quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Os Super Mários precisam de ajuda
Por Martin Wolf - Valor 18/01
Será que os dois Mários - Mario Monti, novo primeiro-ministro tecnocrata da Itália, e Mario Draghi, o ainda novo presidente do Banco Central Europeu (BCE) - salvarão a Europa? Não.
Mas indivíduos podem fazer a diferença. Os dois trazem à mesa seu pragmatismo refinado. Sem isso, a estrutura falha atual não sobreviverá. As autoridades monetárias precisarão ser tanto mais cooperativas como mais flexíveis. Os custos políticos e econômicos de uma ruptura seriam tão grandes que precisamos esperar o melhor. Talvez, os dois Mários orientem as políticas adotadas a uma direção mais produtiva.
Os ventos trazem dois sinais sobre o futuro.
O primeiro é a nova operação de refinanciamento de longo prazo, anunciada pelo Banco Central Europeu (BCE) em dezembro. Com os bancos sob pressão feroz de financiamento, a oferta de dinheiro, a ser pago em três anos sob a taxa referencial média do BCE (hoje em 1%), sem estigma, foi algo que os bancos da região do euro não puderam recusar. A captação inicial foi de €489 bilhões, por 523 bancos. O balanço do BCE está para explodir. Foi uma decisão ousada e inteligente de Draghi e provavelmente foi o mais longe que ele conseguiu ir neste momento.
O financiamento barato de longo prazo oferecido pelo banco central ajudou a estabilizar o sistema financeiro da região do euro. Está bem menos claro se conseguirá estabilizar os mercados de títulos de dívidas soberanos. A maioria dos bancos europeus provavelmente resistirá a comprar títulos soberanos de maior risco, tendo em vista a pressão da Autoridade Bancária Europeia (EBA, na sigla em inglês) para que elevem seu capital. Os bancos domésticos, no entanto, poderiam tomar decisões diferentes, provavelmente sob pressão. Isso ajudaria a financiar governos vulneráveis, mas também aumentaria a concentração de risco nos bancos domésticos, que é alta: em meados de 2011, 28% dos títulos da Espanha e 27% dos italianos estavam em mãos de bancos domésticos, de acordo com estudo de Jean Pisani-Ferry elaborado para o Bruegel, um centro de estudos com sede em Bruxelas*.
O segundo é a disposição de Mario Monti em argumentar, em entrevista no "Financial Times", que os países credores devem esforçar-se mais para reduzir os custos de empréstimo de seu país, chegando até a alertar para a "poderosa reação adversa" que haveria entre os eleitores na periferia, caso não o façam. Monti encontra-se em posição fortalecida para argumentar isso. Se não fosse ele, quem seria? Se não agora, quando? Ele é uma autoridade respeitada com firmes visões pró-europeias e forte simpatia pelas atitudes da Alemanha no que se refere à concorrência e à estabilidade monetária e fiscal.
Os senhores Draghi e Monti enfrentam duas fragilidades interligadas: a vulnerabilidade do sistema bancário e os termos insustentáveis de captação enfrentados pelos países mais enfraquecidos atualmente. Eles, contudo, não podem resolver essas dificuldades. Para isso, precisariam de mais radicalismo do que ambos podem proporcionar por conta própria.
O estudo de Pisani-Ferry e outro cuja coautoria é de Paul de Grauwe, da universidade de Leuven, indicam que problemas mais profundos precisam ser resolvidos**. Pisani-Ferry argumenta que o debate na reforma se concentra na disciplina fiscal, mesmo com o fracasso em seguir essas regras fiscais tendo desempenhado papel pequeno como causa da crise atual. O que precisa ser compreendido, sugerem os dois estudos, é a fragilidade da região do euro como estrutura, em três aspectos interligados: a falta de qualquer responsabilidade conjunta para as dívidas públicas; a ausência de apoio monetário para a captação soberana, mesmo em uma crise severa; e a conexão próxima entre os países e os bancos domésticos.
O que é impressionante sobre os spreads de risco nos títulos de dívidas soberanas da região do euro é que não são igualados pelos papéis dos países de alta renda com bancos centrais próprios, como o Reino Unido, mesmo com seus déficits ou dívidas sendo, algumas vezes, maiores do que os dos países comparáveis da região do euro. É por isso que a França está compreensivelmente irritada com seu rebaixamento de classificação das dívidas, enquanto o Reino Unido permanece (por enquanto) com sua nota "triplo A". Os investidores que compraram o que se tornaram dívidas "subsoberanas" enfrentam um risco de liquidez, que pode atingi-los a qualquer momento.
Esse aumento de vulnerabilidade a crises de dívidas soberanas ou financeiras não é a única ameaça que enfraquece os países da região do euro. Eles também se deparam com a tarefa de fazer um ajuste maior do que os países com taxas de câmbio flexíveis. O perigo, entretanto, é que a severidade das crises financeiras atingindo os países do euro os prive do tempo que precisam para assegurar melhoras na competitividade. No caso da Itália, por exemplo, a combinação de taxas de juros elevadas e bancos vulneráveis com austeridade fiscal provavelmente levará a uma recessão profunda e prolongada e, portanto, a um aumento nos déficits fiscais cíclicos, enquanto o déficit estrutural cai. Nessas circunstâncias, para um país grande, seria um trabalho de Sísifo tentar recuperar-se por vias deflacionárias.
Pisani-Ferry argumenta que há várias reformas possíveis: uma supervisão e garantia federal genuína para os bancos; a reforma do BCE, para torná-lo um banco central mais moderno; ou algo próximo a um federalismo fiscal. Tudo isso cria dificuldades. Se o status quo fracassar e a ruptura estiver descartada, é preciso optar por reformas, mesmo que dolorosas.
Se perguntarmos por que as mudanças necessárias são tão difíceis, a resposta provavelmente é tripla. Primeiro, este projeto foi uma aposta sobre até que ponto os cidadãos de países-membros se sentiriam "europeus". A resposta, até agora, é "não suficientemente" ou mesmo, talvez, "cada vez menos". Segundo, o projeto foi uma aposta na habilidade de chegar-se a um consenso sobre um diagnóstico compartilhado e soluções aplicáveis em tempos de crise. Até agora, isso está em falta. Por fim, o projeto também foi uma aposta de que, em crises, uma liderança surgiria. Mais uma vez, ainda estamos esperando por isso.
Os custos de um fracasso, no entanto, são tão grandes que a possibilidade de reformas na região do euro devem ser mantidas vivas. A liderança de Draghi no BCE pode ajudar a fazer isso. Enquanto isso, Monti está em posição de seduzir outros países, incluindo a Alemanha, em direção às reformas. Ele pode confrontar o poder dos credores falando a dura verdade. Eles ouvirão com atenção. (Tradução de Sabino Ahumada)
* The Euro Crisis and the New Impossible Trinity (A crise do euro e a nova trindade impossível, em inglês), janeiro de 2012, http://www.bruegel.org/
** "Mispricing of Sovereign Risk and Multiple Equilibria in the eurozone" (A precificação equivocada do risco soberano e múltiplo equilíbrio da região do euro), janeiro de 2012
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT
Entrevista direta no fígado: esta ministra deveria ser cogitada para ir para o Supremo. Infelizmente, não está. Mas vejam sua franqueza e coragem
Entrevista direta no fígado: esta ministra deveria ser cogitada para ir para o Supremo. Infelizmente, não está. Mas vejam sua franqueza e coragem
Vejam a entrevista da Ministra Eliane Calmon, Corregedora do CNJ, e digam se não é a mais pura verdade o que ela tem coragem de dizer!
A frase da Ministra "eu sou uma rebelde que fala" deveria ser não uma atitude de rebeldia, mas de caráter, de dignidade, de honra que deveria ser comum
no Judiciário brasileiro. Infelizmente, não é, por isso aplaudo a Ministra, como cidadã e como mulher. Ela enobrece a nossa classe. VIVAS pra ela! Hurras!!!
O STF precisava ter pessoas desse calibre lá. O problema é que é indicação do Presidente da República, aí entra a politicagem....
Vejam a entrevista da Ministra Eliane Calmon, Corregedora do CNJ, e digam se não é a mais pura verdade o que ela tem coragem de dizer!
A frase da Ministra "eu sou uma rebelde que fala" deveria ser não uma atitude de rebeldia, mas de caráter, de dignidade, de honra que deveria ser comum
no Judiciário brasileiro. Infelizmente, não é, por isso aplaudo a Ministra, como cidadã e como mulher. Ela enobrece a nossa classe. VIVAS pra ela! Hurras!!!
O STF precisava ter pessoas desse calibre lá. O problema é que é indicação do Presidente da República, aí entra a politicagem....
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
TV ON LINE
BC AFIRMA QUE EXISTE MILHARES DE MOEDAS DE 1 CENTAVO CIRCULANDO PELO PAÍS
TEMPO: 00:02:26
O Banco Central afirma que existe milhares de moedas de 1 centavo circulando pelo país, mas os comerciantes afirmam que elas sumiram do mercado e dificultam o troco. Para o PROCON, o consumidor não deve abrir mão do dinheiro, mas tem gente que nem liga.
O diretor-geral do PROCON, Oswaldo Morais, explica que o comerciante tem que arredondar o preço do produto para um valor menor ou oferecer um vale crédito e, ainda, alertar o consumidor a exigir o troco.
*OSWALDO MORAIS,Gerente Geral do PROCON.
TV: TV RECORD DF
PROGRAMA: DF NO AR
APRESENTADOR: GIULIANNO CARTAXO
AGÊNCIA STANDARD AND POOR’S REBAIXA FUNDO DE RESGATE EUROPEU TEMPO: 00:01:48
A agência de classificação de risco Standard and Poor’s rebaixou o fundo de resgate europeu. O fundo usado para socorrer economias com problemas perdeu o chamado de AAA, a nota máxima. Isso quer dizer que a Standard and Poor’s está menos confiante na capacidade de o fundo honrar seus compromissos.
A redução é um desdobramento do rebaixamento da França e de outros oito países da Zona do Euro, na sexta-feira (13). Em nota, o fundo de resgate afirmou que tem dinheiro suficiente em caixa.
TV: TV GLOBO DF
PROGRAMA: JORNAL NACIONAL
APRESENTADOR: WILLIAM BONNER
DIRETOR-EXECUTIVO DO IEDI DEFENDE INVESTIMENTOS NA INDÚSTRIA - PARTE 1 TEMPO: 00:04:27
DIRETOR-EXECUTIVO DO IEDI DEFENDE INVESTIMENTO NA INDÚSTRIA - PARTE 2
TEMPO: 00:04:49
Em entrevista ao Conta Corrente, o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, falou sobre a crise na Europa que influencia a economia nacional e internacional.
*JÚLIO SÉRGIO GOMES DE ALMEIDA, diretor-executivo IEDI
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
TEMPO: 00:02:26
O Banco Central afirma que existe milhares de moedas de 1 centavo circulando pelo país, mas os comerciantes afirmam que elas sumiram do mercado e dificultam o troco. Para o PROCON, o consumidor não deve abrir mão do dinheiro, mas tem gente que nem liga.
O diretor-geral do PROCON, Oswaldo Morais, explica que o comerciante tem que arredondar o preço do produto para um valor menor ou oferecer um vale crédito e, ainda, alertar o consumidor a exigir o troco.
*OSWALDO MORAIS,Gerente Geral do PROCON.
TV: TV RECORD DF
PROGRAMA: DF NO AR
APRESENTADOR: GIULIANNO CARTAXO
AGÊNCIA STANDARD AND POOR’S REBAIXA FUNDO DE RESGATE EUROPEU TEMPO: 00:01:48
A agência de classificação de risco Standard and Poor’s rebaixou o fundo de resgate europeu. O fundo usado para socorrer economias com problemas perdeu o chamado de AAA, a nota máxima. Isso quer dizer que a Standard and Poor’s está menos confiante na capacidade de o fundo honrar seus compromissos.
A redução é um desdobramento do rebaixamento da França e de outros oito países da Zona do Euro, na sexta-feira (13). Em nota, o fundo de resgate afirmou que tem dinheiro suficiente em caixa.
TV: TV GLOBO DF
PROGRAMA: JORNAL NACIONAL
APRESENTADOR: WILLIAM BONNER
DIRETOR-EXECUTIVO DO IEDI DEFENDE INVESTIMENTOS NA INDÚSTRIA - PARTE 1 TEMPO: 00:04:27
DIRETOR-EXECUTIVO DO IEDI DEFENDE INVESTIMENTO NA INDÚSTRIA - PARTE 2
TEMPO: 00:04:49
Em entrevista ao Conta Corrente, o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, falou sobre a crise na Europa que influencia a economia nacional e internacional.
*JÚLIO SÉRGIO GOMES DE ALMEIDA, diretor-executivo IEDI
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
A guerra não é fruto da "natureza do ser humano" e sim da necessidade de lucro do sistema econômico
Por Werter de Macêdo
O ponto é que as guerras no passado tinham uma justificativa:
o excedente econômico era muito menor, digo, as condições objetivas de sobrevivência da espécie humana eram muito mais extremas. Não há termos de comparação entre os estágios de desenvolvimento da técnica no Neolítico e no capitalismo.
