quinta-feira, 27 de outubro de 2011

É o novo-desenvolvimentismo?


Por José Luis Oreiro - Valor 27/10

O novo-desenvolvimentismo é definido como um conjunto de propostas de reformas institucionais e de políticas econômicas por meio das quais as nações de desenvolvimento médio buscam alcançar o nível de renda per-capita dos países desenvolvidos. Essa estratégia de "alcançamento" baseia-se explicitamente na adoção de um regime de crescimento do tipo export-led, no qual a promoção de exportações de produtos manufaturados induz a aceleração do ritmo de acumulação de capital e de introdução de progresso tecnológico na economia. A implantação dessa estratégia requer a adoção de uma política cambial ativa, que mantenha a taxa real de câmbio num nível competitivo no médio e longo-prazo, combinada com uma política fiscal responsável que elimine o déficit público e controle o ritmo de expansão dos gastos de consumo e de custeio do governo de forma a permitir um aumento sustentável do investimento público. A manutenção da taxa real de câmbio num patamar competitivo no médio e longo-prazo exige não só a adoção de uma política cambial ativa, como também uma política salarial que promova a moderação salarial ao vincular o aumento dos salários reais ao crescimento da produtividade do trabalho. A combinação entre política fiscal responsável e moderação salarial se encarregaria de manter a inflação a um nível baixo e estável, permitindo assim que a política monetária seja utilizada para a estabilização do nível de atividade econômica, ao mesmo tempo em que viabiliza uma redução forte e permanente da taxa real de juros.

O regime de política macroeconômica (RPM) adotado nos últimos anos tem muito pouco em comum com o modelo "novo-desenvolvimentista". Em primeiro lugar, o novo RPM permitiu um aumento considerável dos gastos primários do governo federal, os quais aumentaram em quase 3 p.p com respeito ao PIB desde 2008. Embora o superávit primário tenha se mantido num patamar suficiente para garantir uma modesta redução da relação dívida pública/PIB, a forte expansão dos gastos primários do governo sinalizou a realização de uma política fiscal eminentemente expansionista no período 2008-2010. De fato, conforme o multiplicador do orçamento equilibrado de Haavelmo, um aumento proporcional nos gastos do governo e nos impostos faz com que a demanda agregada aumente exatamente na mesma magnitude que os gastos do governo.

A política salarial teve por objetivo induzir um crescimento do salário real acima da produtividade do trabalho. Isso se deve à regra de reajuste do salário mínimo, que vinculou o aumento do salário mínimo no ano t com a inflação ano t-1 e o crescimento do PIB do ano t-2. Essa regra de reajuste de salário mínimo, além de aumentar o grau de indexação da economia brasileira ao atrelar o reajuste de um preço básico da economia à inflação do ano anterior, resulta num aumento do salário mínimo real a um taxa muito superior ao crescimento médio do PIB per-capita e, portanto, da produtividade do trabalho, supondo constante a taxa de participação. Dado o "efeito farol" do salário mínimo sobre a estrutura de salários relativos, o resultado final foi um aumento do salário real médio acima do crescimento médio da produtividade do trabalho.

No que se refere à dinâmica da taxa real de câmbio, verifica-se entre setembro de 2008 e abril de 2011, uma forte valorização da taxa real efetiva de câmbio, apesar das tentativas do governo de controlar essa valorização por intermédio da política de acumulação de reservas internacionais, bem como pela introdução de controles à entrada de capitais na economia brasileira.

A ineficácia da política cambial brasileira deve-se, em parte, à timidez dos controles de capitais adotados; mas fundamentalmente deveu-se a inconsistência do RPM adotado no Brasil nos últimos anos. Com efeito, a combinação entre política fiscal expansionista e elevação do salário real acima da produtividade do trabalho resultou numa trajetória ascendente da taxa de inflação, a qual impediu a continuidade do processo de redução da taxa de juros. A manutenção da taxa de juros em patamares elevados a nível internacional atuou como um enorme atrator de capitais especulativos, num contexto de liquidez mundial abundante devido às operações de relaxamento quantitativo do Fed, o banco central americano, induzindo a apreciação da taxa real de câmbio, o que contribuiu para acelerar a deterioração do saldo da conta de transações correntes e o processo de desindustrialização da economia brasileira.

O RPM brasileiro não permite a obtenção simultânea de uma taxa de inflação estável e um nível competitivo para a taxa real de câmbio. Isso cria um dilema para o governo na condução diária do RPM. A forte expansão da demanda agregada doméstica num contexto de elevação do salário real acima da produtividade do trabalho resulta na aceleração da taxa de inflação, caso o governo decida impedir a valorização da taxa real de câmbio resultante dessa combinação de políticas. Por outro lado, se a decisão do governo for manter a inflação estável, a taxa de juros deverá ser mantida em patamares elevados, induzindo assim uma forte entrada de capitais externos, que irá produzir a continuidade da apreciação da taxa real de câmbio.

Em resumo, o RPM brasileiro não se baseia no "modelo novo-desenvolvimentista", pois cria uma verdadeira escolha de Sofia entre aceleração da inflação e desindustrialização.

José Luis Oreiro é professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília. joreiro@unb.br.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Investimento direto se sustenta com US$ 50,5 bi


Valor 26/10

O ingresso de investimentos estrangeiros diretos (IED) no Brasil continua alheio à deterioração do cenário internacional. A entrada desses recursos até setembro alcançou a marca de US$ 50,451 bilhões, resultado já superior ao que o país recebeu durante 2010 inteiro (US$ 48,437 bilhões). A cifra também garante o recorde no volume de investimentos diretos vindos de outros países desde 1947, quando se inicia a série histórica calculada pelo Banco Central (BC).

No mês passado, o IED alcançou US$ 6,326 bilhões, cifra superior à estimativa de US$ 5 bilhões da autoridade monetária, que já colocava no cálculo uma desaceleração como consequência da crise internacional. Mesmo diante desse quadro, o resultado foi o melhor para o mês desde 2004.

O saldo acumulado no ano equivale a mais de 84% do que a autoridade monetária prevê para todo o ano. Se o prognóstico do BC de mais US$ 4 bilhões para outubro se concretizar, faltará apenas US$ 5,5 bilhões para novembro e dezembro juntos cumprirem a previsão oficial, de US$ 60 bilhões. O valor restante para os dois meses é inferior à média mensal de IED neste ano.

Se a comparação for em 12 meses, a entrada desses recursos soma US$ 76,332 bilhões, o que corresponde a 3,25% do PIB projetado pelo BC. A relação IED/PIB no mês passado só é inferior a dezembro de 2002, quando chegou a 3,39%.

Apesar dos números, o BC ainda não revisou a projeção oficial para 2011, embora o chefe do Departamento Econômico, Tulio Maciel, reconheça que a estimativa é "conservadora". Ele argumenta, porém, que a análise em 12 meses está inflada pelo resultado atípico de dezembro do ano passado (US$ 15,361 bilhões).

Mesmo assim, parece mais certeira a estimativa do diretor de Política Monetária, Aldo Mendes. No mês passado, ele disse aos deputados na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara que o investimento estrangeiro no setor produtivo brasileiro poderia chegar a US$ 70 bilhões. Pouco tempo depois, porém, a assessoria de comunicação do BC afirmou que a projeção não era oficial, mas fruto de "um exercício de cálculo" feito pelo diretor com base no que tinha entrado até agosto.

Para o chefe do Departamento Econômico, Tulio Maciel, a disparada do IED não reflete drasticamente os efeitos da crise global pela maturidade exigida nesse tipo de investimento e pela confiança dos estrangeiros na economia brasileira. A tendência, de acordo com Maciel, é que o ingresso continue forte em decorrência da necessidade de aplicação de capitais no pré-sal e nos eventos esportivos, como Copa do Mundo e Olímpiada, marcados para os próximos anos.

A maior parte do IED refere-se à aquisição de participações diretas no capital de empresas. Em setembro, ela chegou a US$ 5,367 bilhões; no acumulado no ano registrou US$ 40,123 bilhões, ante US$ 20,278 bilhões de igual período do ano passado.

Os ingressos líquidos de empréstimos feitos por empresas estrangeiras a filiais no Brasil, que também são classificados como IED por não fugirem do país em momentos de corrida para o dólar, somaram US$ 959 milhões em setembro e US$ 10,238 bilhões nos nove primeiros meses do ano. De janeiro a setembro de 2010, os empréstimos intercompanhias foram bem menores, US$ 2,278 bilhões.

Seja ousado, apague esse incêndio


Por Martin Wolf - Valor 26/10

Caro Mario Draghi. Congratulações e comiserações: na próxima semana, você assumirá uma das mais importantes missões de um banco central em todo o mundo; mas também assumirá uma responsabilidade terrível. Somente o Banco Central Europeu pode acabar com a crise da zona do euro. Você precisa escolher entre dois caminhos: o ortodoxo levará ao fracasso; o heterodoxo deve levar ao sucesso.

A zona do euro enfrenta um conjunto de complexas dificuldades de longo prazo. Mas seus membros não terão a oportunidade de fazer os ajustes necessários e implementar as reformas necessárias se ela não sobreviver. Entre as necessidades imediatas estão colocar a Grécia numa rota sustentável, evitar um colapso nos mercados de dívida pública de vários países grandes e impedir o colapso dos bancos. Dessas, são as duas últimas que importam.

O economista que melhor explicou o papel do BCE é Paul De Grauwe, da Universidade Leuven*. Por que, perguntou ele, as taxas de juro sobre a dívida de vários grandes países membros da zona euro são maiores do que no Reino Unido, apesar de a situação fiscal britânica estar longe de excelente: os déficits e a dívida pública líquida da Espanha são inferiores às do Reino Unido, a taxa de endividamento da Itália é maior, mas seu déficit é muito menor, e o déficit francês é menor, embora sua dívida seja um pouco maior.

É certamente surpreendente que os mercados encarem a dívida do Reino Unido com menos ceticismo que as dos outros países. Isso não está acontecendo porque os anglófonos criaram uma trama engenhosa para destruir o euro, eles não são tão espertos. Para deixar bem clara a explicação alternativa de De Grauwe: é o banco central, idiota.

O que é, afinal, que determina o preço das dívidas soberanas? Governos não oferecem nenhuma garantia - e créditos baseados em receitas tributárias proporcionam uma segurança ilusória.

