sexta-feira, 14 de outubro de 2011

EUA defendem China contra medidas do Brasil


Valor 14/10

A China e outros países asiáticos têm um inesperado aliado contra as barreiras brasileiras à importação de roupas e sapatos: a indústria americana de vestuário e calçados. A associação que representa o setor nos Estados Unidos mandou uma carta ao escritório de negociação comercial do governo americano queixando-se contra medidas protecionistas adotadas pelo Brasil.

Os produtos são fabricados em terceiros países, afirma a associação, mas muitas das marcas são americanas e sustentam milhares de empregos nos Estados Unidos em atividades como pesquisa, design, marketing, vendas e logística. "Conclamo o governo a fazer todos os esforços para barrar essas medidas ilegais pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC)", afirma em carta Kevin Burke, presidente da Associação Americana de Roupas e Calçados (AAFA, na sigla em inglês).

Em agosto, a Receita Federal anunciou "procedimentos especiais" de controle sobre importações de vestuário, incluindo inspeção física, que pode levar até meio ano. O Brasil sustenta que a medida visa a barrar importações fraudulentas, mas a indústria americana vê uma investida protecionista.

A carta com as reclamações foi entregue ao escritório comercial americano, conhecido pela sigla em inglês USTR, numa consulta pública para subsidiar um relatório sobre barreiras comerciais aos produtos e serviços dos Estados Unidos. Nem sempre as queixas são incorporadas ao relatório, que costuma ser divulgado no começo de cada ano, e ainda não está claro se o USTR pretende tomar alguma medida a respeito do assunto.

A reclamação contra o Brasil, porém, expõe os dilemas de definir o que são interesses comerciais nacionais num mundo em que as empresas multinacionais produzem e vendem de forma globalizada. Há alguns dias, o Senado americano aprovou projeto prevendo retaliações comerciais para combater a avalanche de exportações provocadas pela subvalorização da moeda da China.

Os Estados Unidos vendem alguns produtos de sua fabricação ao Brasil, por isso em tese podem montar um caso na defesa de suas exportações. Mas, se o USTR comprar a posição da indústria de vestuários e calçados, na prática os Estados Unidos estarão defendendo sobretudo exportações da China para o Brasil. O setor mantém uma posição coerente de defesa do livre comércio também nos Estados Unidos, opondo-se à iniciativas para barrar produtos chineses. Quase todas roupas e calçados vendidos nos Estados Unidos são importados.

Na carta ao USTR, a indústria americana faz ataques a vários países que impuseram barreiras a importações de vestuários e calçados. "A Argentina levou a arte de barreiras não-tarifárias a um patamar inteiramente novo", afirma Burke, reclamando de medidas como cotas, preços mínimos e aprovações não automáticas de liçenças de importações. "Infelizmente, o grande vizinho da Argentina mais ao norte, o Brasil, está aprendendo as lições", reclama Burke.

Na carta, ele recorda que, em 2010, o Brasil impôs uma tarifa antidumping de US$ 13,85 por par de virtualmente todos os calçados importados da China. "O Brasil, porém, não parou por aí", afirma Burke. "O Brasil impôs licenças não automáticas e requerimentos de origem para as importações de calcados de fora do Mercosul." Segundo ele, o Brasil estabeleceu que "calçados devem ser importados diretamente do país de origem do calçado, mesmo quando o calçado tem o certificado de origem correto". "Agora, o Brasil expandiu muitas dessas escandalosas e arbitrárias restrições para as importações brasileiras de roupas e têxteis", segue o presidente da AAFA, referindo-se a um conjunto de medidas adotadas pela Receita em agosto.

A carta menciona o monitoramento adicional, inspeção aprimorada e liberação retardada de determinadas mercadorias. Também se refere a novos aumentos em taxas aduaneiras em roupas, têxteis e calçados importados. "A única intenção desses esquemas é tornar quase impossível vender produtos com fabricação e com marcas americanas no mercado brasileiro", afirma Burke. Ele lembra que, nos 12 meses encerrados em julho, as exportações de roupas e têxteis ao Brasil somaram US$ 272 milhões. "Essas exportações de roupas e têxteis de fabricação americana estão em sério risco por causa das novas medidas restritivas", afirmou.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não confunda ajuda com cura


Por Martin Wolf


David Cameron, o primeiro-ministro britânico, pediu aos líderes da zona do euro que enfrentem seus problemas com um "supercanhão". Barack Obama, o presidente dos EUA, falou com Nicolas Sarkozy, o presidente da França, após a reunião do fim de semana passado com Angela Merkel, chanceler da Alemanha, para pressionar por ação. Herman Van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu, prometeu que os líderes da União Europeia se reunirão em 23 de outubro para "finalizar nossa estratégia abrangente". Isso permitiria aos europeus apresentar um plano para restaurar a confiança por ocasião da reunião de cúpula do G-20, em novembro. Então, deveríamos nos sentir confiantes em que a crise logo estará terminada? Não.

No mínimo, ninguém mais vê a crise da zona do euro como uma pequena dificuldade local. A crise tornou-se o epicentro de uma repercussão da crise financeira mundial que poderá revelar-se ainda mais destrutiva do que o terremoto inicial. Potencialmente, é um choque triplo: uma crise financeira, uma crise de endividamento externo - que inclui a Itália, o terceiro maior país devedor -, e uma crise do projeto europeu, com consequências políticas insondáveis. Não surpreende que as pessoas estejam assustadas.

Um sinal de crescente nervosismo é o fato de que os swaps de risco de crédito dos países mais confiáveis na zona euro, França e Alemanha, começaram a aumentar. Surpreendentemente, o spread da Alemanha é pouco maior do que o do Reino Unido. Isso deve ser reflexo da preocupação com o fato de que socorrer os membros mais fracos da zona do euro poderá tornar-se um encargo excessivo. Minha visão atual é de que a Alemanha fará o que for possível para manter a zona do euro em funcionamento, desde que isso não ameace sua própria solvência. Como observa Hans-Werner Sinn, do instituto CESifo, em Munique, essa ameaça parece estar mais próxima *.

Nesse contexto temível, o que deve (e o que pode) fazer a zona do euro? A parte mais importante da resposta, como argumentei na semana passada, é que a zona do euro deve lidar com a crise imediata de forma a também ajudar a resolver as dificuldades de longo prazo.

O amplo consenso das autoridades econômicas e dos analistas no mundo inteiro é que a zona do euro deve agora fazer o seguinte: separar os países em dificuldades em insolvente e ilíquidos; reestruturar o endividamento dos insolventes e disponibilizar ilimitado, mas temporário, apoio aos ilíquidos; e recapitalizar bancos, após testes de estresse que levem em conta prejuízos relacionados a dívidas soberanas, recorrendo aos tesouros nacionais ou ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, em consonância com a flexibilidade proporcionada pelas decisões tomadas em julho de 2011.

A implementação desse pacote introduzirá tensões no processo intergovernamental de tomada de decisões da zona do euro até um ponto de ruptura. O governo francês, por exemplo, permanece indisposto a aceitar que seus bancos necessitam mais capital. Acima de tudo, a zona do euro não tem um banco central disposto a garantir liquidez no mercado de dívida soberana em moeda doméstica a qualquer momento.

Minha preocupação é mais profunda: essas ideias, embora agora necessárias, lidam com os sintomas do que deu errado, e não com as causas subjacentes.

No fundo, como venho argumentando há muito tempo, essa é muito mais uma crise de balanço de pagamentos enraizada no mau comportamento do setor financeiro e em divergência cumulativa de competitividade do que uma crise fiscal.

O fato é que os países em dificuldades não praticavam políticas fiscais irresponsáveis antes da crise. A Grécia foi irresponsável. Indiscutivelmente, a Itália também, dado seu enorme excesso de endividamento. Mas a Irlanda e a Espanha tiveram superávits fiscais e uma dívida pública líquida insignificante: a dívida pública líquida irlandesa equivalia a 12% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2006, ao passo que a espanhola era 31%, muito abaixo de 60% na França e 53% na Alemanha. Até mesmo a dívida líquida de Portugal equivalia a 59% do PIB.

O que os países vulneráveis compartilharam foi a atitude de recorrer a empréstimos externos para financiar déficits privados ou governamentais. Quando o financiamento externo secou, as economias contraíram. Nos países onde o setor privado foi o tomador de empréstimos (como a Irlanda e a Espanha), o estouro da bolha de ativos provocou um enorme aumento dos déficits fiscais. Onde o setor público foi o tomador de empréstimos (como na Grécia), o déficit fiscal aumentou ainda mais.

O que efetivamente aconteceu foi financiamento com ajuste real bastante limitado - por meio de financiamento, pelo BCE, de bancos de solvência incerta e por meio de empréstimos de outros governos e do Fundo Monetário Internacional -, à Grécia, Irlanda e Portugal.

Entre os países membros afetados pela crise, a Irlanda teve um ajuste excepcionalmente bem-sucedido, com uma desvalorização enorme dos custos unitários de mão de obra e um enorme ajuste na balança externa. Mas, em geral, como observa o professor Sinn, houve uma mistura de financiamento com recessão. O enorme problema é tornar a gestão da crise compatível com o ajuste.

Críticos como o professor Sinn concentram-se no risco de que financiamento excessivo prejudicará, se não destruirá, os incentivos ao ajuste. No entanto, há um risco oposto, o de que a imposição de um ajuste aos fracos fracassará, devido à ausência de ajuste compensatório nos fortes. Isso não seria um problema enorme, se aqueles países obrigados ao ajuste fossem pequenos. É um problema enorme o fato de eles serem grandes. O risco é de uma espiral descendente à medida que austeridade é exportada e reexportada.

Sem dúvida, é preciso encontrar uma maneira de lidar com a crise imediata de modo que não permita outro pânico. Mas isso não será uma solução se resultar simplesmente em financiamento por tempo indeterminado a economias fundamentalmente não competitivas. Ao mesmo tempo, um ajuste unilateral e precipitado agravaria a recessão na zona do euro e nas economias de outros países do mundo. O que necessitamos é financiamento e ajuste. Enquanto não for alcançada essa difícil combinação, estaremos ministrando primeiros socorros, e não promovendo uma cura.

* "How to Rescue the Euro" (como socorrer o euro), October 3 2011, www.voxeu.org. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A inflação passada e os juros altos


Por Yoshiaki Nakano


Toda decisão do Banco Central de aumentar ou reduzir a taxa de juros envolve interesses setoriais. Não é a toa que a decisão da última reunião gerou uma controvérsia maior do que a usual, pois significou uma ruptura com o comportamento passado. Aqueles que fizeram análise defendendo a redução na taxa de juros foram taxados, pelos "sábios" consultores e economistas de bancos, como se eles não tivessem fundamentos em teoria econômica e nos fatos empíricos. Nada mais longe da verdade. Aqui neste espaço o que apontei no mês passado foi uma mudança, na direção correta, no comportamento do Banco Central, baseado na boa teoria e prática das metas de inflação.

