segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Indicadores convergem para "cenário Tombini"


Valor 21/11

Desde o fim de agosto, tanto os indicadores de atividade quanto as projeções dos agentes de mercado, colhidas pelo Banco Central (BC) no boletim Focus, passaram a convergir para o cenário traçado por Alexandre Tombini, atual presidente da autoridade monetária.

Argumentando que a desaceleração da economia mundial teria efeito mais intenso sobre a economia doméstica do que o antecipado, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por cortar a taxa básica de juros, a Selic, de 12,5% para 12% ao ano na reunião de 30 e 31 de agosto, sinalizando que ainda iria promover "ajustes moderados". Como a inflação acumulava alta de 6,87% nos em 12 meses até julho - 2,37 pontos percentuais acima do centro da meta estabelecida pelo governo, de 4,5% -, houve intenso debate sobre a decisão do BC, pois o crescimento ainda parecia sustentado pelo consumo doméstico e a inflação era uma problema sério para o país, devido ao histórico de alta dos preços.

Desde então, no entanto, o mercado encampou a visão do BC e rebaixou as estimativas para os indicadores econômicos. A projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2011 contida no boletim Focus, que na semana anterior à redução dos juros era de 3,8%, passou para 3,16%. As perspectivas para o crescimento anual da produção industrial também sofreram revisão considerável no período, passando de 2,96% para 1,55%.

Embora não esperem que a inflação caminhe para a meta, como faz o BC, economistas consultados pelo Valor passaram a afirmar que a avaliação de Tombini, ao menos para o cenário macroeconômico, mostrou-se acertada.

"O cenário de atividade econômica mais baixa foi determinante para que o mercado reavaliasse as projeções de crescimento do Brasil para este e para o próximo ano", disse Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco.

Passados pouco mais de dois meses, houve de fato um desaquecimento mais pronunciado da economia. A produção industrial, que já vinha de um período de estagnação, recuou 2% em setembro. Mesmo o mercado interno deu sinais de que está perdendo fôlego. As vendas no comércio ampliado, que inclui automóveis, motos, partes, peças e material de construção, recuaram 2,3% na passagem mensal de julho para agosto. Em setembro houve leve recuperação, de 0,9%.

"O mercado estava com a visão míope, focando muito na indústria, mas o Banco Central estava correto na análise de que a desaceleração já estava afetando o consumo", disse Luiz Otávio Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil.

Para Marco Freire, gestor de investimentos da Franklin Templeton, o BC acertou no cenário de desaceleração da economia, mas a contribuição principal não foi do cenário externo. "O ambiente internacional não foi determinante para a desaceleração interna. A inflação mais alta pode explicar parte dessa trajetória, porque os preços elevados inibem o consumo, mas isso é temporário. O principal fator para o desaquecimento das vendas foram as medidas macroprudenciais", disse Freire.

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, faz leitura semelhante. Para ele, muitos economistas subestimaram o efeito que a política monetária contracionista adotada pelo Banco Central, no fim de 2010 e início de 2011, teria sobre a atividade doméstica. As medidas macroprudenciais, que visavam a contenção do crédito, principalmente para a indústria automobilística, tiveram forte impacto sobre as vendas do setor.

O licenciamento de veículos, de acordo com a Fenabrave, entidade que representa os revendedores de veículos, alcançou o pico no fim do primeiro semestre, mas desde então vem caindo mês a mês, de acordo com os dados dessazonalizados. Com isso, as montadoras, que haviam acumulado estoques, decidiram reduzir a produção para ajustar a indústria a um novo nível de crescimento, mais moderado.

Com a desaceleração das vendas e a estagnação da produção industrial, o IBC-Br, índice de atividade econômica calculado pelo BC, que recuou 0,32% no terceiro trimestre, confirmou, para os economistas, que o PIB para o período deve ter crescimento nulo ou até mesmo negativo, e o quarto trimestre deve ser de modesta aceleração.

Nas contas do Itaú Unibanco, o consumo das famílias aumentou apenas 0,4% na passagem entre o segundo e o terceiro trimestres, ante alta de 1% no período de abril a junho, na mesma base de comparação. Para a equipe econômica do Itaú, todos os componentes que formam o PIB pela ótica da demanda, como gastos do governo e investimentos, reduziram o ritmo.

Mesmo o mercado de trabalho começou a dar sinais de que está perdendo fôlego. Em setembro, o rendimento real médio caiu 1,8% ante o mês anterior, para R$ 1.607,60. Os dados de criação de emprego do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostraram saldo de 126 mil vagas no último mês, o outubro mais fraco desde a crise de 2008.

O Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre - FGV) sugere que os próximos meses serão de moderação da atividade, acompanhada de redução da inflação acumulada em 12 meses. "Nessas condições, o cenário do BC ganha credibilidade e parece justificar a continuidade do processo de redução da Selic", avalia o Ibre.

Uma longa batalha pela estabilização


Por Luiz Carlos Mendonça de Barros - Valor 21/11

A crise de confiança na capacidade dos governos europeus de colocarem suas finanças em ordem chegou agora à Itália. Como na teoria do dominó usada para justificar a Guerra do Vietnã, o mercado financeiro avalia que se ela não conseguir apresentar rapidamente um programa crível de redução de seu endividamento, o próximo dominó a ser ameaçado pela especulação será a França. E se isso acontecer, a crise na região do euro tomará outra dimensão.

Nas últimas semanas o analista vive uma verdadeira lição on line de como economia e política se integram nas democracias de massa modernas. A solução da crise europeia hoje passa necessariamente pelo enfrentamento simultâneo de dois grandes desafios:

1 - na chamada zona do euro, estabilizar - via medidas de ajuda financeira - os mercados de títulos de dívida de vários países e introduzir reformas necessárias para corrigir as falhas institucionais já identificadas para a estabilidade da moeda comum;

2 - nos países mais endividados, a implantação de um duríssimo programa de ajuste fiscal para restabelecer a credibilidade dos mercados em sua capacidade de honrar seus compromissos financeiros. Mas para que esse ajuste fiscal seja possível, será necessário também um choque de eficiência nos sistemas produtivos para aproximá-los da competitividade da Alemanha.

Esses desafios são imensos e de difícil superação dada principalmente à diversidade dos ambientes, econômicos e políticos, nos países da zona do euro. Até agora - em dezembro comemoram-se os vinte anos do acordo de Maastricht - o crescimento econômico funcionou como um poderoso cimento que permitiu a estabilidade desse complexo arranjo político/econômico. Mas nos próximos anos serão as dificuldades, e muito sofrimento, o ponto comum nessa complexa comunidade de nações.

E sabemos, pela experiência do passado, que dificuldades e sofrimentos não servem para esse papel de aglutinadores entre sociedades tão diferentes.

Por isso será necessário buscar outros elementos de união para que a zona do euro consiga enfrentar os desafios de hoje.

Essa busca está sendo tentada pela desarvorada classe política na Europa sem muito sucesso. Na minha avaliação, algumas vitórias obtidas em alguns países começam a construir um roteiro possível para ao menos estabilizar a crise. Quais foram elas?

Em primeiro lugar a Europa caminha na direção de uma maior estabilidade política por meio de eleições que legitimem novos governos comprometidos com os ajustes necessários para sua permanência na zona do euro. Foi o caso da Irlanda, de Portugal e, no fim de semana passado, da Espanha. Em outros países, como a Grécia e a Itália, a busca dessa legitimidade passou primeiro por um governo de tecnocratas para lidar com questões emergenciais e preparar eleições gerais mais à frente. Na Alemanha, depois de um período claudicante, a chanceler Angela Merkel parece ter conseguido unir os partidos que sustentam seu governo no objetivo comum de manter e reformar a zona do euro. Ela aparece hoje como a grande liderança da Europa.

Apenas a França, sob o comando frágil e confuso de seu presidente, terá que esperar pelas eleições de 2012 para ter um governo forte e com mandato claro para enfrentar os desafios dos próximos anos. Mas a França é um dos países mais comprometidos com o projeto da Europa Unida e a oposição socialista - que as pesquisas mostram como o mais provável vencedor das eleições do ano próximo - é totalmente comprometida com esse projeto.

Mas os realistas sabem que a classe política tem a tendência de postergar as decisões mais impopulares e acomodar-se a melhoras circunstanciais. Para enfrentar essa armadilha é que estamos vivendo uma situação inusitada e perigosa, com os mercados sendo o instrumento principal de pressão sobre os Piigs para caminhar na direção do ajuste. Os especuladores, estimulados pelo desencontro dos governos na busca de uma solução definitiva, aumentam suas apostas no colapso do euro e forçam os preços dos títulos soberanos para baixo nos mercados europeus. Preços menores correspondem a taxas de juros mais elevadas, aumentando o custo da rolagem das dívidas nacionais e pressionando ainda mais o déficit fiscal das economias endividadas.

Com isso forçam os políticos, e mesmo a sociedade como um todo, a aceitar os ajustes necessários, pois a permanência na zona do euro ainda é o desejo da maioria dos cidadãos. Nesse perigoso jogo de gato e rato, o Banco Central Europeu é peça fundamental ao entrar no mercado comprando os papéis submetidos à especulação sempre que os preços caem abaixo de um nível considerado pelos mercados como de ruptura. Nos títulos de dez anos da Itália esse limite tem sido um juro equivalente a 7% ao ano.

O instrumento mais poderoso para lidar com a crise financeira é a monetização da dívida soberana pelo BCE. Mas isso faria com que o esforço de reformas fosse definitivamente abandonado pela classe política. Por essa razão ele só poderá ser usado quando as reformas e ajustes nos orçamentos nacionais nos países deficitários estiverem garantidos. Mas quando isso acontecer, a confiança dos investidores voltará e o BCE não precisará intervir mais no mercado.

Estou convencido que é esse o processo que estamos vivendo nas últimas semanas. Mas confesso que não sei hoje se ele vai dar certo ou não.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O reequilíbrio da inovação


Por Javier Santiso - Valor 18/11

A riqueza das nações vem se reordenando a alta velocidade. A atual crise dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o avanço das economias emergentes acelera a reordenação do mapa econômico mundial. Há, no entanto, outra revolução silenciosa em andamento: o reequilíbrio da inovação, em direção aos países emergentes.

A inovação, em particular a empresarial, até pouco tempo atrás era uma história mais voltada ao Ocidente. As multinacionais dos países da OCDE concebiam, produziam e comercializavam os produtos inovadores. Pouco a pouco, instalou-se outro modelo: a inovação continuava sendo concebida no Ocidente, mas cada vez mais era produzida nos países emergentes. É o modelo da Apple com seus iPods e iPads, em parte, produzidos em Taiwan, Coreia do Sul ou China. Agora, estamos vendo emergir um terceiro modelo no qual a inovação, crescentemente, não é mais apenas produzida e comercializada, mas também concebida nos mercados emergentes.

Esse deslocamento provoca uma reordenação acelerada das listas de classificação das maiores empresas do mundo. A lista mais recente das cem maiores empresas de tecnologia do mundo elaborada pela "Bloomberg" e "Businessweek" mostra que 44% são de países emergentes. Mais do que isso, uma delas, a chinesa BYD, lidera a classificação, pela primeira vez, à frente da Apple. Depois da empresa dos EUA, vem outra multinacional chinesa, a Tencent, uma empresa de internet que já é a terceira maior do mundo em valor de mercado, apenas atrás do Google e Amazon, e logo à frente da Baidu, também da China. Entre as dez maiores empresas de tecnologia ainda há duas indianas (Tata Consultancy e Infosys). Chama a atenção o fato de nenhuma ser europeia. Multinacionais de Cingapura, Taiwan ou Brasil despontam em quantidades superiores às escassas alemãs, belgas ou inglesas que conseguiram invadir a lista.

