quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Produtores de ferro-gusa enfrentam sua pior crise



Valor 20/10

Produzir ferro-gusa é o negócio da família de Gustavo Costa Paulino desde os anos 70. Foi nessa época que seu pai, Afonso Paulino, fundou com sócios uma siderúrgica no município de Sete Lagoas, a noroeste de Belo Horizonte. Os primeiros clientes eram empresas de São Paulo e Santa Catarina. Mas logo o ferro-gusa da Siderúrgica Paulino (Siderpa) começaria a ser exportado para os EUA e Europa. A empresa passou de 60 funcionários para cerca de 500, ganhou altos-fornos mais potentes - passando a ter um com capacidade para produzir 7 mil toneladas e o outro para 11 mil. Como todo o setor, os Paulino passaram pelas oscilações que são a marca registrada da indústria de gusa e, como todo o setor, chegaram a 2008 com a produção beirando os 100% de sua capacidade.

Mas então veio a crise financeira mundial. A Siderpa parou de abril a outubro de 2009. Foi a primeira paralisação desde 1970. Quando voltou a operar, retornou só com um dos fornos, o menor.

Com câmbio desfavorável, com apetite externo reduzido e com custos do carvão e do minério de ferro nas alturas, o setor ficou de cabeça para baixo. A maior parte das empresas não se recuperou do tombo. E produzir gusa é hoje um negócio duvidoso. "Nos últimos anos, passou a valer mais a pena produzir e vender carvão vegetal do que ferro-gusa", diz Gustavo Paulino, superintendente comercial da Siderpa.

Ferro-gusa é o primeiro estágio de transformação do minério de ferro. Ele é produzido a partir da fusão entre o minério de ferro bruto e o carvão, além de calcário e outros materiais fundentes, em fornos que passam dos 1.300 graus Celsius. Os lingotes de gusa são usados por aciarias (que o beneficiam para produzir aço) ou por empresas de fundição que agregam outros materiais para fabricar peças fundidas, por exemplo, de motores de carro. Como gostam de dizer os produtores, com gusa se faz de alfinete (que é de aço) a motores de navio e turbinas (que são fundidos).

Minas Gerais, com suas 64 usinas de gusa é o maior produtor do país. Responde por cerca de 60% da produção nacional. O Brasil não importa ferro-gusa. Ao contrário, é um grande exportador.

Em 2007, antes da crise encolher a indústria, as usinas do Estado empregavam direta e indiretamente 50 mil trabalhadores. Naquele ano, a produção chegou a 5,5 milhões de toneladas. Em 2011, as usinas de Minas empregam menos da metade de trabalhadores do que há quatro anos e deverão fechar o ano produzindo 3,5 milhões de toneladas, segundo estima o Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer). O faturamento esperado para este ano é de cerca de R$ 4 bilhões, ante os quase R$ 6,5 bilhões de 2007. Cidades que cresceram nas últimas décadas com o impulso da economia guseira se desorganizaram. Sete Lagoas, por exemplo, viu de repente 4 mil trabalhadores na rua.

"É um setor que está agonizando", diz Sebastião Maciel, porta-voz da Itasider, outra siderúrgica de gusa com sede em Sete Lagoas. "Desde a crise, todos os cinco fornos das usinas estão abafados porque não vale a pena, você paga para produzir." Dos cerca de 800 funcionários, sobraram uns 60.

Vários "guseiros" de Minas Gerais estão desde a crise de 2008 parados, como a Itasider. Outros conseguiram voltar a operar, mas apenas com parte de sua capacidade. Todos eles foram vítimas de uma sequência desastrosa de ocorrências.

O que, em resumo, atropelou o setor foi: os produtores de gusa de Minas e também os do norte do país tinham uma grande dependência do mercado externo, em particular dos EUA e da Europa - mercado que minguou. Sem tanto apetite desses dois compradores, o mundo passou a ter excesso de aço e isso enfraqueceu ainda mais a demanda por gusa.

Ao mesmo tempo, com os preços do minério de ferro e do carvão nas alturas - muito em função da demanda chinesa -, as margens de ganho dos produtores de gusa despencou. Ferro e carvão são os elementos chave dos guseiros. E para coroar o desastre, o câmbio minou as energias do setor que, em Minas, exportava metade do que produzia.

Em setembro, veio a primeira boa notícia em anos: o dólar voltou a se valorizar frente ao real. "O problema do gusa é o câmbio. Rússia e Ucrânia, por exemplo, que também são produtores, mantêm suas moedas desvalorizadas e se protegem", disse Antonio Pontes, outro empresário do setor, há décadas no ramo. Para o Sindifer, com o dólar na casa de R$ 1,70 a R$ 1,80, o setor consegue ao menos equilibrar as contas mesmo com um mercado ainda desaquecido.

"Nos últimos três anos, trabalhamos com rentabilidade zero ou algum prejuízo; isso ocorreu com todos nós. Só subsistimos baixando os custos e cortando pessoal ", diz Pontes numa sala de reunião da sede de sua empresa, o grupo Calsete, em Sete Lagoas. "Do mês passado para cá, com o dólar mais alto, passamos a ter uma rentabilidade de 8%", afirma.

O clima, no entanto, ainda é de cautela, com muitos produtores se perguntando se a taxa de câmbio de fato se manterá mesmo num patamar mais elevado. Não só isso: com as grandes economias do mundo patinando e com um horizonte de novas recessões, as perspectivas para o gusa parecem nada positivas.

"Não estamos vendo uma mudança muito grande no patamar de câmbio [que vinha vigorando antes da alta] e ao mesmo tempo há uma tendência de queda nos preços internacionais de gusa devido à redução global do consumo de aço", prevê Pontes.

"Para as usinas de ferro-gusa não integradas [aquelas que não pertencem a empresas que atuam em toda a cadeia do aço], as perspectivas não são favoráveis", diz ele. Para as usinas integradas, a situação é melhor porque o custo do gusa na fabricação do aço não é tão significativo quanto é o custo do minério e do carvão para as siderúrgicas que só fabricam gusa, acrescenta Pontes.

O empresário deixou de produzir ferro-gusa na usina de Sete Lagoas e passou a fazê-lo no município de Bacabeiras, no Maranhão. Foi uma permuta de ativos com o grupo Gerdau. Para Pontes, que vende 85% de sua produção para os EUA, a mudança reduziu as distâncias entre a planta e seus clientes.

Mas a crise o alcançou no Maranhão. Sua nova usina ficou parada praticamente todo o ano de 2008 e retomou as operações com apenas um de seus dois fornos. Seu faturamento desmoronou de R$ 120 milhões antes da crise para atuais R$ 50 milhões. "Ferro-gusa não é um grande negócio. Não tem muita rentabilidade porque os insumos são muito caros", resume.

Os custos do carvão aumentaram para 65% na fabricação de gusa; os do minério representam 20%, segundo estimativas do setor. Hoje a tonelada do carvão (tipo vegetal) já está em torno dos R$ 300; a de minério, R$ 150.

No fim de 2008, Pontes começou a diversificar seus negócios. Associou-se à BR Malls como minoritário na construção de um shopping (o primeiro e único) em Sete Lagoas. E passou também a investir em reflorestamento.

É o que também fizeram os Paulino, da Siderpa. Formaram uma floresta de eucaliptos de 20 mil hectares em uma área que abrange seis municípios da região centro-norte de Minas. Trata-se de uma fonte valiosa de carvão vegetal. Entre os produtores de gusa de Minas Gerais, uma visão que parece estar se tornando consensual é que se há alguma luz no fim do túnel para os produtores não integrados ela passa necessariamente pela aquisição e formação de florestas para que possa garantir uma fonte sustentável de carvão. O problema é que na época das vagas gordas, muitos acharam que isso não era prioridade. Agora, descapitalizados, quantos poderão fazer investimentos em florestas?

Uma lei estadual sancionada em 2009 estabelece que a partir de 2017 fica proibido o corte de mais de 5% da floresta nativa de cada propriedade para a produção de carvão. "Nós investimos com mais intensidade em floresta desde 2000. Mas ainda se conta nos dedos que tem plantação própria", diz Gustavo Costa Paulino. Com resultados, a Siderpa, segundo ele, atualmente só usa carvão próprio e ainda vende o excedente.

O setor do gusa tem um passado que o condena quando o assunto é carvão. Por décadas se abasteceu de carvão de fontes ilegais, produzidos a partir da derrubada indiscriminada de matas nativas. "Pelo tamanho do parque siderúrgico, Minas sempre consumiu muito carvão, que vem da Bahia, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e também do norte de Minas", diz Alison José Coutinho, superintendente do Ibama em Minas Gerais.

E se há ao menos um aspecto positivo relacionado à decadência do ferro-gusa em Minas Gerais, ele aparece nos resultados dos trabalhos de fiscalização da equipe de Coutinho. "Com o setor operando mais lentamente, o consumo de carvão ilegal diminuiu", diz ele. "Quem comprava de fontes clandestinas, passou a comprar de fornecedores legais porque a oferta de carvão aumentou. É uma lei de mercado."

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Lá vem o Brasil, descendo a ladeira?


Por Jose Paulo Vieira

É conhecido e aceito que a redução dos juros destrava o investimento em capacidade produtiva – que é o melhor ‘remédio’ contra a inflação – e assim viabiliza crescimento e renda, essenciais para a sustentabilidade da democracia e do desenvolvimento. A verdadeira eficiência da política monetária está em controlar a inflação sem comprometer esse objetivo maior.

Todavia, os dados econômicos mais recentes são muito preocupantes. O índice de Atividade Econômica do Bacen, de agosto, indica que a retração da economia brasileira em 2011, que já era bastante forte, está se acelerando. Para Jose Paulo Kupfer “a economia está descendo a ladeira” 1.

Os indicadores da base de dados do Bacen (www.bcb.gov.br/?INDECO) são flagrantes em demonstrar o quanto a atividade econômica está se reduzindo. O volume de Consultas ao SPC, indicador da atividade do comércio, que havia crescido 18,7% em 2010, este ano murchou: -4,5%. Outros tradicionais indicadores de atividade, como o consumo de energia elétrica, a produção de papelão (embalagens) e os insumos da construção civil registram redução expressiva em 2011 (vide Figura abaixo).

Todos os indicadores selecionados registram fortíssimas reduções em 2011, tanto do Nível de Atividade em São Paulo, quanto da Produção Industrial, das Vendas Industriais em SP e Brasil (dados CNI). Também as horas trabalhadas e o nível de emprego (SP e Brasil) registram fortes perdas, que poderão em breve impactar a massa salarial da indústria que, por enquanto, registra crescimento.
As principais consultorias econômicas estão reduzindo a previsão de crescimento do PIB deste ano para cerca de 3% (1).




Expressiva redução face aos 7,5% de 2010!

A grande expectativa para os cidadãos, homens públicos e todos os que aspiram ao futuro do Brasil é: será essa queda “suficiente” para os doutos especialistas do mercado?

