quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Barbas de molho


Por Carlos Lessa - Valor 24/11

Sou de uma geração treinada em ler nas entrelinhas. Vivi as longas décadas de regimes ditatoriais latino-americanos e aprendi a pesquisar as intenções nos discursos oficiais. O dr. Ulysses Guimarães me ensinou que se deve prestar atenção aos silêncios nos discursos.

Percebo uma crescente preocupação da presidente Dilma com a China e suas pretensões geopolíticas e geoeconômicas. Na reunião do G-20, a presidente declarou sua preocupação com a ausência de compras chinesas de produtos industriais brasileiros (leia-se, nas entrelinhas, que o Brasil é exportador de alimentos e matérias-primas sem processamento: soja em grão, minério de ferro bruto, couro de vaca sem curtição etc). Em passado relativamente recente, exportamos geradores para a grande usina do Rio Amarelo; agora, estamos importando geradores da China. Vendemos aviões da Embraer. Bobamente, aceitamos instalar uma filial na China; os chineses clonaram a fábrica da Embraer e, hoje, competem com o avião brasileiro no mercado mundial. Esta semana, a presidência declarou sua preocupação com a tendência chinesa à aquisição de grandes glebas agrícolas no Brasil. A percepção presidencial não resolve o problema das relações Brasil-China, porém já é meio caminho andado que o poder executivo nacional tenha aquelas dimensões presentes.

O enigma chinês é fácil decifrar. O Brasil cresceu, de 1930 a 1980, 7% ao ano. Depois dessas décadas, mergulhamos na mediocridade e patinamos com uma taxa média ridícula de 2,5%. A China, nas últimas décadas, vem crescendo anualmente entre 9% e 10%. Entretanto, está em situação potencialmente pior que o Brasil. Hoje, mais de 80% da população brasileira está em áreas urbanas e 50% em metropolitanas e nem chegamos aos 200 milhões de habitantes. A China tem uma população de 1,34 bilhão, sendo que menos de 50% estão na área urbana. Como a renda média do chinês rural é um terço da do chinês urbano, é inexorável uma transferência equivalente a duas vezes a população brasileira para as cidades chinesas, nos próximos 20 anos. É fácil entender o sonho de urbanização do chinês rural. A periferia urbana das cidades chinesas já está "favelizada".

Sabemos que o Brasil tem uma péssima distribuição de renda e riqueza. Houve uma melhoria da participação dos salários na renda nacional, que evoluiu, desde 2000, de 34% para 39%. A elevação do poder de compra dos salários foi importante, entretanto o leque salarial se tornou mais desigual e houve pouca geração de empregos de boa qualidade. O salário médio brasileiro é muito baixo, entretanto é, por mês, igual ao limite de pobreza chinês ao ano (cerca de €150), isto é, o brasileiro pobre ganha 12 vezes mais que o chinês pobre. Nosso governo fala de uma "nova classe média" e esconde que o lucro real dos grandes bancos brasileiros cresceu 11% por ano no período FHC e 14% durante os dois mandatos do presidente Lula. Enquanto os colossais bancos chineses têm uma rentabilidade patrimonial inferior a 10%, os bancos brasileiros chegam a 20%.

É impensável o futuro demográfico chinês. No passado, cada família só podia ter um filho; agora, essa regra está sendo relaxada. A urbanização e a industrialização chinesas já comprometeram o lençol freático da China do Norte. Com restrições de água, e necessitando transferi-la cada vez mais para a sede da indústria e população urbana, a China não produzirá alimentos suficientes. Se o consumo interno da China crescer cada vez mais, haverá falta não só de água, mas também de energia fóssil e hidráulica, além de, obviamente, todo um elenco de matérias-primas.

O planejamento estratégico de longo prazo da China é para valer. O projeto geopolítico e a geoeconômico chinês está transformando a África e parte da Ásia do sudeste em fronteira fornecedora de alimentos e matérias-primas. Em busca de autossuficiência de minério de ferro, a China já está desenvolvendo as enormes reservas do Gabão. A petroleira chinesa já está nas reservas de petróleo de gás do coração da África e a ocupação econômica de Angola é prioridade diplomática e financeira da China. O extremo sul da América Latina é objeto de desejo expansionista chinês, que se propôs a fazer e operar uma nova ferrovia ligando Buenos Aires a Valparaíso, perfurando um túnel mais baixo na Cordilheira dos Andes. O Chile - com pretensão de se converter na "Singapura" do Pacífico Sul - e os interesses agro-exportadores argentinos adoram a ideia. Carne, soja, trigo, madeira, pescado e cobre estarão na periferia da China do futuro. A presidência argentina é relutante em relação a esse projeto, porém o Mercosul está sob o risco de se converter, dinamicamente, em pura retórica.

O Império do Meio, unificado pela dinastia Han (ainda antes de Cristo), atravessou séculos com Estado centralizado e burocracia profissional estruturada. No século XIX, a China balançou pela penetração da Inglaterra vitoriana; enfrentou a perfídia mercantil do ópio controlado pela Índia britânica. Sua república, no século XX, foi ameaçada pela expansão japonesa, e somente após a Segunda Guerra Mundial conseguiu, com o Partido Comunista Chinês (PCC) restaurar a centralidade.

Com um pragmatismo secularmente desenvolvido, a China combinou o Estado hipercontrolador com a "economia de mercado". "Casou" com os EUA e criou um G-2, aonde mais de 3 mil filiais americanas produzem na China e exportam para o mundo (70% das exportações de produtos industriais são de filiais americanas). O superávit comercial chinês é predominantemente aplicado em títulos do Tesouro. Esse é um sólido matrimônio, em que os cônjuges podem até brigar, mas não renegam a aliança mutuamente conveniente. Enquanto isso, a China repete a proposta da Inglaterra vitoriana para a periferia mundial: fonte de matérias-primas e alimentos, a periferia mundial é, progressivamente, endividada com os bancos chineses e seu espaço econômico é ocupado por filiais da China. A Revolução Meiji, que modernizou e industrializou o Japão, está em plena marcha na China, que procura ser a campeã mundial em ciência e tecnologia. A estratégia da China combina as chaves do sucesso da Inglaterra vitoriana com a prioridade científico-tecnológica japonesa.

Que a China faça o que quiser, porém o Brasil não deve se converter na "bola da vez" da periferia chinesa. País tropical, com enormes reservas de terra agriculturável, água e fontes de energia fóssil e hidrelétrica, imagine-se a prioridade estratégica para o planejamento chinês em sua marcha pela periferia.

O discurso da globalização, a fantasia da "integração competitiva", a ilusão de ser "celeiro do mundo" com brasileiros ainda famintos, e a atrofia da soberania nacional podem vir a ser um discurso de absorção da proposta neocolonizadora da China.

Leio, nas palavras da presidente, uma percepção do risco do "conto do vigário" chinês. Temo os vendilhões da pátria, entregando energia e alimentos para o neo-sonho imperial.

Carlos Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES. E-mail: carlos-lessa@oi.com.br.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Euro-românticos maçantes e cruéis - Paul Krugman - Estadao.com.br



Na zona do euro, avanço ou ruína


Por Martin Wolf - Valor 23/11

Os investidores estão cada vez mais relutantes em confiar em papéis da dívida soberana de muitos países da zona do euro. Essa é a lição mais importante dos recentes acontecimentos. Muitos políticos europeus querem declarar guerra aos mercados. Eles precisam lembrar-se que desejam que as pessoas comprem títulos de suas dívidas.

Na segunda-feira, os spreads em relação aos Bunds alemães eram superiores a 60 pontos-base (0,6 ponto percentual) na Holanda e na Finlândia, 152 pontos na Áustria, 155 pontos na França, 292 pontos na Bélgica, 466 pontos na Espanha, 480 pontos na Itália, 650 pontos na Irlanda, 945 pontos em Portugal e 2.554 na Grécia. Para a maioria dos membros, esses spreads são administráveis. Mesmo a Itália e a Espanha poderiam conviver com os rendimentos atuais por algum tempo, embora não indefinidamente. O preocupante é a intensificação das tensões nos mercados de dívida pública na zona do euro: a Irlanda é o único membro que registrou um declínio significativo nos spreads, apesar de ainda estarem em um nível punitivo.

Existem três explicações para isso. A primeira é que os investidores percebem que uma série de países da zona euro vivem sob um risco de insolvência muito maior do que se pensava.

A segunda é que os países da zona do euro não dispõem de um verdadeiro emprestador de última instância. Eles são o que Charles Goodhart, da London School of Economics, denomina "soberanos subsidiários". Sua dívida embute um risco de inadimplência pura e simples e não de mera monetização. Temendo um calote, os investidores criam iliquidez, que se transforma em insolvência. Quanto maior a proporção de credores estrangeiros, mais plausível torna-se um default: os investidores sabem que os políticos mostram-se menos inclinados a dar um calote em seus próprios cidadãos do que em estrangeiros. Mas, em consequência da união monetária, estrangeiros detém uma proporção maior de dívida soberana do que antes: metade da dívida pública italiana foi contratada no exterior.

A terceira explicação é que há risco de ruptura. Nenhuma união monetária é irrevogável. Até mesmo países não sobrevivem para sempre. Mas uma união monetária entre os Estados discordantes é muito mais frágil do que um país.

A primeira explicação não funciona. A posição de endividamento e do déficit espanhol não é, obviamente, pior do que a do Reino Unido. No entanto, o Reino Unido está pagando apenas 2,2% em títulos de 10 anos, contra 6,6% no caso da Espanha. A explicação para esse abismo tem de ser os riscos de falta de liquidez e de ruptura. Esses riscos também estão inter-relacionadas: se iliquidez for a causa de um calote, os países poderão abandonar a moeda única. Isso não é inevitável. Mas é imaginável, tendo em vista o enorme choque resultante do calote de um país importante.

Então, o que deve ser feito? Na semana passada, moderei um debate sobre esse tema numa conferencia em homenagem a Paul de Grauwe, da Universidade de Leuven, na Bélgica. Concluí que a zona do euro enfrenta três desafios interligados. O primeiro é administrar a falta de liquidez nos mercados de dívida pública. A segunda é reverter a divergência de competitividade manifesta desde o lançamento do euro. A terceira é criar um regime capaz de garantir relações econômicas menos instáveis entre seus membros. Por trás dessa lista há uma questão simples: para que confiem no futuro do euro, as pessoas têm de acreditar que os países membros terão um futuro melhor com, do que sem, o euro. Examinemos cada um desses pontos.

Em primeiro lugar, os países vulneráveis simplesmente não podem, por si sós, eliminar o risco de iliquidez ou de ruptura. Promessas de austeridade que tendam a enfraquecer a economia minam a credibilidade, em vez de fortalecê-la. As taxas de juro têm de ser contidas em níveis administráveis. Como isso pode ser feito é uma questão de segunda ordem. Alguma combinação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) com o Banco Central Europeu (BCE) parece um caminho lógico, como sugerem Peter Bofinger, da Universidade de Würzburg, e George Soros. Infelizmente, intervenções potentes são improváveis, devido a uma resistência ideológica equivocada. Soberanos vulneráveis serão deixados na corda bamba. Mas se os spreads forem limitados, embora não eliminados, os países continuarão a ter um forte incentivo para conter seus déficits e reduzir suas dívidas.

