terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Quebrada, AA deve quase US$ 1 bi ao BNDES



Por Francisco Góes
Valor 10/01 Do Rio

A recuperação judicial da American Airlines (AA), uma das maiores empresas de aviação comercial dos Estados Unidos, interessa diretamente a um grande credor brasileiro - o BNDES. O banco financiou mais de 200 aviões da Embraer, modelos 135, 140 e 145, à aérea americana, que recebeu as aeronaves brasileiras entre 1998 e 2002. Estimativas de mercado apontam que cerca de US$ 900 milhões, ou 30% do valor inicial do financiamento do BNDES à American, ainda precisam ser pagos pela companhia. Os outros 70%, ou US$ 2,1 bilhões dos cerca de US$ 3 bilhões financiados pelo banco, segundo as projeções do setor, foram quitados.

É sobre essa parte da frota com empréstimos vigentes que vão se concentrar, nos próximos meses, as negociações entre American e BNDES e que também vão envolver a Embraer. O processo está no início e ainda não há registro de default, o que significa parcela vencida e não paga. Até entrar em recuperação judicial em 29 de novembro do ano passado, amparada pelo Capítulo 11 da Lei de Falências dos Estados Unidos, a American vinha cumprindo religiosamente os compromissos com o BNDES.

Fontes do setor aeronáutico dizem que o Capítulo 11 dá segurança ao BNDES de que outros credores não terão tratamento privilegiado em relação ao banco na renegociação das dívidas. As primeiras reuniões de negociação ainda serão marcadas. O pagamento dos próximos vencimentos, em 2012, depende dessas negociações. Ao entrar em recuperação judicial, a empresa ganhou esse direito da corte junto aos seus credores e fornecedores.

Nas negociações, existe, porém, a possibilidade de o BNDES ter que assumir, como credor, parte das aeronaves da Embraer hoje em poder da American para recolocar estes aviões no mercado, seja com empresas de leasing, seja com companhias aéreas. Até hoje houve somente um caso de default que obrigou o BNDES a retomar a aeronave financiada e recolocá-la no mercado. Um observador disse que esse é um indicador de que a carteira do banco para o setor aeronáutico é saudável, com boa geração de receitas e de margens, apesar dos riscos. Nessa carteira, há mais de 40 companhias, entre empresas aéreas e de leasing financiadas pelo banco. O BNDES informou, via assessoria de imprensa, que tomou conhecimento da recuperação judicial da American Airlines, foi contatado pela empresa e está em negociação. O banco não faz outros comentários sobre o caso, nem cita valores envolvidos.

O ponto de partida da negociação entre American, BNDES e Embraer será a proposta da aérea aos credores nem seu plano de reestruturação. O banco, segundo fontes próximas das negociações, sente-se confortável por considerar que o processo de reorganização da aérea vai permitir à empresa sentar com todos os credores e apresentar um plano de negócios para o futuro. Uma fonte disse que o BNDES também conta com garantias extras, além das aeronaves, no financiamento. O pedido de proteção, feito à Corte de Falências do distrito sul de Nova Iorque, partiu da AMR Corporation, controladora da American Airlines e da American Eagle.

Em comunicado aos credores e locadores de aeronaves, em 29 de novembro de 2011, o vice-presidente de desenvolvimento corporativo e tesoureiro da companhia, Beverly Goulet, reconheceu que a empresa não podia se dar ao luxo de manter todos os aviões atuais nas suas frotas nem da American Eagle nas taxas atuais. A American considerou, na ocasião, não ter alternativa a não ser negociar reduções substanciais no custo das aeronaves retidas. E admitiu que durante um período garantido pela Lei de Falências planejava pagar o aluguel e a parte principal e juros de hipotecas somente de uma parte da frota de aeronaves.

A análise da empresa de que precisará reestruturar a frota considera as encomendas de novos aviões feitas à Boeing e Airbus. Está claro que a empresa tem necessidade de acelerar a renovação de aeronaves. Como resultado, não deverá requerer todas as aeronaves atualmente em poder da companhia. Segundo sua informação, a frota combinada soma 900 aeronaves. Os modelos 135, 140 e 145 da Embraer, com capacidade de 37 a 50 passageiros, são aeronaves que têm nicho em rotas menores para substituir turbo-hélices, disse fonte do setor.

No início, as mais de 200 aeronaves adquiridas da Embraer tinham o financiamento atrelado à American Eagle. Depois o contrato financeiro e as aeronaves foram transferidos para a controladora. Daí que hoje o devedor do BNDES seja diretamente a companhia aérea americana. "Hoje as aeronaves da Embraer são de propriedade da American, não estão em leasing", disse uma fonte.

O vice-presidente da Embraer para o mercado de aviação comercial, Paulo César de Souza e Silva, disse que a American tomou a decisão de pedir proteção ao Capítulo 11 da Lei de Falências porque tinha o maior custo entre as chamadas "majors" do setor e era a única, entre essas grandes companhias americanas, que ainda não havia seguido esse caminho. Em 2010, United e Continental, anunciaram acordo de fusão.

Para Souza e Silva, quando sair da recuperação, a American deverá ter um custo bem mais baixo, em linha com as demais empresas, e poderá competir e investir de forma a se tornar novamente uma das principais companhias aéreas do mundo. "Ainda não sabemos ao certo quantas aeronaves regionais permanecerão na sua frota [da AA], mas acreditamos que seja a maioria. Poderá haver também novas oportunidades de negócios, com jatos maiores, como os E-Jets [da Embraer]. Teremos que aguardar para saber os planos da AA", disse o executivo em e-mail enviado ao Valor.

A American reconheceu no comunicado aos credores de 29 de novembro que a substancial desvantagem de custos da empresa em relação aos principais concorrentes, os quais também reestruturaram dívidas e custos via Capítulo 11, tornou-se cada vez mais insustentável devido o impacto acelerado da incerteza econômica global. Esse cenário, apontou, resulta em instabilidade de receita, preços de combustíveis voláteis e crescentes e intensificação dos desafios de competitividade.

Fontes do setor aeronáutico não acreditam que a American Airlines vá desaparecer. Pelo contrário, apostam que a empresa poderá sair mais forte do processo de reorganização pelo qual deverá apresentar um plano de negócios que tende a incluir a devolução de aeronaves alugadas e a renegociação de contratos da frota própria.

Na contramão da crise, economia da Alemanha se mostra robusta - O Globo



SÃO PAULO — Enquanto na Grécia e na Espanha a taxa de desemprego beira os 20%, a Alemanha fechou 2011 com apenas 6,6%. No ano passado, foram criados 500 mil novos postos de trabalho no país comandado pela chanceler Angela Merkel, um crescimento de 1,3% em relação a 2010. O superávit comercial alemão ficou em € 150 bilhões de euros, em 2011, enquanto a maioria dos países da União Europeia apresentou déficit. Para os vizinhos da zona do euro, os números da economia alemã são de fazer inveja. Mas como explicar índices tão impressionantes em meio a uma crise sem precedentes na região?



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Na contramão da crise, economia da Alemanha se mostra robusta - O Globo

Profecias para 2012



Por Antonio Delfim Netto - Valor 10/01

As "profecias" para 2012 estão dadas. As medianas das informações do Boletim Focus do Banco Central de 30 de dezembro de 2011, produzidas pelas opiniões de profissionais altamente qualificados, estão na tabela abaixo.

Duas circunstâncias são importantes: 1) há um viés informacional a favor dos "consultores financeiros", que pode ter alguma influência. O "valor" de mercado do consultor depende da qualidade da sua "consulta". Ele tem de se esforçar para ser o mais preciso possível, mas não pode se afastar muito da opinião dos outros. Se todos errarem juntos ninguém de fato errou. Apenas ignoraram alguma condicionalidade; 2) o número de condicionalidades não explicitadas que as previsões do Focus implicam não é enumerável.

Depois de terminar o ano, se as "profecias" diferirem da realidade, os "desvios" serão facilmente explicáveis, porque tudo o que poderia ter acontecido já aconteceu, não restará nenhuma condicionalidade. Como disse J. M. Keynes, em carta ao grande economista e historiador Jacob Viner, "a experiência mostra que o que acontece é sempre algo contra o qual nunca nos prevenimos".

Profecias feitas com modelos aparentemente simples, como é o caso, por exemplo, da "contabilidade do crescimento" (com a qual se calcula o "produto potencial") envolvem ligações internas que as tornam muito vulneráveis e têm consequências sobre toda a economia (por exemplo, a divertida teoria dos ciclos reais) e sobre a política econômica (por exemplo, a teoria das metas inflacionárias).

A "contabilidade do crescimento" é um exercício de cálculo diferencial, onde se supõe que as variáveis "trabalho" e "capital" são bem definidas e independentes, condicionadas por uma função de produção que revela o limite superior do PIB. Com a função de produção, bem educada, podemos calcular a contribuição, na margem, de um aumento do fator "trabalho" e de um aumento do fator "capital". Somados, eles informam o aumento do PIB que deveria resultar desses dois aumentos.

Acontece que esses incrementos, quando calculados empiricamente, são sempre muito menores do que o aumento empírico do PIB. A "solução" foi atribuir a essa diferença o pomposo nome de produtividade total dos fatores (o que falta para completar o aumento não "explicado" do PIB).

Há dois fatos notáveis sobre essa operação. Já nos anos 50 do século passado: 1) Herbert Simon mostrou que o sucesso empírico da função de produção usada (Cobb-Douglas) é o resultado de uma simples manipulação algébrica da identidade renda global = renda do trabalho + renda do capital; e 2) Moses Abramovitz, mostrou que as variáveis "trabalho" e "capital" estão longe de ser independentes e que o "resíduo" (a produtividade total dos fatores, PTF) era um "saco de caranguejos". Ele a chamou, com muita propriedade, de "medida da nossa ignorância", pois "explicava" 80% de variação do PIB, enquanto a soma dos "fatores" chegava a 20%.

Pois bem, nos últimos 60 anos fizemos muito progresso no refinamento das definições do "trabalho", a ponto de chamá-lo de "capital humano", e do "capital", mas avançamos pouco na compreensão da PTF. O recente "survey" sobre o assunto (Hsieh,C.T; Klenow,P.J. "Development Accounting", AEJ Macroeconomics, 2, 2010), que analisa as "causas" das diferenças de crescimento entre as nações, termina melancolicamente: "Aprendemos muita coisa nas últimas décadas sobre os determinantes dessas diferenças. Ainda que importantes questões não estejam resolvidas, particularmente o papel das diferenças do capital humano, existe um grande consenso que estas dão conta entre 10 a 30% delas; o capital físico talvez explique qualquer coisa como 10%. As diferenças entre a produtividade total dos fatores contam a maior parte da história: talvez entre 50 e 70%", praticamente o mesmo de 1950!

A verdade - continuam os autores - é "que entendemos muito mal, porque as PTFs diferem. Sugerimos que um aumento da PTF não tem um efeito apenas no crescimento do PIB, mas pode ter um importante aumento indireto (previsto por Abramovitz em 1955) no capital físico e humano pela redução do preço do capital e da educação com relação ao preço do PIB... Finalmente, sugerimos que a má alocação de fatores entre firmas e setores industriais pode ser um determinante importante das diferenças da PTF, mas resta saber quais as forças que levam a essa má alocação".

