sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
O alarme de Krugman e a austeridade
Por Amity Shlaes - Valor 16/12
Então, é oficial. O "The New York Times", ou pelo menos o colunista Paul Krugman, declarou que estamos em uma depressão mundial. E chegou bem a tempo para o Natal.
A democracia está em jogo, sustentou Krugman em sua coluna de 11 de dezembro e a Europa, social e economicamente, se inclinará ao fascismo, se não deixar de buscar uma "austeridade cada vez mais rigorosa, sem esforço de contrabalanço para promover o crescimento".
São suposições importantes e previsões assustadoras. Krugman, no entanto, sente-se à vontade em fazê-las porque diz ter evidências. Sua evidência de que a democracia europeia cambaleia em favor de uma repressão é o caso da Hungria, membro da União Europeia (UE), mas que ainda tem sua própria moeda, o florim. No país, o partido governista Fidesz defende políticas que suprimem a liberdade de expressão, a independência judicial e a mídia jornalística.
Quanto à teoria de que a austeridade desacelera o crescimento, Krugman evoca a Grande Depressão. Fazê-lo traz autoridade por si só, já que a Grande Depressão é misteriosa e sua força na imaginação pública é forte.
O colunista, frequentemente, faz referências ao relato em três estágios. No fim dos anos 20 ou início dos 30, o presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover, cometeu um erro fatal e impôs medidas de austeridade, na forma de aumentos de impostos e cortes orçamentários. A economia dos EUA faliu. O presidente Franklin Roosevelt veio, gastou e começamos a nos recuperar. Depois de 1936, Roosevelt hesitou e apertou o cinto governamental - de novo, a austeridade. Caímos em depressão econômica. A economia não voltou às taxas de crescimento de 1929 até o aumento de gastos da Segunda Guerra Mundial.
Nem todos entre nós concordam com os detalhes desse roteiro. Hoover, por exemplo, aumentou os gastos. Argumentar, no entanto, que a austeridade, caso tivesse sido promovida em grau suficiente, teria promovido o crescimento e a recuperação nos anos 30 é embarcar em uma aventura condicional vulnerável.
Há evidências de que a austeridade promoveu o crescimento no passado e não o fascismo. Esses exemplos podem ser menos conhecidos, mas sugerem que a austeridade pode trazer a recuperação com mais velocidade do que quando se gasta.
Um forte exemplo na história dos EUA é a recessão no início dos anos 20. O governo reagiu à desaceleração sem gastar; cortou-se pela metade. A recuperação foi tão rápida que poucas pessoas se lembram dessa recessão.
Para seguir o modelo de Krugman de selecionar um único país, podemos observar a Austrália dos anos 30. No início da década, a Austrália, assim como os EUA, sofria de deflação e desemprego acentuado. A renda nacional havia encolhido em todos os anos entre 1925 e 1932. Nesse ano, o índice de desemprego chegou a 19,7%. O governo considerou substituir o padrão-ouro com um "padrão-mercadorias", atrelado às commodities.
Os australianos se perguntavam se os gastos poderiam trazer a recuperação. O poderoso premiê de Nova Gales do Sul, J.T. Lang, procurou focar seus eleitores em um projeto de obras públicas, a grande ponte Sydney Harbour Bridge, que foi completada em 1932. Muitas autoridades imaginaram que ainda mais liquidez seria a resposta para os problemas da Austrália.
Como a escritora Anne Henderson destaca na nova biografia de Joseph Lyons, o primeiro-ministro do país na época, o governo federal australiano afastou-se da política de gastos e optou pela austeridade. A partir de 1932, Lyons liderou o país em meio a uma campanha de corte de orçamento para reduzir em 20% todos os gastos desvinculados, que o governo pode usar livremente, o que incluiu os salários do setor público. Lyons e outros líderes se comprometeram a pagar dívidas australianas, no que ficou conhecido como o "plano dos premiês".
"A Austrália converteu empréstimos imensos em Londres" e recomprou dívidas "para assegurar, aos que emprestavam dinheiro, a solidez da política da Austrália", contou-me Henderson, por e-mail. Os impostos foram elevados em uma campanha total para transformar o déficit federal em superávit. A Austrália permitiu-se apenas um ano de déficit.
De início, as pessoas disseram que Lang, e não Lyons, estava certo. De 1933 em diante, no entanto, a Austrália começou a recuperar-se. Em 1936, o desemprego havia recuado para cerca de 11%. E continuou em queda. A Austrália recuperou-se com muito mais velocidade que os EUA.
Em 1935, um Lyons triunfante navegou aos EUA, no cruzeiro italiano Renault, para relatar o sucesso de seu governo: "Tivemos de cortar salários e aposentadorias cruelmente durante o auge da Depressão", disse Lyons a repórteres no píer, em Nova York. Naquele momento, contudo, já estava recuperando as aposentadorias. Ao cortar, a Austrália deu à sua economia a chance de crescer e, à sua moeda a crucial credibilidade. Lyon pode ter elogiado Mussolini, mas a Austrália não virou fascista.
Outros contam a história da Austrália de forma diferente. Enfatizam a depreciação da libra australiana e a resultante melhora das relações de troca. Ou argumentam que a Austrália, pequena, e os EUA, um país poderoso, não são comparáveis.
A questão é, contudo, que esses tipos de dados, da Hungria à Austrália, precisam ser examinados cuidadosamente. Os roteiros normalmente conhecidos nem sempre são os certos.
E nem sempre são análogos ao presente. O experimento de austeridade de David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, é recente demais para ser declarado como um fracasso. A recuperação pode ser lenta, como foi a da Austrália. O Reino Unido, no entanto, verá os benefícios a sua competitividade relativa criados pelos cortes mais cedo do que tarde. O dinheiro que evita a incerta área do euro fluirá para o Reino Unido.
Em resumo, só porque alguém evoca a Grande Depressão não significa que uma nova era fascista esteja sobre nós. Ou que é hora de uma "suspensão da descrença". (Tradução de Sabino Ahumada).
Amity Shlaes é colunista da Bloomberg News e diretora do Four Percent Growth Project, no Bush Institute.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
TV ON LINE
DIRETORES DO BANCO CENTRAL EXPLICAM VENDA DO BANCO PANAMERICANO TEMPO: 00:01:37
14/12/2011 - 21:14:29
Diretores do Banco Central explicaram hoje (14) na Câmara detalhes da venda do Banco PanAmericano no início deste ano. O presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Hereda, também será convidado a falar na Comissão de Fiscalização e Controle.
Segundo as explicações, o repasse da instituição financeira não se valeu de recursos públicos.
TV: TV RECORD DF
PROGRAMA: JORNAL DA RECORD
APRESENTADOR: ANA PAULA PADRÃO
MIRIAM LEITÃO ANALISA CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZAS NO BRASIL E DADOS DO BANCO CENTRAL TEMPO: 00:05:37
15/12/2011 - 08:10:00
Uma pequena cidade no interior de São Paulo registrou a maior alta no ranking que mede as contribuições de riquezas do país. A renda do município Monções passou de R$ 30,2 milhões em 2008 para R$ 143,8 milhões em 2009. A maior preocupação da cidade agora, que teve o número de empregos dobrados, é a capacitação profissional.
Em relação ao crescimento da cidade de Monções e o desenvolvimento nacional, a comentarista do Bom Dia Brasil, da Rede Globo, Miriam Leitão, relatou que a renda brasileira ainda é muito concentrada em algumas cidades. Ela também analisou um novo índice publicado pelo Banco Central, que soma todos os indicadores e antecipa os resultados do PIB.
*JEFFERSON MARIANO, analista sócio-econômico.
*SÉRGIO SOUZA, gestou municipal.
TV: TV GLOBO DF
PROGRAMA: BOM DIA BRASIL
APRESENTADOR: RENATA VASCONCELLOS
ECONOMISTA FALA SOBRE O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL - PARTE I TEMPO: 00:05:49
14/12/2011 - 19:53:00
Em entrevista ao Conta Corrente, a economista Zeina Latif falou sobre o cenário econômico nacional que sofre os efeitos da crise internacional e das próprias políticas macro-econômicas. Segundo ela, índice do Banco Central mostra que economia recuou muito em outubro.
*ZEINA LATIF, economista
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
ECONOMISTA FALA SOBRE O CENÁRIO ECONÔMICO NACIONAL - PARTE II
Em entrevista ao Conta Corrente, a economista Zeina Latif falou sobre o cenário econômico nacional que sofre os efeitos da crise internacional e das próprias políticas macro-econômicas. Segundo ela, índice do Banco Central mostra que economia recuou muito em outubro.
TV: GLOBO NEWS
PROGRAMA: CONTA CORRENTE
APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES
BC diz que não errou no caso PanAmericano
Por Mônica Izaguirre - Valor 15/12
De Brasília
O diretor de fiscalização do Banco Central, Anthero de Moraes Meirelles, afirmou ontem que a autoridade supervisora ainda não tinha conhecimento da fraude no PanAmericano quando, em julho de 2010, deu autorização preliminar para a compra de fatia acionária do banco pela Caixa Econômica Federal.
O diretor participou ontem de audiência pública na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados sobre a aquisição, pela Caixa Econômica Federal, de parte do capital do banco PanAmericano, cujas demonstrações contábeis foram fraudadas, dando origem, em 2010, a um dos maiores escândalos do sistema financeiro nacional.
Meirelles afirmou que o BC não tem competência legal para julgar o mérito de atos societários envolvendo instituições financeiras, mas sim evitar o risco sistêmico do sistema financeiro. Segundo ele, as compras de participações acionárias, fusões e incorporações desse tipo de empresa são analisadas pelo BC apenas sob o ponto de vista do enquadramento legal e do impacto nas condições de concorrência do sistema financeiro.
O diretor do BC reiterou que foi o próprio BC quem descobriu as fraudes que geraram o rombo patrimonial no PanAmericano. O sinal de alerta foi aceso quando a autoridade supervisora decidiu fazer uma avaliação do mercado de cessão de créditos, ou seja, de compra e venda de carteiras de empréstimos e financiamentos entre instituições financeiras.
O trabalho mostrou uma concentração muito grande de negócios no PanAmericano. Ao iniciar a partir daí uma fiscalização mais específica, o BC descobriu que o banco vendia créditos mas não os tirava de seu balanço, o que inflava o ativo e os resultados. A fraude tinha sido incorporada ao sistema de informática, o que tornava a irregularidade automática a cada venda de carteira.
Meirelles destacou ainda que o Banco Central não substitui o papel das auditorias internas e externas, legalmente obrigatórias no caso do PanAmericano, empresa de capital aberto. "O Banco Central tem como foco o risco sistêmico. Não tem competência legal para efetuar auditoria nos demonstrativos contábeis, tarefa que cabe aos auditores contratados pelas partes para esse fim", disse.
A solução de mercado dada ao caso, acrescentou, não impede os processos de apuração e punição de responsabilidades, já nas mãos do Ministério Público (esfera criminal), do Conselho Federal de Contabilidade e da Comissão de Valores Mobiliários, cada um na sua esfera.
Para ele, o Banco Central evitou um problema sistêmico, ou seja, evitou que outras instituições fossem prejudicadas. Se não fosse possível uma solução de mercado, o BC teria que liquidar o banco, o que teria custos para os depositantes e para o sistema financeiro.
O negócio entre o banco estatal e a instituição privada foi anunciado em dezembro de 2009. Como cumpria todos os requisitos legais, em julho, uma autorização em caráter preliminar foi concedida pelo BC para que a operação prosseguisse. Naquele momento, disse Meirelles, a fraude não era conhecida.
