quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Derivados puxam déficit do petróleo


Valor 28/09

A autossuficiência brasileira em petróleo não tem conseguido se traduzir em oferta de derivados. A falta de investimento no parque de refino impediu que o volume de derivados disponível no mercado interno acompanhasse o crescimento da produção de óleo bruto.

Um quadro de abastecimento delicado, marcado pelo aquecimento da economia doméstica, aumento da venda de veículos e escassez de álcool combustível, tem agravado a situação. Por falta de capacidade de refino, o país descalibrou a balança comercial no setor. Até agosto, o déficit aumentou 10% e foi US$ 5,4 bilhões, resultado do saldo positivo de US$ 5,1 bilhões nas vendas de óleo bruto e do déficit de US$ 10,5 bilhões nas importações de derivados. Para o ano, a diferença pode chegar a 23%, com saldo negativo de US$ 8,6 bilhões, projeta o economista Fábio Silveira, da RC Consultores, com base nos dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento.




Tradicional importador de óleo diesel, óleo combustível e nafta petroquímica, o Brasil acentuou suas compras nos últimos anos, em virtude do aquecimento econômico. No caso do diesel, por exemplo, o aumento da produção agrícola empurrou o consumo para cima tanto na lavoura - pelo uso intensivo de máquinas - quanto no transporte, basicamente rodoviário. Mas o que mais preocupa é a retomada das importações de gasolina em 2010, que o país praticamente havia abandonado. O motivo é simples: aumento do consumo doméstico, motivado pela melhoria da renda e aumento nas vendas de veículos. Enquanto a economia brasileira cresceu 7,5% em 2010, o consumo de gasolina aumentou mais de 18% no ano, segundo a Petrobras.

Embora mais de 85% dos carros produzidos hoje no país sejam bicombustíveis (a etanol e gasolina), segundo a Anfavea (associação das montadoras), a redução da produção de etanol (perto de 11% no ano-safra 2011/2012) e o consequente aumento de preço retiraram o álcool do cardápio de vários consumidores, especialmente nos Estados mais distantes dos principais centros produtores. Como o preço da gasolina nas refinarias da Petrobras encontra-se sem alteração desde abril de 2009, o aumento do combustível de cana o torna desvantajoso, aumentando a demanda pela gasolina - e pressionando as importações.

No primeiro semestre deste ano, o consumo de derivados de petróleo líquidos aumentou 7%, afirma Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento da Petrobras. A gasolina destoou da média, crescendo mais que o dobro no mesmo período: 15%.

As refinarias têm recebido melhorias e obtido ganhos de produtividade, mas estão com a capacidade no limite, confirma Costa. A demanda de gasolina no país é de 2 milhões de barris por dia, segundo a Petrobras, mas a estatal hoje só tem capacidade para refinar 1,85 milhão de barris equivalentes por dia. O executivo acredita que o problema só será resolvido na segunda metade da década, quando as novas refinarias em projeto e construção pela estatal começarem a operar.

A Petrobras tem seis unidades em construção ou projeto, das quais apenas uma, em Pernambuco, entra em operação no curto prazo (2012). Outra, a ampliação da unidade do Rio Grande do Norte, já está em funcionamento. As demais só começam a funcionar depois de 2014 (primeira etapa da nova unidade do Rio de Janeiro), 2016 (Maranhão) e 2018 (Ceará e, provavelmente, segunda etapa do Rio). Com os investimentos, a estatal espera estar apta a atender a demanda projeta para 2020, de 3,2 milhões de barris diários de derivados.

Importações devem se manter por até três anos


A retomada do investimento em refinarias ocorre depois de mais de 30 anos de inércia, comenta Adriano Pires, fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Enquanto esses investimentos não estiverem em pé a tendência é "acentuar essa característica de exportar petróleo e importar derivados", afirma. Pires projeta que essa situação vai perdurar por mais "três ou quatro anos".

"Por enquanto vamos conviver com déficits dessa natureza", diz Fábio Silveira, da RC Consultores. "Temos uma capacidade de refino limitada e, portanto, uma necessidade de importação que vai persistir nos próximos dois, três anos, tendo em vista o cenário de crescimento da economia."

Para o economista, o principal responsável pelo aumento do déficit é a elevação do preço do petróleo no mercado global. Com base na balança comercial do setor apurada junto à Secex, Silveira calcula que apenas "uns 2% ou 3%" do aumento das exportações de petróleo bruto e das importações de derivados decorrem do ganho de volume. O crescimento de 44% nas vendas e de 36,5% nas compras deriva principalmente da elevação das cotações da commodity. O preço médio do petróleo subiu cerca de 40% este ano em relação a 2010.

As projeções para o mercado internacional indicam que os preços do petróleo podem oferecer um pequeno alívio na conta de importações, mas dificilmente vão mudar a tendência. De acordo com o diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, a estatal projeta manutenção das cotações internacionais do óleo bruto nos patamares atuais, em torno de US$ 110 por barril, ao longo dos próximos meses. "Não existe nenhum indicador mundial que mostre que o petróleo terá preços abaixo de US$ 100 por barril", afirma Costa. Segundo ele, apesar da recessão nos Estados Unidos e Europa, "o mundo está conseguindo pagar esse preço".

Adriano Pires trabalha com projeções de preços entre US$ 80 e US$ 100 por barril. A queda para o valor mais baixo ocorreria em caso de agravamento da crise internacional e retração do consumo nos países ricos. Mesmo assim, esse cenário ainda não está inteiramente desenhado, diz o executivo do CBIE. "Essa crise está mal resolvida. Não se sabe se vai ser intensa ou não."

Para Pires, a queda dos preços internacionais está muito condicionada ao comportamento das economias em desenvolvimento. "Quem dá a dinâmica hoje do crescimento do consumo de petróleo são os países emergentes, como China, Brasil, Índia, embora os EUA ainda sejam os maiores consumidores mundiais", diz. Principalmente porque, enquanto os países ricos reajustam os preços dos derivados em seus mercados internos quando o preço do petróleo sobe, os emergentes seguram a alta ou não repassam o reajuste inteiro, estimulando o consumo.

As projeções internacionais indicam crescimento menor, mas não retração no uso do petróleo. A Agência Internacional de Energia (em inglês, IEA) prevê para 2011 redução de 0,2% a 0,5% na previsão inicial de consumo. Ainda assim, o consumo projetado para este ano, 89,6 milhões de barris/dia, ainda é 2% maior que o de 2010. Mas os principais compradores, os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, já reduziram o consumo em 0,8%. Para 2012, a IEA projeta consumo de 90,7 milhões de barris diários - na média, um crescimento apenas vegetativo de 1,2%, puxado por países emergentes, como Brasil e China.

Risco de "acidente de percurso" motivou corte da Selic, diz Tombini



Valor 28/09






O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, considerou, ontem, a possibilidade de um "acidente de percurso" como desdobramento da crise na zona do euro. Ele não especificou, mas poderia ser algo como uma moratória efetiva da Grécia ou a quebra de bancos. "O cenário está mais complexo. As probabilidades de ocorrer um acidente de percurso elevaram-se", disse ele durante audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Foi com base nesse quadro, assegurou, que o Copom cortou a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual no dia 31 de agosto, decisão que causou grande alvoroço nos mercados. Disse que a deterioração da crise externa nos últimos dias não o surpreendeu, pois estavam claros os sinais de agravamento dos problemas que a economia global enfrenta. Ao reduzir a Selic, o Copom levou em conta as perspectivas de baixo crescimento nas economias desenvolvidas, a diminuição do ritmo de crescimento da China e a decisão do Fed (banco central americano) de postergar para meados de 2013 a normalização das condições monetárias.

As últimas expectativas são de contração do PIB na Europa no último trimestre deste ano e, nos EUA, no primeiro trimestre de 2012, citou.

Tombini lembrou que o BC participa dos principais fóruns internacionais e isso o capacita para análises mais apuradas sobre a economia mundial. "Só não temos bola de cristal para prevermos a quebra de um país ou de uma instituição financeira. Mas temos capacidade para avaliar o quadro", disse.

Ele sustentou que a inflação doméstica está sob controle e calculou que não mais do que 5% da desvalorização sofrida pelo real recentemente serão repassados à inflação do IPCA. Confia, também, que ainda há chance de a inflação, este ano, não superar o teto da meta, de 6,5%.

"A inflação hoje está na faixa de 7,3% O teto da meta é 6,5%. Nós entendemos que será possível passar por debaixo do teto da meta. A inflação estará ao redor deste nível no fim do ano, o que representará um recuo em torno de 1 ponto percentual em torno do que está hoje", previu.

De maio a setembro com base no IPCA-15), a média da inflação no Brasil foi de 0,34%. Taxa que, anualizada, representa uma inflação acumulada em doze meses de 4,11% - abaixo do centro da meta de 4,5%. No período imediatamente anterior - entre setembro de 2010 e abril de 2011 - essa média foi bem maior, de 0,77%.

O quadro externo, de baixo crescimento, trará um movimento desinflacionário. Soma-se a isso o fato da economia brasileira já estar em processo de crescimento mais moderado, o que o leva a sustentar que a inflação convergirá para o centro da meta, de 4,5%, em 2012. Aos senadores, Tombini reiterou também a expectativa de que entre outubro e abril/maio de 2012 a inflação acumulada em doze meses caia 2 pontos percentuais, saindo do pico do índice este mês, de mais 7%, para a casa dos 5%.

Ao expor a situação externa na CAE, alertou para a necessidade de as lideranças europeias agirem rapidamente para evitar o risco de "eventos de crédito". Segundo ele, o mundo entrou num ciclo vicioso. Ao mesmo tempo em que aumenta a percepção de risco em relação às dividas soberanas e à solidez dos bancos europeus, o baixo crescimento econômico realimenta o problema. Quanto menor o crescimento mais tempo levará para que as dívidas soberanas caiam como proporção do Produto Interno Bruto (PIB).

"A elevada relação dívida/PIB das economias maduras afetou a percepção do risco dos títulos dessas economias pelos mercados", lembrou. A deterioração contaminou as economias mais endividadas da periferia da zona do euro, ou seja, Grécia, Irlanda e Portugal. A falta de solução para esses três casos, no entanto, "contaminou economias de maior porte da região, Espanha, Itália, França e a própria Alemanha", citou.

Em quatro meses houve uma destruição de riqueza mundial de quase US$ 10 trilhões, decorrente da desvalorização das empresas listadas em bolsas, citou.

O presidente do BC negou que existam com o Ministério da Fazenda em relação à taxação dos derivativos e descartou a alteração ou a redução da alíquota de 1% do IOF sobre essas operações. "Sobre esse assunto estamos no mesmo barco", afirmou.