Os críticos da decisão do Banco Central apontam que a taxa de inflação medida pelo IPCA estaria aumentando e estão fazendo um estardalhaço com o índice que atingiu 7,31% em setembro e que as previsões para 2011 ultrapassarão o teto. Mas antes de mais nada é preciso lembrar que a redução na taxa de juros, na última reunião do Copom, terá efeitos sobre o nível de demanda agregada e os preços somente nos próximos meses; seus efeitos mais fortes serão sentidos daqui a seis a doze meses.

Portanto, a boa teoria e boa prática recomendam que a taxa de inflação de referência como meta deve sempre ser a inflação prevista para os próximos doze meses, a partir da data da tomada de decisão. Logo, o pré-requisito para implantar um modelo formal de meta de inflação é a existência de algum modelo econométrico transparente e confiável. O que a boa teoria nos diz é que, na ausência desse modelo, é melhor não adotar um modelo formal e rígido de metas - é o que recomenda um dos maiores estudiosos do tema, Lars Svensson, do banco central sueco. Por essas e outras razões, Greenspan também rejeitava a política de metas de inflação.

Assim, utilizar a taxa de inflação dos últimos doze meses é um erro grosseiro do nosso sistema vigente, desde a sua implantação. Quando a inflação está em queda, a inflação passada gera uma inércia longa na taxa de juros, desnecessária e de elevados custos sociais. Quando a inflação sobe, provoca uma reação tardia do banco central, levando na maioria dos casos, a uma elevação da taxa de juros acima do necessário. Pior ainda, inexplicavelmente no nosso sistema, a inflação refere-se ao ano calendário. Levando estritamente ao pé da letra, é como se o Banco Central, nesta próxima reunião de outubro, tivesse que fixar uma taxa de juros capaz ou de reduzir a inflação nos meses de novembro e dezembro, de tal forma a atingir a meta no final de dezembro ou teríamos que fazer a "mágica" da taxa de juros ter efeitos retroativos a janeiro, reescrevendo a trajetória dos preços. Evidentemente, ambas alternativas são inviáveis ou absurdas.

Deixando de lado esse rigor teórico e na ausência de um modelo econométrico confiável de previsão da inflação, para pelo menos os próximos 12 meses, é inevitável que pragmaticamente se utilize a inflação passada para formar a previsão da inflação futura, mas aí existem pelo menos dois critérios alternativos: 1) a taxa média mensal anualizada do período mais recente (por exemplo, ultimo trimestre 4,1% a.a.); e 2) a taxa acumulada da inflação passada (acumulado de 12 meses 7,31%). Qual melhor critério? Quais as implicações de cada critério? No primeiro, temos maior flexibilidade de detectar se existem ou não pressões inflacionarias persistentes; mudanças de patamar; se elas desapareceram e, de tornar a inércia nas taxas de juros menores. No segundo caso, a inércia é mais longa e acelerações desaparecidas, há mais de três trimestres, podem estar afetando a taxa de juros que, de fato, terá efeitos no futuro.

Vamos aos fatos. Analisando a trajetória da inflação medida pelo IPCA nos últimos 12 meses verificamos que até setembro de 2010, a inflação estava sob controle, dentro da meta. A inflação acelerou a partir de outubro de 2010, quando aumentou 0,75%, em relação ao mês anterior, permanecendo nesse patamar até abril de 2010. Nesse período, a taxa media mensal alcançou 0,77% ao mês, o que nos dá uma taxa anualizada de 9,65%, estourando a meta. O que esses dados mostram é que houve uma pressão inflacionária que se manifestou nos índices entre outubro de 2010 e abril de 2011 que levou a taxa de inflação anualizada para um patamar fora da meta. A função do Banco Central é exatamente antecipar essas pressões e tomar medidas para que a inflação fique dentro da meta. É importante lembrar que, em dezembro de 2010, o Banco Central, com defasagem de pelo menos três meses, pois a taxa de inflação de 12 meses tem forte componente inercial, tomou medidas macro-prudenciais restringindo o crédito. O que já sinalizava também mudanças técnicas, com utilização de novos instrumentos que equivalem a uma elevação na taxa de juros.

Em seguida, a taxa de inflação sofreu uma queda de 0,77% em abril, para 0,47% em maio, tendo ficado em junho e julho em 0,15% e 0,16%, voltando a acelerar um pouco em agosto e setembro, sempre em relação ao mês anterior. De qualquer forma, a taxa média mensal de maio a setembro de 2011 passou para 0,34%, o que anualizada nos dá 4,1%, portanto por esse critério de taxa anualizada dentro da meta.

Nada mais correto que o Banco Central reduzir a taxa de inflação no final do mês de agosto, pois desde o mês de maio a inflação passada mais recente já dava sinais de que as pressões de aceleração da inflação haviam desaparecido. Mais justificado ainda se havia já indicadores confiáveis de que o crescimento da economia estava caminhando para um nível abaixo do potencial.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

Persistir e aprofundar o ajuste



Por Antonio Delfim Netto - Valor 11/10



Há imensas incertezas ameaçando a economia mundial. Praticamente todas as semanas vêm à luz novas dificuldades escondidas na incestuosa rede de crédito (construída ao longo dos anos "de moderação" que puseram a dormir os bancos centrais) entre o sistema financeiro, os governos que corrompem suas contas fiscais e as agências de risco que emprestaram o seu aval para dar "conforto" ao incauto investidor final.

A volatilidade dos mercados é, às vezes, temporariamente reduzida por sinais positivos, como a aprovação, no Parlamento alemão, da ampliação do Fundo de Estabilização, ou uma manifestação tardia do presidente do Banco Central Europeu.

Essas incertezas não se localizam apenas no plano dos "homens práticos", que costumam agir de acordo com as ideias de "economistas falecidos", mas atingem, também, os "economistas vivos", surpreendidos pela gigantesca distância entre os modelos macroeconômicos, que "supunham" como deveriam funcionar os agentes e os mercados, e a realidade que estamos vivendo.

A prova disso é que a reunião anual do FMI não produziu nada além do clássico relatório semestral, com um título dramático: "Reduzindo o Crescimento, Aumentando os Riscos". Por outro lado, a recente conferência do BIS deixou no ar a sugestão que os bancos centrais dos países emergentes deveriam interpretar com maior cuidado o seu mandato de exclusivo combate à inflação.

Aliás, o FMI - que está mais preocupado com o PIB e o emprego do que com a taxa de inflação na Eurolândia - disse, diante da manutenção da taxa de juros de 1,5% ao ano na reunião do BCE, que "via espaço para uma redução da taxa". Uma das conclusões do BIS é que a "globalização multiplicou os canais de transmissão e os riscos através dos quais os fatores externos influenciam as condições econômicas e financeiras nas economias de mercado emergentes. Isso complicou as previsões da inflação e do crescimento, o que tornou a política monetária em tais economias mais complexa".

Se isso não fosse suficiente para mostrar a confusão que atinge os "homens práticos" e a "academia' que costumava aconselhá-los, lembremos a conferência em Lindau, na Alemanha (4º Meeting in Economic Sciences), de 23 a 27 de agosto. Ela reuniu apenas "nobelistas", que se destruíram mutuamente. Alguns tentaram provar que não apenas a profissão foi incapaz de prever a crise, mas também que, com seus falsos conhecimentos, ajudaram a produzi-la (o exibicionista Stiglitz). Outros (como o excelente Edmund Phelps), reconheceram que a profissão "cometeu sério erro quando abraçou as expectativas racionais, da qual derivaram modelos mecânicos, que não têm a nada a dizer sobre nosso presente".

Um prêmio "ingenuidade e descompromisso" caberia ao magnífico matemático Robert J. Aumann (professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém) que, entretanto, não figura na 4ª edição (2003) do "Who´s Who in Economics", de Blaug-Vane. Ele recebeu o Nobel de Economia em 2005.

Irritado com o nihilismo dos companheiros nobelistas, sentenciou com energia: "Toda essa conversa a respeito dos economistas serem responsáveis pela atual crise é sem sentido. Penso que a ciência econômica fez uma tremenda contribuição para a prosperidade que testemunhamos, como as políticas macroeconômicas e o comportamento contracíclico dos bancos centrais". Sem ignorar a contribuição de Aumann à teoria dos jogos (e à emergência das instituições), devemos observar que há controvérsia!

No Brasil, as incertezas continuam sobre a hipótese básica do governo que orienta uma política econômica defensiva, sob a perspectiva que a situação econômica e social do mundo vai ainda agravar-se antes que, num período não inferior a dois ou três anos, os EUA voltem a crescer e a Eurolândia construa um sistema de controle fiscal adequado. Tal cenário exige que não haja nenhum problema bancário, isto é, que nenhum dos bancos centrais, o Fed, o BCE e o da Inglaterra, fique paralisado diante da eventual quebra de um banco que seja um "nó" importante na rede de crédito internacional.

Nossa situação inflacionária ficou um pouco mais desconfortável, mas não há sinais que aquela estratégia se revele inadequada. O recente aumento do IPCA de 12 meses para 7,31% deve começar a ceder (por um efeito aritmético) a partir de novembro. Outro sinal de desconforto foi o rápido aumento da taxa de câmbio, devido, principalmente, à própria valorização do dólar. O seu efeito tem sido muito exagerado por alguns analistas que deixam de levar em conta a história. À cada valorização de 1% do dólar (com relação a uma cesta de moedas), o preço das commodities tende a cair pouco menos de 3%. A transmissão do preço externo para o interno não é automática, nem na alta, nem na baixa. E o efeito final sobre os preços tem que ser ponderado pelo "peso" do comércio internacional sobre o PIB.

O apoio do governo ao Banco Central no controle da inflação não pode restringir-se apenas a uma melhora fiscal. Deve, pelo menos, recuperar as propostas de reformas estruturais que estão no Congresso, pois é muito provável que, no fim de 2011, o PIB esteja rodando, na margem, a 2,5%.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-Ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Governo para a globalização


Por Jeffrey D Sachs - Valor 10/10

Vivemos uma era em que as forças mais importantes que afetam todas as economias são mundiais, e não locais. O que acontece "no exterior" - na China, Índia e em outros países - afeta substancialmente uma economia tão grande como a dos Estados Unidos.

A globalização econômica, como sabemos, produziu alguns grandes benefícios para o mundo, entre eles a rápida disseminação de tecnologias avançadas, como a internet e a telefonia móvel. A globalização também reduziu drasticamente a pobreza em muitas economias emergentes - de fato, só por esse motivo, a economia mundial deve permanecer aberta e interligada.

Mas a globalização também criou grandes problemas que precisam ser enfrentados. Primeiro, ela ampliou as possibilidades de sonegação de impostos, por causa de uma rápida proliferação dos paraísos tributários em todo o mundo. As empresas multinacionais têm agora muito mais oportunidades para não pagar sua justa e eficiente parte da tributação.

Além disso, a globalização criou tanto perdedores como vencedores. Em países de alta renda, especialmente os EUA, na Europa e o Japão, os maiores perdedores são aqueles trabalhadores que não têm condição de competir com trabalhadores que ganham baixos salários nos países em desenvolvimento. Os mais atingidos são os trabalhadores nos países ricos que não têm educação universitária. Milhões desses trabalhadores perderam seus emprego. Aqueles que mantiveram seus empregos viram seus salários estagnar ou encolher.