Como é possível, no início de 2012, que alguém ainda leve a sério a "previsão científica" apoiada numa função Cobb-Douglas e numa PTF "inventada", que o produto potencial do Brasil em 2012 é de 3,5%? E que qualquer "ameaça" da economia de superá-la deve exigir o aumento da taxa de juros real?

Voltamos a insistir: 2012 não está escrito nas estrelas! Ele será o que nós, governo e a sociedade, soubermos fazer dele, se tivermos a coragem e a inteligência necessárias para enfrentar a "má alocação" de nossos fatores (públicos e privados) e promover políticas que aumentem, simultaneamente, a oferta e a demanda globais, como é o caso, por exemplo, dos investimentos em infraestrutura que eliminem rapidamente gargalos produtivos.



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Deus não fala pela boca de economistas


Clovis Rossi - FSP 06/01


O "Estadão" primeiro e a Folha-papel em seguida recuperaram a tabelinha que Delfim Netto já havia publicado em sua coluna, para demonstrar que todos, repito TODOS, os palpites dos economistas sobre o desempenho da economia em 2011 foram furados.

Usei a tabelinha na coluna do dia 23, mas volto a ela por duas razões. Primeiro, porque ao menos um economista teve o bom senso de reconhecer que seu palpite não é a palavra de Deus: "Os erros são inevitáveis. A vida real é mais complexa do que os modelos matemáticos são capazes de prever", disse à Folha o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges.

Borges explicou ainda que a maioria das consultorias e bancos trabalha com mais de uma projeção, mas só divulga aquela em que veem maior probabilidade. "Nossa projeção principal é de que o Brasil vai crescer 3,1% em 2012. Vemos 65% de chance de isso acontecer", afirmou.

Muito bem, uma lufada de bom senso em um mundo, o dos economistas, que se acham, com raras exceções, professores de Deus. Pena que ele não acrescentou que as previsões da LCA serão acompanhadas do aviso de que só há 65% de chance de acertar. Não sei qual a chance de se fazer a previsão jogando búzios, mas talvez não seja muito menor.

O mais honesto, se os economistas não fossem ainda mais arrogantes que os jornalistas, seria usar o método do Boletim de Inflação e Análise Macroeconômica da Universidade Carlos 3.o de Madri, exposto em artigo para "El País" de Antoni Espasa, seu diretor.

O método parte do mesmo princípio exposto por Borges à Folha, ou seja, o de que não há 100% de chance de acertar. Então, Espasa usa o que ele chama de intervalo de confiança. No caso da economia espanhola, o Boletim estima um crescimento para 2012 de 0,1%, com um intervalo entre 1,3% e -1,1%. Mesmo com essa margem, segundo Espasa, a chance de acertar é de 80%.
Já as demais consultorias preferem cravar um único número, sem qualquer intervalo, o que torna as chances de dar certo iguais ou até inferiores ao do jogo de búzios. Que tal um pouco de humildade e honestidade intelectual?

Ah, e que tal o jornalismo doravante cobrar essa honestidade, cada vez que reproduzir uma previsão?





A "Grande Recessão"



Por Yoshiaki Nakano - Valor 10/01

A crise financeira do subprime e o colapso do sistema financeiro com a quebra do Lehman Brothers desencadeou a chamada "Grande Recessão". Mas ela é um fenômeno distinto da crise financeira em si. Com a crescente incerteza, as economias dos países centrais saem da normalidade e passam a ser regidas por comportamentos induzidos pela incerteza, medo, pânico etc., nos quais prevalecem a lógica da desalavancagem, da "balance sheet recession" e da demanda de ativos com sinais trocados gerando instabilidades nesses mercados. Como entender o que acontecerá como a economia global nesse contexto? A experiência histórica similar, a "Grande Depressão de 1890", a "Grande Depressão de 1930" e a crise japonesa dos anos 90, nos permite fazer analogias e algumas conjecturas sobre o que acontecerá nos próximos anos.

A atual "Grande Recessão" não deverá ser tão profunda quanto a "Grande Depressão de 1929 a 1939", afinal aprendemos alguma coisa com ela, mas será tão abrangente e duradoura quanto e deverá ter significado histórico similar ao da "Grande Depressão do final do século XIX.

Será abrangente no sentido de ser uma crise global, diferentemente da crise japonesa, ou seja, é uma crise do próprio processo de integração e globalização financeira promovido pela plutocracia financeira que vem exercendo poder, tanto nos Estados Unidos como na Europa (talvez nem tanto na Alemanha). A "Grande Recessão" está centrada nos Estados Unidos e Europa, e já vem causando uma crise de governabilidade, mas tem também causas e dimensão internacional de forma que nenhum país ficará inume a seus efeitos de uma forma ou outra.

Será duradoura porque como a crise dos anos 30 e a crise japonesa ela afeta tanto os credores/emprestadores como os devedores/tomadores de empréstimos. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) aumentou brutalmente a oferta de moeda e reduziu a taxa de juros para próximo a zero procurando salvar credores/emprestadores, subsidiando-os. Assumindo a função de emprestador em última instância, absorve ativos problemáticos no seu balanço, mas não resolve o problema dos devedores, que tiveram sua riqueza financeira destruída pela crise, e agora têm que pagar as dívidas.

A política monetária pode também resolver o problema de liquidez do credor/emprestador, que detém ativos emitidos pelos devedores, já que o banco central está disposto a prover recursos com juros zero para que continuem carregando os ativos e assim fazendo por longo período poderá mascarar, amenizar e, com o tempo suficientemente prolongado, até resolver o problema de insolvência.

Do outro lado, tanto as famílias como as empresas que se endividaram excessivamente durante o boom de crédito que antecedeu a crise, têm que desalavancar, aumentando a poupança (deixando de consumir e de investir produtivamente) para pagar a dívida acumulada. A "Grande Recessão" é o resultado dessa redução persistente da demanda agregada. Aqui a política monetária não tem efeito, pois somente uma política fiscal ativa pode recolher o aumento de poupança privada e reinjetá-la de volta no sistema econômico como demanda, para reanimar a economia. E essa foi a reação de todos os governos. Mas ao executar essa política, o déficit público aumenta e, com isso, a dívida publica se transforma também em crise da dívida soberana. A reação política da sociedade contra a classe dirigente será quase imediata. Ela está perdendo tanto a credibilidade como legitimidade, abrindo espaço para a ação de grupos radicais, tornando praticamente impossível manter uma política fiscal para tentar sustentar o nível de atividade econômica.

Ao contrário, os investidores perceberam que os governos estão com a dívida crescendo rapidamente e perdendo legitimidade e vão não só deixar de financiar os seus déficit, mas vão tentar desfazer dos títulos públicos com consequente elevação da taxa de juros. Na medida em que a política fiscal fica travada, podemos ter uma nova contração no nível de atividade, agravando o problema de déficit publico. Assim, somente quando a segunda contração for suficientemente profunda e prolongada a trava política da política fiscal será removida.

Qual o significado histórico da "Grande Recessão"? Em primeiro lugar essa é uma crise centrada nos Estados Unidos e Europa, portanto do núcleo do sistema global. Internamente, nesses países, foi a ascensão da plutocracia financeira, com a aliança do setor industrial, no início dos anos 1980 que permitiu a desregulamentação do sistema bancário e consequente introdução de inovações financeiras e explosão de crédito que gerou a crise. O poder do setor industrial já estava em declínio com a desindustrialização. Agora, tanto os Estados Unidos como a Europa, nas próximas décadas, deverão ter como prioridade absoluta a revitalização das suas economias, voltando-se para dentro eventualmente com medidas protecionistas, para enfrentar a ascensão da China.

Somado a isso, a perda de credibilidade e de legitimidade da sua classe dirigente, a governança global mudará radicalmente. Viveremos nas próximas décadas um interregno com a ausência de um centro que ditava as regras do jogo, exercia liderança política e ideológica e impunha um pensamento econômico.

A "Grande Recessão" será um longo processo de declínio da hegemonia americana, de um paradigma histórico e a gradual ascensão da China. Com o colapso de um paradigma, de um modelo econômico (uma variedade de capitalismo) que prevaleceu plenamente nas últimas três décadas, o que virá no seu lugar?



Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), é professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

El mejor Presidente para Estados Unidos


Por Fidel Castro


(Tomado de CubaDebate)



Una conocida agencia europea de noticias transmitió anteayer desde Sydney, Australia, que "Un grupo de investigadores australianos de la Universidad de Nueva Gales del Sur anunció la creación de un cable eléctrico diez mil veces más delgado que un cabello, capaz de igual conducción eléctrica que un cable de cobre tradicional."

"... Bent Weber, jefe del proyecto realizado en la universidad australiana, en un trabajo publicado por la revista Science" explicó que ‘poder efectuar conexiones de cables a esa escala microscópica será esencial para el desarrollo de los futuros circuitos electrónicos’".

"El cable fue creado por físicos australianos y estadounidenses con cadenas de átomos de fósforo dentro de un cristal de silicio: el nanocable cuenta apenas con cuatro átomos de ancho por uno de alto."

"El hallazgo es esencial en la carrera internacional para desarrollar la primera ‘computadora cuántica’, máquinas superveloces capaces de procesar enormes cantidades de datos en pocos segundos: una serie de cálculos que llevaría años, o incluso décadas, a las computadoras actuales.

"En un cable de cobre tradicional, la electricidad se genera cuando los electrones de cobre fluyen a lo largo del conductor: pero a medida que el cable o conductor se hace más pequeño, la resistencia al flujo eléctrico se hace mayor.

"Para superar este problema Weber y su equipo utilizaron microscopios especialmente diseñados con precisión atómica, que les permitieron colocar los átomos de fósforo en los cristales de silicio.

"Esto permitió que el nanocable actuara como el cobre, con los electrones fluyendo fácilmente y sin problemas de resistencia. ‘Estamos mostrando con esta técnica que es posible minimizar componentes hasta la escala de pocos átomos’, indicó Weber."

"Si vamos a usar átomos como bits, necesitamos cables a la misma escala de los átomos" —observó la física Michelle Simmons supervisora del trabajo.

Con estos indetenibles avances tecnológicos que debieran servir para el bienestar de la humanidad, recordaba lo que hace apenas cuatro días escribí sobre el calentamiento de la tierra y la explotación acelerada del peligroso gas de esquisto, en un mundo que en doscientos años está consumiendo la energía fósil acumulada durante 4 000 millones de años.

Imaginé a Obama, buen articulador de palabras, para quien, en su búsqueda desesperada de la reelección, los sueños de Luther King distan a más años luz que la tierra del planeta habitable más cercano.

Peor aún: cualquiera de los congresistas republicanos presidenciables, o un líder o lideresa del Tea Party carga más armas nucleares en sus espaldas que ideas de paz en su cabeza.

Imaginen los lectores por un minuto esa poderosa calculadora cuántica capaz de multiplicar por infinitas veces los datos que hoy recogen las modernas computadoras.

¿No es acaso obvio que lo peor de todo es la ausencia en la Casa Blanca de un robot capaz de gobernar Estados Unidos e impedir una guerra que ponga fin a la vida de nuestra especie?