As classificações das empresas de tecnologia mais importantes ou inovadoras, realizadas pelo Boston Consulting Group e pela revista "Forbes", contam a mesma história: a Tencent encabeça o ranking das dez maiores da empresa de consultoria, no qual também fazem parte a taiwanesa Mediatek, a mexicana América Móvil, a China Mobile, as indianas Bharti Airtel e Infosys e a sul-africana MTN. Na lista das dez primeiras da revista, além da Tencent (novamente à frente da Apple e Google), também estão a Natura Cosméticos e a indiana Bharat Heavy.

O fenômeno é maciço e abrange todos os setores. Em 2011, a principal fornecedora para a indústria de telecomunicações deixou de ser dos EUA, França ou Suécia: é da China. A partir de Shenzhen, ao lado de Hong Kong, a Huawei chegou à liderança arrebatando as posições da Alcatel e Lucent (que se viram forçadas a promover fusão) e, mais recentemente, da Ericsson. A sul-coreana Samsung encabeça o ranking de 2011 de maior receita mundial no setor de tecnologia, à frente da Hewlett-Packard (HP), dos EUA. Em 2010, a empresa investiu mais em pesquisa e desenvolvimento do que Intel, Google ou Cisco. O sistema de pagamentos na internet do site chinês Alibaba já é o maior do mundo em termos de valor das transações: a empresa de comércio eletrônico, na qual o fundo californiano Silver Lake acaba de entrar, tem valor de mercado de US$ 32 bilhões, quase o dobro da capitalização do Yahoo (dono de cerca de 40% do Alibaba).

O Brasil é um dos países em que mais se usam redes de relacionamento social na internet, como Twitter, bem à frente dos EUA. O serviço de bate-papo virtual da Tencent possui quase 700 milhões de pessoas registradas, equivalente a todos os usuários do Facebook. A velocidade do fenômeno chama a atenção: tudo isso ocorreu em menos de dez anos.

O mundo da internet tradicionalmente é dominado por multinacionais dos Estados Unidos. A Tencent, entretanto, já exibe capitalização de mercado de US$ 45 bilhões, à frente da eBay e Yahoo. Em Moscou, o russo Yuri Milner vem revolucionando as regras dos capitais de risco para o setor digital, dominado até agora por fundos californianos. Sua Digital Sky Technologies (DST) é dona da mail.ru, listada na Bolsa de Valores de Londres com valor superior a US$ 8 bilhões. Seu fundo de capital de risco é um dos poucos que possui participações no Facebook, Zinga e Groupon.

A chinesa Tencent (que possui 10% da DST e comprou empresas iniciantes, como a Riot Games, dos EUA, por US$ 400 milhões) lançou também seu fundo neste ano, o Tencent Industry Win-Win Fund, com US$ 760 milhões, para ampliar a compra de empresas em fase inicial de operações. Por sua parte, o conglomerado chinês Alibaba Group Holdings lançou o seu por meio da filial Taobao, com US$ 46 milhões. A Legend Capital, por sua parte, proprietária em parte da Lenovo (na qual possui participação de 42%) levantou outro fundo tecnológico, com €500 milhões, neste ano. Em Cingapura, a Singtel, operadora de telecomunicações, criou em 2011 seu fundo de capital de risco, com mais de US$ 250 milhões, para também expandir as compras de empresas de tecnologia com projetos iniciantes.

Todas essas iniciativas mostram, caso ainda seja necessário, quanto os países emergentes asiáticos vem apostando para ganhar um lugar cada vez maior no mundo do capital de risco e de fornecimento de capital inicial para novas empresas.

Em 2011, os EUA ainda são o país com mais empresas listadas na Nasdaq (404), mas o segundo lugar já é ocupado por um país emergente, a China, com 37. Logo atrás, outro emergente, Israel (com 27). A China tem mais que o triplo de empresas de tecnologia listadas na Nasdaq do que toda a Europa (apenas 11).

O fenômeno não é exclusivamente asiático. O caso da Naspers, multinacional sul-africana do mundo digital, é emblemático: a empresa obtém mais de 70% de sua receita no continente africano, mas multiplicou as aquisições nos mercados emergentes. Possui participação de 45% na Tencent, que comprou em 2011 e já se valorizou mais de 3.100%. Também investiu na russa mail.ru (US$ 390 milhões) e possui 91% da brasileira Buscapé (que comprou por mais de US$ 390 milhões). No Leste Europeu, comprou a Tradus por mais de US$ 1 bilhão em 2008. Atualmente, a Naspers é uma das maiores investidores em empresas em fase inicial de operações em emergentes. Está presente em 129 países e tem receita em torno a US$ 4 bilhões e 12 mil funcionários.

Esses exemplos refletem as alterações do mundo em que vivemos. No futuro, esses grupos e países ganharão lugar (cada vez maior) em todos os âmbitos e setores, incluindo os de tecnologia e de maior inovação. Essa talvez seja uma razão a mais para interessar-se e estar presente nessas economias, onde já não apenas se produz e comercializa inovação, mas também se cria, algo que até agora era exclusividade dos países da OCDE. (Tradução de Sabino Ahumada)

Javier Santiso é professor de economia na Esade Business School

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Petrobras faz previsão de expansão para 2012



Valor 17/11

A produção da Petrobras será elevada em mais 414 mil barris por dia em 2012, de acordo com o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da estatal, Almir Barbassa. Para atingir as expectativas, o executivo afirmou que a estatal recebeu recentemente oito novas sondas e espera receber mais 15 até o fim do ano que vem. Barbassa participou de teleconferência para investidores sobre os resultados da companhia no terceiro trimestre deste ano.

Para os primeiros três meses de 2012, Barbassa afirmou que está previsto o início da produção de gás em Tambaú. Já no terceiro trimestre, deverão entrar o piloto de Baleia Azul, no pré-sal, e o campo de Tiro Sidon, com capacidade de 100 e de 80 mil barris por dia, respectivamente. No último trimestre de 2012, deverão entrar em produção o campo de Roncador, com capacidade de 180 mil barris por dia, e o piloto de Guará, no pré-sal, com capacidade de 120 mil barris diários. A companhia terá, em 2012, 38 sondas capazes de perfurar em águas profundas.

Para reduzir os efeitos das paradas não programadas de produção, um dos principais problemas que afetaram os resultados da Petrobras no terceiro trimestre de 2011, Barbassa afirmou que a Petrobras fechou um acordo com a Agência Nacional de Petróleo (ANP) para estabelecer datas para as inspeções nas plataformas. "O compromisso com a ANP diminui ou elimina a imprevisibilidade", disse. Foram constatados declínios recordes de produção devido à perda de eficiência de equipamentos.

O campo de Marlin, um dos principais da companhia, registrou, somente no terceiro trimestre, queda na produção de 79 mil barris por dia, pela paralisação de três plataformas. Isso em parte foi compensado pela melhoria da performance de poços, em 27 mil barris, o que levou as perdas a 52 mil barris por dia.

"Marlin tem tendência, desde janeiro de 2002, de decréscimo de 10% de produção. Nos últimos dois anos, houve dois picos de queda na produção, em setembro e outubro de 2010, por conta das plataformas, e nesse trimestre, por ter três plataformas paralisadas", disse.

No acumulado de nove meses, a queda de produção por paradas não programadas e atrasos em paradas programadas afetou a média do ano em 44 mil barris por dia. Além disso, a restrição logística de escoamento de gás causou redução adicional de 20 mil barris por dia de óleo este ano, sendo metade em Uruguá e metade em Lula (antigo Tupi).

No terceiro trimestre de 2011, a companhia perfurou 15 novos poços, totalizando 35 ao longo do ano. Em outubro, entraram quatro novos poços e a expectativa é de que até o fim do ano entrem mais 16, adicionando 175 mil barris por dia à produção.

Outro fator que prejudicou o caixa da companhia foi a alta demanda por gasolina em um cenário de preços congelados desde maio de 2008. Barbassa disse que a estatal não vê os reajustes aplicados nos combustíveis - de 10% na gasolina e, de 2%, no preço do diesel, em 1º de novembro deste ano - como uma solução completa para a diferença entre preços no mercado internacional e no Brasil. "O médio e longo prazo é que vai nos dizer se os reajustes estão sendo ou não suficientes", disse.

A companhia prevê, em breve, novos reajustes "para cima ou para baixo" em função do que for observado. Barbassa explicou que não houve uma fórmula para definir o reajuste e que a estatal seguiu tendência mundial. Ele acredita no retorno da oferta de etanol com preços competitivos e na redução da demanda por gasolina. "Superamos o problema de safra [de etanol] e a demanda está sendo recomposta."

Petrobrás não atingirá meta deste ano
O Estado de S. Paulo - 17/11/2011



Diretor da estatal diz que não há mais tempo para previsão de investimentos de R$ 84,7 bilhões ser realizada; valor deve chegar a R$ 76,4 bilhões


A Petrobrás não conseguirá atingir o nível de investimentos previsto para este ano, revelou ontem o diretor financeiro da companhia, Almir Barbassa. Em sua avaliação, não há mais tempo para que se chegue, até o fim de dezembro, ao nível de R$ 84,7 bilhões previsto para o ano inteiro, conforme planejamento formulado ainda em 2010.

Em teleconferência realizada para a apresentação do balanço do terceiro trimestre do ano, Barbassa estimou que a Petrobrás fechará 2011 com investimentos semelhantes aos do ano passado: R$ 76,4 bilhões.

"Esperamos que o investimento deste ano fique mais ou menos no mesmo nível do ano passado", afirmou o dirigente. De janeiro a setembro, a Petrobrás investiu R$ 50,8 bilhões, conforme divulgou o diretor financeiro. A quantia é 10% menor do que o valor investido no mesmo período de 2010 (R$ 56,5 bilhões).

A companhia alterou o planejamento de atividades em algumas áreas, alegando falta de equipamentos de produção. É o caso do campo de Carioca, no pré-sal da Bacia de Santos, cuja declaração de comercialidade foi postergada para dezembro de 2013.

Para o próximo ano, com a chegada de 15 novas sondas, a estatal espera compensar a desaceleração dos investimentos deste ano. As projeções de produção e investimentos para 2012 foram mantidas em sigilo, mas Barbassa demonstrou otimismo com o aumento da produção de petróleo a partir deste mês.

Este ano, a Petrobrás estipulou como meta de produção igual quantidade projetada para 2010, de 2,1 milhões de barris/dia - nível não atendido. Barbassa anunciou que, no fim de dezembro, existe a expectativa de que a Petrobrás chegue a produzir 2,2 milhões de barris/dia. A média entre janeiro e setembro foi de 2,013 milhão de barris/dia.

De outubro a dezembro, a Petrobrás espera ligar 20 novos poços ao sistema de produção, cada um com capacidade de produzir até 210 mil barris/dia. Para o ano que vem, com a chegada das sondas capacitadas para perfurações a profundidades superiores a 3 mil metros (serão 38 no total), a Petrobrás poderá expandir a produção, disse Barbassa.