Consideremos o exemplo da Itália: a dívida pública líquida é de 120% do Produto Interno Bruto (PIB); o prazo de maturação médio é de sete anos; e o déficit fiscal é de 4% do PIB. Assim, seu governo precisa arrecadar um quinto do PIB a cada ano. Todos os credores sabem disso. Suponhamos que os credores temam que o governo seja incapaz de tomar emprestado somas tão enormes. Poderia a Itália sobreviver cortando gastos? Não. Se o país tentasse resgatar sua dívida pagando-a com receitas, precisaria reduzir seus gastos em bem mais do que um quinto do PIB, de um dia para outro, uma vez que a própria tentativa levaria o país a uma depressão. Nenhum credor são imagina que um país nessa situação conseguiria rolar sua dívida.

Os mercados de dívida de governos sustentam-se como por magia: a disposição para conceder empréstimos depende da disposição de outros a também fazê-lo, agora e no futuro. Esses mercados podem ser cenário de pânico de manadas e por isso necessitam um comprador de última instância investido de credibilidade: o banco central. O Reino Unido tem um. Os membros do euro não. Na prática, eles tomam empréstimos em moeda estrangeira.

É claro que os membros podem reduzir os riscos. Eles podem ter dívidas e déficits menores, embora a Espanha tenha efetivamente entrado em crise com menos endividamento e déficit do que a Alemanha. Eles podem tomar empréstimos de longo prazo - no século XIX, grande parte da dívida do Reino Unido era impagável.

Qualquer tentativa por parte do BCE de ser o emprestador de última instância que os membros necessitam desencadeará protestos. As pessoas argumentarão que o banco central poderá perder dinheiro, exacerbar o risco moral e atiçar a inflação.

Quanto à primeira dessas acusações, a resposta certa é: e daí? O objetivo do banco central é estabilizar as economias, e não ganhar dinheiro.É muito mais provável que o BC perca dinheiro com intervenções hesitantes do que mediante intervenções vigorosas que produzam êxito. Quanto à segunda objeção, é necessária uma compreensão clara das regras que regem as políticas fiscal e econômica. É preciso também decidir se um país é crivelmente solvente. A Itália e a Espanha certamente são. Quanto à terceira objeção, não existe uma boa razão para esperar um processo inflacionário fora de controle como resultado de operações monetárias de um banco central. A expansão da base monetária não resulta automaticamente em expansão da oferta monetária, como bem sabemos. Com efeito, durante a atual crise, a base monetária tornou-se desconectada da oferta monetária em todas as grandes economias. Esse é o significado de crise financeira.

Suponhamos que o BCE tenha êxito em estabilizar os mercados de títulos de governos dessa maneira. Isso também estabilizaria, automaticamente, os bancos, uma vez que é o medo de inadimplência soberana que está provocando preocupações com insolvências bancárias. Capital capaz de proteger o sistema bancário europeu de grandes defaults soberanos simplesmente não existe. É particularmente ridículo supor que os soberanos possam oferecer seguro eficaz contra seu próprio colapso. No entanto, para início de conversa, como inexistem boas razões para que uma zona do euro bem administrada sofra tais colapsos, a resposta é cortá-los - na raiz.

Escrevo "bem administrada", deliberadamente. Uma zona do euro bem administrada é sinônimo de crescimento sustentado e realização de ajustes. Também nesses aspectos o BCE tem papel fundamental a desempenhar.

A zona do euro como um todo não sofreu enormes bolhas de ativos e consequentes crises financeiras: essas bolhas limitaram-se a alguns membros periféricos. Não há nenhuma boa razão para uma grande recessão e fraco crescimento subsequente. Apesar disso, o BCE permitiu que o PIB nominal e a oferta monetária (supostamente, o "segundo pilar" das suas políticas) estagnasse. No segundo trimestre de 2011, o PIB nominal da zona do euro foi apenas 1,4% maior do que três anos antes. A base monetária ampla cresceu a uma taxa anual acumulada pouco acima de 2% nos três anos até o fim de agosto. Mais uma vez, o núcleo da inflação - o único alvo relevante quando os preços das commodities mostram-se tão erráticos atingiu uma taxa acumulada de 1,4% ao ano nos três anos até setembro. Para qualquer observador sensato, tudo isso é fortíssima evidência de que a política do BCE foi muito apertada. Para que a zona do euro possa ter alguma esperança de ajuste com crescimento, isso precisa mudar, e já.

A zona do euro corre o risco de ser varrida por um tsunami de crises fiscais e bancárias. A Linha de Estabilidade Financeira Europeia não poderá detê-lo. Só o BCE pode. Como única instituição com jurisdição sobre toda a zona do euro, cabe ao BCE essa responsabilidade. E ele também tem poder para isso. Sinto muito, Mário. Mas você está diante uma escolha: agradar os falcões monetários ou salvar a economia da zona do euro. Opte pela segunda das alternativas. Explique sua opção. E lembre-se: a sorte favorece os audazes. Seu,

Martin

* Only a more active ECB can solve the euro crisis (apenas um BCE mais ativo pode resolver a crise do euro), Centre for European Policy Studies, 2011, www.ceps.be/book/only-more-active-ecb-can-solve-euro-crisis

(Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Para a OCDE, Brasil cobra imposto como país rico e gasta como pobre


Valor 26/10

O governo brasileiro cobra impostos de país rico e gasta com as deficiências de país pobre, indica a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no relatório "Perspectivas da América Latina 2012", que será divulgado na sexta-feira em Assunção, no Paraguai.

Hoje, em Brasília, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurria, lançará um estudo específico sobre a economia brasileira, no qual a entidade recomendará uma ampla reforma fiscal, para mobilizar os recursos domésticos de maneira mais eficiente.

O relatório sobre América Latina, a ser lançado na Cúpula Ibero-americana, que será realizada sexta e sábado, no Paraguai, mostra que o nível do endividamento público na região declinou de 80% para 30% do Produto Interno Bruto (PIB) na média desde o começo dos anos 90, enquanto os países ricos continuaram a se endividar. Só que essa diminuição da dívida na região ocorreu mais pelo aumento de impostos do que pelo controle de despesas ou utilização mais eficiente dos recursos públicos.

No Brasil, na Argentina e no Uruguai a arrecadação fiscal está próxima do nível daquela dos países ricos da OCDE, por volta de 30% do PIB. No entanto, o estudo destaca que isso não contribuiu para melhorar a distribuição de renda. Além disso, o Brasil está entre os países que cobram mais imposto das empresas do que das pessoas físicas e isso pode desestimular investimentos e criação de empregos.

A tributação das pessoas físicas na América Latina é reduzida, comparada à dos países da OCDE, em boa parte por causa de um número elevado de deduções, isenções e sonegação, enquanto a tributação de pessoas jurídicas é relativamente alta, segundo o estudo.

O sistema tributário é concentrado em impostos indiretos sobre o consumo, é regressivo, incidindo da mesma maneira tanto sobre os ricos como sobre a maior parte da população mais pobre.

O estudo mostra também as enormes diferenças na região dos gastos públicos em programas sociais, com o Brasil destinando 25% do PIB para essas ações, enquanto a Guatemala destina apenas 7%.

Nas entrelinhas, o estudo indica que não dá mais para continuar aumentando impostos e o caminho é uma reforma fiscal para arrecadar melhor e aumentar a eficiência e transparência dos gastos públicos. Ele destaca ainda a importância crescente de os governos aumentarem o nível de produtividade da economia, sobretudo no setor industrial, o que exige estímulos para inovação.

O relatório sobre o Brasil é resultado do exame da economia do país feito pela OCDE em Paris. Houve discussão sobre controle da inflação e consolidação fiscal. A entidade recomenda que o país tenha um orçamento plurianual em vez de anual. Na verdade, o país tem metas multianuais, mas não são obrigatórias. Sugere também que o Brasil adote metas de superávit nominal, em vez de superávit primário. Admite, porém, que isso não é factível no curto prazo, mas talvez no médio prazo.

O estudo sugere ainda para o governo brasileiro dar subsídios para os bancos comerciais serem estimulados a fazer financiamentos de longo prazo, juntando forças com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

OCDE alerta para riscos na América Latina

Enquanto um pacote para conter a crise da zona do euro é esperado para hoje em meio a temores de que possa não ser suficiente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alerta para os riscos que um aprofundamento da turbulência europeia trará para o Brasil e o resto da América Latina.

A entidade que reúne os países ricos avisa que um aprofundamento da crise da zona do euro poderá "reverter dramaticamente" mais o fluxo de capitais de curto prazo para os emergentes da América Latina, causar grandes oscilações de câmbio, afetar comércio exterior e preços domésticos.

Segundo os dados das contas externas divulgados ontem pelo Banco Central, o endividamento externo de curto prazo total do Brasil em setembro somava US$ 47,343 bilhões, o equivalente a 15,9% do total da dívida externa no período. Boa parte desse volume está nas mãos dos bancos: são US$ 44,370 bilhões com vencimentos de dívida no curto prazo, 31,78% do endividamento geral do segmento (US$ 139,670 bilhões).

Além disso, uma desaceleração da economia da China, afetada pela fragilidade das economias desenvolvidas, poderá provocar também efeito "altamente nefasto" para as exportações do Brasil e de vários países da região. E ter efeito de deprimir os preços internacionais das commodities, elevando o déficit nas contas correntes e reduzindo o chamado "espaço fiscal", ou seja, do dinheiro em caixa pelos governos. Os líderes europeus continuam divididos sobre o pacote para conter a crise, e a inquietação crescia ontem nas capitais europeias sobre a possibilidade de um acordo final não ser alcançado esta noite, podendo causar ainda mais panico nos mercados.

O Valor apurou que, em relatório sobre "Perspectivas para a América Latina 2012", a ser divulgado na sexta-feira em Assunção (Paraguai), a OCDE destaca também o contraste entre a boa situação fiscal da América Latina e o alto nível de endividamento público na União Europeia.

Entre 2000 e 2007, a dívida pública nos países da América Latina declinou cerca de 15 pontos percentuais em média. A diferença entre receita e despesas fiscais passou de déficit de 2,4% para superavit de 0,4% do PIB no período Ou seja, o Brasil e o resto da região fizeram um grande esforço e reduziram déficit e dívida.

Já os desenvolvidos se endividaram até o pescoço e causam hoje riscos para a economia mundial. Esta semana, a divida pública dos países da UE superou os € 10 trilhões. Chega a 300% do PIB se incluídas as dívidas de famílias e empresas. Até o fim do ano a Europa tem que refinanciar € 1 trilhão.

Com o impacto da situação nos desenvolvidos, o relatório projeta queda no crescimento no PIB da América Latina. Depois do avanço de 5,9% em 2010, a expectativa é de expansão de 4,4% este ano e de 4,1% em 2012.

A OCDE nota que o baixo nível de poupança doméstica e a consequente dependência da América Latina de capital externo fazem a região atrair recursos em larga escala graças a diferenciais significativos nas taxas de juros, com essa situação causando pressões cambiais e inflacionárias que afetam a coletividade das exportações, sobretudo manufaturados.

