sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Seminário Internacional “Remesas y Remesas”


Teve lugar em 28 e 29 de novembro último na cidade de Salvador o Seminário Internacional “Remesas y Remesas” organizado pelo Centro de Estudios Monetarios Latinoamericanos (CEMLA), Banco Central do Brasil e FONIM (BID).

O objetivo, como divulgado no site da CEMLA foi “Promover el intercambio de experiencias y conocimientos relacionados con la migración y los flujos de remesas, y analizar la metodología y técnicas de medición de estos flujos y los marcos regulatorios del mercado de transferencias internacionales de fondos, incluyendo los desarrollos más recientes y el control de las operaciones de las instituciones que participan en este mercado.”

Vários países do continente americano e Caribe marcaram presença no evento, com destaque para o México, Costa Rica, Equador e Bolívia. Também contou com a participação especial de representante do Banco Central da Rússia.

Dentre os momentos mais interessantes, destacam-se a divulgação dos números de fluxo de imigrantes entre as fronteiras do México e EUA, o número de mexicanos existente no estado da California que supera a população do DF do México e a quantidade de indocumentados e as consequências sobre a remuneração. Os valores de remessa, também impressionantes, comparados com o saldo comercial no negócio com o petróleo. Tudo competentemente exposto na apresentação do Sr. Jesús Cervantes (CEMLA) que aproveitou a oportunidade para enviar uma mensagem de cunho político em favor da legalização dos mexicanos em terras estadunidenses. Questionado, no entanto, sobre o conflito de interesses e se não haveria pressões no âmbito diplomático, exercidas pelos EUA sobre o México para conter o fluxo migratório sul-norte, como se verifica no Panamá, ele respondeu – bom, até há bem pouco tempo o México não exigia visto de brasileiros...

A medida que se sucediam as apresentações individuais dos países e se expunham dados coletados pelas empresas de remessas, também representadas no evento, ficava cada vez mais claro que o Brasil, diante de suas peculiaridades cambiais é carta fora do baralho neste leque de comparações, já que não permite a atuação dessas entidades financeiras (West Union, Moneygram) senão quando associadas a um banco.

E banco e agência bancária são coisas distintas. Poucas agências operam nos mercado cambial dentre os bancos que atuam, tornando reduzidíssimo os postos de remessa em solo brasileiro, e praticamente inexistentes lá fora.

Nem mesmo no simples cambio, o Brasil se safa. O fato chegou a gerar situações risíveis quando não constrangedoras, como foi a da Lydia Troshina do Banco da Russia que teve que apelar para um taxista para cambiar alguns dólares no final de semana.

Em sua apresentação sobre a regulação do mercado de remessas no Brasil, Geraldo Magela do Banco Central mostrou os enormes avanços nacionais na área mas considerando os eventos esportivos que o Brasil sediará em tempo próximo, todos fomos obrigados a encarar a realidade do tanto que ainda resta a ser feito.



A realidade constatada, no entanto, não suprimiu brilho ao evento. Ao contrário, a organização foi primorosa,a ousadia de trazer teleconferência via Skype foi coroada de sucesso, mérito que devemos creditar aos organizadores Fernando Lemos (Bacen) e René Maldonado (CEMLA).

Ronaldo Pignataro

Contração da indústria na China cria risco global



Por Jamil Anderlini | Financial Times, de Pequim

A atividade industrial da China sofreu contração em novembro, a primeira em quase três anos. A queda reforçou temores em torno da saúde da economia mundial.

As notícias do desaquecimento chegam um dia depois de o Federal Reserve, (Fed, banco central dos EUA) ter liderado uma iniciativa coordenada para tentar acalmar as preocupações em torno da liquidez mundial e de o BC chinês ter afrouxado sua política monetária.

Dados do governo chinês divulgados ontem mostraram que o índice oficial dos gerentes de compras caiu para 49 pontos em novembro, em relação aos 50,4 pontos de outubro. Qualquer resultado inferior a 50 pontos indica uma contração da atividade.

A queda de novembro foi a primeira desde fevereiro de 2009.

O indicador vai intensificar os temores de a China possa estar se encaminhando para uma desaceleração mais forte num momento em que o resto do mundo a encara como um oásis em meio a um panorama mundial árido.

Numa iniciativa de surpresa calculada para neutralizar o impacto negativo do número do índice dos gerentes de compras, o BC chinês anunciou uma redução do depósito compulsório - diminuindo o valor dos recursos que os bancos têm de recolher ao BC - pela primeira vez em três anos.

"Os mercados receberam um combinação potente de dois golpes, na forma do índice chocante dos gerentes de compras e da redução agressiva da alíquota do depósito compulsório", disse Alistair Thornton, analista de China do IHS Global Insight. "O recado é claro: a economia está desacelerando muito mais rápido que o previsto, e o governo entrou na briga".

Ao reduzir o volume dos depósitos que os bancos precisam recolher ao BC em 0,5 ponto percentual, o BC na prática injetou cerca de 400 bilhões de yuans (US$ 63 bilhões) no sistema bancário.

O crescimento do comércio da China com a União Europeia e os EUA desacelerou nos últimos meses. As exportações para a Europa, que está às voltas com a crise, foram as mais prejudicadas. As vendas de imóveis também diminuíram significativamente, num momento em que os preços começam a cair. A construção civil responde por cerca de 25% dos investimentos na China e 13% do Produto Interno Bruto (PIB).

A maioria dos analistas acredita que serão anunciadas mais medidas de afrouxamento monetário. Eles preveem que a inflação dos preços ao consumidor cairá para 4,3% em novembro, em relação ao pico de 6,5% registrado em julho. Mas a contenção da inflação ocorreu às custas da queda do crescimento.

Os subíndices do índice dos gerentes de compras referentes a novos pedidos e novas encomendas de exportações caíram para seus níveis mais baixos de quase três anos.

A Europa não é os Estados Unidos


Por Martin Feldstein - Valor 02/12

A Europa luta agora contra as inevitáveis consequências adversas de ter imposto uma moeda única a um conjunto de países heterogêneos. A crise orçamentária na Grécia e o risco de insolvência na Itália e Espanha são apenas uma parte dos problemas causados pela moeda única. A fragilidade dos principais bancos europeus, índices elevados de desemprego e o desequilíbrio comercial intraeuropeu (a Alemanha tem superávit em conta corrente de US$ 200 bilhões contra um déficit combinado de US$ 300 bilhões no resto da região) também são reflexo do uso da moeda.

Os políticos europeus que insistiram em lançar o euro em 1999 ignoraram os alertas de economistas prevendo que uma moeda única para toda a Europa criaria sérios problemas. Os defensores do euro estavam concentrados na meta de integração política da Europa e viram a moeda única como parte do processo para criar maior senso de comunidade política na Europa. Arregimentaram apoio popular com o lema "Um Mercado, Uma Moeda", argumentando que a área de livre comércio criada pela União Europeia (UE) apenas teria sucesso com uma moeda única.

Essa ideia não tinha base na história nem na lógica econômica. De fato, o comércio exterior na UE funciona bem, apesar de apenas 17 dos 27 membros do bloco usarem o euro.O principal argumento das autoridades europeias e outros defensores do euro, no entanto, vinha sendo que como uma moeda única funciona bem nos Estados Unidos, também deveria funcionar bem na Europa. Afinal, ambos são grandes, continentais e englobam economias diversas. Esse argumento, no entanto, negligencia três diferenças importantes entre EUA e Europa.

Primeira, os EUA são verdadeiramente um mercado de trabalho único, com as pessoas mudando-se de lugares com desemprego alto ou em alta para onde há mais empregos. Na Europa, os mercados de trabalho nacionais são, na prática, separados por barreiras idiomáticas, culturais, religiosas, sindicais e previdenciárias.

Certamente, há migração de alguns trabalhadores na Europa. Na ausência de um grau elevado de mobilidade, como o visto nos EUA, o desemprego total apenas poderia ser reduzido se os países com alto desemprego pudessem afrouxar a política monetária, opção que a moeda única impossibilita.

Uma segunda diferença importante, é que os EUA possuem um sistema fiscal centralizado. Pessoas físicas e jurídicas pagam a maioria de seus impostos ao governo federal em Washington, e não a autoridades estaduais (ou locais).

Quando a atividade econômica de um Estado americano se desacelera em relação ao resto do país, os impostos que seus habitantes e empresas pagam ao governo federal recuam, mas os fundos que recebe do governo federal (benefícios contra o desemprego e outros programas de transferência) aumentam. Falando em termos gerais, cada dólar de declínio no Produto Interno Bruto (PIB) em um Estado como Massachusetts ou Ohio aciona mudanças nos impostos e transferências que compensam cerca de US$ 0,40 dessa queda, proporcionando um estímulo fiscal substancial.

Não há compensação comparável na Europa, onde os impostos são pagos quase exclusivamente aos governos nacionais, dos quais se recebem as transferências também quase exclusivamente. O Tratado de Maastricht, da UE, reserva especificamente essa autoridade de tributação e transferências aos países-membros, reflexo da pouca disposição dos europeus em transferir fundos a pessoas de outros países no mesmo grau que os americanos estão dispostos a fazer entre pessoas em diferentes estados.

A terceira diferença importante é que todos os Estados nos EUA têm a obrigação, por suas constituições, de equilibrar seus orçamentos operacionais anuais. Enquanto os fundos para "dias chuvosos" acumulados durante os anos de bonança são usados para lidar com déficits temporários de receita, a captação de empréstimos pelos Estados, conhecidas nos EUA como "obrigações gerais", é limitada a projetos como a construção de estradas ou escolas. Mesmo um Estado como a Califórnia, visto por muitos como o maior caso de licenciosidade fiscal, atualmente tem déficit orçamentário anual de apenas 1% do PIB e obrigações gerais de apenas 4% do PIB.

Esses limites aos déficits orçamentários na esfera estadual são uma implicação lógica do fato de os Estados americanos não imprimirem dinheiro para cobrir déficits fiscais. Essas regras constitucionais impedem o tipo de déficit e os problemas de endividamento que vêm assolando a região do euro, onde os mercados de capitais ignoraram a falta de independência monetária dos países.

Nenhuma dessas características da economia dos EUA se desenvolveria na Europa, mesmo se a região do euro passasse a ser mais explicitamente uma união política. Embora a forma de união política defendida pela Alemanha e outros países continue vaga, não envolveria uma arrecadação centralizada de receita, como nos EUA, porque isso colocaria um fardo maior sobre os contribuintes alemães para financiar programas governamentais de outros países. A união política não aumentaria a mobilidade laboral dentro da região do euro nem superaria os problemas provocados pela imposição de uma política monetária comum sobre países com diferentes condições cíclicas. Tampouco melhoraria o desempenho no comércio exterior de países que não podem desvalorizar a taxa de câmbio para reconquistar competitividade.

O efeito mais provável do fortalecimento da união política da região do euro seria dar à Alemanha o poder de controlar os orçamentos dos outros países e prescrever mudanças em seus impostos e gastos. Essa transferência formal de soberania apenas aumentaria as tensões e conflitos que já existem entre a Alemanha e os outros países da UE. (Tradução de Sabino Ahumada)

Martin Feldstein professor de economia em Harvard, foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan e foi presidente do Gabinete Nacional de Análises Econômicas dos EUA. Copyright: Project Syndicate, 2011.