A fraude foi constatada entre agosto e outubro de 2010, revelando inicialmente um rombo patrimonial de R$ 2,5 bilhões, reavaliado depois para R$ 4,3 bilhões. O diretor admitiu que, quando saiu a autorização definitiva, em novembro de 2010, o BC já tinha, portanto, detectado os problemas. Mas àquela altura dos acontecimentos, todas as providências para o saneamento do PanAmericano já tinham sido atendidas pelo então acionista controlador, o empresário e apresentador de TV Silvio Santos, sem prejuízo a investidores e depositantes.
Com o banco saneado, explicou ele, não tinha por que não autorizar o negócio. Inicialmente, o rombo foi coberto por Silvio Santos com dinheiro emprestado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). No entanto, em fevereiro, com a compra já aprovada pelo BC, descobriu-se que o rombo era maior. Então, com a exigência do BC para troca de controlador, o empresário se livrou da dívida ao vender o controle ao Banco BTG Pactual. O BC exigiu ainda troca de todos os administradores, o que foi feito. A Caixa manteve sua participação, de 35% do capital total e 49% do capital votante.
Rumo da China determina o destino das commodities
Por Liam Pleven
The Wall Street Journal
Você quer saber para onde os mercados de commodities irão nos próximos anos? Então, é melhor que você tenha em mente uma palavra: China.
Como a maior e uma das economias que mais crescem entre as emergentes, a China se tornou uma voraz consumidora de commodities industriais e agrícolas. As mudanças em sua demanda são hoje o principal motor dos preços de vários produtos. Os produtores costumam tomar decisões sobre grandes investimentos com base na expectativa da demanda da China por seus produtos. Investidores fazem cálculos semelhantes para vender ou comprar contratos de commodities ou relacionados a elas.
É por isso que nenhum outro fator, provavelmente, terá um impacto mais abrangente sobre o mercado de commodities nos próximos anos que as transformações da economia chinesa, conforme a evolução econômica do país. "Essa é a grande questão", diz Richard Adkerson, diretor-presidente da Freeport-McMoRan Cooper & Gold Inc.
Se o consumo chinês de commodities continuar crescendo no ritmo dos últimos dez anos, isto é o que o mundo deveria fazer para atender à demanda em 2020 (considerando que o apetite coletivo global não mudasse em nada):
- Extrair adicionalmente quase o mesmo volume de petróleo ofertado atualmente pela Arábia Saudita;
- Produzir três vezes o volume de soja que hoje sai do Estado americano de Iowa, que sozinho é responsável por 5% da produção mundial;
- Retirar das minas quase três vezes mais a produção anual de cobre do Chile, que já produz cerca de quatro vezes mais que qualquer outro país.
E isso seria só para começar. Grandes quantidades de suprimento seriam necessárias também para várias commodities.
Os preços que dispararam para valores recordes nos últimos anos, puxados pela demanda chinesa, poderiam voar até mais alto. Seria uma boa notícia para empresas que produzem essas commodities e para os investidores que apostaram nelas - a menos que os preços altos, abruptamente reprimam a demanda ou estimulem os chineses e outros consumidores de commodities a buscarem produtos alternativos.
Produtos que têm estoques apertados ou risco de restrições, como é o caso do petróleo, do cobre e do paládio, poderiam se tornar vulneráveis a fortes altas.
Muitos analistas consideram o cenário de forte expansão como improvável. O consenso é que a China está caminhando para um crescimento econômico mais lento que o visto entre 2001 e 2010, quando a taxa anual de expansão variou entre 8,3% a 14,2% e alcançou dois dígitos em seis ocasiões, de acordo com o Banco Mundial. Se o consenso estiver correto, a questão é em quanto o crescimento da China vai cair.
Uma taxa de crescimento de 4% a 6% seria de ótimo tamanho para o Brasil e outras economias. Mas não para a China. Essa é a faixa de expansão projetada para a economia chinesa para ao redor de 2013 ou 2014 pela Roubini Global Economics LLC, empresa de consultoria e pesquisa sediada em Nova York. Shelley Goldberg, diretora de estratégia global para commodities e recursos naturais, considera isso uma "freada brusca", ou "hard landing", depois de uma expansão bem mais veloz na década passada. "Obviamente, não é um bom presságio para as commodities", diz Goldberg.
A demanda por aço, cobre e outros metais industriais poderia encolher bastante se a China, de fato, estagnar, já que esses materias são muito na construção civil - que estaria em risco, no caso de um desaquecimento do mercado imobiliário chinês. A China normalmente responde por cerca de 40% da demanda global por esses materiais. A demanda de carvão também poderia despencar, diz ela, porque ele é muito utilizado na China para gerar energia.
Algumas commodities poderiam sofrer não porque a China as utiliza mais que qualquer um, mas porque o país tem sido o grande responsável pelo crescimento de seus mercados. Por exemplo, embora a China responda por apenas cerca de 11% da demanda global de petróleo, de acordo com o Barclays Capital, o país é responsável por 60% do crescimento dessa demanda.
Da mesma forma, uma freada brusca poderia ser mais danosa para o mercado de soja que o de milho porque a China é um grande importador de soja, mas produz quase todo o milho que consome, diz Kevin Norrish, diretor-gerente da área de pesquisa de commodities do Barclays Capital.
A China já se tornou o principal destino das exportações brasileiras, e a soja é a segunda maior exportação para o país, atrás de minério de ferro, segundo o Ministério do Desenvolvimento.
Para muitos observadores da China, incluindo o Barclays, o mais provável é um cenário em que a economia continue se expandindo fortemente, mas num ritmo menos acelerado. Isso se traduziria em uma contínua pressão de alta para os preços da maioria das commodities, com algumas subindo bastante, mas na maioria dos casos não atingindo a disparada que seria provocada por uma economia ardente.
"Nós ainda vemos uma série de razões pelas quais o crescimento deve continuar, mas com o tempo a taxa de expansão vai se desacelerar", diz Jim Lennon, analista especializado no mercado chinês de commodities, do Macquarie Group Ltd, uma das principais referências para os produtores de commodities.
Mesmo em um momento mais lento, mas estável, a demanda - e os preços - de algumas commodities podem dar saltos. Por exemplo, a China usa menos gás natural per capita que muitos outros países, diz Neil Beveridge, um analista sênior do banco de investimento Sanford C. Bernstein, em Hong Kong. Isso vai mudar, diz ele, à medida que mais pessoas usarem o combustível para aquecer ou refrescar suas casas e volumes maiores sejam consumidos pela indústria.
Ao mesmo tempo, a demanda por algumas commodities agrícolas deve crescer, mas pode diminuir por outras, diz Scott Rozelle, professor da Universidade de Stanford, que estuda agricultura chinesa.
Afinal, a China é um mercado tão grande que qualquer aumento em consumo - mesmo uma expansão econômica lenta, mas estável - cria um grande volume de demanda fresca e proporcionalmente estimula dos preços. Como diz Goldberg: "Eles ainda são 1,3 bilhão de pessoas".
Um acordo carregado de empecilhos
Por Wolfgang Münchau - Valor 15/12
A União Europeia (UE) destruiu na semana passada a ilusão de que a região do euro e o Reino Unido poderiam coexistir alegremente dentro da UE. Esse motivo pode ter tornado o encontro de cúpula histórico. A decisão de criar uma união fiscal fora dos tratados europeus, no entanto, não fará nada em absoluto para resolver a crise da região do euro.
Há diferentes noções de união fiscal - algumas mais integradas, algumas menos, algumas obcecadas com a disciplina fiscal, outras com os bônus conjuntos. Seja qual for sua preferência, no entanto, essa união não é algo recomendável de levar-se adiante fora dos tratados europeus. Os atuais tratados formam a base legal para toda a coordenação política da união monetária. Quando se tenta contorná-los, a situação fica muito confusa.
Mudar tratados é tarefa complicada e entendo porque não há grande apetite em promover essas alterações. Todos ainda lembram-se do tratado constitucional fracassado da década passada. O que é conhecido como Tratado de Lisboa levou quase dez anos desde sua origem até a ratificação. Um novo tratado exige o consentimento de todos os integrantes, uma convenção, uma conferência intergovernamental, um acordo final no Conselho Europeu e Parlamento Europeu e, então, a ratificação de cada país, em alguns por meio de referendo.
A Alemanha entendeu perfeitamente bem que suas propostas precisam de uma mudança completa dos tratados. O envolvimento do Tribunal de Justiça da UE como executor das regras fiscais não pode ser alcançado de outra forma. Discordo com o conteúdo das propostas alemãs e da fixação apenas na disciplina fiscal. Concordo, no entanto, com a avaliação legal: se o que se deseja é uma união fiscal, nada além de uma mudança completa dos tratados seria suficiente. Se a UE tivesse aceitado a ideia, um consenso sobre os tratados poderia ter produzido uma união fiscal muito mais equilibrada que a desejada agora por Alemanha e França, em um tratado separado de tramitação rápida.
Agora que David Cameron bloqueou a opção de mudar os tratados europeus, o maquinário de Bruxelas trabalha com força total para encontrar uma forma legal de tornar possível um tratado separado entre os membros da região do euro. Uma das formas candidatas é o procedimento conhecido como "cooperação aprimorada". Introduzido nos anos 90 e posteriormente modificado com emendas, foi idealizado para dar a um grupo com pelo menos nove países-membros o direito de seguir em frente sozinho. Trata-se, no entanto, mais de um procedimento do tipo "tratado dentro de tratado". Foi invocado apenas para a patente única europeia e, apropriadamente, para a lei comum de divórcio. É de se perguntar, portanto, se seria possível usar a cooperação aprimorada como base legal para criar-se uma união fiscal. Será que poderia até ser usada como portal ao espaço externo, para que outro tratado que interaja com o atual? Considero isso muito improvável. Em primeiro lugar, o procedimento exige unanimidade. Portanto, se Cameron vetou uma revisão do tratado porque ele não quer uma união fiscal mais profunda que discrimine contra a City londrina, ele certamente tampouco aceitará uma união fiscal criada por uma cooperação aprimorada. Além disso, o procedimento não é orientado a alterar provisões atuais do tratado. Foi idealizado para que países-membros colaborem em áreas ainda não cobertas pelo tratado.
Outra possível base legal é o Artigo 136, sob o qual os integrantes da região do euro têm permissão para "fortalecer a coordenação e supervisão de sua disciplina orçamentária" e para tentar "determinar as diretrizes de política econômica para eles". Essa é a base legal para que os países-membros coordenem políticas tributárias, melhorem o funcionamento dos mercados de trabalho ou enviem um representante conjunto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O Artigo 136, no entanto, tampouco foi idealizado como um portal para o espaço externo dos tratados.
Uma união fiscal criada fora do espaço dos tratados europeus se depararia com várias limitações práticas e legais. A menos que se encontre algum truque, não pode ter acesso aos recursos e instituições da região do euro. Também não pode emitir bônus da região do euro. A única contraparte concebível para um bônus da região do euro é a própria UE.
Ainda mais importante, uma união fiscal criada por meio de um alçapão legal não ajudaria a resolver a crise. A região do euro enfrenta uma perda generalizada de confiança. Os investidores não acreditam mais em sua administração de crise, na solidariedade de seus cidadãos ou mesmo em sua capacidade de conduzir políticas econômicas adequadas. A UE não conseguirá recuperar a confiança por meio de artimanhas legais que enfrentarão diversos desafios nos tribunais.
Os líderes deveriam ter admitido na sexta-feira que o encontro de cúpula simplesmente fracassou ou talvez tê-lo estendido por mais alguns dias. As negociações poderiam ter resultado em algum compromisso. Com a simulação de outro tratado, isso não é mais possível. Lembrem-se do que todos diziam há uma semana? Para solucionar a crise, a região do euro precisa, no longo prazo, de uma união fiscal com a perspectiva de um bônus da região do euro e, no curto prazo, de apoio ilimitado ao mercado de bônus soberanos pelo Banco Central Europeu (BCE). O que temos agora é nenhuma mudança de tratado, nenhum bônus da região do euro e nenhum aumento no fundo de resgate ou do apoio do BCE.
