quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Preço garante à China 84% da importação de alguns bens


Valor 09/08

A participação da China nas importações brasileiras de vários produtos manufaturados disparou nos últimos anos, atingindo em alguns casos proporções muito elevadas. De janeiro a setembro de 2011, as compras de celulares chineses representaram 70% do total importado pelo Brasil desses bens, uma alta forte em relação aos 55% do mesmo período de 2010. Nos nove primeiros meses de 2002 nenhum celular adquirido pelo Brasil do exterior viera da China.

O país asiático também domina com folga o mercado brasileiro de importação de outros manufaturados - a fatia é de 72% nos tecidos de fibras têxteis, sintéticas ou artificiais, de 81% nos brinquedos, de 84% nos aparelhos eletromecânicos ou térmicos de uso doméstico (aspiradores de pó e enceradeiras) e de 53% nas máquinas automáticas para processamento de dados. Já a participação da China no total das compras de manufaturados é mais modesta - ficou em 17,2% de janeiro a setembro deste ano. Os números são do Departamento de relações internacionais e comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), elaborados com informações do Ministério do Desenvolvimento.

Com o câmbio valorizado por aqui e depreciado por lá, uma mão de obra ainda barata e grandes vantagens de escala, a China consegue vender produtos como esses a preços muito atraentes. De janeiro a setembro, o preço de bombas e compressores chineses ficou 64% abaixo do valor médio de importação desses produtos de outros países. Os motores, geradores e transformadores elétricos da China ficaram quase 40% mais baratos.

O diretor de relações internacionais e comércio exterior da instituição, Roberto Giannetti da Fonseca, diz que a competição chinesa se torna muitas vezes "irresistível", devido à combinação de incentivos fiscais, tributários e financeiros promovidos pelo governo, num cenário marcado por uma moeda artificialmente desvalorizada.

O avanço rápido da fatia chinesa nas importações de alguns produtos impressiona. De janeiro a setembro de 2001, menos de 5% das compras externas de máquinas automáticas para processamento de dados (como caixas de supermercado) vinham da China. No mesmo período deste ano, o percentual chegou a 53%. No caso de tecidos de fibras têxteis, sintéticas e artificiais, o pulo foi de 4% em 2001 para 72% em 2011. Um ponto importante é que muitas empresas de outros países - como dos Estados Unidos, Europa ou Japão - usam a China como plataforma exportadora, dados os baixíssimos custos de produção do país.

O diretor do Instituto de Economia da Unicamp, Fernando Sarti, aponta três motivos para o aumento forte da China na pauta de importações de manufaturados. "O primeiro é sem dúvida a questão do câmbio", diz ele. "Outro ponto importante é o financiamento aos importadores de produtores chineses, o que ganha relevância quando se negociam produtos de maior valor agregado." Para completar, está em curso um processo de internacionalização das empresas chinesas. Há muitas companhias do país asiático se instalando por aqui, o que eleva a compra de componentes e produtos acabados da China, afirma Sarti.

Ele destaca ainda que, no pós-crise, os fabricantes chineses passaram a olhar o mercado brasileiro com ainda mais atenção, porque o consumo por aqui cresce a taxas bem mais expressivas do que em tradicionais clientes do país asiático, como Estados Unidos e Europa.

Para Sarti, o forte aumento das importações indica que o Brasil está perdendo a oportunidade de aproveitar o dinamismo do mercado interno para "melhorar e adensar a estrutura de suas cadeias produtivas". O mau desempenho da indústria, que pode crescer apenas 1% em 2011, espelha esse fenômeno, segundo ele.

O economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, diz que o aumento avassalador da participação de produtos chineses nas importações de alguns manufaturados está longe de ser um fenômeno exclusivamente brasileiro. "Há uma tendência de a China ser o grande produtor de manufaturados no mundo", observa ele, destacando que os pesados custos que recaem sobre a indústria brasileira, como a alta carga tributária, as deficiências de infraestrutura e uma mão de obra mais cara, afetam a competitividade do país. "O câmbio é mais um detalhe."

De janeiro a setembro, a fatia chinesa no total de importações de manufaturados foi pouco superior a 17%, bem menos que os 70% a 80% de alguns produtos. Um dos motivos é que o Brasil importa muitos automóveis da Argentina, do México e da Coreia do Sul, bens com grande peso na pauta. Além disso, o país também compra grandes volumes de óleos combustíveis no exterior, produtos com características de commodities, mas classificados como manufaturados. De qualquer modo, a participação chinesa no total desses bens tem crescido com força - em 2001, era de 2,5%.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dois mitos sobre a poupança nacional


Por Yoshiaki Nakano - Valor 08/11

Existem muitos mitos sobre a taxa de poupança no Brasil. Vejamos dois desses mitos. Primeiro, a maioria dos economistas quando fala em poupança está pensando em poupança pessoal, das famílias, ignorando a poupança das empresas. Segundo, a maioria dos analistas assume como óbvio que a baixa taxa de poupança é a responsável pela baixa taxa de investimento na economia brasileira. Vamos verificar se esses dois mitos se sustentam diante dos dados e das pesquisas empíricas.

A maioria dos economistas adquire o "estranho hábito" de raciocinar como se a poupança nacional fosse composta apenas da poupança pessoal, isto é, das famílias. E daí deriva um conjunto de diagnósticos incorretos. De fato, nos fundamentos teóricos dos neoclássicos estuda-se a decisão do consumidor, mas a empresa (firma) é identificada apenas por um conjunto de curvas de custos. Nesse mundo teórico, as categorias lucros, dividendos e lucros retidos não existem.

Quando se considera a empresa como uma complexa organização dirigida por executivos, que busca maximizar lucros e distribuir dividendos para os acionistas e interagindo com outras empresas, o equilibrio geral, para o conjunto da economia, fica indeterminado e as conclusões teóricas se desfazem. Daí o "estranho hábito" de identificar o mundo real com os modelos por eles criados e pior, agem como se fossem portadores da verdade. O que os fatos e o mundo real das análises financeiras nos dizem é algo completamente diferente.

Os dados do IBGE nos mostram que 88,4% da poupança bruta total no Brasil foi gerada pelas empresas, representando, em relação ao PIB, 17,1%, em 2006, último dado disponível. A poupança das famílias representou 26,8% da poupança total, o que representa 5,2% em relação ao PIB no mesmo período. O problema está localizado na Administração Pública, que tem uma despoupança de -15,9% da poupança bruta total, representando -3,1% do PIB. Logo, o setor privado poupou 22,3% do PIB e, se o governo tivesse consumido menos e poupasse o equivalente aos seus investimentos, a taxa de poupança teria atingido 25,4% do PIB.

Na verdade, estes dados apenas ratificam muitos estudos empíricos anteriores. Por exemplo, R. Bebczuk em pesquisas empíricas relatadas no seu livro texto sobre finanças ("Asynmetric Information in Financial Markets", Cambridge University Press, 2003) mostra que na América Latina, em média, 80,6% dos investimentos produtivos em firmas não financeiras eram financiados pelos lucros retidos no periodo 1990-1996. No Brasil esse percentual era pouco menor - 76,1% - dado certamente à elevada participação do BNDES. Nos países desenvolvidos, os lucros retidos financiavam, em média, 71,1% dos investimentos produtivos, tendo em vista a participação de 9,9% de ações.

Outra informação relevante é que nos países menos desenvolvidos a poupança das famílias é pouco expressiva e na America Latina representa apenas 13,6% da poupança privada total, enquanto que nos países desenvolvidos chega a representar, em média, cerca de 50%. No Brasil, a poupança das famílias representou 27,8% da poupança privada total e tenderá a aumentar com o crescimento, aumento da renda per capita e envelhecimento da população.

Portanto, o problema da poupança nacional está localizado no setor público que absorveu 15,9% da poupança do setor privado para financiar suas despesas, e investindo muito pouco produtivamente. Na realidade, o Governo apropria e reduz a poupança privada utilizando-se de dois instrumentos: 1) mantém taxas de juros num patamar recordista mundial; e 2) impõe carga tributária de mais de 36% do PIB.

O segundo mito advém do hábito de imputar a fatores exógenos ao sistema econômico os seus males. Nessa forma de pensar, a taxa de poupança é um dado exógeno, um dado não explicado pelo modelo. Assim, as elevadas taxas de juros, excesso de investimento em relação à poupança e o baixo crescimento seriam explicados por esse dado exógeno. Da mesma forma, é a baixa taxa de poupança doméstica que explica a taxa real de câmbio apreciada e o déficit em transacões correntes.

Na verdade, a taxa de poupança, depende dos lucros e este é endógeno e resultado da operação do sistema econômico: lucro não depende da decisão da empresa, depende do volume de vendas (demanda agregada) e seus preços, que resultam da negociação da taxa de salário com os trabalhadores e da competição e interação com as demais empresas. Em economias abertas, o lucro ou a margem de lucro tem uma relação com a taxa de câmbio, se ela for competitiva tendem a ser maiores, mas a relação é complexa e certamente não linear.

A poupança total, nas economias emergentes, ao depender fundamentalmente dos lucros retidos, e o fato dos trabalhadores (salários) pouparem menos do que os capitalistas (dividendos), fazem com ela seja variável e resultado final da operação e do desempenho do sistema econômico. Assim, quanto maior forem o volume de investimentos produtivos, este sim objeto de decisão das empresas, e o crescimento da economia, maior será a poupança nacional.

O que os dados do IBGE mostram é que não há excesso de investimento sobre a poupança de forma que esta última seja a restrição ao crescimento, ao contrário. Tanto as empresas como as famílias têm um excesso de poupança em relação aos investimentos produtivos, particularmente, nos anos recentes em que houve uma aceleração do crescimento. As empresas não financeiras pouparam 12,1% a mais do que a formação brutal de capital, isto é, os lucros retidos excessivos foram emprestados ou fizeram aplicações financeiras, em 2006, segundo os dados do IBGE. A baixa taxa de investimento sim é a causa da baixa taxa de crescimento da economia brasileira e ela é baixa porque a taxa de juros e a carga tributária são elevadas, assim como a taxa de câmbio está excessivamente apreciada.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), é professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

Novo Banco Central Europeu


Por Antonio Delfim Netto - Valor 08/11

A situação da economia mundial tem todos os ingredientes para continuar se agravando. As lideranças políticas não parecem ter a inteligência e a coragem para cortar, de uma vez por todas, o devastador processo de autoestímulos que realimenta a crescente instabilidade do setor financeiro internacional. Esses mecanismos de retroalimentação podem ser vistos, muito simplificados, no quadro abaixo.