A entidade sugere o que o Brasil já vem fazendo: controle de capital com aplicação, por exemplo, de taxação sobre transações financeiras de curto prazo, para atacar capital especulativo, focando o estímulo nos investimentos diretos estrangeiros de longo prazo.

O Instituto Internacional de Finanças (IIF), que representa os maiores bancos do mundo, em estudo enviado ontem a seus membros, confirma deterioração substancial das condições nos mercados financeiros. Projeta agora "recessão leve" na zona do euro. E nota que a falta de confiança sobre a capacidade de as autoridades apresentarem uma solução positiva para a crise da zona do euro é evidente na forte alta dos spreads de CDS.

Os líderes da zona do euro, em todo caso, prometem acabar as incertezas hoje à noite com um "pacote ambicioso", em meio a inquietações crescentes de que a Itália pode ser o próximo a ter de ser socorrido com bilhões de euros depois da Grécia, Irlanda e Portugal.

A expectativa é de um pacote que force o setor privado a aceitar voluntariamente perder cerca de 60% do valor atual dos bônus gregos, o que eleva a dívida grega, o que eleva à anulação da dívida a mais de 80%. Além de necessidade de recapitalização dos bancos em mais de € 100 bilhões. E alavancangem do EFSF, o fundo europeu de socorro, para mais de € 1 trilhão.

No cenário em que tudo isso funcione e resulte em tranquilização da crise na Europa, o mais provável é de o Brasil voltar a sofrer de excesso de liquidez, conforme Paulo Nogueira Batista Júnior, diretor executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional. Ou seja, se a crise aguda for debelada, o real provavelmente voltará a ser uma moeda atraente. Daí porque é importante uma redução gradativa do juro e manter uma politica fiscal forte, na sua opinião.

O xadrez chinês


Por José Luís Fiori - Valor 26/10

"One of the most important challenges for the US foreign policy is to effect a transition from immediate and vexing challenges of the Middle East to the long-term and deeply consequential issues in Asia". Kurt Campbell, US assistant secretary for east Asia and Pacific, FT, 12/10/2011

No dia 21 de outubro de 2011, o presidente Barack Obama anunciou o fim da "guerra da América no Iraque", e a retirada definitiva das tropas americanas do território árabe. E tudo indica que não foi uma decisão isolada do governo Obama, devendo ser somada a outras iniciativas muito importantes, como a de negociar com as forças talibãs do Afeganistão, distanciar-se do radicalismo israelita, apoiar a mudança dos governos aliados do norte da África, aceitar uma nova safra de governos islâmicos moderados, em quase todo o "Grande Médio Oriente", e finalmente, reconhecer, de forma implícita, a participação do Irã, neste redesenho político regional.

Em tudo isso é possível identificar traços de derrota e de vitória americana, mas talvez o mais importante seja duas mudanças estratégicas de largo fôlego, que estão sendo sinalizadas pela nova posição dos americanos: a primeira, na administração do poder global dos EUA, que passa a ser mais "imperial" e "terceirizada"; e a segunda, nas suas prioridades, que passam a ser a Ásia, e a disputa pela hegemonia do Pacífico Sul. Numa tentativa de recuperar, em pleno voo, o tempo perdido pelos EUA durante a "guerra global ao terrorismo" do presidente George W. Bush.

Uma década em que a China se expandiu vertiginosamente e ocupou posições cada vez mais importantes dentro do tabuleiro econômico e geopolítico asiático, enquanto os EUA permaneciam atolados no seu "Grande Médio Oriente". Esta mudança de prioridade, entretanto, não significa que haja consenso dentro do establishment americano, sobre a forma de enfrentar o "desafio chinês". Pelo contrário, existe uma divisão irreconciliável entre duas posições opostas.

De um lado se colocam os democratas e os republicanos que pensam como Henry Kissinger, e consideram que a expansão chinesa pode ser benéfica para o mundo, e para os interesses americanos, se os EUA souberem construir uma parceria estratégica com a China, administrando divergências e conflitos de interesse, evitando um enfrentamento frontal, e compartindo, no longo prazo, a supremacia regional, com os chineses. No lado oposto, se posicionam os que compartem a convicção do cientista político John Mearsheimer, de que "uma China rica será inevitavelmente um estado agressivo e determinado a conquistar a hegemonia regional". Concluindo junto com ele que os EUA deve se antecipar, bloqueando os interesses chineses e estabelecendo alianças militares com todos os concorrentes regionais da China.

Na prática, entretanto, o caminho vem sendo construído longe dos dois extremos, através de negociações e respostas pragmáticas, mais ou menos agressivas, segundo as circunstâncias. Desde 2009, pelo menos, o governo chinês vem defendendo sua soberania sobre o "Mar do Sul da China", de forma cada vez mais assertiva, considerando-o parte do seu "core interest", em conflito com o Vietnã, Filipinas, Malásia, Taiwan e Brunei. Recentemente, os governos do Vietnã e das Filipinas denunciaram uma " séria violação das leis internacionais" por parte da China, na sua disputa pelas ilhas Paracel e Spartly, e ambos governos fizeram acenos explícitos em favor de uma presença militar mais ativa dos EUA, na região. Por outro lado, a secretária de estado, Hillary Clinton, declarou no Vietnã, em 2010, que o mesmo "Mar do Sul da China", "faz parte do interesse nacional dos EUA", e que os EUA se sentem no direito e dever de participar de qualquer conflito e negociação regional, em franco desafio à posição chinesa.

Essa disputa deve seguir e se aprofundar, com o aumento geométrico da importância econômica regional da China e com o fortalecimento contínuo do Comando Pacífico dos EUA, que já é o seu comando regional mais poderoso. Além disto, deve-se incluir nesta competição, a participação de outros estados poderosos, como é o caso do Japão, Índia, Rússia e também do Vietnã. E o que se deve prever é um aumento contínuo do poder militar dos EUA, simultâneo com o crescimento da dependência econômica de toda a região, com relação ao desenvolvimento chinês. E o que é mais paradoxal, é que a própria relação econômica siamesa entre a China e os EUA deve aumentar junto com a sua disputa regional, configurando um quadro e um desafio de enorme complexidade.

Nesse contexto, o mais provável é que a disputa e os próprios conflitos se prolonguem e se repitam, por muito tempo, e com um alto grau permanente de incerteza. Como se fosse numa partida de wei qi, o jogo chinês em que a regra básica (como no caso do go japonês) é a do "cerco contínuo", e da "coexistência combativa", com os adversários, sem que existam jamais vitórias nem vitoriosos definitivos. Uma espécie de jogo de xadrez, sem xeque-mate.

José Luís Fiori é professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007. Escreve mensalmente às quartas-feiras.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Paul Krugman - Obrigado OWS

Paul Krugman - Estadao.com.br

TV ON LINE


MERCADO DE AUTOMÓVEL SOFRE QUEDA NAS VENDAS EM SETEMBRO TEMPO: 00:05:10
O mercado de automóvel no Brasil sofreu uma queda nas vendas no mês passado em relação ao mesmo período de 2010. Mas, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em adiar o aumento do IPI, a expectativa do setor é de recuperação até o Natal.


TV: TV BRASIL | PROGRAMA: REPÓRTER BRASIL MANHÃ | APRESENTADOR: KATIUSCIA NERI

RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS

Zona do euro está mais perto da recessão


Atividade industrial e de serviços da região se contraiu em setembro e teve o pior resultado em mais de dois anos

Bancos reagem com ameaças à proposta dos líderes europeus de calote voluntário de 60% da dívida grega

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

A atividade econômica na zona do euro teve no mês passado a maior contração em mais de dois anos, aumentando os temores de que o bloco esteja realmente entrando em uma nova recessão.
O Índice Gerente de Compras - indicador que mede o comportamento dos setores manufatureiro e de serviços - caiu de 49,1 pontos, em setembro, para 47,2, o pior desempenho desde julho de 2009.
Resultados abaixo de 50 pontos indicam que o setor está se contraindo.
O dado divulgado ontem mostrou que os problemas não estão restritos à periferia da zona do euro.
A atividade econômica na França teve a primeira queda desde junho de 2009, enquanto a Alemanha, embora continue a se expandir, não mostra a mesma força que no início deste ano.
A perda de fôlego ocorre no momento em que o bloco tenta encontrar uma solução para a crise da dívida pública, principalmente da Grécia, que ameaça ficar sem dinheiro para pagar as contas já em novembro.

BANCOS
Os líderes da União Europeia prometem anunciar ações tanto para a Grécia quanto para os bancos e contra a crise de confiança, amanhã em Bruxelas.
Uma das medidas esperadas é a imposição de maiores perdas aos bancos que possuem títulos da dívida grega.
Segundo o jornal "Financial Times", os líderes europeus pediram aos bancos que aceitem um calote voluntário de 60% no valor da dívida grega em suas tesourarias.
Em julho, as instituições financeiras concordaram com um calote parcial de 21%.
Diante da ameaça de sofrerem perdas maiores do que já tinham aceitado, os bancos reagiram ontem. O IIF (Instituto Internacional de Finanças) -que representa mais de 200 instituições financeiras- disse que perdas maiores com a dívida grega "seriam o equivalente a um calote".
Embora o plano de ajuda à Grécia com participação voluntária dos bancos já seja um calote na prática, ele tem como atenuante o fato de os bancos terem concordado. Por isso, é chamado de calote restrito.
Se as perdas forem maiores e unilaterais, sem o aval dos bancos, podem desencadear o rebaixamento da Grécia para a pior nota de risco de crédito, o "default". Além disso, devem provocar uma nova disparada das taxas de juros dos países mais frágeis da zona do euro, como a Itália e a Espanha.
"Existem limites ao que pode ser considerado voluntário", disse Charles Dallara, diretor-gerente do IIF, em comunicado.
Os representantes dos bancos lembram, ainda, que a conta será paga pelo contribuinte europeu, "que já fez muito para ajudar a Grécia".

Na dúvida, o melhor é assistir de camarote


Por Daniele Camba - Valor 25/10

É bom reservar muita pipoca. Os investidores aguardam ansiosamente pela reunião de cúpula dos líderes europeus, que ocorre amanhã. Depois de muita discussão e nenhuma decisão na reunião do último fim de semana, o mercado agora aposta suas fichas de que dessa vez sairão algumas medidas para debelar a crise europeia.

A alta de ontem das bolsas foi exatamente por esse motivo. Mas não porque espera-se que as decisões sejam a panaceia e acabem de uma vez por todas com os problemas. Muito pelo contrário. Como o resultado é uma grande incógnita, ninguém quer ficar muito exposto às oscilações dos ativos, dependendo de qual for o resultado desse encontro amanhã.