"Esse é um fator relevante para o desenvolvimento das atividades e que deixará de ser um impeditivo (à operação)", disse. Na segunda metade de 2012, ele espera que sejam adicionados 414 mil barris à produção diária.

Paradas. Outra medida anunciada para o ano que vem trata da redução da quantidade de paradas não programadas em plataformas. Barbassa disse que a Petrobrás se comprometeu com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a diminuir a quantidade de interrupções de produção.

As paradas fora de rotina e o atraso nas interrupções programadas resultaram em queda de produção estimada pela Petrobrás em 44 mil barris/dia de janeiro a setembro.

Dilma determinou afrouxamento


Por Cristiano Romero | De Brasília - Valor 17/11

O afrouxamento das medidas macroprudenciais foi uma decisão da presidente Dilma Rousseff, que considerou ter chegado o momento de fazer uma sintonia fina na política econômica para impedir que o Produto Interno Bruto (PIB) caia excessivamente neste e no próximo ano. Dilma se reuniu, separadamente, na semana passada, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, e ordenou o "reequilíbrio" das medidas adotadas desde o início do ano e que restringiram as operações de crédito.

As mudanças foram preparadas pelo BC. O objetivo é estimular a oferta de crédito, um dos motores do crescimento do consumo das famílias nos últimos anos e, portanto, da própria expansão do PIB. As restrições adotadas em dezembro e janeiro diminuíram, por exemplo, as vendas de automóveis, ajudando as montadoras a acumular elevados estoques em seus pátios.

Preocupa a presidente Dilma o possível mergulho que a economia deu no terceiro trimestre, quando comparado ao trimestre anterior. Entre janeiro e março, o PIB avançou 1,3% e, entre abril e junho, 0,8%. No período seguinte (de julho a setembro), a economia pode ter tido crescimento pouco acima de zero em relação ao segundo trimestre.

A presidente Dilma alimenta a expectativa, mas apenas a expectativa, segundo apurou o Valor, de que a taxa básica de juros (Selic) chegue a abril do ano que vem abaixo de 10% ao ano - hoje, está em 11,5% ao ano. O Banco Central tem sinalizado, como fez ontem seu presidente, Alexandre Tombini, que continuará promovendo cortes "moderados", ou seja, de 50 pontos-base (0,5 ponto percentual) a cada reunião do Comitê de Política Monetária do BC.

Na próxima reunião do Copom, a última do ano, a Selic deve cair para 11% ao ano. Segundo fontes graduadas do governo, a presidente Dilma não interfere nas decisões do Comitê nem tem uma meta para a taxa de juros. Ela tem conversas frequentes com Tombini, sempre sem hora marcada, isto é, sem constar da sua agenda pública, mas não diz a ele o que fazer em relação à taxa Selic. "Ela tem reiterado que os juros vão continuar caindo se houver condições para isso", assegurou um assessor graduado.

Para diminuir os ruídos, que prejudicam a comunicação do BC com os agentes econômicos, Dilma proibiu ministros e assessores de falar sobre taxa de juros, como vinha ocorrendo desde agosto. Ordenou que esse tema é afeto apenas ao presidente do Banco Central, não diz respeito nem mesmo ao ministro da Fazenda.

A duração do processo de alívio monetário ainda é desconhecida. Ela dependerá da intensidade da desaceleração da atividade econômica em curso e do comportamento da inflação. Um outro fator é a economia mundial.

A presidente Dilma está muito preocupada com o cenário externo. Acha que falta liderança política na Europa para enfrentar a crise. Acredita também que Angela Merkel, líder do país mais forte da zona do euro, a Alemanha, ainda não percebeu a gravidade da situação. Quanto mais se demora para enfrentar a crise, maior a probabilidade de uma ruptura.

Na sexta-feira passada, o Banco Central promoveu um alívio na exigência de capital próprio dos bancos para fazer frente a operações de crédito para pessoas físicas. O BC também que desistiu de elevar a 20% o percentual mínimo de pagamento das faturas de cartão de crédito. Esse limite já tinha subido de 10% para 15% em junho.

A preocupação da presidente é evitar que o PIB brasileiro cresça abaixo de 3% neste ano. Na área econômica, aposta-se que, apesar da forte desaceleração em relação aos níveis de 2010, a economia crescerá 3,5% em 2011. Para 2012, a expectativa do Ministério da Fazenda é um crescimento de 5%.

Política industrial, inovação e compras governamentais


Por Ricardo Mendes - Valor 17/11

Desde o lançamento da nova política industrial, "Brasil Maior", pela presidente Dilma Rousseff, no dia 2 de agosto, muito tem-se discutido sobre os possíveis impactos de atrelar o poder de compras do Estado ao desenvolvimento produtivo e tecnológico no país. Há também um outro debate em torno desse tema, referente à necessidade de se revisar o principal marco legal que regulamenta as compras governamentais: a Lei nº 8.666, de 1993, para que haja a possibilidade de escolha nas aquisições de certos bens e serviços pelo governo baseadas não apenas no menor preço.

A dimensão das compras governamentais no Brasil certamente legitima as propostas de se alavancar uma política industrial e tecnológica, premiando empresas que estejam alinhadas com os objetivos estratégicos do país. Foi com esse objetivo que, em dezembro de 2010, foi aprovada a Lei nº 12.349, alterando a Lei nº 8.666, de forma a permitir margens de preferência para bens e serviços nacionais em processos licitatórios. Entre os critérios previstos pela nova lei para possibilitar a margem de preferência, inclui-se o desenvolvimento e inovação tecnológica no país. Um outro mecanismo para promover inovação tecnológica por meio das compras públicas são as chamadas "encomendas tecnológicas", estabelecidas no Brasil pelo artigo 20 da Lei de Inovação (Lei nº 10.973 de 2004).

Apesar da existência prévia ao lançamento do "Brasil Maior", da possibilidade de serem feitas encomendas tecnológicas e das margens de preferência para produtos nacionais em licitações na legislação brasileira, não era possível a utilização desses mecanismos dada a inexistência de uma regulamentação. Vale destacar que, além de tratarem de temas sensíveis por envolverem o uso de dinheiro público, há também dificuldade técnica em definir os parâmetros que tornam uma empresa, produto ou serviço aptos a usufruírem desses benefícios. Essa dificuldade fica bastante evidente pelo desafio em definir critérios básicos como "produto nacional" ou "inovação tecnológica".

Não obstante a essas dificuldades, o Projeto "Brasil Maior" elencou o destravamento do uso desses mecanismos como um de seus principais pilares. Passadas já algumas semanas desde o lançamento dessa nova política industrial, continua bastante obscuro como será feita a instrumentalização desses dois mecanismos (regulamentados pelos Decretos nº 7.539 e nº 7.546).

A começar pela margem de preferência para produtos e serviços nacionais. Em primeiro lugar, a regulamentação não definiu o que é um "produto nacional". Foi criada uma Comissão Interministerial para definir os parâmetros e critérios, conforme o setor. Ainda que a definição siga os padrões estabelecidos pelas Regras de Origem do Mercosul, diversos segmentos terão extrema dificuldade em cumprir com essa regra de origem, podendo tornar a política inócua, dado que não haverá empresas brasileiras aptas a produzirem "produtos nacionais" com o grau de conteúdo local exigido.

Há ainda a questão de onde sairão os recursos necessários para cobrir o custo adicional aos cofres públicos. Isso é crítico em um momento em que são feitos esforços de ajustes fiscais no país. Algumas áreas do governo, com destaque para o Ministério da Saúde, já trabalham com orçamentos extremamente achatados, não deixando margens para o desenvolvimento de política industrial e tecnológica com os seus recursos. O debate em torno da Regulamentação da Emenda 29 e a necessidade em se criar novas fontes de financiamento para a saúde parecem de certa forma contraditórios ao que se almeja com o "Brasil Maior".

Na questão das encomendas tecnológicas, o desafio está em definir o grau de inovação que o bem ou serviço deverá incorporar para poder ser "encomendado" pelo Estado. As áreas de excelência em que as empresas brasileiras efetivamente têm capacidade de desenvolver inovações radicais são restritas. Ainda que o mecanismo permita encomendas para o desenvolvimento de inovações incrementais, o universo de setores que poderão ser atendidos pelas empresas brasileiras continuará restrito. Tendo em vista essas dificuldades, há segmentos que defendem uma ampliação do conceito de inovação, a fim de permitir que empresas que passem a produzir no país tecnologias já existentes no exterior também possam ser beneficiadas pelo instrumento de encomendas tecnológicas.

Enquanto o destravamento desses mecanismos não se viabiliza, alguns mecanismos menos institucionalizados para atrelar o desenvolvimento industrial e produtivo ao poder de compras do Estado vêm sendo utilizados. Um desses mecanismos são as chamadas Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) (também chamadas de PPPs), envolvendo empresas do setor de saúde e laboratórios públicos.

Por meio dessas parcerias, os laboratórios públicos compram transferência de tecnologia atrelada ao fornecimento de produtos de empresas privadas. Até que se concretize a transferência tecnológica, o laboratório público fornece o produto fabricado pela empresa privada para o Sistema Único de Saúde (SUS), sem que haja a necessidade de licitação (como entidades públicas, esses laboratórios estão dispensados de seguir os trâmites licitatórios).

Há um grande potencial nessas políticas, mas é uma utopia imaginar que elas poderão alavancar todos os setores do país. É importante que haja uma priorização de segmentos para os quais devem ser canalizados os recursos públicos, tendo em conta a competitividade internacional das cadeias (incluindo a produção científica e acadêmica), o potencial de inserção externa dos bens e serviços, o custo para os cofres públicos frente a ofertantes internacionais, entre outros critérios. Onerar as compras de governo sem que haja critérios bem definidos é fazer mal uso dos recursos públicos.

Ricardo Camargo Mendes é sócio da Prospectiva Consultoria

Salvando o sonho de séculos


Por Martin Wolf - Valor 17/11

Diante das notícias de turbulências nas províncias, a região do euro decidiu enviar novos governadores. No lugar do impertinente George Papandreou, a Grécia agora tem Lucas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Em vez do incontrolável Silvio Berlusconi, a Itália agora tem Mario Monti, ex-chefe de políticas de concorrência da Comissão Europeia. A Europa está empossando esses novos governadores em países-membros que descenderam ao status de clientes. Será que isso vai funcionar? Não sem uma dose gigantesca de apoio proveniente centro.

O que está em jogo hoje não é apenas a estabilidade da economia europeia - talvez mundial -, mas a sobrevivência dos mais importantes esforços para unir a Europa desde a queda do Império Romano do Ocidente há 1.535 anos. Como destaca Walter Scheidel, da Stanford University, em um ensaio fascinante: "Há dois mil anos, talvez metade de todas as espécies estivesse sob o controle de apenas duas potências, os impérios romano e Han"*. Ambos desmoronaram. O império chinês, no entanto, foi restabelecido e ampliado repetidamente, enquanto o império romano foi dividido irreparavelmente. O sonho de reunificação, entretanto, nunca morreu. Esteve visível nas invocações de papas e "sacros imperadores romanos". Continuou na figura das águias de Napoleão. Hoje, é a inspiração entalhada na União Europeia.

