terça-feira, 6 de março de 2012

O planeta que queremos



Por Jean-Pierre Lehmann - Valor 06/03

Ao olhar para o mundo em 2012, observamos que ele continua cheio de oportunidades, mesmo se comparado com apenas dez ou 20 anos atrás. No entanto, ainda estamos em choque por causa da crise de 2008 - financeira, sim; porém uma crise mais sistêmica e de confiança. A colaboração global - cada vez mais um paradoxo -, infelizmente carece de apoio em áreas-chave, como comércio, finanças, pobreza, doenças, alimentação, água, clima e geopolítica. O mundo mais parece um vulcão, podendo explodir a qualquer momento.

O "Financial Times" começou o ano de 2012 com uma série intitulada "O capitalismo em crise". Em um editorial, foi escrito: "O capitalismo ressurgente da década de 1980, sob a liderança de Ronald Reagan e Margaret Thatcher... provou-se não apenas instável, mas, em aspectos importantes, injusto".

O capitalismo e a economia de mercado global irão sobreviver apenas se houver reformas radicais. As reformas são essenciais não só nas instituições e políticas, mas também em cultura e mentalidades - as formas como concebemos o planeta e como o queremos. Então, enquanto me preparo para me aposentar como diretor do Evian Group no IMD e como professor de política econômica internacional no IMD, ofereço alguns "pensamentos de despedida" que parecem pertinentes ao contexto global e à agenda Evian/IMD. São pensamentos sobre erros e como corrigí-los, a fim de tornar o planeta um lugar em que gostaríamos de viver, e também onde gostaríamos de ver nossos filhos e netos.

As armadilhas da complacência - os mandamentos do realismo sóbrio. É verdade que a crise poderia ser prevista, mas claro que não em seus pormenores exatos. Mas note a seguinte frase, de Joseph Stiglitz, em 2002, em 'Globalização e suas insatisfações': "Hoje, o sistema capitalista está em uma encruzilhada, assim como esteve durante a Grande Depressão". Nos anos que precederam a crise houve um senso de complacência generalizado nos círculos governamentais e empresariais, pelo qual pagamos caríssimo.

As elites precisam mudar. Exceto alguns indivíduos excepcionais; em termos gerais, o planeta tem sido mal servido por suas elites. O que é surpreendente é seu altíssimo grau de incompetência, além de aparentarem ser insensíveis. As muitas manifestações, como Occupy Wall Street, não são motivadas pelo ressentimento contra a riqueza em si, mas como a riqueza é obtida. Precisamos de elites novas ou reformadas, com mais competência, responsabilidade, sensibilidade, consciência e muito mais humildade.

O financeiro deve vir em segundo plano; e a economia real, em primeiro. Recentemente, tem sido o inverso - as finanças em primeiro plano e a economia real, em segundo. A menos que o financeiro seja domado, a crise do capitalismo vai continuar e, provavelmente, acabará arruinando o sistema. Este é um imperativo também para abordar o verdadeiro câncer que está destruindo as sociedades em todo o mundo: a injustiça.

O imperativo de uma luta unificada e bem-sucedida contra a injustiça. O sentimento generalizado de injustiça provém de níveis altíssimos (e crescentes) de desigualdade - não só de renda, mas de oportunidades de educação, saúde e meio ambiente. Atacar a injustiça social tem de ser responsabilidade de todos, principalmente das elites. Mentalidades e cultura precisam de uma mudança radical.

Restaurando o respeito ao serviço público e o senso de comunidade. Ao tomar posse, em janeiro de 1961, o presidente dos EUA, John Kennedy, declarou: "Não perguntem o que seu país pode fazer por você - pergunte o que você pode fazer por seu país". Havia um pressuposto implícito da dignidade e obrigação do serviço público. Duas décadas depois, em sua cerimônia de posse, Ronald Reagan afirmou: "Nesta atual crise, o governo não é a solução para nosso problema: o governo é o problema". Desde então, e até a crise atual, tem havido uma tendência para venerar o mercado e denegrir o governo.

Tem de haver uma ênfase muito maior no serviço público e comunidade. As pessoas com vantagem trazem benefícios aos menos favorecidos. São também os modelos que buscamos, e que constroem o planeta que queremos.

Trazer as ciências humanas de volta. Outra causa da crise do capitalismo é a marginalização das ciências humanas em favor de matérias e cursos mais "práticos", como administração, contabilidade, marketing, etc. A elite reformada precisa ter uma base intelectual sólida e profunda. Para entender a condição humana e moldar o planeta que queremos, deveria haver muito mais estudos de história, geografia, literatura, arte, música, filosofia, antropologia, religião, etc.

Gerando a festa, não o choque de civilizações. O mundo não está se adaptando bem aos desafios da criação de uma aldeia global.

Elites ocidentais são, em sua maioria, muito mal preparadas para as transformações globais. Pouquíssimas têm experiência fora da Europa Ocidental e América do Norte; dificilmente falam chinês ou outras línguas asiáticas; e muito menos estudaram em universidades não-ocidentais. Este é outro aspecto fundamental em que precisamos de elites novas ou reformadas - aquelas que conhecem bem o planeta, e não apenas um canto dele!

Na criação da aldeia global, as ciências humanas são extremamente importantes. Não basta apenas ter conhecimento básico das fontes de cultura e civilização de uma sociedade, mas também uma "sensibilização" de suas atuais dinâmicas e aspirações. Isto pode ser realizado através da literatura contemporânea. Os conhecimentos obtidos também fornecem a possibilidade de se adquirir o fator tão essencial para a construção do planeta que queremos: a empatia.

Este último aspecto é o mais importante e relevante para a agenda Evian/IMD. Uma escola de negócios global precisa desenvolver alfabetização cultural global, compreensão e empatia. Embora a agenda Evian esteja focada principalmente no comércio, ela é bastante baseada na forte convicção filosófica de que um mercado global não pode funcionar sem uma aldeia global robusta.



Jean-Pierre Lehmann é professor de Política Econômica Internacional no IMD, diretor fundador do Evian Group no IMD e pesquisador sênior no Fung Global Institute em Hong Kong.

Derrubado pela indústria, PIB encerra 2011 com alta de 2,7%



Por Juliana Ennes, Diogo Martins e Tainara Machado
Valor 06/03

RIO E SÃO PAULO

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,7% em 2011. Pelo lado da oferta, agropecuária subiu 3,9%, indústria subiu 1,6% e o setor de serviços cresceu 2,7%%, todos os dados em relação a 2010. Naquele ano, o PIB registrou avanço de 7,5% sobre o ano anterior.

Pelo lado da demanda, o consumo das famílias cresceu 4,1%, enquanto o do governo subiu 1,9%, e o investimento (medido pela formação bruta de capital fixo) aumentou 4,7%. As exportações registraram alta de 4,5% e as importações, alta de 9,7%,

O resultado do PIB do ano de 2011, medido pelo IBGE, ficou em linha com o resultado do IBC-Br, o índice de atividade econômica calculado pelo Banco Central, com o objetivo de ser uma “proxy” do PIB brasileiro. O IBC-Br de 2011 apresentou expansão de 2,72% em relação a 2010, na série sem ajuste sazonal. No último boletim “Economia Brasileira em Perspectiva”, divulgado em fevereiro, o Ministério da Fazenda ainda estimativa um PIB de 3,2% para o ano passado, enquanto o relatório de inflação do BC de dezembro reduziu a projeção anterior para o PIB de 3,5% pra 3%. Para este ano, a estimativa oficial do governo é de uma expansão do PIB de 4,5%.

O resultado do PIB do ano de 2011, medido pelo IBGE, ficou em linha com o resultado do IBC-Br, o índice de atividade econômica calculado pelo Banco Central, com o objetivo de ser uma “proxy” do PIB brasileiro. O IBC-Br de 2011 apresentou expansão de 2,72% em relação a 2010, na série sem ajuste sazonal. No último boletim “Economia Brasileira em Perspectiva”, divulgado em fevereiro, o Ministério da Fazenda ainda estimativa um PIB de 3,2% para o ano passado, enquanto o relatório de inflação do BC de dezembro reduziu a projeção anterior para o PIB de 3,5% pra 3%. Para este ano, a estimativa oficial do governo é de uma expansão do PIB de 4,5%.
A forte desaceleração da economia no último ano atingiu todos os componentes do PIB, mas alguns com maior intensidade. Após crescer 7,5% em 2010, o governo e o Banco Central (BC) tomaram medidas para resfriar a demanda interna, com aumento da taxa básica de juros e aperto dos gastos públicos, por exemplo.
Pelo lado da demanda, o investimento, que costuma ter comportamento bastante pró-cíclico, foi o componente que mais perdeu fôlego ao longo de 2011, segundo os dados divulgados hoje pelo IBGE, pois havia registrado aumento expressivo de 21,3% em 2010. No consumo das famílias, o ritmo de 2011 também foi menor do que o do ano anterior, mas a queda foi menos intensa, pois esse segmento da demanda havia crescido 6,9% em 2010, abaixo da taxa média da economia.

Pelo lado da oferta, a indústria, pressionada também pelo real valorizado e pelo aumento da concorrência com importados, foi o que mais sentiu o peso das ações de política monetária e também a concorrência dos importados - em 2010, seu crescimento chegou a 10,4% em relação a 2009. O setor de serviços também desacelerou ao longo do ano passado, mas se provou mais resiliente, pois havia encerrado 2010 com alta de 5,5%.



segunda-feira, 5 de março de 2012

Chiclete do Banco Central

3 de março de 2012


Celso Ming

A política de juros do Banco Central mostra coerência interna. Mas o corpo de justificativas usadas para fundamentá-la é um chiclete que pega a forma de cada mastigada.

Na atual fase, o corte dos juros começou em agosto. Na ocasião, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, defendeu a derrubada dos juros como modo de melhor defender a economia brasileira para a catástrofe global que estaria próxima: seria o naufrágio de vários Titanics bancários, com todos os destroços que viriam com ele.
Logo se viu que esse pior dos mundos não se confirmaria: mal ou bem, os dirigentes dos países ricos ganharam tempo e blindaram o patrimônio dos bancos contra quebras em dominó. Mas a derrubada interna dos juros tinha de prosseguir.

A nova explicação veio da desaceleração do crescimento do PIB. Mesmo com desemprego recorde e expansão da massa salarial, os motores da indústria vinham batendo pino. Assim, passou a ser preciso, avisava o Banco Central, continuar a calibragem dos juros a essa quebra futura de poder aquisitivo do consumidor. Portanto, mesmo não se confirmando o quadro imaginado, o Banco Central estava correto, como quem atirasse no que viu, mas acertasse no que não viu.