BC vê crédito crescendo acima do previsto


Valor 28/09

A expansão do crédito em 2011 será maior do que previu inicialmente o Banco Central. Em vez de 15%, o saldo dos empréstimos e financiamentos do sistema financeiro deverá ter expansão de 17% em relação a 2010.

A nova projeção foi anunciada ontem pelo chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, diante, principalmente, do que já ocorreu este ano. Nos oito primeiros meses de 2011, o estoque dessas operações aumentou 10,7%, fechando agosto em R$ 1,888 trilhão. No mês, a expansão foi de 1,7%, o que representou aceleração ante julho, quando o crescimento foi de 1,1%.

A redução da taxa Selic, de 12,5% para 12% ao ano, na última reunião do Copom, pesou na mudança das projeções, admitiu Maciel. A autoridade monetária calcula que, como proporção do Produto Interno Bruto, a carteira de crédito do sistema financeiro fechará o ano em 49%, número também superior ao originalmente projetado. Até então, o BC achava que o saldo chegaria a 48%. Mas no fim de agosto, já equivalia a 47,8% do PIB.

Ainda que acima do inicialmente previsto, o aumento do estoque de empréstimos e financiamentos do sistema financeiro será mais moderado este ano do que foi em 2010. No ano passado, a taxa de expansão ficou em 20,6% sobre 2009.

Tanto bancos públicos quanto bancos privados devem conceder mais crédito do que o previsto até então. Mas a projeção subiu mais para o segmento estatal. A carteira das instituições financeiras controladas pela União e pelos Estados deve crescer 18%. A ampliação das operações dos bancos privados de controle nacional, cuja projeção anterior também era de 15%, chegará 17%. Para os bancos de controle estrangeiro, a projeção manteve-se em 16%.

Em agosto, a carteira dos bancos estatais cresceu 2,2%, mais do que a média do sistema, chegando a R$ 796,9 bilhões. Em oito meses, o saldo acumulou elevação de 11,6%, percentual também superior à média. Já nos 12 meses terminados em agosto, a taxa de expansão foi quase a mesma: 19,3% nos bancos públicos e 19,2% no conjunto das instituições financeiras.

As operações de crédito dos bancos privados de controle nacional expandiram-se 1,2% no mês, 10,3% no ano e 20,8% em doze meses, chegando ao fim de agosto em R$ 766,910 bilhões. No caso dos bancos de controle estrangeiro, cuja carteira é de R$ 325,099, essas taxas de crescimento foram, respectivamente, de 1,9%, 9,7% e 16,4%.

O crédito habitacional é a modalidade que, proporcionalmente, mais cresce e que mais influenciou a decisão do BC de rever suas projeções. O estoque de financiamentos habitacionais subiu 3,7% em agosto, totalizando R$ 180,242 bilhões. No ano, a variação chegou a 29,9% e em doze meses a expressivos 49,3%, superior ao dobro da verificada na soma de todas as modalidades de crédito.

Tulio Maciel disse que, embora um pouco mais acelerada do que se previa, a trajetória de ampliação da oferta de crédito no Brasil continua sustentável. Não há no horizonte de visão do BC qualquer risco de explosão da inadimplência. Consideradas as operações referenciais para apuração de taxas de juros, que refletem as condições de mercado, a inadimplência subiu em agosto, de 5,2% para 5,3%, mas ainda está abaixo do que era no início de 2010 (5,5%). Nos empréstimos e financiamentos a empresas, o percentual de operações com parcelas em atraso há mais de 90 dias, critério de inadimplência adotado pelo BC, ficou em 3,9%, ante 3,8% em julho. Nas operações com pessoas físicas, o percentual também subiu 0,1 ponto, para 6,7%.

O aumento, em ambos os casos, ainda é reflexo da alta de juros que vigorou até julho e das medidas de restrição ao crédito. Mas como o país continuará crescendo, não há razão para se acreditar que as empresas e famílias terão maiores problemas para pagar suas dívidas junto ao sistema financeiro. Além disso, a tendência da taxa de juros ao tomador final é cair com o afrouxamento da política monetária pelo BC. Para as empresas, a taxa média das operações tomadas como referência (quase todo o crédito livre) já caiu em agosto, de 31,4% para 30,9%. Para as pessoas físicas, ainda houve elevação, pois a média saiu de 45,7% para 46,2%.

Medo e rejeição na zona do euro


Por Martin Wolf - Valor 28/09

A reunião anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) no fim de semana foi um encontro de pessoas assustadas e zangadas. A crise financeira que se abateu sobre o mundo em agosto de 2007 entrou em nova e, sob aspectos cruciais, mais perigosa fase. Está surgindo uma retroalimentação positiva entre bancos e países debilitados, com um efeito potencialmente catastrófico sobre a zona do euro e a economia mundial - a zona do euro não é uma ilha. O que torna esse processo particularmente assustador é que as nações mais fracas são incapazes de enfrentar sozinhas as dificuldades, ao passo que a zona do euro não tem ninguém no comando e pode não dispor da capacidade para enfrentar a crise.

O perigo subjacente está no mais recente relatório de estabilidade financeira do FMI. O documento é convincente e corajoso. E qual é a mensagem? São duas frases: "Quase metade do estoque de € 6,5 trilhões em dívida pública dos governos da área do euro mostra sinais de intensificado risco de crédito"...... "como resultado, os bancos que têm montantes substanciais de dívida soberana de maior risco e volatilidade estão sofrendo pressão nos mercados".

Em seu livro "This Time is Different" (Desta vez é diferente), Kenneth Rogoff, de Harvard, e Carmen Reinhart, do Instituto Peterson de Economia Internacional, explicaram que grandes crises financeiras frequentemente produziram crises de dívida soberana. Esse é o estágio a que o mundo agora chegou, não mais em pequenos países periféricos na zona do euro, mas na Espanha e Itália. O surgimento de dúvidas sobre a capacidade das nações de administrar seu endividamento compromete a percepção de solidez dos bancos, tanto diretamente, pois os bancos detêm grande parte da dívida dos países como indiretamente, devido ao valor cada vez menor da cobertura de seguros sobre os títulos soberanos.

O mundo entrou em nova e perigosa fase. Está surgindo uma retroalimentação positiva entre bancos e países debilitados, com efeito potencialmente catastrófico sobre os países da União Europeia e a economia mundial

O relatório do FMI explica os processos: "Contágios de países emissores de títulos com spread elevado na área do euro afetaram os sistemas bancários locais, mas também se alastararm para instituições em outros países. Além dessas exposições diretas, os bancos assumiram risco soberano indiretamente, emprestando a bancos que detêm títulos soberanos de crédito incerto. Os bancos também estão afetados por riscos soberanos no lado dos passivos em seus balanços patrimoniais, pois as garantias implícitas dos governos foram corroídas, o valor dos títulos públicos usados como garantia caiu, as chamadas de margem aumentaram e rebaixamentos das classificações de crédito dos bancos vieram na esteira de rebaixamentos na pontuação de crédito dos títulos soberanos". À medida que recursos financeiros ficam sob pressão, o crédito encolhe e o setor privado torna-se mais cauteloso, debilitando as economias e e minando a solvência tanto fiscal como financeira.

Na pior das hipóteses, o mundo está à beira de uma grande crise. Por essa razão, autoridades como Tim Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, e Christine Lagarde, diretora do FMI, exerceram feroz pressão para que as autoridades da zona do euro ponham-se em ação: os dias de "muito pouco, quase tarde demais", terminaram; não agir prontamente será, simplesmente, tarde demais, argumentam eles.

Então, o que estão exigindo os forasteiros? A resposta é dupla: uma recapitalização das instituições bancárias debilitadas em escala crível e liquidez suficiente para evitar que o pânico deságue em colapso de bancos e de nações vulneráveis. Estão circulando diferentes estimativas sobre os montantes necessários. Os americanos, cientes de sua experiência em 2008 e 2009, recomendam "choque e assombro". Dadas as necessidades de financiamento de bancos e soberanos, isso se traduz em bem mais que €1 trilhão e, muito plausivelmente, vários múltiplos desse número. É o suficiente para deixar atordoado um alemão cauteloso.

Como poderia isso ser feito? Meu colega Peter Spiegel ofereceu um excelente roteiro introdutório em "Europe thinks the unthinkable" (A Europa pensa o impensável). Primeiro, no decorrer de outubro, a zona do euro deveria ter ratificado o modificado Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, em inglês), no montante de € 440 bilhões. O Fundo seria, então, capaz de injetar capital nos bancos e comprar, no mercado aberto, títulos de governos em dificuldades. Mas esse fundo é muito pequeno. Aparentemente, cinco diferentes planos estão em discussão. Eles envolvem alavancar o dinheiro do EFSF, mediante a emissão de garantias, em vez de empréstimos, ou tomando empréstimos do Banco Central Europeu (BCE) ou nos mercados. A ação precisa ser imediata e a única entidade capaz de fornecer os fundos necessários é o banco central.

Isso funcionaria? Minha resposta a essa pergunta tem sete partes. Primeiro, se for obtido um acordo em torno de ação na escala necessária, isso deverá deter o pânico. Em segundo lugar, poderá ser impossível obter tal consentimento, especialmente se o recursos dependerem fortemente do BCE, pelo menos no curto prazo. Mario Draghi, o próximo presidente do BCE, iria ver-se na desagradável posição de ser obrigado a salvar seu próprio país em meio a queixas da opinião pública alemã contra uma perversão moral de seu banco central.

Em terceiro lugar, depois que os bancos e nações passarem a depender fortemente de financiamento oficial, poderão ver-se em grande dificuldade para retornar ao mercado. Quarto, essas ações não podem resolver a dificuldade mais profunda: os países atualmente não competitivos necessitarão um fluxo considerável de fundos externos por um tempo muito longo, e pouco desse fluxo provavelmente virá do agora temeroso setor privado.

Em quinto lugar, é provável que após tal socorro, os imprudentes simplesmente voltem a praticar seus maus velhos hábitos, tornando necessários socorros renovados. Sexto, será possível fazer cessar transferências internas somente se houver ajustes no interior da zona euro, inclusive nos países superavitários - mas há escassos sinais disso. Assim, a zona do euro corre o risco de transformar-se em uma união de transferência ilegítima. Finalmente, há o perigo de que um programa ambicioso degrade a posição dos países mais saudáveis, embora um colapso possa causar quase igual dano às suas pontuações de crédito.

A zona do euro ainda não decidiu o que será quando crescer. Mas, primeiro, precisa chegar a esse estágio. Os custos de um derretimento seriam graves demais para ser contemplados. Os membros simplesmente tem de impedir isso. Eles não têm outra alternativa sã. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Estímulo econômico infla a tensão social na China


Por Tom Orlik | The Wall Street Journal, de Pequim

O programa gigantesco de estímulo econômico da China tem conseguido manter um crescimento de quase dois dígitos, mas também tem causado inflação, endividamento e alimentado outra evolução: a da turbulência social.