A guerra sob o capitalismo é muito mais amoral porque ela se dá em condições de relativa abundância material. Temos todas as condições de acabar com a fome na África, mas preferimos açular os ódios tribais para vender armas aos dois lados em conflito.
É assim que age o seu império bonzinho.
É assim porque o lucro é o principal móvel das ações humanas sob o capitalismo.
Do mesmo modo é a crise econômica sob o capitalismo? Qual a razão da crise? Existem restrições técnicas ao aumento da produção? Houve alguma catástrofe natural na Europa? Existe restrição de oferta de engenheiro, de agrônomos, físicos, matemáticos, administradores, economistas? Existem restrições de máquinas, equipamentos, de conhecimento tecnológico?
A resposta é não, mas por que a crise? É claro que é possível se aumentar a produção.
O que não é possível é se aumentar a produção com aumento na taxa de lucro e da acumulação.
É por essa razão que o sistema emperra e os donos dos capitais resolvem parar as máquinas e o crédito.
O que frustra é ver que o capitalismo não foi capaz de abolir as guerras e seus ideólogos responsabilizam o ser humano pela reiteração das guerras.
Seriam as guerras um produto da natureza humana?
E quando observamos hoje a retórica agressiva da Otan e do departamento de Estado americano chegamos à conclusão de que a paz é uma miragem distante.
Nunca os gastos com a despesa militar foram tão elevados. E isso para enfrentar quem? Cuba? Coréia do Norte?
Quando existia a União Soviética ainda fazia algum sentido.
Nenhum império se arma para defender valores. Eles se armam para promover o saque.
Werter de Macêdo é analista do BC
O ponto é que as guerras no passado tinham uma justificativa:
o excedente econômico era muito menor, digo, as condições objetivas de sobrevivência da espécie humana eram muito mais extremas. Não há termos de comparação entre os estágios de desenvolvimento da técnica no Neolítico e no capitalismo.
A guerra sob o capitalismo é muito mais amoral porque ela se dá em condições de relativa abundância material. Temos todas as condições de acabar com a fome na África, mas preferimos açular os ódios tribais para vender armas aos dois lados em conflito.
É assim que age o seu império bonzinho.
É assim porque o lucro é o principal móvel das ações humanas sob o capitalismo.
Do mesmo modo é a crise econômica sob o capitalismo? Qual a razão da crise? Existem restrições técnicas ao aumento da produção? Houve alguma catástrofe natural na Europa? Existe restrição de oferta de engenheiro, de agrônomos, físicos, matemáticos, administradores, economistas? Existem restrições de máquinas, equipamentos, de conhecimento tecnológico?
A resposta é não, mas por que a crise? É claro que é possível se aumentar a produção.
O que não é possível é se aumentar a produção com aumento na taxa de lucro e da acumulação.
É por essa razão que o sistema emperra e os donos dos capitais resolvem parar as máquinas e o crédito.
O que frustra é ver que o capitalismo não foi capaz de abolir as guerras e seus ideólogos responsabilizam o ser humano pela reiteração das guerras.
Seriam as guerras um produto da natureza humana?
E quando observamos hoje a retórica agressiva da Otan e do departamento de Estado americano chegamos à conclusão de que a paz é uma miragem distante.
Nunca os gastos com a despesa militar foram tão elevados. E isso para enfrentar quem? Cuba? Coréia do Norte?
Quando existia a União Soviética ainda fazia algum sentido.
Nenhum império se arma para defender valores. Eles se armam para promover o saque.
Werter de Macêdo é analista do BC
Custo alto da energia pode inviabilizar Alcoa no país
Por Ivo Ribeiro e Vanessa Dezem - Valor 17/01
De São Paulo
O Brasil ganhou uma sobrevida de 90 dias no programa de corte de produção de alumínio da gigante americana Alcoa, que na semana passada anunciou fechamento de fábricas nos EUA e na Europa. A subsidiária na América Latina tem até 31 de março para encontrar uma solução para reduzir seus custos no país e tornar suas operações competitivas. Caso contrário, as duas unidades brasileiras da companhia vão compor uma nova lista de cortes.
"A unidade de Poços de Caldas (MG) e até uma linha da Alumar, em São Luis (MA), estão em risco", disse ao Valor o presidente da Alcoa para a América Latina e Caribe, Franklin Feder. "Já alertei as autoridades de Brasília e os governadores de Minas e Maranhão", afirmou o executivo.
Feder se mostra esperançoso de que uma solução seja apresentada até o fim de março, pois ele diz não ter mais argumentos para convencer o presidente mundial da Alcoa, Klaus Kleinfeld, que lhe cobra uma decisão. Segundo informa, há três soluções de curto prazo em discussão, mas a questão é se elas serão definidas a tempo, pois envolvem várias autoridades governamentais.
No início de janeiro, alegando dificuldades para suportar os altos custos operacionais (principalmente de energia) associados ao declínio nos preços do alumínio no mercado internacional - em 2011 as cotações recuaram 19% -, a multinacional anunciou corte de 12% da produção mundial, o equivalente a 531 mil toneladas do metal. "As operações brasileiras ficaram de fora por pouco, mas com essa condição temporária".
No Brasil, observou o executivo, o custo da energia é o ponto crucial da fabricação de alumínio. O preço do MWhora, informa Feder, já atinge US$ 80, mais que o dobro da média mundial. Como a empresa tem uma parcela de energia própria, uma alternativa é desligar os fornos de Poços de Caldas e destinar essa energia para a unidade da Alumar, que tem maior rendimento energético do insumo.
A energia é um insumo com peso significativo na fabricação do alumínio. "No Brasil, nosso custo caixa de produção estava na faixa de US$ 2,3 mil a tonelada, ante uma cotação de US$ 1,95 mil em dezembro no mercado internacional", informou. Segundo o executivo, a empresa está tendo de cobrir a diferença. Até abril, a situação era confortável, pois o metal estava em alta e era negociado a US$ 2,7 mil a tonelada.
Se optar pela solução de migrar os 220 MW de energia própria que abastecem Poços de Caldas - o que dá competitividade para essa unidade - para a Alumar, a empresa vai deixar de produzir 95 mil toneladas de alumínio por ano. Com isso, o passo seguinte seria a demissão de 900 funcionários.
O executivo observa que isso, no entanto, não garante que a Alumar sairia ilesa. "Mesmo assim, poderíamos ter que fechar também uma das linhas de Alumar", explicou. Ou seja, mais 150 mil toneladas estariam em risco. A energia que recebe hoje é fornecida pela hidrelétrica de Tucuruí, em contrato que vai até 2024 e cujo valor cobrado, alega ele, "não é competitivo". Um contrato similar tem a Albrás, no Pará, que foi da Vale e hoje pertence ao grupo norueguês Norsk Hydro, que opera com capacidade igual.
O consórcio Alumar, em associação com a BHP Billiton, demanda cerca de 500 MW de energia e tem uma capacidade de 450 mil toneladas por ano. Grande parte do abastecimento ainda é feito pela Eletronorte, estatal dona da hidrelétrica de Tucuruí.
A Alcoa já abastece com energia gerada em hidrelétricas próprias cerca de 350 MW, metade do que consome nas duas fábricas. Nos últimos dez anos, investiu US$ 1,2 bilhão para elevar sua autossuficiência energética - são quatro hidrelétricas (em conjunto com outras empresas) que vão garantir cerca de 70% do consumo quando estiverem todas à plena capacidade - ou seja 500 MW.
Segundo o executivo, a luz vermelha que levou aos cortes de produção da semana passada acendeu em setembro, diante da crise europeia e do desabamento dos preços do alumínio no mercado internacional. Nesse momento, Feder disse que intensificou contatos com as autoridades estaduais e de Brasília. Em dezembro, a matriz informou que daria 90 dias para ele apontar uma solução para o Brasil. "Tenho uma agenda contínua com todo mundo do governo. Por enquanto, conseguimos tirar o Brasil do mapa de cortes", observou.
O executivo aposta ainda no Grupo de Trabalho do Alumínio (GTA), grupo formado pelo governo e o setor para elaborar um relatório técnico com as possíveis medidas a serem adotadas no médio e longo prazo para a indústria de alumínio no país. A portaria interministerial foi criada em julho, mas a conclusão dos trabalhos foi prorrogada e até agora não há conhecimento sobre o que constará no relatório.
"O Brasil tem de decidir se quer manter a cadeia de produção de alumínio no país ou se quer ser exportador de matéria-prima (bauxita e alumina) e importador de metal, produtos transformados e até de produtos acabados", afirmou o executivo. As pressões sobre o setor são verificadas em todo o mundo. Com a crise na Europa (grande consumidor) e nos EUA, a demanda pela commodity se enfraqueceu. As incertezas derrubaram os preços do metal. O piso considera competitivo seria de US$ 2,5 mil a tonelada, diz Feder.
A Alcoa tem 25 fábricas de alumínio globalmente. Operações da Europa Mediterrânea também estariam sendo revistas. Na semana passada, divulgou prejuízo de US$ 191 milhões no balanço do quarto trimestre, ante lucro de US$ 258 milhões no mesmo período de 2010. A receita global da Alcoa somou US$ 24,9 bilhões em 2011. No Brasil, passou de US$ 1,6 bilhão para US$ 2 bilhões no período. "Mas ainda estamos registrando prejuízo", ressaltou Feder.
De São Paulo
O Brasil ganhou uma sobrevida de 90 dias no programa de corte de produção de alumínio da gigante americana Alcoa, que na semana passada anunciou fechamento de fábricas nos EUA e na Europa. A subsidiária na América Latina tem até 31 de março para encontrar uma solução para reduzir seus custos no país e tornar suas operações competitivas. Caso contrário, as duas unidades brasileiras da companhia vão compor uma nova lista de cortes.
"A unidade de Poços de Caldas (MG) e até uma linha da Alumar, em São Luis (MA), estão em risco", disse ao Valor o presidente da Alcoa para a América Latina e Caribe, Franklin Feder. "Já alertei as autoridades de Brasília e os governadores de Minas e Maranhão", afirmou o executivo.
Feder se mostra esperançoso de que uma solução seja apresentada até o fim de março, pois ele diz não ter mais argumentos para convencer o presidente mundial da Alcoa, Klaus Kleinfeld, que lhe cobra uma decisão. Segundo informa, há três soluções de curto prazo em discussão, mas a questão é se elas serão definidas a tempo, pois envolvem várias autoridades governamentais.
No início de janeiro, alegando dificuldades para suportar os altos custos operacionais (principalmente de energia) associados ao declínio nos preços do alumínio no mercado internacional - em 2011 as cotações recuaram 19% -, a multinacional anunciou corte de 12% da produção mundial, o equivalente a 531 mil toneladas do metal. "As operações brasileiras ficaram de fora por pouco, mas com essa condição temporária".
No Brasil, observou o executivo, o custo da energia é o ponto crucial da fabricação de alumínio. O preço do MWhora, informa Feder, já atinge US$ 80, mais que o dobro da média mundial. Como a empresa tem uma parcela de energia própria, uma alternativa é desligar os fornos de Poços de Caldas e destinar essa energia para a unidade da Alumar, que tem maior rendimento energético do insumo.
A energia é um insumo com peso significativo na fabricação do alumínio. "No Brasil, nosso custo caixa de produção estava na faixa de US$ 2,3 mil a tonelada, ante uma cotação de US$ 1,95 mil em dezembro no mercado internacional", informou. Segundo o executivo, a empresa está tendo de cobrir a diferença. Até abril, a situação era confortável, pois o metal estava em alta e era negociado a US$ 2,7 mil a tonelada.
Se optar pela solução de migrar os 220 MW de energia própria que abastecem Poços de Caldas - o que dá competitividade para essa unidade - para a Alumar, a empresa vai deixar de produzir 95 mil toneladas de alumínio por ano. Com isso, o passo seguinte seria a demissão de 900 funcionários.
O executivo observa que isso, no entanto, não garante que a Alumar sairia ilesa. "Mesmo assim, poderíamos ter que fechar também uma das linhas de Alumar", explicou. Ou seja, mais 150 mil toneladas estariam em risco. A energia que recebe hoje é fornecida pela hidrelétrica de Tucuruí, em contrato que vai até 2024 e cujo valor cobrado, alega ele, "não é competitivo". Um contrato similar tem a Albrás, no Pará, que foi da Vale e hoje pertence ao grupo norueguês Norsk Hydro, que opera com capacidade igual.
O consórcio Alumar, em associação com a BHP Billiton, demanda cerca de 500 MW de energia e tem uma capacidade de 450 mil toneladas por ano. Grande parte do abastecimento ainda é feito pela Eletronorte, estatal dona da hidrelétrica de Tucuruí.
A Alcoa já abastece com energia gerada em hidrelétricas próprias cerca de 350 MW, metade do que consome nas duas fábricas. Nos últimos dez anos, investiu US$ 1,2 bilhão para elevar sua autossuficiência energética - são quatro hidrelétricas (em conjunto com outras empresas) que vão garantir cerca de 70% do consumo quando estiverem todas à plena capacidade - ou seja 500 MW.