Em segundo lugar, grande parte da perda de competitividade dos países periféricos precisa ser revertida. Mas como a Alemanha deve saber, com base em sua experiência na década passada, isso seria muito mais fácil se a inflação fosse relativamente elevada nos países parceiros. O BCE deveria procurar assegurar uma demanda suficiente nos próximos anos para facilitar a melhoria da competitividade necessária nos países periféricos. Sob essa perspectiva, o BCE não foi bem-sucedido. O crescimento da massa monetária entrou em colapso e o Produto Interno Bruto, tanto real como nominal, tem se mostrado excessivamente fraco.

Agora que a austeridade fiscal é a regra, o BCE deveria estar praticando uma política monetária fortemente expansionista, em vez da mais restritiva política entre todos os grandes bancos centrais dos países avançados. Nas atuais circunstâncias, o mantra do BCE sobre estabilidade de preços a médio prazo cria o risco de tornar-se letal. Como disse-me uma autoridade em Bruxelas pouco tempo atrás, o BCE corre o risco de ser lembrado pelos historiadores como o magnificamente ortodoxo banco central de uma união monetária fracassada. É assim que os membros de seu conselho querem ser lembrados? Suspeito que não.

Infelizmente, o ajuste pode, em alguns casos, não dar certo. Nesse caso, a zona do euro teria de enfrentar uma de três alternativas terríveis: um membro permanente deprimido; um membro permanentemente numa UTI externa; ou a saída de um membro. Não conheço nenhuma maneira de tornar essas opções palatáveis.

Finalmente, consideremos o futuro regime político e econômico para a zona do euro. Parece-me que três lições se destacam em meio à crise. Primeiro: como salientou André Sapir, da Université Libre de Bruxelles, o setor financeiro da zona do euro deve ser fiscalizado por uma agência regulamentadora comum e apoiado por uma autoridade comum fiscal. Segundo: no mínimo, a zona do euro se beneficiaria enormemente de um mercado de títulos unificado que cobrisse uma grande parte da dívida dos países membros. Finalmente, é preciso haver disciplina mais efetiva sobre as políticas estruturais e fiscais dos países membros. Mas nenhuma dessas opções seria aceitável para as democracias sem uma substancial adoção de união política. Entretanto, tudo o que temos visto e ouvido recentemente sugere que esse desdobramento, descartado na década de 1990, seria ainda mais difícil agora.

Em suma, a zona do euro tem que avançar ou submeter-se aos riscos de uma desintegração. Em artigo que escrevi há 15 anos, argumentei que "não são apenas a ausência de uma cultura política compartilhada e de um processo político comum o obstáculo para o sucesso duradouro; a União Europeia também não dispõe das estruturas constitucionais para legitimar o exercício centralizado de poderes politicamente delicados". A zona do euro precisa agora provar que estou errado. (Tradução de Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Economists Statement in Support of OWS


Lista de economistas que apoiam o movimento já conta com mais de 170 nomes.

Statement on OWS « Econ4

terça-feira, 22 de novembro de 2011

TV ON LINE


FMI ANUNCIA MECANISMO PARA EVITAR CONTAMINAÇÃO DE ECONOMIAS PELA CRISE TEMPO: 00:01:00
O Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou a criação de um novo mecanismo de financiamento para tentar evitar que uma crise em um país acabe contagiando outras economias. A medida - chamada de Linha Preventiva de Liquidez - coloca à disposição dos países do FMI um crédito a curto prazo para cobrir necessidades urgentes. Cada país pode pegar emprestado até 10 vezes o valor de sua contribuição ao fundo, mas deve cumprir com as exigências básicas da instituição.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: EDIÇÃO DAS 16 HORAS | APRESENTADOR: LAIR RENNÓ

BOVESPA OPERA EM QUEDA SUPERIOR A 1% TEMPO: 00:04:00
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) opera em queda superior a 1%. A desvalorização da Bovespa no mês está perto de 4%. O dólar sobe 0,16%, cotado a R$ 1,81. A valorização no mês já passa de 6%.

Em entrevista ao Conta Corrente, da Globo News, Eduardo Coutinho, da Platina Investimentos, falou sobre a queda de juros e do crescimento do Brasil.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

RELACIONADOS: BOLSA DE VALORES

Mercado imobiliário esfria na China e ameaça os bancos


Por Simon Rabinovitch | Financial Times, de Pequim

O número de transações nos mercados imobiliários nas maiores cidades chinesas caiu para níveis perigosamente baixos, segundo documentos de agências reguladoras obtidos pelo jornal britânico "Financial Times".

Segundo os documentos, no início deste ano a Comissão Reguladora para o Setor Bancário da China ordenou aos bancos domésticos que avaliassem o impacto de uma queda de 30% nas transações imobiliárias, em "testes de estresse", com o objetivo de verificar a saúde do sistema financeiro chinês.

Embora o governo venha tentando conter os altíssimos preços dos imóveis, um desaquecimento no mercado imobiliário chinês produziria um substancial efeito cascata na economia mundial. A construção civil foi responsável por mais de 13% da atividade econômica chinesa no ano passado.

Em abril, a CRSBC instruiu os bancos para que simulassem o impacto, nas suas carteiras de empréstimos, de uma queda de 50% nos preços (dos imóveis) e também de uma queda de 30% no volume de transações.

Mas em outubro as transações com imóveis caíram 39%, em relação a 2010, nas 15 maiores cidades chinesas, segundo dados governamentais. Em todo o país, as transações caíram 11,6%, numa aceleração iniciada com uma queda de 7% em setembro.

A queda nas transações afetou os fluxos de caixa das incorporadoras imobiliárias e, em alguns casos, também a capacidade delas de quitar empréstimos bancários. Uma crescente inadimplência, após a onda de concessões de empréstimos em 2009 e 2010, grande parte dos quais acabou alocada no setor imobiliário, foi citada pelo Fundo Monetário Internacional, neste mês, como um dos maiores riscos para o setor financeiro chinês.

A CRSBC não divulgou os resultados dos testes de estresse e recusou-se a comentá-los. Mas um analista que avaliou os documentos disse que eles não levaram em conta o impacto que menos transações e diminuição dos preços das propriedades teriam sobre as garantias oferecidas aos bancos.

"Se as incorporadoras não conseguirem vender propriedades e os governos locais não conseguirem vender terrenos, é difícil ver por que os bancos estariam em melhor situação para desempenhar quaisquer duas tarefas sob tais condições", disse o analista.

Reservadamente, as autoridades fiscalizadoras chinesas admitem que os testes precisam ser aperfeiçoados. Um alto funcionário disse que os bancos muitas vezes desconhecem que empréstimos concedidos a empresas estatais foram canalizados para subsidiárias atuantes no setor imobiliário e reconheceu que o impacto sobre as garantias dos empréstimos não foram integralmente levados em conta.

Os pontos fracos nos cenários chineses lembram os problemas com os testes de estresse realizados na União Europeia, quando as autoridades reguladoras subestimaram o possível impacto de uma crise de dívida soberana.

O temor é que o impacto do estouro de uma bolha imobiliária chinesa poderia produzir uma crise tão dramática quanto a que está em evolução na Europa.

Um esfriamento no mercado imobiliário é exatamente o que Pequim desejava quando lançou uma campanha de contenção para segurar a disparada dos preços. Mas a preocupação é que o governo tenha subestimado o impacto produzido por suas medidas.

As medidas, inclusive a exigência de pagamento de entradas maiores, levaram quase dois anos para se fazerem sentir. Mas há o temor de que o governo terá problemas para mudar de marcha rapidamente se for necessário reagir. A sensível queda no número de compradores também está pesando sobre o setor de construção, o que poderia representar um golpe desfavorável sobre a economia.

Os efeitos secundários mal foram analisados nos testes de estresse. Os bancos foram instruídos a catalogar uma série de empréstimos relacionados ao setor imobiliário: empréstimos a construtoras, financiadoras imobiliárias e a indústrias que suprem o setor - de fornecedoras de cimento a fabricantes de móveis. Mas a metodologia pressupõe que, embora os preços das casas caiam, o crescimento econômico em geral permanecerá mais ou menos intacto.

"Antes que os preços dos imóveis caiam 30%, é preciso considerar a queda nas vendas e, mais importante, a queda na atividade de construção. Isso não apenas impactará a siderurgia e a fabricação de cimento, como também significaria uma queda na produção industrial, no investimento e no emprego", disse um analista ao "Financial Times".

Outro analista disse que os testes de estresse não deram conta de analisar de que maneira uma queda repercutiria através do sistema bancário por resultar em queda nas vendas de terrenos e em seus preços e no valor das garantias bancárias. Mas as garantias oferecidas ao sistema bancário chinês são terrenos ou imóveis, e portanto uma queda poderia forçar baixas contábeis generalizadas.

Reservadamente, autoridades reguladoras chinesas admitem que os testes de estresse precisam ser melhorado e que não se sabe a verdadeira escala da exposição dos bancos a uma queda no setor imobiliário.

Preços de exportação recuam e devem cair mais até 2012


Por Sergio Lamucci De São Paulo - VALOR 22/11

Depois da alta forte e contínua iniciada em meados de 2009, os preços das exportações brasileiras inverteram a mão nos últimos dois meses, dando início a uma trajetória de queda que deve se estender ao longo de 2012. Em setembro e outubro, as cotações recuaram 1% em relação ao nível de agosto, segundo números da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). É uma baixa pouco expressiva, mas emblemática, dizem analistas. Nos últimos anos, o aumento de preços garantiu saldos comerciais robustos, sustentados especialmente pela disparada das commodities, a despeito do crescimento expressivo das importações. No acumulado do ano, contudo, a alta ainda é significativa, de 25,5% na comparação com o mesmo período de 2010.

As cotações das commodities, que dominam a pauta de exportações do Brasil, tendem a seguir em baixa daqui em diante, dadas as perspectivas de menor crescimento global, com provável recessão na Europa, uma economia americana ainda fraca e temores de alguma desaceleração da China. Especialistas apostam que os preços médios das vendas externas brasileiras em 2012 ficarão até 10% menores do que as deste ano. Como os preços da importação, que é concentrada em manufaturados, devem cair menos, os termos de troca vão piorar, levando a uma redução do superávit comercial.

Em outubro, houve queda dos preços de exportação de todas as categorias de produtos em relação ao mês anterior - de 0,3% dos básicos, 0,4% dos manufaturados e 2,4% dos semimanufaturados (a única das três em que as cotações haviam subido em setembro). Nessa última categoria, destacaram-se os recuos de 1,8% do óleo de soja em bruto e de 5,8% do alumínio. Como não têm um padrão sazonal definido, os preços de exportação de um mês podem ser comparados com o mês imediatamente anterior sem a necessidade de ajustes.

O economista-chefe da Funcex, Fernando Ribeiro, acredita que os preços de exportações devem de fato seguir em queda nos próximos meses, vendo os números de setembro e outubro como o início de uma tendência. Ele não espera, contudo, tombos acentuados. O baixo crescimento nos países desenvolvidos, com uma possível recessão na Europa, já estaria em alguma medida refletido na tendência dos preços, diz Ribeiro. Como a liquidez deve continuar elevada no mercado internacional e as economias emergentes, em especial a China, tendem a manter um ritmo de expansão ainda razoável, os preços dos produtos primários não vão despencar, avalia ele. Com base nesse cenário, que não contempla uma ruptura do porte da quebra do Lehman Brothers, ocorrida em setembro de 2008, o economista estima que os preços de exportação em 2012 podem ficar de zero a 5% menores do que a média de 2011.

