terça-feira, 24 de janeiro de 2012
4% em 2012. Por que não?
Por Antonio Delfim Netto - Valor 24/01
Quando se olha o resultado obtido pelas políticas econômica e social de 2011, parece justo concluir que ele foi bastante razoável, tendo em vista: 1) o quadro internacional de desintegração das economias desenvolvidas; 2) as dúvidas e as críticas que elas sofreram da maioria dos analistas financeiros à medida que eram implementadas.
Hoje, parece claro que a mudança da política econômica, que deu mais ênfase à fiscal, proporcionou maior grau de liberdade à monetária para usar outros instrumentos como, por exemplo, o IOF sobre transações que envolvem a taxa de câmbio. A ação do governo estava mais antenada com a realidade do mundo e com o desenvolvimento recente da economia do que uma boa parte dos seus críticos. Isso é objetivamente revelado na enorme aprovação popular do primeiro ano da presidente Dilma Rousseff.
Provavelmente o fato mais importante de 2011 seja a credibilidade crescente da política fiscal (em meio a dúvidas iniciais) pelo cumprimento do objetivo de fazer o superávit primário em torno de 3,2% do PIB. Isso deu conforto ao Banco Central para que exercesse a sua musculatura, iniciando uma queda da taxa real de juros.
O compromisso de fazê-lo em 3,1% do PIB em 2012, como prometido pelo governo, é importante para a continuação da redução cuidadosa da taxa de juros real para um nível parecido ao do mercado internacional. Essa é uma das condições necessárias para que funcione adequadamente o sistema de câmbio flutuante.
É preciso lembrar: 1) que a taxa de câmbio (juntamente com adequada matriz de tarifas efetivas) determina o equilíbrio entre o valor do fluxo de bens e serviços exportados e dos importados e é um dos preços mais importantes para manter a economia num alto nível de utilização dos fatores de produção internos, inclusive o emprego da mão de obra; e 2) que ela é sensível à política fiscal.
Parece possível afirmar que uma sólida política fiscal, que controle o ritmo de crescimento das despesas de custeio e transferências, abra espaço para o investimento público e permita à política monetária continuar a reduzir a taxa de juros real e, simultaneamente, ampliar o crédito ao setor privado (não há nenhuma contradição nisso), condição fundamental para um crescimento mais robusto em 2012, com uma taxa de inflação convergindo para a meta e a sustentação de um câmbio real mais amigável com o setor industrial brasileiro.
Com relação à situação fiscal (dívida/PIB) não há nada que no momento nos atrapalhe. Não podemos esquecer, entretanto, que a relação dívida líquida/PIB não satisfaz à condição de transparência. Melhor seria usar - como a grande maioria dos países - a relação dívida pública bruta/PIB, que hoje anda em torno de 64%, 2/3 maior que a dos emergentes, excluído o Brasil.
Dito isso, como devemos tratar o problema do crescimento em 2012? A maioria dos que têm a obrigação, por motivos profissionais, de prevê-la afirma que ela será qualquer coisa entre 3% e 3,5%, mas não explicita quais as condicionalidades da profecia.
Felizmente, ninguém mais fala que o "produto potencial" brasileiro é de 3,5%. Fala-se agora de 4,5%. Mas como disse numa entrevista imperdível, no Valor (20/22 janeiro de 2012), um dos nossos economistas mais bem apetrechados, o competente e sóbrio Sergio Werlang, "estou mais para 4,5% como crescimento potencial, mas se já há erro na medida do próprio PIB, imagine na medida do potencial".
Já devíamos ter aprendido que a única forma segura de prever o futuro é tentar construí-lo. Honestamente, não há nenhuma razão para supor que não possamos crescer entre 4% e 4,5% (entre o último trimestre de 2011 e o seu homólogo de 2012), se o governo cumprir seu programa fiscal e ativar os investimentos do PAC, atento à flutuação estacional das despesas num ano eleitoral; transferir com rapidez o máximo possível dos investimentos em infraestrutura para o setor privado através de concessões e parcerias; prosseguir na pressão para aprovar o sistema previdenciário público e eliminar alguns absurdos tributários, que continuam a destruir nossas exportações industriais e trabalhar contra o aumento do valor adicionado das exportações agrícolas. Nada impossível com a credibilidade da presidente e sua cômoda maioria no Congresso.
Para crescer 4% em 2012 com a inflação sob controle, o governo tem que fazer a sua parte. Cumprir transparentemente sua meta fiscal e cooptar o setor privado (trabalhadores, empresários e banqueiros) para tomar o risco de o acompanhar para fazê-lo.
Nota à parte. Quem ainda tem curiosidade e capacidade para surpreender-se sobre os efeitos dos IOF no mercado cambial, não deve perder o artigo "Bubble Thy Neighbor: Direct and Spillover Effects of Capital Control", apresentado numa conferência promovida pela Allied Social Sciences Association, em Chicago, pelos economistas Kristin Forbes (MIT-Sloan School of Management), Marcel Fratzscher, Thomas Kostka e Roland Straub (todos do Banco Central Europeu), em novembro de 2011.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
ENERGIA 2010 - 2035. Profecias, Outlook ou chutes
AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA
Novembro/2011
A Agência Internacional de Energia (AIE) é um organismo autónomo, criado em Novembro de 1974. A sua missão principal era – e continua a ser – dupla: promover a segurança energética entre os países membros, ao propor uma resposta colectiva às rupturas de abastecimento de petróleo, e fornecer estudos e análises idóneas sobre as formas de garantir aos 28 países membros e a outros, uma energia fiável, a preços acessíveis e limpa. A AIE desenvolve um extenso programa de cooperação energética entre seus países membros, através do qual cada um tem a obrigação de manter stocks de petróleo equivalentes a 90 dias das suas importações líquidas. A agência tem por objectivos:
Assegurar o acesso dos países membros a fontes de aprovisionamento fiáveis e amplas de todas as formas de energia, em particular, através da manutenção de uma capacidade de resposta de emergência eficiente em caso de ruptura do abastecimento de petróleo.
Promover políticas energéticas sustentáveis que estimulem o crescimento económico e a protecção do meio ambiente num contexto global – em particular em matéria de redução das emissões de gases com efeito de estufa, que contribuem para a alteração climática.
Melhorar a transparência dos mercados internacionais através da colecta e análise de dados relativos à energia.
Apoiar a colaboração mundial em matéria de tecnologias energéticas de modo a assegurar os abastecimentos de energia no futuro e a diminuir o seu impacto ambiental, inclusive através de uma maior eficiência energética, do desenvolvimento e da disseminação de tecnologias de baixo carbono.
Encontrar soluções para os desafios energéticos mediante o empenho e o diálogo com os países não-membros, a indústria, as organizações internacionais e outras partes interessadas.
“Se não mudarmos rapidamente de rumo, chegaremos ao lugar para onde nos dirigimos”
Poucos sinais apontam para a efectiva mudança de rumo das tendências mundiais da energia, embora seja urgentemente necessária.
Apesar da recuperação contrastada da economia mundial desde 2009 e das perspectivas económicas ainda incertas, a procura mundial de energia primária realizou um salto notável de 5% em 2010, provocando um novo pico das emissões de CO2. Os subsídios que estimulam o consumo excessivo de combustíveis fósseis subiram para mais de 400 000 milhões de dólares. O número de pessoas sem acesso à electricidade manteve-se ao nível inaceitavelmente elevado de 1,3 mil milhões, representando cerca de 20% da população mundial. Ainda que muitos países definam como prioridade uma maior eficiência energética, a intensidade energética global deteriorou-se pelo segundo ano consecutivo. Sobre este pano de fundo pouco animador, eventos como o acidente na central nuclear de Fukushima Daiichi e as convulsões no Médio Oriente e no Norte de África (MENA) suscitaram dúvidas quanto à fiabilidade do abastecimento de energia, enquanto as preocupações sobre a integridade financeira soberana desviaram a política energética do centro das atenções dos governos e limitaram os seus meios de intervenção política, pressagiando a dificuldade de alcançar os objectivos acordados para fazer frente às alterações climáticas.
Esta edição do World Energy Outlook avalia as ameaças e oportunidades do sistema global de energia, apoiando-se numa rigorosa análise quantitativa das tendências da energia e do clima.
A análise inclui três cenários globais e vários estudos de caso. O cenário central desta edição do Outlook é o Cenário Novas Políticas, o qual assume que os recentes compromissos políticos dos governos serão implementados cautelosamente – mesmo que ainda não assentem em medidas sólidas. A comparação com os resultados do Cenário Políticas Actuais, o qual assume que não serão definidas novas políticas além daquelas que já existem em meados de 2011, ilustra o valor desses compromissos e planos. De outro ponto de vista, é igualmente instrutiva a comparação com o Cenário 450, que retoma o objectivo internacional de limitar o aumento a longo prazo da temperatura média a dois graus Celsius (2°C) acima dos níveis da época pré-industrial, de modo a traçar um caminho possível para atingir essa meta. A grande diferença nos resultados obtidos por estes três cenários sublinha o papel crítico dos governos na definição dos objectivos e na implementação das políticas necessárias para modelar o nosso futuro energético.
As incertezas a curto prazo não alteram significativamente a perspectiva a longo prazo
Apesar das incertezas quanto às perspectivas de crescimento económico a curto prazo, no Cenário Novas Políticas, a procura de energia cresce fortemente, aumentando um terço entre 2010 e 2035.
As hipóteses de crescimento da população mundial de 1,7 bilhões de pessoas e de 3,5% crescimento médio anual da economia mundial geram uma procura sempre crescente no domínio dos serviços de energia e de mobilidade. Uma taxa de crescimento do PIB mundial a curto prazo mais reduzida do que a assumida nesta edição do Outlook teria somente uma influência marginal nas tendências a longo prazo.
A dinâmica dos mercados da energia é cada vez mais determinada por países fora da OCDE.
Os países não membros da OCDE são responsáveis por 90% do crescimento da população, 70% do aumento da produção económica e 90% do incremento da procura de energia, entre 2010 e 2035. A China reforça ainda mais a sua posição de principal consumidor mundial de energia: em 2035, consome praticamente 70% de energia a mais do que os Estados Unidos da América, segundo consumidor mundial, embora no mesmo período, o consumo energético per capita da China represente ainda menos de metade do valor dos Estados Unidos. As taxas de crescimento do consumo de energia na Índia, na Indonésia, no Brasil e no Médio Oriente aumentam a um ritmo ainda mais rápido do que a China.
É necessário um investimento mundial nas estruturas de transporte da energia de 38 biliões de dólares (em valores de 2010) no período 2011-2035.
Praticamente dois terços do investimento total são realizados em países fora da OCDE. O petróleo e o gás representam conjuntamente cerca de 20 bilhões de dólares, tendo em conta o aumento a médio e a longo prazo das necessidades de investimento a montante e dos respectivos custos. O sector da electricidade exige a maior parte do valor remanescente, com mais de 40% destinado às redes de transmissão e distribuição.
A era dos combustíveis fósseis está longe de ter acabado, mas a sua predominância tende a declinar.
A procura aumenta para todos os combustíveis, mas a percentagem de combustíveis fósseis no consumo global de energia primária acusa uma ligeira quebra, passando de 81% em 2010 para 75% em 2035: o gás natural é o único combustível fóssil cuja percentagem aumenta no combinado energético global, até 2035. No sector da electricidade, as tecnologias das energias renováveis, lideradas pelas energias hidroeléctrica e eólica, constituem metade da nova capacidade instalada para responder à procura crescente.
Alguns passos na boa direção, mas a janela dos 2°C está a fechar-se
Não podemos dar-nos ao luxo de protelar qualquer acção destinada a lutar contra as alterações climáticas se quisermos alcançar a um preço razoável o objectivo a longo prazo de limitar o aumento médio global da temperatura a 2°C, tal como previsto no Cenário 450. No Cenário Novas Políticas, o mundo segue uma trajectória que resulta num nível de emissões correspondente a um aumento de temperatura a longo prazo superior a 3,5°C. Sem essas novas políticas, estaremos numa rota ainda mais perigosa, que levará a um aumento de 6°C ou mais da temperatura.
Em 2035, quatro quintos das emissões admissíveis totais de CO2 relacionadas com a energia no Cenário 450 já estão “garantidos” pelo stock existente (centrais eléctricas, edifícios, fábricas, etc.). Se não forem tomadas novas medidas rigorosas até 2017, as infra-estruturas implantadas nessa altura gerarão todas as emissões de CO2 admissíveis no Cenário 450 até 2035, não deixando qualquer possibilidade de criação de novas centrais, fábricas ou outras infra-estruturas, a menos que gerem zero emissões de carbono, o que se tornaria extremamente oneroso. Adiar a ação é uma falsa economia, pois para cada dólar que não se investe no sector eléctrico antes de 2020, será necessário investir mais 4,3 dólares depois dessa data, para compensar o aumento das emissões.
As novas medidas de eficiência energética fazem a diferença, mais é preciso muito mais.
No Cenário Novas Políticas, a eficiência energética aumenta a um ritmo que corresponde ao dobro dos últimos 25 anos, sendo estimulada por normas mais rigorosas em todos os sectores e por uma redução gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis. No Cenário 450, o ritmo de mudança é ainda mais rápido, com melhorias de eficiência representando metade da redução adicional de emissões. A maior contribuição para atingir a segurança energética e os objectivos climáticos provém da energia que não consumimos.
Demanda e custos crescentes na área dos transportes confirmam mais uma vez o fim da era do petróleo barato
As pressões a curto prazo nos mercados do petróleo poderão ser moderadas pelo abrandamento do crescimento económico e pelo regresso esperado do petróleo líbio no mercado, mas as tendências tanto da procura como da oferta de petróleo mantêm a pressão sobre os preços.
Assumimos que o preço médio nos países membros da AIE do petróleo bruto importado permanece elevado, aproximando-se dos 120 dólares/barril (em valores de 2010) em 2035 (mais de 210 dólares/barril em valores nominais) no Cenário Novas Políticas, embora muito provavelmente, na prática, a volatilidade dos preços se mantenha.
O aumento líquido da procura de petróleo deve-se na totalidade ao sector do transporte nas economias emergentes, dado que o crescimento económico impulsiona a procura de mobilidade das pessoas e das mercadorias.
A demanda por petróleo (à exclusão dos biocombustíveis) sobe de 87 milhões de barris por dia (mb/d) em 2010 para 99 mb/d em 2035. O número total de veículos leves de passageiros duplica, atingindo praticamente 1,7 mil milhões em 2035.
