quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Petroleira americana estuda deixar Brasil


Maiores operações no país estão no pós-sal; saída significa concentrar recursos para investir no golfo do México

Empresa teve sucesso em 4 blocos perfurados: Wahoo e Itaipu, ambos no pré-sal, e Itaúna e Coalho, no pós-sal

LEILA COIMBRA
DO RIO - FSP 05/10

A petroleira americana Anadarko analisa vender todos os blocos de petróleo que possui no Brasil, apesar da promissora capacidade de produção do pré-sal.
Magda Chambriard, diretora da Agência Nacional do Petróleo, confirmou ontem a informação, em evento da área de petróleo e gás. Segundo Chambriard, a Anadarko segue o mesmo caminho já trilhado pela também americana Devon, que vendeu recentemente, para a britânica BP, suas atividades de exploração de óleo em território brasileiro, para se concentrar no mercado norte-americano.
"Fico com pena, a Anadarko vinha atuando no Brasil de forma muito competente, mas é uma opção deles", disse Chambriard. A empresa teria contratado os bancos Citigroup, Morgan Stanley e Scotia Waterous para estruturar a negociação. A petrolífera obteve sucesso em quatro blocos que perfurou: Wahoo e Itaipu, ambos no pré-sal, e Itaúna e Coalho, no pós-sal.
Suas reservas no Brasil são avaliadas entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões, considerando-se a cotação de US$ 90 por barril, segundo avaliação do mercado.
Embora o pré-sal seja vantajoso do ponto de vista de reservas, as maiores operações da Anadarko no país se encontram no pós-sal. Sair do Brasil significaria poder concentrar recursos para investir no golfo do México, onde suas operações são avaliadas entre US$ 14 bilhões e US$ 20 bilhões, e na costa da África, onde seus ativos estão estimados em US$ 7 bilhões.
A Anadarko também terá de levantar recursos caso seja responsabilizada pelo vazamento da plataforma Deepwater Horizon, no golfo do México, em 2010, resultante da ruptura do poço Macondo, perfurado pela BP.
A BP concordou em destinar US$ 20 bilhões para compensar as vítimas do acidente, mas exige que seus parceiros no poço também assumam parte da responsabilidade.
A BP possui 65% do poço que explodiu, a Anadarko, 25%, e a japonesa Mitsui é dona dos 10% restantes. A Anadarko alega que o contrato com a BP, que era a operadora e detinha 65% do poço, contém uma cláusula limitando sua responsabilidade se for demonstrada negligência grosseira por parte da operadora (BP).
No entanto, em julho, o governo dos EUA disse que, pela legislação federal de poluição por petróleo, a Anadarko é parcialmente responsável pelo dano ambiental causado pelo vazamento. Ainda não houve uma decisão final sobre a questão, mas a BP cobra US$ 5 bilhões da Anadarko para cobrir custos do acidente.

Como manter o euro no ar


Por Martin Wolf - Valor 05/10

A aeronave da zona do euro foi criada "com uma asa e uma oração". A asa caiu e os deuses não estão ouvindo as orações. Todo mundo está se concentrando em evitar uma queda. Mas é igualmente vital indagar: como pilotar com segurança?

E como foi que a zona do euro mergulhou em seu infortúnio? Parte da resposta é que não dispunha de mecanismos para enfrentar crises, que seus membros divergiram enormemente e que foi prejudicada por seus primeiros sucessos.

As condições de crédito fácil e juros baixos na primeira década produziram bolhas no mercado imobiliário e crescimento explosivo na tomada de empréstimos pelo setor privado na Irlanda e na Espanha, captação exagerada de empréstimos pelo setor público na Grécia, declínios na competitividade externa da Grécia, Itália e Espanha, e enormes déficits externos, na Grécia, Portugal e Espanha. Quando os mercados financeiros entraram em pânico, os devedores sofreram uma "parada súbita", o que causou crises de iliquidez e insolvência em cascata de países e bancos. A zona do euro está correndo para alcançá-las. Mas a crise é mais rápida. Quase metade da dívida soberana exibe elevado risco de crédito.

A zona do euro não dispunha de mecanismos para o financiamento, entre países, dos tomadores de empréstimos que perderam acesso a recursos financeiros. Em tese, o ajuste deveria ter ocorrido por meio dos mecanismos clássicos: uma espiral de inadimplência de países, colapsos bancários, desaquecimento econômico, desemprego, salários em queda, austeridade fiscal e infelicidade generalizada. Ninguém preveniu a sociedade de que tal brutalidade está à espreita. Os políticos também não entenderam isso. Quando chegou a hora, todos hesitaram em agir.

Então, o que precisa ser feito? A resposta vem em dois pares: o primeiro é "estoques e fluxos", o segundo é "financiamento e ajuste". Estoques refere-se a zerar a herança do passado. Fluxos referem-se a necessidade de retomada do crescimento econômico sustentável. Financiamento e ajuste referem-se ao como e quando dos esforços para zerar os estoques e restaurar a sustentabilidade dos fluxos.

Vários membros da zona do euro saíram da crise com enorme excessos de dívida privada e soberana. Se esses estoques não puderem ser rolados, permanecerá uma mescla de financiamento e reestruturação. A reestruturação da dívida do setor privado que está sendo organizada não oferece praticamente nenhum alívio à Grécia, mas alívio substancial para antigos credores privados. No caso da Grécia, certamente (e, possivelmente, Portugal e Irlanda), é essencial uma redução substancial dos encargos do serviço da dívida.

Esse problema passa também pelos bancos, onde o estoque excessivo de empréstimos de qualidade duvidosa prejudica tanto a solvência como a liquidez. Novamente, nesse caso, a solução é financiamento - injeções de capital e apoio do banco central - e reestruturação - depreciação de ativos e de alguns passivos.

Lidar com os estoques é relativamente simples. Um desafio muito maior é conseguir fomentar fluxos sustentáveis de receitas e despesas a elevados níveis da atividade econômica. Isso significa muito mais do que a austeridade fiscal com a qual os europeus estão obcecados. Parafraseando o historiador romano Tácito, "eles criam uma depressão e a denominam de estabilidade". Para que a atividade seja restaurada, os déficits estruturais externos precisam cair para níveis facilmente financiáveis por meio de mercados privados. A Grécia e Portugal têm grandes déficits externos, um indicador irrefutável de grave falta de competitividade. Isso é também um pouco preocupante para a Espanha e a Itália, mas o problema ali é menor. A Irlanda tem um superávit externo, o que é animador para seu futuro.

Ajustes desse tipo levam tempo: é preciso que ocorram grandes mudanças tanto nos preços relativos como nos investimentos em novas atividades. Em análise pessimista para a londrina Lombard Street Research, Christopher Smallwood argumenta que a Grécia e Portugal - e até mesmo Itália e Espanha - restabelecerão sua competitividade por meio de dolorosas quedas salariais e demissões em massa.*

O que torna ainda mais difícil o ajuste é que ele envolve dois lados. Para que os déficits externos diminuam, também deverão encolher os superávits no outro lado da equação. Isso tem implicações evidentes para a Alemanha e outros países centrais. Mas esses países não reconhecem a necessidade de se ajustarem. Eles acreditam que uma só mão é capaz de bater palmas. A natureza dúplice do ajuste pode não ser tão importante para países devedores de pequeno porte. Mas é bem mais relevante no caso dos países de maior porte.

Se o ajuste necessário revelar-se impossível dentro da camisa de força da zona euro, existirão duas alternativas: abandonar o euro, com os riscos que comentei duas semanas atrás ou financiamento permanente por meio de uma união fiscal, mantendo, assim, as economias moribundas na UTI. Essa opção pode ser viável para uma ou duas economias de pequena dimensão. Mas seria impossível, economica ou politicamente, para as maiores. É por isso que os elevados spreads atuais sobre a dívida italiana e espanhola são tão perigosos para o futuro da zona euro.

O problema está nos fluxos, idiota. Apenas reduzir a carga de endividamento não resolverá esse problema. Devemos temer que economias profundamente não competitivas, não serão financiadas, mas não conseguirão se ajustar. Se assim for, eles poderão simplesmente definhar. É por isso que algumas pessoas já afirmam que a solução poderá ter de incluir o abandono do euro por alguns países. Em casamentos desfeitos, argumenta Nouriel Roubini, da Stern School, em Nova York, "é melhor ter regras - leis de divórcio - que tornam uma separação ordenada e menos onerosa para as duas partes".

O mínimo essencial com que a zona do euro precisa lidar em sua crise é um mecanismo eficaz para descontar as dívidas de endividados privados e soberanos evidentemente insolventes, como a Grécia; recursos financeiros suficientemente grandes para administrar os mercados ilíquidos de títulos de governos potencialmente solventes; e maneiras de tornar o sistema financeiro crivelmente solvente imediatamente. Os montantes necessários certamente serão várias vezes maiores do que os €440 bilhões do Fundo de Estabilidade Financeira Europeu existentes, como adverti na semana passada.

Infelizmente, porém, a zona do euro exige mais ainda: é necessário um caminho crível de ajuste, no fim do qual vejamos a restauração da saúde das economias mais fracas. Se esse caminho não for encontrado, a zona do euro, na forma em que existe hoje, será desagregada. A questão não é se, mas quando. Esse é o tamanho do problema.

* "The eurozone must shrink", www.lombardstreetresearch.com (A zona do euro precisa encolher) www.lombardstreetresearch.com. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

BC agirá para corrigir distorções do câmbio, não para defender teto


Valor 05/10

Não há razão para o real se desvalorizar mais em relação ao dólar do que outras moedas, avalia o Banco Central. Enquanto isso estiver ocorrendo de forma alheia aos fundamentos macroeconômicos do país - retratando disfuncionalidades no mercado de câmbio - o BC continuará com as intervenções, através de leilões de swap cambial. Ontem, por exemplo, a queda do real foi de 1,66% frente ao dólar, bem superior à do dólar australiano (-0,27%), mas abaixo do rand da África do Sul (-2,17%) e do peso mexicano (-1,95%).

O BC explicou, também, que não trabalha com qualquer tipo de banda cambial. Apesar das duas primeiras intervenções terem sido disparadas quando a taxa de câmbio superou o patamar de R$ 1,90, configurando-se uma espécie de teto para a cotação do dólar, o BC não confirma essa interpretação. Como exemplo de que não opera com um teto, o BC citou o fato de ter anunciado na noite de segunda-feira que faria leilões de swap na manhã de terça, sem saber como o mercado abriria.

Nas últimas semanas, houve uma discussão na área técnica do governo sobre a adoção de uma eventual nova estratégia de política cambial. Por essa concepção, o BC não entraria no mercado enquanto o dólar estivesse cotado abaixo de R$ 1,90. A partir desse valor, o BC venderia contratos de swap cambial. Na visão desses técnicos, o dólar a R$ 1,90 não traria muita pressão sobre a inflação e daria um fôlego importante à indústria nacional, tanto para ajuda-la a exportar quando para enfrentar seus concorrentes internacionais no mercado doméstico.

