terça-feira, 27 de setembro de 2011

Os especialistas e o câmbio


Por Antonio Delfim Netto - Valor 27/09

A anguzada, como dizia meu avô, da última semana no mercado cambial teve aspectos cômicos. Alguns "especialistas" recusaram-se a ouvir o dr. Tombini sobre a possibilidade de movimentos cambiais insuspeitados. Continuaram a defender, como paradigma para medir as "distorções" de nossa pobre e ignorante política cambial, a absoluta liberdade do movimento de capitais e o sagrado regime de flutuação imaculada e desinibida da taxa de câmbio.

Tudo de acordo com o Mundo 2, do platonismo semiacadêmico no qual habitam. De repente, trombaram com o Mundo 1, da cruel realidade aristotélica. Foram surpreendidos numa desconfortável posição "vendida" no mercado altamente volátil antecipado pelo dr. Tombini.

Para safar-se, precisam de tempo (o que impõe custos) e de liquidez (que se tornara escassa pela ação do IOF). Clamaram, então, por uma imediata e eficaz intervenção do Banco Central no mercado. Ela está sendo feita (como, aliás, é obrigação do Banco Central), mas agora, obviamente, não se trata de uma "distorção"...

O ponto mais interessante é que tais operadores atribuem suas dificuldades não à arriscada busca de lucro num mercado absolutamente imprevisível, mas às medidas que, "em legítima defesa", o governo tem posto em prática apenas para confortar parte da indústria nacional, à qual ele mesmo tem negado, há décadas, as condições isonômicas para competir. Para encerrar esse assunto, nada como lembrar o velho Nietzsche: "A grande vantagem da falta de memória é que podemos gozar muitas vezes, sempre pela primeira vez, as mesmas boas coisas".

Talvez esse seja o momento de reconhecer a validade da hipótese básica que orienta a nossa política econômica (fiscal, monetária e cambial): o mundo caminha para alguns anos de alta volatilidade e baixo crescimento. Não apenas porque os Bancos Centrais não sabem bem o que fazer, mas porque há uma "conjugação desfavorável" dos astros! A reedição da operação "twist" pelo Fed, depois do seu reconhecido fracasso, em passado não muito distante, é uma prova disso.

De um lado, temos nos EUA uma disfuncionalidade política que nunca foi tão evidente e que não será resolvida antes das eleições de 2012. É pouco provável que o último apelo de Obama ("Living Within Our Means and Investing on the Future: The President´s Plan for Economic Growth and Deficit Reduction"), que inclui o "The American Jobs Act", seja aprovado no Congresso pelos republicanos.

Se aprovado, talvez não venha a tempo para reduzir, antes da eleição, o dramático desemprego e subemprego; dar conforto aos 16% da população sem assistência à saúde; melhorar a renda das residências americanas (no menor nível desde 1996) e compensar mais de US$ 6 trilhões de redução de ativos que elas sofreram desde 2007.

Por último, mas não menos complicado: 47% dos cidadãos são hoje dependentes, de uma forma ou de outra, de alguma ajuda do governo, o nível mais alto registrado na história dos EUA. Não podemos esquecer que Obama sequer conseguiu nomear os dois membros faltantes do Fed.

Por outro lado, temos enormes dificuldades na Comunidade Econômica Europeia onde, também, o Banco Central não revela que sabe muito mais do que o Fed. A situação não melhorará enquanto não se completar a substituição de Jean-Claude Trichet pelo novo escolhido, o competente, experiente e pragmático Mario Draghi.

Ele assume sob a suspeita dos puristas monetários do Bundesbank, que têm abandonado, oportunistamente, a direção do Banco Central Europeu, depois das sucessivas derrotas de Angela Merkel a cada eleição regional. Draghi deve dizer a que veio, porque na opinião de economistas alemães, "para os italianos, a inflação é uma forma de viver, como o molho de tomate no espaguete"...

Provavelmente Merkel vai perder as eleições. O vencedor vai ter que ensinar aos seus economistas que "a política domina a economia". O país que mais vai perder, política e economicamente, no curto prazo, com a eventual destruição da moeda única, o euro, é justamente a Alemanha. Basta pensar quem estaria hoje na posição do franco suíço, se o deutschemark ainda existisse. E o que seria da prosperidade da Alemanha, se as suas exportações não tivessem se beneficiado da disciplina germânica que "desvalorizou" o deutschemark dentro do euro, aumentando a produtividade da mão de obra, ao mesmo tempo em que, de acordo com os sindicatos, controlava o aumento dos salários. Em outras palavras, a civilizada política alemã de trocar a "estabilidade" no emprego pela "moderação" salarial foi induzida pelo euro.

Com a visível escassez de estadistas que se abate sobre o mundo desenvolvido, o tempo da recuperação é absolutamente incerto. Não se trata apenas de um problema econômico, que os economistas talvez soubessem resolver, mas de um problema político, que os economistas, mesmo que soubessem o que fazer, não poderiam fazê-lo. Falta-lhes a legitimidade do poder. Trata-se de uma questão de liderança capaz de devolver à sociedade a confiança e a esperança, sem as quais não se vê solução razoável antes das próximas eleições nos EUA e na Eurolândia. Esperamos vê-las depois...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Procura-se plano para salvar a Europa


Por Philip Stephens - Valor 26/09

Tornou-se uma espécie de mantra, entre os líderes europeus, a afirmação de que podemos ter certeza de que eles vão salvar o euro, porque eles têm de salvar a União Europeia. O leitor pode ver de onde eles estão vindo. A integração europeia teria dificuldades para sobreviver à extinção do projeto que é seu carro-chefe.

À afirmação, porém, falta algo muito importante em termos de causalidade. A razão pela qual a moeda única está em apuros tão terríveis é que os governos em toda a Europa não conseguiram convencer o eleitorado de que vale a pena salvar a própria União Europeia (UE).

Eu desisti de contar os comentários eruditos que li sobre o futuro da união monetária - ou a ausência de uma união. Alguns dizem que a crise poderia ser resolvida de uma só vez mediante uma emissão de títulos da zona do euro. Tim Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, concebeu uma abordagem que permitiria aos governos alavancarem seu poder de fogo financeiro.

Outros insistem nas leis de ferro da demanda econômica: exigem que a Grécia seja lançada ao mar. Isso é rotulado de calote controlado. Não tenho certeza de que banqueiros franceses e alemães estejam tão otimistas diante dessa perspectiva. Meus amigos em Bruxelas esperam (ou melhor, torcem para que haja) um salto rumo a uma união política. Profetas inclinados à descrença dizem que tudo isso é inútil, porque eles sempre souberam que a moeda única estava condenada.

Os comentários que me intrigam são os que dizem que a UE não pode sobreviver e emendam a afirmação de que um rompimento é impossível por causa dos custos resultantes. Para os leitores, talvez o melhor seja que cada um tire sua própria conclusão.

De minha parte, fico maravilhado diante das certezas daqueles que oferecem ousadas previsões e prescrições. Certamente, se aprendemos alguma coisa durante a década passada é que precisamos nos acautelar diante de asserções simplistas. Ainda ontem, todos concordavam em que o futuro seria escrito pelo casamento da hegemonia americana com a marcha inexorável do capitalismo liberal.

De conversas recentes que tive com os ministros e autoridades europeias, concluo que um passageiro do U Bahn berlinense ou do metrô de Atenas têm a mesma probabilidade de acerto que a multidão de especialistas e analistas e especialistas.

Em eloquente ensaio no FT, nesta semana, Larry Summers observou que, ao fazerem hoje apenas o suficiente para tocar o barco, os líderes europeus poderão muito bem vê-lo encalhar amanhã; é difícil discordar. Arriscar mais que isso tem tanta chance de acerto quanto no lançamento de uma moeda.

Crises podem muito bem ter um desenlace. Empurrar com a barriga pode, bem, resultar em apenas continuar empurrando com a barriga. Meu palpite é que até mesmo Angela Merkel, a chanceler alemã, ainda não sabe se ficará na história como algoz ou salvadora do euro. Seja como for, as perspectivas econômicas são bastante sombrias.

Esta é fundamentalmente uma crise política. Os cálculos sobre déficits, sustentabilidade de endividamento e calote são bastante interessantes. Mas as correntes organizadoras são políticas: o entrechoque da ideia de que os governos da zona do euro precisam sair juntos dessa crise e a tentação de pensar que ficarão em melhor situação cada um por si.

Se o problema europeu era simplesmente um sistema monetário em colapso, deveríamos estar nos perguntando o porquê de todo esse alarido. Tão grandes quanto parecem os números, as dívidas dos países periféricos são uma pequena fração do PIB da zona do euro. O obstáculo a uma resolução da crise não é a ausência de uma correção técnica ou econômica plausível, mas o renascimento dos nacionalismos no Continente.

Não é difícil ver como o populismo individualista é sedutor. Com marcos em seus bolsos, os alemães poderiam voltar a ser alemães, poupando e investindo as recompensas de sua prudência e trabalho duro. Os gregos poderiam libertar-se dos grilhões da austeridade teutônica e voltar às praias, repudiando suas dívidas.

Não seria assim, é claro. A Alemanha não prosperaria numa Europa falida. Por um lado, seus bancos estão repletos de dívida soberana de quitação incerta. Por outro lado, um default é uma rota de fuga estritamente temporária. As economias devedoras não podem evitar indefinidamente duras opções. Mas essa é justamente a atração superficial do nacionalismo: ele remove as irritante realidades da interdependência para fazer de conta de que tudo estaria bem se os estrangeiros fossem mantidos à distância.

O esgarçamento do que antiquados europeus de uma certa idade denominam solidariedade começou bem antes do início da atual crise. A reaproximação franco-alemã que inspirou os pais fundadores é tida como assegurada. O colapso da União Soviética removeu a ameaça existencial compartilhada. Paz e prosperidade são agora assumidas como ordem natural das coisas. Quando líderes políticos alegam estarem tolhidos por seus eleitorados, o que querem dizer é que não articularam o discurso de seus interesses nacionais na integração europeia.

Isso não é tão difícil. Se o Ocidente enfrenta declínio relativo inevitável, a Europa parece estar em queda livre. O tema das conversas em Pequim, na Índia e em Ankara é a irrelevância europeia. Ao agirem em concerto, os governos da UE podem ter um papel, e até mesmo significativo, no estabelecimento de regras do jogo mundial. Individualmente, eles têm pouco poder a exibir. Mesmo a Alemanha, como já disse alguém, é muito pequena diante do mundo.