A China lidou com 180 mil protestos, tumultos e outros incidentes com multidões em 2010 - mais de quatro vezes o total de uma década antes. Esse número, divulgado por Sun Liping, professor da Universidade Tsinghua, e não por fontes oficiais, não revela o quadro completo da tensão social naquela que é agora a segunda maior economia do mundo.

Mas o que está claro é que o nível de tensão e o número de protestos contra o governo está aumentando. Esse assunto é delicado, já que o Partido Comunista chinês, que governa o país, planeja celebrar em 1º de outubro os 62 anos da fundação da República Popular da China.

Tão preocupante para o Partido Comunista quanto o aumento no número de protestos é o fato de que muitos deles são motivados por injustiças econômicas diárias. A insatisfação social não se limita às áreas de minorias étnicas, como Tibete e Xinjiang. A maioria dos protestos é contra construtoras, que praticam grilagem de terras, e contra abusos de poder de autoridades locais, ou ainda contra construtoras que não pagam salários.

Centenas de pessoas participaram de um protesto na semana passada em Lufeng, cidade da Província de Cantão, motivado por acusações de que terras de moradores locais foram confiscadas para empreendimentos imobiliários. Trabalhadores migrantes em Zengcheng, também em Cantão, incendiaram em junho prédios do governo, depois que policiais empurraram para o chão uma grávida que trabalhava como camelô.

A alta de preços pode não ser a principal causa dos protestos, mas continua sendo uma importante fonte de insatisfação. A inflação foi o maior problema apontado pelos chineses em 2010, segundo uma pesquisa anual de atitudes sociais publicada pela Academia Chinesa de Ciências Sociais; em 2009, era só o quinto de preocupação.

Existe uma razão para a inflação se tornar mais preocupante. Um estímulo monetário amplo em 2009 e 2010 - em que os bancos concederam 17,5 trilhões de yuans (US$ 2,7 trilhões) em novos empréstimos - se traduziu em inflação maior, que se refletiu principalmente no preço dos alimentos. Os problemas pioraram em 2011. Os dados mais recentes mostram que o preço da alimentação subiu 13,4% em agosto, em comparação a um ano antes. Os preços da carne suína, a favorita na China, subiram 52,3% e bateram recorde. A população urbana de baixa renda, que gasta a maior parte do salário com alimentação, é a mais prejudicada pela alta no preço da comida.

O aumento veloz no custo de vida pode afetar a estabilidade social, como ficou claro nos protestos de 1989, que terminaram reprimidos de maneira sangrenta na Praça da Paz Celestial, em Pequim. O desejo de reformas políticas motivou esses protestos, mas a raiva com a alta no preço dos alimentos também foi um fator. Cartazes políticos espalhados pela capital criticavam as refeições suntuosas da elite governamental da China num momento em que os trabalhadores lutavam para sobreviver.

Mais de duas décadas depois, muita coisa mudou. A corrida às lojas em 1989, motivada pela transição do tabelamento governamental para a economia de mercado, foi um dos fatores que impulsionou o custo dos gêneros básicos. O governo não precisa se preocupar com isso desta vez.

Mas algumas coisas continuam as mesmas. "Você não encontra mais tumultos causados pelos alimentos, mas analise a fundo qualquer distúrbio social e descobrirá que a insatisfação com a inflação é um dos fatores", disse Murray Scott Tanner, analista de segurança da consultoria CNA e especialista em China. Os dados respaldam essa análise. Na última década, a alta nos casos de "distúrbio da ordem pública" acompanhou a alta no preço dos alimentos e subiu sensivelmente quando os preços começaram a subir, em 2004 e 2007.

Se a inflação é o barril de pólvora, a fagulha que incendeia os problemas sociais provavelmente virá do confisco de terras. Um boom imobiliário que já dura uma década tornou a terra uma commodity valiosa. As frágeis garantias judiciais ao direito à propriedade privada e as alianças entre incorporadoras e governos locais significam que as terras muitas vezes são confiscadas sem indenização adequada aos moradores.

Veja o exemplo do condado de Xianghe, em Hebei, uma província que faz divisa com Pequim. A imprensa local informou que as autoridades confiscaram de maneira fraudulenta desde 2008 centenas de hectares de produtores rurais, que foram vendidos a incorporadoras para a construção de casas de luxo.

Li, que informou só o último nome por medo de represália, disse que seus pais foram expulsos da casa deles em Xianghe com indenização de apenas 3.000 yuans por metro quadrado, quando o valor de mercado é de mais de 6.000 yuans. Transações como essas aumentam o faturamento dos governos locais em centenas de milhões de yuans, mas à custa das terras e do meio de sustento dos produtores rurais. Autoridades de Xianghe encaminharam as perguntas sobre esse tema para o escritório de relações públicas, onde os telefonemas não foram atendidos.

O caso de Xianghe não é um incidente isolado. Yu Jianrong, especialista em problemas sociais da Academia Chinesa de Ciências Sociais, escreveu em 2010 que disputas relacionadas a terras estavam por trás de 65% dos distúrbios sociais no interior da China.

Esse número pode aumentar. Os governos locais da China passaram os últimos três anos se endividando - 10,7 trilhões de yuans segundo estimativa de junho do Escritório Nacional de Auditoria. As dúvidas sobre a capacidade dos governos locais de pagar essa dívida têm aumentado. A imprensa local divulgou este mês que 85% das cidades devedoras em Liaoning, uma província no nordeste da China, não tinham receita suficiente para pagar os juros das dívidas.

Por que os bancos fizeram tantos empréstimos para projetos em que a expectativa de receber de volta era tão pequena? A resposta são as terras. Segundo o Escritório Nacional de Auditoria, 2,5 trilhões de yuans em empréstimos para governos locais - 23% do total - dependem das vendas de terrenos para pagar as dívidas. Alguns analistas dizem que o porcentual é muito maior.

Os governos locais da China faturaram 2,9 trilhões de yuans com a venda de terras em 2010. Pagar todas as dívidas significará vender quase a mesma quantidade de terras novamente. Se as prefeituras quiserem continuar financiando hospitais, escolas e outros serviços, a consequência é uma alta gigantesca na venda de terras. E o pior é que, à medida que os governos locais encherem o mercado de terrenos para poder pagar suas dívidas, o excesso de oferta pode derrubar os preços, o que elevaria mais a área que teria de ser vendida.

Nem todos os produtores rurais prestes a serem expulsos de suas terras ou moradores prestes a serem expulsos de suas casas vão deixar barato. Como o confisco de terras já é a principal causa da instabilidade social e a inflação está aumentando ainda mais o problema, o governo da China pode não conseguir quitar todas as suas dívida sem quebrar o contrato social do país. (Colaborou Yang Jie, de Xangai)

TV ON LINE


ECONOMISTA FALA SOBRE A POSSIBILIDADE DE CORTE NA SELIC TEMPO: 00:03:54
Em entrevista ao Conta Corrente, o economista e professor da USP Joaquim Elói Cirne de Toledo falou sobre a possibilidade de corte de 1 ponto na taxa Selic, durante reunião do COPOM.

SONORA

*JOAQUIM ELÓI CIRNE DE TOLEDO, economista e professor da USP

*GEORGE VIDOR, jornalista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

REESTRUTURAÇÃO DE DÍVIDAS PODE SER SOLUÇÃO PARA A CRISE, DIZ ECONOMISTA TEMPO: 00:06:53
Em entrevista ao Conta Corrente, o economista e professor da USP Joaquim Elói Cirne de Toledo falou sobre a crise no bloco europeu e as influências na economia brasileira. Para ele, a reestruturação de dívidas pode ser a solução para a crise.

SONORA

*JOAQUIM ELÓI CIRNE DE TOLEDO, economista e professor da USP

*GEORGE VIDOR, jornalista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

Dilma na Europa. Antes que acabe


Clovis Rossi - FSP 27/09

SINAL DOS tempos: na segunda-feira, quando a presidente Dilma Rousseff sentar-se para jantar com a cúpula europeia, em Bruxelas, o complexo de vira-lata, que era uma característica do brasileiro, segundo o teatrólogo Nelson Rodrigues, estará do lado europeu da mesa, tantas são as críticas e exortações ao velho continente para que ponha sob controle sua crise.
Um negociador brasileiro de larga experiência relembra, a respeito, que, em muitos momentos anteriores, os brasileiros tinham muita dificuldade em expor seus pontos de vista, porque eram sempre cobrados para pôr a casa em ordem.
Agora, em recente reunião de um dos mais de 20 diálogos setoriais que mantêm Brasil e União Europeia, foram os brasileiros que sugeriram aos europeus mecanismos de estímulo ao crescimento, visto que a obsessão com os ajustes fiscais está minando as economias de quase toda a Europa.
Pelo que disse na ONU, é razoável supor que a presidente Dilma Rousseff insistirá nesse ponto durante o jantar de segunda-feira, que abre ritualmente o encontro de cúpula entre os dois "parceiros estratégicos", rótulo que se está usando com muita prodigalidade na diplomacia global, mas que, no caso, corresponde, sim, aos fatos.
Na terça, dá-se o encontro propriamente dito, após o que a presidente inaugura o Europália, festival anualmente promovido pela Bélgica que, neste ano, homenageia o Brasil. Trata-se de ampla coleção de eventos culturais, a se desenvolver de outubro a março de 2012.
A visita a Bruxelas, capital informal da Europa, não deixa de ser simbólica a respeito das prioridades da diplomacia brasileira no atual governo: Dilma recebeu o presidente dos Estados Unidos, visitou a China e agora vai à União Europeia. Não por acaso, as três grandes potências globais.
É verdade que, antes de tudo, viajou a Buenos Aires, mas dá a sensação de que foi mais o que os argentinos chamam de "saludo a la bandera". Ou seja, a atenção formal ao vizinho, mas com a certeza de que o Brasil hoje joga em outra divisão. A viagem a Bruxelas quase pode ser enquadrada na categoria "visite a Europa antes que acabe".
É sintomático do mal-estar europeu o título de capa do suplemento econômico do "Monde" ontem: "Schuman, desperte, eles ficaram loucos", apelo desesperado a Robert Schuman, considerado um dos pais da unificação europeia. Continua o título: "A explosão da zona euro não é mais um tabu".
Reforça Andreu Misseu, correspondente de "El País" em Bruxelas: "A falta de solidariedade está apagando a ideia de Europa". Nesse cenário, até um suposto plano grandioso de resgate, anunciado ontem pela BBC, acaba embaçado. A emissora britânica informou que a Europa pretende quadruplicar os recursos para seu fundo de resgate, levando-os a impressionantes € 2 trilhões (um Brasil inteiro), além de permitir que a Grécia dê um calote em metade de sua dívida.
Se esse plano existe de fato e se sobreviver até o início da próxima semana, certamente terá o apoio de Dilma, que não esconde que sua grande preocupação do momento é com a crise cujo epicentro está na Europa, sua próxima escala global.

crossi@uol.com.br

Uma agenda mundial para 7 bilhões



Por Ban Ki-moon - Valor 27/09

No fim de outubro nascerá uma criança que será a sétima bilionésima habitante do planeta Terra. Nunca saberemos em que sociedade ou família o bebê nascerá. Mas sabemos que embarcará em um mundo de mudanças enormes e imprevisíveis - ambientais, econômicas, geopolíticas, tecnológicas e demográficas.