"Não temos banda de câmbio. Seria uma loucura mexer com nosso regime que funciona bem, que tem servido ao País neste momento, e colocar uma banda de câmbio que tanto custo já trouxe para o país no passado", afirmou o presidente do BC, Alexandre Tombini, em debate no Senado, em 27 de setembro. As declarações de Tombini foram feitas em resposta à pergunta da senadora Marta Suplicy (PT-SP), exatamente sobre se caberia ao BC defender uma banda.

Ontem, diante do surgimento da percepção de que estaria sim defendendo uma banda, o BC reiterou os argumentos de Tombini. Desde a decisão do Copom de cortar a taxa Selic em 0,5 ponto, no dia 31 de agosto, que a taxa de câmbio tem sido volátil, numa associação com as expectativas de aceleração (ou não) da trajetória de queda dos juros nos próximos meses.

Nesse período, ganhou força nas apostas do mercado de que os cortes, daqui por diante, seriam mais acentuados, na casa de 1 ponto, já na reunião deste mês. Com a divulgação do relatório trimestral de inflação, operadores de mercado retornaram para a expectativa de que a queda da Selic continuará no ritmo de 0,5 ponto.

Após nove meses de governo, as desconfianças do mercado sobre a condução da política monetária ainda são muitas. Esta semana, declarações de autoridades introduziram mais um elemento na discussão sobre os rumos da taxa de juros, a de que a presidente Dilma Rousseff quer que a Selic caia para 9% até o ano que vem. Em pronunciamentos, Dilma realça o crescimento econômico como o principal objetivo do governo. Mais recentemente, passou a citar a queda dos juros na esteira da crise externa como um grande desafio. Fatos que alimentam as dúvidas sobre o real compromisso da presidente com o controle da inflação.

'Temos que abandonar o mito do crescimento econômico infinito', diz economista


Há vinte anos, a queda do Comunismo no Leste Europeu parecia provar o triunfo do capitalismo. Mas teria sido uma ilusão?

BBC

Os constantes choques no sistema financeiro internacional nos últimos anos levaram a BBC a perguntar a uma série de especialistas se eles acham que o capitalismo fracassou.

Neste texto, Tim Jackson, professor da Universidade de Surrey e autor do livro Prosperity without Growth - Economics for a Finite Planet (Prosperidade sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito, defende o abandono do mito do crescimento infinito:

Toda sociedade se aferra a um mito e vive por ele. O nosso mito é o do crescimento econômico.

Nas últimas cinco décadas, a busca pelo crescimento tem sido o mais importante dos objetivos políticos no mundo.

A economia global tem hoje cinco vezes o tamanho de meio século atrás. Se continuar crescendo ao mesmo ritmo, terá 80 vezes esse tamanho no ano 2100.

Esse extraordinário salto da atividade econômica global não tem precedentes na história. E é algo que não pode mais estar em desacordo com a base de recursos finitos e o frágil equilíbrio ecológico do qual dependemos para sua sobrevivência.

Na maior parte do tempo, evitamos a realidade absoluta desses números. O crescimento deve continuar, insistimos.

As razões para essa cegueira coletiva são fáceis de encontrar.

O capitalismo ocidental se baseia de forma estrutural no crescimento para sua estabilidade. Quando a expansão falha, como ocorreu recentemente, os políticos entram em pânico.

As empresas lutam para sobreviver. As pessoas perdem seus empregos e em certos casos suas casas.

A espiral da recessão é uma ameaça. Questionar o crescimento é visto como um ato de lunáticos, idealistas e revolucionários.

Ainda assim, precisamos questioná-lo. O mito do crescimento fracassou. Fracassou para as 2 bilhões de pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia.

Fracassou para os frágeis sistemas ecológicos dos quais dependemos para nossa sobrevivência.

Crise e oportunidade

Mas a crise econômica nos apresenta uma oportunidade única para investir em mudanças. Para varrer as crenças de curto prazo que atormentaram a sociedade por décadas.

Para um compromisso, por exemplo, para uma reforma radical dos mercados de capitais disfuncionais.

A especulação sem controle em commodities e em derivativos financeiros trouxeram o mundo financeiro à beira do colapso há apenas três anos. Ela precisa ser substituída por um sentido financeiro mais longo e lento.

Consertar a economia é apenas parte da batalha. Também precisamos enfrentar a intrincada lógica do consumismo.

Os dias de gastar dinheiro que não temos em coisas das quais não precisamos para impressionar as pessoas com as quais não nos importamos chegaram ao fim.

Viver bem está ligado à nutrição, a moradias decentes, ao acesso a serviços de boa qualidade, a comunidades estáveis, a empregos satisfatórios.

A prosperidade, em qualquer sentido da palavra, transcende as preocupações materiais.

Ela reside em nosso amor por nossas famílias, ao apoio de nossos amigos e à força de nossas comunidades, à nossa capacidade de participar totalmente na vida da sociedade, em uma sensação de sentido e razão para nossas vidas.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

EUA desistem do livre comércio


Por Jagdish Bhagwati - Valor 04/10

A indiferença e a apatia que vemos em Washington - tanto do Congresso como do presidente Barack Obama -, em relação à Rodada Doha de negociações comerciais mundiais e o alarme e a preocupação de estadistas de outros países diante da paralisia nas negociações, assinala o fim da era pós-1945 de liderança americana no livre comércio multilateral.

Sinais de nervosismo fora dos EUA estão claros a todos há quase um ano. A chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro britânico David Cameron ficaram tão preocupados que se aliaram aos presidentes da Turquia, Abdullah Gül, e da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, para, em novembro de 2010, nomear Peter Sutherland e eu como copresidentes de um Grupo de Alto Nível de Especialistas em Comércio. Nós realizamos um painel em Davos com esses líderes em janeiro de 2011, onde, por ocasião do nosso Relatório Preliminar, demos pleno apoio à conclusão da Rodada Doha. Mas não houve resposta dos EUA.

Em setembro, o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown, o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González, e o ex-presidente mexicano Ernesto Zedillo lembraram os líderes do G-20 que em novembro de 2009, em sua primeira reunião em Londres, eles tinham manifestado "o compromisso de concluir a rodada em 2010. E, há duas semanas, a ONU reuniu-se novamente para abordar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).

O Objetivo 8 diz respeito a instrumentos como comércio e ajuda, e o ODM 8A compromete os países membros da ONU a aprofundar o desenvolvimento de um sistema financeiro aberto, baseado em regras, previsível e não discriminatório

Mas, embora praticamente todos os países hoje tenham adotado os Acordos de Livre Comércio preferenciais, o recente líder nessa proliferação são os EUA. Lá, o Congresso e o presidente têm, aparentemente, bastante tempo para discutir ALCs bilaterais com a Coreia do Sul, a Colômbia e o Panamá, bem como a Parceria TransPacífica Regional (PTR), mas nenhum para negociar a não discriminatória Rodada de Doha, que está definhando, em seu décimo ano de negociações.

De fato, é notável que embora o discurso de Obama sobre o Estado da União, em janeiro de 2010, mencione Doha, seu discurso de janeiro de 2011 não se referiu a Doha. O lamentável recuo de Obama é resultado de muitos fatores e falácias. Essas foram destacadas em uma "Carta Aberta a Obama", que organizei e divulguei, com as assinaturas dos 50 mais influentes especialistas atuais em comércio em todo o mundo, pedindo uma mudança na política em relação a Doha.

O presidente dos EUA é cativo dos sindicatos de trabalhadores do país, que compram a falsa narrativa de que o comércio com os países pobres aumenta as fileiras de pobres nos EUA. Na verdade, porém, há uma abundância de evidências em suporte à narrativa oposta, de que a rápida e profunda mudança tecnológica poupadora de mão de obra é o que está exercendo pressão sobre os salários, e que as importações de bens intensivos em mão de obra barata que os trabalhadores americanos consomem estão, na verdade, compensando aquela tensão.

Os lobistas em Washington acreditam em especialistas em comércio, como Fred Bergsten, para quem o ganho proporcionado por Doha, em sua forma atual, é de meros US$ 7 bilhões por ano. Isso ignora as perdas bem maiores que uma Rodada de Doha inconclusa implicaria, por exemplo, minando a credibilidade da Organização Mundial do Comércio como principal fiador de um comércio baseado em regras e deixando a liberalização do comércio inteiramente no âmbito de liberalização discriminatória de acordos bilaterais preferenciais. Mais uma vez, alguém precisa dizer a Obama que importações também criam empregos e que sua ênfase apenas na promoção de exportações dos EUA são má teoria econômica.

Acima de tudo, Obama é mal assessorado em comércio por seus colegas de alto nível. A secretária de Estado, Hillary Clinton, por exemplo, opôs-se à liberalização do comércio quando concorreu contra Obama à presidência e defendeu uma "pausa" nas negociações de livre comércio. Ela também interpretou erroneamente o grande economista Paul Samuelson, rotulando-o de protecionista, quando ele não disse nada do tipo. Ela nunca se retratou.

Da mesma forma, agora que Warren Buffett é considerado como o conselheiro econômico mais confiável de Obama, vale a pena recordar que em 2003 ele produziu a surpreendente prescrição segundo a qual a melhor maneira de reduzir o déficit comercial dos EUA era não permitir importações em montante superior ao que poderia financiar com sua receita de exportações. Um Samuelson, entre irônico e alarmado, chamou minha atenção para essa ideia maluca. Embora a prescrição de Buffett - impostos mais elevados para os americanos ricos - seja inteiramente desejável, será que Obama perceberá que um gênio numa área pode ser um idiota em outra?

O que precisamos hoje é que os maiores estadistas do mundo abandonem sua cautela e timidez e unam-se para empurrar Obama na direção de uma conclusão bem sucedida para a Rodada Doha. Somente isso se constituiria em contrapeso às forças que o levam à direção errada. Ainda não é tarde demais. (Tradução Sergio Blum)

Jagdish Bhagwati é professor de economia e direito na Universidade de Columbia e membro sênior de Economia Internacional no Council on Foreign Relations Copyright: Project Syndicate, 2011.

Metas inflacionárias


Por Antonio Delfim Netto - Valor 04/10

Para tornar a política econômica mais eficaz e útil, é preciso ter presente que somos constrangidos pelos limites impostos por uma Constituição legitimamente construída em 1988 e que pretende: 1) ser republicana, onde todos, inclusive o poder incumbente, devem obedecê-la; 2) ser democrática, onde o poder é escolhido livremente (e dispensado!) pelo sufrágio universal; e 3) ter como seu objetivo último uma relativa e crescente "justiça social", que deve manifestar-se no aumento contínuo da igualdade de oportunidade para os cidadãos. Em outras palavras, é necessário entender a economia como imersa na sociedade e sujeita às suas prioridades.

A igualdade de oportunidade é objetivo fácil de ser enunciado, mas esconde enormes problemas conceituais e práticos. De qualquer forma, deve começar com a chance de todo cidadão ganhar a vida com o seu esforço. De todos os desperdícios de recursos naturais de uma sociedade, nenhum é mais injusto, mais prejudicial à integração social e à autoestima do cidadão, do que negar-lhe a oportunidade de viver honestamente e sustentar a família com o resultado de seu trabalho.