Mas o governo Dilma parece contrariar esses prognósticos. Aposta num avanço do PIB para este ano entre 4,5% e 5,0% e não no devagar-quase-parando sugerido pelos documentos do Banco Central. Foi preciso, então, buscar nova justificativa para a derrubada dos juros. A ata da última reunião do Copom avisou que os juros neutros (ou seja, o nível dos juros que não provocam inflação) caíram substancialmente nos últimos anos, graças aos avanços de qualidade da economia. Não foi um argumento convincente e o próprio mercado passou a discordar abertamente do Banco Central.

Desse modo, o Copom está à procura de outras justificativas. As últimas manifestações de indignação da presidente Dilma Rousseff parecem ajudar o Banco Central nessa parada. Há um brutal tsunami de moeda estrangeira invadindo o mercado de câmbio do Brasil, adverte ela, não só por que melhorou a percepção global sobre a qualidade da economia, mas, também, porque as atuais condições favorecem a entrada de capitais destinados a especular com a diferença de juros.
Não é nada, o Banco Central Europeu acaba de despejar 1 trilhão de euros nos bancos em empréstimos de pai pra filho por três anos, a juros de apenas 1% ao ano. Para eles, a generosa acolhida do Brasil, que paga juros reais (descontada a inflação) de 4,0% a 4,5% ao ano, é sopa no mel.

Conclui-se pelo discurso presidencial que vivemos momento atípico, de forte canibalismo monetário. A melhor maneira de defender o Brasil desse jogo é manter implacavelmente a atual trajetória de derrubada dos juros. A hora é de dançar no salão a música que está sendo orquestrada pelos grandes bancos centrais – e injetar mais dinheiro na economia. O combate à inflação, se ela aparecer, fica para mais à frente.

Mas, afinal, estão certos ou errados o governo Dilma e o Banco Central, quando desenvolvem essa estratégia de política monetária? Podem até estar certos. Mas as explicações mudam a cada mastigada dos fatos.

Lições de uma guerra cambial


Por Sergio Leo - Valor 05/03

Ao criar obstáculos à entrada de moeda estrangeira no país, na semana passada, o governo apontou para um dos dois temores despertados em Brasília pelo que o ministro Guido Mantega definiu como "guerra cambial". Atacou-se o receio de que o país seja inundado por dinheiro especulativo, em busca de lucros com a diferença entre o baixo custo do capital no mundo e o alto rendimento pago aos investidores no Brasil. Há dúvidas se essa ação do governo será eficaz. E há ceticismo ainda maior em relação a maneira como se tem enfrentado o outro medo em Brasília, o de invasão de importações baratas, capazes de sufocar a indústria nacional.

Não se pode acusar o governo de não ter uma agenda clara e uma rota definida para lidar com os efeitos colaterais dessa guerra cambial, caracterizada por medidas monetárias nos principais mercados do mundo que, por diferentes caminhos, resultam na desvalorização das moedas desses países, tornando seus produtos e mercados mais competitivos.

A decisão de punir com maior imposto os empréstimos internacionais às exportações partiu da avaliação de que esses financiamentos encobriam a entrada de capital para especular no mercado interno, e antecipam um repertório ainda maior de medidas punitivas e de uma possível aceleração da queda de juros.

No caso da política comercial, há integrantes do governo que, em conversas reservadas, assumem que estão dispostos a levantar barreiras a importações mesmo que contrariem compromissos internacionais do país, como as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) - como foi o caso evidente do aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), sobre automóveis importados. Admite-se quebrar as regras com o argumento de que seria ingenuidade respeitá-las quando outros governos as abandonam, e o Brasil, além disso, se defronta com competição desleal turbinada pela desvalorização excessiva dos preços de mercadorias em dólar, euros ou yuan.

As medidas protecionistas, arrumadas na prateleira da defesa comercial, na maioria dos casos, porém, são reação à demanda das empresas instaladas no país. Muitas delas são justificadas e necessárias, como as barreiras a importações com dumping, preço abaixo do normal, ou falsificações, ou ainda a mercadorias subsidiadas ilegalmente pelos seus países de origem. Um sinal de que há racionalidade e não mero protecionismo em muitas das ações nesse campo foi a decisão da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), na semana passada, de mudar as regras de comprovação de norma de origem, para facilitar - e não dificultar - a entrada de mercadorias de países asiáticos que não concedem certificados aos exportadores locais antes do embarque.
Legais ou não, porém, as medidas protecionistas são armadura de pouca resistência. Seu efeito total sobre as importações brasileiras - e, portanto, sobre as contas externas do país - é limitado. Embora tenham garantido a sobrevivência de fabricantes em setores menores, como o de escovas ou de imãs de ferrite, as noventa medidas de defesa comercial dentro das regras da OMC em vigor não chegam perto de 5% dos US$ 255 bilhões de importações registrados no ano passado. E as medidas "criativas" de maior alcance, como o aumento do IPI de automóveis, só mostraram, até agora, como é perigoso improvisar nesse terreno.

O governo, que se prepara para anunciar o novo regime automotivo, com estímulos à instalação de fábricas e criação de pesquisa e desenvolvimento no país, argumenta que os anúncios bilionários de investimento por parte de montadoras estrangeiras, nos últimos meses, são sinal do sucesso do aumento do imposto, em 30 pontos percentuais, decidido no ano passado. Uma afirmação que só pode ser repetida pelos muito governistas ou muito crédulos.

A verdade é que praticamente todos os investimentos dos fabricantes de automóveis já estavam nos planos das empresas, alguns já tinham sido até anunciados. Se o aumento do IPI teve algum efeito foi o de criar incerteza entre esses investidores.

Fala-se no governo em eliminar o aumento do imposto para quem tiver planos de investir no país, mesmo que não cumpra de imediato as exigências de conteúdo nacional - que, aliás, até agora não ganharam definição clara. Na prática, isso significa recuar da decisão sobre o IPI até para montadoras chinesas, que, afinal, também estão vindo fabricar no Brasil. Um outro reconhecimento oficial da inutilidade do aumento do IPI foi o anúncio, pelo Planalto, da possível ruptura do acordo com o México, com o qual o Brasil tem livre comércio de produtos automobilísticos.

Mesmo antes do aumento, a balança comercial já mostrava uma escalada nas importações de automóveis do México que por causa do acordo automotivo, foram isentos do aumento de IPI. E, coerente com seu anúncio de preocupação com o forte influxo de importações, o governo decidiu forçar uma redução nas vendas mexicanas ao país, desta vez para surpresa das montadoras que têm no México um pilar de suas estratégia de produção.

Assim como não quer que o vigor da economia brasileira atraia capitais especulativos tornando o país mais vulnerável aos humores internacionais, a presidente Dilma Rousseff crê que seu projeto de estimular empregos e produção no país a partir das medidas de fortalecimento do mercado interno pode ser sabotado pelo crescimento de importações. É o que explica a pulsão protecionista em Brasília. Mas já há indicações suficientes para mostrar que as importações não são uma doença. São apenas sintoma de uma moléstia de muitas causas, chamada perda de competitividade da economia brasileira.



Grécia fora da UE não deve ser opção



Por Camila Villard Duran - Valor 05/03

Algumas vozes europeias têm sustentado que a saída da Grécia da zona monetária comum poderia ser uma resposta para os problemas econômicos que o país vem enfrentado. Esse processo poderia tornar a economia grega mais competitiva, via desvalorização monetária. Assim, a Grécia seguiria o "modelo" argentino do início da década passada que, ao reformar seu sistema monetário e entrar em default com seus credores externos, pôde se reconstruir e hoje apresenta taxas significativas de crescimento econômico.

O problema desse argumento é que a Grécia não é a Argentina e sua economia depende da importação de produtos relevantes, inclusive de alimentos. A desvalorização do dracma grego em relação ao euro, como decorrência da saída da zona comum, vai tornar o custo não somente de empresas, mas principalmente de famílias gregas, extremamente elevado. Esse processo desencadeará pobreza e marginalização de um grande número de cidadãos, que são europeus.

A saída da Grécia não deveria nem ao menos ser considerada. Se o esforço de ajuste fiscal implica problemas sociais e demanda uma política europeia específica de solidariedade financeira, que responda a essa questão), o que se pode dizer de um processo induzido de perda de confiança na moeda e de diminuição drástica do valor de unidades monetárias gregas? A comparação com o caso da Argentina tem se reduzido aos argumentos de benefícios econômicos. Entretanto, eles foram sentidos depois de anos de penúria popular.

O sofrimento de uma parte expressiva da população, que se viu pauperizada durante muito tempo e que enfrenta até hoje as dificuldades decorrentes, deveria ser considerado nesse debate. Além disso, esse tipo de medida tende a impactar especialmente a camada menos favorecida da população, uma vez que as classes sociais mais abastadas dispõem de instrumentos financeiros em outras moedas para se proteger. Adicionalmente, se o processo de saída da zona euro for anunciado previamente, uma corrida bancária, com vistas à retirada de euros para a proteção do valor de créditos, seria inevitável. Essa corrida acarretaria problemas ainda mais graves às instituições depositárias gregas. Países que viveram processos hiperinflacionários e de perda de confiança no padrão monetário conhecem bem os custos sociais e econômicos envolvidos - e a Alemanha é um deles.

Os gregos são, antes de tudo, cidadãos europeus. A grande maioria declara querer permanecer na zona euro. O avanço da moeda única não é somente econômico. Ele faz parte da construção da cidadania europeia. Ser cidadão europeu também é compartilhar uma referência monetária comum (ou aspirá-la) e fazer trocas entre fronteiras em uma linguagem comum: o euro. Nesse processo, as diferenças linguísticas também são ultrapassadas. Os processos de integração econômica e, especialmente, monetária são também processos de integração social.

A integração europeia é um exemplo de como a integração econômico-monetária pôde proporcionar benefícios sociais e de identificação cultural a um enorme contingente populacional de histórias diversificadas. A economia da Alemanha e dos países ditos do "norte" dependem do comércio europeu e dessa linguagem monetária comum. Os gregos e os países europeus do "sul" integram a riqueza econômica e cultural dessa região. A França parece ter um posicionamento central e estratégico nesse contexto: ela é capaz de articular negociações políticas entre países do "norte" e do "sul".

A solução para o impasse grego passa pela reconstrução do desenho institucional da zona monetária comum. A criação dos eurobonds, emissões de dívida solidária com garantias compartilhadas entre países membros em substituição às dívidas soberanas emitidas individualmente, e o aprofundamento da solidariedade financeira, via reforço de estruturas jurídico-econômicas como o fundo europeu de estabilização financeira, parecem ser medidas incontornáveis. Para o caso grego e, muito provavelmente, também para o português em um horizonte de curto prazo, que revelam problemas de solvência, a reestruturação da dívida e um default organizado (para além do corte já negociado) parecem ser necessários.