Segundo o executivo, a luz vermelha que levou aos cortes de produção da semana passada acendeu em setembro, diante da crise europeia e do desabamento dos preços do alumínio no mercado internacional. Nesse momento, Feder disse que intensificou contatos com as autoridades estaduais e de Brasília. Em dezembro, a matriz informou que daria 90 dias para ele apontar uma solução para o Brasil. "Tenho uma agenda contínua com todo mundo do governo. Por enquanto, conseguimos tirar o Brasil do mapa de cortes", observou.
O executivo aposta ainda no Grupo de Trabalho do Alumínio (GTA), grupo formado pelo governo e o setor para elaborar um relatório técnico com as possíveis medidas a serem adotadas no médio e longo prazo para a indústria de alumínio no país. A portaria interministerial foi criada em julho, mas a conclusão dos trabalhos foi prorrogada e até agora não há conhecimento sobre o que constará no relatório.
"O Brasil tem de decidir se quer manter a cadeia de produção de alumínio no país ou se quer ser exportador de matéria-prima (bauxita e alumina) e importador de metal, produtos transformados e até de produtos acabados", afirmou o executivo. As pressões sobre o setor são verificadas em todo o mundo. Com a crise na Europa (grande consumidor) e nos EUA, a demanda pela commodity se enfraqueceu. As incertezas derrubaram os preços do metal. O piso considera competitivo seria de US$ 2,5 mil a tonelada, diz Feder.
A Alcoa tem 25 fábricas de alumínio globalmente. Operações da Europa Mediterrânea também estariam sendo revistas. Na semana passada, divulgou prejuízo de US$ 191 milhões no balanço do quarto trimestre, ante lucro de US$ 258 milhões no mesmo período de 2010. A receita global da Alcoa somou US$ 24,9 bilhões em 2011. No Brasil, passou de US$ 1,6 bilhão para US$ 2 bilhões no período. "Mas ainda estamos registrando prejuízo", ressaltou Feder.
Notas para as agências de risco
Por Antonio Delfim Netto - Valor 17/01
A reação do grande ex-presidente da França Valéry Giscard D'Estaing à decisão da agência calculadora de risco Standard & Poor's (S&P) de rebaixar a nota da França de AAA para AA+ foi certeira: "Do ponto de vista financeiro, ela é absurda. Sempre pagamos as nossas dívidas. Depois da Segunda Guerra, eu mesmo fui aos Estados Unidos levar o nosso cheque de pagamento da dívida".
Afinal qual é a delas (S&P, Moody's e Fitch)? Estarão, como alguns desinformados acreditam, a serviço da volatilidade tão prazerosa dos especuladores financeiros de Wall Street? Terão por acaso melhorado tecnicamente? Há menos de três anos, classificavam como AAA estranhos "pacotes" que seus clientes vendiam a incautos e honestos investidores.
É pouco provável que haja algum efeito dessa decisão que já não estivesse incorporado pelos mercados. Podemos ter alguma volatilidade no curto prazo, mas pequenos efeitos no longo. Uma interpretação benigna é que a S&P estaria tentando acelerar a solução do problema europeu.
No seu comunicado, ela afirma que "as iniciativas tomadas pelos líderes europeus nas últimas semanas podem ser insuficientes para atacar completamente problemas sistêmicos da zona do euro". Puro palavrório. Principalmente quando levamos em conta quando manifesta sua preocupação "com o fraco crescimento", sem esclarecer qual a mágica que poderia melhorá-lo.
Não parece que problemas "sistêmicos" da Eurolândia possam ser melhor solucionados com o rebaixamento da nota da França. Junto com a Alemanha, é fiadora do European Financial Stabilization Facility (EFSF), que toma recursos no mercado a taxas mais baixas para repassá-los aos países que têm dificuldades de colocar os seus papéis. Nesta semana vamos saber qual o efeito da medida sobre a taxa de juros da dívida francesa (que pagava, antes da ação da S&P, 3,08% ao ano para títulos de dez anos).
O comportamento da S&P apoia-se em fato discutível: a solução deveria ser muito mais rápida. Trata-se do típico sinal da arrogância do sistema financeiro. O que fazer com as leis dos países e suas democracias?
A decisão foi extemporânea, principalmente depois da mudança da política do Banco Central Europeu. Este passou a emprestar aos bancos e se esforça para reduzir a possibilidade de uma queda do crédito dentro dos países, o que reduziria ainda mais o crescimento econômico tão desejado (corretamente) pela S&P.
A ação do BCE está ampliando a liquidez e tendendo a desvalorizar o euro. Este fechou em 13 de janeiro, a US$ 1,267, a menor cotação em um ano e meio, o que deve ajudar a ampliar as exportações dos países para fora da Eurolândia.
Isso acrescentará um pouco mais de energia externa ao seu crescimento econômico em 2012, hoje estimado em - 0,7% (Alemanha, 0,3%; França, -0,6% e Itália, -1,7%).
A medida foi também extemporânea, porque prejudica a própria "solução" desejada (pelo menos vocalmente) pela S&P. Do ponto de vista lógico, seria difícil à S&P manter a nota AAA para os papéis da EFSF, que ela acabou de rebaixar para AA+. Se o mercado a levar a sério (é o que resta saber), aumentará os custos de sua captação e, logo, os custos dos países que recebem os seus recursos, dificultando a solução e acrescentando mais problemas aos "sistêmicos" referidos por ela.
A dúvida sobre sua credibilidade é perfeitamente razoável diante dos efeitos nos papéis do Tesouro Americano depois do seu rebaixamento de AAA para AA+. Os juros dos papéis de um mês caíram de 0,015% no 3º trimestre de 2011, para 0,010% no dia 12 deste mês; e os de dez anos, de 2,8%, em 2011, para 1,9%.
Entre 10 e 12 de janeiro, o Tesouro Americano colocou nada menos do que US$ 120 bilhões a taxas de juros decrescentes e com demanda/oferta superiores a 4,5 (até 6 meses) e de 3,3 (10 e 30 anos). E o Bundesbank, operador do Tesouro alemão, colocou, em 9 de janeiro, € 3,9 bilhões com papéis de seis meses a uma taxa de juro nominal negativa de 0,0122%, contra uma positiva de 0,0005% em 5 de dezembro de 2011.
A decisão da S&P foi ainda infeliz, porque, em 11 de janeiro, a Itália e a Espanha colocaram € 22 bilhões a custos menores do que anteriormente. Um sinal que os mercados estão acreditando nos novos governos de Mario Monti e Mariano Rajoy.
No caso italiano, colocou-se € 8,5 bilhões em papéis de 360 dias à taxa de 2,735% ao ano, contra 5,95% pagos em meados de dezembro de 2010 para os mesmos papéis. Apenas para dar outro sinal, os papéis do Tesouro espanhol, de três anos, foram vendidos à taxa de 3,384% ao ano, contra papéis de mesma maturidade, que pagaram 5,187% em meados de dezembro de 2011.
Há, portanto, indícios claros de avanço na Eurolândia, com exceção do caso grego, onde as discussões foram suspensas para "novas reflexões entre os credores e o governo", para estimar o "haircut" que deve ser estabelecido...
Que nota uma agência de risco daria ao exibicionismo destrutivo e deselegante da S&P? Um D, naturalmente, pela inadimplência no seu papel na procura de solução dos problemas sistêmicos da Eurolândia!
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.
Estoques preocupam indústria e podem atrasar retomada
Por Sergio Lamucci - Valor 17/01
De São Paulo
A indústria se esforçou para reduzir estoques nos últimos meses de 2011, mas alguns setores importantes entraram neste ano com produtos não escoados ainda acima do desejado, como o têxtil, o químico, o de celulose e papel, o de mobiliário e o de produtos farmacêuticos e veterinários. Com isso, esses segmentos devem levar mais tempo para retomar um ritmo forte da produção, o que pode segurar uma recuperação mais firme da atividade industrial no começo do ano.
No caso da indústria automobilística, para o qual há informações quantitativas de estoques, os dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostraram queda em dezembro. No entanto, o volume de unidades nos pátios de montadoras e concessionárias segue em níveis altos, ainda que em número de dias de vendas a situação esteja perto da normalidade.
Para o coordenador de sondagens conjunturais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Aloisio Campelo, a indústria terminou o ano passado com uma situação de estoques mais equilibrada do que no terceiro trimestre, auge do problema, mas alguns setores importantes ainda enfrentam dificuldades. Há aqueles que não conseguiram reduzi-los, como o têxtil, e os que tiveram alta forte no fim do ano, como químico e o de mobiliário.
O setor químico viu o número de empresas que relatam inventários indesejados na sondagem da FGV saltar de 3,2% para 10,4%, feito o ajuste sazonal, bastante acima da média de 4,2% registrada desde janeiro de 2003. Para completar, a fatia de companhias do segmento que informaram estoques insuficientes caiu de 1,1% para 0,3%.
Já o setor têxtil, que em setembro tinha 24,8% das empresas com estoques excessivos, encerrou o ano com 27,8% delas nessa situação, percentual bastante acima da média de 18,7% observada desde 2003. A fatia das companhias que relataram estoques insuficientes caiu de 6,4% em novembro para 3,6% em dezembro.
O têxtil é um dos quatro setores que, segundo Campelo, estavam "superestocados" em setembro, ao lado de metalurgia, material de transporte (onde está a indústria automobilística), e vestuário e calçados. Desses quatro, apenas o têxtil não conseguiu vender suas mercadorias no quarto trimestre.
Campelo vê dois motivos principais para o acúmulo de estoques a partir da segunda metade do ano passado. O primeiro, uma demanda mais fraca do que a estimada pelas empresas - no terceiro trimestre, o consumo das famílias recuou 0,1% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, enquanto o investimento caiu 0,2%. Além disso, o aumento das importações também rouba espaço do produto nacional, podendo ter contribuído para a formação de inventários indesejados.
O setor de mobiliário terminou o ano com uma situação de estoques semelhante ao do setor têxtil. Em dezembro, 26,5% das empresas relataram à FGV ter inventários exagerados, enquanto apenas 1% informou que eles eram insuficientes.
O diretor da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) em Brasília, Lipel Custódio, diz que o setor de fato virou o ano com estoques acima do desejado. O varejo segurou encomendas e o consumidor ficou um pouco mais retraído, em função das notícias sobre a crise internacional, acredita ele, citando também o mau desempenho das exportações. Para Custódio, a situação deve estar normalizada depois do Carnaval. Janeiro e fevereiro, segundo ele, são meses naturalmente de produção mais fraca. A queda dos juros iniciada em agosto pode ajudar nesse movimento, se implicar condições mais favoráveis de crédito, diz Custódio.
No setor metalúrgico (que engloba o setor siderúrgico), o quadro é bem mais favorável. Em setembro, 18,7% das empresas consultadas pela FGV relataram estoques excessivos, e nenhuma informou ter inventários insuficientes. Já em dezembro, as companhias que reclamavam de estoques indesejados eram 9,8%, perto da média de 9,5% registrada desde janeiro de 2003, enquanto 4,3% informavam um volume insuficiente.
O presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Loureiro, diz que o seu segmento encerrou 2012 com estoques praticamente ajustados, equivalentes a três meses de vendas. Segundo ele, o setor considera normal algo entre 2,5 e 2,8 meses. Como em dezembro as vendas são tradicionalmente um pouco menores, Loureiro diz que não há problemas no nível do fim de 2011. Para janeiro, ele espera que os estoques recuem para o equivalente a algo como 2,7 meses de vendas. Na distribuição de aço, o nível mais alto de 2011 foi atingido em março, com estoques próximos a cinco meses. Ao longo do ano, porém, os estoques foram sendo ajustados, com produtores e distribuidores locais ganhando espaço do aço importado, que havia crescido muito em 2010, por conta da diferença de preços. "Em 2011, a importação caiu quase 50%, e a distribuição nacional, por sua vez, cresceu pouco mais de 10%", diz Loureiro.
Para 2012, ele espera uma expansão de 6%, com expectativa de demanda mais forte da construção civil residencial, infraestrutura e de quem produz equipamentos para esses segmentos. Não há mais espaço para um ganho tão fácil em cima dos importados, diz.
No caso da indústria automobilística, a situação é um pouco dúbia. Na sondagem da FGV, a fatia de empresas do setor de material de transporte (em que se destaca a indústria automobilística) que informam estoques excessivos ficou em 10,2% em dezembro, metade dos 20,5% registrados em setembro e abaixo da média de 11,4% da média desde 2003.
Números da Anfavea, porém, mostram um quadro menos claro. O número de veículos nos pátios das montadoras e concessionárias recuou de 373,5 mil em novembro para 347,7 mil em dezembro. Em termos de dias de vendas, a queda foi de 35 para 30 dias, nível tido como normal pelo setor.
O economista-chefe da corretora Convenção Tullett Prebon, Fernando Montero, contudo, acha que o número em termos absolutos ainda é alto, especialmente para o último mês do ano. Ele observa que, em geral, os estoques sobem de dezembro para janeiro. "De 2002 para cá, isso só não ocorreu em 2009." Para Montero, uma parte razoável já ajustou estoques, mas esse não parece ser o caso do setor automobilístico.
O economista Aurélio Bicalho, do Itaú Unibanco, também não vê um quadro dos mais positivos em termos de estoques para a indústria automobilística. Nas suas contas, eles aumentaram em dezembro, feito o ajuste sazonal. É um sinal desfavorável para a produção de veículos em janeiro, que veio de uma alta forte no mês anterior, de 6,6% sobre novembro na série calculada pelo Itaú Unibanco.