Ribeiro destaca que os preços de exportação oscilam menos que as cotações das commodities nos mercados internacionais. Há contratos acertados com antecedência, e os exportadores tentam esperar momentos mais favoráveis para fechar negócios, nota ele. Não por acaso, os preços só caíram em setembro e outubro, reagindo com defasagem ao recuo dos produtos primários observado nos mercados. "A era de alta de preços internacionais chegou ao fim em abril de 2011. Faz sete meses que eles registram trajetória de declínio suave", como lembra o economista Fabio Silveira, sócio da RC Consultores. Segundo ele, a economia global está ajustando para baixo seus preços de equilíbrio, aos tempos de baixo crescimento que "conhecemos neste ano e vamos conhecer nos próximos".

O presidente em exercício da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, tem uma visão um pouco mais pessimista do que a de Ribeiro em relação aos preços de exportação. Segundo ele, o crescimento pouco animador nos EUA e muito fraco na Europa terá efeito não desprezível sobre os preços de commodities, que respondem por pouco mais de 70% da pauta de exportações do Brasil.

Para Castro, uma queda de 5% a 10% dos preços de exportações é factível, com a tendência de o recuo ser mais próximo de 10%. As cotações do minério de ferro e do complexo soja, que têm peso expressivo nas vendas externas, deverão ficar em níveis consideravelmente abaixo da média de 2011. "Os preços de praticamente todas as commodities atingiram o ápice neste ano", diz Castro. São níveis que não são mais sustentáveis no mundo de hoje.

Para Silveira, as cotações das exportações brasileiras "podem demorar muitos anos para retornar ao patamar do primeiro semestre de 2011", lembrando que eles também foram inflados por movimentos especulativos.

Saldo comercial pode diminuir até 50% no próximo ano

A esperada piora nos termos de troca (a relação entre preços de exportação e importação) vai derrubar o superávit comercial da casa de US$ 30 bilhões neste ano para US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões no ano que vem, acreditam especialistas em comércio exterior. Um recuo maior requer um tombo das commodities, que hoje não parece o cenário mais provável.

O economista Fabio Silveira, sócio da RC Consultores, acredita que os preços de exportação em 2012 ficarão 8% abaixo da média de 2011, enquanto o volume de vendas deve crescer 2%. Com isso, o valor das exportações cairia de US$ 255 bilhões para US$ 240 bilhões. As importações, por sua vez, devem ter queda menor, de US$ 225 bilhões para US$ 220 bilhões, com preços recuando 5% e os volumes aumentando 3%. Desse modo, o saldo comercial encolheria de US$ 30 bilhões em 2011 para US$ 20 bilhões em 2012.

Os preços de importação tendem a cair menos do que os de exportação, uma vez que o Brasil compra principalmente produtos manufaturados, bens cujas cotações costumam recuar com menos força que as commodities, por serem menos voláteis. Em 2009, sob o efeito do agravamento da crise do ano anterior, as cotações dos produtos básicos caíram 17,6% e as dos manufaturados, 5,9%.

O economista-chefe da Fundação Centro de Estudos de Comércio (Funcex), Fernando Ribeiro, acredita que, na média, os preços de importação podem ficar estáveis em relação aos deste ano. Nas suas contas, que incluem cotações de exportações estáveis ou com uma queda de até 5%, isso faria o superávit comercial encolher da casa de US$ 30 bilhões para US$ 20 bilhões ou um pouco menos, previsão muito próxima da de Silveira.

Com base em estimativas bastante preliminares, o presidente em exercício da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto Castro, considera possível um saldo comercial entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões no ano que vem - para este ano, projeta um superávit US$ 28 bilhões.

A possibilidade de um déficit comercial em 2012 parece pequena. Transformar um superávit de US$ 30 bilhões num ano num rombo exigiria um tombo muito forte das commodities, o que não pode ser descartado, especialmente dada as incertezas na Europa, mas é hoje visto como improvável. A concentração da pauta de exportações em produtos primários, porém, é um risco, como ressalta Castro. O país fica exposto às oscilações de preços fora do seu controle. Um tombo mais acentuado das commodities, em caso de agravamento do cenário externo, poderia derrubar o superávit para menos de US$ 10 bilhões, diz Ribeiro.

PIB nominal?


Por Antonio Delfim Netto - Valor 22/11

A última reunião do G-20 terminou de maneira decepcionante. Foi quase uma tertúlia lítero-musical. Terminou, como todas elas, com a convocação da próxima... A carência de ideias, o despreparo das propostas, a visível insegurança das principais lideranças internacionais e a aparente alienação dos EUA com relação ao problema da Eurolândia orquestraram um espetáculo no mínimo assustador.

O Brasil, na minha opinião, saiu bem na foto. Colocou de forma séria o enorme problema dos desequilíbrios comerciais gerados por políticas cambiais claramente protecionistas de alguns países. Mais do que isso. Discreta, mas firmemente, referiu-se às distorções adicionais produzidas pelas disparidades abissais entre as políticas civilizatórias de proteção ao trabalho que as acompanham em alguns deles. Isso transforma a teoria das vantagens comparativas, que recomenda a liberdade absoluta de comércio, de uma bela história da carochinha numa peça de horror...

No mesmo momento, numa batalha de sites, blogs e "tutti quanti", alguns economistas exumam parte de uma velha ideia, desenvolvida por um grupo de Cambridge (Inglaterra) coordenado pelo competente James Meade (1907-1995, Nobel de 1977), que durante toda a sua vida preocupou-se em como transformar o conhecimento da economia em eficientes receitas para a política econômica.

Trata-se, no fundo, de dar às políticas fiscal, monetária, salarial e cambial não uma meta de inflação, mas uma meta para o Produto Interno Bruto Nominal, de forma que a sua partição entre o crescimento do PIB real e o aumento dos preços dependa da eficiência com que o poder incumbente cria as facilidades para o crescimento físico da economia.

Ao Banco Central, cabe garantir a liquidez para o cumprimento da meta do PIB nominal (PIBN). Quem tiver interesse arqueológico pode consultar o livro "Macro-Economic Policy" (London, 1989), de Weale, M.; Blake, A.; Christodoulakis, N.; Mead J. e Vines, D..

A sugestão é interessante, mas não é isenta dos mesmos grandes problemas que enfrentamos com o sistema de metas inflacionárias e a sua nova ênfase: é preciso cuidado e flexibilidade para controlar a inflação, ao mesmo tempo em que se avaliam os custos sociais das flutuações do PIB e do nível de emprego. No keynesianismo ortodoxo, a função da política econômica era manter um alto e estável nível da demanda global. Quando isso pressionasse a taxa de inflação, seria preciso utilizar políticas de rendas (salários e preços) e providenciar mudanças estruturais para eliminá-las.

No Novo Keynesianismo (de 1977), propõe-se o contrário: utilizar as políticas monetária e fiscal para manter o PIB nominal (PIBN) numa taxa de crescimento estabelecida e deixar por conta do poder incumbente as reformas estruturais das políticas de salário e de preços, para garantir que, enquanto existirem fatores de produção disponíveis, os aumentos de demanda global (PIBN) levem a um aumento do PIB real e não dos preços e dos salários.

A proposta era muito mais sofisticada e impunha uma segunda condição à política econômica: garantir um nível de investimento que leve ao crescimento da capacidade produtiva, porque - como dizem os autores -, "os formuladores da política econômica têm a tentação de controlar a taxa de inflação com expedientes que elevam o padrão de vida presente em detrimento do futuro".

O programa proposto é muito rico e no velho estilo de modelos simples e próximos da realidade. É interessante para os que aprenderam a duvidar das virtudes dos equilíbrios produzidos pelas "leis naturais do mercado perfeito" e já perderam a esperança que os "policy makers" são oniscientes e, portanto, devem ser onipotentes...

Na sua nova encarnação, a ideia de propor meta para o PIB nominal parece um "surto epidêmico", particularmente nos blogs de importantes economistas. A ideia circulou, sem repercussão, no início dos anos 80 do século passado, devido ao grande economista monetário Bennett McCallum.

Mais recentemente, tornou-se uma espécie de cruzada, depois que Scott Summer, David Beckworth e Paul Krugman a abraçaram, em seus blogs. Entre nós, o excelente economista João Marcus Marinho Nunes a vem defendendo há algum tempo e tem navegado com sucesso entre eles.

Provavelmente, esse movimento é apenas uma reação à evidente falta de imaginação das autoridades monetárias, particularmente o Fed, comandado por Ben Bernanke, que não consegue o suporte necessário de seus pares. Lembremos que o presidente Obama não conseguiu aprovar no Senado, até agora, a indicação de dois diretores do Fed. A situação está ficando muito incômoda.

Num artigo de elegância maliciosa, Christina Romer (que foi defenestrada pelos assessores econômicos de Obama da função de presidente do Council of Economic Advisers da Casa Branca) recomendava a Ben Bernanke que assuma um programa de meta de PIB nominal ("Dear Ben: It´s Time for Your Volcker Moment", "The New York Times", Oct. 29).

E, por último, a Goldman Sachs, em dois excelentes documentos ("US Economics Analyst", Oct. 12, e "Global Economics Weekly", Oct. 26), colocou a pasta de dente fora do tubo. Vai ser difícil colocá-la de volta...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Venda sobe, mas país patina no mercado chinês


Valor 21/11

A exportação brasileira para a China é cada vez maior, mas o Brasil não conseguiu avançar muito na fatia que ocupa entre as importações do país asiático.

Em 2009, a China tornou-se o principal parceiro do Brasil nas vendas ao exterior. De lá para cá, a dependência em relação ao país asiático aumentou a cada ano. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, no acumulado dos 12 meses terminados em junho daquele ano, o país asiático representava 11,04% do total embarcado pelo Brasil. Nos 12 meses terminados em junho do ano passado, a participação já era de 13,4%, e no mesmo período encerrado em junho deste ano avançou cinco pontos percentuais, para 16,2%.

Nesse mesmo período, porém, a participação do Brasil na importação total da China ficou praticamente estável. Saiu de 2,85% nos 12 meses encerrados em junho de 2009, caiu para 2,67% um ano depois e se recuperou para 2,81% em junho de 2011. As informações sobre a participação brasileira na importação chinesa são da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

"Isso mostra que, apesar do aumento da importância da China na exportação brasileira, ainda não conseguimos avançar muito em termos relativos nas importações chinesas", diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Em boa parte, diz, porque a pauta de exportação brasileira à China é concentrada em poucos produtos.

"A sensação de que estamos elevando consideravelmente as vendas à China se deve muito à alta de preço das commodities exportadas, como soja e minério de ferro. Isso não quer dizer que estamos ganhando fatia de mercado nas compras dos chineses", diz Castro.

Relatório do Observatório Brasil China, da CNI, mostra que o minério de ferro não aglomerado, principal produto exportado aos chineses pelo Brasil atualmente, não conseguiu ganhar espaço nas importações chinesas nos últimos anos. Em 2003, os brasileiros representavam 24,6% do mercado chinês do minério. No acumulado de 12 meses encerrados em junho deste ano, a fatia era de 23,4%.

Marcelo Azevedo, economista da CNI, explica que o Brasil perdeu uma oportunidade por não conseguir avançar mais em um mercado que cresceu na China, em média, 51,6% ao ano, de 2003 até o ano passado. O Brasil concorre com a Índia e com a Austrália no fornecimento de minério não aglomerado aos chineses.

Olhando as vendas brasileiras ao país asiático, porém, o minério de ferro não aglomerado foi a grande estrela em 2011. A participação desse item na pauta de exportação da China chegou a 38,7% do valor exportado no acumulado de janeiro a setembro. No mesmo período do ano passado, a fatia era de 33,9%. Em 2003, o item significava apenas 11,5% do total vendido aos chineses.