As mudanças de políticas anunciadas pelo BCE na semana passada ajudarão os bancos diretamente e os bancos indiretamente. Mas a UE não conseguiu nenhum dos elementos que formariam um acordo abrangente. Na sexta-feira, os investidores reagiram de forma positiva ao que lhes foi vendido como um "compacto fiscal". Mas, uma vez que as implicações de um tratado separado sejam compreendidas, receio que a desilusão prevalecerá.
Na semana passada, os líderes europeus criaram um fato que desviou as atenções. Ficaremos falando sobre o Reino Unido por algum tempo. A crise, enquanto isso, segue adiante. Tradução de Sabino Ahumada)
Wolfgang Münchau é editor do FT onde escreve sobre União Europeia.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Modelo precisa mudar para Brasil sustentar crescimento, diz CNI
O último ciclo de forte expansão da economia brasileira – o período 2004-2008, quando o Brasil cresceu mais que a economia mundial – foi liderado pela indústria. No período pós-crise econômica mundial esse quadro se modificou. Em 2011, o Brasil voltou a crescer menos que o mundo e a indústria menos que o Brasil: o PIB aumentou 2,8% e a indústria apenas 1,8%.
A perda de dinamismo das economias avançadas e a mudança do eixo dinâmico da economia mundial para a Ásia se refletem negativamente na indústria brasileira. A mudança significa menor demanda líquida por produtos manufaturados brasileiros, pois a Ásia é nossa concorrente direta nesses produtos. Não apenas encolheu o mercado externo para nossas exportações industriais como aumentou a penetração de produtos estrangeiros no atendimento do mercado brasileiro.
Nesse cenário, a prevalência de uma equação macroeconômica de juros altos e câmbio valorizado e os poucos avanços na eliminação dos entraves à melhoria da competitividade mostram-se fatais: a indústria de transformação cresceu apenas 1,1% em 2011.
Para a indústria voltar a ser o centro dinâmico da economia brasileira, e o país sustentar um ciclo de expansão maior que a média mundial, é essencial mudar nossa estratégia de crescimento e enModelo
precisa mudar para Brasil sustentar crescimentocarar dois desafios. De um lado, aumentar a competitividade brasileira de modo a permitir aos produtos industriais enfrentar a concorrência com os asiáticos. De outro, mudar o padrão de expansão doméstico e eleger o investimento – e não o consumo – como a alavanca do crescimento. Em um modelo de crescimento sustentável, o consumo não pode crescer mais que o PIB.
Do ponto de vista macroeconômico, o aumento da taxa de investimento precisa ser financiado pela maior disponibilidade de poupança. Na insuficiência da poupança doméstica, esse esforço de investimento se traduz em aumento do déficit em conta corrente.
Como cerca de 60% do PIB são formados por “nontradables” (aqueles bens que não fazem parte do comércio internacional, como os serviços) e o setor intensivo em recursos naturais é muito competitivo, o déficit de poupança se traduz em um crescente déficit nos produtos manufaturados. O câmbio valorizado viabiliza essa estratégia.
A indústria precisa crescer mais que o PIB e o PIB mais que o consumo. Sem mudança no modelo, a indústria de transformação brasileira irá crescer pouco – menos que o PIB – e o processo de perda de participação relativa do setor na economia irá prosseguir. Sem ter completado seu ciclo de desenvolvimento, o Brasil não pode correr o risco de se tornar precocemente uma economia pós-industrial.
Veja relatório completo neste link
A perda de dinamismo das economias avançadas e a mudança do eixo dinâmico da economia mundial para a Ásia se refletem negativamente na indústria brasileira. A mudança significa menor demanda líquida por produtos manufaturados brasileiros, pois a Ásia é nossa concorrente direta nesses produtos. Não apenas encolheu o mercado externo para nossas exportações industriais como aumentou a penetração de produtos estrangeiros no atendimento do mercado brasileiro.
Nesse cenário, a prevalência de uma equação macroeconômica de juros altos e câmbio valorizado e os poucos avanços na eliminação dos entraves à melhoria da competitividade mostram-se fatais: a indústria de transformação cresceu apenas 1,1% em 2011.
Para a indústria voltar a ser o centro dinâmico da economia brasileira, e o país sustentar um ciclo de expansão maior que a média mundial, é essencial mudar nossa estratégia de crescimento e enModelo
precisa mudar para Brasil sustentar crescimentocarar dois desafios. De um lado, aumentar a competitividade brasileira de modo a permitir aos produtos industriais enfrentar a concorrência com os asiáticos. De outro, mudar o padrão de expansão doméstico e eleger o investimento – e não o consumo – como a alavanca do crescimento. Em um modelo de crescimento sustentável, o consumo não pode crescer mais que o PIB.
Do ponto de vista macroeconômico, o aumento da taxa de investimento precisa ser financiado pela maior disponibilidade de poupança. Na insuficiência da poupança doméstica, esse esforço de investimento se traduz em aumento do déficit em conta corrente.
Como cerca de 60% do PIB são formados por “nontradables” (aqueles bens que não fazem parte do comércio internacional, como os serviços) e o setor intensivo em recursos naturais é muito competitivo, o déficit de poupança se traduz em um crescente déficit nos produtos manufaturados. O câmbio valorizado viabiliza essa estratégia.
A indústria precisa crescer mais que o PIB e o PIB mais que o consumo. Sem mudança no modelo, a indústria de transformação brasileira irá crescer pouco – menos que o PIB – e o processo de perda de participação relativa do setor na economia irá prosseguir. Sem ter completado seu ciclo de desenvolvimento, o Brasil não pode correr o risco de se tornar precocemente uma economia pós-industrial.
Veja relatório completo neste link
Demanda por petróleo vai crescer menos, diz a AIE; China puxa o carvão
Por Agências internacionais
A Agência Internacional de Energia (AIE) reduziu sua previsão para o crescimento da demanda por petróleo em 2012 devido à piora no cenário da economia global e à manutenção dos preços elevados da commodity. Já a demanda por carvão deve ter um aumento impulsionado pela China.
Apesar da desaceleração no consumo, que deve se manter nos próximos cinco anos, a demanda por petróleo continuará robusta. Nas estimativas da agência, a demanda terá uma alta média de 1,2%, ou 1,1 milhão de barris/dia, puxada pelos países emergentes.
A AIE prevê que no ano que vem a demanda média será de 90,3 milhões de barris/dia - cerca de 200 mil barris a menos do que o estimado há apenas um mês. A agência calcula que em 2016 a demanda global por petróleo estará em 95 milhões de barris/dia. Em 2010, a média de consumo registrada foi de 88,3 milhões de barris/dia. Em 2011, deve chegar a 89 milhões.
"A demanda global estrutural está cerca de 300 mil barris/dia menor do que acreditávamos no meio do ano, principalmente na OCDE [países ricos], de modo que, sim, um desempenho econômico mais fraco certamente está alimentando isso e puxando para baixo a demanda", disse David Fyfe, que elaborou o relatório da AIE.
Nos últimos dois anos, os países produtores de petróleo estão trabalhando com uma margem excedente pequena. Esse panorama pode melhorar nos próximos cinco anos, com a recuperação da capacidade de extração de Líbia e Iraque e também com a alta da produção americana de óleo de xisto.
Já a demanda global por carvão deve crescer 2,8% ao ano até 2016, atingindo um total de 6,18 bilhões de toneladas. Segundo a AIE, a China responderá por 63% do aumento, compensando o fraco consumo nos 34 países da OCDE. "A demanda continuará crescendo no período, mas o ritmo de expansão diminuirá. A China, em termos absolutos, e a Índia, em termos relativos, liderarão o crescimento."
Uma consequência, segundo a AIE, é que as emissões de dióxido de carbono relacionadas com a queima de carvão atingirão níveis recordes. "Apesar de tudo o que se fala sobre remover o carbono do sistema energético, a AIE prevê um crescimento médio na demanda por carvão de 600 mil toneladas diárias pelos próximos cinco anos", disse Maria van der Hoeven, diretora-executiva da agência. "Os formuladores de políticas públicas precisam estar cientes disso na hora de preparar estratégias para aprimorar a segurança energética e combater a mudança climática."
Cresce disputa entre México e Brasil nas vendas para a América do Sul
Por Marta Watanabe - Valor 14/12
De São Paulo
Num cenário de desaceleração econômica de mercados tradicionais, como Estados Unidos e Europa, os países da América do Sul surgem como importantes destinos, nos quais os produtos brasileiros podem ganhar espaço, principalmente os manufaturados. Nos últimos dois anos, porém, o Brasil não enfrenta somente a concorrência da China, mas também de outro fornecedor que se tornou mais presente na região: o México.
Levando em conta os principais mercados do Brasil na América do Sul - Argentina, Chile, Venezuela, Paraguai, Colômbia, Peru e Uruguai -, as exportações do país cresceram 26,2% de janeiro a setembro deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado. Para os mesmos destinos, a exportação mexicana teve elevação maior, de 31,8%.
A exportação mexicana para esses países ainda é bem menor do que a brasileira. Durante os nove primeiros meses do ano, o México vendeu o equivalente a US$ 9,7 bilhões, menos de um terço do resultado obtido pelo Brasil (US$ 31,7 bilhões).
O que tem chamado a atenção, porém, inclusive em análises do Ministério do Desenvolvimento, é o crescimento da participação do México em regiões específicas. A exportação para a Colômbia, por exemplo, atingiu US$ 4,2 bilhões de janeiro a setembro, o que significa alta de 58,1% em relação ao mesmo período de 2010. As vendas do México para o Peru tiveram elevação de 30,1%. Na mesma comparação, as vendas brasileiras aos colombianos cresceram 24,4%. Para os peruanos, a alta foi de 14,1%.
A maior presença dos mexicanos em mercados da América do Sul, diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), é resultado de uma tentativa dos mexicanos de reduzir sua dependência do mercado americano. Os Estados Unidos representam 78,8% das vendas do México ao exterior, mas essa fatia vem diminuindo ano a ano, porque as exportações mexicanas para outros destinos têm crescido de forma mais acelerada.
De janeiro a setembro de 2011, as vendas do México para os americanos cresceram 17,6% em relação aos mesmos meses do ano passado. No período, as vendas para a América do Sul tiveram alta de 29,3%, e para a Europa, 38,5%.
"O México ainda não tem oferta variada de bens para exportação, mas tem conseguido atrair investimentos para diversificar produção", diz Castro. Além disso, aponta, há outra vantagem importante. "O México é o país com o maior número de acordos bilaterais de comércio, o que facilita a elevação do ritmo de exportação." Diferentemente do que ocorre no Mercado Comum do Sul (Mercosul), o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) permite que seus membros assinem acordos bilaterais com países ou blocos.
Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores, lembra que essa política de fazer acordos para diminuir a dependência dos americanos vem de longo tempo, mas a menor demanda dos Estados Unidos tornou o assunto uma prioridade. Nessa política de diversificação de destinos, lembra ele, os acordos com a União Europeia e com o Peru estão entre os últimos assinados pelo México.
De janeiro a setembro de 2011, os mexicanos exportaram para a Europa US$ 15,6 bilhões, o que representou crescimento de 38,5% em relação ao mesmo período de 2010. O comércio com os europeus também teve crescimento a um ritmo maior que a venda aos americanos, que teve alta de 17,6% na mesma comparação.
Para Fábio Silveira, sócio da RC Consultores, a maior presença dos mexicanos é passageira e deve diminuir quando houver recuperação maior da economia americana. "É um movimento de oportunidade, que incomoda, mas que não deve ser seguido de um crescimento no mesmo ritmo para os próximos anos", diz o economista. "Não creio que os mexicanos tenham capacidade de produção para uma expansão tão grande. O que acontece agora é o redirecionamento do que antes era exportado para os Estados Unidos."