Como criar uma depressão
Por Martin Feldstein - Valor 17/01
Os líderes políticos europeus podem estar prestes a acertar um plano fiscal que pode levar a uma grande depressão, se for colocado em prática. Para entender por que vale a pena comparar como os países europeus reagiram a declínios na demanda antes e depois do euro.
Vejamos como a França, por exemplo, teria reagido a um declínio substancial na demanda por suas exportações nos anos 90. Se não houvesse resposta do governo, a produção e o emprego recuariam. Para evitar isso, o Banco da França reduziria os juros. Além disso, a queda nas entradas automaticamente reduziria a arrecadação tributária e aumentaria vários "pagamentos de transferência" governamentais. O governo poderia suplementar esses "estabilizadores automáticos" com novos investimentos ou com a queda dos impostos, aumentando ainda mais o déficit fiscal.
Além disso, a queda na demanda pelas exportações francesas automaticamente levaria ao declínio do valor do franco em relação às outras moedas, sendo que a redução das taxas de juros também desvalorizaria a divisa francesa. Essa combinação de mudanças monetárias, fiscais e de câmbio estimularia a produção e o emprego, evitando uma alta significativa do desemprego.
Quando a França adotou o euro, contudo, dois desses canais de reação foram fechados. A moeda deixou de poder desvalorizar-se em relação a outras divisas da região do euro. A taxa de juros na França - e em todos os outros países do euro - agora é determinada pelo Banco Central Europeu (BCE), com base nas condições da demanda dentro da união monetária como um todo. Portanto, a única política anticíclica disponível na França é a fiscal: reduzir a arrecadação com impostos e aumentar os gastos.
Embora essa resposta implique em um déficit orçamentário maior, os estabilizadores fiscais automáticos são particularmente importantes agora que os países da região do euro não podem usar a política monetária para estabilizar a demanda. A falta de ferramentas monetárias, aliada à ausência de ajustes na taxa de câmbio, também poderia justificar alguns cortes cíclicos de impostos e aumentos nos gastos.
Infelizmente, muitos países da região do euro permitiram que os déficits fiscais subissem nos bons momentos econômicos, em vez de permiti-lo apenas quando a demanda estava fraca. Em outras palavras, a dívida nacional desses países cresceu alimentada por déficits orçamentários tanto "estruturais" como "cíclicos".
Os déficits orçamentários estruturais foram alimentados nos últimos dez anos pela surpreendente falta de reação das taxas de juros da região do euro às diferenças nacionais na política fiscal e nível de endividamento. Como os mercados financeiros deixaram de ver diferenças de risco entre os países da região do euro, as taxas de juros dos bônus soberanos não refletiram o excesso de endividamento. A moeda única também impediu que a taxa de câmbio pudesse sinalizar diferenças de extravagância fiscal.
A confissão da Grécia em 2010, de que havia subestimado significativamente seu déficit fiscal, foi um alerta para os mercados financeiros, o que levou ao aumento substancial dos juros dos títulos de dívidas soberanos em muitos países do euro.
O encontro de cúpula da União Europeia, em Bruxelas, no início de dezembro tinha como objetivo evitar uma acumulação de dívidas desse tipo no futuro. Os chefes de governo dos países-membros concordaram em limitar os déficits fiscais "estruturais" a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), com a imposição de penas aos países cujos déficits fiscais totais superem os 3% do PIB - um limite que incluiria tanto o déficit fiscal como o estrutural, o que, portanto, restringiria o déficit cíclico a, na prática, 3% do PIB.
Negociadores agora trabalham os detalhes para o próximo encontro, no fim de janeiro. Uma parte importante do acordo sobre os déficits em dezembro é que os países podem ter déficits cíclicos superiores a 0,5% do PIB - uma ferramenta importante para compensar declínios na demanda. Não está claro se as penas para os déficits totais que superarem os 3% do PIB seriam dolorosas o suficiente para os países preferirem não promover aumentos nos estímulos fiscais anticíclicos.
Preocupante é a reclamação formal do BCE de que as regras propostas não são duras o suficiente. Jorg Asmussen, importante membro da comissão executiva do BCE, escreveu aos negociadores que os países deveriam ter permissão para exceder o limite de déficit de 0,5% do PIB apenas em tempos de "catástrofes naturais e situações de emergência grave" fora do controle dos governos.
Se esse texto for adotado, eliminaria os ajustes fiscais cíclicos automáticos, o que levaria uma espiral negativa da demanda e a uma grave depressão. Se, por exemplo, as condições no resto do mundo causarem um declínio na demanda por exportações francesas, a produção e o emprego na França cairiam. Isso reduziria a arrecadação com impostos e aumentaria os pagamentos de transferência, facilmente levando o déficit fiscal para mais de 0,5% do PIB.
Para acabar com o déficit cíclico, a França teria de elevar tributos e cortar gastos públicos. Isso reduziria ainda mais a demanda, provocando mais declínios na arrecadação e novos aumentos nas transferências - e, portanto, traria um déficit fiscal ainda maior, exigindo maior aperto fiscal. Não está claro o que acabaria com essa espiral negativa de aperto fiscal e queda na atividade.
Se adotada, essa proposta poderia produzir índices de desemprego muito altos - em resumo, produziria uma depressão.
Seria muito mais sensato concentrar-se na diferença entre déficits estruturais e cíclicos e permitir déficits que sejam resultantes de estabilizadores automáticos. O BCE deveria ser o árbitro dessa distinção, publicando estimativas de déficits estruturais e cíclicos.
Itália, Espanha e França têm déficits superiores a 3% do PIB, mas não são déficits estruturais. Os mercados financeiros estariam mais bem informados e confiantes se o BCE indicasse o tamanho dos déficits estruturais reais e mostrasse como atualmente estão em queda. Para os investidores, essa é a característica essencial da solvência fiscal. (Tradução de Sabino Ahumada)
Martin Feldstein é professor de economia em Harvard, foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan e foi presidente do Gabinete Nacional de Análises Econômicas dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2012.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Polêmica na segurança do BC
Desde 2005, segurança não tem licitação
BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O assalto ao Banco Central de Fortaleza (CE), em 2005, já virou filme de longa-metragem no cinema, mas a instituição até hoje paga, sem licitação, pela falta de segurança em suas instalações.
Desde a ocorrência do crime, a autoridade monetária firmou dezenas de contratos emergenciais com empresas de segurança privada para implantação de vigilância por câmeras de vídeo.
A ideia de colocar o cadeado depois que a porta foi arrombada não se limitou ao Ceará: os contratos de emergência foram assinados prevendo vigilância em todas as unidades do Banco Central no País, não apenas em Fortaleza.
Falhas. A estratégia do Banco Central, responsável pelo gerenciamento de mais de US$ 350 bilhões em reservas internacionais, de usar contratos emergenciais mostra que não há uma política clara de segurança do patrimônio físico do banco.
Outro indício de falhas na área de segurança foi encontrado pela Controladoria Geral da União. O Banco Central acertou convênios com polícias militares de oito Estados desde 2003, somando R$ 18,4 milhões, mas não há prestação de contas do que foi feito com o dinheiro.
"Havia, no final do exercício de 2010, recomendações relevantes pendentes (...) relativas à análise das prestações de contas dos convênios firmados com as diversas polícias militares", afirma a Controladoria Geral da União em resposta à auditoria interna do Banco Central do ano passado.
"O não atendimento pode acarretar no encerramento dos convênios, bem como na apuração de responsabilidade." Indagado, o Banco Central informou que os convênios se justificam porque "estão ligados diretamente às atividades policiais e que não podem ser desenvolvidos pelas empresas".
De acordo com a instituição, os convênios previam "execução da segurança no transporte de valores; controle do tráfego, inclusive com bloqueio de vias, durante o percurso dos comboios com transporte de valores; e apoio ao Departamento de Segurança (Deseg) do banco nas ações de segurança externa dos imóveis".
Gasto curioso. Outro gasto curioso do Banco Central com segurança foi a contratação da H.F. Correia Transportes para o transporte da mudança do servidor Gontron Magalhães Júnior, chefe do Deseg, de Belém para Brasília, sem licitação ou concorrência, por R$ 7.950.
O serviço de mudança foi contratado no dia 18 de janeiro de 2010, mas o mesmo servidor assina o relatório de gestão do Banco Central do ano passado, na mesma função. O Banco Central não se pronunciou sobre o assunto. / I.D.
BC RESPONDE
Esclarecimentos sobre reportagens do jornal O Estado de S.Paulo
09/01/2012 9:00:00
Brasília - Em relação às matérias publicadas na edição de 08 de janeiro pelo jornal O Estado de S.Paulo, a Assessoria de Imprensa do Banco Central ressalta que, entre meados de dezembro e o dia 6 de janeiro, foram respondidos os questionamentos apresentados pela reportagem. Como boa parte das respostas não foi utilizada nas matérias, a Procuradoria-Geral do Banco Central (PGBC) enviou, neste domingo, à redação do jornal os seguintes esclarecimentos:
1) Os gastos com contratos em 2010 somam R$ 1,331 bilhão e não os R$ 1,979 bilhão citados na reportagem. Em 2011, o dispêndio do BC com contratos foi de R$ 1,201 bilhão e não os R$ 223 milhões que constam no texto.
Os valores referem-se à data de assinatura dos contratos e não necessariamente ao efetivo dispêndio de recursos. Contratos do Departamento do Meio Circulante (Mecir), por exemplo, no valor de aproximadamente R$ 700 milhões, com a Casa da Moeda, foram assinados em 29 de dezembro de 2010, mas com vigência a partir de 03 de janeiro de 2011. Os valores contemplam ainda repactuações, reajustes e aumento do objeto contratado, o que não foi dito na matéria, muito embora o BC haja prestado tal esclarecimento.
2) O relatório circunstanciado do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) foi publicado dentro do prazo fixado pelos órgãos de controle, não havendo pendência com respeito a esse assunto.
Na forma da regulamentação que disciplina o funcionamento do Proagro, o BC tem até 2014 para realizar esse cálculo atuarial. Conforme prevê a norma, a metodologia e as diretrizes para esse cálculo ainda serão definidas pelos órgãos competentes do Governo. Certo é que o BC está absolutamente em dia com os prazos legais e regulamentares, tanto em relação ao relatório como em relação ao cálculo atuarial.
3) O Banco Central não pode incluir seus desembolsos no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), do Governo Federal, por ter métodos contábeis distintos do restante da administração pública. Obrigado a apurar a sua contabilidade em base diária, por administrar as reservas bancárias e internacionais, por exemplo, o BC não pode aguardar, como o resto da administração, o balanço consolidado do final do mês.
Por suas características, o BC segue o modelo internacional orçamentário de Competência (contabilidade específica para bancos centrais) e não de Caixa (tradicionalmente usado pelo Siafi), e ainda tem seu balanço publicado semestral e anualmente e conferido por auditorias independentes. A despeito de não integrarmos o sistema, as informações que são consideradas importantes pelo Siafi são informadas a ele diariamente, ao final do dia.
4) Os gastos do BC com diárias e passagens são detalhados publicamente desde julho de 2011 na página da instituição na internet, referindo-se aos gastos a partir de janeiro de 2011. O BC envia para a CGU desde 2006 os dados agregados relativos a passagens e diárias, conforme disposição regulamentar. A partir de 2011, o BC decidiu também enviar tais dados desagregados.
5) O BC não pode fornecer os relatórios de auditorias internas na íntegra, pois os mesmos podem revelar dados protegidos pelo sigilo bancário, cuja disciplina esta afeta à Lei Complementar 105/2001 e não à Lei n. 12.527/2011.
A própria CGU disponibiliza ao público tais relatórios no seu site, mas o faz suprimindo as devidas informações sigilosas, conforme determina a lei. No site do BC há um “link” direcionando o usuário à página da CGU aonde tais relatórios estão disponibilizados.
6) A autoridade monetária está obrigada, por lei, a preservar o sigilo bancário das operações e dos serviços prestados pelas Instituições Financeiras (IF´s) quando essas informações são obtidas pelo BC no exercício de suas atribuições. Esse sigilo também se estende às operações que o BC realiza, como, por exemplo, na administração e aplicação das reservas internacionais. Há outras espécies de sigilo, como o fiscal, em que o BC também é obrigado por lei a preservar.
Como não há qualquer questionamento dos órgãos de controle sobre informações protegidas por sigilo legal, o BC não opôs sigilo ao TCU ou à CGU.
7) Os contratos firmados pelo BC para contratação de serviços fotográficos atenderam aos requisitos legais, tendo sido apreciados previamente pela Procuradoria-Geral, inclusive quanto às modalidades de licitação. As fotos da diretoria colegiada se encontram à disposição dos interessados na página do Banco na internet e tem sido usados, sem custo, por órgãos de imprensa de todo o país, quando necessitam de imagens de autoridades do BC. O outro contrato foi firmado para abranger também o registro das 200 principais obras de arte do BC em qualidade que permita a elaboração de catálogo, não se restringindo apenas às fotos da Diretoria, como afirma a reportagem.