As vendas nos mercados dos países não-membros da OCDE ultrapassam as dos países membros da OCDE em 2020, ao mesmo tempo que o centro de gravidade da produção automóvel passa para países fora da OCDE, antes de 2015.
O consumo de petróleo aumenta, apesar de avanços impressionantes em matéria de economias de combustível em certas regiões, nomeadamente para os veículos de passageiros na Europa e os veículos pesados nos Estados Unidos da América. As novas tecnologias alternativas aplicadas aos veículos utilizam o petróleo de uma forma muito mais eficiente ou prescindem totalmente deste combustível, como no caso dos veículos eléctricos, mas levam tempo a tornarem-se comercialmente viáveis e a penetrar nos mercados.
Devido ao potencial limitado de substituição do petróleo como combustível na área do transporte, a concentração no uso do petróleo neste sector está menos exposto às variações de preço (sobretudo onde os produtos à base de petróleo são subsidiados).
O custo de comercialização do petróleo aumenta, à medida que as companhias são obrigadas a recorrer a fontes de mais difícil acesso e onerosas, para substituir a capacidade perdida e atender à procura crescente. A produção de petróleo bruto convencional – principal componente único no aprovisionamento de petróleo – mantém-se nos níveis actuais, antes de diminuir ligeiramente para cerca de 68 mb/d em 2035.
Para compensar o declínio do petróleo bruto nos campos existentes, serão necessários mais 47 mb/d de capacidade bruta, o dobro da produção de petróleo total actual no conjunto dos países da OPEC do Médio Oriente.
Uma parte crescente da produção provém do gás natural liquefeito (mais de 18 mb/d em 2035) e de fontes não convencionais (10 mb/d). Espera-se que o maior aumento na produção de petróleo deva-se ao Iraque, seguido da Arábia Saudita, do Brasil, do Cazaquistão e do Canadá.
O fornecimento de biocombustíveis triplica, atingindo um valor equivalente a mais de 4 mb/d, sustentado por 1,4 bilião de dólares de subsídios durante o período de projecção.
As importações de petróleo para os Estados Unidos da América, o maior importador mundial actual, diminuem à medida que os ganhos de eficiência reduzem a procura e que são desenvolvidas novas fontes de abastecimento, como o petróleo leve condensado; contudo, a dependência crescente das importações de petróleo nas outras partes do mundo aumenta as preocupações sobre o custo das importações e a segurança dos abastecimentos.
Em 2035, quatro quintos do petróleo consumido nos países Asiáticos não membros da OCDE provêm de importações, enquanto esse valor representa apenas pouco mais de metade em 2010. Globalmente, a dependência aumenta em relação a um número de produtores bastante limitado, sobretudo na região MENA, com o petróleo a transitar por vias de aprovisionamento vulneráveis.
Em valores agregados, o aumento da produção oriunda desta região é superior a 90% do crescimento necessário na produção mundial de petróleo, elevando a quota-parte da OPEC na produção global para mais de 50% em 2035.
A insuficiência de investimentos a crescente na região MENA poderá ter um impacto muito abrangente nos mercados mundiais da energia. Essa carência poderá resultar de vários factores, incluindo a percepção de um maior risco de investimento, políticas deliberadas dos governos para desenvolver mais lentamente a capacidade de produção ou limitações dos fluxos de capital interno a crescente devido à concentração das despesas noutros tipos de programas públicos. Se, entre 2011 e 2015, o investimento na região MENA for um terço inferior aos 100 mil milhões de dólares anuais necessários no Cenário Novas Políticas, os consumidores poderão ter que enfrentar um aumento significativo do preço do petróleo a curto prazo, de 150 dólares/barril (em valores de 2010).
Perspectivas muito favoráveis para o gás natural
O panorama é muito menos incerto para o gás natural: vários factores, tanto a nível da oferta como da procura, apontam para um futuro brilhante, ou mesmo uma era de ouro, para o gás natural. As perspectivas desta edição do Outlook vêm reforçar as principais conclusões de um relatório especial do WEO publicado em Junho de 2011: o consumo de gás aumenta nos três cenários, sublinhando o bom desempenho do gás num grande número de futuras orientações políticas. No Cenário Novas Políticas, a procura de gás atinge praticamente o nível do carvão, sendo 80% da procura adicional oriunda de países fora da OCDE. As políticas que promovem a diversificação das fontes de combustível sustentam a expansão considerável da utilização do gás na China, alcançada através do aumento da produção doméstica e dos desenvolvimentos do comércio do gás natural liquefeito nas importações e da rede de transporte da Eurásia. O comércio global duplica, sendo mais de um terço deste aumento destinado à China. A Rússia continua a ser o maior produtor de gás em 2035 e o país que mais contribui para o desenvolvimento do aprovisionamento mundial, seguido da China, do Qatar, dos Estados Unidos da América e da Austrália.
O gás não convencional representa actualmente metade da base dos recursos de gás natural e apresenta uma dispersão maior do que a dos recursos convencionais, o que tem um efeito positivo na segurança do gás. A quota-parte de gás não convencional passa a constituir um quinto da produção total de gás em 2035, embora o seu ritmo de crescimento varie consideravelmente entre regiões. Por sua vez, o aumento da produção será determinado pela capacidade da indústria do gás em vencer os desafios ambientais: uma era de ouro do gás requer padrões de ouro em matéria de produção. O gás natural é o combustível fóssil mais limpo, mas em si, o aumento do consumo de gás (sem captação e armazenamento de carbono) não será suficiente para nos colocar numa rota de emissões de carbono que seja compatível como a limitação do aumento da temperatura global de 2°C.
As fontes de energia renováveis assumem maior protagonismo
A percentagem de fontes de energia renováveis não hidroeléctricas na geração de electricidade sobe de 3% em 2009 para 15% em 2035, apoiadas através de subsídios anuais às fontes de energia renováveis que aumentam praticamente por um factor de cinco, num valor de 180 mil milhões de dólares. A China e a União Europeia lideram esta expansão e representam cerca de metade do crescimento. Embora se preveja uma diminuição no valor dos subsídios por unidade de produção, a maior parte das fontes de energia renováveis precisam de ser apoiadas durante todo o período de projecção, para serem competitivas nos mercados de electricidade. Apesar do custo elevado, acredita-se que os benefícios serão duradouros em matéria de segurança energética e protecção do meio ambiente. Para obter mais electricidade proveniente de fontes de energia renováveis, por vezes situadas em locais remotos, serão necessários investimentos adicionais nas redes de transmissão, representando 10% do investimento de transmissão total: na União Europeia, para atingir esse objectivo, será necessário dedicar 25% do investimento às redes de transmissão. A contribuição da energia hidroeléctrica para a produção total de energia permanece constante, à volta de 15%, representando a China, a Índia e o Brasil praticamente metade dos 680 gigawatts de capacidade adicional.
Carvão: marcar passo ou prosseguir a todo o vapor?
Na última década, o carvão atendeu a praticamente metade do aumento da procura mundial de energia. Saber se esta tendência mudará e a que velocidade, eis uma das questões mais importantes para o futuro da economia mundial da energia. Mantendo-se as políticas actuais, o peso do carvão representaria 65% em 2035, suplantando o petróleo enquanto principal combustível no combinado energético mundial. No Cenário Novas Políticas, o consumo global de carvão aumenta nos próximos dez anos mas em seguida, estagna, terminando 25% acima dos níveis de 2009. Para que o Cenário 450 se realize, o consumo de carvão tem de atingir o seu pico muito antes de 2020, começando a declinar em seguida. Em 2035, o nível da procura de carvão projectado nos três cenários é praticamente equivalente ao da procura mundial total de 2009. As consequências das opções políticas e tecnológicas no clima global são consideráveis.
O consumo de carvão por parte da China representa praticamente metade da demanda mundial. O seu plano quinquenal de 2011 a 2015, que visa reduzir a intensidade energética e do carbono na economia, será um factor determinante para os mercados mundiais do carvão. A emergência da China em 2009 como importador de carvão em termos líquidos acarretou uma subida de preços e a realização de novos investimentos nos países exportadores, incluindo a Austrália, a Indonésia, a Rússia e a Mongólia. No Cenário Novas Políticas, o mercado principal do comércio do carvão continua a transferir-se do Atlântico para o Pacífico, mas a escala e a orientação dos fluxos do comércio internacional são extremamente incertos, sobretudo após 2020. Seria apenas necessária uma pequena mudança na procura ou na oferta interna para a China se tornar novamente um exportador em termos líquidos, passando assim a competir no mercado com os países que investem actualmente para atender à sua procura. O consumo de carvão na Índia duplica no Cenário Novas Políticas, passando a ocupar a posição anterior dos Estados Unidos de segundo consumidor mundial de carvão e tornando-se o maior importador de carvão nos anos 2020.
A implantação em grande escala de centrais eléctricas a carvão mais eficientes e da tecnologia de captação e armazenamento de carbono (CAC) poderiam dar um impulso às projecções a longo prazo para o carvão; contudo, subsistem ainda obstáculos importantes. Se a eficiência média de todas as centrais eléctricas a carvão subisse para cinco pontos percentuais acima dos valores do Cenário Novas Políticas em 2035, esse rápido decréscimo das tecnologias de combustão menos eficientes acarretaria uma diminuição de 8% das emissões de CO2 no sector eléctrico e reduziria localmente a poluição do ar. A escolha de tecnologias mais eficientes para as novas centrais eléctricas a carvão exigiria investimentos suplementares relativamente modestos, enquanto o custo do melhoramento dos níveis de eficiência nas centrais existentes seria muito mais elevado. No Cenário Novas Políticas, a tecnologia de captação e armazenamento de carbono (CAC) tem alguma influência unicamente no fim do período de projecção. Não obstante, a CAC constitui uma opção fundamental para a diminuição das emissões no Cenário 450 , representando praticamente um quinto da redução de emissões suplementar exigida. Caso a CAC não esteja implementada em grande escala nos anos 2020, será extraordinariamente difícil atingir, mediante as tecnologias com baixas emissões de carbono, os níveis de emissões exigidos para cumprir os objectivos climáticos globais.
Reconsiderar a energia nuclear poderá ter consequências a longo prazo
Os acontecimentos de Fukushima Daiichi suscitaram interrogações sobre o futuro papel da energia nuclear, embora não tenham alterado as políticas de países como a China, a Índia, a Rússia e a Coreia, que determinam a expansão desta fonte de energia. No Cenário Novas Políticas, a produção de energia nuclear aumenta mais de 70% até 2035, uma percentagem apenas ligeiramente inferior à projectada no ano passado. Contudo, examinamos igualmente as possíveis implicações de um decréscimo adicional da energia nuclear, através de um Cenário Nuclear Baixo (“Low Nuclear Case”), que assume que não serão construídos novos reactores nos países da OCDE, que os países não membros da OCDE apenas constroem metade dos suplementos projectados no Cenário Novas Políticas e que a vida útil de funcionamento das centrais nucleares actuais é encurtada. Embora crie oportunidades para as energias renováveis, este futuro, com uma componente nuclear baixa, também poderá estimular a procura de combustíveis fósseis: o aumento da procura global de carvão equivale ao dobro do nível das actuais exportações de carvão-vapor da Austrália da e o aumento da procura de gás equivale a dois terços das exportações actuais de gás natural da Rússia. Esta situação acarretaria uma maior pressão nos preços da energia, preocupações acrescidas em matéria de segurança energética, dificultando e agravando o custo da luta contra as alterações climáticas. As consequências serão particularmente graves para os países com parcos recursos energéticos endógenos, que têm previsto uma dependência bastante forte da energia nuclear. Por sua vez, as economias emergentes teriam muito mais dificuldade em satisfazer a sua rapidamente crescente procura de energia.
O mundo precisa da energia russa e a Rússia precisa de consumir menos energia
Os recursos energéticos abundantes da Rússia continuarão a fazer do país uma pedra angular da economia energética mundial da nas próximas décadas. A procura potencial elevada e os preços mundiais dos combustíveis fósseis poderão parecer garantir boas perspectivas à Rússia; todavia, em muitos aspectos, os desafios à sua frente são tão impressionantes quanto a própria magnitude dos seus recursos. Os principais campos russos de petróleo e gás na Sibéria ocidental vão declinar e uma nova geração de campos com um custo mais elevado deverá ser desenvolvida, tanto nas áreas de produção tradicionais da Sibéria ocidental como nas novas fronteiras da Sibéria oriental e do Árctico. A Rússia deverá dotar-se de um sistema fiscal reactivo, capaz de incentivar suficientemente o investimento. A produção de petróleo atinge um planalto à volta de 10,5 mb/d, antes de iniciar uma ligeira descida para 9,7 mb/d em 2035; a produção de gás aumenta 35%, passando para 860 mil milhões de metros cúbicos (bcm) em 2035 e fazendo da península de Yamal o novo centro de abastecimento da Rússia.
As mudanças geográficas da produção russa de petróleo e gás acarretam uma mudança na geografia das exportações. A maior parte das exportações russas continua a ter por destino o ocidente, com os mercados tradicionais da Europa, embora se assista a um fluxo crescente em direcção aos mercados asiáticos. Consequentemente, a Rússia apresenta uma maior diversidade de rendimentos das suas exportações: a quota-parte da China no valor total das exportações russas de combustíveis fósseis sobe de 2% em 2010 para 20% em 2035, enquanto a quota-parte da União Europeia diminui de 61% para 48%.
A Rússia visa criar uma economia mais eficiente, menos dependente do petróleo e do gás, mas precisa de acompanhar o ritmo de mudança. Se a Rússia aumentasse a eficiência energética de cada um dos seus sectores aos níveis de países da OCDE comparáveis, poderia economizar praticamente um terço do seu uso anual de energia primária, valor comparável com o da energia usada num ano pelo Reino Unido. As economias potenciais, somente no domínio do gás natural, de 180 bcm, aproximam-se do valor das exportações líquidas da Rússia em 2010. As novas políticas em matéria de eficiência energética e as continuadas reformas dos preços do gás e da electricidade permitem melhorar a situação mas, na nossa análise, apenas destravam uma parte do potencial da eficiência russa. Uma implementação mais rápida das evoluções em matéria de eficiência, aliada à reforma do mercado da energia, permitirá acelerar a modernização da economia russa e logo, minorar a sua dependência dos movimentos dos preços mundiais das matérias-primas.