"Para ganhar mais espaço na importação chinesa é preciso ter maior diversificação. A pauta brasileira, ao contrário, ficou cada vez mais concentrada. Mais ainda quando se considera a pauta para a China", diz Azevedo.

Castro lembra que a grande avalanca do crescimento da exportação brasileira aos chineses em 2011 foi o preço. O saldo do comércio entre Brasil e China bateu em US$ 10 bilhões no acumulado até outubro, praticamente o dobro do superávit das trocas entre os dois países durante o ano passado, como ressalta a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Lacerda Prazeres. "Esse é um resultado positivo, porque a maior parte dos países tem déficit na balança comercial com a China e nós temos superávit."

Especialistas acreditam, porém, que a forte alta de preços das commodities, que contribui significativamente para a elevação do superávit este ano, não deve ser mantida em 2012. A soja que está sendo embarcada agora, lembra Castro, foi contratada a US$ 515 a tonelada. O minério de ferro foi comprado a um preço perto de US$ 135 a tonelada. Hoje, porém, diz ele, o preço já caiu. O preço da soja já baixou para US$ 430 a tonelada e o do minério de ferro, para US$ 100 a tonelada.

"Esse superávit certamente não se repete no próximo ano", diz Fábio Silveira, sócio da RC Consultores. O saldo positivo se deve à alta de preços concentrada exatamente nos produtos que o Brasil mais exporta para a China. No ano que vem, estima Silveira, os preços das commodities exportadas devem cair entre 10% a 20% em relação aos patamares médios praticados este ano. "Mesmo que, com a desaceleração prevista para o mercado internacional, haja crescimento relativamente alto da economia chinesa, essa demanda não irá compensar a queda de preços dos produtos exportados pelo Brasil", avalia o economista.

No lado das importações brasileiras de itens "made in China", o impacto de preços não será tão alto. Isso porque o Brasil importa da China predominantemente manufaturados. "Esse itens com maior valor agregado não apresentam amplitude de preços como a das commodities", diz Silveira. Além disso, o Brasil, apesar da desaceleração, deve continuar com crescimento e com aumento de demanda doméstica, o que alavanca as importações.

De janeiro a outubro deste ano, o Brasil exportou à China US$ 37,13 bilhões, dos quais 85,5% são produtos básicos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. A importação brasileira com origem China no período foi de US$ 27,05 bilhões, dos quais 96,7% foram manufaturados.

Tatiana diz que ainda não é possível traçar cenários para 2012, mas lembra que a balança comercial é dinâmica. Provavelmente, diz, os US$ 10 bilhões de superávit existentes no comércio com a China em outubro não se mantenham até o fim de 2011. Isso porque a exportação para a China perde fôlego nos dois últimos meses do ano e a importação de produtos chineses deve se manter, até novembro, em ritmo mais acelerado.

A China, diz a secretária, é um "gigante" e qualquer aumento de participação no mercado é expressivo. Para Tatiana, o importante é que o Brasil está aproveitando o momento atual, que tem permitido retorno relativamente alto para a exportação.

Indicadores convergem para "cenário Tombini"


Valor 21/11

Desde o fim de agosto, tanto os indicadores de atividade quanto as projeções dos agentes de mercado, colhidas pelo Banco Central (BC) no boletim Focus, passaram a convergir para o cenário traçado por Alexandre Tombini, atual presidente da autoridade monetária.

Argumentando que a desaceleração da economia mundial teria efeito mais intenso sobre a economia doméstica do que o antecipado, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por cortar a taxa básica de juros, a Selic, de 12,5% para 12% ao ano na reunião de 30 e 31 de agosto, sinalizando que ainda iria promover "ajustes moderados". Como a inflação acumulava alta de 6,87% nos em 12 meses até julho - 2,37 pontos percentuais acima do centro da meta estabelecida pelo governo, de 4,5% -, houve intenso debate sobre a decisão do BC, pois o crescimento ainda parecia sustentado pelo consumo doméstico e a inflação era uma problema sério para o país, devido ao histórico de alta dos preços.

Desde então, no entanto, o mercado encampou a visão do BC e rebaixou as estimativas para os indicadores econômicos. A projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2011 contida no boletim Focus, que na semana anterior à redução dos juros era de 3,8%, passou para 3,16%. As perspectivas para o crescimento anual da produção industrial também sofreram revisão considerável no período, passando de 2,96% para 1,55%.

Embora não esperem que a inflação caminhe para a meta, como faz o BC, economistas consultados pelo Valor passaram a afirmar que a avaliação de Tombini, ao menos para o cenário macroeconômico, mostrou-se acertada.

"O cenário de atividade econômica mais baixa foi determinante para que o mercado reavaliasse as projeções de crescimento do Brasil para este e para o próximo ano", disse Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco.

Passados pouco mais de dois meses, houve de fato um desaquecimento mais pronunciado da economia. A produção industrial, que já vinha de um período de estagnação, recuou 2% em setembro. Mesmo o mercado interno deu sinais de que está perdendo fôlego. As vendas no comércio ampliado, que inclui automóveis, motos, partes, peças e material de construção, recuaram 2,3% na passagem mensal de julho para agosto. Em setembro houve leve recuperação, de 0,9%.

"O mercado estava com a visão míope, focando muito na indústria, mas o Banco Central estava correto na análise de que a desaceleração já estava afetando o consumo", disse Luiz Otávio Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil.

Para Marco Freire, gestor de investimentos da Franklin Templeton, o BC acertou no cenário de desaceleração da economia, mas a contribuição principal não foi do cenário externo. "O ambiente internacional não foi determinante para a desaceleração interna. A inflação mais alta pode explicar parte dessa trajetória, porque os preços elevados inibem o consumo, mas isso é temporário. O principal fator para o desaquecimento das vendas foram as medidas macroprudenciais", disse Freire.

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, faz leitura semelhante. Para ele, muitos economistas subestimaram o efeito que a política monetária contracionista adotada pelo Banco Central, no fim de 2010 e início de 2011, teria sobre a atividade doméstica. As medidas macroprudenciais, que visavam a contenção do crédito, principalmente para a indústria automobilística, tiveram forte impacto sobre as vendas do setor.

O licenciamento de veículos, de acordo com a Fenabrave, entidade que representa os revendedores de veículos, alcançou o pico no fim do primeiro semestre, mas desde então vem caindo mês a mês, de acordo com os dados dessazonalizados. Com isso, as montadoras, que haviam acumulado estoques, decidiram reduzir a produção para ajustar a indústria a um novo nível de crescimento, mais moderado.

Com a desaceleração das vendas e a estagnação da produção industrial, o IBC-Br, índice de atividade econômica calculado pelo BC, que recuou 0,32% no terceiro trimestre, confirmou, para os economistas, que o PIB para o período deve ter crescimento nulo ou até mesmo negativo, e o quarto trimestre deve ser de modesta aceleração.

Nas contas do Itaú Unibanco, o consumo das famílias aumentou apenas 0,4% na passagem entre o segundo e o terceiro trimestres, ante alta de 1% no período de abril a junho, na mesma base de comparação. Para a equipe econômica do Itaú, todos os componentes que formam o PIB pela ótica da demanda, como gastos do governo e investimentos, reduziram o ritmo.

Mesmo o mercado de trabalho começou a dar sinais de que está perdendo fôlego. Em setembro, o rendimento real médio caiu 1,8% ante o mês anterior, para R$ 1.607,60. Os dados de criação de emprego do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostraram saldo de 126 mil vagas no último mês, o outubro mais fraco desde a crise de 2008.

O Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre - FGV) sugere que os próximos meses serão de moderação da atividade, acompanhada de redução da inflação acumulada em 12 meses. "Nessas condições, o cenário do BC ganha credibilidade e parece justificar a continuidade do processo de redução da Selic", avalia o Ibre.

Uma longa batalha pela estabilização


Por Luiz Carlos Mendonça de Barros - Valor 21/11

A crise de confiança na capacidade dos governos europeus de colocarem suas finanças em ordem chegou agora à Itália. Como na teoria do dominó usada para justificar a Guerra do Vietnã, o mercado financeiro avalia que se ela não conseguir apresentar rapidamente um programa crível de redução de seu endividamento, o próximo dominó a ser ameaçado pela especulação será a França. E se isso acontecer, a crise na região do euro tomará outra dimensão.

Nas últimas semanas o analista vive uma verdadeira lição on line de como economia e política se integram nas democracias de massa modernas. A solução da crise europeia hoje passa necessariamente pelo enfrentamento simultâneo de dois grandes desafios:

1 - na chamada zona do euro, estabilizar - via medidas de ajuda financeira - os mercados de títulos de dívida de vários países e introduzir reformas necessárias para corrigir as falhas institucionais já identificadas para a estabilidade da moeda comum;

2 - nos países mais endividados, a implantação de um duríssimo programa de ajuste fiscal para restabelecer a credibilidade dos mercados em sua capacidade de honrar seus compromissos financeiros. Mas para que esse ajuste fiscal seja possível, será necessário também um choque de eficiência nos sistemas produtivos para aproximá-los da competitividade da Alemanha.

Esses desafios são imensos e de difícil superação dada principalmente à diversidade dos ambientes, econômicos e políticos, nos países da zona do euro. Até agora - em dezembro comemoram-se os vinte anos do acordo de Maastricht - o crescimento econômico funcionou como um poderoso cimento que permitiu a estabilidade desse complexo arranjo político/econômico. Mas nos próximos anos serão as dificuldades, e muito sofrimento, o ponto comum nessa complexa comunidade de nações.

E sabemos, pela experiência do passado, que dificuldades e sofrimentos não servem para esse papel de aglutinadores entre sociedades tão diferentes.

Por isso será necessário buscar outros elementos de união para que a zona do euro consiga enfrentar os desafios de hoje.

Essa busca está sendo tentada pela desarvorada classe política na Europa sem muito sucesso. Na minha avaliação, algumas vitórias obtidas em alguns países começam a construir um roteiro possível para ao menos estabilizar a crise. Quais foram elas?

Em primeiro lugar a Europa caminha na direção de uma maior estabilidade política por meio de eleições que legitimem novos governos comprometidos com os ajustes necessários para sua permanência na zona do euro. Foi o caso da Irlanda, de Portugal e, no fim de semana passado, da Espanha. Em outros países, como a Grécia e a Itália, a busca dessa legitimidade passou primeiro por um governo de tecnocratas para lidar com questões emergenciais e preparar eleições gerais mais à frente. Na Alemanha, depois de um período claudicante, a chanceler Angela Merkel parece ter conseguido unir os partidos que sustentam seu governo no objetivo comum de manter e reformar a zona do euro. Ela aparece hoje como a grande liderança da Europa.

Apenas a França, sob o comando frágil e confuso de seu presidente, terá que esperar pelas eleições de 2012 para ter um governo forte e com mandato claro para enfrentar os desafios dos próximos anos. Mas a França é um dos países mais comprometidos com o projeto da Europa Unida e a oposição socialista - que as pesquisas mostram como o mais provável vencedor das eleições do ano próximo - é totalmente comprometida com esse projeto.

Mas os realistas sabem que a classe política tem a tendência de postergar as decisões mais impopulares e acomodar-se a melhoras circunstanciais. Para enfrentar essa armadilha é que estamos vivendo uma situação inusitada e perigosa, com os mercados sendo o instrumento principal de pressão sobre os Piigs para caminhar na direção do ajuste. Os especuladores, estimulados pelo desencontro dos governos na busca de uma solução definitiva, aumentam suas apostas no colapso do euro e forçam os preços dos títulos soberanos para baixo nos mercados europeus. Preços menores correspondem a taxas de juros mais elevadas, aumentando o custo da rolagem das dívidas nacionais e pressionando ainda mais o déficit fiscal das economias endividadas.