Para tanto, mecanismos de apoio a países com problemas de liquidez (como a Itália, a Espanha e a Irlanda) precisariam ser reforçados para evitar contágio. Uma maior atuação do BCE, na compra de títulos soberanos em mercado secundário, e uma ampliação dos poderes do fundo, inclusive financeiro, tornar-se-iam imperativos.

A segunda "frente" de reestruturação institucional tem se relacionado a medidas políticas de redução da dívida pública desses países e de medidas jurídicas de supervisão e sanção à assunção de déficits excessivos. No entanto, políticas de aperto fiscal precisariam ser dosadas por políticas de crescimento, que deveriam compreender investimento público dirigido a setores da economia promissores e dinâmicos, além de medidas de integração social. Ao contrário de outros países, entretanto, uma política monetária expansionista não poderia fazer parte desse conjunto de políticas, já que ela é proibida pelo tratado europeu. Uma integração fiscal cada vez mais acentuada parece constituir o cenário provável para a UE.



Camila Villard Duran é doutoranda em direito pela USP e pela Paris 1 Panthéon-Sorbonne.

Protecionistas são os outros



Por Robson Braga de Andrade - Valor 05/03

Críticas a uma suposta escalada protecionista do Brasil têm sido frequentes ultimamente. Os defensores da tese apoiam-se, essencialmente, no decreto que elevou a cobrança do IPI para automóveis importados, no uso mais intenso de medidas de defesa comercial pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e na política de conteúdo nacional executada pelo governo.

Antes de atirar a primeira pedra, é importante, contudo, definir com mais precisão o conceito de protecionismo. Trata-se, em resumo, de um conjunto de medidas econômicas e comerciais que beneficiam a atividade doméstica em detrimento da produção importada. Incluem-se aí não apenas as tarifas de importação - nas quais a maior parte das críticas à postura brasileira costuma se concentrar - mas instrumentos como a política tributária interna, financiamentos, barreiras sanitárias e a política cambial, que têm sido decisivos nos últimos anos.

Levando essas variáveis em conta, é possível afirmar que a indústria brasileira está protegida?

Ressalte-se, inicialmente, que entre as principais economias do mundo não há informação de países que ofereçam redução da alíquota de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) para bens importados, como fazem alguns Estados ao reduzir o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Vamos aos cálculos: em alguns Estados, o diferimento do ICMS alcança 14% sobre o valor do produto importado. De acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC), a média tarifária de importação efetivamente aplicada pelo Brasil está situada em 13,6%. Significa dizer que somente a guerra fiscal dos Estados nas importações tem o poder de anular a política tarifária do governo federal.

É um contrassenso, um retrocesso, contra os quais se opõe firmemente a indústria brasileira. Tanto é assim que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) ajuizou no Supremo Tribunal Federal (STF) cinco Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs), contra os benefícios do ICMS às importações.

Num outro aspecto, o Brasil não manipula sua taxa de câmbio para obter vantagens comerciais. A moeda brasileira é determinada pelo mercado. O real foi apontado pela revista "The Economist" como a quarta moeda mais sobrevalorizada do mundo em 2011, atrás apenas das moedas de nações como Suíça, Noruega e Suécia. Em contrapartida, a atual maior potência industrial exportadora, a China, opera com taxa de câmbio subvalorizada em torno de 25%. Nessa prática, os chineses têm a companhia de outras nações regionalmente integradas, como a Coreia do Sul, Malásia e Vietnã. Somando o diferimento do ICMS com o diferencial cambial, a vantagem do bem importado em relação ao nacional torna-se abissal.

Do ponto de vista da política comercial, o Brasil praticamente só faz uso de tarifas de importação para se proteger, com teto em 35%. Enquanto isso, os outros usam um arsenal de medidas para blindar seus mercados.

A Rússia aplica cotas tarifárias às carnes brasileiras (para carne de aves a tarifa extracota pode chegar a 95%) que, além de restringir as exportações, são inconstantes, inibindo o planejamento do produtor brasileiro. Os russos ainda aplicam IVA diferenciado na importação de automóveis, fazendo com que o imposto efetivamente pago pelos exportadores de veículos à Rússia alcance 70%.

Os Estados Unidos são outro exemplo de protecionismo. Para preservar sua indústria do aço, baixaram uma série de medidas de defesa comercial. No caso das salvaguardas, impuseram, de forma preventiva, barreira ao produto importado sem que fosse provado o dano à atividade doméstica. A iniciativa foi rechaçada pela OMC.

O Brasil, por meio da Secex, é criterioso na aplicação dessas medidas, de tal forma que é reconhecido por respeitar rigorosamente as regras internacionais. A defesa comercial, no nosso caso, cumpre sua função de lutar contra importações desleais. Não é protecionismo.

Não param de se multiplicar iniciativas de países que protegem seus mercados, como acaba de ocorrer com tarifas antidumping da África do Sul contra o frango brasileiro, sem fundamento e mal embasadas tecnicamente. Isso sem mencionar as barreiras técnicas impostas pela União Europeia e as restrições indianas ao investimento estrangeiro em diversos setores, como comércio, ferrovias e imobiliário.

Se o Brasil é tão protecionista como apregoam vários analistas, que não cansam de criticar o empresariado da indústria como defensor da ultrapassada reserva de mercado, como explicar o déficit de US$ 92 bilhões na balança comercial de bens manufaturados em 2011?

É evidente que a constatação do avanço do protecionismo lá fora não pode tirar o foco da urgência de se ampliar internamente a competitividade. O Brasil tem um longo e difícil dever de casa a fazer. Essa árdua tarefa passa por eliminar ou ao menos atenuar graves gargalos: uma infraestrutura deficiente, que inclui a terceira mais cara tarifa de energia elétrica do mundo, uma legislação trabalhista anacrônica e de alto custo, um sistema tributário perverso e complexo, uma educação de má qualidade.

Ainda assim, insistimos: o Brasil está mesmo protegido? Ou será que estamos assistindo a uma guerra comercial e por empregos em que os países fazem uso dos mais diversos instrumentos para defender seus mercados, enquanto tentam acessar novos, como é o caso do atrativo mercado brasileiro?


Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tecnologia transforma smartphone em cartão de crédito e chave do carro; conheça o NFC

A sigla é pouco conhecida, mas o conceito é bastante fácil: a tecnologia NFC* (Near Field Communication ou campo próximo de comunicação) permite que a você aproxime dois dispositivos um do outro para que eles troquem informações, sem precisar de fios ou contato físico. Com ela, dá para transformar celular em cartão de crédito ou até na chave do carro (no Brasil, a tecnologia ainda está em teste e necessita de aprovação regulatória do Banco Central); veja a seguir alguns exemplos apresentados na feira Mobile World Congress, em Barcelona.


Fonte: Uol Tecnologia


Nesta segunda feira, no Mobile World Congress em Barcelona, a Visa anunciou seu novo sistema de pagamento móvel, concorrente direto de serviços como o Google Wallet.



Para usar o serviço, o consumidor precisa ter um dos smartphones com suporte à tecnologia NFC e que sejam "certificados pela Visa". Depois, ele entra em contato com a empresa e ativa seu gadget para fazer pagamentos móveis.

O telefone estará linkado de maneira segura à conta bancária do usuário e pode, então, ser usado para fazer pagamentos onde quer que o sistema payWave da Visa seja aceito.

A empresa anunciou que smartphones e tablets que tenham processador Atom da Intel serão os primeiros a serem certificados para funcionamento do sistema. No Brasil, já existem cinco dispositivos certificados: Samsung Galaxy SII, LG Optimus NET NFC, BlackBerry Bold 9900, BlackBerry Bold 9790, BlackBerry Curve 9360 e BlackBerry Curve 9380).



Tecnologia transforma smartphone em cartão de crédito e chave do carro; conheça o NFC

China reduz participação de dólares em suas reservas



Por Tom Orlik e Bob Davis
The Wall Street Journal,de Pequim

Novos dados do Tesouro dos Estados Unidos indicam que a China perdeu o gosto por investir tanto das suas reservas, de US$ 3,2 trilhões, em dólares e pode estar aumentando as compras de papéis em euros numa época em que uma crise de dívida está assolando mercados europeus.

Economistas há muito têm avisado que se a China começar a reduzir suas compras de títulos de investimento americanos, os juros poderiam subir nos EUA, prejudicando a economia americana. A diversificação das vastas reservas da China, porém, ainda não causou danos, em parte por causa da forte demanda mundial por papéis americanos como um investimento seguro em tempos difíceis.

De maneira geral, a demanda estrangeira por investimento em dólar continua forte. As reservas em dólares fora dos EUA subiram em US$ 1,8 trilhão, ou cerca de 17%, para US$ 12,52 trilhões nos 12 meses até junho, segundo dados do Tesouro americano.

Mas os números, uma das raras pistas sobre como a China investe suas reservas, sugerem que a porcentagem de dólares nas reservas de Pequim caiu de 65% em 2010 para 54%, o nível mais baixo em 10 anos. As compras de papéis americanos foram iguais a apenas 15% do aumento das reservas chinesas nos 12 meses, caindo de 45% em 2010 e de uma média de 63% nos últimos cinco anos, segundo cálculos baseados em informação publicada pelo Tesouro dos EUA e pelo governo chinês.

Alguns economistas dizem que a mudança por parte da China foi bem calculada. "Seria ótimo para a China adotar uma estratégia contrária e escolher momentos em que o dólar está forte para diversificar agressivamente a composição cambial da carteira de sua reserva", disse Eswar Prasad, um especialista em China do centro de estudos americano Brookings Institution.

A China não diz como investe suas reservas estrangeiras, que cresceram muito nos últimos dez anos. Pequim tem usado seu controle sobre o câmbio como um pilar de sua estratégia de desenvolvimento e amealhou imensos superávits comerciais. Isso requer que o Departamento Nacional de Moeda Estrangeira do governo chinês - também conhecido pela sigla em inglês Safe - invista esses recursos no exterior. No passado, o Safe deu sinais de que cerca de dois terços de suas reservas estão em papéis dos EUA, uma porcentagem que geralmente está de acordo com os dados anuais recolhidos pelo Tesouro.

Os novos dados do Tesouro sugerem que a China começou a diversificar rapidamente sua carteira de moedas. "Isso indica claramente a intenção da China de não pôr todos os ovos na mesma cesta", disse Lu Feng, diretor do Centro de Pesquisas Macroeconômicas da China da Universidade de Pequim.

A China tem muitos motivos para tentar reduzir sua exposição ao dólar. Entre elas estão os juros baixíssimos dos títulos de dívida do Tesouro americano e a vulnerabilidade a decisões de Washington sobre a administração de sua dívida que poderiam causar inflação que corroeria o valor desses papéis. O debate no ano passado sobre aumentar o teto de endividamento dos EUA deflagrou temores de que o governo americano poderia deixar de fazer alguns pagamentos.