Barral acredita que a maior preocupação do México em investir em novos destinos também pode ser aproveitada pelo Brasil como oportunidade para selar um acordo com um parceiro que pode se tornar importante. Entre 2008 e 2009, houve uma série de reuniões com a intenção de firmar um acordo bilateral, mas não houve sucesso. "Os dois países têm vários segmentos com grande complementariedade, da mesma forma que já acontece no setor automotivo. Os segmentos de petroquímicos e químicos são bons exemplos."
O comércio do Brasil com o México é deficitário para os brasileiros. De janeiro a outubro, os embarques com destino ao México foram de US$ 3,27 bilhões. As vendas dos mexicanos ao Brasil no período alcançaram US$ 4,05 bilhões.
Fracasso desastroso na cúpula
Por Martin Wolf - Valor 14/12
Aqueles a quem os deuses querem destruir, eles primeiro deixam loucos. Essa foi minha reação ao conhecer o resultado do encontro do Conselho da União Europeia na semana passada. Muitos concentraram sua atenção na decisão do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, de vetar um novo tratado. Esse comportamento desviou a atenção do fracasso dos líderes da região do euro em preparar um tratamento confiável para os males da união monetária. Em vez disso, propuseram apertar ainda mais os parafusos sobre os países fora do rumo fiscal. Pode até passar uma sensação agradável. Mas não funciona.
Cameron apresentou a seus colegas uma lista de exigências voltadas a proteger a City londrina e a capacidade de regulamentação desse centro financeiro pelo governo do Reino Unido, em grande parte sem a possibilidade de obstáculos de autoridades reguladoras europeias. Cameron poderia ter declarado que teria aceitado um tratado aplicável apenas para os membros ou candidatos a membros da região do euro. Poderia ter sugerido que colocaria um tratado equivalente para votação em referendo no Reino Unido. Em vez disso, acabou sem salvaguardas para a City e com o status de estar semidescolado da União Europeia (UE), da qual ele quer que o Reino Unido continue membro. Ele não atingiu nada positivo, a não ser corroer a credibilidade do Reino Unido como membro da UE. Isso traz custos substanciais.
Bem mais importante do que essa peça de teatro político britânico, entretanto, é o que agora pode acontecer dentro da região do euro. Quanto a isso, sou pessimista. Alemanha e França concordaram que não deve haver união política, financeira ou fiscal. O fracasso em transcender os defeitos da construção original é previsível, mas terrível.
A decisão central acertada foi fortalecer a disciplina fiscal, construir o que a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, chamaram na semana passada de "união de crescimento e estabilidade" - ou, como eu a vejo, uma "união de estagnação e instabilidade". Mesmo sob um tratado intergovernamental, essa disciplina reforçada provavelmente ainda poderia ocorrer via instituições da UE, como argumenta agora Olli Rehn, comissário europeu de Assuntos Monetários e Econômicos.
Quais são os principais detalhes? Primeiro, "os déficits orçamentários gerais dos governos devem ser equilibrados ou passar a superávits: esse princípio deve ser considerado respeitado se, como regra, o déficit estrutural anual não exceder 0,5% do Produto Interno Bruto nominal". Segundo, "tal regra também será incluída nos sistemas judiciários [...] dos países-membros [...]. A regra conterá um mecanismo de correção automática que deverá ser acionado no caso de desvio".
Uma simples objeção a essas ideias poderia apontar que são absurdamente difíceis, como destacado no "FT Alphaville". O Conselho da União Europeia diz que "serão adotados passos e sanções propostas ou recomendadas, a menos que uma maioria qualificada dos países-membros da região do erro se oponha". Ainda assim, continuo sem estar convencido de que os perus votarão a favor do Natal. Suponhamos, no entanto, que votassem. Isso significaria que, a partir de estimativas profundamente incertas de déficits estruturais, a comissão - um órgão de burocratas não eleitos - imporia sanções sobre governos eleitos, quando estes estivessem sob imensa pressão. O que a comissão fará se os países ainda assim deixarem de cumprir o tratado? Tomará seu controle? A resposta, agora sabemos, é: sim. Isso é uma monstruosidade constitucional.
Ainda mais importante, como o professor Kevin O'Rourke, da universidade de Oxford, argumenta no "Project Syndicate", é o fato disso ser uma monstruosidade econômica. Permita-me reafirmar esse argumento transformando a análise da semana passada sobre balanço de pagamentos em uma análise sobre os balanços financeiros externos, dos governos e do setor privado dos países da região do euro. Para relembrar os leitores: a soma desses balanços, por definição, é zero. A forma como ocorre essa soma, no entanto, é bem reveladora.
Como destaquei na semana passada, os desequilíbrios fiscais antes da crise eram modestos, mas os atuais desequilíbrios em conta corrente eram imensos. Os superávits de fundos privados em alguns países (mais notavelmente, Alemanha e Holanda) foram intermediados pelo sistema financeiro para financiar déficits de fundos privados em outros (notavelmente, Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha). Quando a crise chegou, os fluxos cessaram. Os déficits dos setores privados desmoronaram (a maioria tornando-se superávits), enquanto os déficits fiscais explodiram. Agora, diz a Alemanha, os déficits fiscais devem ser cortados.
Por definição, a soma dos déficits em conta corrente e privados também deve ser zero. Os setores privados de países outrora importadores de capital tornaram-se superavitários por um bom motivo: tentam reduzir suas dívidas, até porque o valor de seus ativos está em queda.
Os déficits externos, portanto, precisam cair. Isso pode ocorrer de uma forma boa ou má. A forma boa seria por meio de um aumento de produção das exportações e das substituições de importações; a má seria por meio de uma recessão mais profunda.
Em resumo: é extremamente difícil eliminar déficits fiscais em países estruturalmente importadores de capital, a não ser com recessões prolongadas ou melhoras profundas em sua competitividade externa; mas a competitividade é relativa; então, a melhora necessária no desempenho externo dos países mais enfraquecidos da região do euro implica deterioração no desempenho dos exportadores de capital da região do euro ou uma melhora radical no desempenho externo da região do euro como um todo. A primeira opção significa que a Alemanha seja bem menos Alemanha. A última, que região do euro se torne uma Mega-alemanha. Quem consegue acreditar que qualquer uma das duas opções seja plausível?
Isso nos deixa basicamente com o resultado mais plausível da orgia de austeridade fiscal: recessões estruturais de longo prazo em países vulneráveis. Para dizer de forma seca, a moeda única significará quedas nos salários, deflação das dívidas e depressões econômicas. Será que isso pode sustentar-se, por maiores que sejam os custos de uma separação da região do euro?
A região do euro não tem um plano confiável para consertar os defeitos da região do euro, além da maior austeridade fiscal: não há união fiscal, financeira ou política; e não há mecanismo equilibrado para ajuste econômico dos dois lados da divisão credor-devedor. A decisão foi, em vez disso, tentar ainda com mais força um pacto de crescimento e estabilidade, cujas falhas são tanto previsíveis como persistentes. Sim, Cameron cometeu um erro crasso na semana passada. Mas o da região do euro parece ter sido bem maior.
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Crise nos países ricos contagia as principais economias emergentes
Por Assis Moreira e Alex Ribeiro - Valor 13/12
De Genebra e Washington
A forte queda na produção industrial da Índia, divulgada ontem, após dados similares relativos a Brasil e China, confirma que as principais economias emergentes estão em desaceleração, contagiadas pela crise nos países ricos.
A produção industrial da Índia caiu 5,1% em outubro, comparado ao mesmo mês de 2010, na primeira contração observada em mais de dois anos. Ainda ontem, o México divulgou que sua produção industrial caiu 0,54% em outubro, em relação a setembro, apesar de ainda manter alta de 3,3% nos últimos 12 meses.
Na semana passada, o IBGE divulgou números que mostram que a economia brasileira ficou estagnada no terceiro trimestre, comparado com o período imediatamente anterior, numa forte desaceleração em relação ao crescimento de 7,5% observado em 2010. O indice de atividade industrial da China caiu para 49 em novembro, ante 50,4 em outubro, o que já indica contração do setor, no pior resultado desde o início de 2009. No sábado, a China relatou ainda uma forte queda de seu superávit comercial em novembro, de US$ 17 bilhões para US$ 14,5 bilhões.
"A situação [dos emergentes] tende a piorar, porque a crise é na Europa, EUA e Japão, e os três juntos perfazem 70% da produção mundial", afirmou o economista-chefe da Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), Heiner Flassbeck.
"Os emergentes estão longe de serem imunes à crise da zona do euro, especialmente nas manufaturas", disse Chris Williamson, economista-chefe da consultoria britânica Markit, especializada em monitorar a atividade industrial globalmente. As exportações de bens estão sob pressão por causa da demanda em baixa, principalmente dos países mais endividados da Europa, que agora aplicam novas medidas de austeridade.
Essa desaceleração já começa a repercutir nas projeções para os países emergentes. A empresa de avaliação de risco de crédito Fitch Ratings reduziu em 0,4 ponto percentual, para 6,3%, a sua projeção para o crescimento dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) em 2012. Para 2011, a projeção é expansão de 6,7%, abaixo dos 8,4% observados no ano passado.
Coletivamente, o crescimento econômico dos emergentes desacelerou para cerca de 6% em novembro, bem abaixo dos dois dígitos do começo do ano. Antes da recessão, esse crescimento fraco dos emergentes não ocorria desde metade de 2003. A desaceleração tem sido evidente no Brasil, na China e na Índia, mas também em economias como Coreia do Sul e Taiwan.
A perda de dinamismo nas economias emergentes se deve, de um lado, ao contágio da crise da Europa, que tornou investidores mais avessos a riscos. Também é resultado, de outro lado, de políticas monetária e macroprudenciais mais restritivas postas em prática por alguns países, como Brasil, Índia e China, para conter pressões inflacionárias e combater o surgimento de bolhas nos seus mercados.
"É a cada dia menor o número de economias emergentes que mostram alguma resistência", afirma o estrategista-chefe para mercados emergentes do banco Societe Generale, Benoit Anne.
Uma rara exceção positiva é a Turquia, que divulgou ontem uma expansão de 8,4% no terceiro trimestre (leia texto abaixo).
O temor sobre o impacto de menor crescimento no mundo desenvolvido sobre os emergentes se intensificou em agosto, e só aumentou desde então. Com a expansão nos ricos próxima de 1% no momento, e pouco espaço de melhora para o ano que vem, o crescimento dos emergentes "inevitavelmente será contido por algum tempo", disse Williamson.
A expectativa nos mercados é de que mais bancos centrais nos emergentes vão baixar os juros para promover o crescimento, como já vem fazendo o Brasil. É o que se espera na India, onde a manutenção do aperto monetário, devido à inflação em alta, claramente afetou a atividade industrial na terceira maior economia da Asia.
"A produção industrial na China também vem caindo, especialmente na indústria pesada, que precisa de muita energia", diz Qinwei Wang, da Capital Economics, de Londres. A produção chinesa cresceu 12,4%, abaixo do 13,2% anterior e o mais baixo nivel desde meados de 2009. Isso ocorreu por duas razões: queda nas exportações e na construção civil.
"A queda de novembro na inflação, produção industrial e nos investimentos fez o governo chinês falar de politica monetária prudente, mas que na prática já vem sendo flexibilizada", diz o analista.
Para Flassbeck, da Unctad, os emergentes vão ser mais afetados à medida que as três grandes economias - Europa, EUA e Japão - estão quase em recessão. Os resultados nos EUA foram menos ruins no terceiro trimestre porque os consumidores começaram a usar a poupança. No Japão, o consenso é de que os estímulos para recuperação do desastre do tsunami já estão se esgotando. E na Europa, a cúpula na semana passada acertou mais cortes de gastos, o que "piora a situação" para os emergentes.