O acesso à energia para toda a população não teria um custo excessivo
Calculamos que, em 2009, foram investidos mundialmente cerca de 9 mil milhões de dólares para fornecer um acesso directo à energia moderna; contudo, será preciso investir mais de cinco vezes esse valor, ou seja 48 mil milhões de dólares, para permitir o acesso universal em 2030. Facultar o acesso à energia a toda a população mundial em 2030 é um objectivo fundamental anunciado pelo Secretário-Geral da ONU. Actualmente, 1,3 mil milhões de pessoas não dispõem de electricidade e 2,7 mil milhões de pessoas ainda dependem do uso tradicional da biomassa para cozinhar. O investimento necessário equivale a cerca de 3% do investimento total na energia até 2030. Sem este aumento, o panorama global de 2030 pouco evoluirá em relação à situação actual, ou mesmo, piorará na região da África subsariana. Algumas das políticas actuais destinadas a ajudar os mais pobres não atingem os seus objectivos. Em 2010, apenas 8% dos subsídios ao consumo de combustíveis fósseis beneficiaram os 20% da população mais pobre.
O acesso à energia torna-se uma preocupação crescente. As Nações Unidas declararam 2012 “Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos” e o Rio+20 constitui uma importante ocasião para agir. Mais financiamento, de fontes variadas e sob diferentes formas, é necessário para facultar a todos o acesso a uma energia moderna, com soluções adaptadas aos desafios, riscos e retornos financeiros específicos de cada tipo de projecto. O investimento do sector privado é aquele que mais precisa de crescer, o que não acontecerá se os governos nacionais não adoptarem quadros governamentais e regulamentares rígidos e se não investirem na criação de capacidade. O sector público, incluindo os dadores, tem de usar as suas alavancas para fomentar o investimento do sector privado que, de outra forma tem um interesse comercial limitado. Em 2030, o acesso universal corresponderia a um aumento da procura mundial de combustíveis fósseis e das subsequentes emissões de CO2 inferior a 1%, um valor irrelevante comparado com a contribuição de tal evolução para o desenvolvimento e o bem-estar da humanidade.
Este relatório foi inicialmente escrito em inglês. Embora tenham sido envidados todos os esforços para assegurar a fidelidade da tradução, poderá haver ligeiras diferenças entre esta e a versão original.
Novembro/2011
A Agência Internacional de Energia (AIE) é um organismo autónomo, criado em Novembro de 1974. A sua missão principal era – e continua a ser – dupla: promover a segurança energética entre os países membros, ao propor uma resposta colectiva às rupturas de abastecimento de petróleo, e fornecer estudos e análises idóneas sobre as formas de garantir aos 28 países membros e a outros, uma energia fiável, a preços acessíveis e limpa. A AIE desenvolve um extenso programa de cooperação energética entre seus países membros, através do qual cada um tem a obrigação de manter stocks de petróleo equivalentes a 90 dias das suas importações líquidas. A agência tem por objectivos:
Assegurar o acesso dos países membros a fontes de aprovisionamento fiáveis e amplas de todas as formas de energia, em particular, através da manutenção de uma capacidade de resposta de emergência eficiente em caso de ruptura do abastecimento de petróleo.
Promover políticas energéticas sustentáveis que estimulem o crescimento económico e a protecção do meio ambiente num contexto global – em particular em matéria de redução das emissões de gases com efeito de estufa, que contribuem para a alteração climática.
Melhorar a transparência dos mercados internacionais através da colecta e análise de dados relativos à energia.
Apoiar a colaboração mundial em matéria de tecnologias energéticas de modo a assegurar os abastecimentos de energia no futuro e a diminuir o seu impacto ambiental, inclusive através de uma maior eficiência energética, do desenvolvimento e da disseminação de tecnologias de baixo carbono.
Encontrar soluções para os desafios energéticos mediante o empenho e o diálogo com os países não-membros, a indústria, as organizações internacionais e outras partes interessadas.
“Se não mudarmos rapidamente de rumo, chegaremos ao lugar para onde nos dirigimos”
Poucos sinais apontam para a efectiva mudança de rumo das tendências mundiais da energia, embora seja urgentemente necessária.
Apesar da recuperação contrastada da economia mundial desde 2009 e das perspectivas económicas ainda incertas, a procura mundial de energia primária realizou um salto notável de 5% em 2010, provocando um novo pico das emissões de CO2. Os subsídios que estimulam o consumo excessivo de combustíveis fósseis subiram para mais de 400 000 milhões de dólares. O número de pessoas sem acesso à electricidade manteve-se ao nível inaceitavelmente elevado de 1,3 mil milhões, representando cerca de 20% da população mundial. Ainda que muitos países definam como prioridade uma maior eficiência energética, a intensidade energética global deteriorou-se pelo segundo ano consecutivo. Sobre este pano de fundo pouco animador, eventos como o acidente na central nuclear de Fukushima Daiichi e as convulsões no Médio Oriente e no Norte de África (MENA) suscitaram dúvidas quanto à fiabilidade do abastecimento de energia, enquanto as preocupações sobre a integridade financeira soberana desviaram a política energética do centro das atenções dos governos e limitaram os seus meios de intervenção política, pressagiando a dificuldade de alcançar os objectivos acordados para fazer frente às alterações climáticas.
Esta edição do World Energy Outlook avalia as ameaças e oportunidades do sistema global de energia, apoiando-se numa rigorosa análise quantitativa das tendências da energia e do clima.
A análise inclui três cenários globais e vários estudos de caso. O cenário central desta edição do Outlook é o Cenário Novas Políticas, o qual assume que os recentes compromissos políticos dos governos serão implementados cautelosamente – mesmo que ainda não assentem em medidas sólidas. A comparação com os resultados do Cenário Políticas Actuais, o qual assume que não serão definidas novas políticas além daquelas que já existem em meados de 2011, ilustra o valor desses compromissos e planos. De outro ponto de vista, é igualmente instrutiva a comparação com o Cenário 450, que retoma o objectivo internacional de limitar o aumento a longo prazo da temperatura média a dois graus Celsius (2°C) acima dos níveis da época pré-industrial, de modo a traçar um caminho possível para atingir essa meta. A grande diferença nos resultados obtidos por estes três cenários sublinha o papel crítico dos governos na definição dos objectivos e na implementação das políticas necessárias para modelar o nosso futuro energético.
As incertezas a curto prazo não alteram significativamente a perspectiva a longo prazo
Apesar das incertezas quanto às perspectivas de crescimento económico a curto prazo, no Cenário Novas Políticas, a procura de energia cresce fortemente, aumentando um terço entre 2010 e 2035.
As hipóteses de crescimento da população mundial de 1,7 bilhões de pessoas e de 3,5% crescimento médio anual da economia mundial geram uma procura sempre crescente no domínio dos serviços de energia e de mobilidade. Uma taxa de crescimento do PIB mundial a curto prazo mais reduzida do que a assumida nesta edição do Outlook teria somente uma influência marginal nas tendências a longo prazo.
A dinâmica dos mercados da energia é cada vez mais determinada por países fora da OCDE.
Os países não membros da OCDE são responsáveis por 90% do crescimento da população, 70% do aumento da produção económica e 90% do incremento da procura de energia, entre 2010 e 2035. A China reforça ainda mais a sua posição de principal consumidor mundial de energia: em 2035, consome praticamente 70% de energia a mais do que os Estados Unidos da América, segundo consumidor mundial, embora no mesmo período, o consumo energético per capita da China represente ainda menos de metade do valor dos Estados Unidos. As taxas de crescimento do consumo de energia na Índia, na Indonésia, no Brasil e no Médio Oriente aumentam a um ritmo ainda mais rápido do que a China.
É necessário um investimento mundial nas estruturas de transporte da energia de 38 biliões de dólares (em valores de 2010) no período 2011-2035.
Praticamente dois terços do investimento total são realizados em países fora da OCDE. O petróleo e o gás representam conjuntamente cerca de 20 bilhões de dólares, tendo em conta o aumento a médio e a longo prazo das necessidades de investimento a montante e dos respectivos custos. O sector da electricidade exige a maior parte do valor remanescente, com mais de 40% destinado às redes de transmissão e distribuição.
A era dos combustíveis fósseis está longe de ter acabado, mas a sua predominância tende a declinar.
A procura aumenta para todos os combustíveis, mas a percentagem de combustíveis fósseis no consumo global de energia primária acusa uma ligeira quebra, passando de 81% em 2010 para 75% em 2035: o gás natural é o único combustível fóssil cuja percentagem aumenta no combinado energético global, até 2035. No sector da electricidade, as tecnologias das energias renováveis, lideradas pelas energias hidroeléctrica e eólica, constituem metade da nova capacidade instalada para responder à procura crescente.
Alguns passos na boa direção, mas a janela dos 2°C está a fechar-se
Não podemos dar-nos ao luxo de protelar qualquer acção destinada a lutar contra as alterações climáticas se quisermos alcançar a um preço razoável o objectivo a longo prazo de limitar o aumento médio global da temperatura a 2°C, tal como previsto no Cenário 450. No Cenário Novas Políticas, o mundo segue uma trajectória que resulta num nível de emissões correspondente a um aumento de temperatura a longo prazo superior a 3,5°C. Sem essas novas políticas, estaremos numa rota ainda mais perigosa, que levará a um aumento de 6°C ou mais da temperatura.
Em 2035, quatro quintos das emissões admissíveis totais de CO2 relacionadas com a energia no Cenário 450 já estão “garantidos” pelo stock existente (centrais eléctricas, edifícios, fábricas, etc.). Se não forem tomadas novas medidas rigorosas até 2017, as infra-estruturas implantadas nessa altura gerarão todas as emissões de CO2 admissíveis no Cenário 450 até 2035, não deixando qualquer possibilidade de criação de novas centrais, fábricas ou outras infra-estruturas, a menos que gerem zero emissões de carbono, o que se tornaria extremamente oneroso. Adiar a ação é uma falsa economia, pois para cada dólar que não se investe no sector eléctrico antes de 2020, será necessário investir mais 4,3 dólares depois dessa data, para compensar o aumento das emissões.
As novas medidas de eficiência energética fazem a diferença, mais é preciso muito mais.
No Cenário Novas Políticas, a eficiência energética aumenta a um ritmo que corresponde ao dobro dos últimos 25 anos, sendo estimulada por normas mais rigorosas em todos os sectores e por uma redução gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis. No Cenário 450, o ritmo de mudança é ainda mais rápido, com melhorias de eficiência representando metade da redução adicional de emissões. A maior contribuição para atingir a segurança energética e os objectivos climáticos provém da energia que não consumimos.
Demanda e custos crescentes na área dos transportes confirmam mais uma vez o fim da era do petróleo barato
As pressões a curto prazo nos mercados do petróleo poderão ser moderadas pelo abrandamento do crescimento económico e pelo regresso esperado do petróleo líbio no mercado, mas as tendências tanto da procura como da oferta de petróleo mantêm a pressão sobre os preços.
Assumimos que o preço médio nos países membros da AIE do petróleo bruto importado permanece elevado, aproximando-se dos 120 dólares/barril (em valores de 2010) em 2035 (mais de 210 dólares/barril em valores nominais) no Cenário Novas Políticas, embora muito provavelmente, na prática, a volatilidade dos preços se mantenha.
O aumento líquido da procura de petróleo deve-se na totalidade ao sector do transporte nas economias emergentes, dado que o crescimento económico impulsiona a procura de mobilidade das pessoas e das mercadorias.
A demanda por petróleo (à exclusão dos biocombustíveis) sobe de 87 milhões de barris por dia (mb/d) em 2010 para 99 mb/d em 2035. O número total de veículos leves de passageiros duplica, atingindo praticamente 1,7 mil milhões em 2035.
As vendas nos mercados dos países não-membros da OCDE ultrapassam as dos países membros da OCDE em 2020, ao mesmo tempo que o centro de gravidade da produção automóvel passa para países fora da OCDE, antes de 2015.
O consumo de petróleo aumenta, apesar de avanços impressionantes em matéria de economias de combustível em certas regiões, nomeadamente para os veículos de passageiros na Europa e os veículos pesados nos Estados Unidos da América. As novas tecnologias alternativas aplicadas aos veículos utilizam o petróleo de uma forma muito mais eficiente ou prescindem totalmente deste combustível, como no caso dos veículos eléctricos, mas levam tempo a tornarem-se comercialmente viáveis e a penetrar nos mercados.
Devido ao potencial limitado de substituição do petróleo como combustível na área do transporte, a concentração no uso do petróleo neste sector está menos exposto às variações de preço (sobretudo onde os produtos à base de petróleo são subsidiados).
O custo de comercialização do petróleo aumenta, à medida que as companhias são obrigadas a recorrer a fontes de mais difícil acesso e onerosas, para substituir a capacidade perdida e atender à procura crescente. A produção de petróleo bruto convencional – principal componente único no aprovisionamento de petróleo – mantém-se nos níveis actuais, antes de diminuir ligeiramente para cerca de 68 mb/d em 2035.
Para compensar o declínio do petróleo bruto nos campos existentes, serão necessários mais 47 mb/d de capacidade bruta, o dobro da produção de petróleo total actual no conjunto dos países da OPEC do Médio Oriente.
Uma parte crescente da produção provém do gás natural liquefeito (mais de 18 mb/d em 2035) e de fontes não convencionais (10 mb/d). Espera-se que o maior aumento na produção de petróleo deva-se ao Iraque, seguido da Arábia Saudita, do Brasil, do Cazaquistão e do Canadá.
O fornecimento de biocombustíveis triplica, atingindo um valor equivalente a mais de 4 mb/d, sustentado por 1,4 bilião de dólares de subsídios durante o período de projecção.
As importações de petróleo para os Estados Unidos da América, o maior importador mundial actual, diminuem à medida que os ganhos de eficiência reduzem a procura e que são desenvolvidas novas fontes de abastecimento, como o petróleo leve condensado; contudo, a dependência crescente das importações de petróleo nas outras partes do mundo aumenta as preocupações sobre o custo das importações e a segurança dos abastecimentos.
Em 2035, quatro quintos do petróleo consumido nos países Asiáticos não membros da OCDE provêm de importações, enquanto esse valor representa apenas pouco mais de metade em 2010. Globalmente, a dependência aumenta em relação a um número de produtores bastante limitado, sobretudo na região MENA, com o petróleo a transitar por vias de aprovisionamento vulneráveis.
Em valores agregados, o aumento da produção oriunda desta região é superior a 90% do crescimento necessário na produção mundial de petróleo, elevando a quota-parte da OPEC na produção global para mais de 50% em 2035.
