões. Nesse período, as atuações do BC no mercado à vista retiraram US$ 335 milhões de circulação.

No mercado de juros futuros, mais do mesmo. As taxas voltaram a cair na BM&F, apoiadas na visão e na retórica do BC sobre a existência de espaço para a redução da taxa básica de juros. Os contratos continuam sugerindo Selic entre 9% e 9,5% ao ano, em comparação aos 10,50% atuais.

Fluxo em fevereiro se reduz a US$ 3,5 bi


Por Murilo Rodrigues Alves
De Brasília

O fluxo cambial de fevereiro foi marcado por dois momentos distintos. Nos oito primeiros dias úteis do mês, entraram liquidamente US$ 7,621 bilhões no país. No entanto, esse comportamento se inverteu nos oito dias seguintes, quando as saídas de moeda estrangeira superaram as entradas em US$ 2,371 bilhões, segundo os dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC).

O saldo acumulado nos 16 dias (US$ 5,25 bilhões) é menor do que o apresentado nas semanas anteriores: US$ 7,62 bilhões até o dia 10 e US$ 6,52 bilhões até o dia 17. Para o diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Moura Nehme, esses números fazem cair por terra a "presunção de que está sobrando dólares no mercado".

O fluxo financeiro ainda é superavitário em US$ 3,471 bilhões no acumulado do mês. Mas, pela segunda semana seguida, essa conta foi deficitária. Especificamente entre os dias 22 e 24, houve saída líquida de US$ 657 milhões. O segmento comercial também apresentou resultado negativo na semana após o feriado de Carnaval, de US$ 612 milhões. No acumulado do mês, o câmbio vinculado ao comércio registra saldo superavitário de US$ 1,780 bilhão.

Nehme afirma que o forte ingresso de recursos de empréstimos exteriores, incluindo a captação de US$ 7 bilhões da Petrobras, foi retirado do mercado nos dois leilões a termo realizados em 3 e 8 de fevereiro. No entanto, pelos dados oficiais, não é possível saber o impacto dessas intervenções nas reservas por causa da defasagem entre o momento das operações e o da liquidação financeira, em março.

O BC informou que duas das intervenções no mercado à vista neste mês somaram às reservas US$ 355 milhões. "O fato de o BC anunciar o leilão não quer dizer que tenha adquirido dólares ou que o tenha feito em volume substantivo", explica Nehme

De acordo com o economista, o real valorizado ainda ajuda na contenção das pressões inflacionárias e permite que a autoridade monetária corte "de forma mais rápida" a taxa básica de juros.

Ele acredita, porém, que o governo deve agir para evitar os fluxos especulativos. A primeira opção seria aumentar a tributação, mas Nehme afirma que o mais recomendável seria criar "empecilhos técnicos" para evitar que se atinja "os ingressos desejáveis".

Queda no crescimento da Índia traz receios



Por James Lamont
Financial Times, de Nova Déli

A queda acentuada no crescimento da economia da Índia, para 6,1% no trimestre encerrado em dezembro, o menor em três anos, traz receios de que possa haver um declínio prolongado, a menos que medidas emergenciais sejam adotadas neste mês.

O declínio na expansão da indústria e no setor de mineração acelerou a transição da terceira maior economia asiática para uma fase de crescimento menor. A forte queda dos investimentos vem alimentando expectativas de que o banco central indiano (RBI, na sigla em inglês) reduza os juros.

O diretor-geral da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia, Rajiv Kumar, disse que os dados "sóbrios" do Produto Interno Bruto (PIB) inviabilizam a meta de crescer 6,9% no atual ano fiscal e colocam em dúvida uma recuperação no ano que vem.

Muitos economistas avaliam que a própria Índia criou seus atuais problemas. Eles atribuem as dificuldades ao prejudicial declínio nos investimentos decorrente das altas taxas de juros; a um governo paralisado; e ao excesso de confiança no consumo alimentado por programas sociais.

O investimento empresarial caiu para 14% do PIB, dos 18% registrados nos cinco anos até 2008. As exportações caíram de 23% no ano passado para 14% este ano. A captação de empréstimos pelo governo no mercado, baixada para 3% quatro anos atrás, está agora em torno de 6% do PIB.

Dados divulgados ontem mostram que o crescimento econômico anualizado caiu para 6,1%, de 6,9% no trimestre anterior, pressionado por dois anos de aperto monetário gradual, de uma fuga do capital estrangeiro e de uma moeda local enfraquecida.

Sonal Varma, economista em Mumbai do banco Nomura, disse que a desaceleração na Índia é "indiscutivelmente evidente. O que surpreende é que o declínio dos investimentos e da produção é pior do que durante a crise financeira mundial em 2008".

Os crescentes riscos da China



Por Yao Yang - Valor 01/03

Se tudo continuar bem para a China, o país superará os Estados Unidos como maior economia do mundo, em dólares correntes, em 2021 (ou ainda antes em termos reais). Sua renda per capita atingirá o que hoje é a faixa mais baixa dos países de alta renda. Apesar do impulso à frente, a economia chinesa depara-se com riscos à espreita nos próximos dez anos.