PIB deve crescer apenas 2,5% em 2012, avaliam economistas do Credit Suisse



Por Cristiano Romero | De São Paulo - Valor 02/12

A economia brasileira deve crescer apenas 2,5% em 2012, metade do que vem projetando o Ministério da Fazenda. Baixo carregamento estatístico de 2011 para 2012; menor crescimento do consumo desde 2006; queda do Produto Interno Bruto (PIB) potencial; queda da confiança dos empresários; estagnação da indústria; desaceleração na construção civil e no consumo de máquinas; e a expansão moderada da demanda estão entre as razões que fazem a equipe de economistas do banco Credit Suisse, liderada por Nilson Teixeira, acreditar que é baixa a probabilidade de o Brasil ter crescimento elevado no próximo ano.

A expectativa de Teixeira e sua equipe é que, em 2012, apesar do baixo crescimento, o Brasil continue com a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acima da meta oficial - 5%, face aos 4,5% definidos como alvo pelo governo. Quanto à taxa básica de juros (Selic), o banco prevê que ela cairá dos atuais 11% para 9% ao ano até o fim do ano que vem.

Ontem, Teixeira e os economistas Ilana Ferrão, Leonardo Fonseca, Daniel Lavarda e Tales Rabelo apresentaram, no hotel Unique, em São Paulo, as perspectivas da economia para 2012 a uma plateia de cerca de mil pessoas, a maioria empresários e profissionais do mercado financeiro. As análises foram feitas, portanto, antes da divulgação, feita na manhã de ontem pelo Ministério da Fazenda, de medidas para estimular a aquisição de eletrodomésticos e baratear o custo do crédito para pessoa física.

Para a equipe do Credit Suisse, o PIB pode ter sofrido retração de 0,1% no terceiro trimestre, em relação ao trimestre anterior, e, no período entre outubro e dezembro, deve crescer apenas 0,4%. Com isso, o carregamento estatístico do produto de 2011 para o de 2012 será um dos menores dos últimos anos - apenas 0,4%.

O carregamento de 2009 para 2010, por exemplo, foi de 3,5%. Isto significa que, se não tivesse crescido nada em cada trimestre do ano passado, o PIB teria avançado 3,5%, graças ao efeito estatístico. O carregamento estatístico de 2010 para 2011 foi de 1,1%.

O crescimento de 2012 pode ser ainda menor se o crescimento do último trimestre deste ano for zero - a "herança" para o ano seguinte seria de apenas 0,1%. O Credit Suisse acredita que o Brasil terminará 2011 com crescimento de 2,8%, um ponto percentual abaixo da expectativa do governo.

Para crescer em 2012 os 5% projetados pela Fazenda, o PIB teria que avançar no ano que vem 1,8% por trimestre, sempre na comparação com o trimestre anterior. Essa média é maior que a alcançada pelo país entre o terceiro trimestre de 2006 e o mesmo período de 2008, fase em que a economia brasileira cresceu de forma acelerada (1,6% por trimestre), antes da eclosão da crise financeira mundial. A média de crescimento trimestral entre o terceiro trimestre de 2003 e o terceiro de 2008, numa análise que elimina dois períodos de crise enfrentados pelo país no passado recente, foi de 1,3%.

O Credit Suisse estima que, em 2012, a expansão da demanda será moderada. A contribuição da demanda doméstica (investimento das empresas e consumo das famílias) para o crescimento do PIB, que em 2010 chegou a 10,3 pontos percentuais e em 2011 pode ter se reduzido para 3,5, em 2012 será de apenas 3,1 pontos percentuais. A tendência é que ocorra uma recuperação em 2013, quando o PIB cresceria 4%.

Os economistas do banco suíço revisaram para baixo também - de 4,4% em 2008 para 3,6% em 2012 - a estimativa do PIB potencial, isto é, a capacidade de a economia brasileira crescer sem gerar inflação acima da meta oficial. Depois de ter crescido fortemente entre 2002 e 2007, a produtividade da economia está em queda desde 2008, o que diminui o espaço para a expansão não-inflacionária.

O crescimento das importações tem dificultado, na avaliação do banco, a produção da indústria nacional. Em 2003, o peso das importações no consumo de bens industriais foi de 15%. Neste ano, até setembro, já estava em 27,1%. Em alguns setores, a participação dos produtos importados tem sido superior a 50% do total - máquinas para escritório e informática (55,4%), material eletrônico e comunicações (68,8%) e máquinas elétricas (50,5%).

A confiança dos empresários industriais tem diminuído, diz a equipe de Nilson Teixeira, desde o segundo trimestre deste ano, por causa, "entre outros fatores, da estagnação industrial e da incerteza global, contribuindo para o recuo da demanda por bens de capital" (máquinas e equipamentos). Segundo a Fundação Getulio Vargas, o índice de confiança foi a 116 no segundo trimestre de 2010 e caiu a 103 no terceiro trimestre de 2011.

Apesar do baixo crescimento do PIB, a equipe do Credit Suisse aposta que o mercado de trabalho continuará aquecido nos próximos dois anos. Depois de fechar este ano em 6%, a taxa de desemprego deve cair para 5,8% no próximo ano e para 5,2% em 2013. "Nossos modelos sugerem que a expansão do PIB necessária para manter a taxa de desemprego estável em torno dos atuais 6% recuou de 3,3% em 2003 para algo abaixo de 2,5% em 2011", diz o documento divulgado ontem.

No cenário do Credit Suisse, a economia mundial, que cresceu 5,1% em 2010, deve avançar 3,7% em 2011 e 3,5% no próximo ano. O percentual previsto para 2012 está em linha com a média dos últimos 25 anos, mas bem abaixo da média (4,8%) do período 2003-2007. A Europa deve entrar em recessão e os Estados Unidos devem sofrer estagnação.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Solução para a Europa vai chegar a tempo?


Por David Wessel | The Wall Street Journal

Será que os líderes europeus vão hesitar, tropeçar, distorcer a realidade e ignorar o perigo iminente ao ponto de prejudicar a economia mundial ainda mais que os Estados Unidos em 2008?

Ninguém no comando da Europa tem a intenção de fazer isso. Mas quando assistimos às suas conferências agora frequentes - em que sempre prometem chegar mais perto da solução que na reunião anterior - surge uma preocupação crescente de que a Europa não fará o que é preciso a tempo.

Os alarmes têm soado cada vez mais altos nos últimos dias. O ministro das Relações Exteriores da Polônia declarou em Berlim que "temo menos o poder alemão do que começo a temer a inação alemã". O presidente do banco central do Japão alertou para um "ciclo vicioso" em que a falta de confiança nos governos europeus "aumentou os temores de instabilidade no sistema financeiro, o que por sua vez começou a afetar a atividade econômica" em lugares tão distantes quanto a Ásia.

A vice-presidente do Federal Reserve, o banco central americano, disse que "aumentaram significativamente os riscos de crise na economia mundial", principalmente devido à "intensificação do estresse no sistema bancário e nos mercados de dívida soberana da Europa". E o principal economista da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico também já avisou: "Os políticos não estão enxergando como é urgente realizar uma ação decisiva".

Os bancos americanos ficaram em maus lençóis em 2008 e foram resgatados pelo governo. Na Europa, são os governos que estão em apuros, embora os bancos também não estejam em melhor estado, pois aplicaram demais em títulos de dívidas governamentais. Os participantes da ciranda que têm dinheiro - a Alemanha e o Banco Central Europeu - reclamam dos pacotes de resgate, determinados a manter a pressão nos devedores para mudar o modo como agem.

É difícil ter uma perspectiva de acontecimentos que ainda estão se desenrolando. As coisas pareceram péssimas no colapso do Lehman Brothers em 2008. Não sabíamos que o Fed iria resgatar a AIG e os que tinham apostado no seu cassino. Também não sabíamos que o Congresso iria [relutantemente] dar US$ 700 bilhões ao Tesouro para injetar nos bancos, que um novo presidente conseguiria a aprovação de um pacote substancial de estímulo, e que o Fed compraria centenas de bilhões de dólares em Treasuries. Não sabíamos que lá para meados de 2009, a economia dos EUA já estaria crescendo, embora lentamente.

Tudo que sabemos sobre a Europa atualmente é que o realizado até agora foi insuficiente, a maioria dos economistas já coloca a zona do euro em estado de recessão - e há uma conferência amanhã e na sexta-feira.

A Europa em 2011 difere dos EUA em 2008. O Estado americano estava sólido em 2008 e a sobrevivência de sua moeda era inquestionável. A Europa se parece mais com os EUA de 1777 a 1789, época dos Artigos da Confederação, uma negociação cheia de falhas entre a centralização e a descentralização que deu lugar à Constituição e a um governo federal mais forte.

O mundo não pode ficar esperando que os arquitetos desenhem seus planos de uma Europa nova e melhorada. Mark Rutt, o primeiro-ministro da Holanda, me disse esta semana que a Europa pode apagar esse incêndio e impedir o próximo. O economista David Mackie, do J.P. Morgan, questiona isso.

"Os políticos da zona do euro vêm tentando descobrir como sair da crise atual e criar uma estrutura institucional adequada", diz ele. Infelizmente, acrescenta, "a tentativa de alcançar esses objetivos simultaneamente [...] contribuiu para piorar a crise".

A economia mundial agora também está em risco. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, uma coalizão de países ricos sediada em Paris, afirma que sua melhor previsão é que a economia vai "passar de raspão". O crescimento nos EUA vai se desacelerar, o que manterá o desemprego bem acima de 8,25% até o fim de 2013. A recessão na Europa manterá o desemprego da região acima de 10%.

A OCDE delineou esta semana um cenário mais pessimista que pode ocorrer se houver uma moratória "desorientada", ou não-negociada, de um governo da zona do euro. Ela prevê que os juros da dívida da maioria dos governos europeus vão subir ainda mais, investidores e bancos do mundo inteiro terão prejuízos, as bolsas mundiais vão cair e haverá fuga em massa do risco. O que viria depois seria uma recessão mundial, com declínios substanciais nos EUA e no Japão e "uma recessão profunda e prolongada na zona do euro". Os mercados emergentes não ficariam imunes, já que cairiam as exportações e o preço das commodities.

Os bancos europeus - que já enfrentam problemas para tomar dólares emprestados, exigências de reservar mais capital e aplicações em títulos de dívida soberana que podem não valer o que foi contabilizado - estão liquidando ativos e recuando dos mercados emergentes. De maneiras significativas o mundo talvez esteja menos resistente que em 2008.

A China e outros grandes países emergentes estão se desacelerando. Metade das economias dos países ricos tem tanta dívida que não pode arcar com mais uma rodada de estímulo fiscal, afirma a OCDE; em várias outras, há forte resistência política. As autoridades do Fed acreditam que os remédios que ainda podem ministrar não são muito potentes. O Congresso proibiu que o Tesouro faça como 2008 e garanta fundos mútuos do mercado monetário ou permita que a Federal Deposit Insurance Corp., a agência de seguro-depósito do país, cubra passivos bancários que não são depósitos. O Fundo Monetário Internacional não chega nem perto de ter dinheiro suficiente para resgatar a Europa.