A insuficiência de investimentos a crescente na região MENA poderá ter um impacto muito abrangente nos mercados mundiais da energia. Essa carência poderá resultar de vários factores, incluindo a percepção de um maior risco de investimento, políticas deliberadas dos governos para desenvolver mais lentamente a capacidade de produção ou limitações dos fluxos de capital interno a crescente devido à concentração das despesas noutros tipos de programas públicos. Se, entre 2011 e 2015, o investimento na região MENA for um terço inferior aos 100 mil milhões de dólares anuais necessários no Cenário Novas Políticas, os consumidores poderão ter que enfrentar um aumento significativo do preço do petróleo a curto prazo, de 150 dólares/barril (em valores de 2010).
Perspectivas muito favoráveis para o gás natural
O panorama é muito menos incerto para o gás natural: vários factores, tanto a nível da oferta como da procura, apontam para um futuro brilhante, ou mesmo uma era de ouro, para o gás natural. As perspectivas desta edição do Outlook vêm reforçar as principais conclusões de um relatório especial do WEO publicado em Junho de 2011: o consumo de gás aumenta nos três cenários, sublinhando o bom desempenho do gás num grande número de futuras orientações políticas. No Cenário Novas Políticas, a procura de gás atinge praticamente o nível do carvão, sendo 80% da procura adicional oriunda de países fora da OCDE. As políticas que promovem a diversificação das fontes de combustível sustentam a expansão considerável da utilização do gás na China, alcançada através do aumento da produção doméstica e dos desenvolvimentos do comércio do gás natural liquefeito nas importações e da rede de transporte da Eurásia. O comércio global duplica, sendo mais de um terço deste aumento destinado à China. A Rússia continua a ser o maior produtor de gás em 2035 e o país que mais contribui para o desenvolvimento do aprovisionamento mundial, seguido da China, do Qatar, dos Estados Unidos da América e da Austrália.
O gás não convencional representa actualmente metade da base dos recursos de gás natural e apresenta uma dispersão maior do que a dos recursos convencionais, o que tem um efeito positivo na segurança do gás. A quota-parte de gás não convencional passa a constituir um quinto da produção total de gás em 2035, embora o seu ritmo de crescimento varie consideravelmente entre regiões. Por sua vez, o aumento da produção será determinado pela capacidade da indústria do gás em vencer os desafios ambientais: uma era de ouro do gás requer padrões de ouro em matéria de produção. O gás natural é o combustível fóssil mais limpo, mas em si, o aumento do consumo de gás (sem captação e armazenamento de carbono) não será suficiente para nos colocar numa rota de emissões de carbono que seja compatível como a limitação do aumento da temperatura global de 2°C.
As fontes de energia renováveis assumem maior protagonismo
A percentagem de fontes de energia renováveis não hidroeléctricas na geração de electricidade sobe de 3% em 2009 para 15% em 2035, apoiadas através de subsídios anuais às fontes de energia renováveis que aumentam praticamente por um factor de cinco, num valor de 180 mil milhões de dólares. A China e a União Europeia lideram esta expansão e representam cerca de metade do crescimento. Embora se preveja uma diminuição no valor dos subsídios por unidade de produção, a maior parte das fontes de energia renováveis precisam de ser apoiadas durante todo o período de projecção, para serem competitivas nos mercados de electricidade. Apesar do custo elevado, acredita-se que os benefícios serão duradouros em matéria de segurança energética e protecção do meio ambiente. Para obter mais electricidade proveniente de fontes de energia renováveis, por vezes situadas em locais remotos, serão necessários investimentos adicionais nas redes de transmissão, representando 10% do investimento de transmissão total: na União Europeia, para atingir esse objectivo, será necessário dedicar 25% do investimento às redes de transmissão. A contribuição da energia hidroeléctrica para a produção total de energia permanece constante, à volta de 15%, representando a China, a Índia e o Brasil praticamente metade dos 680 gigawatts de capacidade adicional.
Carvão: marcar passo ou prosseguir a todo o vapor?
Na última década, o carvão atendeu a praticamente metade do aumento da procura mundial de energia. Saber se esta tendência mudará e a que velocidade, eis uma das questões mais importantes para o futuro da economia mundial da energia. Mantendo-se as políticas actuais, o peso do carvão representaria 65% em 2035, suplantando o petróleo enquanto principal combustível no combinado energético mundial. No Cenário Novas Políticas, o consumo global de carvão aumenta nos próximos dez anos mas em seguida, estagna, terminando 25% acima dos níveis de 2009. Para que o Cenário 450 se realize, o consumo de carvão tem de atingir o seu pico muito antes de 2020, começando a declinar em seguida. Em 2035, o nível da procura de carvão projectado nos três cenários é praticamente equivalente ao da procura mundial total de 2009. As consequências das opções políticas e tecnológicas no clima global são consideráveis.
O consumo de carvão por parte da China representa praticamente metade da demanda mundial. O seu plano quinquenal de 2011 a 2015, que visa reduzir a intensidade energética e do carbono na economia, será um factor determinante para os mercados mundiais do carvão. A emergência da China em 2009 como importador de carvão em termos líquidos acarretou uma subida de preços e a realização de novos investimentos nos países exportadores, incluindo a Austrália, a Indonésia, a Rússia e a Mongólia. No Cenário Novas Políticas, o mercado principal do comércio do carvão continua a transferir-se do Atlântico para o Pacífico, mas a escala e a orientação dos fluxos do comércio internacional são extremamente incertos, sobretudo após 2020. Seria apenas necessária uma pequena mudança na procura ou na oferta interna para a China se tornar novamente um exportador em termos líquidos, passando assim a competir no mercado com os países que investem actualmente para atender à sua procura. O consumo de carvão na Índia duplica no Cenário Novas Políticas, passando a ocupar a posição anterior dos Estados Unidos de segundo consumidor mundial de carvão e tornando-se o maior importador de carvão nos anos 2020.
A implantação em grande escala de centrais eléctricas a carvão mais eficientes e da tecnologia de captação e armazenamento de carbono (CAC) poderiam dar um impulso às projecções a longo prazo para o carvão; contudo, subsistem ainda obstáculos importantes. Se a eficiência média de todas as centrais eléctricas a carvão subisse para cinco pontos percentuais acima dos valores do Cenário Novas Políticas em 2035, esse rápido decréscimo das tecnologias de combustão menos eficientes acarretaria uma diminuição de 8% das emissões de CO2 no sector eléctrico e reduziria localmente a poluição do ar. A escolha de tecnologias mais eficientes para as novas centrais eléctricas a carvão exigiria investimentos suplementares relativamente modestos, enquanto o custo do melhoramento dos níveis de eficiência nas centrais existentes seria muito mais elevado. No Cenário Novas Políticas, a tecnologia de captação e armazenamento de carbono (CAC) tem alguma influência unicamente no fim do período de projecção. Não obstante, a CAC constitui uma opção fundamental para a diminuição das emissões no Cenário 450 , representando praticamente um quinto da redução de emissões suplementar exigida. Caso a CAC não esteja implementada em grande escala nos anos 2020, será extraordinariamente difícil atingir, mediante as tecnologias com baixas emissões de carbono, os níveis de emissões exigidos para cumprir os objectivos climáticos globais.
Reconsiderar a energia nuclear poderá ter consequências a longo prazo
Os acontecimentos de Fukushima Daiichi suscitaram interrogações sobre o futuro papel da energia nuclear, embora não tenham alterado as políticas de países como a China, a Índia, a Rússia e a Coreia, que determinam a expansão desta fonte de energia. No Cenário Novas Políticas, a produção de energia nuclear aumenta mais de 70% até 2035, uma percentagem apenas ligeiramente inferior à projectada no ano passado. Contudo, examinamos igualmente as possíveis implicações de um decréscimo adicional da energia nuclear, através de um Cenário Nuclear Baixo (“Low Nuclear Case”), que assume que não serão construídos novos reactores nos países da OCDE, que os países não membros da OCDE apenas constroem metade dos suplementos projectados no Cenário Novas Políticas e que a vida útil de funcionamento das centrais nucleares actuais é encurtada. Embora crie oportunidades para as energias renováveis, este futuro, com uma componente nuclear baixa, também poderá estimular a procura de combustíveis fósseis: o aumento da procura global de carvão equivale ao dobro do nível das actuais exportações de carvão-vapor da Austrália da e o aumento da procura de gás equivale a dois terços das exportações actuais de gás natural da Rússia. Esta situação acarretaria uma maior pressão nos preços da energia, preocupações acrescidas em matéria de segurança energética, dificultando e agravando o custo da luta contra as alterações climáticas. As consequências serão particularmente graves para os países com parcos recursos energéticos endógenos, que têm previsto uma dependência bastante forte da energia nuclear. Por sua vez, as economias emergentes teriam muito mais dificuldade em satisfazer a sua rapidamente crescente procura de energia.
O mundo precisa da energia russa e a Rússia precisa de consumir menos energia
Os recursos energéticos abundantes da Rússia continuarão a fazer do país uma pedra angular da economia energética mundial da nas próximas décadas. A procura potencial elevada e os preços mundiais dos combustíveis fósseis poderão parecer garantir boas perspectivas à Rússia; todavia, em muitos aspectos, os desafios à sua frente são tão impressionantes quanto a própria magnitude dos seus recursos. Os principais campos russos de petróleo e gás na Sibéria ocidental vão declinar e uma nova geração de campos com um custo mais elevado deverá ser desenvolvida, tanto nas áreas de produção tradicionais da Sibéria ocidental como nas novas fronteiras da Sibéria oriental e do Árctico. A Rússia deverá dotar-se de um sistema fiscal reactivo, capaz de incentivar suficientemente o investimento. A produção de petróleo atinge um planalto à volta de 10,5 mb/d, antes de iniciar uma ligeira descida para 9,7 mb/d em 2035; a produção de gás aumenta 35%, passando para 860 mil milhões de metros cúbicos (bcm) em 2035 e fazendo da península de Yamal o novo centro de abastecimento da Rússia.
As mudanças geográficas da produção russa de petróleo e gás acarretam uma mudança na geografia das exportações. A maior parte das exportações russas continua a ter por destino o ocidente, com os mercados tradicionais da Europa, embora se assista a um fluxo crescente em direcção aos mercados asiáticos. Consequentemente, a Rússia apresenta uma maior diversidade de rendimentos das suas exportações: a quota-parte da China no valor total das exportações russas de combustíveis fósseis sobe de 2% em 2010 para 20% em 2035, enquanto a quota-parte da União Europeia diminui de 61% para 48%.
A Rússia visa criar uma economia mais eficiente, menos dependente do petróleo e do gás, mas precisa de acompanhar o ritmo de mudança. Se a Rússia aumentasse a eficiência energética de cada um dos seus sectores aos níveis de países da OCDE comparáveis, poderia economizar praticamente um terço do seu uso anual de energia primária, valor comparável com o da energia usada num ano pelo Reino Unido. As economias potenciais, somente no domínio do gás natural, de 180 bcm, aproximam-se do valor das exportações líquidas da Rússia em 2010. As novas políticas em matéria de eficiência energética e as continuadas reformas dos preços do gás e da electricidade permitem melhorar a situação mas, na nossa análise, apenas destravam uma parte do potencial da eficiência russa. Uma implementação mais rápida das evoluções em matéria de eficiência, aliada à reforma do mercado da energia, permitirá acelerar a modernização da economia russa e logo, minorar a sua dependência dos movimentos dos preços mundiais das matérias-primas.
O acesso à energia para toda a população não teria um custo excessivo
Calculamos que, em 2009, foram investidos mundialmente cerca de 9 mil milhões de dólares para fornecer um acesso directo à energia moderna; contudo, será preciso investir mais de cinco vezes esse valor, ou seja 48 mil milhões de dólares, para permitir o acesso universal em 2030. Facultar o acesso à energia a toda a população mundial em 2030 é um objectivo fundamental anunciado pelo Secretário-Geral da ONU. Actualmente, 1,3 mil milhões de pessoas não dispõem de electricidade e 2,7 mil milhões de pessoas ainda dependem do uso tradicional da biomassa para cozinhar. O investimento necessário equivale a cerca de 3% do investimento total na energia até 2030. Sem este aumento, o panorama global de 2030 pouco evoluirá em relação à situação actual, ou mesmo, piorará na região da África subsariana. Algumas das políticas actuais destinadas a ajudar os mais pobres não atingem os seus objectivos. Em 2010, apenas 8% dos subsídios ao consumo de combustíveis fósseis beneficiaram os 20% da população mais pobre.
O acesso à energia torna-se uma preocupação crescente. As Nações Unidas declararam 2012 “Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos” e o Rio+20 constitui uma importante ocasião para agir. Mais financiamento, de fontes variadas e sob diferentes formas, é necessário para facultar a todos o acesso a uma energia moderna, com soluções adaptadas aos desafios, riscos e retornos financeiros específicos de cada tipo de projecto. O investimento do sector privado é aquele que mais precisa de crescer, o que não acontecerá se os governos nacionais não adoptarem quadros governamentais e regulamentares rígidos e se não investirem na criação de capacidade. O sector público, incluindo os dadores, tem de usar as suas alavancas para fomentar o investimento do sector privado que, de outra forma tem um interesse comercial limitado. Em 2030, o acesso universal corresponderia a um aumento da procura mundial de combustíveis fósseis e das subsequentes emissões de CO2 inferior a 1%, um valor irrelevante comparado com a contribuição de tal evolução para o desenvolvimento e o bem-estar da humanidade.
Este relatório foi inicialmente escrito em inglês. Embora tenham sido envidados todos os esforços para assegurar a fidelidade da tradução, poderá haver ligeiras diferenças entre esta e a versão original.
Volta à cena duelo homem versus máquina
Por David J. Lynch
Bloomberg Businessweek
Os Estados Unidos produzem, hoje, quase um quarto a mais de bens e serviços do que em 1999, mas empregam praticamente o mesmo número de trabalhadores. É como se US$ 2,5 trilhões em produtos - o equivalente a toda a economia americana por volta de 1958 - se materializasse do nada.
Embora as empresas não tenham contratado muita gente, elas com certeza estão usando mais máquinas. Os gastos com equipamentos e softwares atingiram um pico histórico no terceiro trimestre de 2011. "Enormes avanços tecnológicos têm permitido às empresas fazer mais com menos", exterminando empregos de todo tipo: de metalúrgicos a agentes de viagens, advertiu, em dezembro, o presidente Barack Obama.
Estarão os robôs abocanhando todos os bons empregos? Este ano poderá oferecer a resposta, à medida que a economia ganha impulso. A maioria dos economistas, animados por 540 mil contratações desde o Dia do Trabalho [1º de setembro, nos EUA], dizem que a tecnologia destrói inevitavelmente alguns empregos, ao mesmo tempo em que acaba criando novos. Mas com mais de 20 milhões de americanos ainda desempregados ou subempregados, outros economistas temem que algo fundamental tenha mudado. "O que é diferente agora é a velocidade e a escala do que está acontecendo", diz Erik Brynjolfsson, diretor do Centro para Negócios Digitais do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Brynjolfsson e Andrew McAfee, coautores do livro "Race Against the Machine" (Corrida contra a Máquina, em tradução literal), publicado recentemente, argumentam que a economia está nos estágios iniciais de uma "Grande Reestruturação" que está esvaziando o mercado de trabalho e intensificando as desigualdades.