O risco imediato é o de continuidade da estagnação, ou recessão, na Europa. Nos últimos dez anos, o crescimento das exportações representou cerca de 30% do crescimento econômico da China e cerca de 30% das exportações chinesas tiveram como destino a União Europeia. Se a situação na Europa continuar a se agravar, o crescimento na China será afetado.

Endurecer excessivamente as políticas macroeconômicas domésticas, especialmente as voltadas ao mercado imobiliário, poderia incrementar o risco de desaceleração. Os preços dos imóveis residenciais na China já estão em queda, afetados por medidas governamentais mais rigorosas. De fato, a situação é bem parecida com a da crise financeira asiática de 1997. Vários anos antes de a crise estourar, a China vinha combatendo a inflação e parecia encaminhar-se a uma desaceleração suave. A crise, no entanto, em conjunto com medidas de austeridade, condenou o país a vários anos de deflação e a um crescimento menor.

Hoje, enquanto a China pensa no médio prazo, o governo precisa abordar os problemas criados por seu papel predominante na economia. Um novo informe do Banco Mundial aponta a falta de reforma das empresas estatais como o maior obstáculo ao crescimento econômico do país. Isso, no entanto, é apenas sintoma de um problema mais profundo: o papel dominante do governo nos assuntos econômicos.

Além de controlar diretamente entre 25% e 30% do Produto Interno Bruto (PIB), o governo também é responsável pela maior parte dos recursos financeiros. Nos últimos anos, cerca de 35% dos empréstimos bancários foram destinados à infraestrutura, sendo a maior para obras de instituições governamentais. É verdade que o governo admitiu seu excesso de investimentos em infraestrutura e recentemente abandonou vários projetos de trens de alta velocidade que já estavam em construção. O excesso de investimentos governamentais, no entanto, também é flagrante nos vários parques industriais e zonas de alta tecnologia.

O frenesi de investimentos da China faz muitas pessoas recordarem o Japão nos anos 80, quando as linhas de trens de alta velocidade foram levadas aos cantos mais remotos do Japão. A maioria depende de subsídios do governo até hoje. E, embora os subsídios possam melhorar a qualidade de vida das pessoas comuns em vários aspectos, também a prejudicam ao suprimir o consumo doméstico.

Os investimentos em infraestrutura inevitavelmente serão contidos pela lei de diminuição dos retornos marginais. O crescimento no consumo, contudo, não tem limite. Suprimir o consumo, portanto, sufocaria o crescimento futuro, sendo que a participação do consumo doméstico no PIB caiu de 67% em meados da década para menos de 50% nos últimos anos.

O governo chinês é orientado à produção por natureza. A vantagem é que isso ajudou a manter altas taxas de expansão do PIB. O lado negativo, contudo, é igualmente forte. Uma consequência negativa é o aprofundamento persistente da desigualdade de renda. O coeficiente Gini de renda per capita é superior a 50 pontos (100 representa o máximo de desigualdade), o que coloca a China entre os piores 25% em desigualdade no mundo.

O problema pode não ser a desigualdade por si só, mas suas consequências, como a bifurcação do capital humano. O retorno do investimento em educação na China vem aumentando, mas o acesso ao ensino torna-se cada vez mais dividido social e geograficamente. Embora a educação esteja melhorando nas áreas urbanas, as crianças na zona rural deparam-se com um declínio na qualidade do ensino, porque os melhores professores mudam-se para as cidades. Além disso, tendo em vista a disparidade de renda entre o campo e a cidade, a educação nas áreas rurais é mais cara.

Como resultado, a maioria das crianças em áreas rurais entrará na força de trabalho sem diploma universitário. Entre os 140 milhões de trabalhadores migrantes da China, 80% têm apenas nove anos ou menos de educação formal - bem menos do que requerem os países de alta renda.

Apesar do aparente desejo das autoridades de reduzir a desigualdade de renda, o governo da China a agrava ao, entre outras coisas, subsidiar produtores, favorecer indústrias de uso intensivo de capital e manter um setor financeiro altamente ineficiente. Também há, no entanto, sinais promissores de avanço econômico. O governo acaba de anunciar novas regras para o registro familiar, conhecido como "hukou". A não ser nas grandes cidades, as pessoas agora podem escolher livremente seu "hukou" após três anos de residência. Isso ajudará os migrantes imensamente, ao garantir condições iguais de acesso à educação para seus filhos.

Mudar completamente o comportamento distorcivo do governo, no entanto, requer mudanças mais radicais nas políticas. A reforma do "hukou" é um bom começo, já que fortalecerá os direitos políticos dos migrantes nas comunidades locais. Tende em vista seu grande número, sua participação política pode obrigar os governos locais a ficarem mais atentos às necessidades das pessoas comuns. E se os degraus mais baixos do governo começarem a dar mais atenção, é de se esperar que isso acabe chegando às esferas mais altas do poder. (Tradução de Sabino Ahumada)



Yao Yang é diretor do Centro para a Reforma Econômica da China, da Universidade de Pequim.. Copyright: Project Syndicate, 2012.