As autoridades americanas estavam despreparadas para setembro de 2008 e não acertaram em todas as decisões posteriores. Mas elas reagiram com o que chamam de "força esmagadora", e a economia mundial se beneficiou disso. Agora é a vez da Europa.

"Ajuste moderado" de Tombini prevalece e Selic fecha o ano em 11%


Valor 01/12

O corte de 0,5 ponto percentual na taxa de juros, segundo decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), ontem, reduziu a Selic para 11% ao ano e levou o juro real para 5,13% (deflacionado pela expectativa de inflação do IPCA de 5,58% para os próximos 12 meses). Esta foi a terceira e última queda da taxa Selic neste ano.

A flexibilização da política monetária começou em agosto, quando o BC surpreendeu o mercado com uma decisão aparentemente ousada, e desde então seguiu sem novas surpresas, obedecendo às indicações de "ajustes moderados" sinalizadas pelo Banco Central. Os juros caíram, portanto, 150 pontos base, saindo de 12,50% em julho para os 11% de agora. E as expectativas tanto do mercado quanto do governo da presidente Dilma Roussef é de que o Copom prosseguirá nesse ritmo até levar a Selic para o patamar de 9% a 9,5% em 2012.

Os juros projetados para os próximos 12 meses praticados pelo mercado, ontem, estão bem abaixo da meta da taxa Selic. Os contratos de swap de 360 dias foram negociados a uma taxa de 9,69%. Tomando o IPCA projetado para idêntico período, de 5,58% (conforme a pesquisa Focus, do Banco Central), a taxa real é de 3,89%, a mais baixa desde 1999, quando começou o regime de metas para a inflação.

O contínuo agravamento da crise na Europa, com a consequente e esperada recessão, e a sobreposição de aumento dos juros domésticos com medidas prudenciais de aperto na expansão do crédito, esfriou a economia doméstica e abriu espaço para o Copom buscar uma redução substancial dos juros básicos.

Mas o governo não pretende usar só esse instrumento de política monetária para reanimar a economia brasileira. Já começou e continuará desmontando as medidas de controle do consumo.

Na próxima semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deverá baixar o IOF cobrado sobre os empréstimos para pessoa física de 3% para 1,5%. Ontem o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, confirmou que o governo prepara ações para facilitar a retomada do crédito para o consumo.

Há outras medidas que também poderão ser anunciadas na semana que vem nessa mesma direção: reacender a confiança do consumidor e do investidor e garantir um crescimento econômico de 3,5% a 4% em 2012.

O BC mantém o compromisso de levar a inflação, que chegou a 6,97% em doze meses até outubro, para o centro da meta de 4,5% até o fim do próximo ano.

Conta com um bom efeito estatístico que vai ajudar a queda do IPCA para a casa dos 5,2% até abril/maio de 2012, e ganhou, nesta semana, uma ajuda de 0,3 a 0,5 ponto com a nova ponderação do índice, baseada na Pesquisa de Orçamento familiar (POF) de 2009/2008.

Tão logo o Copom divulgou sua decisão, a Caixa e o Banco do Brasil anunciaram corte nas taxas de juros em suas linhas de crédito.

Para Ricardo Denadai, economista-chefe da asset do Santander, apenas um evento extremo no exterior poderia mudar o ritmo de cortes de 0,5 ponto percentual.

O ano do dragão


Por Roberto Luis Troster - Valor 01/12

O ano de 2012 corresponde ao 4710 no calendário chinês e está associado à sua única criatura mítica, o dragão, considerado o rei dos animais e símbolo da sabedoria, força, saúde e da harmonia - é colocado em cima de portas para espantar demônios e atrair sorte. Algo oportuno para os períodos de transformações. Na China Antiga, dragões eram também usados como guardiões dos tesouros.

O ano que vem será de mudanças, menos pelos protestos em centenas de cidades no mundo, como o "ocupe Wall Street", a "Primavera Árabe" e as passeatas aqui, e mais pelo quadro econômico e político que exige adaptações. Quem não se adequar à nova realidade afundará. 2012 começará desalentador, com volatilidade, estresses e ritmo lento, mas ao longo do ano observar-se-á uma melhoria com uma retomada mais consistente da economia mundial.

Coincidência ou não, o setor que mais exige ajustes e será o centro das atenções é o de guardiões do tesouro moderno: o financeiro. Antes da crise, os bancos eram considerados os propulsores da economia mundial; atualmente, são seu maior entrave. Há cinco desafios a serem superados: equacionar as dívidas soberanas, rolar os financiamentos do setor privado, começar a receber as dívidas contraídas, manterem-se solventes e, o mais importante, voltar a emprestar. Exigirá um esforço especial dos banqueiros e seus reguladores.

Na última década, na maioria dos países, com exceção da China, a política econômica esteve orientada pela demanda - com crédito bancário abundante e déficits fiscais generosos. Em 2012 tem que haver uma mudança de protótipo e a economia passará a ser conduzida pela oferta, com foco em mais eficiência e inovação. Keynes sai de cena e entra Schumpeter como ator principal. A capacidade de reinventar-se é que vai determinar o sucesso, ou fracasso, de cada país. Os casos mais dramáticos são os europeus e a Argentina.

No velho continente, o impasse entre os alemães que querem das nações mais endividadas um compromisso maior com o euro é complexo e tem dimensões econômicas, políticas, soberanas e culturais. Mas os problemas se resolvem, de uma forma - adequando-se que é o mais provável, ou de outra. É fato, a demora em superar a crise impõe um custo elevado, mas a união monetária sairá mais fortalecida e mais bem estruturada, com ou sem os gregos. Fazer com que políticos, economistas, banqueiros e eleitores cheguem a um único consenso é um trabalho hercúleo e demanda tempo, suor e imaginação.


A Argentina necessita reinventar-se urgentemente; seu "modelo" está esgotado. Lá se observa uma inflação crescente, investimento baixo, fuga de capitais e a capacidade fiscal do governo reduzida. Com bastante racionalidade econômica, alguma sorte e um pouco de financiamento externo ainda é possível fazer ajustes e evitar maiores problemas. Alguns passos foram dados. Um novo paradigma pode fazer o país hermano acontecer, caso contrário, a culpa cairá sobre a crise externa.

Os Estados Unidos já apresentam sinais indicando que o pior já passou. Os remédios aplicados estão começando a fazer efeito; números recentes de emprego, crédito, vendas e produção estão fracos mas positivos e apontando para uma recuperação. Observar-se-ão alguns estresses, mas é um quadro que dificulta a vida dos republicanos e melhora as chances de reeleição de Barack Obama.

A China continua como locomotiva do planeta e prepara-se para ser a maior economia do mundo em dois anos, mais precisamente em 2014, o ano do cavalo. Há décadas cresce com políticas de oferta, o aumento da demanda em outros países com crédito e gastos fiscais ajudou-a a expandir sua indústria e a acumular reservas. Atualmente, aparenta ter controlado as pressões inflacionárias e deve manter o ritmo de expansão no ano vindouro. Sua influência global deve aumentar e o yuan já começa ter um papel nas finanças internacionais, mais por conta da má gestão do euro e do dólar do que por méritos próprios.

O ritmo de atividade mundial começa mais devagar por conta da ressaca da crise e aos poucos aumenta, com um segundo semestre melhor que o primeiro. O cenário internacional anêmico não é totalmente desfavorável ao Brasil. No canal comercial, a demanda de commodities deve sustentar-se e o preço das suas importações deve arrefecer, as projeções mostram saldos comerciais melhores com a crise externa. No lado financeiro, as perspectivas de investimento externo são altas, e uma parte dos fluxos que entram estão canalizados para investimentos produtivos, contribuindo de forma favorável para o crescimento nacional.

A economia brasileira deve andar de lado no começo do ano, mais em razão do ciclo dos estoques do que por conta da crise. Com ou sem estímulos da demanda agregada, a retomada do crescimento acontece a partir do segundo trimestre. A oportunidade para o Brasil crescer a taxas mais altas estará presente com a janela demográfica, a demanda externa, o fluxo de investimentos estrangeiros e o pré-sal, que pode tornar o país o quinto maior produtor de petróleo do mundo em alguns anos.

Este é um exemplo emblemático, que mostra as duas opções de desenvolvimento para o Brasil com a descoberta de jazidas: o venezuelano e o norueguês. No vizinho, são privilegiadas as políticas para usufruir ao máximo as receitas do petróleo; no país do norte, a tônica são ações que sustentem o crescimento, investindo os recursos. Aqui há um amplo debate sobre a distribuição dos royalties, já seu uso é tratado como uma questão menor. Obviamente, a qualidade da condução política brasileira é melhor do que a do país ao lado, mas há espaço para aprimoramentos. O Brasil tem as condições para fazer acontecer. A questão é ajustar o modelo e evitar os erros que outros cometeram e não repetir a história nacional (leia-se ciclos da borracha, do ouro etc.).

No ano do dragão haverá mais crises políticas no Oriente Médio, em Cuba e na Venezuela, mas também uma consolidação do euro e Londres 2012. Haverá mais aquecimento global e Rio +20 para evitar que piore; observar-se-ão mais inovações e o começo de um novo ciclo de expansão. A economia mundial terá quatro pelotões com velocidades diferentes: os países na fase mais crítica de ajuste, como a Grécia, com números negativos; os desenvolvidos, como EUA e Japão, a taxas baixas; a América Latina num patamar mais elevado e a China e a Índia no pelotão de elite. A questão é fazer o Brasil subir ao pódio, sobram desejos. Feliz 2012 a todos!

Roberto Luis Troster, consultor e doutor em economia pela USP, foi economista chefe da Febraban e da ABBC e professor da USP, Mackenzie e PUC-SP. E-mail: robertotroster@uol.com.br

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O fundamental


Por Antonio Delfim Netto

Grupos não pequenos de estudiosos insistem em atribuir a crise a uma organização social misteriosa à qual dão o nome genérico de "capitalismo", codinome da organização da atividade econômica em torno dos "mercados", instituição que os homens "descobriram" para coordenar a atividade de consumir bens e serviços e, ao mesmo tempo, estimulá-los a produzir de forma relativamente eficiente e com maior liberdade individual.

É preciso reconhecer que: 1) os mercados são meros instrumentos alocativos que tentam compatibilizar os interesses dos indivíduos no seu duplo papel; 2) obviamente, não há simetria de poder entre esses papéis; e 3) eles (os mercados) não podem funcionar (ou mesmo existir!) sem um Estado para regulá-los.

Essa economia de mercado não foi inventada. Há claras evidências de que os mercados existem desde a velha Mesopotâmia (500 anos antes de Cristo). Foi sendo "descoberta" pelos próprios homens na sua atividade prática de buscar instituições que lhes permitissem facilitar a sobrevivência material e a possibilidade de combiná-la com sua eterna busca de liberdade de iniciativa. Ela não é nem perfeita nem imortal. A grande esperança é que a ação do Estado que garante a sua funcionalidade, possa minorar seus defeitos com as políticas econômica (a flutuação) e social (a desigualdade).