O Instituto Internacional de Finanças (IIF) continua a projetar sólido crescimento na demanda doméstica nos emergentes em 2012-13. Muito desse vigor representa "um processo de longo prazo de convergência economica". Os emergentes estão num processo de crescimento da classe média.
Brasil rejeita proposta de não adoção de medidas protecionistas até 2013
Valor 13/12
O Brasil assume papel importante para rechaçar o "compromisso antiprotecionismo" da maneira que a Austrália tentará emplacar na conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) nesta semana, em Genebra. A Austrália quer validar a nível multilateral o que países do G-20 aprovaram no encontro de cúpula do mês passado - a não adoção de novas medidas protecionistas até o fim de 2013, para não piorar o estado já calamitoso da economia mundial.
O Brasil aceitou o compromisso no G-20, mas na OMC insiste que a questão é do que está contido no "standstill" (congelamento da situação atual). "A grande objeção do Brasil está na seletividade do que está contido na proposta e na unilateralidade das contribuições pelos países", disse o embaixador brasileiro na OMC, Roberto Azevedo. Segundo ele, os desenvolvidos querem congelar apenas as tarifas, mas não os subsídios que em boa parte distorcem as trocas internacionais. Além disso, o Brasil considera que uma coisa é procurar responder à crise econômica e outra é transformar isso em posição por tempo determinado, quando a situação é diferente de 2009, inclusive com as assimetrias cambiais que reemergiram desde então.
Em 2008, o real brasileiro se desvalorizou por algum tempo, em seguida países desenvolvidos adotaram estímulos monetários, voltaram a dar subsídios para suas indústrias, e a moeda brasileira voltou a se valorizar "alucinadamente", na expressão de alguns negociadores.
A movimentação australiana provocou reações contrárias de vários países em desenvolvimento, que não admitem a possibilidade de perder espaço de políticas públicas que estimam ter pelas regras da OMC. Para a delegação brasileira, desde que uma medida seja compatível com as regras do comércio internacional, sua adoção é absolutamente legitimada, e pode estar inclusive respondendo a outras ações protecionistas, como as provocadas por outros países na área cambial.
A avaliação do lado brasileiro é de que, se as tarifas de importação forem congeladas na realidade cambial de hoje, o corte tarifário seria maior do que os países desenvolvidos exigiam no começo da negociação da Rodada Doha.
A suspeita é de que os países desenvolvidos se deram conta de que o congelamento da situação atual é uma boa maneira de conseguir uma tarifa aplicada baixa, mais ambiciosa que na Rodada Doha e obtida de graça, sem necessidade de dar contrapartida em outros setores. No G-20, em novembro, o Brasil ficou isolado, com o raro apoio da Argentina, mas evitou o compromisso proposto por países desenvolvidos e pela China de ampliar o congelamento de tarifas para até 2015 e a retirada de medidas adotadas recentemente pelos países.
Nesta semana, quando mais de 60 ministros estarão em Genebra, o mais provável é que o "standstill" como quer a Australia não passe.
Ministros do grupo dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) se reunirão amanhã em Genebra e a divisão sobre o "compromisso antiprotecionismo" deverá ser escondida diplomaticamente num comunicado que enfatizará mais as convergências na área comercial. A China, que defende a maior abertura possível dos mercados dos outros, deverá apoiar a posição do resto dos Brics mais por solidariedade do que por interesse, pelo menos no momento. Índia e África do Sul estão firmes com o Brasil.
Já a Rússia entrará nesta semana na OMC, depois de ter negociado sua adesão como país desenvolvido, enquanto os outros Brics procuram justamente manter a briga pelo status de países em desenvolvimento para fazerem menos concessões nas negociações internacionais.
A economia brasileira em 2012
Por Yoshiaki Nakano - Valor 13/12
A economia brasileira deverá voltar a se recuperar em 2012, apesar da estagnação no terceiro trimestre deste ano. O panorama econômico sombrio e de incertezas com os desdobramentos da crise financeira nos países desenvolvidos não deverá ter maiores consequências sobre o desempenho da economia brasileira em 2012. Hoje temos uma política econômica com maior disciplina macroeconômica, que tem reagido rapidamente não só à inflação, mas também ao nível de atividade econômica.
A política monetária adquiriu maior independência em relação ao setor financeiro, tornou-se mais ágil, flexível e mais importante, prospectiva, reduzindo com isso a inércia da taxa de juros em patamares elevados desnecessários. Do lado fiscal, o governo fez também uma política fiscal mais controlada devendo, quando necessário, como está respondendo rapidamente à forte desaceleração, adquirindo um padrão anticíclico. Com essa melhoria na qualidade da política econômica e diversos outros fatores que deverão estar em operação positivamente a partir deste final de ano, podemos perfeitamente fechar 2012 com crescimento de 4% e inflação muito próximo da meta.
Mas antes de falarmos das perspectivas para 2012 cabe mencionar alguns dos fatores que atuaram para a desaceleração da economia brasileira neste ano dado o componente cíclico da recuperação em 2010 e desaceleração em 2011.
Antes de mais nada é preciso lembrar que no fim de 2008 tivemos um forte choque com a quebra do banco Lehman Brothers e acentuada contração no crédito doméstico que desencadeou uma forte redução na atividade econômica em 2009. Com os estímulos fiscais, injeção de crédito pelos bancos públicos e redução na taxa de juros em 2010, a economia brasileira recuperou-se muito rapidamente, com o PIB crescendo 7,5%.
Esses estímulos têm efeito similar ao de um choque e começaram a se esgotar no final de 2010, dando um caráter cíclico à forte recuperação, seguida de desaceleração. Além disso, a partir de outubro a inflação se acelerou, começando a corroer o poder aquisitivo dos salários. O Banco Central reagiu tomando medidas prudenciais de restrição ao crédito e elevando a taxa de juros a partir de dezembro. O governo Dilma, que tomou posse em janeiro, agiu de forma prudente, controlando os gastos públicos depois da forte expansão fiscal nos dois anos anteriores. Com isso, a economia brasileira teve uma forte desaceleração e deverá fechar 2011 com crescimento em torno de 3% e inflação acima da meta.
Vejamos agora o que deverá acontecer em 2012. A taxa de inflação, que vinha desde outubro de 2010 num patamar anualizada de mais de 9%, já sofreu uma queda de patamar devido ao recuo no preço das commodities a partir de maio e vem se comportando com uma média mensal que, anualizada, fica dentro da meta de 4,5%. Portanto, a inflação passada de 12 meses vem sofrendo queda e deverá continuar até meados do 2012. Se não houver surpresas desagradáveis, particularmente no início do ano, podemos fechar 2012 próximo da meta. Essa queda no patamar de inflação de mais de 9% para próximo a 4,5%, deverá prevalecer durante todo o ano de 2012, fazendo com que o poder aquisitivo dos salários seja melhor preservado, com impactos positivos sobre a demanda agregada e nível de atividade.
Nesse quadro de forte desaceleração, particularmente da produção industrial, o Banco Central e a Fazenda já tomaram medidas com redução nas restrições ao crédito, redução na taxa de juros e estímulos fiscais para bens duráveis de consumo para reverter o quadro de atividade econômica. Some-se a isso o efeito do aumento de 14% no salário mínimo que injetará cerca de R$ 60 bilhões na economia. Uma decisão que poderia ser desastrosa num quadro de crescimento converteu-se numa medida positiva, com significativo impacto na demanda agregada e emprego. Diante da forte desaceleração da economia neste final de ano, seu impacto inflacionário deverá ser minimizado. Outro aspecto que deverá trazer impacto positivo é que os estoques na industria que estavam acima do desejado, deverão tender para a normalidade nesta virada do ano, com isso, a produção que havia caído abaixo da demanda para reduzir os estoques, deverá aumentar.
Esse conjunto de fatores conjunturais e maior agilidade tanto do Banco Central como do executivo em reagir às circunstâncias e a choques nos deixam otimistas em relação a 2012. Falta ainda levar a taxa de juros ao mesmo nível da internacional, tornar a taxa de câmbio mais competitiva e conter a despesa corrente do governo em relação ao PIB para tornar positiva a poupança pública e desmontar o mecanismo forçado de captação da poupança privada pelo governo (pagamento da taxa Selic no overnight, LFT etc ) que são travas que levam a taxa de crescimento para o limite inferior de crescimento potencial da economia brasileira. Apenas removendo estas travas ao crescimento e reduzindo o custo Brasil, a taxa de investimento poderá chegar a 24% ou 25% do PIB e o PIB crescer em média mais de 6% ao ano.
Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP
Déficits e inflação na gênese da crise

Por Alexandre Bassoli - Valor 13/12
Os problemas fiscais são a face mais visível da crise que acomete um número crescente de países da zona do euro. O caso mais aberrante é o da Grécia, com níveis de déficit público superiores a 10% do Produto Interno Bruto (PIB), agravado pelo fato de a dívida pública já antes da crise ser elevada. Ainda que em diferentes intensidades, níveis altos de dívida e/ou déficits públicos são comuns a Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. Disso decorre a percepção de que ajustes fiscais, em geral ambiciosos, tornaram-se imperiosos para se evitar eventos que caracterizassem uma ruptura, como defaults soberanos ou mesmo a saída de países da zona do euro.
Embora concordemos com a ideia de ajustes severos mandatórios, não é óbvio que a indisciplina fiscal seja a origem única da crise. De fato, países como Irlanda e Espanha até 2007 exibiam níveis de dívida pública baixos e declinantes. Nesse caso, a piora da situação parece ser, antes, fruto do excesso de endividamento do setor privado no período que se estendeu da introdução do euro até o início da deterioração das condições financeiras globais em 2007.
Déficits expressivos em conta corrente foram observados em diversos países da região e foram especialmente relevantes nos países com as maiores reduções de taxa de juros como consequência da introdução do euro. Para alguns países, essas reduções foram expressivas, à medida que se apropriavam da credibilidade insuspeita do Bundesbank.
A súbita redução de juros significou, do ponto de vista das famílias, uma diminuição da taxa à qual se trocava consumo presente por consumo futuro. Como consequência, era natural que o endividamento desejado pelas famílias se elevasse. Para chegar a esse novo nível, as famílias reduziram durante algum tempo sua taxa de poupança. Ao mesmo tempo, para as firmas a redução da taxa de juros viabilizou novos projetos, estimulando a elevação do investimento.
Em suma, a redução de juros deveria levar, temporariamente, à elevação do investimento e à redução da poupança privada. A menos que esses movimentos fossem compensados pelo aumento da poupança pública, eles deveriam se traduzir, como em geral foi o caso, em uma piora da conta corrente. No caso dos bens transacionáveis internacionalmente, a ampliação da demanda poderia ser suprida apenas com a ampliação da importação líquida.
No caso de bens não transacionáveis, a ampliação de demanda se traduziu em elevação de preços. Não por acaso, os países periféricos da região experimentaram, após sua adesão ao euro, taxas de inflação consideravelmente mais elevadas que a Alemanha. Isso era equivalente, sob a moeda comum, a uma valorização da taxa real de câmbio desses países.
Uma vez tendo os níveis de endividamento se ajustado à redução de taxa de juros, a contrapartida da ampliação de passivos com o exterior nos anos anteriores deve ser a geração de superávits nas contas correntes primárias. Para que esses superávits sejam atingidos, a valorização do câmbio real deve ser revertida. Contudo, sob a moeda comum esse ajuste somente pode se dar pela manutenção de taxas de inflação inferiores às de seus parceiros comerciais. A experiência europeia recente apenas corrobora algo já há muito estabelecido na literatura: preços são rígidos, de forma que ajustes dessa natureza somente podem ser obtidos por meio de recessão.