Para calcular a porcentagem de dólares nas reservas da China, dados do Tesouro dos EUA sobre compras chinesas de papéis americanos têm de ser comparados aos dados de Pequim sobre o montante de suas reservas. Esse cálculo é complicado pelo impacto de flutuações cambiais sobre o valor das reservas chinesas. Mesmo assim, está claro que a China está comprando menos papéis baseados em dólar do que vinha fazendo.

Dados do Tesouro mostram que as reservas da China em papéis dos EUA subiram 7%, para US$ 1,73 trilhão, em 30 de junho, o que se traduz num aumento de US$ 115 bilhões em relação a 12 meses antes. No mesmo período de tempo, as reservas chinesas cresceram em 30%, para US$ 3,2 trilhões, um aumento de US$ 743 bilhões. Essencialmente, o ritmo das compras chinesas de papéis americanos não chegou perto do ritmo de expansão de suas reservas, o que reduz a porcentagem de ativos em dólar no cofre de moeda estrangeira da China.

Nick Lardy, um especialista em economia chinesa no centro de estudos americano Peterson Institute, observou que uma queda nos investimentos chineses em dívida emitida pelas gigantescas agências hipotecárias estatais dos EUA Fannie Mae e Freddie Mac responderam pelo grosso do declínio. No período coberto pela pesquisa anual, a China continuou a engrossar sua carteira de dívida do Tesouro americano, disse ele.

Dados mensais sobre a carteira chinesa de dívida soberana dos EUA têm sido considerados menos confiáveis do que a pesquisa anual. Mas o Tesouro agora introduziu uma nova técnica de pesquisa com objetivo de melhorar a precisão dos dados. Os números mais recentes mostram que a carteira chinesa de papéis do governo americano caiu em US$ 156 bilhões, para US$ 1,15 trilhão, no período coberto pela pesquisa anual. Isso sugere que a diversificação da China para além dos dólares continuou no segundo semestre de 2011.

Enquanto a China pareceu perder seu apetite por dólares entre junho de 2010 e junho de 2011, a moeda americana caiu 9,2% versus um amplo leque de moedas, segundo o Federal Reserve, o banco central dos EUA. De lá para cá, ela subiu cerca de 3%, conforme a crise europeia se aprofundava e a economia americana mostrava sinais de recuperação.

Lawrence Summers, que foi secretário do Tesouro no governo Bill Clinton e economista da Casa Branca no de Barack Obama, alertou contra atribuir a alta e a queda do dólar às decisões de investimento da China. "Fundamentos econômicos são fatores muito mais importantes no valor de moedas do que realocações de carteira, mesmo de grandes investidores", disse Summers. "Mais importante para o dólar serão as decisões políticas em Washington, não decisões de investimento em Pequim."

Para onde foi o dinheiro não investido em dólares? A Safe não diz. Funcionários da agência de câmbio não responderam a perguntas enviadas por fax ontem. Mas líderes chineses têm sido mais enfáticos em que querem ajudar os 17 países que usam o euro a superar suas dificuldades.

Wang Tao, economista do UBS na China, disse que o montante de dinheiro que teria saído de investimentos em dólares é tão grande que seria difícil investir em outros papéis sem atribular os mercados. Ela disse que embora a China possa estar diversificando, provavelmente não o está fazendo na velocidade que os dados do Tesouro dos EUA sugerem.

Os impasses do contingenciamento



Por Mansueto Almeida e Alexandre Manoel e Helder Rebouças - Valor 02/03

O aperfeiçoamento da gestão e a busca do equilíbrio das contas públicas são, indiscutivelmente, preocupações que vêm marcando o governo da presidente Dilma. Nesse contexto, cabe um exame mais detalhado dos impactos do contingenciamento orçamentário, uma prática que tem sido comum no esforço de vários governos de cumprir as metas anunciadas de superávit primário. O tema é oportuno porque, recentemente, o governo contingenciou, por meio do Decreto nº 7.680, de 17 de fevereiro de 2012, cerca de R$ 55 bilhões de despesas do orçamento da União

O contingenciamento é amparado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, na hipótese (exclusiva) de expectativas de "frustração" de receita que possa comprometer resultados fiscais, como as metas de superávit primário. Vê-se, portanto, que a legitimidade do contingenciamento depende, essencialmente, da consistência e credibilidade das prognoses de "queda" de receitas alegadas pelo Executivo.

Do contrário, o decreto de contingenciamento, por ausência de motivação legítima, se tornaria um ato juridicamente defeituoso. Neste ano, para justificar o contingenciamento, o governo estimou uma redução de R$ 29,5 bilhões na receita líquida primária em relação às previsões trazidas pela lei orçamentária anual.

Em 2011, por exemplo, a lei de orçamento aprovada pelo Congresso previu receitas de R$ 990,5 bilhões. Naquela ocasião, o executivo, motivando o decreto de contingenciamento, refez sua previsão de receita para "baixo" e estimou que essas seriam de R$ 971,4 bilhões. A quatro meses para encerrar aquele ano, o volume de receitas já havia atingido o montante de R$ 997,4 bilhões, demonstrando que a previsão do executivo estava "equivocada". Em geral, essas inconsistências de prognoses têm ocorrido em vários anos, desde 2000, com consequências jurídicas e econômicas.

Do ponto de vista jurídico, há discussões teóricas importantes sobre a atuação do Judiciário no exame de "déficits" de prognoses de normas. A título de ilustração, o ministro Gilmar Mendes, do STF, produziu instigantes artigos acadêmicos sobre a matéria, chamando a atenção para o fato de que o controle de constitucionalidade comporta o exame das prognoses do legislador. De fato, conforme a posição dominante da doutrina jurídica vigente, quando a administração declara o motivo que determinou a prática de um ato administrativo, fica vinculada à existência do motivo por ela declarado. Assim, se houver desconformidade entre a realidade e o motivo declarado, torna-se possível a declaração de nulidade do ato pelo Poder Judiciário.

Outra dimensão jurídica relevante é a ampla discricionariedade que marca os decretos de contingenciamento. Se um ministério, em 2012, teve cortes de R$ 5 bilhões, por exemplo, como se dá a escolha de quais programas ou ações serão "sacrificados"? Diante do contingenciamento dos restos a pagar - despesas empenhadas e não pagas pelo governo -, como se decide quais delas serão "honradas"? Por que o decreto de contingenciamento inclui ações como "dinheiro direto na escola para o ensino fundamental" e "atenção à saúde da população para procedimentos em média e alta complexidade"? Lembre-se aqui que, no Estado Democrático de Direito, a "discricionariedade" dos decretos de contingenciamento não pode estar fundada somente na letra da lei, mas, principalmente, em princípios constitucionais.

Do ponto de vista econômico, as inconsistências das aludidas previsões geram, entre outras consequências, diminuição da governança do setor público, pois afeta a capacidade de os gestores federais implementarem de maneira eficiente políticas públicas e diminuem a contribuição do superávit primário para a redução da dívida pública federal.

De fato, quando o governo federal "erra" nas suas previsões de receitas nos decretos de contingenciamento, acaba postergando, para muito próximo do final do ano, a efetiva liberação dos recursos, para que as unidades orçamentárias empenhem, liquidem e paguem as despesas orçadas. Em consequência, surgem os restos a pagar, porque já não há tempo hábil para empenhar, liquidar e pagar várias dessas despesas.

Existem duas formas de honrar os restos a pagar. Na primeira, são usadas receitas do atual exercício financeiro, de maneira que os pagamentos dos restos a pagar acabam concorrendo com outras despesas programadas para o ano corrente e, assim, termina dando origem a novos restos a pagar para os próximos exercícios fiscais. Neste ano, por exemplo, o orçamento para investimento da União depois do contingenciamento é de R$ 55 bilhões; valor inferior aos restos a pagar para essa mesma rubrica, que está orçada em R$ 57 bilhões. Em suma, o orçamento, que deveria se orientar para o futuro, torna-se também uma peça de planejamento do passado, diminuindo, portanto, a governança federal.

A outra forma de pagamento dos restos a pagar dá-se pelo aumento de endividamento, por meio do lançamento de títulos no mercado. Diga-se, por oportuno, que, contabilmente falando, os restos a pagar não "entram" nas apurações tradicionais de dívida (dívida bruta ou dívida líquida do setor público), que são os indicadores divulgados sobre a saúde financeira do setor público. Ora, quando o governo lança mão de títulos para honrar os restos a pagar, estes acabam se transformando em operações de crédito, agora, sim, ampliando, por exemplo, a dívida bruta do governo. Esse incremento de dívida pressiona o governo a obter mais superávit, inclusive por meio de novos contingenciamentos, criando-se um verdadeiro círculo vicioso.

Em suma, o superávit das contas públicas, que deveria ser utilizado para efetivo pagamento dos juros e amortizações do estoque da dívida, acaba por "atender" também a essa nova dívida, criada pela emissão de títulos destinados aos restos a pagar. Essa prática pode, inclusive, ser um dos fatores que explicam a resistência da queda dos juros da economia, mesmo diante de "expressivos" superávits primários.

Há, portanto, amplo espaço para que a prática de contingenciamento de despesas no Brasil seja revista. No campo econômico, cabe introduzir regra de efetivo controle do crescimento do saldo dos restos a pagar. Na esfera jurídica, exige-se que os decretos tenham motivação consistente e maior legitimidade democrática, já que o contingenciamento transformou-se em poderoso instrumento de política fiscal, sem, no entanto, submeter-se aos crivos da deliberação pública ou parlamentar.



Mansueto Almeida e Alexandre Manoel são economistas do Ipea.



Helder Rebouças é consultor do Senado.

Livre comércio 'ad nauseam'



Por Jagdish Bhagwati - Valor 02/03

Tanto foi escrito, por tantas pessoas, contra as confusas ideias que devastaram o bom senso na política de comércio exterior dos Estados Unidos que é de se imaginar se ainda resta algo a dizer. Vale a pena lembrar, portanto, o que Pierre-Joseph Proudhon disse ao intelectual russo Alexander Herzen, segundo se noticiou: "E você acha que uma vez dito algo, isso é suficiente? [...] É preciso inculcá-lo nas pessoas, precisa ser repetido de novo e de novo."

O que precisamos agora é uma cartilha sobre as principais concepções equivocadas, na esperança de que ao contrário da Lei de Gresham - segundo a qual a má moeda tende a expulsar a boa moeda do mercado - as ciências econômicas boas expulsem as más. Quatro pontos, em particular, precisam ser corrigidos.