Os europeus já souberam disso. A marcha da globalização e o deslocamento do poder para o Oriente sublinham o argumento. Os países europeus prosperam num sistema baseado em regras. Uma Europa que fizesse diferença em um mundo multipolar exportaria seu modelo de multilateralismo.

Cooperação, integração - seja que nome atribuamos -, não exime governos de responsabilidade. Os Estados meridonais não podem manter-se indefinidamente em declínio de competitividade. Se a concepção da moeda única foi falha, Itália, Espanha, Portugal e Irlanda, assim como a Grécia, estão colhendo as consequências das decisões tomadas em suas capitais.

Mas tanto países devedores como credores precisam também concordar em que vale a pena salvar a UE. Na última vez em que escrevi sobre o retorno a uma ordem westfaliana, alguns leitores responderam perguntando o que haveria de errado nisso. Eu julgava que a contagem de mortos na primeira metade do Século XX falaria por si. Mas talvez valha a pena também notar que em 1648 a Europa era um continente em ascensão.

Manter a união monetária exige que os líderes da zona do euro em ambos os lados do atual divisor de águas econômico argumentem o mérito do euro. Para fazer isso, porém, eles precisam, primeiro, argumentar o mérito da Europa.

Philip Stephens é editor e comentarista político do FT

BC deve ter meta de desenvolvimento?


Por Jairo Saddi - Valor 26/09

Frank Tamagna, economista italiano, funcionário do Federal Reserve System e radicado em Washington, escreveu, nos idos de 1950, um livro denominado Central banking in Latin America, que teve grande repercussão.

Nesse livro, o autor dedicou um capítulo inteiro à função de agente de fomento dos bancos centrais e recomendava que a autoridade monetária fosse também meio de realizações econômicas, de agente de fomento e fiadora do desenvolvimento nacional. (Capítulo VI - "Central banks and economic development", op. cit. Centro de Estudos Monetarios Latinoamericanos, p. 195-231)

Com o surgimento da inflação galopante nos anos 1970-80, a ideia foi simplesmente considerada absurda. O Banco Central deveria ter a única e muito definida função de zelar pela moeda e usar seu poder monetário para preservar seu valor. No entanto, com as crises mais recentes (e, curiosamente, com o recrudescimento da inflação), o assunto voltou à tona e granjeando simpatia. A revista The Economist, por exemplo, citou o atual trabalho do economista Scott Sumner, da Bentley University, que, revivendo a velha ideia de Tamanga e dos chamados desenvolvimentistas, clamou por inverter o papel dos bancos centrais. Segundo Sumner, em vez de os bancos centrais se valerem do seu arsenal para controlar a política monetária e as metas de inflação, como vêm fazendo desde seus primórdios, deveriam passar a considerar o produto nacional doméstico bruto, na sua expressão nominal.

A ideia de Scott Sumner é adotar uma "meta de desenvolvimento do produto", pela qual os banqueiros centrais deveriam receber como objetivo uma taxa nominal de crescimento, e a política monetária deveria afrouxar ou endurecer de acordo com as reações do produto doméstico.

Primeiro, é necessário alargar o entendimento sobre o que é a política monetária exercida por um banco central. A política monetária precisa ser definida como a atividade ligada ao controle da moeda e de sua oferta, visando determinados objetivos, como aqueles definidos pela política econômica. Um banco central regula a expansão dos meios de pagamento, elabora o orçamento monetário e utiliza todos os instrumentos de política monetária ao seu alcance (taxa de juros, recolhimento compulsório, taxas de redesconto e operações de compra e venda de títulos públicos no mercado aberto), além de ser também o guardião e administrador das reservas estrangeiras e, no nosso caso, o centralizador do câmbio.

Pois bem: mudar a meta dos bancos centrais não fará mudar também os instrumentos de política monetária de que essas instituições dispõem. Mesmo que o Federal Reserve continue aplicando algumas medidas, de certo modo, de maneira pouco convencional, como vem fazendo ("quantitative easing", ou seja, comprando ativos reais e afrouxando ainda mais a liquidez, enquanto mantém as taxas de juros próximas a zero), uma mudança de meta de inflação para meta de desenvolvimento apenas aceleraria o aquecimento da economia, se fossem mantidas as premissas de ampla liquidez. Caso contrário, haveria uma enorme e perigosa, perda de credibilidade.

Outro argumento proposto por Sumner trata da flexibilidade da atuação do banco central em épocas de crise. Para ele, mudar a meta implica obter maior estabilidade macroeconômica quando uma recessão se instala. Enquanto o produto doméstico cai mais dramaticamente, os preços relativos se ajustam com mais vagar. Isto significa que o banco central poderia manipular tais flutuações de forma mais eficiente, mesmo que isso possa acarretar maior volatilidade da inflação.

Ainda, outro argumento se refere ao potencial de redução de desemprego, política pública essencial em épocas de crise, e fundamental para reaquecer a economia. Mudar a meta, alega, é trazer o banco central para o time dos que apoiam a recuperação, e se ele estiver devidamente coordenado, a contribuição à economia é valiosa.

Aos problemas: primeiro, implícita está a tolerância com um pouco mais de inflação, debate antigo e pernicioso. Segundo, o que não faltou na crise de 2008-9 foi o ativismo dos bancos centrais em busca de manter a economia funcionando. Depois, os mecanismos de centrar a política na meta de inflação são conhecidos, os do desenvolvimento, não. Por exemplo, como ancorar as expectativas dos agentes quanto ao comportamento dos preços se não há parâmetros nem objetivos? Potencialmente, é muito mais difícil tratar de expectativas de crescimento do produto, além de ser igualmente complexo compreendê-las mais objetivamente (e medi-las), dependendo de muitas outras variáveis exógenas à moeda. Portanto, essa não é uma boa saída e, como todas as ideias simpáticas e simplistas, pode acabar com a reputação de banqueiros centrais, homens prudentes e conservadores que aprenderam ao longo dos séculos que preservar o valor da moeda é um bem maior a ser defendido.

Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, é doutor em direito econômico (USP) e professor de direito do Insper.

Inflação doméstica já reage menos ao câmbio


Valor 26/09

O impacto da valorização do dólar na inflação diminuiu nos últimos anos, segundo opinião de especialistas ouvidos pelo Valor. Para eles, a estabilização da economia brasileira, o aumento da concorrência e a variação do preço praticado no mercado externo são fatores que fazem contraponto à influência do câmbio no aumento dos preços. A tese de menor repasse das oscilações cambiais aos preços domésticos tem sido defendida pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Nos seis meses posteriores à quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, fato que foi um dos principais combustíveis para a crise que atingiu o mundo a partir daquele ano, a moeda americana se valorizou 24,47%. No mesmo período, entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 2,13% e o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) avançou 1,05%.

Esses números sugerem que os movimentos do câmbio já não atingem mais a economia brasileira - nem chegam ao consumidor final - como em outros tempos de crise. Em 1999, quando o Banco Central (BC) abandonou o regime de câmbio fixo, e também, em 2002, quando a eleição de Lula para a Presidência causou temores no mercado, cada 10% de valorização do dólar provocou um aumento de até dois pontos percentuais na inflação, segundo cálculos de Salomão Quadros, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Ainda que os economistas acreditem ser muito cedo para confiar que a moeda americana encontrou um novo patamar, a estimativa hoje é que a inflação cresça no máximo até um ponto percentual a cada 10% de valorização do dólar. Alguns economistas projetam efeitos ainda menores.

Na tentativa de estimar o quanto a escalada de 15% do dólar em setembro pode afetar a inflação, a LCA Consultores prevê que, mantendo-se todas as demais variáveis constantes, cada 10% de desvalorização do real vai representar 0,4 ponto de aumento nos preços ainda este ano.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA, ressalta que o país está mais protegido contra a flutuação cambial do que antes, favorecido por outras variáveis do cenário internacional e pela expectativa de diminuição do crescimento do PIB brasileiro no ano que vem. "O petróleo saiu de US$ 100 há dois meses, quando o real estava mais valorizado, para os atuais US$ 80, que compensam a alta de agora. O índice de preços gerais das commodities também vem caindo, ajudando a segurar os preços. Mas uma mudança no cenário internacional pode alterar tudo."

A Tendências Consultoria também refez suas contas. Considerando o dólar no patamar de R$ 1,80, o impacto na inflação no próximo trimestre será de 0,53%. O acréscimo dos preços virá principalmente no setor de bens comercializáveis, especialmente agrícolas, e eletroeletrônicos. Para os três primeiros meses do ano que vem, espera-se um aumento de mais 0,2% no IPCA em virtude do cenário atual. De acordo com a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências, o setor de serviços demora mais para sentir o impacto. "Como temos mais empresas competindo, a tendência é de que parte da elevação dos custos sejam absorvidos", afirma. Para ela, o índice de pass through no Brasil está mais eficiente do que antes.

"O momento é de aversão ao risco que a crise internacional trouxe. É um cenário diferente daquele em que a desvalorização da moeda nacional foi influenciada por problemas domésticos. Nesse caso, a influência do câmbio na inflação tende a ser menor", diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, que não aposta em relevante influência do dólar no preço dos produtos no Brasil.

Quando um país está com as contas em ordem, ele fica mais protegido diante dos suspiros de qualquer crise externa, que tendem, assim, a afetá-lo em menor escala. Essa é a opinião de Fábio Ramos, economista da Quest Investimentos, que mantém uma projeção de inflação de 5,6% para 2012. "Aprendemos com a crise de 2008 que é menor a importância do câmbio em um país sem dívida externa relevante."

"Vivemos em um regime de inflação mais baixo do que há dez anos e o BC reage às pressões inflacionárias. O cenário mudou e o impacto do dólar, com isso, caiu", diz Quadros, da FGV. Para o economista, esse controle da autoridade monetária segura por um tempo maior o repasse no aumento dos preços decorrente da valorização do dólar.

O preço das commodities, fixado em dólar, está entre os fatores que podem atenuar o efeito da desvalorização do real. Apesar da forte alta da moeda americana, a queda no preço dos produtos agrícolas deve atenuar a pressão inflacionária do grupo de alimentos. "O preço das commodities está caindo e a estabilidade do dólar na casa de R$ 1,90 não deve durar [na última sexta-feira, a moeda fechou em R$ 1,83]. A resultante entre esses dois termos é ligeiramente inflacionária, mas poderia ser bem maior se não fosse a deflação das commodities", diz Quadros.

O brasileiro nunca viajou como hoje e os economistas já alertam sobre um dos setores que sentirão mais cedo a pressão do dólar. Armando Castelar, também da FGV, acredita que o repasse ao preço das passagens aéreas deve ser rápido. "As empresas de aviação têm algumas ferramentas para se proteger de significantes variações cambiais, mas a tendência é que elas repassem esse custo ao consumidor se o dólar continuar em alta".