Segundo ensina Bresser-Pereira (3) dois problemas são dominantes no Brasil desde que a inflação foi controlada, em 1994: a alta taxa de juros e a taxa de câmbio sobreapreciada, que decorre em grande parte da atração irresistível dos juros altos. O professor entende que há que se cuidar da inflação, mas que ela “hoje, não é nosso problema principal. É importante apenas para quem gosta de juros altos”. Muito mais relevante hoje é equalizar o dueto “cambio/juros” objetivando o “equilíbrio industrial”, que livraria o Brasil do fantasma da doença holandesa (reprimarização da economia), este sim um problema que devemos evitar comprometa o sucesso dos nossos filhos.

Para isso o país carece da contribuição da política monetária, especialmente dado o recrudescimento da crise internacional, muito bem antecipado pelo Bacen, apesar do ceticismo dos doutos especialistas/juristas. Hoje cabe ao BACEN, ainda mais, a imperiosa redução da taxa básica de juros.


(1) “Descendo a ladeira”. 13 de outubro de 2011 16h56, http://blogs.estadao.com.br/jpkupfer/
(2) “Economia dá sinais de fraqueza: analistas reduzem previsão do PIB”. Ricardo Leopoldo, Agência Estado 13/10/2011 16h12
(3) “BC é um banco do governo e tem que fazer política do governo”. Luis Carlos Bresser-Pereira, Editoria de Economia, Carta Maior, 14/10/2011comentado por Maria Inês Nassif, 13/10/2011.


Jose Paulo Vieira é analista do Desup

BC ouvirá bancos do país sobre regras de Basileia 3 ainda este ano


Valor 19/10
O Brasil abrirá consulta pública até o fim do ano para por em prática os novos padrões de capital e liquidez de instituições financeiras, pelo chamado Acordo de Basileia 3, que exigirá esforço adicional dos bancos.

O Comitê de Basileia de Supervisão Bancária (CBSB) publicou ontem o estado da implementação de Basileia 3 e mostrou que o Brasil está em linha com outros países. Somente a União Europeia já publicou os detalhes de mudanças importantes na regulamentação bancária, com impacto nas atividades e comportamento do setor financeiro. Já Canadá e Japão deixarão o trabalho para 2013.

A consulta pública no Brasil poderá ter prazo de 60 dias e já será quase uma minuta de resolução detalhada. As recomendações de Basileia 3 visam melhorar a capacidade das instituições financeiras de absorver choques, reduzindo a severidade de futuras crises bancárias e efeitos negativos sobre toda a economia.

O Banco Central do Brasil já avisou que antecipará algumas regras. Aplicará certos ajustes regulatórios a partir de junho de 2012 para melhorar a qualidade do capital dos bancos, enquanto o Acordo de Basileia estabelece 2014.

Alguns ativos que podem ter valor muito depreciado em momentos de crise, como ágios e créditos tributários, vão começar a ser deduzidos do capital principal do banco em julho de 2012, inicialmente numa proporção de 20%, até chegar aos 100% em 2018.

Além disso, o BC exigirá a adoção gradual de capital contracíclico a partir de janeiro de 2014, também dois anos antes do previsto por Basileia 3. Começará com exigência adicional de capital de 0,625% até alcançar o nível de 2,5% em 2019.

A consulta pública no Brasil deve trazer detalhes sobre a penalização para o banco que não cumprir as regras sobre os colchões de capital. O banco faltoso não poderá distribuir dividendos e pagar bônus, até que cumpra os níveis de colchão de capital (de conservação e contracíclico), como prevê o Acordo de Basileia 3.

As regras prudenciais no Brasil são mais conservadoras do que o padrão internacional. O BC tem reiterado que as novas regras vão exigir 'algum tipo de adaptação' para os bancos reforçarem a base de capital, mas menor do que o que será exigido dos bancos dos outros países.

A União Europeia, em plena crise da dívida soberana, calcula que os mais de 8 mil bancos e firmas de investimento operando na Europa, representando 53% do total mundial, vão precisar levantar € 460 bilhões de capital de melhor qualidade para se enquadrarem nas novas regras de Basileia 3 até 2019.

Com seus bancos em situação combalida, a UE quer ir além das recomendações do acordo global. Planeja introduzir sanções mais severas para quem violar as regras de capital. As multas poderão chegar a 10% da receita anual de um banco, ou interdição temporária para executivos das instituições. Incluiu também reforço de governança corporativa, o que outros países fazem em normas separadas.

Para o diretor-geral do Banco Internacional de Compensações (BIS), Jaime Caruana, os novos padrões de Basileia 3 serão "duros'', mas necessários para enfrentar futuras turbulências, e rejeita conclamações de bancos para adiar a implementação de algumas exigências no cenário atual.

"O próximo passo é colocar as regras em prática. Para vários bancos, a implementação de Basileia 3 terá barreiras importantes. As regras de capital e liquidez são desenhadas para reforçar de maneira importante o capital do banco e a gestão dos riscos."

Ele lembrou que os bancos precisam atrair novo capital, preservar o existente limitando o pagamento de dividendos e bônus e realizar ganhos de eficiência. "Não são apenas os reguladores que estão pedindo por essas mudanças, é o mercado mesmo que está levando os bancos a fazer mais, e mais rápido, nessas frentes'', afirmou em discurso em Lisboa.

Ontem, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês) anunciou que os reguladores globais vão rever anualmente se as regras do setor financeiro acertadas no G-20 estão sendo aplicadas. As áreas prioritárias para monitoramento incluem as exigências de capital mínimo para os bancos e remuneração para os executivos de bancos, além de medidas para controlar os bancos paralelos ("shadow banks") e os derivativos de balcão.

China desacelera devagar e analistas veem pouso suave


Agencias internacionais

A economia da China desacelerou no terceiro trimestre. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 9,1% - 0,4 ponto a menos em relação ao período abril-junho. Grande parte dos analistas interpreta esse dado como mais um sinal de que o país terá um "pouso suave", mas alguns, como o economista Nouriel Roubini, acham mais provável um pouso forçado.

O ritmo de crescimento chinês é o menor desde 2009, segundo os dados divulgados. O governo disse que o resultado está em linha com os planos de reduzir a expansão a um nível mais sustentável e de combater a inflação. "Há uma perspectiva muito grande de a economia da China manter um crescimento contínuo e relativamente forte", disse Sheng Laiyun, porta-voz da agência de estatísticas. Segundo ele, a China enfrenta "riscos crescentes" devido à fraqueza em mercados importadores cruciais, como EUA e Europa, mas uma crise econômica é improvável.

Pequim tem promovido repetidos aumentos nas taxas de juros e imposto medidas restritivas ao setor de construção para impedir um crescimento excessivo e a disparada da inflação, que em julho atingiu 6,5%, o mais alto patamar em 37 meses. Em setembro, a alta anualizada foi de 6,1%.

O governo anunciou ainda que a produção industrial em setembro subiu 13,8%, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Esse número é 0,3 ponto maior do que o índice de agosto.

Refletindo a opinião da maioria dos analistas, Liu Li-Gang, do Australia & New Zealand Banking Group, disse que "o risco de pouso forçado é um cenário distante".

No entanto, para Nouriel Roubini, professor da Universidade Nova York que ganhou notoriedade ao prognosticar o estouro da bolha imobiliária nos EUA, trata-se de uma "missão impossível" fazer com que a economia chinesa tenha um pouso suave. Em seminário em Helsinki, na segunda-feira, Roubini disse que a China sofrerá uma forte desaceleração em 2013 ou 2014. Segundo ele, o excesso de investimento "sempre" leva a um pouso forçado da economia.

Roubini afirmou que a Europa não deve contar com muita ajuda por parte do país asiático. Para ele, as manifestações da China a respeito de um auxílio aos europeus são pouco mais do que "papo furado". Conhecido como "Dr. Apocalipse" por suas previsões sombrias, Roubini não é infalível. Em março de 2009, quando o Standard & Poor's 500 caiu abaixo de 680, ele disse que até o fim do ano o índice desceria a menos de 600. Em vez disso, houve uma alta de 65%.

Por seu lado, Jim Chanos, administrador de fundos hedge da Kynikos Associates, afirmou que o "pouso forçado" da China já teve início. Em entrevista ao site MarketWatch, na segunda-feira, Chanos afirmou que "os números estão caindo mais rápido do que pensávamos. As vendas de imóveis em setembro e outubro, que são meses de pico, caíram 40%-60% em relação a um ano atrás".

Dando como exemplos as ações de empresas financeiras e imobiliárias chinesas, que têm queda de 30% em relação ao pico, Chanos lançou a pergunta: "As pessoas estão acreditando na ideia de crescimento perpétuo. Mas elas têm que se perguntar: 'Há crescimento realmente?'"

Não há futuro ensolarado para o euro


Por Martin Wolf - Valor 19/10

Viva! A crise da região do euro será solucionada no encontro de cúpula da União Europeia neste domingo. Foi o que indicaram os participantes da reunião de ministros das finanças do grupo das 20 principais economias emergentes e avançadas. Será que tais esperanças se confirmarão? Não. É concebível - embora improvável - que a região do euro encontre maneiras de administrar a atual emergência. É inconcebível que consiga curar a doença, em parte porque os países-membros estão em estado de negação sobre a natureza da enfermidade e, em parte, porque é uma condição crônica.

Compreensivelmente, observadores externos, aterrorizados com outro choque financeiro mundial, exercem pressão intensa sobre os países-membros da região do euro para que lidem com suas crises interligadas, de falta de solvência e liquidez bancária e soberana. Os ministros convocaram a região do euro a agir "decisivamente para restaurar a confiança, estabilidade financeira e crescimento".

Consertem os bancos; consertem a Grécia; e consertem os mercados de dívidas de outros países da região do euro mais enfraquecidos. Esses são os elementos do pacote desejado. A principal abordagem também é clara: despejar baldes de dinheiro por todos os lados.

Primeiro, o que deve ser feito quanto aos bancos? O ponto de partida é um teste de estresse confiável. É incerto, no entanto, o que seria um teste confiável. Isso depende das possíveis perdas com dívidas soberanas, algo não apenas desconhecido, mas condicionado a decisões políticas ainda a ser tomadas. A questão, então, é que taxas de capital próprio almejar. O sucesso será avaliado de acordo com a facilidade com que, subsequentemente, os bancos conseguirem se financiar. Esse é um exercício de psicologia de mercado, não de ciência.

Se, após os testes, os bancos tiverem de encolher os ativos, em vez de levantar capital, como agora ameaçam fazer, a cura poderia acabar se revelando pior do que a doença. A resposta é transformar essas taxas almejadas em níveis de capital que os bancos tenham de atingir. Os bancos vão berrar. Que o façam. Os Estados sustentam bancos. Os Estados têm o direito - e o dever - de assegurar que comportamentos em interesse próprio dos bancos sustentados por eles não provoquem depressões. A resposta é que se diga aos bancos para elevar as metas de taxas de capital, subscritas por Estados solventes ou pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês). Se não puderem levantar capital, que o dinheiro venha dos governos.

Segundo, o que deve ser feito quanto à Grécia? Como meu colega Chris Giles observou, o governo alemão acha que a dívida grega precisa ser reduzida a níveis sustentáveis, enquanto o governo francês, o Banco Central Europeu (BCE) e os bancos acreditam que a reestruturação precisa ser voluntária. Como é improvável que uma redução voluntária seja suficiente, isso não vai funcionar. A Alemanha está certa. O serviço das dívidas gregas precisa ser colocado em uma base sustentável. Qual, afinal, é o incentivo para os gregos reformarem seu governo e economia, se os benefícios para os credores aumentam indefinidamente? Quase nenhum.