A ideia que os mercados têm a capacidade de autocorrigir-se e que os resultados da distribuição de seus benefícios são "justos" ou "merecidos" - e que, portanto, dispensam a ação do Estado - é absurda. Tão absurda quanto a ideia que os problemas que estamos vivendo se devem apenas a eles, sem nenhuma cumplicidade do Estado.

Já passou da hora de os economistas livrarem-se de umas ingenuidades. A primeira é que Deus foi bom com eles deixando-lhes como objeto de estudo um mundo, cuja ordem poderia ser descoberta, como, por exemplo, o movimento dos astros. A segunda é o reconhecimento que, por mais importante que seja o papel do Estado, o poder incumbente está longe de ser onisciente e, logo, não precisa ser onipresente e, muito menos, pretender a onipotência!

A história nos ensinou, e a experiência atual confirma, que o Estado precisa ser fiscalmente responsável! Não é preciso ser economista para entender tal "conta de padaria". A receita pública não pode ser, permanentemente, maior do que a despesa pública, não importa a "qualidade" ou a "necessidade" do gasto.

Se ele é imperioso e permanente, só há três formas de atendê-lo: 1) aumentando a eficiência do governo; 2) cortando despesa menos prioritária; ou 3) aumentando os impostos. É uma maldição aritmética desagradável que a relação dívida pública/PIB só possa ser estabilizada num nível cujo financiamento possa ser feito, permanentemente, com uma taxa de juros real menor do que a taxa de crescimento real do PIB.

Parece razoável concluir, portanto, que o que precisa ser superado é a irresponsabilidade fiscal dos Estados e a sua incompetência regulatória. Vivemos, basicamente, uma manifestação de Estados pouco cuidadosos fiscalmente e impotentes diante do poder econômico dos interesses financeiros. A crise de 2007/09, que se recusa a terminar, é a testemunha da tendência do setor financeiro de servir-se do setor real e de sua capacidade de apropriar-se do poder incumbente.

Os "indignados" sugerem trazer de volta ideias de cérebros peregrinos, que "inventaram" outros mecanismos de organização social. Os mesmos que rechearam de tragédias o século XX. É preciso insistir que, até agora, o mercado como instrumento alocativo relativamente eficiente não encontrou nenhum substituto, como mostram o fracasso soviético e o sucesso chinês.

A crise americana é menos grave do que a da Eurolândia, mas tem pouca probabilidade de terminar antes da eleição de novembro de 2012. E depois? Depois, valha-nos Deus se os intelectuais republicanos vencerem a batalha eleitoral! É uma pena. Os EUA têm tudo para sair mais depressa da crise. Faltam-lhes apenas uma liderança que reconstrua a confiança da sociedade.

Na Eurolândia, a questão é mais complicada. Ela tem, na verdade, quatro problemas: 1) um desalinhamento das moedas dentro do euro, que causa resultados assimétricos nos balanços de pagamentos; 2) um descontrole dos déficits públicos; 3) uma perspectiva de crise bancária; e 4) falta-lhe um Banco Central autônomo, que seja, de fato, o emprestador de última instância e possa organizar as dívidas dos países.

O jogo dialético civilizatório (apoiado no sufrágio universal) entre o mercado e a urna não é uma linha reta: pode sofrer graves e custosos desvios. O fato fundamental é que ele não resiste à irresponsabilidade fiscal. Quando essa leva as lideranças políticas à completa predominância do curto prazo sobre o longo, aproveitando-se de situações econômicas passageiras favoráveis para permanecer no poder, o mercado (isso é, a realidade fática) acaba cobrando o seu preço.

O Brasil pagou tal preço no passado. A presidente deve ser fortemente apoiada quando corta na carne o Executivo e pede moderação ao Legislativo, ao Judiciário e aos sindicatos. Nunca a solidez fiscal foi tão necessária para proteger-nos da crise mundial, que está longe de terminar. É por isso que a DRU deve ser aprovada.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Indicadores de endividamento soberano: para onde olhar?


Por Frederico Pechir e Vinicius Ratton Brandi - Valor 30/11

O momento é de grande expectativa e volatilidade nos mercados internacionais. A atenção do planeta concentra-se na zona do euro e desdobramentos da profunda crise que afeta a região. Embora ainda seja um desafio desvendar os mecanismos responsáveis pelo fenômeno, um dos fatores-chave para sua explicação é o alto endividamento de alguns países europeus.

A capacidade de endividamento é essencial para que um governo possa desempenhar atividades que demandem recursos superiores a sua capacidade de arrecadação ou em situações que envolvam um mero descasamento de prazos entre receita e despesa governamental. No entanto, o aumento contínuo do endividamento não deve ser entendido como possibilidade sustentável. É preciso encontrar um equilíbrio entre as necessidades do país e a capacidade para honrar suas obrigações.

Ao tratarmos da situação brasileira, normalmente nos referimos à relação entre dívida e produto, analisando aspectos como o seu nível e trajetória. Trata-se do indicador de solvência mais usual de um país. Uma interpretação simples e direta nos diria que determinada nação com relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB) pouco abaixo de 40%, caso do Brasil, tem mais probabilidade de conseguir honrar suas obrigações do que um país com relação na casa dos 120%, caso da Itália.

Essa conclusão, porém, está longe de ser precisa. Em primeiro lugar, devemos saber que é praticamente impossível construir um indicador suficiente para se mensurar a capacidade de pagamento de um país. A relação dívida/PIB utiliza a informação relativa ao montante da dívida, mas ignora seu prazo médio e a magnitude dos seus serviços, por exemplo, que são igualmente importantes para se avaliar os riscos correspondentes.

Além disso, há que se levar em consideração se a comparação se baseia nos mesmos indicadores. A relação dívida/PIB do Brasil refere-se, mais comumente, ao quociente entre a dívida líquida do setor público e o produto interno bruto do país. Já no caso da Itália, como em diversos outros países, o dado utilizado é geralmente o de endividamento bruto. Portanto, as relações citadas anteriormente para ambos os países referem-se a conceitos distintos. Enquanto o endividamento bruto se refere ao estoque de dívida do governo, o conceito líquido é obtido pela diferença entre a dívida bruta e os ativos financeiros que o governo detém.

Diante disso, algumas questões se impõem no debate: afinal, qual dos dois indicadores deve ser utilizado? Essa distinção é de fato relevante?

Começando pela segunda pergunta, vale observar o que ocorreu no Brasil entre janeiro de 2007 e junho de 2011, período no qual a relação dívida líquida/PIB caiu 12,4% (5,7 pontos percentuais), enquanto a dívida bruta/PIB foi reduzida em apenas 1,9% (1,1 ponto percentual). A depender do indicador observado, pode-se interpretar uma melhora significativa na situação fiscal brasileira ou que ela se manteve praticamente estável. Fica evidente, portanto, a relevância da diferenciação entre os indicadores, fato que muitas vezes é negligenciado em análises mais superficiais.

Resta saber, agora, qual deles é o mais apropriado para se avaliar o endividamento público.

Quando governos possuem montantes significativos de ativos, é de se esperar que estes sejam considerados em contrapartida ao saldo da dívida. No entanto, há que se questionar quais ativos devem entrar na avaliação e por qual preço. O risco associado aos ativos pode ser elevado e nem sempre isso é considerado. Outro ponto relevante diz respeito à correlação entre esses ativos e a capacidade de pagamento do país. Os ativos que contribuem de fato para a redução do risco de inadimplência são aqueles com baixa correlação, que não se desvalorizarão em um eventual momento de dificuldade financeira do país.

Por outro lado, vale lembrar que as necessidades de refinanciamento do governo, de rolagem da dívida, têm por base a dívida bruta. Assim, em termos de fluxo de caixa, o que importa é o conceito bruto, uma vez que os pagamentos devidos estão referenciados no montante total do passivo, sem qualquer dedução associada aos ativos.

No caso brasileiro, a diferença de indicadores tem se situado entre 15 e 20 pontos percentuais. Trata-se de uma diferença considerável e que pode ser explicada, basicamente, pelo expressivo crescimento de nossas reservas internacionais e pelos empréstimos concedidos pelo Tesouro Nacional ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos últimos três anos.

As reservas internacionais do Brasil podem ser consideradas como ativo de elevadas qualidade e liquidez, haja vista a política conservadora de aplicação por parte do Banco Central. No caso do BNDES, cremos que a avaliação se torna mais complexa. Os empréstimos concedidos pelo Tesouro, da ordem de R$ 207 bilhões somente entre 2008 e 2010, considerando recursos já repassados, devem ser pagos pela instituição de fomento, com base, principalmente, na performance de sua carteira de empréstimos. Nesse caso, é importante que a análise se estenda para o acompanhamento das finanças do próprio BNDES. Alguns podem dizer que o risco atual é baixo, mas jamais podem negligenciá-lo.

Concluindo, não há como decidir por um critério excluindo-se o outro. Ambos revelam informações distintas e que devem ser consideradas em qualquer análise mais rigorosa sobre a sustentabilidade de uma dívida soberana. O que se deve ressaltar é que a análise da dívida líquida não pode se dissociar de uma avaliação complementar sobre os ativos responsáveis por sua redução em comparação com o indicador bruto.

Frederico Pechir Gomes é economista e professor de Finanças.

Vinicius Ratton Brandi é professor de Finanças do Ibmec

A miséria do "novo desenvolvimentismo"




Por José Luís Fiori - Valor 30/11

O capitalismo só triunfa quando se identifica com o estado, quando é o estado". Fernand Braudel, "O Tempo do Mundo", Editora Martins Fontes, SP, p: 34.

O "debate desenvolvimentista" latino-americano não teria nenhuma especificidade se tivesse se reduzido à uma discussão macroeconômica entre "ortodoxos", neo-clássicos ou liberais, e "heterodoxos", keynesianos ou estruturalistas. Na verdade, ele não teria existido se não fosse por causa do Estado, e da discussão sobre a eficácia ou não da intervenção estatal para acelerar o crescimento econômico, por cima das "leis do mercado". Até porque, na América Latina como na Ásia, os governos desenvolvimentistas sempre utilizaram políticas ortodoxas, segundo a ocasião e as circunstâncias, e o inverso também se pode dizer de muitos governos europeus ou norte-americanos ultra-liberais ou conservadores que utilizaram em muitos casos, políticas econômicas de corte keynesiano ou heterodoxo. O pivô de toda a discussão e o grande pomo da discórdia sempre foi o Estado e a definição do seu papel no processo do desenvolvimento econômico.

Apesar disto, depois de mais de meio século de discussão, o balanço teórico é decepcionante. De uma forma ou outra a "questão do Estado" sempre esteve presente, nos dois lados desta disputa, que acabou sendo mais ideológica do que teórica. Mas o seu conceito foi sempre impreciso, atemporal e ahistórico, uma espécie de "ente" lógico e funcional criado intelectualmente para resolver problemas de crescimento ou de regulação econômica. Desenvolvimentistas e liberais sempre compartilharam a crença no poder demiúrgico do Estado, como criador ou destruidor da boa ordem econômica, mas atuando em todos os casos, como um agente externo à atividade econômica.