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

TV ON LINE


CRESCIMENTO DA INFLAÇÃO PERDE FORÇA NA QUADRISSEMANA DE SETEMBRO TEMPO: 00:03:00
O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) subiu 0,8% na quadrissemana de setembro. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a apuração anterior havia registrado aumento de 0,69%. Em entrevista ao Conta Corrente, o economista Luiz Roberto Cunha comentou os dados.

*LUIZ ROBERTO CUNHA, economista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

BC PODE FAZER NOVAS INTERVENÇÕES PARA SEGURAR VALORIZAÇÃO DO DÓLAR TEMPO: 00:02:00
Dados divulgados nesta sexta-feira pelo Banco Central revelam que o déficit nas transações correntes ficou em US$ 4,862 bilhões em agosto. Em 12 meses, o valor já alcançou a marca de US$ 49,783 bilhões, equivalente a 2,13% do PIB brasileiro. O número não assusta o BC por causa do investimento estrangeiro direto, que ultrapassou os US$ 5,606 bilhões.

Sobre a recente alta da moeda americana, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, admitiu a possibilidade de o governo voltar a intervir no mercado para impedir nova escalada do dólar.


*TULIO MACIEL, chefe do Departamento Econômico do Banco Central

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

MINISTÉRIO DA FAZENDA TENTA DERRUBAR LIMINAR CONCEDIDA À MONTADORA CHINESA TEMPO: 00:02:46
O Ministério da Fazenda recorreu da liminar que concedeu o adiamento da cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) mais caro para uma montadora chinesa. A Procuradoria também deve preparar a defesa da constitucionalidade questionada pelos Democratas no Supremo Tribunal Federal (STF).

*SENADOR JOSÉ AGRIPINO MAIA, presidente do DEM;

*ROMERO JUCÁ, líder do governo no Senado;

*KEVIN TANG, diretor Câm. Comércio Brasil-China.

TV: REDE TV PROGRAMA: REDE TV NEWS APRESENTADOR: AUGUSTO XAVIER

RELACIONADOS: BANCO CENTRAL

O mundo de ponta-cabeça


Por Luiz Fernando de Paula - Valor 23/09 - ilustração:Ivan KRUTOYAROV - Capsized

Um dos aspectos fundamentais do pensamento de John Maynard Keynes é a assunção básica de que as principais decisões empresariais em uma economia monetária, sobretudo aquelas relacionadas a um horizonte temporal mais dilatado, como no caso das decisões de investimento, estão sujeitas a incerteza radical. Incerteza, neste caso, significa a impossibilidade de se determinar, a priori, o quadro relevante de influências que atuarão entre a decisão de se implementar um determinado plano e a obtenção efetiva de resultados, dificultando a previsão segura que serviria de base para uma decisão "racional".

No conceito de Keynes sobre incerteza, não somente algumas premissas podem não ser conhecidas no momento de decisão como elas também podem ser incapazes de serem conhecidas. Keynes distinguia incerteza de risco probabilístico: "Desejo explicar que por conhecimento 'incerto' não pretendo apenas distinguir o que é conhecido como certo do que apenas é provável. Neste sentido, o jogo de roleta não está sujeito à incerteza; nem sequer a possibilidade de se ganhar na loteria (...). O sentido que estou dando ao termo é aquele segundo o qual a perspectiva de uma guerra europeia é incerta, o mesmo ocorrendo com o preço do cobre e da taxa de juros daqui a 20 anos, ou a obsolescência de uma nova invenção (...). Sobre estes problemas não existe qualquer base científica para um cálculo probabilístico. Simplesmente nada sabemos a respeito".

É a incerteza incontornável quanto ao futuro que justifica a preferência pela liquidez dos agentes, isto é, de querer manter a riqueza sob a forma de moeda e outros ativos líquidos. Isso porque em momentos de maior incerteza percebida pelos agentes, que causa uma forte deterioração em suas expectativas, estes passam a dar preferência a flexibilidade na composição de seu portfólio, preferindo liquidez a rentabilidade. Nesse contexto, é natural que empresas posterguem seus planos de investimento, os bancos racionem crédito e os indivíduos evitem comprometimento com dívidas.

Não há dúvida que, três anos após a crise deflagrada pela concordata do Lehman Brothers, o mundo atual vive um momento de grande incerteza quanto ao futuro, com forte impacto negativo nas expectativas dos agentes: simplesmente não se sabe o tamanho do tombo que virá à frente. Em que pese o fato dos efeitos da crise financeira terem sido contidos em função da adoção de políticas anticíclicas nos países desenvolvidos, evitando que a crise, ainda que aguda, resultasse em uma "grande depressão", tais políticas não foram suficientes para permitir uma retomada do crescimento do produto e do emprego, com sinais recentes de uma nova desaceleração. Tudo leva a crer que teremos uma recuperação em W, em função da crise da zona do euro, sem solução à vista, e do fato que os EUA se comprometeram em fazer um ajuste fiscal prematuro que retira a possibilidade de fazer uso da política fiscal anticíclica.

Parece que as lições de crise não foram aprendidas inteiramente pelos "policy-makers" e muitos acadêmicos: procura-se dar soluções de mercado para problemas que foram gerados justamente por um mercado excessivamente livre. O argumento liberal é que, no caso dos EUA, empresas e indivíduos não têm confiança em gastar em função da política fiscal excessivamente expansionista que leva a um crescimento da dívida publica insustentável a longo prazo: agentes dito racionais, sabendo que o governo terá que aumentar impostos no futuro, irão poupar mais no presente. Assim, somente uma desaceleração nos gastos do governo restauraria a confiança dos agentes.

Ora, como sugerido acima, é completamente ingênuo pensar que em situação de expectativas fortemente deterioradas os agentes vão ser estimulados a gastar mais com a redução dos gastos do governo (ou redução nos impostos). Como assinalou Paul Krugman, em recente artigo no "NY Times", pesquisas feitas com empresas americanas mostram que é a falta de demanda (exacerbada pela expectativa de cortes do governo), em vez de impostos e regulação, que inibe os negócios no país.

Por outro lado, assiste-se o lento aprofundamento da crise do euro, que resulta não só dos impactos da crise mundial como também de sérios problemas estruturais relacionados à implantação da moeda única (falta de mecanismos fiscais supranacionais, ausência de uma unidade política, diferenças de estrutura econômica e social entre países, etc.). Neste caso prevalece uma solução que procure dar conta do problema do "risco moral", gerado pelo elevado endividamento público ou privado nos países da periferia do euro - diga-se de passagem, fortemente estimulado pelos reduzidos juros na periferia que seguiu a introdução do euro. Tal como no caso da Argentina, países como Grécia parecem agonizar na espera de que algum milagre aconteça.

Enfim, está claro que, três anos após a crise do Lehman Brothers, dado que a China não terá força para se contrapor a uma desaceleração mundial, a superação da crise passou a ser um problema essencialmente político. Contudo, dada a miopia das lideranças políticas, o que se pode esperar é um "mundo de ponta-cabeça".

Luiz Fernando de Paula é professor de economia da UERJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Email luizfpaula@terra.com.br

Indústria chinesa recua e analistas já reduzem suas previsões para PIB


Por Assis Moreira | De Genebra - Valor 23/09

A China não ajudou ontem a diminuir o pessimismo nos mercados globais. O Índice de Gerente de Compras (PMI) chinês mostrou, de um lado, que a atividade no setor industrial na segunda maior economia mundial parece ter parado de se deteriorar. Mas também mostrou que são poucas as chances de retomada significativa.

A economia da China é considerada hoje menos forte do que antes da crise global de 2008 e não será capaz de ignorar os problemas globais nem compensá-los completamente. Depois de terem rebaixado as expectativas para a Europa e os EUA, agora certos analistas projetam crescimento econômico chinês para 8,5% no ano que vem, comparado a 9% antes.

Uma desaceleração maior é considerada plausível, dependendo de como as economias desenvolvidas vão reagir à deterioração global. A expectativa é que Pequim adote mais estímulos e o crescimento de 8,5% em 2012 não deve ser uma grande preocupação.

No entanto, as chances de maior desaceleração nos próximos anos são maiores do que a maioria pensa, segundo Qinwei Wang, analista da Capital Economics, de Londres. Para 2013, projeções apontam para consenso em torno de 7,5%.

O índice PMI da indústria ficou abaixo de 50 (foi 49,4) pelo terceiro mês consecutivo, nível só registrado durante a crise financeira global, levando em conta dados desde 2004. Qualquer leitura abaixo de 50 indica contração do setor.

Metade da queda foi atribuída à menor produção causada por escassez recente de energia. Mas o fato de que o volume de novas encomendas de produtos chineses não piorou e que estão mesmo ligeiramente mais altas do que em junho deram um certo alívio.

O PMI é ligeiramente melhor do que foi em julho, confirmando análises de que o crescimento está mais do lado da estabilização do que de declínio - e, portanto, que a aterrissagem pode ser mesmo suave e não brusca. O Credit Suisse agora calcula crescimento de 8,6% para este ano, ligeiramente menos do que previamente estimado.

O crescimento das exportações e importações chinesas diminuiu nos últimos meses. Além das encomendas de exportações não serem fortes como antes, as importações para processamento e reexportação sugerem que não há expectativa de forte alta na demanda.

Mas analistas do banco Barclays acreditam que, mesmo com esse menor crescimento, as importações de commodities pela China continuarão em ritmo sustentável. Avaliam que indústrias chinesas utilizaram muito seus estoques de commodities, como soja, açúcar, cobre e petróleo. Agora, mesmo com menor expansão econômica, vão manter um certo ritmo na demanda.

A fragilidade da economia mundial está levando à redução de projeções de crescimento do resto da Ásia emergente. A situação regional é boa, os consumidores não estão endividados como os dos países desenvolvidos, o sistema bancário é relativamente sólido. A maior fraqueza de vários países, porém, é a exposição ao comércio global.

Para 2012, novas projeções de crescimento, feitas por analistas, apontam na Malásia redução de 6,2% para 4,5%. Para a Índia, de 8,3% para 8%. Mas os emergentes asiáticos vão, em todo caso, continuar a ter melhor desempenho do que a América Latina e Europa do Leste.

Federal Reserve de mãos atadas


Por Jon Hilsenrath | The Wall Street Journal

A péssima reação do mercado à medida mais recente do banco central americano, o Federal Reserve (Fed), para estimular a economia levou alguns comentaristas a argumentar que a autoridade monetária dos Estados Unidos não tem mais remédios para tratar seu paciente enfermo.