A instabilidade do setor financeiro pode ser medida pela sua consequência mais visível, a flutuação da volatilidade do mercado acionário, que tem variado dramaticamente desde a crise de 2008. Depois da liquidação desordenada do Lehman Brothers - que manchará a história econômica como a maior manifestação de miopia e mediocridade das autoridades políticas e monetárias americanas e inglesas -, houve paralisia do crédito interbancário, que voltou a alimentar a instabilidade. A principal repercussão foi o escrutínio e a revelação que a Eurolândia escondia graves comportamentos fraudulentos. O contágio europeu voltou a alimentar a instabilidade, revelada fisicamente na imensa queda das cotações das ações em todo o mundo.

O efeito mais importante dessa queda foi a "destruição" do valor das empresas -que perderam a capacidade de tomar crédito e, no caso dos bancos, de fornecê-lo diante da necessidade de rápida desalavancagem, o que realimentou a instabilidade. Estima-se que, só nos EUA, a queda das Bolsas e a liquidação das hipotecas reduziram em US$ 7 trilhões a riqueza que as famílias supunham ter.

Todas essas retroalimentações sugerem que o sistema hoje roda sobre si mesmo, devido à quebra de confiança de cada agente com relação a todos os outros. Ele só voltará a funcionar quando ela for restabelecida por uma ação decisiva, inteligente, ampla e coordenada das políticas fiscais, monetárias e cambiais de todos os países (talvez no G-20), o que parece pouco provável, ainda.

Os efeitos desse processo sobre a economia brasileira podem ser significativos, mas são de sinal incerto e de mensuração difícil. Há um efeito direto da flutuação das bolsas internacionais sobre a Bovespa, que seguramente "destruiu" valores que a sociedade supunha ter, o que tem algum efeito sobre o consumo e sobre o investimento. Por outro lado, a instabilidade do setor financeiro tende a reduzir o crescimento real da economia mundial, e a paralisia política americana (com uma ajudazinha do Fed) tende a desvalorizar o dólar medido com relação à cesta de moeda dos países que transacionam com os EUA.

A cada desvalorização de 1% do dólar (que valoriza o real), o preço médio das commodities (CRB) tende a cair 3%, o que ameniza a pressão inflacionária. O efeito sobre as commodities pode ainda ser ampliado pela redução do crescimento da China, em consequência do desaquecimento mundial.

As incertezas são tantas que em apenas uma semana "tudo ficou melhor": as Bolsas "explodiram" diante da aparente ação "decisiva" de Merkel e Sarkozy (criação de fundo "virtual" de € 1 trilhão, de origem ainda desconhecida, e a imposição de corte de 50% da dívida grega junto aos bancos); na mesma semana; "tudo ficou pior": as Bolsas "desabaram", quando o primeiro-ministro grego Papandreou, assustado com a reação interna, sugeriu uma "consulta popular", que foi rejeitada. Tem razão Shakespeare, quando nos adverte que a vida é uma viagem perigosa!

Viagem perigosa é a que iniciou, em 1º de novembro, o excelente economista e administrador experimentado, Mario Draghi. Navegador de mar grosso, aos 63 anos é o novo presidente do Banco Central Europeu. Foi diretor do Banco Mundial durante seis anos. Tornou-se famoso nos anos 90, quando salvou a Itália do "default" como ministro do Tesouro, com duro programa de corte das despesas públicas. Fez ampla privatização e desvalorizou a lira para prepará-la para a entrada no euro. Conquistou, com isso, o título de "Super-Mario". Em 2002, foi contratado pela Goldman Sachs como vice-presidente e diretor-executivo, onde ficou até 2005. Assumiu, então, a presidência da Banca d´Italia. É, provavelmente, o economista italiano de maior reputação do mundo.

Draghi não é classificável facilmente. Foi formado por Federico Caffé, renomado e sofisticado keynesiano que desapareceu misteriosamente em 1987. Sob a orientação do célebre Franco Modigliani (Nobel, 1985), foi o primeiro economista italiano a obter um Ph.D. no MIT, onde completou a formação iniciada na Escola Jesuíta de Roma, o que diz alguma coisa.

A definição de quem o conhece bem é a de que "se trata de um economista eclético, com forte formação analítica, pragmática e experimentado no trato político". Com Draghi, o BCE será, certamente, mais arejado do que foi com o sisudo Jean-Claude Trichet. Nele vai ter que internalizar a ideia que o euro não é a moeda alemã. É da Eurolândia e tem de servir aos interesses de todos os seus membros. Já começou bem, baixando os juros...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

TV ON LINE


BC QUER ENSINAR POPULAÇÃO A DIFERENCIAR CÉDULAS VERDADEIRAS E FALSAS TEMPO: 00:02:8
Há poucos meses entraram em circulação novas cédulas de R$ 50 e R$ 100 com um padrão de segurança mais sofisticado e maior dificuldade para a falsificação. Mas o Banco Central tem se preocupado porque a população tem aceitado notas de R$ 50 e R$ 100 falsificadas, bem diferentes das originais.
Por isso, o BC lançou uma campanha para ressaltar a importância de sempre verificar os elementos de segurança das cédulas.
SONORA
*JOÃO SIDNEY, Chefe do Departamento do Meio Circulante do Banco Central


TV: NBR PROGRAMA: NBR NOTÍCIAS APRESENTADOR: PRISCILA MACHADO TEMPO: 00:01:13

CENTRAIS SINDICAIS PEDEM REAJUSTE DE 11% NAS APOSENTADORIAS
Sindicalistas e representantes dos aposentados se reúnem esta tarde com o relator do Orçamento de 2012, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), para discutir o aumento da aposentadoria.

TV: RECORD NEWS | PROGRAMA: RECORD NEWS TV NOTÌCIA (TARDE) | APRESENTADOR: JOÃO SANTOS

SEMINÁRIO DISCUTE OS DESAFIOS DA ECONOMIA BRASILEIRA TEMPO: 00:01:00
No seminário A Nova Agenda, promovido pelo Instituto Teotônio Vilela, no Rio de Janeiro, os desafios da economia brasileira foi o assunto discutido. Os analistas consideraram como um dos principais gargalos da economia brasileira a falta de investimento em infraestrutura.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS

É tempo de agir como o Brasil?



Por Jeremy Grant | Financial Times - Valor 07/11

A revelação do CME Group de que a MF Global tinha infringido as regras da bolsa e dos reguladores americanos de assegurar que os recursos de garantia da casa e do cliente fossem mantidos separados é, naturalmente, chocante.

Mas é também um lembrete de que, no universo dos contratos futuros negociados em bolsa, os sistemas e as práticas que se desenvolveram no último período de quase 40 anos desde a invenção dos contratos futuros financeiros em Chicago não foram suficientemente submetidos a testes de estresse para evitar que coisas como essas ocorressem.

É ilegal nos EUA não assegurar que a garantia que avaliza as transações de uma empresa seja mantida numa conta numa câmara de compensação separada da garantia que avaliza as transações do cliente da empresa. Mas onde estavam as salvaguardas, de ordem regulatória ou não, que assegurassem que isso não ocorreria?

Craig Donohue, principal executivo da CME, disse que a MF Global não cumpriu nem as regras do CME nem as da Comissão de Negociação de Contratos Futuros de Commodities (CFTC, pelas iniciais em inglês) que determinam essa segregação da garantia.

O que é permitido é manter as transações dos clientes e as transações da empresa em uma conta "vários". Há um bom motivo para isso: permite a proteção das posições e uma administração mais eficiente das garantias.

Mas a garantia em si - o dinheiro que é imobilizado para o caso de inadimplência de um membro de compensação de seu cliente (ou de ambos) - é o fator fundamental. Precisa haver segregação entre as garantias da casa e as do cliente. Ainda não conhecemos os fatos.

Ouvi especulações de que o que pode ter acontecido é a MF Global ter empregado garantias do cliente para cobrir chamadas de margem (pedidos de pagamento de garantia adicional) num passado muito recente. Em última instância, isso tem a ver com a maneira pela qual a estrutura do mercado foi montada, bem como com a supervisão -ou falta de - da parte dos órgãos reguladores.

No Brasil - um mercado muito menor -, teve-se muita experiência nesse front. Se há alguma coisa que a crise cambial e outras crises ensinaram às autoridades reguladoras brasileiras, é "ter segurança em primeiro lugar" com base nas estruturas do mercado.

No Brasil, não apenas as contas "vários" não são autorizadas como também as garantias precisam ser declaradas no nome da entidade que as está oferecendo, com um "identificador" que permite que as autoridades reguladoras vejam imediatamente quem tem o quê.

As contas autorizadas são mantidas na câmara de compensação, que então deposita o dinheiro de um dia para o outro junto ao Banco Central. Diferentemente, nos EUA, a CME depositaria esse dinheiro junto aos bancos.

Além disso, as providências pós-transação vigentes no Brasil oferecem mais certeza e mais transparência que as vigentes nos mercados americano e europeu, como escreve aqui Tony Freeman, da Omgeo.

No Reino Unido não há exigência legal de segregar as garantias do cliente e as da casa. O sistema conta, em vez disso, com a adesão das empresas à "melhor prática". A Autoridade de Serviços Financeiros diz estar no comando disso, e em junho do ano passado aplicou sua maior multa de todos os tempos por infração das regras, sobre o J.P. Morgan. Mas será que isso é o suficiente?

O recente escândalo do operador rebelde do UBS, em que um operador aparentemente conseguiu se beneficiar de processos de confirmação de transação e de compensação disfuncionais e obsoletos, mostra que coisas ruins podem e vão acontecer em decorrência direta do fato de as estruturas do mercado não estarem adequadas à finalidade e/ou de as práticas determinadas por elas não terem sido adequadamente testadas e monitoradas pelos órgãos reguladores.

O caso do Brasil tem uma desvantagem, no entanto: a falta de contas "vários" implica a impossibilidade, pelas empresas, de se beneficiarem de quaisquer eficiências das garantias, o que significa que as transações com o Brasil são um pouco mais caras do que com outros mercados. Mas, em nome da segurança, não seria esse o melhor sistema, mesmo diante dessa contrapartida desfavorável?

Examinemos o comentário de John Lothian, em seu mais recente boletim, em que ele lamenta o caos que se seguiu em decorrência do colapso da MF Global:

"Está claro que há lições a serem tiradas pelo setor, pelos reguladores e pelos clientes. Quando a poeira baixar, avaliaremos essas lições. Está claro para mim, no entanto, que um plano de recuperação de desastres de uma empresa deveria incluir um plano para esse tipo de desastre.

As empresas e os clientes foram obrigados a improvisar sobre como operar num ambiente engessado em que a maior corretora de contratos futuros de varejo tem seu acesso eletrônico às bolsas suspenso. Isso fez com que as operações da empresa despencassem e com que seus clientes mergulhassem no módulo vigente no início da década de 1980, mas sem todos os atendentes de telefonia capazes de administrar o fluxo de ordens." Pelo menos as câmaras de compensação parecem estar desempenhando suas tarefas adequadamente, pelo que soubemos até agora.