Um agente racional, funcional e homogêneo, capaz de construir instituições e formular planos de curto e longo prazo orientados por uma idealização do modelo dos "capitalismos tardios" ou do estado e desenvolvimento anglo-saxão. E todos olhavam negativamente para os processos de monopolização e de associação do poder com o capital, que eram vistos como desvios graves de um "tipo ideal" de mercado competitivo que estava por trás da visão teórico dos desenvolvimentistas tanto quanto dos liberais. Além disso, todos trataram os Estados latino-americanos como se fossem iguais e não fizessem parte de um sistema regional e internacional único, desigual, hierarquizado, competitivo e em permanente processo de transformação. E mesmo quando os desenvolvimentistas falaram de Estados centrais e periféricos, e de Estados dependentes, falavam sobretudo de sistema econômico mundial que tinha um formato bipolar relativamente estático, onde as lutas de poder entre os Estados e as nações ocupavam um lugar bastante secundário.

No fim do século XX, a agenda neoliberal reforçou um viés da discussão que já vinha crescendo desde o período desenvolvimentista: o deslocamento do debate para o campo da macroeconomia. Como volta a acontecer com o chamado "neo-desenvolvimentismo" que se propõe inovar e construir uma terceira via (uma vez mais), "entre o populismo e a ortodoxia". Como se tratasse de uma gangorra que ora aponta para o fortalecimento do mercado, ora para o fortalecimento do Estado.

Na prática, o "neo-desenvolvimentista" acaba repetindo os mesmos erros teóricos do passado e propondo um conjunto de medidas ainda mais vagas e gelatinosas do que já havia sido a ideologia nacional-desenvolvimentista dos anos 50. Passado a limpo, trata-se de um pastiche de propostas macroeconômicas absolutamente ecléticas, e que se propõem fortalecer, simultaneamente, o Estado e o mercado; a centralização e a descentralização; a concorrência e os grandes "campeões nacionais"; o público e o privado; a política industrial e a abertura; e uma política fiscal e monetária, que seja ao mesmo tempo ativa e austera. E finalmente, com relação ao papel do estado, o "neo-desenvolvimentismo" propõe que ele seja recuperado e fortalecido mas não esclarece em nome de quem, para quem e para quê, deixando de lado a questão central do poder, e dos interesses contraditórios das classes e das nações.

Neste sentido, fica ainda mais claro que o desenvolvimentismo latino-americano sempre teve um parentesco maior com o keynesianismo e com "economia do desenvolvimento" anglo-saxônica, do que com o nacionalismo econômico e o anti-imperialismo, que são a mola mestra do desenvolvimento asiático. E que, além disto, os desenvolvimentistas latino-americanos sempre compartilharam com os liberais a concepção econômica do Estado do paradigma comum da economia política clássica, marxista e neo-clássica. Esse paradoxo explica, aliás, a facilidade teórica com que se pode passar de um lado para o outro, dentro do paradigma líbero-desenvolvimentista, sem que de fato se tenha saído do mesmo lugar..

José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007.

O que o FMI deveria dizer à Europa


Por Martin Wolf - Valor 30/11

O Fundo Monetário Internacional (FMI) pode salvar a região do euro? Não, mas pode ajudar. O mundo, cujos interesses são representados pelo FMI, tem interesses em jogo e isso dá ao fundo o direito de agir. A questão é como.

O mundo chegou a um estágio novo e potencialmente ainda mais devastador que a crise que emergiu nos países avançados no verão setentrional de 2007. Seu epicentro é a região do euro. Os líderes da região, pouco dispostos a concentrar-se no paciente gravemente doente à sua frente, gastam seu tempo elaborando um regime de exercícios para que ele nunca volte a ter outro ataque cardíaco. É uma atividade inócua.

Na visão de muitas autoridades fora de região, "eles simplesmente não estão entendendo". Seus membros, principalmente a Alemanha, o agente mais importante, parecem paralisados pela política doméstica. Isso não é surpreendente, já que a política continua sendo algo nacional. Também sugere, no entanto, que o projeto, na melhor hipótese, foi prematuro e, na pior, impraticável. O panorama econômico mais recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) traça um quadro sombrio. Mesmo se o pior for evitado, prevê-se que a economia da região ficará estagnada em 2012. A organização, contudo, avisa que "persistem sérios riscos de queda". Além disso, "um grande evento negativo (...) muito provavelmente jogaria a área da OCDE como um todo em uma recessão, com declínios acentuados nos EUA e Japão e recessão profunda e prolongada na área do euro". Até os mercados emergentes sofreriam.

Até que ponto a situação pode ficar ruim? A OCDE explora um cenário negativo que se inicia a partir de um calote soberano desordenado na região do euro. Os resultados de tal evento são imprevisíveis, mas o calote de um país significativamente avançado provavelmente seria um fortíssimo golpe à confiança. Os efeitos adversos seriam sentidos diretamente - e por meio de contágio - tanto na esfera soberana como nos mercados e nas instituições financeiras. Outros países poderiam ser afetados, diretamente, pela necessidade de resgate de seus bancos. À medida que as economias se enfraquecessem, as posições fiscais ficariam sob pressão ainda maior em todos os lugares Poderia surgir uma espiral negativa viciosa na confiança e atividade, com resultados que iriam bem além da própria região do euro.

Um calote soberano não seria necessariamente seguido por uma saída da região do euro, mas tal resultado não poderia ser descartado. A OCDE vale-se de linguagem apocalíptica: "[A] repercussão política seria dramática e as pressões para uma saída da região do euro poderiam ser intensas [...] Tais turbulências na Europa, com destruição maciça de riqueza, falências e o colapso da confiança na integração e cooperação europeia muito provavelmente resultariam em uma depressão profunda tanto nos países que saíssem como nos que ficassem na área do euro, assim como na economia mundial."

Então, o que fazer?

Primeiro, precisa-se de um compromisso confiável de interrupção do contágio, para países, bancos e mercados. Uma possibilidade seria garantir financiamento para a rolagem de dívidas públicas e déficits fiscais da Itália, Espanha e Bélgica para 2012 e 2013. Isso custaria até €1 trilhão, embora mesmo essa quantia pudesse ser insuficiente para interromper o contágio, dada sua atual extensão. Os recursos necessários poderiam vir da alavancagem do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês) ou vir do Banco Central Europeu (BCE) ou de ambos, com o primeiro assumindo o risco de prejuízo e a autoridade monetária oferecendo liquidez. No longo prazo, um eurobônus condicional poderia ser uma resposta viável, como John Muelbauer, do Nuffield College, Oxford, argumentou.

Segundo, a região do euro precisa ter políticas de ajuste e de crescimento econômico. Além disso, elas não podem ser baseadas apenas no lado da oferta. A região do euro sofre hoje, claramente, de demanda agregada deficiente. E, além disso, os países mais vulneráveis serão incapazes de recuperar-se sem restaurar sua competitividade externa. Sem isso, estão destinados a uma espiral descendente de austeridade fiscal, enfraquecimento da demanda, aumento no desemprego, resultados fiscais fracos e, então, mais austeridade fiscal. Nos anos anteriores à crise, os superávits financeiros das famílias da região do euro foram absorvidos pelos déficits não financeiros das empresas e, em menor grau, pelos governos. Depois da crise, os déficits das empresas desapareceram, deixando sobre os governos o fardo de sustentar a demanda. Para que os déficits fiscais desapareçam, as famílias e empresas precisam gastar mais. A política econômica precisa contribuir para que isso ocorra.

Terceiro, a região do euro também precisa de reformas de longo prazo para resolver seu verdadeiro ponto fraco, mas isso fracassará se a Alemanha insistir que a disciplina fiscal é tudo o que importa. Não foi a indisciplina fiscal o que causou a crise. A indisciplina dos setores privado e financeiro, incluindo as instituições de crédito dos países centrais, foi ainda mais relevante. A confiança retornaria, se a região do euro adotasse reformas para funcionar bem melhor no futuro, em vez de continuar como se fosse uma máquina de gerar insolvências financeiras e fiscais nos países mais enfraquecidos.

Que papel o FMI pode desempenhar? Nada muito grande. Carece do poder de fogo necessário: seus recursos disponíveis totais não comprometidos são de apenas US$ 440 bilhões. Certamente, poderia levantar mais dinheiro de países externos interessados. Não pode ter a esperança, entretanto, de ter como compensar a relutância dos principais atores na região do euro em fornecer o apoio necessário. Mesmo se tivesse os recursos, programas voltados a países individualmente certamente fracassariam. O único programa que faria sentido seria um para toda a região do euro, já que os programas para países problemáticos teriam de incluir perspectivas razoáveis de maior demanda agregada na região do euro. Sem isso, há poucas chances de sucesso, por exemplo, na Itália ou Espanha. A Irlanda, por ser uma economia pequena e aberta, poderia ajustar-se deslocando a produção comercializável para outros lugares, quando necessário. Se a Itália e Espanha tentassem fazer isso, estariam empenhando-se em esforços custosos e provavelmente infrutíferos de "empobrecer os vizinhos": custosos, porque a principal forma de fazê-lo seria derrubar os salários por meio de desemprego ainda maior; e infrutífero, porque a vantagem competitiva da Alemanha é muito forte.

Então, como o FMI poderia ajudar? Chegou a impiedosa hora de contar a verdade, como a chamou John Maynard Keynes. E qual é a verdade? É que a região do euro tem de escolher entre a alternativa ruim e a calamitosa. A ruim é adotar políticas radicais para promover ajustes, enquanto impede uma onda de reestruturações de dívidas soberanas, crises financeiras e verdadeiras depressões. A calamitosa é essa depressão, paralela ao desmembramento do projeto do euro. O FMI poderia falar em nome dos interesses do mundo no cenário menos ruim. Só a região do euro pode fazer a escolha. (Tradução de Sabino Ahumada)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Cenários de contágio da crise no Brasil



Por Cristiano Romero - Valor 30/11

Há pelo menos dois canais de transmissão que, diante de um agravamento da crise financeira internacional, poderão afetar a economia brasileira com mais força: a reversão dos fluxos de capitais, com impacto negativo na oferta de crédito; e a piora dos termos de troca, isto é, da relação entre os preços das exportações e os das importações. Tendo sido um dos maiores beneficiários tanto da liquidez internacional quanto do comércio exterior nos anos recentes, o Brasil tende a ser fortemente afetado pela crise que se anuncia.

Se por um lado apresenta vulnerabilidades, por outro o Brasil tem amplo espaço para reagir. Dispõe de posição fiscal confortável; colchão de liquidez (volume de depósitos compulsórios no Banco Central) superior a R$ 400 bilhões; reservas cambiais de US$ 350 bilhões; espaço para reduzir juros.

O economista Tony Volpon, da Nomura Securities, identifica dois tipos possíveis de choque: um em forma de V, em que a situação piora, mas melhora rapidamente devido a uma reação agressiva por parte do governo; e outro em forma de L, em que, por causa de fatores estruturais (por exemplo: restrição fiscal ou monetária), não há melhora imediata nos fatores exógenos que impulsionam a crise.