A mudança do centro de gravidade econômica para o norte também é antiga. Então, quando Angela Merkel, da Alemanha, primeira-ministra do Estado mais poderoso da Europa, convoca a "Europa a desenvolver uma 'união política' para sustentar o euro e ajudar o continente a emergir de seu 'momento mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial'", eu a levo muito a sério. Também tenho poucas dúvidas de que a maioria das empresas e da elite política alemã acredita que a sobrevivência do euro e de uma Europa unida interessa ao país. A questão é se estão preparados para pagar o preço.

Nos séculos após a queda de Roma, a Europa tornou-se uma Babel. Unir tal diversidade é uma tarefa assombrosa. As políticas são locais, não europeias, assim como os políticos. Isso poderia não importar muito se as decisões tomadas na esfera europeia fossem de pouca importância. As políticas fiscais e monetárias ou a regulamentação do mercado de trabalho, no entanto, fazem parte da essência das políticas democráticas. Quanto maior a divergência dentro da região do euro, maiores as pressões. Infelizmente, as divergências na competitividade, antes da crise, e no preço do crédito, depois dela, mostraram-se extremas.

Minha interpretação das ações de Merkel é que a estratégia consiste em ceder "só o suficiente, só no último momento". Dessa forma, ela pode ter esperança de que a população alemã mudará de opinião e concordará em mais ações. Dessa forma, ela também pode ter esperança de que os países periféricos da região do euro entrem na linha. Ela não permitirá que a situação fique ruim a ponto de a região do euro desmoronar; mas ela não dará tanto dinheiro para que os infratores afrouxem seus esforços.

Só o suficiente, só no último momento, vem sendo muito pouco e muito tarde. O que era uma crise em pequenos países periféricos tornou-se um grande incêndio. Os prêmios exigidos nos créditos soberanos chegaram à estratosfera. Pior ainda, esses prêmios soberanos agora incluem certo risco de desmembramento.

Monti e Papademos são, quase certamente, a última esperança de ajustes e reformas bem-sucedidas para seus países. Enquanto um fracasso na Grécia seria um transtorno, na Itália seria devastador. Se a Itália se visse obrigada a deixar de honrar seus compromissos, poderia muito bem eleger um governo populista determinado a sair da região do euro. Se o fizesse, poucos estariam a salvo, incluindo a França.

O que Monti precisa fazer é enormemente difícil. Como argumenta Gavyn Davies, a Itália pode precisar apertar sua política fiscal em mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para reverter os prêmios cada vez maiores e começar a reduzir sua dívida pública bruta, em elevados 120% do PIB. Tendo em vista os inevitáveis efeitos adversos na produção, a tentativa de aperto teria de ser ainda maior. Ainda assim, é improvável que os investidores voltem a confiar nas dívidas italianas se sua economia não se recuperar. A austeridade não é suficiente.

A inquietação social e política desencadeada pelas reformas estruturais contempladas, especialmente as que afetam o mercado de trabalho, também sacudirá a confiança. Dada a fragilidade da demanda doméstica prevista sob tal programa de austeridade fiscal, a Itália precisará crescer puxada pelas exportações. Levará muito tempo, porém, para que reconquiste a competitividade perdida na década de 2000. Por si só, isso gerará uma mescla de cortes de empregos e queda nos salários nominais - uma receita para desemprego, agitação e inquietação dos credores.

As chances de que isso funcione e ocorra suavemente não são muito altas. O período de recuperação levará anos. Com Berlusconi certamente preparado para condenar o governo de Monti como mera ferramenta dos interesses estrangeiros, os obstáculos políticos também serão intimidantes. Berlusconi poderá usar sua mídia para tornar os ataques mais ruidosos.

Monti precisará de muita sorte. Também precisará, em grandes doses, de três tipos de ajuda: primeiro, financiamento para cobrir o volume de dívida soberana que não conseguir ser rolado nos mercados, ao considerável custo de quase € 1 trilhão; segundo, mercados externos dinâmicos e lucrativos; e, por fim, um fortalecimento convincente das bases políticas da união, suficiente para tornar o desmembramento algo inconcebível. Tudo isso dependerá de decisões arrojadas da Alemanha. Também dependerá do BCE. Se o banco central permitir que o baixo crescimento, para não dizer uma plena recessão, se apodere da região do euro, as chances para os países periféricos grandes serão sombrias. A Itália não é a pequena Irlanda. Isso deveria ser óbvio para todos.

A região do euro ficou se enganando até a própria Roma começar a queimar. Com o novo governo, tem em mãos o que pode se revelar a última chance para apagar o fogo. Sim, é concebível que a Itália possa continuar na região do euro mesmo se ficar inadimplente. Mas isso não é provável. Seja como for, uma inadimplência na Itália afetaria mercados de bônus por todo o continente e bancos por todo o mundo. Já passou do momento em que se podia pensar em apenas fazer "muito pouco, muito tarde". O que se precisa, em vez disso, é que se faça "muito, neste exato momento". O poder traz responsabilidade. A Alemanha sozinha tem o poder. Cabe ao país exercer essa responsabilidade. (Tradução de Sabino Ahumada)

* "From the 'Great Convergence' to the 'First Great Divergence'", de Walter Scheidel, no livro "Rome and China", da Oxford University Press, 2009 (algo como, da 'grande convergência' à 'primeira grande divergência', parte do livro Roma e China.

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quem ama dá limites



Por Pedro Ferreira e Renato Fragelli - Valor 11/11

Um clássico recurso de retórica usado em debates consiste em exagerar e distorcer a argumentação dos oponentes. Pintando como loucas e/ou ilógicas as ideias alheias, as próprias parecem muito mais sensatas do que de fato são, o que aumenta seu poder de convencimento. Isso fica evidente na defesa que economistas ditos desenvolvimentistas, e supostamente de esquerda, vêm fazendo da política industrial recentemente anunciada pelo governo Dilma, em particular do aumento de 30% do IPI sobre automóveis importados.

A argumentação básica é a seguinte. Todo país desenvolvido possui uma forte indústria, que é o motor do crescimento. No passado, esses países protegeram sua indústria e, em alguma medida, ainda protegem. Assim, se o Brasil quiser crescer, terá que ter uma poderosa indústria. Como ela está sob ataque de importações chinesas, coreanas e de outros produtores, é necessário protegê-la. Isso seria tão evidente que aqueles contrários a essas medidas estariam agindo contra o país, defendendo interesses de produtores estrangeiros e importadores locais. Em versões mais radicais, seriam ideologicamente contrários à indústria.

Versões mais sofisticadas desse raciocínio associam industrialização a inovações tecnológicas e transbordamento para outros setores. Mas a conclusão final é parecida: defesa da proteção comercial, bem como subsídios e benefícios fiscais. Em ambos os casos a associação entre as próprias ideias, o interesse nacional e o das classes trabalhadoras é um corolário imediato.

Ocorre, entretanto, que existe vida inteligente do lado de cá. A oposição a medidas que beneficiam poucos e possuem duvidosos efeitos de longo prazo, longe de defender os interesses do "capitalismo estrangeiro" busca aumentar a eficiência da produção doméstica, tornando-a mais competitiva, melhorando o bem-estar da população como um todo.

Retórica semelhante poderia sustentar políticas opostas. A indústria automobilística, a grande beneficiada pelas medidas recentes, emprega direta ou indiretamente uma parcela muito pequena dos trabalhadores brasileiros. O fechamento do mercado vai elevar a renda destes, mas vai principalmente aumentar o lucro das empresas automobilísticas que são todas multinacionais. Além do mais, estas últimas foram protegidas desde a década de 1950 e não lograram produzir um carro de qualidade que possa competir com importados. As novas barreiras comerciais, portanto, perpetuarão o atraso tecnológico e os preços altos, beneficiando poucos e prejudicando todos aqueles que precisam de veículos para se locomover ou trabalhar. Logo, os desenvolvimentistas estariam defendendo algo contrário aos interesses nacionais, algo que beneficiaria principalmente capitalistas estrangeiros, além de uma elite de trabalhadores, e que contribuiria para a piora da distribuição de renda no Brasil.

Se há algo de exagerado no argumento anterior, há algo de verdade também. A imposição de forma improvisada, e sem maiores discussões com a sociedade, de barreiras comerciais - sem o estabelecimento sequer de metas de produtividade - diminuirá a competição local, aumentando o preço pago pelo consumidor. Quando estas políticas atingem não só os bens finais, mas também bens de capital e bens intermediários, o impacto sobre todas as cadeias produtivas é ainda maior. Há perda de eficiência, já que todos os setores da economia serão obrigados a utilizar insumos mais caros e piores. Políticas que impõem a utilização de uma enorme parcela de componentes nacionais na produção de determinados bens vão nessa direção e, por encarecerem bens finais, afetam negativamente a população.

Qual é a vantagem de ter-se uma indústria grande e poderosa, mas obsoleta e pouco produtiva? A gritaria contra a suposta desindustrialização acelerada não pode basear-se no dogma de que uma grande indústria é desejável, independentemente das condições em que essa meta é alcançada. As economias avançadas estão se transformando em economias de serviços e as grandes inovações estão neste setor. O Brasil também caminha nessa direção. O reconhecimento dessa transformação, bem como da urgência de mais e melhor educação, em vez de nostalgias do anos JK e da política industrial da ditadura, já seria meio caminho na direção de políticas que de fato aumentassem a eficiência da produção brasileira.

Um histórico expoente do desenvolvimentismo defendeu enfaticamente as recentes medidas protecionistas utilizando uma emocionada figura da psicologia: quem ama protege. Mas a mesma psicologia em sua versão moderna sustenta: quem ama dá limites, premiando acertos e punindo erros. Pode-se também citar Erasmo Carlos, o Tremendão, que em conhecida canção fala de um filho único que parecia dar um recado aos desenvolvimentistas tupiniquins: "Ei, mãe, não sou mais menino, não é justo que também queira parir meu destino, você já fez a sua parte, me pondo no mundo. (...) Proteção desproteje e carinho demais faz arrepender".

A indústria automobilística brasileira é uma criança de 60 anos! O que ela precisa é de tributação baixa e simples, mão de obra qualificada, segurança jurídica e infraestrutura adequada. Não de excesso de proteção que a tem tornado um adulto incapaz de operar em um mundo cada vez mais competitivo.

Pedro Ferreira e Renato Fragelli são professores da Escola de Pós-graduação em Economia (EPGE-FGV)

Movimento nos EUA prega transferência de dinheiro para cooperativas de crédito



Os protestos contra o sistema financeiro nos Estados Unidos não se resumem ao movimento Occupy Wall Street e seus similares. No dia 5 de novembro, o Bank Transfer Day, centenas de milhares de poupadores transferiram milhões de dólares dos grandes bancos para instituições de crédito cooperativo. Segundo a Credit Union National Association, somente no sábado pouco mais de 40 mil pessoas transferiram a cooperativas de crédito cerca de 80 milhões de dólares.


Enrico Piovesana - Peace Reporter

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O admirável mundo novo


Por Carl Schramm - Valor 10/11

Entramos no que pode ser denominada a era da "economia de fronteira". À medida que fontes mais antigas e mais fáceis de crescimento econômico vão secando, as perspectivas de dinamismo e prosperidade continuadas dependem mais que nunca de jovens empresas empreendedoras pioneiras para explorar e estender as barreiras tecnológicas. Isso coloca as economias nacionais sob constante pressão no sentido de derrubar barreiras artificiais à competição. Em outras palavras, em sua busca de crescimento econômico, os países precisam tornar suas economias mais empreendedoras.