A população mundial triplicou desde que a ONU foi criada, em 1945. E nossos números continuam crescendo, com pressões correspondentes sobre terra, energia, alimentos e água. A economia mundial também está gerando pressões: crescente desemprego, ampliação das desigualdades sociais e a emergência de novas potências econômicas.

Essas tendências interligam o destino e o futuro das atuais 7 bilhões de pessoas como nunca antes. Nenhum país sozinho tem como resolver os grandes problemas do mundo no século XXI. Cooperação internacional é uma necessidade universal.

A 66ª sessão da Assembleia Geral da ONU é uma nova oportunidade para os países do mundo deixarem de lado seus interesses estreitos e de curto prazo e comprometerem-se com esforços cooperativos para enfrentar os imperativos de longo prazo da humanidade. Em um momento em que todas as nações estão se defrontando com dificuldades individuais, precisamos forjar uma agenda mundial comum que possa ajudar a assegurar que o sétimo bilionésimo bebê e as gerações futuras cresçam em um mundo caracterizado por paz duradoura, prosperidade, liberdade e justiça.

Para ajudar a criar esse futuro, estou concentrando meu segundo mandato como secretário-geral em cinco imperativos globais - cinco oportunidades para que uma geração molde o mundo futuro com base nas decisões que tomamos hoje.

O primeiro e maior desses imperativos é o desenvolvimento sustentável. Todos nós precisamos entender que salvar nosso planeta, tirar as pessoas da pobreza e fazer progredir o crescimento econômico são uma só luta. Devemos conectar os pontos entre mudanças climáticas, escassez de água, falta de energia, saúde mundial, segurança alimentar e mais poder às mulheres. Soluções para um problema deve ser soluções para todos.

Precisamos, nos próximos cinco anos, criar uma nova visão econômica para um desenvolvimento sustentável e forjar um consenso mundial sobre um acordo com força de lei sobre as alterações climáticas. Fomentar o crescimento econômico, a concretização das Metas de Desenvolvimento do Milênio e o combate às alterações climáticas dependerão, todos, da criação de um novo sistema energético para o século XXI e de estendê-lo a cada pessoa no planeta.

Prevenção como um arcabouço para cooperação internacional é uma segunda oportunidade. Neste ano, o orçamento da ONU para ações de paz atingirá um total de US$ 8 bilhões. Pense no que poderíamos economizar evitando conflitos - enviando missões de mediação política, por exemplo, em vez de tropas. Nós sabemos como fazer isso. Nosso histórico comprova isso - na Guiné, no Quênia e no Quirguistão.

Um terceiro imperativo é a construção de um mundo material e humanamente mais seguro. Nesse esforço, precisamos ser corajosos na defesa da democracia, dos direitos humanos e da paz. Este ano foi importantíssimo na restauração e manutenção da paz - na Costa do Marfim, em Darfur, no Egito e em outros lugares. Mas ódio e derramamento de sangue ainda são obstáculos em nosso caminho de nossa visão para a paz.

No Oriente Médio precisamos romper o impasse. Os palestinos merecem um Estado. Israel necessita segurança. Ambos querem paz. Um acordo negociado pode produzir esses resultados e a ONU é uma plataforma para o estabelecimento dessa paz.

Assim, também, prosseguiremos em nossos esforços para promover a governança democrática no Iraque, Afeganistão, República Democrática do Congo e em Serra Leoa. E, em nome de toda a humanidade, continuaremos a pressionar pelo desarmamento nuclear e pela não proliferação, a serviço da concretização de um mundo livre de armas nucleares.

A quarta grande oportunidade é apoiar os países em transição. Dramáticos acontecimentos neste ano no Norte de África e no Oriente Médio inspiraram as pessoas em todo o mundo. Façamos da Primavera Árabe uma verdadeira estação de esperança para todos.

Na Líbia, estamos implantando uma nova missão de apoio da ONU para ajudar as autoridades de transição do país a estabelecer um novo governo e a ordem legal, em consonância com as aspirações do povo líbio. A Síria é motivo de preocupação especial. Durante seis meses vimos a escalada da violência e da repressão. O governo prometeu repetidamente realizar reformas e ouvir seu povo. Não o fez. O momento de agir é agora. A violência deve cessar.

Por último, mas não menos importante, é imperativo trabalhar com, e para, as mulheres e jovens.

As mulheres sustentam mais de metade do céu [provérbio chinês] e representam grande parte do potencial não realizado do mundo. Necessitamos a plena participação delas - no governo, nas empresas e na sociedade civil. A ONU atribuiu alta prioridade à promoção das mulheres em todos os níveis da Organização e neste ano, pela primeira vez, a UN Women está operando no sentido de promover os interesses e direitos das mulheres em todo o mundo.

Sete bilhões de pessoas agora voltam os olhos para a ONU em busca de soluções para as grandes dificuldades do mundo inteiro. Elas têm diferentes religiões e histórias, mas sonhos e aspirações comuns. Nosso futuro mundial depende de aglutinar esses talentos individuais e direitos universais em causas comuns. Inauguremos nossa agenda comum. (Tradução Sergio Blum)

Ban Ki-moon é secretário-geral da Organização das Nações Unidas.

Os especialistas e o câmbio


Por Antonio Delfim Netto - Valor 27/09

A anguzada, como dizia meu avô, da última semana no mercado cambial teve aspectos cômicos. Alguns "especialistas" recusaram-se a ouvir o dr. Tombini sobre a possibilidade de movimentos cambiais insuspeitados. Continuaram a defender, como paradigma para medir as "distorções" de nossa pobre e ignorante política cambial, a absoluta liberdade do movimento de capitais e o sagrado regime de flutuação imaculada e desinibida da taxa de câmbio.

Tudo de acordo com o Mundo 2, do platonismo semiacadêmico no qual habitam. De repente, trombaram com o Mundo 1, da cruel realidade aristotélica. Foram surpreendidos numa desconfortável posição "vendida" no mercado altamente volátil antecipado pelo dr. Tombini.

Para safar-se, precisam de tempo (o que impõe custos) e de liquidez (que se tornara escassa pela ação do IOF). Clamaram, então, por uma imediata e eficaz intervenção do Banco Central no mercado. Ela está sendo feita (como, aliás, é obrigação do Banco Central), mas agora, obviamente, não se trata de uma "distorção"...

O ponto mais interessante é que tais operadores atribuem suas dificuldades não à arriscada busca de lucro num mercado absolutamente imprevisível, mas às medidas que, "em legítima defesa", o governo tem posto em prática apenas para confortar parte da indústria nacional, à qual ele mesmo tem negado, há décadas, as condições isonômicas para competir. Para encerrar esse assunto, nada como lembrar o velho Nietzsche: "A grande vantagem da falta de memória é que podemos gozar muitas vezes, sempre pela primeira vez, as mesmas boas coisas".

Talvez esse seja o momento de reconhecer a validade da hipótese básica que orienta a nossa política econômica (fiscal, monetária e cambial): o mundo caminha para alguns anos de alta volatilidade e baixo crescimento. Não apenas porque os Bancos Centrais não sabem bem o que fazer, mas porque há uma "conjugação desfavorável" dos astros! A reedição da operação "twist" pelo Fed, depois do seu reconhecido fracasso, em passado não muito distante, é uma prova disso.

De um lado, temos nos EUA uma disfuncionalidade política que nunca foi tão evidente e que não será resolvida antes das eleições de 2012. É pouco provável que o último apelo de Obama ("Living Within Our Means and Investing on the Future: The President´s Plan for Economic Growth and Deficit Reduction"), que inclui o "The American Jobs Act", seja aprovado no Congresso pelos republicanos.

Se aprovado, talvez não venha a tempo para reduzir, antes da eleição, o dramático desemprego e subemprego; dar conforto aos 16% da população sem assistência à saúde; melhorar a renda das residências americanas (no menor nível desde 1996) e compensar mais de US$ 6 trilhões de redução de ativos que elas sofreram desde 2007.

Por último, mas não menos complicado: 47% dos cidadãos são hoje dependentes, de uma forma ou de outra, de alguma ajuda do governo, o nível mais alto registrado na história dos EUA. Não podemos esquecer que Obama sequer conseguiu nomear os dois membros faltantes do Fed.

Por outro lado, temos enormes dificuldades na Comunidade Econômica Europeia onde, também, o Banco Central não revela que sabe muito mais do que o Fed. A situação não melhorará enquanto não se completar a substituição de Jean-Claude Trichet pelo novo escolhido, o competente, experiente e pragmático Mario Draghi.

Ele assume sob a suspeita dos puristas monetários do Bundesbank, que têm abandonado, oportunistamente, a direção do Banco Central Europeu, depois das sucessivas derrotas de Angela Merkel a cada eleição regional. Draghi deve dizer a que veio, porque na opinião de economistas alemães, "para os italianos, a inflação é uma forma de viver, como o molho de tomate no espaguete"...

Provavelmente Merkel vai perder as eleições. O vencedor vai ter que ensinar aos seus economistas que "a política domina a economia". O país que mais vai perder, política e economicamente, no curto prazo, com a eventual destruição da moeda única, o euro, é justamente a Alemanha. Basta pensar quem estaria hoje na posição do franco suíço, se o deutschemark ainda existisse. E o que seria da prosperidade da Alemanha, se as suas exportações não tivessem se beneficiado da disciplina germânica que "desvalorizou" o deutschemark dentro do euro, aumentando a produtividade da mão de obra, ao mesmo tempo em que, de acordo com os sindicatos, controlava o aumento dos salários. Em outras palavras, a civilizada política alemã de trocar a "estabilidade" no emprego pela "moderação" salarial foi induzida pelo euro.