É por isso que a construção de uma sociedade mais "justa' começa pela maximização do nível de emprego disponível. Obviamente, não se trata do emprego de todos ao mesmo tempo. Nossa organização econômica tem íncita um dinamismo próprio, estimulado pela mudança das preferências dos consumidores e pelo desenvolvimento tecnológico, que exige permanente adaptação da estrutura produtiva: algumas atividades entram em declínio e cedem recursos (mão de obra inclusive) para outras, que atendem melhor à "nova e mutante" estrutura da demanda. O processo não é instantâneo, nem isento de custos e riscos.

Nunca há equilíbrio: simplesmente a passagem de uma situação, às vezes "pensada" como equilíbrio, para outra, que também não será de "equilíbrio", ainda que possamos "pensá-la" como tal. Esse "tempo de acomodação" gera um desemprego friccional que a sociedade "justa" tem que socorrer, com as políticas sociais do Estado.

É dessa concepção do mundo que nasceu a divergência entre duas "escolas" de pensamento econômico, diante da evidente existência e persistência do desemprego: 1) de um lado, os que acreditam que, no longo prazo, o desinibido funcionamento dos mercados produzirá, por si mesmo, sem a intervenção externa do Estado, um ajustamento, a despeito de não se saber bem o que é "longo prazo" e de reconhecer que o processo pode ter armadilhas e defasagens temporais com relação ao emprego; e 2) do outro, os que não acreditam que o sistema de mercado seja capaz de produzir, por si, a redução do desemprego, em geral gerado por deficiência da demanda agregada, para levar à plena utilização da capacidade produtiva.

A economia, se for alguma coisa, é uma ciência social. Tenta entender um universo mutante, onde todas as "constantes" são "variáveis" e, não importa qual a potência da metodologia usada para torturar o passado para que ele revele o futuro, este continua opaco. Como não é possível construir experimentos críticos capazes de discriminar entre as duas visões, é claro que ambas envolvem larga dose de ideologia. É fato conhecido que nas ciências sociais as preferências não reveladas de pesquisadores, que se supõem "neutros", influenciam os seus resultados.

A despeito dessa divergência (no tempo, cada lado já trocou da posição de ortodoxo para heterodoxo, de acordo com o "espírito do mundo"), o conhecimento de como funciona a organização econômica da sociedade e de como se comportam seus agentes - e de como reagem à ação do governo e dos efeitos não intencionais que ela acaba produzindo- tem crescido de maneira importante e revelado equívocos e exageros de ambas as partes.

A evolução da economia, desde a crise de 2007, e as tentativas de superar a crise financeira que atingiu o setor produtivo, consolidaram a ideia que o sistema de economia de mercado, deixado a si mesmo e, pior, contaminado por inovações financeiras que têm papel duvidoso para o desenvolvimento econômico, não tem nenhuma condição de se autocorrigir.

Por outro lado, as políticas econômicas sugeridas pelos que não acreditam na autocorreção do mercado mostraram sérias limitações. A conclusão é que, apesar das evidências mostrarem que na atual conjuntura esperar um autoajuste do mercado é absurdo, isso não autoriza liberdades com a política econômica.

As políticas fiscal, monetária e cambial do governo parecem estar na direção correta. São condicionadas a um cenário mundial em clara deterioração e tentam antecipar o que pode ocorrer com a taxa de crescimento econômico e logo em seguida, também, sobre o nível de emprego. Não há abandono da política de metas inflacionárias, quando se altera o peso dado ao desvio entre a inflação corrente e sua meta, relativamente ao desvio entre o PIB e o PIB potencial (seja lá o que isso for) para fixar a taxa de juros.

Ninguém subscreveria hoje esta barbaridade autoritária que, até 2007, era o limite intransponível da "ciência" monetária: "A sociedade pode, às vezes, melhorar seu bem-estar nomeando um banqueiro central que não compartilha (sic) seus objetivos sociais e que, em seu lugar, aumente o "peso" da estabilização monetária relativamente à estabilidade do emprego" (Rogoff, K.S., 1985).

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Alessio Rastani na BBC (com legendas em português)

Banco Central inaugura novo sistema para operações de câmbio


Valor 03/10

O Banco Central (BC) dá mais um passo dentro do projeto de modernização do mercado de câmbio. Nesta segunda-feira entra em vigor um novo sistema para o registro das operações com moeda estrangeira.

Segundo o chefe da Gerência-Executiva de Normatização de Câmbio e Capitais Estrangeiros, Geraldo Magela Siqueira, foram investidos R$ 4 milhões na compra de equipamentos e na elaboração desse projeto que "toma lugar" do antigo Sisbacen Câmbio, datado de 1985.

A contrapartida desse investimento é uma redução de custo operacional do BC da ordem de 70%. Mensalmente, gerenciar as operações de entrada e saída de moeda estrangeira custava cerca de R$ 5,5 milhões à autoridade monetária. Agora, a previsão é que se gaste R$ 1,5 milhão.

E a perspectiva, segundo Siqueira, é de que alguma forma essa economia operacional proporcionada pela evolução do sistema chegue ao lado real da economia. Claro que a redução de custos não deve acontecer na mesma proporção, já que ela representa apenas uma das diversas etapas que compõem uma operação cambial.

"O que estamos implantando é um modelo moderno e seguro", diz Siqueira, notando também que nessa nova plataforma tem uma linguagem técnica flexível a futuras alterações.

A base do Sistema Câmbio é o aparato de mensageria já conhecido pelas instituições financeiras que operam dentro da Rede do Sistema Financeiro Nacional, que abarca todas as operações do Sistema Brasileiro de Pagamentos (SPB). Recentemente, por meio de determinação do Conselho Monetário Nacional (CMN), as instituições não bancárias também foram autorizadas a entrar nessa rede. Além desse canal dedicado, os agentes também passam a ter a opção de acesso direto via internet.

Entre as melhorias práticas está a simplificação na comunicação das operações. Os dez formulários de contrato de câmbio serão substituídos por apenas um, que já reúne todas as informações sobre a natureza da operação cambial e os eventos que ela envolve (importação, exportação, remessa).

Outra alteração relevante e que já é bem recebida pelas corretoras é a possibilidade de manter arquivos de todas as operações de seus clientes em base própria. Não será mais necessário fazer todas as consultas sobre andamento e histórico de contratos de câmbio obrigatoriamente via BC.

Antes, explica, Siqueira, a corretora poderia ter os dados em sua base, mas, para efeito formal, só eram válidas as consultas feitas e expedidas pelo sistema gerido pela autoridade monetária. Desse ponto, também decorre economia de custo às corretoras, já que qualquer acesso ao sistema é pago.

De acordo com Siqueira, com esse novo sistema de câmbio também tem início um trabalho visando uma maior padronização e transparência na cobrança de tarifas.

Na semana passada, algo semelhante já foi adotado no câmbio manual, que vai deixar mais claro o quanto e o que a pessoa física está pagando, por exemplo, quando compra câmbio para viajar ao exterior.

Nos mesmos moldes do Custo Efetivo Total (CET) divulgado pelas instituições nas operações de crédito, a ideia e adotar um Valor Efetivo Total (VET) que cada banco e corretora terão de informar aos seus clientes.

"Isso permitirá uma melhor comparação de custo, saber qual o valor efetivo do negócio", diz Siqueira.

Mas essa padronização do sistema de custos é um trabalho que está começando agora.

"Ao contrário do câmbio manual, as operações de câmbio comercial e financeiro são bem mais complexas", explica.

O sistema que entre em funcionamento tem algumas etapas de implementação.

Hoje, serão registradas apenas as operações de mercado primário - empresas/instituições, por exemplo. O mercado secundário de câmbio - banco contra banco - só entra no novo esquema em julho de 2012.

O modelo novo seguirá convivendo com o "sistema velho". As contratações cambiais feitas até sexta-feira ficam no modelo antigo. No entanto, a base de dados já está unificada, integrando informações no novo com o antigo Sisbacen. A integração definitiva das duas plataformas está projetada para 2013.

Todo o trabalho que desemboca na estreia desse novo sistema começou em março do ano passado, envolveu seis áreas distintas do BC e contou com a participação de mais de 160 instituições financeiras.

Siqueira destaca que todos os documentos, atas de reuniões e deliberações tomadas, bem como especificações técnicas estão disponíveis na página eletrônica do BC, na área de câmbio e capitais internacionais na seção sistemas - Sistema Câmbio.

O mito das metas de inflação


Por Willy van Ryckeghem - Valor 03/10

O clamor quase unânime da parte dos analistas financeiros brasileiros contra a decisão do Banco Central (BC) de reduzir a taxa básica de juros em meio ponto percentual, no fim de agosto, instigou-me a defender essa surpreendente medida. Analistas financeiros não gostam de ser surpreendidos, pois isso faz com que pareçam ser incompetentes frente aos seus patrões. Sugiro, portanto, que reexaminem suas abordagens teóricas de controle da inflação.

A política brasileira de metas de inflação por meio de ajustamentos da taxa de juros sempre me pareceu um mito, tanto por razões teóricas quanto empíricas. O princípio básico por trás dessa política é que a elevação da taxa de juros reduzirá a atividade econômica, aumentará o desemprego e estabilizará salários e custos de produção. Se esse diagnóstico estivesse correto, elevações na taxa de juros deveriam preceder a inflação e não segui-la, como parece ser o caso do Brasil.

O economista francês Edmond Malinvaud, a quem um prêmio Nobel é há muito devido, mostrou em um famoso artigo na revista Econométrica, de 1962, que, em equilíbrio geral intertemporal, a taxa de juros real coincidirá com a taxa de crescimento da economia. Essa regra havia já sido formulada em 1948 por Maurice Allais, que recebeu o Prêmio Nobel em 1987. Se essa regra fosse seguida a taxa de juros real nunca deveria ser superior à taxa de crescimento da economia.

Portanto, uma política correta seria o Banco Central elevar a taxa Selic quando o crescimento acelerasse, e dessa forma precaver-se contra as pressões inflacionárias daí derivadas. Quando o crescimento arrefecesse, como acontece atualmente, a Selic deveria ser reduzida, que é o exatamente o que o Banco Central acabou de decidir. A vantagem desta política seria a de que ela ajuda a estabilizar não apenas a inflação, mas também a taxa de crescimento da economia.

Desde a crise financeira de 2008, a política de metas de inflação tem estado sob críticas por parte de proeminentes economistas, tais como Joseph Stiglitz, nos Estados Unidos, e Willem Buiter, na Europa. Stiglitz, por exemplo, chama a atenção que países em desenvolvimento frequentemente se deparam com elevadas taxas de inflação, devido não a deficiência na administração dos fundamentos macroeconômicos, mas sim devido à disparada dos preços do petróleo e de alimentos que pesam mais nos seus índices de preços do que nos dos países ricos.

Eu adicionaria a isto a influência dos preços regulados, tais como o da eletricidade, mencionado por Claudio Considera em recente artigo neste jornal (17 de julho). Altas da Selic não conseguiriam segurar estes preços, especialmente quando a agência reguladora (a Agência Nacional de Energia Elétrica - Aneel) persiste em basear-se num elevado patamar proveniente de uma fórmula errada para determinar o preço da energia elétrica.