Não espere, porém, que o presidente do Fed, Ben Bernanke, veja as coisas dessa maneira.

Desde que deu sermão em autoridades japonesas, no fim dos anos 1990 e início de 2000, sobre como eles deveriam lidar com seus problemas econômicos, Bernanke já deixou claro qual é a sua visão sobre economias pós-bolha: continue experimentando enquanto a economia está tropeçando e a inflação, quieta.

Quarta-feira, o Fed avisou que vai reformar sua carteira de investimentos para fazer pressão de baixa sobre os juros de longo prazo. As taxas caíram, o que poderia liberar um pouco mais de consumo e investimentos. Mas as decisões do banco central e sua avaliação pessimista da economia chacoalharam as bolsas.

Outras opções foram discutidas. Entre elas, as autoridades estão debatendo se o Fed pode mudar sua estratégia de comunicação para ser mais transparente sobre o que seria necessário para obrigá-lo a aumentar os juros. Mais clareza poderia servir para coibir temores que ainda persistam nos mercados financeiros de que ele pode apertar a política monetária prematuramente.

O Fed também poderia comprar mais títulos de investimento, reduzir o juro de 0,25% que paga aos bancos pelo dinheiro que eles mantêm em seus cofres, ou considerar outras medidas não convencionais.

Num artigo de 2000, Bernanke citou Franklin Delano Roosevelt, o presidente americano entre 1933 e 1945, e sua "capacidade de ser agressivo e experimentar - em suma, fazer o que fosse preciso para colocar o país de volta nos trilhos, apesar de que algumas dessas políticas terem fracassado.

"Ele quer sentir que fez tudo que podia", avalia Mark Gertler, professor da Universidade de Nova York que já foi coautor de vários artigos com Bernanke antes de ele ir para o Fed.

Para o principal economista internacional do Citigroup, Nathan Sheets, depois de tomar medidas não convencionais em agosto e setembro, o Fed daria uma pausa para analisar os resultados. Sheets se aposentou este ano do cargo de diretor do grupo de assuntos internacionais do Fed. "Eu não esperaria que na reunião de novembro o Fed anuncie algum pacote adicional", disse ele.

Sheets acredita que a lição que Bernanke aprendeu com o Japão é que ele não pode ser tímido em seus esforços para ressuscitar a economia. Como o Fed é incumbido pelo Congresso de buscar tanto um desemprego baixo quanto uma inflação baixa, Bernanke e outros diretores tendem a se sentir legalmente obrigados a continuar tentando reanimar a economia, avalia.

Políticos do Partido Republicano, de oposição, estão pressionando o Fed a parar. No exemplo mais recente, o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, disse ontem que o banco central americano está permitindo uma política fiscal ruim. O governador do Texas e candidato à presidência, Rick Perry, descreveu as medidas de estímulo do Fed como "quase traição".

Política à parte, ainda há dúvidas difíceis sobre o que o Fed ainda pode fazer quando sua principal ferramenta para impulsionar a economia - os baixos juros de curto prazo - já está a todo vapor há três anos, com a taxa de curto prazo praticamente zero.

No caminho do Fed estão possíveis problemas estruturais no mercado de trabalho, um sistema financeiro danificado pela crise que impede que o crédito chegue às famílias, e uma falta de confiança entre famílias e empresas.

Algumas autoridades do Fed estão convencidas de que não há muito mais que o banco central possa fazer para ajudar nessa frente. Embora controle o suprimento de dinheiro, o Fed não controla o espírito animal dos investidores.

Outra dúvida no Fed é se o comportamento da inflação justifica mais medidas. Nos EUA, onde a preocupação é com a queda de preços, a inflação aumentou este ano e alguns observadores acreditam que o banco não deve agir agressivamente a não ser que enxergue indícios mais convincentes de que os preços ao consumidor estão se estabilizando, o que vários diretores esperam que aconteça.

"Vemos uma probabilidade de quase 50% de que o Fed vai tentar mais afrouxamento comprando ativos diretamente", escreveu ontem o economista Michael Hanson, do Merrill Lynch, num relatório para clientes. "Uma medida como essa exigiria uma previsão de cenário ainda pior e pressões deflacionárias maiores, em nossa visão."

Dia D de Dilma


Por Marco Aurélio Cabral - Valor 23/09

Contrariados como meninos mimados, participantes do "mercado" se exasperam nas críticas às supostas interferências políticas sobre o Banco Central, com alardes sombrios sobre o futuro próximo de todos os brasileiros. Ocorre que Banco Central independente é suposto como aquele que resiste a pressões políticas, seja de governos ou de "mercados", para o benefício dos interesses difusos, usualmente silenciosos no debate sobre juros. Nestes termos, ao reduzir juros em 31 de agosto, o Poder Executivo parece alinhar expectativas do "mercado" com o pragmatismo do agravamento da situação econômica internacional. Crises históricas são fenômenos distintos de pânico nos "mercados". Desdobram-se em acontecimentos aparentemente contraditórios se percebidos como simples sobe e desce de indicadores. Vistas de longe, as ondas longas do historiador Fernand Braudel parecem apontar para crises que se somam no momento presente dos fatos. Crises políticas e econômicas que se realimentam e se desenvolvem lentamente. E o pior. Inevitavelmente, para nós brasileiros.

Não se resolve nada ao fingir que o problema não existe e que há "normalidade" nos "mercados". A revisão do produto nos EUA para este ano aponta para taxas de crescimento negativas ao término de 2011. Aproximadamente metade dos espanhóis jovens encontra-se desempregada. Não há recuperação do Japão por conta do acidente nuclear. Pelo contrário, a chance mais concreta é que venhamos a assistir proliferação de favelas em Tóquio.

Diante disso, pragmatismo explica porque o objetivo de manutenção dos investimentos industriais previstos não é tarefa simples nestes tempos e, portanto, tanto o crescimento quanto o emprego devem ser defendidos pelo Estado brasileiro. O mesmo senso de realidade parece justificar a reorientação da política monetária em favor do enfrentamento da guerra cambial, que beneficia minoria próspera e mina a vitalidade competitiva de pequenos e grandes empresários brasileiros.

Cumpre-se lembrar que meio por cento de redução na taxa básica de juros implica em economia de cerca de R$ 7 bilhões ao ano no pagamento de juros, contribuição mais do que significativa no esforço de melhoria do resultado nominal. Caso mantida gradualismo na queda do diferencial das taxas reais interna e internacional até os níveis de 3% a 5% do "prêmio Brasil", seria necessário cerca de um ano com reduções em juros. Ao cabo deste período, estaríamos economizando cerca de R$ 70 bilhões anuais, esforço do tamanho do montante que será gasto em educação pública no país em 2011.

O Brasil de hoje se encontra em situação bem diferente daquela enfrentada ao final do século passado, quando convivia alta inflação e baixo crescimento. Após uma década de geração de empregos e renda, a fração de brasileiros sem cobertura do sistema bancário caiu, compreendendo-se hoje cerca de 40% da população (estima-se que em 1999 eram cerca de dois terços).

Da mesma maneira, a inflação que vier a resultar no futuro, se vier, pode ser reduzida considerando-se que outras instituições podem participar do esforço de contenção de preços. A Petrobrás já o faz com o preço da gasolina, vilão do passado. Mas poderiam ajudar também as agências reguladoras, em esforço coordenado de desindexação de contratos de concessão. As compensações à vista para as empresas poderiam ser canalizadas para redução de dívidas, principalmente em moeda estrangeira.

Da mesma maneira, a necessidade de redução nos juros poderia ser menor se fossem ativados mecanismos de exportação de capital via apoio financeiro público à aquisição de empresas no exterior por operadores brasileiros. Dado que a crise afeta poderosa e negativamente o segmento de bens de capital e, dado que este segmento gera inovações tecnológicas relevantes para competitividade das cadeias produtivas, espera-se que surjam oportunidades para transferência de tecnologia obtida nos países centrais para grupos industriais brasileiros. Neste contexto, os Ministérios de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e de Ciência e Tecnologia (MCT) poderiam acumular, de forma integrada e coordenada, inteligência tecnológica e competitiva para identificação de setores e tecnologias prioritárias. O BNDES-Exim poderia operacionalizar recursos financeiros para aquisições no exterior com emprego do Fundo Soberano.

Há ainda a opção de se introduzirem controles cambiais, sendo esta alternativa de mais difícil implementação que a penalização dos capitais de curto prazo via impostos sobre movimentações financeiras.

Finalmente, os mecanismos responsáveis pela expansão da oferta, infraestrutura e indústria, devem ser ancorados em estratégias de longo prazo, obedecendo-se a critérios de planejamento da ocupação racional e sustentável do território brasileiro. Com isso, possíveis aumentos de preços poderão ser neutralizados pelo crescimento homogêneo da renda e do emprego, principalmente nas regiões mais pobres do país.

A importância histórica do Copom de agosto de 2011 parece ser a de encerrar período marcado pela retomada do desenvolvimento (2003-2010), iniciando-se novo período de implementação de projeto nacional de desenvolvimento - só que desta vez em ambiente democrático e inclusivo, ao contrário dos nossos rivais chineses.

Em síntese, a decisão de revisão dos juros, em 31.08.2011, parece inaugurar novo período na história econômica do país. Período em que medidas de proteção ao mercado interno e regras que limitam fluxos financeiros internacionais pautarão o novo nacionalismo brasileiro. Para desgosto dos "mercados", contudo, não parece haver qualquer componente ideológico ou politiqueiro por detrás disso. Apenas o velho e bom pragmatismo de proteção do bem coletivo diante de inevitável aumento da ameaça externa.

Marco Aurélio Cabral é professor da Universidade Federal Fluminense

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Quem eclipsará os EUA?


Por Simon Johnson - Valor 22/09

De acordo com Voltaire, o Império Romano caiu "porque todas as coisas caem". É difícil argumentar contra isso como declaração geral sobre declínio: nada dura para sempre. Mas também não é muito útil. Ao considerar, por exemplo, o predomínio americano no mundo atual, seria bom saber quando a ascendência diminuirá - e se os EUA podem fazer alguma coisa para adiar o inevitável.

À época, comentaristas abandonaram todas as esperanças em relação à sobrevivência do Império Romano por centenas de anos, antes de ele finalmente entrar em colapso. Podem os EUA encontrar seu caminho para um adiamento similar?

Em termos de proporcionar uma estrutura essencial para a discussão desse problema, o novo livro de Arvind Subramanian, "Eclipse: Living in the Shadow of China's Economic Dominance" (Eclipse: vivendo à sombra da dominação econômica da China) é uma grande contribuição. (Transparência total: Subramanian e eu somos colegas no Instituto Peterson de Economia Internacional, e temos trabalhado juntos em outras questões.)