Com isso forçam os políticos, e mesmo a sociedade como um todo, a aceitar os ajustes necessários, pois a permanência na zona do euro ainda é o desejo da maioria dos cidadãos. Nesse perigoso jogo de gato e rato, o Banco Central Europeu é peça fundamental ao entrar no mercado comprando os papéis submetidos à especulação sempre que os preços caem abaixo de um nível considerado pelos mercados como de ruptura. Nos títulos de dez anos da Itália esse limite tem sido um juro equivalente a 7% ao ano.

O instrumento mais poderoso para lidar com a crise financeira é a monetização da dívida soberana pelo BCE. Mas isso faria com que o esforço de reformas fosse definitivamente abandonado pela classe política. Por essa razão ele só poderá ser usado quando as reformas e ajustes nos orçamentos nacionais nos países deficitários estiverem garantidos. Mas quando isso acontecer, a confiança dos investidores voltará e o BCE não precisará intervir mais no mercado.

Estou convencido que é esse o processo que estamos vivendo nas últimas semanas. Mas confesso que não sei hoje se ele vai dar certo ou não.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O reequilíbrio da inovação


Por Javier Santiso - Valor 18/11

A riqueza das nações vem se reordenando a alta velocidade. A atual crise dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o avanço das economias emergentes acelera a reordenação do mapa econômico mundial. Há, no entanto, outra revolução silenciosa em andamento: o reequilíbrio da inovação, em direção aos países emergentes.

A inovação, em particular a empresarial, até pouco tempo atrás era uma história mais voltada ao Ocidente. As multinacionais dos países da OCDE concebiam, produziam e comercializavam os produtos inovadores. Pouco a pouco, instalou-se outro modelo: a inovação continuava sendo concebida no Ocidente, mas cada vez mais era produzida nos países emergentes. É o modelo da Apple com seus iPods e iPads, em parte, produzidos em Taiwan, Coreia do Sul ou China. Agora, estamos vendo emergir um terceiro modelo no qual a inovação, crescentemente, não é mais apenas produzida e comercializada, mas também concebida nos mercados emergentes.

Esse deslocamento provoca uma reordenação acelerada das listas de classificação das maiores empresas do mundo. A lista mais recente das cem maiores empresas de tecnologia do mundo elaborada pela "Bloomberg" e "Businessweek" mostra que 44% são de países emergentes. Mais do que isso, uma delas, a chinesa BYD, lidera a classificação, pela primeira vez, à frente da Apple. Depois da empresa dos EUA, vem outra multinacional chinesa, a Tencent, uma empresa de internet que já é a terceira maior do mundo em valor de mercado, apenas atrás do Google e Amazon, e logo à frente da Baidu, também da China. Entre as dez maiores empresas de tecnologia ainda há duas indianas (Tata Consultancy e Infosys). Chama a atenção o fato de nenhuma ser europeia. Multinacionais de Cingapura, Taiwan ou Brasil despontam em quantidades superiores às escassas alemãs, belgas ou inglesas que conseguiram invadir a lista.

As classificações das empresas de tecnologia mais importantes ou inovadoras, realizadas pelo Boston Consulting Group e pela revista "Forbes", contam a mesma história: a Tencent encabeça o ranking das dez maiores da empresa de consultoria, no qual também fazem parte a taiwanesa Mediatek, a mexicana América Móvil, a China Mobile, as indianas Bharti Airtel e Infosys e a sul-africana MTN. Na lista das dez primeiras da revista, além da Tencent (novamente à frente da Apple e Google), também estão a Natura Cosméticos e a indiana Bharat Heavy.

O fenômeno é maciço e abrange todos os setores. Em 2011, a principal fornecedora para a indústria de telecomunicações deixou de ser dos EUA, França ou Suécia: é da China. A partir de Shenzhen, ao lado de Hong Kong, a Huawei chegou à liderança arrebatando as posições da Alcatel e Lucent (que se viram forçadas a promover fusão) e, mais recentemente, da Ericsson. A sul-coreana Samsung encabeça o ranking de 2011 de maior receita mundial no setor de tecnologia, à frente da Hewlett-Packard (HP), dos EUA. Em 2010, a empresa investiu mais em pesquisa e desenvolvimento do que Intel, Google ou Cisco. O sistema de pagamentos na internet do site chinês Alibaba já é o maior do mundo em termos de valor das transações: a empresa de comércio eletrônico, na qual o fundo californiano Silver Lake acaba de entrar, tem valor de mercado de US$ 32 bilhões, quase o dobro da capitalização do Yahoo (dono de cerca de 40% do Alibaba).

O Brasil é um dos países em que mais se usam redes de relacionamento social na internet, como Twitter, bem à frente dos EUA. O serviço de bate-papo virtual da Tencent possui quase 700 milhões de pessoas registradas, equivalente a todos os usuários do Facebook. A velocidade do fenômeno chama a atenção: tudo isso ocorreu em menos de dez anos.

O mundo da internet tradicionalmente é dominado por multinacionais dos Estados Unidos. A Tencent, entretanto, já exibe capitalização de mercado de US$ 45 bilhões, à frente da eBay e Yahoo. Em Moscou, o russo Yuri Milner vem revolucionando as regras dos capitais de risco para o setor digital, dominado até agora por fundos californianos. Sua Digital Sky Technologies (DST) é dona da mail.ru, listada na Bolsa de Valores de Londres com valor superior a US$ 8 bilhões. Seu fundo de capital de risco é um dos poucos que possui participações no Facebook, Zinga e Groupon.

A chinesa Tencent (que possui 10% da DST e comprou empresas iniciantes, como a Riot Games, dos EUA, por US$ 400 milhões) lançou também seu fundo neste ano, o Tencent Industry Win-Win Fund, com US$ 760 milhões, para ampliar a compra de empresas em fase inicial de operações. Por sua parte, o conglomerado chinês Alibaba Group Holdings lançou o seu por meio da filial Taobao, com US$ 46 milhões. A Legend Capital, por sua parte, proprietária em parte da Lenovo (na qual possui participação de 42%) levantou outro fundo tecnológico, com €500 milhões, neste ano. Em Cingapura, a Singtel, operadora de telecomunicações, criou em 2011 seu fundo de capital de risco, com mais de US$ 250 milhões, para também expandir as compras de empresas de tecnologia com projetos iniciantes.

Todas essas iniciativas mostram, caso ainda seja necessário, quanto os países emergentes asiáticos vem apostando para ganhar um lugar cada vez maior no mundo do capital de risco e de fornecimento de capital inicial para novas empresas.

Em 2011, os EUA ainda são o país com mais empresas listadas na Nasdaq (404), mas o segundo lugar já é ocupado por um país emergente, a China, com 37. Logo atrás, outro emergente, Israel (com 27). A China tem mais que o triplo de empresas de tecnologia listadas na Nasdaq do que toda a Europa (apenas 11).

O fenômeno não é exclusivamente asiático. O caso da Naspers, multinacional sul-africana do mundo digital, é emblemático: a empresa obtém mais de 70% de sua receita no continente africano, mas multiplicou as aquisições nos mercados emergentes. Possui participação de 45% na Tencent, que comprou em 2011 e já se valorizou mais de 3.100%. Também investiu na russa mail.ru (US$ 390 milhões) e possui 91% da brasileira Buscapé (que comprou por mais de US$ 390 milhões). No Leste Europeu, comprou a Tradus por mais de US$ 1 bilhão em 2008. Atualmente, a Naspers é uma das maiores investidores em empresas em fase inicial de operações em emergentes. Está presente em 129 países e tem receita em torno a US$ 4 bilhões e 12 mil funcionários.

Esses exemplos refletem as alterações do mundo em que vivemos. No futuro, esses grupos e países ganharão lugar (cada vez maior) em todos os âmbitos e setores, incluindo os de tecnologia e de maior inovação. Essa talvez seja uma razão a mais para interessar-se e estar presente nessas economias, onde já não apenas se produz e comercializa inovação, mas também se cria, algo que até agora era exclusividade dos países da OCDE. (Tradução de Sabino Ahumada)

Javier Santiso é professor de economia na Esade Business School

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Petrobras faz previsão de expansão para 2012



Valor 17/11

A produção da Petrobras será elevada em mais 414 mil barris por dia em 2012, de acordo com o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da estatal, Almir Barbassa. Para atingir as expectativas, o executivo afirmou que a estatal recebeu recentemente oito novas sondas e espera receber mais 15 até o fim do ano que vem. Barbassa participou de teleconferência para investidores sobre os resultados da companhia no terceiro trimestre deste ano.

Para os primeiros três meses de 2012, Barbassa afirmou que está previsto o início da produção de gás em Tambaú. Já no terceiro trimestre, deverão entrar o piloto de Baleia Azul, no pré-sal, e o campo de Tiro Sidon, com capacidade de 100 e de 80 mil barris por dia, respectivamente. No último trimestre de 2012, deverão entrar em produção o campo de Roncador, com capacidade de 180 mil barris por dia, e o piloto de Guará, no pré-sal, com capacidade de 120 mil barris diários. A companhia terá, em 2012, 38 sondas capazes de perfurar em águas profundas.

Para reduzir os efeitos das paradas não programadas de produção, um dos principais problemas que afetaram os resultados da Petrobras no terceiro trimestre de 2011, Barbassa afirmou que a Petrobras fechou um acordo com a Agência Nacional de Petróleo (ANP) para estabelecer datas para as inspeções nas plataformas. "O compromisso com a ANP diminui ou elimina a imprevisibilidade", disse. Foram constatados declínios recordes de produção devido à perda de eficiência de equipamentos.

O campo de Marlin, um dos principais da companhia, registrou, somente no terceiro trimestre, queda na produção de 79 mil barris por dia, pela paralisação de três plataformas. Isso em parte foi compensado pela melhoria da performance de poços, em 27 mil barris, o que levou as perdas a 52 mil barris por dia.

"Marlin tem tendência, desde janeiro de 2002, de decréscimo de 10% de produção. Nos últimos dois anos, houve dois picos de queda na produção, em setembro e outubro de 2010, por conta das plataformas, e nesse trimestre, por ter três plataformas paralisadas", disse.

No acumulado de nove meses, a queda de produção por paradas não programadas e atrasos em paradas programadas afetou a média do ano em 44 mil barris por dia. Além disso, a restrição logística de escoamento de gás causou redução adicional de 20 mil barris por dia de óleo este ano, sendo metade em Uruguá e metade em Lula (antigo Tupi).

No terceiro trimestre de 2011, a companhia perfurou 15 novos poços, totalizando 35 ao longo do ano. Em outubro, entraram quatro novos poços e a expectativa é de que até o fim do ano entrem mais 16, adicionando 175 mil barris por dia à produção.

Outro fator que prejudicou o caixa da companhia foi a alta demanda por gasolina em um cenário de preços congelados desde maio de 2008. Barbassa disse que a estatal não vê os reajustes aplicados nos combustíveis - de 10% na gasolina e, de 2%, no preço do diesel, em 1º de novembro deste ano - como uma solução completa para a diferença entre preços no mercado internacional e no Brasil. "O médio e longo prazo é que vai nos dizer se os reajustes estão sendo ou não suficientes", disse.