Estoy seguro de que el 90 por ciento de los norteamericanos inscriptos, especialmente los hispanos, los negros, y el creciente número de la clase media, empobrecidos, votaría por el robot.



Esperando Godot: a crise da Europa e o Brasil em 2012



Por Marcelo Kfoury Muinhos e Leonardo Porto de Almeida - Valor 09/01

Uma conhecida anedota diz que previsões de economistas só servem para elevar a autoestima dos meteorologistas. Com o avanço da tecnologia de satélites e o desenvolvimento de poderosos computadores, permitindo previsões mais precisas dos movimentos das massas de ar, a comparação em prol das previsões meteorológicas tornou-se ainda mais convincente. Ao mesmo tempo, o aprofundamento da globalização comercial e financeira da economia brasileira nos últimos anos, tornando-a crescentemente mais dependente dos desdobramentos da economia mundial, dificultou substancialmente o trabalho de previsão dos macroeconomistas, intensificado atualmente pelo acirramento da crise de dívida soberana em alguns países europeus. Mesmo diante de tantas ressalvas, o que nós economistas podemos dizer sobre o cenário para a economia brasileira em 2012?

Aparentemente, a forte desaceleração da economia brasileira no 3º trimestre de 2011 foi causada pelas inúmeras ações de políticas econômicas implementadas ao longo do 1º semestre do ano com o propósito de conter o crescimento da demanda. Na verdade, tal episódio foi marcado por um quase inédito alinhamento das políticas fiscais, monetárias e creditícias, atuando com o objetivo comum de diminuir a demanda agregada, consequentemente, favorecendo o controle da inflação. Pelos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, parece razoável afirmar que o primeiro objetivo foi plenamente bem-sucedido, embora o segundo ainda esteja em fase de execução, dado o não encerramento do processo desinflacionário dos preços.

Por outro lado, seria ingenuidade acreditar que nenhuma parcela da atual desaceleração da economia tenha sido causada pelo recrudescimento da crise financeira europeia ou que esta não afetará o desempenho da economia brasileira nos próximos trimestres. Mesmo acreditando que o impacto da crise sobre o canal do comércio tenha sido limitado no terceiro trimestre (dado o crescimento das exportações), não há como desconsiderar os potenciais efeitos contracionistas sobre os investimentos e o consumo das famílias por meio de outros canais de transmissão, como a confiança do empresário ou mesmo via menor oferta de crédito à pessoa física.

Acerca do cenário europeu, acreditamos que haverá uma recessão de moderada a severa em 2012, com o PIB contraindo cerca de 1,2%, mas não contemplamos um evento de crise bancária generalizada como aquela ocorrida em 2008, ainda que não descartemos uma probabilidade de cerca de 25% da Grécia sair do bloco da zona do euro. No entanto, o que parece estar afligindo os mercados financeiros de forma mais intensa nas últimas semanas é o alto custo do financiamento da dívida soberana da Itália e da Espanha. Particularmente, tomando a atual relação dívida/PIB do governo da Itália de cerca de 120% e assumindo a taxa de juros atualmente precificada no mercado de 6,5%, seria necessário gerar superávits primários da ordem de 5,5% ao ano, cenário improvável de ser verificado. No entanto, se a Itália fizer um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e ou uma reforma fiscal suficientemente crível levando o mercado a cobrar juros por volta de 4% ao ano, o superávit primário que impediria a ascensão ininterrupta da relação dívida/PIB cairia para 2,4%, tornando factível do ponto de vista dos investidores.

Dentro dessa visão global de pessimismo moderado, acreditamos que o contágio sobre a economia brasileira deverá ser modesto, ainda mais após considerarmos os inúmeros instrumentos estabilizadores de política econômica já adotados e que deverão ser intensificados ao longo dos próximos meses. Isto é, a redução de 150 pontos da taxa Selic desde agosto e da provável continuidade do ciclo de queda de juros até 9,5% em abril de 2012, o afrouxamento em algumas das medidas macroprudenciais adotadas no final de 2010 juntamente com as já anunciadas isenções tributárias setoriais e com a elevação do salário mínimo em cerca de 14% em janeiro tendem a reverter o processo de desaceleração do crescimento econômico ilustrado no dado do PIB do terceiro trimestre

Tais condições não devem impedir alguns "soluços" ao longo dos próximos meses, tais como aumentos da inadimplência, diminuição da oferta de crédito por parte dos bancos, dificuldade das empresas em captar no exterior, todos estes impedindo um desempenho mais profícuo da atividade econômica. Porém, acreditamos que no segundo semestre de 2012 poderemos ter uma aceleração forte do crescimento com a economia crescendo perto de 5% ao ano em termos anualizados no fim de 2012. Na média, tal cenário implica uma projeção de crescimento do PIB de cerca de 3,3% neste ano, portanto, pouco superior aos 2,9% que estimamos para 2011.

Diante desse cenário de aceleração contínua do crescimento da economia em 2012, o maior risco é um recrudescimento da inflação ao longo do ano. Por ora, acreditamos em uma desaceleração da inflação até o segundo trimestre de 2012 para o patamar próximo de 5% no acumulado dos últimos doze meses, apresentando leve elevação a partir daí até 5,3%. Contudo, diante do excesso de estímulos acima mencionados, os riscos de a inflação superar tais estimativas e estabilizar em torno do patamar entre 5,5% e 6% são significativos. Nesse sentido, mesmo se o governo mantiver a disciplina fiscal, com superávit primário acima de 2,5% do PIB, não há como descartar o cenário no qual o BC reverteria a estratégia de política monetária, elevando a taxa de juros nominais.

A nosso ver, o cenário mais complicado seria uma desaceleração mais pronunciada da China ("hard landing"), que deprimiria os preços das commodities de forma mais intensa, dada a maior dificuldade de encontrar mercados para nossas exportações. Nesse cenário, a moeda brasileira sofreria maior desvalorização e teríamos um ajuste recessivo no nosso balanço de pagamentos. Nesse caso, o PIB cresceria em torno de 1% e a inflação poderia ficar ao redor da meta de 4,5%. Em geral, atribuímos uma probabilidade de 20% de ocorrência desse cenário alternativo.

A principal incerteza para 2012 reside nas incertezas do panorama global, em especial na atual crise soberana que acomete alguns países europeus. A depender da intensidade de resposta das autoridades, a economia global poderá enfrentar um cenário mais ou menos adverso com maior ou menor risco de uma segunda crise bancária global. Por ora, o que parece mais evidente, é que o Brasil ainda tem grande arsenal de instrumentos que poderão permitir o amortecimento dos efeitos contracionistas vindos da economia global. Na eventualidade do seu uso, que sejam utilizados com responsabilidade e racionalidade econômica.



Marcelo Kfoury Muinhos é economista-chefe do Citi Brasil, doutor em Economia pela Universidade de Cornell.



Leonardo Porto de Almeida é economista sênior do Citi e doutor em economia pela USP.

Fabricantes suspeitam de novo tipo de triangulação para importar calçados



Por Cesar Felício - Valor 09/01
De Buenos Aires

Fabricantes brasileiros de calçados e especialistas começam a suspeitar de um novo tipo de triangulação para importar calçados chineses. O novo esquema consiste em trazer as peças de borracha e de plástico separadamente, em lotes diferentes. As importações estariam entrando no Paraguai, onde seriam reembaladas e enviadas, separadamente, para o Brasil. O produto então seria montado como produto brasileiro.

Desde março do ano retrasado uma sobretaxa por dumping de US$ 13,35 por par encareceu a importação do produto chinês. Maior parceiro comercial do Brasil na região, a Argentina adotou uma medida defensiva semelhante. A partir de então aumentaram as importações brasileiras e argentinas de calçados do Vietnã, Malásia e Indonésia. Uma investigação sobre a origem foi aberta no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) em outubro, para checar a real procedência desses calçados. Suspeita-se de triangulação por parte dos exportadores chineses.

Desta vez, a triangulação sob suspeita envolve componentes do calçado, como cabedal, tiras e solas, e não o produto acabado. A pedido da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), foi implantado no dia 16 de dezembro um "canal vermelho" na aduana brasileira. "Todas remessas passarão por um exame físico para identificação do produto. Esse novo canal poderá deixar claro se estão trazendo produtos acabados como insumos para a indústria", disse o diretor-executivo da Abicalçados, Heitor Klein.

Mas há setores na indústria que acreditam na existência de uma fraude ainda maior: as peças estariam entrando no Brasil fora da classificação de componentes de calçados. Por essa hipótese, seriam registradas como "plásticos e suas obras", ou "borracha e suas obras".

"Assim, não apenas se dribla a sobretaxa ao produto, mas também o pagamento de imposto de importação", comentou o advogado Jorge Zaninetti, do escritório de advocacia Siqueira Castro, de São Paulo, especialista em defesa comercial.

A variação da exportação paraguaia de partes de calçados para o Brasil no ano passado não impressiona. Entre janeiro e novembro, o Paraguai vendeu US$ 15 milhões em componentes de calçados, US$ 1 milhão a menos do que no mesmo período do ano passado. Mas a evolução das vendas paraguaias de insumos foi considerável. As remessas de "plásticos e suas obras" ao Brasil passaram de US$ 47 milhões para US$ 66 milhões no período e as de "borracha e suas obras" passaram de US$ 800 mil para US$ 6 milhões. Em outro sentido, as importações paraguaias dessas matérias-primas da China se aceleram, sobretudo em derivados de borracha. As compras do Paraguai passaram de US$ 10,3 milhões em 2008 para US$ 37,5 milhões no ano passado.

De acordo com a assessoria de imprensa do MDIC, só há duas investigações formais de triangulação abertas: além da iniciada em outubro, para verificar a procedência dos calçados asiáticos, há uma outra apurando a fabricação de cobertores no Uruguai e no Paraguai.

Uma investigação sobre resina PET foi encerrada em 2011, sem constatar desvios de origem. A assessoria frisou que o ministério nunca atua por iniciativa própria, mas só quando provocado por importadores ou por fabricantes no Brasil.

Noticia velha 10/05/2011 às 00h00


China pode estar usando Mercosul em triangulação

Por Marta Watanabe
De São Paulo
 
O aumento das exportações do Uruguai e do Paraguai ao Brasil de produtos que estão submetidos à sobretaxa antidumping está chamando a atenção de alguns setores. Elevações consideradas repentinas estão sendo consideradas como indícios de uma nova triangulação usando os dois países na exportação de produtos chineses ao Brasil. Produtos como cobertores, tecidos de malha, pneus e partes de calçados estão entre os que despertam mais atenção.

A venda de cobertores do Uruguai ao Brasil no primeiro quadrimestre do ano chegou a US$ 5,05 milhões. No mesmo período do ano passado, a compra de cobertores com origem no Uruguai não chegou a um sexto desse valor, atingindo apenas US$ 817,5 mil. No acumulado de janeiro a abril de 2009 foram US$ 314,7 mil em cobertores originados do Uruguai. Os cobertores de fibra sintética da China passaram a ser alvo de investigação antidumping desde maio de 2009 e em abril do ano passado entrou em vigor a sobretaxa antidumping de US$ 5,22 por quilo do produto.