Os tolos que emprestam dinheiro sem fazer perguntas merecem absorver parte das dores. Eles não deveriam esperar que os gregos os resgatem de suas tolices, depois de consumado o fato. A redução dos encargos com as dívidas pode ser alcançada com o corte do estoque de dívidas, redução dos juros ou prorrogação dos vencimentos. Com a dívida pública líquida prevista pelo FMI para 2012 sendo de 175% do Produto Interno Bruto (PIB) e sem a chance de captação nos mercados privados, os argumentos a favor de cortes radicais são fortes.

Terceiro, como proteger os outros países-membros vulneráveis? Uma onda de pânico autorrealizável nos mercados de dívidas soberanas de países grandes, como a Itália e Espanha, é o maior perigo com o qual as economias do região do euro e do mundo se deparam. Como o endividamento líquido da Espanha (previsto pelo FMI em 59% do PIB para 2012) e o déficit fiscal estrutural da Itália (previsto em 1,1% do PIB para 2012) são bastante baixos, ambos os países têm boas chances de reconquistar acesso aos mercados em condições mais favoráveis. A solução mais simples seria o Banco Central Europeu assegurar liquidez no mercado dessas dívidas públicas. Se isso for rejeitado ou considerado insuficiente, o EFSF poderia dar garantias parciais sobre as novas captações, como sugerido recentemente por Paul Achleitner, da Allianz.

Suponham que a crise imediata seja, de fato, superada dessa maneira. Será que isso seria promessa de um futuro ensolarado para o euro? Não. A resposta tampouco seria, como muitos sugerem, algum tipo de união fiscal. Certamente, se países-membros dignos de crédito transferissem recursos para membros sem crédito em escala grande o suficiente, a região do euro poderia sustentar-se. Mas, mesmo se tal política pudesse ser sustentada (o que é improvável), tornaria o sul da Europa um grande Mezzogiorno (como o sul da Itália costuma ser chamado). Isso seria um resultado calamitoso para a integração monetária europeia.

O desafio fundamental não é o financiamento, mas o ajuste. As autoridades da região há muito insistem que o balanço de pagamentos não dever ser de importância em uma união monetária. De fato, há uma crença quase religiosa de que o importante é o déficit fiscal: todos os outros balanços vão se equilibrar automaticamente. Isso é absurdo. O melhor previsor das dificuldades subsequentes foram os déficits externos pré-crise e não os déficits fiscais. Por que os déficits externos são importantes?

Primeiro, eles significam que os residentes gastam mais do que sua renda e financiam a diferença no exterior. Segundo, déficits externos prolongados também moldam a estrutura e competitividade de uma economia. Terceiro, déficits prolongados levam a imensos passivos externos líquidos, frequentemente, intermediados por bancos. Quando a concessão de empréstimos fica congelada, os bancos têm probabilidade de implodir, corroendo tanto a economia como a posição fiscal.

Mais importante que tudo, as pessoas se importam com o que acontece em seus países. Os habitantes de um país em depressão dificilmente se consolarão com a ideia de que os outros países-membros vivem em prosperidade.

Dentro da região do euro, o ajuste dos desequilíbrios continua essencial, embora seja imensamente difícil, porque a taxa de câmbio saiu de cena. Em vez do ajuste via cambial, há um ajuste via depressão e inadimplência. Uma união monetária com mercantilistas estruturais em seu núcleo agora ameaça provocar um declínio permanente em sua periferia. Resolver isso é a verdadeira cura. Será que pode ser feito? É o que me pergunto. (Tradução Sabino Ahumada)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT

Fluxo de investimento japonês no foco do BC

Valor 19/10
O Banco Central (BC) está atento a uma eventual saída de dinheiro de investidores japoneses de ativos denominados em real, em meio à piora do cenário econômico internacional. A dinâmica desses recursos pode ter influência direta sobre a evolução do câmbio local e, no mês de setembro, período em que a moeda americana sofreu forte valorização frente o real, sinais de retirada desses recursos chamaram a atenção da autoridade monetária.

A queda do patrimônio desses fundos, entretanto, tem a ver muito mais com a perda recente de valor dos ativos nos quais esse dinheiro está investido do que com saques líquidos de recursos, segundo explicou Tony Volpon, chefe de mercados emergentes para a América Latina da Nomura Securities, que esteve na semana passada em Brasília para falar com integrantes do BC. Segundo ele, o fluxo de dinheiro aos chamados fundo Toshin - fundos mútuos, em que os clientes podem ou não selecionar a moeda em que querem investir - "está no zero a zero, ou no mesmo patamar que de agosto deste ano, não há uma saída significativa de investimentos". O Nomura administra cerca de 60% dos fundos Toshin que existem no mercado.

Volpon explica que houve, sim, uma variação do estoque total do valor dos Toshin ligados ao real, que caiu de US$ 69,2 bilhões no final de agosto para US$ 56,7 bilhões no final de setembro. Mas, do total dessa variação, somente US$ 1,9 bilhão representa retirada de investimentos diretamente. O restante, explicou o especialista, foi provocado pela desvalorização de ativos e oscilação cambial. Durante o mês de setembro, parte dos ativos que compõem os fundos, especialmente os chamados "high yields", tiveram uma considerável perda de valor, em função da piora do ambiente externo que marcou o mês passado, provocando uma redução no total do patrimônio dos Toshin.

"Se o fundo valia 100 e teve 1 de saque, ficou com 99. Mas como os ativos tiveram perda de valor, foi para 90", simplificou ele. Dos US$ 90 bilhões do patrimônio dos investimentos vinculados ao real ou diretamente em ativos no Brasil, US$ 57 bilhões são feitos por meio de contratos derivativos que têm uma contraparte por aqui, e US$ 33 bilhões são em ativos que podem ser de renda fixa ou variável e títulos públicos ou corporativos, por exemplo.

A variação cambial observada no período, quando o dólar se valorizou 18,14%, teve algum impacto na redução dos valores. Os fundos precisaram fazer um ajuste de caixa para poder cumprir com contratos vinculados à variação cambial no final do mês, e tiveram inclusive de vender ativos para poder cobrir essa perda. Mas, na avaliação de Volpon, esse movimento não foi crucial para o desempenho do câmbio. "Todo começo de mês, os contratos que compõem o fundo são rolados para o mês seguinte, vinculados à cotação da moeda. Quando termina o mês, a diferença é paga, no caso de perda cambial, pelo fundo. Se o fundo não tem caixa, levanta ativos e paga. Mas não é caso dos Toshins do Nomura, que são geridos conservadoramente e que tinham caixa para pagar esse desembolso em função da perda da moeda", explica Volpon.

Os Toshin são compostos em grande parte por contratos a termo sem entrega física, chamados em inglês de non-deliverable forwards (NDFs). Um desmonte de posições compradas em reais contra o dólar nesse mercado não impactaria diretamente o mercado de câmbio à vista no Brasil, mas acabaria afetando o mercado de dólar futuro na BM&FBovespa, que contribui de forma determinante para a formação do preço do dólar no mercado interno. Assim, a ação mais firme do BC, intervindo com leilões de swap cambial e contendo a desvalorização do dólar, foi importante para interromper a espiral negativa dos Toshin observada em setembro.

"Ainda estamos longe de um patamar de retirada dos fundos atingido logo após a quebra do banco Lehman Brothers", diz Volpon. Ele explica que os Toshin denominados em real continuam a ser os preferidos entre os japoneses, e representam 57,6% do total entre aqueles que são vinculados a moedas estrangeiras. Em segundo lugar estão aqueles baseados em uma cesta de moedas de países exportadores de commodities (17,1%).

Mas ele reconhece que, diante do ambiente de cautela que começa a determinar as decisões de investimento, há um crescimento da demanda por ativos atrelados a outras moedas, principalmente ao dólar australiano, atualmente responsável por 9,4% do volume investido. Parte do dinheiro que saiu do real em setembro (US$ 1,9 bilhão) foi destinado ao dólar australiano, classificado com grau de investimento mais alto, e portanto, considerado menos arriscado em épocas de incerteza e forte volatilidade. Entre agosto e setembro esses fundos tiveram uma variação de estoque positiva em US$ 200 milhões, sendo que ao se excluir os fatores de volatilidade cambial, houve um aumento estimado de US$ 1,1 bilhão.

Os japoneses são tradicionais compradores da dívida externa brasileira, mas esses investimentos são feitos principalmente por outro tipo de fundo, chamados de Uridashi e que compram papéis em outras moedas que não o iene japonês.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Estrangeiro dá sinal de retomada da aposta na valorização do real


Valor 18/10

Os investidores estrangeiros retomam suas apostas na força do real. Essa preferência pode significar um novo ciclo de acumulação de posições vendidas em derivativos cambiais e dor de cabeça para o governo Dilma que prefere uma taxa de câmbio menos valorizada. De quinta-feira para sexta, os contratos em aberto na BM&FBovespa (em dólar futuro e cupom cambial ou juro em dólar) confirmam que esses investidores deixaram uma posição líquida comprada e assumiram a venda. Tecnicamente, portanto, os estrangeiros deixaram de investir na alta dos ativos referenciados em dólar para investir na queda desses ativos, o que significa apostar na desvalorização do dólar em relação ao real.

Os contratos em aberto são divulgados pela BM&F com um dia de atraso. Portanto, apenas nesta manhã o mercado será informado do comportamento dos investidores neste início de semana. Mas a cotação do dólar no fechamento dos negócios, ontem, em alta de 2,25% a R$ 1,769, abre a possibilidade de nova revisão de posição pelos estrangeiros. O fôlego do dólar também pode ter refletido apenas uma maior aversão a risco.

Ontem, o dólar interrompeu oito pregões de queda e parte da baixa de 8% acumulada em 10 dias, até a sexta-feira, foi revertida. Na sexta, a taxa de câmbio foi a menor em um mês, a R$ 1,73. No início de outubro, a cotação chegou a superar R$ 1,96, o que chamou o Banco Central (BC) ao mercado com swap cambial tradicional - equivalente à venda de dólares para liquidação futura.

Na sexta-feira, a posição líquida dos estrangeiros em derivativos cambiais era de US$ 226,2 milhões. Resultado de um saldo comprado de US$ 3,706 bilhões em dólar futuro e um estoque vendido de US$ 3,932 bilhões em cupom cambial ou juro em dólar.

Em julho, mês em que os estrangeiros acumularam posição vendida inédita de US$ 24,637 bilhões, o dólar chegou a cair a R$ 1,553 - menor cotação em mais de uma década. É certo que o comportamento do dólar aqui replicou uma tendência mundial. Mas o vigor do movimento doméstico coincidiu com a surpreendente decisão do Comitê de Política Monetária de cortar o juro básico em 0,50 ponto percentual, em 31 de agosto.

Em relatório distribuído em setembro, mês em que o dólar engrenava a alta, o departamento de estudos e pesquisas econômicas do Bradesco alertava que o desempenho da moeda refletiu certamente maior aversão ao risco, precipitada pelos problemas fiscais europeus, e também pelo corte da Selic, na virada de agosto para setembro.