Individualmente, Subramanian compila um índice de predomínio econômico que deverá tornar-se um foco de conversa em qualquer lugar onde as pessoas querem analisar mudanças na liderança econômica mundial. Não é preciso conhecer nada de economia para ficar fascinado por esse livro - ele trata pura e simplesmente de poder.

Os fatos básicos são incontestáveis. O Reino Unido foi a potência econômica dominante no mundo desde a irrupção da industrialização, no início do século XIX. Mas perdeu sua predominância e foi gradualmente eclipsado pelos EUA, que pelo menos desde 1945 é o líder incontestado entre as economias de mercado.

Os EUA ultrapassaram o Reino Unido em termos de produção industrial logo no fim do século XIX, mas isso não foi suficiente para fazer pender a balança. O predomínio econômico mudou somente quando o Reino Unido passou a incorrer em grandes déficits em conta corrente durante a primeira e a segunda guerras mundiais - o país teve que tomar pesados empréstimos para financiar seus esforços bélicos e as importações foram significativamente maiores que as exportações. Grande parte das reservas mundiais de ouro acabaram nas mãos dos EUA.

Isso ajudou a enfraquecer o papel da libra britânica internacionalmente e catapultou o dólar americano para o primeiro plano - especialmente depois da conferência de Bretton Woods, em 1944, quando foi acordado que os países passariam a manter suas reservas tanto em dólares como em ouro.

Mais recentemente, porém, foi a vez dos americanos de registrar sistematicamente grandes déficits em conta corrente, comprando mais do resto do mundo do que ganham com a venda de bens e serviços no exterior. Nessa dimensão, os EUA parecem destinados a repetir o erro dos britânicos.

Ao mesmo tempo, a renda per capita dos países de mercados emergentes cresceu - assim como seu papel internacional. A China, em especial, tem seguido uma estratégia, no decorrer dos últimos dez anos, que implica incorrer em grandes superávits em conta corrente e acumular reservas cambiais, hoje reportadas em mais de US$ 3 trilhões. Com efeito, o argumento mais provocante de Subramanian é de que a China já superou os Estados Unidos em termos de predomínio econômico - mas nós ainda não despertamos para essa nova realidade.

A história é fascinante e bem contada, mas ainda há muito sobre o que vale a pena discutir. Por exemplo, os britânicos declinaram porque os americanos não puderam ser detidos ou devido a problemas no Império Britânico e no Reino Unido?

Alguns anos atrás, algumas pessoas consideravam que o Japão tinha ultrapassado os EUA. A Europa também estava, supostamente, competindo pelo predomínio econômico mundial. Hoje, quaisquer dessas afirmações parecem absurdas. Em ambos os casos, o sistema de crédito escapou de controle, com excesso de empréstimos para o setor privado no Japão dos anos 1980 e com o excessivo endividamento público durante a década de 2000 na zona do euro.

Analogamente, ainda não está claro se o caminho de desenvolvimento chinês permanecerá tranquilo. Os investimentos fixos, na China, estão perto de 50% do PIB - o que parece ser um recorde mundial. O crédito disponibilizado às empresas estatais e às famílias continua a crescer rapidamente. Não será isso uma versão da causa precisa do descarrilhamento do crescimento japonês?

Sobre a questão central da capacidade de emitir uma "moeda de reserva" que investidores e governos querem manter em carteira, Subramanian tem razão: a China satisfaz muitos dos requisitos. Mas ainda carece de alguns elementos chave, entre eles, plenos direitos de propriedade. Se poder tirar seu dinheiro de um país quando os tempos ficam difíceis é uma preocupação, então a China não é um lugar atraente para manter suas reservas.

Problemas externos por vezes fazem Estados ruir. Mais frequentemente, porém, os grandes problemas são internos - o regime não consegue assegurar crescimento, sua legitimidade declina e as pessoas começam a buscar as saídas (ou pelo menos tirar seu dinheiro do país).

Se os EUA forem eclipsados em curto prazo, será mais provável que isso ocorra devido à sua perda de coesão social e seu cenário político disfuncional. A China pode muito bem entrar em cena para preencher esse vácuo, mas isso é bem diferente de ter condições de desalojar os EUA. (Tradução Sérgio Blum)

Simon Johnson, ex-economista chefe do FMI, é cofundador do blog de economia, BaselineScenario.com , professor da Sloan, no MIT, membro sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional e coautor, com James Kwak, de 13 Bankers (13 banqueiros).

TV ON LINE


PESQUISA REVELA AUMENTO DA VENDA DE CARROS EM SP - TEMPO: 00:04:22
Uma pesquisa realizada na cidade de São Paulo aponta que cresceu em 35% o número de pessoas que compraram veículos em 2011. Com isso, também aumentou o tempo perdido no trânsito: 3 horas em média. O levantamento constatou, porém, que essa alta não reflete a real preferência pelo meio de transporte.
Dia mundial sem carro - café da manhã do ciclista - bicicletas

TV: TV BRASIL | PROGRAMA: REPÓRTER BRASIL | APRESENTADOR: KATIUSCIA NERI

PROFESSOR DA USP FALA SOBRE CÂMBIO FLUTUANTE - TEMPO: 00:05:25

Em entrevista ao Conta Corrente, o professor da USP Ulisses Ruiz de Gamboa falou sobre a variação do câmbio brasileiro.

SONORA
*ULISSES RUIZ DE GAMBOA, professor da USP
MENÇÃO
*GUIDO MANTEGA, ministro da Fazenda
*ALEXANDRE TOMBINI, presidente do Banco Central

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: GUTO ABRANCHES

Até quando vai a arrancada do dólar?


Por Eduardo Campos - Valor 22/09

Mas esse dólar não vai parar de subir? Certamente essa é a pergunta que todos estão se fazendo depois que o preço da moeda americana disparou 21,34% desde a mínima de R$ 1,537 observada em 26 de julho, e retomou a linha de R$ 1,86.

A resposta mais óbvia é: "vai parar sim, só não se sabe quando". Outra questão que surge é: qual será o rastro de destruição que essa arrancada de preço vai deixar para trás?

Elaborando melhor a resposta, o quadro para o dólar, por ora, tem muito para piorar e pouco para melhorar.

Pelo lado externo, o "default" da Grécia é cada vez mais uma questão de "quando" vai acontecer e não de "se" vai acontecer.

Por mais que o mercado antecipe tal evento e se proteja, há um efeito "psicológico" no dia que o "default" piscar nos monitores de operação.

No front doméstico, as recentes manifestações do governo são de que a política de corte de juros segue em marcha mesmo com dólar em alta e não há aceno quanto a uma revisão das medidas cambiais adotadas desde o fim do ano passado.

Notadamente aquela que cobra 1% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a ampliação de posição vendida no mercado de derivativos.

Ontem, o dólar comercial teve um dos piores dias desde a crise de 2008. O preço da moeda subiu 4,24%, para fechar a R$ 1,865, maior cotação desde o começo de junho passado. Na máxima foi a R$ 1,872.

E para entender isso temos de olhar para o mercado futuro, onde o dia foi ainda mais dramático. O contrato para outubro chegou a subir mais de 6% e quase atingiu o limite máximo de oscilação diária. Nesse momento, o preço foi a R$ 1,902. Mas alguns vendedores apareceram e o ganho do dia se limitou a 4,85%, para R$ 1,879, antes do ajuste final de posições.

Pela análise gráfica, os estudos sugerem que os próximos objetivos de alta são o R$ 1,902 (máxima de ontem), R$ 1,920, R$ 1,961 e R$ 2,0. Na baixa, o primeiro suporte fica em R$ 1,820.

É de notório saber que o câmbio em terras brasileiras é determinado pelo mercado futuro. O exato oposto do observado no restante do mundo. Onde as jabuticabas não nascem, é o ativo principal que dá o preço do ativo objeto e não o contrário.

Portanto é do mercado futuro que vem essa movimentação toda. Não se pode falar em "fuga de recursos" do país com um saldo cambial positivo em US$ 8,5 bilhões até 16 de setembro. O mais preciosista pode apontar que entre os dias 12 e 16 vimos uma saída financeira de US$ 1,2 bilhão. Ok. Mas isso mal representa 50% do giro médio diário do interbancário, que aliás não tem chegado aos US$ 2 bilhões. Ontem, por exemplo, foi de US$ 1,4 bilhão. Então, esse volume de dólar não explica uma alta de 17% no mês.

Essa visão também é compartilhada por membro graduado da equipe econômica.

"Há uma desalavancagem da posição vendida no mercado futuro que chegou a US$ 24,6 bilhões. Chegou-se a um consenso lá [no mercado futuro] que o real mudou de tendência", diz essa fonte. "E esse movimento no futuro transborda e pressiona a taxa à vista."

Também por essa mesma razão, esse especialista do governo acredita que o movimento tem caráter pontual.

Assim que as coisas se acalmarem no mercado futuro, o real tende a ganhar um pouco de força.

Ainda de acordo com essa fonte, algo semelhante não acontece no mercado à vista, pois as ações do Banco Central (BC) de cobrar compulsório sobre posição vendida levaram a uma gradual redução dessas posições em câmbio físico.

De fato, os bancos estão comprados em quase US$ 2 bilhões.

Outro fato intrigante no mercado é por que o dólar sobe 1% lá fora, no máximo 2% contra uma moeda parecida com o real, e por aqui vemos saltos de até 6% no preço?

O vice-presidente de tesouraria do banco WestLB, Ures Folchini, aponta que isso não deveria espantar. Isso é reflexo das medidas tomadas pelo governo, particularmente da decisão de taxar a posição vendida no mercado de derivativos.

"Temos um mercado artificialmente desequilibrado na ponta de venda. Por isso, enquanto o dólar sobe 1 lá fora, ganha mais de 3 aqui dentro", explica o especialista.

Ainda de acordo com Folchini, a existência desse impedimento à venda faz com que o ponto de equilíbrio de preço seja colocado mais para cima.

Colocando de outra forma, o preço que chamaria a venda de dólar tem de ser mais alto em função dessa tributação à posição vendida.

Eduardo Campos é repórter

Brasil vai à OMC com uma delirante proposta cambial


Valor Econômico editorial 22/09/2011

Depois de tomar uma equivocada medida protecionista ao elevar o IPI para automóveis, o governo lançou ao mundo a ideia do antidumping cambial, slogan com o qual pretende levar a Organização Mundial do Comércio a aceitar retaliações extraordinárias para proteger a produção nacional em caso de importações de países que fizerem desarmonizações competitivas no mercado global. A última iniciativa não deve provocar tantos estragos como a primeira, não porque esta não seja ruim - é péssima -, mas porque não será aplicada e naufragará sob o peso de sua inconsistência.