Outro caso que tem chamado a atenção é o dos tecidos de malha de viscose. No primeiro quadrimestre de 2009 não houve importação brasileira desses produtos vindos do Uruguai. De janeiro a abril do ano passado foram importados do país vizinho US$ 649,5 mil. Neste ano, a importação passou para US$ 1,08 milhão. O processo antidumping sobre tecidos chineses de malha de viscose foi aberto em junho de 2009. O direito antidumping passou a ser aplicado em abril do ano passado.

Do Paraguai houve aumento considerado repentino na importação de partes e componentes de calçados. No primeiro quadrimestre de 2009, o Brasil importou US$ 1,8 milhão desses produtos do Paraguai. No mesmo período do ano passado essa importação aumentou para US$ 5,1 milhões. De janeiro a abril deste ano a importação caiu um pouco, para US$ 4 milhões.

Mesmo com a queda em 2011, o forte aumento de vendas ao Brasil deve ser alvo de pedido de investigação do setor. Heitor Klein, diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), diz que a elevação nas importações do país vizinho já foi detectada. Para ele, o movimento está relacionado com a entrada em vigor da sobretaxa para alguns tipos de calçados fabricados na China. O processo antidumping para o produto foi aberto em dezembro de 2008 e a sobretaxa definitiva passou a ser aplicada em março do ano passado.

O setor, diz Klein, tem levantado informações sobre o uso da triangulação como forma de burlar a sobretaxa aplicada sobre os calçados chineses a o uso de países vizinhos ao Brasil também foi incluído. O setor pleiteia a aplicação de normas estabelecidas há pouco tempo pelo Brasil contra a triangulação. No caso do setor de calçados, diz, a triangulação parece estar sendo aplicada não somente nos produtos acabados como também em parte e componentes.

Para José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), os dados podem indicar que a triangulação agora mudou. No início, lembra, houve indícios de triangulação utilizando-se países próximos à origem dos produtos submetidos ao antidumping. No caso da China, por exemplo, a origem muitas vezes se desloca para Malásia, Vietnã e Indonésia. "Os dados indicam que agora podem estar sendo usados países próximos ao importador. Ou seja, próximos ao Brasil, como Uruguai e Paraguai."

Castro lembra que quando o produto de determinada origem fica sujeito ao antidumping, é natural que haja crescimento de participação de mercado de outros produtores, já que a sobretaxa melhora as condições de competição para os demais fornecedores. "A ocupação de mercado, porém, não costuma acontecer de uma hora para outra."

Carol Monteiro de Carvalho, sócia da área de comércio exterior do escritório Bichara, Barata, Costa & Rocha Advogados, explica que todos os indícios devem ser investigados. "É preciso verificar, por exemplo, se há indústria e capacidade de produção suficiente no país de origem para resultar em aumento de exportação em cada um dos casos." Chamam muito a atenção, porém, diz Carol, produtos que não constavam da pauta e que repentinamente passaram a ser exportados por determinados países. É o caso da malha de viscose vinda do Uruguai. No caso dos cobertores, ressalta, o ritmo do aumento desperta a atenção e torna-se um indício que precisa ser investigado.

Procurada, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) disse, em nota, que a entidade tem acompanhado permanentemente as importações dos produtos do setor. Como resultado desse monitoramento, disse a associação, há a identificação de indícios de triangulação. Tais indícios têm sido apresentados ao governo para que a análise seja aprofundada e, uma vez comprovada a triangulação, há pedido para que sejam aplicadas as medidas devidas.

Déficit em transações correntes aumenta e preocupa governo



Por João Villaverde - Valor 09/01
De Brasília

Pela primeira vez em 11 anos o déficit nas transações correntes do Brasil não deve ser coberto pela entrada de investimento estrangeiro direto (IED). Mais que isso: se cumpridas as estimativas feitas pelo Banco Central (BC) para este ano, o déficit nas transações correntes será US$ 15 bilhões superior à entrada dos investimentos estrangeiros - na última vez que houve esse descompasso, em 2001, a diferença foi pequena, de apenas US$ 700 milhões.

Os resultados podem ser ainda piores caso as estimativas mais recentes da equipe econômica para ingresso de investimentos estrangeiros neste ano se realizem, enquanto o mercado trabalha com um déficit na conta corrente ainda maior que o previsto pelo BC.

Oficialmente, o governo Dilma Rousseff trabalha com um déficit de US$ 65 bilhões nas transações correntes neste ano (22,6% superior ao esperado para 2011), e com a entrada de US$ 50 bilhões na forma de investimento estrangeiro direto. Mas os economistas do governo já vêm uma entrada menor de investimentos, na casa de US$ 45 bilhões.

Ao mesmo tempo, parte dos analistas do mercado já trabalha com um déficit na conta corrente superior a US$ 70 bilhões. Principal indicador do balanço de pagamentos, as transações correntes registram todas as operações, em dólares, com o exterior. O saldo é obtido após o resultado da balança comercial (exportações menos importações), da balança de serviços (fretes e seguros) e as transferências unilaterais.

O temor da equipe econômica é que esse seja o único sinal dissonante num momento em que os bons indicadores macroeconômicos brasileiros estão em evidência no mundo, diante do elevado endividamento público dos Estados Unidos e dos países da União Europeia. Já outros emergentes, como Turquia e Índia, contam com déficits nas transações correntes oscilando entre 7% e 8% do Produto Interno Bruto (PIB).

Caso as projeções de um déficit nas transações correntes de US$ 65 bilhões a US$ 70 bilhões se confirmem, na avaliação dos especialistas, o endividamento atingirá um nível superior a 2,5% do PIB, podendo chegar a 3% do PIB, porque, ao mesmo tempo, o avanço do PIB dificilmente será forte (entre 4,5% e 5%) como espera o governo Dilma.

"Há um cenário negativo, que ganha muita força com a contínua letargia dos europeus em resolver sua grave crise interna, que inclui menos entrada de investimentos estrangeiros no país", diz Fernando Rocha, economista e sócio da JGP Gestão de Recursos. O cenário trabalhado por Rocha inclui um déficit de US$ 71,5 bilhões nas transações correntes e uma entrada de US$ 50 bilhões como IED. Esse déficit, no entanto, seria quase todo coberto pelo ingresso de US$ 15 bilhões sob a forma de capital de curto prazo e outros US$ 5 bilhões que devem chegar para aplicações em títulos públicos, além, é claro, dos US$ 50 bilhões que Rocha espera sob IED.

"Toda essa entrada de capital, de US$ 20 bilhões, pode ser menor, caso a crise externa se agrave", diz Rocha, para quem esse "cenário negativo" ganha força. No limite, o déficit poderá ser coberto pela venda de dólares das reservas internacionais (em US$ 352 bilhões, segundo o Banco Central). Esse déficit pode também resultar em uma desvalorização do real, o que estimularia as exportações, e, assim, a maior entrada de dólares. "Há uma probabilidade real de ter uma pressão sobre o câmbio, pela primeira vez em anos", diz Rocha, para quem, no entanto, o cenário mais realista, por enquanto, não é este.

Duas fontes da equipe econômica avaliam que a trajetória do saldo nas transações correntes deixa o governo em alerta. "Não se trata de algo preocupante, no curto prazo", diz um deles, "mas de um incômodo desnecessário", afirma. Resultado de uma maior saída de dólares do que ingresso, o déficit nas transações correntes é um antigo fantasma dos economistas do governo.

O problema geralmente está relacionado com a dificuldade de financiamento desse buraco, se ele se mantiver por muito tempo e de forma crescente. No passado, o governo brasileiro foi obrigado a manter a taxa de juro muito elevada para atrair capitais e, dessa forma, financiar o déficit em conta corrente.

De acordo com Constantin Jancso, economista-sênior do HSBC, um déficit nas transações correntes próximo a 3% do PIB deve ser alcançado neste ano ou no próximo, mas que não deve preocupar. "Há espaço para uma deterioração da conta corrente sem que isso cause transtornos ao mercado. Os indicadores brasileiros, como as elevadas reservas internacionais, estão muito bons", diz Jancso.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Depois de cair 2,65%, indústria cresce 0,3%



Por Arícia Martins e Diogo Martins - Valor 06/12
De São Paulo e do Rio

A taxa de câmbio um pouco mais depreciada, a ligeira redução de estoques em alguns setores e a baixa base de comparação propiciaram uma recuperação modesta da indústria brasileira em novembro, mês no qual a produção cresceu 0,3% ante outubro, feitos os ajustes sazonais. Economistas consultados pelo Valor consideram o resultado fraco, verificado após três meses seguidos de queda da produção industrial (quando o setor acumulou retração de 2,62%). Mesmo assim, acreditam que o pior momento para o setor tenha ficado para trás - mais precisamente em outubro, quando a produção caiu 0,7% frente ao mês anterior, na série livre de influências sazonais.

Os analistas se dividem sobre a intensidade da retomada da indústria, mas a expectativa geral é que, daqui em diante, o setor se recupere gradualmente, na esteira da reversão das medidas macroprudenciais, do afrouxamento monetário e das medidas tomadas pelo governo para incentivar a produção, que ainda podem ser incrementadas. A recuperação gradual não significa, contudo, crescimento em todos os próximos meses. O primeiro trimestre, dizem, ainda será fraco.

Na passagem de outubro para novembro, 18 dos 27 setores analisados pela Pesquisa Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PIM-PF) tiveram aumento em sua produção. Por categorias de uso, apenas a atividade no segmento de bens de consumo duráveis encolheu no período, com recuo de 0,9%.

Outras bases de comparação, no entanto, mostram fraqueza: a produção caiu 2,5% frente a novembro de 2010, menor marca desde outubro de 2009, quando o recuo havia sido de 3,1%. Na média móvel trimestral, que compara o trimestre encerrado em novembro com os três meses encerrados em outubro, a retração é de 0,8%. "O número de novembro ainda indica uma indústria estagnada, com baixo crescimento", afirma o economista Thiago Carlos, da Link Investimentos.

Na avaliação do IBGE, o desempenho pouco melhor da indústria em novembro foi causado também por uma redução das importações, após o câmbio ter se estabilizado no patamar de R$ 1,90, assim como por deflação no preço de insumos ao produtor, que pode ter estimulado a produção em segmentos como metal e têxtil. "Houve um volume menor de importações, concentrado na aquisição de bens intermediários, como matérias-primas", afirmou André Macedo, gerente de análise e estatísticas derivadas do instituto.

Segundo cálculos dessazonalizados da LCA Consultores, o índice de difusão - proporção dos ramos de atividade que apresentaram resultados positivos no mês - subiu de 37% em outubro para 66,7% em novembro, acima da média histórica de 54,4% verificada no período de 1991 a 2010. "A aceleração mais espraiada entre os setores sugere que a indústria já está se recuperando, ainda que a passos bem curtos", afirma o economista Thovan Tucakov, para quem um ritmo mais forte de crescimento deve ser observado apenas após o primeiro trimestre de 2012. "Isso vai ser inevitável. A indústria vai continuar consumindo estoques nestes primeiros três meses", diz.