Como, na dúvida, o melhor é assistir de camarote, os investidores passaram o pregão de ontem comprando ações para acabar com as posições vendidas à descoberto (vender sem ter o papel). "Tinha muita gente vendida a descoberto, apostando na continuidade da piora, e que teve que correr para recomprar os papéis e assim zerar essas posições", diz o gestor da Schroders, Marcos De Callis.

Essa corrida para comprar as ações e depois sair do mercado levou o Índice Bovespa a fechar ontem em alta de 2,96%, aos 56.891 pontos. A cobertura dessas posições vendidas, segundo De Callis, ocorreu principalmente nas ações de mineração, siderurgia, bancos e construtoras, que eram os setores com as maiores posições de vendas à descoberto.

Isso significa que a valorização de ontem tem um quê muito mais de correção técnica. No entanto, o que se pode esperar do mercado depois da tão esperada reunião de amanhã?

O palpite do gestor da Schroders é que o anúncio de um possível conjunto de medidas estanque um pouco as quedas que os mercados vêm registrando há tanto tempo, por conta dos problemas na Europa.

Mas daí dizer que a crise terá chegado ao fim e que a queda das ações será coisa do passado parece otimista demais. De Callis lista as expectativas dos investidores para o pacote de socorro. Espera-se, por exemplo, que o perdão (eufemismo para moratória) da dívida grega seja de 50%, mais alto do que os 40% que os bancos queriam e menor que os 60% que o FMI sugeria.

Já sobre a recapitalização dos bancos europeus, se espera que seja entre € 100 bilhões e € 120 bilhões, vindos primeiramente do setor privado e só depois os governos arcam com aquilo que faltar. "Essas cifras me parecem otimistas demais, até porque consideram os resultados dos testes de estresse feitos nos bancos europeus e que foram absolutamente generosos", observa De Callis. Para ele, mesmo que amanhã haja um desfecho favorável para a crise europeia, dá para dizer que os países da região (leia-se França e Alemanha, que são os endinheirados da história) resistiram bravamente até colocar a mão no bolso.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

Expectativas racionais, para que te quero


Por Antonio Delfim Netto - Valor 25/10

Dizemos, em sua versão mais pretensiosa, que um agente econômico tem "expectativas racionais" quando conhece a distribuição futura de probabilidades de qualquer variável do seu modelo, obtida (condicionada) pelas informações que ele dispõe no presente. Por exemplo, num sistema por hipótese não "viesado" de escolha aleatória, a probabilidade de selecionar qualquer número entre um e mil é exatamente 1/1000.

O problema é que o mecanismo é, por definição, "não viesado" quando empiricamente, num número de experimentos (que tende ao infinito), todos os algarismos de um a mil revelam a mesma frequência. Num exemplo tão simples como esse ficam evidentes as dificuldades lógicas de definição da "expectativa racional".

Os economistas são mais modestos. Na utilização do conceito de "expectativa racional", constroem modelos lineares envolvendo as variáveis econômicas e supõem conhecer não a distribuição probabilística de cada uma delas, mas apenas a sua média, baseando-se no "verdadeiro" modelo da realidade e na informação que dispõem no presente.

Eles têm lutado com esse problema desde que começaram a formalizar e, portanto, tornar mais evidentes as hipóteses envolvidas nos seus modelos. Se trata, no fundo, de fazer alguma conjectura sobre o futuro opaco, que se recusa a revelar-se antes de se tornar presente. Nessa busca de "antecipar o futuro" e tornar mais úteis os seus modelos, os economistas foram construindo diferentes mecanismos de "expectativas" e estudando as suas consequências.

A primeira hipótese, muito usada nos anos 20 e 30 do século passado, quando estava na moda o estudo empírico das curvas de procura de bens agrícolas, foi que o preço esperado para o futuro era igual ao preço do período anterior. No nível microeconômico, isso produziu a famosa dinâmica do "cobweb", em que preços e quantidades oscilavam, mas que, com restrições convenientes, terminavam num "equilíbrio".

A surpresa veio quando construíram, com a mesma hipótese, um modelo macroeconômico dinâmico elementar com "erros" (surpresas) na demanda global e na fixação dos salários para determinar o nível do PIB e a taxa de inflação. O PIB flutuava aleatoriamente em torno do objetivo desejado, mas a taxa de inflação era positiva e constante (a menos de uma variação aleatória de média zero) e independente da política monetária! Era evidente que a hipótese original (preços esperados para amanhã iguais aos de hoje) não se sustentava, porque os agentes não continuariam a utilizá-la quando verificassem uma taxa de inflação constante.

Isso levou à substituição da formação das expectativas. A nova sugestão foi supor que a taxa de inflação seria constante. A surpresa ainda maior foi que o modelo mostrava que, agora, para manter o PIB no nível desejado, era preciso não uma taxa de inflação constante, mas uma taxa de inflação permanentemente crescente!

Ficou óbvio que esses estranhos resultados obtidos a partir de modelos extremamente simples eram produto dos erros sistemáticos sobre a formação das expectativas dos agentes. No nível do desespero, os economistas fizeram uma hipótese heroica: suponhamos que conhecemos o futuro, ou seja, que sabemos qual é o preço de amanhã! É a isso que chamamos "expectativas racionais": conhecemos o preço médio de amanhã através das informações que dispomos hoje, o que equivale a eliminar os "erros" (surpresas) na equação da demanda global.

Tudo tornou-se claro. Com o futuro revelado, o modelo dá a resposta que estávamos esperando: o PIB se estabiliza no limite superior, o que dispensa a política fiscal e monetária. Esta última determina apenas o nível de preços. Os economistas aprenderam o truque e nunca mais o abandonaram. Com alguma arte e engenho sobre a formação das expectativas, podem obter, matemática e rigorosamente, o resultado que desejam. É o Santo Graal que procurávamos há séculos, comprado baratinho ao preço trivial de supor que conhecemos o futuro.

Não há, portanto, o que estranhar nas conclusões espantosas em passado não muito afastado de alguns nobelistas: as políticas econômicas quando antecipadas são absolutamente ineficazes quando conhecemos o futuro. De qualquer forma é mais do que evidente que ninguém discute a necessidade de se introduzir nos modelos alguma expectativa sobre o futuro opaco e de como a política econômica pode ajudar a formá-la.

Talvez esta seja a única mensagem duradoura das "expectativas racionais": uma hipótese sobre o futuro é indispensável para entender o presente!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Global Financial Stability Report


Por Jairo Saddi - Valor 24/10

Reveste-se da maior importância o documento do FMI, Global Finan cial Stability Report, publicado recentemente, sendo de interesse de todos que atuam em regulação financeira. Editado semestralmente desde 2008, o relatório tem como objetivo avaliar a estabilidade do sistema financeiro internacional, incluindo os mercados emergentes, e endereçar soluções ou recomendações aos problemas que possam afetar a eficiência bancária.

O primeiro fato observado no relatório é que a instabilidade financeira global aumentou, anulando os recentes ganhos da crise de 2008, retardando a recuperação e a retomada do crescimento econômico e destruindo a confiança no futuro. Isso, segundo o documento, se deve a três fatores presentes nas economias norte-americana e europeias: baixos índices de crescimento, baixos resultados no balanço de pagamento e baixa eficiência na política.

Talvez a maior contribuição do relatório seja esclarecer que a origem da crise é mesmo política, resultando da absoluta incapacidade de coordenação política para resolver os principais problemas que afligem os bancos no planeta. A solução? Segundo o FMI, criar estratégias críveis para solução do financiamento público e do risco soberano, fazendo com que o sistema bancário (especialmente o europeu) se torne menos arriscado. Isso implica ainda aumentar a capacidade de reação dos bancos para prover crédito à economia e, para tanto, é fundamental segregar o risco dos títulos soberanos (e, por exemplo, da Grécia etc.) dos ativos dos bancos.

Nos EUA, a natureza do financiamento público também continua a gerar imensas dúvidas na seara política, especialmente quanto à habilidade dos dirigentes de conduzir corretamente o fortalecimento macroeconômico na estabilidade dos bancos. Os mercados, de acordo com o relatório, passaram a questionar essa habilidade na tomada de decisões e enxergar fraqueza e hesitação nos seus condutores, em um momento em que determinação e certeza são fundamentais.

No que se refere aos países emergentes, incluindo o Brasil, as recomendações, também dirigidas aos políticos e ao governo, são estas: evitar sobreaquecimento do consumo e aumento desbalanceado da oferta de crédito sem políticas financeiras adequadas de provisões e de reserva e capital. Nesse sentido, a aprovação do Acordo da Basileia 3, segundo o FMI, é de fundamental importância para garantir solidez aos bancos.

O Relatório aponta cinco fatores como os mais críticos no processo atual da crise: (1) uma combinação de taxas relativamente baixas de inflação, taxas de juros próximas a zero e baixo crescimento econômico com evidentes inseguranças sobre o investimento no futuro; (2) em muitos países, vencimentos concomitantes de dívida pública e privada que ampliam o processo de incerteza sobre como esses compromisso serão honrados; (3) bancos e intermediários financeiros ainda fortemente alavancados, vulneráveis a choques futuros; (4) dimensões transnacionais da crise, tornando o sistema ainda mais frágil e propenso ao contágio; (5) instrumentos de política monetária única e exclusivamente voltados à liquidez e não a reais problemas de solvência.

A regulação financeira trata de opções de políticas públicas. Como se vê, o documento do FMI apresenta um quadro sombrio e potencialmente perigoso ao sistema financeiro. Se a escolha por um determinado caminho - por exemplo, adotar-se no Brasil a redução da taxa de juros na última reunião do Copom e a perspectiva de novas reduções - se provar acertada, os ganhos para a economia serão realmente importantes, salvando-se todos (não apenas os bancos) com benefícios duradouros pelos acertos. Se não, a possibilidade de o Brasil apresentar risco, com crescimento menor e maior propensão a internalizar problemas domésticos (e também do mundo) não é desprezível.

Passado quase desapercebido pelo Brasil, o relatório é leitura obrigatória a todos que acompanham o mercado financeiro e de regulação. O aumento do fluxo de saída dos capitais estrangeiros e a repentina subida do câmbio indica que, afinal, poderemos ter uma tempestade mais dura que a "marolinha" de 2008.

Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, professor de Direito do Insper,

O mercado de concentrado de urânio


Por Leonam dos Santos Guimarães - Valor 24/10

A produção do combustível que alimenta as usinas de geração elétrica nuclear é feita em uma sequência de processos industriais que se inicia na mineração e no beneficiamento, que produz concentrados de urânio. Seguem-se a conversão do concentrado em hexafluoreto de urânio e seu enriquecimento (aumento da proporção do isótopo U-235 acima do teor natural). A fabricação combustível se dá pela reconversão do hexafluoreto em dióxido de urânio, produção de pequenas pastilhas cerâmicas cilíndricas desse dióxido e montagem mecânica dessas pastilhas nos chamados "elementos combustíveis", que são o produto final entregue à usina para carregamento no reator nuclear.

