quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Grande demais para ir para a cadeia



Por Simon Johnson - Valor 23/02

Um dos princípios fundamentais de um sistema judicial é o seguinte: não minta para um juiz nem falsifique documentos apresentados a um tribunal ou você irá para a cadeia. Descumprir um juramento de dizer a verdade é perjúrio e mentir em documentos oficiais é, a um só tempo, perjúrio e fraude. São transgressões criminais graves, a não ser que você esteja no coração do sistema financeiro americano. Ao contrário, figuras importantíssimas parecem ser bem recompensadas por seus crimes.

Como argumentou Dennis Kelleher, da Better Markets, o recente acordo a que chegaram os processos envolvendo as denominadas "assinaturas robotizadas" - em que cinco grandes bancos "aceitaram" firmar acordos para pôr fim à responsabilidade legal a que estavam sujeitos devido a sua prática de retomada fraudulenta de imóveis financiados - é uma rendição total ao setor financeiro.

Em primeiro lugar, não fora formulada nenhuma acusação penal grave - o que significa que ninguém será acusado de crime e ninguém irá para a cadeia. Em termos de afetar os incentivos que balizam as ações de executivos, isso é a única coisa que importa.

Até mesmo a terminologia usada para formular a discussão é errônea. Kelleher, um advogado com vasta experiência de trabalho em firmas de advogacia e no setor público, define a coisa como ela é: "Assinaturas robotizadas é conduta criminal em larga escala, sistemática e fraudulenta". Alternativamente, como salienta Kelleher, poderíamos chama isso de "mentir, enganar e roubar".

Em segundo lugar, as penalidades cíveis nesse acordo - uma forma de multa - são minúsculas em comparação com o tamanho das companhias envolvidas. Como disse secamente Shahien Nasiripour, um dos melhores repórteres na cobertura desse assunto: "Nenhuma das cinco instituições bancárias disse que espera incorrer em um encargo substancial devido ao acordo". Em outras palavras, de uma perspectiva empresarial, as penalidades são uma ninharia.

Terceiro, essas multas são, de todo modo, pagas pelos acionistas das companhias, e não por seus executivos ou membros de conselhos de administração (todos eles cobertos por seguros). Nos raros casos em que multas foram aplicadas a pessoas físicas, suas seguradoras cobriram a maior parte da conta ou as penalidades foram relativamente triviais em comparação com os ganhos monetários resultantes da prática de seus crimes - ou as duas coisas.

Como se tudo isso não fosse suficientemente ruim, as notícias indicam que os bancos poderão usar dinheiro do governo para depreciar o valor das hipotecas, o que equivale subsidiá-los para que paguem suas próprias irrisórias multas.

O governo Obama e seus aliados têm se empenhado em propagandear que o acordo com os bancos - mediante o pagamento de aproximadamente US$ 20 bilhões -, terá um impacto significativo sobre o mercado imobiliário. Nada, porém, poderia estar mais longe da verdade. Como enfatiza Kelleher, os EUA têm "mais de 10 milhões de casas 'underwater' (quando a dívida no financiamento excede o próprio valor da casa)." US$ 20 bilhões não fazem diferença alguma nisso: por exemplo, significariam um milhão de casas com um perdão de US$ 20 mil da dívida em cada caso.

Na realidade, o acordo firmado pelo governo Obama com as financiadoras de casas é coerente com sua prática anterior em todas as suas políticas relacionadas ao setor financeiro, que têm sido péssimas. Mas são também incompreensíveis. Por que o governo continua a fazer de tudo para agradar os maiores banqueiros nessas circunstâncias?

Eu honestamente não acredito que a postura do governo reflita alguma forma de corrupção - pagamentos feitos a pessoas físicas ou até mesmo em benefício de campanhas políticas. E, nesse caso, sequer parece refletir o poder de pressões de grandes agentes financeiros. Esse poder certamente explica por que as reformas financeiras Dodd-Frank promulgadas em 2010 não foram mais vigorosas e por que há agora tanta oposição à implementação eficaz dessa legislação - por exemplo, há atualmente uma grande briga em torno da "regra Volcker", que limitaria o "proprietary trading" (operações financeiras com recursos próprios) de megabancos. Mas as atividades criminais das financeiras habitacionais são uma outra questão.

De fato, o que está em jogo, nesse acordo envolvendo os financiamentos habitacionais, são violações fundamentais e sistêmicas do Estado de Direito: perjúrio e fraude numa escala que abrange toda a economia. O Departamento de Justiça, sem dúvida, dispõe de todo o poder de que necessitaria para processar plenamente os responsáveis por esses crimes. E apesar disso, as mais altas autoridades policiais americanas abstiveram-se sistematicamente - e, agora, completamente - de cumprir plenamente seu papel.

A principal motivação para a indulgência do governo em face dos graves crimes cometidos é, evidentemente, o temor às consequências da tomada de medidas duras contra banqueiros individuais. E talvez as autoridades governamentais tenham razão em ter medo, dada a enorme escala dos bancos em questão em relação à economia. Com efeito, esses bancos são maiores, agora, do que antes da crise, e - como James Kwak e eu documentamos pormenorizadamente em nosso livro "13 Bankers" -, são muito maiores do que 20 anos atrás.

Banqueiros importantes querem ganhar muito dinheiro. Eles também querem ficar fora das cadeias. Os líderes políticos podem esbravejar quanto quiserem, mas sem uma ameaça crível de pobreza e de tempo atrás das grades, os banqueiros não têm por que cumprir a lei. Para eles, tudo é negócio - e você pode ser o otário em política pública tão facilmente quanto pode ser o otário em um contrato de empréstimo individual.

A mensagem para os executivos do banco hoje é simples: faça seu banco ficar tão grande quanto possível - e depois continue a fazê-lo crescer. Se você conseguir tornar-se suficientemente grande, você e seus funcionários não serão apenas grandes demais para falir - mas também grande demais para serem levados à cadeia.

O governo Obama acaba de fazer todo mundo de otário - exceto os banqueiros. (Tradução de Sergio Blum)



Simon Johnson ex-economista chefe do FMI, é cofundador de um respeitado blog de economia, BaselineScenario.com, professor na MIT Sloan, membro sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional, e coautor, com James Kwak, de "13 Bankers" (13 banqueiros). Copyright: Project Syndicate, 2012. Podcast no link:



traffic.libsyn.com/projectsyndicate/johnson29.mp3



www.project-syndicate.org

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Petroleo

Preço sobe para o maior valor em nove meses


Por Reuters

Os contratos futuros do petróleo nos Estados Unidos e na Inglaterra tiveram alta ontem pelo quarto dia seguido, fechando no maior valor em nove meses, com temores sobre a oferta da commodity pelo Irã e um alívio com o pacote de resgate para a Grécia.

Em Nova York, o contrato para março fechou a US$ 105,84 o barril, com alta de US$ 2,60, ou 2,52%. Foi o maior valor de fechamento desde 4 de maio de 2011, quanto o primeiro contrato encerrou a US$ 109,24. O petróleo do tipo Brent também fechou em uma máxima de nove meses, em Londres, com o contrato para entrega em abril encerrando cotado a US$ 121,66 o barril, alta de 1,34%.

O governo da Grécia minimizou ontem a revolta local contra o plano da União Europeia de austeridade fiscal imposta para que o país receba um aporte financeiro de € 130 bilhões. Entre as medidas está a indicação de uma equipe permanente de inspetores estrangeiros para monitorar as finanças gregas.

Já no Irã as tensões aumentaram. Novas sanções ocidentais nos últimos meses tentam bloquear as exportações iranianas de petróleo, vitais para a economia do país. A República Islâmica ameaça reagir fechando o estreito de Ormuz, única saída do golfo Pérsico, rota crucial para o comércio petrolífero mundial.

"Nossa estratégia é que, se sentirmos que nossos inimigos querem colocar em perigo os interesses nacionais do Irã (...), vamos agir sem esperar suas ações", disse ontem Mohammad Hejazi, comandante-adjunto das Forças Armadas.

A idade de ouro do gás



Por Martin Wolf  - Valor 22/02

O mundo está em meio a uma revolução do gás natural. Até mesmo a sóbria Agência Internacional de Energia (AIE) refere-se a um cenário denomina "idade de ouro do gás". Se tal otimismo revelar-se correto, as implicações seriam não só muito maiores do que as de uma dissolução dolorosa da zona do euro, mas também economicamente positivas. Nunca nos esqueçamos de que nossa civilização baseia-se em fontes baratas de energia comercial. O crescimento econômico dos países emergentes fará a demanda por energia comercial crescer enormemente nas próximas décadas. O gás é relevante.

Essa revolução tem um nome: "fraturamento hidráulico", coloquialmente conhecido, em inglês, como "hydrofracking" ou apenas "fracking". Como aconteceu em quase todas as revoluções tecnológicas do século passado, essa também originou-se nos EUA. A Administração de Informações Energéticas dos EUA explica que "o uso de perfuração horizontal em associação com o fraturamento hidráulico ampliou a capacidade dos produtores de extrair gás natural de formações geológicas de baixa permeabilidade, em particular formações de xisto" *.

Embora algumas inovações datem da década de 1970, a AIE afirma que "o advento da produção do gás de xisto em larga escala não ocorreu até que a Mitchell Energy and Development Corporation tentasse, durante os anos 1980 e 1990, tornar a produção de gás de xisto profundo uma realidade comercial em Barnett Shale, no centro-setentrional do Texas". Mas hoje, acrescenta a AIE, "a extração de gás de xisto mudou o cenário do mercado de gás natural nos EUA".

A nova atividade incrementou a produção de gás de xisto seco nos EUA de 0,39 trilhões de pés cúbicos em 2000 para 4,8 trilhões de pés cúbicos em 2010, ou 23% da produção seca de gás nos EUA. E muito, muito mais, está por vir. A EIA estima haver 860 trilhões de pés cúbicos de gás de xisto "tecnicamente recuperáveis" nos EUA, contra apenas 273 trilhões de pés cúbicos nas atuais "reservas comprovadas". Se essa estimativa estiver correta, apenas o gás de xisto supriria o consumo americano de gás durante 40 anos, com base no ritmo atual.

Qual a dimensão das reservas mundiais de gás de xisto? A AIE pediu a consultores que examinassem 48 bacias de gás de xisto em 32 países. O relatório estima os recursos "tecnicamente recuperáveis" de gás de xisto em todo o mundo em 6,6 quatrilhões de pés cúbicos, volume aproximadamente igual às atuais reservas comprovadas. As maiores reservas identificadas, além das localizadas nos EUA, estão na China (1,275 quatrilhões de pés cúbicos), Argentina (774 trilhões), México (681 trilhões), África do Sul (485 trilhões), Canadá (388 trilhões), Líbia (290 trilhões), Argélia (231 trilhões), Brasil (226 trilhões), Polônia (187 trilhões) e França (180 trilhões). Regiões excluídas dessa análise incluem a Rússia, Ásia Central, Oriente Médio, Sudeste Asiático e África Central. O potencial mundial deve ser ainda muito maior.