Na medida em que muitos novos empregos em economias voltadas para o empreendedorismo têm menos de cinco anos, não é de surpreender que os líderes políticos ao redor do mundo e cobrindo todo o espectro ideológico estejam agora buscando formas de revigorar suas economias concentrando-se em formas de estimular a formação de novas empresas. É uma estratégia para enfrentar o duplo desafio do crescimento e criação de empregos.

Esse admirável mundo novo de "fronteira econômica" representa um significativo ponto de mudanças para o mundo inteiro. Sempre foi assumido que, em contraste com o mundo em desenvolvimento (e em particular as verdadeiras economias de fronteira como o Quênia, Nigéria, Vietnã, Colômbia, Romênia e Cazaquistão), os países desenvolvidos tiveram uma vida mais fácil. Com economias bem estabelecida e bem azeitadas, só precisavam se preocupar em fazer mais da mesma coisa. Na realidade, não é assim: quanto mais rico fica um país, mais incerto torna-se seu futuro econômico.

Num momento em que buscamos estabilidade e segurança, emerge uma visão paradoxal: para sustentar nosso progresso, precisamos por fim ao velho e estar aberto para o novo.

O que é, como sabemos, a grande observação originalmente formulada por Joseph Schumpeter em seu conceito de destruição criativa. Suas ideias são idealmente adequadas ao nosso tempo - e, apesar disso, pouco toleradas por políticos da velha escola. Eles consideram ser ainda sua "missão proteger empresas poderosas e bem estabelecidas. Isso pode, ou talvez não, proteger empregos existentes - mas certamente destrói muitos outros empregos potenciais.

Até agora, os defensores da destruição criativa têm sido amplamente considerados defensores de um capitalismo primal e, por extensão, arquiconservadores. Sempre me senti intrigado diante isso. Qualquer pessoa com alguma percepção do verdadeiro alcance dos desafios do mundo contemporâneo - do ambiente à saúde e da educação à energia -, têm consciência da necessidade de implementar novas abordagens.

Para concretizar essas mudanças, aqueles que constituem o que é geralmente descrito como esquerda ideológica precisam torcer para que uma dose saudável das ideias de Schumpeter sejam aplicadas ao processo político e à economia. Para essas forças sociais, o poder de interesses encastelados é o obstáculo à renovação econômica e ao progresso social.

Enquanto isso, o campo da direita, após dois séculos e um quarto de desenvolvimento contínuo, tem de admitir que o crescimento futuro não seguirá os modelos anteriores lineares de crescimento.

E como ficam os jovens, nesse cenário? Eles têm uma percepção geral de que enfrentam perspectivas de emprego incertas. Ao mesmo tempo, fazem parte de uma geração onde as fronteiras da inovação tecnológica e social estão sendo cada vez mais ampliadas. Depois que as inovações tecnológicas permaneceram durante longo tempo uma abstração, ou bastante inflexíveis, elas agora produzem novas ideias e paradigmas. A rápida adoção em âmbito mundial de mídias sociais e de outros aparelhos e redes eletrônicas baratas também estimula tomada de decisões descentralizadas, porém mais engajadas e conectadas.

Para que isso se torne uma realidade e explore novas fontes de prosperidade, os jovens, tanto empresários como líderes políticos, precisam contar com uma ampla gama de mercados verdadeiramente competitivos em bom funcionamento. E precisamos estar abertos à inovação empresarial. Isso não se aplica apenas a empresas recém formadas. O exemplo da Apple ressalta que até mesmo empresas bem estabelecidas, a fim de realmente ter sucesso, precisam permanecer dispostas a envolver-se em destruição criativa e se reinventar de cima a baixo.

Com tudo isso em mente, a Semana Global de Empreendedorismo (14 a 20 novembro) ajuda as pessoas em todo o mundo a explorar seu potencial - precisamente as pessoas que participarão dessa competição para descobrir e nutrir as novas e brilhantes ideias que impulsionarão o crescimento econômico futuro. Joseph Schumpeter, expressa pela primeira vez em 1942, nunca foi tão relevante como hoje. (Tradução Sergio Blum)

Carl Schramm é presidente e CEO da Ewing Marion Kauffman Foundation. unleashingideas.org/country/br.

Mais barato só chines



Chineses vão ao exterior buscar produção barata



Por Rahul Jacob Financial Times, em Dongguan



Frank Leung, dono da empresa de sapatos femininos New Wing Footwear, de Hong Kong, tem ido a lugares que nunca imaginara visitar. Ele foi a Dhaka (Bangladesh) e Adis Abeba (Etiópia) em busca de outras bases de produção além de sua fábrica em Dongguan, no sul da China. Mas, apesar de muito procurar, ficou decepcionado.

A pressão para transferir produção é clara. Os custos de mão de obra na China subiram entre 15% e 20%, anualmente, nos últimos dois anos, estreitando as margens e criando dificuldades para Guangdong, o centro da indústria de transformação chinesa.

Os custos mais elevados, junto com a alta do yuan, forçaram Leung a reduzir o número de funcionários em Dongguan, de 8.000 há três anos para os atuais 3.000.

Os salários em Bangladesh, diz ele, são de 20% a 30% inferiores aos da China. Além disso, as pessoas trabalham 48 horas por semana, mais do que a norma legal de 40 horas na China. O governo oferece isenção tributária por 10 anos.

Mas, em vez de ficar animado, Leung está abalado. "Eles têm congestionamentos de tráfego insanos e todo mundo usa gerador nas fábricas [porque o suprimento de energia elétrica é irregular]", diz. "A logística torna muito difícil trabalhar de forma eficiente."

Algumas semanas após ir a Dhaka, Leung voou para Adis Ababa. Os salários lá são ainda mais baixos que os de Bangladesh, mas ele não conseguiu encontrar indústrias fornecedoras, como fabricantes de solas de sapato e papelão.

"Na Etiópia, os congestionamentos são menores, mas eles estão no meio do nada", diz. A pobreza opressiva na Índia desestimulou-o por completo, após uma visita a Chennai. Agora, Leung já não tem certeza se vai, afinal, levar sua produção para fora da China.

O clima para os industriais em Guangdong levou muitos a se deslocarem para países no sul e sudeste da Ásia. Na semana passada, a GaveKal Dragonomics, empresa de pesquisas, previu que o crescimento das exportações da China cairá para apenas 9% no próximo ano. Deduzido o aumento de preços que os fabricantes chineses repassaram aos compradores no Ocidente, neste ano os volumes de exportação aumentaram só 12% nos primeiros três trimestres.

Muitos donos de fábricas, como David Liu, cuja empresa produz bolsas, avaliaram a possibilidade de mudar para países como o Vietnã, mas optaram por permanecer em Dongguan porque as redes de fornecedores e a produtividade da mão de obra são melhores. Liu fez viagens a Hunan, na China central, para ver se uma fábrica lá seria viável. Mais uma vez, a distância dos fornecedoras liquidaram a ideia.

Ele então optou por tentar reter seus trabalhadores mais antigos e qualificados em Dongguan, dando, por exemplo, quartos particulares aos casais e instalando ar-condicionado. O usual é que os trabalhadores vivam em dormitórios com seis a oito pessoas.

Liu diz que suas margens de lucro caíram de 10% para 3%, mas ele repassou aumentos de preços de 8% ao ano a varejistas europeus, onde suas elegantes bolsas são vendidas por € 300 a € 400.

Liu é a regra, não a exceção. O preço unitário das exportações chinesas para a UE subiu 10% entre janeiro e agosto. Essa alta foi ligeiramente superior à da Turquia, mas bem inferior à de México (17%) e Índia (23%), diz a GaveKal.

Apesar disso, a decisão de Pequim de dobrar os salários dos operários com aumentos do salário mínimo ano a ano durante os próximos anos incentivará as fábricas a emigrar da China.

Algumas empresas optaram por manter bases na China e expandir no exterior. A Texhong Textile abriu fábricas de fios para tecelagem no Vietnã em três etapas, entre 2007 e este ano, segundo Charles Hui, diretor financeiro da empresa, que tem ações negociadas em Hong Kong. Os salários no Vietnã equivalem a 1,2 mil yuans por mês, em comparação com 2 mil yuans na China. E as fábricas vietnamitas são mais automatizadas e exigem menos trabalhadores.

Hui diz que empresas de donos chineses relutam em se mudar porque "não estão familiarizadas com a gestão de trabalhadores que não têm a mesma cultura".

A GaveKal descobriu que mesmo setores tão intensivos em emprego de mão de obra como o têxtil, de vestuário e de brinquedos, para os quais as manchetes sugerem que as fábricas estão fugindo para o Sudeste Asiático, os fabricantes chineses elevaram seus preços em 10% a 20%, neste ano, "sugerindo que eles ganharam algum poder de fixação de preços".

Para Dong Tao, economista do Credit Suisse, o motivo é simples: "Nenhum país em desenvolvimento que pode igualar metade da eficiência que a China oferece." A combinação de enorme contingente de mão de obra e maior produtividade, bem como portos e estradas melhores que em outros países, torna difícil encontrar uma alternativa.

Commodities caem, mas não devem evitar nova recessão


Valor 10/11

A queda nos preços das commodities nos próximos meses será insuficiente para evitar que a economia mundial deslize para uma nova recessão, alertam analistas na Europa.

Segundo especialistas do Banco Mundial, os preços de commodities não energéticas caíram 7,6% em outubro - no terceiro mês consecutivo de queda -, elevando a preocupação sobre demanda e em parte por causa da apreciação do dólar. As quedas foram maiores para metais, em meio a tensões sobre produção industrial global. Os preços agrícolas também recuaram diante de aumento da oferta.

Pelas projeções da consultoria britânica Capital Economics, o preço do barril de petróleo brent poderá cair de US$ 112 atualmente para US$ 85 ao final de 2012 e US$ 75 ao final de 2013, com similar queda entre 20% e 40% na cotação das principais commodities agrícolas e industriais.

"Os preços de commodities vão cair porque a demanda mundial continuará lenta no cenário atual", concorda Heiner Flassbeck, economista-chefe da Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Ele considera isso inevitável diante da situação econômica "muito ruim" nos EUA, na Europa e no Japão, que respondem por 70% da produção mundial. E nos três o consumo privado é responsável por 80% do crescimento.

"Somente mais consumo nesses países pode estimular a economia, mas o que estamos vendo é estagnação Quem vai criar crescimento?", indaga Flassbeck. "Na Alemanha, as novas encomendas caíram 5% só em setembro, mas o governo age como se tudo estivesse bem."

A importância das commodities para essas economias varia, dependendo de seu estágio de desenvolvimento e de ela ser produtora ou consumidora. Mas o preço do petróleo é o mais importante globalmente e representa metade dos índices de commodities.

O que acontece com o preço do petróleo é essencial para outras matérias-primas, incluindo alimentos. Petróleo mais barato reduz os preços dos grãos, devido ao gasto menor com combustível e fertilizantes usados na agricultura, e reduz também a demanda de investidores e especuladores em commodities, nota Julian Jessop, economista-chefe global da Capital Economics.