A combinação de recessão e deflação é especialmente perversa para a arrecadação de impostos e também para a dinâmica da dívida pública. Não é de se estranhar, portanto que, mesmo nos países que inicialmente pareciam ter posição fiscal sólida, tenha havido forte deterioração desde 2008, quando houve reversão dos elevados déficits em conta corrente até então exibidos.
Olhando em retrospecto, uma parcela crescente dos analistas parece concordar que os custos associados à criação do euro excedam em muito seus benefícios. Isto não significa, necessariamente, que a melhor solução seja simplesmente dissolver a união monetária. Haveria formidáveis dificuldades envolvidas nessa opção. A mais óbvia talvez seja a forte possibilidade de corrida bancária nos países que cogitem sair do euro, dado o temor dos depositantes de ver seus depósitos em euros se converterem em dracmas, escudos ou liras.
Como se vê, as alternativas que se colocam têm em comum uma elevada dramaticidade. Certamente ainda é possível se evitar saídas desordenadas, mas os desafios são imensos e a restauração do crescimento, em qualquer cenário, ainda demorará.
Alexandre Bassoli é economista-chefe do Opportunity Asset Management.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Mercado esperava BC menos engessado
Valor 12/12
A ata da última reunião do Copom trouxe pouca novidade, mantendo praticamente inalterada a leitura feita pelo Banco Central do atual cenário de crise e ancorando ainda mais as expectativas do mercado financeiro na continuidade do ciclo de corte de juros de forma moderada. Mas isso não quer dizer que o documento não decepcionou aos agentes financeiros.
Havia uma grande expectativa de que o BC aumentasse a flexibilidade para os próximos passos de sua atuação, deixando em aberto uma possibilidade, ainda que pequena, de amplificar o ritmo de cortes de juros, hoje fixado em meio ponto percentual - enquanto continuar sendo repetida a expressão "ajustes moderados" "ad nauseam".
Essa visão foi ouvida pelo Valor de experientes agentes de mercado antes de o texto ser conhecido. E a decepção foi confirmada após a divulgação da ata por operadores de grandes instituições financeiras.
Passado o susto inicial em agosto, quando o BC surpreendeu quase todos no mercado, alguns pelo corte em si, outros apenas pela magnitude - pois apostaram em redução de 0,25 ponto percentual -, os operadores foram se tornando menos céticos com o quadro traçado pela autoridade à medida que a crise internacional de fato se intensificou na Europa.
Em nenhum momento, no entanto, os bancos, corretoras e fundos de investimentos deixaram de testar a convicção do BC no plano traçado para o afrouxamento monetário - ou no empenho do governo em abrir espaço fiscal para uma queda mais acentuada da taxa básica.
Mas toda vez que os contratos de juros futuros passaram a sinalizar um corte de 0,75 ponto, o presidente do BC, Alexandre Tombini, veio a público reforçar que estava confortável com uma redução moderada da taxa básica.
Essa queda de braço, que na verdade era mais um movimento especulativo do que uma crença firme de que o BC mudaria o ritmo neste momento, segundo um operador, teve fim na última reunião do Copom, que levou a Selic para 11% ao ano. O comunicado que explicou a decisão foi exatamente igual ao anterior assim como a ata, divulgada na semana passada, apresentou apenas leves mudanças com relação à ata da reunião de outubro.
No encontro passado o BC já havia ficado amarrado com o ritmo de corte e era esperado que nesse Copom deixasse uma maior flexibilidade para a próximo reunião, disse uma fonte. Sem novidades, o mercado entendeu o recado e fez apenas ajustes técnicos nos contratos de juros futuros, mantendo a aposta em mais três cortes de meio ponto, sem prêmios de risco. "Frustrou o mercado", completou esse operador.
O último documento da série de comunicações oficiais entre o BC e o mercado é o Relatório de Inflação (RI), que será divulgado ainda este mês. "O BC deve indicar que tem um ciclo estendido, até acima do que o mercado está precificando. Se não foi na ata, será certamente no RI", disse um outro experiente operador de mercado.
A curva de juros - formada pelos contratos futuros negociados na BM&F para os diversos vencimentos - aponta que a Selic chegará a 9,5% ao ano em meados de 2012. Na verdade, muitos operadores acreditam que o BC testará taxas mais baixas - abaixo do piso de 8,75% ao ano atingido em 2009 -, mas poucos arriscam nesse momento apostas mais ousadas, seja porque as incertezas ainda são enormes e houve uma recente melhora do cenário externo, seja porque a liquidez já está menor, dado o fim de ano.
O principal fator, no entanto, que limitou posicionamentos mais ousados - que derrubariam a taxa de um ano, importante indicador da eficácia do afrouxamento monetário - foram as medidas de estímulo fiscal anunciadas pelo governo no dia seguinte ao Copom. As ações foram marginais e assustaram mais pelo risco de ter sido apenas o início de um processo de maior ativismo do ministério da Fazenda.
Há duas leituras no mercado sobre essa atuação mais incisiva do governo em conjunto com uma ata inócua. A primeira é de que a manutenção do discurso do BC seria apenas uma sinalização, sem grandes efeitos, de que a autoridade está de fato confortável com o ritmo atual de cortes.
A outra interpretação feita por operadores é de que a coordenação entre o BC e a Fazenda pode ter piorado e o anúncio do pacote poderia ter ocorrido sem a anuência da autoridade monetária. Até por isso, o BC não abriu espaço na ata para uma flexibilização maior dos juros no encontro de janeiro, por sentir que pode ter diminuído o espaço para o ciclo de redução da Selic.
O risco embutido nessa visão é de que a comunicação entre BC e Fazenda, algo que hoje é visto com bom olhos por parte do mercado, poderia estar comprometida. "Esse foi um ganho muito grande desse governo e que aumentou a eficiência da política monetária", disse um operador de banco.
O DNA da Europa unida
Por Antonio C. Manfredini - Valor 12/12
A Europa unida foi recorrentemente envolvida numa roupagem econômica, mas sua natureza sempre foi política. Quando, em 1951-1952, Jean Monnet, Robert Schumann e Konrad Adenauer, entre outros, criaram a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca) - embrião do Tratado de Roma que, em 1957-1958, criou o Mercado Comum Europeu - o projeto europeu nasceu político. Em que pese a lógica econômica por trás do livre comércio dos insumos críticos da industrialização do pré-guerra e do alargamento dos mercados domésticos, a ideia sempre foi aproximar os países para evitar que o Reno voltasse a ser fronteira conflituosa.
Os horrores das guerras mundiais levaram as elites e a liderança da Europa a aceitar, de bom grado, um projeto ambicioso de uma comunidade de estados "pós-nacionais", em que a coordenação passou a ser mais importante que a soberania. O projeto político da Europa Unida produziu ganhos econômicos e níveis de bem-estar nunca antes atingidos.
A Europa unida sempre foi um projeto das elites. Apesar da importância dos regimes democráticos dos membros fundadores, o povo nunca foi chamado a participar das decisões críticas e, nas raras vezes em que o foi, disse não. A lógica econômica do euro foi atropelada em nome de ambiciosos objetivos políticos: mais Europa menos estados nacionais, mais coordenação menos independência, nenhuma liberdade para a formulação da política monetária, mas remanesceu a soberania nacional sobre a política fiscal, enquadrada pelo pacto de estabilidade - uma moldura frágil desrespeitada até por Alemanha e França.
A Europa foi conduzida por iniciativas predominantemente francesas e aquiescência e recursos significativamente alemães, que se tornaram fonte generosa e silente de fundos para a urdidura do tecido europeu. Os alemães aceitaram esse encargo para construir uma ordem geopolítica em que o fantasma do "problema alemão" fosse para sempre afastado. Essa versão do problema alemão tem agora uma face macroeconômica: sob uma moeda única e nenhum grau de liberdade na política cambial, o mix de política fiscal e monetária que serve a Berlim/Frankfurt não é facilmente aplicável a outros países da UE e vice-versa.
Essa enorme crise europeia de hoje - a chamada crise do euro - é a colisão da agenda política com a agenda econômica, das elites com o povo, das proposições com sua fonte de financiamento.
Os problemas econômicos são amplamente conhecidos: 1) a zona do euro não é uma área monetária ótima; 2) muitas federações fiscais são caracterizadas por transferências significativas entre os entes federados, como condição para operar sob uma moeda única; 3) um ajuste feito exclusivamente pelos devedores em condições dramáticas gera condições economicamente draconianas que desembocam em instabilidade política (a Alemanha é o melhor exemplo: as condições muito severas impostas a ela pelo Tratado de Versailles, predominantemente por inspiração francesa, produziram não só a hiperinflação de 1923, como alimentaram um populismo político que patrocinou a segunda fase da guerra descrita por A. J. P. Taylor); 4) sem um banco central capaz de monetizá-las, as dívidas públicas não são livres de risco de default, já que são um contrato extremamente delicado entre gerações, especialmente se as condições demográficas forem desfavoráveis, como serão na Europa; 5) um banco central crível precisa estar acoplado - ainda que independente - a uma autoridade crível capaz de taxar, caso contrário há uma alta probabilidade de haver risco moral e, no limite, hiperinflação; 6) no curto prazo o único deus "ex-machina" é o BCE, mas isto pode induzir um comportamento oportunista em diferentes países; 7) garantias menos frágeis de estabilidade, provavelmente requererão um novo tratado europeu e uma nova perda de liberdade dos Estados membros: a política fiscal será comunitária.
Dado o DNA da Europa Unida, uma eventual solução estável e duradoura estará com os políticos, dificilmente será aprovada diretamente pelos eleitores e implicará em menos liberdade e mais necessidade de coordenação fiscal entre os estados-membros
As perguntas que tornam a atmosfera pesada são: 1) a vontade e determinação política desses líderes europeus, após 60 anos do Tratado de Paris que criou a Ceca em meio às feridas do pós-guerra, ainda é a mesma? 2) as elites conseguirão vender esse projeto aos europeus de hoje, mais ricos e mais velhos e menos politicamente ameaçados pela polaridade ideológica do pós guerra? 3) os possíveis financiadores estarão dispostos a prover recursos em condições razoáveis como o fizeram pós 1945, ou serão draconianos como em Versailles em 1919? 4) E os devedores, utilizarão os recursos de forma responsável como fizeram os europeus ocidentais no pós-guerra ou teremos uma nova rodada de risco moral em escala ampliada?
Quando escrevi este artigo, a Europa Unida parecia perigosamente próxima de uma mutação adversa. Os acontecimentos posteriores, de quinta e sexta-feiras, se conformarão ao DNA da Europa Unida e podem ter alterado este processo (em que pese a decisão britânica) embora muito ainda precise ser feito para assegurar a sobrevivência do euro.
É difícil imaginar quem se beneficiaria de uma grande ruptura na Europa mas, como disse Konrad Adenauer, a história é a soma de todos os erros que poderiam ter sido evitados.
Antonio Carlos Manfredini é professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo/FGV
A Europa unida foi recorrentemente envolvida numa roupagem econômica, mas sua natureza sempre foi política. Quando, em 1951-1952, Jean Monnet, Robert Schumann e Konrad Adenauer, entre outros, criaram a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca) - embrião do Tratado de Roma que, em 1957-1958, criou o Mercado Comum Europeu - o projeto europeu nasceu político. Em que pese a lógica econômica por trás do livre comércio dos insumos críticos da industrialização do pré-guerra e do alargamento dos mercados domésticos, a ideia sempre foi aproximar os países para evitar que o Reno voltasse a ser fronteira conflituosa.
Os horrores das guerras mundiais levaram as elites e a liderança da Europa a aceitar, de bom grado, um projeto ambicioso de uma comunidade de estados "pós-nacionais", em que a coordenação passou a ser mais importante que a soberania. O projeto político da Europa Unida produziu ganhos econômicos e níveis de bem-estar nunca antes atingidos.