A equipe econômica do governo acha a coisa mais natural do mundo fixar uma banda de flutuação para as grandes moedas do comércio internacional que, uma vez ultrapassada, deslancharia redentoras medidas defensivas pelos países. O Brasil já apresentou à OMC sua "proposta de discussão", mas vários argumentos das autoridades brasileiras não têm pé nem cabeça. Um deles é que quando os países se comprometeram com as atuais tarifas de importação, em 1994, prevaleciam taxas de câmbio fixas. Isso não é verdadeiro. Quem de fato estava ingressando no câmbio quase fixo era o Brasil, uma decisão que, levada além de seus limites, se revelou um desastre para o país e que depois, aplicado de forma ainda mais férrea, quebraria a Argentina.

A questão cambial é extremamente complexa e quase intratável para os economistas até hoje. Determinar uma banda de flutuação não é fácil para um país, quanto mais para um conjunto deles. A banda brasileira, por exemplo, foi para o espaço em 1999 em meio a uma aguda crise cambial. Além disso, seria necessário estabelecer o que seria o câmbio de equilíbrio aproximado para várias moedas e delimitar o ponto exato em que uma desvalorização exigida pelos fundamentos se transformaria em uma manipulação cambial intencional - algo delirante. Mais: o governo tem se vangloriado da independência que mantém em relação aos organismos multilaterais e, com sua proposta, estaria convidando um ou mais deles a colocar limites à política cambial brasileira. Não faz sentido.

O avanço da economia brasileira provocou a valorização do real, mas dela não decorre diretamente, e fatalmente, a perda de competitividade dos bens produzidos no país. Há instrumentos de política econômica para detê-la, todos conhecidos, como redução de impostos, investimentos na infraestrutura e educação, contenção dos gastos públicos, uma estrutura de defesa comercial eficiente etc. O Brasil avançou pouco nisso e coroou suas deficiências com a maior taxa de juros do mundo - herdada por Lula e da mesma forma transmitida por ele a Dilma Rousseff.

Economistas do governo, porém, estão revelando um roteiro que pode levar o país de volta a uma economia pré-globalizada. O subtexto, já pinçado em declarações de ministros, é que os EUA, com sua política de afrouxamento monetário, são os responsáveis pelo real forte, e causaram uma enxurrada de dólares no Brasil. Mas boa parte da história está no conservadorismo com os juros no governo Lula, que, certo ou errado, abriu um vasto diferencial entre juros domésticos e externos - um convite ao lucro sem risco.

A política monetária americana não é responsável pela perda de competitividade brasileira. O vilão mais provável, se há que escolher um, é a grande manipuladora cambial, a China. Mas além de simpatias ideológicas que o dirigismo chinês levanta em membros do governo brasileiro, a China é tratada com deferência por ser a maior compradora de nossas commodities, além de um dos mais agressivos competidores do Brasil no mercado internacional.

Com os chineses não se fala duro. Não está nos planos do governo aplicar salvaguardas autorizadas na OMC contra a China, uma arma tão eficaz que os chineses ameaçam explicitamente retaliar os países que lançarem mão dela. "O assunto não é individual, um país contra o outro", diz o ministro Fernando Pimentel (Valor, 20 de setembro). Há um enorme desequilíbrio global entre países superavitários (China e Alemanha) e deficitários (EUA) que precisa ser resolvido. Discutir uma banda cambial planetária não é solução. A solução, se vier, não virá tão cedo. Em todos os casos, seria importante ter um sistema de proteção comercial eficaz, aparelhado e ágil para utilizar os instrumentos já existentes para se defender, como fazem os países desenvolvidos. Por aqui, ele não existe.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Afinal, o que queremos?


As recentes medidas governamentais com relação à sobretaxação dos veículos importados, desperta algumas questões curiosas.

Em primeiro lugar, fala-se em proteger a indústria nacional. Que indústria seria essa? A única indústria genuinamente nacional de que se tem notícia foi a Gurgel, antes de ser deportada para o Ceará e tragada pelo mistério, sumiu da memória, restando somente cacos esporádicos nas vias, tão raros como as tribos homônimas, os Carajás.

Também não são todos os importados. Depende da origem. Se forem procedentes da Argentina ou México, a lei não atinge. Continua tudo como antes, as mesmas marcas estrangeiras que começaram a se instalar desde Juscelino aos militares. Brasileira mesmo, nada.

Injustiça com os chineses e com o nosso minério que eles transformam em carros, mais brasileiros que qualquer outro, no âmago e na liga, preteridos em favor dos outros que dizem carregar pelo menos 65% de nacionalidade. Que nem verdade verdadeira é, pois na indústria “nacional” de autopeças, outras 100% transnacionais competem, restando ao Brasil a contribuição com um punhado de parafusos na montagem dos veículos, fora a gasolina, álcool, água e flanelas.

Além do que, as importações de autopeças continuam livres leves e soltas, substituindo as de outrora “made in Brazil”.

E ainda vamos a OMC contra o protecionismo.

Se vamos contra ao protecionismo então somos a favor do ferrorismo. Sim, ferramos os chineses. Estão invadindo o país com esses produtos baratos, trazendo para baixo os preços de nossos produtos “nacionais”.

Como não cabem mais carros, principalmente em São Paulo, nas ruas, aplicamos essa mesma ferramenta ( o ferrorismo) para ferrar o consumidor. Conter a demanda, via aumento de preços, ao mesmo tempo em que se pode tentar, incrementar a receita, estabelecendo, por exemplo, mais um rodízio.

Mas que seja um rodízio mais elaborado, mais brasileiro, e aqui é que vem minha maior contribuição ao assunto.

Estabeleceremos um rodízio de cores, ao invés de números, em todas as metrópoles.

Segunda-feira só carro preto.

Terça é a vez dos pratas/cinzentos, e quarta os brancos. Quinta, os vermelhos e amarelos e sexta, os verdes e azuis.

Sábado, carnaval.

Ronaldo Pignataro

Brasil Sustentável: Perspectivas para os mercados de petróleo, gás e etanol


Relatório da Fundação Getúlio Vargas em parceria com a Ernst & Young traça projeções do crescimento e do impacto da indústria de combustíveis no Brasil e no mundo - Exame.com

São Paulo – Para 2020, estima-se um aumento no preço do petróleo de 35% a 60% em relação à média registrada no ano de 2010. A previsão é de um estudo lançado nesta quarta pela Fundação Getúlio Vargas e pela consultoria Ernst & Young, que traz análises e projeções sobre demanda e oferta de combustíveis fósseis e renováveis.

De acordo com o relatório “Brasil Sustentável: Perspectivas para os mercados de petróleo, gás e etanol”, o consumo mundial de petróleo em 2020 chegará a 85 milhões de barris por dia, cerca de 2% a mais em relação ao ano passado. Este baixo crescimento será resultado direto da alta dos preços, que ocorrerá por causa dos elevados custos de produção em um cenário de oferta limitada.

Em geral, aqueles que lideram a produção do óleo no mundo atualmente, como Estados Unidos e os países da Opep, em especial a Arábia Saudita, e cujo poder de mercado influenciam a dinâmica de preços do óleo, já tiveram seus picos de produção no passado. O esperado é que novas reservas, se encontradas, serão de menor qualidade e maior custo de produção.

“À medida em que as fontes de petróleo mais baratas são exauridas e repostas pela incorporação de fontes de mais difícil extração, há uma elevação no custo de produção”, destaca o estudo. O quadro só não será pior porque novas fronteiras petrolíferas vão expandir a produção do óleo. É o caso do pré-sal brasileiro, que aumentará em 77% a oferta efetiva de petróleo do país.

Petróleo brasileiro será 5% da produção mundial

Segundo o estudo, a expansão no consumo e produção de petróleo migrará dos países desenvolvidos para os em desenvolvimento. Em dez anos, o Brasil vai responder por 5% da produção de petróleo (contra 3% hoje).

E o nosso consumo interno do recurso fóssil vai disparar quase 30%, chegando a representar 4% da demanda mundial até 2020. Acompanhando a tendência no mercado internacional, nos próximos dez anos, o litro da gasolina no Brasil pode alcançar um preço de R$ 2,49 a R$ 3,53, representando desde uma queda de 1% até um acréscimo de 41%.

Apesar da importância das novas reservas, o relatório manda por água abaixo a crença de que a produção do pré-sal teria impacto expressivo sobre as exportações e a economia do país. Em função do alto consumo interno, a produção de petróleo brasileira “será apenas parcialmente revertida em exportações, que alcançarão o fim da década representando apenas cerca de 600 mil barris/dia em 2020”.

Em cifras, as exportações geradas pelo pré-sal se traduzirão em 27,9 bilhões de dólares por ano, um impacto positivo de apenas cerca de 0,4 ponto percentual para o PIB brasileiro em 2020, diz o estudo.

Estímulo para renováveis

Ainda de acordo com o relatório, a alta dos preços do combustível fóssil deve levar ao favorecimento das fontes de energia renováveis em todo o mundo. No caso do etanol, a demanda deve seguir a tendência atual, e se manter à frente da oferta, ocasionando uma escalada de preços. A previsão para cotação média do etanol no mercado internacional chega a 125,9% até 2020.

Íntegra do discurso de Dilma Rousseff


Valor 21/09
Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura do Debate Geral da 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas - Nova Iorque/EUA

21/09/2011 às 11h20

Nova Iorque-EUA, 21 de setembro de 2011



Senhor presidente da Assembleia Geral, Nassir Abdulaziz Al-Nasser,

Senhor secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon,

Senhoras e senhores chefes de Estado e de Governo,

Senhoras e senhores,



Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo.

É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico.

Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste Planeta, que, como eu, nasceram mulher, e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres.

Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: coragem e sinceridade. Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje.

Senhor Presidente,

O mundo vive um momento extremamente delicado e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade histórica. Enfrentamos uma crise econômica que, se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social. Uma ruptura sem precedentes, capaz de provocar sérios desequilíbrios na convivência entre as pessoas e as nações.

Mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados.

Agora, menos importante é saber quais foram os causadores da situação que enfrentamos, até porque isto já está suficientemente claro. Importa, sim, encontrarmos soluções coletivas, rápidas e verdadeiras.

Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo, mas como todos os países sofrem as conseqüências da crise, todos têm o direito de participar das soluções.

Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e algumas vezes, de clareza de ideias.

Uma parte do mundo não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade.