Volpon batizou o primeiro tipo de choque de "quick and short" (rápido e curto) e o segundo, de "slow burn" (queima lenta). Para estimar seus efeitos, ele desenvolveu uma versão do modelo semiestrutural da economia brasileira, recentemente publicado pelo Banco Central (BC), modificando-o para introduzir variáveis exógenas.

As variáveis escolhidas foram: o VIX, índice de volatilidade do indicador S&P 500, também conhecido como "índice do medo" ou "medidor do medo", por refletir expectativas do mercado de ações para os 30 dias seguintes; os índices CRB metal e CRB alimentos, que refletem a variação dos preços de commodities; o índice S&P 500; e o nível dos CDS (Credit Default Swap) de cinco anos do Brasil. Os indicadores permitem simular os efeitos de quaisquer choques globais e capturar os mecanismos de transmissão (comércio, finanças, confiança dos empresários) que eles podem ter sobre o PIB brasileiro.

O economista da Nomura está entre os que acreditam que o BC, ao começar a reduzir a taxa básica de juros (Selic) em agosto, com as expectativas de inflação acima da meta de 4,5%, mudou o regime. Ele aposta que o governo Dilma trabalha com uma meta de crescimento. Por isso, no modelo de estimativa do impacto da crise, Volpon trabalha com a ideia de que o BC reduzirá a Selic para maximizar o crescimento do PIB, ainda que mantendo a inflação, ao fim do período (2013), abaixo de 6%.

Rodado o modelo, Volpon concluiu que, se o choque de 2012 for 100% equivalente ao de 2008, o Brasil crescerá 1,9% em 2012 e apenas 0,6% em 2013. Na hipótese de o choque ter impacto equivalente a 25% do que teve o de 2008, cenário considerado pelo BC, a economia crescerá 3,3% no ano que vem e 3% no ano seguinte. Tudo isso ocorreria sob um choque do tipo "queima lenta", sem a ocorrência de recessão.

Na hipótese de um choque "curto e rápido", haveria recessão em 2012, com contração de 0,9% do PIB, seguido de uma forte recuperação em 2013 (alta do PIB de 5,2%). Nesse caso, a taxa de investimento cairia 21,5%, em termos anualizados, no terceiro trimestre de 2012. No cenário anterior ("queima lenta"), o investimento sofreria redução crescente e consecutiva até 2013.

Em todas as simulações, as exportações brasileiras sofreriam impactos preocupantes. Já o real sofreria forte desvalorização - o dólar iria, no segundo trimestre de 2012, a R$ 2,43, mas se recuperaria e chegaria a R$ 1,68 no fim de 2013. No cenário de "queima lenta", chegaria ao fim daquele ano em R$ 2,37, na hipótese de a crise repetir integralmente os efeitos de 2008.

No caso dos juros, a Selic cairia, num choque "curto e rápido", a 6% ao ano, mas retornaria a 9,5% no fim de 2013, com a economia em plena recuperação. Num choque de "queima lenta", a Selic cairia, até 2013, a 4% (se a crise fosse idêntica à de 2008) ou a 6%, se a encrenca se restringisse a 25% do efeito ocorrido há três anos.

Por fim, diante de um choque do tipo "queima lenta", a inflação iria a 5,18% no segundo trimestre de 2012 (no caso de um impacto de 25% de 2008) e depois começaria a subir. Se o choque fosse a 100% de 2008, o IPCA cairia a 5,02% e, então, aumentaria a partir daí. Num choque "curto e rápido", a inflação seria reduzida à meta de 4,5% no terceiro trimestre do ano que vem. Em todos os casos, as simulações mostram IPCA em torno de 5,25% ao fim de 2013.

Volpon conclui que, se o choque atual tomar a forma de uma persistente "queima lenta", o contágio da crise será enorme, mesmo com o BC adotando uma política monetária agressiva. "Dado onde a economia brasileira está neste momento, o resultado mais provável seria uma estagflação, resultado de um crescimento positivo, mas baixo, e inflação acima da meta", diz ele. Como o próprio Volpon reconhece, as simulações estão sujeitas a inúmeras ressalvas. Ainda assim, indicam que a crise não será um passeio no parque. O impacto será forte, seja qual for o cenário considerado.

Cristiano Romero é editor-executivo


IGP-M sobe menos em novembro

Por Arícia Martins De São Paulo
A forte alta dos produtos agropecuários entre outubro e novembro foi concentrada em poucos itens e não deve tirar dos eixos a inflação de alimentos para o consumidor neste final de ano, avaliam economistas consultados pelo Valor. Ainda há um risco, no entanto, para os preços no atacado: caso o real continue perdendo valor ante o dólar — cenário que não é considerado o mais provável — e os preços das commodities se estabilizarem no mercado externo, o saldo será inflacionário no Índice Geral de Preços — Mercado (IGP-M), tal como ocorreu em setembro e outubro.

Como esperado pelo mercado, o IGP-M desacelerou em novembro, ao registrar alta de 0,50%, abaixo dos 0,53% verificados no mês anterior. O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) foi o responsável pelo movimento, recuando de 0,68% para 0,52%, com uma reversão em seus componentes. O IPA industrial deixou elevação de 0,91% para avanço de 0,49%, ao passo que o agropecuário subiu de 0,04% para 0,60%.

Segundo o coordenador de análises econômicas da Fundação Getulio Vargas (FGV), Salomão Quadros, os produtos industriais estão retornando a seu patamar após dois meses de intensa alta do dólar, ao passo que, nos agropecuários, poucos itens explicam a subida. “Isso significa que o movimento de alta não deve ser tão duradouro”, afirmou, durante apresentação do indicador de novembro.

Quadros destacou que, assim como no varejo, os alimentos in natura subiram com força no atacado ao deixarem deflação de 1,39% para elevação de 1,92%, movimento que deve ter um alívio em dezembro. As carnes bovinas também tiveram aceleração expressiva ao avançarem de 0,65% para 5,26%, enquanto as aves saíram de queda de 1,08% para alta de 2%. “São esses três itens que já estão repercutindo nos preços ao consumidor. Não temos uma pressão de vários alimentos acontecendo, ao contrário do que ocorreu no final do ano passado”, concluiu.

O economista Thiago Curado, da Tendências Consultoria, acredita que a ascensão no atacado será rapidamente repassada ao varejo, mas ressalta que suas coletas indicam aceleração “relativamente tranquila”, sem grandes preocupações que façam o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ultrapassar em larga medida o teto da meta estipulado pelo governo, de 6,5%. “Não será a influência externa que irá acelerar os alimentos e garantir o descumprimento da meta, mas também há certa resistência desse grupo que não permitirá um indicador muito abaixo do teto”.

Há uma ressalva, no entanto, do lado do câmbio, afirma Fabio Ramos, da Quest Investimentos. O economista espera “certa normalização” do cenário externo, o que trará o câmbio de volta a um patamar entre R$ 1,70 e R$ 1,80. Uma taxa mais próxima de R$ 1,90 mantida por mais tempo, porém, seria inflacionária, com impacto direto via commodities. Em seu cenário base, o analista projeta que o IGP-M tenha alta de 0,50% em dezembro, mesma taxa verificada em outubro, estimativa feita tendo como base uma estabilização dos preços das matérias-primas.

De acordo com Curado, o IGP-M deve desacelerar para 0,38% em dezembro. “Há espaço para a parte industrial acelerar em dezembro e os preços agropecuários devem se manter em patamar elevado, mas são movimentos que, mesmo com a questão cambial, não têm fôlego para aceleração intensa”.

Os analistas ouvidos concordam que o IGP-M deve encerrar 2011 com alta acumulada abaixo de 6%, quase metade da taxa de 2010, que ficou em 11,3%. Para Curado, a elevação será de 5,6%, enquanto Ramos, da Quest, estima taxa 0,1 ponto percentual maior.

Com o resultado apurado em novembro, a alta do índice em 12 meses desacelerou de 6,95% para 5,95%, movimento que, segundo Quadros, deve ter continuidade ao menos no primeiro trimestre de 2012. “Mesmo que haja uma pressão de sazonalidade não há nada que nos reaproxime do cenário do ano passado. Se não chegarmos aos 5,7% em dezembro, há mais dois meses à frente com espaço para recuo”.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O resgate de uma antiga mas excelente ideia


Por Alexandre Espirito Santo - Valor 25/11

Em meados de 2005, o ex-ministro, e então deputado Delfim Netto, propôs uma discussão bastante interessante: a meta de superávit nominal zero para o governo brasileiro. Esquecida, como tantas outras boas ideias que surgem em nosso país, seria de bom tom resgatar esse debate, sobretudo nesse momento, quando o governo Dilma Rousseff indica flexibilizar a política econômica vigente.

Primeiro, seria importante discutir se há efetivamente uma mudança em curso na política atual, consubstanciada em âncora monetária - com metas de inflação -, câmbio flutuante e superávit primário. A despeito de o governo afirmar que não, estou convencido de que o artigo da presidente no "Financial Times", em setembro, aponta para essa correção de rota na condução da economia. Ademais, a guinada nos juros patrocinada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), no fim de agosto, além do IPI sobre automóveis importados, parece retirar eventuais dúvidas sobre esse novo arranjo macroeconômico.

O governo está se aproveitando - inteligentemente - de uma recaída da crise global para redimensionar as estratégias na economia. Na medida em que, na avaliação do Banco Central, haverá um viés deflacionário mundial, "a oportunidade é agora". E a base dessa mudança é focar no que seria o principal problema: reduzir os juros estratosféricos.

Os efeitos perversos dos absurdos patamares de taxas de juros reais praticadas no Brasil são as diminutas taxas históricas de investimento e de crescimento da nossa nação. É o investimento que garante a um país o crescimento sustentável, com a expansão da oferta de bens e serviços e o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) potencial. A teoria comprova que a chave para a sustentabilidade de uma economia é o progresso tecnológico, que, em geral, demanda inversões de prazo de maturação mais longo.

Uma das mais significativas identidades da macroeconomia explicita que o ato de produzir bens de capital exige, por definição, uma poupança no mesmo montante. Em outras palavras, ex-post ambas se igualam. Portanto, seja ela doméstica - agentes privados e governo - ou externa - por meio de investimentos de não residentes no país - o fato é que o país precisa aumentar o seu nível de poupança. Vários são os estudos que demonstram que a melhor forma de se instaurar uma política pública visando o aumento do nível de poupança é por meio de uma gestão austera e eficiente dos gastos.

Uma questão fundamental quando se trata desse assunto é saber se a política fiscal brasileira atrapalhou o país na corrida pelo crescimento econômico? A resposta é afirmativa. Isso ocorre porque o aumento dos gastos públicos acentua o "crowding out" dos investimentos privados, eleva a carga tributária e as taxas reais de juros. Ademais, devido ao alto custo da dívida brasileira, o governo precisa se financiar com a emissão de nova dívida, disputando espaço com o setor privado pela poupança e criando um círculo vicioso.