Bobagem, dizem alguns economistas, entre eles James D. Hamilton, da Universidade da Califórnia em San Diego. Não há nada novo no fato de máquinas substituírem pessoas. Em 1900, 41% dos americanos trabalhavam em fazendas. Hoje, graças a tratores e colheitadeiras que poupam trabalho, o número é inferior a 2%. No entanto, ex-trabalhadores em fazendas encontraram novos empregos. E à medida que a atividade manufatureira ficou mais enxuta, nas últimas décadas, os trabalhadores das fábricas - ou seus filhos - migraram para os setores financeiro, de informática, de saúde e outros em crescimento.
"Em 2005, o trabalhador médio americano foi capaz de produzir o que teria exigido duas pessoas em 1970, quatro pessoas em 1940 e seis pessoas em 1910", escreveu Hamilton, em um e-mail. "O resultado desse progresso tecnológico não foi mais desemprego, mas, sim, aumento dos salários reais. As evidências dos últimos dois séculos são inequívocas: ganhos de produtividade resultam em mais riqueza, e não pobreza."
Os americanos vêm se preocupando com um futuro distópico desde quando o primeiro robô industrial (denominado "Unimate") começou a trabalhar em uma fábrica da General Motors em Ewing Township, Nova Jersey, em 1961. As preocupações ficaram mais agudas no ano passado, marcado por uma recuperação sem crescimento do emprego. Chris Matthews, apresentador do programa Hardball, da rede MSNBC, comentou no ar, recentemente, sobre onipresentes quiosques automatizados, bem como sobre a substituição de "sete ou oito cameramen", em seu programa, por máquinas. "Vemos robôs por toda parte", disse ele.
No ano passado, o Google apresentou carros que andam sem motoristas. A Lionbridge Technologies está recebendo pedidos para um serviço de tradução automatizada desenvolvido pela companhia. A Boston Scientific, fabricante de dispositivos médicos, está automatizando seu centro de distribuição em Quincy (Massachusetts), o maior da companhia, com robôs produzidos pela Kiva Systems, de North Reading, do mesmo Estado.
A tecnologia não está revolucionando apenas a linha de montagem. Estagiários em escritórios de advocacia não conseguem competir com programas de computador ao realizar buscas precisas, em milhares de documentos, por palavras ou padrões específicos. Novos aplicativos produzem facilmente melhores resumos jornalísticos sobre eventos esportivos rotineiros do que um jornalistas recém-formados. "Estamos em uma era na qual o leque de tarefas passíveis de automação está se ampliando rapidamente, e em áreas nas quais costumávamos pensar que se tratavam das nossas melhores habilidades, coisas que exigem raciocínio", diz David Autor, um economista de trabalho no Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Com a disseminação da tecnologia digital, a relação clássica entre aumento da produção e crescimento do emprego, conhecida como a Lei de Okun, parece, agora, ter deixado de funcionar. Se a lei, que postula que todo aumento de 3% na produção deveria reduzir a taxa de desemprego em um ponto percentual, ainda valesse, então a taxa atual de quase 9% seria de cerca 1%.
As longas filas de desempregados em busca de vagas, no entanto, não são, necessariamente, um sinal de que as máquinas estão ganhando uma luta de soma zero contra os humanos. O surto de gastos com automação e sistemas de tecnologia da informação, por exemplo, é um dos mais fortes pilares da economia. No terceiro trimestre, os investimentos não residenciais, que incluem máquinas para economizar trabalho, contribuíram com 1,41 ponto percentual para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) americano, perdendo apenas para os gastos dos consumidores. A Lincoln Electric Holdings, fabricante de equipamentos para solda por robôs, registrou um lucro de US$ 55,5 milhões no terceiro trimestre, com aumento de 71% em relação ao mesmo período em 2010.
As empresas estão gastando mais em tecnologia agora porque gastaram muito pouco durante a recessão. Mas os gastos totais de capital ainda mal superaram os custos de substituição. "A maior parte do investimento que estamos vendo é simplesmente substituição de coisas desgastadas", diz o economista Paul Ashworth, da Capital Economics, empresa de pesquisa especializada em macroeconomia.
Assim, se as máquinas não são responsáveis pela escassez de empregos, qual é a razão? Simples: ausência de demanda. A indústria está usando menos da sua capacidade produtiva, hoje, do que no ponto mais baixo da recessão de 1990-91, segundo o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. "Precisamos de uma nova fonte de demanda", diz o autor do MIT. "Se as pessoas não estão comprando coisas, então ninguém está contratando trabalhadores."
A próspera década de 90 revelou o poder da demanda de, simultaneamente, provocar aumento do emprego e gastos com máquinas. Na década de 90, as empresas embarcaram em uma farra de compra de novos equipamentos e de softwares ainda maior do que hoje, mas a taxa média de desemprego ficou em 4,4%, observa o economista Dean Baker, do Centro para Pesquisa Econômica e Política, em Washington, DC. Desde o primeiro trimestre de 1997 até o fim de 2000, apesar de um crescimento de 14% na produtividade, a demanda por bens e serviços foi tão grande que o setor privado criou mais de 9 milhões de empregos.
Uma coisa é diferente agora: em vez de "içar todos os barcos", como anteriormente, a tecnologia está dividindo os trabalhadores em vencedores e perdedores. Nas últimas três décadas, o crescimento do emprego tem sido mais rápido entre os empregos de alta e de baixa qualificações, enquanto as ocupações de capacitação média se atrofiaram, de acordo com os economistas Jaison Abel e Deitz Richard, do Federal Reserve em Nova York. Embora a economia tenha criado quase 50 milhões de novos postos de trabalho não agrícolas nesse período, a tecnologia dizimou as fileiras de alguns pilares da força de trabalho, como operadores de máquinas, em mais de metade.
Padrões de vida sem alterações e um mercado de trabalho proporcionando acesso apenas a empregos nos extremos - de altos e de baixos salários - é mais um dado sobre uma assustadora nova era. Apesar de suas preocupações, Brynjolfsson e McAfee permanecem "otimistas digitais". Em algum momento, dizem eles, as tecnologias revolucionárias criarão novas empresas e empregos inimagináveis. Existe, certamente, espaço para elas. Pelos cálculos do Birô de Orçamento do Congresso, a produção total no terceiro trimestre ficou 5% abaixo do potencial. Isso representa quase US$ 800 bilhões de demanda ausente - o suficiente para ocupar tanto homens como máquinas. (Tradução de Sergio Blum)
Capitalismo solidário
Por Thomás Tosta de Sá - Valor 23/01
Em recente artigo, o professor da Universidade de Harvard, Kenneth Rogoff, um dos economistas mais reverenciados da atualidade, lançou aos leitores a seguinte pergunta: "o moderno capitalismo é sustentável"? Em busca da resposta, ele faz uma brilhante análise sobre os diversos momentos do capitalismo a partir da Revolução Industrial e do desastre do marxismo e do socialismo, surgidos justamente como alternativa ao capitalismo.
A conclusão resulta em novo questionamento: "será o capitalismo uma vítima de seu próprio sucesso ao produzir prosperidade maciça"? Por mais que a hipótese nos pareça remota e contraditória, é importante levá-la em consideração. Enquanto a poluição, a instabilidade financeira, as doenças e desigualdades continuarem a crescer e o sistema político se mantiver paralisado, o futuro do capitalismo pode não se apresentar tão seguro daqui a algumas décadas como parece agora.
O lucro gerado pelas empresas é a medida correta do sucesso do capitalismo. Não é por outra razão que a palavra lucro foi - e ainda é - odiada por seguidores do marxismo/socialismo em todo o mundo. Na realidade, o lucro consiste na demonstração do uso eficaz dos fatores de produção: capital humano, capital financeiro e recursos naturais. Quanto maior a produtividade gerada pela associação de tais fatores de produção, maior o lucro e mais sustentável o modelo capitalista.
As distorções que ocorrem no sistema capitalista e que resultam nos problemas apontados por Rogoff são decorrentes da forma de obtenção dos lucros e/ou da maneira como são distribuídos. Segunda maior economia do mundo, a China caminha para desbancar os Estados Unidos dentro de alguns anos. Seu modelo de capitalismo é particular, batizado de socialismo de mercado, utilizando como base a análise feita por Peter Drucker, em 1975, no livro "A revolução invisível". A China tem obtido taxas fantásticas de crescimento com enorme sacrifício de dois fatores de produção: capital humano e recursos naturais.
A oferta quase infinita de capital humano de suas zonas rurais é movida pela migração de 20 milhões a 30 milhões de pessoas por ano rumo aos centros urbanos. Essa parcela da população vive em regime de semiescravidão, sujeita a um partido comunista altamente corrupto. A mão de obra numerosa representa uma expressiva vantagem competitiva em relação às outras economias do mundo.
Investindo na educação desse enorme contingente humano e melhorando a sua remuneração, aumenta-se, consequentemente, a produtividade, o que proporciona avanço em seu poder de consumo. Mais consumidores fortalecem o mercado interno, tornando-o altamente competitivo. Gradualmente, surge o maior exportador de produtos industrializados do planeta.
A China pratica ainda uma das políticas ecológicas mais sujas do mundo. Não investe na proteção de seus recursos naturais nem em sustentabilidade. Com o achatamento da remuneração do capital humano e a ausência de gastos na qualidade de seu meio ambiente, as empresas chinesas maximizam seus lucros, permitindo que o país obtenha as taxas mais elevadas de formação bruta de capital, garantindo seu crescimento a níveis que lhe assegurarão o posto de maior economia mundial.
Será esse modelo capitalista/socialista de mercado que prevalecerá no futuro? Será essa a ameaça que as economias capitalistas democráticas não saberão enfrentar? Será que a sociedade chinesa sobreviverá a um modelo político autoritário praticando um capitalismo "sujo", de sacrifício do capital humano e do ambiente? Da mesma forma que as economias democráticas terão que buscar mudanças em seus modelos para sobreviver, também a China terá que buscar outros caminhos.
Quando eu cursava engenharia na PUC, no início da década de 60, o padre Ávila, professor de religião, falava muito do movimento do Solidarnósc, que surgia na Polônia em oposição ao comunismo vigente.
Em família, um entre nove filhos, aprendi desde pequeno que a solidariedade era a melhor forma de convivência. Acredito, também, que o capitalismo solidário será a resposta correta à sustentabilidade do desenvolvimento das nações.
Mas o que significa um capitalismo solidário? É um capitalismo que se estrutura no aumento da produtividade dos fatores de produção ao mesmo tempo que garante uma melhor distribuição dos lucros gerados pelas empresas. O capital humano só aumentará sua produtividade se garantirmos aos trabalhadores mais investimentos em educação, saúde, segurança, transporte e habitação.
O capital financeiro só aumentará sua produtividade se garantirmos eficácia na alocação de recursos por meio de mercados de capitais desenvolvidos, no lugar de decisões centralizadas nas mãos do governo e de suas instituições. Entendemos que o mau uso desses recursos financeiros seja objeto de penalização de seus gestores, públicos ou privados. Entendemos, também, que executivos de instituições financeiras não sejam premiados com bônus milionários, como ocorreu recentemente nos Estados Unidos. Da mesma forma, os recursos naturais só aumentarão sua produtividade se forem explorados sem sua destruição e com sua renovação no que couber.
A maximização do lucro deve manter-se como medida de sucesso dos investimentos realizados. Porém, precisamos buscar formas mais justas de sua distribuição. O Brasil poderá ser um exemplo de capitalismo solidário se sociedade e governo perseguirem juntos esse objetivo.
Thomás Tosta de Sá é presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
TV ON LINE
19/01/2012 - 20:10:00
ECONOMISTA COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL E INTERNACIONAL - PARTE 1 TEMPO: 00:01:54
ECONOMISTA COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL E INTERNACIONAL - PARTE 2 TEMPO: 00:03:30
Em entrevista ao Conta Corrente, o professor e economista Luiz Gonzaga Belluzzo falou sobre o cenário econômico nacional e internacional, que sofrem os efeitos da crise mundial.
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
LUIZ GONZAGA BELLUZZO COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL E DECISÃO DO COPOM TEMPO: 00:04:32
Em entrevista ao Conta Corrente, o professor e economista Luiz Gonzaga Belluzzo falou sobre o cenário econômico nacional e a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil (Copom).
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
ECONOMISTA COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL E INTERNACIONAL - PARTE 1 TEMPO: 00:01:54
ECONOMISTA COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL E INTERNACIONAL - PARTE 2 TEMPO: 00:03:30
Em entrevista ao Conta Corrente, o professor e economista Luiz Gonzaga Belluzzo falou sobre o cenário econômico nacional e internacional, que sofrem os efeitos da crise mundial.
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
LUIZ GONZAGA BELLUZZO COMENTA O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL E DECISÃO DO COPOM TEMPO: 00:04:32
Em entrevista ao Conta Corrente, o professor e economista Luiz Gonzaga Belluzzo falou sobre o cenário econômico nacional e a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil (Copom).
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
‘Hackers do bem’ divulgam informações para a sociedade - O Globo
RIO - Na imaginação de boa parte dos cidadãos, hacker é a pessoa que invade páginas da internet, causando por vezes enormes prejuízos operacionais. Mas existem grupos de desenvolvedores prontos para mudar este estereótipo. Já conhecidos como "hackers do bem", eles usam o tempo livre para criar programas e gráficos que mostrem, de forma simples e amigável, como o governo gasta os recursos. Também produzem e disponibilizam na internet mapas com informações sobre Segurança, Saúde e Educação.
‘Hackers do bem’ divulgam informações para a sociedade - O Globo
‘Hackers do bem’ divulgam informações para a sociedade - O Globo
BC grego cobra atitude do governo para evitar 'default'
Por Dow Jones Newswires
Atenas
A permanência da Grécia na zona do euro corre sérios riscos se o governo não cumprir a agenda de reformas e não corrigir problemas estruturais do passado, afirmou George Provopoulos, presidente do Banco Central grego. Provopoulos reiterou que o governo e líderes políticos não devem se encolher diante dos desafios do país.