"Essa data é um divisor de águas para o comportamento da taxa de câmbio", diz a equipe chefiada por Octavio de Barros, que questionava naquele momento por que, então, o corte de 0,50 ponto percentual na Selic fez tanta diferença? E, para esses economistas, a decisão do Copom "marcou uma certa flexibilização do regime de metas de inflação, sinalizando para um novo arcabouço de gestão macroeconômica no qual o crescimento econômico e o câmbio depreciado ganham primazia em relação à busca pelo centro da meta de inflação".

Agora, às vésperas da penúltima reunião do Copom de 2011 que tem início hoje, o dólar chama atenção. O mercado, de novo, não espera uma decisão surpreendente do comando do BC. Parcela majoritária do mercado prevê corte da taxa Selic de 0,50 ponto percentual, para 11,50% ao ano.

'Ortodoxo', Nogueira Batista defende disciplina fiscal


Valor 18/10

A competição entre os países no mercado internacional vai se intensificar com o agravamento da situação econômica mundial. E é importante o Brasil mudar seu mix de políticas, reduzindo gradualmente a taxa de juro e empurrando o câmbio no sentido de uma certa depreciação. Mas para que isso seja viável, o país precisa manter uma política fiscal muito disciplinada.

É o que afirma o diretor executivo do Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Junior, que frisou ser essa uma opinião pessoal. Reputado como um economista heterodoxo, Nogueira Batista pode surpreender agora defendendo um ajuste fiscal.

Mas ele diz que a realidade é essa mesmo. "A única forma de o Estado nacional ficar independente dos mercados é controlando seu déficit e sua dívida", afirmou, em entrevista ao Valor depois da reunião de ministros das Finanças do G-20, no fim de semana em Paris.

Ele explica proposta do Brasil para se aumentar recursos do FMI em algumas centenas de bilhões de dólares, a fim de sinalizar ao mercado a disposição internacional em socorrer países combalidos pela crise. A seguir, trechos da entrevista:

Valor: Dá para escapar de nova recessão global?

Paulo Nogueira Batista Júnior : O quadro hoje nos países desenvolvidos é de recessão, estagnação ou crescimento muito lento, com desemprego alto. E nos emergentes há uma desaceleração do crescimento, mesmo na China. Uma nova recessão mundial é possível, mas não é inevitável.

Valor: A China caminha para aterrissagem forçada?

Nogueira Batista : Há um risco. Mas há 20 anos que escuto falar de risco de aterrissagem forçada da China e não aconteceu. Há vulnerabilidades na China, sim, no sistema financeiro e parece haver bolhas importantes nos mercados imobiliários. Mas o que está aparecendo são sinais de uma certa desaceleração. E como há inflação mais alta do que havia há dois, três anos, é difícil imaginar que a China possa responder à desaceleração interna e mundial com um impulso tão forte como o que ela deu em 2008 como parte da reação à crise global. A China está numa posição forte e, comparado a países desenvolvidos, então, nem se fala. Mas também tem menos munição do que tinha em 2008-2009. A escassez da munição é muito mais nítida na Europa, nos EUA, mas também se nota no caso da China. O impacto [para o Brasil] depende do tipo e da extensão do problema chinês. Se for desaceleração muito forte, vai afetar commodities. A China é nosso maior parceiro comercial e nossas exportações são sobretudo de commodities.

Valor: O cenário se deteriora, mas o Ministério da Fazenda projeta crescimento maior, de 5% em 2012, no Brasil. Quais ajustes são necessários para isso?

Nogueira Batista : É importante que o Brasil tenha uma competitividade internacional mais forte. É bem vinda uma certa depreciação cambial, que começou a ocorrer com essa turbulência, desde que não seja muito rápida. A competição entre os países no mercado internacional vai se intensificar com o agravamento da situação mundial e vamos precisar de mecanismos eficazes de defesa contra concorrência desleal e subsídios abusivos. O Brasil já está caminhando nessa direção.

Valor: E no plano macro?

Nogueira Batista : No plano macro, é importante o Brasil mudar sua 'policy mix', reduzir gradualmente a taxa de juro que vai ajudar inclusive as finanças públicas e o câmbio, empurrar o câmbio no sentido de uma certa depreciação. Mas, para que isso seja viável, é importante manter uma política fiscal muito disciplinada. Muitas vezes se diz no Brasil e em outros lugares que ajuste fiscal é politica ortodoxa. Pode ser, quem quiser use esse adjetivo. Mas é importante que se entenda que a única forma de o Estado nacional ficar independente dos mercados é controlando seu déficit e sua dívida.

Valor: Isso é o que diz François Hollande, o candidato socialista a presidência da França, que é chamado de "esquerda mole".

Nogueira Batista Ah, é? Eu não sabia. Mas é a grande realidade. Se o Estado nacional tiver déficit alto, dívida alta, cai nas mãos dos mercados. É indispensável que o Estado tenha controle de suas contas para ter raio de manobra, para fazer políticas sociais, distributivas, de investimento e desenvolvimento. Se quiserem chamar isso de ortodoxo, chamem, mas o importante é isso. O que não é bom no Brasil é essa combinação de câmbio valorizado e juro alto. Isso deprime a atividade, reduz a competitividade da economia, onera as contas públicas, aumenta o déficit. Se conseguirmos caminhar na direção, como já estamos, de juros mais próximos da média mundial, política fiscal forte, com câmbio um pouco mais depreciado e políticas de defesa comercial e de competitividade internacional, o Brasil pode, sim, continuar crescendo apesar do cenário internacional difícil.

Valor: A guerra cambial pode se agravar?

Nogueira Batista : Estamos em plena guerra cambial. Você mora na Suíça, não? Se há seis meses alguém falasse que a Suíça adotaria teto para câmbio com o euro, ninguém acreditaria. Em todos os períodos de grande dificuldade econômica, desemprego alto, a tendência é aumentar a guerra cambial e a comercial. Estamos vivendo os dois fenômenos. Por isso é importante o Brasil ter política cambial competitiva e mecanismos de promoção da competição internacional do país.

Valor: O câmbio chegou a R$ 1,95 e voltou a R$ 1,75. É um nível bom?

Nogueira Batista : Não acho que se possa fixar meta para taxa de câmbio. Apenas se você observar o que aconteceu nos anos recentes, o real foi das moedas que mais se valorizou. Isso não foi bom para o Brasil. Só não se valorizou mais porque o Banco Central e o Ministério da Fazenda atuaram várias vezes para conter essa valorização, que mesmo assim continuou. E só agora, com a intensificação da crise na área do euro, houve reversão parcial.

Valor: Essa reversão pode continuar?

Nogueira Batista : Se houver uma tranquilização da situação na Europa, com uma cúpula europeia de 23 de outubro e a cúpula do G-20 de Cannes muito bem sucedidas, o cenário mais provável é de volta ao quadro anterior, em que o Brasil vai estar sofrendo de excesso de liquidez. Por quê? Porque todos os principais bancos centrais, inclusive o Banco Central Europeu, estão com políticas monetárias super expansionistas, provendo liquidez abundantemente, com taxas de juros muito baixas, negativas em termos reais. Se a crise aguda for debelada, provavelmente voltará o cenário de o real ser uma moeda atraente. Daí porque é importante uma redução gradativa do juro e manter política fiscal forte.

Valor: A Europa mapeou o que fazer para combater sua crise, mas falta decidir. No caso do sistema financeiro, a tendência é de grande contração dos bancos e do crédito?

Nogueira Batista : Pela avaliação que se tem, muitos bancos europeus precisam reforçar seu capital. Se os bancos resolverem responder a essa necessidade vendendo ativos, isso vai provocar contração do crédito e agravar o movimento recessivo que se desenha na Europa. E como a Europa tem importância ainda grande, embora declinante, haverá repercussão internacional. O que se quer é reforçar o capital e não levar os bancos a reduzir ativos. Se vários bancos simultaneamente reduzirem ativos, o efeito será forte.

Valor: Que impacto essa situação dos bancos europeus pode ter no Brasil?

Nogueira Batista : Fatalmente, uma crise na Europa tem efeito em partes do mundo, inclusive no Brasil, e no nosso caso o canal é financeiro. O Brasil tem que estar muito atento, e creio que está, para a situação das filiais de bancos estrangeiros no país, inclusive europeus. As autoridades de supervisão bancária têm que acompanhar muito bem esses bancos e acredito que estejam acompanhando com cuidado. Como a situação é muito tensa no mercado bancário internacional, e especialmente na Europa, isso é básico.

Valor: A proposta brasileira de reforçar a capacidade financeira do FMI é contestada agora por desenvolvidos. Qual a chance de a proposta decolar em Cannes?

Nogueira Batista : Essa ideia é defensável porque, num momento de crise grave, se os países mostram capacidade de atuação conjunta, é importante e os recursos podem inclusive nunca precisar ser usados. O Brasil passou por muitas crises e uma conclusão que os brasileiros tiraram foi de que numa crise, especialmente financeira, o governo tem que reagir de maneira além do que se espera para conter a crise. Até agora, os europeus têm feito o contrário. É necessário agir rápido. No caso do FMI, existem USS 400 bilhões [para empréstimos], talvez seja suficiente, mas numa situação tão vulnerável seria mais prudente criar uma linha de defesa adicional.

Valor: Os recursos adicionais para o FMI seriam da ordem de centenas de bilhões de dólares?

Nogueira Batista Sim, mas isso tudo tem que ser avaliado. É prematuro falar [em cifras], mas para ter efeito teria de ser um valor expressivo.

Homem e trabalho



Por Antonio Delfim Netto - Valor 18/10

A organização social em que vivemos é produto de um processo histórico. O homem, ao construir o mundo com seu trabalho, exerce uma pressão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão, o que exige cada vez maior eficácia produtiva. Há uma evolução simultânea, civilizatória e quase biológica, que amplia o altruísmo e a solidariedade social, exatamente porque a cooperação é mais "produtiva" e libera mais tempo para a expressão criativa do homem.

Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos "Manuscritos" de 1844, antes dele ter sido seduzido por Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta fora dele as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo.

No atual estágio evolutivo, a sociedade divide-se entre os que têm capital e "empregam" o trabalho em troca de salário, e os que detêm a força de trabalho e só podem utilizá-la "alugando-a" ao capital, em troca de salário. Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá, por sua vez, a garantia para o funcionamento das instituições da nossa organização social, particularmente os mercados e a propriedade privada.

Os economistas precisam incorporar, como disse Mauss ("Sociologie et Anthropologie", 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável do cidadão de incorporar-se à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global"! Não importam as filosofias ou as ideologias. No presente estágio evolutivo da organização social que o homem continua procurando para fazer florescer plenamente a sua humanidade, é a natureza e a qualidade do seu trabalho que o coloca na sua posição social e econômica, que afeta sua situação física e emocional e que determina o nível do seu bem-estar.

É com esse sentido do papel do trabalho, com o qual o homem se constrói e produz um mundo onde tenta acomodar-se numa estrutura social conveniente, que devemos entender os protestos dos "indignados com Wall Street", que se espalham por todo os EUA. Não se trata de "excluídos" sociais (talvez alguns deles o sejam), mas de cidadãos honestos, educados e que até bem pouco tempo tinham a oportunidade de ganhar a sua vida, sustentar a sua família, educar seus filhos, comprar sua casa, realizar, enfim, o "sonho americano", com o qual os EUA venderam o lago azul ao mundo.