A Europa unida sempre foi um projeto das elites. Apesar da importância dos regimes democráticos dos membros fundadores, o povo nunca foi chamado a participar das decisões críticas e, nas raras vezes em que o foi, disse não. A lógica econômica do euro foi atropelada em nome de ambiciosos objetivos políticos: mais Europa menos estados nacionais, mais coordenação menos independência, nenhuma liberdade para a formulação da política monetária, mas remanesceu a soberania nacional sobre a política fiscal, enquadrada pelo pacto de estabilidade - uma moldura frágil desrespeitada até por Alemanha e França.
A Europa foi conduzida por iniciativas predominantemente francesas e aquiescência e recursos significativamente alemães, que se tornaram fonte generosa e silente de fundos para a urdidura do tecido europeu. Os alemães aceitaram esse encargo para construir uma ordem geopolítica em que o fantasma do "problema alemão" fosse para sempre afastado. Essa versão do problema alemão tem agora uma face macroeconômica: sob uma moeda única e nenhum grau de liberdade na política cambial, o mix de política fiscal e monetária que serve a Berlim/Frankfurt não é facilmente aplicável a outros países da UE e vice-versa.
Essa enorme crise europeia de hoje - a chamada crise do euro - é a colisão da agenda política com a agenda econômica, das elites com o povo, das proposições com sua fonte de financiamento.
Os problemas econômicos são amplamente conhecidos: 1) a zona do euro não é uma área monetária ótima; 2) muitas federações fiscais são caracterizadas por transferências significativas entre os entes federados, como condição para operar sob uma moeda única; 3) um ajuste feito exclusivamente pelos devedores em condições dramáticas gera condições economicamente draconianas que desembocam em instabilidade política (a Alemanha é o melhor exemplo: as condições muito severas impostas a ela pelo Tratado de Versailles, predominantemente por inspiração francesa, produziram não só a hiperinflação de 1923, como alimentaram um populismo político que patrocinou a segunda fase da guerra descrita por A. J. P. Taylor); 4) sem um banco central capaz de monetizá-las, as dívidas públicas não são livres de risco de default, já que são um contrato extremamente delicado entre gerações, especialmente se as condições demográficas forem desfavoráveis, como serão na Europa; 5) um banco central crível precisa estar acoplado - ainda que independente - a uma autoridade crível capaz de taxar, caso contrário há uma alta probabilidade de haver risco moral e, no limite, hiperinflação; 6) no curto prazo o único deus "ex-machina" é o BCE, mas isto pode induzir um comportamento oportunista em diferentes países; 7) garantias menos frágeis de estabilidade, provavelmente requererão um novo tratado europeu e uma nova perda de liberdade dos Estados membros: a política fiscal será comunitária.
Dado o DNA da Europa Unida, uma eventual solução estável e duradoura estará com os políticos, dificilmente será aprovada diretamente pelos eleitores e implicará em menos liberdade e mais necessidade de coordenação fiscal entre os estados-membros
As perguntas que tornam a atmosfera pesada são: 1) a vontade e determinação política desses líderes europeus, após 60 anos do Tratado de Paris que criou a Ceca em meio às feridas do pós-guerra, ainda é a mesma? 2) as elites conseguirão vender esse projeto aos europeus de hoje, mais ricos e mais velhos e menos politicamente ameaçados pela polaridade ideológica do pós guerra? 3) os possíveis financiadores estarão dispostos a prover recursos em condições razoáveis como o fizeram pós 1945, ou serão draconianos como em Versailles em 1919? 4) E os devedores, utilizarão os recursos de forma responsável como fizeram os europeus ocidentais no pós-guerra ou teremos uma nova rodada de risco moral em escala ampliada?
Quando escrevi este artigo, a Europa Unida parecia perigosamente próxima de uma mutação adversa. Os acontecimentos posteriores, de quinta e sexta-feiras, se conformarão ao DNA da Europa Unida e podem ter alterado este processo (em que pese a decisão britânica) embora muito ainda precise ser feito para assegurar a sobrevivência do euro.
É difícil imaginar quem se beneficiaria de uma grande ruptura na Europa mas, como disse Konrad Adenauer, a história é a soma de todos os erros que poderiam ter sido evitados.
Antonio Carlos Manfredini é professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo/FGV
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Consumo puxa reação tímida da atividade

Por Sergio Lamucci e Francine De Lorenzo De São Paulo - Valor 09/12
Depois da estagnação no terceiro trimestre, a economia dá sinais tímidos de reação no quarto, concentrados basicamente no consumo. A indústria continua a mostrar fraqueza, ainda sem ter concluído o processo de ajuste de estoques. Estimativas preliminares apontam alguma aceleração da atividade nos últimos três meses do ano, com projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) um pouco inferior a 0,5% sobre os três meses anteriores, feito o ajuste sazonal.
O economista Aurélio Bicalho, do Itaú Unibanco, destaca que há "sinais mistos" nos indicadores conhecidos até agora sobre a atividade econômica no quarto trimestre, com um cenário mais promissor para o varejo. Em novembro, o licenciamento de veículos aumentou 10,5% em relação a outubro, na série livre de influências sazonais calculada pelo Itaú Unibanco. Nas contas da LCA Consultores, a alta foi de 13,9%, considerando automóveis e comerciais leves.
"Isso deve ter levado a um melhor desempenho das vendas do varejo ampliado [que inclui veículos, autopeças e material de construção] em novembro", diz Bicalho. No índice de atividade do comércio da Serasa Experian, as vendas de veículos, motos e peças avançaram no mês passado 4,5% sobre outubro, contribuindo para a alta de 1,5% do indicador geral.
A economista Silvia Matos, da Fundação Getulio Vargas (FGV), aposta numa recuperação do consumo com base nos números da Serasa. Segundo ela, o levantamento, reponderado pelos pesos da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), aponta crescimento de 1,8% em novembro nas vendas do varejo. "Ainda há riscos, mas estou otimista devido aos dados da Serasa."
O assessor econômico da Serasa Experian, Carlos Henrique de Almeida, acredita que a reação do comércio em novembro se deveu em parte à expectativa de recebimento da primeira parcela do 13º salário. Para ele, tudo indica que o pior para a atividade ficou para trás, no terceiro trimestre. Em dezembro, as vendas de eletrodomésticos da linha branca podem ter alta mais forte, em função da desoneração tributária anunciada pelo governo na semana passada, mas nada muito expressivo, avalia Almeida. Segundo ele, o efeito da queda da Selic e do relaxamento das medidas de restrição ao crédito produzirão efeitos em 2012.
Outro sinal razoavelmente positivo veio do Índice Gerente de Compras (PMI, na sigla em inglês) de Serviços do HSBC. Em novembro, ficou em 52,6 pontos, na série com ajuste sazonal, um pouco abaixo dos 53,6 pontos de outubro, mas ainda acima de 50, o que caracteriza expansão da atividade.
"Embora esteja pouco acima da linha que separa expansão da contração, continua um resultado positivo", diz o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges. Como Bicalho e Silvia, ele espera um crescimento do PIB no quarto trimestre de 0,4% em relação ao terceiro. "Embora fraco, mostra que a economia não está afundando. Esperamos que a economia acelere ao longo de 2012."
Se as perspectivas para o consumo são razoáveis, o quadro para a indústria no quarto trimestre é bem menos positivo. Bicalho lembra que a produção industrial de outubro caiu 0,6% em relação a setembro, na série livre de influências sazonais. Em novembro, o índice do HSBC para a indústria ficou em 48,7 pontos, pelo sexto mês seguido abaixo de 50, o que aponta retração da atividade. A produção de veículos caiu 0,2% sobre outubro, segundo ajuste sazonal de Bicalho, ainda uma queda, embora bem menor que o tombo de 8,6% do mês anterior.
O fluxo de veículos pesados nas rodovias, por sua vez, cresceu 0,7% em novembro em relação a outubro, interrompendo uma sequência de três meses de queda na série dessazonalizada. Elaborado pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) e pela Tendências Consultoria, o dado integra o Índice ABCR, que será divulgado hoje. Segundo Juan Jensen, da Tendências, é um indicativo de que o pior momento da economia está ficando para trás.
"A princípio, podemos ter uma produção industrial marginalmente positiva para novembro. Não vai resolver o problema da indústria e não necessariamente os indicadores entrarão em trajetória de crescimento, mas é um sinal que aquela queda pode estar chegando ao fim", diz Jensen. Bicalho também estima, de modo preliminar, uma alta da produção industrial em novembro. O consumo de energia elétrica, lembra ele, teve um pequeno aumento no mês.
Um ponto decisivo para o destino da indústria nos próximos meses são os estoques, avaliam Bicalho e Borges. Números da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da FGV indicam que eles seguem acima do desejado. Enquanto não forem ajustados, a produção tende a continuar patinando. O economista do Itaú Unibanco também teme que as exportações, que ajudaram o PIB no terceiro trimestre, possam sofrer no quarto, dado o agravamento da crise externa.
Produção recua no fim de ano, apesar de medidas de estímulo
Por Júlia Pitthan, Mônica Scaramuzzo e Eduardo Laguna De Florianópolis e São Paulo
As medidas de estímulo à economia anunciadas pelo governo não foram suficientes para impedir a desaceleração da atividade em vários setores neste fim de ano. Indústrias químicas, montadoras de veículos, fabricantes de embalagens e segmento gráfico, por exemplo, decidiram reduzir a produção e já começam a refazer as projeções para 2012.
Os fabricantes de artigos da linha branca (geladeiras, fogões, máquinas de lavar) são uma exceção importante nesse cenário. Eles esperam aumento na demanda a partir do primeiro trimestre de 2012, em virtude da decisão do governo de reduzir alíquotas do IPI. "Como as redes varejistas estão estocadas para o Natal, a expectativa é que o impacto das medidas nas vendas seja verificado a partir de janeiro", informa a Whirlpool, dona das marcas Cônsul e Brastemp.
Com base nessa avaliação, a empresa já anunciou a contratação de 700 pessoas para a fábrica de Joinville, em Santa Catarina, e estuda ampliar as vagas na unidade de Rio Claro, no interior de São Paulo. No primeiro trimestre de 2012, a Whirlpool prevê crescimento entre 10% e 15% em volume, comparado ao mesmo período deste ano.
O otimismo do setor, entretanto, não é acompanhado pelos demais segmentos. A indústria química deve fechar o quarto trimestre em ritmo de desaceleração. "Estamos perdendo a competitividade por diversos fatores. O primeiro deles é o câmbio. O setor também está sendo atingido pelos importados. Além disso, os subsídios de outros países estão afetando as nossas empresas", afirmou Fernando Figueiredo, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
Segundo a entidade, o mês de outubro foi de desaceleração. A produção caiu 0,16% no mês, em relação a setembro, e as vendas internas tiveram recuo de 7,91% sobre o mesmo período. "A queda de outubro nos surpreendeu", afirmou Figueiredo. A expectativa do setor era crescer 10% em 2011, mas a expansão deverá ser de 7%.
As montadoras de veículos, preocupadas com o avanço dos estoques, chegaram ao fim do ano com o pé no freio. De outubro a novembro, a produção recuou 9,3% na comparação com igual período de 2010, totalizando 540,1 mil unidades. As vendas no mercado interno caíram 11,4%, na mesma base de comparação.
O setor começou a diminuir mais intensamente a atividade em setembro, após produzir mais de 300 mil veículos em julho e agosto. Boa parte das montadoras decidiu dar férias ou folgas, além de suspender horas extras, para normalizar o estoque.
Neste mês, as tradicionais férias e folgas de fim de ano indicam que a produção não terá grande reação e as projeções de vendas e atividade mostram que o setor seguirá reduzindo o nível de carros parados nos pátios.