"Se, novamente, ignorarmos os imperativos da realidade, o fim é garantido: isolamento político e econômico e o começo de uma trajetória que irá dissipar tudo o que alcançamos no pós-guerra e nos fará retroceder muitas décadas."
As observações de Provopoulos coincidem com o esforço do governo grego para tentar assegurar novo pacote de ajuda financeira de €130 bilhões junto aos parceiros europeus e ao FMI. A Grécia depende dessa ajuda para evitar o que seria o primeiro default da história de um país da zona do euro.
Em 2010, a Grécia recebeu o primeiro auxílio dos parceiros europeus e do FMI, no valor de €110 bilhões, em troca de reformas econômicas e acabar com o déficit no orçamento.
Apesar de a Grécia ter diminuído o déficit orçamentário em um terço desde então, para estimados 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011, a implementação de reformas estruturais ficou muito aquém das expectativas.
"A crise que choca o país e ameaça o futuro grego na União Europeia não reflete simplesmente tendência negativa, passageira, nos ciclos econômicos", disse Provopoulos. "Trata-se de uma profunda crise sistêmica, estrutural, do modelo econômico adotado no pós-guerra e que conduziu para um impasse fatal e o colapso."
Chineses puxam preços do ouro
Por Rhiannon Hoyle e Yue Li
The Wall Street Journal, de Xangai
O ano do dragão está dando um novo ânimo ao preço do ouro.
Os chineses estão acumulando ouro como nunca em antecipação ao ano-novo lunar, que este ano cai no dia 23 de janeiro. É uma ocasião de trocar presentes durante jantares de família, com a geração mais velha dando dinheiro aos parentes mais jovens. E à medida que os chineses enriquecem, o ouro - na forma de jóias, moedas ou mesmo barras - está se tornando o presente preferido.
Em preparação para as festividades, a China importou um volume recorde de ouro em novembro, o último mês para o qual há dados disponíveis.
Carregamentos de Hong Kong para a China continental, usados pelos analistas como um indicador para o total das importações, somaram 102 toneladas, um aumento de 20% em relação a outubro e quase seis vezes mais do que em novembro de 2010.
Esses dados deixaram investidores mais confiantes de que o aumento de 6% nos preços, desde o início do ano, possa ser mais que uma curta recuperação da queda de 10% que a cotação do metal sofreu no final de 2011.
No mercado à vista, em que o ouro é negociado fisicamente, a cotação do metal subiu 0,8% na Bolsa de Ouro de Shangai, para 339,18 yuans por grama, ou US$ 1.670.95 a onça.
Os números de importação são "impressionantes", disse Anne-Laure Tremblay, analista de metais preciosos do banco BNP Paribas, acrescentando que a demanda chinesa parece estar sustentando os preços globais do ouro.
Isso é também o que o mercado à vista está indicando. Na semana passada, os preços de referência nos contratos à vista, que representam o ouro fisicamente trocando de mãos, estavam até US$ 21 a onça mais altos do que nos contratos similares em Londres.
Embora a diferença de preços possa ser bastante volátil, muitos analistas interpretam os preços consistentemente altos de Shangai como uma medida da forte demanda na China. O ouro em Shangai não é negociado abaixo do preço de Londres desde 30 de novembro, quando a diferença foi de US$ 22.
O consumo de jóias de ouro na China saltou 16% no ano passado para um recorde de 514 toneladas, de acordo com a consultoria de metais GFMS. Enquanto isso, a Índia, maior consumidora de ouro do mundo, viu a sua demanda por jóias diminuir.
Assim como em outras partes do mundo, os chineses estão cada vez mais reduzindo as diferenças entre demanda de ouro no varejo, geralmente vista como pessoas comprando jóias para usá-las, e demanda de investimento na forma de barras, moedas e participações em fundos de índices.
Ma Bowen, gerente de vendas de uma loja de ouro em Yu Garden, uma área comercial repleta de vendedores de ouro perto do parque homônimo, estima ter vendido de 20% a 30% mais ouro em 2011. Aludindo às preocupações com a inflação, ele disse estar observando uma incidência de jovens consumidores na multidão que lota as lojas de ouro, há poucos passos de um cenário extravagante de pavilhões, lagos e jardins decorados com rochas.
Muitos dos consumidores estão comprando barras de ouro para "pôr suas mãos em algo fisicamente valioso e que pode aumentar de valor no longo prazo", disse ele.
A inflação na China está em 4,1%, com o país se mantendo na sua trajetória de crescimento robusto. O produto interno bruto cresceu 8,9% no quarto trimestre em relação ao mesmo período de 2010.
O yuan, contudo, também se fortaleceu em relação ao dólar no ano passado, o que tornou o ouro mais acessível aos compradores chineses.
Grace Zhang, que tem 29 anos e é gerente numa companhia farmacêutica, disse que não se arrepende de ter comprado barras de ouro quando os preços estavam disparando no ano passado, mesmo que o investimento agora esteja no vermelho.
"O ouro é um investimento relativamente fácil para mim, pois não é tão complicado quanto outras classes de ativos, como ações e títulos de dívida", disse Zhang. "Desde que eu saiba para onde os preços do ouro estão caminhando, eu terei uma ideia se o meu investimento está bom ou ruim."
Alguns dizem que o entusiasmo da China pode enfraquecer, e que outros fatores podem influir nos preços do ouro.
Andrey Kryuchenkov, analista de commodities do banco de investimento VTB Capital, disse que está "relutante"em rotular os volumes de importação maiores como simples fenômeno sazonal.
A reviravolta no preço do ouro "não se justificaria sem um apoio fundamental, e cada ano que passa a China torna-se mais importante nesse cenário", disse Kryuchenkov.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Produção de petróleo em novembro de 2011 foi recorde
Fonte: Assessoria de Imprensa da ANP - (21) 2112-8333/8331/8332 - imprensa@anp.gov.br
A produção de petróleo em novembro de 2011 foi a maior registrada até hoje no Brasil. Foram produzidos aproximadamente 2,188 milhões barris por dia (MMbbl/d), que superaram o recorde anterior de 2,180 MMbbl/d registrado em dezembro de 2010. A produção de gás natural no Brasil foi de aproximadamente 68 milhões de metros cúbicos por dia (MMm³/d) , a segunda maior do país. O recorde de produção de gás natural foi registrado em dezembro de 2010, quando a produção foi de cerca 69,2 MMm³/d. A produção de petróleo e gás totalizou cerca de 2,615 milhões barris de óleo equivalente por dia (MMboe/d). Os dados são do Boletim da Produção da ANP disponível no site.
Em novembro de 2011 houve aumento de aproximadamente 4,8% na produção de petróleo em relação a novembro de 2010 e de 4% na comparação com o mês anterior. Na produção de gás o aumento foi de aproximadamente 2,5% frente ao mês em 2010 e de 2,4% da produção de gás natural se comparada ao mês anterior.
O Estado de São Paulo ultrapassou a Bahia e foi o quarto maior produtor de petróleo e gás natural, em barris de óleo equivalente. Com cerca de 91,7 Mboe/d, a produção no estado foi oriunda de dois campos de gás (Lagosta e Mexilhão) e de dois TLDs (blocos BM-S-9 e BM-S-40).
Os maiores aumentos de produção de petróleo foram registrados nos campos de Marlim, Jubarte e Lula, respectivamente, que juntos produziram cerca de 58 Mbbl/d a mais do que fora produzido por esses campos em outubro de 2011. O campo de Roncador foi o maior produtor de petróleo e o Rio Urucu o maior produtor de gás natural.
Ao todo 300 concessões operadas por 25 empresas distintas foram responsáveis pela produção nacional em novembro de 2011. Destas, 75 são concessões marítimas e 225 são terrestres. Das 300 concessões, dez encontram-se em atividades exploratórias e produziram através de Testes de Longa Duração (TLD), e outras nove são de campos licitados contendo Acumulações Marginais.
O grau API médio do petróleo produzido no mês foi de aproximadamente 23,6°, sendo que 8 % da produção é considerada óleo leve (>=31°API), 53,4% é óleo médio (>=22°API e <31°API) e 38,6% é óleo pesado (<22°API) (classificação de acordo com a Portaria ANP nº 09/2000). A produção de petróleo e gás natural no Brasil foi oriunda de 8.980 poços. O campo com o maior número de poços produtores foi Canto do Amaro, Bacia de Potiguar, com 1.127 poços.
PRÉ-SAL
A produção do Pré-sal foi de 157,7 Mbbl/d de petróleo e 5 MMm³/d de gás natural, totalizando 188,8 Mboe/d, um aumento de 17,5% em relação ao mês passado. A produção é oriunda de nove poços: 1BRSA108AESS e 6BRSA639ESS no Campo de Jubarte, 9BRSA716RJS, 3BRSA755ARJS e 3BRSA496RJS em Lula, 6BRSA806RJS em Caratinga e Barracuda, 6BRSA817RJS em Marlim Leste, 6BRSA770DRJS em Marlim e Voador, e 3BRSA861SPS no TLD-BM-S-9.
O poço 9BRSA716RJS, do campo de Lula, segue como o poço com maior produtor de petróleo pelo sétimo mês seguido, com uma produção de 27,3 Mbbl/d. Dos nove poços produtores de reservatórios do pré-sal, sete estão entre os 30 com maior produção total, em barris de óleo equivalente. Destaque para os poços do campo de Lula, onde os três atualmente produzindo figuram na lista dos 30 maiores produtores.
QUEIMA DE GÁS
A redução da queima de gás foi de aproximadamente 15% se comparada ao mesmo mês em 2010 e de em torno de 1,6% em relação ao mês anterior. Do total de gás natural queimado 86,4% é oriundo de campos na
Fase de Produção e 13,6% de TLDs da Fase de Exploração. Considerando apenas as concessões na Fase de Produção, o aproveitamento de gás natural no mês foi de 92,6%.
CAMPOS PRODUTORES
Aproximadamente 91,1% da produção de petróleo e gás natural foram extraídos campos operados pela Petrobras. Em torno de 91,7% da produção de petróleo e 75,8% da produção de gás natural do Brasil foram produzidos em campos marítimos. Dos 20 maiores campos produtores de petróleo, três são operados por empresas estrangeiras: Frade/Chevron (oitavo lugar), Peregrino/Statoil (10º) e Ostra/Shell (14º).
Os três campos terrestres com maior produção de petróleo e gás natural, em barris de óleo equivalente, foram Leste do Urucu, Rio Urucu e Carmópolis, respectivamente. Os campos terrestres Rio do Urucu e Leste do Urucu, ambos na Bacia de Solimões, ocuparam a primeira e a segunda posições, respectivamente, na relação de maiores produtores de gás natural, e são os únicos campos terrestres entre os 20 maiores produtores em barris de óleo equivalente.
Oito poços terrestres estão na relação dos 30 poços com maior produção de gás natural, sendo sete do campo de Rio Urucu e um do campo de Leste do Urucu.
PLATAFORMAS
A P-52, localizada no campo de Roncador, produziu, através de 13 poços a ela interligados, cerca de 128,9 Mboe/d e foi a plataforma com maior produção.
BACIAS TERRESTRES
A produção oriunda das Bacias maduras terrestres (campos/TLDs das Bacias do Espírito Santo, Potiguar, Recôncavo, Sergipe e Alagoas) foi de 180,1 Mboe/d, sendo 147,0 Mbbl/d de petróleo e 5,3 MMm³/d de gás natural. Desse total, 3,2 Mboe/d foram produzidos por concessões não operadas pela Petrobras, sendo 436,3 boe/d em Alagoas, 1.076,8 boe/d na Bahia, 16,3 boe/d no Espírito Santo, 1.580,7 boe/d no Rio Grande do Norte e 101,2 boe/d em Sergipe.
Os campos com acumulações marginais produziram ao todo 112,8 bbl/d de petróleo e 31,9 Mm³/d de gás natural. Dentre esses campos, Tigre foi o maior produtor de petróleo, com 39,2 bbl/d, e Morro do Barro foi o maior produtor de gás natural, com 29,3 Mm³/d.
Enquanto isso...
Importação de gasolina da Petrobras atinge recorde
Volume registrado foi de 70 mil barris por dia em dezembro
OGLOBO RIO - As importações de gasolina pela Petrobras atingiram o volume recorde de 70 mil barris por dia em dezembro, segundo informações do diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, à Reuters, nesta quinta-feira(08/12/11)
- Neste ano houve crescimento de 19% no consumo de gasolina em função do aumento da frota de carros, da redução da mistura de etanol na gasolina de 25 % 20% e também por conta da quebra da safra de cana que deixou os preços do etanol desvantajosos em relação aos outros combustíveis - disse Costa.
O diretor da Petrobras estima que em 2012 este cenário de alta do consumo de gasolina se mantenha. As expectativas da empresa são de um aumento de 21 % na demanda, na comparação com este ano.
- O consumo subiu 19 % em 2011 e sobre este valor ainda teremos um incremento de 21% no próximo ano – afirmou o diretor.
Segundo Costa, esse pico de importação de 70 mil barris diários para abastecer a demanda interna deverá arrefecer a partir de março do próximo ano.
- O auge do consumo de gasolina costuma ser nas férias de verão, onde as pessoas costumam viajar de carro. Depois essa demanda cai e a de diesel aumenta, em função do início da colheita das safras agrícolas - explicou.
A média de importação de gasolina em 2012 está estimada em 55 mil barris por dia. Neste ano, a média até novembro ficou em 45 mil barris por dia, segundo o executivo.
Esse volume é cinco vezes maior que a média do ano passado, de apenas 9 mil barris por dia importados.
Um outro agravante para 2012, segundo o diretor da Petrobras, é o limite da capacidade de refino da estatal, que atingiu 91 % de fator de utilização, um dos maiores do mundo.
- Aumentamos neste ano a capacidade da Refinaria Henrique Lage (Revap), em São Paulo e da Refinaria de Paulinia (Replan) , também em SP. Mas não há mais como fazer novas ampliações nas plantas já existentes e a próxima refinaria, a Abreu e Lima (PE), começará a produzir em 2013 e apenas diesel, não gasolina- disse Costa.
Sobre o patamar da taxa básica de juros no Brasil
Por Giuliano Contento de Oliveira - Valor 19/01
A despeito do processo mais recente de flexibilização da política monetária no Brasil, pode-se dizer que: 1) o patamar da taxa básica de juros brasileira ainda é muito alto, provocando distorções econômicas e financeiras não desprezíveis, incluindo aquelas desencadeadas pela atração de capital especulativo, como a valorização cambial; e 2) nada indica que mudanças no cenário internacional não possam recolocar o problema do alto patamar da taxa Selic de forma mais aguda do que atualmente. Isso porque, mesmo depois da flexibilização do regime cambial em 1999 e do crescimento significativo do crédito a partir de 2003, outros fatores que contribuem para isso persistem.