A companhia prevê, em breve, novos reajustes "para cima ou para baixo" em função do que for observado. Barbassa explicou que não houve uma fórmula para definir o reajuste e que a estatal seguiu tendência mundial. Ele acredita no retorno da oferta de etanol com preços competitivos e na redução da demanda por gasolina. "Superamos o problema de safra [de etanol] e a demanda está sendo recomposta."

Petrobrás não atingirá meta deste ano
O Estado de S. Paulo - 17/11/2011



Diretor da estatal diz que não há mais tempo para previsão de investimentos de R$ 84,7 bilhões ser realizada; valor deve chegar a R$ 76,4 bilhões


A Petrobrás não conseguirá atingir o nível de investimentos previsto para este ano, revelou ontem o diretor financeiro da companhia, Almir Barbassa. Em sua avaliação, não há mais tempo para que se chegue, até o fim de dezembro, ao nível de R$ 84,7 bilhões previsto para o ano inteiro, conforme planejamento formulado ainda em 2010.

Em teleconferência realizada para a apresentação do balanço do terceiro trimestre do ano, Barbassa estimou que a Petrobrás fechará 2011 com investimentos semelhantes aos do ano passado: R$ 76,4 bilhões.

"Esperamos que o investimento deste ano fique mais ou menos no mesmo nível do ano passado", afirmou o dirigente. De janeiro a setembro, a Petrobrás investiu R$ 50,8 bilhões, conforme divulgou o diretor financeiro. A quantia é 10% menor do que o valor investido no mesmo período de 2010 (R$ 56,5 bilhões).

A companhia alterou o planejamento de atividades em algumas áreas, alegando falta de equipamentos de produção. É o caso do campo de Carioca, no pré-sal da Bacia de Santos, cuja declaração de comercialidade foi postergada para dezembro de 2013.

Para o próximo ano, com a chegada de 15 novas sondas, a estatal espera compensar a desaceleração dos investimentos deste ano. As projeções de produção e investimentos para 2012 foram mantidas em sigilo, mas Barbassa demonstrou otimismo com o aumento da produção de petróleo a partir deste mês.

Este ano, a Petrobrás estipulou como meta de produção igual quantidade projetada para 2010, de 2,1 milhões de barris/dia - nível não atendido. Barbassa anunciou que, no fim de dezembro, existe a expectativa de que a Petrobrás chegue a produzir 2,2 milhões de barris/dia. A média entre janeiro e setembro foi de 2,013 milhão de barris/dia.

De outubro a dezembro, a Petrobrás espera ligar 20 novos poços ao sistema de produção, cada um com capacidade de produzir até 210 mil barris/dia. Para o ano que vem, com a chegada das sondas capacitadas para perfurações a profundidades superiores a 3 mil metros (serão 38 no total), a Petrobrás poderá expandir a produção, disse Barbassa.

"Esse é um fator relevante para o desenvolvimento das atividades e que deixará de ser um impeditivo (à operação)", disse. Na segunda metade de 2012, ele espera que sejam adicionados 414 mil barris à produção diária.

Paradas. Outra medida anunciada para o ano que vem trata da redução da quantidade de paradas não programadas em plataformas. Barbassa disse que a Petrobrás se comprometeu com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a diminuir a quantidade de interrupções de produção.

As paradas fora de rotina e o atraso nas interrupções programadas resultaram em queda de produção estimada pela Petrobrás em 44 mil barris/dia de janeiro a setembro.

Dilma determinou afrouxamento


Por Cristiano Romero | De Brasília - Valor 17/11

O afrouxamento das medidas macroprudenciais foi uma decisão da presidente Dilma Rousseff, que considerou ter chegado o momento de fazer uma sintonia fina na política econômica para impedir que o Produto Interno Bruto (PIB) caia excessivamente neste e no próximo ano. Dilma se reuniu, separadamente, na semana passada, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, e ordenou o "reequilíbrio" das medidas adotadas desde o início do ano e que restringiram as operações de crédito.

As mudanças foram preparadas pelo BC. O objetivo é estimular a oferta de crédito, um dos motores do crescimento do consumo das famílias nos últimos anos e, portanto, da própria expansão do PIB. As restrições adotadas em dezembro e janeiro diminuíram, por exemplo, as vendas de automóveis, ajudando as montadoras a acumular elevados estoques em seus pátios.

Preocupa a presidente Dilma o possível mergulho que a economia deu no terceiro trimestre, quando comparado ao trimestre anterior. Entre janeiro e março, o PIB avançou 1,3% e, entre abril e junho, 0,8%. No período seguinte (de julho a setembro), a economia pode ter tido crescimento pouco acima de zero em relação ao segundo trimestre.

A presidente Dilma alimenta a expectativa, mas apenas a expectativa, segundo apurou o Valor, de que a taxa básica de juros (Selic) chegue a abril do ano que vem abaixo de 10% ao ano - hoje, está em 11,5% ao ano. O Banco Central tem sinalizado, como fez ontem seu presidente, Alexandre Tombini, que continuará promovendo cortes "moderados", ou seja, de 50 pontos-base (0,5 ponto percentual) a cada reunião do Comitê de Política Monetária do BC.

Na próxima reunião do Copom, a última do ano, a Selic deve cair para 11% ao ano. Segundo fontes graduadas do governo, a presidente Dilma não interfere nas decisões do Comitê nem tem uma meta para a taxa de juros. Ela tem conversas frequentes com Tombini, sempre sem hora marcada, isto é, sem constar da sua agenda pública, mas não diz a ele o que fazer em relação à taxa Selic. "Ela tem reiterado que os juros vão continuar caindo se houver condições para isso", assegurou um assessor graduado.

Para diminuir os ruídos, que prejudicam a comunicação do BC com os agentes econômicos, Dilma proibiu ministros e assessores de falar sobre taxa de juros, como vinha ocorrendo desde agosto. Ordenou que esse tema é afeto apenas ao presidente do Banco Central, não diz respeito nem mesmo ao ministro da Fazenda.

A duração do processo de alívio monetário ainda é desconhecida. Ela dependerá da intensidade da desaceleração da atividade econômica em curso e do comportamento da inflação. Um outro fator é a economia mundial.

A presidente Dilma está muito preocupada com o cenário externo. Acha que falta liderança política na Europa para enfrentar a crise. Acredita também que Angela Merkel, líder do país mais forte da zona do euro, a Alemanha, ainda não percebeu a gravidade da situação. Quanto mais se demora para enfrentar a crise, maior a probabilidade de uma ruptura.

Na sexta-feira passada, o Banco Central promoveu um alívio na exigência de capital próprio dos bancos para fazer frente a operações de crédito para pessoas físicas. O BC também que desistiu de elevar a 20% o percentual mínimo de pagamento das faturas de cartão de crédito. Esse limite já tinha subido de 10% para 15% em junho.

A preocupação da presidente é evitar que o PIB brasileiro cresça abaixo de 3% neste ano. Na área econômica, aposta-se que, apesar da forte desaceleração em relação aos níveis de 2010, a economia crescerá 3,5% em 2011. Para 2012, a expectativa do Ministério da Fazenda é um crescimento de 5%.

Política industrial, inovação e compras governamentais


Por Ricardo Mendes - Valor 17/11

Desde o lançamento da nova política industrial, "Brasil Maior", pela presidente Dilma Rousseff, no dia 2 de agosto, muito tem-se discutido sobre os possíveis impactos de atrelar o poder de compras do Estado ao desenvolvimento produtivo e tecnológico no país. Há também um outro debate em torno desse tema, referente à necessidade de se revisar o principal marco legal que regulamenta as compras governamentais: a Lei nº 8.666, de 1993, para que haja a possibilidade de escolha nas aquisições de certos bens e serviços pelo governo baseadas não apenas no menor preço.

A dimensão das compras governamentais no Brasil certamente legitima as propostas de se alavancar uma política industrial e tecnológica, premiando empresas que estejam alinhadas com os objetivos estratégicos do país. Foi com esse objetivo que, em dezembro de 2010, foi aprovada a Lei nº 12.349, alterando a Lei nº 8.666, de forma a permitir margens de preferência para bens e serviços nacionais em processos licitatórios. Entre os critérios previstos pela nova lei para possibilitar a margem de preferência, inclui-se o desenvolvimento e inovação tecnológica no país. Um outro mecanismo para promover inovação tecnológica por meio das compras públicas são as chamadas "encomendas tecnológicas", estabelecidas no Brasil pelo artigo 20 da Lei de Inovação (Lei nº 10.973 de 2004).

Apesar da existência prévia ao lançamento do "Brasil Maior", da possibilidade de serem feitas encomendas tecnológicas e das margens de preferência para produtos nacionais em licitações na legislação brasileira, não era possível a utilização desses mecanismos dada a inexistência de uma regulamentação. Vale destacar que, além de tratarem de temas sensíveis por envolverem o uso de dinheiro público, há também dificuldade técnica em definir os parâmetros que tornam uma empresa, produto ou serviço aptos a usufruírem desses benefícios. Essa dificuldade fica bastante evidente pelo desafio em definir critérios básicos como "produto nacional" ou "inovação tecnológica".

Não obstante a essas dificuldades, o Projeto "Brasil Maior" elencou o destravamento do uso desses mecanismos como um de seus principais pilares. Passadas já algumas semanas desde o lançamento dessa nova política industrial, continua bastante obscuro como será feita a instrumentalização desses dois mecanismos (regulamentados pelos Decretos nº 7.539 e nº 7.546).

A começar pela margem de preferência para produtos e serviços nacionais. Em primeiro lugar, a regulamentação não definiu o que é um "produto nacional". Foi criada uma Comissão Interministerial para definir os parâmetros e critérios, conforme o setor. Ainda que a definição siga os padrões estabelecidos pelas Regras de Origem do Mercosul, diversos segmentos terão extrema dificuldade em cumprir com essa regra de origem, podendo tornar a política inócua, dado que não haverá empresas brasileiras aptas a produzirem "produtos nacionais" com o grau de conteúdo local exigido.

Há ainda a questão de onde sairão os recursos necessários para cobrir o custo adicional aos cofres públicos. Isso é crítico em um momento em que são feitos esforços de ajustes fiscais no país. Algumas áreas do governo, com destaque para o Ministério da Saúde, já trabalham com orçamentos extremamente achatados, não deixando margens para o desenvolvimento de política industrial e tecnológica com os seus recursos. O debate em torno da Regulamentação da Emenda 29 e a necessidade em se criar novas fontes de financiamento para a saúde parecem de certa forma contraditórios ao que se almeja com o "Brasil Maior".

Na questão das encomendas tecnológicas, o desafio está em definir o grau de inovação que o bem ou serviço deverá incorporar para poder ser "encomendado" pelo Estado. As áreas de excelência em que as empresas brasileiras efetivamente têm capacidade de desenvolver inovações radicais são restritas. Ainda que o mecanismo permita encomendas para o desenvolvimento de inovações incrementais, o universo de setores que poderão ser atendidos pelas empresas brasileiras continuará restrito. Tendo em vista essas dificuldades, há segmentos que defendem uma ampliação do conceito de inovação, a fim de permitir que empresas que passem a produzir no país tecnologias já existentes no exterior também possam ser beneficiadas pelo instrumento de encomendas tecnológicas.

Enquanto o destravamento desses mecanismos não se viabiliza, alguns mecanismos menos institucionalizados para atrelar o desenvolvimento industrial e produtivo ao poder de compras do Estado vêm sendo utilizados. Um desses mecanismos são as chamadas Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) (também chamadas de PPPs), envolvendo empresas do setor de saúde e laboratórios públicos.