A queda do preço do petróleo poderá dar fôlego para a economia mundial de duas maneiras. Primeiro, estima-se que a redução de US$ 10 no preço do barril pode transferir uma renda equivalente a 0,5% do PIB mundial de produtores para consumidores, e dar assim um reforço na demanda mundial.

Segundo, menos inflação causada pelos preços de commodities facilita a tarefa de bancos centrais nos países desenvolvidos de manter as taxas de juros próximas de zero por mais tempo, e possibilita aos emergentes cortar suas taxas.

No entanto, a experiência da crise de 2008 e 2009 mostra que mesmo um colapso nos preços das matérias-primas não evita uma recessão. O preço do petróleo caiu abaixo de US$ 40 o barril no final de 2008, muito mais do que está sendo previsto agora, e mesmo assim a economia mundial sofreu forte deterioração. "A baixa nas commodities pode ajudar, mas somente um pouco", afirma Jessop.

Para o Deutsche Bank, o que está faltando, sobretudo na Europa, é estratégia para evitar maior recessão no velho continente. Considera que somente uma solução para a crise da zona do euro pode dar alivio para o setor bancário e evitar um aperto do crédito na Europa.

"É provavelmente tarde demais para evitar uma contração mais significativa do PIB na Europa", avalia o banco alemão. Os riscos de maior contração estão na Itália. Mas mesmo a Alemanha, que continua com desempenho melhor, começa a sofrer.

Paradoxalmente, segundo o Deutsche Bank, o fato de a Alemanha não estar isolada da deterioração econômica geral pode ser visto positivamente, para dar um senso de urgência na opinião publica em favor de políticas mais pró-ativas de resposta à crise.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O avesso do avesso do avesso




ALEXANDRE SCHWARTSMAN FSP 09/11

A redução da Selic eleva o lucro bancário (a elevação reduz os ganhos), conclusão oposta à do senso comum

Imagine que alguém resolva comprar um título público cujo rendimento, fixo por um ano, seja 13% naquele momento. Sem recursos, no entanto, o investidor toma emprestado, prometendo pagar a seus credores a taxa Selic, que, também naquele instante, é de 12,5% ao ano.
Assim, caso a Selic não se altere no período, ele ganhará 0,5% ao ano sobre essa aplicação. Parece dinheiro de graça, mas, como isso não existe, é necessário saber onde está o truque.
Na verdade, o "truque", ou melhor, a condição essencial para que esse investimento seja rentável é que a taxa Selic seja menor do que a taxa de retorno do papel em que os recursos foram aplicados.
Assim, caso o BC eleve a Selic, o investidor perderá dinheiro; por outro lado, se o BC decidir pela redução da Selic, deve ficar claro que o aplicador ganhará ainda mais do que esperava.
Esse resultado parece estranho. Contudo, quem prestou atenção no exemplo acima deve ter notado que se trata de uma descrição muito estilizada da operação de um banco, que toma recursos de clientes tipicamente pagando uma taxa de juros associada à Selic (o CDI), enquanto aplica esses recursos majoritariamente em ativos (títulos e empréstimos) cujas taxas de juros são fixas ao longo da vida da aplicação.
De fato, segundo números do BC relativos a setembro (quadro 31 da "Nota à Imprensa Relativa à Política Monetária e Operações de Crédito"), os empréstimos a taxas fixas dos bancos atingiram quase R$ 720 bilhões, enquanto os ligados ao CDI chegaram a pouco mais de R$ 200 bilhões.
Já no que se refere aos títulos públicos (quadro 37 da "Nota à Imprensa Relativa à Política Fiscal"), o montante de papéis de taxa fixa (prefixados e indexados à inflação) era de R$ 1,1 trilhão ao final de setembro, enquanto os indexados à Selic (incluindo operações compromissadas) somavam cerca de R$ 920 bilhões.
Já do lado da captação dos bancos, os dados mais recentes revelam que os depósitos à vista (sobre os quais os bancos não pagam juros) representavam R$ 140 bilhões, enquanto os depósitos a prazo (remunerados pelo CDI) somavam R$ 865 bilhões. Sob tais circunstâncias, a saber, passivos indexados ao CDI e ativos majoritariamente a juros fixos, vale a conclusão inicial: a queda da taxa Selic (portanto, do CDI) baixa o custo dos recursos para os bancos, sem alterar, porém, o rendimento da maior parte da sua carteira de empréstimos e títulos. Ou seja, a redução da Selic eleva os lucros bancários (portanto, a elevação da Selic reduziria seus ganhos), conclusão oposta à do senso comum.
Já que garanti minha cota de protestos, posso antecipar alguns dos argumentos em contrário (o que vai aumentar os protestos, mas fazer o quê?).
Alguns dirão que o lucro dos bancos vem dos "spreads" (a diferença entre as taxas de aplicação e de captação de recursos), o que é verdade, mas, se bem leram o que foi escrito, terão notado que a queda da Selic leva precisamente ao aumento do "spread" nos empréstimos bancários já existentes, como definido anteriormente.
Quanto aos novos empréstimos, o efeito sobre o "spread" não é claro (cai o custo de captação, mas não sabemos, a priori, se a taxa de aplicação cai mais -ou menos- do que o CDI). Por outro lado, mesmo que o "spread" não caia, o barateamento do custo do dinheiro deve aumentar o volume de empréstimos, de modo que, também por esse canal, a redução da Selic deve ser positiva para os bancos, assim como a queda no preço de qualquer insumo é vantajosa para a empresa que o utiliza.
Obviamente não prego aqui que não se deva baixar a Selic porque os bancos ganham com isso. Mostro apenas que a crença de que os bancos ganham dinheiro quando o juro sobe (e vice-versa) não sobrevive a uma análise mais detalhada. Por consequência, a visão de que o BC mostrou independência (dos bancos) ao diminuir a taxa de juros fica reduzida à sua real dimensão: uma rematada tolice.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 48, é doutor em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil.

www.maovisivel.blogspot.com

alexandre.schwartsman@hotmail.com


Comentário do Max (Max Meira)

Grosso modo, o autor baseia sua tese no fato de que os bancos captam à taxa Selic e doam à taxa pré-fixada. Logo, baixar a Selic barateia a captação; e aumenta o spread, fazendo com que os bancos lucrem mais. Confirma o fato com dados do BC sobre doação majoritariamente prefixada e captação selicada. Sobre novos empréstimos, diz nada poder afirmar. O articulista, entretanto, não aborda a composição da carteira de títulos públicos federais dos bancos, que: se indexada à Selic, passaria a render menos (com queda nos juros); se prefixada, teria aumento imediato nos PUs (se a redução da Selic não estivesse precificada na curva a termo da taxa de juros), e seria menos rentável na renovação.

TV ON LINE


ECONOMISTA ANALISA CENÁRIO DO SETOR INDUSTRIAL BRASILEIRO TEMPO: 00:05:15
Em entrevista ao Conta Corrente, a economista Clarice Mersser falou sobre o recente cenário econômico nacional e internacional, além dos números do setor industrial publicados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). A economista disse que o País precisa ser mais amigável com a produção.

SONORA

*CLARICE MERSSER, economista

*GEORGE VIDOR, jornalista

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS

Pensar o que era impensável


Por Martin Wolf - Valor 09/11

Será que a zona euro vai sobreviver? Os líderes da França e da Alemanha já levantaram essa indagação em relação ao caso da Grécia. Se as autoridades governamentais tivessem entendido há duas décadas o que compreendem agora, nunca teriam lançado a moeda única. Somente o medo das consequências de um rompimento agora é que os mantêm juntos. A questão é se isso será suficiente. Suspeito que a resposta seja não.

Até agora, os esforços para controlar a crise falharam. É verdade que a liderança da zona do euro descartou o perturbador anseio de George Papandreou por legitimidade democrática. Mas o estresse financeiro está arraigado na Itália e na Espanha. Com juros reais de aproximadamente 4,5% e crescimento econômico de 1,5% (sua média entre 2000 e 2007, inclusive), o superávit primário fiscal italiano precisa ficar próximo de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) por um tempo indeterminado. Mas a proporção da dívida é muito alta. Assim, o superávit primário tem de ser maior, a taxa de crescimento tem de ser maior ou a taxa de juros precisa ser mais baixa. Sob Silvio Berlusconi, nenhuma das mudanças necessárias irá acontecer. Outro líder corrigiria as coisas? É o que me pergunto.

A dificuldade fundamental ao longo de toda a crise tem sido a incapacidade de compreender sua natureza. Nouriel Roubini, da Stern School of Business da New York University assinala os pontos relevantes em trabalho recente*. Ele distingue, como fiz em minha coluna de 4 de outubro, entre estoques e fluxos. Os fluxos são mais relevantes. São essenciais para restaurar a competitividade externa e o crescimento econômico. Como observa Thomas Mayer, do Deutsche Bank "abaixo da superfície da dívida pública e da crise bancária da área do euro há uma crise de balanço de pagamentos resultante de um desalinhamento das taxas de câmbio internas reais". A crise terminará se, e somente se, os países mais fracos recuperarem sua competitividade. Neste momento, os déficits estruturais externos dos países são grandes demais para que possam ser financiados voluntariamente.

Roubini discute quatro opções para atacar simultaneamente esses problemas de estoques e de fluxos: a primeira, uma recuperação do crescimento e da competitividade mediante agressiva flexibilização da política monetária, de um euro mais fraco e de políticas de estímulo nos países centrais, enquanto a periferia implementa austeridade e reformas; a segunda, um ajuste deflacionário apenas na periferia, juntamente com reformas estruturais, para forçar uma queda dos salários nominais; a terceira, financiamento permanente, pelos países centrais, de uma periferia não competitiva; e a quarta, uma reestruturação generalizada da dívida e ruptura parcial da zona do euro. A primeira poderia conseguir o ajuste, sem grandes calotes. A segunda não conseguiria ajustar os fluxos em tempo e, por isso, provavelmente se metamorfosearia na quarta opção. A terceira evitaria um ajuste de estoques e de fluxos na periferia, mas ameaçaria o núcleo com insolvência. A quarta seria simplesmente o fim.

Mas, existem enormes obstáculos. A primeira, do ponto de vista econômico, é a que mais provavelmente funcionaria, mas é inaceitável para a Alemanha. A segunda é politicamente aceitável para a Alemanha (apesar dos efeitos nefastos sobre a economia), mas seria, em última instância, inaceitável na periferia. A terceira é politicamente inaceitável para a Alemanha e provavelmente revelar-se-ia inaceitável também na periferia. A quarta é inaceitável para todos, ainda que somente por ora.

No longo prazo, a primeira e a última das opções de Roubini parecem mais prováveis: ou a zona do euro inteira se ajusta ou se fraciona. A Alemanha precisa aceitar os riscos do primeiro caminho. Sei que o pesadelo dos alemães é a hiperinflação de 1923. Mas a austeridade brutal em 1930-1932 finalmente levou Adolf Hitler ao poder.

A questão é se sair (da zona do euro) seria viável sem explodir o mundo. Suponha uma decisão segundo a qual, para um país fortemente não competitivo, como a Grécia, a saída seria cooperativa. A Grécia adotaria uma nova moeda: o "novo drachma". A taxa de câmbio da nova moeda em relação ao euro seria fixada pelo mercado. O drachma se desvalorizaria rapidamente. Mas isso é desesperadamente necessário.