É verdade que alguns deles já estão na terceira geração vivendo à custa dos outros, graças à miopia e inércia de um Estado do Bem-Estar distraído, o que faz a força do "Tea Party". Mas é verdade, também, que a renda média do americano não cresce desde 1996 e que a distribuição de renda tem piorado. Nada disso, entretanto, acendeu o fogo. O agente eficiente foi o nível de desemprego de quase 10% por tempo longo e que parece não ter fim. O agente eficiente foi a proteção ao sistema financeiro a cujos responsáveis o governo protegeu de forma abusiva e entregou a execução das hipotecas, à custa de 25 milhões que perderam a âncora social do emprego organizado.

"Ocupar Wall Street" é menos um protesto contra a economia de mercado e seus problemas, do que o profundo sentimento de injustiça social derivado da incapacidade do governo e do Banco Central, que permitiram, sob seus olhos complacentes, a destruição do emprego e do patrimônio de incautos cidadãos, assaltados livremente por um sistema financeiro desinibido com suas "inovações".

O efeito final desse movimento será medido nas eleições de novembro de 2012. A resposta imediata de Washington deve ser pequena a não ser, talvez, acender o espírito de urgência do Executivo e estimular a resistência dos republicanos para continuar a expô-lo como "responsável" pela crise. Mas o desconforto é enorme. O presidente Obama referiu-se a ele ligeira e quase temerosamente. O secretário do Tesouro Geithner empurrou a culpa para o sistema financeiro, que "aumentou as tarifas bancárias em resposta aos novos controles de Wall Street e aumentou a já existente irritação popular contra ele". E o presidente do Fed, Bernanke, com aquela figura de Papai Noel arrependido, limitou-se a afirmar que "as pessoas estão descontentes com o estado da economia. Elas reprovam - e não sem razão - o setor financeiro pela situação em que nos encontramos e estão descontentes com a resposta das autoridades". Que autoridades? Obama, Geithner e Bernanke!

Quando se trata de entender o verdadeiro papel do trabalho, os economistas do "mainstream" saem mal na foto: tratam-no como um "fator de produção", sujeito às leis da oferta e da procura. Por definição não há desemprego "involuntário". Como disse um economista que viria a ser nobelista, o desemprego em massa é apenas manifestação de "vagabundagem da classe trabalhadora".

Na mais recente versão do "The Palgrave Dictionary on Economics" (2008), não há uma entrada para "trabalho". Ela é dissolvida e desidratada em "disciplina do trabalho" e "economia do trabalho", com ênfase no "capital humano". Trata-se do mesmo artigo da 1ª edição (1987), ao qual se acrescentou o apêndice "As Novas Perspectivas da Economia do Trabalho". Tudo muito pobre, técnico, abstrato e sem história, como se a economia de mercado - codinome do atual capitalismo - estivesse escrito no Big-Bang e destinada a nos acompanhar até o fim dos tempos...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

China é o principal alvo na campanha eleitoral americana


Por Bob Davis | The Wall Street Journal

É impossível saber quem vencerá a disputa presidencial americana do ano que vem, mas já existe um perdedor bem claro: a China.

Um dos candidatos republicanos, Mitt Romney, vem colocando a China no centro da arena, acusando-a de "trapacear" e ameaçando fechar o mercado americano aos produtos chineses a menos que a China permita que sua moeda se valorize significativamente. O presidente Barack Obama atacou Pequim por "manipular o sistema de comércio exterior".

Na semana passada, o Senado americano aprovou, por maioria esmagadora, um projeto de lei para punir a China por sua política cambial, por meio de sanções comerciais. A menos que a liderança republicana na Câmara dos Deputados continue a bloquear uma votação, a lei provavelmente passará na Câmara por uma margem enorme, como ocorreu com um projeto de lei semelhante no ano passado.

Boa parte disso pode ser encarada como teatro, típico de um ano eleitoral. Todo presidente acaba descobrindo que os EUA têm opções limitadas para fazer com que a China, segunda maior economia do mundo e maior credor externo dos EUA, adote mudanças orientadas para o mercado. O truque é fazer com que Pequim perceba que a reforma é de seu interesse; ainda assim o ritmo da mudança é lento.

Mas as ameaças dos políticos, mesmo que não se tornem leis ou orientações políticas, têm consequências na China e podem sair pela culatra, de várias maneiras que os americanos talvez não compreendam. Pequim está perto da sua própria mudança de governo, a ocorrer em 2012, com os políticos de mais alto escalão manobrando para conseguir o poder. Não há eleições, mas a opinião pública importa. Ser visto como amigo dos EUA numa hora em que Washington ameaça castigar Pequim é um obstáculo para um político chinês - tanto quanto seria ter uma imagem de amigo da China para um candidato americano fazendo campanha em Cleveland.

Cheng Li, estudioso do Brookings Institution China, diz que as ameaças de Washington já prejudicaram um favorito dos EUA, o vice-premiê Wang Qishan, considerado com alguma chance de se tornar primeiro-ministro, o cargo número dois na China. Wang já afirmou que a China precisa depender mais do consumo interno e não das exportações - exatamente a posição dos EUA.

Uma reação contra as ameaças dos EUA poderia ajudar Bo Xilai, o nacionalista secretário do Partido Comunista em Xunquim. A cidade recentemente fechou 13 lojas da Wal-Mart por, supostamente, vender carne de porco com rótulo errado. Fechar um supermercado por uma infração tão comum é algo inusitado.

Ele busca uma vaga no Comitê Permanente do Politburo. "Vocês estão prejudicando autoridades que formulam a política econômica e têm fortes laços com os EUA", disse Li. "Isso os coloca em uma situação embaraçosa."

Romney, que assumiu a linha mais dura em relação à China entre os candidatos à presidência, diz que pressão dos EUA é crucial para fazer com que a China mude sua maneira de agir. Diz que vai acusar a China de "manipular" o câmbio por manter sua moeda subvalorizada e que vai atacar a importação de produtos chineses, impondo tarifas compensatórias. O projeto do Senado tem disposições semelhantes e é defendido por parlamentares como o democrata Charles Schumer, de Nova York.

Conseguir que os chineses aumentem o ritmo da apreciação de sua moeda pode estar além da capacidade de uma ação isolada dos EUA, pois o país perdeu prestígio internacional desde a recessão global de 2009. Pequim decidiu deixar a sua moeda flutuar em 2010, antes de uma cúpula do Grupo dos 20 em Toronto, em parte para evitar críticas nessa reunião por parte de muitos países, não só dos EUA.

No fim de semana passado, Washington usou outra sessão do G-20 para manter a pressão, e fará o mesmo na cúpula dos líderes do G-20 em novembro. Apenas conseguir que a China conserve seu ritmo mensal de 0,5% de apreciação já pode ser um desafio. Isso porque a China teme perder empregos se seu setor exportador desacelerar.

Fazer mudanças fundamentais é difícil tanto para os EUA como para a China. Desde pelo menos 2007, Pequim admite que precisa reestruturar a sua economia de modo a depender menos das exportações. No entanto, não conseguiu fazer muito a respeito devido à oposição de interesses poderosos, nesse caso de exportadores e governos locais. Da mesma forma, muitos legisladores americanos admitem há muito tempo que os custos da Previdência do país devem ser cortados, mas pouco foi feito devido aos grupos de interesse, nesse caso o lobby dos cidadãos mais idosos e dos planos de saúde.

Para compreender como a China enxerga a intimidação por parte de políticos americanos, imagine uma situação em que políticos chineses começassem a fazer ataques verbais, ameaçando vender os ativos em dólar da China a menos que os EUA pusessem ordem na sua situação fiscal. Será que essa atitude iria incentivar os americanos a fazer as mudanças ou a se aferrar às suas posições e fazer justamente o oposto?

Fome de comida e de estabilidade


Por José Graziano da Silva - Valor 17/10

Raras vezes o dia Mundial da Alimentação, data que remete à criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 16 de outubro de 1945, cercou-se de tantas incertezas. Os maiores níveis de volatilidade de preços agrícolas verificados nas últimas décadas e a velocidade das oscilações ameaçam produtores e consumidores.

Em movimento semelhante ao de outras commodities básicas, o Índice de Preços de Alimentos da FAO desenha curvas acentuadas desde 2006, quando uma subida contínua elevou os preços a um então nível recorde em meados de 2008. Os preços despencaram no segundo semestre, mas no ano seguinte recomeçou um movimento de alta que se acelerou em 2010 até chegar a um novo patamar histórico, onde nos encontramos agora.

Quando as cotações arremetem em direções opostas e com igual vigor, num curto espaço de tempo, é muito difícil não cometer erros de cálculo. Eles podem assumir contornos superlativos tanto no excesso da semeadura, quanto na insuficiência do investimento.

A volatilidade decorrente deforma em vez de lubrificar a acomodação entre oferta e demanda. Impede justamente que os mercados procedam à tarefa de condensar desequilíbrios em referências consensuais (preços) que encorajam o investimento e incrementam o consumo. Nesse ambiente de incertezas a fome ameaça invadir a casa de milhões de famílias que vivem na corda bamba, ora acima, ora abaixo da linha da pobreza.

Praticamente um em cada sete habitantes do planeta passa fome em pleno século XXI. Quase 80% da humanidade vive com menos de US$ 10 por dia. Para a parcela predominante do planeta, portanto, a face mais visível da crise são as oscilações abruptas nos preços da comida e ameaça da fome. A solução definitiva para esse problema passa por entendê-lo como uma das prioridades interligadas pela agenda da crise.

O mais recente relatório da FAO sobre a situação da fome no mundo (www.fao.org/publications/sofi/es/) aponta a retomada dos investimentos em agricultura e segurança alimentar nos países pobres e em desenvolvimento como um requisito para garantir o bem-estar de bilhões de pessoas num ambiente de preços altos e volatilidade persistente. Mais que uma insistência é um alerta. Desde o início dos anos 1980 a fatia da agricultura na ajuda internacional ao desenvolvimento registrou um retrocesso importante: de 17% para cerca de 5% do total, queda agravada pela redução dos investimentos dos próprios governos receptores de cooperação.

O equívoco dessas decisões pode ser mensurado no atual descompasso entre a oferta e a demanda. A produção cresce, mas a fome não diminui e os estoques globais seguem em níveis baixos. Em resumo, a promessa de abastecimento just in time pelos mercados não se confirmou.

Não há mágica que faça brotar os campos sem políticas afins. A agricultura necessita de investimentos para romper um descompasso que amplifica a fome e os equívocos neomalthusianos.

Embora o grosso dos recursos deva vir da esfera privada - que segue uma lógica própria cuja prioridade não é acabar com a fome - os Estados tem um papel importante a recuperar. A eles caberá investir em áreas onde a carência de alimentos é mais aguda, seja no apoio direto a pequenos produtores ou em bens públicos necessários ao desenvolvimento rural e ao bem estar de seus habitantes.

O estímulo à agricultura familiar e o resgate da alimentação tradicional são estratégias complementares em momentos de incerteza nos mercados mundiais. Elas reduzem a dependência em relação a mercados instáveis de commodities, geram renda e trabalho e propiciam uma saudável diversificação da dieta.