Por razões mais históricas do que técnicas ou econômicas, concentrado, conversão, enriquecimento e fabricação do combustível constituem mercados separados, com diferentes fornecedores atuando em cada um deles. As utilities nucleares compram concentrado, contratam sua conversão, em seguida contratam seu enriquecimento e finalmente contratam a fabricação do combustível. Concentrado, conversão e enriquecimento são commodities. Elementos combustíveis são produtos customizados.

A oferta no mercado internacional de concentrado de urânio é composta pela produção primária das atividades de mineração e beneficiamento de fontes secundárias. O beneficiamento, isto é, produção do concentrado chamado yellow cake, é feita sempre "na boca da mina" porque os minérios de urânio são tipicamente de baixos teores, não sendo viável economicamente o transporte do minério bruto. As fontes secundárias incluem excedentes em estoque acumulados por produtores e consumidores (empresas de geração elétrica nuclear), os estoques dos governos, urânio reciclado a partir de estoques do governo e diluição (downblending) do urânio militar russo altamente enriquecido (HEU).

A indústria de produção primária de urânio é de âmbito internacional, com um pequeno número de empresas que operam em poucos países. De acordo com a World Nuclear Association (WNA) a oferta mundial de concentrado de urânio em 2010 totalizou cerca de 70 mil toneladas, dos quais aproximadamente 87% foi produzido por 10 empresas. Aproximadamente 93% da produção mundial foi proveniente de oito países, em ordem decrescente: Cazaquistão, Canadá, Austrália, Namíbia, Níger, Rússia, Uzbequistão e Estados Unidos.

Talvez o único uso pacífico do urânio é como combustível para geração elétrica. A demanda mundial pelo concentrado está, portanto, diretamente ligada à eletricidade gerada pelas usinas nucleares. De acordo com a WNA, em setembro 2011 existiam 440 usinas nucleoelétricas comerciais operando em todo o mundo, com uma potência de geração instalada total de 376,7 mil MWe, requerendo cerca de 90.000 toneladas de concentrado por ano. Estas usinas geram 14% das necessidades mundiais de eletricidade.

A tendência de aumento da construção e projeto de construção de novas usinas aumenta no mundo desde 2007. Dados da WNA mostram que em setembro de 2011, mesmo após o acidente de Fukushima no Japão, 62 usinas nucleares comerciais estavam em construção em 13 países, outras 155 sendo planejadas.

A tendência de aumento na demanda por concentrado como resultado da entrada em operação de novas usinas e do aumento dos fatores de capacidade das usinas já em operação poderia ser compensada, até certo ponto, pelo descomissionamento das usinas que atingirão o final de sua vida útil. Entretanto, o cenário de referência da previsão 2020 da WNA indica que a produção terá que aumentar substancialmente dos níveis atuais para atender os requisitos futuros.

Desde 1990, o consumo de concentrado tem ultrapassado a produção primária por uma diferença substancial. Esta lacuna de fornecimento tem sido preenchida pelas fontes secundárias. O déficit entre os requisitos mundiais de urânio e a produção primária é crescente e os estoques existentes e as demais fontes secundárias estão se esgotando.

A maior fonte secundária é o acordo russo-americano "Megatons por Megawatts". Nesse acordo, que termina em dezembro de 2013, a Rússia faz o downblend de urânio de armas nucleares em urânio de baixo enriquecimento (LEU) para uso civil. A Rússia atualmente abastece o mercado mundial com 12 mil toneladas de urânio a partir deste programa. A Rússia, entretanto, já declarou que não renovará esse acordo e o programa se encerrará após esta data.

As empresas de geração elétrica nuclear garantem uma proporção substancial de suas necessidades de concentrado por contratos de médio e longo prazos com os produtores. Os preços desses contratos são estabelecidos por uma série de métodos, incluindo reajustes por índices de inflação, preços de referência e renegociações de preços anuais. Os contratos podem conter preços mínimos, preços máximos e outras disposições negociadas que definem o preço final a ser pago na entrega.

Com base em dados fornecidos pelo Ux Consulting Company LLC e TradeTech, principais consultores do setor, o preço no mercado spot para entrega imediata no final do ano de 2010 foi de US$ 138,3 mil por tonelada de concentrado, em comparação com U$ 98,8 mil ao fim de 2009, um aumento de 40%. A média dos preços dos contratos para entrega a termo no mesmo período foi de U$ 144,4 mil para U$ 135,5 mil, uma diminuição de 7%.

O Brasil tem a 7ª maior reserva de urânio do mundo, com cerca de 300 mil toneladas de concentrado equivalente asseguradas. Poderão se somar a cerca de 800 mil toneladas adicionais inferidas, que o tornariam a 1ª ou 2ª maior reserva mundial. Porém, o país não participa do mercado internacional.

O mercado nacional é simultaneamente um monopólio (um só vendedor) e um monopsônio (um só comprador), mas seus preços não são regulados. A produção brasileira de concentrado, monopólio da União exercido pelas Indústrias Nucleares do Brasil S.A. (INB), se limita a atender ao consumo interno de cerca de 400 toneladas por ano demandado pela Eletrobrás Eletronuclear S.A. para as recargas de Angra 1 e Angra 2.

A construção de Angra 3 aumenta a demanda em 840 toneladas para a fabricação de sua 1ª carga até 2015 e, a partir de 2016, 280 toneladas adicionais por ano para suas recargas. Mas a produção nacional não tem sido suficiente para atender a demanda nos últimos anos.

Leonam dos Santos Guimarães é doutor em engenharia, membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Assistente da presidência da Eletronuclear

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

TV ON LINE


EMBAIXADOR AFIRMA QUE ERA NECESSÁRIO BC MOSTRAR QUE NÃO SEGUE ORDENS DO PLANALTO TEMPO: 00:05:58
Em entrevista ao Conta Corrente, o embaixador e consultor de empresas, Jório Dauster, falou sobre o cenário econômico nacional e internacional e os efeitos desta crise global. Sobre a queda de juros na economia brasileira, Dauster afirma que era necessário o Banco Central mostrar que não segue ordens do Planalto.

SONORA

*JÓRIO DAUSTER, embaixador

*GEORGE VIDOR, jornalista

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

STF SUSPENDE AUMENTO DO IPI SOBRE CARROS IMPORTADOS TEMPO: 00:01:00
O Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o aumento do IPI sobre carros importados. Com a decisão, a cobrança só pode ser feita a partir da primeira quinzena de dezembro. A decisão tem efeito retroativo.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: EDIÇÃO DAS CINCO | APRESENTADOR: LEILA STERENBERG

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Carta Maior - Internacional - Zizek: o casamento entre democracia e capitalismo acabou

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Temor de piora da crise derruba minério e cobre


Por Emiko Terazono e Jack Farchy | Financial Times, de Londres

O preço do minério de ferro recuou para seu menor patamar no ano, enquanto a cotação do cobre apresentou declínio de mais de 6% na última sessão de ontem, depois de investidores chineses encabeçarem uma onda de vendas nos mercados globais de commodities de uso industrial, em meio aos receios de desaceleração da economia mundial.

A forte queda acontece enquanto a crise da região do euro entra em uma semana crucial. Paralelamente, os investidores estão preocupados com a possibilidade de uma desaceleração complicada da economia chinesa, responsável por mais de 40% da demanda de grande parte dos metais industriais.

Os receios foram amplificados pela desvalorização acentuada dos preços à vista do minério de ferro. O produto referencial australiano - com 62% de conteúdo de ferro - vendido à China, cujo preço vinha mantendo-se relativamente estável em meio à onda de vendas de commodities dos últimos meses, caiu para US$ 145 por tonelada, 20% abaixo do pico verificado no início de setembro, de US$ 183.

Para o analista Duncan Hobbs, da Macquarie, a queda do preço à vista do minério de ferro estava "reforçando as percepções de desaceleração da economia chinesa" e pressionando o sentimento quanto a outros metais de uso industrial, especialmente o cobre.

Nesta semana, a China divulgou crescimento de 9,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, o menor em dois anos. Analistas dizem que as grandes siderúrgicas chinesas vêm registrando declínio nas encomendas e que a produção agregada de aço provavelmente encolherá no curto prazo.

O sentimento negativo em relação à China também pesou sobre outros metais industriais. O contrato de cobre para entrega em três meses na Bolsa de Metais de Londres (LME), referência para os mercados de metais básicos, caiu 6,5%, para US$ 6.710 por tonelada, menor fechamento desde julho de 2010 e pouco acima da menor cotação intradiária em 14 meses, de US$ 6.635, observada no início do mês.

Nos últimos dias, os preços do cobre e do aço na Bolsa de Futuros de Xangai - vistos por muitos como o indicador mais claro sobre o sentimento na China - recuaram ainda mais do que nos mercados mundiais. A barra de reforço, um tipo de barra de aço usada na construção, para entrega em três meses caiu 20% desde o início de setembro. Ontem, chegou próxima ao menor preço em dois anos.

O analista Nicholas Snowdon, especializado em commodities metálicas no Barclays Capital, em Nova York, enfatizou que empresas e investidores chineses - que há poucas semanas eram compradores de metais - agora, estão assumindo posição de principais vendedores.

Ocupem os bancos de crédito imobiliário


Por Simon Johnson - Valor 21/10

Os participantes do movimento "Ocupem Wall Street" estão certos em argumentar que os grandes bancos nunca passaram por investigação apropriada pela criação, agrupamento e securitização de hipotecas, motivos centrais da crise financeira - e da perda de mais de oito milhões de empregos. Graças, no entanto, aos esforços do procurador-geral de Nova York, Eric Schneiderman, entre outros, foram iniciadas negociações sérias nos Estados Unidos em busca de um acordo sobre as hipotecas, fora dos tribunais, entre procuradores-gerais estaduais e empresas de destaque no setor financeiro.

As conversas entre autoridades estaduais, o governo Obama e os bancos estão concentradas nas notícias de abusos nas hipotecas, execução de residências e despejos de moradores. Bancos importantes, contudo, também são acusados de comportamento ilegal - de induzir as pessoas a captar, por exemplo, enganando-as sobre as taxas de juros que teriam de pagar e de apresentar de forma distorcida os "títulos lastreados por hipotecas" (MBS, na sigla em inglês) resultantes aos investidores.