Por meio dessas parcerias, os laboratórios públicos compram transferência de tecnologia atrelada ao fornecimento de produtos de empresas privadas. Até que se concretize a transferência tecnológica, o laboratório público fornece o produto fabricado pela empresa privada para o Sistema Único de Saúde (SUS), sem que haja a necessidade de licitação (como entidades públicas, esses laboratórios estão dispensados de seguir os trâmites licitatórios).

Há um grande potencial nessas políticas, mas é uma utopia imaginar que elas poderão alavancar todos os setores do país. É importante que haja uma priorização de segmentos para os quais devem ser canalizados os recursos públicos, tendo em conta a competitividade internacional das cadeias (incluindo a produção científica e acadêmica), o potencial de inserção externa dos bens e serviços, o custo para os cofres públicos frente a ofertantes internacionais, entre outros critérios. Onerar as compras de governo sem que haja critérios bem definidos é fazer mal uso dos recursos públicos.

Ricardo Camargo Mendes é sócio da Prospectiva Consultoria

Salvando o sonho de séculos


Por Martin Wolf - Valor 17/11

Diante das notícias de turbulências nas províncias, a região do euro decidiu enviar novos governadores. No lugar do impertinente George Papandreou, a Grécia agora tem Lucas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Em vez do incontrolável Silvio Berlusconi, a Itália agora tem Mario Monti, ex-chefe de políticas de concorrência da Comissão Europeia. A Europa está empossando esses novos governadores em países-membros que descenderam ao status de clientes. Será que isso vai funcionar? Não sem uma dose gigantesca de apoio proveniente centro.

O que está em jogo hoje não é apenas a estabilidade da economia europeia - talvez mundial -, mas a sobrevivência dos mais importantes esforços para unir a Europa desde a queda do Império Romano do Ocidente há 1.535 anos. Como destaca Walter Scheidel, da Stanford University, em um ensaio fascinante: "Há dois mil anos, talvez metade de todas as espécies estivesse sob o controle de apenas duas potências, os impérios romano e Han"*. Ambos desmoronaram. O império chinês, no entanto, foi restabelecido e ampliado repetidamente, enquanto o império romano foi dividido irreparavelmente. O sonho de reunificação, entretanto, nunca morreu. Esteve visível nas invocações de papas e "sacros imperadores romanos". Continuou na figura das águias de Napoleão. Hoje, é a inspiração entalhada na União Europeia.

A mudança do centro de gravidade econômica para o norte também é antiga. Então, quando Angela Merkel, da Alemanha, primeira-ministra do Estado mais poderoso da Europa, convoca a "Europa a desenvolver uma 'união política' para sustentar o euro e ajudar o continente a emergir de seu 'momento mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial'", eu a levo muito a sério. Também tenho poucas dúvidas de que a maioria das empresas e da elite política alemã acredita que a sobrevivência do euro e de uma Europa unida interessa ao país. A questão é se estão preparados para pagar o preço.

Nos séculos após a queda de Roma, a Europa tornou-se uma Babel. Unir tal diversidade é uma tarefa assombrosa. As políticas são locais, não europeias, assim como os políticos. Isso poderia não importar muito se as decisões tomadas na esfera europeia fossem de pouca importância. As políticas fiscais e monetárias ou a regulamentação do mercado de trabalho, no entanto, fazem parte da essência das políticas democráticas. Quanto maior a divergência dentro da região do euro, maiores as pressões. Infelizmente, as divergências na competitividade, antes da crise, e no preço do crédito, depois dela, mostraram-se extremas.

Minha interpretação das ações de Merkel é que a estratégia consiste em ceder "só o suficiente, só no último momento". Dessa forma, ela pode ter esperança de que a população alemã mudará de opinião e concordará em mais ações. Dessa forma, ela também pode ter esperança de que os países periféricos da região do euro entrem na linha. Ela não permitirá que a situação fique ruim a ponto de a região do euro desmoronar; mas ela não dará tanto dinheiro para que os infratores afrouxem seus esforços.

Só o suficiente, só no último momento, vem sendo muito pouco e muito tarde. O que era uma crise em pequenos países periféricos tornou-se um grande incêndio. Os prêmios exigidos nos créditos soberanos chegaram à estratosfera. Pior ainda, esses prêmios soberanos agora incluem certo risco de desmembramento.

Monti e Papademos são, quase certamente, a última esperança de ajustes e reformas bem-sucedidas para seus países. Enquanto um fracasso na Grécia seria um transtorno, na Itália seria devastador. Se a Itália se visse obrigada a deixar de honrar seus compromissos, poderia muito bem eleger um governo populista determinado a sair da região do euro. Se o fizesse, poucos estariam a salvo, incluindo a França.

O que Monti precisa fazer é enormemente difícil. Como argumenta Gavyn Davies, a Itália pode precisar apertar sua política fiscal em mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para reverter os prêmios cada vez maiores e começar a reduzir sua dívida pública bruta, em elevados 120% do PIB. Tendo em vista os inevitáveis efeitos adversos na produção, a tentativa de aperto teria de ser ainda maior. Ainda assim, é improvável que os investidores voltem a confiar nas dívidas italianas se sua economia não se recuperar. A austeridade não é suficiente.

A inquietação social e política desencadeada pelas reformas estruturais contempladas, especialmente as que afetam o mercado de trabalho, também sacudirá a confiança. Dada a fragilidade da demanda doméstica prevista sob tal programa de austeridade fiscal, a Itália precisará crescer puxada pelas exportações. Levará muito tempo, porém, para que reconquiste a competitividade perdida na década de 2000. Por si só, isso gerará uma mescla de cortes de empregos e queda nos salários nominais - uma receita para desemprego, agitação e inquietação dos credores.

As chances de que isso funcione e ocorra suavemente não são muito altas. O período de recuperação levará anos. Com Berlusconi certamente preparado para condenar o governo de Monti como mera ferramenta dos interesses estrangeiros, os obstáculos políticos também serão intimidantes. Berlusconi poderá usar sua mídia para tornar os ataques mais ruidosos.

Monti precisará de muita sorte. Também precisará, em grandes doses, de três tipos de ajuda: primeiro, financiamento para cobrir o volume de dívida soberana que não conseguir ser rolado nos mercados, ao considerável custo de quase € 1 trilhão; segundo, mercados externos dinâmicos e lucrativos; e, por fim, um fortalecimento convincente das bases políticas da união, suficiente para tornar o desmembramento algo inconcebível. Tudo isso dependerá de decisões arrojadas da Alemanha. Também dependerá do BCE. Se o banco central permitir que o baixo crescimento, para não dizer uma plena recessão, se apodere da região do euro, as chances para os países periféricos grandes serão sombrias. A Itália não é a pequena Irlanda. Isso deveria ser óbvio para todos.

A região do euro ficou se enganando até a própria Roma começar a queimar. Com o novo governo, tem em mãos o que pode se revelar a última chance para apagar o fogo. Sim, é concebível que a Itália possa continuar na região do euro mesmo se ficar inadimplente. Mas isso não é provável. Seja como for, uma inadimplência na Itália afetaria mercados de bônus por todo o continente e bancos por todo o mundo. Já passou do momento em que se podia pensar em apenas fazer "muito pouco, muito tarde". O que se precisa, em vez disso, é que se faça "muito, neste exato momento". O poder traz responsabilidade. A Alemanha sozinha tem o poder. Cabe ao país exercer essa responsabilidade. (Tradução de Sabino Ahumada)

* "From the 'Great Convergence' to the 'First Great Divergence'", de Walter Scheidel, no livro "Rome and China", da Oxford University Press, 2009 (algo como, da 'grande convergência' à 'primeira grande divergência', parte do livro Roma e China.

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quem ama dá limites



Por Pedro Ferreira e Renato Fragelli - Valor 11/11

Um clássico recurso de retórica usado em debates consiste em exagerar e distorcer a argumentação dos oponentes. Pintando como loucas e/ou ilógicas as ideias alheias, as próprias parecem muito mais sensatas do que de fato são, o que aumenta seu poder de convencimento. Isso fica evidente na defesa que economistas ditos desenvolvimentistas, e supostamente de esquerda, vêm fazendo da política industrial recentemente anunciada pelo governo Dilma, em particular do aumento de 30% do IPI sobre automóveis importados.

A argumentação básica é a seguinte. Todo país desenvolvido possui uma forte indústria, que é o motor do crescimento. No passado, esses países protegeram sua indústria e, em alguma medida, ainda protegem. Assim, se o Brasil quiser crescer, terá que ter uma poderosa indústria. Como ela está sob ataque de importações chinesas, coreanas e de outros produtores, é necessário protegê-la. Isso seria tão evidente que aqueles contrários a essas medidas estariam agindo contra o país, defendendo interesses de produtores estrangeiros e importadores locais. Em versões mais radicais, seriam ideologicamente contrários à indústria.

Versões mais sofisticadas desse raciocínio associam industrialização a inovações tecnológicas e transbordamento para outros setores. Mas a conclusão final é parecida: defesa da proteção comercial, bem como subsídios e benefícios fiscais. Em ambos os casos a associação entre as próprias ideias, o interesse nacional e o das classes trabalhadoras é um corolário imediato.

Ocorre, entretanto, que existe vida inteligente do lado de cá. A oposição a medidas que beneficiam poucos e possuem duvidosos efeitos de longo prazo, longe de defender os interesses do "capitalismo estrangeiro" busca aumentar a eficiência da produção doméstica, tornando-a mais competitiva, melhorando o bem-estar da população como um todo.

Retórica semelhante poderia sustentar políticas opostas. A indústria automobilística, a grande beneficiada pelas medidas recentes, emprega direta ou indiretamente uma parcela muito pequena dos trabalhadores brasileiros. O fechamento do mercado vai elevar a renda destes, mas vai principalmente aumentar o lucro das empresas automobilísticas que são todas multinacionais. Além do mais, estas últimas foram protegidas desde a década de 1950 e não lograram produzir um carro de qualidade que possa competir com importados. As novas barreiras comerciais, portanto, perpetuarão o atraso tecnológico e os preços altos, beneficiando poucos e prejudicando todos aqueles que precisam de veículos para se locomover ou trabalhar. Logo, os desenvolvimentistas estariam defendendo algo contrário aos interesses nacionais, algo que beneficiaria principalmente capitalistas estrangeiros, além de uma elite de trabalhadores, e que contribuiria para a piora da distribuição de renda no Brasil.

Se há algo de exagerado no argumento anterior, há algo de verdade também. A imposição de forma improvisada, e sem maiores discussões com a sociedade, de barreiras comerciais - sem o estabelecimento sequer de metas de produtividade - diminuirá a competição local, aumentando o preço pago pelo consumidor. Quando estas políticas atingem não só os bens finais, mas também bens de capital e bens intermediários, o impacto sobre todas as cadeias produtivas é ainda maior. Há perda de eficiência, já que todos os setores da economia serão obrigados a utilizar insumos mais caros e piores. Políticas que impõem a utilização de uma enorme parcela de componentes nacionais na produção de determinados bens vão nessa direção e, por encarecerem bens finais, afetam negativamente a população.

Qual é a vantagem de ter-se uma indústria grande e poderosa, mas obsoleta e pouco produtiva? A gritaria contra a suposta desindustrialização acelerada não pode basear-se no dogma de que uma grande indústria é desejável, independentemente das condições em que essa meta é alcançada. As economias avançadas estão se transformando em economias de serviços e as grandes inovações estão neste setor. O Brasil também caminha nessa direção. O reconhecimento dessa transformação, bem como da urgência de mais e melhor educação, em vez de nostalgias do anos JK e da política industrial da ditadura, já seria meio caminho na direção de políticas que de fato aumentassem a eficiência da produção brasileira.