Mas é hora de as autoridades da Comissão de Negociação de Contratos Futuros de Commodities (CFTC, pelas iniciais em inglês) e outros reguladores americanos darem um pulo em São Paulo para dar uma olhada, diria eu.

A respeito do calote público aqui, na Zona do Real


Por Flavio Jose de Souza Brando - Valor 07/11

O plano de saída da crise na zona do euro, com calote parcial na dívida voluntária da Grécia, foi aceito por bancos privados. Irlanda, Portugal, Espanha também flertam com a crise e o calote, sendo a Itália (US$ 2,7 trilhões em divida soberana) o caso mais sensível. Os europeus falam em buscar dinheiro da China, mas também da Rússia, da Índia e do Brasil (os Brics). Nós temos experiência de "default" em dívidas soberanas de estados sob uma federação?

Sim, bilhões de dólares em dividas públicas estão inadimplentes. O valor exato é desconhecido (inexistem contabilização confiável, provisões, reservas, neste ponto empatamos com a Grécia), mas R$ 100 bilhões vencidos e acima de R$ 500 bilhões em gestação no Judiciário são números aceitos pela maioria dos especialistas em precatórios (ordens judiciais para pagamento de dívidas públicas).

Nosso maior devedor é o Estado de São Paulo (R$ 20 bilhões), e seu endividamento representa 16,28 % das receitas correntes líquidas (RCL). O segundo colocado, é a prefeitura municipal de São Paulo - R$ 16 bilhões, 60% da RCL. O Espírito Santo traz o maior problema proporcional, ultrapassou 100% da RCL.

Já estamos na terceira moratória (8 anos em 1988, 10 anos em 2000 e 15 anos em 2009). Descumprir ordens do Judiciário há muito deixou de ser tabu para Estados e municípios que insistem em recalcular suas dívidas, sempre pelas piores taxas do mercado, e agora até retroativamente. Aprovaram um sistema no Congresso onde o cumprimento de suas dívidas fica limitado a um teto sobre receitas líquidas e prazos absurdos.

Depois de muitos anos, o Supremo Tribunal Federal agora indica, no julgamento da Emenda 62, que poderá enterrar o capítulo histórico desses calotes públicos recorrentes. Surge então o "dilema Kadafi": Se acabar a ferramenta calote para procrastinar o pagamento de dívida pública o que virá depois será melhor ou pior, e para quem?

Estados e municípios não têm caixa para pagar o passivo atrasado a curto prazo, logo a opção é reestruturar suas dívidas a longo prazo, com garantias da União (a nossa Comunidade Econômica). O parágrafo 16 do art 100 da Constituição prevê que "a seu critério exclusivo e na forma da lei, a União poderá assumir débitos, oriundos de precatórios, de Estados, Distrito Federal e municípios, refinanciando-os diretamente".

Os detentores de precatórios "micados" poderão trocá-los por papéis federais ou estaduais/municipais garantidos pela União, com liquidez imediata e deságios civilizados. A União estará contra-garantida pelos repasses constitucionais federais a estados e municípios. O mercado privado de títulos voluntários públicos brasileiros opera R$ 2 trilhões, logo os precatórios poderão ser absorvidos (risco federal) pelo mercado privado, sem afetar o fluxo de caixa de União, Estados ou municípios. Isso poderia ter sido feito nas administrações FHC, mas não aconteceu: em 1998 a União assumiu R$ 101,9 bilhões de dívidas estaduais de outras naturezas, equivalentes na época a 11,3% do PIB e a 77,9% da dívida líquida de estados e municípios.

Para que não haja um "tsunami" de papéis no mercado a curto prazo, a negociação dos novos papéis poderá ser restrita a resgate curto ou longo conforme escala crescente de valores, e incentivo (inclusive tributário) a sua capitalização em fundos de infraestrutura, construção de casas, aposentadoria, investimentos em tecnologia, etc. Esses papéis poderiam pagar dívidas fiscais atrasadas. A dívida pública ativa representa normalmente de 10 a 20 vezes a dívida passiva (precatórios), e o percentual anual de recuperação de impostos atrasados não passa de 2 %.

Agências de avaliação de risco (rating) em Nova Iorque justificam porque, apesar da patologia descrita, atribuem boas notas ao Brasil: os devedores evitam o tema precatórios, não enviam números auditados e os credores nunca conseguiram cobrá-los. Qualquer credor de precatório, provando o calote continuado e não revelado em pedido de empréstimo ao Banco Mundial ou BID, poderá requerer o reconhecimento da nulidade da operação por fraude, seu vencimento antecipado e, por tabela, de todos outros empréstimos vencendos.

Quanto a direitos humanos, milhões de credores têm tido seus direitos e garantias fundamentais violados (mais de 80.000 credores somente do Estado de São Paulo já morreram sem receber seus créditos) o que também ditaria o cancelamento de contratos internacionais (exigência idêntica a direitos de indígenas e meio-ambiente). Neste cenário, alguns devedores ousam argumentar que os credores da Grécia aceitaram deságio de 50 % do valor de face (mais capitalização de bancos, austeridade fiscal, etc) logo os titulares de precatórios deveriam se preparar para algo do gênero.

Nada mais falso. Os números locais são muito melhores em valor absoluto/relativo (com opções de solução), e os bancos privados compraram voluntariamente dívida grega (cujo endividamento supera 100 por cento de seu PIB). Precatórios não tem origem em decisão de investimento: os credores foram a Justiça reclamar seus direitos e receberam ordens de pagamento.

A dívida pública voluntária brasileira é paga religiosamente e não há justificativa para que a dívida judicial - obrigatória, por definição (e estoque muito menor - fique pendente e escondida. A rigor, seu pagamento teria prioridade sobre as voluntárias. A conjugação de fatores positivos: commodities, reservas naturais e financeiras bilionárias (por volta de US$ 300 bilhões), superação de calotes no passado, mercado saudável recomenda nosso país como participante ativo deste "imbroglio" europeu?

Em termos. Pode ser uma janela para discussão de protecionismo agrícola, subsídios, imigração, pagamento de serviços ambientais e a prática de um viés de "socialismo" definido por Margaret Thatcher como "aquele que dura enquanto houver dinheiro dos outros.."

Por outro lado, o Brasil ainda tem uma enorme carência social e de infraestrutura, na qual incluiria a segurança jurídica. Seja como for, antes de ajudar a Europa (ou a África, quem merece mais?), nós precisamos focar a faxina de nossa própria casa. Calote público nunca mais.

Flavio Jose de Souza Brando é presidente da Comissão de Defesa dos Credores Públicos do Conselho Federal da OAB e da Comissão de Dívida Pública da OAB/SP

Carta Maior - Internacional - A depravação da América



A cultura dos Estados Unidos foi inundada por um tsunami de mentiras. O marketing se tornou a atividade predominante da cultura. É uma coisa seguida por pessoas de negócios, políticos e pela mídia. O dinheiro é tudo o que importa. Foi-se o tempo em que a ética protestante definia o caráter dos EUA. Ela foi usada pelos sociólogos como fator responsável pelo sucesso do capitalismo na Europa do Norte e nos EUA, mas a ética protestante e o capitalismo se tornaram incompatíveis. A "América" está se tornando uma região de depravação raramente superada pelas piores nações da história. O artigo é de John Kozy.
John Kozy - Global Research

Carta Maior - Internacional - A depravação da América

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Fluxo cambial fica negativo em quase US$ 4 bi




Valor 04/11

Na última semana de outubro, as saídas de moeda estrangeira foram superiores às entradas em quase US$ 4 bilhões. Pela primeira vez no mês, a conta comercial deixou de contribuir favoravelmente, e também ficou deficitária no resultado semanal: as despesas com importações foram superiores às receitas com exportações em US$ 2,379 bilhões, de acordo com dados do Banco Central.

O segmento financeiro (remessas de lucros e dividendos ao exterior, investimento em títulos, ações, entre outras operações) registrou resultado negativo pela terceira semana consecutiva. Na última semana, especificamente, as saídas foram superiores aos ingressos em US$ 1,593 bilhão.

Segundo o economista da Tendências Consultoria Bruno Lavieri, os dados de apenas uma semana não permitem indicar uma reversão da tendência positiva verificada até a terceira semana de outubro. Ele considera, porém, que o resultado negativo se deve, em grande parte, à apreciação do real. "Os exportadores já não veem com tanta vantagem trazer os dólares para o Brasil."

Na semana passada, as entradas de dólares com ganhos de exportação ficaram em US$ 4,331 bilhões enquanto as saídas decorrentes dos contratos de importação saltaram para US$ 6,709 milhões. Entre os dias 17 e 21, os contratos de exportações trouxeram ao país US$ 5,770 bilhões, ao passo que os de importações levavam para fora US$ 4,090 bilhões.

O saldo da última semana influenciou negativamente o resultado consolidado até o dia 28. Nesse período, a saída de dólares do país foi maior que a entrada em US$ 105 milhões, sendo que até o dia 21 o resultado era positivo em US$ 3,867 bilhões.

Lavieri ressalta que o saldo negativo da semana passada, por ser muito baixo, torna difícil antever o resultado consolidado do mês.

As informações divulgadas ontem pelo BC mostram que ao longo dos 19 dias úteis de outubro, a saída líquida da conta financeira chegou a US$ 1,620 bilhão, cifra inferior ao que entrou no país graças aos contratos comerciais, que tiveram saldo positivo de US$ 1,515 bilhão.

Para o economista da Tendências, a conta financeira tem repetido movimentação fraca nos últimos meses em decorrência das incertezas do mercado externo, que favorecem a movimentação rápida de entrada e saída de dólares do país ao sabor do humor externo

Em setembro, o mercado de câmbio já tinha registrado déficit de US$ 274 milhões nas operações financeiras. Incluindo o resultado da conta comercial, porém, o saldo fechado do mês foi positivo em US$ 8,848 bilhões.

No acumulado do ano até 28 de outubro, as entradas de moeda superam as saídas em US$ 68,193 bilhões, valor bem superior ao registrado no mesmo período do ano passado (US$ 24,030 bilhões).

Votorantim tem prejuízo de R$ 85 milhões


Por Carolina Mandl | De São Paulo - Valor 04/11

Em meio a aumento da inadimplência de seus clientes e custos mais altos para captar recursos no mercado, o Banco Votorantim registrou um prejuízo de R$ 85 milhões de julho a setembro deste ano, sendo que em igual período de 2010 a instituição teve um lucro líquido de R$ 266 milhões.

Conforme mostram os número do balanço divulgado ontem, as provisões para perdas com calote e as despesas de captação consumiram R$ 5 bilhões do Votorantim, ante R$ 1,8 bilhão em igual período de 2010.