O complemento a esse estímulo produtivo é o fortalecimento das redes de proteção social, uma forma de alívio imediato às famílias vulneráveis que pode dinamizar os mercados locais. Onde há fome, invariavelmente há comunidades rurais exauridas economicamente, como a vegetação murcha de um campo sem água. Políticas de transferências de renda funcionam como chuva nesse solo seco, permitindo que volte a florescer.

Plantar, colher e consumir é o que faz girar a roda da economia em milhões de pequenos núcleos populacionais do planeta. Levado à escala nacional com crédito ao pequeno produtor, assistência técnica e aquisições de colheita - desde alimentos a sementes crioulas - esse motor ajudou o Brasil a superar a crise.

O foco na segurança alimentar, portanto, não é uma ilha dentro da crise, tampouco um alvo estático. Não visa apenas responder à urgência da fome, mas compor uma dinâmica feita de mercados locais e internacionais robustos, sistema financeiro regulado e ações coordenadas de governos em parcerias com a sociedade civil, a iniciativa privada e a cooperação internacional.

Na abrangência do desafio reside a sua força. Os interesses ecumênicos arrebanhados nessa agenda emprestam coerência social e produtiva à re-ordenação global requerida pela crise.

Um exemplo resume as energias locais potencialmente acionáveis nessa direção. Nos países pobres e em desenvolvimento as mulheres formam 43% da força de trabalho agrícola. Restrições de gênero no acesso ao crédito, à terra e a insumos reduzem a produtividade da lavoura sob controle feminino. Facilitar esse acesso poderia elevar a oferta em até 4%, tirando 100 a 150 milhões de pessoas da subnutrição.

O Prêmio Nobel acaba de reconhecer o papel decisivo da mulher na construção da paz. Está na hora de reconhecer, também, a sua relevância como arquiteta de um mundo feito de maior segurança e estabilidade, alimentar e financeira.

José Graziano da Silva é representante Regional da FAO para a América Latina e Caribe e diretor-geral eleito da Organização, cargo que assumirá em 1º de janeiro de 2012

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Os 100 anos da China moderna


Por Jean-Pierre Lehmann e Turpin Dominique
Ninguém no planeta Terra poderia ter imaginado em seus sonhos mais tresloucados a trajetória que a China traçou. O foco estava em outro lugar quando nós dois concluímos nosso PhD no Japão. Eu, Jean-Pierre, no fim dos anos 60, quando o "milagre econômico" japonês estava em plena floração, o Japão tinha ultrapassado o PIB alemão e a China estava no estertores da Revolução Cultural; Dominique, no início dos anos 80, quando a economia japonesa parecia estar operando sob a influência de esteróides anabolizantes, os investimentos japoneses vertidos no exterior para comprar o Rockefeller Centre ou a Columbia Studios, enquanto o programa reformista inicial da China estava em andamento.

Diferentemente da Índia, da maior parte do Sudeste Asiático (com exceção unicamente da Tailândia), da maior parte da África e do Oriente Médio, a China - em sentido estrito - não tinha sido colonizada. Nas palavras de Sun Yat-Sen, líder da revolução republicana chinesa de 1911, cujo centenário se comemorou no dia 10, a China havia se tornado uma "policolônia". Em outras palavras, não havia um senhor colonial direto e único, como na Indonésia (holandeses), Indochina (franceses), Índia (britânicos), Filipinas (americanos), mas todas as potências imperialistas, grandes e pequenas, exerciam poder de exploração colonial indireto sobre a China.

À medida que o mundo foi mudando, a corte imperial em Pequim recusou-se a mudar. Em flagrante contraste com o Japão, a modernização e as reformas foram basicamente rejeitadas. No fim do Século XIX e início do Século XX, quando a China continuou sofrendo humilhação após humilhação, alguns intelectuais chineses com visão de futuro, Sun Yat-Sen entre eles, reconheceu que a China tinha de mudar, tinha de se adaptar a esse mundo dominado pelo Ocidente, tinha de absorver e adotar suas instituições econômicas, científicas e políticas. Esse era um imperativo para sobrevivência, e não um luxo! A primeira revolução moderna chinesa data de 10 de outubro de 1911, quando foi derrubada a velha ordem imperial que tinha existido durante milênios.

As coisas, porém, não avançaram sem problemas, para dizer o mínimo. Entre 1911 a 1º de outubro de 1949 - data em que Mao Tse Tung "libertou" a China, concretizando, assim, a segunda revolução da China moderna - o país foi abalado por guerras com outros países, invasões japonesas, guerras civis, pobreza generalizada, corrupção endêmica, hiperinflação e colapso governamental. Sob o comando de Mao (1949-1976) a China recuperou sua soberania, mas permaneceu isolada da economia internacional. Foi enquanto Dominique fazia seu doutorado e o mundo político, empresarial e econômico estava focado no (obcecado pelo?) Japão que ocorreu uma tranquila terceira revolução moderna chinesa, embora pouco notada naquele momento. Isso foi em 1978, quando sob a liderança de Deng Xiaoping a China embarcou naquela que foi provavelmente a mais profunda e dramática revolução econômica desde a revolução industrial. Um século mais tarde, os sonhos dos modernizadores chineses - pelo menos no campo econômico - foram muito mais do que concretizados. A China é um ativo ator mundial - em grande estilo!

Segundo um artigo anterior (www.imd.org/research/challenges/TC057-11.cfm), a China tem cada vez mais poder na hierarquia mundial. Não é a mais importante potência do planeta, o primeiro posto ainda é ocupado pelos EUA e provavelmente assim será por algum tempo, mas sua influência mundial se estende a praticamente todos os recantos - nas economias tanto do mundo desenvolvido como em desenvolvimento.

Isso não quer dizer que nas próximas décadas o voo será em céu de brigadeiro. A China defronta-se com muitos problemas sociais, econômicos, ambientais e políticos. Além disso, embora seu poderio econômico seja visto cada vez mais como hercúleo, seu poder de influência geral é fraco. Embora os laços comerciais sejam fortes, há poucos países com os quais a China tem relações políticas cordiais. Os vizinhos temem que agora que a China modernizou-se inteiramente, possa reverter a seus costumes tradicional, em particular ao sistema de "Estado tributário" - uma espécie de arranjo feudal em que os governantes de todos os países vizinhos devam fidelidade e reverência ao governante chinês.

Evidentemente, é difícil prever o que vai acontecer. Mas precisamos ter uma visão. Nossa visão é de que o processo de reforma continuará. Os líderes chineses, inclusive os membros mais antigos do Partido Comunista Chinês, admitem que novas reformas econômicas não terão sucesso se não vierem acompanhadas de reformas políticas e sociais. Eles compreendem que a ascenção especialmente da classe média chinesa urbana - as pessoas que mais se beneficiaram e contribuíram para a terceira revolução - exige mais responsabilidade e transparência. Na frente política externa, os chineses sabem muito bem que no passado as potências econômicas emergentes mundiais tornaram-se imperialistas e travaram guerras. Mas, argumentam os chineses, não apenas essas potências eram ricas, com também o eram seus povos. A China é o primeiro caso de uma potência econômica mundial com uma população ainda pobre. A China é a segunda maior potência econômica mundial em termos de PIB agregado, e, de acordo com o FMI, em breve (2016) assumirá a primeira posição, mas ocupa a 98ª posição em termos de PIB per capita! Assim, afirma a liderança chinesa, a China está engajada em desenvolvimento pacífico, pois terá de continuar a construir sua economia nacional e sua sociedade.

Os chineses continuam muito interessados em aprender, como vemos no IMD, e prova disso são os executivos chineses que vêm estudar aqui. No ano passado, o número de executivos chineses estudando no IMD ultrapassou o número de japoneses. Enquanto o número de alunos japoneses diminuiu, o número de participantes chineses está crescendo. Por essas razões, como escola de negócios, estamos também convencidos de que a China será um fator chave não só no terreno mundial dos negócios como em inovação empresarial. A estratégia do IMD é engajar-se com a China diante do pano de fundo desses cenários e contribuir no que pudermos para o desenvolvimento pacífico e a prosperidade chinesas, o que por sua vez terá um grande impacto positivo no desenvolvimento pacífico e na prosperidade do mundo.

Hoje não apenas há muito a comemorar, como também, acreditamos, muito a esperar do futuro! (Tradução Sergio Blum)

Jean-Pierre Lehmann é professor de Economia Política Internacional no IMD, fundador do Evian Group @ IMD e pesquisador sênior no Instituto Global Fung, em Hong Kong.

Dominique Turpinn é professor e presidente da IMD

Nuvens negras se formam sobre a economia chinesa


Valor - editorial 14/10

O fantasma de uma crise bancária começa a perambular pela economia chinesa e a pôr em dúvida a capacidade do governo do país de reagir a um agravamento da crise na zona do euro e a uma retração prolongada de EUA e Europa. Há um desarranjo financeiro crescente, imperceptível para quem só olha as sempre surpreendentes estatísticas de crescimento. O Conselho de Estado reagiu ontem com um pacote de ajuda às pequenas empresas, que empregam 80% da força de trabalho do país, agora vítimas de golpes vindos de três direções: a desaceleração das exportações, o aperto d o crédito bancário e o alto custo de dívidas contraídas no mercado informal de dinheiro. Os três fatores se alimentam e juntos podem nutrir uma séria crise financeira, capaz de reduzir significativamente a médio prazo o crescimento econômico da China.

As exportações chinesas diminuíram de velocidade em setembro pelo segundo mês consecutivo, movimento acompanhado pelas importações. As vendas ao exterior ainda estão velozes, 17,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior, mas a tendência diante de um recuo das atividades econômicas na Europa e EUA é de mais desaceleração.

Os efeitos disso, que já estão sendo sentidos por um batalhão de empresas exportadoras chinesas, foram apontados pelo relatório global de estabilidade financeira do Fundo Monetário Internacional e em um panorama econômico regional da Ásia e Pacífico, divulgado ontem. "Uma queda acentuada das exportações da China afetaria negativamente" os investimentos nos setores que produzem bens transacionáveis com o exterior. "Menor crescimento e piora das condições das empresas exportadoras elevariam a quantidade de empréstimos não pagos dos bancos chineses e os levariam a apertar significativamente o crédito", afirma o estudo. "Um repentino e amplo aperto no crédito poderia disparar uma correção no mercado imobiliário, afetando adversamente" as empresas de aço, cimento, material de construção etc.

Boa parte disso já está ocorrendo e não necessariamente nessa cronologia. A inundação de dinheiro causada pela política de estímulos para enfrentar a crise de 2008 levou ao aparecimento de várias bolhas na China, das quais a mais vistosa foi a imobiliária. Só os empréstimos domésticos somaram em 2010 o equivalente a 173% do PIB, algo como US$ 11 trilhões. A economia deu sinais de superaquecimento com uma inflação acima de 6%, a maior em três anos, que obrigou o governo a apertar o crédito. Juros e requerimentos sobre reservas bancárias aumentaram seguidas vezes, dificultando e encarecendo empréstimos formais.