Tukacov revisou de 0,5% para 0,2% sua estimativa para a expansão da produção em 2011, após o salto de 10,5% em 2010. A alteração foi feita levando em conta dados já conhecidos do último mês do ano, como o consumo de energia, que caiu 0,97% sobre novembro, e os estoques acima do desejado, que continuam em nível elevado. A Sondagem Conjuntural da Indústria da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra ligeira piora do nível de estoques entre novembro e dezembro, quando 10,2% das empresas consultadas informaram volume excessivos de mercadorias paradas, diante de 8,4% em novembro.

Segundo os outros analistas ouvidos, o crescimento da indústria em dezembro deve ser fraco como o de novembro, o que indica um avanço não maior do que 0,5% na comparação de 2011 com 2010.

Para o sócio-diretor da RC Consultores, Fabio Silveira, o momento de ajuste da indústria a uma realidade mais pessimista ainda não acabou, o que impede vislumbrar uma forte recuperação do setor, pelo menos para os próximos meses. "Está em marcha um processo de endividamento das famílias, o que deve inibir o poder de compra do consumidor brasileiro. Além disso, estão ocorrendo mudanças no cenário internacional, com o afundamento da Europa e a desaceleração da China", explica.

Assim, sustenta Silveira, o principal ponto que deve incomodar a indústria em 2012 será uma demanda mais fraca, tanto do lado interno como do externo, após um ano no qual as principais queixas vieram do câmbio valorizado, da taxa de juros elevada e do aperto ao crédito - todas em processo de reversão.

A economista Fernanda Consorte, do Santander, acredita que mais incentivos podem ser dados pelo governo ao longo do ano caso a produção não esboce uma retomada, ainda que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tenha negado em entrevistas recentes a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos, após essa medida ter sido tomada para a linha branca. "Ainda acredito que, se a indústria não começar a mostrar sinais mais agradáveis, a redução de IPI para veículos pode ser usada. O BNDES também estuda facilitar o financiamento ao exportador. Se isso se confirmar, vai ajudar a indústria."

Resultado reforça PIB inferior a 3%



O resultado da produção industrial de novembro reforçou as expectativas de economistas ouvidos pelo Valor de que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro crescerá abaixo de 3% em 2011. O tímido avanço de 0,3% na comparação com outubro, segundo a Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM/PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), era previsto e corrobora um ano fraco para a indústria, quadro que deve ser levado para o início de 2012.

"A base de comparação estava muito baixa. Era de se esperar uma retomada. A reversão das macroprudenciais e a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados da linha branca ajudam a produção, principalmente em dezembro", diz Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, cuja projeção de PIB para 2011 permanece em avanço de 2,8%.

A expectativa para o PIB do ano passado da Quest Investimentos está em alta de 2,7%. Segundo o economista Fabio Ramos, a consultoria acertou o resultado do mês de novembro para a produção industrial, logo não precisou rever sua projeção. "Há outras variáveis, como o comportamento do varejo, que têm sido mais relevantes que a indústria para definir o PIB. Essa pequena alta em novembro não recupera as perdas sucessivas que a antecederam." Em agosto, a queda da PIM/PF foi de 0,2%. Em setembro e outubro, o seu recuo ficou em 2,0% e 0,6%, respectivamente. "O Brasil 'apanha' em questões domésticas. É preciso reduzir os impostos sobre o trabalho, lucro e produção, para que se possa produzir mais", completa Ramos.

O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, acredita que a produção industrial em dezembro não trará surpresas, avançando 0,3% na comparação mensal, com os ajustes sazonais. O índice reforça sua previsão de crescimento de 2,8% do PIB em 2011 - que também não foi alterada.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) revisou 0,1 ponto percentual para baixo a sua previsão para o PIB em 2011, segundo o economista Julio Gomes de Almeida, e a expectativa caiu para 2,7%. Para Almeida, o resultado fraco da indústria faz sombra ao verdadeiro problema que pode decorrer desse cenário. "O empresário que for investir em 2012 não levará em conta um crescimento de 2,7% ou de 3% do PIB, mas sim o resultado mais recente. O dado da indústria mostra que estamos perto de repetir um PIB estagnado no 4º trimestre e, por isso, o investimento será repensado."

Alessandra, da Tendências, acredita que o salário mínimo dará fôlego extra ao consumo em 2012, influenciando a produção industrial. Na sua opinião, esse quadro só deve se concretizar a partir do 2º trimestre, após a indústria liberar os estoques, que tendem a limitar a produção no início do ano.

Segundo Flávio Castelo Branco, gerente-executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o crescimento do setor no começo do ano deverá ser "bem modesto". "O 1º trimestre de 2012 será mais difícil até que a redução de juros, o estímulo ao crédito e as medidas de incentivo ao consumo de duráveis tenham reflexo na economia", diz. A CNI também projeta um avanço de 2,8% do PIB para 2011, pouco menor que os 3% esperados para 2012. "Alguns segmentos ainda têm estoques muitos elevados e essas medidas vão ajustar o excedente, o que deve caracterizar a indústria no começo do ano. Na medida em que houver esse ajuste, a produção deve retomar a normalidade", avalia.

TED - Khan Academy

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

FMI diz que crise da Europa poderá atingir bancos da América Latina





Diretor do Fundo afirma que as dificuldades do euro e a redução de crédito são ameaça tóxica


Nicolás Eyzaguirre indica que instituição pode reduzir estimativa de crescimento para a região neste ano



PATRÍCIA CAMPOS MELLO -FSP 05/01

DE SÃO PAULO

O Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu ontem que a crise bancária europeia pode contaminar os bancos da América Latina ao desencadear um "aperto de crédito" na região.

Segundo Nicolás Eyzaguirre, diretor do Departamento de Hemisfério Ocidental do FMI, "os bancos da zona do euro respondem por 25% de todos os ativos bancários nos maiores países da América Latina, em média, e muitos desses bancos não estão concedendo ou rolando empréstimos, com o objetivo de fortalecer seus balanços."

Para Eyzaguirre, a crise europeia pode se tornar uma "ameaça tóxica" à América Latina.

"A crise na Europa pode se agravar com uma redução na oferta de linhas de crédito externas, o que viria a se sobrepor à queda na confiança, redução nos investimentos e queda nos preços das commodities: uma mistura tóxica para o crescimento e a estabilidade".

O economista faz a ressalva de que os bancos europeus vêm financiando suas subsidiárias latino-americanas de forma cuidadosa, por meio de depósitos em moeda local, o que reduz sua vulnerabilidade a uma escassez de financiamento em dólares.

No Brasil, bancos europeus com operações significativas são o espanhol Santander, o britânico HSBC, os franceses BNP Paribas e Société Générale e os portugueses Banco Espírito Santo e Caixa Geral de Depósitos.

Eyzaguirre indicou que as previsões de crescimento do FMI para a América Latina podem ser revisadas para baixo no Panorama Econômico Global que será publicado no dia 24 de janeiro.

"Podemos dizer que o panorama para este ano não será melhor do que nós prevíamos em outubro do ano passado, quando as últimas estimativas foram publicadas."

Na época, a estimativa do Fundo era de crescimento de 4,5% do PIB da América Latina em 2011 e 4% este ano.

"Não vemos uma recessão na América Latina se a crise na Europa continuar contida; mas certamente um crescimento mais fraco é possível, também porque a confiança e os preços das commodities estão caindo." Eyzaguirre afirmou que é preciso monitorar de perto o sistema bancário na região.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Tesouro capta pela menor taxa da história

Valor 04/01

Sem depender das captações externas para financiar a dívida - como ocorria no passado - e com as contas fiscais em ordem, o governo brasileiro tem se destacado no segmento de dívida soberana. Ontem, o Tesouro Nacional realizou a primeira operação em dólares do mercado internacional do ano, com a reabertura do bônus de 10 anos, o Global 2021, e pagou a menor taxa da história (3,449% ao ano) para um papel já emitido pelo Tesouro.
O prêmio da emissão, no entanto, ficou um pouco superior à reabertura do mesmo papel feita no ano passado. Em julho de 2011, o governo brasileiro captou US$ 550 milhões com esse mesmo bônus, pagando um "spread" sobre o título americano de mesmo vencimento de 105 pontos bases. Desta vez, o prêmio foi de 150 pontos.

A justificativa é que hoje os prêmios de risco estão mais altos para todos os países e os papéis do governo americano estão em patamares muito baixos, devido à política de afrouxamento monetário do país. Além disso, na comparação com outros emergentes, o Brasil tem conseguido as melhores taxas. O México, por exemplo, também realizou uma operação de 10 anos, ontem, mas pagando um prêmio superior ao brasileiro (180 pontos básicos de spread).

O desempenho dos bônus nacionais nos mercados secundários também tem sido positivo. O retorno para o investidor (yield) do bônus de 10 anos brasileiro - Global 2021 - caiu de 4,6%, no início do ano, para 3,38% hoje. Vale lembrar que o cupom desse título (remuneração de face) é de 4,875% ao ano.

A estratégia do governo brasileiro tem sido a de aproveitar janelas de mercado para fechar operações pontuais, mas na melhor condição possível. Com isso, o Tesouro tem feito lançamentos com taxas sempre decrescentes, conseguindo reduzir seu custo de captação de 10 anos no exterior em mais de 100 pontos básicos ao longo de 2011, mesmo com a piora da crise financeira internacional.

A consequência indireta dessa estratégia é a melhora da condição de captação também para as empresas. Afinal, as condições de captação do Tesouro servem de referência também para operações do setor privado.

A queda do prêmio sobre os papéis brasileiros contrasta com o custo pago pelas grandes economias europeias. A Itália, por exemplo, tem emitido dívida soberana com juros próximos a 7% ao ano para títulos de dez anos, enquanto a reabertura do bônus da República do Brasil com vencimento em 2021, ontem, pagou metade disso.

A transação superou as expectativas. Na abertura do negócio, na manhã de ontem, o Brasil pretendia captar US$ 500 milhões, pagando um spread em torno de 160 pontos básicos. A emissão foi liderada pelos bancos BNP Paribas e Itaú BBA, com coliderança da BB Securities.

A demanda pelo papel brasileiro também surpreendeu e chegou a US$ 3,6 bilhões. Ainda assim, o Tesouro Nacional preferiu captar apenas US$ 750 milhões para garantir a qualidade da operação e ter um melhor desempenho dos papéis do secundário - importante para garantir que empresas brasileiras aproveitem o momento para também captar a taxas baixas.

Durante a madrugada, o Brasil realizará uma nova rodada no mercado asiático (green shoe), que deve atingir o total esperado de mais 10% do volume já captado (US$ 75 milhões), levando o total captado para US$ 825 milhões.

Essa estratégia é possível pois o país não depende desses recursos para financiar sua dívida. A necessidade de financiamento no exterior está atrelada apenas ao papel institucional de abrir mercados e estabelecer patamares de juros (a chamada curva de juros) para balizar operações de empresas brasileiras. As obrigações do Tesouro no mercado externo somam menos de US$ 50 bilhões, com vencimentos neste ano bastante reduzidos, da ordem de US$ 2,8 bilhões.

O governo se beneficiou ontem, também, de um dia bastante positivo para os mercados, com forte alta das bolsas e queda do dólar frente as moedas internacionais. A menor aversão ao risco foi puxada por dados melhores do que o esperado da atividade das principais economias do mundo: Estados Unidos, China e Alemanha.