Os gregos continuariam a buscar o equilíbrio fiscal, para o que contribuiria uma enorme desvalorização real. Seu banco central assumiria a gestão da nova moeda de forma independente. O nível de preços daria um salto, na nova moeda, mas, dado o excesso de capacidade, hiperinflação poderia ser evitada com algum apoio externo. Mas se a Grécia viesse a experimentar uma deflação doméstica prolongada, então, para recuperar sua competitividade externa, sem a nova moeda, o valor real da dívida em euros também cresceria explosivamente.

Essa abordagem cooperativa para a reintrodução de uma nova moeda seria a menos dispendiosa. Mas, certamente, geraria contágio. Se a zona do euro decidir que precisa evitar essa ameaça, então precisaria retornar ao primeiro item no menu de opções colocadas por Roubini. Países potencialmente solventes seriam financiados e a zona do euro sairia da crise por meio de seu crescimento.

Uma zona euro construída sobre um ajuste deflacionário unilateral fracassará. Isso parece inescapável. Se os líderes da zona do euro insistirem nessa política, terão de aceitar o resultado.

* Four Options to Address the Eurozone's stock and flow imbalances, unpublished, www.roubini.com/analysis/165338 (quatro opções para solucionar os desequilíbrios de estoque e de fluxo na zona do Euro), texto não publicado, www.roubini.com/analysis/165338. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT

A presidente sabe


Por Carlos Lessa - Valor 09/11

A presidente é economista, com sólida formação e ampla informação. Foi ministra do vetor-chave do desenvolvimento: a energia. Conviveu e teve assessoria pessoal de Maria da Conceição Tavares, uma das mais brilhantes inteligências do Brasil.

A presidente sabe que a crise mundial, explicitada em 2008, será de longa duração e que o mundo pós-crise não é previsível, mas haverá a modificação geopolítica do planeta, uma profunda onda de inovações tecnológicas e alteração em padrões comportamentais.

A presidente sabe que o futuro exige conhecimento das restrições para, no âmbito do raio de manobra, serem a nação, o povo e sua economia uma folha ao vento da história ou, com a vontade civilizatória e solidária do povo, explicitar e desdobrar um projeto nacional. Cabe ao governante atuar no âmbito da manobra com o olhar firme, coordenar os atores sociais a atuar em direção ao sonho de um Brasil justo e próspero.

A presidente sabe a perversa tendência do sistema financeiro de, em tempos de crise, adotar políticas defensivas que aprofundam a crise. Keynes falava da "preferência pela liquidez", que desvia as empresas da realização de investimentos de ampliação de capacidade produtiva e passam a optar por aplicações financeiras. As organizações bancárias e do mercado de capitais tendem a restringir empréstimos e a optar por ampliar suas reservas de uso imediato. Ao fazê-lo, "empoçam" recursos, e aprofundam a tendência à fase depressiva da economia. O coletivo de empresas, acreditando na crise, adota uma conduta que acelera e aprofunda a crise. No limite, participam de um estouro de boiada que corre para o precipício.

A presidente sabe que o Fed (Federal Reserve) adquiriu ativos podres e duvidosos e injetou volumes colossais de recursos no sistema bancário americano. Entretanto, esses bancos não estão reativando a economia; estão cautelosos no crédito, prosseguem com a execução de hipotecas imobiliárias e paralisam a atividade da construção civil. A família americana, sem planos de previdência contratuais, hoje vê o futuro com angústia e decidiu pela contenção do consumo, que aprofunda o processo depressivo. Os indicadores macroeconômicos dos EUA são inquietantes.

A presidente sabe que os bancos da zona do euro não conseguem coordenar suas políticas nacionais, e tendem a praticar um contracionismo que sinaliza persistência e aprofundamento da crise. Os bancos da zona do euro estão "empoçando" e a Suíça, com medo de uma corrida pelos francos, alinhou sua moeda com o euro.

A presidente sabe que tanto os EUA quanto a comunidade europeia estão reduzindo importações. A China, que vinha sustentando o crescimento, vem perdendo ímpeto e já sinaliza procedimentos de reforço de seus bancos oficiais (para evitar a queda das Bolsas chinesas, o governo está recomprando ações de seus bancos dos acionistas privados minoritários).

A presidente sabe que a Bolsa de Mercadorias de Chicago sustenta os preços relativos de alimentos, de algumas matérias primas e do petróleo. Há uma preferência crescente dos especuladores mundiais por aplicações arbitradas pela Bolsa de Mercadorias de Chicago, porém o sinal pode mudar.

A presidente sabe que, frente à crise mundial, o Brasil deve "botar suas barbas de molho". Felizmente, temos o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e o BNDES, que respondem à orientação soberana nacional de não participar da manada (Lula teve que trocar o presidente do BB para forçar nosso maior banco a expandir crédito).

A presidente sabe que o Bradesco já anunciou a criação de um fundo de R$ 1 bilhão para ter "liquidez preventiva" em relação à inadimplência privada. A presidente sabe que é importante reforçar o sistema bancário oficial e expandir o crédito e reduzir os juros básicos. A presidente, corretamente, quer estimular a construção civil em um programa de habitação popular. Obviamente, para a geração de emprego e renda, essa é a política social anticrise por excelência, porém sabe que tem que reduzir a gula dos empreiteiros. Manter a demanda interna ampliando o endividamento familiar com compra de veículos automotores e outros bens duráveis tem um efeito macrodinâmico menor e é patrimonialmente equivocada em relação à família brasileira. Talvez seja esse o sentido profundo da enigmática recomendação presidencial: "o brasileiro deve consumir com moderação".

Uma economista competente não diria essa frase (que parece aplicável a bebida) se não estivesse pensando em desviar as famílias da armadilha da compra de duráveis, orientando-as para a ativação da construção civil. Acho inteligente reforçar os fundos imobiliários com aplicações financeiras da previdência complementar, porém é necessário planejar o futuro das cidades e ampliar o investimento na infraestrutura urbana.

A presidente sabe que é possível e necessário fazer muito mais. O câmbio tem que voltar a ser controlado. O Brasil não deve estimular empresas brasileiras a investirem no exterior (recentemente, duas indústrias de calçados do Rio Grande do Sul anunciaram que vão deslocar suas operações para a Nicarágua em busca de mão de obra barata e menor intervenção do Estado). O sistema bancário oficial deve retirar qualquer apoio a essa atitude anti-nacional. O fomento público deve ser preferencial a empresas de brasileiros. As filiais de multi, na crise, tendem a ampliar remessas para as matrizes. Há um espaço para a empresa de brasileiros crescer, orientada para o mercado interno. As filiais terão que reduzir remessas para manter suas posições de mercado.

Presidente, a desvalorização do real aumenta a rentabilidade das exportações primárias mas encarecem itens básicos da alimentação popular. É indispensável a recriação do imposto de exportação, se houver a desvalorização previsível. Devemos selecionar com critério aplicações financeiras do exterior, reduzir o endividamento com risco cambial do setor privado, ampliar a proteção a ramos industriais clássicos, e adotar uma política pública de "comprar o produto brasileiro".

A presidente está informada das pressões externas. Algumas deveriam ser ridicularizadas: as associações americanas de indústrias de confecção e calçados protestaram contra a adoção, pelo Brasil, de medidas defensivas desses ramos industriais clássicos e ameaçados. Quero crer que são as matrizes interessadas em que suas filiais na China ampliem a avalanche de exportações para o Brasil. No Japão, surgiram resmungos quanto aos obstáculos para importações de veículos pelo Brasil.

Somente critico a presidente pela modéstia das medidas. Outra presidente sul-americana, que vem adotando medidas radicais de defesa nacional, acabou de receber uma reeleição consagradora. A timidez não é sábia em momentos de crise mundial.

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES

Preço garante à China 84% da importação de alguns bens


Valor 09/08

A participação da China nas importações brasileiras de vários produtos manufaturados disparou nos últimos anos, atingindo em alguns casos proporções muito elevadas. De janeiro a setembro de 2011, as compras de celulares chineses representaram 70% do total importado pelo Brasil desses bens, uma alta forte em relação aos 55% do mesmo período de 2010. Nos nove primeiros meses de 2002 nenhum celular adquirido pelo Brasil do exterior viera da China.

O país asiático também domina com folga o mercado brasileiro de importação de outros manufaturados - a fatia é de 72% nos tecidos de fibras têxteis, sintéticas ou artificiais, de 81% nos brinquedos, de 84% nos aparelhos eletromecânicos ou térmicos de uso doméstico (aspiradores de pó e enceradeiras) e de 53% nas máquinas automáticas para processamento de dados. Já a participação da China no total das compras de manufaturados é mais modesta - ficou em 17,2% de janeiro a setembro deste ano. Os números são do Departamento de relações internacionais e comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), elaborados com informações do Ministério do Desenvolvimento.

Com o câmbio valorizado por aqui e depreciado por lá, uma mão de obra ainda barata e grandes vantagens de escala, a China consegue vender produtos como esses a preços muito atraentes. De janeiro a setembro, o preço de bombas e compressores chineses ficou 64% abaixo do valor médio de importação desses produtos de outros países. Os motores, geradores e transformadores elétricos da China ficaram quase 40% mais baratos.

O diretor de relações internacionais e comércio exterior da instituição, Roberto Giannetti da Fonseca, diz que a competição chinesa se torna muitas vezes "irresistível", devido à combinação de incentivos fiscais, tributários e financeiros promovidos pelo governo, num cenário marcado por uma moeda artificialmente desvalorizada.

O avanço rápido da fatia chinesa nas importações de alguns produtos impressiona. De janeiro a setembro de 2001, menos de 5% das compras externas de máquinas automáticas para processamento de dados (como caixas de supermercado) vinham da China. No mesmo período deste ano, o percentual chegou a 53%. No caso de tecidos de fibras têxteis, sintéticas e artificiais, o pulo foi de 4% em 2001 para 72% em 2011. Um ponto importante é que muitas empresas de outros países - como dos Estados Unidos, Europa ou Japão - usam a China como plataforma exportadora, dados os baixíssimos custos de produção do país.

O diretor do Instituto de Economia da Unicamp, Fernando Sarti, aponta três motivos para o aumento forte da China na pauta de importações de manufaturados. "O primeiro é sem dúvida a questão do câmbio", diz ele. "Outro ponto importante é o financiamento aos importadores de produtores chineses, o que ganha relevância quando se negociam produtos de maior valor agregado." Para completar, está em curso um processo de internacionalização das empresas chinesas. Há muitas companhias do país asiático se instalando por aqui, o que eleva a compra de componentes e produtos acabados da China, afirma Sarti.

Ele destaca ainda que, no pós-crise, os fabricantes chineses passaram a olhar o mercado brasileiro com ainda mais atenção, porque o consumo por aqui cresce a taxas bem mais expressivas do que em tradicionais clientes do país asiático, como Estados Unidos e Europa.

Para Sarti, o forte aumento das importações indica que o Brasil está perdendo a oportunidade de aproveitar o dinamismo do mercado interno para "melhorar e adensar a estrutura de suas cadeias produtivas". O mau desempenho da indústria, que pode crescer apenas 1% em 2011, espelha esse fenômeno, segundo ele.

O economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, diz que o aumento avassalador da participação de produtos chineses nas importações de alguns manufaturados está longe de ser um fenômeno exclusivamente brasileiro. "Há uma tendência de a China ser o grande produtor de manufaturados no mundo", observa ele, destacando que os pesados custos que recaem sobre a indústria brasileira, como a alta carga tributária, as deficiências de infraestrutura e uma mão de obra mais cara, afetam a competitividade do país. "O câmbio é mais um detalhe."

De janeiro a setembro, a fatia chinesa no total de importações de manufaturados foi pouco superior a 17%, bem menos que os 70% a 80% de alguns produtos. Um dos motivos é que o Brasil importa muitos automóveis da Argentina, do México e da Coreia do Sul, bens com grande peso na pauta. Além disso, o país também compra grandes volumes de óleos combustíveis no exterior, produtos com características de commodities, mas classificados como manufaturados. De qualquer modo, a participação chinesa no total desses bens tem crescido com força - em 2001, era de 2,5%.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dois mitos sobre a poupança nacional


Por Yoshiaki Nakano - Valor 08/11

Existem muitos mitos sobre a taxa de poupança no Brasil. Vejamos dois desses mitos. Primeiro, a maioria dos economistas quando fala em poupança está pensando em poupança pessoal, das famílias, ignorando a poupança das empresas. Segundo, a maioria dos analistas assume como óbvio que a baixa taxa de poupança é a responsável pela baixa taxa de investimento na economia brasileira. Vamos verificar se esses dois mitos se sustentam diante dos dados e das pesquisas empíricas.

A maioria dos economistas adquire o "estranho hábito" de raciocinar como se a poupança nacional fosse composta apenas da poupança pessoal, isto é, das famílias. E daí deriva um conjunto de diagnósticos incorretos. De fato, nos fundamentos teóricos dos neoclássicos estuda-se a decisão do consumidor, mas a empresa (firma) é identificada apenas por um conjunto de curvas de custos. Nesse mundo teórico, as categorias lucros, dividendos e lucros retidos não existem.

Quando se considera a empresa como uma complexa organização dirigida por executivos, que busca maximizar lucros e distribuir dividendos para os acionistas e interagindo com outras empresas, o equilibrio geral, para o conjunto da economia, fica indeterminado e as conclusões teóricas se desfazem. Daí o "estranho hábito" de identificar o mundo real com os modelos por eles criados e pior, agem como se fossem portadores da verdade. O que os fatos e o mundo real das análises financeiras nos dizem é algo completamente diferente.

Os dados do IBGE nos mostram que 88,4% da poupança bruta total no Brasil foi gerada pelas empresas, representando, em relação ao PIB, 17,1%, em 2006, último dado disponível. A poupança das famílias representou 26,8% da poupança total, o que representa 5,2% em relação ao PIB no mesmo período. O problema está localizado na Administração Pública, que tem uma despoupança de -15,9% da poupança bruta total, representando -3,1% do PIB. Logo, o setor privado poupou 22,3% do PIB e, se o governo tivesse consumido menos e poupasse o equivalente aos seus investimentos, a taxa de poupança teria atingido 25,4% do PIB.

Na verdade, estes dados apenas ratificam muitos estudos empíricos anteriores. Por exemplo, R. Bebczuk em pesquisas empíricas relatadas no seu livro texto sobre finanças ("Asynmetric Information in Financial Markets", Cambridge University Press, 2003) mostra que na América Latina, em média, 80,6% dos investimentos produtivos em firmas não financeiras eram financiados pelos lucros retidos no periodo 1990-1996. No Brasil esse percentual era pouco menor - 76,1% - dado certamente à elevada participação do BNDES. Nos países desenvolvidos, os lucros retidos financiavam, em média, 71,1% dos investimentos produtivos, tendo em vista a participação de 9,9% de ações.

Outra informação relevante é que nos países menos desenvolvidos a poupança das famílias é pouco expressiva e na America Latina representa apenas 13,6% da poupança privada total, enquanto que nos países desenvolvidos chega a representar, em média, cerca de 50%. No Brasil, a poupança das famílias representou 27,8% da poupança privada total e tenderá a aumentar com o crescimento, aumento da renda per capita e envelhecimento da população.

Portanto, o problema da poupança nacional está localizado no setor público que absorveu 15,9% da poupança do setor privado para financiar suas despesas, e investindo muito pouco produtivamente. Na realidade, o Governo apropria e reduz a poupança privada utilizando-se de dois instrumentos: 1) mantém taxas de juros num patamar recordista mundial; e 2) impõe carga tributária de mais de 36% do PIB.

O segundo mito advém do hábito de imputar a fatores exógenos ao sistema econômico os seus males. Nessa forma de pensar, a taxa de poupança é um dado exógeno, um dado não explicado pelo modelo. Assim, as elevadas taxas de juros, excesso de investimento em relação à poupança e o baixo crescimento seriam explicados por esse dado exógeno. Da mesma forma, é a baixa taxa de poupança doméstica que explica a taxa real de câmbio apreciada e o déficit em transacões correntes.

Na verdade, a taxa de poupança, depende dos lucros e este é endógeno e resultado da operação do sistema econômico: lucro não depende da decisão da empresa, depende do volume de vendas (demanda agregada) e seus preços, que resultam da negociação da taxa de salário com os trabalhadores e da competição e interação com as demais empresas. Em economias abertas, o lucro ou a margem de lucro tem uma relação com a taxa de câmbio, se ela for competitiva tendem a ser maiores, mas a relação é complexa e certamente não linear.

A poupança total, nas economias emergentes, ao depender fundamentalmente dos lucros retidos, e o fato dos trabalhadores (salários) pouparem menos do que os capitalistas (dividendos), fazem com ela seja variável e resultado final da operação e do desempenho do sistema econômico. Assim, quanto maior forem o volume de investimentos produtivos, este sim objeto de decisão das empresas, e o crescimento da economia, maior será a poupança nacional.

O que os dados do IBGE mostram é que não há excesso de investimento sobre a poupança de forma que esta última seja a restrição ao crescimento, ao contrário. Tanto as empresas como as famílias têm um excesso de poupança em relação aos investimentos produtivos, particularmente, nos anos recentes em que houve uma aceleração do crescimento. As empresas não financeiras pouparam 12,1% a mais do que a formação brutal de capital, isto é, os lucros retidos excessivos foram emprestados ou fizeram aplicações financeiras, em 2006, segundo os dados do IBGE. A baixa taxa de investimento sim é a causa da baixa taxa de crescimento da economia brasileira e ela é baixa porque a taxa de juros e a carga tributária são elevadas, assim como a taxa de câmbio está excessivamente apreciada.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), é professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

Novo Banco Central Europeu


Por Antonio Delfim Netto - Valor 08/11

A situação da economia mundial tem todos os ingredientes para continuar se agravando. As lideranças políticas não parecem ter a inteligência e a coragem para cortar, de uma vez por todas, o devastador processo de autoestímulos que realimenta a crescente instabilidade do setor financeiro internacional. Esses mecanismos de retroalimentação podem ser vistos, muito simplificados, no quadro abaixo.

A instabilidade do setor financeiro pode ser medida pela sua consequência mais visível, a flutuação da volatilidade do mercado acionário, que tem variado dramaticamente desde a crise de 2008. Depois da liquidação desordenada do Lehman Brothers - que manchará a história econômica como a maior manifestação de miopia e mediocridade das autoridades políticas e monetárias americanas e inglesas -, houve paralisia do crédito interbancário, que voltou a alimentar a instabilidade. A principal repercussão foi o escrutínio e a revelação que a Eurolândia escondia graves comportamentos fraudulentos. O contágio europeu voltou a alimentar a instabilidade, revelada fisicamente na imensa queda das cotações das ações em todo o mundo.

O efeito mais importante dessa queda foi a "destruição" do valor das empresas -que perderam a capacidade de tomar crédito e, no caso dos bancos, de fornecê-lo diante da necessidade de rápida desalavancagem, o que realimentou a instabilidade. Estima-se que, só nos EUA, a queda das Bolsas e a liquidação das hipotecas reduziram em US$ 7 trilhões a riqueza que as famílias supunham ter.

Todas essas retroalimentações sugerem que o sistema hoje roda sobre si mesmo, devido à quebra de confiança de cada agente com relação a todos os outros. Ele só voltará a funcionar quando ela for restabelecida por uma ação decisiva, inteligente, ampla e coordenada das políticas fiscais, monetárias e cambiais de todos os países (talvez no G-20), o que parece pouco provável, ainda.

Os efeitos desse processo sobre a economia brasileira podem ser significativos, mas são de sinal incerto e de mensuração difícil. Há um efeito direto da flutuação das bolsas internacionais sobre a Bovespa, que seguramente "destruiu" valores que a sociedade supunha ter, o que tem algum efeito sobre o consumo e sobre o investimento. Por outro lado, a instabilidade do setor financeiro tende a reduzir o crescimento real da economia mundial, e a paralisia política americana (com uma ajudazinha do Fed) tende a desvalorizar o dólar medido com relação à cesta de moeda dos países que transacionam com os EUA.

A cada desvalorização de 1% do dólar (que valoriza o real), o preço médio das commodities (CRB) tende a cair 3%, o que ameniza a pressão inflacionária. O efeito sobre as commodities pode ainda ser ampliado pela redução do crescimento da China, em consequência do desaquecimento mundial.

As incertezas são tantas que em apenas uma semana "tudo ficou melhor": as Bolsas "explodiram" diante da aparente ação "decisiva" de Merkel e Sarkozy (criação de fundo "virtual" de € 1 trilhão, de origem ainda desconhecida, e a imposição de corte de 50% da dívida grega junto aos bancos); na mesma semana; "tudo ficou pior": as Bolsas "desabaram", quando o primeiro-ministro grego Papandreou, assustado com a reação interna, sugeriu uma "consulta popular", que foi rejeitada. Tem razão Shakespeare, quando nos adverte que a vida é uma viagem perigosa!

Viagem perigosa é a que iniciou, em 1º de novembro, o excelente economista e administrador experimentado, Mario Draghi. Navegador de mar grosso, aos 63 anos é o novo presidente do Banco Central Europeu. Foi diretor do Banco Mundial durante seis anos. Tornou-se famoso nos anos 90, quando salvou a Itália do "default" como ministro do Tesouro, com duro programa de corte das despesas públicas. Fez ampla privatização e desvalorizou a lira para prepará-la para a entrada no euro. Conquistou, com isso, o título de "Super-Mario". Em 2002, foi contratado pela Goldman Sachs como vice-presidente e diretor-executivo, onde ficou até 2005. Assumiu, então, a presidência da Banca d´Italia. É, provavelmente, o economista italiano de maior reputação do mundo.

Draghi não é classificável facilmente. Foi formado por Federico Caffé, renomado e sofisticado keynesiano que desapareceu misteriosamente em 1987. Sob a orientação do célebre Franco Modigliani (Nobel, 1985), foi o primeiro economista italiano a obter um Ph.D. no MIT, onde completou a formação iniciada na Escola Jesuíta de Roma, o que diz alguma coisa.

A definição de quem o conhece bem é a de que "se trata de um economista eclético, com forte formação analítica, pragmática e experimentado no trato político". Com Draghi, o BCE será, certamente, mais arejado do que foi com o sisudo Jean-Claude Trichet. Nele vai ter que internalizar a ideia que o euro não é a moeda alemã. É da Eurolândia e tem de servir aos interesses de todos os seus membros. Já começou bem, baixando os juros...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.