Um histórico expoente do desenvolvimentismo defendeu enfaticamente as recentes medidas protecionistas utilizando uma emocionada figura da psicologia: quem ama protege. Mas a mesma psicologia em sua versão moderna sustenta: quem ama dá limites, premiando acertos e punindo erros. Pode-se também citar Erasmo Carlos, o Tremendão, que em conhecida canção fala de um filho único que parecia dar um recado aos desenvolvimentistas tupiniquins: "Ei, mãe, não sou mais menino, não é justo que também queira parir meu destino, você já fez a sua parte, me pondo no mundo. (...) Proteção desproteje e carinho demais faz arrepender".

A indústria automobilística brasileira é uma criança de 60 anos! O que ela precisa é de tributação baixa e simples, mão de obra qualificada, segurança jurídica e infraestrutura adequada. Não de excesso de proteção que a tem tornado um adulto incapaz de operar em um mundo cada vez mais competitivo.

Pedro Ferreira e Renato Fragelli são professores da Escola de Pós-graduação em Economia (EPGE-FGV)

Movimento nos EUA prega transferência de dinheiro para cooperativas de crédito



Os protestos contra o sistema financeiro nos Estados Unidos não se resumem ao movimento Occupy Wall Street e seus similares. No dia 5 de novembro, o Bank Transfer Day, centenas de milhares de poupadores transferiram milhões de dólares dos grandes bancos para instituições de crédito cooperativo. Segundo a Credit Union National Association, somente no sábado pouco mais de 40 mil pessoas transferiram a cooperativas de crédito cerca de 80 milhões de dólares.


Enrico Piovesana - Peace Reporter

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O admirável mundo novo


Por Carl Schramm - Valor 10/11

Entramos no que pode ser denominada a era da "economia de fronteira". À medida que fontes mais antigas e mais fáceis de crescimento econômico vão secando, as perspectivas de dinamismo e prosperidade continuadas dependem mais que nunca de jovens empresas empreendedoras pioneiras para explorar e estender as barreiras tecnológicas. Isso coloca as economias nacionais sob constante pressão no sentido de derrubar barreiras artificiais à competição. Em outras palavras, em sua busca de crescimento econômico, os países precisam tornar suas economias mais empreendedoras.

Na medida em que muitos novos empregos em economias voltadas para o empreendedorismo têm menos de cinco anos, não é de surpreender que os líderes políticos ao redor do mundo e cobrindo todo o espectro ideológico estejam agora buscando formas de revigorar suas economias concentrando-se em formas de estimular a formação de novas empresas. É uma estratégia para enfrentar o duplo desafio do crescimento e criação de empregos.

Esse admirável mundo novo de "fronteira econômica" representa um significativo ponto de mudanças para o mundo inteiro. Sempre foi assumido que, em contraste com o mundo em desenvolvimento (e em particular as verdadeiras economias de fronteira como o Quênia, Nigéria, Vietnã, Colômbia, Romênia e Cazaquistão), os países desenvolvidos tiveram uma vida mais fácil. Com economias bem estabelecida e bem azeitadas, só precisavam se preocupar em fazer mais da mesma coisa. Na realidade, não é assim: quanto mais rico fica um país, mais incerto torna-se seu futuro econômico.

Num momento em que buscamos estabilidade e segurança, emerge uma visão paradoxal: para sustentar nosso progresso, precisamos por fim ao velho e estar aberto para o novo.

O que é, como sabemos, a grande observação originalmente formulada por Joseph Schumpeter em seu conceito de destruição criativa. Suas ideias são idealmente adequadas ao nosso tempo - e, apesar disso, pouco toleradas por políticos da velha escola. Eles consideram ser ainda sua "missão proteger empresas poderosas e bem estabelecidas. Isso pode, ou talvez não, proteger empregos existentes - mas certamente destrói muitos outros empregos potenciais.

Até agora, os defensores da destruição criativa têm sido amplamente considerados defensores de um capitalismo primal e, por extensão, arquiconservadores. Sempre me senti intrigado diante isso. Qualquer pessoa com alguma percepção do verdadeiro alcance dos desafios do mundo contemporâneo - do ambiente à saúde e da educação à energia -, têm consciência da necessidade de implementar novas abordagens.

Para concretizar essas mudanças, aqueles que constituem o que é geralmente descrito como esquerda ideológica precisam torcer para que uma dose saudável das ideias de Schumpeter sejam aplicadas ao processo político e à economia. Para essas forças sociais, o poder de interesses encastelados é o obstáculo à renovação econômica e ao progresso social.

Enquanto isso, o campo da direita, após dois séculos e um quarto de desenvolvimento contínuo, tem de admitir que o crescimento futuro não seguirá os modelos anteriores lineares de crescimento.

E como ficam os jovens, nesse cenário? Eles têm uma percepção geral de que enfrentam perspectivas de emprego incertas. Ao mesmo tempo, fazem parte de uma geração onde as fronteiras da inovação tecnológica e social estão sendo cada vez mais ampliadas. Depois que as inovações tecnológicas permaneceram durante longo tempo uma abstração, ou bastante inflexíveis, elas agora produzem novas ideias e paradigmas. A rápida adoção em âmbito mundial de mídias sociais e de outros aparelhos e redes eletrônicas baratas também estimula tomada de decisões descentralizadas, porém mais engajadas e conectadas.

Para que isso se torne uma realidade e explore novas fontes de prosperidade, os jovens, tanto empresários como líderes políticos, precisam contar com uma ampla gama de mercados verdadeiramente competitivos em bom funcionamento. E precisamos estar abertos à inovação empresarial. Isso não se aplica apenas a empresas recém formadas. O exemplo da Apple ressalta que até mesmo empresas bem estabelecidas, a fim de realmente ter sucesso, precisam permanecer dispostas a envolver-se em destruição criativa e se reinventar de cima a baixo.

Com tudo isso em mente, a Semana Global de Empreendedorismo (14 a 20 novembro) ajuda as pessoas em todo o mundo a explorar seu potencial - precisamente as pessoas que participarão dessa competição para descobrir e nutrir as novas e brilhantes ideias que impulsionarão o crescimento econômico futuro. Joseph Schumpeter, expressa pela primeira vez em 1942, nunca foi tão relevante como hoje. (Tradução Sergio Blum)

Carl Schramm é presidente e CEO da Ewing Marion Kauffman Foundation. unleashingideas.org/country/br.

Mais barato só chines



Chineses vão ao exterior buscar produção barata



Por Rahul Jacob Financial Times, em Dongguan



Frank Leung, dono da empresa de sapatos femininos New Wing Footwear, de Hong Kong, tem ido a lugares que nunca imaginara visitar. Ele foi a Dhaka (Bangladesh) e Adis Abeba (Etiópia) em busca de outras bases de produção além de sua fábrica em Dongguan, no sul da China. Mas, apesar de muito procurar, ficou decepcionado.

A pressão para transferir produção é clara. Os custos de mão de obra na China subiram entre 15% e 20%, anualmente, nos últimos dois anos, estreitando as margens e criando dificuldades para Guangdong, o centro da indústria de transformação chinesa.

Os custos mais elevados, junto com a alta do yuan, forçaram Leung a reduzir o número de funcionários em Dongguan, de 8.000 há três anos para os atuais 3.000.

Os salários em Bangladesh, diz ele, são de 20% a 30% inferiores aos da China. Além disso, as pessoas trabalham 48 horas por semana, mais do que a norma legal de 40 horas na China. O governo oferece isenção tributária por 10 anos.

Mas, em vez de ficar animado, Leung está abalado. "Eles têm congestionamentos de tráfego insanos e todo mundo usa gerador nas fábricas [porque o suprimento de energia elétrica é irregular]", diz. "A logística torna muito difícil trabalhar de forma eficiente."

Algumas semanas após ir a Dhaka, Leung voou para Adis Ababa. Os salários lá são ainda mais baixos que os de Bangladesh, mas ele não conseguiu encontrar indústrias fornecedoras, como fabricantes de solas de sapato e papelão.

"Na Etiópia, os congestionamentos são menores, mas eles estão no meio do nada", diz. A pobreza opressiva na Índia desestimulou-o por completo, após uma visita a Chennai. Agora, Leung já não tem certeza se vai, afinal, levar sua produção para fora da China.

O clima para os industriais em Guangdong levou muitos a se deslocarem para países no sul e sudeste da Ásia. Na semana passada, a GaveKal Dragonomics, empresa de pesquisas, previu que o crescimento das exportações da China cairá para apenas 9% no próximo ano. Deduzido o aumento de preços que os fabricantes chineses repassaram aos compradores no Ocidente, neste ano os volumes de exportação aumentaram só 12% nos primeiros três trimestres.

Muitos donos de fábricas, como David Liu, cuja empresa produz bolsas, avaliaram a possibilidade de mudar para países como o Vietnã, mas optaram por permanecer em Dongguan porque as redes de fornecedores e a produtividade da mão de obra são melhores. Liu fez viagens a Hunan, na China central, para ver se uma fábrica lá seria viável. Mais uma vez, a distância dos fornecedoras liquidaram a ideia.

Ele então optou por tentar reter seus trabalhadores mais antigos e qualificados em Dongguan, dando, por exemplo, quartos particulares aos casais e instalando ar-condicionado. O usual é que os trabalhadores vivam em dormitórios com seis a oito pessoas.

Liu diz que suas margens de lucro caíram de 10% para 3%, mas ele repassou aumentos de preços de 8% ao ano a varejistas europeus, onde suas elegantes bolsas são vendidas por € 300 a € 400.

Liu é a regra, não a exceção. O preço unitário das exportações chinesas para a UE subiu 10% entre janeiro e agosto. Essa alta foi ligeiramente superior à da Turquia, mas bem inferior à de México (17%) e Índia (23%), diz a GaveKal.

Apesar disso, a decisão de Pequim de dobrar os salários dos operários com aumentos do salário mínimo ano a ano durante os próximos anos incentivará as fábricas a emigrar da China.

Algumas empresas optaram por manter bases na China e expandir no exterior. A Texhong Textile abriu fábricas de fios para tecelagem no Vietnã em três etapas, entre 2007 e este ano, segundo Charles Hui, diretor financeiro da empresa, que tem ações negociadas em Hong Kong. Os salários no Vietnã equivalem a 1,2 mil yuans por mês, em comparação com 2 mil yuans na China. E as fábricas vietnamitas são mais automatizadas e exigem menos trabalhadores.

Hui diz que empresas de donos chineses relutam em se mudar porque "não estão familiarizadas com a gestão de trabalhadores que não têm a mesma cultura".

A GaveKal descobriu que mesmo setores tão intensivos em emprego de mão de obra como o têxtil, de vestuário e de brinquedos, para os quais as manchetes sugerem que as fábricas estão fugindo para o Sudeste Asiático, os fabricantes chineses elevaram seus preços em 10% a 20%, neste ano, "sugerindo que eles ganharam algum poder de fixação de preços".

Para Dong Tao, economista do Credit Suisse, o motivo é simples: "Nenhum país em desenvolvimento que pode igualar metade da eficiência que a China oferece." A combinação de enorme contingente de mão de obra e maior produtividade, bem como portos e estradas melhores que em outros países, torna difícil encontrar uma alternativa.