A globalização também alimentou o contágio. A crise financeira de 2008 começou em Wall Street, mas alastrou-se rapidamente para todo o mundo, evidenciando a necessidade de cooperação mundial no terreno bancário e financeiro. Mudanças climáticas, doenças infecciosas, terrorismo e outros males que podem facilmente cruzar fronteiras exigem uma resposta mundial similar.

O que a globalização exige, portanto, são políticas de governo inteligentes. Os governos precisam promover educação de alta qualidade, para assegurar que os jovens estejam preparados para enfrentar a concorrência mundial. Eles devem incrementar a produtividade mediante a construção de infraestrutura moderna e do incentivo a ciência e tecnologia. E os governos devem cooperar em âmbito mundial para regulamentar os setores da economia - especialmente finanças e meio ambiente - onde os problemas de um país podem se disseminar para outras regiões do mundo.

A necessidade de governos extremamente eficazes na era da globalização é a mensagem chave de meu novo livro, "The Price of Civilization". Essencialmente: hoje, precisamos de mais governo, e não menos. Mas o papel dos governos também precisa ser modernizado, em consonância com os problemas específicos criados por uma economia mundial interconectada.

Eu escrevi "The Price of Civilization" com a convicção de que o governo dos EUA não compreendeu os (nem reagiu aos) desafios da globalização desde que ela começou a impactar a economia americana na década de 1970. Em vez de reagir à globalização com mais gastos governamentais em educação, infraestrutura e tecnologia, Ronald Reagan ganhou a presidência em 1980 comprometendo-se a reduzir os gastos do governo e a cortar impostos.

Durante 30 anos, os EUA vêm caminhando na direção errada, reduzindo o papel do governo na economia doméstica, em vez de incentivar os investimentos necessários para modernizar a economia e a força de trabalho. Os ricos beneficiaram-se em curto prazo, obtendo enormes reduções de impostos. Os pobres sofreram com a perda de empregos e cortes nos serviços públicos. A desigualdade econômica atingiu um auge não visto desde a Grande Depressão.

Essas tendências adversas foram exacerbadas pelo cenário político interno. Os ricos têm usado sua riqueza para reforçar sua permanência no poder. Eles bancam as caras campanhas de presidentes e congressistas, para que presidentes e congressistas ajudem os ricos - frequentemente em detrimento do restante da sociedade. A mesma síndrome - na qual os ricos conquistaram o controle sobre o sistema político (ou reforçaram seu controle sobre ele) - agora aflige muitos outros países.

Mas há alguns sinais importantes, em todo o mundo, segundo os quais as pessoas estão cansadas dos governos que servem os ricos, ignorando todos os demais. Para começar, há crescentes apelos por maior justiça social. As insurreições em Tunis e no Cairo foram as primeiras da denominada Primavera Árabe, porque pareciam ser limitadas ao mundo árabe. Mas, depois, vimos protestos em Tel Aviv, Santiago, Londres e, agora, até mesmo nos EUA. Esses protestos têm cobrado, em primeiríssimo lugar, uma política mais inclusiva, em vez das políticas corruptas das oligarquias.

Além disso, o presidente dos EUA, Barack Obama está gradualmente movendo-se para a esquerda. Após três anos em que seu governo cedeu aos lobistas empresariais, Obama finalmente começou a enfatizar a necessidade de os ricos pagarem mais impostos. Isto acontece no fim de seu mandato, e ele poderia muito bem continuar a privilegiar os ricos e Wall Street em troca de contribuições de campanha em 2012, mas há um vislumbre de esperança de que Obama irá defender uma política orçamentária mais justa.

Vários governos europeus, como a Espanha, a Dinamarca e a Grécia, também parecem estar se movendo na mesma direção. A Espanha recentemente impôs um novo imposto sobre a riqueza de contribuintes muito ricos. A Dinamarca elegeu um governo de centro-esquerda comprometido com um aumento dos gastos públicos financiado por novos impostos sobre os ricos. E a Grécia acaba de aprovar um novo imposto imobiliário para ajudar a fechar seu crescente déficit fiscal.

A Comissão Europeia também defendeu um novo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para captar cerca de US$ 75 bilhões por ano. A Comissão finalmente aceitou que o setor financeiro europeu tem sido subtributado. O novo IOF ainda poderá defrontar-se com oposição política na Europa, especialmente no Reino Unido, devido a seu grande e influente setor bancário, mas pelo menos o princípio de maior equanimidade tributária está no topo da agenda europeia.

As economias mais bem sucedidas do mundo, hoje, estão na Escandinávia. Usando impostos altos para financiar elevados níveis de serviços governamentais, esses países têm grande prosperidade equilibrada com justiça social e ambiente sustentável. Essa é a chave para o bem-estar na economia globalizada contemporânea. Mais regiões do mundo - e especialmente os jovens em todo o mundo - estão começando a reconhecer essa nova realidade. (Tradução Sergio Blum)

Jeffrey D Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, na Columbia University. Ele também é Assessor Especial do Secretário-Geral da ONU para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2011.

ELPAIS.com - Obama: "Las manifestaciones en Wall Street reflejan la frustración del pueblo"

ELPAIS.com

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TV ON LINE


BOVESPA EM QUEDA DE 1,9% TEMPO: 00:02:00
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) segue em queda de 1,9%, com giro financeiro acima de R$ 4,3 bilhões. O dólar cai 0,65%, cotado a R$ 1,77.

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: EDIÇÃO DAS 16 HORAS APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS

BRASILEIROS JÁ PAGARAM R$ 1,1 TRILHÃO EM IMPOSTOS EM 2011 TEMPO: 00:01:00
O Impostômetro, medidor eletrônico de arrecadação tributária mantido em São Paulo pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), atingiu nesta sexta-feira (7), por volta do meio-dia, a marca de R$ 1,1 trilhão em impostos federais, estaduais e municipais pagos pelos brasileiros desde o começo do ano.

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE TEMPO: 00:04:00

INPC REGISTRA VARIAÇÃO DE 0,45% EM SETEMBRO, APONTA IBGE TEMPO: 00:04:00
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) registrou variação de 0,45% em setembro. O indicador, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou alta de 0,45%.
TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

Salvar o euro e esquecer a Grécia


Por Philip Stephens - FT Valor 07/10

É hora de deixar a Grécia partir. Não proponho pisar nos dedos do governo de Atenas num momento em que ele se agarra à beira do precipício, mas chegamos ao ponto em que esperar o melhor convida a calamidade. A Europa necessita um plano para administrar a tragédia grega.

A zona do euro tem dois conjuntos de problemas. O primeiro gira em torno da insolvência da Grécia, da fragilidade de Portugal, Espanha e Itália, e das tensões nos bancos da Europa. O segundo é a extrema fragilidade fiscal e competitiva das economias fora do núcleo. Enfrentar o primeiro, por si só, não resolverá o segundo. Mas é um ponto de partida necessário.

A decisão premente é sobre o momento e os termos da moratória grega. É possível que os políticos ainda tenham uma escolha entre reestruturação ordeira e um colapso caótico que rapidamente engolfaria todos os outros. Possível, mas não garantido. Quanto mais os governos ficarem discutindo sobre como blindar outras economias periféricas e isolar o sistema bancário, mais as chamas se alastrarão descontroladamente pelo continente.

A Grécia deveria receber a próxima parcela de sua atual linha de socorro financeiro. O governo de Atenas vem demonstrando sua longamente aguardada determinação em reduzir seu déficit. Mas no longo prazo os números não batem e a política grega, como vimos, em vista da greve geral nesta semana, não está melhorando. A zona do euro tem algumas semanas - talvez alguns meses - para produzir o que os políticos eufemisticamente denominam programa de reestruturação.

O leitor ainda pode encontrar autoridades econômicas europeias que defendem o contrário. Em sua maioria, estão em Berlim. Angela Merkel diz que não tomará decisões pressionada pelos mercados. Considere o saneamento das contas públicas da Bélgica na década de 1990, acrescentam assessores de Merkel. Consideremos o progresso notável da Irlanda na estabilização de sua posição. Com margem para respirar e vontade política, a Grécia poderia fazer o mesmo.

Não creio que eles realmente acreditem nisso. Tendo em vista seu endividamento, orçamento e déficits em conta corrente, e sua lamentável ausência de competitividade, a Grécia não tem como escapar da armadilha da dívida. Austeridade em cima de austeridade simplesmente matará o paciente.

Até agora, a estratégia tácita da zona do euro, se é que há algo que mereça essa designação, tem sido adiar o dia do juízo final. Mantenhamos a Grécia à tona por alguns anos e o resto da zona do euro estará suficientemente robusto para resistir ao choque de um default.

Se aliviarmos as condições para Atenas, agora, continuam advertindo as autoridades alemãs, Portugal e a Espanha acreditarão que serão poupados do pior. Depois, há a Itália, tão politicamente disfuncional quanto economicamente conturbada. Negociar com Silvio Berlusconi é impossível nos melhores momentos. Este não é o momento para dar a ele desculpas para inação.

Evitar o risco moral é um bom princípio. Mas também pode ser perigoso. O Banco Central Europeu (BCE) é zeloso de sua credibilidade e de sua missão. Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, disse novamente, nesta semana, que os governos devem assumir a responsabilidade pela crise em vez de jogá-la no colo do BCE. Em tese, ele provavelmente está certo. Mas regras devem, às vezes, ser desrespeitadas. A credibilidade do BCE não valerá grande coisa, caso se torne o epitáfio do euro.

O Plano A baseou-se na premissa de que a Grécia pode, com segurança, ser posta em quarentena. Crescimento econômico, um sistema bancário recapitalizado e melhorias tangíveis nas finanças públicas de outros países periféricos trariam a zona do euro de volta a boas condições de saúde. Só então poderíamos permitir um default grego.

Tendo em vista a evolução dos acontecimentos, a dinâmica não poderia ter sido mais distinta. A incapacidade de lidar com a Grécia enfraqueceu o restante da zona do euro, viu o contágio se alastrar até a Itália e expôs a fragilidade dos bancos franceses e alemães.

O resultado é o que se pode denominar loop reverso. A crise da dívida soberana nasceu da crise bancária. E agora está alimentando uma segunda crise bancária. O rebaixamento, nesta semana, da classificação de crédito italiana, e os problemas no Dexia, um banco franco-belga, foram apenas os mais recentes capítulos.

O gerenciamento de uma moratória não será fácil nem isento de riscos. Os políticos vivem com o pesadelo do colapso do Lehman Brothers. Com razão. Não pode haver garantia de que o efeito de um desconto contábil de, digamos, 50% ou 60% na dívida da Grécia possa ser perfeitamente contido. O que é certo, porém, é que um calote desordenado provocará caos econômico e financeiro. Às vezes, como costumava dizer um primeiro-ministro britânico sobre duras decisões econômicas, não há alternativa.

Nada há de misterioso sobre o que precisa ser feito para atenuar os riscos. Primeiro, é necessária uma recapitalização coordenada dos bancos e uma quadruplicação, para cerca de € 2 trilhões, do poder de fogo do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Isso exige uma disposição, por parte do BCE, de aceitar que a salvação do euro é mais importante do que manter sua missão de controlar a inflação.