Segundo a versão convencional, a elevada taxa básica de juros no Brasil decorre do baixo nível de poupança. Parte-se do pressuposto clássico de que a taxa de juros é determinada pelo equilíbrio entre investimento e poupança, constituindo um "fenômeno real".
Essa explicação, contudo, baseia-se em pressupostos incompatíveis com a realidade das economias capitalistas contemporâneas, em que a incerteza, a não neutralidade da moeda, o dinheiro de crédito e a preferência pela liquidez são características imanentes. Além de não ser a única, a interpretação convencional não é a mais adequada para explicar a alta taxa de juros no Brasil.
Se o patamar elevado da taxa Selic decorre do baixo nível de poupança, como explicar o fato de outros países, a despeito dos níveis similares de poupança, terem taxas básicas de juros bem menores? Segundo os ortodoxos, em razão da existência de fatores que restringem a convergência da taxa de juros em direção às taxas internacionais, com destaque aos seguintes: 1) inconversibilidade monetária; e 2) política de acumulação de reservas realizada pelo Banco Central nos últimos anos.
Mas, pode-se argumentar que diversas economias, mesmo com moedas inconversíveis, apresentam juros de curto prazo bem menores do que a prevalecente no Brasil; e, antes da política de acumulação de reservas internacionais, o patamar dos juros no Brasil já era muito alto.
Na "ciência econômica", as verdades não são tão inquestionáveis assim. Aquilo que parece ser óbvio pode não ser exatamente a explicação verdadeira...
A taxa básica de juros da economia deve ser entendida como o prêmio pela abstinência da liquidez e não do consumo corrente. Nesse sentido, o elevado patamar da Selic no Brasil provém do alto prêmio cobrado pelos detentores de riqueza pela abstinência da liquidez. Isso reprime a transformação da poupança financeira em poupança econômica, uma vez que, considerando o arcabouço da indexação financeira ainda prevalecente na economia brasileira mesmo depois do fim da alta da inflação, dispor de elevada liquidez não implica a abdicação de alta rentabilidade.
Ademais, outro fator que contribui para o alto patamar da taxa básica de juros no Brasil corresponde ao baixo grau de efetividade dos canais de transmissão da política monetária. Como importantes canais que transmitem a taxa Selic para as decisões de gasto e alocação de riqueza são menos efetivos do que poderiam, a taxa básica de juros requerida para assegurar um nível de demanda agregada compatível com o cumprimento da meta para a inflação acaba sendo muito alta.
A indexação financeira, por exemplo, contribui para o desvirtuamento do canal de ativos da política monetária, além de dificultar a construção de uma curva de juros positivamente inclinada. Essa institucionalidade, entre outras distorções, incentiva o curto prazo, obstaculiza a construção de um mercado de capitais dinâmico e permite a arbitragem entre papéis prefixados e pós-fixados, incentivando o espírito especulativo em detrimento do empresarial.
O baixo grau de eficiência dos canais de transmissão da política monetária, contudo, não decorre apenas da indexação financeira. Os spreads bancários elevados limitam a efetividade do canal do crédito. O sistema de crédito subsidiado também concorre nessa direção, mas não há qualquer evidência de que os bancos privados no Brasil sejam capazes de viabilizar um sistema de financiamento de longo prazo no momento atual. O sistema de indexação dos preços dos bens, serviços e fatores ainda existente também contribui para limitar o efeito da política monetária sobre a economia. Esses são apenas alguns exemplos de fatores que restringem a eficácia da política monetária no Brasil.
Nesse sentido, pode-se sustentar que o elevado patamar da taxa básica de juros na economia brasileira decorre, principalmente, da combinação entre alto prêmio exigido pelos detentores de riqueza pela abstinência da liquidez e baixo grau de efetividade de importantes canais de transmissão da política monetária. Enquanto o primeiro desestimula a transformação da poupança financeira em poupança econômica, o segundo dificulta a compatibilização entre os níveis de oferta e demanda agregadas, sem tensões inflacionárias, a partir de um baixo patamar de taxa de juros. Ademais, o nível de inflação doméstica também concorre para uma taxa nominal superior ao patamar médio de juros nominais prevalecentes nas economias desenvolvidas, em particular.
Essas condições, evidentemente, não impedem que, circunstancialmente, o patamar da taxa básica de juros no Brasil seja menos anormalmente alto, particularmente em contextos marcados por taxas de juros excepcionalmente baixas nas economias desenvolvidas. Mas a redução permanente do patamar da taxa de juros no Brasil requer a implementação de reformas e medidas capazes de: 1) aumentar o grau de efetividade dos canais de transmissão da política monetária, sem o comprometimento do sistema de financiamento de longo prazo; e 2) compatibilizar a institucionalidade da economia brasileira ao regime de baixa inflação, o que impõe a eliminação dos mecanismos ainda prevalecentes de indexação, seja no âmbito produtivo, seja no âmbito financeiro.
Giuliano Contento de Oliveira é professor do Instituto de Economia da Unicamp.
BC reduz juros em meio ponto e taxa Selic fica em 10,5% ao ano
FSP 19/01
O Banco Central anunciou nesta quarta-feira (18) o quarto corte consecutivo na taxa básica de juros, que caiu para 10,5% ao ano, após redução de 0,5 ponto percentual.
Esta foi a primeira reunião do ano do Copom (o comitê que define a trajetória dos juros no Brasil) e confirmou a política de redução de juros iniciada pelo governo no ano passado.
A decisão foi unânime e, em comunicado divulgado logo após a reunião, o comitê justifica a redução com o objetivo de atingir a meta de inflação em 2012, de 4,5%.
"O Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012", diz o comunicado de hoje, que repetiu o que divulgou em sua última reunião.
O corte dos juros já era esperado pelo mercado financeiro. A expectativa dos analistas agora é que o BC faça mais duas reduções nos próximos meses, o que traria a taxa básica para 9,5% ao ano.
A taxa fechou 2011 em 11%. Para 2013, o mercado prevê uma Selic de 10,25%.
A redução dos juros é uma das medidas adotadas pelo governo desde agosto para evitar uma desaceleração mais forte da economia brasileira por conta da crise financeira internacional.
Mas os sinais de melhora da economia aqui e lá fora, além do tom mais cauteloso do BC no Relatório de Inflação divulgado em dezembro, têm aumentado a expectativa de que o ciclo de queda dos juros seja interrompido antes de abril, com apenas mais um corte além da de hoje.
Para manter o crescimento da economia, o BC também já retirou algumas restrições ao crédito, inclusive nas operações com veículos e desconto em folha de pagamento, além de reduzir impostos sobre financiamentos ao consumo, entre outras medidas.
Outro fator que contribui para a queda dos juros é a mudança no cálculo do índice oficial de inflação (IPCA), anunciada no ano passado pelo IBGE, que reflete alterações no perfil dos gastos dos brasileiros. Com base apenas nesta mudança, vários economistas reduziram suas projeções de inflação, o que abre espaço para cortes maiores dos juros.
A redução da Selic, no entanto, não retira o Brasil da posição de país com a maior taxa de juros entre as economias mais importantes.
O Banco Central anunciou nesta quarta-feira (18) o quarto corte consecutivo na taxa básica de juros, que caiu para 10,5% ao ano, após redução de 0,5 ponto percentual.
Esta foi a primeira reunião do ano do Copom (o comitê que define a trajetória dos juros no Brasil) e confirmou a política de redução de juros iniciada pelo governo no ano passado.
A decisão foi unânime e, em comunicado divulgado logo após a reunião, o comitê justifica a redução com o objetivo de atingir a meta de inflação em 2012, de 4,5%.
"O Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012", diz o comunicado de hoje, que repetiu o que divulgou em sua última reunião.
O corte dos juros já era esperado pelo mercado financeiro. A expectativa dos analistas agora é que o BC faça mais duas reduções nos próximos meses, o que traria a taxa básica para 9,5% ao ano.
A taxa fechou 2011 em 11%. Para 2013, o mercado prevê uma Selic de 10,25%.
A redução dos juros é uma das medidas adotadas pelo governo desde agosto para evitar uma desaceleração mais forte da economia brasileira por conta da crise financeira internacional.
Mas os sinais de melhora da economia aqui e lá fora, além do tom mais cauteloso do BC no Relatório de Inflação divulgado em dezembro, têm aumentado a expectativa de que o ciclo de queda dos juros seja interrompido antes de abril, com apenas mais um corte além da de hoje.
Para manter o crescimento da economia, o BC também já retirou algumas restrições ao crédito, inclusive nas operações com veículos e desconto em folha de pagamento, além de reduzir impostos sobre financiamentos ao consumo, entre outras medidas.
Outro fator que contribui para a queda dos juros é a mudança no cálculo do índice oficial de inflação (IPCA), anunciada no ano passado pelo IBGE, que reflete alterações no perfil dos gastos dos brasileiros. Com base apenas nesta mudança, vários economistas reduziram suas projeções de inflação, o que abre espaço para cortes maiores dos juros.
A redução da Selic, no entanto, não retira o Brasil da posição de país com a maior taxa de juros entre as economias mais importantes.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
China desacelera e já abre debate sobre taxa de crescimento menor
Por Jamil Anderlini
Financial Times, de Pequim
Pelos padrões de quase qualquer economia, a alta para 8,9% na taxa de crescimento anual chinesa no quarto trimestre do ano passado seria um sucesso. No entanto, o ânimo em Pequim ontem era sombrio quando o governo anunciou seu menor crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 10 trimestres.
A China iniciou 2011 com uma taxa de crescimento de 9,7% no primeiro trimestre e um governo focado na luta contra a inflação, mas terminou com um crescimento de 9,2% do PIB para o ano inteiro, a mesma taxa registrada em 2009, ano mais afetado pela crise financeira, sendo esse o menor nível desde 2002.
À primeira vista, a desaceleração - para 9,5% no segundo trimestre, 9,1% no terceiro e agora 8,9% no quarto - era exatamente a meta de Pequim para o ano passado, especialmente porque a inflação anualizada atingiu um pico de 6,5% em julho, caindo para 4,1% no fim de dezembro.
No entanto, na coletiva de imprensa para divulgar os números, o Birô Nacional de Estatísticas expressou o temor de que as coisas vão, provavelmente, piorar. "Em termos da situação nacional e internacional, 2012 será um ano de complexidade e desafios, de modo que devemos estar totalmente preparados", disse o porta-voz Ma Jiantang, num discurso povoado de termos como "sombrio", "complicado" e "severo".
A maioria dos analistas, sejam otimistas ou pessimistas sobre as perspectivas de longo prazo para a China, espera que o crescimento volte a cair nos próximos meses, para bem abaixo de uma taxa anualizada de 8%, no primeiro trimestre. Alguns estão até prevendo para o ano inteiro, um crescimento baixo, de até 7,5%, em 2012.
No entanto, há quase uma década o Partido Comunista formulou a política econômica na suposição de que 8% de crescimento do PIB é o mínimo necessário para evitar instabilidade social capaz de ameaçar o sistema unipartidário. Com a economia em desaceleração, o governo parece estar repensando essa fórmula, embora não a premissa básica.
Em comentários divulgados na semana passada, Yu Yongding, um economista acadêmico e consultor do governo, disse que o crescimento de 7% a 8% do PIB seria aceitável, mas abaixo de 7% seria um sinal de uma crise econômica, ou mesmo de crise política.
"As autoridades ainda estão claramente tentando navegar entre os perigos gêmeos de reestimular excessivamente a economia e fazer com que o atual desaquecimento se acentue perigosamente", disse Stephen Green, economista do Standard Chartered. "Muitas autoridades acreditam que a economia precisa ser desalavancada e que China precisa se acostumar a uma taxa de crescimento mais baixa."
Os sinais são de que o ritmo de desaceleração da China ainda está dentro da zona de conforto do governo, e a maioria dos economistas acredita que Pequim será capaz de engendrar um "pouso suave", a uma taxa menor de crescimento de longo prazo acima desse novo nível.
A desaceleração tem sido gradual e em grande parte resultado de medidas para conter o crédito e esfriar a alta inflacionária. No entanto, embora Pequim tenha sido capaz de montar, três anos atrás, um pacote de estímulo de 4 trilhões yuans destinado a contrabalançar os efeitos da crise econômica mundial, parece não estar em condições de repetir isso hoje.
"A probabilidade e provável eficácia de um grande estímulo é muito menor, agora que o governo ainda está enfrentando a ressaca da última rodada de estímulo", disse Huang Yiping, economista-chefe do Barclays Capital na China. Ele acredita que Pequim será capaz de conseguir um crescimento pouco acima de 8% em 2012, mas vê riscos para essa previsão.
"A China tem muitos governos locais pesadamente endividados e foi palco de uma extraordinária expansão do crédito, que contribuiu para a formação de grandes bolhas de ativos, especialmente no setor de habitação, nos últimos anos", afirmou ele.
Os maiores riscos para a economia originam-se dos dois setores que vem puxando o crescimento chinês nos últimos 10 anos - exportações e imóveis residenciais.
As exportações para os EUA e a Europa desaceleraram no quarto trimestre do ano passado e a expectativa é de que encolham bem mais, particularmente as detinadas à Europa. A correção no mercado imobiliário residencial parece estar em curso, depois de quase dois anos de políticas governamentais destinadas a frear a alta nos preços dos imóveis.
A área de espaço habitacional em construção caiu 25% em dezembro, ao passo que a área vendida caiu 8,4%, em comparação com o ano anterior, frente a um crescimento médio de 12,9% no terceiro trimestre de 2011.
Os investimentos imobiliários respondem diretamente por cerca de 13% do PIB, de modo que um colapso no setor teria repercussões não apenas na China, mas também em países exportadores de commodities que dependem do setor de construção civil chinês para seu próprio crescimento.
Os motores de crescimento chinês estão falhando e, por isso, o melhor que o governo pode esperar é uma desaceleração gradual e ordenada.
Emergentes transferem US$ 827 bi a ricos
Por Assis Moreira - Valor 18/01
De Genebra
As economias emergentes transferiram US$ 826,6 bilhões para as nações ricas em 2011, numa alta de 25,3% em relação ao ano anterior, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
Em relatório sobre as perspectivas econômicas globais para 2012, a entidade diz que isso se explica pelo acumulo adicional de US$ 1,1 trilhão em reservas internacionais dos emergentes em 2011, que atualmente totalizam US$ 7 trilhões.