Caso as acusações sejam verdadeiras, os executivos de bancos envolvidos devem temer que ações civis revelem evidências que possam ser usadas em ações criminais. Seu interesse, nesse caso, naturalmente seria buscar - como buscam agora - impedir que essas evidências cheguem aos tribunais.

A estrutura e os valores de qualquer acordo fora dos tribunais sobre as hipotecas deveriam ser baseados nos danos provocados pelo suposto comportamento. Muitos americanos agora devem demasiado. Estima-se que cerca de 10 milhões de hipotecas estejam "debaixo d'água" (a residência vale menos que o empréstimo). E, em mercados importantes, nos EUA, depois de quatro anos de depressão nos preços residenciais, os valores continuam em queda.

Se fossem créditos a empresas, os credores estudariam sua reestruturação - prorrogando os pagamentos e, normalmente, dando baixa contábil no principal. No mercado de hipotecas residenciais dos EUA, no entanto, isso é bem menos comum. Os bancos não querem milhões de negociações nem, muito menos, a necessidade de admitir as perdas que isso implicaria em sua carteira de crédito.

Como resultado, as famílias tentam reduzir gastos e saldar suas dívidas. Até certo ponto, esse é o resultado natural de qualquer onda de alta expansão no crédito. E a desalavancagem das famílias nos EUA levará um longo tempo.

As autoridades políticas e monetárias podem responder de três formas. Primeira, podem ficar sem fazer nada - aparentemente, a preferida da liderança parlamentar republicana, que recentemente escreveu ao presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), Ben Bernanke, exigindo que ele não tente estimular de novo a economia.

Segunda, poderiam continuar confiando na política monetária e fiscal convencional para tirar a economia da ociosidade. É a ainda favorecida pelo governo Obama, apesar do fraco desempenho da abordagem.

Terceira, poderíamos adotar uma abordagem alternativa, que reduza diretamente o valor das hipotecas debaixo d'água. A essa altura, qualquer melhora no patrimônio dos consumidores estimularia diretamente a economia e criaria empregos.

Comecemos pela proposta de Martin Feldstein, que recomenda uma troca: o governo deveria reduzir o valor das hipotecas quando estivessem suficientemente debaixo d'água, com o governo e os bancos dividindo os prejuízos; em troca, o captador concordaria que o novo empréstimo fosse do tipo de "recursos integrais". Isso significa que os credores poderiam ficar com outros ativos dos devedores - não apenas a casa -, em caso de inadimplência.

A chave para a proposta é os bancos concordarem; é uma reestruturação voluntária das dívidas, sem pressão de nenhuma autoridade legal. Em princípio, os bancos deveriam sentir-se atraídos pela proposta, porque empréstimos reestruturados têm menor probabilidade de calote. Na prática, os bancos vêm relutando consistentemente em reestruturar hipotecas - e vêm demitindo pessoal, em vez de contratar as pessoas que poderiam ajudá-los a lidar com uma iniciativa dessa escala.

Feldstein calcula que o custo com a redução do principal ficaria em torno a US$ 350 bilhões. Claro, em nosso atual cenário fiscal, seria difícil encontrar recursos adicionais no orçamento.

Esses US$ 350 bilhões, contudo, são aproximadamente o que o setor financeiro lucrou, como um todo, em um trimestre normal durante a onda de auge do crédito - e os lucros nos trimestres mais recentes alcançaram ou superaram esse patamar. Portanto, se todo o custo fosse coberto pelos bancos, a maioria perderia o equivalente a menos de um ano de lucro - distribuído ao longo de vários anos.

Esses lucros dos tempos de auge do crédito foram, de qualquer forma, superestimados, porque não foram ajustados ao risco, E quando os riscos de queda se materializaram, as perdas foram amplamente socializadas - principal motivo para a dívida pública dos EUA ter disparado nos últimos anos. Pedir aos acionistas e à administração das empresas para que paguem uma quantia relativamente pequena é inteiramente justo e apropriado sob essas circunstâncias.

Alguns no setor financeiro, naturalmente, ameaçariam citando possíveis consequências sombrias. De fato, as ações dos bancos poderiam cair e seria inteiramente possível que a remuneração e bonificações encolhessem, pelo menos no curto prazo. Por outro lado, um acordo de grande escala que acabasse, de forma legítima e definitiva, com a ameaça de futuras ações legais removeria uma enorme sombra que paira sobre as maiores instituições de crédito, como o Bank of America, e cria riscos significativos para o resto do sistema financeiro.

Se os bancos realmente fossem responsabilizados pelos custos sociais de seu comportamento, a conta excederia os US$ 300 bilhões a US$ 400 bilhões. Os riscos legais totais às instituições financeiras, avaliados de forma realista, superam o US$ 1 trilhão - se particularmente puder ser demonstrado que os MBS vendidos a investidores não eram lastreados por nenhuma hipoteca, porque a papelada legal apropriada nunca foi feita.

Qualquer acordo também deveria incluir um acordo explícito dos bancos de apoio à alteração da lei de falências dos EUA, para permitir a inclusão das hipotecas nos processos nos tribunais. Se o movimento Ocupem Wall Street nos diz algo é que a última coisa que a economia dos EUA precisa é de mais famílias sufocadas por dívidas. (Tradução Sabino Ahumada)

Simon Johnson foi economista-chefe do FMI, e é cofundador do blog sobre economia BaselineScenario.com, professor da MIT Sloan, membro sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional e coautor de "13 Bankers" (13 banqueiros), com James Kwak. Copyright: Project Syndicate, 2011.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Copom corta Selic em 0,5 ponto, para 11,50%, sem surpresas


Valor 20/10
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) deixou de lado as surpresas e cortou novamente a taxa Selic em 0,5 ponto percentual para 11,5% ao ano, seguindo as indicações que ele próprio passou ao mercado ao longo das últimas semanas. A segunda queda consecutiva veio acompanhada de um comunicado enxuto, apenas para reforçar um cenário já incorporado pelo mercado, e também sinalizar a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário nas próximas reuniões.

A decisão já era amplamente esperada. A mediana das projeções colhidas pelo boletim Focus, do BC, junto a bancos e empresas, na última sexta-feira, mostrava que o mercado apostava em queda de meio ponto nessa reunião do Copom. O mercado de juros futuros também cravou redução de mesma magnitude, com poucas apostas em um corte mais acentuado. Para dezembro, a mediana do Focus projeta mais um corte de mesma magnitude na última reunião do ano, marcada para os dias 29 e 30 de novembro.

Ao contrário do que houve na reunião anterior, a decisão de ontem foi unânime. Em agosto, dos sete diretores do BC, que integram o Copom, dois votaram pela manutenção da taxa em 12,5% ao ano e cinco pela redução.

O corte de ontem vinha sendo sinalizado pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Em diversos pronunciamentos públicos feitos após a reunião de agosto, ele afirmou, reiteradamente, que, diante dos esperados efeitos da crise global, "ajustes moderados" da taxa básica de juros são compatíveis com a convergência da inflação para a meta já em 2012.

Exatamente esse argumento que foi repetido ontem na tradicional nota à imprensa emitida pelo comitê imediatamente após suas reuniões. "O Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012", disse o Copom na nota.

Referenciada no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a meta do governo é baixar a inflação anual para 4,5%, o que representaria substancial redução em relação ao nível atual. Até agosto, a variação do IPCA em 12 meses chegou a 7,23%. E para o ano calendário de 2011, projeção do próprio BC indica que os preços que compõem o índice vão aumentar 6,4%. Para 2012, os modelos de projeção do BC também apontam inflação acima do centro da meta, nesse caso, de 4,8%.

Segundo Cristiano Souza, economista do Santander, o comunicado deixa claro uma nova redução dos juros no encontro de novembro e que a magnitude de cortes deve se manter. "O BC já vinha falado em ajuste moderado. Ao repetir a frase no comunicado, cristalizou a ideia de que 'moderado' significa um corte de 50 pontos básicos", diz.

Na sequência, o BC afirma que ao "tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação". Para o economista do Santander, o texto apenas reforça o quadro pintado na reunião anterior.

"Na cabeça do BC, ele reforçou que o cenário está ruim e que, aos poucos, de forma moderada, no período certo de tempo está combatendo os efeitos da crise e que esse cenário é consistente com a convergência da inflação na frente", diz Souza.

Os modelos do economista, no entanto, não sugerem uma inflação na meta em 2012. Souza acredita que o IPCA termine este ano em 6,7%, caindo apenas um ponto percentual ao longo do próximo ano, para 5,7%. "Em 2008, a crise levou a uma queda de dois pontos percentuais, mas foi um cenário muito negativo. Hoje, mesmo com uma desaceleração mundial, não é cenário deflacionário para o Brasil", completa.

Ontem, o giro de negócios no mercado de juros futuros foi baixo para um pregão que antecedeu uma reunião do Copom. Também não foi detectada nenhum tipo de movimentação fora do normal. Nem mesmo o mercado de opções, que foi bastante ativo na véspera do encontro de agosto, mostrou aumento de volume nos últimos dias.

Nas tesourarias dos bancos, a percepção ainda é de novos cortes. Os contratos de juros da BM&F sinalizam uma Selic em 10,25% no próximo ano. Eduardo Duarte, operador de mesa da corretora Icap tem uma visão um pouco diferente. Segundo ele, caso a crise na Europa comece a ser resolvida, o BC pode fazer apenas mais uma redução na próxima reunião, em novembro, com uma pausa para avaliar o cenário.

Um programa para a região do euro


Por Raghuram Rajan - Valor 20/10
Como a crise da região do euro se desenrolará nas próximas semanas? Com sorte, a Itália pode em breve ganhar um governo sólido de unidade nacional, a Espanha terá um novo governo em novembro com autorização popular para promover mudanças e a Grécia fará o suficiente para não inquietar os mercados. Mas, por enquanto não se pode contar com nada disso.

Então, o que precisa ser feito? Primeiro, os bancos da região do euro precisam ser recapitalizados. Segundo, é preciso financiamento suficiente disponível para atender as necessidades da Itália e Espanha por cerca de um ano, caso não consigam acessar o mercado. E, terceiro, a Grécia, atualmente o doente em pior estado na Europa, precisa ser tratada de forma a não disseminar a infecção aos outros países na periferia da região do euro.

Tudo isso exige financiamento - só a recapitalização dos bancos requer centenas de bilhões de euros (embora essas necessidades possam ser um pouco suavizadas, se as dívidas soberanas de países grandes da região do euro passarem a dar uma melhor impressão).