Os mercados precisam ser persuadidos de duas coisas: a zona do euro dispõe dos recursos para enfrentar qualquer eventualidade, e, mais importante, os governos irão mobilizar esses recursos. O gerenciamento de um default grego precisa ser apresentado como uma medida da vontade política da Europa de fazer tudo o que for preciso para sustentar a moeda única.

E então, a pergunta: deve a Grécia permanecer no euro? A resposta é sim - por ora. Na Espanha e em Portugal, a Europa tem sido vista como o caminho para a modernidade. A Grécia não fez o esforço. A moratória não absolverá a Grécia da necessidade de reformar suas instituições e de modernizar sua economia. Se os gregos não o fizerem, mais cedo ou mais tarde serão forçados a abandonar o euro. Mas essa seria, então, uma escolha da Grécia. (Tradução Sergio Blum)

Philip Stephens é editor e comentarista político do FT.

Mais um round na guerra cambial entre EUA e China


Valor 07/10

A guerra cambial entre os Estados Unidos e a China voltou a esquentar, depois que o agravamento da crise europeia provocou a valorização do dólar. A turbulência na zona do euro, com a iminência do calote da Grécia e consequente abalo dos bancos credores, levou investidores do mundo todo a buscar refúgio nos ativos em dólares, apreciados apesar do recente rebaixamento da dívida americana.

Com a inversão de mão no fluxo do capital internacional, o dólar subiu 6% em setembro em relação a uma cesta de moedas.

O salto do dólar praticamente neutralizou o lento movimento de apreciação do yuan que o governo chinês vem promovendo em doses homeopáticas desde junho do ano passado, quando anunciou a retomada da flexibilização do câmbio, interrompida pelo estouro da crise internacional. De junho de 2010 até o fim de agosto deste ano, o yuan subiu quase 7% em relação ao dólar, o que é pouco diante da estimativa de que está defasado em 30%. Como a inflação chinesa está ao redor de 6%, o ajuste real é ainda menor. Em setembro, o yuan caiu 0,1% e, pior do que isso, há sinais de que a flexibilização pode ter parado novamente como resposta à crise europeia.

A estagnação da economia americana causada pelo consumo interno deprimido e pela dificuldade de concorrer com os chineses criou o clima propício para a aprovação pelo Senado americano, nesta semana, de um projeto de lei que permite ao governo retaliar qualquer parceiro comercial que manipular o câmbio. O alvo no momento é a China, responsável por 37% do déficit da balança comercial americana, que atingiu US$ 428 bilhões em julho. Mas qualquer outro país pode ser atingido.

A favor do projeto de lei, Fred Bergsten, diretor do Peterson Institute for International Economics (PIIE), argumenta que a valorização do yuan em relação ao dólar aumentaria as exportações americanas, contribuindo para ampliar o emprego. Ele calcula que, se as exportações crescerem US$ 100 bilhões, serão criados 600 mil novos empregos.

Há seis anos, projetos com teor semelhante não prosperavam no Congresso americano. E há dúvidas se terá sucesso esse, que é de autoria dos senadores democratas Sherrod Brown, de Ohio, e Charles Schumer, de Nova York, e tem mais 19 copatrocinadores, entre os quais os republicanos Lindsey Graham, da Carolina do Sul, e Jeff Sessions, do Alabama. É provável que não passe na Câmara dos Deputados, de maioria republicana, partido a favor do livre comércio.

A Câmara de Comércio Americana e outros 50 grupos empresariais são contra o projeto. Mesmo porque há uma série de gigantes multinacionais americanas instaladas na China, tirando proveito das facilidades chinesas como obrigações trabalhistas frouxas e também o câmbio manipulado, para exportar para o mundo todo, inclusive os Estados Unidos. Comenta-se que até a Casa Branca seria contra.

Apesar disso, a aprovação do projeto pelo Senado causou forte reação contrária do governo chinês. No mesmo dia, manifestaram-se contra o banco central chinês, o Ministério de Relações Exteriores e o Ministério do Comércio. Revelando familiaridade com o jogo de cena e a hipocrisia da diplomacia internacional, a China queixou-se que os EUA estavam violando as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e incentivando uma guerra comercial; e até ameaçou interromper a quase imperceptível flexibilização cambial.

A situação é mais complicada porque as políticas das economias avançadas para debelar a crise internacional também estão afetando o câmbio. Ao implementar as medidas de expansão monetária, esses países influenciam as cotações das moedas. Ontem, por exemplo, a libra caiu depois que a Inglaterra anunciou nova rodada de compra de títulos públicos. O Brasil já sentiu isso na carne: com os juros mais altos do planeta, tem sido alvo de forte entrada de investimentos internacionais, o que alavancou as cotações do real. Em setembro o movimento foi revertido com a preferência pelo dólar e aversão ao risco.

Mas o governo brasileiro também tem saídas tortas para o problema, como o projeto de lei americano. O Brasil quer defender na OMC a criação de um antidumping cambial que permitiria o uso de represálias comerciais contra países que mantêm suas moedas desvalorizadas artificialmente.

Dado o cenário internacional, este é um dos piores momentos para se levantar barreiras protecionistas. São soluções aparentemente fáceis para os países que não querem mergulhar fundo e resolver seus problemas de competitividade.

a cambial entre os Estados Unidos e a China voltou a esquentar, depois que o agravamento da crise europeia provocou a valorização do dólar. A turbulência na zona do euro, com a iminência do calote da Grécia e consequente abalo dos bancos credores, levou investidores do mundo todo a buscar refúgio nos ativos em dólares.

NYT: Wall St. Protest Lures Many Ne

NYT: Wall St. Protest Lures Many Ne

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A batata de Bagehot


Por Alexandre Schwartsman - Valor 06/10

Leitores da "The Economist" conhecem a coluna Bagehot, assim batizada em homenagem ao editor-chefe da revista entre 1861 e 1877, Walter Bagehot. Foi ele, em seu livro "Lombard Street", quem resumiu a doutrina que ainda hoje é um dos guias das políticas de auxílio de liquidez por parte de bancos centrais.

Segundo ele, os bancos centrais devem disponibilizar um volume ilimitado de recursos a instituições financeiras que estejam sofrendo problemas de caixa, mas sob as seguintes condições: a) a instituição deve estar solvente, isto é, seus ativos devem ser, no mínimo, suficientes para pagar depositantes e credores; b) os empréstimos devem ser feitos contra garantias de boa qualidade; e c) o Banco Central deve cobrar uma taxa elevada de juros, para estimular a instituição a buscar recursos privados o quanto antes.

A motivação destas recomendações é razoavelmente evidente. O principal negócio dos bancos é transformar dinheiro de curto prazo, que pode ser sacado imediatamente pelo depositante, em recursos de longo prazo, os necessários para que empresas possam se engajar em projetos de longa maturação (ou para que consumidores possam adquirir bens de alto valor unitário, como imóveis). Tal transformação, contudo, deixa os bancos em situação vulnerável: se todos depositantes exigirem seus recursos nenhum banco poderia atendê-los, mesmo que tivesse emprestado apenas para projetos excelentes. Não por acaso, a história testemunha várias instâncias de corridas bancárias, que levaram a pânicos e crises profundas.

Nesse contexto, a mera presença de um emprestador de última instância poderia, em tese, eliminar o risco de corridas, ao menos para os bancos em boa situação patrimonial. Sabendo que bons bancos teriam acesso a liquidez quando necessário, não haveria motivos para corridas bancárias.

Obviamente, é mais complicado do que isso. A solvência de uma instituição financeira é difícil de ser determinada em situações mais complexas. Ativos que, em condições normais, são de boa qualidade podem se mostrar problemáticos em cenários de crise. Além disso, a presença do emprestador de última instância acentua a natural assimetria de informações entre bancos e depositantes, e pode levar a problemas como os observados na crise de 2008.

Isto dito, há elementos na doutrina Bagehot que podem ser aplicados à situação europeia atual, em particular à intricada distinção entre países ilíquidos e insolventes.

Imagine um país que, sob condições normais de mercado, teria toda capacidade de continuar servindo sua dívida, mas que, por um problema similar ao do pânico bancário acima descrito, acaba enfrentando dificuldades na rolagem de sua dívida, eventualmente traduzidas em taxas de juros muito elevadas e crescimento baixo. É concebível que mesmo um governo originalmente equilibrado do ponto de vista patrimonial possa ser levado à insolvência, caso a crise se prolongue além de certos limites.

Sob tais circunstâncias, haveria justificativa para o acesso a fontes de financiamento extramercado que permitissem a tal país preservar sua solvência sob condições adversas. Aliás, caso o volume de recursos posto à disposição do governo seja bastante grande, a própria existência do mecanismo de financiamento desencorajaria o pânico e provavelmente preveniria inclusive a crise de liquidez. Este é o raciocínio dos que advogam um aumento significativo do Fundo Europeu de Estabilização (EFSF), que hoje mobiliza apenas € 440 bilhões (nunca pensei que escreveria "apenas" antes de € 440 bilhões, mas é um sintoma do mundo em que vivemos), boa parte, diga-se, já comprometida com os auxílios a Irlanda e Portugal, bem como o segundo resgate grego, caso este último se materialize.

Por outro lado, também como preconizado pela doutrina, não faria sentido oferecer auxílio a países fundamentalmente insolventes. De fato, o único motivo para tanto, nas atuais condições, seria a tentativa de impedir que a eventual reestruturação da dívida de um país insolvente acabe alimentando a crise de liquidez dos demais, transformando-a num problema mais grave.

Já os demais aspectos da doutrina são de tradução menos direta para o contexto de crises soberanas, em particular a questão das garantias, muito embora a privatização de alguns ativos governamentais possa desempenhar algum papel, mesmo como coadjuvante, nesse quesito.

A valer o raciocínio acima, para impedir que a provável reestruturação da dívida dos insolventes acabe por contaminar irremediavelmente os demais, alguém terá que desempenhar o papel de emprestador de última instância, garantindo que as economias consideradas solventes sejam assim percebidas pelo mercado. Essa seria a principal, se não única, forma de evitar o contágio que, até agora, tem se mostrado o aspecto mais assustador da crise europeia.

Isto dito, não está claro quem acabará nessa função. Idealmente seria uma tarefa para o EFSF, mas os desenvolvimentos políticos na Europa indicam que a batata quente de Bagehot irá terminar, não sem certa ironia, no colo do Banco Central Europeu. Nada muito bonito, mas considerem a alternativa...

Alexandre Schwartsman é doutor em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley e ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC.

Transferindo reputação


Por Carlos Viana de Carvalho - Valor 06/10

A reunião de hoje do Banco Central Europeu (BCE) será a última sob o comando do seu atual presidente. Jean Claude Trichet construiu sólida reputação de banqueiro central comprometido com inflação baixa. Essa postura se reflete na condução recente da política de juros do banco. Por conta da inflação acima da meta, o BCE vinha elevando as taxas de juros até recentemente, a despeito da crise que assola a região.

Essa conjunção de fatores - crise, inflação acima da meta e troca de comando - dificulta o trabalho de se antever a decisão a ser tomada pelo BCE na reunião de hoje, e nos próximos meses. Talvez um episódio passado, que guarda algumas similaridades, seja útil neste contexto.