8) O BC conta com um Regulamento Interno do Sistema de Segurança, atualizado desde 2006. Nele, estão as diretrizes que norteiam as ações na área de segurança do BC, buscando garantir a integridade física das pessoas, do patrimônio e dos valores da autarquia, especialmente por meio do desenvolvimento de ações de segurança institucional. Contamos, também, com a contínua participação do Comitê de Segurança, composto por representantes da Diretoria Colegiada, responsável pelas ações estratégicas da área.
Em janeiro de 2011, alinhados ao Regulamento do Sistema de Segurança, iniciamos a implantação do Programa de Segurança Institucional, que conta com oito projetos estratégicos e investimentos da ordem de R$ 30 milhões de reais. O objetivo do Programa é desenvolver o Sistema de Segurança do Banco Central do Brasil. As principais ações do Programa são a modernização do sistema de vigilância eletrônica, concluído em 2011, e a implantação do novo sistema eletrônico de controle de acesso, ora em andamento e com previsão de entrega para julho de 2012. Conta, ainda, com ações de capacitação dos servidores, aquisição de equipamentos de proteção coletiva e individual e desenvolvimento de novas ferramentas de gestão.
Os contratos emergenciais referidos na matéria foram rescindidos no final do primeiro semestre de 2011, tão logo o novo sistema de vigilância eletrônica, adquirido mediante licitação, foi instalado e testado, em âmbito nacional. Portanto, não há no BC contratos emergenciais para CFTV e alarmes desde então e todos os demais contratos emergenciais ainda em vigor foram considerados legais pelo TCU.
9) Quanto aos convênios firmados na área de segurança, há prestação de contas por parte das polícias militares, com acompanhamento da nossa área jurídica e de controle interno, não havendo sido constatada qualquer irregularidade por parte da CGU e do TCU, mas tão só feitas algumas recomendações, o que é comum nos trabalhos dos órgãos de controle.
10) Por fim, cabe registrar que está equivocada a informação sobre o contrato para transporte da mudança do novo Chefe do Departamento de Segurança, que morava em Belém e foi removido para Brasília, no interesse do serviço. A mudança ocorreu em janeiro de 2011 e não em 2010 e a contratação da empresa de transporte foi por dispensa de licitação por limite de valor (com coleta de outras propostas), mediante prévia análise jurídica pela Procuradoria-Geral do Banco, que concluiu pela legalidade do ato.
Cabe ressaltar que o pagamento de ajudas de custo para mudança nos casos de remoção da espécie, tem expressa previsão na Lei 8.112/90.
BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O assalto ao Banco Central de Fortaleza (CE), em 2005, já virou filme de longa-metragem no cinema, mas a instituição até hoje paga, sem licitação, pela falta de segurança em suas instalações.
Desde a ocorrência do crime, a autoridade monetária firmou dezenas de contratos emergenciais com empresas de segurança privada para implantação de vigilância por câmeras de vídeo.
A ideia de colocar o cadeado depois que a porta foi arrombada não se limitou ao Ceará: os contratos de emergência foram assinados prevendo vigilância em todas as unidades do Banco Central no País, não apenas em Fortaleza.
Falhas. A estratégia do Banco Central, responsável pelo gerenciamento de mais de US$ 350 bilhões em reservas internacionais, de usar contratos emergenciais mostra que não há uma política clara de segurança do patrimônio físico do banco.
Outro indício de falhas na área de segurança foi encontrado pela Controladoria Geral da União. O Banco Central acertou convênios com polícias militares de oito Estados desde 2003, somando R$ 18,4 milhões, mas não há prestação de contas do que foi feito com o dinheiro.
"Havia, no final do exercício de 2010, recomendações relevantes pendentes (...) relativas à análise das prestações de contas dos convênios firmados com as diversas polícias militares", afirma a Controladoria Geral da União em resposta à auditoria interna do Banco Central do ano passado.
"O não atendimento pode acarretar no encerramento dos convênios, bem como na apuração de responsabilidade." Indagado, o Banco Central informou que os convênios se justificam porque "estão ligados diretamente às atividades policiais e que não podem ser desenvolvidos pelas empresas".
De acordo com a instituição, os convênios previam "execução da segurança no transporte de valores; controle do tráfego, inclusive com bloqueio de vias, durante o percurso dos comboios com transporte de valores; e apoio ao Departamento de Segurança (Deseg) do banco nas ações de segurança externa dos imóveis".
Gasto curioso. Outro gasto curioso do Banco Central com segurança foi a contratação da H.F. Correia Transportes para o transporte da mudança do servidor Gontron Magalhães Júnior, chefe do Deseg, de Belém para Brasília, sem licitação ou concorrência, por R$ 7.950.
O serviço de mudança foi contratado no dia 18 de janeiro de 2010, mas o mesmo servidor assina o relatório de gestão do Banco Central do ano passado, na mesma função. O Banco Central não se pronunciou sobre o assunto. / I.D.
BC RESPONDE
Esclarecimentos sobre reportagens do jornal O Estado de S.Paulo
09/01/2012 9:00:00
Brasília - Em relação às matérias publicadas na edição de 08 de janeiro pelo jornal O Estado de S.Paulo, a Assessoria de Imprensa do Banco Central ressalta que, entre meados de dezembro e o dia 6 de janeiro, foram respondidos os questionamentos apresentados pela reportagem. Como boa parte das respostas não foi utilizada nas matérias, a Procuradoria-Geral do Banco Central (PGBC) enviou, neste domingo, à redação do jornal os seguintes esclarecimentos:
1) Os gastos com contratos em 2010 somam R$ 1,331 bilhão e não os R$ 1,979 bilhão citados na reportagem. Em 2011, o dispêndio do BC com contratos foi de R$ 1,201 bilhão e não os R$ 223 milhões que constam no texto.
Os valores referem-se à data de assinatura dos contratos e não necessariamente ao efetivo dispêndio de recursos. Contratos do Departamento do Meio Circulante (Mecir), por exemplo, no valor de aproximadamente R$ 700 milhões, com a Casa da Moeda, foram assinados em 29 de dezembro de 2010, mas com vigência a partir de 03 de janeiro de 2011. Os valores contemplam ainda repactuações, reajustes e aumento do objeto contratado, o que não foi dito na matéria, muito embora o BC haja prestado tal esclarecimento.
2) O relatório circunstanciado do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) foi publicado dentro do prazo fixado pelos órgãos de controle, não havendo pendência com respeito a esse assunto.
Na forma da regulamentação que disciplina o funcionamento do Proagro, o BC tem até 2014 para realizar esse cálculo atuarial. Conforme prevê a norma, a metodologia e as diretrizes para esse cálculo ainda serão definidas pelos órgãos competentes do Governo. Certo é que o BC está absolutamente em dia com os prazos legais e regulamentares, tanto em relação ao relatório como em relação ao cálculo atuarial.
3) O Banco Central não pode incluir seus desembolsos no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), do Governo Federal, por ter métodos contábeis distintos do restante da administração pública. Obrigado a apurar a sua contabilidade em base diária, por administrar as reservas bancárias e internacionais, por exemplo, o BC não pode aguardar, como o resto da administração, o balanço consolidado do final do mês.
Por suas características, o BC segue o modelo internacional orçamentário de Competência (contabilidade específica para bancos centrais) e não de Caixa (tradicionalmente usado pelo Siafi), e ainda tem seu balanço publicado semestral e anualmente e conferido por auditorias independentes. A despeito de não integrarmos o sistema, as informações que são consideradas importantes pelo Siafi são informadas a ele diariamente, ao final do dia.
4) Os gastos do BC com diárias e passagens são detalhados publicamente desde julho de 2011 na página da instituição na internet, referindo-se aos gastos a partir de janeiro de 2011. O BC envia para a CGU desde 2006 os dados agregados relativos a passagens e diárias, conforme disposição regulamentar. A partir de 2011, o BC decidiu também enviar tais dados desagregados.
5) O BC não pode fornecer os relatórios de auditorias internas na íntegra, pois os mesmos podem revelar dados protegidos pelo sigilo bancário, cuja disciplina esta afeta à Lei Complementar 105/2001 e não à Lei n. 12.527/2011.
A própria CGU disponibiliza ao público tais relatórios no seu site, mas o faz suprimindo as devidas informações sigilosas, conforme determina a lei. No site do BC há um “link” direcionando o usuário à página da CGU aonde tais relatórios estão disponibilizados.
6) A autoridade monetária está obrigada, por lei, a preservar o sigilo bancário das operações e dos serviços prestados pelas Instituições Financeiras (IF´s) quando essas informações são obtidas pelo BC no exercício de suas atribuições. Esse sigilo também se estende às operações que o BC realiza, como, por exemplo, na administração e aplicação das reservas internacionais. Há outras espécies de sigilo, como o fiscal, em que o BC também é obrigado por lei a preservar.
Como não há qualquer questionamento dos órgãos de controle sobre informações protegidas por sigilo legal, o BC não opôs sigilo ao TCU ou à CGU.
7) Os contratos firmados pelo BC para contratação de serviços fotográficos atenderam aos requisitos legais, tendo sido apreciados previamente pela Procuradoria-Geral, inclusive quanto às modalidades de licitação. As fotos da diretoria colegiada se encontram à disposição dos interessados na página do Banco na internet e tem sido usados, sem custo, por órgãos de imprensa de todo o país, quando necessitam de imagens de autoridades do BC. O outro contrato foi firmado para abranger também o registro das 200 principais obras de arte do BC em qualidade que permita a elaboração de catálogo, não se restringindo apenas às fotos da Diretoria, como afirma a reportagem.
8) O BC conta com um Regulamento Interno do Sistema de Segurança, atualizado desde 2006. Nele, estão as diretrizes que norteiam as ações na área de segurança do BC, buscando garantir a integridade física das pessoas, do patrimônio e dos valores da autarquia, especialmente por meio do desenvolvimento de ações de segurança institucional. Contamos, também, com a contínua participação do Comitê de Segurança, composto por representantes da Diretoria Colegiada, responsável pelas ações estratégicas da área.
Em janeiro de 2011, alinhados ao Regulamento do Sistema de Segurança, iniciamos a implantação do Programa de Segurança Institucional, que conta com oito projetos estratégicos e investimentos da ordem de R$ 30 milhões de reais. O objetivo do Programa é desenvolver o Sistema de Segurança do Banco Central do Brasil. As principais ações do Programa são a modernização do sistema de vigilância eletrônica, concluído em 2011, e a implantação do novo sistema eletrônico de controle de acesso, ora em andamento e com previsão de entrega para julho de 2012. Conta, ainda, com ações de capacitação dos servidores, aquisição de equipamentos de proteção coletiva e individual e desenvolvimento de novas ferramentas de gestão.
Os contratos emergenciais referidos na matéria foram rescindidos no final do primeiro semestre de 2011, tão logo o novo sistema de vigilância eletrônica, adquirido mediante licitação, foi instalado e testado, em âmbito nacional. Portanto, não há no BC contratos emergenciais para CFTV e alarmes desde então e todos os demais contratos emergenciais ainda em vigor foram considerados legais pelo TCU.
9) Quanto aos convênios firmados na área de segurança, há prestação de contas por parte das polícias militares, com acompanhamento da nossa área jurídica e de controle interno, não havendo sido constatada qualquer irregularidade por parte da CGU e do TCU, mas tão só feitas algumas recomendações, o que é comum nos trabalhos dos órgãos de controle.
10) Por fim, cabe registrar que está equivocada a informação sobre o contrato para transporte da mudança do novo Chefe do Departamento de Segurança, que morava em Belém e foi removido para Brasília, no interesse do serviço. A mudança ocorreu em janeiro de 2011 e não em 2010 e a contratação da empresa de transporte foi por dispensa de licitação por limite de valor (com coleta de outras propostas), mediante prévia análise jurídica pela Procuradoria-Geral do Banco, que concluiu pela legalidade do ato.
Cabe ressaltar que o pagamento de ajudas de custo para mudança nos casos de remoção da espécie, tem expressa previsão na Lei 8.112/90.
Governança mundial sem liderança
Por Dani Rodrik - Valor 16/01
A economia mundial está entrando em uma nova fase, na qual obter cooperação global será cada vez mais difícil. Os EUA e a União Europeia (UE), agora assolada por endividamento elevado e baixo crescimento - não serão mais capazes de definir regras mundiais e esperar que outros se enquadrem.
Para agravar essa tendência, potências emergentes como a China e a Índia atribuem grande valor à soberania nacional e não toleram interferência em assuntos domésticos. Isso faz com que esses países não queiram submeter-se a regras internacionais (ou exigir que os outros obedeçam tais regras), sendo, portanto, improvável que invistam em instituições multilaterais, como fizeram os EUA na esteira da Segunda Guerra Mundial.
Em consequência, a liderança e cooperação mundiais continuarão a ser limitadas, exigindo uma resposta cuidadosamente calibrada na governança da economia mundial - especificamente, um conjunto menos denso de regras reconhecendo a diversidade das circunstâncias e demandas nacionais por autonomia política. Mas as discussões no G-20, na Organização Mundial de Comércio (OMC) e em outras instâncias multilaterais caminham como se o remédio certo fosse mais do mesmo: mais regras, mais harmonização e mais disciplina em políticas nacionais.