Uma análise empírica dos dados mensais dos últimos dez anos, usando o teste de causalidade de Granger, confirma o que foi dito acima. Como esperado, os resultados mostram uma (cor)relação positiva estatisticamente significante entre inflação e a taxa Selic defasada em relação à inflação. Surpreendentemente, a (cor)relação entre a Selic e a inflação subsequente também é positiva com uma defasagem de 13 meses. Só aparece um breve impacto negativo quando a defasagem é de cinco meses. Isto significa que quando a Selic não antecipa suficientemente a inflação, ela não possui mais o desejável impacto de reduzir a inflação e, no longo prazo, pressiona os preços para cima.

Como isto é possível? Devemos lembrar que a taxa de juros básica brasileira é extremamente elevada pelos padrões internacionais, constituindo-se assim em um importante componente de custo do capital em uso e, portanto, dos custos de produção. Isto ocorre para todos os setores produtivos quer agrícolas, industriais ou mesmo de serviços. Quando os custos crescem os produtores tenderão a repassá-los para os consumidores, pressionando o IPCA.

Como então a taxa de inflação atual poderia ser controlada? Parece-me que a atual política de indexação salarial é o principal fator responsável pelo o que Larry Summers chamou de histeresis inflacionária. O aumento do salário mínimo esperado para 2012 é uma bomba relógio. Como Mario Henrique Simonsen certa vez argumentou, aumentos de salários deveriam estar amarrados à meta de inflação futura e não à inflação passada. Se a meta fosse alcançada, os salários não sofrerão perda.

A política creditícia também joga um papel importante. Os maiores bancos brasileiros estão ainda sujeitos à influência governamental: o BNDES, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, etc. O governo deveria agir junto com o Banco Central, para limitar a taxa de expansão do crédito e para àquele aumento esperado dos salários. Isto daria às empresas espaço para financiarem o capital de giro que elas necessitam para seguirem adiante. O crédito ao consumidor deveria também ser controlado de forma mais estrita.

Para finalizar, eu gostaria de sugerir que o Banco Central melhorasse a regulação da agressiva propaganda do crédito ao consumidor por parte dos bancos e financeiras, especialmente na televisão. Essa propaganda não menciona o enorme custo do crediário para o consumidor e induz as famílias a incorrer em excessivo endividamento que não poderão ser pagos no futuro.

Willy van Ryckeghem foi assessor econômico regional do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington e reside atualmente no Brasil. É co-autor com Geoffrey Maynard do livro "A World of Inflation".

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Commodities têm pior mês desde 2008

Valor 30/09

As commodities agrícolas tiveram em setembro, até o fechamento de ontem, o pior desempenho desde o ápice de crise financeira detonada pela quebra do banco Lehman Brothers, em 2008. Segundo o Valor Data, os contratos futuros de segunda posição - geralmente, os de maior liquidez - recuaram em sete dos dez mercados monitorados, considerando-se os preços médios praticados.

Na bolsa de Chicago, o trigo registrou a maior queda média mensal (-4,23%), seguido por milho (-2,54%), farelo (-2,10%) e soja (-0,94%). No mercado nova-iorquino, a maior queda foi a do cacau (-5,60%), acompanhada por açúcar (-4,23%) e suco de laranja (3,84%). Na contramão, tiveram ganhos os contratos de algodão (2,96%), café (0,99%) e óleo de soja (0,08%).

Mas as médias mensais não captaram o tamanho do estrago provocado pelo recrudescimento da crise nos países desenvolvidos. Quando considerada a variação acumulada no mês, as perdas foram generalizadas, sendo que a maioria dos mercados agrícolas amargou perdas de dois dígitos.

Mesmo com a recuperação de ontem, uma reação dos investidores à divulgação de notícias positivas na Europa e nos Estados Unidos, os contratos de milho acumulavam queda de 15,86%, os de soja, 14,84% e os de trigo, 13,36%. Em Nova York, o café registrava queda de 18,68%, acompanhada por açúcar e suco de laranja, que recuavam respectivamente 10,42% e 5,6% em setembro. O melhor desempenho foi o do algodão, que recuou apenas 3,39% desde o fechamento do dia 31 de agosto.

O grupo de commodities agrícolas do índice Dow Jones-UBS, que monitora uma cesta de produtos alimentícios negociados nas bolsas internacionais, registrou queda de 15,2% - a maior desde outubro de 2008. Os produtos agrícolas caíram mais que a média das commodities. Em setembro, o índice CRB, que acompanha também matérias-primas metálicas e energéticas, caiu 10,69% - também neste caso, o maior recuo desde outubro de 2008.

As commodities, como um todo, sofreram com a piora dos indicadores econômicos globais. Os sinais de recessão nas economias maduras e os temores de um calote soberano por parte da Grécia fizeram crescer a aversão dos investidores a ativos de risco. De acordo com o analista do Jefferies Bache, em Nova York, Vinícius Ito, fundos liquidaram quase 100 mil contratos futuros de soja, 50 mil de milho e 17 mil de trigo ao longo do mês.

Segundo Ito, fatores sazonais também influenciaram a aposta contra os mercados agrícolas. "A colheita da safra de grãos nos Estados Unidos exerce uma pressão natural nesta época do ano. Além disso, o mercado havia exagerado na precificação dos problemas climáticos americanos e da demanda chinesa", avalia.

A desvalorização do real frente o dólar também influenciou diretamente as commodities agrícolas. "O 'crash' da moeda brasileira mudou dramaticamente a estrutura de preços necessária para uma equação adequada de oferta e demanda para a maioria das commodities agrícolas nos Estados Unidos", afirma Shawn Hacket, presidente da Hackett Financial Advisors em um relatório enviado por e-mail. Ele lembra que o real é uma das moedas mais correlacionadas aos preços agrícolas internacionais. "Ainda há espaço para mais correções até que o novo regime de preços encontre um equilíbrio", alerta.

Contudo, analistas ainda rejeitam uma comparação com o cenário observado em 2008, após a quebra do Lehman Brothers. "Tudo ainda é muito incerto, mas a situação, embora muito grave, é melhor do que a de 2008. Havia então a expectativa real de um colapso do sistema financeiro, o que parece não haver agora", afirma Ito.

Rodrigo Costa, analista de mercado da Caturra Coffee Corporation, em Nova York, observa que o nível de alavancagem é muito menor do que nos meses que precederam a crise americana, razão pela qual não vê muito espaço para um grande volume de liquidações nos próximos meses. "Tudo vai depender do quão grave vai ser a recessão, de que forma vai atingir os Estados Unidos e se vamos ter a quebra de bancos nos países desenvolvidos. Mas é claro que, se tivermos novos surtos de aversão a risco, as commodities serão afetadas, principalmente pela via do câmbio".

Ito acredita que os preços podem experimentar uma retomada no início de outubro, encerrado o período de ajuste nos portólios dos fundos de investimento. "No mercado da soja, os compradores veem a queda dos preços como uma oportunidade. Os fundamentos são positivos. Os estoques estão em níveis historicamente baixos, e há uma procura muito grande por parte da China e da União Europeia por soja e derivados", conta.

Com a queda deste mês, praticamente todas as mercadorias estão no vermelho em 2011. A exceção fica por conta do milho, que até ontem acumulava valorização de 1,18%. Nos 12 meses, porém, a maioria ainda contabiliza ganhos - destaque para o milho, com valorização de 26,71%, e o café, com 28,31%.

O mercado está condenado


'Em 12 meses, milhões vão sumir.
Isso é só o começo.
O pior risco é não fazer nada. Proteja seus ativos'


Por BARBARA GANCIA FSP 30/09


REPERCUTIU ATÉ no dogão da dona Maria o show que um operador de mercado deu na BBC nesta semana. Chamado a opinar sobre a crise, ele foi tão contundente que fez a entrevistadora admitir:
"O senhor acaba de derrubar o queixo de todos no estúdio".
De fato, o quadro pintado pelo zé-mané foi aterrorizante, um desalento para quem tem ainda alguma ilusão quanto a democracia e o capitalismo. O seu emprego, meu dileto leitor, sua poupança, sua reles existência, aparentemente, nada disso interessa ao sistema financeiro globalizado. Ninguém quer saber, inclusive, do seu voto ou impostos.

Estamos cansados de ouvir essa verdade ser contada pela boca de filósofos como Slavoj Zizek, que vivem de detonar o sistema. Mas quando a crítica vem de dentro apavora um tico a mais.
O operador independente Alessio Rastani (apelido "Ratfuck") foi tão rústico em sua análise sobre a crise na Europa que lembrou Roberto Jefferson quando o deputado apontou o dedo para o então ministro José Dirceu.

O vídeo está aqui, mas não precisa sair correndo para assistir que eu conto tudo. Antes, porém, algumas considerações sobre a motivação do senhor Rastani.
A mim realmente não importa se o operador é ex-funcionário de algum grande fundo, se tomou um chute no fiofó da Goldman Sachs, se agiu movido por ressentimento ou se expôs os fatos em toda a crueza porque a mulher passou a noite com dor de cabeça.

Tem gente dizendo que se trata de mercenário ou impostor. Ora, será que é tão difícil assim aceitar que até um "trader" possa ter alma? Em vez de insultá-lo, eu lhe daria um troféu. Nunca vi usar de tamanha objetividade para descrever situação tão complexa.
Se você também consegue pressentir que os pacotes foram insuficientes, que falta regulamentação, que nada do que estava errado foi corrigido e que poucos controlam toda a flutuação, também saberá apreciar o que ele disse.

Ele abre sentenciando que "O mercado está condenado". A entrevistadora pergunta o que se deve fazer. "Veja, não tenho esse tipo de preocupação", diz. "Sou um operador de mercado, se enxergo uma oportunidade de ganhar dinheiro, corro atrás. Não é problema meu como vão sanear a economia. Pessoalmente, venho sonhando com esta crise há três anos. Vou confessar uma coisa: eu vou para a cama toda noite sonhando com uma nova recessão, com um momento como este".

Não é de morder uma pessoa capaz desta candura elevada? Rastani continua: "Muita gente ganhou com a crise de 29 e isso não é só para uma pequena elite, é para todos. Quando o mercado despenca, quem planejou pode ganhar com estratégias de 'hedging' e investindo em títulos do governo. Daqui a 12 meses, a poupança de milhões de pessoas irá desaparecer. E isso é só o começo. O pior risco que você pode correr hoje é não tomar providências. Proteja seus ativos. Esta crise é como um câncer. Não se deve esperar que o governo resolva. Prepare-se.

Governos não mandam no mundo, quem manda é a Goldman Sachs". E viva a volatilidade! Amigo meu, mestre do universo em pé de igualdade com Gordon Gekko e Sherman McCoy, só ficou decepcionado com essa última parte da fala.

"Teria preferido vê-lo desprezar a Goldman Sachs, não é tudo isso, não", disse-me. "De resto, porém, o camarada não errou". Bora andar de montanha-russa, então!

barbara@uol.com.br

Pesquisa indica expectativa de uma freada forte da China


Valor 30/09

A maioria dos investidores pelo mundo prevê que o crescimento da China vai desacelerar para menos de metade do ritmo mantido desde que o governo começou a desmantelar a economia comunista de Mao Tsé-tung, três décadas atrás. É o que revela uma pesquisa da agência de notícias Bloomberg.