Nos últimos meses de 1998, o Bundesbank (banco central alemão) estava sob forte pressão política para reduzir os juros. O seu crítico mais vocal era ninguém menos do que o recém-empossado ministro das Finanças. Àquela altura, a economia alemã dava sinais de desaceleração e a inflação vinha caindo sensivelmente. Entretanto, até novembro, o Bundesbank havia mantido sua meta de taxa de juros constante e havia sinais de que isso não mudaria até o fim do ano.

Em virtude da reputação de forte comprometimento com a estabilidade de preços, tentativas políticas de influenciar as decisões do Bundesbank não eram muito frequentes e, em todo caso, não deveriam ser grande fonte de preocupação. Entretanto, o fim de 1998 não era um período usual.

Afinal, a partir de janeiro do ano seguinte, as decisões de política monetária para a zona do euro passariam a ser tomadas pelo BCE. E uma das grandes preocupações dos alemães em relação a essa mudança era justamente garantir que as decisões do novo banco central fossem tão isentas de influência política e tão focadas na estabilidade de preços quanto as do Bundesbank.

O que o banco central alemão poderia fazer naquelas circunstâncias? Reduzir as taxas de juros. Essa resposta não parecia ser compatível com os padrões históricos de atuação do Bundesbank. Mas ao se desviar do seu padrão usual e optar por um corte de juros naquele momento, o BC alemão poderia de certa forma facilitar o trabalho do BCE.

Com alguma probabilidade, o novo banco central não precisaria mais reduzir as taxas de juros nos meses seguintes. Ainda que isso se fizesse necessário, a pressão política para tal poderia esmorecer em decorrência do corte inesperado pelo Bundesbank. Em qualquer um dos casos, o ambiente seria mais propício à construção de reputação do BCE como um banco central vigilante em relação à inflação. Para o banco alemão a decisão não chegaria a ser um passo embaraçoso na direção errada, mas sim a antecipação de uma decisão que ele próprio provavelmente tomaria um pouco adiante.

Apesar do contexto distinto, alguns aspectos da conjuntura atual sugerem uma analogia com o episódio de 1998. Em tempos normais, e sob o comando de Trichet, seria razoável supor que o BCE continuaria com o aperto monetário por mais alguns meses. Entretanto, a situação na Europa está claramente longe da normalidade.

Os apertos fiscais impostos aos governos dos países mais afetados pela crise, aliados à perda de confiança na zona do euro, estão tendo forte efeito contracionista sobre a atividade econômica da região. Somem-se a isso as evidências de problemas de liquidez e/ou solvência no setor bancário de alguns países, e a meu ver passa a ser mais razoável prever que o próximo movimento do BCE será de redução da taxa de juros.

Além disso, a partir de novembro o BCE passará a ser presidido pelo italiano Mario Draghi. Infelizmente, como a Itália vem enfrentando dificuldades para rolar sua dívida pública, já surgiram especulações acerca do tratamento que o BCE do futuro presidente dispensará ao seu país de origem. De um lado, há os que antecipam que o BCE será retoricamente mais duro com os países que vêm enfrentando dificuldades para obter financiamento nos mercados, incluindo a Itália, para não parecer leniente. De outro lado, há os que preveem maior disposição do BCE de Draghi para ajudar esses países, e os que temem que um eventual corte nas taxas de juros com a inflação correndo acima da meta possa abalar a sua reputação.

As circunstâncias parecem propícias para um corte de juros "antecipado" pelo BCE já nesta reunião. Além de atenuar os efeitos contracionistas dos apertos fiscais ora discutidos, tal decisão poderia facilitar o trabalho de preservação (construção?) de reputação do BCE de Mario Draghi, pelas mesmas razões que o corte de juros pelo Bundesbank em dezembro de 1998 pode ter ajudado o BCE nos seus primeiros meses (sim, o Bundesbank reduziu os juros na ocasião).

Um episódio recente envolvendo o Banco Central brasileiro (BC) talvez se preste a uma análise semelhante. Refiro-me à manutenção dos juros na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) sob o comando do seu ex-presidente Henrique Meirelles, seguida de elevação já na primeira reunião do Copom sob o comando do atual presidente, Alexandre Tombini. A manutenção dos juros na última reunião de 2010 surpreendeu a maioria dos analistas econômicos, que advogavam aperto monetário para combater a inflação em alta.

Com a mudança de comando no Banco Central brasileiro, os juros foram elevados em cinco ocasiões, até o corte inesperado da Selic na última reunião do Copom. Será que houve uma tentativa de "transferência de reputação" na transição do BC de Meirelles para o BC de Tombini? Bem, mas nesse caso há uma série de considerações adicionais a serem feitas. É melhor deixar essa análise para uma outra ocasião.

Carlos Viana de Carvalho é professor do Departamento de Economia da PUC-Rio e sócio da Kyros Investimentos

Brasil pode crescer até 4%, diz Langoni


Valor 06/10

A força do mercado interno deve garantir ao Brasil um crescimento de 3,5% a 4% neste ano e no ano que vem, acredita o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni, que vê um quadro de estagnação nos países desenvolvidos nos próximos anos, mas não de recessão profunda. Langoni não aposta num cenário externo tão adverso quanto o BC brasileiro, que trabalha com uma piora muito forte da economia global, a ponto de ter iniciado um ciclo de corte dos juros mesmo com a inflação acumulada em 12 meses acima do teto da meta, de 6,5%.

"A decisão do BC foi ousada e arriscada. Eu não teria cortado os juros em agosto. Esperaria até o fim do ano para ver também se a política fiscal será bem implementada", disse ontem Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele participou de um painel de discussões sobre risco sistêmico no Simpósio Econômico Global (GES, na sigla em inglês), na cidade de Kiel, na Alemanha. Promovido pelo Kiel Institute for the World Economy, o evento, que termina hoje, tem a FGV como um de seus parceiros.

Para Langoni, o quadro externo com que o BC trabalha depende de uma desaceleração mais forte da China, o que derrubaria os preços das commodities, ajudando a controlar a inflação no Brasil, e de uma crise no sistema bancário, com corte do crédito externo, medida que também teria um impacto desinflacionário. Langoni, contudo, não acredita num tombo muito forte das commodities, por considerar possível que a China continue a crescer na casa de 9%.

O economista tampouco aposta numa crise bancária de grandes proporções. Depois do que ocorreu em 2008, quando os EUA deixaram o Lehman Brothers quebrar, nenhum banco central vai cometer um erro semelhante, afirmou Langoni. O Banco Central Europeu tenderia a agir para evitar o colapso de bancos da zona do euro, e eventualmente os Tesouros dos países também atuariam para impedir um problema bancário de grandes proporções.

É por ter esse cenário em mente que Langoni aposta num default ordenado da Grécia. Para ele, os europeus vão primeiro ampliar o poder de fogo da Linha de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF, na sigla em inglês), para impedir o contágio para outros países, garantindo liquidez para títulos da Itália e da Espanha. Isso abre espaço para um default ordenado da Grécia, que terá de reduzir fortemente o seu endividamento, afirmou Langoni.

Esse quadro é compatível com um longo período de baixo crescimento nos países desenvolvidos, acredita ele, algo como cinco anos ou até mesmo uma década. "Mas não deverá haver uma recessão profunda", disse ele, o que explica a diferença de sua visão em relação ao do BC.

Apesar das críticas ao corte dos juros em agosto, Langoni não avalia que o regime de metas de inflação foi abandonado. Para ele, se o cenário externo não piorar de fato como o BC espera, ou se o aperto fiscal prometido pelo governo brasileiro não se concretizar, a autoridade monetária brasileira interromperá o ciclo de queda dos juros. Langoni aposta em mais dois cortes de 0,5 ponto percentual, o que levaria a Selic a 11% no fim do ano. "Não acho que o BC vai cortar os juros de modo irresponsável. Lula percebeu, e Dilma [Rousseff] logo perceberá, que a popularidade depende de inflação baixa", afirmou. "Os programas sociais não teriam a mesma força com taxas de inflação elevadas. Forças políticas e econômicas vão levar o BC a manter postura conservadora."

Sem apostar numa ruptura no cenário externo e acreditando na força do mercado de trabalho e no investimento, Langoni sente-se confortável para projetar um crescimento na casa de 3,5% a 4% em 2011 e 2012. Ele lembra que, no ano que vem, haverá um reajuste significativo do salário mínimo, de 14%, o que pode inclusive dificultar a queda da inflação.

No seminário do GES, Langoni defendeu o modelo de crescimento brasileiro, baseado em crescimento com distribuição de renda, algo que, segundo ele, não ocorre na China. Em 2012, o GES ocorrerá no Brasil, no Rio de Janeiro. A FGV foi convidada pelo Kiel Institute para ser a anfitriã e organizadora do seminário no país. O diretor-executivo da FGV Projetos, Cesar Cunha Campos, disse que o GES no Rio deverá ter um pouco mais de ênfase em mercados emergentes, com mais participantes da América Latina, China e Índia. O evento deverá ocorrer em outubro ou novembro do ano que vem.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Petroleira americana estuda deixar Brasil


Maiores operações no país estão no pós-sal; saída significa concentrar recursos para investir no golfo do México

Empresa teve sucesso em 4 blocos perfurados: Wahoo e Itaipu, ambos no pré-sal, e Itaúna e Coalho, no pós-sal

LEILA COIMBRA
DO RIO - FSP 05/10

A petroleira americana Anadarko analisa vender todos os blocos de petróleo que possui no Brasil, apesar da promissora capacidade de produção do pré-sal.
Magda Chambriard, diretora da Agência Nacional do Petróleo, confirmou ontem a informação, em evento da área de petróleo e gás. Segundo Chambriard, a Anadarko segue o mesmo caminho já trilhado pela também americana Devon, que vendeu recentemente, para a britânica BP, suas atividades de exploração de óleo em território brasileiro, para se concentrar no mercado norte-americano.
"Fico com pena, a Anadarko vinha atuando no Brasil de forma muito competente, mas é uma opção deles", disse Chambriard. A empresa teria contratado os bancos Citigroup, Morgan Stanley e Scotia Waterous para estruturar a negociação. A petrolífera obteve sucesso em quatro blocos que perfurou: Wahoo e Itaipu, ambos no pré-sal, e Itaúna e Coalho, no pós-sal.
Suas reservas no Brasil são avaliadas entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões, considerando-se a cotação de US$ 90 por barril, segundo avaliação do mercado.
Embora o pré-sal seja vantajoso do ponto de vista de reservas, as maiores operações da Anadarko no país se encontram no pós-sal. Sair do Brasil significaria poder concentrar recursos para investir no golfo do México, onde suas operações são avaliadas entre US$ 14 bilhões e US$ 20 bilhões, e na costa da África, onde seus ativos estão estimados em US$ 7 bilhões.
A Anadarko também terá de levantar recursos caso seja responsabilizada pelo vazamento da plataforma Deepwater Horizon, no golfo do México, em 2010, resultante da ruptura do poço Macondo, perfurado pela BP.
A BP concordou em destinar US$ 20 bilhões para compensar as vítimas do acidente, mas exige que seus parceiros no poço também assumam parte da responsabilidade.
A BP possui 65% do poço que explodiu, a Anadarko, 25%, e a japonesa Mitsui é dona dos 10% restantes. A Anadarko alega que o contrato com a BP, que era a operadora e detinha 65% do poço, contém uma cláusula limitando sua responsabilidade se for demonstrada negligência grosseira por parte da operadora (BP).
No entanto, em julho, o governo dos EUA disse que, pela legislação federal de poluição por petróleo, a Anadarko é parcialmente responsável pelo dano ambiental causado pelo vazamento. Ainda não houve uma decisão final sobre a questão, mas a BP cobra US$ 5 bilhões da Anadarko para cobrir custos do acidente.