Nesse ambiente e com o sucesso da captação brasileira, a expectativa é de que as companhias nacionais aproveitem o atual momento de otimismo do mundo para buscar recursos no exterior, antes que novas notícias negativas elevem novamente a aversão ao risco. Entre as candidatas estão a Petrobras e a Vale, além dos grandes bancos brasileiros. Emissões de países emergentes também são esperadas para os próximos dias, como Colômbia, Peru, Rússia e Filipinas.

Mas a janela continua restrita, a exemplo do que aconteceu no segundo semestre do ano passado, às empresas de primeira linha e ainda limitado ao apetite de risco dos investidores internacionais. Os investidores iniciaram o ano bastante desalavancado, depois de um fim de ano bastante negativo e a atual janela deve se prolongar pelos próximos dois dias, na expectativa dos dados de novas contratações da economia americana (payroll), que será divulgado na sexta-feira. Se os dados saírem positivos como apontam os analistas, o período de estabilidade pode se estender por mais uma semana.

Recuperação de 2012: cuidado, frágil



Por Martin Wolf  - Valor 04/01

O que 2012 reserva para a economia mundial? Comecemos por examinar os combalidos países de alta renda. Há algum motivo para esperar recuperações saudáveis? Não exatamente. O desfecho na zona do euro poderá ser um desastre que se disseminará pelo mundo inteiro. Mesmo a recuperação dos Estados Unidos tende a ser frágil. A sombra lançada pelos fatos anteriores a 2007 se dissipa lentamente.

O consenso de dezembro entre as previsões é sombrio. As opiniões mais recentes sobre o possível crescimento neste ano estão muito abaixo dos prognósticos de um ano atrás. Isso é especialmente verdade no que se refere à zona do euro, cujas projeções apontam para um mergulho na recessão. As economias da Itália e da Espanha deverão sofrer contração, enquanto a da França e a da Alemanha produzirão um crescimento desprezível e o Reino Unido ficará na mesma situação. Apenas o Japão e os Estados Unidos deverão exibir algo que se aproxima de um crescimento econômico razoável este ano. No caso dos Estados Unidos, seu crescimento foi projetado em 2,1% em dezembro, superior ao 1,9% de novembro.

Ponhamos esse desempenho em contexto. No terceiro trimestre de 2011, o Canadá era o único membro do G-7 cujo PIB estava acima de seu pico do pré-crise. As economias dos Estados Unidos e Alemanha estavam ligeiramente acima de seus picos do pré-crise, enquanto a da França estava ligeiramente abaixo. Reino Unido, Japão e Itália estavam muito abaixo de seus picos do pré-crise. Recuperação? Que recuperação?

Mas a taxa de juros mais alta agora adotada pelos quatro bancos centrais mais importantes é a do Banco Central Europeu (BCE), de apenas 1%. As demonstrações de resultados desses bancos centrais também se expandiram drasticamente. Além disso, entre 2006 e 2013, a relação de dívida pública bruta sobre o PIB vai dar um salto de 56 pontos percentuais no Reino Unido, de 55 pontos no Japão, de 48 pontos nos EUA e de 33 pontos na França. Por que medidas tão drásticas apresentaram resultados tão modestos?

Sobre isso grassam discussões revestidas de uma boa dose de carga ideológica. O paradigma teórico dominante sustenta que uma crise financeira não pode acontecer e não deve preocupar, se de fato acontecer, pelo menos desde que não se permita que a base monetária em conceito amplo despenque. Segundo esse ponto de vista, as únicas coisas que atualmente sustentam as economias são os elementos de rigidez estrutural e as incertezas induzidas pela política econômica. Na minha opinião isso é uma história da carochinha baseada em teorias que reduzem o capitalismo a uma economia de escambo encoberta por um diáfano véu monetário.

Muito mais convincentes, para mim, são as opiniões que aceitam que as pessoas cometem erros relevantes. A grande divisão é entre aqueles - os austríacos - que sustentam que os erros são cometidos pelos governos, enquanto que a solução é deixar o distorcido edifício financeiro vir abaixo, e aqueles - os pós-keynesianos - que sustentam que uma economia moderna é intrinsecamente instável, enquanto que deixá-la vir abaixo nos levaria de volta à década de 1930. Faço parte, decididamente, deste último grupo.

Em sua obra-prima presciente de 1986, "Stabilizing an Unstable Economy" ("'Estabilizando uma Economia Instável", editado no Brasil em 2010), o falecido Hyman Minsky formulou sua hipótese da instabilidade financeira. Janet Yellen, vice-presidente do Federal Reserve (Fed, o BC americano), observou em 2009 que "com a turbulência reinante no universo financeiro, a obra de Minsky se tornou leitura obrigatória".

O que torna sua obra imprescindível é o fato de ela vincular as decisões de investimento, orientadas por um futuro intrinsecamente incerto, às demonstrações de resultados que as financiam e, portanto, ao sistema financeiro. Na opinião de Minsky, a alavancagem e, portanto, a fragilidade - são determinadas pelo ciclo econômico. Um longo período de tranquilidade eleva a fragilidade: as pessoas subestimam os perigos e superestimam as oportunidades. Minsky teria advertido de que a "grande moderação" contém os germes de sua própria destruição.

Os anos que antecederam 2007 assistiram a um extraordinário ciclo de crédito privado, notadamente nos Estados Unidos, Reino Unido e Espanha, lastreado no aumento dos preços dos imóveis residenciais. O estouro dessas bolhas levou a uma explosão dos déficits públicos, em grande medida de forma automática, como previra Minsky. Esse foi um dos três mecanismos de política econômica que evitaram um mergulho numa grande depressão. Os outros foram as intervenções financeira e monetária. As economias ainda estão enfrentando dificuldades para chegar a um ajuste pós-colapso. Com as taxas de juros próximas a zero, os déficits públicos de soberanias idôneas para fins de crédito oferecem três formas de ajuda - exigir, desalavancar e elevar a qualidade dos ativos privados.

Em que medida a desalavancagem avançou? Nos Estados Unidos, avançou bastante. No terceiro trimestre de 2011, a relação da dívida bruta do setor financeiro sobre o PIB estava no nível registrado em 2001 e a relação dívida das famílias sobre o PIB estava no nível registrado em 2003. Além disso, observa o Goldman Sachs: "Acreditamos que o número de imóveis residenciais com obras iniciadas provavelmente já chegou ao seu nível mais baixo, enquanto os preços nominais desses imóveis deverão alcançar esse nível no decorrer de 2012." Os Estados Unidos estão agora preparados para a recuperação, embora limitada pelo prematuro aperto fiscal, pelo processo de desalavancagem em curso, pelos riscos por que passa a zona do euro e, talvez, pela alta dos preços do petróleo. A recuperação se sustentará sobre o que ainda é uma economia em desequilíbrio.

Mas a fragilidade da zona do euro é maior. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê a redução de 1,4% do PIB do déficit público estrutural da zona do euro entre 2011 e 2012, comparativamente à de apenas 0,2% prognosticada para o PIB nos Estados Unidos.

Mas o grande perigo para as economias mais fracas da zona do euro é que os setores público e privado tentarão cortar despesas simultaneamente. Essa é a receita certa para colapsos profundos e prolongados. As soberanias não idôneas para fins de crédito estão enredadas no esforço provavelmente fadado ao fracasso de fortalecer sua posição fiscal na ausência de um setor privado e de fatores de compensação externos adequados. Para esses países uma recessão da zona do euro como um todo será uma calamidade: ela impedirá que realizem o ajuste externo de que necessitam. Contra esse pano de fundo, a oferta do BCE de financiamento barato de três anos a bancos que poderão reemprestar para soberanias combalidas é pouco mais do que um paliativo - inteligente, mas inadequado.

Os países de alta renda vêm realizando uma série de experimentos fascinantes. Um foi com a desregulamentação do setor financeiro e com o crescimento puxado pelo mercado de imóveis residenciais. Fracassou. Outro foi com uma reação fortemente intervencionista à crise financeira de 2008. Funcionou, mais ou menos. Outro ainda é com a desalavancagem do pós-crise e uma volta a configurações fiscais e monetárias mais normais. Ainda não se chegou a uma conclusão sobre esse esforço. Na zona do euro, no entanto, essa mudança para a austeridade fiscal corre paralelamente a um experimento ainda maior: a construção de uma união monetária em torno de um núcleo estruturalmente mercantilista entre países dotados de solidariedade fiscal desprezível, sistemas bancários frágeis, economias pouco flexíveis e graus divergentes de competitividade. Boa sorte em 2012. Todos precisarão. (Tradução de Rachel Warszawski)



Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Crise reduz ritmo da exportação e governo prepara medidas



Por João Villaverde, Luciana Otoni e Sergio Leo - Valor 03/01
De Brasília

As exportações brasileiras sentiram os efeitos do recrudescimento da crise internacional e, para tentar reverter ou minimizar perdas em 2012, o governo planeja novas medidas de estímulo às exportações de manufaturados. Elas devem ser anunciadas neste primeiro trimestre. Os incentivos serão concentrados na redução do custo de crédito para financiamento da exportação dos fabricantes de bens manufaturados, numa ação que deve envolver o BNDES e a Finep, e na abertura de novos mercados, por meio de organização de viagens de comitivas de empresários em promoção comercial.

O aprofundamento da crise econômica mundial já reduziu a média de embarques brasileiros ao exterior, derrubou o preço de commodities importantes (como minério de ferro, soja e celulose), e diminuiu a oferta de crédito externo para a indústria exportadora. Devido à incerteza quanto à continuidade desses fatores, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) vai aguardar o anúncio do barateamento dos custos aos exportadores para divulgar a meta de exportações para o país neste ano. "A escassez de crédito internacional e o enxugamento da liquidez podem colocar as exportações brasileiras em situação difícil", advertiu o secretário-executivo do Mdic, Alessandro Teixeira. "E há, também, o acirramento da concorrência internacional. É preciso redobrar a importância de políticas que tenham o foco em competitividade e ganho de custos", disse.

Os resultados muito negativos da indústria ao longo de 2011, expostos no resultado final da balança comercial do ano, divulgados ontem, acenderam o sinal amarelo para a equipe econômica. O saldo comercial do Brasil somou US$ 29,8 bilhões no ano passado, um aumento de 47% em relação ao superávit de 2010, mas em dezembro ele já foi 25% inferior ao de igual mês daquele ano. No mês, as importações mantiveram ritmo forte (alta de 22,9%), mas as exportações só subiram 10% (bem abaixo da média de 26,8% do ano todo)

"Tivemos um ano recorde, histórico mesmo", afirmou Teixeira na entrevista em que os dados da balança comercial brasileira foram divulgados. Mas o ano histórico a que se referia Teixeira, com exportações (US$ 256 bilhões) e importações (US$ 226,2 bilhões) recordes, não deu tranquilidade para o governo traçar estimativas para 2012.