O setor têxtil teve um ano de retração e perdas, em função da alta do preço do algodão, que pressionou os resultados na primeira metade do ano, mas já vê uma luz no fim do túnel. A fabricante de itens de cama, mesa e banho Teka, de Blumenau, pensa em suspender as férias coletivas programadas para o período entre o Natal e o Réveillon, por causa da retomada dos pedidos no último mês.
"O quarto trimestre será melhor do que o terceiro, mas aquém de 2010", disse Marcello Stewers, vice-presidente da empresa. De acordo com ele, o volume faturado deverá empatar com o do ano passado, embora nos últimos meses o volume de pedidos tenha crescido em comparação com o ano passado. "O ano de 2011 foi um dos piores para o setor nos últimos tempos, mas o quarto trimestre está apresentando alguma recuperação."
Para a indústria gráfica, o sinal ainda é vermelho e o ritmo de encomendas continua em desaceleração, mantendo a tendência do terceiro trimestre. De acordo com Fabio Arruda Mortara, presidente da Abigraf, que representa as empresas do setor, ainda não há dados fechados relativos a outubro, "mas o sentimento entre os empresários é de que se mantém a queda no nível de produção".
A entidade alterou a estimativa de crescimento de vendas para este ano. Prevê expansão de cerca de 1% - antes projetava alta de até 2%. "Ainda é um resultado positivo, uma vez que a base de comparação é muito forte", avalia Mortara.
Depois de um ano de fortes vendas, o setor de embalagens deve encerrar 2011 em desaceleração. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), Maurício Groke, o ano foi atípico, refletindo a contaminação pela crise internacional e a alta competição dos produtos importados. "Todos os segmentos em embalagens deram uma freada. Alguns investimentos no setor não tiveram o retorno esperado."
A indústria de materiais de construção também rebaixou a expectativa de crescimento real de faturamento para este ano. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), Walter Cover, a alta será da ordem de 3% a 3,5%, abaixo dos 4% projetados anteriormente. "Não acho que nada que ocorra em dezembro possa mexer nesses números", disse Cover.
A Europa e a ajuda chinesa

Por Yao Yang - Valor 09/12
A China vai ajudar a salvar o euro ou não? Em agosto, o premiê Wen Jiabao disse que a China estava disposta a ajudar a Europa em sua hora de necessidade. Mas, em dezembro, no Fórum Lanting, em Pequim, a vice-ministro de Negócios Estrangeiros, Fu Ying, declarou que a China não poderia fazê-lo. "O argumento de que a China deve socorrer a Europa não se sustenta, pois as reservas não são gerenciadas dessa forma", anunciou ela.
Durante meses, líderes europeus e autoridades do Fundo Monetário Internacional (FMI) vinham torcendo para que a China ajudasse no socorro ao euro. Mas Wen propôs certas condições, entre elas a do reconhecimento da China como economia de mercado pela União Europeia. Os líderes europeus, no entanto, não concordaram com essa ou quaisquer outra das condições de Wen. Daí a insistência de Fu Ying de que a China não pode fazer nada para ajudar.
O status de economia de mercado é em grande parte simbólico, mas importante para a China. Comissários e advogados europeus estão atualmente empenhados em um acalorado debate sobre se a Organização Mundial do Comércio (OMC) deveria conceder automaticamente esse status à China em 2016. Independentemente do desfecho, os benefícios são marginais; a principal vantagem do status de economia de mercado para a China é que essa condição impediria acusações antidumping sob as regras da OMC.
Apesar disso, é um símbolo relevante para a China. Muitos chineses acreditam que negar à China o status de economia de mercado é ignorar os últimos 30 anos de reformas, muitas vezes dolorosas. Acima de tudo, a China deseja um sinal de aceitação por parte das economias ocidentais avançadas, que continuam a considerar o país não apenas como repressor, mas como representante de um modelo econômico alternativo: capitalismo estatal, em vez da versão de livre mercado.
Essas duas caracterizações ocidentais talvez sejam demasiadamente extremadas. O sistema chinês é autoritário em muitos aspectos, mas o quadro não é branco no preto. Após 30 anos de transformações, a economia e a sociedade chinesas, e até certo ponto seu sistema político, mudaram profundamente.
Não existem dúvidas de que o governo chinês mantém um rígido controle sobre a economia. Ao mesmo tempo, o setor privado decolou e agora responde por dois terços do PIB e do emprego urbano na China.
Apesar desse progresso, o Ocidente parece estar perdendo a paciência com a China. Antes de 2004 (quando o crescente superávit em conta corrente tornou-se um problema internacional), o Ocidente acreditava que a China estava se movendo na direção certa - tornando-se "mais parecida conosco". Agora tudo indica que essa crença está vacilando, especialmente porque a China tornou-se mais assertiva desde que a crise financeira mundial começou, em 2008.
Mas a assertividade da China não é totalmente infundada. Dado seu extraordinário histórico econômico, a China tem motivos para se sentir orgulhosa; e após ter sido durante um bom tempo uma estudante do Ocidente, a China tem igual razão em perguntar por que o professor errou tanto.
No fim das contas, admitir a China plenamente na comunidade internacional contribuiria para transformá-la numa sociedade mais aberta. Mas o Ocidente precisa ter bastante claro em sua mente que a China não está interessada apenas em vantagens materiais, como acesso aos mercados ocidentais ou maior presença em organizações internacionais. Os chineses também querem respeito.
A Europa não pode se dar ao luxo de ver o euro sofrer um colapso. Mas as propostas atuais, tais como fundos nacionais de socorro ou uma versão em escala europeia de responsabilidade solidária, aumentaria drasticamente o ônus sobre os contribuintes da UE. Por outro lado, a pressão para que o Banco Central Europeu compre títulos do governo da zona do euro está colocando a credibilidade do BCE em risco. Ajuda externa é a melhor solução para aumentar a confiança do mercado e salvar os países endividados de depressão e calote.
Um colapso do euro, além disso, seria ruinoso para a China, deixando o dólar americano como única moeda de reserva internacional. Também significaria que o mercado europeu, atualmente a maior fonte de demanda de exportações da China, ficaria muito mais debilitado.
Mas a China não fornecerá ajuda financeira substancial sem garantias firmes de investimento da UE. Igualmente importante, a China sustará a ajuda, a menos e até que a UE cumpra determinadas condições, entre elas a atribuição de status de economia de mercado. A China disse o que quer. Cabe à Europa fechar o negócio. (Tradução de Sergio Blum)
Yao Yang é diretor do Centro Chinês de Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim. Copyright: Project Syndicate, 2011.
A hora requer sangue frio, diz Armínio

Por Claudia Safatle - Valor 09/12
Se tiver sangue frio, a presidente Dilma Rousseff poderá ver, no seu governo, os juros mais baixos que o Brasil já teve. A visão do Banco Central, de que o agravamento da situação externa demandava o corte da Selic em agosto, se mostrou correta. A economia desacelerou, respondendo às medidas tomadas em virtude da forte expansão de 2010. As metas fiscais estão sendo cumpridas, a inflação vai ceder pelo menos até a casa dos 5% e a crise na Europa é assunto que está longe de ser resolvido.
Essa é a avaliação que o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, da Gávea Investimentos, faz dos resultados da política econômica e é, de certa forma, também, uma síntese do que ocorreu no primeiro ano do governo Dilma. Para ele, a desaceleração - que levou o PIB a zero no terceiro trimestre - foi produto de uma combinação de fatores, nessa ordem: as medidas de aperto monetário tomadas desde o fim de 2010; o desaquecimento da economia global, com efeitos diretos no comércio e nos preços das commodities e indiretos, na redução da confiança de consumidores e investidores; e a expansão mais moderada do crédito para o consumo.
Ele espera, agora, uma queda da inflação dos 6,5% em que deve encerrar o ano para 5% a 5,5% em 2012. A expectativa do BC é de que o IPCA baixe para 5,2% entre abril e maio. A pergunta chave é se daí em diante ela continuará em queda, convergindo para o centro da meta de 4,5% no fim de 2012, como prevê o BC. Quanto a isso, disse, "ainda persiste uma razoável incerteza". Provavelmente o BC será testado pelo mercado outra vez, mais adiante. " Mas isso é assim mesmo. O BC vive sendo testado. Os governos são testados todos os dias."
Armínio torce para que, agora, o governo "tenha paciência e evite reações precoces", referindo-se à iniciativas de concessão de estímulos para a retomada do crescimento. "Se tiver sangue frio, a presidente Dilma vai ver no seu governo os juros mais baixos que este país já teve desde sempre, talvez desde a década de 30", previu.
A descrença dos mercados em relação à firmeza da política fiscal da presidente persistiu até a apresentação dos resultados. Com quase 93% do superávit primário obtido até outubro, não há mais dúvida sobre o cumprimento da meta "cheia" (sem heterodoxias contábeis) de 3,1% do PIB este ano.
"Isso foi muito bom. Fui o primeiro a elogiar (a decisão do governo) e mantenho o elogio. Sei que esse é um trabalho dificílimo, só quem está lá dentro sabe o quanto, e é excepcional o que estão fazendo", disse.
Em conversa com o Valor na quarta-feira o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reafirmou o compromisso de cumprir essa mesma meta de 3,1% do PIB nos próximos três anos. "Dou muito crédito a esse esforço que é essencial", comentou o ex-presidente do BC. Mantega também disse que desta vez o governo será moderado nos estímulos ao crescimento. Não pretende repetir o que fez em 2008/2009, quando liberou isenções de impostos no valor de R$ 25 bilhões. No mix da política econômica o espaço, como o governo vem afirmando, é para queda dos juros.
Sobre o desempenho do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, com quem trabalhou no BC e de quem é amigo, Armínio comentou: "Mantenho o que disse: ele foi ousado (ao cortar os juros em agosto). Mas não foi uma ousadia desmesurada e a avaliação dele está se mostrando correta."
Tombini foi muito questionado pelo mercado nos primeiros meses do ano, quando lançou mão de medidas macroprudenciais em detrimento dos juros, para frear a aceleração da inflação que vinha de 2010. E viu sua credibilidade arranhada em agosto, ao reduzir a taxa Selic aparentemente, na visão dos analistas privados, de forma precipitada.
"Ele correu algum risco, como aliás o BC não consegue deixar de correr em uma direção ou em outra. Melhor seria que não tivesse um mundo em crise, mas ele estava vendo isso e tinha que agir", constatou Armínio
Ontem o Banco Central Europeu (BCE) cortou a taxa básica de juros da região em 0,25 ponto percentual, para 1% ao ano. "Foi uma redução dura", ou conservadora, considerou. Após assistir à entrevista de Mário Draghi, presidente do BCE, Armínio avaliou que "ele foi extremamente germânico (nas respostas), jogando um balde de água fria na ideia de mais monetização, mais compra direta de dívida e inclusive mais compra indireta, através do FMI".
Draghi reforçou a noção de que a saída para a crise deve vir de dois pilares principais: solidez das políticas nacionais e redesenho do pacto europeu, "tirando o BCE da linha de frente da defesa". E sugeriu que o caminho para os países em crise é cada um buscar sua própria solução, centrada no esforço fiscal e no ganho de competitividade, sob o guarda chuva de um Maastrich reforçado.
São tantas as incertezas sobre o que vai acontecer na economia mundial nos próximos três ou quatro anos que "não devíamos nem ficar pensando nisso". Segundo Armínio, "o Brasil é um país grande, semifechado e temos que cuidar dos nossos assuntos. Temos que investir mais, investir melhor, educar melhor o povo". E, claro, proteger o melhor possível o país dos efeitos dessa dramática situação internacional.
Assinar:
Postagens (Atom)