Como manter o euro no ar


Por Martin Wolf - Valor 05/10

A aeronave da zona do euro foi criada "com uma asa e uma oração". A asa caiu e os deuses não estão ouvindo as orações. Todo mundo está se concentrando em evitar uma queda. Mas é igualmente vital indagar: como pilotar com segurança?

E como foi que a zona do euro mergulhou em seu infortúnio? Parte da resposta é que não dispunha de mecanismos para enfrentar crises, que seus membros divergiram enormemente e que foi prejudicada por seus primeiros sucessos.

As condições de crédito fácil e juros baixos na primeira década produziram bolhas no mercado imobiliário e crescimento explosivo na tomada de empréstimos pelo setor privado na Irlanda e na Espanha, captação exagerada de empréstimos pelo setor público na Grécia, declínios na competitividade externa da Grécia, Itália e Espanha, e enormes déficits externos, na Grécia, Portugal e Espanha. Quando os mercados financeiros entraram em pânico, os devedores sofreram uma "parada súbita", o que causou crises de iliquidez e insolvência em cascata de países e bancos. A zona do euro está correndo para alcançá-las. Mas a crise é mais rápida. Quase metade da dívida soberana exibe elevado risco de crédito.

A zona do euro não dispunha de mecanismos para o financiamento, entre países, dos tomadores de empréstimos que perderam acesso a recursos financeiros. Em tese, o ajuste deveria ter ocorrido por meio dos mecanismos clássicos: uma espiral de inadimplência de países, colapsos bancários, desaquecimento econômico, desemprego, salários em queda, austeridade fiscal e infelicidade generalizada. Ninguém preveniu a sociedade de que tal brutalidade está à espreita. Os políticos também não entenderam isso. Quando chegou a hora, todos hesitaram em agir.

Então, o que precisa ser feito? A resposta vem em dois pares: o primeiro é "estoques e fluxos", o segundo é "financiamento e ajuste". Estoques refere-se a zerar a herança do passado. Fluxos referem-se a necessidade de retomada do crescimento econômico sustentável. Financiamento e ajuste referem-se ao como e quando dos esforços para zerar os estoques e restaurar a sustentabilidade dos fluxos.

Vários membros da zona do euro saíram da crise com enorme excessos de dívida privada e soberana. Se esses estoques não puderem ser rolados, permanecerá uma mescla de financiamento e reestruturação. A reestruturação da dívida do setor privado que está sendo organizada não oferece praticamente nenhum alívio à Grécia, mas alívio substancial para antigos credores privados. No caso da Grécia, certamente (e, possivelmente, Portugal e Irlanda), é essencial uma redução substancial dos encargos do serviço da dívida.

Esse problema passa também pelos bancos, onde o estoque excessivo de empréstimos de qualidade duvidosa prejudica tanto a solvência como a liquidez. Novamente, nesse caso, a solução é financiamento - injeções de capital e apoio do banco central - e reestruturação - depreciação de ativos e de alguns passivos.

Lidar com os estoques é relativamente simples. Um desafio muito maior é conseguir fomentar fluxos sustentáveis de receitas e despesas a elevados níveis da atividade econômica. Isso significa muito mais do que a austeridade fiscal com a qual os europeus estão obcecados. Parafraseando o historiador romano Tácito, "eles criam uma depressão e a denominam de estabilidade". Para que a atividade seja restaurada, os déficits estruturais externos precisam cair para níveis facilmente financiáveis por meio de mercados privados. A Grécia e Portugal têm grandes déficits externos, um indicador irrefutável de grave falta de competitividade. Isso é também um pouco preocupante para a Espanha e a Itália, mas o problema ali é menor. A Irlanda tem um superávit externo, o que é animador para seu futuro.

Ajustes desse tipo levam tempo: é preciso que ocorram grandes mudanças tanto nos preços relativos como nos investimentos em novas atividades. Em análise pessimista para a londrina Lombard Street Research, Christopher Smallwood argumenta que a Grécia e Portugal - e até mesmo Itália e Espanha - restabelecerão sua competitividade por meio de dolorosas quedas salariais e demissões em massa.*

O que torna ainda mais difícil o ajuste é que ele envolve dois lados. Para que os déficits externos diminuam, também deverão encolher os superávits no outro lado da equação. Isso tem implicações evidentes para a Alemanha e outros países centrais. Mas esses países não reconhecem a necessidade de se ajustarem. Eles acreditam que uma só mão é capaz de bater palmas. A natureza dúplice do ajuste pode não ser tão importante para países devedores de pequeno porte. Mas é bem mais relevante no caso dos países de maior porte.

Se o ajuste necessário revelar-se impossível dentro da camisa de força da zona euro, existirão duas alternativas: abandonar o euro, com os riscos que comentei duas semanas atrás ou financiamento permanente por meio de uma união fiscal, mantendo, assim, as economias moribundas na UTI. Essa opção pode ser viável para uma ou duas economias de pequena dimensão. Mas seria impossível, economica ou politicamente, para as maiores. É por isso que os elevados spreads atuais sobre a dívida italiana e espanhola são tão perigosos para o futuro da zona euro.

O problema está nos fluxos, idiota. Apenas reduzir a carga de endividamento não resolverá esse problema. Devemos temer que economias profundamente não competitivas, não serão financiadas, mas não conseguirão se ajustar. Se assim for, eles poderão simplesmente definhar. É por isso que algumas pessoas já afirmam que a solução poderá ter de incluir o abandono do euro por alguns países. Em casamentos desfeitos, argumenta Nouriel Roubini, da Stern School, em Nova York, "é melhor ter regras - leis de divórcio - que tornam uma separação ordenada e menos onerosa para as duas partes".

O mínimo essencial com que a zona do euro precisa lidar em sua crise é um mecanismo eficaz para descontar as dívidas de endividados privados e soberanos evidentemente insolventes, como a Grécia; recursos financeiros suficientemente grandes para administrar os mercados ilíquidos de títulos de governos potencialmente solventes; e maneiras de tornar o sistema financeiro crivelmente solvente imediatamente. Os montantes necessários certamente serão várias vezes maiores do que os €440 bilhões do Fundo de Estabilidade Financeira Europeu existentes, como adverti na semana passada.

Infelizmente, porém, a zona do euro exige mais ainda: é necessário um caminho crível de ajuste, no fim do qual vejamos a restauração da saúde das economias mais fracas. Se esse caminho não for encontrado, a zona do euro, na forma em que existe hoje, será desagregada. A questão não é se, mas quando. Esse é o tamanho do problema.

* "The eurozone must shrink", www.lombardstreetresearch.com (A zona do euro precisa encolher) www.lombardstreetresearch.com. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

BC agirá para corrigir distorções do câmbio, não para defender teto


Valor 05/10

Não há razão para o real se desvalorizar mais em relação ao dólar do que outras moedas, avalia o Banco Central. Enquanto isso estiver ocorrendo de forma alheia aos fundamentos macroeconômicos do país - retratando disfuncionalidades no mercado de câmbio - o BC continuará com as intervenções, através de leilões de swap cambial. Ontem, por exemplo, a queda do real foi de 1,66% frente ao dólar, bem superior à do dólar australiano (-0,27%), mas abaixo do rand da África do Sul (-2,17%) e do peso mexicano (-1,95%).

O BC explicou, também, que não trabalha com qualquer tipo de banda cambial. Apesar das duas primeiras intervenções terem sido disparadas quando a taxa de câmbio superou o patamar de R$ 1,90, configurando-se uma espécie de teto para a cotação do dólar, o BC não confirma essa interpretação. Como exemplo de que não opera com um teto, o BC citou o fato de ter anunciado na noite de segunda-feira que faria leilões de swap na manhã de terça, sem saber como o mercado abriria.

Nas últimas semanas, houve uma discussão na área técnica do governo sobre a adoção de uma eventual nova estratégia de política cambial. Por essa concepção, o BC não entraria no mercado enquanto o dólar estivesse cotado abaixo de R$ 1,90. A partir desse valor, o BC venderia contratos de swap cambial. Na visão desses técnicos, o dólar a R$ 1,90 não traria muita pressão sobre a inflação e daria um fôlego importante à indústria nacional, tanto para ajuda-la a exportar quando para enfrentar seus concorrentes internacionais no mercado doméstico.

"Não temos banda de câmbio. Seria uma loucura mexer com nosso regime que funciona bem, que tem servido ao País neste momento, e colocar uma banda de câmbio que tanto custo já trouxe para o país no passado", afirmou o presidente do BC, Alexandre Tombini, em debate no Senado, em 27 de setembro. As declarações de Tombini foram feitas em resposta à pergunta da senadora Marta Suplicy (PT-SP), exatamente sobre se caberia ao BC defender uma banda.

Ontem, diante do surgimento da percepção de que estaria sim defendendo uma banda, o BC reiterou os argumentos de Tombini. Desde a decisão do Copom de cortar a taxa Selic em 0,5 ponto, no dia 31 de agosto, que a taxa de câmbio tem sido volátil, numa associação com as expectativas de aceleração (ou não) da trajetória de queda dos juros nos próximos meses.

Nesse período, ganhou força nas apostas do mercado de que os cortes, daqui por diante, seriam mais acentuados, na casa de 1 ponto, já na reunião deste mês. Com a divulgação do relatório trimestral de inflação, operadores de mercado retornaram para a expectativa de que a queda da Selic continuará no ritmo de 0,5 ponto.

Após nove meses de governo, as desconfianças do mercado sobre a condução da política monetária ainda são muitas. Esta semana, declarações de autoridades introduziram mais um elemento na discussão sobre os rumos da taxa de juros, a de que a presidente Dilma Rousseff quer que a Selic caia para 9% até o ano que vem. Em pronunciamentos, Dilma realça o crescimento econômico como o principal objetivo do governo. Mais recentemente, passou a citar a queda dos juros na esteira da crise externa como um grande desafio. Fatos que alimentam as dúvidas sobre o real compromisso da presidente com o controle da inflação.

'Temos que abandonar o mito do crescimento econômico infinito', diz economista


Há vinte anos, a queda do Comunismo no Leste Europeu parecia provar o triunfo do capitalismo. Mas teria sido uma ilusão?

BBC

Os constantes choques no sistema financeiro internacional nos últimos anos levaram a BBC a perguntar a uma série de especialistas se eles acham que o capitalismo fracassou.

Neste texto, Tim Jackson, professor da Universidade de Surrey e autor do livro Prosperity without Growth - Economics for a Finite Planet (Prosperidade sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito, defende o abandono do mito do crescimento infinito:

Toda sociedade se aferra a um mito e vive por ele. O nosso mito é o do crescimento econômico.