Entre os entrevistados, 59% disseram que o Produto Interno Bruto (PIB) da China, que cresceu 9,5% no trimestre passado, estará avançando menos de 5% em torno de 2016. Para 42% dos consultados, essa desaceleração ocorrerá dentro de um ano; já 47% afirmaram que esse esfriamento da economia chinesa acontecerá em dois a cinco anos, segundo a sondagem trimestral Bloomberg Global Poll com investidores, analistas e traders em todo o mundo que são assinantes da Bloomberg.

A China, que em meio à crise mundial em 2008-09 registrou a maior queda em suas exportações desde pelo menos 1979, pode não ser capaz de contar com seu comércio exterior em meio a um queda prolongado da demanda na Europa e nos EUA, que agora estão lutando para evitar uma recaída recessiva. O gerenciamento de um declínio econômico deverá recair sobre os próximos líderes do Partido Comunista, pois o presidente, Hu Jintao, e o premiê, Wen Jiabao, iniciarão no ano que vem a transição para a transferência do poder no país.

Se não estivermos comprando coisas, eles não as estarão produzindo", disse Charles Doraine, executivo-chefe da Doraine Wealth Management, do Texas, um dos entrevistados na pesquisa que ouviu 1.031 investidores, analistas e traders em 26 de setembro. A margem de erro de pesquisa é de 3,1 pontos, para mais ou para menos.

Jerome Selle, diretor de investimentos da MW Gestion, de Paris, citou uma potencial bolha imobiliária chinesa e inflação elevada, juntamente com o enfraquecimento das economias americana e europeia, como sinais de alerta para os chineses.

Mesmo assim, para muitos investidores, a perspectiva de curto prazo permanece positiva. Instados a identificar o mercado que oferece os melhores retornos nos próximos 12 meses, 23% escolheram a China, que perdeu apenas para os 30% que escolheram os EUA. O índice Shanghai Composite de ações está em baixa de 16%, neste ano, em comparação com quedas de 8,5% no índice Standard & Poors 500 e de 12,2% no índice MSCI World. O Shanghai Composite recuou 1,1%, hoje.

Desde que Deng Xiaoping iniciou a transição para políticas de livre mercado, em 1979, a China vem crescendo a uma taxa média anual de 10%. Essa transformação econômica tirou mais de 600 milhões de pessoas da pobreza, fez da China o maior exportador do mundo e consolidou a hegemonia do Partido Comunista no poder.

Agora, quatro anos após o início de uma crise financeira desencadeada pelo colapso de títulos lastreados no mercado habitacional americano, alguns investidores estão começando a duvidar da capacidade de resistência da China. Investidores disseram que a economia chinesa está se "deteriorando", em vez de "melhorando", segundo uma proporção de quase três para um: 38% contra 13%. Mas 47% dos entrevistados consideraram a economia chinesa como "estável".

As expectativas dos investidores para a segunda maior economia do mundo divergem da visão de economistas chineses, inclusive de profissionais da HSBC Holdings, Nomura Holdings, Capital Economics e do Conselho de Estado, equivalente a um gabinete ministerial. Lu Zhongyuan, vice-diretor do Centro de Pesquisas de Desenvolvimento do Conselho de Estado, disse em entrevista coletiva ontem, em Pequim que o crescimento nos próximos cinco anos provavelmente superará 8%.

Os estatísticos chineses publicam dados trimestrais de PIB antes das agências correspondentes em outros países, como EUA, Alemanha e Japão, e alguns analistas têm questionado sua precisão. Um candidato à sucessão de Wen, o vice-premiê Li Keqiang, considera que os números do PIB não são confiáveis, segundo um despacho diplomático americano de 2007 vazado pelo site Wikileaks.

"Tentar avaliar a China é muito semelhante a tentar compreender o balanço de um grande banco, como o Citigroup", afirmou Andrew Paolillo, gerente de portfólio da Rocky Hill Advisors, de Massachusetts, nos EUA. "É uma caixa tão preta que, de fora, não existe maneira possível de você poder ver o que há realmente lá dentro".

O setor minerador de carvão chinês é um barômetro do acúmulo de sinais de esfriamento econômico, disse Michael Shamosh, diretor de investimentos da Capital Markets Corby, de Boston. As ações da Yanzhou Coal Mining, quarta maior produtora de combustíveis chinesa, caíram cerca de 46% desde o pico em 31 de maio, em negócios na bolsa de Hong Kong.

"Alguma coisa não está batendo", disse Shamosh. "Nada é mais importante para a China do que o carvão." Ele disse que um declínio no preço do cobre, em queda de quase 25% desde 1º de agosto, é outro indicador de desaceleração, porque a urbanização e o boom imobiliário local tornaram os chineses os maiores consumidores desse metal em todo o mundo.

Doraine concordou com a afirmação, dizendo: "O preço das matérias-primas está caindo. Significa a China não as está comprando".

As autoridades chinesas estão tentando mudar a economia, aproximando-a de um modelo mais centrado no consumo interno, depois que um congelamento do crédito mundial contribuiu para uma queda de cerca de US$ 230 bilhões em exportações do país em 2009, o maior desde que o Escritório Nacional de Estatísticas começou a compilar os dados, em 1979.

"O motor de crescimento econômico chinês necessita de uma regulagem", disse Robert Zoellick, o presidente do Banco Mundial, em coletiva de imprensa em Pequim, em 5 de setembro. "É difícil, para mim, acreditar que uma dependência contínua de crescimento puxado por exportações e investimentos dará certo para a China nos próximos 10 anos".

Os investidores americanos revelaram-se mais pessimistas quanto às perspectivas para a China do que seus colegas na Europa e na Ásia. Os EUA são a única região onde mais investidores descreveram a economia chinesa como "em deterioração" do que "estabilizada", e 21% dos americanos entrevistados disseram que a China oferecerá dos piores retornos a investimentos nos próximos 12 meses, perdendo apenas para a União Europeia.

Os entrevistados conservam, no entanto, a sua confiança na capacidade da liderança chinesa de enfrentar as crescentes dificuldades econômicas.

O sucessor do presidente Hu deverá ser escolhido durante o congresso de líderes do Partido Comunista no fim de 2012. Hu e Wen deixarão seus cargos de governo em março de 2013.

Todd Martin, estrategista de mercado acionário asiático no Societe Generale Asia, em Hong Kong, elogia o governo da China por sua disposição no combate à inflação e à bolha imobiliária. Os preços ao consumidor subiram 6,2% em agosto (no acumulado de doze meses), desacelerando em comparação ao aumento de 6,5% em julho.

"Enquanto a China estiver disposta a reformar-se e adaptar-se, seu padrão de vida e as oportunidades de investir e obter excelente retornos no país serão enormes", afirmou Martin.

Nos últimos 20 anos, a taxa de crescimento chinesa mais baixa foi de 6%, no quarto trimestre de 1999, em meio aos efeitos da crise financeira asiática de 1997-1998.

Um "pouso brusco", equivalente a menos de 5% de crescimento, do país mais populoso do mundo, seria "desastrosa" para a economia mundial, disse Qu Hongbin, economista do HSBC em Hong Kong. O país não seria capaz de criar empregos suficientes para as pessoas que chegam ao mercado de trabalho, o que causaria um "grave problema social", disse. "Eu preferiria apostar no fim do mundo para daqui a cinco anos do que arriscar que o crescimento chinês cairá para 5%."

Nem todos os economistas dizem que um crescimento de 5% é mau para a China. Uma transição bem sucedida para um crescimento econômico puxado por gastos domésticos reduziria a chance de aumento do desemprego e de endividamento excessivo para bancar investimentos, segundo Michael Pettis, professor de finanças da Universidade de Pequim.

"A China pode tolerar um crescimento bem menor, se mudar o seu modelo", disse Pettis.

O euro, de novo. Ainda?


Por José Francisco de Lima Gonçalves - Valor 30/09

Em julho de 2010, o Cenário Fator manifestava preocupação com a "solução" dada pelo G-20 e pela zona do euro aos problemas visíveis da Grécia, Portugal e Irlanda: "O pacote da zona do euro parte de uma série de pesquisas a respeito de 'consolidações fiscais' mais ou menos duráveis... tal proposta decorre da seguinte avaliação: a austeridade fiscal acalma os mercados de títulos (públicos) e reduz os prêmios pagos; ademais, cortes de gastos hoje acalmam os pagadores de impostos por reduzir a necessidade de ajustes fiscais (impostos?) no futuro. É uma aplicação das expectativas racionais que envolve, dentre outras, eficiência do mercado financeiro".

À época, cabia considerar as fragilidades teóricas do argumento e que a evidência empírica citada pelos partidários de tal formulação não guardava qualquer semelhança com a situação concreta de então. Uma coisa é tomar ajustes fiscais isolados e idiossincráticos, outra em um contexto de pós-crise global em um mercado em que o grosso do comércio é feito dentro do euro. O sofisma da composição atacava novamente, sob o olhar cínico dos proponentes.

A dificuldade era tratar de uma política que se aplica a países em situações diferentes: um país com déficits fiscais e/ou em conta corrente pode "contaminar" a qualidade da dívida soberana de um país saudável que tenha que emitir títulos soberanos para aportar no Fundo de Estabilização.

Assim, uma dura trajetória se desenhava diante de todos os países do euro. "Aumentos de impostos e cortes de gastos em países equilibrados ou superavitários em conta corrente já é doído. Já para países com déficit em conta corrente, a questão da 'competitividade' dada a taxa de câmbio nominal persiste: como reduzir os salários do setor privado? Com deflação, o que exige recessão em algum grau."

O efeito sobre o crescimento econômico da área era fácil de antever: "Muito fraco e heterogêneo... Não há como manter as projeções de crescimento das economias do G-20 para 2010, 2011 e 2012. Ou elas são revistas para baixo nesse horizonte, ou ninguém levou a sério o plano. Primeiro e fatal problema: prometer e não entregar."

Mais de um ano depois, a opinião generalizada oscila nas probabilidades atribuídas à continuidade do programa de financiamento pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, em inglês), à implementação de uma "saída organizada" e a um calote puro e simples. Mesmo quem vê chance na manutenção do programa de estabilização da Grécia não tem muita coragem de dizer que o mesmo não envolveria mais uma dúzia de rodadas de revisão das inatingíveis metas.

A começar do efeito prejudicial das políticas fiscais "críveis" sobre o crescimento econômico, mais do mesmo foi prometido: sob recessão, a Grécia vai fazer mais esforço fiscal e, pasmem, privatizações.

De um ponto de vista formal, as sugestões oscilam entre mais união fiscal e a exclusão dos ineficientes. Os dois extremos são politicamente inviáveis, ao menos no plano explícito. Tão úteis quanto buscar os responsáveis pelo "erro histórico" denunciado agora pelos oportunistas usuais.

A união fiscal é projeto de gerações e não de semanas ou meses. A criação do primeiro marco alemão demorou 35 anos. A França liderou o bloco da prata com câmbio fixo até 1935 (quatro anos depois de a libra flutuar e dois anos e meio depois de o dólar dos Estados Unidos fazer o mesmo). Deixar sair - ou expulsar - o ineficiente é penalizar também os que ficam.