Com a visível escassez de estadistas que se abate sobre o mundo desenvolvido, o tempo da recuperação é absolutamente incerto. Não se trata apenas de um problema econômico, que os economistas talvez soubessem resolver, mas de um problema político, que os economistas, mesmo que soubessem o que fazer, não poderiam fazê-lo. Falta-lhes a legitimidade do poder. Trata-se de uma questão de liderança capaz de devolver à sociedade a confiança e a esperança, sem as quais não se vê solução razoável antes das próximas eleições nos EUA e na Eurolândia. Esperamos vê-las depois...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Procura-se plano para salvar a Europa


Por Philip Stephens - Valor 26/09

Tornou-se uma espécie de mantra, entre os líderes europeus, a afirmação de que podemos ter certeza de que eles vão salvar o euro, porque eles têm de salvar a União Europeia. O leitor pode ver de onde eles estão vindo. A integração europeia teria dificuldades para sobreviver à extinção do projeto que é seu carro-chefe.

À afirmação, porém, falta algo muito importante em termos de causalidade. A razão pela qual a moeda única está em apuros tão terríveis é que os governos em toda a Europa não conseguiram convencer o eleitorado de que vale a pena salvar a própria União Europeia (UE).

Eu desisti de contar os comentários eruditos que li sobre o futuro da união monetária - ou a ausência de uma união. Alguns dizem que a crise poderia ser resolvida de uma só vez mediante uma emissão de títulos da zona do euro. Tim Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, concebeu uma abordagem que permitiria aos governos alavancarem seu poder de fogo financeiro.

Outros insistem nas leis de ferro da demanda econômica: exigem que a Grécia seja lançada ao mar. Isso é rotulado de calote controlado. Não tenho certeza de que banqueiros franceses e alemães estejam tão otimistas diante dessa perspectiva. Meus amigos em Bruxelas esperam (ou melhor, torcem para que haja) um salto rumo a uma união política. Profetas inclinados à descrença dizem que tudo isso é inútil, porque eles sempre souberam que a moeda única estava condenada.

Os comentários que me intrigam são os que dizem que a UE não pode sobreviver e emendam a afirmação de que um rompimento é impossível por causa dos custos resultantes. Para os leitores, talvez o melhor seja que cada um tire sua própria conclusão.

De minha parte, fico maravilhado diante das certezas daqueles que oferecem ousadas previsões e prescrições. Certamente, se aprendemos alguma coisa durante a década passada é que precisamos nos acautelar diante de asserções simplistas. Ainda ontem, todos concordavam em que o futuro seria escrito pelo casamento da hegemonia americana com a marcha inexorável do capitalismo liberal.

De conversas recentes que tive com os ministros e autoridades europeias, concluo que um passageiro do U Bahn berlinense ou do metrô de Atenas têm a mesma probabilidade de acerto que a multidão de especialistas e analistas e especialistas.

Em eloquente ensaio no FT, nesta semana, Larry Summers observou que, ao fazerem hoje apenas o suficiente para tocar o barco, os líderes europeus poderão muito bem vê-lo encalhar amanhã; é difícil discordar. Arriscar mais que isso tem tanta chance de acerto quanto no lançamento de uma moeda.

Crises podem muito bem ter um desenlace. Empurrar com a barriga pode, bem, resultar em apenas continuar empurrando com a barriga. Meu palpite é que até mesmo Angela Merkel, a chanceler alemã, ainda não sabe se ficará na história como algoz ou salvadora do euro. Seja como for, as perspectivas econômicas são bastante sombrias.

Esta é fundamentalmente uma crise política. Os cálculos sobre déficits, sustentabilidade de endividamento e calote são bastante interessantes. Mas as correntes organizadoras são políticas: o entrechoque da ideia de que os governos da zona do euro precisam sair juntos dessa crise e a tentação de pensar que ficarão em melhor situação cada um por si.

Se o problema europeu era simplesmente um sistema monetário em colapso, deveríamos estar nos perguntando o porquê de todo esse alarido. Tão grandes quanto parecem os números, as dívidas dos países periféricos são uma pequena fração do PIB da zona do euro. O obstáculo a uma resolução da crise não é a ausência de uma correção técnica ou econômica plausível, mas o renascimento dos nacionalismos no Continente.

Não é difícil ver como o populismo individualista é sedutor. Com marcos em seus bolsos, os alemães poderiam voltar a ser alemães, poupando e investindo as recompensas de sua prudência e trabalho duro. Os gregos poderiam libertar-se dos grilhões da austeridade teutônica e voltar às praias, repudiando suas dívidas.

Não seria assim, é claro. A Alemanha não prosperaria numa Europa falida. Por um lado, seus bancos estão repletos de dívida soberana de quitação incerta. Por outro lado, um default é uma rota de fuga estritamente temporária. As economias devedoras não podem evitar indefinidamente duras opções. Mas essa é justamente a atração superficial do nacionalismo: ele remove as irritante realidades da interdependência para fazer de conta de que tudo estaria bem se os estrangeiros fossem mantidos à distância.

O esgarçamento do que antiquados europeus de uma certa idade denominam solidariedade começou bem antes do início da atual crise. A reaproximação franco-alemã que inspirou os pais fundadores é tida como assegurada. O colapso da União Soviética removeu a ameaça existencial compartilhada. Paz e prosperidade são agora assumidas como ordem natural das coisas. Quando líderes políticos alegam estarem tolhidos por seus eleitorados, o que querem dizer é que não articularam o discurso de seus interesses nacionais na integração europeia.

Isso não é tão difícil. Se o Ocidente enfrenta declínio relativo inevitável, a Europa parece estar em queda livre. O tema das conversas em Pequim, na Índia e em Ankara é a irrelevância europeia. Ao agirem em concerto, os governos da UE podem ter um papel, e até mesmo significativo, no estabelecimento de regras do jogo mundial. Individualmente, eles têm pouco poder a exibir. Mesmo a Alemanha, como já disse alguém, é muito pequena diante do mundo.

Os europeus já souberam disso. A marcha da globalização e o deslocamento do poder para o Oriente sublinham o argumento. Os países europeus prosperam num sistema baseado em regras. Uma Europa que fizesse diferença em um mundo multipolar exportaria seu modelo de multilateralismo.

Cooperação, integração - seja que nome atribuamos -, não exime governos de responsabilidade. Os Estados meridonais não podem manter-se indefinidamente em declínio de competitividade. Se a concepção da moeda única foi falha, Itália, Espanha, Portugal e Irlanda, assim como a Grécia, estão colhendo as consequências das decisões tomadas em suas capitais.

Mas tanto países devedores como credores precisam também concordar em que vale a pena salvar a UE. Na última vez em que escrevi sobre o retorno a uma ordem westfaliana, alguns leitores responderam perguntando o que haveria de errado nisso. Eu julgava que a contagem de mortos na primeira metade do Século XX falaria por si. Mas talvez valha a pena também notar que em 1648 a Europa era um continente em ascensão.

Manter a união monetária exige que os líderes da zona do euro em ambos os lados do atual divisor de águas econômico argumentem o mérito do euro. Para fazer isso, porém, eles precisam, primeiro, argumentar o mérito da Europa.

Philip Stephens é editor e comentarista político do FT

BC deve ter meta de desenvolvimento?


Por Jairo Saddi - Valor 26/09

Frank Tamagna, economista italiano, funcionário do Federal Reserve System e radicado em Washington, escreveu, nos idos de 1950, um livro denominado Central banking in Latin America, que teve grande repercussão.

Nesse livro, o autor dedicou um capítulo inteiro à função de agente de fomento dos bancos centrais e recomendava que a autoridade monetária fosse também meio de realizações econômicas, de agente de fomento e fiadora do desenvolvimento nacional. (Capítulo VI - "Central banks and economic development", op. cit. Centro de Estudos Monetarios Latinoamericanos, p. 195-231)

Com o surgimento da inflação galopante nos anos 1970-80, a ideia foi simplesmente considerada absurda. O Banco Central deveria ter a única e muito definida função de zelar pela moeda e usar seu poder monetário para preservar seu valor. No entanto, com as crises mais recentes (e, curiosamente, com o recrudescimento da inflação), o assunto voltou à tona e granjeando simpatia. A revista The Economist, por exemplo, citou o atual trabalho do economista Scott Sumner, da Bentley University, que, revivendo a velha ideia de Tamanga e dos chamados desenvolvimentistas, clamou por inverter o papel dos bancos centrais. Segundo Sumner, em vez de os bancos centrais se valerem do seu arsenal para controlar a política monetária e as metas de inflação, como vêm fazendo desde seus primórdios, deveriam passar a considerar o produto nacional doméstico bruto, na sua expressão nominal.

A ideia de Scott Sumner é adotar uma "meta de desenvolvimento do produto", pela qual os banqueiros centrais deveriam receber como objetivo uma taxa nominal de crescimento, e a política monetária deveria afrouxar ou endurecer de acordo com as reações do produto doméstico.

Primeiro, é necessário alargar o entendimento sobre o que é a política monetária exercida por um banco central. A política monetária precisa ser definida como a atividade ligada ao controle da moeda e de sua oferta, visando determinados objetivos, como aqueles definidos pela política econômica. Um banco central regula a expansão dos meios de pagamento, elabora o orçamento monetário e utiliza todos os instrumentos de política monetária ao seu alcance (taxa de juros, recolhimento compulsório, taxas de redesconto e operações de compra e venda de títulos públicos no mercado aberto), além de ser também o guardião e administrador das reservas estrangeiras e, no nosso caso, o centralizador do câmbio.

Pois bem: mudar a meta dos bancos centrais não fará mudar também os instrumentos de política monetária de que essas instituições dispõem. Mesmo que o Federal Reserve continue aplicando algumas medidas, de certo modo, de maneira pouco convencional, como vem fazendo ("quantitative easing", ou seja, comprando ativos reais e afrouxando ainda mais a liquidez, enquanto mantém as taxas de juros próximas a zero), uma mudança de meta de inflação para meta de desenvolvimento apenas aceleraria o aquecimento da economia, se fossem mantidas as premissas de ampla liquidez. Caso contrário, haveria uma enorme e perigosa, perda de credibilidade.

Outro argumento proposto por Sumner trata da flexibilidade da atuação do banco central em épocas de crise. Para ele, mudar a meta implica obter maior estabilidade macroeconômica quando uma recessão se instala. Enquanto o produto doméstico cai mais dramaticamente, os preços relativos se ajustam com mais vagar. Isto significa que o banco central poderia manipular tais flutuações de forma mais eficiente, mesmo que isso possa acarretar maior volatilidade da inflação.

Ainda, outro argumento se refere ao potencial de redução de desemprego, política pública essencial em épocas de crise, e fundamental para reaquecer a economia. Mudar a meta, alega, é trazer o banco central para o time dos que apoiam a recuperação, e se ele estiver devidamente coordenado, a contribuição à economia é valiosa.