A primeira ideia equivocada é a de que as exportações criam empregos, enquanto as importações, não - uma falácia cuja origem Harry Johnson, um grande economista especializado em comércio, atribuiu ao mercantilismo e que os EUA ressuscitaram. Na verdade, em um mundo em que peças e componentes chegam de todos os lugares, interferir com as importações coloca em risco a competitividade. O sucesso das empresas de entregas, por exemplo, depende das importações, que precisam ser trazidas das fronteiras para o interior do território, assim como das exportações.

O segundo ponto é o fato de o credo "comércio, em vez de ajuda" ter dado lugar à crença equivocada de que o comércio é menos importante do que o auxílio internacional. O eleitorado trabalhista, sempre temeroso da concorrência das importações, minou a política de comércio exterior. Também desviou a política de auxílio para diretrizes que priorizam áreas em que os retornos pelos esforços dos EUA são relativamente minúsculos.

O Departamento de Estado dos EUA, portanto, deixou de ser defensor da liberalização multilateral do comércio, apesar de décadas de ganhos maciços decorrentes da remoção de obstáculos comerciais. Em vez disso, seu braço de programas de auxílio financeiro, a Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), retrocedeu e passou a dedicar-se a projetos de baixo rendimento, concebidos como experimentos aleatórios. Essa técnica impressiona Bill Gates e o novo administrador da Usaid, Rajiv Shah, tem experiência na área. No entanto, mesmo se todos esses programas forem bem-sucedidos, seus benefícios seriam uma pequena fração dos ganhos documentados que foram acumulados com o comércio e outras políticas na esfera macroeconômica, nas quais os EUA perderam o interesse.

Terceiro, muitos acreditam que a indústria merece apoio preferencial. Esse praticamente é o mantra do governo do presidente dos EUA, Barack Obama, o que lhe custou o apoio de muitas pessoas, seja da área econômica ou não, como Christina Romer, que presidiu seu Conselho de Assessores Econômicos. Em recente, comentário na imprensa, ela refutou praticamente todos os argumentos apresentados por lobistas do setor industrial em busca de tratamento especial.

Podemos somar aos críticos o prêmio Nobel de economia Robert Solow, defensor ferrenho do Partido Democrata de Obama. Ele concorda que há atividades que rendem maiores retornos sociais do que privados. O problema, ressalta, é que nem ele nem qualquer outra pessoa pode chegar a saber quais são essas atividades, enquanto os lobistas dizem que as conhecem com precisão.

Os defensores da política da "indústria em primeiro lugar" argumentam que "grupos" de empresas são mais produtivos do que empresas individualmente. Mas são difíceis de encontrar os efeitos resultantes de grandes agrupamentos. Os economistas Glenn Ellison e Edward Glaeser descobriram que os agrupamentos são apenas marginalmente melhores do que quando as empresas são distribuídas aleatoriamente. Além disso, é difícil não aceitar que estamos cada vez mais vendo a "morte da distância", para usar as famosas palavras da economista Frances Cairncross.

Por fim, o setor financeiro passou a ser visto como a ruína da moralidade. Em um mundo de fraudes financeiras e negociações com informações privilegiadas, é fácil acreditar nisso e aceitar que o setor financeiro precisa ser tributado. A moralidade, no entanto, está em todos os setores. Há muita gente honesta, assim como desonesta, em todas as áreas da vida. A visão quase marxista de que nossa moralidade decorre de nossa posição econômica negligencia o papel moralizador da família, religião, cultura e arte.

Tendo em vista essas ideias equivocadas, o protecionismo ressurgiu como um terrível inimigo. Em 1999, quando o encontro ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) viu-se em meio a ameaças de bombas e caos, perguntei ao então diretor-geral da instituição, Mike Moore, se não deveríamos estar preparados para morrer pela grande causa do livre comércio. Eu deveria ter dito: pelo menos deveríamos estar preparados a viver por ela.

Entre velhas e novas confusões e a certeza de que a demolição de cada má ideia apenas permite que outras ganhem raízes e cresçam em seu lugar, a tarefa do defensor do livre comércio nunca termina. (Tradução de Sabino Ahumada)



Jagdish Bhagwati é professor de economia e direito na Columbia University e membro associado em questões de economia internacional do Conselho de Relações Exteriores. É autor de "In Defense of Globalization" (em defesa da globalização, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.



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quinta-feira, 1 de março de 2012

BC vai para briga e dólar fecha a R$ 1,72


Valor 01/03


Um dia depois de perder a linha de R$ 1,70, o dólar comercial registou a maior alta percentual do ano, ao subir 1,24%, e encerrar o mês a R$ 1,72.

Mesmo com essa forte alta no dia, a moeda americana encerra fevereiro com baixa de 1,55%, e acumula queda de 7,97% no ano.

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o dólar para abril mostrava alta de 1,31%, a R$ 1,7315 antes do ajuste final.

Na há fato único por trás dessa puxada de alta, mas sim uma conjunção de fatores.

Além da maior volatilidade promovida pela rolagem e vencimento de contratos futuros de dólar, o dia contou com duas atuações do Banco Central (BC) no câmbio, grande instabilidade externa e novas conversas sobre medidas cambiais.

O pregão abriu pautado pelos vendedores, que levaram o dólar comercial para R$ 1,692 na mínima do dia, mas logo o BC acabou com a alegria dos vendidos ao anunciar uma oferta de swap cambial reverso (operação que equivale à compra de dólares no mercado futuro).

O anúncio de swap reverso já mudou o rumo do dólar, mas a alta tomou fôlego mesmo com a divulgação do resultado da operação, que mostrou firme demanda. Foram colocados 30,5 mil contratos, o equivalente a US$ 1,523 bilhão.

Ainda pela manhã, a autoridade monetária voltou à cena com uma compra à vista, que teve taxa de corte de R$ 1,7032. Em fevereiro, foram 12 atuações do BC nos mercados a termo, à vista e futuro (via swap reverso).

Olhando para frente, não há consenso sobre qual rumo o dólar pode tomar. Como o temor com possíveis medidas é crescente, alguns investidores mostraram preferência por zerar posições e esperar para ver.

Outros, no entanto, acreditam que a alta de ontem foi um importante ponto de entrada para quem perdeu a queda recente - ou seja, dólar para cima igual a oportunidade de venda.

Para o economista e professor da PUC-Rio, André Cabus Klotzle, o movimento comprador vem do BC e de alguns investidores realizando lucros, já que a atual injeção de recursos por parte do Banco Central Europeu (BCE) (mais € 500 bilhões), somada às demais medidas do Banco da Inglaterra (BoE) e Banco do Japão (BoJ) somam ainda mais liquidez ao mercado global, e esses recursos buscam rendimento em commodities, renda variável e, principalmente, moedas emergentes.

Nesse sentido, e tendo em vista o elevado diferencial entre a taxa de juros brasileira e internacional, além do baixo risco-país, sólido crescimento e bons fundamentos fiscais, o real se torna uma das moedas preferidas dos investidores estrangeiros", diz Klotzle.

Desse modo, acredita o economista, é possível antever que as atuações do Banco Central vão se tornar inócuas, tanto pelo montante de fluxo esperado, aumento de posições vendidas de estrangeiros e bancos, quanto pelo caráter de previsibilidade das intervenções.

No curto prazo, a autoridade monetária até consegue manter o câmbio acima de R$ 1,70, mas a médio prazo, diz Klotzle, o BC se torna perdedor, com prejuízos via ajuste de swaps cambiais reversos e perda de valor das reservas internacionais.

"Assim sendo, as apostas em alguma medida da Fazenda ou mesmo do BC elevam-se a cada dia. Taxar novamente a renda variável não seria prudente, assim como aumentar ainda mais a taxação das posições vendidas em derivativos. Algo macroprudencial no câmbio pode estar em voga", conclui o economista.

Como ocorre toda a quarta-feira, o BC deu nova prévia sobre o fluxo cambial. Pela segunda semana seguida, as saídas superaram as entradas. Entre os dias 22 e 24 de fevereiro, o fluxo foi negativo em US$ 1,27 bilhão. Com isso, o saldo no acumulado do mês até o dia 24 caiu para US$ 5,251 bilhões. Nesse período, as atuações do BC no mercado à vista retiraram US$ 335 milhões de circulação.

No mercado de juros futuros, mais do mesmo. As taxas voltaram a cair na BM&F, apoiadas na visão e na retórica do BC sobre a existência de espaço para a redução da taxa básica de juros. Os contratos continuam sugerindo Selic entre 9% e 9,5% ao ano, em comparação aos 10,50% atuais.

Fluxo em fevereiro se reduz a US$ 3,5 bi


Por Murilo Rodrigues Alves
De Brasília

O fluxo cambial de fevereiro foi marcado por dois momentos distintos. Nos oito primeiros dias úteis do mês, entraram liquidamente US$ 7,621 bilhões no país. No entanto, esse comportamento se inverteu nos oito dias seguintes, quando as saídas de moeda estrangeira superaram as entradas em US$ 2,371 bilhões, segundo os dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC).

O saldo acumulado nos 16 dias (US$ 5,25 bilhões) é menor do que o apresentado nas semanas anteriores: US$ 7,62 bilhões até o dia 10 e US$ 6,52 bilhões até o dia 17. Para o diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Moura Nehme, esses números fazem cair por terra a "presunção de que está sobrando dólares no mercado".

O fluxo financeiro ainda é superavitário em US$ 3,471 bilhões no acumulado do mês. Mas, pela segunda semana seguida, essa conta foi deficitária. Especificamente entre os dias 22 e 24, houve saída líquida de US$ 657 milhões. O segmento comercial também apresentou resultado negativo na semana após o feriado de Carnaval, de US$ 612 milhões. No acumulado do mês, o câmbio vinculado ao comércio registra saldo superavitário de US$ 1,780 bilhão.

Nehme afirma que o forte ingresso de recursos de empréstimos exteriores, incluindo a captação de US$ 7 bilhões da Petrobras, foi retirado do mercado nos dois leilões a termo realizados em 3 e 8 de fevereiro. No entanto, pelos dados oficiais, não é possível saber o impacto dessas intervenções nas reservas por causa da defasagem entre o momento das operações e o da liquidação financeira, em março.

O BC informou que duas das intervenções no mercado à vista neste mês somaram às reservas US$ 355 milhões. "O fato de o BC anunciar o leilão não quer dizer que tenha adquirido dólares ou que o tenha feito em volume substantivo", explica Nehme

De acordo com o economista, o real valorizado ainda ajuda na contenção das pressões inflacionárias e permite que a autoridade monetária corte "de forma mais rápida" a taxa básica de juros.

Ele acredita, porém, que o governo deve agir para evitar os fluxos especulativos. A primeira opção seria aumentar a tributação, mas Nehme afirma que o mais recomendável seria criar "empecilhos técnicos" para evitar que se atinja "os ingressos desejáveis".