Se fosse possível excluir apenas a Grécia, a hiperinflação lá provavelmente seria acompanhada de rupturas no mercado bancário e no financiamento de Portugal e Irlanda, para dizer o mínimo. A saída de massa suficiente causaria uma valorização no euro remanescente que levaria os ortodoxos a pedir mais produtividade aos alemães. Já não o fazem com a Suíça?

Em 26/03/2008, o Economia Online do Banco Fator trazia os cinco passos para o "moral hazard". Os passos são "denial, anger, bargaining, depression, acceptance". Naquela altura, antes do resgate do Bear Sterns, já ficava claro que a destruição de riqueza recairia sobre os governos. É onde estamos, novamente. Desde o fim de 2009 as partes relevantes negam a seriedade da situação grega e, com isso, ajudam a criar dúvidas sobre Portugal, Irlanda, Espanha e Itália.

Formalmente disseram que a Grécia era extraordinária em maio passado, mas nada fizeram para que a dúvida geral não se instalasse. E não se escuta nenhuma parte relevante argumentar que a destruição causada pela saída da Grécia e/ou de outro país do euro é o fundamento da aceitação de que é impossível separar os agentes privados solventes dos insolventes, embora seja possível fazê-lo com os países.

De um ponto de vista prático, a solução já está em andamento: o Banco Central Europeu (BCE) e o EFSF já estão no jogo, um agindo informalmente, o outro sendo objeto de constantes sugestões: aumenta, amplia, estica, puxa; usa assim, usa assado. Momentos de raiva e depressão mostram como a crise se instalou dentro dos órgãos responsáveis pela superação da crise.

A comparação com o Plano Brady já não é tão utilizada, embora a reestruturação "voluntária" da dívida faça parte de qualquer pacote que não seja o da suave realização do plano "à la" FMI, que já falhou e vai falhar novamente.

O recurso a eurobonds seria um atalho para a integração fiscal, razão pela qual não são aceitos. Fala-se da falta de liderança política. Na impossibilidade de chegar-se a uma solução negociada, a solução já está dada. Trata-se de deixar a crise se instalar, pelo calote puro e simples ou usar o BCE para assumir todo o "moral hazard" possível, isto é, limitado ao possível.

José Francisco de Lima Gonçalves é professor do departamento de economia da FEA/USP e economista-chefe do Banco Fator

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Tensão externa leva à saída de US$ 2,3 bi



Valor 29/09
A tensão que levou o dólar a disparar na semana passada não se limitou aos mercados de derivativos cambiais. Dados divulgados ontem pelo Banco Central sugerem que o mercado de compra e venda da moeda estrangeira propriamente dito foi contaminado pelo nervosismo. Conforme o BC, ao longo da semana, US$ 2,319 bilhões saíram liquidamente do país pelo segmento financeiro, por onde cursam as operações de entrada e saída de capitais estrangeiros.

O conjunto de transações cambiais entre bancos e clientes só não gerou saldo tão negativo por causa dos contratos vinculados ao comércio exterior. Incluindo o segmento comercial, o mercado de câmbio como um todo também foi deficitário nesses cinco dias úteis, mas em apenas US$ 431 milhões, pois a diferença entre exportações e importações resultou em ingresso de US$ 1,887 bilhão na semana.

A fuga de divisas pelo segmento financeiro foi mais forte na quinta-feira, 22, quando a demanda por moeda estrangeira superou a oferta em US$ 1,195 bilhão. Foi nesse dia que a cotação do dólar chegou a bater em R$ 1,95 e a desvalorização acumulada pelo real desde o fim de julho passou de 20%. O real perdeu mais valor do que outras moedas porque o estresse com o cenário internacional - revisão para baixo de perspectivas de crescimento mundial, risco de calote grego e de quebra de bancos europeus - foi potencializado pela tributação dos derivativos cambiais com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

O Banco Central se viu, então, obrigado a retomar operações tradicionais de swap cambial, que não eram feitas desde junho de 2009. Equivalente a uma venda de dólar no mercado futuro, a intervenção resultou em recuo da taxa de câmbio.

Na quarta-feira, 21, a autoridade monetária já tinha feito um ajuste na sua política cambial, anunciando que não renovaria as operações de swap reverso com vencimento em outubro. Equivalente a uma compra de dólar no mercado futuro e, portanto, com efeito contrário ao pretendido naquele momento, a rolagem dos contratos de swap reverso só adicionaria mais volatilidade ao preço da moeda americana.

Apesar da saída líquida registrada na semana passada, por causa da primeira metade do mês, o fluxo cambial financeiro acumulado até dia 23 não chegou a ser negativo como o de agosto, que foi deficitário em US$ 2,512 bilhões no total do mês. Nesses primeiros 23 dias de setembro, 17 dos quais úteis, os bancos compraram da clientela US$ 295 milhões a mais do que venderam em função de investimentos, financiamentos e empréstimos de estrangeiros ao país e de brasileiros ao exterior. São consideradas, ainda, no segmento financeiro, as compras e vendas de moeda relativas a transações correntes de serviços e de rendas - pagamentos e recebimentos de juros, lucros e dividendos.

O câmbio contratado em função do comércio exterior gerou ingressos líquidos de US$ 7,789 bilhões no mesmo período. Em 23 dias, portanto, o saldo cambial comercial superou o de agosto inteiro, que foi de US$ 6,667 bilhões.

Nos dias de maior nervosismo da semana passada, porém, houve desaceleração. Na quinta-feira, 22, o fluxo diário foi de apenas US$ 55 milhões, bem menor do que em outros dias do mês. E na sexta, chegou a haver déficit no segmento comercial, de US$ 44 milhões.

Na soma dos dois segmentos, o mercado de câmbio registrou superávit de US$ 8,084 bilhões nesses primeiros 17 dias úteis de setembro. Tal sobra de moeda estrangeira foi praticamente toda encarteirada pelos bancos. Considerada a data de liquidação (dois dias úteis de defasagem para a contratação), eles venderam apenas US$ 327 milhões ao BC no interbancário em setembro, até dia 23, até porque, com o dólar mais caro, a autoridade monetária parou de atuar no mercado à vista como comprador.

Com a retenção da moeda estrangeira que sobrou das operações com clientes, a carteira de câmbio do sistema financeiro, que estava vendida em US$ 6,257 bilhões no fim de agosto, virou. O BC não informou a posição do dia 23, mas já tinha adiantado que no dia 21 a carteira estava comprada em US$ 3,128 bilhões.

Preocupação com rumo da crise da dívida ainda pesa sobre o euro


Por Bloomberg

O euro reduziu o ímpeto de alta frente ao iene e ao dólar em meio a preocupações de que os dirigentes dos países membros da União Europeia (UE) não conseguirão pactuar uma solução para a crise da dívida da região. O euro havia alcançado sua maior alta de uma semana em relação do dólar quando a UE propôs um imposto sobre transações financeiras, para entrar em vigor em 2014, e o Parlamento da Finlândia aprovou uma expansão do fundo de socorro financeiro da região. Os dirigentes europeus discordaram em torno da magnitude das baixas contábeis sobre as carteiras dos bancos de títulos do governo da Grécia.

As moedas dos países exportadores de commodities, como o dólar canadense e o real brasileiro, recuaram diante da queda dos preços das matérias-primas. "As pessoas se precipitaram um pouco diante desse risco", disse Brian Taylor, operador-chefe de câmbio da Manufacturers & Traders Trust de Buffalo, Estado de Nova York. "As pessoas estão mais preocupadas com as questões mais amplas, principalmente com o que vai acontecer na Europa. Estamos vendo o mercado dizer "é melhor prevenir do que remediar'". A moeda única fechou o dia valendo US$ 1,3632, em ligeira alta de 0,20%. Em relação ao iene, o euro caiu 0,6%, para 103,72 ienes, e se encaminha para registrar uma retração de 6,7% até esta altura do mês. A moeda japonesa subiu 0,5%, para 76,46 por dólar.

O euro recuou 1,7% durante os últimos três meses em relação a nove divisas do mercado desenvolvido, elevando sua queda de 12 meses para 2,3%, segundo os Índices Cambiais Bloomberg Ponderados pela Correlação. O iene foi a moeda que mais se valorizou entre as nove nos últimos três meses, ao subir 12%, e o dólar aumentou 4,8% de valor. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que a crise da dívida da Europa continua a representar um empecilho para a economia americana e que a reação dos governos da região não foi suficientemente sólida. "Na Europa não os vimos administrar seu sistema bancário e seu sistema financeiro com a eficiência necessária", disse Obama ao responder a uma pergunta sobre o crescimento da economia dos EUA durante uma discussão, em mesa-redonda, sobre questões hispânicas na Casa Branca.

O imposto sobre transações financeiras da UE fixará alíquotas de imposto mínimas para transações por toda a UE de 27 países, disse a Comissão Europeia, sediada em Bruxelas, o braço executivo do bloco, em comunicado. A medida terá de ser aprovada por unanimidade pelos 27 países-membros.

O imposto, se aprovado, captará cerca de € 57 bilhões (US$ 78 bilhões) ao ano e "assegurará uma justa contribuição por parte do setor financeiro numa época de consolidação fiscal", disse a comissão no comunicado. "Mesmo com os vários planos já anunciados que estão sendo desenvolvidos, mesmo se chegarmos a um avanço tão grande quanto apresentar uma coisa e já anunciá-la, o intervalo de tempo que terei de enfrentar entre o anúncio e a implementação é muito grande", disse David Mann, diretor regional de pesquisa para as Américas da Standard Chartered de Nova York. A Comissão Europeia foi contrária às ideias que estão sendo ventiladas por algumas autoridades de fazer com que os bancos aceitem maiores renúncias parciais de lucros, conhecidas como "haircuts" em inglês, sobre suas carteiras de títulos gregos e não quer realizar conversações sobre qualquer tentativa nesse sentido, disse uma autoridade sob condição de manter o anonimato, uma vez que as deliberações são confidenciais.

O Parlamento da Finlândia aprovou a expansão do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, pelas iniciais em inglês), de € 440 bilhões, elevando para nove o número de membros da zona do euro que ratificaram o mecanismo. Um papel ampliado do EFSF foi aprovado pelos membros da zona do euro em 21 de julho e precisa ser ratificado por todos os países-membros.

O real brasileiro e o dólar canadense estavam entre as moedas de pior desempenho dentre as principais divisas. O real caiu 1%, para 1,8235 real por dólar, e o dólar canadense recuou 0,6%, para 1,0255 dólar canadense por dólar dos EUA. O Índice Thomson Reuters/Jefferies CRB de matérias-primas registrou um declínio de 2% e o Índice Standard & Poor's 500 perdeu 1,2%. O rand da África do Sul foi a moeda de melhor desempenho entre as mais negociadas, ao subir 0,7%, para 7,8142 por dólar. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, disse que está esperando um relatório de um grupo de autoridades da União Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre os avanços da Grécia antes de decidir se um segundo pacote de financiamento para o país, pactuado a 21 de julho, precisa ser revisto.

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CONSULTOR EM COMÉRCIO EXTERIOR ANALISA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL (PARTE 01) TEMPO: 00:05:15
Em entrevista ao Conta Corrente, o consultor em Comércio Exterior, Joseph Tutundjian, falou sobre a crise econômica mundial e os seus efeitos na economia brasileira e internacional.