Aos problemas: primeiro, implícita está a tolerância com um pouco mais de inflação, debate antigo e pernicioso. Segundo, o que não faltou na crise de 2008-9 foi o ativismo dos bancos centrais em busca de manter a economia funcionando. Depois, os mecanismos de centrar a política na meta de inflação são conhecidos, os do desenvolvimento, não. Por exemplo, como ancorar as expectativas dos agentes quanto ao comportamento dos preços se não há parâmetros nem objetivos? Potencialmente, é muito mais difícil tratar de expectativas de crescimento do produto, além de ser igualmente complexo compreendê-las mais objetivamente (e medi-las), dependendo de muitas outras variáveis exógenas à moeda. Portanto, essa não é uma boa saída e, como todas as ideias simpáticas e simplistas, pode acabar com a reputação de banqueiros centrais, homens prudentes e conservadores que aprenderam ao longo dos séculos que preservar o valor da moeda é um bem maior a ser defendido.

Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, é doutor em direito econômico (USP) e professor de direito do Insper.

Inflação doméstica já reage menos ao câmbio


Valor 26/09

O impacto da valorização do dólar na inflação diminuiu nos últimos anos, segundo opinião de especialistas ouvidos pelo Valor. Para eles, a estabilização da economia brasileira, o aumento da concorrência e a variação do preço praticado no mercado externo são fatores que fazem contraponto à influência do câmbio no aumento dos preços. A tese de menor repasse das oscilações cambiais aos preços domésticos tem sido defendida pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Nos seis meses posteriores à quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, fato que foi um dos principais combustíveis para a crise que atingiu o mundo a partir daquele ano, a moeda americana se valorizou 24,47%. No mesmo período, entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 2,13% e o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) avançou 1,05%.

Esses números sugerem que os movimentos do câmbio já não atingem mais a economia brasileira - nem chegam ao consumidor final - como em outros tempos de crise. Em 1999, quando o Banco Central (BC) abandonou o regime de câmbio fixo, e também, em 2002, quando a eleição de Lula para a Presidência causou temores no mercado, cada 10% de valorização do dólar provocou um aumento de até dois pontos percentuais na inflação, segundo cálculos de Salomão Quadros, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Ainda que os economistas acreditem ser muito cedo para confiar que a moeda americana encontrou um novo patamar, a estimativa hoje é que a inflação cresça no máximo até um ponto percentual a cada 10% de valorização do dólar. Alguns economistas projetam efeitos ainda menores.

Na tentativa de estimar o quanto a escalada de 15% do dólar em setembro pode afetar a inflação, a LCA Consultores prevê que, mantendo-se todas as demais variáveis constantes, cada 10% de desvalorização do real vai representar 0,4 ponto de aumento nos preços ainda este ano.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA, ressalta que o país está mais protegido contra a flutuação cambial do que antes, favorecido por outras variáveis do cenário internacional e pela expectativa de diminuição do crescimento do PIB brasileiro no ano que vem. "O petróleo saiu de US$ 100 há dois meses, quando o real estava mais valorizado, para os atuais US$ 80, que compensam a alta de agora. O índice de preços gerais das commodities também vem caindo, ajudando a segurar os preços. Mas uma mudança no cenário internacional pode alterar tudo."

A Tendências Consultoria também refez suas contas. Considerando o dólar no patamar de R$ 1,80, o impacto na inflação no próximo trimestre será de 0,53%. O acréscimo dos preços virá principalmente no setor de bens comercializáveis, especialmente agrícolas, e eletroeletrônicos. Para os três primeiros meses do ano que vem, espera-se um aumento de mais 0,2% no IPCA em virtude do cenário atual. De acordo com a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências, o setor de serviços demora mais para sentir o impacto. "Como temos mais empresas competindo, a tendência é de que parte da elevação dos custos sejam absorvidos", afirma. Para ela, o índice de pass through no Brasil está mais eficiente do que antes.

"O momento é de aversão ao risco que a crise internacional trouxe. É um cenário diferente daquele em que a desvalorização da moeda nacional foi influenciada por problemas domésticos. Nesse caso, a influência do câmbio na inflação tende a ser menor", diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, que não aposta em relevante influência do dólar no preço dos produtos no Brasil.

Quando um país está com as contas em ordem, ele fica mais protegido diante dos suspiros de qualquer crise externa, que tendem, assim, a afetá-lo em menor escala. Essa é a opinião de Fábio Ramos, economista da Quest Investimentos, que mantém uma projeção de inflação de 5,6% para 2012. "Aprendemos com a crise de 2008 que é menor a importância do câmbio em um país sem dívida externa relevante."

"Vivemos em um regime de inflação mais baixo do que há dez anos e o BC reage às pressões inflacionárias. O cenário mudou e o impacto do dólar, com isso, caiu", diz Quadros, da FGV. Para o economista, esse controle da autoridade monetária segura por um tempo maior o repasse no aumento dos preços decorrente da valorização do dólar.

O preço das commodities, fixado em dólar, está entre os fatores que podem atenuar o efeito da desvalorização do real. Apesar da forte alta da moeda americana, a queda no preço dos produtos agrícolas deve atenuar a pressão inflacionária do grupo de alimentos. "O preço das commodities está caindo e a estabilidade do dólar na casa de R$ 1,90 não deve durar [na última sexta-feira, a moeda fechou em R$ 1,83]. A resultante entre esses dois termos é ligeiramente inflacionária, mas poderia ser bem maior se não fosse a deflação das commodities", diz Quadros.

O brasileiro nunca viajou como hoje e os economistas já alertam sobre um dos setores que sentirão mais cedo a pressão do dólar. Armando Castelar, também da FGV, acredita que o repasse ao preço das passagens aéreas deve ser rápido. "As empresas de aviação têm algumas ferramentas para se proteger de significantes variações cambiais, mas a tendência é que elas repassem esse custo ao consumidor se o dólar continuar em alta".

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

TV ON LINE


CRESCIMENTO DA INFLAÇÃO PERDE FORÇA NA QUADRISSEMANA DE SETEMBRO TEMPO: 00:03:00
O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) subiu 0,8% na quadrissemana de setembro. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a apuração anterior havia registrado aumento de 0,69%. Em entrevista ao Conta Corrente, o economista Luiz Roberto Cunha comentou os dados.

*LUIZ ROBERTO CUNHA, economista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

BC PODE FAZER NOVAS INTERVENÇÕES PARA SEGURAR VALORIZAÇÃO DO DÓLAR TEMPO: 00:02:00
Dados divulgados nesta sexta-feira pelo Banco Central revelam que o déficit nas transações correntes ficou em US$ 4,862 bilhões em agosto. Em 12 meses, o valor já alcançou a marca de US$ 49,783 bilhões, equivalente a 2,13% do PIB brasileiro. O número não assusta o BC por causa do investimento estrangeiro direto, que ultrapassou os US$ 5,606 bilhões.

Sobre a recente alta da moeda americana, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, admitiu a possibilidade de o governo voltar a intervir no mercado para impedir nova escalada do dólar.


*TULIO MACIEL, chefe do Departamento Econômico do Banco Central

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

MINISTÉRIO DA FAZENDA TENTA DERRUBAR LIMINAR CONCEDIDA À MONTADORA CHINESA TEMPO: 00:02:46
O Ministério da Fazenda recorreu da liminar que concedeu o adiamento da cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) mais caro para uma montadora chinesa. A Procuradoria também deve preparar a defesa da constitucionalidade questionada pelos Democratas no Supremo Tribunal Federal (STF).

*SENADOR JOSÉ AGRIPINO MAIA, presidente do DEM;

*ROMERO JUCÁ, líder do governo no Senado;

*KEVIN TANG, diretor Câm. Comércio Brasil-China.

TV: REDE TV PROGRAMA: REDE TV NEWS APRESENTADOR: AUGUSTO XAVIER

RELACIONADOS: BANCO CENTRAL

O mundo de ponta-cabeça


Por Luiz Fernando de Paula - Valor 23/09 - ilustração:Ivan KRUTOYAROV - Capsized

Um dos aspectos fundamentais do pensamento de John Maynard Keynes é a assunção básica de que as principais decisões empresariais em uma economia monetária, sobretudo aquelas relacionadas a um horizonte temporal mais dilatado, como no caso das decisões de investimento, estão sujeitas a incerteza radical. Incerteza, neste caso, significa a impossibilidade de se determinar, a priori, o quadro relevante de influências que atuarão entre a decisão de se implementar um determinado plano e a obtenção efetiva de resultados, dificultando a previsão segura que serviria de base para uma decisão "racional".

No conceito de Keynes sobre incerteza, não somente algumas premissas podem não ser conhecidas no momento de decisão como elas também podem ser incapazes de serem conhecidas. Keynes distinguia incerteza de risco probabilístico: "Desejo explicar que por conhecimento 'incerto' não pretendo apenas distinguir o que é conhecido como certo do que apenas é provável. Neste sentido, o jogo de roleta não está sujeito à incerteza; nem sequer a possibilidade de se ganhar na loteria (...). O sentido que estou dando ao termo é aquele segundo o qual a perspectiva de uma guerra europeia é incerta, o mesmo ocorrendo com o preço do cobre e da taxa de juros daqui a 20 anos, ou a obsolescência de uma nova invenção (...). Sobre estes problemas não existe qualquer base científica para um cálculo probabilístico. Simplesmente nada sabemos a respeito".

É a incerteza incontornável quanto ao futuro que justifica a preferência pela liquidez dos agentes, isto é, de querer manter a riqueza sob a forma de moeda e outros ativos líquidos. Isso porque em momentos de maior incerteza percebida pelos agentes, que causa uma forte deterioração em suas expectativas, estes passam a dar preferência a flexibilidade na composição de seu portfólio, preferindo liquidez a rentabilidade. Nesse contexto, é natural que empresas posterguem seus planos de investimento, os bancos racionem crédito e os indivíduos evitem comprometimento com dívidas.

Não há dúvida que, três anos após a crise deflagrada pela concordata do Lehman Brothers, o mundo atual vive um momento de grande incerteza quanto ao futuro, com forte impacto negativo nas expectativas dos agentes: simplesmente não se sabe o tamanho do tombo que virá à frente. Em que pese o fato dos efeitos da crise financeira terem sido contidos em função da adoção de políticas anticíclicas nos países desenvolvidos, evitando que a crise, ainda que aguda, resultasse em uma "grande depressão", tais políticas não foram suficientes para permitir uma retomada do crescimento do produto e do emprego, com sinais recentes de uma nova desaceleração. Tudo leva a crer que teremos uma recuperação em W, em função da crise da zona do euro, sem solução à vista, e do fato que os EUA se comprometeram em fazer um ajuste fiscal prematuro que retira a possibilidade de fazer uso da política fiscal anticíclica.