No curto prazo, é improvável que a Alemanha (e o Norte da Europa em termos gerais) entregue mais dinheiro aos demais. Os alemães estão irritados com os pedidos para apoiar países que não parecem querer promover ajustes - ao contrário da Alemanha, que é competitiva por ter passado por anos de medidas dolorosas: baixos aumentos salariais para absorver os trabalhadores da antiga Alemanha Oriental e profundas reformas no mercado de trabalho e no sistema previdenciário. A pouca disposição dos gregos mais ricos em pagar impostos ou dos parlamentares italianos em reduzir seus próprios privilégios confirma os receios dos alemães. Paralelamente, os políticos alemães fizeram um péssimo trabalho ao tentar explicar à população local o quanto eles ganharam com o euro.

Mas não adianta supor, estamos onde estamos. Um raio de esperança é a disposição europeia em usar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês) de forma criativa - como garantia parcial contra perdas ou como capital. Claramente, parte dos fundos do EFSF terá de ser usada para recapitalizar bancos que não tenham condições de levantar dinheiro por si sós nos mercados. Quanto ao resto, os recursos que ainda não estão comprometidos com países periféricos podem ser usados para fornecer empréstimos direcionados à Itália e Espanha.

Não há consenso, no entanto, sobre como levar essas medidas adiante. Alguns propõem colocar o Banco Central Europeu (BCE) em cena para alavancar os fundos do EFSF. Essa seria uma receita para problemas. Dar ao BCE um papel quase fiscal, mesmo se a instituição ficar de certa forma isolada das perdas, ameaça minar sua credibilidade. E se a Itália for auxiliada, o próximo presidente do BCE, Mari Draghi, um italiano, seria criticado, independente de qual seja o grau de necessidade da Itália. Além disso, o financiamento teria de ser acompanhado pela condicionalidade. Essas instituições, contudo, não têm nem a experiência nem o distanciamento necessário dos países em risco para aplicar e fazer cumprir as condições apropriadas.

Por fim, a solidez financeira tanto do EFSF como do BCE depende dos mesmos recursos da região do euro. Se os mercados começarem a entrar em pânico quanto a grandes calotes na região do euro, poderiam questionar se mesmo uma Alemanha disposta teria a capacidade necessária para respaldar o EFSF e BCE. Dito de outra forma, essas instituições não oferecem uma fonte de força externa que seja confiável e não inflacionária.

De fato, os problemas da região do euro podem em breve tornar-se grandes demais para que seus países-membros os resolvam. O mundo também tem apostas em jogo. E possui uma instituição que pode canalizar ajuda: o Fundo Monetário Internacional (FMI). A instituição poderia criar um veículo especial no estilo da linha de crédito dos Novos Acordos de Empréstimos (NAB, na sigla em inglês), que seria capitalizada por uma primeira camada de garantia parcial do EFSF contra perdas e uma segunda com capital do FMI.

O veículo nas linhas do NAB poderia captar o necessário dos países, incluindo Estados Unidos e China, assim como acessar os mercados financeiros. Ofereceria grandes linhas de crédito para países sem liquidez, como a Itália, sob a condição de medidas direcionadas a ajudar tais países a retomar a captação nos mercados a um custo razoável.

Seria preciso um veículo especial porque os volumes que precisam estar disponíveis excedem em muito o que os membros do FMI podem acessar normalmente e não seria nada mais do que justo que se a região do euro pedisse tais recursos para seus membros, arcasse com uma parte significativa de qualquer possível prejuízo. Ao mesmo tempo, o capital do FMI deveria sustentar o veículo, caso a garantia parcial oferecida pela região do euro comece a ser corroída; dessa forma, o mercado entenderia que recursos de fora da região do euro podem ser usados.

O FMI não é uma instituição que inspire sentimentos amigáveis e cordiais. Mas tampouco é o pregador insensível da austeridade fiscal, como se costuma acusá-lo - e o FMI deveria começar a assumir a liderança no combate à crise, em vez de ficar na retaguarda. A região do euro precisa de uma avaliação externa independente do que precisa ser feito e uma aplicação rápida de medidas, antes que seja tarde demais e a incipiente corrida aos bancos torne-se incontrolável.

É claro, o FMI não pode agir sem a permissão de seus mestres, os grandes países. A região do euro deve suprimir qualquer sentimento de orgulho ferido, reconhecer que precisa de ajuda e cumprir rapidamente o que já prometeu. Os Estados Unidos deveriam continuar pressionando com força por uma solução. E os países emergentes também deveriam contribuir com sua parte, uma vez que sejam adotadas medidas de proteção para seu dinheiro. Uma crise não solucionada não poupará ninguém.

Como fonte da crise do euro, as dívidas gregas quase certamente terão de ser reestruturadas. Mas, antes de qualquer resolução, devem ser adotadas estruturas de financiamento adequadas para a Itália e Espanha. Portanto, embora os outros tenham de dar um passo adiante e fazer sua parte, é melhor que a Grécia dê um passo atrás da beira do precipício. (Tradução Sabino Ahumada)

Raghuram Rajan é professor de finanças na Booth School of Business, da University of Chicago, e autor de "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy" (linhas de falhas: como fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2011.

Produtores de ferro-gusa enfrentam sua pior crise



Valor 20/10

Produzir ferro-gusa é o negócio da família de Gustavo Costa Paulino desde os anos 70. Foi nessa época que seu pai, Afonso Paulino, fundou com sócios uma siderúrgica no município de Sete Lagoas, a noroeste de Belo Horizonte. Os primeiros clientes eram empresas de São Paulo e Santa Catarina. Mas logo o ferro-gusa da Siderúrgica Paulino (Siderpa) começaria a ser exportado para os EUA e Europa. A empresa passou de 60 funcionários para cerca de 500, ganhou altos-fornos mais potentes - passando a ter um com capacidade para produzir 7 mil toneladas e o outro para 11 mil. Como todo o setor, os Paulino passaram pelas oscilações que são a marca registrada da indústria de gusa e, como todo o setor, chegaram a 2008 com a produção beirando os 100% de sua capacidade.

Mas então veio a crise financeira mundial. A Siderpa parou de abril a outubro de 2009. Foi a primeira paralisação desde 1970. Quando voltou a operar, retornou só com um dos fornos, o menor.

Com câmbio desfavorável, com apetite externo reduzido e com custos do carvão e do minério de ferro nas alturas, o setor ficou de cabeça para baixo. A maior parte das empresas não se recuperou do tombo. E produzir gusa é hoje um negócio duvidoso. "Nos últimos anos, passou a valer mais a pena produzir e vender carvão vegetal do que ferro-gusa", diz Gustavo Paulino, superintendente comercial da Siderpa.

Ferro-gusa é o primeiro estágio de transformação do minério de ferro. Ele é produzido a partir da fusão entre o minério de ferro bruto e o carvão, além de calcário e outros materiais fundentes, em fornos que passam dos 1.300 graus Celsius. Os lingotes de gusa são usados por aciarias (que o beneficiam para produzir aço) ou por empresas de fundição que agregam outros materiais para fabricar peças fundidas, por exemplo, de motores de carro. Como gostam de dizer os produtores, com gusa se faz de alfinete (que é de aço) a motores de navio e turbinas (que são fundidos).

Minas Gerais, com suas 64 usinas de gusa é o maior produtor do país. Responde por cerca de 60% da produção nacional. O Brasil não importa ferro-gusa. Ao contrário, é um grande exportador.

Em 2007, antes da crise encolher a indústria, as usinas do Estado empregavam direta e indiretamente 50 mil trabalhadores. Naquele ano, a produção chegou a 5,5 milhões de toneladas. Em 2011, as usinas de Minas empregam menos da metade de trabalhadores do que há quatro anos e deverão fechar o ano produzindo 3,5 milhões de toneladas, segundo estima o Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer). O faturamento esperado para este ano é de cerca de R$ 4 bilhões, ante os quase R$ 6,5 bilhões de 2007. Cidades que cresceram nas últimas décadas com o impulso da economia guseira se desorganizaram. Sete Lagoas, por exemplo, viu de repente 4 mil trabalhadores na rua.

"É um setor que está agonizando", diz Sebastião Maciel, porta-voz da Itasider, outra siderúrgica de gusa com sede em Sete Lagoas. "Desde a crise, todos os cinco fornos das usinas estão abafados porque não vale a pena, você paga para produzir." Dos cerca de 800 funcionários, sobraram uns 60.

Vários "guseiros" de Minas Gerais estão desde a crise de 2008 parados, como a Itasider. Outros conseguiram voltar a operar, mas apenas com parte de sua capacidade. Todos eles foram vítimas de uma sequência desastrosa de ocorrências.

O que, em resumo, atropelou o setor foi: os produtores de gusa de Minas e também os do norte do país tinham uma grande dependência do mercado externo, em particular dos EUA e da Europa - mercado que minguou. Sem tanto apetite desses dois compradores, o mundo passou a ter excesso de aço e isso enfraqueceu ainda mais a demanda por gusa.

Ao mesmo tempo, com os preços do minério de ferro e do carvão nas alturas - muito em função da demanda chinesa -, as margens de ganho dos produtores de gusa despencou. Ferro e carvão são os elementos chave dos guseiros. E para coroar o desastre, o câmbio minou as energias do setor que, em Minas, exportava metade do que produzia.

Em setembro, veio a primeira boa notícia em anos: o dólar voltou a se valorizar frente ao real. "O problema do gusa é o câmbio. Rússia e Ucrânia, por exemplo, que também são produtores, mantêm suas moedas desvalorizadas e se protegem", disse Antonio Pontes, outro empresário do setor, há décadas no ramo. Para o Sindifer, com o dólar na casa de R$ 1,70 a R$ 1,80, o setor consegue ao menos equilibrar as contas mesmo com um mercado ainda desaquecido.

"Nos últimos três anos, trabalhamos com rentabilidade zero ou algum prejuízo; isso ocorreu com todos nós. Só subsistimos baixando os custos e cortando pessoal ", diz Pontes numa sala de reunião da sede de sua empresa, o grupo Calsete, em Sete Lagoas. "Do mês passado para cá, com o dólar mais alto, passamos a ter uma rentabilidade de 8%", afirma.

O clima, no entanto, ainda é de cautela, com muitos produtores se perguntando se a taxa de câmbio de fato se manterá mesmo num patamar mais elevado. Não só isso: com as grandes economias do mundo patinando e com um horizonte de novas recessões, as perspectivas para o gusa parecem nada positivas.

"Não estamos vendo uma mudança muito grande no patamar de câmbio [que vinha vigorando antes da alta] e ao mesmo tempo há uma tendência de queda nos preços internacionais de gusa devido à redução global do consumo de aço", prevê Pontes.

"Para as usinas de ferro-gusa não integradas [aquelas que não pertencem a empresas que atuam em toda a cadeia do aço], as perspectivas não são favoráveis", diz ele. Para as usinas integradas, a situação é melhor porque o custo do gusa na fabricação do aço não é tão significativo quanto é o custo do minério e do carvão para as siderúrgicas que só fabricam gusa, acrescenta Pontes.