O agravamento da crise na União Europeia ao longo do passado ficou claro na trajetória das exportações brasileiras para a zona do euro - no ano, os embarques foram 22% superiores ao registrado em 2010, mas em dezembro a elevação de foi de apenas 1,1% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Da mesma forma, a perda de fôlego das commodities ligou o sinal amarelo do governo, uma vez que os produtos básicos são o principal sustentáculo do saldo comercial - o saldo industrial é fortemente deficitário. No mês passado, o preço do minério de ferro (o principal produto exportado pelo Brasil) ficou 1,8% menor que em dezembro de 2010, da mesma forma que a celulose embarcada em dezembro foi 9,5% mais barata que no mesmo mês de 2010. Além deles, a soja em grão também viu seu preço recuar 5% na mesma comparação.

A redução das vendas de minério, em relação a novembro, já era esperada devido às negociações de mudança de preço e de método de cálculo entre a Vale, exportadora e seu principal cliente, a China. "Além, disso, há a desaceleração da economia em todo o mundo desenvolvido", observou o economista Rodrigo Branco, da Fundação de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

Do total de US$ 226,2 bilhões das importações recordes de 2011, US$ 40 bilhões representaram a compra de bens de consumo, alta de 27,5% em relação a 2010. As aquisições de bens de capital somaram US$ 47,8 bilhões, aumento de 16,8%, enquanto matérias primas e bens intermediários totalizaram US$ 102,10 bilhões, 21,6% mais que no ano anterior. No subgrupo dos combustíveis e lubrificantes, as importações atingiram US$ 36,1 bilhões, 42,7% superior frente a 2010.

A China foi o principal destino dos produtos brasileiros em 2011. O país comprou US$ 44,31 bilhões do Brasil, representando uma alta de 44% em relação a 2010. Os principais produtos foram soja e minério de ferro. O segundo maior mercado foram os Estados Unidos, com compras de US$ 25,9, 33% maiores que as do ano anterior.

Venda para UE diminui e preço cai


Por Rodrigo Pedroso
De São Paulo

A balança comercial em dezembro teve superávit de US$ 3,8 bilhões. Embora positivo, o saldo foi 25,3% menor que os US$ 5,3 bilhões registrados no mesmo mês de 2010. A queda, segundo economistas, já é um reflexo da crise internacional na balança brasileira.

Resultado da crise, a redução de preços das commodities contribuiu para um crescimento de apenas 10,6% na média diária de embarques de dezembro, na comparação com o mesmo mês de 2010. A elevação é bem menor do que a alta de 26,8% na exportação do acumulado do ano de 2011 em relação a 2010. As importações também desaceleraram em dezembro, mas em ritmo bem menor. A média diária de desembarques em dezembro subiu 22,9% em relação ao mesmo mês de 2010. No acumulado do ano a alta foi de 24,5%.

O minério, principal produto exportado pelo Brasil, teve queda de 1,8% no preço em dezembro, em relação ao mesmo mês do ano anterior. De janeiro a novembro, o minério acumulou alta de 41,2% em relação ao mesmo período de 2010. Outros produtos básicos importantes da pauta, como soja em grão e celulose, também tiveram queda de preço em dezembro.

Para o economista Rodrigo Branco, da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), a desaceleração em dezembro indica como deve se comportar a balança em 2012. "As previsões para a balança neste ano indicam um saldo bem menor do que o de 2011", afirmou, para depois citar a estagnação econômica dos Estados Unidos e a crise na zona do euro como fatores determinantes.

Os números de 2011 já indicam menor demanda relativa europeia pelos produtos brasileiros. No último trimestre de 2011, em comparação com o mesmo período do ano anterior, as exportações para a União Europeia cresceram 7,3%, ritmo menor do que os 22,7% no ano. No último trimestre, a exportação total cresceu 15,4%. No ano, a alta foi de 26,8% (ver quadro). "Tudo indica que os países desenvolvidos não vão melhorar agora. A previsão é que essas economias fiquem mais um ou dois anos estagnadas ou em recessão para só depois voltar a crescer", afirma Branco.

Conteúdo local será contrapartida para crédito


Por De Brasília

Para aumentar a "qualidade" do superávit brasileiro no comércio exterior e o valor agregado nas exportações do país o governo vai cobrar das empresas maior produção local e uso de peças e partes fabricadas no Brasil em troca de financiamentos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), informou o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Aloizio Mercadante. "Vai ter mais exigência de conteúdo local e investimento em pesquisa e desenvolvimento, tanto nos financiamentos quanto na desoneração tributária", disse ao Valor, citando os setores de petróleo e etanol como alvos das novas políticas do governo Dilma Rousseff.

"O resultado superou as expectativas derrotistas de analistas financeiros que falavam em superávit baixo no começo do ano, que não chegaria a US$ 10 bilhões", comentou o ministro. Ele reconhece que o alto preço das commodities foi a principal razão do bom resultado comercial, e acredita que a demanda asiática deve continuar exercendo influência favorável sobre as cotações. "O segundo fator que ajudou o saldo foi a desvalorização do câmbio no segundo semestre", disse ele. "O câmbio deu maior competitividade às exportações e conteve as importações."

Mercadante atribui o aumento nas exportações de manufaturados à "inflexão da política econômica" feita pelo governo em 2011, com a tributação dos fluxos de capital especulativo, a redução de juros e seus reflexos sobre a taxa de câmbio, com a desvalorização do real a partir do segundo semestre.

Para o ministro, as medidas de desoneração de impostos adotadas no ano passado, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para eletrodomésticos, ainda terão efeitos relevantes neste ano. "Fizemos uma forte desoneração, e a presidente está atenta", afirmou. "O processo [de aumento do conteúdo local] na indústria automotiva só começou, as exigências vão aumentar e o setor sabe disso", lembrou.

Fontes do Ministério da Fazenda confirmam que as medidas para estimular exportações devem se concentrar em crédito. A secretaria da Receita Federal resiste, porém, a novas iniciativas de redução de imposto para a indústria, pelo menos enquanto aguarda uma avaliação do impacto do Reintegra, que garantiu crédito tributário de 3% sobre o faturamento aos exportadores de manufaturados. (SL e JV)


Déficit da indústria cresce 37% e passa de US$ 43 bilhões


Por Marta Watanabe
De São Paulo

O déficit da balança comercial da indústria de transformação aprofundou-se no ano passado e deve manter a mesma tendência para 2012. De janeiro a novembro de 2011, o saldo negativo dos segmentos industriais atingiu US$ 43,68 bilhões, um aumento de 37% sobre 2010. No mesmo período do ano anterior, o déficit era de US$ 31,86 bilhões. Os dados são da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

Neste ano, dizem economistas, o déficit da indústria deve aumentar ainda mais, com perspectivas de maior dificuldade para exportar, em função da tendência de retração dos mercados detonada pela crise na zona do euro. Em compensação, a perspectiva de crescimento econômico do Brasil, mesmo com desaceleração, deve manter o nível de importação relativamente alto. Para os especialistas, porém, as medidas do governo federal contidas no Plano Brasil Maior para estimular vendas ao exterior não serão suficientes para gerar maior competitividade ao manufaturado brasileiro.



A elevação do déficit da indústria em 2011 deve-se a um crescimento das importações em ritmo mais acelerado que o das exportações. De janeiro a novembro, as vendas ao exterior da indústria somaram US$ 137,9 bilhões, alta de 20,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na mesma comparação, os desembarques da indústria totalizaram US$ 181,6 bilhões, com aumento de 24,5%.

Dentre os 22 segmentos de atividade especificados pela Funcex, apenas seis apresentaram superávit: alimentos e bebidas, fumo, couros e calçados, produtos de madeira, papel e celulose e metalurgia básica. Entre os setores que mais contribuíram com saldo negativo para a balança total estão os de produtos químicos, coque, refino de petróleo e combustíveis, máquinas e equipamentos e material eletrônico e de comunicações.

Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria, diz que a balança comercial reflete a competitividade maior do país em alguns segmentos específicos, como o da agroindústria, por exemplo. "Esse é um setor no qual o Brasil tem clara vantagem competitiva, com tecnologia avançada e capacidade de produção", diz. De acordo com dados da Funcex, o setor de alimentos e bebidas foi a que mais contribuiu com saldo positivo para a balança da indústria. De outubro a novembro de 2011, esse segmento fechou com superávit de US$ 35,7 bilhões. No mesmo período do ano anterior, o saldo do setor foi de US$ 30,2 bilhões.

"O déficit grande em setores como aparelhos elétricos e material eletrônico e de comunicações não surpreende porque não há no país especialização ou capacidade competitiva para exportação", diz Campos Neto. Ao mesmo tempo, lembra, mesmo com a desaceleração, o mercado doméstico continuou relativamente aquecido, o que resultou em aumento de importações, principalmente em segmentos para os quais a indústria doméstica não tem condições de fornecer, o que ajuda a elevar ainda mais o déficit.

José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), acredita que em 2012 o cenário de déficit crescente da balança da indústria deve ter continuidade. "Com cenário de crise, os mercados irão se contrair. Para evitar déficits ou queda brutal de superávits, a tendência dos mercados é se fechar, com medidas protecionistas", diz ele. Isso deve dificultar ainda mais a exportação.

Castro acredita que essa tendência também será seguida pelos países da América Latina, destino importante de manufaturados brasileiros. "Esses países adquirem manufaturados importados com a receita gerada pela exportação de commodities", explica. Com a tendência de queda de preços das commodities e a perspectiva de um menor crescimento da China, a receita de exportação da região deverá ser reduzida, acredita Castro. "Um exemplo é a Argentina, que já deu claros sinais de que deverá adotar medidas ainda mais protecionistas para a sua indústria."

Rafael Bistafa, economista da Rosenberg e Associados, acredita que o câmbio poderá ser um fator mais positivo em 2012 do que foi no ano passado. A estimativa da consultoria é que ao fim deste ano o dólar esteja em R$ 1,9, enquanto a média de 2011 foide de US$ 1,66.

O problema da balança comercial da indústria, porém, é mais estrutural, diz Bistafa. Para revertê-lo, seria necessário uma mudança mais profunda para redução ou eliminação de gargalos conhecidos, como carga tributária alta, infraestrutura ineficiente, e custo elevado de mão de obra, diz ele.

Nesse contexto, acredita Castro, as medidas recentes do governo federal para estimular a importação, incluindo as do chamado Plano Brasil Maior, são insuficientes. "O Reintegra dá só 3% ao exportador de manufaturados. Isso poderia dar alguma vantagem ao exportador brasileiro se os mercados internacionais estivessem com demanda aquecida. Mas, em crise, o exportador precisa ter algo a mais para oferecer." Castro refere-se ao programa pelo qual o governo federal deve conceder como crédito valor equivalente a 3% do faturamento com vendas ao exterior de manufaturados.

Outra tentativa do governo federal de estimular a exportação é por meio da desoneração de folha para setores com mão de obra intensiva. Segmentos como o de calçados e vestuário, por exemplo, estão livres da contribuição previdenciária sobre a folha de salários e passarão a pagar valor equivalente a 1,5% sobre faturamento.

Para Campos Neto, o efeito dessas medidas é marginal. "A mudança estrutural demanda medidas estratégicas, olhando para o país para daqui a dez, 20 ou 30 anos. As medidas adotadas pelo governo são muito pontuais, com efeito de curto prazo", diz. "O Plano Brasil Maior é cheio de boas intenções. As medidas ajudam, é verdade, mas não serão capazes de reverter o cenário para 2012."