Segundo documento elaborado pelo Banco do Brasil, instituição que detém 50% do Banco Votorantim, a maior despesa com captação de recursos no mercado se deve ao "crescimento do saldo médio dos recursos captados, com alongamento do prazo médio e maior subordinação".

A parte de custos mais altos com as captações pode ser explicada, em parte, pelo fato de o Votorantim estar buscando neste ano ampliar o período médio de vencimento dos papéis, usando instrumentos sem liquidez, como títulos de dívida externa e letras financeiras, em vez de depender apenas dos Certificados de Depósitos Bancários - com prazos curtos - e das vendas de carteira de crédito para outras instituições. A alta dependência de CDBs de grandes clientes é que gerou problemas de liquidez para a instituição na crise de 2008.

Segundo o Valor apurou, neste ano, o prazo médio das captações do Votorantim já esticou cem dias, com emissões de letras financeiras com vencimento de dois e três anos e de papéis de dívida externa de cinco anos. Títulos mais longos se encaixam melhor à duração da carteira de crédito do banco, na qual predomina o financiamento de veículos, em média, por 21,1 meses.

A contrapartida da ampliação dos prazos de captação é o custo mais elevado, já que, para comprarem papéis sem liquidez, os investidores querem remunerações mais polpudas.

A atual temporada de balanços de bancos tem mostrado que os calotes das pessoas físicas estão em alta e o mesmo se deu com o Votorantim.

Medidas adotadas pelo governo para conter o consumo têm atingido as carteiras de crédito. Ao exigir mais capital das instituições para operações de longo prazo com pessoas físicas, os custos dos financiamentos subiram. Ao mesmo tempo, quem estava com dívida no cartão de crédito passou a ter de fazer um pagamento mínimo maior. Fora a inflação em alta, que corroeu parte da renda familiar.

No caso do Votorantim, as operações vencidas há mais de 90 dias passaram de 2,7% da carteira em setembro do ano passado para 4,3% em igual mês deste ano. Com isso, as despesas com provisões passaram de R$ 323 milhões no terceiro trimestre de 2010 para R$ 978 milhões agora.

O Valor apurou que o Votorantim ainda trabalha com um cenário de alta da inadimplência para este ano. O banco, entretanto, também tem se tornado mais rigoroso na hora de conceder os empréstimos. Um ano atrás, 41% das propostas recebidas pela instituição eram aceitas. Hoje, a média é de 41%.

A carteira de crédito do Banco do Brasil alcançou R$ 64 bilhões, alta de 21,3% em relação a setembro do ano passado e de 4,5% na comparação com junho.

Em 2009, o Banco do Brasil comprou 50% da instituição da família Ermírio de Moraes. Desde então, o Banco do Brasil já comprou cerca de R$ 12,5 bilhões em carteiras de crédito do Votorantim, sendo R$ 8 bilhões em financiamentos a veículos.

Mundo ainda está vulnerável à quebra de um grande banco


Por Jon Hilsenrath e Victoria McGrane The Wall Street Journal
Três anos após a crise financeira global e um ano depois de uma reforma regulatória nos Estados Unidos, a economia mundial continua vulnerável aos perigos que quase quebraram todo o sistema bancário da última vez.

Autoridades do Federal Reserve, o banco central americano, temem novamente que os investidores fujam da indústria de fundos mútuos de curtíssimo prazo (money market), que totaliza US$ 2,6 trilhões, onde milhões de americanos guardam suas economias e para quem bancos do mundo todo costumam pedir empréstimos de curto prazo. Ainda não há regras entre os países sobre como juntar os cacos depois do colapso de um gigante financeiro global. Os bancos estão numa montanha-russa há meses, e os governos não têm condições de socorrê-los com grandes resgates.

"Preocupações com questões fiscais e bancárias europeias têm contribuído para as dificuldades nos mercados financeiros", disse o presidente do Fed, Ben Bernanke, numa entrevista coletiva quarta-feira. Essas preocupações, acrescentou ele, "provavelmente terão efeitos adversos sobre a confiança e o crescimento".

Nesta semana, a quebra da MF Global Holdings Ltd., uma corretora de investimentos americana, reflete o alcance e a volatilidade do mercado financeiro mundial. Apostas erradas na dívida europeia desencadearam uma debandada de clientes da firma, o que em questão de dias levou a um pedido de recuperação judicial. Suspeitas de fraude aumentaram o medo dos investidores.

Por enquanto, a quebra parece um evento isolado. Mas ela ressalta a preocupação dominante dos reguladores e do público: a de que o sistema financeiro mundial saiu da crise de 2008 apenas parcialmente consertado, e continua propenso à instabilidade.

Uma instituição maior que a MF Global, e mais profundamente entrelaçada com outras instituições financeiras, poderia acabar exposta a empréstimos inadimplentes de um tomador como a Grécia, por exemplo. E se ela quebrasse, isso poderia se espalhar, fazendo os mercados caírem e os empréstimos secarem - uma repetição de 2008.

No momento isso parece improvável, em especial porque os reguladores, investidores e banqueiros estão atentos a qualquer sinal de problemas. Mas como ainda há falhas geológicas que cortam todo o sistema financeiro internacional, o risco continua preocupante.

"Basta apenas algum tipo de pânico para os mercados congelarem de novo", disse Anil Kashyap, professor da Escola de Adminstração Booth da Universidade de Chicago. "Se a confiança desaparecer e os mercados congelarem, será um grande problema."

O sistema financeiro está mais resistente, em muitos aspectos, do que estava em 2008. O patruimônio líquido do sistema bancário americano - ou seja, ativos menos obrigações - aumentou em US$ 264 bilhões, ou 20%, desde setembro de 2008, segundo a Federal Deposit Insurance Corp., a agência de seguro-depósito dos EUA. Isso dá aos bancos uma reserva maior contra perdas.

Os bancos também estão mais líquidos. As reservas em caixa mais do que quadruplicaram para US $ 1,8 trilhão desde 2008, segundo o Fed, graças, em parte, às enormes somas que o banco central americano injetou no sistema.

Mesmo assim, há áreas no sistema financeiro que estão sob estresse. O custo dos empréstimos para aquisição de imóveis comerciais, por exemplo, saltou desde junho. Os bancos europeus estão pagando mais para tomar dólares emprestados.

As firmas financeiras continuaram interligadas nesses três anos desde o colapso do banco Lehman Brothers - assim, quando uma balança, as outras já se preparam para o vendaval.

"Algumas pessoas já perguntaram: 'Como ocorreria um contágio da Europa para os Estados Unidos?' Pode-se dizer que, até certo ponto, isso já aconteceu", disse Eric Rosengren, presidente da regional do Fed em Boston, a economistas que visitaram o banco no mês passado.

Embora as instituições financeiras americanas tenham reduzido sua exposição à Grécia - de US$ 8,3 bilhões em junho - elas têm muita exposição à Europa como um todo, cerca de US$ 1,8 trilhão em junho, segundo o Banco de Compensações Internacionais, mais conhecido como BIS. É um aumento substancial em comparação com os US$ 1,2 trilhão em meados de 2009.

Elas também estão expostas por meio de garantias sobre a dívida europeia, por meio de contratos conhecidos como swaps de crédito (ou CDSs). Essas garantias totalizavam US$ 1,6 trilhão em junho, segundo o BIS.

Parte dessa exposição está protegida por outras transações. Mas a verdadeira exposição a esses contratos, e o valor da proteção, é incerto. Alguns contratos de seguro podem não ter valor nenhum se a Grécia evitar uma moratória formal, como querem governos europeus, pedindo aos bancos que perdoem a dívida voluntariamente.

Autoridades do Fed temem que os abalos se propaguem por partes do sistema financeiro, provocando terremotos. Uma possível falha geológica é a indústria de fundos mútuos do mercado de curtíssimo prazo, avaliada em US$ 2,6 trilhões, que mal foi contemplada pela lei Dodd-Frank, o conjunto de novas regras financeiras aprovado um ano atrás.

Os fundos captam recursos de investidores, que são então emprestados a bancos e empresas do mundo todo, por meio da compra de dívidas de curto prazo. Um pânico poderia secar rapidamente os recursos dos tomadores de empréstimos, ou desestabilizar os próprios fundos, causando perdas aos poupadores, já que a aplicação nào tem garantia. A indústria financeira, disse Rosengren, é uma "fonte de vulnerabilidade" que precisa ser tratada.

A quebra de um banco global seria outra ameaça. Mesmo com novos poderes, nos termos da lei Dodd-Frank, a capacidade dos reguladores de fechar bancos nos EUA não vai adiantar muito se não houver regras recíprocas no exterior.

A FDIC, que garante os depósitos dos mais de 7.000 bancos e instituições de poupança dos EUA, está trabalhando com reguladores estrangeiros para identificar conflitos entre os países que poderiam impedir a resolução da quebra de um grande banco. Mas as lacunas jurídicas são amplas.

Nos EUA, por exemplo, a lei Dodd-Frank deu à FDIC autoridade para gerir os contratos de derivativos de uma firma, em caso de concordata. Durante a quebra do Lehman, muitos de seus parceiros comerciais não honraram contratos, causando maior instabilidade nos mercados de derivativos. Mas as novas regras não se aplicam em centros de transações globais como Londres e Tóquio.

A quebra de uma grande firma "seria uma tremenda confusão", disse Donald Kohn, ex-vice-presidente do Fed e agora consultor da FDIC, numa recente reunião do Fed.

Petrobras - Caindo na real



Valor 04/11

Atraso na entrega de sondas afeta produção

O atraso na entrega de novas plataformas e, principalmente, sondas de perfuração para áreas com profundidade acima de 2 mil metros de água preocupa o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli. O executivo menciona esse atraso para justificar o descumprimento das metas de produção da companhia, que planejava produzir uma média de 2,1 mil barris de petróleo por dia no Brasil e fechou setembro com produção diária de 2,002 milhões de barris de óleo. Esse tipo de atraso, que tem sido frequente, leva os analistas a olharem com certo ceticismo as projeções de aumento da produção nos próximos cinco a dez anos.

Gabrielli, que viajou na sexta-feira passada para a Ásia para visitar estaleiros na Coreia, Japão e Cingapura, chama a atenção para o fato de essas unidades atrasadas estarem sendo construídas no exterior. A companhia vai receber 37 sondas de perfuração - dos tipo semi-submersível e navios-sonda - até 2015, todas construídas fora do país, algumas já atrasadas.

Somente a partir de 2015 e até 2020 começarão a ser entregues as 28 novas sondas que estão em processo de licitação e que serão construídas no Brasil. O presidente da Petrobras cita esses números para rebater argumentações de que o atraso se deve à decisão do governo de exigir maior conteúdo nacional das encomendas da estatal. "O que tem de atraso de sondas e de fornecedores é culpa da crise internacional, não tem nada a ver com o Brasil. Foi a falta de financiamento para os estaleiros e os compradores", explicou o executivo em entrevista ao Valor.