*JOSEPH TUTUNDJIAN, Consultor de Comércio Exterior

*GEORGE VIDOR, jornalista

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

CONSULTOR EM COMÉRCIO EXTERIOR ANALISA O FLUXO CAMBIAL BRASILEIRO (PARTE 02)TEMPO: 00:04:57
Em entrevista ao Conta Corrente, o consultor em Comércio Exterior Joseph Tutundjian falou sobre o fluxo cambial brasileiro e uma pesquisa que colocou o Brasil em 22º lugar em um ranking de países confiáveis economicamente, uma posição acima dos Estados Unidos.

SONORA

*JOSEPH TUTUNDJIAN, Consultor de Comércio Exterior

*GEORGE VIDOR, jornalista


TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

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Moeda tecnológica


Especial Valor 29/09




Com a chegada de mais consumidores ao mercado e aos bancos, concorrência pesada e novas tecnologias, multiplicam-se os meios eletrônicos de pagamento e mantém-se a tendência de substituir o papel por dados, seja por meio de cartões, internet, caixas eletrônicos ou dispositivos móveis - vedetes atuais do sistema bancário e candidatos a substitutos dos plásticos. A diversidade exige dos bancos pesados investimentos em integração e em desenvolvimento de soluções multiplataforma para permitir que o cliente tenha acesso às mais diversas operações 24 horas por dia, sete dias por semana, onde quer que esteja.

"O crescimento do número de transações bancárias sem aumento de custos para os clientes não seria possível sem expansão do uso de meios eletrônicos", pondera Murilo Portugal, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Dados do Banco Central mostram a diferença de custo entre as transações bancárias por canais eletrônicos e por agências tradicionais: a consulta de saldo chega a quase R$ 2 em uma agência, cai para R$ 0,50 em caixa automático e despenca para R$ 0,01 na internet. Não foi por acaso que, nos últimos cinco anos, em média duas em cada três transações bancárias foram realizadas sem atendimento presencial, segundo o BC.

Em 2010, o canal internet, home e office banking superou o atendimento em ATMs pelo segundo ano consecutivo e respondeu por 34% das transações, com quantidade de operações 26,7% maior que no ano anterior. Enquanto isso, o número dos cheques emitidos caiu 7,1% e os pagamentos por cartões de crédito e débito cresceram 23%.

As instituições esforçam-se para garantir mais espaço neste cenário. Depois de seis anos gastando em média R$ 17,8 bilhões anuais com tecnologia, no ano passado a conta chegou a R$ 22 bilhões, dos quais R$ 6,6 bilhões foram voltados a investimentos - 29% da verba total foram aportados em hardware, mas a maior expansão foi no segmento de software in house, refletindo o foco em integração de sistemas internos.

"O maior desafio é desenvolver aplicações padronizáveis e portáveis que funcionem na agência, no desktop, no celular ou no tablet", diz Paulo Lessa, vice-presidente de vendas da CPM Braxis Capgemini.

Um dos exemplos é o Bradesco. Só no primeiro semestre, foram mais de R$ 1,7 bilhão aplicados em TI. De acordo com Luca Cavalcanti, diretor de canais digitais Dia & Noite, os ambientes digitais respondem por 90% das transações do banco. Diariamente, são 2 milhões de visitas aos 80 sites na internet e 1,1 milhão de ligações no call center, 90% delas atendidas automaticamente. Mas é o celular que vai revolucionar a experiência do cliente, avalia ele. Com 7 milhões de transações mensais em aparelhos móveis, o desafio, diz, é simplificar o uso.

Um exemplo é a criação de produtos como a conta bônus celular para os que são usuários de correspondentes bancários, que têm tarifas revertidas em minutos de ligações. No total, são mais de 600 transações e serviços disponíveis.


Tendência do futuro é a migração para celulares

No futuro, a tendência é a migração do plástico para o celular, segundo Paulo Rogério Caffarelli, vice-presidente de negócios varejo do Banco do Brasil, que firmou parceria com a Oi para lançar um cartão-convênio com opção de plástico ou celular e tem serviços como o Saque Sem, por meio do qual quem perde o cartão pode receber um código por SMS para saques. "Ainda este ano vai ser possível acionar o terminal sem uso de cartão, por SMS ou foto", descreve o gerente geral da unidade gestão de canais do BB, Hideraldo Dwight Leitão.

No ano passado, o banco lançou um serviço de remessa de valores para celulares de não correntistas, que podem sacar o dinheiro em qualquer terminal, sem cartão. Como soluções fáceis deste tipo colaboram para a bancarização de classes emergentes, usuárias de correspondentes bancários, no mês que vem será testada a integração com esse canal. "Vamos aproveitar transações que as pessoas já fazem e migrá-las para o celular. É uma forma de promover a inclusão bancária", diz Leitão.

"O celular é pauta de todo mundo", resume Alexandre de Barros, vice-presidente do Itaú, que trabalha com entidades como Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) para reforçar os benefícios do cartão ao mesmo tempo em que promove experiências com o uso do celular ligadas com Visa, Mastercard e Redecard - com uso de SMS e tecnologia de aproximação. Segundo Barros, os últimos lançamentos do banco miraram em smartphones, tablets e celulares, com aplicativos específicos desenvolvidos para cada terminal. Um deles, para empresas, combina internet com celular para aprovação remota de pagamentos. "Em segmentos corporativos menos automatizados, a curva de transações na internet cresce entre 40% e 50% graças ao smartphone", registra o executivo.

Entre os bancos globais, Santander e HSBC também focam o mobile banking. O primeiro deve ter até o fim do ano soluções para celulares de menor capacidade - hoje oferece serviços para plataformas como Android, iPhone e Blackberry. A princípio, sempre vinculados à internet, por garantia de segurança, com projeto de disponibilização apartada na medida da massificação do uso. "Sem divulgação, em uma semana foram mais de 50 mil usuários usando a solução móvel", contabiliza o CIO do Santander, Antonio Coutinho, atestando o poder desse usuário no boca a boca nas redes sociais, uma novidade em termos de marketing.

O HSBC oferece aplicativo móvel que permite efetuar pagamento de serviços públicos, títulos e taxas, entre outras. Criada em Java, a solução ganhou recentemente versões para smartphones. "Com o celular, conseguimos realmente entregar o serviço ao cliente onde quer que ele esteja, no momento que ele desejar", resume o diretor de canais

Tecnologia a serviço do cliente é alvo dos bancos


Conveniência e relacionamento marcarão o banco do futuro. As instituições entenderão melhor o cliente, a partir de dados internos ou captados em ambientes como redes sociais, para fornecer produtos e serviços mais adequados por meio de canais integrados e disponíveis ininterruptamente. Os equipamentos móveis ganham destaque e tendem a ter maior relevância com a adoção, pelos bancos, do modelo de operadora móvel virtual (MVNO). Mas o ambiente digital não substituirá o mundo físico.

Ao contrário do previsto alguns anos atrás, as agências não desaparecerão, mas serão confortáveis, com tecnologia abundante para inspirar e educar o cliente para o uso do auto serviço, com equipe a postos para consultas e negócios. Para Luiz Rodrigo Silva, sócio diretor da Accenture, o banco do futuro será regido por sustentabilidade, simplificação, personalização, presença constante e renovação. "O banco se adapta para atender o cliente que nunca vai à agência e elas ficam mais clean e sofisticadas, com painéis interativos e áreas diferenciadas de acordo com a necessidade de cada usuário", diz.

O Citibank incorporou esses conceitos no projeto Smart Banking, criado no Japão, que deve chegar ao Brasil a partir do próximo ano. Para atrair clientes refratários aos processos tradicionais, o banco priorizou valores como conveniência, facilidade, relevância e relacionamento pessoal e criou um ecossistema que inclui internet, aparelhos móveis, terminais de atendimento eletrônico (ATMs), quiosques, atendimento telefônico e por vídeo, mini agências em shoppings e aeroportos e agências equipadas com painéis interativos e equipe consultiva. "A filosofia é atrair, engajar e conectar parte da interação de todos os pontos de contato e chegar ao suporte de relacionamento", explica Luiz Coimbra, superintendente de canais remotos.

De acordo com Murilo Portugal, da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), na medida em que os meios eletrônicos prevalecerem no futuro, as agências tendem a se transformar em centros de orientação ao cliente e geração de negócios, reduzindo a execução de transações. "O contato pessoal é sua vocação. Tirando processos que requerem a presença do cliente, como abertura de conta, todo o relacionamento com os bancos já pode ser feito de maneira eletrônica", observa. Segundo ele, a tecnologia colabora para colocar o cliente no centro dos negócios, respeitar suas preferências e customizar ofertas, promovendo a acessibilidade às instituições em qualquer momento e local com apoio dos múltiplos canais.

Para Paulo Lessa, vice-presidente de vendas da CPM Braxis Capgemini, as transações corriqueiras, principalmente para correntistas de baixa renda ou usuários sem contas-correntes, migrarão para canais como correspondentes bancários e celulares. A agência tradicional se voltará a negócios e consultoria, como investimentos, enquanto o internet banking migrará para o ambiente móvel e as ATMs tendem a se transformar em totens de auto serviço na medida em que o papel moeda for substituído pela moeda virtual. "Se hoje é inconcebível a um banco não ter transações por internet, em dois ou três anos ocorrerá o mesmo com a tecnologia móvel", prevê.

Pesquisa mundial realizada pela Capgemini mostra que o Brasil é o mercado mais maduro dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China),no que diz respeito a meios de pagamentos, especialmente em função do crescimento dos cartões. Segundo Lessa, o cartão deixará de ser de plástico, podendo ser incorporado ao mobile payment.

Como aposta em mobilidade, o Banco do Brasil manifestou interesse à Anatel pelo modelo de operadora móvel virtual (MVNO), ao lado de Itaú, Bradesco e Santander. "O conceito interessa para a estratégia de canais do banco. Mas precisamos ter bases mais completas de custos", diz Hideraldo Dwight Leitão, gerente geral da unidade gestão de canais. Mas a estratégia só faz sentido com a integração do consumo de telefonia celular às transações bancárias.

Céu de brigadeiro para o crescimento da indústria de cartões no mercado brasileiro




Turbulências econômicas, alta do dólar e ameaça de inflação. Nada disso tira o sono do setor de cartões no Brasil. Com a perspectiva de crescer 23% este ano na comparação com 2010, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), as empresas do segmento apostam num ritmo de expansão de dois dígitos nos próximos anos. Mesmo que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não seja tão alto. "O setor vem crescendo cerca de 20% ao ano, mais do que em qualquer lugar do mundo, há mais de dez anos e não há nuvens no horizonte", diz Paulo Caffarelli, vice-presidente da Abecs.

A razão de tanto otimismo: o Brasil é um mercado ainda em maturação. "Hoje, apenas 25% dos pagamentos são realizados por meio de cartões de crédito", explica o diretor-geral da Visa do Brasil, Rubén Osta. Na soma com cartões de débito e os das lojas, os private labels, o volume chega a 44%. "Existe um potencial gigantesco de migração desses outros 56%, feitos com outros meios, como dinheiro e cheque, para a indústria de cartões." Para 2015, a Abecs projeta que o cartão de crédito responderá por 45% de todo o consumo no Brasil.