A bolha imobiliária começou a desinchar. As vendas de imóveis em 20 cidades caíram 32% em 12 meses e os preços de residências começaram a recuar. O resultado é que os grandes incorporadores imobiliários estão perto da lona. O crédito interno foi severamente racionado para eles e está agora em seu menor nível em dois anos. A porta do lançamento de bônus no mercado externo, pela qual captaram US$ 10 bilhões em 2010, se fechou desde maio, ao mesmo tempo em que dispararam o custo dos swaps contra calote dessas empresas. Segundo a Bloomberg, 14 dos 15 incorporadores imobiliários mais endividados do mundo são chineses.

Sua demanda por dinheiro, e também a dos setores asfixiados pela diminuição do crédito, foi suprida por empréstimos de agiotas, de financeiras que reúnem capital de magnatas em busca de retorno maior, e mesmo de bancos estatais, mas que ficaram fora do balanço. Não é pouca coisa - US$ 1,9 trilhão, ou quase 20% do total do crédito do país. Ou ainda três vezes mais que o maior pacote de estímulo de 2008, de US$ 600 bilhões, ele próprio o maior do mundo.

O desfecho dessa situação é previsível. As garantias dos incorporadores em poder dos bancos são imóveis e terrenos que perdem valor e arruinarão os balanços bancários. Um relatório do Credit Suisse estima que as perdas para os bancos com calotes atinja 60% de seu capital - conta que inclui a inadimplência de empreendedores imobiliários e das demais empresas em dificuldades. Outras estimativas indicam que há pelo menos US$ 600 bilhões de créditos podres no sistema financeiro chinês - uma encrenca de proporções chinesas. Na pior das hipóteses, a China se desacelerará com mais força, ensombrecendo mais o futuro da economia global e do Brasil, do qual é o maior comprador de produtos primários.

EUA defendem China contra medidas do Brasil


Valor 14/10

A China e outros países asiáticos têm um inesperado aliado contra as barreiras brasileiras à importação de roupas e sapatos: a indústria americana de vestuário e calçados. A associação que representa o setor nos Estados Unidos mandou uma carta ao escritório de negociação comercial do governo americano queixando-se contra medidas protecionistas adotadas pelo Brasil.

Os produtos são fabricados em terceiros países, afirma a associação, mas muitas das marcas são americanas e sustentam milhares de empregos nos Estados Unidos em atividades como pesquisa, design, marketing, vendas e logística. "Conclamo o governo a fazer todos os esforços para barrar essas medidas ilegais pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC)", afirma em carta Kevin Burke, presidente da Associação Americana de Roupas e Calçados (AAFA, na sigla em inglês).

Em agosto, a Receita Federal anunciou "procedimentos especiais" de controle sobre importações de vestuário, incluindo inspeção física, que pode levar até meio ano. O Brasil sustenta que a medida visa a barrar importações fraudulentas, mas a indústria americana vê uma investida protecionista.

A carta com as reclamações foi entregue ao escritório comercial americano, conhecido pela sigla em inglês USTR, numa consulta pública para subsidiar um relatório sobre barreiras comerciais aos produtos e serviços dos Estados Unidos. Nem sempre as queixas são incorporadas ao relatório, que costuma ser divulgado no começo de cada ano, e ainda não está claro se o USTR pretende tomar alguma medida a respeito do assunto.

A reclamação contra o Brasil, porém, expõe os dilemas de definir o que são interesses comerciais nacionais num mundo em que as empresas multinacionais produzem e vendem de forma globalizada. Há alguns dias, o Senado americano aprovou projeto prevendo retaliações comerciais para combater a avalanche de exportações provocadas pela subvalorização da moeda da China.

Os Estados Unidos vendem alguns produtos de sua fabricação ao Brasil, por isso em tese podem montar um caso na defesa de suas exportações. Mas, se o USTR comprar a posição da indústria de vestuários e calçados, na prática os Estados Unidos estarão defendendo sobretudo exportações da China para o Brasil. O setor mantém uma posição coerente de defesa do livre comércio também nos Estados Unidos, opondo-se à iniciativas para barrar produtos chineses. Quase todas roupas e calçados vendidos nos Estados Unidos são importados.

Na carta ao USTR, a indústria americana faz ataques a vários países que impuseram barreiras a importações de vestuários e calçados. "A Argentina levou a arte de barreiras não-tarifárias a um patamar inteiramente novo", afirma Burke, reclamando de medidas como cotas, preços mínimos e aprovações não automáticas de liçenças de importações. "Infelizmente, o grande vizinho da Argentina mais ao norte, o Brasil, está aprendendo as lições", reclama Burke.

Na carta, ele recorda que, em 2010, o Brasil impôs uma tarifa antidumping de US$ 13,85 por par de virtualmente todos os calçados importados da China. "O Brasil, porém, não parou por aí", afirma Burke. "O Brasil impôs licenças não automáticas e requerimentos de origem para as importações de calcados de fora do Mercosul." Segundo ele, o Brasil estabeleceu que "calçados devem ser importados diretamente do país de origem do calçado, mesmo quando o calçado tem o certificado de origem correto". "Agora, o Brasil expandiu muitas dessas escandalosas e arbitrárias restrições para as importações brasileiras de roupas e têxteis", segue o presidente da AAFA, referindo-se a um conjunto de medidas adotadas pela Receita em agosto.

A carta menciona o monitoramento adicional, inspeção aprimorada e liberação retardada de determinadas mercadorias. Também se refere a novos aumentos em taxas aduaneiras em roupas, têxteis e calçados importados. "A única intenção desses esquemas é tornar quase impossível vender produtos com fabricação e com marcas americanas no mercado brasileiro", afirma Burke. Ele lembra que, nos 12 meses encerrados em julho, as exportações de roupas e têxteis ao Brasil somaram US$ 272 milhões. "Essas exportações de roupas e têxteis de fabricação americana estão em sério risco por causa das novas medidas restritivas", afirmou.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não confunda ajuda com cura


Por Martin Wolf


David Cameron, o primeiro-ministro britânico, pediu aos líderes da zona do euro que enfrentem seus problemas com um "supercanhão". Barack Obama, o presidente dos EUA, falou com Nicolas Sarkozy, o presidente da França, após a reunião do fim de semana passado com Angela Merkel, chanceler da Alemanha, para pressionar por ação. Herman Van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu, prometeu que os líderes da União Europeia se reunirão em 23 de outubro para "finalizar nossa estratégia abrangente". Isso permitiria aos europeus apresentar um plano para restaurar a confiança por ocasião da reunião de cúpula do G-20, em novembro. Então, deveríamos nos sentir confiantes em que a crise logo estará terminada? Não.

No mínimo, ninguém mais vê a crise da zona do euro como uma pequena dificuldade local. A crise tornou-se o epicentro de uma repercussão da crise financeira mundial que poderá revelar-se ainda mais destrutiva do que o terremoto inicial. Potencialmente, é um choque triplo: uma crise financeira, uma crise de endividamento externo - que inclui a Itália, o terceiro maior país devedor -, e uma crise do projeto europeu, com consequências políticas insondáveis. Não surpreende que as pessoas estejam assustadas.

Um sinal de crescente nervosismo é o fato de que os swaps de risco de crédito dos países mais confiáveis na zona euro, França e Alemanha, começaram a aumentar. Surpreendentemente, o spread da Alemanha é pouco maior do que o do Reino Unido. Isso deve ser reflexo da preocupação com o fato de que socorrer os membros mais fracos da zona do euro poderá tornar-se um encargo excessivo. Minha visão atual é de que a Alemanha fará o que for possível para manter a zona do euro em funcionamento, desde que isso não ameace sua própria solvência. Como observa Hans-Werner Sinn, do instituto CESifo, em Munique, essa ameaça parece estar mais próxima *.

Nesse contexto temível, o que deve (e o que pode) fazer a zona do euro? A parte mais importante da resposta, como argumentei na semana passada, é que a zona do euro deve lidar com a crise imediata de forma a também ajudar a resolver as dificuldades de longo prazo.

O amplo consenso das autoridades econômicas e dos analistas no mundo inteiro é que a zona do euro deve agora fazer o seguinte: separar os países em dificuldades em insolvente e ilíquidos; reestruturar o endividamento dos insolventes e disponibilizar ilimitado, mas temporário, apoio aos ilíquidos; e recapitalizar bancos, após testes de estresse que levem em conta prejuízos relacionados a dívidas soberanas, recorrendo aos tesouros nacionais ou ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, em consonância com a flexibilidade proporcionada pelas decisões tomadas em julho de 2011.

A implementação desse pacote introduzirá tensões no processo intergovernamental de tomada de decisões da zona do euro até um ponto de ruptura. O governo francês, por exemplo, permanece indisposto a aceitar que seus bancos necessitam mais capital. Acima de tudo, a zona do euro não tem um banco central disposto a garantir liquidez no mercado de dívida soberana em moeda doméstica a qualquer momento.

Minha preocupação é mais profunda: essas ideias, embora agora necessárias, lidam com os sintomas do que deu errado, e não com as causas subjacentes.

No fundo, como venho argumentando há muito tempo, essa é muito mais uma crise de balanço de pagamentos enraizada no mau comportamento do setor financeiro e em divergência cumulativa de competitividade do que uma crise fiscal.

O fato é que os países em dificuldades não praticavam políticas fiscais irresponsáveis antes da crise. A Grécia foi irresponsável. Indiscutivelmente, a Itália também, dado seu enorme excesso de endividamento. Mas a Irlanda e a Espanha tiveram superávits fiscais e uma dívida pública líquida insignificante: a dívida pública líquida irlandesa equivalia a 12% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2006, ao passo que a espanhola era 31%, muito abaixo de 60% na França e 53% na Alemanha. Até mesmo a dívida líquida de Portugal equivalia a 59% do PIB.

O que os países vulneráveis compartilharam foi a atitude de recorrer a empréstimos externos para financiar déficits privados ou governamentais. Quando o financiamento externo secou, as economias contraíram. Nos países onde o setor privado foi o tomador de empréstimos (como a Irlanda e a Espanha), o estouro da bolha de ativos provocou um enorme aumento dos déficits fiscais. Onde o setor público foi o tomador de empréstimos (como na Grécia), o déficit fiscal aumentou ainda mais.

O que efetivamente aconteceu foi financiamento com ajuste real bastante limitado - por meio de financiamento, pelo BCE, de bancos de solvência incerta e por meio de empréstimos de outros governos e do Fundo Monetário Internacional -, à Grécia, Irlanda e Portugal.

Entre os países membros afetados pela crise, a Irlanda teve um ajuste excepcionalmente bem-sucedido, com uma desvalorização enorme dos custos unitários de mão de obra e um enorme ajuste na balança externa. Mas, em geral, como observa o professor Sinn, houve uma mistura de financiamento com recessão. O enorme problema é tornar a gestão da crise compatível com o ajuste.

Críticos como o professor Sinn concentram-se no risco de que financiamento excessivo prejudicará, se não destruirá, os incentivos ao ajuste. No entanto, há um risco oposto, o de que a imposição de um ajuste aos fracos fracassará, devido à ausência de ajuste compensatório nos fortes. Isso não seria um problema enorme, se aqueles países obrigados ao ajuste fossem pequenos. É um problema enorme o fato de eles serem grandes. O risco é de uma espiral descendente à medida que austeridade é exportada e reexportada.