Vários são os especialistas em contas públicas que demonstram que a eficiência do gasto governamental brasileiro pode ser considerada muito baixa, além de ser de má qualidade. Apesar da limitação imposta pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do aumento anual da folha de pessoal ficar restrito ao IPCA mais 1,5%, só no pagamentos de servidores públicos, o governo aloca um percentual expressivo - em torno de 12% - do PIB, enquanto os investimentos não chegam nem a 10% desse total. Na área de saúde e educação, bens considerados meritórios, a situação também não é nada confortável. Pesquisa do Ipea revela que são os investimentos nessas áreas que mais revertem para o crescimento, face ao elevado efeito multiplicador dos mesmos.

A consequência funesta do descontrole de gastos foi nos vermos obrigados a aumentar a carga tributária para um nível considerado de primeiro mundo. A sociedade brasileira recolhe aos cofres públicos mais de 35% do PIB em tributos. E ainda assim, rotineiramente, ventilam-se novos impostos ou a recriação de "zumbis", caso da CPMF.

Deve-se assinalar, igualmente, outro ponto fundamental: pelo atual regime, o Banco Central possui uma autonomia relativa - de fato, mas não de direito - para conduzir a política monetária, visando o combate contra a inflação. No momento em que a política monetária passa a contribuir para o resultado fiscal, a credibilidade da autoridade monetária tende a ser questionada.

Em outras palavras, o Banco Central poderia ser "induzido" pelo poder executivo a conduzir as taxas de juros visando uma meta fiscal e não mais ao combate contra a inflação. Portanto, é condição imperativa para a implantação dessa nova política fiscal a independência da autoridade monetária, reforçando que o sistema de metas de inflação não foi "jogado para escanteio".

Dentro dessa linha de raciocínio, apesar dos dogmas petistas, o governo da presidente deveria retomar a agenda de privatizações de estatais para acelerar a trajetória de queda da dívida mobiliária, sobretudo em setores essenciais, como é o caso de aeroportos (a variação da dívida líquida do setor público é também afetada pelo resultado de privatizações de ativos pertencentes ao Estado e por outras variações patrimoniais). O governo deveria, igualmente, insistir nas reformas, sobretudo da previdência e tributária.

O mais relevante de relançar tal proposta de superávit nominal zero é fazer com que a maioria do governo, além da sociedade como um todo, atine para a premência de se melhorar os componentes e a qualidade dos gastos públicos. Representaria, sem dúvida, uma evolução em termos de discussões sobre políticas fiscais em nosso país. Independentemente, entretanto, de qual meta será estabelecida, cria a mensagem da importância de se aprofundar o esforço fiscal, que parece ser a âncora que a presidente mira programar agora. Sendo assim, o objetivo de redução significativa da taxa de juros real, para padrões internacionais, seria facilitada e o Banco Central administraria com maior grau de liberdade a política monetária e a própria taxa de câmbio.

Alexandre Espirito Santo é economista da WAY Investimentos e professor do IBMEC-RJ. E-mail: aesanto@wayinvestimentos.com.br.

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CLASSE MÉDIA VAI PAGAR R$ 100 BILHÕES EM JUROS 25/11/2011 - 01:17:00 TEMPO: 00:02:51
Um levantamento feito pelo Governo Federal chegou a uma conclusão amarga: a classe média vai pagar, este ano, R$ 100 bilhões em juros. A nova classe média, que já é mais da metade da população e move a economia, vai gastar R$ 100 bilhões em juros este ano, mas acredita que vai pagar só R$ 3 bilhões.

TV: TV GLOBO DF PROGRAMA: JORNAL GLOBO APRESENTADOR: WILLIAM WAACK

ANALISTAS DEBATEM SOBRE A CRISE ECONÔMICA NA EUROPA E NOS EUA – PARTE 1 24/11/2011 - 21:45:00 TEMPO: 00:12:12
Em entrevista ao Espaço Aberto, o professor do Departamento de Economia da PUC/RIO, Márcio Garcia, e o professor e coordenador do Programa de Estudos Europeus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Frankilin Trein, falaram sobre a crise econômica internacional e seu impacto sobre a política dos países europeus. SONORA

*FRANKILIN TREIN, professor e coordenador do Programa de Estudos Europeus da Universidade Federal do Rio de janeiro

*MÁRCIO GARCIA, professor do Departamento de Economia da PUC/RIO

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: ESPAÇO ABERTO | APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO

ANALISTAS DEBATEM SOBRE A CRISE ECONÔMICA NA EUROPA E NOS EUA – PARTE 2 24/11/2011 - 22:00:00 TEMPO: 00:10:18
Em entrevista ao Espaço Aberto, o professor do Departamento de Economia da PUC/RIO, Márcio Garcia, e o professor e coordenador do Programa de Estudos Europeus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Frankilin Trein, falaram sobre a crise econômica internacional e seu impacto sobre a política dos países europeus.
SONORA
*FRANKILIN TREIN, professor e coordenador do Programa de Estudos Europeus da Universidade Federal do Rio de janeiro
*MÁRCIO GARCIA, professor do Departamento de Economia da PUC/RIO

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: ESPAÇO ABERTO | APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO

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Estoques altos podem comprometer atividade industrial no início de 2012


Valor 25/11
Os estoques voltaram a crescer na indústria em outubro, apesar dos esforços do setor para escoar a produção. Esse movimento deve resultar em uma atividade industrial mais fraca no começo de 2012. Na sondagem industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de outubro, 13 setores entre 25 analisados aumentaram a produção acumulada sobre o que havia sido planejado. E esse número está aumentando. Em setembro, eram dez setores.

Os resultados do varejo nos últimos dois meses do ano serão decisivos para definir o nível da produção no setor de móveis, cujo estoque está bem acima do planejado. "Houve uma queda forte nas vendas nos últimos dois meses e o comércio segurou as encomendas. No setor, o aumento do estoque nas fábricas é resultado do comportamento na ponta", diz Lipel Custódio, diretor da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel).

Na sondagem da CNI, a produção do setor passou de 50 pontos em setembro para 52,1 pontos, em uma escala que vai de 0 a 100, sendo que números acima de 50 representam produção acima do esperado. Ou seja, a atividade na indústria de mobiliário foi positiva, o que, somado às vendas mais baixas no varejo, contribuiu para que o estoque disparasse, passando de 53,6 para 57,1 pontos, bem acima do planejado para outubro. "E se não houver um ajuste no Natal, a queda na produção em janeiro ficará acima do normal", diz Custódio.

Os números da CNI mostram que os estoques da indústria estão acima do planejado desde novembro de 2010. O indicador está cada vez mais distante dos 50 pontos, considerado o ponto de equilíbrio na pesquisa. O indicador ficou em 53,4 pontos em outubro, após fechar setembro em 52,9 pontos. A produção, no entanto, passa pelo movimento contrário. Outubro foi o segundo mês seguido em que a produção industrial ficou abaixo do planejado, registrando 48,8 pontos. Em outubro do ano passado, o indicador tinha registrado 53,6 pontos.

"A expectativa dos industriais para a demanda é positiva, mas esse otimismo está longe do que havia no mesmo período do ano passado. Se o ajuste do estoque não ocorrer pelo aumento da demanda, haverá novos cortes na produção", diz Marcelo Azevedo, economista da CNI. "A tendência é que o fim do ano contribua para esse ajuste e que um menor número de setores continue acumulando estoques, mas há a possibilidade das expectativas serem frustradas."

No setor têxtil, que apresentou maior descasamento entre o estoque efetivo e o planejado (61,9 pontos em outubro), as importações têm prejudicado a produção industrial e contribuem para o acúmulo dos estoques, na opinião de Aguinaldo Diniz Filho, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). "O déficit do setor caminha para US$ 5,2 bilhões em 2011. No ano passado, o déficit ficou em US$ 3,5 bilhões. Essa diferença significa que cerca de 200 mil empregos deixaram de ser criados no país", diz. Segundo a Abit, a produção têxtil caiu 16,7% na comparação entre os meses de setembro deste ano e o de 2010, mas as vendas no varejo cresceram 0,6%, representadas principalmente pelas confecções chinesas.

Uma saída para as empresas na tentativa de adequar os estoques é aumentar o tempo de férias coletivas. Para isso, elas devem enviar aos sindicatos trabalhistas um comunicado até 15 dias antes da saída das férias, o que ainda não ocorreu com os representantes dos principais sindicatos de trabalhadores metalúrgicos no Estado de São Paulo nem com os trabalhadores do setor de eletroeletrônicos de Manaus. Porém, a Utilização da Capacidade Instalada (UCI) medida pela CNI indica uma atividade abaixo do potencial. Há três meses, a UCI está em 76%. Esse não é um bom índice para outubro. "A utilização dos parques industriais no quarto trimestre costuma ser mais forte que no terceiro. Não é uma boa notícia ver que outubro repetiu os dados dos dois meses anteriores", afirma Azevedo.

De acordo com a CNI, a Sondagem aponta para "um cenário negativo" no setor. De acordo com Azevedo, se não houver melhora no consumo de bens manufaturados nacionais, a produção deve continuar caindo. "A indústria está com estoques acumulados e o custo disso é alto, especialmente para as pequenas empresas, por terem menos capital de giro para manter esse volume", afirmou.

Diante do cenário de produção abaixo do esperado e de aumento dos estoques, as expectativas dos empresários recuaram no período. O otimismo em relação à demanda registrado em outubro foi de 53,3 pontos - o menor desde 2009. Os índices de expectativa de compra de matérias-primas, de número de empregados e de quantidade exportada também recuaram e ficaram abaixo da linha dos 50 pontos. Além da demanda fraca, a importação também atrapalha diz Azevedo. "A entrada de produtos importados não deixa que o consumo seja totalmente canalizado para a indústria nacional", afirmou.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

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BOVESPA OPERA EM ALTA DE 0,22% TEMPO: 00:02:00
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) opera em alta de 0,22%, com giro financeiro acima de R$ 1,9 bilhão. O dólar sobe 1,72%, negociado a R$ 1,89.

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: EDIÇÃO DAS 16 HORAS APRESENTADOR: LAIR RENNÓ

REPÓRTER NÚRIA SALDANHA TRAZ AS ÚLTIMAS INFORMAÇÕES DO MERCADO FINANCEIRO TEMPO: 00:04:30
Direto da BM&FBovespa, a repórter Núria Saldanha traz as últimas informações do mercado financeiro, com destaque para os mercados de câmbio.

TV: BAND NEWS | PROGRAMA: BAND NEWS TARDE | APRESENTADOR: CHRISTIANO BLOTA

PRODUÇÃO INDUSTRIAL E O USO DA CAPACIDADE INSTALADA RECUAM EM OUTUBRO, APURA CNI TEMPO: 00:01:00
Pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que o uso da capacidade instalada recuou para 43,9 em outubro. A produção industrial somou 48,8 pontos no mês passado, leve alta se comparada com o mês anterior, quando fechou em 48,6 pontos.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

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Corte de salário gera nova onda de greves na China



Por Rahul Jacob Financial Times, de Hong Kong

A China está diante de sua pior onda de distúrbios trabalhistas desde uma série de greves desvinculadas de comando sindical em fábricas de automóveis japonesas no ano passado. Desta vez, uma queda nos pedidos de exportações levaram fábricas a reduzir os pagamentos dos trabalhadores.