O empresário deixou de produzir ferro-gusa na usina de Sete Lagoas e passou a fazê-lo no município de Bacabeiras, no Maranhão. Foi uma permuta de ativos com o grupo Gerdau. Para Pontes, que vende 85% de sua produção para os EUA, a mudança reduziu as distâncias entre a planta e seus clientes.

Mas a crise o alcançou no Maranhão. Sua nova usina ficou parada praticamente todo o ano de 2008 e retomou as operações com apenas um de seus dois fornos. Seu faturamento desmoronou de R$ 120 milhões antes da crise para atuais R$ 50 milhões. "Ferro-gusa não é um grande negócio. Não tem muita rentabilidade porque os insumos são muito caros", resume.

Os custos do carvão aumentaram para 65% na fabricação de gusa; os do minério representam 20%, segundo estimativas do setor. Hoje a tonelada do carvão (tipo vegetal) já está em torno dos R$ 300; a de minério, R$ 150.

No fim de 2008, Pontes começou a diversificar seus negócios. Associou-se à BR Malls como minoritário na construção de um shopping (o primeiro e único) em Sete Lagoas. E passou também a investir em reflorestamento.

É o que também fizeram os Paulino, da Siderpa. Formaram uma floresta de eucaliptos de 20 mil hectares em uma área que abrange seis municípios da região centro-norte de Minas. Trata-se de uma fonte valiosa de carvão vegetal. Entre os produtores de gusa de Minas Gerais, uma visão que parece estar se tornando consensual é que se há alguma luz no fim do túnel para os produtores não integrados ela passa necessariamente pela aquisição e formação de florestas para que possa garantir uma fonte sustentável de carvão. O problema é que na época das vagas gordas, muitos acharam que isso não era prioridade. Agora, descapitalizados, quantos poderão fazer investimentos em florestas?

Uma lei estadual sancionada em 2009 estabelece que a partir de 2017 fica proibido o corte de mais de 5% da floresta nativa de cada propriedade para a produção de carvão. "Nós investimos com mais intensidade em floresta desde 2000. Mas ainda se conta nos dedos que tem plantação própria", diz Gustavo Costa Paulino. Com resultados, a Siderpa, segundo ele, atualmente só usa carvão próprio e ainda vende o excedente.

O setor do gusa tem um passado que o condena quando o assunto é carvão. Por décadas se abasteceu de carvão de fontes ilegais, produzidos a partir da derrubada indiscriminada de matas nativas. "Pelo tamanho do parque siderúrgico, Minas sempre consumiu muito carvão, que vem da Bahia, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e também do norte de Minas", diz Alison José Coutinho, superintendente do Ibama em Minas Gerais.

E se há ao menos um aspecto positivo relacionado à decadência do ferro-gusa em Minas Gerais, ele aparece nos resultados dos trabalhos de fiscalização da equipe de Coutinho. "Com o setor operando mais lentamente, o consumo de carvão ilegal diminuiu", diz ele. "Quem comprava de fontes clandestinas, passou a comprar de fornecedores legais porque a oferta de carvão aumentou. É uma lei de mercado."

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Lá vem o Brasil, descendo a ladeira?


Por Jose Paulo Vieira

É conhecido e aceito que a redução dos juros destrava o investimento em capacidade produtiva – que é o melhor ‘remédio’ contra a inflação – e assim viabiliza crescimento e renda, essenciais para a sustentabilidade da democracia e do desenvolvimento. A verdadeira eficiência da política monetária está em controlar a inflação sem comprometer esse objetivo maior.

Todavia, os dados econômicos mais recentes são muito preocupantes. O índice de Atividade Econômica do Bacen, de agosto, indica que a retração da economia brasileira em 2011, que já era bastante forte, está se acelerando. Para Jose Paulo Kupfer “a economia está descendo a ladeira” 1.

Os indicadores da base de dados do Bacen (www.bcb.gov.br/?INDECO) são flagrantes em demonstrar o quanto a atividade econômica está se reduzindo. O volume de Consultas ao SPC, indicador da atividade do comércio, que havia crescido 18,7% em 2010, este ano murchou: -4,5%. Outros tradicionais indicadores de atividade, como o consumo de energia elétrica, a produção de papelão (embalagens) e os insumos da construção civil registram redução expressiva em 2011 (vide Figura abaixo).

Todos os indicadores selecionados registram fortíssimas reduções em 2011, tanto do Nível de Atividade em São Paulo, quanto da Produção Industrial, das Vendas Industriais em SP e Brasil (dados CNI). Também as horas trabalhadas e o nível de emprego (SP e Brasil) registram fortes perdas, que poderão em breve impactar a massa salarial da indústria que, por enquanto, registra crescimento.
As principais consultorias econômicas estão reduzindo a previsão de crescimento do PIB deste ano para cerca de 3% (1).




Expressiva redução face aos 7,5% de 2010!

A grande expectativa para os cidadãos, homens públicos e todos os que aspiram ao futuro do Brasil é: será essa queda “suficiente” para os doutos especialistas do mercado?

Segundo ensina Bresser-Pereira (3) dois problemas são dominantes no Brasil desde que a inflação foi controlada, em 1994: a alta taxa de juros e a taxa de câmbio sobreapreciada, que decorre em grande parte da atração irresistível dos juros altos. O professor entende que há que se cuidar da inflação, mas que ela “hoje, não é nosso problema principal. É importante apenas para quem gosta de juros altos”. Muito mais relevante hoje é equalizar o dueto “cambio/juros” objetivando o “equilíbrio industrial”, que livraria o Brasil do fantasma da doença holandesa (reprimarização da economia), este sim um problema que devemos evitar comprometa o sucesso dos nossos filhos.

Para isso o país carece da contribuição da política monetária, especialmente dado o recrudescimento da crise internacional, muito bem antecipado pelo Bacen, apesar do ceticismo dos doutos especialistas/juristas. Hoje cabe ao BACEN, ainda mais, a imperiosa redução da taxa básica de juros.


(1) “Descendo a ladeira”. 13 de outubro de 2011 16h56, http://blogs.estadao.com.br/jpkupfer/
(2) “Economia dá sinais de fraqueza: analistas reduzem previsão do PIB”. Ricardo Leopoldo, Agência Estado 13/10/2011 16h12
(3) “BC é um banco do governo e tem que fazer política do governo”. Luis Carlos Bresser-Pereira, Editoria de Economia, Carta Maior, 14/10/2011comentado por Maria Inês Nassif, 13/10/2011.


Jose Paulo Vieira é analista do Desup

BC ouvirá bancos do país sobre regras de Basileia 3 ainda este ano


Valor 19/10
O Brasil abrirá consulta pública até o fim do ano para por em prática os novos padrões de capital e liquidez de instituições financeiras, pelo chamado Acordo de Basileia 3, que exigirá esforço adicional dos bancos.

O Comitê de Basileia de Supervisão Bancária (CBSB) publicou ontem o estado da implementação de Basileia 3 e mostrou que o Brasil está em linha com outros países. Somente a União Europeia já publicou os detalhes de mudanças importantes na regulamentação bancária, com impacto nas atividades e comportamento do setor financeiro. Já Canadá e Japão deixarão o trabalho para 2013.

A consulta pública no Brasil poderá ter prazo de 60 dias e já será quase uma minuta de resolução detalhada. As recomendações de Basileia 3 visam melhorar a capacidade das instituições financeiras de absorver choques, reduzindo a severidade de futuras crises bancárias e efeitos negativos sobre toda a economia.

O Banco Central do Brasil já avisou que antecipará algumas regras. Aplicará certos ajustes regulatórios a partir de junho de 2012 para melhorar a qualidade do capital dos bancos, enquanto o Acordo de Basileia estabelece 2014.

Alguns ativos que podem ter valor muito depreciado em momentos de crise, como ágios e créditos tributários, vão começar a ser deduzidos do capital principal do banco em julho de 2012, inicialmente numa proporção de 20%, até chegar aos 100% em 2018.

Além disso, o BC exigirá a adoção gradual de capital contracíclico a partir de janeiro de 2014, também dois anos antes do previsto por Basileia 3. Começará com exigência adicional de capital de 0,625% até alcançar o nível de 2,5% em 2019.

A consulta pública no Brasil deve trazer detalhes sobre a penalização para o banco que não cumprir as regras sobre os colchões de capital. O banco faltoso não poderá distribuir dividendos e pagar bônus, até que cumpra os níveis de colchão de capital (de conservação e contracíclico), como prevê o Acordo de Basileia 3.

As regras prudenciais no Brasil são mais conservadoras do que o padrão internacional. O BC tem reiterado que as novas regras vão exigir 'algum tipo de adaptação' para os bancos reforçarem a base de capital, mas menor do que o que será exigido dos bancos dos outros países.

A União Europeia, em plena crise da dívida soberana, calcula que os mais de 8 mil bancos e firmas de investimento operando na Europa, representando 53% do total mundial, vão precisar levantar € 460 bilhões de capital de melhor qualidade para se enquadrarem nas novas regras de Basileia 3 até 2019.

Com seus bancos em situação combalida, a UE quer ir além das recomendações do acordo global. Planeja introduzir sanções mais severas para quem violar as regras de capital. As multas poderão chegar a 10% da receita anual de um banco, ou interdição temporária para executivos das instituições. Incluiu também reforço de governança corporativa, o que outros países fazem em normas separadas.

Para o diretor-geral do Banco Internacional de Compensações (BIS), Jaime Caruana, os novos padrões de Basileia 3 serão "duros'', mas necessários para enfrentar futuras turbulências, e rejeita conclamações de bancos para adiar a implementação de algumas exigências no cenário atual.

"O próximo passo é colocar as regras em prática. Para vários bancos, a implementação de Basileia 3 terá barreiras importantes. As regras de capital e liquidez são desenhadas para reforçar de maneira importante o capital do banco e a gestão dos riscos."

Ele lembrou que os bancos precisam atrair novo capital, preservar o existente limitando o pagamento de dividendos e bônus e realizar ganhos de eficiência. "Não são apenas os reguladores que estão pedindo por essas mudanças, é o mercado mesmo que está levando os bancos a fazer mais, e mais rápido, nessas frentes'', afirmou em discurso em Lisboa.

Ontem, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês) anunciou que os reguladores globais vão rever anualmente se as regras do setor financeiro acertadas no G-20 estão sendo aplicadas. As áreas prioritárias para monitoramento incluem as exigências de capital mínimo para os bancos e remuneração para os executivos de bancos, além de medidas para controlar os bancos paralelos ("shadow banks") e os derivativos de balcão.