A vasta maioria desse dinheiro continuou a ser aplicada em títulos do Tesouro americano, de baixíssimo rendimento, e em outros títulos de dívida pública. O resultado foi a transferência líquida de recursos financeiros de emergentes para o mundo desenvolvido em crise, como em anos anteriores, só que em ritmo maior dos que o dos últimos dois anos.
A maior transferência foi de países asiáticos, refletindo os saldos comerciais e alta acumulação de reservas, sob a liderança da China. No entanto, no último trimestre de 2011, pela primeira vez em uma década, as reservas da China declinaram US$ 20,5 bilhões, acompanhado a baixa de seu saldo comercial.
Mas Pequim continua a controlar US$ 3,2 trilhões em reserves internacionais, quase o triplo das reservas do Japão, o segundo maior detentor desses recursos. Analistas acham que a queda chinesa foi temporária e as reservas voltarão a subir este ano - a questão é até que ponto os chineses vão diversificar os investimentos em títulos de outros emergentes com expansão robusta e rendimento melhor.
Em 2011, a América Latina transferiu liquidamente cerca de US$ 54 bilhões, mesmo nível do ano anterior, para o mundo desenvolvido. Até os países mais pobres do mundo transferiram dinheiro em termos líquidos para os ricos, cerca de US$ 7 bilhões.
Por outro lado, a ONU calcula que o fluxo de capital privado para os emergentes e economias em desenvolvimento aumentou para US$ 575 bilhões em 2011, comparado a US$ 90 bilhões em 2010 - ou seja, alta de 538,8%.
O maior componente desse fluxo foi de Investimento Direto Estrangeiro (IDE). Foram US$ 429 bilhões, mais de US$ 100 bilhões do que no ano anterior, ilustrando a confiança das empresas na expansão dessas economias. A Ásia recebeu 45% do total, seguido pela América Latina. A expectativa é de que esse fluxo continuará aumentando.
Já o fluxo de portfólios de curto prazo começou a declinar fortemente no segundo semestre, com investidores retirando recursos das ações de emergentes. A ONU calcula que a entrada líquida desse tipo de capital declinou 35%, numa prova de sua volatilidade.
Na verdade, dados atualizados ontem pelo RBC Capital, do Royal Bank of Canadá, estimam que a deterioração moderada do fluxo para portfólio acelerou no terceiro trimestre, e continuou negativo no fim do ano. E o resultado foi a redução de mais de US$ 130 bilhões em 2011, ante os US$ 240 bilhões de fluxo que tinha tomado os rumos dos emergentes nessa categoria em 2010.
Segundo RBC Capital, os países mais severamente afetados foram a Coreia, o Brasil e a República Checa. No Brasil, isso se explica em parte pela taxação no fluxo de capital de curto prazo.
De maneira geral, países que mostraram mais resiliência à saída de capital de curto prazo, como Chile e Colômbia, tiveram menos desvalorização de suas moedas no período, segundo o banco canadense.
Para o próximo ano, tanto os economistas da ONU como os bancos projetam alta volatilidade nos fluxos de capital para os emergentes.
Em crise, capitalismo ocidental vê dinamismo se mudar para a Ásia
Por David Pilling
Financial Times
Alguns anos atrás, teria sido difícil, senão impossível, imaginar os líderes europeus, tigela na mão, recorrendo ao socorro financeiro de Pequim. Igualmente, poucos teriam previsto que líderes chineses em visita a Washington repreenderiam publicamente os políticos americanos pela má gestão da maior economia do mundo. Mas o mundo mudou. A implosão do sistema financeiro nos EUA e na Europa em 2008 e a crise da dívida soberana europeia deflagrada no ano passado têm acelerado o deslocamento do dinamismo econômico para a Ásia.
Em 2012, os EUA e a Europa provavelmente estarão flertando com uma recessão na maior parte do ano. Salvo um pouso forçado na China, a Ásia, exclusive o Japão, deverá continuar a avançar bem, a cerca de 7%, segundo a maioria dos economistas.
A mudança dramática na sorte dos países gerou um certo triunfalismo entre alguns asiáticos. "Não há crise do capitalismo", diz Meghnad Desai, professor emérito da London School of Economics. "Há uma crise do capitalismo ocidental, que entrou na terceira idade. O capitalismo dinâmico, com sua energia, inovação e pura gana de crescer foi para o Oriente."
Desai não está sozinho na percepção de uma espécie de punição moral. Os países asiáticos foram "atropelados" pelo Ocidente durante séculos, diz ele, e até há relativamente pouco tempo eram acusados veementemente de serem "casos perdidos" incapazes de prover suas necessidades alimentares. Agora, diz ele, é o povo do sul em geral e da Ásia em particular que estão administrando de forma mais eficiente as forças geradoras de riqueza do capitalismo.
Mas essa sensação triunfalista tem limites. Por pelo menos três razões interligadas, a crise do capitalismo no Ocidente é profundamente inquietante também para o Oriente.
Em primeiro lugar, com exceção do Japão, da Coreia do Sul e de alguns pequenos países, como Cingapura, as nações asiáticas continuam a ser majoritariamente pobres ou, na melhor das hipóteses, de renda média. Muitas tinham traçado um caminho rumo à prosperidade futura mediante a adoção de políticas cada vez mais "capitalistas" de abertura de suas economias às forças do mercado, afrouxando o controle do Estado sobre os bancos, juros e câmbio. Mas esse caminho para a prosperidade agora parece cada vez mais perigoso, vulnerável a altos e baixos e a catástrofes financeiras.
Os tecnocratas asiáticos que confiam numa mudança gradual para um capitalismo de livre mercado, muitas vezes em oposição a vozes mais intervencionistas ou nacionalistas em casa, estão confusos ou desiludidos. Changyong Rhee, economista-chefe do Banco de Desenvolvimento Asiático (BDA), diz que grande parte disso vem do fato de os governos ocidentais terem mudado de tom radicalmente desde a crise financeira da própria Ásia, em 1997. Na época, o Fundo Monetário Internacional - padrasto do laisser-faire pregado pelo Consenso de Washington - receitou remédios drásticos para economias como as de Tailândia, Indonésia e Coreia. Esses países foram orientados a cortar gastos governamentais mesmo nas garras da recessão, a aumentar as taxas de juros, a cortar os vínculos entre os bancos e o Estado; e a desregulamentar. Agora, porém, as economias ocidentais estão prescrevendo quase o oposto para si mesmas. Elas estão apertando sua política fiscal, reduzindo as taxas de juros e usando dinheiro público para salvar bancos.
Do ponto de vista asiático, isso faz o Ocidente parecer hipócrita, na melhor das hipóteses. Na pior, parece que as acalentadas premissas sobre como governar uma economia são besteirol cínico. "Nós nos sentimos amargos", diz Rhee. "Nós queríamos praticar essas políticas intervencionistas, mas fomos proibidos de praticá-las. Então, qual modelo devemos seguir agora?" A China, diz ele, tinha se comprometido com uma reforma gradual do mercado. "A questão era: qual seria a velocidade certa? Agora, eles estão se perguntando se o destino está correto ou não."
Richard Koo, economista-chefe do Nomura Research Institute, analisa a crise do ponto de vista do Japão. Tóquio, diz ele, foi repreendida durante anos pelos formuladores de políticas ocidentais por não liquidar contabilmente seus empréstimos problemáticos mais rapidamente e por não tomar mais medidas drásticas de política monetária para reaquecer a economia. O que eles não compreenderam foi que numa "recessão de balanço de pagamentos" em período pós-colapso econômico, quando o setor privado fica muito endividado, soluções econômicas normais deixam de funcionam, diz ele. Os manuais de economia não contêm respostas para os atuais problemas do capitalismo.
"O que nós passamos nos últimos 20 anos no Japão, e que os EUA e o Reino Unido agora estão passando, é que, mesmo com taxas de juros nulas, as pessoas não querem tomar empréstimos", diz ele. "Elas limitam-se a pagar suas dívidas." Se ele estiver certo, então as economias ocidentais tendem a passar por um prolongado período, ao estilo japonês, de crescimento lento. Pode não servir de grande consolo, mas Tóquio, pelo menos, poderá dizer: "Nós avisamos".
A segunda razão pela qual os problemas do Ocidente são desconcertantes para o Oriente é que, a despeito de toda a conversa, antes na moda, sobre valores asiáticos, nenhuma economia da região criou uma alternativa coerente ao capitalismo. Sem dúvida, houve variações sobre o tema, inclusive um Estado mais intervencionista. Mas os experimentos anticapitalistas radicais, principalmente o comunismo de estilo chinês e o "socialismo" da Índia de Nehru (1889-1964), foram grandes fracassos.
A China abandonou o comunismo no fim dos anos 1970, quando Deng Xiaoping abriu a economia para as forças do mercado. Em 1991, a Índia abandonou sua própria versão de socialismo, que a havia condenado à penosa "taxa hindu de crescimento". Outros países, como o Vietnã, seguiram o exemplo, abrindo suas economias, promovendo seu próprio crescimento rápido. Por outro lado, aqueles que aferraram-se obstinadamente a sistemas não centrados no mercado, como a Coreia do Norte, Mianmar e Laos, continuaram chafurdando na pobreza.
Terceiro, os asiáticos não estão em posição de alegrar-se com uma crise do capitalismo no Ocidente, uma vez que suas economias, nas palavras de Donald Tsang, executivo-chefe de Hong Kong, todos estão no mesmo barco mundial. "Se parte do barco tem um buraco no meio, você não pode manter-se à tona", diz ele. Na Índia, existem preocupações profundas com que uma história de crescimento impulsionado por empresas familiares e por financistas capitalistas ocidentais possa estar desaparecendo. Mesmo a China está desacelerando, e uma minoria de economistas prevê um pouso forçado.
Pouca gente na Ásia ainda afirmaria que os asiáticos podem viver sem uma sólida demanda dos EUA e da Europa. Zhu Min, economista chinês e vice-diretor-gerente do FMI, disse recentemente que os consumidores chineses responderam por apenas US$ 2 trilhões da demanda, em comparação com os consumidores americanos, que mesmo em sua atual situação precária, gastaram cerca de US$ 10 trilhões em um ano. Se o capitalismo ocidental está em chamas, as labaredas cedo ou tarde lamberão as portas da Ásia.
A crise do capitalismo no Ocidente coloca muitas questões quanto à gestão adequada das economias asiáticas. O tema unificador é: quão ativo deve ser o papel do Estado? As economias asiáticas têm sido criticadas por especialistas ocidentais por serem demasiado intervencionistas. Até recentemente, o plano, para a maioria, era remover gradualmente a mão balizadora do Estado. Mas o fracasso da teoria ocidental de mercado racional e as armadilhas óbvias de regulamentação moderada deixaram algumas autoridades econômicas asiáticas mais cautelosas quanto a marchar aceleradamente no caminho da liberalização.
A questão de como o Estado deve agir envolve quase tudo, de supervisão financeira a política industrial. Um dos temas mais cruciais é o papel dos bancos. Na Ásia, eles tendem a ter uma função mais estreita: seu papel tem sido canalizar dinheiro para a economia "real", principalmente o setor de manufatura.
Os asiáticos poderiam ser tentados a manter-se dentro de seu estreito modelo - não apenas é menor a probabilidade de esses bancos colocarem a economia em apuros, como também é mais fácil controlar seu comportamento em tempos de estresse. Desde 2008, Pequim julgou útil ter bancos "domesticados" através dos quais o governo pode alocar crédito à economia real a taxas de juros fixas. Agora que eles já viram os perigos de deixar os bancos à vontade, por que partiriam os governos asiáticos para modelos mais "sofisticados" de bancos ocidentais?
Yao Yang, da Escola Nacional do Desenvolvimento, na Universidade de Pequim, argumenta que essa seria uma lição totalmente errônea. "Há pessoas na China, tanto no governo como na intelligentsia, para as quais a China deveria voltar a seu antigo modelo centrado no governo", diz ele. "No entanto, a maioria das pessoas ainda acredita que a China precisa continuar em seu caminho rumo a uma economia mais aberta."
Outros ressaltam o fato de que os bancos sob governança estatal podem entrar - e realmente entram - em apuros ao alocar capital de acordo com o "diktat" do governo. Rhee, do BDA, diz que as economias asiáticas fariam mal em abandonar o aprofundamento de seus mercados de capital. "Se você não viajar de avião, não acontecerá nenhum acidente", diz ele sobre as recentes catástrofes ocidentais. "O Ocidente tem muitos aviões, por isso caem. Deveríamos não ter aviões?"
Uma questão pendente de resposta, com a crise do capitalismo, é em que medida deveriam as sociedades asiáticas ser desiguais. Muitos países, principalmente a China e a Índia entre eles, têm estratégias de crescimento baseadas na "teoria do gotejamento" - segundo a qual todos acabarão se beneficiando com o surgimento de uma classe de super-ricos. Mas, como no Ocidente, os asiáticos estão questionando essa abordagem de laisser-faire.
"A vantagem do modelo anglo-saxão é clara. Incentiva a inovação, é versátil e promove as liberdades individuais", diz Yao. "Mas suas desvantagens são igualmente evidentes. É muito fluido, cruel para os trabalhadores e desencadeia grandes forças destrutivas quando irrompem crises econômicas." Ele prefere um sistema nórdico: altos impostos, relativa igualdade e menos bolhas nos ciclos econômicos. Mas na Ásia, somente o Japão e a Coreia do Sul se aproximam, e apenas de longe, desse modelo.
Depois de o Ocidente ter despejado tantas regras, os asiáticos podem ter algum prazer em face do desconforto americano e europeu. No entanto, a única grande economia asiática que se aproximou dos padrões de vida americano foi a do Japão, no fim dos anos 1980 e início dos 1990, e sua economia estagnou antes que pudesse consolidar sua posição dominante. A China construiu uma máquina de produzir rápido crescimento em um país pobre, mas não há garantias de que será capaz de igualar os padrões de vida ocidentais se não promover uma reforma radical.
Certamente, no contexto de uma definição ampla de capitalismo, o Estado pode ser maior ou menor; pode intervir mais ou planejar menos. Essas alternativas de política econômica estão em discussão em muitos países asiáticos. No fim das contas, porém, a maioria está convencida pelo capitalismo - e, na ausência de algo melhor, aqueles que querem elevar a renda de seu povo terão de praticá-lo em alguma forma.
"Se você olhar a China, verá que o país mostra efetivamente o poder do capitalismo, o poder dos mecanismos e incentivos de mercado", diz Rhee. "Alguns elementos do capitalismo são evidentemente necessários." (Tradução de Sergio Blum)
Assinar:
Postagens (Atom)