Que diferença poderá a abundância de gás natural (inclusive a de gás mais convencional) fazer para o futuro energético mundial? Em seu World Energy Outlook 2011, a AIE comenta que "em todos os cenários analisados,,, o gás natural tem uma participação maior no mix mundial de energia em 2035 do que hoje". Segundo o cenário de sua "idade do ouro", a demanda de gás crescerá 2% ao ano entre 2009 e 2035. Mesmo em um cenário mais cauteloso, referido como "novas políticas", a previsão de crescimento da demanda é de 1,7% ao ano, ou um total de 55% durante esse período. Como resultado, o gás substituirá outros combustíveis, particularmente em geração de eletricidade e aquecimento. Ele também tem grande potencial como combustível para os transportes. No geral, argumenta a BP em seu mais recente "Energy Outlook" (panorama energético), em torno de 2030, o gás poderá vir a rivalizar com o carvão e o petróleo como fonte de energia primária.

A substituição do carvão ou petróleo por gás é desejável do ponto de vista das emissões de gases estufa e muitos outros poluentes. Por unidade de produção de energia, o gás emite pouco mais de metade das emissões de dióxido de carbono do que o carvão e 70% das emissões de CO2 originadas do petróleo. As emissões de monóxido de carbono na queima de gás equivalem a 20% das emissões originadas do carvão. As emissões de dióxido de enxofre e de partículas são desprezíveis. Em qualquer cenário plausível visando controlar as emissões de gases que provocam o efeito estufa, o gás natural terá que substituir outros combustíveis, embora o desenvolvimento de técnicas baratas de captura e armazenamento de carbono também poderão reforçar as justificativas para o uso do carvão. Para a China, em especial, com seu ônus poluidor devido ao uso de carvão, o gás parece fazer sentido.

Mas, trará o gás de xisto a transformação benéfica que alegam seus defensores? Talvez não. O aspecto controvertido dessa tecnologia é o impacto sobre o ambiente. Em artigo publicado na edição de novembro da "Scientific American", Chris Mooney, que escreve sobre ciência, observa que o "fraturamento horizontal exige enormes volumes de água e substâncias químicas. Enormes lagoas ou tanques são também necessários para armazenar o 'refluxo de água' quimicamente poluído que retorna pelo buraco perfurado, após os poços terem sido fraturados". Um único eixo perfurador lateral, requer entre 2 e 4 milhões de galões de água e 15 a 60 mil litros de produtos químicos. Não admira que os críticos aleguem que a nova tecnologia ameaça poluir lençóis freáticos e seja, portanto, um pesadelo ambiental. O artigo sugere não se saber, ainda, se tal contaminação ocorreu. Nessa fase, conclui, os riscos são incertos. As atividades da nova indústria precisam ser rigorosamente monitoradas.

Se é adequado seguir em frente rapidamente com essa tecnologia dependerá de várias considerações: 1- os custos de oportunidade locais da água; 2- as competências e a confiabilidade dos operadores; 3 - a capacidade das agências fiscalizadoras; 4 - os benefícios do eventual gás extra obtido, em comparação com os benefícios de combustíveis alternativos (ou da conservação), inclusive para a segurança; 5 - melhor conhecimento do impacto das tecnologias. Para dar um exemplo, a competição da demanda por água e os perigos da poluição poderão tornar perigosa a extração em larga escala de gás de xisto na China.

O gás de xisto evidencia a engenhosidade dos envolvidos na descoberta de novas fontes de energia. Também sugere a bem-vinda possibilidade de obter gás natural barato por muitas décadas. Mas essa revolução poderá revelar-se um pacto faustiano. É preciso cuidado em como - e quão rapidamente - a tecnologia poderá ser adotada: os custos ambientais podem revelar-se pesados. "Apressa-te lentamente", como os antigos romanos costumavam dizer.



* World Shale Gas Resources: An Initial Assessment of 14 Regions Outside the United States (Recursos de gás de xisto no mundo: uma estimativa inicial de 14 regiões fora dos EUA, 5 de abril de 2011, www.eia.gov. (Tradução de Sergio Blum)



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Recuperação sob risco

Nouriel Roubini - FSP 19-02


Crise na Europa, freada na China, incertezas nos EUA e tensões no Oriente Médio ameaçam retomada global

Desde o fim de 2011, diversos desdobramentos positivos reforçaram a confiança dos investidores e conduziram a uma alta acentuada nos ativos de risco, a começar por ações e commodities em todo o mundo.

Os dados macroeconômicos dos EUA melhoraram, as companhias de primeira linha dos países avançados se mantiveram lucrativas, a China e os emergentes registraram somente ligeira desaceleração, e o risco de uma moratória unilateral e/ou saída de alguns membros da zona do euro se reduziu.

Além disso, sob seu novo presidente, Mario Draghi, o BCE (Banco Central Europeu) parece disposto a fazer o que for preciso para reduzir o desgaste do sistema bancário e dos governos europeus e também para baixar os juros. Os bancos centrais das economias avançadas e emergentes realizaram injeções maciças de liquidez. A instabilidade se reduziu, a confiança está em alta e a aversão ao risco se moderou -por enquanto.

Mas ao menos quatro riscos de baixa devem se concretizar neste ano, solapando o crescimento global e terminando por afetar a confiança dos investidores e o valor de mercado dos ativos de risco.

Primeiro, a zona do euro está em profunda recessão, especialmente os países periféricos, mas agora também as economias centrais, para as quais os mais recentes dados mostram contração na produção da Alemanha e da França.

Segundo, surgiram indícios de um enfraquecimento no desempenho da China e do restante da Ásia. Na China, a desaceleração em curso é inconfundível. O crescimento nas exportações se desacelerou acentuadamente e caiu abaixo do zero com relação aos países periféricos da zona do euro. A expansão nas importações, que sinaliza alta futura nas exportações, também se reduziu.

De forma semelhante, o investimento chinês em imóveis comerciais e residenciais está se desacelerando de maneira acentuada, e o preço das casas começa a cair.

O investimento em infraestrutura também recuou, e muitos projetos de ramais ferroviários de alta velocidade estão suspensos.

Terceiro, embora os números quanto aos EUA tenham sido surpreendentemente encorajadores, o ímpeto de crescimento parece estar perto do pico. O aperto fiscal será mais forte em 2012 e em 2013, o que contribuirá para a desaceleração, e o mesmo se aplica ao fim dos benefícios fiscais que estimularam os investimentos de capital em 2011.

Além disso, dados os problemas continuados nos mercados de crédito e de habitação, o consumo privado se manterá contido.

Por fim, os riscos geopolíticos no Oriente Médio estão em ascensão, graças à possibilidade de uma resposta militar de Israel às ambições nucleares iranianas.

Embora o risco de conflito armado permaneça baixo, a batalha verbal em curso está se ampliando, bem como a guerra clandestina que Israel e os EUA travam contra o Irã.

Além disso, existem tensões geopolíticas mais amplas e que não devem se atenuar, no Oriente Médio.

É possível até que se intensifiquem. A Primavera Árabe produziu resultados relativamente favoráveis na Tunísia, onde começou, mas os desdobramentos no Egito, na Líbia e no Iêmen continuam bem menos previsíveis, e a Síria está à beira de uma guerra civil.

Em outras palavras, há muito que poderia sair errado no Oriente Médio, e diversas combinações de incidentes causariam medo nos mercados e resultariam em alta considerável no petróleo.

A despeito do crescimento econômico fraco nas economias avançadas e da desaceleração em muitos mercados emergentes, o petróleo já está cotado a mais de US$ 100 por barril. Mas o ágio imposto pelo medo poderia trazer alta significativa de preço, com os efeitos negativos previsíveis que isso teria sobra a economia mundial.

Com tantos riscos em tantas áreas, os investidores, para surpresa de ninguém, darão preferência à liquidez em suas carteiras e rejeitarão ativos fixos de risco quando esses riscos de baixa previsibilidade vierem a se materializar.

Essa é ainda outra razão para acreditar que a economia mundial continua longe de obter uma recuperação equilibrada e sustentável.



NOURIEL ROUBINI é presidente da Roubini Global Economics (www.roubini.com) e professor na Escola Stern de Administração de Empresas (Universidade de Nova York).

Este artigo foi distribuído pelo Project Syndicate.



sábado, 18 de fevereiro de 2012

Lula como presidente do Banco Mundial?




17 de fevereiro de 2012
15h44
Fernando Dantas

Em artigo no site do Financial Times, Gregory Chin, professor de Ciência Política da York University, no Canadá, propõe o nome de Lula para presidente do Banco Mundial, em substituição a Robert Zoellick, que está saindo (ironicamente, Lula certa vez chamou Zoellick, então representante comercial dos Estados Unidos, principal negociador de comércio exterior, de “sub do sub do sub”).

Chin, em seu artigo, mencionou o fato de que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu que o novo presidente do Banco Mundial não seja necessariamente de nenhuma nacionalidade específica, mas sim alguém competente e capaz.

Para o articulista, Lula é o candidato ideal pela sua gestão competente da economia brasileira, pelo seu carisma, pelos laços que criou entre os países emergentes e pelo seu prestígio junto aos países ricos. Caso Lula não queira aceitar, por razões de saúde, Chin acha que deveria ser buscado alguém de perfil semelhante.

Guest post: Lula for World Bank

http://blogs.ft.com/beyond-brics/2012/02/17/guest-post-how-about-lula-for-world-bank/#axzz1mf3H2K2w


By Gregory Chin of York University, Canada

The announcement of Robert Zoellick’s departure as World Bank president has triggered another round of debate on the selection of the next head of a major Bretton Woods institution. Demands are growing to break the 65-year old tradition of automatically selecting an American the next head of the World Bank. There are other clear alternatives.

At a time when the advanced economies would prefer to talk about correcting global macroeconomic imbalances of trade and finance, for the South, the imbalances are more basic: including North-South representational imbalances in global institutions.

Brazil is among those urging that proper consideration be given to developing country candidates.

Guido Manteaga, Brazil’s finance minister, said: “There is no reason that the president of the World Bank is a specific nationality. It should just be someone competent and capable.”

He added: “Our goal is that emerging countries have the same chance to compete to lead these multilateral organizations.”

Mantega doesn’t have to look far. How about Lula?

Under the leadership of Luiz Inácio Lula da Silva [president from 2003 to 2010], Brazil went into the global financial crisis strong and well governed and emerged more quickly than most advanced economies. Its banks and multinationals, meanwhile, have continued to ascend up the global ranks.

Lula has been one of the most charismatic leaders from the Global South over the past decade. His profile has been robust at G20 summits, calling out those who mismanaged the world economy, and demanding reforms to correct outdated representational arrangements in the global economic system.

His credentials as a champion of the developing economies are strong. He has travelled the globe, advocating for stronger South-South ties, including with Africa, and within the Brics, and has thrown support behind regional forums for South America. He has demanded a greater voice for developing countries in global decision making and agenda setting.