O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo. Enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise – a do desemprego – se amplia. Já temos 205 milhões de desempregados no mundo. 44 milhões na Europa. 14 milhões nos Estados Unidos. É vital combater essa praga e impedir que se alastre para outras regiões do Planeta.

Nós, mulheres, sabemos, mais que ninguém, que o desemprego não é apenas uma estatística. Golpeia as famílias, nossos filhos e nossos maridos. Tira a esperança e deixa a violência e a dor.

Senhor Presidente,

É significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, que venha falar, aqui, hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países desenvolvidos.

Como outros países emergentes, o Brasil tem sido, até agora, menos afetado pela crise mundial. Mas sabemos que nossa capacidade de resistência não é ilimitada. Queremos – e podemos – ajudar, enquanto há tempo, os países onde a crise já é aguda.

Um novo tipo de cooperação, entre países emergentes e países desenvolvidos, é a oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais.

O mundo se defronta com uma crise que é ao mesmo tempo econômica, de governança e de coordenação política.

Não haverá a retomada da confiança e do crescimento enquanto não se intensificarem os esforços de coordenação entre os países integrantes da ONU e as demais instituições multilaterais, como o G-20, o Fundo Monetário, o Banco Mundial e outros organismos. A ONU e essas organizações precisam emitir, com a máxima urgência, sinais claros de coesão política e de coordenação macroeconômica.

As políticas fiscais e monetárias, por exemplo, devem ser objeto de avaliação mútua, de forma a impedir efeitos indesejáveis sobre os outros países, evitando reações defensivas que, por sua vez, levam a um círculo vicioso.

Já a solução do problema da dívida deve ser combinada com o crescimento econômico. Há sinais evidentes de que várias economias avançadas se encontram no limiar da recessão, o que dificultará, sobremaneira, a resolução dos problemas fiscais.

Está claro que a prioridade da economia mundial, neste momento, deve ser solucionar o problema dos países em crise de dívida soberana e reverter o presente quadro recessivo. Os países mais desenvolvidos precisam praticar políticas coordenadas de estímulo às economias extremamente debilitadas pela crise. Os países emergentes podem ajudar.

Países altamente superavitários devem estimular seus mercados internos e, quando for o caso, flexibilizar suas políticas cambiais, de maneira a cooperar para o reequilíbrio da demanda global.

Urge aprofundar a regulamentação do sistema financeiro e controlar essa fonte inesgotável de instabilidade. É preciso impor controles à guerra cambial, com a adoção de regimes de câmbio flutuante. Trata-se, senhoras e senhores, de impedir a manipulação do câmbio tanto por políticas monetárias excessivamente expansionistas como pelo artifício do câmbio fixo.

A reforma das instituições financeiras multilaterais deve, sem sombra de dúvida, prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes, principais responsáveis pelo crescimento da economia mundial.

O protecionismo e todas as formas de manipulação comercial devem ser combatidos, pois conferem maior competitividade de maneira espúria e fraudulenta.

Senhor Presidente,

O Brasil está fazendo a sua parte. Com sacrifício, mas com discernimento, mantemos os gastos do governo sob rigoroso controle, a ponto de gerar vultoso superávit nas contas públicas, sem que isso comprometa o êxito das políticas sociais, nem nosso ritmo de investimento e de crescimento.

Estamos tomando precauções adicionais para reforçar nossa capacidade de resistência à crise, fortalecendo nosso mercado interno com políticas de distribuição de renda e inovação tecnológica.

Há pelo menos três anos, senhor Presidente, o Brasil repete, nesta mesma tribuna, que é preciso combater as causas, e não só as consequências da instabilidade global.

Temos insistido na interrelação entre desenvolvimento, paz e segurança; e que as políticas de desenvolvimento sejam, cada vez mais, associadas às estratégias do Conselho de Segurança na busca por uma paz sustentável.

É assim que agimos em nosso compromisso com o Haiti e com a Guiné-Bissau. Na liderança da Minustah, temos promovido, desde 2004, no Haiti, projetos humanitários, que integram segurança e desenvolvimento. Com profundo respeito à soberania haitiana, o Brasil tem o orgulho de cooperar para a consolidação da democracia naquele país.

Estamos aptos a prestar também uma contribuição solidária, aos países irmãos do mundo em desenvolvimento, em matéria de segurança alimentar, tecnologia agrícola, geração de energia limpa e renovável e no combate à pobreza e à fome.

Senhor Presidente,

Desde o final de 2010, assistimos a uma sucessão de manifestações populares que se convencionou denominar “Primavera Árabe”. O Brasil é pátria de adoção de muitos imigrantes daquela parte do mundo. Os brasileiros se solidarizam com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal: a liberdade.

É preciso que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo.

Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas.

Apoiamos o Secretário-Geral no seu esforço de engajar as Nações Unidas na prevenção de conflitos, por meio do exercício incansável da democracia e da promoção do desenvolvimento.

O mundo sofre, hoje, as dolorosas consequências de intervenções que agravaram os conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis.

Muito se fala sobre a responsabilidade de proteger; pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger. São conceitos que precisamos amadurecer juntos. Para isso, a atuação do Conselho de Segurança é essencial, e ela será tão mais acertada quanto mais legítimas forem suas decisões. E a legitimidade do próprio Conselho depende, cada dia mais, de sua reforma.

Senhor Presidente,

A cada ano que passa, mais urgente se faz uma solução para a falta de representatividade do Conselho de Segurança, o que corrói sua eficácia. O ex-presidente Joseph Deiss recordou-me um fato impressionante: o debate em torno da reforma do Conselho já entra em seu 18º ano. Não é possível, senhor Presidente, protelar mais.

O mundo precisa de um Conselho de Segurança que venha a refletir a realidade contemporânea; um Conselho que incorpore novos membros permanentes e não-permanentes, em especial representantes dos países em desenvolvimento.

O Brasil está pronto a assumir suas responsabilidades como membro permanente do Conselho. Vivemos em paz com nossos vizinhos há mais de 140 anos. Temos promovido com eles bem-sucedidos processos de integração e de cooperação. Abdicamos, por compromisso constitucional, do uso da energia nuclear para fins que não sejam pacíficos. Tenho orgulho de dizer que o Brasil é um vetor de paz, estabilidade e prosperidade em sua região, e até mesmo fora dela.

No Conselho de Direitos Humanos, atuamos inspirados por nossa própria história de superação. Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos.

O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação, todos são algozes dos direitos humanos. Há violações em todos os países, sem exceção. Reconheçamos esta realidade e aceitemos, todos, as críticas. Devemos nos beneficiar delas e criticar, sem meias-palavras, os casos flagrantes de violação, onde quer que ocorram.

Senhor Presidente,

Quero estender ao Sudão do Sul as boas vindas à nossa família de nações. O Brasil está pronto a cooperar com o mais jovem membro das Nações Unidas e contribuir para seu desenvolvimento soberano.

Mas lamento ainda não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na Organização das Nações Unidas. O Brasil já reconhece o Estado palestino como tal, nas fronteiras de 1967, de forma consistente com as resoluções das Nações Unidas. Assim como a maioria dos países nesta Assembléia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.

O reconhecimento ao direito legítimo do povo palestino à soberania e à autodeterminação amplia as possibilidades de uma paz duradoura no Oriente Médio. Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional.

Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia – como deve ser.

Senhor Presidente,

O Brasil defende um acordo global, abrangente e ambicioso para combater a mudança do clima no marco das Nações Unidas. Para tanto, é preciso que os países assumam as responsabilidades que lhes cabem.

Apresentamos uma proposta concreta, voluntária e significativa de redução [de emissões], durante a Cúpula de Copenhague, em 2009. Esperamos poder avançar já na reunião de Durban, apoiando os países em desenvolvimento nos seus esforços de redução de emissões e garantindo que os países desenvolvidos cumprirão suas obrigações, com novas metas no Protocolo de Quioto, para além de 2012.

Teremos a honra de sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em junho do ano que vem. Juntamente com o Secretário-Geral Ban Ki-moon, reitero aqui o convite para que todos os Chefes de Estado e de Governo compareçam.

Senhor Presidente e minhas companheiras mulheres de todo mundo,

O Brasil descobriu que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. E que uma verdadeira política de direitos humanos tem por base a diminuição da desigualdade e da discriminação entre as pessoas, entre as regiões e entre os gêneros.

O Brasil avançou política, econômica e socialmente sem comprometer sequer uma das liberdades democráticas. Cumprimos quase todos os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, antes 2015. Saíram da pobreza e ascenderam para a classe média no meu país quase 40 milhões de brasileiras e brasileiros. Tenho plena convicção de que cumpriremos nossa meta de, até o final do meu governo, erradicar a pobreza extrema no Brasil.

No meu país, a mulher tem sido fundamental na superação das desigualdades sociais. Nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central. São elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos.

Mas o meu país, como todos os países do mundo, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher. Ao falar disso, cumprimento o secretário-geral Ban Ki-moon pela prioridade que tem conferido às mulheres em sua gestão à frente das Nações Unidas.

Saúdo, em especial, a criação da ONU Mulher e sua diretora-executiva, Michelle Bachelet.

Senhor Presidente,

Além do meu querido Brasil, sinto-me, aqui, representando todas as mulheres do mundo. As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos; aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar; aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar; aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras.

Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje.

Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.

E é com a esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra de iniciar o Debate Geral da 66ª Assembleia Geral da ONU.

Muito obrigada.

TV ON LINE




BANCO CENTRAL GARANTE QUE MERCADO FINANCEIRO NACIONAL ESTÁ SÓLIDO TEMPO: 00:02:26
O Fundo Monetário Internacional baixou a previsão de crescimento da economia mundial de 4,3% para 4% este ano. O relatório do FMI também reduziu a estimativa de avanço do Brasil. Entre as dez nações da América Latina, o país será o nono no desenvolvimento econômico.

O Banco Central brasileiro divulgou ontem o relatório de estabilidade financeira. O documento indica que a taxa atingiu a marca de 5,2%, a mais alta desde fevereiro do ano passado. Mesmo assim, o BC garante que não há riscos para o sistema financeiro nacional.
SONORA:
*ANTHERO MEIRELLES, diretor do Banco Central
*JOSE OREIRA, professor de economia da UNB
TV: TV BRASIL PROGRAMA: REPÓRTER BRASIL APRESENTADOR: KATIUSCIA NERI

Países ricos impõem condições para real e yuan integrarem cesta do FMI


Por Assis Moreira | De Genebra - Valor 21/09

Enquanto os países que compõem o grupo dos Brics vão discutir amanhã ajuda para a zona do euro, inclusive através do Fundo Monetário Internacional (FMI), nações desenvolvidas colocam condições para a integração do yuan chinês, e que por tabela afetam também o real, na cesta de moedas dos Direitos Especiais de Saque (DES) do fundo.