Sem dúvida, é preciso encontrar uma maneira de lidar com a crise imediata de modo que não permita outro pânico. Mas isso não será uma solução se resultar simplesmente em financiamento por tempo indeterminado a economias fundamentalmente não competitivas. Ao mesmo tempo, um ajuste unilateral e precipitado agravaria a recessão na zona do euro e nas economias de outros países do mundo. O que necessitamos é financiamento e ajuste. Enquanto não for alcançada essa difícil combinação, estaremos ministrando primeiros socorros, e não promovendo uma cura.

* "How to Rescue the Euro" (como socorrer o euro), October 3 2011, www.voxeu.org. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A inflação passada e os juros altos


Por Yoshiaki Nakano


Toda decisão do Banco Central de aumentar ou reduzir a taxa de juros envolve interesses setoriais. Não é a toa que a decisão da última reunião gerou uma controvérsia maior do que a usual, pois significou uma ruptura com o comportamento passado. Aqueles que fizeram análise defendendo a redução na taxa de juros foram taxados, pelos "sábios" consultores e economistas de bancos, como se eles não tivessem fundamentos em teoria econômica e nos fatos empíricos. Nada mais longe da verdade. Aqui neste espaço o que apontei no mês passado foi uma mudança, na direção correta, no comportamento do Banco Central, baseado na boa teoria e prática das metas de inflação.

Os críticos da decisão do Banco Central apontam que a taxa de inflação medida pelo IPCA estaria aumentando e estão fazendo um estardalhaço com o índice que atingiu 7,31% em setembro e que as previsões para 2011 ultrapassarão o teto. Mas antes de mais nada é preciso lembrar que a redução na taxa de juros, na última reunião do Copom, terá efeitos sobre o nível de demanda agregada e os preços somente nos próximos meses; seus efeitos mais fortes serão sentidos daqui a seis a doze meses.

Portanto, a boa teoria e boa prática recomendam que a taxa de inflação de referência como meta deve sempre ser a inflação prevista para os próximos doze meses, a partir da data da tomada de decisão. Logo, o pré-requisito para implantar um modelo formal de meta de inflação é a existência de algum modelo econométrico transparente e confiável. O que a boa teoria nos diz é que, na ausência desse modelo, é melhor não adotar um modelo formal e rígido de metas - é o que recomenda um dos maiores estudiosos do tema, Lars Svensson, do banco central sueco. Por essas e outras razões, Greenspan também rejeitava a política de metas de inflação.

Assim, utilizar a taxa de inflação dos últimos doze meses é um erro grosseiro do nosso sistema vigente, desde a sua implantação. Quando a inflação está em queda, a inflação passada gera uma inércia longa na taxa de juros, desnecessária e de elevados custos sociais. Quando a inflação sobe, provoca uma reação tardia do banco central, levando na maioria dos casos, a uma elevação da taxa de juros acima do necessário. Pior ainda, inexplicavelmente no nosso sistema, a inflação refere-se ao ano calendário. Levando estritamente ao pé da letra, é como se o Banco Central, nesta próxima reunião de outubro, tivesse que fixar uma taxa de juros capaz ou de reduzir a inflação nos meses de novembro e dezembro, de tal forma a atingir a meta no final de dezembro ou teríamos que fazer a "mágica" da taxa de juros ter efeitos retroativos a janeiro, reescrevendo a trajetória dos preços. Evidentemente, ambas alternativas são inviáveis ou absurdas.

Deixando de lado esse rigor teórico e na ausência de um modelo econométrico confiável de previsão da inflação, para pelo menos os próximos 12 meses, é inevitável que pragmaticamente se utilize a inflação passada para formar a previsão da inflação futura, mas aí existem pelo menos dois critérios alternativos: 1) a taxa média mensal anualizada do período mais recente (por exemplo, ultimo trimestre 4,1% a.a.); e 2) a taxa acumulada da inflação passada (acumulado de 12 meses 7,31%). Qual melhor critério? Quais as implicações de cada critério? No primeiro, temos maior flexibilidade de detectar se existem ou não pressões inflacionarias persistentes; mudanças de patamar; se elas desapareceram e, de tornar a inércia nas taxas de juros menores. No segundo caso, a inércia é mais longa e acelerações desaparecidas, há mais de três trimestres, podem estar afetando a taxa de juros que, de fato, terá efeitos no futuro.

Vamos aos fatos. Analisando a trajetória da inflação medida pelo IPCA nos últimos 12 meses verificamos que até setembro de 2010, a inflação estava sob controle, dentro da meta. A inflação acelerou a partir de outubro de 2010, quando aumentou 0,75%, em relação ao mês anterior, permanecendo nesse patamar até abril de 2010. Nesse período, a taxa media mensal alcançou 0,77% ao mês, o que nos dá uma taxa anualizada de 9,65%, estourando a meta. O que esses dados mostram é que houve uma pressão inflacionária que se manifestou nos índices entre outubro de 2010 e abril de 2011 que levou a taxa de inflação anualizada para um patamar fora da meta. A função do Banco Central é exatamente antecipar essas pressões e tomar medidas para que a inflação fique dentro da meta. É importante lembrar que, em dezembro de 2010, o Banco Central, com defasagem de pelo menos três meses, pois a taxa de inflação de 12 meses tem forte componente inercial, tomou medidas macro-prudenciais restringindo o crédito. O que já sinalizava também mudanças técnicas, com utilização de novos instrumentos que equivalem a uma elevação na taxa de juros.

Em seguida, a taxa de inflação sofreu uma queda de 0,77% em abril, para 0,47% em maio, tendo ficado em junho e julho em 0,15% e 0,16%, voltando a acelerar um pouco em agosto e setembro, sempre em relação ao mês anterior. De qualquer forma, a taxa média mensal de maio a setembro de 2011 passou para 0,34%, o que anualizada nos dá 4,1%, portanto por esse critério de taxa anualizada dentro da meta.

Nada mais correto que o Banco Central reduzir a taxa de inflação no final do mês de agosto, pois desde o mês de maio a inflação passada mais recente já dava sinais de que as pressões de aceleração da inflação haviam desaparecido. Mais justificado ainda se havia já indicadores confiáveis de que o crescimento da economia estava caminhando para um nível abaixo do potencial.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

Persistir e aprofundar o ajuste



Por Antonio Delfim Netto - Valor 11/10



Há imensas incertezas ameaçando a economia mundial. Praticamente todas as semanas vêm à luz novas dificuldades escondidas na incestuosa rede de crédito (construída ao longo dos anos "de moderação" que puseram a dormir os bancos centrais) entre o sistema financeiro, os governos que corrompem suas contas fiscais e as agências de risco que emprestaram o seu aval para dar "conforto" ao incauto investidor final.

A volatilidade dos mercados é, às vezes, temporariamente reduzida por sinais positivos, como a aprovação, no Parlamento alemão, da ampliação do Fundo de Estabilização, ou uma manifestação tardia do presidente do Banco Central Europeu.

Essas incertezas não se localizam apenas no plano dos "homens práticos", que costumam agir de acordo com as ideias de "economistas falecidos", mas atingem, também, os "economistas vivos", surpreendidos pela gigantesca distância entre os modelos macroeconômicos, que "supunham" como deveriam funcionar os agentes e os mercados, e a realidade que estamos vivendo.

A prova disso é que a reunião anual do FMI não produziu nada além do clássico relatório semestral, com um título dramático: "Reduzindo o Crescimento, Aumentando os Riscos". Por outro lado, a recente conferência do BIS deixou no ar a sugestão que os bancos centrais dos países emergentes deveriam interpretar com maior cuidado o seu mandato de exclusivo combate à inflação.

Aliás, o FMI - que está mais preocupado com o PIB e o emprego do que com a taxa de inflação na Eurolândia - disse, diante da manutenção da taxa de juros de 1,5% ao ano na reunião do BCE, que "via espaço para uma redução da taxa". Uma das conclusões do BIS é que a "globalização multiplicou os canais de transmissão e os riscos através dos quais os fatores externos influenciam as condições econômicas e financeiras nas economias de mercado emergentes. Isso complicou as previsões da inflação e do crescimento, o que tornou a política monetária em tais economias mais complexa".

Se isso não fosse suficiente para mostrar a confusão que atinge os "homens práticos" e a "academia' que costumava aconselhá-los, lembremos a conferência em Lindau, na Alemanha (4º Meeting in Economic Sciences), de 23 a 27 de agosto. Ela reuniu apenas "nobelistas", que se destruíram mutuamente. Alguns tentaram provar que não apenas a profissão foi incapaz de prever a crise, mas também que, com seus falsos conhecimentos, ajudaram a produzi-la (o exibicionista Stiglitz). Outros (como o excelente Edmund Phelps), reconheceram que a profissão "cometeu sério erro quando abraçou as expectativas racionais, da qual derivaram modelos mecânicos, que não têm a nada a dizer sobre nosso presente".

Um prêmio "ingenuidade e descompromisso" caberia ao magnífico matemático Robert J. Aumann (professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém) que, entretanto, não figura na 4ª edição (2003) do "Who´s Who in Economics", de Blaug-Vane. Ele recebeu o Nobel de Economia em 2005.

Irritado com o nihilismo dos companheiros nobelistas, sentenciou com energia: "Toda essa conversa a respeito dos economistas serem responsáveis pela atual crise é sem sentido. Penso que a ciência econômica fez uma tremenda contribuição para a prosperidade que testemunhamos, como as políticas macroeconômicas e o comportamento contracíclico dos bancos centrais". Sem ignorar a contribuição de Aumann à teoria dos jogos (e à emergência das instituições), devemos observar que há controvérsia!

No Brasil, as incertezas continuam sobre a hipótese básica do governo que orienta uma política econômica defensiva, sob a perspectiva que a situação econômica e social do mundo vai ainda agravar-se antes que, num período não inferior a dois ou três anos, os EUA voltem a crescer e a Eurolândia construa um sistema de controle fiscal adequado. Tal cenário exige que não haja nenhum problema bancário, isto é, que nenhum dos bancos centrais, o Fed, o BCE e o da Inglaterra, fique paralisado diante da eventual quebra de um banco que seja um "nó" importante na rede de crédito internacional.

Nossa situação inflacionária ficou um pouco mais desconfortável, mas não há sinais que aquela estratégia se revele inadequada. O recente aumento do IPCA de 12 meses para 7,31% deve começar a ceder (por um efeito aritmético) a partir de novembro. Outro sinal de desconforto foi o rápido aumento da taxa de câmbio, devido, principalmente, à própria valorização do dólar. O seu efeito tem sido muito exagerado por alguns analistas que deixam de levar em conta a história. À cada valorização de 1% do dólar (com relação a uma cesta de moedas), o preço das commodities tende a cair pouco menos de 3%. A transmissão do preço externo para o interno não é automática, nem na alta, nem na baixa. E o efeito final sobre os preços tem que ser ponderado pelo "peso" do comércio internacional sobre o PIB.

O apoio do governo ao Banco Central no controle da inflação não pode restringir-se apenas a uma melhora fiscal. Deve, pelo menos, recuperar as propostas de reformas estruturais que estão no Congresso, pois é muito provável que, no fim de 2011, o PIB esteja rodando, na margem, a 2,5%.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-Ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.