Lula is respected by opinion shapers in the North. Brazil has made substantial contributions to multilateral institutions, from the UN system, to giving more than China to the International Development Association (IDA), the World Bank’s fund for the poorest countries.

In the policy influence world, both Chatham House in London, and Sciences Po in Paris, awarded Lula with “person of the year” type honours.

The appointment of the former Brazilian president would not by itself solve the legitimacy challenges that the World Bank faces.

Although the credibility problems of the Bank are not as severe as those of the IMF, it should not be forgotten that it was only four years ago that the Bank appointed its first chief economist from the developing world – from China.

The symbolism of appointing Lula would be hard to miss.

For the US, it would break America’s hold on the presidency and could be seen as bringing risk at a time when many around the world are questioning the model of development that the Bank should be promoting. The global financial crisis shook the previous assumptions.

However, with Lula as president, the Bank would be led by someone who has fought courageously for democracy, equality and social justice. There would be agreement, at least at this level, on the good governance model.

For the traditional and has-been-great powers, this upside of Lula should not be underestimated.

If, for health reasons, Lula would prefer not to take up the position – a totally understandable response – the search should then turn to someone with similar, even if not equal, credentials.





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O massacre do povo grego






Coluna Econômica - 15/2/2012, Luis Nassif



A Grécia está sendo submetida a um massacre. Ontem foi divulgado o PIB do quarto trimestre de 2011, com uma queda de 7%; no terceiro trimestre a queda foi de 5%. Em 2009 e 2010, o PIB já havia caído 3,2% e 3,5% respectivamente.

O drama grego reside em uma relação dívida/PIB da ordem de 140% e um déficit público da ordem de 8%. Desse total, apenas 1,3% se referem ao déficit primário – receitas menos despesas. O restante é juros e amortização, de empréstimos de grandes bancos internacionais que arriscaram, ganharam durante algum tempo e, agora, não querem pagar a conta.

Sua imprudência vinha da convicção de que, em qualquer hipótese, a Grécia seria bancada pela União Europeia ou pelo FMI. Ora a um ganho maior corresponde um risco maior.

Nesse ponto, há que se dividir o jogo de interesses em duas partes: os acionistas dos bancos e os investidores. O risco final, em última instância, é do investidor – especialmente do grande capital, aquele que mais se arrisca com operações de derivativos ou de empréstimos a países de alto risco.

Mas desde a eclosão da dívida, vem-se tratando a questão grega de maneira a minimizar o máximo o prejuízo do chamado grande capital.

O primeiro pacote de ajuda foi de 110 bilhões de euros, com participação do FMI e da União Europeia. Foi negociado um segundo pacote de 109 bilhões de euros, até se constatar que não haveria meio de resolver a questão da dívida sem descontos.

Em uma primeira rodada o desconto foi de 21% do valor presente do endividamento público, insuficiente para equacionar a dívida.

Em agosto do ano passado, a OCDE (conjunto das economias mais desenvolvidas do mundo) lançou um estudo sobre a situação econômica da Grécia.

O estudo dizia que “a Grécia lançou um ambicioso programa de ajuste para lidar com a profunda crise econômica, restaurando a sustentabilidade das finanças públicas, competitividade e os fundamentos para saudável e sólido crescimento a longo prazo”.

É um estudo indecente no qual, para gerar ganhos capazes de equacionar a dívida, propõe-se reduzir os benefícios previdenciários, aumentar oportunidades de trabalho para velhos e crianças, precarizar o emprego, restringir gastos com saúde, reduzir substancialmente o salário mínimo.

O que está fórmula conseguiu, de um lado, foi uma queda de 7% do PIB – e mais do que isso na arrecadação fiscal. A não ser que queiram encarcerar todos os gregos, é impossível um corte de despesas que compense queda tão acentuada do PIB. E se conseguir compensar, haverá nova queda no PIB, maior ainda.

Nenhuma nação, nenhum conjunto de países se sustenta sem a solidariedade advinda de relações ética do governante com sua população. Hoje em dia, mais do que em qualquer época, a Internet trouxe uma transparência inédita nas informações e nas relações de poder.

Qualquer cidadão global, medianamente informado, sabe que a crise grega é fruto da cumplicidade de governantes corruptos com bancos imprudentes e investidores ambiciosos.

O ponto de partida para o equacionamento do caso grego tem que ser essa identificação de responsabilidades. Caso contrário, significará jogar a União Europeia de volta à era de barbárie do pré-Segunda Guerra.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Vendas de latinhas podem alcançar 20 bilhões em 2012

Valor 15/02

A indústria brasileira de latas de alumínio poderá atingir um marco neste ano: as vendas devem chegar a 20 bilhões de unidades. As projeções para 2012 da Abralatas, entidade que representa o setor, apontam para avanço de cerca de 8% na demanda, resultado que deve ser impulsionado pelo aquecimento da economia, aumento da renda do brasileiro e ainda pela grande quantidade de feriados, que elevam o consumo de bebidas.

"As perspectivas para este ano são muito boas. Esperamos um novo aquecimento no setor", afirmou Renault Castro, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade.

O otimismo é gerado pela boa resposta que as vendas de bebidas têm à elevação da renda da população: o aumento real do salário mínimo deve injetar R$ 47 bilhões na economia do país e é nisso que as empresas fabricantes de latas estão apostando suas projeções. Outro fator - mais específico - que deve trazer ânimo à produção de latinhas é o período de eleições municipais, que estimula muitos eventos políticos, impulsionando o mercado de bebidas.

As estimativas são traçadas após um ano que mostrou a continuidade da tendência positiva do setor, apesar da desaceleração nas vendas. Foram comercializadas 18,4 bilhões de unidades em 2011, crescimento de 6%. A base de comparação é alta: em 2010 foi registrado um desempenho recorde, quando as vendas cresceram 17%. No ano da Copa do Mundo na África do Sul, houve boom de demanda - foram vendidas 17 bilhões de unidades - e o setor foi obrigado inclusive a importar latinhas.

Os resultados mais brandos do ano passado foram fruto de uma série de fatores. Além da desaceleração da economia brasileira e da queda da confiança dos consumidores, houve poucos feriados e o clima frio não ajudou, segundo a Abralatas. O mercado de cervejas - que representa mais de 70% das vendas de embalagens de alumínio no Brasil - cresceu 3,3%, enquanto os refrigerantes, sucos e outras bebidas avançaram 5%. "Diversos fatores limitaram o consumo em 2011, como o aumento de impostos sobre bebidas, que foi repassado para os preços", afirmou Rinaldo Lopes, presidente da Associação. Isso fez com que a própria Abralatas reduzisse três vezes suas projeções de crescimento.

Diante disso, conforme antecipou o Valor, as empresas produtoras das latinhas revisaram seus planos de investimentos e postergaram a conclusão dos projetos de ampliação de capacidade, anunciados em 2010. Foram previstos investimentos de mais de R$ 1,1 bilhão até 2012, para ampliar a produção nacional para 25 bilhões de unidades.

No fim do ano, por outro lado, os fabricantes tiveram uma surpresa positiva. Em novembro, as vendas de latinhas cresceram 15,8%, enquanto em dezembro, o avanço foi de 16,9%, acima do esperado. O crescimento do setor, maior do que o das vendas de bebidas, é explicado pela elevação do estoque formado pelos fabricantes de bebidas e pelo aumento de participação da lata de alumínio no mercado, em detrimento de algum outro tipo de embalagem.

Um destaque no ano foi o mercado de energéticos. As latinhas vendidas para esse segmento avançaram 25%. Segundo fontes do mercado, foram consumidas no país cerca de 400 milhões de latas de energéticos, sendo que boa parte é importada.

"No geral, em 2011 tivemos um crescimento robusto, mas acreditamos que 2012 será melhor", afirmou Castro.

Dados sugerem que Europa entrou em nova recessão



Por Assis Moreira - Valor 15/02
De Genebra

 A queda da produção industrial na zona do euro e a forte contração do PIB da Grécia e de Portugal reforçaram as evidências de que a Europa está entrando de novo em recessão. A combinação de aperto fiscal e desalavancagem dos bancos amplia as dificuldades da economia europeia.

Nos 17 países da zona do euro, a produção industrial caiu 1,1% em dezembro, a terceira queda em quatro meses. No quarto trimestre como um todo, a produção diminuiu 1,8%, após alta de 0,4% no trimestre anterior.

Apesar de indicações positivas recentes no sentimento e na atividade industrial, analistas duvidam que a desaceleração tenha chegado ao fim. O Índice PMI (gerente de compras) na área industrial aponta para mais queda da produção neste começo de 2012.

A zona do euro continuará caracterizada por condições de crescimento divergentes entre os países. Dados da Grécia e de Portugal confirmaram ontem a que ponto as duas economias estão afundadas na recessão. A produção de bens e serviços na Grécia declinou 7% no quarto trimestre de 2011, em relação ao período do ano anterior. No ano, a queda do PIB deve ficar em 6,8%, pior que os 6% previstos pelo Fundo Monetário Internacional em dezembro.

Para certos analistas, isso amplia o risco de que mais ajuda financeira será necessária para a Grécia cumprir os critérios econômicos impostos pelo FMI. Ou seja, o pacote que os ministros de finanças europeus deveriam discutir na reunião de hoje (que acabou cancelada) poderá estar caduco dentro de algum tempo. E a implementação de mais aperto fiscal continuará a ser o principal desafio para a Grécia diante do tamanho de sua recessão.

Em Portugal, a queda do PIB foi de 2,7% no último trimestre de 2011. No ano, a retração econômica do país foi de 1,5%, pior que a contração de 0,6% do ano anterior. Como o declínio se acelerou no último trimestre, o pior ainda pode estar por vir.

Portugal é visto como uma "questão aberta", porque agora parece pouco plausível que o país seja capaz de retornar ao mercado financeiro, como previsto no seu atual programa econômico com o FMI. Isso significa que a UE pode ser forçada até o fim do ano a decidir entre demanda para credores privados reduzirem a dívida portuguesa, como ocorre com a Grécia, ou outro pacote de socorro politicamente intragável.

A expectativa é que a União Europeia anuncie hoje retração de 0,4% a 0,5% no PIB da zona do euro no quarto trimestre. Será a primeira contração do PIB na união monetária desde o segundo trimestre de 2009, indicando o fim da recuperação pós-Lehamn Brothers. "A recuperação de 2009-2011 terá sido a mais curta da economia europeia desde o ciclo entre 1980-82 da dupla recessão provocada por Volker [ex-presidente do Fed, o banco central americano]", conforme disseram analistas do Deutsche Bank.

Para o banco alemão, uma "mild recession", ou recessão suave, continua a ser a melhor previsão para a zona do euro em 2012. Além do aperto fiscal e da desalavancagem dos bancos, o desempenho por país pode reforçar a ameaça de mais riscos para a periferia, especialmente se os resultados da Itália no primeiro trimestre forem bem abaixo das expectativas já modestas.