Parece que as lições de crise não foram aprendidas inteiramente pelos "policy-makers" e muitos acadêmicos: procura-se dar soluções de mercado para problemas que foram gerados justamente por um mercado excessivamente livre. O argumento liberal é que, no caso dos EUA, empresas e indivíduos não têm confiança em gastar em função da política fiscal excessivamente expansionista que leva a um crescimento da dívida publica insustentável a longo prazo: agentes dito racionais, sabendo que o governo terá que aumentar impostos no futuro, irão poupar mais no presente. Assim, somente uma desaceleração nos gastos do governo restauraria a confiança dos agentes.

Ora, como sugerido acima, é completamente ingênuo pensar que em situação de expectativas fortemente deterioradas os agentes vão ser estimulados a gastar mais com a redução dos gastos do governo (ou redução nos impostos). Como assinalou Paul Krugman, em recente artigo no "NY Times", pesquisas feitas com empresas americanas mostram que é a falta de demanda (exacerbada pela expectativa de cortes do governo), em vez de impostos e regulação, que inibe os negócios no país.

Por outro lado, assiste-se o lento aprofundamento da crise do euro, que resulta não só dos impactos da crise mundial como também de sérios problemas estruturais relacionados à implantação da moeda única (falta de mecanismos fiscais supranacionais, ausência de uma unidade política, diferenças de estrutura econômica e social entre países, etc.). Neste caso prevalece uma solução que procure dar conta do problema do "risco moral", gerado pelo elevado endividamento público ou privado nos países da periferia do euro - diga-se de passagem, fortemente estimulado pelos reduzidos juros na periferia que seguiu a introdução do euro. Tal como no caso da Argentina, países como Grécia parecem agonizar na espera de que algum milagre aconteça.

Enfim, está claro que, três anos após a crise do Lehman Brothers, dado que a China não terá força para se contrapor a uma desaceleração mundial, a superação da crise passou a ser um problema essencialmente político. Contudo, dada a miopia das lideranças políticas, o que se pode esperar é um "mundo de ponta-cabeça".

Luiz Fernando de Paula é professor de economia da UERJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Email luizfpaula@terra.com.br

Indústria chinesa recua e analistas já reduzem suas previsões para PIB


Por Assis Moreira | De Genebra - Valor 23/09

A China não ajudou ontem a diminuir o pessimismo nos mercados globais. O Índice de Gerente de Compras (PMI) chinês mostrou, de um lado, que a atividade no setor industrial na segunda maior economia mundial parece ter parado de se deteriorar. Mas também mostrou que são poucas as chances de retomada significativa.

A economia da China é considerada hoje menos forte do que antes da crise global de 2008 e não será capaz de ignorar os problemas globais nem compensá-los completamente. Depois de terem rebaixado as expectativas para a Europa e os EUA, agora certos analistas projetam crescimento econômico chinês para 8,5% no ano que vem, comparado a 9% antes.

Uma desaceleração maior é considerada plausível, dependendo de como as economias desenvolvidas vão reagir à deterioração global. A expectativa é que Pequim adote mais estímulos e o crescimento de 8,5% em 2012 não deve ser uma grande preocupação.

No entanto, as chances de maior desaceleração nos próximos anos são maiores do que a maioria pensa, segundo Qinwei Wang, analista da Capital Economics, de Londres. Para 2013, projeções apontam para consenso em torno de 7,5%.

O índice PMI da indústria ficou abaixo de 50 (foi 49,4) pelo terceiro mês consecutivo, nível só registrado durante a crise financeira global, levando em conta dados desde 2004. Qualquer leitura abaixo de 50 indica contração do setor.

Metade da queda foi atribuída à menor produção causada por escassez recente de energia. Mas o fato de que o volume de novas encomendas de produtos chineses não piorou e que estão mesmo ligeiramente mais altas do que em junho deram um certo alívio.

O PMI é ligeiramente melhor do que foi em julho, confirmando análises de que o crescimento está mais do lado da estabilização do que de declínio - e, portanto, que a aterrissagem pode ser mesmo suave e não brusca. O Credit Suisse agora calcula crescimento de 8,6% para este ano, ligeiramente menos do que previamente estimado.

O crescimento das exportações e importações chinesas diminuiu nos últimos meses. Além das encomendas de exportações não serem fortes como antes, as importações para processamento e reexportação sugerem que não há expectativa de forte alta na demanda.

Mas analistas do banco Barclays acreditam que, mesmo com esse menor crescimento, as importações de commodities pela China continuarão em ritmo sustentável. Avaliam que indústrias chinesas utilizaram muito seus estoques de commodities, como soja, açúcar, cobre e petróleo. Agora, mesmo com menor expansão econômica, vão manter um certo ritmo na demanda.

A fragilidade da economia mundial está levando à redução de projeções de crescimento do resto da Ásia emergente. A situação regional é boa, os consumidores não estão endividados como os dos países desenvolvidos, o sistema bancário é relativamente sólido. A maior fraqueza de vários países, porém, é a exposição ao comércio global.

Para 2012, novas projeções de crescimento, feitas por analistas, apontam na Malásia redução de 6,2% para 4,5%. Para a Índia, de 8,3% para 8%. Mas os emergentes asiáticos vão, em todo caso, continuar a ter melhor desempenho do que a América Latina e Europa do Leste.

Federal Reserve de mãos atadas


Por Jon Hilsenrath | The Wall Street Journal

A péssima reação do mercado à medida mais recente do banco central americano, o Federal Reserve (Fed), para estimular a economia levou alguns comentaristas a argumentar que a autoridade monetária dos Estados Unidos não tem mais remédios para tratar seu paciente enfermo.

Não espere, porém, que o presidente do Fed, Ben Bernanke, veja as coisas dessa maneira.

Desde que deu sermão em autoridades japonesas, no fim dos anos 1990 e início de 2000, sobre como eles deveriam lidar com seus problemas econômicos, Bernanke já deixou claro qual é a sua visão sobre economias pós-bolha: continue experimentando enquanto a economia está tropeçando e a inflação, quieta.

Quarta-feira, o Fed avisou que vai reformar sua carteira de investimentos para fazer pressão de baixa sobre os juros de longo prazo. As taxas caíram, o que poderia liberar um pouco mais de consumo e investimentos. Mas as decisões do banco central e sua avaliação pessimista da economia chacoalharam as bolsas.

Outras opções foram discutidas. Entre elas, as autoridades estão debatendo se o Fed pode mudar sua estratégia de comunicação para ser mais transparente sobre o que seria necessário para obrigá-lo a aumentar os juros. Mais clareza poderia servir para coibir temores que ainda persistam nos mercados financeiros de que ele pode apertar a política monetária prematuramente.

O Fed também poderia comprar mais títulos de investimento, reduzir o juro de 0,25% que paga aos bancos pelo dinheiro que eles mantêm em seus cofres, ou considerar outras medidas não convencionais.

Num artigo de 2000, Bernanke citou Franklin Delano Roosevelt, o presidente americano entre 1933 e 1945, e sua "capacidade de ser agressivo e experimentar - em suma, fazer o que fosse preciso para colocar o país de volta nos trilhos, apesar de que algumas dessas políticas terem fracassado.

"Ele quer sentir que fez tudo que podia", avalia Mark Gertler, professor da Universidade de Nova York que já foi coautor de vários artigos com Bernanke antes de ele ir para o Fed.

Para o principal economista internacional do Citigroup, Nathan Sheets, depois de tomar medidas não convencionais em agosto e setembro, o Fed daria uma pausa para analisar os resultados. Sheets se aposentou este ano do cargo de diretor do grupo de assuntos internacionais do Fed. "Eu não esperaria que na reunião de novembro o Fed anuncie algum pacote adicional", disse ele.

Sheets acredita que a lição que Bernanke aprendeu com o Japão é que ele não pode ser tímido em seus esforços para ressuscitar a economia. Como o Fed é incumbido pelo Congresso de buscar tanto um desemprego baixo quanto uma inflação baixa, Bernanke e outros diretores tendem a se sentir legalmente obrigados a continuar tentando reanimar a economia, avalia.

Políticos do Partido Republicano, de oposição, estão pressionando o Fed a parar. No exemplo mais recente, o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, disse ontem que o banco central americano está permitindo uma política fiscal ruim. O governador do Texas e candidato à presidência, Rick Perry, descreveu as medidas de estímulo do Fed como "quase traição".

Política à parte, ainda há dúvidas difíceis sobre o que o Fed ainda pode fazer quando sua principal ferramenta para impulsionar a economia - os baixos juros de curto prazo - já está a todo vapor há três anos, com a taxa de curto prazo praticamente zero.

No caminho do Fed estão possíveis problemas estruturais no mercado de trabalho, um sistema financeiro danificado pela crise que impede que o crédito chegue às famílias, e uma falta de confiança entre famílias e empresas.

Algumas autoridades do Fed estão convencidas de que não há muito mais que o banco central possa fazer para ajudar nessa frente. Embora controle o suprimento de dinheiro, o Fed não controla o espírito animal dos investidores.

Outra dúvida no Fed é se o comportamento da inflação justifica mais medidas. Nos EUA, onde a preocupação é com a queda de preços, a inflação aumentou este ano e alguns observadores acreditam que o banco não deve agir agressivamente a não ser que enxergue indícios mais convincentes de que os preços ao consumidor estão se estabilizando, o que vários diretores esperam que aconteça.

"Vemos uma probabilidade de quase 50% de que o Fed vai tentar mais afrouxamento comprando ativos diretamente", escreveu ontem o economista Michael Hanson, do Merrill Lynch, num relatório para clientes. "Uma medida como essa exigiria uma previsão de cenário ainda pior e pressões deflacionárias maiores, em nossa visão."

Dia D de Dilma


Por Marco Aurélio Cabral - Valor 23/09

Contrariados como meninos mimados, participantes do "mercado" se exasperam nas críticas às supostas interferências políticas sobre o Banco Central, com alardes sombrios sobre o futuro próximo de todos os brasileiros. Ocorre que Banco Central independente é suposto como aquele que resiste a pressões políticas, seja de governos ou de "mercados", para o benefício dos interesses difusos, usualmente silenciosos no debate sobre juros. Nestes termos, ao reduzir juros em 31 de agosto, o Poder Executivo parece alinhar expectativas do "mercado" com o pragmatismo do agravamento da situação econômica internacional. Crises históricas são fenômenos distintos de pânico nos "mercados". Desdobram-se em acontecimentos aparentemente contraditórios se percebidos como simples sobe e desce de indicadores. Vistas de longe, as ondas longas do historiador Fernand Braudel parecem apontar para crises que se somam no momento presente dos fatos. Crises políticas e econômicas que se realimentam e se desenvolvem lentamente. E o pior. Inevitavelmente, para nós brasileiros.

Não se resolve nada ao fingir que o problema não existe e que há "normalidade" nos "mercados". A revisão do produto nos EUA para este ano aponta para taxas de crescimento negativas ao término de 2011. Aproximadamente metade dos espanhóis jovens encontra-se desempregada. Não há recuperação do Japão por conta do acidente nuclear. Pelo contrário, a chance mais concreta é que venhamos a assistir proliferação de favelas em Tóquio.