Nas últimas cinco décadas, a busca pelo crescimento tem sido o mais importante dos objetivos políticos no mundo.

A economia global tem hoje cinco vezes o tamanho de meio século atrás. Se continuar crescendo ao mesmo ritmo, terá 80 vezes esse tamanho no ano 2100.

Esse extraordinário salto da atividade econômica global não tem precedentes na história. E é algo que não pode mais estar em desacordo com a base de recursos finitos e o frágil equilíbrio ecológico do qual dependemos para sua sobrevivência.

Na maior parte do tempo, evitamos a realidade absoluta desses números. O crescimento deve continuar, insistimos.

As razões para essa cegueira coletiva são fáceis de encontrar.

O capitalismo ocidental se baseia de forma estrutural no crescimento para sua estabilidade. Quando a expansão falha, como ocorreu recentemente, os políticos entram em pânico.

As empresas lutam para sobreviver. As pessoas perdem seus empregos e em certos casos suas casas.

A espiral da recessão é uma ameaça. Questionar o crescimento é visto como um ato de lunáticos, idealistas e revolucionários.

Ainda assim, precisamos questioná-lo. O mito do crescimento fracassou. Fracassou para as 2 bilhões de pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia.

Fracassou para os frágeis sistemas ecológicos dos quais dependemos para nossa sobrevivência.

Crise e oportunidade

Mas a crise econômica nos apresenta uma oportunidade única para investir em mudanças. Para varrer as crenças de curto prazo que atormentaram a sociedade por décadas.

Para um compromisso, por exemplo, para uma reforma radical dos mercados de capitais disfuncionais.

A especulação sem controle em commodities e em derivativos financeiros trouxeram o mundo financeiro à beira do colapso há apenas três anos. Ela precisa ser substituída por um sentido financeiro mais longo e lento.

Consertar a economia é apenas parte da batalha. Também precisamos enfrentar a intrincada lógica do consumismo.

Os dias de gastar dinheiro que não temos em coisas das quais não precisamos para impressionar as pessoas com as quais não nos importamos chegaram ao fim.

Viver bem está ligado à nutrição, a moradias decentes, ao acesso a serviços de boa qualidade, a comunidades estáveis, a empregos satisfatórios.

A prosperidade, em qualquer sentido da palavra, transcende as preocupações materiais.

Ela reside em nosso amor por nossas famílias, ao apoio de nossos amigos e à força de nossas comunidades, à nossa capacidade de participar totalmente na vida da sociedade, em uma sensação de sentido e razão para nossas vidas.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

EUA desistem do livre comércio


Por Jagdish Bhagwati - Valor 04/10

A indiferença e a apatia que vemos em Washington - tanto do Congresso como do presidente Barack Obama -, em relação à Rodada Doha de negociações comerciais mundiais e o alarme e a preocupação de estadistas de outros países diante da paralisia nas negociações, assinala o fim da era pós-1945 de liderança americana no livre comércio multilateral.

Sinais de nervosismo fora dos EUA estão claros a todos há quase um ano. A chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro britânico David Cameron ficaram tão preocupados que se aliaram aos presidentes da Turquia, Abdullah Gül, e da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, para, em novembro de 2010, nomear Peter Sutherland e eu como copresidentes de um Grupo de Alto Nível de Especialistas em Comércio. Nós realizamos um painel em Davos com esses líderes em janeiro de 2011, onde, por ocasião do nosso Relatório Preliminar, demos pleno apoio à conclusão da Rodada Doha. Mas não houve resposta dos EUA.

Em setembro, o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown, o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González, e o ex-presidente mexicano Ernesto Zedillo lembraram os líderes do G-20 que em novembro de 2009, em sua primeira reunião em Londres, eles tinham manifestado "o compromisso de concluir a rodada em 2010. E, há duas semanas, a ONU reuniu-se novamente para abordar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).

O Objetivo 8 diz respeito a instrumentos como comércio e ajuda, e o ODM 8A compromete os países membros da ONU a aprofundar o desenvolvimento de um sistema financeiro aberto, baseado em regras, previsível e não discriminatório

Mas, embora praticamente todos os países hoje tenham adotado os Acordos de Livre Comércio preferenciais, o recente líder nessa proliferação são os EUA. Lá, o Congresso e o presidente têm, aparentemente, bastante tempo para discutir ALCs bilaterais com a Coreia do Sul, a Colômbia e o Panamá, bem como a Parceria TransPacífica Regional (PTR), mas nenhum para negociar a não discriminatória Rodada de Doha, que está definhando, em seu décimo ano de negociações.

De fato, é notável que embora o discurso de Obama sobre o Estado da União, em janeiro de 2010, mencione Doha, seu discurso de janeiro de 2011 não se referiu a Doha. O lamentável recuo de Obama é resultado de muitos fatores e falácias. Essas foram destacadas em uma "Carta Aberta a Obama", que organizei e divulguei, com as assinaturas dos 50 mais influentes especialistas atuais em comércio em todo o mundo, pedindo uma mudança na política em relação a Doha.

O presidente dos EUA é cativo dos sindicatos de trabalhadores do país, que compram a falsa narrativa de que o comércio com os países pobres aumenta as fileiras de pobres nos EUA. Na verdade, porém, há uma abundância de evidências em suporte à narrativa oposta, de que a rápida e profunda mudança tecnológica poupadora de mão de obra é o que está exercendo pressão sobre os salários, e que as importações de bens intensivos em mão de obra barata que os trabalhadores americanos consomem estão, na verdade, compensando aquela tensão.

Os lobistas em Washington acreditam em especialistas em comércio, como Fred Bergsten, para quem o ganho proporcionado por Doha, em sua forma atual, é de meros US$ 7 bilhões por ano. Isso ignora as perdas bem maiores que uma Rodada de Doha inconclusa implicaria, por exemplo, minando a credibilidade da Organização Mundial do Comércio como principal fiador de um comércio baseado em regras e deixando a liberalização do comércio inteiramente no âmbito de liberalização discriminatória de acordos bilaterais preferenciais. Mais uma vez, alguém precisa dizer a Obama que importações também criam empregos e que sua ênfase apenas na promoção de exportações dos EUA são má teoria econômica.

Acima de tudo, Obama é mal assessorado em comércio por seus colegas de alto nível. A secretária de Estado, Hillary Clinton, por exemplo, opôs-se à liberalização do comércio quando concorreu contra Obama à presidência e defendeu uma "pausa" nas negociações de livre comércio. Ela também interpretou erroneamente o grande economista Paul Samuelson, rotulando-o de protecionista, quando ele não disse nada do tipo. Ela nunca se retratou.

Da mesma forma, agora que Warren Buffett é considerado como o conselheiro econômico mais confiável de Obama, vale a pena recordar que em 2003 ele produziu a surpreendente prescrição segundo a qual a melhor maneira de reduzir o déficit comercial dos EUA era não permitir importações em montante superior ao que poderia financiar com sua receita de exportações. Um Samuelson, entre irônico e alarmado, chamou minha atenção para essa ideia maluca. Embora a prescrição de Buffett - impostos mais elevados para os americanos ricos - seja inteiramente desejável, será que Obama perceberá que um gênio numa área pode ser um idiota em outra?

O que precisamos hoje é que os maiores estadistas do mundo abandonem sua cautela e timidez e unam-se para empurrar Obama na direção de uma conclusão bem sucedida para a Rodada Doha. Somente isso se constituiria em contrapeso às forças que o levam à direção errada. Ainda não é tarde demais. (Tradução Sergio Blum)

Jagdish Bhagwati é professor de economia e direito na Universidade de Columbia e membro sênior de Economia Internacional no Council on Foreign Relations Copyright: Project Syndicate, 2011.

Metas inflacionárias


Por Antonio Delfim Netto - Valor 04/10

Para tornar a política econômica mais eficaz e útil, é preciso ter presente que somos constrangidos pelos limites impostos por uma Constituição legitimamente construída em 1988 e que pretende: 1) ser republicana, onde todos, inclusive o poder incumbente, devem obedecê-la; 2) ser democrática, onde o poder é escolhido livremente (e dispensado!) pelo sufrágio universal; e 3) ter como seu objetivo último uma relativa e crescente "justiça social", que deve manifestar-se no aumento contínuo da igualdade de oportunidade para os cidadãos. Em outras palavras, é necessário entender a economia como imersa na sociedade e sujeita às suas prioridades.

A igualdade de oportunidade é objetivo fácil de ser enunciado, mas esconde enormes problemas conceituais e práticos. De qualquer forma, deve começar com a chance de todo cidadão ganhar a vida com o seu esforço. De todos os desperdícios de recursos naturais de uma sociedade, nenhum é mais injusto, mais prejudicial à integração social e à autoestima do cidadão, do que negar-lhe a oportunidade de viver honestamente e sustentar a família com o resultado de seu trabalho.

É por isso que a construção de uma sociedade mais "justa' começa pela maximização do nível de emprego disponível. Obviamente, não se trata do emprego de todos ao mesmo tempo. Nossa organização econômica tem íncita um dinamismo próprio, estimulado pela mudança das preferências dos consumidores e pelo desenvolvimento tecnológico, que exige permanente adaptação da estrutura produtiva: algumas atividades entram em declínio e cedem recursos (mão de obra inclusive) para outras, que atendem melhor à "nova e mutante" estrutura da demanda. O processo não é instantâneo, nem isento de custos e riscos.

Nunca há equilíbrio: simplesmente a passagem de uma situação, às vezes "pensada" como equilíbrio, para outra, que também não será de "equilíbrio", ainda que possamos "pensá-la" como tal. Esse "tempo de acomodação" gera um desemprego friccional que a sociedade "justa" tem que socorrer, com as políticas sociais do Estado.

É dessa concepção do mundo que nasceu a divergência entre duas "escolas" de pensamento econômico, diante da evidente existência e persistência do desemprego: 1) de um lado, os que acreditam que, no longo prazo, o desinibido funcionamento dos mercados produzirá, por si mesmo, sem a intervenção externa do Estado, um ajustamento, a despeito de não se saber bem o que é "longo prazo" e de reconhecer que o processo pode ter armadilhas e defasagens temporais com relação ao emprego; e 2) do outro, os que não acreditam que o sistema de mercado seja capaz de produzir, por si, a redução do desemprego, em geral gerado por deficiência da demanda agregada, para levar à plena utilização da capacidade produtiva.

A economia, se for alguma coisa, é uma ciência social. Tenta entender um universo mutante, onde todas as "constantes" são "variáveis" e, não importa qual a potência da metodologia usada para torturar o passado para que ele revele o futuro, este continua opaco. Como não é possível construir experimentos críticos capazes de discriminar entre as duas visões, é claro que ambas envolvem larga dose de ideologia. É fato conhecido que nas ciências sociais as preferências não reveladas de pesquisadores, que se supõem "neutros", influenciam os seus resultados.

A despeito dessa divergência (no tempo, cada lado já trocou da posição de ortodoxo para heterodoxo, de acordo com o "espírito do mundo"), o conhecimento de como funciona a organização econômica da sociedade e de como se comportam seus agentes - e de como reagem à ação do governo e dos efeitos não intencionais que ela acaba produzindo- tem crescido de maneira importante e revelado equívocos e exageros de ambas as partes.