A contração no fluxo de crédito no quarto trimestre na zona do euro mostra a importância da nova política de liquidez do Banco Central Europeu (BCE). A esperança é que as condições de crédito se estabilizem no segundo trimestre e melhorem no fim do ano.

Na enxurrada de indicadores, a nota positiva ontem foi a alta do índice ZEW na Alemanha, de -21,6 para +5,4, indicando que uma maioria de investidores agora acha que a situação econômica da maior economia do Velho Continente vai melhorar nos próximos seis meses. É a primeira vez desde maio de 2011 que esse dado é tão positivo e alimenta expectativas de que a Alemanha evite no primeiro trimestre uma recessão técnica (dois trimestres consecutivos de queda do PIB).

No entanto, a OCDE (entidade que reúne os países ricos) previu ontem que a economia alemã vai crescer apenas 0,5% neste ano, depois de expansão de 3% em 2010. Ou seja, dificilmente seu crescimento será suficientemente forte para estimular a recuperação econômica do restante da zona do euro.

Muito barulho a respeito da Grécia



Por Martin Wolf - Valor 15/02

 Por que a Grécia - um país com pouco mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da região do euro - causa tantas dores de cabeça? Diariamente, pessoas em lugares tão distantes como Pequim e Washington leem notícias sobre promessas não cumpridas e condições não honradas. Não seria melhor, devem se perguntar essas pessoas, deixar que a Grécia fique inadimplente e saia da região do euro, em vez de continuar dispensando tanta atenção às suas mazelas, em grande parte provocadas pela própria Grécia?

Que a Grécia possa, de fato, sair da região do euro, agora é algo que está longe de ser inimaginável. Em informe divulgado na semana passada com coautoria de Willem Buiter, o economista-chefe do Citigroup e ardoroso defensor do projeto do euro julga que a probabilidade de uma saída da Grécia nos próximos 18 meses é de até 50%. "Isso principalmente porque consideramos ter ocorrido uma queda considerável na disposição dos credores da região do euro de continuar fornecendo mais apoio à Grécia, apesar do país não ter cumprido o programa de condicionalidade." Os autores também acreditam que os custos para a região do euro com uma saída da Grécia são menores agora do que antes. A probabilidade de que se permita essa saída, sugerem, aumentou de forma correspondente.

Vamos levar em consideração as questões que qualquer pessoa sensata deveria se perguntar sobre as tensas negociações com a Grécia.

Primeira, será que a Grécia pode chegar a um acordo com os credores sobre a reestruturação das dívidas ou o "envolvimento do setor privado"; a um acordo com a "troica" - a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE) - sobre a participação deste último; e a um acordo com os credores governamentais e multilaterais sobre um segundo resgate financeiro? Será que tudo isso pode dar-se antes do próximo resgate de bônus, em 20 de março?

A probabilidade é de que sim. Caso positivo, uma inadimplência desordenada seria, no mínimo, adiada. É possível identificar três motivos para esse desfecho: apesar da ira popular, os políticos gregos concordam de forma esmagadora na vantagem de continuar dentro da região do euro; apesar da desconfiança, a esta altura, generalizada, os detentores do poder na região do euro temem um calote desordenado e o provável abandono da moeda pelo país; e, por fim, o FMI acredita que um programa baseado em reformas estruturais profundas - e não em mais retração fiscal maciça ou privatizações precipitadas - possa funcionar, pelo menos, na teoria.

Segunda pergunta, há probabilidade de que um programa assim funcione bem de alguma maneira? A resposta é "não", como destacou o informe do Citigroup. "Isso porque, primeiro, é muito improvável que qualquer reestruturação acertada leve a um endividamento geral do governo da Grécia de 120% do PIB - objetivo declarado do segundo pacote de resgate da Grécia - e, segundo, porque mesmo se por algum milagre, o governo da Grécia conseguisse endividamento geral de 120% do PIB até 2020, isso seria um [...] encargo pesado demais para a Grécia carregar." É quase certo, então, que seria necessária uma redução ainda maior do endividamento nos próximos anos, mesmo se tudo saísse perfeitamente bem. E não sairá.

A Grécia teve progressos desde o início da crise, embora em grande parte como resultado da austeridade. Seu déficit fiscal primário (sem contar pagamentos de juros) encolheu de 10,6% do PIB em 2009 para uma estimativa de apenas 2,4% em 2011. É um grande declínio, dada a escala da recessão. O governo grego agora está perto do ponto em que precisará captar empréstimos apenas para rolar e cobrir o serviço das dívidas, mas isso não é suficiente. A Grécia também ainda precisa de entradas substanciais de moedas, para cobrir seu déficit em conta corrente, mesmo se não levarmos em conta os juros externos sobre suas dívidas governamentais. Em 2011, por exemplo, o déficit em conta corrente, sem contar os juros sobre as dívidas do governo, ainda era de 4,6% do PIB, apesar da profunda retração.

Será que as reformas estruturais vislumbradas vão gerar uma economia suficientemente dinâmica e, acima de tudo, a melhora nas exportações líquidas necessária para financiar as importações necessárias em uma situação próxima ao emprego pleno? A resposta, apesar das melhoras na competitividade, é: não rapidamente, mesmo se isso puder ser feito de alguma forma.

Terceira, o programa é de interesse da Grécia? A elite política grega acredita que sim. A alternativa - um calote desordenado e a provável saída da região do euro - seria dar um passo rumo ao desconhecido. O país teria de adotar e, então, operar controles cambiais pelo menos temporários. Teria de lidar com uma enorme depreciação de um novo dracma e, então, uma disparada da inflação. Teria de renegociar sua posição dentro da União Europeia. E, por fim, sofreria grandes declínios no PIB e na renda real. Será que tudo isso seria melhor do que resistindo? Provavelmente não, mas como saber?

Quarta, será que o programa adicional grego seria de interesse do resto da região do euro e do mundo? A resposta é: provavelmente sim, mas não certamente. Os argumentos a favor são de que a inadimplência desordenada da Grécia, combinada ao abandono do euro, ainda poderia gerar pânico em outros países da região do euro e que os custos para se evitar isso, ajudando a Grécia, não são grandes, em comparação aos custos que seriam decorrentes de tal desordem. Os argumentos contra essa posição são de que a região do euro tem os meios para impedir a disseminação de pânico mesmo depois de um desmoronamento da Grécia, particularmente se o BCE e os governos estiverem dispostos a agir de forma decisiva em resposta a qualquer corrida aos bancos, ou governos, em outros países. Outro argumento contrário, que não deve ser muito negligenciado, é que seria melhor acabar com a pretensão de que os programas da Grécia funcionarão e, portanto, deixar claro que os fracassos têm consequências.

Por fim, o que o épico grego nos diz sobre a região do euro? A Grécia por si só, embora um importante agente perturbador, não pode ser decisiva para o futuro da área cambial. Porém, o fato de que um pequeno país economicamente frágil e cronicamente mal administrado possa ter causado tantas dificuldades também indica a debilidade de toda a estrutura. A Grécia é o sinal de alerta, o canário que foge ao sentir perigo na mina. O motivo para ter provocado tantas dificuldades é as falhas do país são extremas, mas não exclusivas. Seus transtornos mostram que a região do euro ainda busca uma mistura viável de flexibilidade, disciplina e solidariedade.

A região do euro é uma espécie de limbo: não tem uma integração tão profunda a ponto de uma separação ser inconcebível, nem tão superficial a ponto de uma separação ser tolerável. Na verdade, a garantia mais forte de sua sobrevivência é o custo que uma separação teria. Talvez isso prove ser suficiente. Se a região do euro, no entanto, quiser ser mais do que um casamento infeliz mantido pelos custos assustadores de separar ativos e passivos, precisa desenvolver algo muito mais positivo. Tendo em vista as divergências econômicas e fricções políticas reveladas de forma tão incisiva por esta crise, será que isso agora é possível? Essa é a pergunta mais difícil de todas. (Tradução de Sabino Ahumada)



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

China vai cortar acúmulo de reserva em 2012

Valor 14/02

A China pretende desacelerar a acumulação de reservas internacionais em 2012 para 3% do PIB, um corte de quase metade em relação a 2011, como uma das medidas para facilitar o reequilíbrio e o crescimento da economia global.

O Valor apurou que foi isso que funcionários chineses disseram em recente reunião preparatória do G-20, o grupo das principais nações desenvolvidas e emergentes. Ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G-20 se reúnem neste mês na Cidade do México.

A acumulação de reservas internacionais pela China alcançou US$ 388 bilhões, incluindo ouro, no ano passado, equivalente a 5,7% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com o analista Qinwei Wang, da consultoria Capital Economics, em Londres.

Por sua vez, o Instituto Internacional de Finanças (IIF) faz projeção que vai na linha do que dizem os chineses, estimando que as reservas vão crescer "apenas'' US$ 176,8 bilhões (excluindo ouro) em 2012. O volume total pode chegar a US$ 3,680 trilhões em dezembro, quase metade do PIB.

As pressões sobre os emergentes para dar mais apoio ao crescimento global têm aumentado. A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, vem conclamando os países com amplos superávits nas contas correntes a encorajar mais demanda doméstica, dando a China como principal exemplo de onde isso deveria ocorrer.

Na verdade, o saldo em conta corrente da China vem recuando significativamente desde a crise global, notam analistas. Caiu do pico de 10% do PIB em 2007 para 3% no ano passado. Pequim vem importando mais, e seu plano é de continuar nesse ritmo, como indicam os funcionários chineses. As estimativas são de que Pequim deu impulso à demanda global equivalente a 0,3% do PIB mundial nos últimos anos.

Mas para realmente reequilibrar sua economia, notam analistas, a China precisa aumentar a renda das famílias, ao invés de se apoiar no boom de investimentos. E para aumentar significativamente a importação, como pedem os parceiros, é preciso frear a queda do consumo doméstico chinês, que é o mais baixo entre as maiores economias em relação ao PIB, em torno de 35%. Como isso só mudará muito gradualmente, a expectativa é de que, na prática, a China voltará a exportar bem mais de novo, ter amplos superávits comercial e de contas correntes nos próximos anos, com efeitos contrários sobre o crescimento econômico global do que dizem seus funcionários.

No G-20, prossegue o embate sobre a importância de os emergentes desacelerarem a acumulação de reservas internacionais, reduzirem o saldo em conta corrente e importarem mais, principalmente no caso da China.

Fonte em Bruxelas confirmou que numa reunião preparatória do grupo, em janeiro em Nova Déli, um convidado, o professor Richard Cooper, da Universidade de Harvard, chegou a propor o estabelecimento de metas para acumulação das reservas internacionais.

Cooper sugeriu também que os países poderiam adaptar uma regra do Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio, que foi substituído pela OMC) para permitir discriminação contra importações originárias de países com persistente superávit. Ou seja, os países poderiam usar a regra contra os parceiros que acumulassem reservas exageradamente.

Na visão de Cooper, as economias emergentes deveriam ser autorizadas a resistir aos fluxos voláteis de capital e os bancos centrais não deveriam se focar apenas em inflação baixa.