Voltando ao básico: o princípio da "subsidiariedade" proporciona a maneira correta de pensar as questões da governança mundial. Ele nos informa quais tipos de políticas devem ser coordenadas ou harmonizadas em nível mundial e quais devem ser deixadas em larga medida à responsabilidade de processos decisórios domésticos. O princípio demarca áreas onde necessitamos governança global extensa, delimitando-as daquelas onde basta uma fina camada de regras mundiais.
Existem basicamente quatro variantes de políticas econômicas. Num extremo estão as políticas domésticas que não criam externalidades (ou muito poucas) para além de fronteiras nacionais. Políticas educacionais, por exemplo, não necessitam acordos internacionais e podem ser tranquilamente deixadas para formuladores de políticas domésticas.
No outro extremo estão as políticas que envolvem "o quintal comunitário mundial": o resultado, para cada país, é determinado não por políticas internas, mas pela (somatória de) políticas de outros países. As emissões de gases estufa são o exemplo. Em tais domínios de politica governamental, há fortes justificativas para o estabelecimento de regras vinculativas em nível mundial, uma vez que cada país, deixado ao sabor de seus próprios interesses, tenderá a negligenciar sua parcela de responsabilidade pela manutenção da área comunitária. Sem um acordo mundial, seremos, todos, condenados a um desastre coletivo.
Entre os extremos, existem dois outros tipos de políticas que criam externalidades, mas que precisam ser tratadas de forma distinta. Primeiramente, há as políticas do tipo "empobrecer seu vizinho", mediante as quais um país obtém um benefício econômico à custa de outros países. Por exemplo, seus líderes restringem a oferta de um recurso natural com o objetivo de elevar seu preço nos mercados mundiais ou praticam políticas mercantilistas na forma de grandes superávits comerciais, especialmente na presença de desemprego e excesso de capacidade.
Pelo fato de políticas do tipo empobrecer o vizinho criarem benefícios impondo custos sobre outros, elas também necessitam ser regulamentadas em nível internacional. Esse é o argumento mais forte para submeter as políticas monetárias chinesas ou grandes desequilíbrios macroeconômicos, como o excedente comercial alemão, a uma maior disciplina mundial.
Políticas visando empobrecer o vizinho devem ser diferenciadas das que poderiam ser denominadas "empobrecer a si próprio", cujos custos econômicos são arcados predominantemente no próprio país, embora possam também afetar outros países.
Considere os subsídios agrícolas, a interdição de organismos geneticamente modificados ou frouxa regulamentação financeira. Embora essas políticas possam impor custos a outros países, são implementadas não para extrair vantagens, mas porque outros motivos para políticas domésticas - como preocupações de natureza distribucional, administrativa ou de saúde pública - prevalecem sobre o objetivo de eficiência econômica.
A justificativa para disciplina mundial é bem mais fraca no caso de políticas de "empobrecer a si próprio". Afinal de contas, não deve caber à "comunidade mundial" dizer a cada país como deve ponderar objetivos concorrentes. Impor custos a outros países não é, em si mesma, causa para regulamentação mundial. (Com efeito, os economistas raramente queixam-se quando a liberalização do comércio em um país prejudica os concorrentes.) Democracias, em especial, devem ser autorizadas a cometer seus próprios "erros".
Claro, não há garantia de que as políticas domésticas reflitam com precisão as exigências sociais; mesmo as democracias são frequentemente tomadas como reféns por interesses especiais. Assim, as justificativas para regulamentação mundial assumem uma forma bastante distinta no caso de políticas "empobrecer a si próprio", e apelam a requisitos processuais destinados a melhorar a qualidade das políticas domésticas. Padrões mundiais envolvendo transparência, ampla representatividade, responsabilidade e uso de evidências empíricas, por exemplo, não limitam o resultado final.
Diferentes tipos de políticas exigem diferentes respostas em nível mundial. Excessivo capital político mundial é atualmente desperdiçado na harmonização de políticas "empobrecer a si próprio" (em particular nas áreas de comércio e de regulamentação financeira), e esforços insuficientes são dispendidos em políticas "empobrecer seu vizinho" (como desequilíbrios macroeconômicos). Esforços excessivamente ambiciosos e mal orientados de governança mundial não serão proveitosos num momento em que a disponibilidade de liderança e cooperação econômica mundiais tende a ser limitada. (Tradução de Sergio Blum)
Dani Rodrik professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
TV ON LINE
EMPRESÁRIOS FALAM SOBRE A RELAÇÃO COMERCIAL ENTRE BRASIL E CHINA – PARTE I TEMPO: 00:12:14
EMPRESÁRIOS FALAM SOBRE A RELAÇÃO COMERCIAL ENTRE BRASIL E CHINA – PARTE II TEMPO: 00:10:21
Em entrevista ao Espaço Aberto, o empresário Diretor do Conselho Empresarial Brasil-China, Roberto Milani, e o executivo Diretor da Vale, Roberto Castelo Branco, falaram sobre a relação comercial entre Brasil e China. Os especialistas avaliam os riscos e desafios para o comércio exterior do Brasil nos próximos anos.
*ROBERTO CASTELO BRANCO, diretor da Vale
*ROBERTO MILANI, Diretor do Conselho Empresarial Brasil-China
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: ESPAÇO ABERTO
APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO
RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS
EMPRESÁRIOS FALAM SOBRE A RELAÇÃO COMERCIAL ENTRE BRASIL E CHINA – PARTE II TEMPO: 00:10:21
Em entrevista ao Espaço Aberto, o empresário Diretor do Conselho Empresarial Brasil-China, Roberto Milani, e o executivo Diretor da Vale, Roberto Castelo Branco, falaram sobre a relação comercial entre Brasil e China. Os especialistas avaliam os riscos e desafios para o comércio exterior do Brasil nos próximos anos.
*ROBERTO CASTELO BRANCO, diretor da Vale
*ROBERTO MILANI, Diretor do Conselho Empresarial Brasil-China
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: ESPAÇO ABERTO
APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO
RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS
O mercado não tem rivais de verdade
Por Samuel Brittan - Valor 13/01
Há mais tempo do que gosto de lembrar, escrevi um livro, "Capitalism and the Permissive Society", título que confundiu algumas pessoas, como se eu fosse defensor de ambos. Como a maioria dos livros sobre economia política, resultou imperfeito. Mas suas falhas foram de omissão, e não de comissão, e, retrospectivamente, quase duas décadas e meia depois, não há quase nada pelo que eu gostaria de me retratar.
Não há necessidade de fazer de conta que as recompensas do mercado refletem mérito pessoal. Como disse Lord Melbourne em outro contexto: "Não há mérito nenhum nisso". A melhor maneira de redistribuir é mediante um sistema tributário e de seguridade social (de preferência unificado), e não interferindo em preços e salários.
Um capitalismo bem sucedido também é compatível com - e, em minha opinião, exige - o uso da política monetária e fiscal para moderar as flutuações da atividade econômica e para evitar que longos períodos de demanda deficiente produzam desemprego desnecessário, bem como, naturalmente, para evitar inflação galopante.
Minha argumentação fundamental em favor do capitalismo competitivo é que ele promove a liberdade pessoal e política. Um empresário fora do setor financeiro prosperará disponibilizando o que os adultos desejam ter, mesmo que isso seja música pop, algodão doce ou shows com gente pelada - em vez do que gente supostamente mais sábia suponha ser bom para eles. Acima de tudo, o indivíduo tem a liberdade para usar seus potenciais segundo suas próprias escolhas. Ele ou ela podem concentrar-se em buscar seu prazer pessoal, dedicar-se ao serviço social em seu próprio país, minorar a pobreza no exterior ou qualquer combinação dessas e de outras atividades.
No início do século XX, Ludwig von Mises, um economista austríaco, desafiou os socialistas a dizerem como determinar o que deve ser produzido, e por quais métodos, na ausência de mercados capitalistas. A resposta mais interessante veio de "socialistas de mercado", com a afirmação de que as empresas estatais poderiam imitar os capitalistas, usando preços de mercado para orientar suas atividades. Com efeito, elas poderiam fazê-lo, com um conjunto conhecido de produtos, uma tecnologia conhecida e gostos conhecidos e estáticos do público.
A questão é totalmente distinta quando se trata de inventar novos produtos ou descobrir metodologias baratas. E quem deveriam ser os gestores e como conseguir que uma quantidade limitada de fundos para investimentos sejam alocados a todos que tiverem uma ideia brilhante? Acima de tudo, há a consideração política enunciada por John Stuart Mill: "Se as estradas, as ferrovias, os bancos, os escritórios de seguros, as grande sociedades anônimas fossem, todas, ramos do governo... se os trabalhadores de todas essas empresas... buscassem no governo cada melhoria em suas vidas, nem toda a liberdade de imprensa e participação popular na legislatura tornaria este ou qualquer outro país livre em outra coisa que no nome". A importância do capital privado para a liberdade de expressão foi comprovada por seu papel no lançamento da revista crítica e satírica "Private Eye", ou pela maneira como os escritores americanos supostamente subversivos, na década de 1950, encontraram refúgio da perseguição inspirada por McCarthy assumindo empregos no setor privado.
Existem alguns atrativos em empresas fundadas em autogestão (às quais Mill era simpático) e houve alguns sucessos aqui: por exemplo, o grupo Mondragon, na Espanha; e escrevo na condição de satisfeito cliente da John Lewis Partnership. Mas simplesmente não há provas ou análises suficientes para justificar uma transferência politicamente determinada de empresas para tais entidades.
Jesse Norman, o deputado conservador, listou algumas das inúmeras maneiras pelas quais o capitalismo pode ser corrompido por nepotismo. Uma delas é o velho monopólio; um capitalismo de tipo russo simbolizado por oligarcas que ganharam controle sobre os recursos naturais; capitalismo cáqui em países dominados por militares e narco-capitalismo baseado em negócios com drogas ilícitas. Esse último é agravado por excessiva legislação ocidental intrusiva, similar à Lei Seca nos EUA, na década de 1920. Não é preciso, porém, dizer que esses sistemas não são "capitalismo real" ou reivindicar uma patente conservadora sobre a variedade genuína.
A deficiência real de meu livro foi que, como muitos outros, não discuti o setor financeiro e as maneiras como suas atividades podem minar a ordem capitalista, mesmo se não houver inflação ou deflação ostensiva nos preços ao consumidor. O funcionamento ordenado de mercados exige a existência de alguma maneira de casar poupança com o desejo de tomar emprestado; um mercado para recursos disponíveis para investir e alguma forma de seguro contra as vicissitudes da vida, bem como, naturalmente, uma forma melhor de manter dinheiro líquido do que armazená-lo sob o colchão. Mas nada disso justifica a ameaça - criada pelas massas de dinheiro inventado - para uma instituição após outra e um país após outro. O capitalismo é um meio para termos liberdade e prosperidade, e não um fim em si mesmo. Melhorias, nesse terreno, podem justificar não apenas regulamentação internacional, mas a retenção, na esfera estatal, por um tempo bastante prolongado, de bancos e outras instituições que tiveram de ser socorridos por governos. (Tradução de Sergio Blum)
Samuel Brittan é comentarista econômico do FT.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Refletir, não dói!
Por Idalvo Toscano
Os teóricos do equilíbrio geral lograram realizar uma obra considerável: mostrar sob quais condições verifica-se o apólogo de Adam Smith, segundo o qual a busca do interesse individual garantiria um resultado coletivo favorável desde que as interações fossem intermediadas pelo mercado, sem outras interferências.
Resulta que a existência, a estabilidade e a otimização do equilíbrio de uma economia de mercado são mais difíceis de garantir do que consideraram os pais da economia política. É preciso que entre outras coisas a moeda seja exógena, que a concorrência seja perfeita, que a avaliação da qualidade não cause nenhum problema, que não exista nenhum bem público, que as técnicas de produção ofereçam rendimentos constantes, que a inovação não manifeste nenhuma externalidade positiva, e assim também que a poluição não produza externalidades negativas.
Importa igualmente que o efeito perturbador das expectativas seja anulado graças à criação de mercados futuros para todos os bens, em todos os períodos e para todos os estados do mundo... enquanto nas economias concretas, uns poucos mercados financeiros garantem sozinhos a coordenação de percepções sobre o futuro.
Last but not least, é preciso que as considerações de justiça social não exerçam nenhuma influência sobre a alocação de recursos e as condições de eficiência. Caso uma ou outra destas sete condições não seja atendida, outros mecanismos de coordenação são necessários. Estado, mercado e desenvolvimento: uma nova síntese para o século XXI – (Robert Boyer – Economia e Sociedade, Campinas, (12): 20 1-20, jun. 1999).
"Devemos pensar grande" – SUSAN GEORGE
Está o planeta salvaguardado enquanto o capitalismo internacional prevalece, com seu foco no crescimento e no lucro a todo custo, com a captura predatória de recursos e com a euforia financeira?
Como disse um homem sábio:
“Tudo para nós e nada para outro povo parece, em todas as épocas do mundo, ter sido a máxima vil dos senhores da humanidade”.
[Quem disse isso foi Adam Smith, em A Riqueza das Nações, não Karl Marx].
Os mercados se propuseram a ser uma espécie de remédio para todos os males.