Mais de 10 mil operários em Shenzhen e Dongguan, os principais centros produtores para exportação na província meridional de Guangdong, entraram em greve nos últimos sete dias. Os mais recentes protestos eclodiram na terça-feira numa fábrica taiwanesa de computadores em Shenzhen.

Essa intensificação na agitação trabalhista é provavelmente o ponto mais significativo no movimento desde o verão de 2010, disse Geoffrey Crothall, do China Labour Bulletin (CLB), um grupo de defesa de trabalhadores com sede em Hong Kong.

As greves acontecem em meio aos crescentes temores com a economia mundial, que está sofrendo com a crise da dívida soberana europeia e a fraca recuperação nos EUA. Os temores em relação a economia chinesa também cresceram ontem depois que um índice que reflete a atividade do setor industrial compilado pelo HSBC caiu para níveis não vistos desde março de 2009 (leia texto abaixo). O governador em exercício de Guangdong disse na semana passada que as exportações caíram 9% em outubro em relação ao mês anterior.

Líderes provinciais também estão sendo alvo de protestos generalizados por parte de agricultores devido à ocupação de terras.

Cerca de 5 mil residentes na cidade de Wukan marcharam até os escritórios do governo em protesto pacífico na segunda-feira.

As fábricas estão cortando horas extras de que os trabalhadores dependem para complementar seus modestos salários-base, depois da queda nas encomendas do exterior. Segundo o CLB, o salário-base médio dos trabalhadores no setor de eletrônicos é de cerca de 1.500 yuans (US$ 236) por mês, mas sobe para 2.500 yuans com as horas extras. O salário-base sozinho nunca é suficiente, disse Crothall.

Os protestos na terça vieram na esteira de uma manifestação de manifestação maior, na semana passada, numa fábrica de calçados em Dongguan fornecedora da Nike e da Adidas. Cerca de 7.000 trabalhadores da fábrica taiwanesa, de propriedade de Pou Chen, opuseram-se a um corte nas horas extras e à decisão da empresa de transferir parte da carga de trabalho para outras fábricas no interior da China e para o Vietnã, onde a mão de obra é mais barata.

"Fomos obrigados a retornar à fábrica", disse um operário. "Mas só ficamos sentados lá. Ninguém está operando as máquinas."

O trabalhador, que não quis ser identificado, disse que o governo local assumiu uma posição dura na negociação e tomou partido da gerência da fábrica.



Atividade industrial aponta para desaceleração



Por Agências internacionais
O setor industrial da China teve em novembro o pior desempenho desde março de 2009, de acordo com dados preliminares do Índice dos Gerentes de Compras. A freada na segunda maior economia do mundo teve impacto negativo nos mercados, deixando os investidores apreensivos com a possibilidade de uma nova recessão global.

O índice (PMI, na sigla em inglês), que é compilado pelo HSBC e funciona como um sinalizador do nível de atividade nos próximos meses, caiu de 51 pontos em outubro para 48 - números abaixo de 50 indicam contração. O resultado reflete um enfraquecimento da economia interna, com uma queda na produção e nas encomendas que não foi contrabalançada pelos novos contratos para exportação. Embora ainda esteja sujeito a revisão, o número aumenta a expectativa por um possível afrouxamento monetário no país.

"A queda do PMI implica mais desaceleração da produção industrial à frente", disse em comunicado o economista-chefe do HSBC para a China, Hongbin Qu. "Como a inflação deverá arrefecer a um ritmo mais rápido do que o esperado, isso deixará mais espaço para que Pequim ponha em prática medidas seletivas de afrouxamento".

Outros analistas expressaram maior pessimismo com relação ao dado. "Trata-se de mais uma confirmação de que a atividade não está apenas consolidando-se, mas contraindo-se continuamente", disse o economista-chefe do ING para a Ásia, Tim Condon. Ele acrescentou que Pequim pode ter de migrar de uma política de ajuste fino para um "afrouxamento claro".

Para o economista Zhou Hao, da ANZ, a China "pode ter de reduzir o compulsório bancário já no fim deste mês para facilitar as condições de liquidez". O país, segundo ele, precisa dar uma resposta rápida aos riscos de queda da atividade, já que suas exportações estão sentindo o efeito da deterioração da economia global.

Barbas de molho


Por Carlos Lessa - Valor 24/11

Sou de uma geração treinada em ler nas entrelinhas. Vivi as longas décadas de regimes ditatoriais latino-americanos e aprendi a pesquisar as intenções nos discursos oficiais. O dr. Ulysses Guimarães me ensinou que se deve prestar atenção aos silêncios nos discursos.

Percebo uma crescente preocupação da presidente Dilma com a China e suas pretensões geopolíticas e geoeconômicas. Na reunião do G-20, a presidente declarou sua preocupação com a ausência de compras chinesas de produtos industriais brasileiros (leia-se, nas entrelinhas, que o Brasil é exportador de alimentos e matérias-primas sem processamento: soja em grão, minério de ferro bruto, couro de vaca sem curtição etc). Em passado relativamente recente, exportamos geradores para a grande usina do Rio Amarelo; agora, estamos importando geradores da China. Vendemos aviões da Embraer. Bobamente, aceitamos instalar uma filial na China; os chineses clonaram a fábrica da Embraer e, hoje, competem com o avião brasileiro no mercado mundial. Esta semana, a presidência declarou sua preocupação com a tendência chinesa à aquisição de grandes glebas agrícolas no Brasil. A percepção presidencial não resolve o problema das relações Brasil-China, porém já é meio caminho andado que o poder executivo nacional tenha aquelas dimensões presentes.

O enigma chinês é fácil decifrar. O Brasil cresceu, de 1930 a 1980, 7% ao ano. Depois dessas décadas, mergulhamos na mediocridade e patinamos com uma taxa média ridícula de 2,5%. A China, nas últimas décadas, vem crescendo anualmente entre 9% e 10%. Entretanto, está em situação potencialmente pior que o Brasil. Hoje, mais de 80% da população brasileira está em áreas urbanas e 50% em metropolitanas e nem chegamos aos 200 milhões de habitantes. A China tem uma população de 1,34 bilhão, sendo que menos de 50% estão na área urbana. Como a renda média do chinês rural é um terço da do chinês urbano, é inexorável uma transferência equivalente a duas vezes a população brasileira para as cidades chinesas, nos próximos 20 anos. É fácil entender o sonho de urbanização do chinês rural. A periferia urbana das cidades chinesas já está "favelizada".

Sabemos que o Brasil tem uma péssima distribuição de renda e riqueza. Houve uma melhoria da participação dos salários na renda nacional, que evoluiu, desde 2000, de 34% para 39%. A elevação do poder de compra dos salários foi importante, entretanto o leque salarial se tornou mais desigual e houve pouca geração de empregos de boa qualidade. O salário médio brasileiro é muito baixo, entretanto é, por mês, igual ao limite de pobreza chinês ao ano (cerca de €150), isto é, o brasileiro pobre ganha 12 vezes mais que o chinês pobre. Nosso governo fala de uma "nova classe média" e esconde que o lucro real dos grandes bancos brasileiros cresceu 11% por ano no período FHC e 14% durante os dois mandatos do presidente Lula. Enquanto os colossais bancos chineses têm uma rentabilidade patrimonial inferior a 10%, os bancos brasileiros chegam a 20%.

É impensável o futuro demográfico chinês. No passado, cada família só podia ter um filho; agora, essa regra está sendo relaxada. A urbanização e a industrialização chinesas já comprometeram o lençol freático da China do Norte. Com restrições de água, e necessitando transferi-la cada vez mais para a sede da indústria e população urbana, a China não produzirá alimentos suficientes. Se o consumo interno da China crescer cada vez mais, haverá falta não só de água, mas também de energia fóssil e hidráulica, além de, obviamente, todo um elenco de matérias-primas.

O planejamento estratégico de longo prazo da China é para valer. O projeto geopolítico e a geoeconômico chinês está transformando a África e parte da Ásia do sudeste em fronteira fornecedora de alimentos e matérias-primas. Em busca de autossuficiência de minério de ferro, a China já está desenvolvendo as enormes reservas do Gabão. A petroleira chinesa já está nas reservas de petróleo de gás do coração da África e a ocupação econômica de Angola é prioridade diplomática e financeira da China. O extremo sul da América Latina é objeto de desejo expansionista chinês, que se propôs a fazer e operar uma nova ferrovia ligando Buenos Aires a Valparaíso, perfurando um túnel mais baixo na Cordilheira dos Andes. O Chile - com pretensão de se converter na "Singapura" do Pacífico Sul - e os interesses agro-exportadores argentinos adoram a ideia. Carne, soja, trigo, madeira, pescado e cobre estarão na periferia da China do futuro. A presidência argentina é relutante em relação a esse projeto, porém o Mercosul está sob o risco de se converter, dinamicamente, em pura retórica.

O Império do Meio, unificado pela dinastia Han (ainda antes de Cristo), atravessou séculos com Estado centralizado e burocracia profissional estruturada. No século XIX, a China balançou pela penetração da Inglaterra vitoriana; enfrentou a perfídia mercantil do ópio controlado pela Índia britânica. Sua república, no século XX, foi ameaçada pela expansão japonesa, e somente após a Segunda Guerra Mundial conseguiu, com o Partido Comunista Chinês (PCC) restaurar a centralidade.

Com um pragmatismo secularmente desenvolvido, a China combinou o Estado hipercontrolador com a "economia de mercado". "Casou" com os EUA e criou um G-2, aonde mais de 3 mil filiais americanas produzem na China e exportam para o mundo (70% das exportações de produtos industriais são de filiais americanas). O superávit comercial chinês é predominantemente aplicado em títulos do Tesouro. Esse é um sólido matrimônio, em que os cônjuges podem até brigar, mas não renegam a aliança mutuamente conveniente. Enquanto isso, a China repete a proposta da Inglaterra vitoriana para a periferia mundial: fonte de matérias-primas e alimentos, a periferia mundial é, progressivamente, endividada com os bancos chineses e seu espaço econômico é ocupado por filiais da China. A Revolução Meiji, que modernizou e industrializou o Japão, está em plena marcha na China, que procura ser a campeã mundial em ciência e tecnologia. A estratégia da China combina as chaves do sucesso da Inglaterra vitoriana com a prioridade científico-tecnológica japonesa.

Que a China faça o que quiser, porém o Brasil não deve se converter na "bola da vez" da periferia chinesa. País tropical, com enormes reservas de terra agriculturável, água e fontes de energia fóssil e hidrelétrica, imagine-se a prioridade estratégica para o planejamento chinês em sua marcha pela periferia.

O discurso da globalização, a fantasia da "integração competitiva", a ilusão de ser "celeiro do mundo" com brasileiros ainda famintos, e a atrofia da soberania nacional podem vir a ser um discurso de absorção da proposta neocolonizadora da China.

Leio, nas palavras da presidente, uma percepção do risco do "conto do vigário" chinês. Temo os vendilhões da pátria, entregando energia e alimentos para o neo-sonho imperial.

Carlos Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES. E-mail: carlos-lessa@oi.com.br.