O canto da sereia



Por Jorge Arbache - Valor 14/02

Brasil e China têm histórias, culturas e instituições bastante distintas, mas têm características em comum que os tornam candidatos naturais a cooperar e a usufruir das potencialidades e ambições um do outro. Ambos têm economias robustas, territórios ricos em recursos naturais, grandes populações e gozam de crescente protagonismo global. Mas ambos têm enormes desafios, alguns em comum, como pobreza e dinâmica demográfica, e outros particulares, como déficits crônicos das contas correntes, baixa taxa de investimento e pressões inflacionárias persistentes no Brasil, e crescente carência de energia e alimentos necessários para manter o crescimento elevado e a estabilidade política na China.

A relação econômica bilateral tem aumentado velozmente, impulsionada pela demanda chinesa por commodities brasileiras e pela demanda brasileira por investimentos, bens de capital, bens intermediários e bens de consumo chineses. De fato, em 2011, o comércio bilateral alcançou US$ 77 bilhões, um aumento de 38% em relação a 2010. No ano passado, o superávit comercial com a China correspondeu a nada menos que 39% do nosso resultado total. A China não apenas é de longe a principal parceira comercial, mas, também, a principal fonte de investimento estrangeiro direto no Brasil.

As oportunidades de aprofundamento das relações econômicas bilaterais são bastante promissoras. Em favor do Brasil estão a incorporação de centenas de milhões de chineses à economia moderna e o aumento do consumo das famílias, que elevam a demanda por commodities. Em favor da China estão o nosso crescimento econômico e a expansão da classe média, que criam novas oportunidades de negócios.

As relações econômicas com a China têm beneficiado o Brasil no curto prazo. De fato, as exportações para a China contribuem para amenizar os déficits das contas correntes, enquanto as importações de produtos chineses têm sido úteis para disciplinar os preços internos e facilitar o acesso a bens de consumo, máquinas e insumos.

O outro lado da moeda é que as relações bilaterais, tal como elas se encontram, induzem a produção de commodities e desencorajam fortemente a produção industrial. Isto porque o padrão de comércio Brasil-China caracteriza-se como o tipo mais radical de comércio "norte-sul", muito mais radical até do que aquele com os Estados Unidos ou com a União Europeia: importam-se produtos manufaturados e exportam-se commodities. Em 2011, 91% das exportações brasileiras para a China foram commodities, enquanto as importações brasileiras da China representam parcelas crescentes do consumo aparente de manufaturados, chegando, em alguns setores, a mais de 50% do total. Já o investimento chinês no Brasil concentra-se em commodities, notadamente em petróleo, gás e mineração e na infraestrutura necessária para a sua exportação, tal como ocorre na África. Forja-se, com isso, uma crescente complementariedade entre as duas economias.

Diferentemente de outros países em desenvolvimento produtores de commodities, o Brasil tem uma indústria consolidada, inclusive com "market share" internacional não desprezível em alguns setores e, por isso, tem muito a perder com a estagnação da sua indústria. Ainda mais preocupante é a queda da diversificação das exportações e a crescente dependência de commodities. A evidência empírica internacional mostra que países mais dependentes da exportação de commodities tendem a ter crescimento econômico mais volátil e mais lento no longo prazo.

No Canto XII da Odisseia de Homero, Odisseu foi alertado pela deusa Circe dos desafios que enfrentaria ao passar pelas traiçoeiras águas das ilhas das sereias. Para sobreviver ao naufrágio iminente, Odisseu deveria resistir à provação do canto sedutor das sereias. Odisseu ordenou que o amarrassem fortemente ao mastro da sua nau, mandou tapar os ouvidos dos seus marujos com cera e lhes ordenou remar com todas as forças para que se livrassem logo daquelas águas. Odisseu ouviu os cantos das sereias, mas resistiu desesperadamente, o que lhes permitiu seguir viagem em segurança.

A relação econômica atual Brasil-China guarda similaridades alegóricas com a peça de Homero. A primarização não é destino e tampouco a crescente dependência à economia chinesa deve ser vista como panaceia para as deficiências da economia brasileira. O que, à primeira vista, são sedutoras e irresistíveis facilidades associadas a preços baixos de produtos importados, elevados ganhos com exportações de commodities e acesso facilitado a investimentos e financiamentos pode, na verdade, ser uma cilada com riscos substanciais e não negligenciáveis ao crescimento sustentável.

Em razão da singularidade dos dois países e do enorme potencial de cooperação, a relação Brasil-China requer uma visão menos pragmática por parte do Brasil e mais estratégica. É preciso buscar uma agenda de colaboração com objetivos mais amplos baseada no princípio do mútuo benefício, num horizonte de longo prazo. A agenda deve incluir parcerias em ciência e tecnologia, acesso a mercado, acordos de investimentos e o reconhecimento das enormes diferenças das políticas econômicas e comerciais nacionais e de seus impactos altamente assimétricos no padrão de comércio e investimento bilateral.

A China é, antes de tudo, uma grande oportunidade para o crescimento brasileiro. Mas, para que essa oportunidade se transforme em crescimento sustentável, será preciso o Brasil fazer o seu dever de casa. Para isso, será necessário, em primeiro lugar, que o país saiba o que quer da relação com a China. Em segundo lugar, para se mitigar a desindustrialização, será preciso aproveitar a base industrial, a experiência e a capacidade empreendedora para explorar industrialmente o enorme potencial brasileiro em áreas como recursos naturais, alimentos, energia e biotecnologia. Tal empreitada vai requerer investimentos em inovação para agregação de valor e melhoria do ambiente de negócios. Em terceiro lugar, será preciso uma diplomacia econômica mais vigorosa e equipar o país com mais e melhores recursos humanos e institucionais de defesa de nossos interesses.

Por fim, se, por um lado, a atual relação Brasil-China é sedutora por atenuar as nossas vulnerabilidades econômicas de curto prazo, por outro lado, ela cria novas vulnerabilidades de longo prazo, as quais poderão se manifestar já num contexto de eventual desaceleração do crescimento chinês.



Jorge Arbache é assessor da presidência do BNDES e professor de economia da Universidade de Brasília. E-mail: jarbache@gmail.com.

O renascimento do Estado-nação



Por Dani Rodrik - Valor 14/02

Um dos mitos básicos de nossa era é o de que a globalização condenou o Estado-nação à irrelevância. A revolução nos transportes e comunicações, costuma-se ouvir, pulverizou fronteiras e encolheu o mundo. Novas formas de governo, desde redes transnacionais de agências de regulamentação até organizações internacionais da sociedade civil e instituições multilaterais, vêm transcendendo e suplantando os parlamentares nacionais. As autoridades políticas domésticas, comenta-se, são impotentes ante os mercados mundiais.

A crise financeira mundial acabou com esse mito. Quem socorreu os bancos, injetou liquidez, empenhou-se em estímulos fiscais, proporcionou redes de segurança social para desempregados e evitou a escalada da catástrofe? Quem está reescrevendo as regras de supervisão e regulamentação dos mercados financeiros para impedir outra crise? Quem leva a maior parte da culpa por tudo que sai errado? A resposta é quase sempre a mesma: os governos nacionais. O G-20, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, em geral, ficaram em segundo plano.

Mesmo na Europa, onde as instituições regionais são relativamente fortes, são os interesses nacionais e as autoridades políticas domésticas, em grande parte, na figura da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, que vêm dominando a definição das políticas. Se Merkel fosse menos apaixonada pela receita de austeridade passada aos países europeus assolados por dívidas e se ela tivesse conseguido convencer seu eleitorado doméstico da necessidade de uma abordagem diferente, a crise da região do euro teria se desdobrado de uma forma bem diferente.

Embora o Estado-nação ainda sobreviva, sua reputação está em frangalhos. A investida intelectual contra o Estado-nação assume duas formas. Na primeira, há a crítica dos economistas que veem os governos como um impedimento à livre circulação de bens, capital e pessoas pelo mundo. Se impedirmos os políticos de intervir com suas regras e barreiras, dizem esses economistas, os mercados mundiais tomarão conta de si próprios e, no processo, criarão uma economia mundial mais integrada e eficiente.

Quem, no entanto, determinará as regras e regulamentações dos mercados, senão os Estados-nações? O "laissez-faire" é uma receita para mais crises financeiras e maior retrocesso político. Além disso, exigiria delegar a política econômica a tecnocratas internacionais, figuras isoladas das pressões inerentes à política - uma situação que restringe seriamente a democracia e a responsabilidade política.

Em resumo o "laissez-faire" e a tecnocracia internacional não proporcionam uma alternativa plausível ao Estado-nação. Na verdade, enquanto não dispomos de mecanismos viáveis de governança mundial, a erosão do Estado-nação, em última análise, traz pouco de positivo para os mercados mundiais.

Na segunda forma, há os pensadores éticos cosmopolitas que condenam a artificialidade das fronteiras nacionais. Como o filósofo Peter Singer disse, a revolução das comunicações gerou uma "audiência global", que cria uma base para uma "ética global". Se nos identificamos com a nação, nossa moralidade permanece nacional. Se, no entanto, cada vez mais nos associarmos ao mundo em geral, nossas lealdades também se expandirão. De forma similar, o economista vencedor do Nobel, Amartya Sen, fala de nossas "identidades múltiplas" - étnicas, religiosas, nacionais, locais, profissionais e políticas - muitas das quais atravessam as fronteiras nacionais.

Não está claro quanto disso é mera expressão de desejo e quanto é baseado em mudanças reais nas identidades e afinidades das pessoas. Pesquisas mostram evidências de que a afinidade das pessoas com o Estado-nação continua bastante forte.

Há poucos anos, a Pesquisa Mundial de Valores consultou pessoas em vários países sobre sua afinidade com as comunidades locais, suas nações e o mundo em geral. Não foi nenhuma surpresa descobrir que os pesquisados que se viam como cidadãos nacionais superavam amplamente os que se consideravam cidadãos do mundo. Surpreendentemente, no entanto, a identidade nacional superava até a identidade local nos Estados Unidos, Europa, Índia, China e na maioria dos outros lugares.

A mesma pesquisa indica que os mais jovens, os que têm mais estudo e os que se identificam como sendo das classes mais altas são mais propensos a se sentir associados ao mundo em geral. É difícil, no entanto, identificar qualquer faixa demográfica em que a afinidade à comunidade mundial supera a ligação ao país.

Por maiores que tenham sido os declínios nos custos com transportes e comunicações, não foram suficientes para tirar a geografia de cena. As atividades políticas, sociais e econômicas continuam agrupadas em torno a preferências, necessidades e trajetórias históricas que variam ao redor do mundo.

A distância geográfica é um determinante de intercâmbio econômico tão forte quanto era há 50 anos. Mesmo a internet, no fim das contas, não é tão independente das fronteiras quanto parece: um estudo mostrou que os americanos são mais inclinados a visitar sites de países fisicamente próximos do que de lugares mais distantes, mesmo levando em conta o idioma, renda e muitos outros fatores.