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Nível de estoque industrial cai forte, mas confiança do setor aumenta pouco



Por Tainara Machado - Valor 01/03
De São Paulo

Apesar da leve evolução mostrada pelo Índice de Confiança da Indústria (ICI) em fevereiro, a recuperação do setor ainda não ganhou força. A fase mais fraca para a produção ficou para trás, entre outubro e novembro, mas o ritmo da retomada é lento e foi agravado pela deterioração da demanda geral, que sofreu forte baque do cenário internacional, avalia Aloisio Campelo, coordenador da Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getulio Vargas (FGV). Por isso, o ajuste de estoques em curso desde novembro não trouxe grande alívio, apesar dos inventários estarem no menor nível desde junho do ano passado.

O ICI teve alta de 0,2% em fevereiro na comparação com janeiro, feito o ajuste sazonal, de acordo com a sondagem divulgada ontem pela FGV. O ritmo, no entanto, foi menor do que o observado no mês anterior, na mesma base de comparação, quando o indicador havia subido 0,5%.

Ainda assim, em fevereiro o nível de estoques teve nova melhora, de 0,8%, sempre na comparação com o mês anterior e com ajuste sazonal. A proporção de empresas que declararam estoques excessivos caiu de 6,3% para 5,7% entre janeiro e fevereiro e, ressalta Campelo, apenas três setores, representativos de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial, encontram-se agora superestocados. Em dezembro oito segmentos, equivalentes a 41% do PIB industrial, estavam nessa situação.

Campelo atribui a alta de 1,4% observada na Situação Atual dos Negócios pelas empresas consultadas ao processo contínuo de ajuste de inventários. "No mês passado, tivemos novamente ajuste de estoques e a avaliação da situação dos negócios melhorou, mas a percepção de demanda, principalmente externa, prejudicou o resultado", afirmou o coordenador da sondagem.

Em fevereiro, o indicador de demanda global recuou 0,4%, sempre na comparação com o mês anterior, feitos os ajustes sazonais. Pelo terceiro mês consecutivo, a percepção para o nível de demanda externa caiu e está agora quase 5 pontos abaixo da média histórica, o que reflete a deterioração do cenário internacional, segundo Campelo.

Por causa dessa dinâmica, a produção prevista caiu 2,5% e puxou para baixo o Índice de Expectativas (IE), que interrompeu sequência de quatro meses de alta e recuou 0,4% em fevereiro, sempre na comparação com o mês anterior. A queda, no entanto, foi concentrada em cinco setores - químico (-6,3%), produtos de matérias plásticas (-3,5%), material elétrico e de comunicações (-2,8%) mecânico (-0,7%) e vestuário e calçados (-0,6%) - bastante afetados pela competição com importados e a valorização do real.

Já o segmento de bens de capital teve desempenho surpreendente, disse o coordenador. O ICI para o setor saltou 6,4%, principal contribuição positiva para que a confiança da indústria se mantivesse em terreno positivo no mês passado.

Para Campelo, o resultado divulgado ontem, apesar de pouco animador, não ameaça a perspectiva de desempenho positivo para a indústria no começo deste ano. Como a confiança em relação ao presente, expressa pelo Índice de Situação Atual, continuou a evoluir, com alta de 0,6% no período, houve reforço da projeção de que a produção industrial medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) terá crescimento de 1% neste trimestre, ante os últimos três meses de 2011. "Mas, na ponta, a indústria está perdendo fôlego e o segundo trimestre pode ser pior que o primeiro", disse.

A lenta recuperação deve levar o setor industrial a só igualar o nível de atividade observado em março de 2011, pico para o ano passado, no fim do primeiro semestre de 2012, afirmou Campelo. Para ele, a produção neste ano deve aumentar entre 1,5% e 2%, pois o crescimento será limitado por uma baixa herança estatística, negativa em 0,9%.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

TV ON LINE

REPRESENTANTE DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA FALA SOBRE PRONUNCIAMENTO DE TOMBINI  TEMPO: 00:05:40


Em entrevista ao programa “Conta Corrente”, da Globo News, a representante da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, falou sobre o pronunciamento do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que a economia vai crescer mais no segundo semestre do ano.

SONORA:

*ALESSANDRA RIBEIRO, representante da Tendências Consultoria
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: RAQUEL NOVAES


ÚLTIMAS INFORMAÇÕES DO MERCADO FINANCEIRO COM NÚRIA SALDANHA TEMPO: 00:4:35  - 28/02


Direto da BM&FBovespa, a repórter Núria Saldanha traz as últimas informações do mercado financeiro.


TV: BAND NEWS
PROGRAMA: BAND NEWS MANHÃ
APRESENTADOR: VANESSA COCHI