"Até agora [o atraso] não teve nada a ver com o Brasil. Se vai atrasar daqui para frente é outra questão. Nós estamos trabalhando para não atrasarem, para fazerem. Estamos atuando preventivamente", acrescentou.

Ele comentou um relatório do Credit Suisse mostrando preocupação com a queda dos níveis de produção da Petrobras na bacia de Campos, que respondem por 44% da produção da companhia no país. Segundo o banco, a taxa de depleção (nome técnico para redução da produção decorrente da queda de pressão de um reservatório ou das reservas de um campo) de alguns campos importantes na região "vem se acelerando de forma constante desde 2009".

Em alguns casos, como o do campo gigante de Marlim, os analistas do Credit Suisse encontraram queda de 20%. Trata-se de um campo importante, que já foi o maior produtor do país e responsável pela totalidade das exportações de 600 mil barris diários, mas que hoje ocupa o terceiro lugar, com produção de 213 mil barris/dia. Essa queda estaria também sendo registrada em outros gigantes como Roncador, Albacora, Albacora Leste, Barracuda e até Roncador, o maior produtor do país com 306 mil barris/dia segundo a Agência Nacional do Petróleo.

Os números mencionados pelo Credit Suisse são bem superiores aos 7,5% que a estatal vem usando com sua média de depleção, que é normal nessa indústria considerando que se trata de reservas finitas que são reduzidas ano a ano até o esgotamento. E cada vez mais a indústria utiliza tecnologias para atrasar esse "esgotamento".

Ao Valor, Gabrielli admitiu o problema dizendo que é causado por fatores tecnológicos e não por esgotamento dos hidrocarbonetos depositados nesses reservatórios, o que mostraria uma razão geológica. "O problema de declínio não é geológico. É um problema econômico, de infraestrutura para viabilizar um aumento da produtividade, e da produção", afirma. "Campos maduros produzem mais água. E na medida que você produz mais água é necessário injetar mais água para continuar produzindo petróleo", ensina.

O executivo cita o que considera dificuldades que explicam os motivos da produção não crescer como o esperado. A primeira delas é o atraso da entrega das sondas. "Sem sondas não se perfura poços e nem se consegue cumprir a rampa de aumento da produção", ressalta, acrescentando que isso "está praticamente equacionado".

Em segundo ele cita duas tecnologias em teste. Uma delas para separar o óleo da água que vem de dentro do reservatório ainda no fundo do mar. Outra tecnologia em teste é a injeção de água do fundo do mar, usando água do mar nos reservatórios, sem que ela seja bombeada da plataforma. "Na medida que fizermos essas duas coisas se terá um aumento rápido da capacidade de processamento com as instalações existentes". A terceira dificuldade é aumentar a produção dos campos já concedidos, apelidado de Projeto Varredura.

Como lidar com as dívidas do Ocidente


Por Klaus F. Zimmermann - Valor 04/11

Enquanto a economia europeia continua à beira do precipício, a ideia de por um "freio nas dívidas" é uma das ferramentas de política econômica mais importantes para deixar a situação fiscal sob controle. O debate é importante não apenas para Europa, Estados Unidos e Japão, mas também para a saúde econômica e financeira dos emergentes.

É por isso que uma declaração do G-20 durante o encontro de cúpula que está sendo realizado em Cannes desde ontem, de estabelecer esses freios no endividamento como parte das constituições nacionais é crucial. O estabelecimento dessa medida certamente estabilizaria as expectativas de longo prazo dos mercados financeiros sobre o rumo fiscal dos governos.

Em sua estrutura mais básica, o freio no endividamento obrigaria os governos ocidentais (incluindo os Estados Unidos, cujo nível de endividamento em pouco tempo voltará a dominar as manchetes internacionais) a deixar de depender da "esperança" como ferramenta central das finanças públicas. Nos anos 70, quando havia muito mais otimismo e o mundo ocidental sentia-se da mesma forma que os países emergentes se sentem hoje, esses governos ainda tinham motivo para ter esperança em expandir-se com a força suficiente para compensar seus níveis de endividamento, que cresciam rapidamente. Essas esperanças sumiram, de forma bastante independente da atual calamidade econômica.

Naturalmente, a imposição imediata de um freio ao endividamento não seria algo sensato nem desejável, tendo em vista as atuais condições econômicas. O atual momento, no entanto, é certamente apropriado para que se chegue a um acordo sobre a data de sua criação, em um futuro não muito distante. Na Alemanha, por exemplo, freio ao endividamento, aprovado pelo Parlamento em 2010, entrará em vigor em 2016.

O recente encontro de cúpula da União Europeia (UE) apontou mais obrigações nessa direção para os países da região do euro. Meras declarações de intenção, no entanto, não são mais suficientes. A aposta que políticos e cidadãos fizeram entre si - de que seriam racionais o suficiente para reduzir seu endividamento, mesmo na ausência de regras mais rígidas - fracassou. É por isso que agora precisamos adotar um mecanismo confiável de autodisciplina.

Para ser efetivo, o mecanismo de freio nas dívidas precisa passar por três testes. Primeiro, precisa ser baseado nas constituições dos países, para ressaltar que o compromisso teria complicações para ser revogado. Segundo, os países precisam fazer os compromissos mutuamente, como agora é caso em países da região do euro, da Espanha e Portugal à Itália. E, terceiro, tendo em vista os fracassos passados em monitorar de forma eficiente e garantir o cumprimento (seja dos critérios de Maastricht na UE ou das regras nos EUA conhecidas como "pay-go"), é preciso haver agências independentes de fiscalização, com poderes de penalização em caso de descumprimento.

Não são apenas as práticas passadas que nos tornam, no Ocidente, responsáveis pelo aumento no endividamento. Nosso próprio interesse futuro o exige. Talvez o número mais importante já calculado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), uma instituição que tem como uma das funções produzir milhões de números, seja este: 441%.

Essa é a taxa média de dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) dos países do G-7 projetada para 2050 caso sigamos normalmente com as atuais políticas. Mesmo preocupados como estamos com os níveis de endividamento que se aproximam dos 100% em importantes países do G-7 (além dos eternos réus, Japão e Itália, que estão bem acima dessa marca), algumas autoridades políticas e econômicas e analistas ainda estão inclinadas a achar que conseguiremos nos afastar desses números como em um passe de mágica, como se houvesse uma cura instantânea para a economia.

Na estrada em direção aos 441%, no entanto, nem mesmo as mentes políticas e econômicas mais imaginativas podem estar dispostas a continuar com as mesmas políticas. O freio no endividamento é um instrumento muito útil para conseguir uma recuperação.

Os países de mercados emergentes e suas grandes populações sentem, com bons motivos, que chegou sua hora e que a sombra que os cobriu por séculos, enfim, foi retirada. Nas mentes da grande maioria nesses países, o passado está intimamente ligado ao legado do colonialismo. Se as antigas potências coloniais - leia-se as nações do G-7 somadas a países como Espanha e Portugal - não conseguirem arrumar sua situação fiscal, há um risco muito real de uma nova forma de colonialismo.

Esse novo "colonialismo" se manifestará em um grave tributo sobre o crescimento, que seria imposto aos países em desenvolvimento. Esse "imposto" ocorreria na forma de um colapso econômico mundial e de um declínio no auxílio financeiro ao desenvolvimento, relacionados ao excesso de dívida ocidental que pode muito em breve mostrar-se insustentável. Ou pode ocorrer na forma de inflação elevada, que teria o mesmo efeito sobre os países de mercados emergentes, dependentes da estabilidade macroeconômica para executar seu plano de sair do jugo de séculos de subdesenvolvimento.

Tudo o que um freio no endividamento prevê é o seguinte: primeiro, precisamos viver dentro de nossas possibilidades. E, segundo, precisamos entender que os níveis de gastos anteriores à crise foram o ponto máximo dos gastos públicos e que quaisquer necessidades ou desejos futuros basicamente apenas podem ser financiados se houver cortes, em tamanho idêntico, de outras atividades que já tenham financiamento.

Há várias décadas, foi comum para os países de mercados emergentes, em meio às várias ondas de crises de endividamento, verem-se obrigados a aprender a viver dentro de suas possibilidades, muitas vezes por exigência de seus credores ocidentais. Agora, a situação foi revertida. Desta vez, é o Ocidente que precisa tomar o amargo remédio. (Tradução Sabino Ahumada)

Klaus F. Zimmermann é diretor do Instituto de Estudos do Trabalho (IZA), em Bonn, na Alemanha.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

TV ON LINE


ATENÇÕES DA ECONOMIA MUNDIAL SE VOLTAM PARA FRANÇA TEMPO: 00:02:59
As atenções da economia mundial se voltam para França. Em Cannes se reúnem hoje e amanhã os chefes de Estado e de governo das maiores economias do mundo, na sexta Cúpula do G20. O assunto que vai dominar essa reunião é a crise da Grécia.


Antes do início da reunião do G20, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com os BRICS, grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia,Índia, China e África do Sul. A intenção é definir um pensamento comum sobre a crise na Europa.


TV: TV BRASIL | PROGRAMA: REPÓRTER BRASIL MANHÃ | APRESENTADOR: KATIUSCIA NERI

DENISE CAMPOS DE TOLEDO ANALISA BAIXO CRESCIMENTO DA ECONOMIA MUNDIAL TEMPO: 00:01:7

Em comentário ao Jornal do SBT, Denise Campos de Toledo analisa o baixo crescimento da economia mundial e as consequências que essa crise pode trazer para a economia brasileira.

SONORA:
* DENISE CAMPOS DE TOLEDO; colunista de economia.

TV: SBT DF | PROGRAMA: JORNAL DO SBT | APRESENTADOR: CARLOS NASCIMENTO

ECONOMISTA FALA SOBRE O IDH BRASILEIRO TEMPO: 00:06:20
Em entrevista ao Conta Corrente, o economista Flávio Comim falou sobre a posição do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano da Organização da Nações Unidas. Segundo ele, houve uma desaceleração do IDH brasileiro.

SONORA

*FLÁVIO COMIM, economista.


TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: JORNAL DAS DEZ | APRESENTADOR: MARIANA GODOY

ESPECIALISTAS FALAM SOBRE O NOVO PERFIL DA FAMÍLIA BRASILEIRA parte 1 TEMPO: 00:20:46
Em entrevista ao programa Entre Aspas, o economista do jornal Estado de São Paulo, Sérgio Telles, e a socióloga Elisabete Bilac falaram sobre o novo perfil da família brasileira.