A evolução da economia, desde a crise de 2007, e as tentativas de superar a crise financeira que atingiu o setor produtivo, consolidaram a ideia que o sistema de economia de mercado, deixado a si mesmo e, pior, contaminado por inovações financeiras que têm papel duvidoso para o desenvolvimento econômico, não tem nenhuma condição de se autocorrigir.

Por outro lado, as políticas econômicas sugeridas pelos que não acreditam na autocorreção do mercado mostraram sérias limitações. A conclusão é que, apesar das evidências mostrarem que na atual conjuntura esperar um autoajuste do mercado é absurdo, isso não autoriza liberdades com a política econômica.

As políticas fiscal, monetária e cambial do governo parecem estar na direção correta. São condicionadas a um cenário mundial em clara deterioração e tentam antecipar o que pode ocorrer com a taxa de crescimento econômico e logo em seguida, também, sobre o nível de emprego. Não há abandono da política de metas inflacionárias, quando se altera o peso dado ao desvio entre a inflação corrente e sua meta, relativamente ao desvio entre o PIB e o PIB potencial (seja lá o que isso for) para fixar a taxa de juros.

Ninguém subscreveria hoje esta barbaridade autoritária que, até 2007, era o limite intransponível da "ciência" monetária: "A sociedade pode, às vezes, melhorar seu bem-estar nomeando um banqueiro central que não compartilha (sic) seus objetivos sociais e que, em seu lugar, aumente o "peso" da estabilização monetária relativamente à estabilidade do emprego" (Rogoff, K.S., 1985).

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Alessio Rastani na BBC (com legendas em português)

Banco Central inaugura novo sistema para operações de câmbio


Valor 03/10

O Banco Central (BC) dá mais um passo dentro do projeto de modernização do mercado de câmbio. Nesta segunda-feira entra em vigor um novo sistema para o registro das operações com moeda estrangeira.

Segundo o chefe da Gerência-Executiva de Normatização de Câmbio e Capitais Estrangeiros, Geraldo Magela Siqueira, foram investidos R$ 4 milhões na compra de equipamentos e na elaboração desse projeto que "toma lugar" do antigo Sisbacen Câmbio, datado de 1985.

A contrapartida desse investimento é uma redução de custo operacional do BC da ordem de 70%. Mensalmente, gerenciar as operações de entrada e saída de moeda estrangeira custava cerca de R$ 5,5 milhões à autoridade monetária. Agora, a previsão é que se gaste R$ 1,5 milhão.

E a perspectiva, segundo Siqueira, é de que alguma forma essa economia operacional proporcionada pela evolução do sistema chegue ao lado real da economia. Claro que a redução de custos não deve acontecer na mesma proporção, já que ela representa apenas uma das diversas etapas que compõem uma operação cambial.

"O que estamos implantando é um modelo moderno e seguro", diz Siqueira, notando também que nessa nova plataforma tem uma linguagem técnica flexível a futuras alterações.

A base do Sistema Câmbio é o aparato de mensageria já conhecido pelas instituições financeiras que operam dentro da Rede do Sistema Financeiro Nacional, que abarca todas as operações do Sistema Brasileiro de Pagamentos (SPB). Recentemente, por meio de determinação do Conselho Monetário Nacional (CMN), as instituições não bancárias também foram autorizadas a entrar nessa rede. Além desse canal dedicado, os agentes também passam a ter a opção de acesso direto via internet.

Entre as melhorias práticas está a simplificação na comunicação das operações. Os dez formulários de contrato de câmbio serão substituídos por apenas um, que já reúne todas as informações sobre a natureza da operação cambial e os eventos que ela envolve (importação, exportação, remessa).

Outra alteração relevante e que já é bem recebida pelas corretoras é a possibilidade de manter arquivos de todas as operações de seus clientes em base própria. Não será mais necessário fazer todas as consultas sobre andamento e histórico de contratos de câmbio obrigatoriamente via BC.

Antes, explica, Siqueira, a corretora poderia ter os dados em sua base, mas, para efeito formal, só eram válidas as consultas feitas e expedidas pelo sistema gerido pela autoridade monetária. Desse ponto, também decorre economia de custo às corretoras, já que qualquer acesso ao sistema é pago.

De acordo com Siqueira, com esse novo sistema de câmbio também tem início um trabalho visando uma maior padronização e transparência na cobrança de tarifas.

Na semana passada, algo semelhante já foi adotado no câmbio manual, que vai deixar mais claro o quanto e o que a pessoa física está pagando, por exemplo, quando compra câmbio para viajar ao exterior.

Nos mesmos moldes do Custo Efetivo Total (CET) divulgado pelas instituições nas operações de crédito, a ideia e adotar um Valor Efetivo Total (VET) que cada banco e corretora terão de informar aos seus clientes.

"Isso permitirá uma melhor comparação de custo, saber qual o valor efetivo do negócio", diz Siqueira.

Mas essa padronização do sistema de custos é um trabalho que está começando agora.

"Ao contrário do câmbio manual, as operações de câmbio comercial e financeiro são bem mais complexas", explica.

O sistema que entre em funcionamento tem algumas etapas de implementação.

Hoje, serão registradas apenas as operações de mercado primário - empresas/instituições, por exemplo. O mercado secundário de câmbio - banco contra banco - só entra no novo esquema em julho de 2012.

O modelo novo seguirá convivendo com o "sistema velho". As contratações cambiais feitas até sexta-feira ficam no modelo antigo. No entanto, a base de dados já está unificada, integrando informações no novo com o antigo Sisbacen. A integração definitiva das duas plataformas está projetada para 2013.

Todo o trabalho que desemboca na estreia desse novo sistema começou em março do ano passado, envolveu seis áreas distintas do BC e contou com a participação de mais de 160 instituições financeiras.

Siqueira destaca que todos os documentos, atas de reuniões e deliberações tomadas, bem como especificações técnicas estão disponíveis na página eletrônica do BC, na área de câmbio e capitais internacionais na seção sistemas - Sistema Câmbio.

O mito das metas de inflação


Por Willy van Ryckeghem - Valor 03/10

O clamor quase unânime da parte dos analistas financeiros brasileiros contra a decisão do Banco Central (BC) de reduzir a taxa básica de juros em meio ponto percentual, no fim de agosto, instigou-me a defender essa surpreendente medida. Analistas financeiros não gostam de ser surpreendidos, pois isso faz com que pareçam ser incompetentes frente aos seus patrões. Sugiro, portanto, que reexaminem suas abordagens teóricas de controle da inflação.

A política brasileira de metas de inflação por meio de ajustamentos da taxa de juros sempre me pareceu um mito, tanto por razões teóricas quanto empíricas. O princípio básico por trás dessa política é que a elevação da taxa de juros reduzirá a atividade econômica, aumentará o desemprego e estabilizará salários e custos de produção. Se esse diagnóstico estivesse correto, elevações na taxa de juros deveriam preceder a inflação e não segui-la, como parece ser o caso do Brasil.

O economista francês Edmond Malinvaud, a quem um prêmio Nobel é há muito devido, mostrou em um famoso artigo na revista Econométrica, de 1962, que, em equilíbrio geral intertemporal, a taxa de juros real coincidirá com a taxa de crescimento da economia. Essa regra havia já sido formulada em 1948 por Maurice Allais, que recebeu o Prêmio Nobel em 1987. Se essa regra fosse seguida a taxa de juros real nunca deveria ser superior à taxa de crescimento da economia.

Portanto, uma política correta seria o Banco Central elevar a taxa Selic quando o crescimento acelerasse, e dessa forma precaver-se contra as pressões inflacionárias daí derivadas. Quando o crescimento arrefecesse, como acontece atualmente, a Selic deveria ser reduzida, que é o exatamente o que o Banco Central acabou de decidir. A vantagem desta política seria a de que ela ajuda a estabilizar não apenas a inflação, mas também a taxa de crescimento da economia.

Desde a crise financeira de 2008, a política de metas de inflação tem estado sob críticas por parte de proeminentes economistas, tais como Joseph Stiglitz, nos Estados Unidos, e Willem Buiter, na Europa. Stiglitz, por exemplo, chama a atenção que países em desenvolvimento frequentemente se deparam com elevadas taxas de inflação, devido não a deficiência na administração dos fundamentos macroeconômicos, mas sim devido à disparada dos preços do petróleo e de alimentos que pesam mais nos seus índices de preços do que nos dos países ricos.

Eu adicionaria a isto a influência dos preços regulados, tais como o da eletricidade, mencionado por Claudio Considera em recente artigo neste jornal (17 de julho). Altas da Selic não conseguiriam segurar estes preços, especialmente quando a agência reguladora (a Agência Nacional de Energia Elétrica - Aneel) persiste em basear-se num elevado patamar proveniente de uma fórmula errada para determinar o preço da energia elétrica.

Uma análise empírica dos dados mensais dos últimos dez anos, usando o teste de causalidade de Granger, confirma o que foi dito acima. Como esperado, os resultados mostram uma (cor)relação positiva estatisticamente significante entre inflação e a taxa Selic defasada em relação à inflação. Surpreendentemente, a (cor)relação entre a Selic e a inflação subsequente também é positiva com uma defasagem de 13 meses. Só aparece um breve impacto negativo quando a defasagem é de cinco meses. Isto significa que quando a Selic não antecipa suficientemente a inflação, ela não possui mais o desejável impacto de reduzir a inflação e, no longo prazo, pressiona os preços para cima.

Como isto é possível? Devemos lembrar que a taxa de juros básica brasileira é extremamente elevada pelos padrões internacionais, constituindo-se assim em um importante componente de custo do capital em uso e, portanto, dos custos de produção. Isto ocorre para todos os setores produtivos quer agrícolas, industriais ou mesmo de serviços. Quando os custos crescem os produtores tenderão a repassá-los para os consumidores, pressionando o IPCA.

Como então a taxa de inflação atual poderia ser controlada? Parece-me que a atual política de indexação salarial é o principal fator responsável pelo o que Larry Summers chamou de histeresis inflacionária. O aumento do salário mínimo esperado para 2012 é uma bomba relógio. Como Mario Henrique Simonsen certa vez argumentou, aumentos de salários deveriam estar amarrados à meta de inflação futura e não à inflação passada. Se a meta fosse alcançada, os salários não sofrerão perda.

A política creditícia também joga um papel importante. Os maiores bancos brasileiros estão ainda sujeitos à influência governamental: o BNDES, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, etc. O governo deveria agir junto com o Banco Central, para limitar a taxa de expansão do crédito e para àquele aumento esperado dos salários. Isto daria às empresas espaço para financiarem o capital de giro que elas necessitam para seguirem adiante. O crédito ao consumidor deveria também ser controlado de forma mais estrita.

Para finalizar, eu gostaria de sugerir que o Banco Central melhorasse a regulação da agressiva propaganda do crédito ao consumidor por parte dos bancos e financeiras, especialmente na televisão. Essa propaganda não menciona o enorme custo do crediário para o consumidor e induz as famílias a incorrer em excessivo endividamento que não poderão ser pagos no futuro.

Willy van Ryckeghem foi assessor econômico regional do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington e reside atualmente no Brasil. É co-autor com Geoffrey Maynard do livro "A World of Inflation".