Você tem um problema? Pois então recorra ao Mercado e este aportará a riqueza absoluta e a solução dos problemas. Mas agora nos damos contra de que o mercado acarreta devastações.
Greenspan disse: “pensava que a avidez dos banqueiros era a melhor regulação possível. Agora, me dou conta de que isso não funciona mais e não sei por que!”.
A gestão dinâmica da divergência, que é um fundamento democrático, não é mais compatível com a lógica financeira.
Se deixarmos esta lógica se impor, chegaremos ao que descreveu Paul Krugman, Nobel de Economia. Para ele, os programas de austeridade equivalem aos sacrifícios humanos entre os maias. É preciso analisar a crise atual com base nas categorias de uma crise de fé – portanto, uma crise religiosa, não apenas de confiança. Estamos sob domínio de um feixe de crenças e credulidades segundo as quais não há, diante dos novos deuses coroados que são os mercados financeiros, outra atitude exceto os sacrifícios. E sacrifícios humanos! Cada anúncio de um plano de austeridade implica mais desemprego, menos leitos hospitalares, menos educação.
É uma destruição de riqueza real e humana tão absurda quanto os sacrifícios maias, incapazes de deter os eclipses do sol ou a derrocada daquela civilização. Sabemos que são ineficazes, mas nos afirmam que o motivo é o fato de não termos nos sacrificado o suficiente. Ora, se deixarmos que esta lógica sacrificial vá até as últimas conseqüências colocaremos em xeque não apenas a democracia, mas a própria paz (Patrick Viveret: para salvar a Europa e o planeta)
Ah! realmente não existe luta de classes. Minha faxineira até falou ontem: "eu sempre quis trabalhar na faxina; nunca desejei ser médica... no fundo, sou uma preguiçosa!!"
Idalvo
O monopólio do dinheiro de plástico
Cielo e Redecard fecham acordos e inibem avanço de concorrentes
Valor 12/01
Passado um ano e meio da abertura do mercado de cartões, Cielo e Redecard estão conseguindo, na prática, barrar a entrada de novos competidores no chamado mercado de adquirência - responsável pelo credenciamento de estabelecimentos comerciais, captura, processamento e liquidação das transações de débito e crédito. A principal barreira tem sido os acordos de preferência fechados pelas duas empresas com diversos bancos fora de seus grupos de controle acionário. Ou seja, Redecard e Cielo têm prioridade para credenciar os estabelecimentos que são clientes desses bancos.
A Cielo, que tem como acionistas Banco do Brasil (BB) e Bradesco, possui acordo de preferência também com o HSBC. Redecard, empresa do Itaú Unibanco, tem parcerias com Safra e Tribanco . Já a Caixa Econômica Federal preferiu fechar um acordo simultâneo com Redecard e Cielo.
A americana Elavon fisgou uma das últimas alternativas do mercado - a Credicard, subsidiária do Citigroup - e criou com ela, em dezembro, uma "joint-venture". Além de precisar adaptar seus sistemas tecnológicos para poder operar no mercado brasileiro (o país é o único do mundo que tem o crédito parcelado sem juro, por exemplo), questão que vem contribuindo para postegar sua estreia no país, a Elavon ainda terá pela frente o desafio da baixa capilaridade do Citi no país. Procurada, a empresa não atendeu à reportagem.
Outra americana, a Global Payments, anunciou seu ingresso no mercado brasileiro há um ano, mas está à procura de um parceiro. "Os incentivos que as credenciadoras locais estão dando aos bancos para eles não entrarem no mercado de adquirência têm sido o principal obstáculo para a atuação das estrangeiras", afirma Edson Luiz dos Santos, presidente da Global Payments no Brasil.
Sobraram como opção para as novatas instituições financeiras com operações regionais ou de pequeno porte - que têm pouca capacidade de emissão de cartões, desinteressante portanto para bandeiras como Visa e Mastercard, além de pouca condição de arcar com risco de crédito elevado. Uma alternativa seria também atrair bancos que já fecharam parcerias com Cielo e Redecard com uma proposta melhor. E é por aí que as gigantes buscam se defender.
"A Global Payments fechou um acordo global com o HSBC. Por que não fez isso aqui?", questiona Rômulo de Mello Dias, presidente da Cielo. "Ter um banco é chave nesse processo, mas não adianta ter parceria sem proposta, e se tem alguém que sabe avaliar proposta é banco." Claudio Yamaguti, presidente da Redecard, lembra que tudo pode ser negociado. "É uma questão de preço", observa.
A Redecard apurou uma despesa líquida de R$ 28,9 milhões no terceiro trimestre de 2010 relativa a perdas com aluguel de equipamentos, ações culturais e, principalmente, incentivos para credenciamento (comissões pagas a bancos parceiros) - gasto 30,9% superior ao do terceiro trimestre de 2010. A Cielo não revela essa cifra. "A competição tornou o jogo mais duro e é natural que as empresas defendam mercado", explica Carlos Zanvettor, diretor de varejo, marketing e produtos da Redecard, em referência ao fim da exclusividade entre a Cielo e a bandeira Visa e, por tabela, da Redecard com Mastercard.
A parceria com uma instituição financeira é fundamental para uma adquirente porque, em primeiro lugar, a licença para operar com Visa e Mastercard é fornecida pelas bandeiras internacionais exclusivamente a bancos. Trata-se de uma medida prudencial, uma vez que está em jogo, em última instância, a segurança do sistema financeiro.
Ter um banco como parceiro também ajuda (e muito) na distribuição. As credenciadoras têm suas próprias equipes de vendas para colocar suas maquininhas nas lojas, mas boa parte do serviço é feita por meio da estrutura bancária. "É essencial ter distribuição bancária para ser bem sucedido nesse mercado no Brasil, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, onde o setor é mais pulverizado", afirma Victor Schabbel, analista do Credit Suisse.
Entretanto, até mesmo o voo solo feito pelo Santander em parceria com a processadora GetNet tem mexido pouco com o setor, até o momento. A participação de mercado do banco espanhol no setor de adquirência era de 2,1% em setembro de 2010. Na prática, portanto, Cielo e Redecard permanecem praticamente sozinhas no mercado brasileiro de pagamentos eletrônicos, após um ano e meio da abertura do mercado de cartões.
Os esforços do Santander no setor de adquirência estavam concentrados, até meados do ano passado, no pequeno varejo. A solução tecnológica do banco espanhol para atender a grandes varejistas, que trabalham com seus próprios terminais financeiros (TEF, no jargão do setor) em vez das maquininhas de captura de transações com cartões (o POS), ficou pronta apenas no segundo semestre de 2010.
Espera-se, portanto, que o Santander comece a atuar de forma mais agressiva em 2012 no credenciamento de estabelecimentos comerciais, passado o período de festas de fim de ano - época em que poucos comércios se atrevem a mudar de prestador de serviço, especialmente na área de tecnologia. Schabbel, analista do Credit Suisse, projeta uma participação de mercado de 10% do Santander até o fim de 2013. "Seria um crescimento agressivo, mas estou dando ao banco o benefício da dúvida", afirma.
Como a rede de atendimento do Santander está concentrada nas regiões Sul e Sudeste, o maior desafio do banco para ganhar mercado será ampliar sua exposição ao Nordeste, onde está o maior potencial de crescimento. Em junho, os pagamentos feitos com cartões representavam 14% do consumo privado das famílias no Nordeste, ante 22% da média brasileira. "Se o Santander não se provar capaz de ganhar mercado de forma rápida, quem vai continuar se beneficiando é Cielo e Redecard", diz Schabbel. Procurado, o Santander não atendeu à reportagem.
Até 2015, o cenário traçado por Schabbel prevê Santander com os mesmos 10% de participação de mercado e outras três adquirentes estrangeiras com uma fatia total de 8%, atuando em nichos. Elavon, na visão de Schabbel, deverá focar em entretenimento, ramo no qual a Credicard é forte e já tem parcerias. Os 82% restantes do mercado de credenciamento ficariam divididos entre Cielo e Redecard, com Cielo mantendo a dianteira.
Tanto Redecard como Cielo defendem que os preços cobrados dos lojistas no aluguel das maquininhas (POS) e na tarifa de transação com cartões de débito e crédito (taxa de desconto) têm pouco espaço para cair, apesar da previsão de aumento de concorrência. Houve um forte recuo dessas duas receitas logo após a abertura do mercado, em julho do ano passado - numa guerra de preços liderada pela Redecard -, mas uma parte já foi recuperada, tanto em função de reajustes como dos volumes crescentes de transações com cartões. A evolução do preço das ações das duas empresas é emblemática da recuperação. As cotações apresentaram forte queda nos dois primeiros trimestres após a abertura de mercado, mas, depois que os investidores perceberam que ambas continuam nadando de braçada, o desempenho no mercado acionário também foi recuperado.
Europa: por quem os sinos dobram?
Por Guilherme Lacerda e Jorge Arbache - Valor 12/01
"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas
Os dias passam e a crise europeia continua se arrastando. Entramos em 2012 e não há sinais de que as turbulências terminarão. Momentos de alívio e até euforia nos mercados financeiros são seguidos por outros de quase pânico; observa-se uma ciclotimia com frequência e intensidade como há muito não se via.
O receituário predominante para se mitigar a crise tem sido ditado pela Alemanha, a qual preconiza que não há solução fora do ajuste fiscal dos países em crise. Resiste-se a um ajuste de dívidas com renegociações amplas e lançamento de eurobonds, com o Banco Central Europeu (BCE) passando a ser um devedor em última instância e a ter um papel mais proeminente na reorganização financeira dos países do euro, como clamam os líderes dos países em dificuldades. Tampouco se consideram ações pró-ativas de oxigenação das economias por meio de uma política monetária mais flexível, tal como a dos EUA, ou de políticas de incentivo à retomada da atividade econômica.
A exigência de forte controle orçamentário e a proposta de convergência fiscal podem ter implicações políticas imprevisíveis devido aos seus impactos sociais de curto prazo. A população classificada como pobre ou ameaçada de risco social já chega a 30% ou mais em alguns países da região. As disparidades nas taxas de desemprego revelam tanto a heterogeneidade dos países quanto a intensidade com que a crise tem afetado cada um deles. De fato, enquanto Espanha e Grécia registram desemprego de 22,9% e 18,8%, Áustria e Alemanha registram 4% e 6,4%, respectivamente. Mas é improvável que os países até agora menos afetados pela crise se mantenham protegidos dos seus efeitos a médio e longo prazos.
A situação requer soluções consensuais e permanentes para a reorganização financeira e econômica. Não há, pois, por que indagar "por quem os sinos dobram", como disse o poeta britânico John Donne no século XVII. O foco no receituário de austeridade fiscal detona um ciclo vicioso em que cortes orçamentários restringirão ainda mais as receitas públicas, requerendo, por conseguinte, cortes adicionais de despesas. Assim, ajustes fiscais rigorosos "per se" não devem se sustentar e tampouco trazer confiança aos mercados, a não ser que sejam combinados com planos concretos para o "day after", quais sejam, políticas para a retomada do crescimento econômico e para o enfrentamento das heterogeneidades entre os países membros da zona do euro.
As elevadas desigualdades em áreas como produtividade, competitividade e estoque de capital por trabalhador se refletem nas balanças de pagamentos dos países. Esse é o ponto central da crise. Quase 40% do comércio alemão é feito com os países da região do euro e nada menos que 60% do saldo da balança comercial da Alemanha se origina das transações com aqueles países, o que mostra quão profundos são os desequilíbrios.
E essa situação não decorre do impacto da crise de 2008; vem de longe. No período 2000/2007, por exemplo, o resultado anual médio da balança em transações correntes da Alemanha foi de US$ 94,6 bilhões, enquanto para três dos países hoje situados no foco da crise (Portugal, Espanha e Grécia) o resultado negativo anual médio (dos três em conjunto) foi de US$ 32 bilhões. E para não ficar nestes, ressalte-se que no caso da França, o resultado foi um superávit de apenas US$ 4,4 bilhões (média anual 2000/2007). A disparidade dos números falam por si. A diferença dos perfis das balanças de pagamentos é tal que, em 2010, o superávit nominal total em contas correntes da Alemanha foi maior que o déficit conjunto de Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Portugal.
É importante recordar que o Tratado de Maastricht, de 1992, já havia explicitado compromissos de limites de déficits e da relação dívida/PIB, como se reitera agora com maior rigor. No entanto, nada foi estabelecido para o controle dos balanços de pagamentos, o que contribuiu para a desorganização orçamentária e financeira dos países do euro durante a crise financeira de 2008/2009. Muito embora os desequilíbrios e os problemas estruturais entre os países da região sejam anteriores à crise financeira, eles foram duramente agravados por ela.
Tudo isso indica que uma eventual recessão ou uma estagnação econômica na Europa deverá ter impactos não negligenciáveis na economia alemã, o que trará, por sua vez, novos obstáculos e impasses para a já frágil situação da zona do euro.
Merkel e Sarkozy discutiram nos últimos dias maneiras de incentivar o crescimento na região. É possível que algumas medidas compensatórias paliativas sejam anunciadas, mas é improvável que ações suficientes e compromissos que tratem dos desequilíbrios sejam assumidos.