Os balanços e as promessas de 2012




Por Luiz Gonzaga Belluzzo - Valor 03/01

Iniciada no segundo semestre de 2007 e acelerada no infausto episódio da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, a crise não dá sinais de arrefecer. Alguns analistas, como Krugman, Roubini, Michel Aglietta, Martin Wolf e Cláudio Borio avançaram na compreensão do fenômeno ao buscar sua gênese nas transformações ocorridas nas relações indissociáveis entre a esfera monetário-financeira e a chamada "economia real".

No ciclo de expansão recente, combinaram-se métodos inovadores de "alavancagem" financeira, valorização imobiliária, a migração da produção manufatureira, a ampliação das desigualdades, insignificante evolução dos rendimentos da população assalariada e dependente e a degradação dos sistemas progressivos de tributação. A lenta evolução dos rendimentos acumpliciou-se à vertiginosa expansão do crédito para impulsionar o consumo das famílias. Amparado na "extração de valor" ensejada pela escalada dos preços dos imóveis, o gasto dos consumidores alcançou elevadas participações na formação da demanda final em quase todos os países das regiões desenvolvidas. Enquanto isso, as empresas dos países consumistas cuidavam de intensificar a estratégia de separar em territórios distintos a formação de nova capacidade e a captura dos resultados.

No período de euforia, as grandes empresas deslocaram sua manufatura para as regiões em que prevaleciam baixos salários, câmbio desvalorizado e alta produtividade. Americanos e europeus correram para a Ásia e os alemães, mesmo frugais, saltaram para os vizinhos do Leste. Dessas praças, exportaram manufaturas baratas para os países e as regiões de origem. Embalados pela expansão dos gastos das famílias, realizaram lucros e acumularam caixa (em geral nos paraísos fiscais) além de cavar alentados déficits em conta corrente na pátria-mãe.

A queda do investimento na formação da demanda agregada dos países centrais foi mais do que compensada pela aceleração desse componente do gasto nos emergentes asiáticos. O balanço global registra a criação generalizada de capacidade produtiva excedente, particularmente nos setores de alta e média tecnologia afetados pela concorrência internacional.

Imagino que alguns olhares ainda reconheçam nessas transformações os movimentos da economia capitalista ou da economia monetária da produção, como Keynes a qualificava. Nela imperam o avanço da divisão do trabalho entre grandes, médias e pequenas empresas privadas, a ampliação das relações de assalariamento em suas várias formas, a dominância da moeda bancária produzida e reproduzida pela generalização das operações de débito-crédito e o impulso à expansão ilimitada dos mercados.

Essa economia pode ser concebida como grande painel de balanços inter-relacionados. Observados em suas interrelações, os balanços dos bancos, empresas e famílias, governos e setor externo registram, em cada momento, os resultados das decisões de financiamento e de gasto tomadas privadamente por cada um dos participantes do jogo do mercado. As decisões privadas de gasto apoiadas no crédito - o pagamento de salários e as compras entre as empresas - criam o fluxo de renda agregada da economia e, ao mesmo tempo, modificam a situação patrimonial dos protagonistas.

Na fase ascendente do ciclo, o fluxo de lucros e a poupança das famílias e do governo cuidam de garantir o serviço e estabilidade do valor das dívidas e dos custos financeiros. As poupanças decorrentes do novo fluxo de renda constituem o funding do sistema bancário e do mercado de capitais. Estes últimos, em sua função de intermediários, promovem a validação do crédito e da liquidez (criação de moeda) "adiantados" originariamente para viabilizar os gastos de investimento e de consumo.

Quando os motores reverteram, acionados pela queda nos preços dos imóveis e pela desvalorização dos ativos financeiros associados ao consumo, escancarou-se um estoque de endividamento "excessivo" das famílias, calculado em relação aos fluxos esperados de rendimentos e à derrocada do valor das residências. Afogadas nas sobras de capacidade à escala global, as empresas cortaram ainda mais os gastos de capital. Aliviadas da carga de ativos podres graças à ação dos bancos centrais, as instituições financeiras acumularam reservas excedentes, mas hesitam em emprestar até mesmo às suas congêneres. Entre a queda das receitas, a ampliação automática das despesas e o socorro aos bancos moribundos, os déficits fiscais aumentaram, engordando as carteiras dos bancos com a dívida dos governos. Já os desequilíbrios em conta corrente dos balanços de pagamentos não andam nem desandam.

Nos últimos três anos, as famílias com equity negativo e as empresas sobrecarregadas de capacidade correm para os confortos da liquidez e do reequilíbrio patrimonial. Os países e as regiões se engalfinham: uns para reverter os déficits externos, outros para manter seus superávits. Os governos ensaiam políticas de austeridade fiscal.

Tais decisões são "racionais" do ponto de vista microeconômico e virtuosas sob a ótica da gestão das finanças domésticas, mas perversas para o conjunto da economia. Se todos pretendem cortar gastos, realizar superávits e se tornar líquidos ao mesmo tempo, o resultado só pode ser a queda da renda, do emprego e o crescimento do "peso" das dívidas cujo "valor" está fixado em termos nominais. É o paradoxo da desalavancagem, também conhecido como o inferno das boas intenções, cujas chamas crepitam no conhecido, mas sempre descuidado território das falácias de composição. Se bem interpretadas, as falácias poderiam nos aconselhar a discernir os fundamentos macroeconômicos da microeconomia.



Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Agora é hora de comemorar



Por Samuel Brittan  - Valor 02/01

Você se divertiu neste Natal, com muita coisa para comer e beber e brinquedos caros para as crianças? Espera ansioso pelas novas festividades da passagem para o Ano Novo? Está se sentindo culpado por se conceder esses prazeres em meio a todas as notícias sobre austeridade? Bem, não se sinta. Tenha em mente a queixa de Alice [de Lewis Carroll]: "Geleia ontem, geleia amanhã, mas nunca geleia hoje".

Um único indivíduo ou uma única família não pode, naturalmente, substituir uma política econômica sensata; e você também não tem obrigação de se conceder o prazer ou de economizar e ser pão-duro para o bem da economia nacional. Mas, se você está influenciado por considerações patrióticas, conceda-se, efetivamente, o prazer. E, se se sentir culpado por fazer isso num momento em que outras pessoas estão impossibilitadas, use seu dinheiro excedente para ajudar famílias pobres a se concederem o prazer também. Se você não conhece famílias nessas condições, ou não se considera capaz de dar sem parecer paternalista, doe para uma instituição assistencial cuidadosamente selecionada. Em tempos normais, a máxima saudável é: "Se você der um peixe a um pobre, o ajudará por um ou dois dias; se lhe der uma vara de pesca, você o firmará pelo resto da vida."

Mas, com o mundo pairando às vésperas de uma segunda recessão ou de coisa pior, é preciso que se diga algo em favor de instituições assistenciais que efetivamente dispensam o gasto de dinheiro com considerável rapidez.

Essa discussão aparentemente paradoxal encontrou sua formulação mais perfeita em Bernard Mandeville, um médico inglês de origem holandesa do início do século XVIII, por meio de uma parábola intitulada "A Fábula das Abelhas", em que retrata o destino de uma próspera comunidade em que todos os cidadãos se propõem a abandonar sua vida de luxos:

Olhai agora a gloriosa colmeia e vede /Como se conciliam honestidade e negócios:/ O espetáculo terminou; esvaiu-se rapidamente, /E apresentou-se com face bastante diversa, /Pois não só foram-se aqueles /Que somas vultosas gastavam anualmente, /Mas multidões, que neles tinham seu ganha-pão, /Foram diariamente forçadas a fazer o mesmo; /Inutilmente buscaram outros ofícios, /Pois estavam todos superlotados. /Caiu o preço da terra e das casas; /A construção civil foi aniquilada, /Não se empregaram mais artífices...

Essa obra foi combatida desde o início. Foi condenada como deletéria por um grande júri de Middlesex em 1723 e foi vilipendiada por opiniões respeitáveis nos dois séculos que se seguiram. Apenas o velho integrante do Partido Conservador Samuel Johnson lhe fez um comentário favorável, ao dizer que ela "lhe abriu muito os olhos para a vida real".

As doutrinas de Mandeville foram recuperadas por Keynes sob o título "o paradoxo da parcimônia". Para entendê-la plenamente, é proveitoso começar pela outra ponta e verificar o que acontece quando um país opta pelos gastos em vez da parcimônia. Um ponto de partida útil é uma antiga pergunta formulada em provas: um viajante chega a uma ilha que acabou de começar a usar dinheiro, mas que teve a sorte de não contar com um sistema bancário sofisticado. Ele come num restaurante e paga com cheque. Os habitantes ficam tão impressionados com o cheque que ele é passado de um comerciante a outro sem ser descontado. Quem pagou pela refeição? Por muito tempo a resposta ortodoxa era uma coisa desse tipo: se os ilhéus já gozavam de uma situação de pleno emprego, haveria um ligeiro aumento da taxa de inflação, e o custo real seria compartilhado entre eles. Se, por outro lado, houvesse recursos humanos não utilizados, a circulação do cheque levaria a um ligeiro aumento da prosperidade geral e, na prática, ninguém teria pago a conta.

Hayek, o economista do livre mercado, pôs tudo a perder com uma análise informal da teoria geral de Keynes no fim de uma obscura obra, "The Pure Theory of Capital" ("A Teoria Pura do Capital"), publicada em 1941. Hayek destacou que as economias do mundo real raramente vivem uma situação de pleno emprego ou de desemprego generalizado, e sim um estado, em certo grau, intermediário. Milton Friedman quase encerrou a discussão ao pressupor uma "taxa natural de desemprego". Quando as políticas econômicas oficiais tentam empurrar o desemprego para níveis inferiores a essa taxa, geram uma aceleração da inflação. Isso foi saneado ao ser rebatizado de taxa de desemprego de não aceleração e, mais tarde ainda, foi substituído pela "defasagem de produção", que soa anódino. O historiador americano James Livingston vai além de Keynes em seu novo livro, "Against Thrift" ("Contra a Parcimônia"). Mesmo excluindo-se condições de recessão, ele não vê qualquer virtude social na parcimônia, principalmente porque o reinvestimento dos lucros pode oferecer todo o novo capital necessário à moderna economia americana sem a necessidade de novos investimentos líquidos, financiados pela poupança. Seu livro traz um apêndice de autoria de dois economistas que mais ou menos fundamenta seu argumento. O texto principal é um tanto difuso, e uma grande parte dele se dedica a defender a "sociedade de consumo" contra a crítica da esquerda e da direita. Mas vale a pena uma olhada, nem que seja só por sua descrição dos líderes e escritores populistas americanos do início do século XX, praticamente desconhecidos fora dos Estados Unidos. Entre eles está Samuel Gompers, o fundador da ala moderada do movimento sindical americano. Denis Healey, o ex-ministro da Fazenda trabalhista do Reino Unido, brincava com a ideia de que me foi dado o mesmo primeiro nome de Gompers, do qual meus pais nunca tinham ouvido falar. Mas pelo menos agora eu sei que ele preferia uma economia de alto nível de consumo. (Tradução de Rachel Warszawski)




Samuel Brittan é comentarista econômico do FT