SONORA
*ELISABETE BILAC, socióloga do Núcleo de Estudos da População
*SÉRGIO TELLES, psicanalista, escritor e economista do jornal Estado de São Paulo


TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: ENTRE ASPAS | APRESENTADOR: MONICA WADVOGEL

ESPECIALISTAS FALAM SOBRE O NOVO PERFIL DA FAMÍLIA BRASILEIRA - PARTE 2
Em entrevista ao programa Entre Aspas, o economista do jornal Estado de São Paulo, Sérgio Telles, e a socióloga Elisabete Bilac falaram sobre o novo perfil da família brasileira.
SONORA

*ELISABETE BILAC, socióloga do Núcleo de Estudos da População

*SÉRGIO TELLES, psicanalista, escritor e economista do jornal Estado de São Paulo


TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: ENTRE ASPAS | APRESENTADOR: MONICA WADVOGEL

RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS

Uma bomba-relógio "made in China"


Por Eduardo Campos - Valor 03/11

As atenções estão voltadas ao encontro do G-20 e como lidar com a Grécia e suas peripécias. Mas, se ampliarmos um pouco mais o foco, há coisas acontecendo do outro lado do mundo com potencial destrutivo que, por ora, parece subavaliado.

Os últimos indicadores de atividade confirmam uma redução no ritmo de crescimento da China. Mas enquanto os economistas discutem se o monstro asiático terá um "pouso suave" ou "pouso forçado" eventos bastante interessantes passam quase despercebidos.

Entre eles, os alertas sobre um possível colapso do "shadow banking" chinês. Em recente relatório, economistas do Credit Suisse falaram sobre a possibilidade de problemas nesse obscuro mercado de empréstimos informal que funciona por lá e movimenta mais de US$ 620 bilhões.

Esse mercado de empréstimo paralelo tem diversas fontes, como "trade finance", a criação de "trusts" e até mesmo estatais com acesso a crédito barato, que funcionam como intermediários de empréstimos em um mercado que tenta burlar os limites na concessão de crédito impostos pelo Banco da China no mercado oficial.

Recente reportagem do "Financial Times" também chamou atenção para a questão, mostrando que empresas com excesso de caixa, como PetroChina e ChinaMobile possuem braços financeiros e apontou que mais de 64 empresas não financeiras emitiram empréstimos em 2011 até o fim de agosto (levantamento do diário China Economic Daily).

Não que o BC chinês não tenha conhecimento disso. De fato, algumas medidas para conter o crescimento desse mercado foram anunciadas recentemente. Mas para os analistas do Credit Suisse, o "shadow banking" chinês é uma bomba-relógio, com potencial destrutivo superior ao da crise de endividamento soberano europeu.

A questão fica mais complexa ao sabermos que mais da metade dos fundos gerados nesse sistema paralelo vai para o mercado imobiliário, onde poucos refutam a existência de uma bolha.

O mercado imobiliário tem cara de mania na China, país que nunca passou por um período de expansão imobiliária de tais proporções. A ideia que sempre alimenta as bolhas é que os preços vão subir para sempre (miopia do desastre). Mas os fatos começam a desafiar essa visão turva da realidade.

Os preços começaram a cair em algumas localidades e os compradores estão protestando. Isso mesmo. Semana passada centenas de mutuários protestaram contra a queda de preço de imóveis em Shanghai e outros lugares.

Segundo o China Business News, a redução da demanda leva a corte de preços de 20% em alguns empreendimentos.

O Shanghai Daily deu um exemplo bom do que está acontecendo e porque centenas de chineses estão invadindo empresas e stands de venda e exigindo restituições. Um empreendimento que custou cerca de US$ 2.600 o metro quadrado um ano atrás estava sendo vendido por 30% menos neste ano. Quem pagou preço cheio não está nada contente.

Isso sem falar nas notícias de gigantescos empreendimentos vazios e a existência de "cidades fantasma" em algumas regiões.

Fora do setor imobiliário, há a questão do endividamento das províncias, que também se refestelaram nessa farra de crédito intensificada após a crise de 2008, quando o BC chinês afrouxou seus controles.

Toda a exuberância chinesa dos últimos anos sustentou e ainda sustenta boa parte da economia mundial. Brasil inclusive, via explosivos preços de commodities (ganho nos termos de troca) e produtos de consumo barato (amenizando descompasso entre oferta e demanda).

Agora, o que aconteceria caso a China dobrasse sob o próprio peso? Como o Partido Comunista reagirá a uma típica explosão de bolha de crédito capitalista? Melhor nem pensar.

Para refrescar a memória depois do feriado: na terça-feira, o dólar teve novo pregão de firme alta. No mercado à vista o preço subiu 1,93%, para R$ 1,737. Em dois pregões a moeda americana já ganhou 3,15%.

No mercado de juros, as taxas fecharam praticamente estáveis. Falta incentivo para o investidor ampliar as apostas de corte na Selic. Por ora, os contratos sugerem três reduções de meio ponto percentual como "preço justo".

Eduardo Campos é repórter

E-mail eduardo.campos@valor.com.br

Os credores dependem dos devedores


Por Martin Wolf - Valor 03/11

Bem-aventurados os credores, pois eles herdarão a terra. Não é o Sermão da Montanha. Os credores, no entanto, parecem acreditar nisso: se todos fossem credores, não haveria dívidas sem pagar nem crises financeiras. Essa é a maneira de se comportar, acreditam os credores. Eles estão errados. Como o mundo não pode negociar com Marte, os credores estão intrinsecamente atados aos devedores. Os credores precisam acumular mais dívidas em cima dos devedores. Isso os coloca em uma armadilha que eles próprios armaram. Das quatro maiores economias do mundo, três são credoras, China, Alemanha e Japão: possuem superávits em conta corrente, tanto durante bons como maus momentos. Acreditam ter o direito de censurar publicamente os devedores por suas tolices. A China, uma superpotência ascendente, gosta de dar broncas nos Estados Unidos por sua imprudência. O Japão, aliado dos EUA, é mais discreto. As ambições da Alemanha são mais próximas da própria casa. Quer transformar os parceiros da região do euro em bons alemães.

Os credores, no entanto, estão vulneráveis. Suas economias têm uma capacidade para produzir bens e serviços desejados pelos devedores que é muito maior do que os próprios residentes poderiam alguma vez vir a comprar. As economias com déficits são a imagem disso refletida no espelho: sua capacidade para fornecer bens e serviços é menor do que sua demanda. Esses superávits e déficits estão incrustados nos dois tipos de economias.

Internamente, nos países credores, os produtores de bens e serviços negociáveis formam um lobby poderoso em favor da concessão de mais crédito aos devedores. O financiamento privado ficará congelado quando as instituições de crédito perceberem como os empréstimos concedidos foram ruins. As autoridades políticas e monetárias, então, veem-se no dilema entre despejar mais dinheiro "bom" em cima de créditos ruins ou tolerar um ajuste brutal à medida que seus mercados desaparecessem. Ao punir os captadores perdulários, também prejudicariam os próprios cidadãos.

Essa é a história por trás do que acontece no mundo. Está por trás da agenda dos encontros de cúpula europeu da semana passada e do G-20 deste fim de semana. Como declarou o presidente do Banco da Inglaterra, Mervyn King, em recente discurso, é a história por trás de todas as crises desde 2007: "Os superávits comerciais persistentes em alguns países e déficits em outros não refletem um fluxo de capital em direção a países com oportunidades de investimento rentáveis, mas a países que captaram para financiar o consumo ou perderam sua competitividade. O resultado foram níveis de consumo (seja público ou privado) insustentavelmente altos nos EUA, Reino Unido e em uma série de outras economias avançadas e níveis de consumo insustentavelmente baixos na China e em outras economias na Ásia e em algumas economias avançadas com superávits comerciais persistentes, como a Alemanha e Japão." Em resumo: todo mundo ajudou a criar a confusão e todo mundo tem de fazer algo para arrumá-la.

Como escreve o poeta A. E. Housman: "Para concluir que dois e dois são quatro/ e não cinco nem três/ Há muito o coração do homem sofre/ E muito ainda deverá sofrer". Não é possível manter seus superávits sem financiar o déficit dos outros, de uma forma ou de outra. Ainda assim, é isso o que a Alemanha tenta fazer. A Alemanha, na prática, controla o Banco Central Europeu (BCE). Também tem a melhor a avaliação de risco de crédito. Portanto, pode decidir como as linhas de crédito de socorro financeiro vão funcionar. Não muito bem, infelizmente, como argumentou Willem Buiter, do Citigroup, ao "Financial Times". Nem mesmo a França, no entanto, pode lamentar muito a respeito.

O país com crédito determina as regras. Os devedores precisam implorar, particularmente, quando há uma moeda fixa, sempre que precisam de financiamento para amortecer um ajuste imposto via deflação. Os credores também podem insistir em sua interpretação das causas da crise. A Alemanha declara que tudo é culpa de más políticas fiscais: corrijam isso e mantenham a política fiscal na linha para sempre; os virtuosos, então, herdarão a terra.

Essa visão de mundo tem três inconvenientes: é equivocada, é autodestrutiva e é desestabilizadora. É errada porque os países atingidos pela crise não foram todos palco de políticas fiscais irresponsáveis, longe disso. É autodestrutiva porque as tentativas de cada país-membro de tornar suas políticas fiscais mais rigorosas acabarão empobrecendo a todos, inclusive aos credores. A visão também é desestabilizadora porque a saída dessa armadilha seria via uma mudança nos superávits externos da região do euro. Resolver os desequilíbrios internos agravando os mundiais é má ideia.

A Alemanha busca tanto minimizar o financiamento como continuar a exibir imensos superávits externos. Isso não tem como funcionar. Alguns argumentarão que a Alemanha ajustou-se na década de 2000 para chegar aos superávits. Por que seus parceiros não podem fazer o mesmo agora? A Alemanha passou a ter superávits com países que voluntariamente tinham déficits. A Alemanha, porém, não deseja ter déficits.

Paralelamente, a região do euro parece ter decidido que precisa da ajuda chinesa. Por que pensam assim, é algo incompreensível. Há dinheiro disponível dentro da região do euro. O que falta é disposição de perda. Como escreveu o economista Yu Yongding ao "Financial Times", a China não assumirá esse risco. É tolice imaginar que o faria, a não ser por algo que tenha um custo econômico ou político proibitivo. Afinal, a China já administra seus próprios riscos de perdas maciças com as reservas cambiais - hoje em US$ 3,2 trilhões - que acumulou. Trata-se de um fluxo saída de capital público voltado a sustentar seus superávits comerciais. Mas em suas tentativas de administrar a relação cambial com os EUA, são os americanos os que controlam o banco central. A China pode reclamar à vontade, mas precisa comprar o dinheiro que os EUA criam para preservar competitividade, ou deixar de fazê-lo. Se comprar, despeja dinheiro bom em cima de dinheiro ruim. Se deixar de comprar, impõe um choque a si mesma.