O problema é que ainda estamos sob o domínio do mito do declínio do Estado-nação. Líderes políticos alegam impotência, intelectuais sonham com esquemas implausíveis de governança global e os que se veem como perdedores, cada vez mais, culpam os imigrantes ou as importações. Quando se fala sobre revigorar o Estado-nação, pessoas respeitáveis fogem assustadas, como se tivessem ouvido uma proposta de reinstituir a praga.

Naturalmente, a geografia de afinidades e identidades não é fixa: de fato, vem mudando ao longo da história. Isso significa que não devemos descartar inteiramente a probabilidade de surgimento de uma verdadeira consciência mundial no futuro, juntamente com comunidades políticas transnacionais.

Os desafios atuais, entretanto, não podem ser enfrentados por instituições que (ainda) não existem. Por enquanto, as pessoas ainda precisam recorrer a seus governos nacionais em busca de soluções, o que continua sendo a melhor esperança de uma ação coletiva. O Estado-nação pode ser uma relíquia que nos foi legada pela Revolução Francesa, mas é tudo o que temos.

Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional na Harvard University e autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy" (o paradoxo da globalização: democracia e o futuro da economia mundial, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.



www.project-syndicate.org

Interregno hegemônico



Por Yoshiaki Nakano - Valor 14/02

A crise financeira de 2008, desencadeada pela crise do subprime em 2007, tem o seu foco nos EUA e na Europa. Os países emergentes e, particularmente, os Brics revelaram-se extremamente resistentes e transformaram-se hoje no polo do crescimento da economia global. É uma crise do próprio centro do sistema global de poder com todas as suas implicações. As suas consequências também deverão ser profundas e persistentes.

O que está em jogo é uma variedade de capitalismo e a globalização liberalizante que chegaram ao seu limite e a provável ascensão de um novo tipo de capitalismo e de globalização. A ascensão da plutocracia financeira ao poder com Reagan/Thatcher, desde 1980, significou a retração do Estado-nação na sua função reguladora e controladora, com domínio de doutrinas como a de "mercado eficiente", sempre em equilíbrio, e capaz de se autorregular. O mercado se transformou no princípio de organização da economia capitalista, em contraposição ao Estado-nação. Mas, se não fosse a massiva intervenção e o socorro prestado pelo Estado, o mercado financeiro desregulado teria adquirido um poder autodestrutivo tão grande que o sistema financeiro teria praticamente desaparecido. Por razões de sobrevivência do próprio capitalismo, o Estado-nação está retomando a sua função reguladora e controladora dos mercados num processo adaptativo.

A China aparece como um candidato natural para se tornar, gradualmente, o paradigma econômico dominante nas próximas décadas. Se apresenta como um novo capitalismo de Estado, em substituição modelo da liberalização global. Se isso acontecer, o mercado livre será substituído pelo Estado-nacional como princípio dominante de organização e de controle das economias nacionais, e da nova a fase da globalização. Em países em que a liberalização avançou excessivamente e em crise financeira, o Estado ampliará seu foco de regulação e controle sobre os mercados. Nos países onde o poder do Estado é o agente organizador e controlador da economia, como na China, o mercado, enquanto princípio organizador, deverá ser ampliado.
Esse processo adaptativo entre mercado e Estado será longo e complexo, pois a plutocracia financeira é ainda o poder hegemônico e resistirá ao avanço da regulação. Mas quanto maior for a resistência e quanto maior for o período de dominância do mercado livre, maior será a crise necessária para que o princípio adaptativo funcione.

Vamos viver nas próximas décadas um longo interregno, com o declínio dos Estados Unidos e Europa e ascensão da China e dos países emergentes. Tanto os Estados Unidos como a Europa terão que concentrar suas energias para recuperar e revitalizar suas economias, num contexto de crescente oposição e polarização política doméstica, abrindo espaço para a emergência de novos estados-nacionais com atores políticos, a exemplo do G-20. Somente com a ascensão de nova coalizão global de forças políticas é que será construída uma nova ordem internacional, com a imposição de um novo pensamento econômico, o que deverá levar décadas. Nesse interregno hegemônico, será perfeitamente possível que conceitos como soberania, Estado-nação e nacionalismo venham adquirir força política e movimentem as massas, pois serão alimentados pelo crescente protecionismo, em pleno andamento, e pelo fato do problema de desemprego ser sempre um problema nacional.

Há uma similaridade histórica com o que aconteceu depois da Grande Depressão de 1890 até o fim da Grande Depressão de 1929 a 1939, foi um longo interregno marcado pelo declínio da hegemonia global inglesa e a ascensão americana, que se consolidou na segunda guerra mundial. Neste interregno, assistimos ao gradual declínio da plutocracia financeira inglesa e a ascensão do poder industrial americano. Fazendo paralelo histórico, poderemos ter, desta vez, o declínio da plutocracia financeira americana e a ascensão do poder industrial asiático.

Com redistribuição de poder e liderança na economia mundial, mais o declínio de um paradigma econômico que prevaleceu nas últimas três décadas, vamos viver um longo período de vácuo de poder dominante, com degelo da sua ideologia, seu pensamento econômico e dos consensos de políticas. Novas regras do jogo deverão emergir, mas nada disso tem uma evolução continua e linear.

Um interregno abre brechas e, países como o Brasil poderão agir estrategicamente para alcançar seus objetivos. Para países dependentes e com forte herança colonial, a globalização implicou num deslocamento deliberado para o exterior do dinamismo da economia e aumento da sua importância relativa do setor externo (fluxo de capitais) vis-à-vis setor interno da economia. Esta importância relativa não se refere apenas às condições econômicas e financeiras, mas principalmente ideológicas e dominância do pensamento econômico hegemônico. Com o interregno, a autonomia com que países podem perseguir objetivos nacionais de política econômica mudará substancialmente. É nesse panorama que cabe colocar se a Grande Recessão é uma ameaça ou oportunidade para o desenvolvimento brasileiro? Que futuro podemos conjecturar para o Brasil?



Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

Se não é guerra, o que é?




Por Antonio Delfim Netto - Valor 14/02


Quando o ministro Guido Mantega referiu-se à existência de uma "guerra cambial", houve grande alvoroço e não lhe pouparam críticas. Algumas até ferozes, alimentadas pelo nosso velho "complexo de vira-lata".

Indignaram-se com a ousadia do representante de um país emergente, que, eles creem, superou suas dificuldades mais ajudado pela sorte (a expansão mundial) do que pelas qualidades da política que herdou e piorou. E mais, que não se cansa de piorá-la com intervenções no mercado cambial condenadas pela "boa teoria econômica".

Pois bem. Os fatos agora evidenciam que há sim uma "guerra cambial" entre as três maiores economias do mundo (os Estados Unidos, a eurolândia e a China) e que os países emergentes estão sendo constrangidos a aceitar o jogo sujo em nome de uma precária cooperação mundial.

É óbvio que a China mantém há mais de duas décadas uma inteligente política de desenvolvimento (estimulada pelos EUA para isolá-la da URSS no tempo da Guerra Fria), apoiada numa consistente taxa de câmbio superdesvalorizada.

Não se trata de criticar a China. Pelo contrário, devemos cumprimentá-la (ou invejá-la?) por cuidar tão bem dos interesses do povo chinês. Mas devemos reconhecer que manter o câmbio superdesvalorizado e fingir que segue as regras do "bom e honesto comércio", definidas pela OMC, é uma manifestação hostil com relação aos seus parceiros.

No caso, por exemplo, da competição interna entre a produção nacional e os produtos chineses importados, podemos aceitar que a superdesvalorização do yuan, somada à supervalorização do real, não é tudo. É, entretanto, no mínimo uma tolice dizer que ela é devida exclusivamente à incapacidade competitiva da indústria nacional.

A luta entre os três parceiros é complicada. A China leva uma grande vantagem: adotou, sem vergonha e sem remorso, uma espécie de "dollar standard", com o yuan controlado num nível praticamente fixo com relação ao valor do dólar americano. A briga de cachorro grande é entre os EUA e a eurolândia. O primeiro beneficia-se do fato de ser uma federação fiscal com instrumentos redistributivos, ter uma única língua, ter facilidade migratória e ter um Banco Central que é "emprestador de última instância".

Para entender a situação, é preciso lembrar que o socorro ao setor financeiro, que produziu a crise de 2007-09, destruiu as finanças dos Estados Unidos e revelou as violações fiscais dos países da eurolândia, cuja correção exige um "aperto fiscal", ou seja, uma redução da demanda pública.

Para não diminuir a demanda global (e o crescimento do PIB) é preciso, portanto, aumentar a demanda do setor privado: o consumo (com menor taxa de juro e ampliação do crédito); o investimento (com juro baixo e cooptação da confiança dos empresários) e a exportação (com a desvalorização da moeda).

É por isso que o Federal Reserve (Fed) e o Banco Central Europeu (BCE), com suas políticas monetárias, estão criando uma desvalorização competitiva entre o dólar e o euro.

Os emergentes (com exceção da China) veem as suas taxas de câmbio valorizarem-se, e seus mercados predados pelo uso da capacidade de produção ociosa dos três gigantes.

Tomemos o caso da Itália para facilitar o entendimento. Não há dúvida que: 1) suas finanças nunca foram de boa qualidade e que nas últimas duas décadas aplicou vários "planos de salvação" nacional (um pelo próprio novo presidente do BCE, Mario Draghi); 2) acumulou uma dívida imensa (com relação ao PIB); 3) foi enormemente beneficiada pela entrada na zona do euro, que produziu uma convergência da taxa de juros que paga, à taxa da dívida alemã, porque os mercados anteciparam que ela iria cumprir as condições do Tratado de Maastricht (déficit estrutural abaixo de 3% e redução da relação dívida/PIB para 60%); 4) a evolução da política italiana e a falta de continência salarial valorizou "virtualmente" a moeda italiana (a lira), que está apenas nominalmente fixada com relação ao euro; 5) isso produziu um déficit em conta corrente, que foi financiado de forma inconsequente pelo sistema financeiro internacional com a conivência das "notas" das agências de risco para os papéis italianos; e 6) quando chegou o momento da verdade (que chegaria de qualquer forma, mas foi antecipado pelo constrangimento do crédito produzido pela crise americana), ela teve de submeter-se a um regime de economia "forçada", que criou uma pressão recessiva que torna duvidosa a solução do problema.

Se não estivesse comprometida com o euro, a Itália desvalorizaria a sua moeda (a lira, como fez várias vezes no passado). O aumento das suas exportações e a diminuição de suas importações compensariam parte da queda da demanda pública pelo aumento da demanda privada. Como é evidente, esse caminho não existe mais.

Qual é a solução mais razoável para a Itália e seus parceiros dentro do euro? A desvalorização do próprio euro com relação ao dólar! Ela não terá nenhum efeito sobre o comércio dentro da eurolândia, mas será equivalente a uma desvalorização das suas moedas, aumentando as exportações e diminuindo importações para fora da eurolândia.

Pois bem. Um pouco mais da metade das exportações italianas e de seus parceiros é para países fora da eurolândia, o que significa que a desvalorização do euro é uma ajuda para compensar parte da queda de atividade interna produzida pela política de aperto fiscal.

A grave embrulhada é que a política do Fed também estimula a desvalorização do dólar frente ao euro, o que já produz resultado visível a olho nu nos saldos em conta corrente (excluído o petróleo) dos Estados Unidos...



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Erros passados geram prognósticos cautelosos para a economia em 2012



Por Ben Casselman e Phil Izzo
The Wall Street Journal

O otimismo quanto à sustentação da recuperação econômica dos Estados Unidos está finalmente ganhando fôlego - mas é bom lembrar que o cenário também parecia muito positivo um ano atrás.

Nos primeiros meses de 2011, a taxa de desemprego caiu para o menor nível em quase dois anos. O crescimento se acelerava, impulsionado por consumidores que finalmente estavam colocando a mão no bolso. A renda subia enquanto a inflação se mantinha modesta. A maioria dos economistas esperava que a boa fase continuaria pelo ano todo. As coisas, claro, tomaram rumo diferente.

A tensão no Oriente Médio fez disparar o preço do petróleo, corroendo os salários dos consumidores. Um terremoto e um tsunami no Japão desmantelaram as cadeias de fornecimento no mundo todo. Uma crise de dívida soberana na Europa sacudiu os mercados globais, enquanto as negociações arriscadas sobre o teto da dívida em Washington abalaram a confiança no governo americano.

A criação de empregos e o crescimento da economia quase estagnaram, antes de finalmente ganharem força perto do fim do ano.

"Mesmo o grau mais modesto de otimismo que tivemos acabou sendo exagerado", disse Tim Gill, diretor de análise econômica para a Nema, uma associação setorial da indústria. Gill e seu colega Don Leavens se saíram melhor do que a maioria dos economistas que fizeram estimativas sobre o rumo que a economia tomaria em 2011. Eles tiveram o maior número de pontos no ranking anual de previsões econômicas do The Wall Street Journal. As classificações são baseadas em projeções, feitas em janeiro de 2011, sobre desempenho, inflação, desemprego, juros e produção econômica durante o ano.

Mesmo Gill e Leavens esperavam inflação bem mais acelerada e aumento do nível de emprego mais modesto do que os dados registrados nos EUA. E, como todos os outros economistas, suas previsões para o crescimento da economia se revelaram muito otimistas.

"O ano de 2011 foi uma lição de humildade para todos nós economistas", afirmou Sung Won Sohn, professor da Universidade do Estado da Califórnia, que ficou em terceiro lugar no ranking de 52 economistas avaliados pelo WSJ.

Os resultados refletem a incerteza inerente dos prognósticos econômicos, que têm menos a ver com a previsão do futuro e mais com identificar as tendências atuais e traçar o caminho que a economia vai tomar se essas tendências continuarem. Desastres naturais, guerras, agitação política e outros choques semelhantes podem desviar a economia de um determinado caminho, como aconteceu repetidamente ao longo de 2011.

Terremotos são difíceis de prever. Mas há várias crises provocadas pelo ser humano que poderiam novamente prejudicar a recuperação. Muitas delas são conhecidas: a crise de dívida da Europa está longe de ser resolvida, as tensões no Oriente Médio mais uma vez ameaçam os preços do petróleo, e a eleição presidencial nos EUA faz com que o impasse em Washington seja quase uma certeza. Tais riscos estão sempre presentes, claro. Mas uma economia mais saudável estaria mais preparada para enfrentá-los. A fraca retomada deixou os EUA com pouca proteção.

Os economistas, antes mais ousados, estão cautelosos desta vez. Na pesquisa mais recente do WSJ, deste mês, projetaram uma aceleração do crescimento modesta este ano em relação a 2011. Eles esperam que o PIB mostre expansão anualizada de 2,5%, sendo que em 2011 a taxa, também anualizada, foi de 1,6%. É a maior projeção em cinco meses, mas ainda representa um crescimento mais lento do que o nível estimado há um ano.

Há razões para se acreditar que a economia dos EUA está em bases mais sólidas desta vez. Em 2011, a maior parte da queda no desemprego foi puxada por pessoas que desistiram de procurar trabalho, isto é, pessoas que já não se enquadravam como desempregadas. Os ganhos mais recentes têm sido sustentados por contratações concretas. Os consumidores estão menos endividados e o mercado de imóveis mostra sinais titubeantes de melhora pela primeira vez desde o estouro da bolha imobiliária.

Os 49 economistas que responderam à última pesquisa do WSJ - nem todos responderam a todas as questões - estimam a probabilidade de uma recessão nos próximos 12 meses em apenas 16%, enquanto em setembro falavam em 33%. Agora eles esperam que as empresas americanas criem mais de 2 milhões de empregos nos próximos 12 meses, um ritmo de crescimento que não é visto desde 2006. E os economistas acham que os dados econômicos têm mais chance de superar as expectativas do que ficar abaixo das projeções.

Louis Crandall, da Wrightson Icap, que ficou em segundo no ranking deste ano, disse que a recuperação parece se espalhar para mais setores da economia, o que pode diminuir o impacto de qualquer choque. Em algum ponto - não agora, mas talvez até o fim do ano - a economia ganhará fôlego para lidar com a alta do preço da gasolina ou evento semelhante. Como outros economistas, ele disse a mesma coisa no ano passado.

BC amplia os instrumentos para conter a taxa de inflação



Valor 13/02

A economia brasileira está à beira de receber uma enxurrada de dólares, dada a abundância de liquidez internacional decorrente das ações mais recentes do Federal Reserve Bank (Fed, banco central americano) e do Banco Central Europeu (BCE). De janeiro aos primeiros dias de fevereiro houve um ingresso líquido de US$ 11 bilhões em moeda estrangeira. O Banco Central do Brasil já começou a se preparar para enfrentar a retomada dos fluxos de capitais.

Na sexta-feira, num sinal de que a situação externa melhorou, o Banco Central esticou o cronograma de redução da remuneração dos depósitos compulsórios dos bancos e indicou que estes voltarão a ser corrigidos por 100% da taxa Selic em junho de 2014. A medida original foi adotada em dezembro do ano passado para induzir os grandes bancos a repassar liquidez para os pequenos e médios.

A crise internacional continua presente, assim como a perda de dinamismo das economias desenvolvidas, mas as condições de liquidez são o elemento novo na análise da autoridade monetária. Estima-se que o Federal Reserve e o Banco Central Europeu vão irrigar os mercados com cerca de US$ 4 bilhões num mundo em que a taxa de juros é predominantemente negativa. O Brasil, com a taxa Selic de 10,5% ao ano, é um dos prováveis receptores de uma parte relevante desses recursos.

É a partir desse novo cenário que o Banco Central se reposiciona, ajusta medidas tomadas no passado recente, quando o crédito externo para o país diminuiu e ficou mais caro e recalibra a "caixa de ferramentas" da política monetária.

Se a missão do BC é uma só - cumprir a meta de inflação de 4,5% -, o instrumental para chegar lá não é mais e tão somente o manejo da taxa básica de juros, a Selic.

O Banco Central se comunica com a sociedade pelos seus documentos (ata do Copom e relatório trimestral de inflação) e pelos pronunciamentos da sua diretoria. A comunicação é parte da política monetária, na medida que é usada para coordenar as expectativas dos agentes econômicos em direção à meta de inflação.

Na última semana, a autoridade monetária enviou novas mensagens aos mercados: as medidas macroprudenciais - destinadas a mitigar riscos sistêmicos no setor financeiro - adotadas no ano passado para, ao fim e ao cabo, ajudar no controle da inflação, foram muito bem-sucedidas e vieram para ficar.

O BC disse ainda mais: essas medidas (como, por exemplo, a exigência de mais requerimento de capital para os bancos emprestarem aos seus clientes) mostraram ser mais rápidas nos seus efeitos sobre a demanda do que a própria taxa de juros.

E apontou um novo roteiro a seguir, embora sem prazos nem datas: juros e ações macroprudenciais devem ser instrumentos usados de forma coordenada e, se necessário, conforme o ciclo econômico, em direções contrárias.

Tomando o ciclo como hoje se apresenta no Brasil - economia em forte desaceleração e inflação alta, mas em queda - isso poderia significar uma trajetória mais acentuada de queda da taxa Selic e, em outra direção, um aperto no torniquete do crédito bancário, mediante ações de regulação do BC sobre o sistema bancário.

No caso de um aumento expressivo do ingresso de moeda estrangeira no país, o primeiro alvo é a taxa de câmbio. A moeda brasileira já se valorizou, este ano, 7,6%. Elevar as taxas de juros em caso de aceleração da inflação, como o mercado projeta para o fim deste ano e início de 2013, só agravaria esse quadro.

O caminho traçado pelo Banco Central é de redução dos juros este ano para um dígito. Pelas indicações mais recentes do BC, o mercado já projeta juros na casa dos 8% ao fim do exercício.

Pode-se discutir se a autoridade monetária está tomando riscos demais e se o uso de uma "caixa de ferramentas" ampliada é adequado ou não. Só não é prudente desconhecer que o mundo está andando de lado, continua sujeito a riscos de crédito e o Federal Reserve e o Banco Central Europeu resolveram abrir as "torneiras".

O debate internacional do pós-crise de 2008 tem se concentrado em como utilizar os dois instrumentos - juros e regulação - para alcançar dois objetivos: a estabilidade de preços e a estabilidade financeira. O Banco Central, aqui, não está alheio a essa discussão.

Humanidade sustentável



Por Jeffrey D. Sachs - Valor 13/02

Desenvolvimento sustentável significa atingir um crescimento econômico que seja amplamente compartilhado e que proteja os recursos vitais do planeta. Nossa economia mundial atual não é sustentável - mais de um bilhão de pessoas deixadas para trás pelo progresso econômico e o ambiente terrestre sofrendo danos resultantes da atividade humana. Um desenvolvimento sustentável exige a mobilização de novas tecnologias norteadas pelo compartilhamento de valores sociais.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou que o desenvolvimento sustentável está no topo da agenda mundial. Adentramos um período perigoso, em que uma população enorme e crescente, associada a com rápido crescimento econômico, agora ameaça produzir um impacto catastrófico no clima da Terra, na biodiversidade e no suprimento de água potável. Antropoceno é como os cientistas denominam esse novo período - em que os seres humanos tornaram-se os principais causadores de mutações físicas e biológicas na Terra.

O Painel de Sustentabilidade Mundial (PSM) do secretário-geral da ONU publicou um novo relatório que delineia um referencial para o desenvolvimento sustentável. O PSM corretamente observa que o desenvolvimento sustentável tem três vertentes: erradicar a pobreza extrema, garantir que a prosperidade seja compartilhada por todos, - mulheres, jovens e minorias -, e proteger o meio ambiente natural. Esses objetivos podem ser denominados pilares econômico, social e ambiental do desenvolvimento sustentável.