Queda no crescimento da Índia traz receios



Por James Lamont
Financial Times, de Nova Déli

A queda acentuada no crescimento da economia da Índia, para 6,1% no trimestre encerrado em dezembro, o menor em três anos, traz receios de que possa haver um declínio prolongado, a menos que medidas emergenciais sejam adotadas neste mês.

O declínio na expansão da indústria e no setor de mineração acelerou a transição da terceira maior economia asiática para uma fase de crescimento menor. A forte queda dos investimentos vem alimentando expectativas de que o banco central indiano (RBI, na sigla em inglês) reduza os juros.

O diretor-geral da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia, Rajiv Kumar, disse que os dados "sóbrios" do Produto Interno Bruto (PIB) inviabilizam a meta de crescer 6,9% no atual ano fiscal e colocam em dúvida uma recuperação no ano que vem.

Muitos economistas avaliam que a própria Índia criou seus atuais problemas. Eles atribuem as dificuldades ao prejudicial declínio nos investimentos decorrente das altas taxas de juros; a um governo paralisado; e ao excesso de confiança no consumo alimentado por programas sociais.

O investimento empresarial caiu para 14% do PIB, dos 18% registrados nos cinco anos até 2008. As exportações caíram de 23% no ano passado para 14% este ano. A captação de empréstimos pelo governo no mercado, baixada para 3% quatro anos atrás, está agora em torno de 6% do PIB.

Dados divulgados ontem mostram que o crescimento econômico anualizado caiu para 6,1%, de 6,9% no trimestre anterior, pressionado por dois anos de aperto monetário gradual, de uma fuga do capital estrangeiro e de uma moeda local enfraquecida.

Sonal Varma, economista em Mumbai do banco Nomura, disse que a desaceleração na Índia é "indiscutivelmente evidente. O que surpreende é que o declínio dos investimentos e da produção é pior do que durante a crise financeira mundial em 2008".

Os crescentes riscos da China



Por Yao Yang - Valor 01/03

Se tudo continuar bem para a China, o país superará os Estados Unidos como maior economia do mundo, em dólares correntes, em 2021 (ou ainda antes em termos reais). Sua renda per capita atingirá o que hoje é a faixa mais baixa dos países de alta renda. Apesar do impulso à frente, a economia chinesa depara-se com riscos à espreita nos próximos dez anos.

O risco imediato é o de continuidade da estagnação, ou recessão, na Europa. Nos últimos dez anos, o crescimento das exportações representou cerca de 30% do crescimento econômico da China e cerca de 30% das exportações chinesas tiveram como destino a União Europeia. Se a situação na Europa continuar a se agravar, o crescimento na China será afetado.

Endurecer excessivamente as políticas macroeconômicas domésticas, especialmente as voltadas ao mercado imobiliário, poderia incrementar o risco de desaceleração. Os preços dos imóveis residenciais na China já estão em queda, afetados por medidas governamentais mais rigorosas. De fato, a situação é bem parecida com a da crise financeira asiática de 1997. Vários anos antes de a crise estourar, a China vinha combatendo a inflação e parecia encaminhar-se a uma desaceleração suave. A crise, no entanto, em conjunto com medidas de austeridade, condenou o país a vários anos de deflação e a um crescimento menor.

Hoje, enquanto a China pensa no médio prazo, o governo precisa abordar os problemas criados por seu papel predominante na economia. Um novo informe do Banco Mundial aponta a falta de reforma das empresas estatais como o maior obstáculo ao crescimento econômico do país. Isso, no entanto, é apenas sintoma de um problema mais profundo: o papel dominante do governo nos assuntos econômicos.

Além de controlar diretamente entre 25% e 30% do Produto Interno Bruto (PIB), o governo também é responsável pela maior parte dos recursos financeiros. Nos últimos anos, cerca de 35% dos empréstimos bancários foram destinados à infraestrutura, sendo a maior para obras de instituições governamentais. É verdade que o governo admitiu seu excesso de investimentos em infraestrutura e recentemente abandonou vários projetos de trens de alta velocidade que já estavam em construção. O excesso de investimentos governamentais, no entanto, também é flagrante nos vários parques industriais e zonas de alta tecnologia.

O frenesi de investimentos da China faz muitas pessoas recordarem o Japão nos anos 80, quando as linhas de trens de alta velocidade foram levadas aos cantos mais remotos do Japão. A maioria depende de subsídios do governo até hoje. E, embora os subsídios possam melhorar a qualidade de vida das pessoas comuns em vários aspectos, também a prejudicam ao suprimir o consumo doméstico.

Os investimentos em infraestrutura inevitavelmente serão contidos pela lei de diminuição dos retornos marginais. O crescimento no consumo, contudo, não tem limite. Suprimir o consumo, portanto, sufocaria o crescimento futuro, sendo que a participação do consumo doméstico no PIB caiu de 67% em meados da década para menos de 50% nos últimos anos.

O governo chinês é orientado à produção por natureza. A vantagem é que isso ajudou a manter altas taxas de expansão do PIB. O lado negativo, contudo, é igualmente forte. Uma consequência negativa é o aprofundamento persistente da desigualdade de renda. O coeficiente Gini de renda per capita é superior a 50 pontos (100 representa o máximo de desigualdade), o que coloca a China entre os piores 25% em desigualdade no mundo.

O problema pode não ser a desigualdade por si só, mas suas consequências, como a bifurcação do capital humano. O retorno do investimento em educação na China vem aumentando, mas o acesso ao ensino torna-se cada vez mais dividido social e geograficamente. Embora a educação esteja melhorando nas áreas urbanas, as crianças na zona rural deparam-se com um declínio na qualidade do ensino, porque os melhores professores mudam-se para as cidades. Além disso, tendo em vista a disparidade de renda entre o campo e a cidade, a educação nas áreas rurais é mais cara.

Como resultado, a maioria das crianças em áreas rurais entrará na força de trabalho sem diploma universitário. Entre os 140 milhões de trabalhadores migrantes da China, 80% têm apenas nove anos ou menos de educação formal - bem menos do que requerem os países de alta renda.

Apesar do aparente desejo das autoridades de reduzir a desigualdade de renda, o governo da China a agrava ao, entre outras coisas, subsidiar produtores, favorecer indústrias de uso intensivo de capital e manter um setor financeiro altamente ineficiente. Também há, no entanto, sinais promissores de avanço econômico. O governo acaba de anunciar novas regras para o registro familiar, conhecido como "hukou". A não ser nas grandes cidades, as pessoas agora podem escolher livremente seu "hukou" após três anos de residência. Isso ajudará os migrantes imensamente, ao garantir condições iguais de acesso à educação para seus filhos.

Mudar completamente o comportamento distorcivo do governo, no entanto, requer mudanças mais radicais nas políticas. A reforma do "hukou" é um bom começo, já que fortalecerá os direitos políticos dos migrantes nas comunidades locais. Tende em vista seu grande número, sua participação política pode obrigar os governos locais a ficarem mais atentos às necessidades das pessoas comuns. E se os degraus mais baixos do governo começarem a dar mais atenção, é de se esperar que isso acabe chegando às esferas mais altas do poder. (Tradução de Sabino Ahumada)



Yao Yang é diretor do Centro para a Reforma Econômica da China, da Universidade de Pequim.. Copyright: Project Syndicate, 2012.



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Nível de estoque industrial cai forte, mas confiança do setor aumenta pouco



Por Tainara Machado - Valor 01/03
De São Paulo

Apesar da leve evolução mostrada pelo Índice de Confiança da Indústria (ICI) em fevereiro, a recuperação do setor ainda não ganhou força. A fase mais fraca para a produção ficou para trás, entre outubro e novembro, mas o ritmo da retomada é lento e foi agravado pela deterioração da demanda geral, que sofreu forte baque do cenário internacional, avalia Aloisio Campelo, coordenador da Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getulio Vargas (FGV). Por isso, o ajuste de estoques em curso desde novembro não trouxe grande alívio, apesar dos inventários estarem no menor nível desde junho do ano passado.

O ICI teve alta de 0,2% em fevereiro na comparação com janeiro, feito o ajuste sazonal, de acordo com a sondagem divulgada ontem pela FGV. O ritmo, no entanto, foi menor do que o observado no mês anterior, na mesma base de comparação, quando o indicador havia subido 0,5%.

Ainda assim, em fevereiro o nível de estoques teve nova melhora, de 0,8%, sempre na comparação com o mês anterior e com ajuste sazonal. A proporção de empresas que declararam estoques excessivos caiu de 6,3% para 5,7% entre janeiro e fevereiro e, ressalta Campelo, apenas três setores, representativos de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial, encontram-se agora superestocados. Em dezembro oito segmentos, equivalentes a 41% do PIB industrial, estavam nessa situação.

Campelo atribui a alta de 1,4% observada na Situação Atual dos Negócios pelas empresas consultadas ao processo contínuo de ajuste de inventários. "No mês passado, tivemos novamente ajuste de estoques e a avaliação da situação dos negócios melhorou, mas a percepção de demanda, principalmente externa, prejudicou o resultado", afirmou o coordenador da sondagem.

Em fevereiro, o indicador de demanda global recuou 0,4%, sempre na comparação com o mês anterior, feitos os ajustes sazonais. Pelo terceiro mês consecutivo, a percepção para o nível de demanda externa caiu e está agora quase 5 pontos abaixo da média histórica, o que reflete a deterioração do cenário internacional, segundo Campelo.

Por causa dessa dinâmica, a produção prevista caiu 2,5% e puxou para baixo o Índice de Expectativas (IE), que interrompeu sequência de quatro meses de alta e recuou 0,4% em fevereiro, sempre na comparação com o mês anterior. A queda, no entanto, foi concentrada em cinco setores - químico (-6,3%), produtos de matérias plásticas (-3,5%), material elétrico e de comunicações (-2,8%) mecânico (-0,7%) e vestuário e calçados (-0,6%) - bastante afetados pela competição com importados e a valorização do real.

Já o segmento de bens de capital teve desempenho surpreendente, disse o coordenador. O ICI para o setor saltou 6,4%, principal contribuição positiva para que a confiança da indústria se mantivesse em terreno positivo no mês passado.

Para Campelo, o resultado divulgado ontem, apesar de pouco animador, não ameaça a perspectiva de desempenho positivo para a indústria no começo deste ano. Como a confiança em relação ao presente, expressa pelo Índice de Situação Atual, continuou a evoluir, com alta de 0,6% no período, houve reforço da projeção de que a produção industrial medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) terá crescimento de 1% neste trimestre, ante os últimos três meses de 2011. "Mas, na ponta, a indústria está perdendo fôlego e o segundo trimestre pode ser pior que o primeiro", disse.