O Valor apurou que o FMI apresentou duas opções ao G-20 com possíveis cenários para uma nova composição do DES, sem alcançar acordo. A expansão da cesta de moedas tem uma dimensão geopolítica importante. Integrá-la é um sinal do reconhecimento da maior influência na economia internacional.

Criada em 1969, a cesta do DES inclui o dólar, o euro, a libra esterlina e o iene japonês. São divisas amplamente usadas no comércio e nas transações financeiras internacionais, e muito negociadas nos mercados globais de moedas com giro de US$ 4 trilhões por dia.

O DES oferece aos bancos centrais um ativo complementar para suas reservas, com menor volatilidade cambial, pois seu valor é a média de diferentes moedas. Para o FMI, sua moeda virtual poderia ser utilizada também para preços de commodities e emissões de bônus.

Para novas moedas serem elegíveis na composição do DES, o FMI propôs no G-20, primeiro, adaptação do critério de "moeda livremente utilizável" na economia global. Mas países com controle de capital, como China, Índia e Brasil, enfrentariam problemas. Simulações feitas pelo próprio fundo concluíram que provavelmente nenhum candidato poderia ser aceito até 2015.

A segunda opção é substituir o critério de "moeda livremente utilizável" por um novo critério adaptado. Para isso, o FMI sugere o chamado "Reserve Asset Criterion" (RAC), exigindo da nova moeda liquidez nos mercados de câmbio, capacidade de servir como proteção (hedge), disponibilidade de instrumento de alta qualidade de taxas de juros, entre outros.

Essa alternativa, embora "desafiadora", pode ser respeitada por algumas moedas em período de tempo relativamente menor do que 2015, conforme documento ao qual o Valor teve acesso.

Negociadores admitem, porém, que no G-20 não está claro quais moedas poderiam estar nessas condições, por causa das imposições que países desenvolvidos, sobretudo os Estados Unidos, insistem em fazer, como conversibilidade e flexibilidade da moeda e a relativa independência do Banco Central - critérios que visam basicamente a China. O argumento é de que o Banco do Povo da China está longe de ser autônomo, já que as principais decisões sobre câmbio e política monetária são tomadas pela liderança do Partido Comunista.

Mas Pequim se recusa a pagar pedágio e acelerar a valorização de sua moeda, por exemplo. Não tem pressa para internacionalizar sua moeda. Quer ser reconhecida por seu crescente peso na economia mundial, e na necessidade de uma ordem monetária mais representativa.

O Brasil espera aproveitar o vácuo do yuan chinês e incluir o real no DES. Tem argumentado que países europeus, incluindo a Alemanha, tinham controle de capital antes do euro e suas moedas faziam parte da cesta de moedas do FMI.

A posição brasileira é de que a composição da cesta deve refletir a importância relativa das moedas nas transações financeiras e comerciais internacionais. O Banco Internacional de Compensações (BIS) mostra em relatório esta semana que o real é mais utilizado do que se pensa nos derivativos, por exemplo.

Segundo o BIS, em derivativos sobre divisas, as posições em real quase duplicaram no segundo trimestre, passando de 14% para 23% do total global nesse segmento de centenas de bilhões de dólares.

Os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais do G-20, representando 80% da produção mundial, discutem todos esses temas esta semana em Washington. Mas uma decisão até o começo de novembro terá um forte componente político, já que na parte técnica não há consenso sobre como ampliar mecanismos de liquidez global.

Por que um rompimento é tão difícil?


Por Martin Wolf - Valor 21/09

Os membros da zona do euro estão sofrendo de um grave surto de remorso do comprador. Muitos gostariam de desmontar o kit que compraram quase 20 anos atrás e montaram no fim da década de 1990 e nos anos 2000. Mas só podem despedaçá-lo juntamente com toda a estrutura de cooperação europeia. Enquanto isso, o mundo vê horrorizado a possibilidade da zona do euro desencadear uma onda de dívida soberana e crises bancárias. Se assim acontecer, não seria a primeira vez que a loucura europeia traz ruína ao mundo.

O idealismo que motivou o projeto desapareceu. Mas os interesses individuais estão se revelando um substituto insuficiente. A inépcia dos políticos nacionais, responsáveis perante eleitores frustrados, estão piorando as coisas. Jacques Cailloux, economista-chefe do RBS para a Europa, sublinha os erros em artigo recente. Os líderes da zona do euro, acusa ele, não conseguiram compreender a dimensão e a natureza da crise, atuaram negligentemente em seus palcos nacionais e concentraram-se em colocar malfeitores no banco dos réus, apesar de que conceder empréstimos irresponsavelmente é uma atitude tão culpada como tomar empréstimos irresponsavelmente. Ele tem razão. Agora, acrescenta Caillou, dois novos elementos entraram em cena: primeiro, a opinião alemã está se posicionando contra seu banco central e, segundo, uma série de políticos, incluindo Mark Rutte, primeiro-ministro holandês, estão sugerindo a possibilidade de saída forçada.

O cerne da união monetária é de que ela é irrevogável. Os supostos benefícios dependiam disso. Qualquer menção à saída (de um país) reintroduz o risco monetário. Agora os investidores enfrentam problemas com dívida soberana, riscos financeiros e riscos de uma saída. Os resultados incluem corridas contra dívidas soberanas e bancárias e até mesmo a desintegração do mercado de capitais em componentes nacionais.

Mas depois que o tabu foi quebrado, a possibilidade de uma saída deve ser examinada. Será possível, ou mesmo desejável? Qualquer discussão tem que começar pela Grécia. Nouriel Roubini, na Stern School da New York University, argumentou no "Financial Times" que a Grécia deve fazer as duas coisas: dar um calote e sair. Não tenho nenhuma dificuldade em aceitar a primeira proposição. Pouca gente deve ainda acreditar na possibilidade de se evitar uma enorme redução da dívida pública do país. É uma questão de quando, e não de se.

Mas significaria isso uma saída forçada da zona do euro? A resposta é: não. Esse é um argumento colocado por Willem Buiter e Rahbari Ebrahim, do Citi, em outro artigo interessante. Uma saída efetivamente aconteceria se nada fosse feito pelo resto da zona do euro, inclusive o Banco Central Europeu, para recapitalizar os bancos e restabelecer a liquidez grega. A criação de uma nova moeda, então, tornar-se-ia inevitável. Mas os parceiros da Grécia poderiam muito bem evitar esse resultado.

Deveria a Grécia buscar ativamente uma saída, em seu próprio interesse? Nesse ponto, os economistas estão em desacordo. Buiter considera inútil uma desvalorização da moeda, argumentando que ela seria corroída pela inflação. Roubini acredita que a desvalorização seja essencial. Estou com Roubini. A Grécia tem: 1) um enorme déficit em conta corrente e 2) uma economia deprimida. Uma grande depreciação real é necessária. É muito mais fácil conseguir isso via desvalorização monetária do que com deflação de custos.

Mas a ideia de saída é difícil de implementar. Legalmente, isso exigiria que o país deixasse a União Europeia. Será que a UE, depois, se daria ao trabalho de reconvidar o malfeitor a retornar? Além disso, o país descobriria ser impossível sair de forma rápida e limpa. Quando a notícia fosse anunciada, haveria uma corrida contra todos os seus passivos. O governo teria de limitar os saques dos bancos, se não - pura e simplesmente - fechá-los. Seria também necessário impor controles sobre a movimentação de capitais, desrespeitando obrigações impostas por tratados. O país pode redenominar a dívida contraída no mercado interno. Mas não pode fazer o mesmo em relação a endividamento contraído no exterior. Muitas empresas, então, iriam à falência. Um relatório do UBS estima o custo econômico total no primeiro ano em 40% a 50% do PIB.

Um contágio também seria inevitável. Presumivelmente, um esforço seria feito para erguer uma blindagem entre o país de saída e outros países vulneráveis. Mas a blindagem seria posta à prova até sua destruição. Grande parte da dívida grega está em poder de credores externos. Além disso, depois que um país saísse, o risco cambial passaria a ser ainda mais real para todos os outros países vulneráveis, inclusive até mesmo a Itália e a Espanha. Tanto governos como empresas em tais países poderiam facilmente vender suas dívidas. Os bancos seriam alvo de corridas. O BCE seria forçado a conceder empréstimos sem limites. As interconexões entre bancos em âmbito mundial pareceriam aterradoras. Segundo o Banco para Compensações Internacionais (BIS), os bancos americanos têm uma exposição de € 478 bilhões à Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha.

Assim, a saída, mesmo de um país pequeno e fraco, é assustadora. O que dizer de uma saída de um país forte, como a Alemanha? Nesse caso, poderiam também surgir questões legais, apesar de que a Alemanha poderia, presumivelmente, modificar o tratado a seu favor. Também nesse caso, haveria uma fuga enorme, agora para a Alemanha. Além disso, uma saída da Alemanha desestabilizaria o restante da zona do euro, provavelmente levando-a a uma desintegração. Enquanto isso, como argumentei na semana passada, o país forte também sofreria um enorme choque adverso, pois seus bancos perderiam o valor de seus ativos externos e suas exportações sofreriam enorme perda de competitividade. A análise do UBS sugere que um país forte, como a Alemanha, poderia sofrer uma perda de 20% a 25% do PIB no primeiro ano. Além disso, um abandono do euro pelo país central da UE (e, sob a legislação atual, ao menos, um abandono da UE como um todo) poderia ameaçar não só o mercado único, mas todo o tecido cooperativo da Europa no pós-guerra. Isso deixaria a Alemanha e a França estrategicamente isoladas e à deriva.

Assim, a zona do euro não pode ficar onde está, não pode desfazer o que fez, e seguir em frente lhe parece traumático. Mas a própria noção de saída é desestabilizadora. Eles o construíram - e agora devem fazê-lo funcionar. Neste momento, o que é necessária é uma expansão econômica agressiva no núcleo, inclusive via afrouxamento imediato da política monetária pelo BCE, juntamente com forte apoio aos países que enfrentam dificuldades em face de mercados ilíquidos de dívida pública e grandes reduções do endividamento, em alguns casos. Em mais longo prazo, o mínimo necessário é um grau muito maior de solidariedade e disciplina fiscais, e um sistema bancário único para a Europa como um todo - com um nível de capitalização muito maior.

Será isso factível? Não sei. Porém sei o que está em jogo. A zona do euro odeia ficar na frigideira. Não deve saltar para o fogo. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.