Os credores mandam no mundo? Na verdade, não. No curto prazo, eles podem ameaçar fechar a torneira do crédito. Mas seus superávits dependem da disposição dos outros países em manter déficits. Seria mais sensato admitir que houve captações em excesso pelos perdulários, porque houve muita concessão de empréstimos pelos prudentes. Uma vez que se entenda que ambos são culpados, ambos precisam ajustar-se. Impor um ajuste apenas em um lado, o dos devedores, não funcionará. Como a pequena Grécia está prestes a provar, os devedores podem infligir muitos danos a todos - como os EUA descobriram na Grande Depressão. Seria uma boa ideia redescobrir esse interesse recíproco, imediatamente. Os credores não vendem a ninguém em Marte. Estamos todos no mesmo planeta. Cheguem a um acordo para arrumar as confusões de nosso planeta, imediatamente. (Tradução Sabino Ahumada)

Martin Wolf é editor e principal comentarista de economia do FT.

Brasil se isola na defesa do protecionismo comercial


Por De Cannes _ Valor 03/11

O Brasil está isolado na defesa do protecionismo comercial no G-20. É em posição defensiva que a presidente Dilma Rousseff participa hoje da cúpula que reúne as 20 maiores economias do mundo. O país é o único do grupo que se recusa a manter um compromisso, assumido no ano passado, de resistir a todas as formas de protecionismo que causem mais danos à economia mundial.

O Valor apurou que a delegação brasileira alega nas negociações do G-20 que o mundo mudou e o Brasil está tendo dificuldade com outros países que distorcem o comércio através da desvalorização de suas moedas e assim exportam subsídios para o mercado brasileiro.

O Brasil menciona também o impacto do forte déficit comercial com os EUA, com indústrias brasileiras afetadas ao mesmo tempo em que perdem mais fatias de mercado.

Já outros países dizem não só entender como também usar proteção. Mas consideram que o Brasil está adotando como arma barreiras que só funcionam no curto prazo, como aumentar o IPI para carros estrangeiros. E que falta medida estrutural, mais demorada e mais custosa, porém que reforçaria a competitividade do país.

Mesmo a Argentina, o único país a apoiar o Brasil na questão, é mais flexível e "não está brigando", segundo fonte presente nas intensas negociações entre as maiores economias do mundo, representando 85% da produção mundial.

A China apenas ataca o protecionismo e quer mais: defende que o G-20 amplie até 2015 o compromisso para os países resistirem a todas forma de protecionismo. Refletindo um racha nos Brics, a África do Sul está do lado dos chineses.

O que mais surpreende os parceiros é como a orientação da política comercial brasileira mudou. Duas decisões tomadas na crise de 2008 são apontadas como tendo sido essenciais para frear o protecionismo, que na época poderia ter deteriorado ainda mais a economia mundial: o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou suspender a licença automática de importações e, nos EUA, o presidente Barack Obama adotou um plano de "compre produtos americanos", mas com o cuidado de não ferir as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

"O Brasil agora chutou o pau da barraca e está perdendo credibilidade", disse um diplomata estrangeiro conhecedor do país.

Líderes dos Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - vão se reunir na manhã de hoje em Cannes. Mas, rachados, sequer divulgarão um comunicado, como aconteceu no passado.

Sobre eventual ajuda a países da zona do euro, a China prefere participar diretamente da compra de títulos soberanos pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, podendo exigir contrapartidas, na avaliação de observadores.

O Brasil insiste em só participar - e modestamente, pois suas reservas são quase dez vezes menores que as da China - por meio do Fundo Monetário Internacional, para aumentar o poder decisório na entidade. A Índia tem pouco interesse na discussão. A Rússia tampouco definiu posição. Segundo um negociador, os Brics mostram fratura também em outros temas, como a questão climática. (AM)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Terras-raras, política industrial e o caso China


Por Gustavo Ferreira Ribeiro Valor 01/11

Muito se tem escrito, recentemente, sobre o potencial de exploração das terras-raras no Brasil e a oportunidade que se abre para uma política industrial voltada para cadeias de alto valor agregado. Contudo, pouco se tem falado sobre o recente caso na Organização Mundial do Comércio (OMC) denominado "China - Matérias-Primas" que, embora não trate diretamente de terras-raras, possui relação direta com a discussão.

Terras-raras, para que se recorde, são quinze elementos encontrados na tabela periódica. A literatura especializada indica não se tratarem nem de terras nem de elementos raros. O nome surge em função da dificuldade em separá-los de outros elementos da tabela. Possuem propriedades que encontram uso em produtos de alto valor agregado pelas indústrias como displays, turbinas eólicas, veículos híbridos, células fotovoltaicas, baterias, fibras óticas entre outras.

É possível encontrar estimativas do mercado de terras-raras que variam de US$ 1 bilhão a US$ 5 bilhões por ano. O Brasil, também se estima, poderia desempenhar papel importante em sua exploração com 3,5 bilhões de toneladas de reservas em regiões do Amazonas, Goiás e Minas Gerais, embora já se tenham ressalvados os impactos ambientais no processo de exploração das terras-raras.

O que um caso da OMC teria então a ver com a discussão? O caso, decidido por um painel da OMC em julho 2011, envolveu no pólo reclamante os Estados Unidos e outros membros daquela organização contra a China. As medidas questionadas estão distribuídas em diversas legislações chinesas que impõem licenças, quotas e impostos de exportação sobre nove minerais (não incluindo terras-raras, diga-se de passagem).

Entre os diversos argumentos das partes, a China, de um lado, alega sua soberania permanente sobre a exploração e controle de seus recursos naturais. De outro lado, os reclamantes apontam violações às regras de livre comércio pela China, principalmente no que se denominam restrições quantitativas de exportação (quotas) com o fim de aumentar a oferta ao produtor doméstico. E é sobre interpretações de algumas exceções do conhecido Gatt-47 (sigla em inglês para Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) que se pode subsumir o quanto o caso é polêmico. Explica-se.

O artigo 11 do Gatt-47 dispõe não só sobre a eliminação de quotas para a importação de um produto, mas também para a exportação de um produto. Este é um ponto completamente pacífico, embora menos conhecido, que decorre da leitura do próprio artigo. Também é indiscutível que o mesmo admite a imposição de imposto de exportação de maneira ampla pelos membros, sem maiores preocupações sobre se estar ou não violando uma obrigação internacional.

Menos desenvolvidas na jurisprudência da OMC, entretanto, eram então duas exceções que permitiriam desvios da proibição geral de eliminação de quotas. De maneira simplificada, na primeira delas - art. 11 (2): a - permitem-se restrições aplicadas temporariamente à exportação para prevenir ou remediar uma situação crítica, devido a falta de "produtos essenciais" para o membro exportador.

Na segunda - art. 20, permitem-se medidas necessárias para assegurar, a uma indústria nacional de transformação, quantidades essenciais de matérias-primas durante a execução de um plano governamental de estabilização, sob reserva de que essas medidas não sejam discriminatórias.

E é justamente sobre essas exceções que é necessário destacar o posicionamento do painel. Sobre a primeira delas, para o painel, a determinação do que são produtos essenciais para um membro não significa que um membro pode, por si só, determinar se um produto é para ele essencial. Quanto à segunda, o painel afirma que a disposição prevê expressamente que qualquer restrição à exportação sobre produtos domésticos não possa ser imposta para aumentar a proteção à indústria doméstica, embora o mesmo painel tenha, anteriormente na decisão, admitido que o dispositivo lida com uma exceção que expressamente trata de proteção à indústria.

Analisado o caso, torna-se agora menos obscura sua relação com a questão das terras-raras. Se um governo decide restringir as exportações desses elementos adotando medidas de comércio exterior, inevitavelmente as regras e as decisões da OMC entram em campo.

A discussão se potencializa ao se levar em conta a crescente importância da aplicação das terras-raras em processos e produtos em cadeias produtivas do mais alto valor agregado: aeronáutica, automobilística, energias renováveis, tablets, entre outras. Aliás, o momento é propício para a reflexão, pois encontram-se em implementação dois planos de governo (denominados Brasil Maior e o Próprio PME-2030) que, dentro das esferas de competência de cada órgão do governo federal, reconhecem a necessidade de se aumentar a agregação de valor em território nacional.

O que o caso da China sugere são certos limites para eventuais políticas de controle de exportação envolvendo restrições quantitativas de recursos minerais. Neste caso, fora a flexibilidade ampla de instituição de imposto de exportação, a imposição de quotas é muito mais cerceada; primeiro por se ligar a medidas adotadas temporariamente ou ligadas a planos de estabilização; segundo pela obscuridade da decisão do painel, como se viu.

Por fim, levadas ao limite as interpretações do painel, pode se indagar se uma vez havendo apenas essas possibilidades quanto à restrições quantitativas, o que o painel sugere é, na verdade, uma certa obrigação de compartilhamento de recursos naturais entre os membros da OMC. Teriam então as partes contratantes do GATT aberto mão de sua soberania sobre recursos naturais em 1947? Certamente que não, e novos desdobramentos virão na aguardada decisão da apelação em curso do caso.

Gustavo Ferreira Ribeiro é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito do UniCEUB. Doutor em Direito pela Maurer School of Law/Indiana University (ex-bolsista Capes/Fulbright). E-mail: gribeirobr@gmail.com.

O fim do crescimento populacional


Por Sanjeev Sanyal - Valor 01/11

A população mundial atingiu ontem sete bilhões de pessoas, de acordo com a Divisão de População da Organização das Nações Unidas (ONU). Como sempre ocorre quando nos aproximamos de um marco do tipo, desta vez também surgiram várias conferências, seminários e artigos, além das sinistras previsões malthusianas usuais. Afinal, a ONU projeta população mundial de 9,3 bilhões em 2050 e de mais de 10 bilhões no fim do século. Tais previsões, no entanto, deturpam as dinâmicas demográficas básicas. O futuro com o qual nos deparamos não é de alto crescimento populacional, mas de baixo.

A maioria dos países realizou censos populacionais em 2010 e os dados indicam que os índices de natalidade despencaram na maioria deles. Os índices são baixos nas nações desenvolvidas já há algum tempo e agora vêm decaindo rapidamente na maioria dos países em desenvolvimento. Chineses, russos e brasileiros não estão mais no nível de substituição, enquanto os indianos passaram a ter bem menos filhos. De fato, a fertilidade mundial cairá abaixo da taxa de substituição em pouco mais de uma década. A população pode continuar em expansão até meados do século, em função do aumento da longevidade, mas em termos reprodutivos, nossa espécie não estará mais se expandindo.