A lenta recuperação deve levar o setor industrial a só igualar o nível de atividade observado em março de 2011, pico para o ano passado, no fim do primeiro semestre de 2012, afirmou Campelo. Para ele, a produção neste ano deve aumentar entre 1,5% e 2%, pois o crescimento será limitado por uma baixa herança estatística, negativa em 0,9%.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

TV ON LINE

REPRESENTANTE DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA FALA SOBRE PRONUNCIAMENTO DE TOMBINI  TEMPO: 00:05:40


Em entrevista ao programa “Conta Corrente”, da Globo News, a representante da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, falou sobre o pronunciamento do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que a economia vai crescer mais no segundo semestre do ano.

SONORA:

*ALESSANDRA RIBEIRO, representante da Tendências Consultoria
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: RAQUEL NOVAES


ÚLTIMAS INFORMAÇÕES DO MERCADO FINANCEIRO COM NÚRIA SALDANHA TEMPO: 00:4:35  - 28/02


Direto da BM&FBovespa, a repórter Núria Saldanha traz as últimas informações do mercado financeiro.


TV: BAND NEWS
PROGRAMA: BAND NEWS MANHÃ
APRESENTADOR: VANESSA COCHI




'Economia brasileira cresce abaixo do potencial desde o 3º tri'

Valor 29/02

A uma semana da reunião em que o Banco Central (BC) definirá a nova Selic, o presidente da instituição, Alexandre Tombini, deu ontem ao mercado a mais clara sinalização do que baliza as últimas decisões da diretoria do BC. Em depoimento no Senado, Tombini afirmou que a economia está crescendo abaixo do seu potencial desde o terceiro trimestre de 2011. Em seguida, arrematou: "Não é por outra razão que o BC vem ajustando a Selic", afirmou.

De acordo com Tombini, a atividade está se recuperando do crescimento zero registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no terceiro trimestre do ano passado, sem, no entanto, acelerar a inflação. Pelo contrário - o Brasil vive desde outubro do ano passado um "processo de desinflação forte", disse, levando em consideração o IPCA acumulado nos últimos 12 meses.

Desde 31 de agosto, quando o BC iniciou o afrouxamento, que já reduziu em Selic em dois pontos percentuais, o presidente do BC tem reiterado que a inflação iria convergir para o centro da meta de 4,5%. Ontem, no entanto, Tombini deixou claro que o manejo da política monetária leva em conta também o ritmo da economia. Ao crescer abaixo do potencial, portanto, a atividade pode ser estimulada sem gerar aumento de preços.

Os economistas divergem quanto ao Produto Interno Bruto (PIB) potencial do Brasil - ou seja, aquele crescimento econômico que é possível obter sem inflação. Para parte relevante do mercado, um avanço do PIB entre 3,5% e 4% seria o potencial da economia hoje, isto é, o máximo que a atividade pode crescer sem pressão sobre os preços. Outros acham que há possibilidade de crescer até 4,5%. Tombini não informou qual seria o PIB potencial estimado pelo BC, mas por dois momentos repetiu que desde o terceiro trimestre a economia cresce abaixo do seu potencial.

O dado oficial do PIB para o quarto trimestre será divulgado pelo IBGE nos próximos dias. O Índice da Atividade Econômica (IBC-Br) calculado mensalmente pelo BC, aponta para um avanço de 0,5%, feito o ajuste sazonal, entre o terceiro e o quarto trimestre. No terceiro, o IBGE já divulgou que o crescimento foi nulo na comparação com o segundo trimestre.

Para Tombini, a economia brasileira está acelerando e o segundo semestre ano vai registrar um ritmo mais forte que o primeiro. Isso ocorrerá especialmente devido ao incremento nos investimentos, algo que, como disse Tombini no Senado, "tem tido muita ênfase no governo em 2012". O avanço da economia, no entanto, não vai inviabilizar a convergência do IPCA para a meta, afirmou.

"Nossa perspectiva é de que a economia cresça mais no segundo semestre, ao mesmo tempo em que a inflação continua em sua trajetória de convergência à meta", disse Tombini na audiência realizada pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). "O Brasil vai crescer mais em 2012 do que cresceu em 2011, sem dúvida."

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) será na semana que vem. A maioria dos analistas do mercado entende que o Copom deve voltar a cortar a Selic, atualmente em 10,5% ao ano, em 0,5 ponto percentual. Na ata da última reunião do Copom, em janeiro, o BC deixou claro que há condições para a Selic atingir o patamar de um dígito neste ano.

Taxa natural de desemprego e a política monetária



Por Tony Volpon - Valor 29/02

A iniciativa do Banco Central (BC) de pesquisar junto ao mercado estimativas para a taxa neutra de juros e a taxa natural de desemprego (Nairu) oferece uma oportunidade de rever duas importantes variáveis para pautar o debate sobre a política monetária.

No nosso trabalho para responder o BC, os resultados mais interessantes vieram na estimativa da taxa natural de desemprego. Isso porque, enquanto há pouco debate sobre o fato de que a taxa neutra de juros no Brasil vem caindo, no caso da taxa de desemprego, há uma aparente dificuldade em explicar porque o nível de emprego continua a subir apesar da recente forte desaceleração da economia.

Uma queda no nível de desemprego, apesar das oscilações da atividade, sugere que a taxa natural de desemprego vem caindo, o que deve nos levar a explorar o que pode estar causando isso. Uma possibilidade seria o crescimento mais intensivo do setor de serviços. Olhando para o crescimento dos serviços dentro do Produto Interno Bruto (PIB), verificamos que a taxa média trimestral desde 2004 tem sido de 4,4% ao ano, contra 3,7% para a indústria e 3,3% para a agricultura. O crescimento maior do setor de serviço, por ser mais intenso em mão de obra, levaria naturalmente a uma queda na taxa de desemprego.

Para tentar capturar esse efeito, criamos uma variável usando dados da Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) que mede o crescimento de empregos no setor de serviços, além do crescimento esperado do setor dado a expansão do mercado de trabalho como um todo. Verificamos que, na média, desde 2006, o setor de serviços tem criado mais de 5 mil vagas por mês acima do que seria de se esperar, e que hoje esse número está acima de 15 mil empregos por mês.

A inclusão dessa variável, o hiato do produto, e o nível da taxa de juros real possibilitam explicar o desempenho da taxa de desemprego. Podemos, anulando o efeito do hiato do produto, calcular que a taxa natural de desemprego para a economia brasileira estaria hoje ao redor de 7,2%, portanto 1,7% acima do nível de 5,5% verificado no final do ano

Esse resultado confirma a impressão que o mercado de trabalho vem afetando negativamente a inflação, mas é importante entender por quê. Podemos verificar que no fim do ano passado o hiato do produto se encontrava em território levemente negativo, em função da desaceleração em curso, elevando a taxa de desemprego em 0,2%. Mas, ao mesmo tempo, o crescimento relativo de empregos no setor de serviços estava levando a taxa de desemprego a cair 1,6% do seu nível de equilíbrio. Isto é, a causa do mercado de trabalho aquecido não vem de uma política monetária excessivamente frouxa por parte do BC (o que geraria um hiato positivo) mas de um choque de demanda concentrado no setor de serviços.

Somos acostumados a pensar em "choques de oferta", como grandes movimentos nos preços de commodities, mas nada impede que a economia também sofra choques exógenos de demanda. Nos últimos anos é inegável a crescente demanda por serviços no Brasil, provavelmente devido a uma combinação de crescimento da renda com mudanças de hábitos de consumo devido a mudanças de classe social. Independentemente das razões, acreditamos que o Brasil hoje sofre um choque específico de demanda por serviços que tem no mercado de trabalho o principal mecanismo de transmissão para o resto da economia, elevando o custo de trabalho até em setores como a indústria, que sofrem situação bastante adversa.

Podemos ver isso também no comportamento da inflação de serviços subindo acima de 9%. O Brasil tem hoje muito mais um problema de inflação de serviços do que um problema com a inflação, e isso também é sintomático do choque pelo qual passamos.

A boa notícia é que esse choque não vai durar para sempre. Podemos ver a atual inflação de serviços como o "sinal" correto microeconômico dado pelo sistema de preços para puxar recursos para este setor e aumentar a sua oferta ao longo do tempo. Diferentemente de bens comercializáveis, que podem ser importados, a oferta da maioria dos serviços tem origem local e resposta de oferta menos elástica. Mas gradualmente essa oferta vai surgir, fechando o descompasso com a demanda.

Nossa análise permite uma interpretação nova da recente condução da política monetária pelo BC. Podemos interpretar a surpreendente decisão do Banco Central de cortar a taxa Selic em agosto e suas subsequentes decisões como uma escolha de acomodar o choque de demanda do setor de serviços e privilegiar o choque negativo causado pela crise europeia, um choque que já levou a inflação de bens comercializáveis para 4,01% ao ano em janeiro, abaixo do centro da meta. Enfrentando uma economia rodando a duas velocidades distintas, o BC fez sua opção.

Sabemos que só um aperto monetário draconiano levaria a inflação de serviços para a meta. Está claro que não há nenhum apoio na sociedade para isso. Mas, ao mesmo tempo, a insistência do BC que está perseguindo o centro da meta em um horizonte curto carece de plausibilidade: nos níveis atuais, com serviços sendo 25% do IPCA, a inflação de bens comercializáveis tem que rodar em deflação de 1,3% para a inflação cheia chegar ao centro da meta. Isso pode chegar a acontecer temporariamente, mas qualquer normalização nos componentes comercializáveis elevaria a inflação cheia de novo para acima, mais uma vez levando o mercado a questionar a credibilidade do sistema.

A nosso ver seria mais eficaz e transparente o BC reconhecer a existência do atual choque de demanda, que contribui hoje mais ou menos um por cento a inflação cheia, aumentando o centro da meta de inflação temporariamente para 5,5%. Isso já foi feito no passado quando enfrentamos choques de oferta, e não há razão prática ou teórica para não adotar igual estratégia frente a um choque exógeno de demanda. Haveria um ganho importante de transparência, alinhamento de expectativas e, quando o choque dissipar, ampla oportunidade para baixar a meta para níveis menores, preferencialmente abaixo dos 4,5%.



Tony Volpon é diretor do Nomura Securities International, Inc.

A China está certa em abrir-se devagar



Por Martin Wolf - Valor 29/02

A próxima grande crise financeira mundial virá da China. Não se trata de uma previsão inflexível. Poucos países, no entanto, conseguiram evitar crises depois de terem promovido liberalização financeira e integração internacional.