O PDM exortou os líderes mundiais a adotarem um novo conjunto de Metas de Desenvolvimento Sustentável (MDS) que ajudarão a moldar as políticas e ações mundiais após 2015, ano alvo das Metas de Desenvolvimento do Milénio (MDM). Considerando que o foco das Metas do Milênio é reduzir a pobreza extrema, as MDS deverão contrar-se nos três pilares do desenvolvimento sustentável: erradicar a pobreza extrema, compartilhar os benefícios do desenvolvimento econômico entre toda a sociedade e proteger a Terra.

Uma coisa, é claro, é definir as metas sustentáveis e outra alcançá-las. O problema pode ser percebido examinando um desafio crucial: as mudanças climáticas. Hoje, há sete bilhões de pessoas no planeta, e cada uma é responsável, em média, pela liberação um pouco superior a quatro toneladas de dióxido de carbono na atmosfera por ano. Esse CO2 é emitido quando queimamos carvão, petróleo e gás para produzir eletricidade, conduzir carros ou aquecer nossas casas. Ao todo, os seres humanos lançam cerca de 30 bilhões de toneladas de CO2 por ano na atmosfera, o suficiente para mudar acentuadamente o clima em poucas décadas.

Em 2050, provavelmente haverá mais de nove bilhões de pessoas na Terra. Se essas pessoas forem mais ricas do que as pessoas atualmente são (e, portanto, consumirem mais energia), o total mundial de emissões poderá dobrar ou mesmo triplicar. Esse é o grande dilema: precisamos emitir menos CO2, mas estamos, mundialmente, a caminho de poluir muito mais.

Precisamos nos preocupar com esse cenário porque a permanência em um caminho de crescentes emissões em escala mundial produzirá, certamente, estragos e sofrimento para bilhões de pessoas que serão atingidas por ondas de secas e calor, furacões e muito mais. Já experimentamos o início desse sofrimento nos últimos anos, com uma série de fomes devastadoras, inundações e outros desastres relacionados ao clima.

Então, como poderão as pessoas no mundo - especialmente os pobres - beneficiar-se de mais eletricidade e mais acesso a transportes modernos, mas de uma forma que salve o planeta em vez de destruí-lo? A verdade é que não poderão - a menos que melhoremos as tecnologias que usamos.

Precisamos usar energia com muito mais sabedoria, e ao mesmo tempo precisamos abandonar os combustíveis fósseis e adotar fontes de energia que emitem pouco carbono. Essas melhorias são possíveis e economicamente realistas.

Considere, por exemplo, a ineficiência energética de um automóvel. Nós atualmente movimentamos uma máquina que pesa entre 1 mil e 2 mil quilos para transportar uma ou duas pessoas, cada um pesando talvez 75 quilos. E fazemos isso usando um motor a combustão interna que aproveita apenas uma pequena parte da energia liberada pela queima da gasolina. A maior parte da energia é perdida na forma de calor.

Poderíamos, portanto, conseguir uma grande redução nas emissões de CO2 por meio da adoção de veículos pequenos e leves dotados de motores elétricos de alta eficiência alimentados por baterias carregadas a partir de uma fonte de energia de baixo carbono, como a energia solar. Ainda melhor: adotar veículos elétricos, em vez de continuar usando os atuais, nos permitiria aproveitar os mais avançados recursos de tecnologia da informação para tornar tais veículos inteligentes - suficientemente inteligentes para até mesmo possibilitar que se movimentem sozinhos usando sistemas avançados de processamento de dados e de posicionamento.

Os benefícios das tecnologias de informação e de comunicação podem ser observados em todas as áreas da atividade humana: melhor agricultura utilizando GPS e microdosagem de fertilizantes; fabricação de precisão; edifícios que sabem como consumir menos energia, e, claro, o poder transformador da internet. Recursos de banda larga móvel já estão conectando até mesmo as aldeias mais distantes na zona rural da África e da Índia, reduzindo assim significativamente a necessidade de viagens.

Movimentações bancárias são agora feitas por telefone, assim como uma diversidade crescente de diagnósticos médicos. Livros eletrônicos são transmitidos diretamente para dispositivos portáteis sem necessidade de livrarias, deslocamentos pessoais ou da celulose e do papel nos livros físicos. A educação também baseia-se cada vez mais na internet e em breve permitirá que alunos em toda parte recebam educação de primeira qualidade a um custo marginal quase zero para a inclusão de mais um aluno.

No entanto, para migrar de onde estamos até o desenvolvimento sustentável não dependerá apenas de tecnologia. Isso envolverá também incentivos de mercado, regras governamentais e apoio público à pesquisa e desenvolvimento. Mas ainda mais fundamental do que políticas de governança será o desafio dos valores. Precisamos compreender nosso destino comum e abraçar o desenvolvimento sustentável como um compromisso comum de decência para todos os seres humanos, hoje e no futuro. (Tradução Sergio Blum)



Jeffrey D. Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, na Columbia University. Ele é também assessor especial do secretário-geral da ONU para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

BC decreta a liquidação da financeira Oboé



Por Mônica Izaguirre - Valor 10/02
De Brasília

O Banco Central decretou, ontem, a liquidação extrajudicial da Oboé Crédito, Financiamento e Investimento, financeira com sede em Fortaleza (CE) e que tinha forte atuação regional. Por extensão, foram liquidadas a Companhia de Investimento Oboé, a Oboé Tecnologia e Serviços Financeiros SA e a Oboé Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.

O grupo estava desde 15 de setembro de 2011 sob intervenção. A decisão de liquidar foi tomada pelo BC ao constatar que a normalização dos negócios da financeira é inviável. O relatório do interventor, Luciano Carvalho, confirmou que a empresa está insolvente, com mais passivos do que ativos.

A existência de passivo a descoberto foi apenas um dos motivos da intervenção decretada há cinco meses. Na ocasião, foram constatadas ainda violações de normas que disciplinam a atividade das instituições financeiras, o que também foi confirmado pelo interventor. O BC não esclareceu, porém, que normas foram desrespeitadas. A empresa foi acusada ainda de colocar obstáculos à fiscalização.

À época da intervenção, o então presidente e controlador da Oboé, José Newton Lopes de Freitas, negou tanto a prática de irregularidades quanto a situação de insolvência da empresa. Freitas se disse surpreso porque, segundo ele, a financeira vinha exibindo resultados satisfatórios. No fim de junho de 2011, o grupo Oboé tinha patrimônio líquido positivo de R$ 20,305 milhões e ativos totais de R$ 409,642 milhões, segundo dados reportados ao BC.



Fundada em 1997, a financeira Oboé é controlada diretamente pela Oboé Holding Financeira. Freitas é controlador indireto. As atividades do grupo abrangiam ainda cartões de crédito, telefonia e informática.



Os bens do controlador e de ex-administradores da financeira e de suas controladas tinham sido bloqueados em setembro. Com a liquidação, é possível que sejam usados para pagar credores. Um deles é o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que com a intervenção foi chamado a cobrir depósitos à vista e em poupança de até R$ 70 mil e depósitos a prazo com garantia especial (DPGE) de até R$ 20 milhões.



Os ex-administradores que tiveram bens bloqueados são José Itamar de Vasconcelos Junior, Elisiário Pereira da Graça Junior e Joeb Barbosa de Vasconcelos.

Reserva argentina de xisto pode valer até meio pré-sal



Por Agências internacionais

A Repsol YPF elevou sua estimativa do tamanho das reservas de petróleo e gás de xisto em Vaca Muerta, no sudoeste da Argentina. Segundo a empresa, provavelmente há ali o equivalente a 23 bilhões de barris, o que corresponderia a quase metade do pré-sal brasileiro (estimado em cerca de 50 bilhões de barris). Se confirmada, a reserva permitiria ao país rivalizar com os Estados Unidos na produção de gás e petróleo não convencional. Não está claro, porém, quando dessa reserva pode ser retirado.

Em novembro, a Repsol havia estimado a existência do equivalente a 927 milhões de barris. A empresa, porém, alertou que a exploração das reservas exigirá uma enorme expansão da indústria petrolífera da Argentina. Serão precisos milhares de poços, centenas de sondas de perfuração e um esforço nacional para atrair profissionais, equipamentos e investimentos para dar conta da produção.

A Repsol hoje é a líder na exploração na Província de Neuquén, com investimentos aproximados de US$ 300 milhões. Segundo a Repsol, para a região atingir o seu potencial, as demais empresas que atuam ali teriam que fazer investimentos substanciais.

"Se a exploração for bem-sucedida em toda a formação de Vaca Muerta e houver o imediato desenvolvimento intensivo na área, a atual capacidade de produção de petróleo e gás da Argentina poderá dobrar em dez anos", disse a Repsol em comunicado. "Seria necessário fazer um vasto esforço de investimento, que chegaria a US$ 25 bilhões por ano."

Até agora, apenas uma pequena fração das reservas de Vaca Muerta foi desenvolvida. "A [Repsol] pretende perfurar 20 poços em 2012, sozinha e em conjunto com vários parceiros, para prosseguir a investigação dos potenciais recursos", afirmou a empresa na nota.

A declaração da Repsol ainda sugeriu que os investidores internacionais estão preferindo aguardar até ter confiança de que a Argentina, que enfrenta dificuldades energéticas, oferecerá garantias e que reivindicações trabalhistas não ameaçarão eventuais lucros. Nos últimos meses, o governo vem eliminando subsídios a combustíveis, enfrentou greves no setor petrolífero e está dificultando as remessas das empresas ao exterior.

Desde 1998, a produção de petróleo argentina caiu quase 32%. Já a de gás natural recuou em torno de 13% desde 2004, de acordo com dados da Secretaria de Energia do país. Para atender à demanda, a Argentina passou a importar gás liquefeito do Oriente Médio, o qual é transportado por navios. A importação de combustíveis pelo país dobrou em 2011, atingindo o nível recorde de US$ 9,4 bilhões.

Governo pressiona empresas para aumentar a produção


 O anúncio da Repsol YPF, uma empresa de capital majoritariamente espanhol, foi feito em Madri pelo seu presidente, Antonio Brufau, após voltar de uma série de encontros a portas fechadas na Argentina com autoridades que vêm pressionando as companhias do setor para aumentar a exploração no país.

O jornal "Página/12", que apoia o governo, disse que a Repsol YPF vem desembolsando mais com o pagamento de dividendos do que está lucrando, e sugeriu que a presidente Cristina Kirchner talvez venha a considerar a estatização das operações da empresa na Argentina, para que o dinheiro possa ser usado para aumentar a capacidade energética do país. Apesar dos rumores, até agora, essa ideia não foi abertamente endossada por Cristina ou seus ministros.

A pressão não vem só do governo central. Ontem, governadores das dez principais Províncias produtoras de petróleo disseram que vão exigir das empresas o aumento da produção. O envolvimento dos governadores é importante porque a Constituição argentina lhes dá controle sobre as concessões para a exploração de petróleo e gás em suas Províncias.