O que os demógrafos chamam de Taxa de Fecundidade Total (TFT), número médio de nascimentos vivos por mulher ao longo de sua vida, está pouco acima 2,3 no mundo como um todo, sendo um pouco menor nos países desenvolvidos, de 2,1, graças às suas taxas de mortalidade infantil mais baixas.

A TFT da maioria dos países desenvolvidos atualmente é bem menor do que o nível de substituição. A média nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 1,74, mas em alguns países, como Alemanha e Japão, é de menos de 1,4 por mulher. Nos últimos anos, no entanto, os maiores declínios na TFT vêm sendo registrados nos países em desenvolvimento. Em 1950, as TFTs da China e Índia eram de, respectivamente, 6,1% e 5,9%. Na China, atualmente, é de 1,8, em função da agressiva política de filho único das autoridades. Na Índia, a rápida urbanização e mudanças nas atitudes sociais levaram a TFT da Índia para 2,6.

Outro fator adicional pode limitar ainda mais os nascimentos futuros na China e Índia. O censo chinês indica que há 118,6 meninos nascendo para cada 100 meninas. Na Índia, a relação gira em torno de 110 meninos para cada 100 meninas, com grandes variações de região para região. A taxa natural é de 105 meninos para cada 100 meninas. O desvio nesses países normalmente é atribuído à preferência cultural por homens e terá impacto adicional nas duas populações, já que a escassez futura de mulheres implica que a capacidade reprodutiva efetiva será menor do que a sugerida pela TFT não ajustada.

De fato, levando em conta o desequilíbrio de gênero, a Taxa de Natalidade Efetiva (TNE) da China está em torno a 1,5 e a da Índia, em 2,45. Em outras palavras, os chineses estão bem longe de chegar ao nível de substituição, enquanto os indianos estão ligeiramente acima de tal taxa A TNE média mundial é de 2,4, pouco acima da taxa de substituição. A tendência atual indica que a raça humana deixará de substituir-se no início da década de 2020. O crescimento populacional depois desse momento será alimentado principalmente pela maior longevidade das pessoas, fator cujo impacto será menor a partir de meados do século.

Essas mudanças têm implicações importantes para a oferta de trabalho mundial. A China envelhece muito rapidamente e sua população em idade de trabalho começará a encolher em poucos anos. Abrandar a política de filho único poderia ter algum impacto positivo no curto prazo, mas a China já passou do ponto de virada, em decorrência do efeito combinado do desequilíbrio de gênero e da estrutura etária muito desequilibrada
O número de mulheres em idade fértil (15 aos 49 anos) na China cairá 8% entre 2010 e 2020, outros 10% na década de 2020 e, caso não seja corrigida, em ritmo ainda maior nos anos seguintes. A China, portanto, teria de tirar uma proporção cada vez maior de sua força de trabalho feminina e voltá-la à reprodução e assistência aos filhos. Mesmo se a China conseguisse concretizar algo assim, isso implicaria em uma redução imediata da força de trabalho cujos resultados só viriam depois de 25 anos.

Paralelamente, a força de trabalho já chegou a seu ponto máximo ou está próxima disso na maioria das principais economias. As forças de trabalho na Alemanha, Japão e Rússia já estão em queda. Os Estados Unidos é um dos poucos países avançados cuja força de trabalho ainda cresce, graças a sua relativa abertura à imigração. Isso, no entanto, poderia mudar à medida que os países que servem de fonte de trabalhadores comecem a ficar mais ricos e passem por altos declínios nas taxas de natalidade. Muitos países desenvolvidos, portanto, terão de considerar como manter as pessoas trabalhando de forma produtiva depois da faixa dos 70 anos.

A Índia, a única grande economia cuja força de trabalho crescerá em ritmo suficiente nos próximos 30 anos, pode equilibrar em parte os declínios esperados nas outras economias principais. As taxas de natalidade, no entanto, também estão em baixa no país, sendo que a tendência atual indica provável estabilização, em 1,55 bilhão de habitantes, no início da década de 2050, dez anos antes - e 170 milhões de pessoas a menos - do que apontam as projeções da ONU.

Tendo em vista esse cenário, é provável que a população mundial chegue a seu pico de 9 bilhões na década de 2050, meio século antes do que o que foi normalmente antecipado, e tenha uma forte queda em seguida. É possível argumentar que isso seria algo bom, dada a capacidade limitada do planeta. Quando as dinâmicas demográficas mudarem de direção, no entanto, o mundo terá de confrontar-se com um conjunto diferente de problemas. (Tradução Sabino Ahumada)

Sanjeev Sanyal é estrategista global do Deutsche Bank. Copyright: Project Syndicate, 2011.

www.project-syndicate.org

Depois de um trilhão de dólares


Por Antonio Delfim Netto

A crise que o mundo está vivendo tem aspectos paradoxais. Presta-se a múltiplas interpretações, cada uma delas colocando, segundo o viés ideológico do analista, seu foco sobre os diferentes aspectos em que ela se revela. Os economistas do "mainstream" estão na defensiva por terem demonstrado "matematicamente" (e até conseguido prêmios Nobel) que os mercados (em particular o financeiro) eram eficientes e autoadministráveis. Dispensavam, portanto, a "mão visível" do governo.

Os economistas com viés marxista não deram um passo além da constatação do velho Karl: os mercados financeiros são essencialmente instáveis. Pela centésima vez proclamam o rápido fim do capitalismo, como se ele fosse uma coisa e não um processo histórico com as "contradições" que o dinamizam e o civilizam lentamente pelo sufrágio universal.

Os economistas com viés keynesiano hidráulico (incorporado ao "mainstream") assistiram ao irremediável fracasso dos seus "multiplicadores". Mecanizaram as sofisticadas considerações psicológicas do papel das expectativas e a inevitabilidade da incerteza sobre o futuro opaco. Essas continuaram a ser cultivadas apenas por um pequeno grupo, expulso da profissão como "heterodoxo".

Os economistas do "mainstream" foram, no máximo, apenas coadjuvantes da crise. Quatro anos depois de instalada, é evidente que sua "causa eficiente" foi a rendição dos governos à pressão econômica do único poder universal emergente: os mercados financeiros! Apenas teorizaram "a posteriori" a luta entre o poder incumbente e o mercado financeiro, que queria livrar-se do controle que lhe fora imposto nos anos 30 do século passado (exatamente por ter causado a crise de 1929).

Deram-lhe um suposto apoio científico. Papel coadjuvante, mas importante para a aceitação, pela sociedade desprevenida, da ideologia (vendida como ciência) que a desabrida liberdade das "inovações" do mercado financeiro e sua internacionalização eram fatores decisivos para o aumento da produtividade da economia real e para o desenvolvimento econômico dos países.

Hoje, os americanos parecem ter clara consciência de quem é a "culpa" pela tragédia que estão vivendo. Um levantamento da Gallup (15/16 outubro) mostrou que 2/3 das pessoas consultadas a atribuem ao governo federal e 1/3 às instituições financeiras. Mas o fato ainda mais grave (e que coloca em risco a reeleição do presidente Obama) é que a "qualidade" do programa posto em prática pelo governo de Washington para enfrentar a crise é considerada lamentável: mais de um US$ 1 trilhão de estímulos e quase quatro anos depois, o crescimento é pífio e o desemprego altíssimo. O verdadeiro conhecimento empírico e teórico da economia poderia ter sido melhor utilizado na formulação do programa, como mostraram em interessante artigo J.F.Cogan e J.B.Taylor ("Where Did the Stimulus Go?").

O US$ 1 trilhão de estímulo foi dividido em três programas de inspiração keynesiana-hidráulica: 1) colocar dinheiro diretamente nas mãos dos cidadãos (cheques do Tesouro) para que eles o gastassem em consumo (US$ 152 bilhões); 2) disponibilizar recursos para compras governamentais e infraestrutura (US$ 862 bilhões); e 3) transferir verba para Estados e governos locais, na esperança que ampliassem seus gastos com bens e serviços (US$ 173 bilhões).

Como se deveria esperar, em razão de experiências anteriores e desenvolvimentos teóricos, eles não produziram qualquer efeito "multiplicativo" importante, ao contrário do que haviam previsto os assessores econômicos de Bush e Obama.

A ineficiência do primeiro estímulo é consequência das pesquisas de Milton Friedman e Franco Modigliani, que mostraram que o consumo está ligado à renda "permanente" e não a um estímulo ocasional, frequentemente utilizado para "diminuir as dívidas" dos agentes, que foi o que aconteceu.

Quanto ao segundo, devido às dificuldades operacionais que sempre acompanham aumentos inusitados de disponibilidade de recursos no serviço público (a falta de bons projetos e a indisposição da burocracia, elementos amplamente conhecidos e empiricamente constatados), não se gastou até o terceiro trimestre de 2010 mais do que 5% do estimado!

Quanto aos estímulos transferidos para Estados e governos locais, eles tiveram o mesmo destino dos enviados diretamente aos consumidores: foram basicamente utilizados na redução de dívidas. De fato, dos US$ 173 bilhões transferidos, 4/5 foram utilizados no pagamento de dívidas acumuladas, o que praticamente anulou o efeito físico do "multiplicador". Aqui, também, já havia evidência empírica (Ned Gramlich, 1979) mostrando a ineficiência desse tipo de programa.

Esses fatos mostram o quanto de "ilusão" estatística está envolvida no cálculo descuidado e ingênuo dos "multiplicadores" ditos "keynesianos", quando se esquece o próprio Keynes. Se na prevenção da crise e na sua construção podemos criticar o "mainstream", parece que lhe devemos um crédito na crítica do horrível projeto de recuperação de inspiração do "keynesianismo-hidráulico" que desperdiçou US$ 1 trilhão...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TV ON LINE



PETROBRAS ANUNCIA REAJUSTES NOS PREÇOS DA GASOLINA E DO DIESEL TEMPO: 00:02:00
A Petrobras anunciou na sexta-feira um reajuste de 10% no preço da gasolina e de 2% no diesel. A garantia dos postos de combustíveis é de que não haverá repasse para o consumidor, pois o Ministério da Fazenda reduziu o imposto da CIDE sobre a gasolina e o diesel quase na mesma proporção do reajuste. O governo quis segurar o reajuste por causa da inflação.

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: ESTÚDIO I APRESENTADOR: MARIA BELTRÃO



BOVESPA CAI 1,78%, MAS FECHA MÊS COM ALTA PERTO DE 12% TEMPO: 00:04:00
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) cai 1,78%, com giro financeiro acima de R$ 2,2 bilhões. O dólar sobe 0,89%, cotado a R$ 1,69. O Ibovespa chega ao fim do mês de outubro com alta acumulada de cerca de 12%, após seis meses seguidos de queda.

A economista do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) Ana Cláudia Alêm falou sobre as contas públicas.

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

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