Pense nos Estados Unidos dos anos 30, Japão e Suécia no início dos 90, México e Coreia do Sul no final dos 90 e nos Estados Unidos, Reino Unido e grande parte da região do euro dos dias de hoje. Crises financeiras atingem todos os tipos de países. Como Carmen Reinhart, do Peterson Institute for International Economics, e Kenneth Rogoff, de Harvard, ressaltaram, as crises representam "uma ameaça que paira igualmente" sobre todos os países. A China poderia ser diferente? Apenas se as autoridades chinesas mantiverem a cautela.

A cautela permeou o informe, na semana passada, em que o Banco do Povo da China, autoridade monetária do país, recomendou acelerar a abertura do sistema financeiro chinês. Tendo em vista o que está em jogo, tanto na China como no mundo, é essencial considerar as implicações. Assim, talvez, o mundo faça agora um trabalho melhor do que fez no passado ao administrar esse processo.

O plano foi divulgado pela agência de notícias estatal Xinhua, não no site do banco central chinês. Além disso, foi divulgado sob o nome de Sheng Songcheng, chefe do departamento de estatísticas, não do presidente ou vice-presidente. Isso deve significar que se trata mais de um exercício para sondar as opiniões a respeito da ideia do que uma política já definida. Ainda assim, o informe foi divulgado com a aprovação do Banco do Povo da China e, muito possivelmente, com a de pessoas bem acima na hierarquia.

O artigo apresenta três fases de reforma. A primeira, a ocorrer nos próximos três anos, abriria caminho para mais investimentos chineses no exterior uma vez que "o encolhimento dos bancos e empresas ocidentais deixou espaço livre para investimentos chineses" e, portanto, trouxe uma "oportunidade estratégica". A segunda fase, a ocorrer entre três e cinco anos, aceleraria a concessão de empréstimos internacionais em yuans. No longo prazo, de cinco a dez anos, os estrangeiros poderiam investir em bônus, ações e propriedades na China. A livre conversão do yuan seria o "último passo", a ser dado em algum momento não definido. Esse passo também seria combinado com restrições aos fluxos de capital "especulativos" e à captação estrangeira de curto prazo. Em resumo, a integração plena seria adiada indefinidamente.

Quais as implicações do plano? A resposta é que o plano parece ser sensato. Para chegar a essa opinião, é preciso levar em conta os benefícios e riscos para a China e o mundo da "reforma e abertura" financeira dos chineses.

Os argumentos a favor de tal abertura para o mundo estão ligados intimamente aos favoráveis à reforma doméstica. De fato, a primeira não pode ser promovida antes da última: abrir ao resto do mundo o sistema financeiro chinês altamente regulamentado seria uma receita para um desastre, como as autoridades chinesas já sabem. É por esse motivo que a conversibilidade plena chegaria apenas em um futuro distante, com indica o plano.

Felizmente, os argumentos para uma reforma doméstica são fortes. Mercados financeiros dinâmicos são elemento essencial em qualquer economia que deseje sustentar seu crescimento e começar a rivalizar com os países ricos em produtividade, como a China certamente aspira a fazer. De forma mais imediata, como destaca Nicholas Lardy, do Peterson Institute for International Economics, em recente estudo, "taxas de depósitos reais negativas impõem um imposto implícito elevado às famílias, que são grandes depositantes líquidos no sistema bancário, e levam a investimentos excessivos em imóveis residenciais". "Taxas de empréstimo reais negativas subsidiam investimentos em setores de uso intensivo de capital, minando, portanto, o objetivo de reestruturação da economia em favor da indústria leve e do setor de serviços."*

No entanto, como Lardy também sabe, esse regime financeiro distorcido faz parte de um sistema mais amplo de tributação da poupança, promoção dos investimentos e limitação do consumo, que levou a imensas intervenções nos mercados de câmbio e à vasta acumulação de reservas internacionais. O argumento mais forte pelas reformas é que esse sistema não mais contribui para um padrão de desenvolvimento desejável. A estrutura, porém, está tão arraigada à economia que reformá-la é algo politicamente tenso e economicamente destrutivo. A questão, inclusive, é se tal reforma é politicamente viável. Certamente, será um processo lento.

Como, então, as medidas de abertura propostas pelo banco central se encaixam em tal reforma cautelosa? Presumivelmente, a maior liberdade de fluxos de saída de capital prevista para os próximos cinco anos ajudaria a substituir em parte o acúmulo de reservas internacionais. Se isso, contudo, ocorresse paralelamente à rota indicada de aumento nos juros reais, os superávits da China em conta corrente e na poupança poderiam disparar, agravando os desequilíbrios externos.

Isso evidencia como é grande a aposta em jogo para o resto do mundo com o tipo de reforma e de abertura do setor financeiro que vier a ocorrer na China.

A poupança bruta da China está em um índice anual bem acima de US$ 3 trilhões, o que é mais de 50% maior do que a poupança bruta dos Estados Unidos. A integração total desses vastos fluxos certamente terá imenso impacto no mundo. As instituições financeiras da China, já enormes, quase certamente se tornarão as maiores do mundo nos próximos dez anos. Basta lembrar-se da integração do Japão da década de 80 e a subsequente implosão financeira para ver os possíveis perigos. Devemos ficar satisfeitos, portanto, de que a China esteja adotando uma abordagem cautelosa.

O mundo tem interesses enormes na reorientação da economia da China em direção a um crescimento mais equilibrado. Também tem interesse paralelo na forma como a China administrar sua reforma doméstica e abertura do sistema financeiro. Toda uma série de políticas precisa ser coordenada, particularmente no que se refere à regulamentação financeira, política monetária e regimes cambiais. Se isso for bem realizado, a atual crise dos países de alta renda não será seguida logo depois pela "crise da China' dos anos 2020 ou 2030. Se for mal realizado, até os chineses poderiam perder o controle, com resultados devastadores.

O Banco do Povo da China sugere um cronograma de reformas que se adequaria às necessidades da China e do mundo. Mas para que isso aconteça, discussões meticulosas de todas as implicações precisam ocorrer agora. As políticas da China não importam apenas aos chineses. É isso que significa ser uma superpotência - como os EUA deveriam saber. (Tradução de Sabino Ahumada)



* Sustaining China's Economic Growth After the Global Financial Crisis, (algo como "sustentando o crescimento econômico da China depois da crise financeira mundial") Peterson Institute for International Economics, 2012.



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

O 'desenvolvimentismo de esquerda'


Por José Luís Fiori - Valor 29/02

No Brasil, a relação entre a esquerda e o desenvolvimentismo nunca foi simples nem linear. Sobretudo, depois do golpe militar de 1937, e do Estado Novo de Getúlio Vargas, que foi autoritário e anticomunista, mas foi também responsável pelos primeiros passos do "desenvolvimentismo militar e conservador", que se manteve dominante, dentro do Estado brasileiro, até 1985. Neste contexto, não é de estranhar que a esquerda em geral, e os comunistas em particular, só tenham mudado sua posição crítica com relação ao desenvolvimentismo depois da morte de Vargas.

Não é fácil classificar ideias e hierarquizar instituições. Mas mesmo assim, é possível identificar pelo menos três instituições que tiveram um papel central, nos anos 50, na formulação das principais ideias e teses do chamado "desenvolvimentismo de esquerda". Em primeiro lugar, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que apoiou a eleição de JK, em 1955, mas só no seu V Congresso de 1958 conseguiu abandonar oficialmente a sua estratégia revolucionária e assumir uma nova estratégia democrática de aliança de classes, a favor da "revolução burguesa" e da industrialização brasileira, que passam a ser classificadas como condição prévia e indispensável de uma futura revolução socialista.

Em segundo lugar, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), que foi criado em 1955, pelo governo Café Filho, e que reuniu um número expressivo e heterogêneo de intelectuais de esquerda que foram capazes de liderar uma ampla mobilização da intelectualidade, da juventude e de amplos setores profissionais e tecnocráticos em torno do seu projeto nacional-desenvolvimentista para o Brasil.

Por fim, desde 1949, a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) produziu ideias, informações e projetos que influenciaram decisivamente o pensamento da esquerda desenvolvimentista brasileira. Mas, apesar de sua importância para a esquerda, a Cepal nunca foi uma instituição de esquerda.

Do ponto de vista político prático, no início da década de 60, a "esquerda desenvolvimentista" ocupou um lugar importante na luta pelas "reformas de base", mas, ao mesmo tempo, se dividiu inteiramente, na discussão pública do Plano Trienal proposta pelo ministro Celso Furtado, em 1963. Mas, logo depois do golpe militar de 1964, a esquerda e o desenvolvimentismo voltaram a se divorciar, e sua distância aumentou depois que o regime militar retomou e aprofundou a estratégia desenvolvimentista do Estado Novo.

Três dias depois do golpe, o ISEB foi fechado; o PCB voltou à ilegalidade e a própria Cepal fez uma profunda autocrítica de suas antigas teses desenvolvimentistas. Mesmo assim, apesar dessas condições políticas e intelectuais adversas, formou-se na Universidade de Campinas, no final dos anos 60, um centro de estudos econômicos que foi capaz de renovar as ideias e as interpretações clássicas - marxistas e nacionalistas - do desenvolvimento capitalista brasileiro.

A "escola campineira" partiu da crítica da economia política da Cepal e de uma releitura da teoria marxista da revolução burguesa para postular a existência de várias trajetórias possíveis de desenvolvimento para um mesmo capitalismo nacional. Por isso, a escola campineira fez sua própria leitura e reinterpretação do caminho específico e tardio do capitalismo brasileiro e dos seus ciclos econômicos. E se posicionou favoravelmente à uma política desenvolvimentista capaz de levar a cabo os processos inacabados de centralização financeira e industrialização pesada da economia brasileira.

Hoje, parece claro que a "época de ouro" da Escola de Campinas foi da década de 70 até a sua participação decisiva na formulação do Plano Cruzado, que fracassa em 1987. É verdade que logo depois do Cruzado, e durante a década de 90, a crise socialista e a avalanche neoliberal arquivaram todo e qualquer tipo de debate desenvolvimentista, independentemente do que passou em Campinas. Mas parece claro que a própria escola recuou, nesse período. E dedicou-se cada vez mais ao estudo de políticas setoriais e específicas, e para a formação cada vez mais rigorosa de economistas heterodoxos, e de quadros de governo.

Seja como for, a verdade é que, com raras exceções, depois do Plano Cruzado, a "escola campineira" perdeu sua capacidade de criação e inovação dos anos 70, e a maioria de suas ideias e intuições originárias acabaram se transformando em fórmulas escolásticas. Por isso, não é de estranhar que neste início do século XXI, quando o desenvolvimentismo e a escola campineira voltaram a ocupar um lugar de destaque no debate nacional, a sensação que fica da sua leitura é que o "desenvolvimentismo de esquerda" estreitou tanto o seu "horizonte utópico" que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola.

José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007.