O setor mantém um forte ritmo de alta mesmo em anos de baixo crescimento econômico. Entre 2008 e 2009, auge da crise financeira internacional e que derrubou o PIB brasileiro, o setor cresceu cerca de 18%. "A tendência é de forte expansão, em qualquer cenário, para os próximos anos", diz João Pedro Paro, vice-presidente comercial da Mastercard Brasil.

Para estimular o processo de migração, as principais bandeiras procuram ampliar o leque de produtos. "Queremos estar no dia a dia do consumidor, com um portfólio de produtos adequado às necessidades dos diferentes tipos de público", diz Osta. Essa visão ambiciosa leva a Visa a oferecer desde cartões alimentação a produtos voltados apenas para viagens ou exclusivos para as classes A e B.

Outros fatores impulsionam o setor, como a expansão da economia e do potencial do mercado de consumo. Um desses elementos é o crescimento da classe média, com a migração de 30 milhões de consumidores das classes D/E para C/D, público disputado por todas as empresas. "Estamos trabalhando fortemente com esse segmento", diz Paro, da Mastercard. "Temos um programa de pontos, o Surpreenda, para oferecer vantagens para as classes C e D."

A sinergia entre a indústria de cartões e os bancos emissores também é importante para o segmento - a entrada de novos clientes no sistema bancário ajuda essa indústria e vice-versa. "O cartão é um forte instrumento de bancarização, dando acesso a serviços financeiros para milhares de pessoas que não possuem conta bancária. Foi exatamente o que o Bradesco e o Banco do Brasil fizeram com a bandeira Elo ", observa Caffarelli.

Uma área com grande potencial de crescimento é a de cartões pré-pagos. Trata-se de atingir um público sem produtos de pagamento eletrônico, mas com dinheiro para recarregar o celular pré-pago. "A indústria precisa criar uma estratégia para chegar a esse cliente", adverte o executivo da Visa. Paro, da Mastercard, observa que o pré-pago pode ser a porta de entrada para produtos mais elaborados.

Já o setor varejista brasileiro não pode viver sem os cartões. Estudo da Abecs em parceria com a Datafolha mostra que os meios eletrônicos de pagamento foram responsáveis por 55% do faturamento das lojas no ano passado. A pesquisa apresenta outros sinais otimistas. No segundo semestre de 2010, 71% dos entrevistados tinham cartões para pagamentos e 67% utilizavam esse meio habitualmente. Os meios eletrônicos já superavam o uso do dinheiro nas grandes cidades, onde 44% dos gastos foram realizados com cartões de crédito, débito ou private label - 40% eram feitos com dinheiro.

Para alguns, existe uma barreira cultural a ser vencida. "O uso do dinheiro ainda está muito arraigado na cultura do povo", diz Paro, da Mastercard. Mas os esforços das empresas estão dando resultado. A pesquisa indica que 52,3% dos possuidores de meios eletrônicos de pagamento davam preferência aos cartões para efetuar suas compras. Entre os não possuidores, a predileção pelo dinheiro chegava a 96%.

A possibilidade de parcelamento é o principal fator de atração para 26% dos entrevistados com cartões. Mas o risco de aumento da inadimplência não parece tirar o sono das empresas do setor. "Não temos percebido nenhum temor nesse sentido", diz Paro, da Mastercard. Para evitar o problema, a indústria mantém um programa de consumo consciente e, ao mesmo tempo, trabalha a modelagem dos cartões para ajudar a gestão de risco dos emissores.

Classe C começa a vencer a resistência aos plásticos
Por Lázaro de Souza Para o Valor, de São Paulo

Embora ainda tenham certa resistência ao uso de cartão de crédito, as classes C, D e E vêm mudando esse comportamento. A estabilidade econômica e o fim da inflação, aliadas ao aumento da renda dos últimos anos, fizeram com que esse público passasse a enxergar no cartão um instrumento confiável de crédito. "Hoje, a cada 12 cartões de crédito expedidos pelas administradoras, sete estão nas mãos de pessoas da classe C", afirma Renato Meirelles, diretor do Instituto Data Popular, especializado em estudos das camadas C, D e E.

Diferentemente das classes A e B que usam o cartão por uma questão de comodidade, para o consumidor das classes C, D e E, o cartão é efetivamente um instrumento de crédito. "O cartão funciona como um tapa buraco. Esse mecanismo permite parcelar a compra em três vezes sem juros", explica Meirelles

O levantamento da Data Popular mostra que 49% dos consumidores das classes C e D sentem-se confortáveis com o uso de cartão de crédito, ante 67% das pessoas das classes A e B. Para Meirelles, algumas pessoas das classes mais populares tiveram experiências ruins com esse instrumento de crédito e isso criou resistências ao cartão. Isso sem falar no fato de que algumas delas compraram compulsivamente e depois enfrentaram dificuldade na hora do pagamento, o que contribuiu para gerar uma percepção negativa do meio de pagamento. "Há casos de pessoas que chegam ao extremo de pedir aos familiares para esconder o cartão para não "cair na tentação" de usá-lo de forma descontrolada", conta o diretor do Data Popular.

Há também uma mensagem equivocada por parte das administradoras. "Em alguns casos, elas desqualificam o usuário pobre, com as classificações de classe "platinum", "ouro" e outras denominações. Assim, dão a entender que quem não tem aquelas categorias de cartões estão alijados do processo consumidor", diz. "Isso está mudando com as classificações por afinidades e grupos, não mais focados na renda e, sim, em categorias".

Outra pesquisa recente da Visa confirma o expressivo aumento no uso dos cartões entre as classes de renda mais baixas. Em 2010, 71% das compras feitas pela classe C na internet e 54% dos pagamentos de passagens aéreas foram feitos com cartão de crédito. O estudo aponta ainda que os hábitos de utilização dos cartões são bem semelhantes aos das demais classes sociais.

O estudo da Visa aponta a existência de um amplo espaço para crescimento. Nas áreas de restaurantes e lojas de conveniências, por exemplo, os pagamentos em dinheiro pela classe C ainda são maioria: 69% e 76%, respectivamente. "Gradativamente, as classes de renda mais baixas abandonarão dinheiro e cheques como meio de pagamento", avalia Percival Jabotá, diretor de produtos sênior da Visa do Brasil.

Consumidor bancário avalia mal serviços no Brasil

Valor 29/09


Uma pesquisa recente feita pela consultaria Bain & Company confirma aquilo que muitos brasileiros já desconfiavam - e órgãos de defesa do consumidor sempre alertaram: a qualidade do serviço prestado pelos bancos deixa (e muito) a desejar.

O levantamento, apresentado com exclusividade ao Valor, teve por objetivo medir o grau de lealdade dos clientes em relação às instituições financeiras. Cerca de mil pessoas responderam, ao longo do primeiro semestre, o quanto estariam dispostas a recomendar determinada empresa a amigos e parentes, numa escala de zero a dez. Reunidas, essas notas deram origem, posteriormente, ao índice NPS (nota de promotores líquidos, em livre tradução).

O resultado apresentado pelos bancos no Brasil pode ser considerado decepcionante. Se, nos Estados Unidos, bancos líderes de mercado exibem NPS de 70 a 80 pontos, aqui a média é negativa em 8 pontos. Na categoria bancos de varejo, Itaú Unibanco ocupa o primeiro lugar no ranking de lealdade do cliente, com um NPS de 9 pontos. A Caixa Econômica Federal (CEF) aparece na segunda colocação, com um NPS negativo de 9 pontos.

"A fotografia deixa claro que há muito espaço para melhora", afirma Rodolfo Spielmann, sócio da Bain & Company, para quem um NPS de 50 pontos seria aceitável. Embora o levantamento tenha abrangido as principais instituições financeiras do mercado, somente os dois primeiros lugares tiveram seus nomes revelados pela consultoria.

O índice de lealdade é calculado com base nas notas de recomendação atribuídas pelos clientes. Dependendo da nota, esse consumidor pode ser classificado como promotor (9 e 10), passivo (7 e 8) ou detrator (0 a 6). O NPS é resultado da subtração do número de promotores pelo de detratores. Os passivos não entram no cálculo. Se o índice é negativo, significa, portanto, que a instituição tem mais detratores do que promotores.

Em uma indústria cada vez mais automatizada, curiosamente, é o contato interpessoal o grande responsável pela lealdade dos clientes. De acordo com as respostas dos entrevistados, mais do que tarifa ou produto, é a qualidade do atendimento que responde como principal fator de promoção - ou detração - de um banco.

Os clientes de alta renda parecem mais satisfeitos. A pesquisa da Bain & Company mediu também a lealdade na categoria "bancos premium" e o resultado do índice de lealdade se mostra bem superior. O HSBC Premier é líder, com NPS médio de 44 pontos, seguido do Itaú Personnalité, com índice de 38 pontos. "Quanto mais pesquisas são feitas, mais se chega a conclusões básicas: todos estão em busca de um bom serviço, seja num banco ou em qualquer outro segmento, especialmente se o público for de alta renda", afirma Paulo Silva, diretor do segmento Premier do HSBC.

O banco inglês tem se esforçado para "mimar" seus clientes. Dobrou o quadro de gerentes de relacionamento para clientes "Premier" de 320 para 650 do ano passado para cá e, nesse mesmo período, passou a adotar a metodologia do NPS criada pela Baind & Company. "Levamos tão a sério a pesquisa que mensalmente dez clientes de cada um dos nossos gerentes são escolhidos para avaliar o serviço do banco", conta Silva.

Mas, apesar de as notas serem bem superiores àquelas obtidas pelos bancos de varejo, a avaliação média do segmento bancário premium piorou desde o último levantamento feito pela consultoria sobre lealdade do cliente, em 2007. O NPS médio dos bancos "premium" recuou de 21 pontos para 17 pontos.

As mudanças ocorridas no setor bancário de lá para cá, notadamente os movimentos de fusão e aquisição, comprometeram a qualidade do atendimento, observa Spielmann. Nos bancos de varejo, o índice que era negativo em 14 pontos quatro anos atrás apresentou uma ligeira melhora e passou, em 2011, para -8 pontos.

A correlação que o índice NPS guarda com o comportamento dos consumidores, no dia a dia dos negócios, pode ser traduzido em maior ou menor lucratividade, segundo Spielmann. Além de propenso a recomendar outros clientes, o "promotor" compra mais produtos. A receita trazida por um cliente avaliado como promotor é, de acordo com a pesquisa, aproximadamente 80% superior à renda produzida por um detrator em um banco de varejo.

Por qual motivo, então, os bancos não se esforçariam para servir bem a esse cliente tão rentável? O argentino Spielmann responde a questão com outra pergunta: "Você já viu o quanto é difícil encerrar uma conta corrente no Brasil"?

Os obstáculos para se fechar uma conta explicam também o fato de o serviço prestado pelos bancos exercer pouca (ou nenhuma) influência sobre o tempo de relacionamento que o cliente mantém com as instituições. Em segmentos nos quais a substituição de produtos é mais simples, como cartão de crédito e seguro de automóvel, os clientes avaliados como "promotores" tendem a permanecer fiéis por mais tempo - e vice-versa.