Enfim, a região do euro carece de ajustes que vão muito além do orçamento equilibrado. Insistir nessa direção apenas adiará, com custos econômicos, sociais e políticos, a adoção de medidas que ofereçam alternativas críveis de recuperação e crescimento sustentável
Guilherme Lacerda é doutor em economia-Unicamp e ex-presidente da - Fundação dos Economiários Federais (Funcef)
Jorge Arbache é professor de economia da UNB e assessor da presidência do BNDES
'Básico do básico' ganha espaço na exportação
Por Marta Watanabe - Valor 12/01
De São Paulo
As commodities vendidas ao exterior não só avançaram de 65% em 2009 para os atuais 70% de participação na exportação brasileira como também passaram por um processo de maior "empobrecimento". O fenômeno é evidente no grupo dos cinco produtos mais importantes da pauta de exportação brasileira - minério de ferro, petróleo, soja, açúcar e café. Dentro de cada um desses grupos, os embarques dos produtos mais básicos cresceram em ritmo mais acelerado do que aqueles com maior valor agregado.
Dentro do complexo soja, por exemplo, a exportação do grão avançou desde 2005 muito mais que rapidamente que os embarques de farelo e óleo. De janeiro a novembro do ano passado, a soja em grão representou 68% dos US$ 22,97 bilhões exportados com o produto e seus derivados. Nos mesmos meses de 2005, essa fatia era de 57,3%. Há seis anos, a venda ao exterior de farelo de soja equivalia a pouco mais da metade da soja em grão exportada. No ano passado, essa participação caiu para 34,14%.
Em 2005, o minério de ferro aglomerado representava 39,2% do minério de ferro total exportado pelo Brasil. O valor embarcado de minério de ferro teve forte elevação no ano passado, mas a versão não aglomerada, que é mais bruta, avançou muito mais que o minério aglomerado, cuja participação caiu em 2011 para 23,8% do total exportado do produto. O não aglomerado avançou, no período, de 60,8% para 76,2%. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic).
No grupo do açúcar, os produtos mais industrializados também perderam espaço. De janeiro a novembro de 2005, o açúcar refinado representava 39,8% do valor total embarcado do grupo. No mesmo período do ano passado, a participação caiu para 20,8%. A boa notícia é que o álcool etílico passou a integrar o grupo no decorrer dos últimos anos, assumindo fatia de 8,7% do total embarcado no ano passado. Mesmo assim, o açúcar bruto, menos processado que a versão refinada, elevou sua representatividade de 60,2% em 2005 para 70,5% do total exportado dentro do grupo de açúcar e álcool no ano passado.
Para o economista Fabio Silveira, sócio da RC Consultores, os exemplos revelam que a perda de competitividade em razão do custo elevado de industrialização atinge não só os manufaturados mais sofisticados, mas também as cadeias produtivas mais curtas. "Há um estreitamento do número de bens exportados acompanhada da redução de patamar tecnológico", diz ele. Quanto mais longa a cadeia produtiva, explica o economista, mais representativa a carga tributária e mais pesado o custo financeiro e o volume de encargos trabalhistas.
Fabio Trigueirinho, secretário-geral da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), explica que um dos desafios da produção brasileira de soja é conseguir exportar não só o grão, mas também os derivados, que têm maior agregação de valor.
O desafio esbarra em políticas protecionistas no destino. A China, parceiro mais importante na venda ao exterior da soja brasileira, diz Trigueirinho, aplica tarifas mais elevadas para os desembarques de farelo e óleo do que para a soja em grão. O problema, porém, não está somente na ponta do desembarque.
"Os argentinos conseguem exportar uma proporção maior de farelo e óleo de soja", lembra José Augusto de Castro, presidente em exercício da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). No Brasil, a soja em grão significa 68% do total exportado dentro do complexo soja. O farelo representa 23,2% e o óleo, 8,7%. Na exportação argentina do complexo soja entre janeiro e agosto de 2011, 48,6% foram de farinha. Tanto o óleo quanto o grão ficaram com uma fatia próxima a 26% cada um.
A carga tributária é a maior variável que diferencia as condições de produção entre o Brasil e o país vizinho, diz Trigueirinho. O principal problema é com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). O tributo pesa mais quando há algum processo de industrialização, principalmente quando se trata de exportação.
Se é produzida num Estado e vendida desse local diretamente ao exterior, sem processamento, em grão ou apenas triturada, a soja fica livre do ICMS, porque na operação de venda ao exterior o imposto não é cobrado.
O problema é quando a soja produzida no Mato Grosso, por exemplo, é vendida para ser beneficiada em outro Estado. Nessa operação o grão é tributado com 12% de ICMS. Depois de virar farelo ou óleo, o produto fica livre de imposto na operação de exportação. Teoricamente a indústria fica com o crédito do imposto. Ou seja, os 12% de imposto pagos seriam ressarcidos ao exportador.
Isso, porém, não acontece na prática. O imposto poderia ser compensado com o ICMS devido nas operações internas, mas as indústrias não possuem vendas domésticas suficientes para utilizar todo o crédito ou as operações internas são espalhadas por todo o Brasil. Poucas são no Mato Grosso - continuando com o mesmo exemplo dado -, Estado no qual está o crédito de ICMS.
O crédito não recuperado significa custo definitivo. "Na verdade, a margem permitida pelo maior valor agregado com a industrialização da soja não compensa esse custo", diz Trigueirinho. Na Argentina, diz, há uma política de apoio à exportação, cuja produção conta com tributação mais favorável e subsídio na aquisição de energia.
O sistema brasileiro de impostos faz o contrário: estimula a exportação da matéria-prima e não do manufaturado. E o ICMS é apenas um exemplo. Há dificuldade com outras contribuições federais, como Funrural, PIS e Cofins, lembra Trigueirinho. Resultado: o Brasil é o segundo produtor de soja e apenas o quarto processador do grão no mundo.
A soja é apenas um exemplo dos efeitos do imposto para a industrialização de produtos básicos, diz Castro. O problema se repete nas demais commodities. Para alguns grupos de produtos, lembra ele, é possível que o Brasil não tenha capacidade de produção industrial e, por isso, o produto mais bruto ganhe espaço na exportação em ritmo mais acelerado.
Ele dá como exemplo o setor de celulose e papel. Dentro desse grupo, a celulose avançou de 58,9% das exportações do setor para 69,4%. O papel recuou de 40,9% para 30,5%. "O Brasil tem atraído muito mais investimentos em celulose do que em papel", diz Castro. Mas talvez, afirma, isso também seja resultado de uma política que acaba desestimulando a industrialização, principalmente quando o objetivo é a exportação.
Silveira lembra que a taxa de câmbio também contribuiu nos últimos anos para tornar a exportação menos rentável. A valorização do real frente ao dólar fez a pressão dos custos em moeda nacional ser maior, diz, agravando problemas estruturais nos custos de produção.
A solução, porém, não está simplesmente no câmbio, segundo Silveira. "Precisamos da coordenação e definição de uma política industrial mais ambiciosa, capaz de tornar a produção nacional mais competitiva."
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
A melhor esperança de crescimento
Por Martin Wolf - Valor 11/01
Entre 2007 e 2012, a economia chinesa crescerá cerca de 60%. A Ásia emergente como um todo vai crescer quase 50%. No mesmo período, as economias dos países de alta renda crescerão meros 3%. Quem pode duvidar de que o mundo está passando por uma profunda transformação? A velocidade da convergência das rendas per capita está provocando extraordinária divergência de crescimento entre países avançados e emergentes. Isso tem persistido apesar do fraco crescimento dos países de alta renda discutidos na semana passada (nesta coluna). Enormes choques, como os ocorridos em 2008, afetam efetivamente as taxas de crescimento das economias emergentes. O mesmo provavelmente seria verdade se a zona do euro implodisse. Mas o efeito não parece perdurar.
Se observarmos em detalhes o crescimento das economias emergentes, veremos que a Ásia é a região mais dinâmica e a menos afetada pela crise mundial de 2008 e 2009. A África Subsaariana ficou em segundo lugar em relação à Ásia nos dois aspectos. A América Latina e Europa Central e Oriental revelaram-se menos dinâmicas e mais vulneráveis aos choques.
E agora, então? Como argumenta o Institute of International finance (IIF, associação mundial de instituições financeiras) em seu mais recente Capital Market Monitor: "A questão-chave para 2012 é saber se as peças vigorosas do sistema econômico e financeiro mundial - as economias de mercado emergentes e os setores empresariais não financeiros - são suficientemente robustos para amortecer o possível impacto do elevado risco de crédito associado às economias maduras".
Assim como é verdadeiro para os países de alta renda, o consenso das previsões para este ano tornou-se mais sombrio desde o início de 2011. Mas a piora nas previsões é bastante modesta. Em dezembro, previa-se que a China ainda cresceria 8,3% em 2012 e a Índia 7,5%. Não é de surpreender que os dados mostrem um rebaixamento do crescimento proporcionalmente bem maior para a Europa Central e Oriental, principalmente devido aos riscos na zona do euro. A expectativas em relação à América Latina - principalmente quanto ao Brasil - também são mais pessimistas do que um ano atrás.
Quais são os riscos, para melhor e para pior? Para as mais importantes economias emergentes, as chances de resultados melhores do que previstos podem não ser importante, pois já se espera que o desempenho delas seja muito bom. Sim, o crescimento poderá ser de 10% na China e 9% na Índia. Mas isso dificilmente seria uma grande surpresa. Uma parte do mundo emergente que poderá surpreender positivamente é a Europa Central e Oriental, desde que a zona do euro também caminhe melhor do que se teme.
Muito mais significativa é a possibilidade de grandes surpresas com viés desfavorável, particularmente no caso chinês, que tornou-se uma poderosa força motriz para outras economias emergentes, especialmente para os exportadores de commodities. Talvez seja isso que os mercados de ações pareçam estar dizendo, com grandes quedas nos índices dos mercados de ações desde o verão do ano passado (hemisfério norte). Mas, como diz a anedota, os mercados acionários previram 10 das últimas três recessões. Os mercados das economias emergentes são particularmente voláteis: alguns são puros casinos.
Assim, quais são os riscos de desempenhos piores do que os previstos para os grandes países emergentes? Algumas das vulnerabilidades resultam do próprio crescimento. O desenvolvimento torna uma sociedade mais móvel, mais exigente e mais bem educada e informada. Suas preocupações também mudam: a renda per capita na China está agora em níveis que produziram poderosas turbulências sociais e políticas em outros países. Assim, uma revolução de aspirações crescentes, reforçada pelas novas tecnologias da informação, restringem o que um governo pode fazer impunemente, mesmo com partido único.
Além disso, um desenvolvimento rápido é quase sempre desequilibrado. A China não é exceção. Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês, qualificou a economia chinesa de "instável, desequilibrada, descoordenada e, em última análise insustentável". Entre os problemas resultantes estão os da gestão da transição de uma economia puxada por investimentos para outra, puxada por consumo, e do enfrentamento das consequências de enormes bolhas imobiliárias.
Os países emergentes sofrem também com as vulnerabilidades externas. A mais óbvia, neste momento, é um grande choque nos países de alta renda, provavelmente emanados da zona do euro. Uma combinação de calotes soberanos, falências bancárias e até mesmo saídas de membros importantes da zona do euro certamente criariam turbulência. O ânimo cada vez mais isolacionista da direita americana poderia, então, levar ao ressurgimento de seu protecionismo historicamente tradicional.
Um ponto crucial para os países emergentes é o acesso a recursos essenciais a preços razoáveis. Uma das novas características mais importantes da economia mundial é que as commodities estão muito caras, apesar do fraco crescimento dos países de alta renda. Essa é uma medida da transformação do padrão de crescimento econômico mundial. Um grande choque no mercado petrolífero seria extremamente perturbador. Tendo em vista os acontecimentos no Golfo, isso não é inconcebível.
Contra isso, no entanto, lembremos que os países emergentes ainda mantêm grandes oportunidades para convergência com os níveis de produtividade dos países de alta renda. Em termos de paridade de poder aquisitivo, a renda real per capita chinesa era pouco mais que um quinto da americana em 2010. Na Índia, era inferior a um décimo. Esses países continuam a desfrutar o que o economista Alexander Gerschenkron denominou "vantagens do atraso". Em todos esses aspectos, a própria China é uma fortaleza. Considerando a combinação de potencial de crescimento e dinamismo econômico, é muito mais provável do que improvável que o crescimento será rápido em qualquer ano, ao menos no curto prazo. Mas, durante muitos anos, serão prováveis grandes choques adversos.
Os países emergentes, com a Ásia à frente, provavelmente continuarão a crescer rapidamente em 2012, como fizeram em 2010 e 2011. Isso é extremamente importante para o bem-estar humano. Mas os países emergentes não estão imunes a desastres de baixa probabilidade e alto impacto - internos, externos ou, mais provavelmente, uma combinação de ambos. Embora disponham de grandes amortecedores, esses poderão não se comprovar sempre suficientes. Para além dessas condições, os países emergentes não serão capazes de induzir os países de alta renda a um crescimento rápido. Os países de alta renda terão de salvar-se por seus próprios esforços. É isso o que os líderes de países emergentes argumentam. Eles estão certos. (Tradução de Sergio Blum)
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT
Assinar:
Postagens (Atom)
