Diante disso, pragmatismo explica porque o objetivo de manutenção dos investimentos industriais previstos não é tarefa simples nestes tempos e, portanto, tanto o crescimento quanto o emprego devem ser defendidos pelo Estado brasileiro. O mesmo senso de realidade parece justificar a reorientação da política monetária em favor do enfrentamento da guerra cambial, que beneficia minoria próspera e mina a vitalidade competitiva de pequenos e grandes empresários brasileiros.

Cumpre-se lembrar que meio por cento de redução na taxa básica de juros implica em economia de cerca de R$ 7 bilhões ao ano no pagamento de juros, contribuição mais do que significativa no esforço de melhoria do resultado nominal. Caso mantida gradualismo na queda do diferencial das taxas reais interna e internacional até os níveis de 3% a 5% do "prêmio Brasil", seria necessário cerca de um ano com reduções em juros. Ao cabo deste período, estaríamos economizando cerca de R$ 70 bilhões anuais, esforço do tamanho do montante que será gasto em educação pública no país em 2011.

O Brasil de hoje se encontra em situação bem diferente daquela enfrentada ao final do século passado, quando convivia alta inflação e baixo crescimento. Após uma década de geração de empregos e renda, a fração de brasileiros sem cobertura do sistema bancário caiu, compreendendo-se hoje cerca de 40% da população (estima-se que em 1999 eram cerca de dois terços).

Da mesma maneira, a inflação que vier a resultar no futuro, se vier, pode ser reduzida considerando-se que outras instituições podem participar do esforço de contenção de preços. A Petrobrás já o faz com o preço da gasolina, vilão do passado. Mas poderiam ajudar também as agências reguladoras, em esforço coordenado de desindexação de contratos de concessão. As compensações à vista para as empresas poderiam ser canalizadas para redução de dívidas, principalmente em moeda estrangeira.

Da mesma maneira, a necessidade de redução nos juros poderia ser menor se fossem ativados mecanismos de exportação de capital via apoio financeiro público à aquisição de empresas no exterior por operadores brasileiros. Dado que a crise afeta poderosa e negativamente o segmento de bens de capital e, dado que este segmento gera inovações tecnológicas relevantes para competitividade das cadeias produtivas, espera-se que surjam oportunidades para transferência de tecnologia obtida nos países centrais para grupos industriais brasileiros. Neste contexto, os Ministérios de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e de Ciência e Tecnologia (MCT) poderiam acumular, de forma integrada e coordenada, inteligência tecnológica e competitiva para identificação de setores e tecnologias prioritárias. O BNDES-Exim poderia operacionalizar recursos financeiros para aquisições no exterior com emprego do Fundo Soberano.

Há ainda a opção de se introduzirem controles cambiais, sendo esta alternativa de mais difícil implementação que a penalização dos capitais de curto prazo via impostos sobre movimentações financeiras.

Finalmente, os mecanismos responsáveis pela expansão da oferta, infraestrutura e indústria, devem ser ancorados em estratégias de longo prazo, obedecendo-se a critérios de planejamento da ocupação racional e sustentável do território brasileiro. Com isso, possíveis aumentos de preços poderão ser neutralizados pelo crescimento homogêneo da renda e do emprego, principalmente nas regiões mais pobres do país.

A importância histórica do Copom de agosto de 2011 parece ser a de encerrar período marcado pela retomada do desenvolvimento (2003-2010), iniciando-se novo período de implementação de projeto nacional de desenvolvimento - só que desta vez em ambiente democrático e inclusivo, ao contrário dos nossos rivais chineses.

Em síntese, a decisão de revisão dos juros, em 31.08.2011, parece inaugurar novo período na história econômica do país. Período em que medidas de proteção ao mercado interno e regras que limitam fluxos financeiros internacionais pautarão o novo nacionalismo brasileiro. Para desgosto dos "mercados", contudo, não parece haver qualquer componente ideológico ou politiqueiro por detrás disso. Apenas o velho e bom pragmatismo de proteção do bem coletivo diante de inevitável aumento da ameaça externa.

Marco Aurélio Cabral é professor da Universidade Federal Fluminense

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Quem eclipsará os EUA?


Por Simon Johnson - Valor 22/09

De acordo com Voltaire, o Império Romano caiu "porque todas as coisas caem". É difícil argumentar contra isso como declaração geral sobre declínio: nada dura para sempre. Mas também não é muito útil. Ao considerar, por exemplo, o predomínio americano no mundo atual, seria bom saber quando a ascendência diminuirá - e se os EUA podem fazer alguma coisa para adiar o inevitável.

À época, comentaristas abandonaram todas as esperanças em relação à sobrevivência do Império Romano por centenas de anos, antes de ele finalmente entrar em colapso. Podem os EUA encontrar seu caminho para um adiamento similar?

Em termos de proporcionar uma estrutura essencial para a discussão desse problema, o novo livro de Arvind Subramanian, "Eclipse: Living in the Shadow of China's Economic Dominance" (Eclipse: vivendo à sombra da dominação econômica da China) é uma grande contribuição. (Transparência total: Subramanian e eu somos colegas no Instituto Peterson de Economia Internacional, e temos trabalhado juntos em outras questões.)

Individualmente, Subramanian compila um índice de predomínio econômico que deverá tornar-se um foco de conversa em qualquer lugar onde as pessoas querem analisar mudanças na liderança econômica mundial. Não é preciso conhecer nada de economia para ficar fascinado por esse livro - ele trata pura e simplesmente de poder.

Os fatos básicos são incontestáveis. O Reino Unido foi a potência econômica dominante no mundo desde a irrupção da industrialização, no início do século XIX. Mas perdeu sua predominância e foi gradualmente eclipsado pelos EUA, que pelo menos desde 1945 é o líder incontestado entre as economias de mercado.

Os EUA ultrapassaram o Reino Unido em termos de produção industrial logo no fim do século XIX, mas isso não foi suficiente para fazer pender a balança. O predomínio econômico mudou somente quando o Reino Unido passou a incorrer em grandes déficits em conta corrente durante a primeira e a segunda guerras mundiais - o país teve que tomar pesados empréstimos para financiar seus esforços bélicos e as importações foram significativamente maiores que as exportações. Grande parte das reservas mundiais de ouro acabaram nas mãos dos EUA.

Isso ajudou a enfraquecer o papel da libra britânica internacionalmente e catapultou o dólar americano para o primeiro plano - especialmente depois da conferência de Bretton Woods, em 1944, quando foi acordado que os países passariam a manter suas reservas tanto em dólares como em ouro.

Mais recentemente, porém, foi a vez dos americanos de registrar sistematicamente grandes déficits em conta corrente, comprando mais do resto do mundo do que ganham com a venda de bens e serviços no exterior. Nessa dimensão, os EUA parecem destinados a repetir o erro dos britânicos.

Ao mesmo tempo, a renda per capita dos países de mercados emergentes cresceu - assim como seu papel internacional. A China, em especial, tem seguido uma estratégia, no decorrer dos últimos dez anos, que implica incorrer em grandes superávits em conta corrente e acumular reservas cambiais, hoje reportadas em mais de US$ 3 trilhões. Com efeito, o argumento mais provocante de Subramanian é de que a China já superou os Estados Unidos em termos de predomínio econômico - mas nós ainda não despertamos para essa nova realidade.

A história é fascinante e bem contada, mas ainda há muito sobre o que vale a pena discutir. Por exemplo, os britânicos declinaram porque os americanos não puderam ser detidos ou devido a problemas no Império Britânico e no Reino Unido?

Alguns anos atrás, algumas pessoas consideravam que o Japão tinha ultrapassado os EUA. A Europa também estava, supostamente, competindo pelo predomínio econômico mundial. Hoje, quaisquer dessas afirmações parecem absurdas. Em ambos os casos, o sistema de crédito escapou de controle, com excesso de empréstimos para o setor privado no Japão dos anos 1980 e com o excessivo endividamento público durante a década de 2000 na zona do euro.

Analogamente, ainda não está claro se o caminho de desenvolvimento chinês permanecerá tranquilo. Os investimentos fixos, na China, estão perto de 50% do PIB - o que parece ser um recorde mundial. O crédito disponibilizado às empresas estatais e às famílias continua a crescer rapidamente. Não será isso uma versão da causa precisa do descarrilhamento do crescimento japonês?

Sobre a questão central da capacidade de emitir uma "moeda de reserva" que investidores e governos querem manter em carteira, Subramanian tem razão: a China satisfaz muitos dos requisitos. Mas ainda carece de alguns elementos chave, entre eles, plenos direitos de propriedade. Se poder tirar seu dinheiro de um país quando os tempos ficam difíceis é uma preocupação, então a China não é um lugar atraente para manter suas reservas.

Problemas externos por vezes fazem Estados ruir. Mais frequentemente, porém, os grandes problemas são internos - o regime não consegue assegurar crescimento, sua legitimidade declina e as pessoas começam a buscar as saídas (ou pelo menos tirar seu dinheiro do país).

Se os EUA forem eclipsados em curto prazo, será mais provável que isso ocorra devido à sua perda de coesão social e seu cenário político disfuncional. A China pode muito bem entrar em cena para preencher esse vácuo, mas isso é bem diferente de ter condições de desalojar os EUA. (Tradução Sérgio Blum)

Simon Johnson, ex-economista chefe do FMI, é cofundador do blog de economia, BaselineScenario.com , professor da Sloan, no MIT, membro sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional e coautor, com James Kwak, de 13 Bankers (13 banqueiros).

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PESQUISA REVELA AUMENTO DA VENDA DE CARROS EM SP - TEMPO: 00:04:22
Uma pesquisa realizada na cidade de São Paulo aponta que cresceu em 35% o número de pessoas que compraram veículos em 2011. Com isso, também aumentou o tempo perdido no trânsito: 3 horas em média. O levantamento constatou, porém, que essa alta não reflete a real preferência pelo meio de transporte.
Dia mundial sem carro - café da manhã do ciclista - bicicletas

TV: TV BRASIL | PROGRAMA: REPÓRTER BRASIL | APRESENTADOR: KATIUSCIA NERI

PROFESSOR DA USP FALA SOBRE CÂMBIO FLUTUANTE - TEMPO: 00:05:25

Em entrevista ao Conta Corrente, o professor da USP Ulisses Ruiz de Gamboa falou sobre a variação do câmbio brasileiro.

SONORA
*ULISSES RUIZ DE GAMBOA, professor da USP
MENÇÃO
*GUIDO MANTEGA, ministro da Fazenda
*ALEXANDRE TOMBINI, presidente do Banco Central

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES