sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Aumenta a importação de combustíveis


Petróleo "esconde" déficit em derivados

Valor 09/09
O Brasil encerrou os primeiros sete meses deste ano com um pequeno superávit na balança comercial do setor de petróleo, revertendo o déficit de US$ 632 milhões obtido em igual período de 2010. O superávit de US$ 59 milhões foi obtido com ajuda das exportações do óleo bruto, porque o déficit na importação de derivados aumentou 22,6% em relação ao mesmo período do ano passado e chegou a US$ 3,73 bilhões, segundo dados organizados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), com base nas estatísticas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A importação de petróleo também cresceu, mas menos do que as vendas externas de óleo bruto.

Apesar do aumento nas exportações de derivados (US$ 5,74 bilhões de janeiro a julho contra US$ 4,03 bilhões do ano passado), a demanda interna por combustíveis - principalmente gasolina - e a escassez de refinarias em solo nacional pressionaram a busca pelos produtos fora do país. Até julho, o Brasil importou US$ 9,48 bilhões em derivados, 33,7% mais do que no mesmo período de 2010. E a tendência é de alta: enquanto na média dos primeiros três meses do ano o país comprou US$ 955 milhões para abastecer o mercado, de maio a julho a demanda subiu para US$ 1,66 bilhão.

O petróleo também teve aumento expressivo, mas no sentido contrário. O superávit obtido até julho da balança do óleo bruto, de US$ 3,79 bilhões, representou aumento de 56,7% frente ao mesmo período do ano passado. A quantidade de barris, junto com a valorização do preço no mercado internacional, contribuiu para o número favorável: o país exportou 1,01 milhão de barris a mais e importou 6,55 milhões a menos na mesma comparação.

A reversão do déficit, no entanto, esconde uma dependência cada vez maior de refinarias fora do país. O aumento da importação dos derivados do petróleo é reflexo do aquecimento do mercado interno, que apresenta alta na demanda por carros e passagens de avião - entre itens que exigem maior consumo de derivados -, mas também de eletrodomésticos como geladeira e fogão, segundo Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie). "Desde 2008, como resposta à crise, o governo incentiva o consumo de bens duráveis, que necessitam de combustível. Somos autossuficientes em petróleo, mas não conseguimos produzir nafta, diesel, querosene de avião e gasolina, porque faltam refinarias."

Nos primeiros seis meses do ano, de acordo com a Petrobras, o consumo de gasolina no mercado doméstico cresceu 17% frente ao mesmo período de 2010. Outros combustíveis que passam por forte demanda, como querosene de avião e diesel, aumentaram 12,9% e 8,6% respectivamente. A empresa brasileira tem planos de construção de quatro novas refinarias (Comperj, no Rio de Janeiro, Premium I, no Maranhão, Premium II, no Ceará, e Abreu e Lima, em Pernambuco) com a primeira com previsão de inauguração para o fim de 2013, e a última em 2017.

Com isso, a estimativa é que a produção diária de 2 milhões de barris de petróleo refinado aumente para 3,1 milhões. A última refinaria inaugurada no país foi a de Henrique Lage, em São José dos Campos (SP), em 1980. Até o início desse plano de expansão, a Petrobras acredita que a importação de derivados de petróleo vai aumentar e representar até 10% do total consumido no país. Hoje, a fatia estrangeira é de 5%.

Apesar de concordar com o cenário de maior pressão sobre a demanda de derivados, Fábio Silveira, sócio da RC Consultores, prevê uma participação maior das importações no consumo interno. "A curva vai se acelerar pelo menos até o fim de 2013, pois não podemos refinar mais petróleo e a safra de etanol não deve aumentar substancialmente. Para este ano e 2012, esquece. Teremos que seguir importando e não vejo a fatia parando em 10%, pois os próximos dois anos serão de forte demanda por gasolina."

Até abril do próximo ano, outro fator que vai provocar o aumento na importação de derivados é a decisão do governo de reduzir a participação de álcool anidro na gasolina de 25% para 20%.

Analistas veem real mais fraco


Por Fernando Travaglini | De São Paulo Valor 09/09

O real completou ontem o sexto dia consecutivo de queda em relação ao dólar. A moeda americana fechou a quinta-feira cotada a R$ 1,661, alta de 0,18%, praticamente zerando as perdas acumuladas no ano. O movimento dos últimos dias pode não ter sido apenas um reflexo da volatilidade causada pela crise internacional. Começam a surgir análises indicando que o real perdeu a tendência de alta que apresentava nos últimos meses e poderia continuar a se desvalorizar nos próximos meses.

Segundo economistas consultados pelo Valor, no curto prazo o real deve continuar perdendo valor frente ao dólar, podendo chegar a uma cotação entre R$ 1,70 e R$ 1,75 até outubro.

"A dinâmica do mercado mudou", diz Tony Volpon, estrategista da Nomura Securities. Até o mês passado, diz ele, o real respondia mais fortemente às oscilações dos preços das commodities. "Se a China está indo bem, o real vai bem", costumava dizer. Mas dois novos elementos, segundo ele, mudaram recentemente a percepção dos investidores.

O primeiro foi a taxação das variações nas posições no mercado de derivativos, que sinalizou ao mercado que o governo estava mesmo disposto a intervir de maneira relevante no câmbio. O segundo, diz ele, foi a queda "brusca e inesperada da Selic", que reduziu a atratividade das operações de carry trade.

"Os investidores japoneses que temos no Nomura gostam dos fundamentos da economia brasileira, mas o importante para eles é a taxa de remuneração que eles têm quando estão aplicados na moeda", disse. "Esses investidores eventualmente saíram ou sairão dessas posições", completou.

O novo cenário para o câmbio está refletido na posição dos estrangeiros que operam no mercado de dólar futuro da BM&FBovespa, como mostrou a coluna "Por Dentro do Mercado", no Valor de ontem. Investidores internacionais, que estavam fortemente vendidos ao longo de todo o ano, apostando na apreciação do real, passaram para o outro lado da mesa no começo da semana, ficando agora levemente comprados em dólar futuro - posição equivalente a pouco menos de US$ 500 milhões, segundo dado da bolsa do dia 6 deste mês, último disponível.

A exposição global dos aplicadores estrangeiros, que leva em conta os contratos de cupom cambial (juro em dólar no Brasil) ainda é vendida em cerca de US$ 14 bilhões, mas a direção, que é o importante, diz Maurício Molan, economista do Santander, mudou.

Molan credita a recente desvalorização do real aos movimentos do dólar no mercado internacional. A moeda americana ganhou valor na comparação com quase todas as moedas, subindo quase 5% em relação ao euro, desde o dia 29. Nesse mesmo período, o dólar passou de R$ 1,589 para R$ 1,661 no mercado doméstico, uma alta de 4,53%.

Segundo ele, houve nas últimas semanas, uma deterioração do cenário para zona do euro que levou a um fortalecimento do dólar na comparação com a moeda europeia. Além disso, o fato de o presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, Ben Bernanke, não ter sinalizado uma expansão monetária iminente contribui para fortalecer o dólar. "Os Estados Unidos apresentam melhores fundamentos e uma melhor capacidade de recuperação na crise do que a Europa", diz.

Dado esse cenário, no curto prazo, Molan acredita em continuidade do processo de fortalecimento do dólar. "Não parece que o movimento de desvalorização do real tenha se esgotado", diz, citando que a cotação poderia chegar a R$ 1,75 em um ou dois meses.

Segundo o Bank of America Merrill Lynch, a moeda brasileira deve perder força tanto em relação ao dólar quanto se comparada a outras moedas de países emergentes. "Dependendo de quanto as taxas de juros caiam, o real poderá mostrar alguma fraqueza nos próximos meses", diz relatório do banco, comparando a possível convergência dos juros brasileiros a padrões internacionais ao que foi feito pela Turquia após a quebra do Lehman Brothers, em 2008. "Esperamos que o real tenha um desempenho inferior contra uma cesta de moedas de países emergentes", completa o banco americano.

Se a tendência de curto prazo parece mais clara para os analistas, ainda há discordância quanto à tendência de longo prazo. Para o Santander, o real dará uma "barrigada" nos próximos meses, mas esse movimento deve se reverter no próximo ano, com a cotação voltando a cair em 2012.

Segundo Molan, a perspectiva é de crescimento mais forte nas economias emergentes na comparação com os países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, o mundo caminha para um cenário de maior poupança e menor consumo. "O fluxo vai para onde o mundo cresce", diz.

Dados do movimento de câmbio divulgados ontem pelo Banco Central mostram que já entraram no país US$ 65 bilhões no ano, até a semana passada, com saldo de US$ 5,2 bilhões apenas nos dois primeiros dias de setembro.

Para Volpon, no entanto, o real poderia manter a tendência de desvalorização por um prazo mais longo, chegando a R$ 1,85 em 2013, dada as novas variáveis: juros em queda e maior intervenção do governo no câmbio.

Para o professor da PUC Rio, Márcio Garcia, os movimentos de maior controle cambial visto ao redor do mundo, como a recente intervenção do banco central suíço, que estabeleceu um piso para a cotação da moeda local, colocam em xeque a política de câmbio flutuante.

Ele explica que há apenas cinco moedas conversíveis no mundo: dólar, euro, iene, libra e o franco suíço. Quando um deles toma uma decisão dessa magnitude é "aterrorizante". "É um clube muito seleto. Se um desses membros diz que não vai mais flutuar para um lado, não há dúvida que isso não é mais câmbio flutuante".

Garcia pondera que a economia suíça é muito pequena e sofre mais os efeitos da apreciação da moeda do que países como o Brasil, cujo mercado interno é mais robusto. Mas ele alerta que, como mostra a história, a sequência de uma guerra cambial é a guerra comercial.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

TV ON LINE


FMI REVISA PARA BAIXO PREVISÃO DE CRESCIMENTO DA ECONOMIA MUNDIAL TEMPO: 00:01:37
O FMI revisou para baixo a previsão de crescimento da economia mundial em 2011: de 4,2% para 4%. A taxa só deverá voltar aos 4,2% em 2012. O FMI também prevê que o PIB da Zona do Euro deverá subir apenas 1,7% neste ano. Por outro lado, o Fundo acredita que o desemprego cairá em todo mundo, menos na Zona do Euro.

TV: BAND NEWS | PROGRAMA: A NOTÍCIA | APRESENTADOR: VANESSA COCHI

PREÇO DOS ALIMENTOS É O GRANDE RESPONSÁVEL PELA ALTA DA INFLAÇÃO TEMPO: 00:05:27
A inflação preocupa consumidores e analistas. E os preços dos alimentos são os principais responsáveis por essa alta, a maior em seis anos. O economista Rogério Boueri acredita que o aumento foi precipitado, e pode acarretar danos. A inflação acumulada já está em 4,42% ao ano, bem perto do centro da meta do governo para 2011.

Em comentário ao Bom Dia Brasil, Miriam Leitão afirma que nos próximos meses o preço dos alimentos vai continuar subindo.

SONORA:

*ROGÉRIO BOUERI, economista da Universidade Católica.

*MIRIAM LEITÃO, comentarista do Bom Dia Brasil da Rede Globo.

TV: TV GLOBO DF | PROGRAMA: BOM DIA BRASIL | APRESENTADOR: RENATO MACHADO

CAMEX APROVA AUMENTA DE TARIFAS DE PRODUTOS IMPORTADOS TEMPO: 00:02:48

A Câmara de Comércio Exterior aprovou o aumento de tarifas de alguns produtos importados. O objetivo é proteger a indústria brasileira contra a concorrência. Para o consumidor são menos opções de compra.

O aumento afeta vários itens, como pneus de bicicletas, peças de ar-condicionado, barcos a motor, rodas e eixos rodoviários e os porcelanatos. O aumento do imposto é graças ao reajuste das importações.
Em comentário à Globo News, Cristiana Lobô analisa a política econômica do Governo Dilma para combater a inflação.

TV: TV GLOBO DF | PROGRAMA: JORNAL GLOBO | APRESENTADOR: CHRISTIANE PELAJO

Suíça deflagra nova fase da 'guerra cambial'


VALOR 08/09

A decisão do Banco Nacional Suíço (o BC local) de fixar limite mínimo para a cotação do franco suíço em relação ao euro, poderá ter consequências de longo alcance nos mercados globais de divisas. E também intensificar a chamada guerra de moedas, avaliam analistas.

O BC suíço abandonou na prática o regime de câmbio flutuante, ao estabelecer que "não mais tolerará" uma taxa abaixo de 1,20 franco por euro. Declarou-se pronto a comprar divisas em "quantidade ilimitada" para lutar contra a excessiva valorização da moeda helvética.

A expectativa é de que também o Banco do Japão deverá fazer novas intervenções para baixar o valor de sua moeda, embora ninguém espere que BC japonês chegue ao extremo suíço.

Essas ações e eventual QE3 nos EUA podem levar a mais fluxos de capital para regiões em crescimento, e deflagrar uma nova fase na guerra das moedas, com emergentes procurando proteger seus exportadores, limitando os efeitos de valorização real de suas moedas também com intervenções ou mais controle de capital.

Para o estrategista chefe de moedas do UBS, Mansoor Mohi-Uddin, a ação do BC suíço poderá trazer três grandes mudanças nos mercados de câmbio. Primeiro, a Suíça começará a perder seu status de "refúgio". Segundo, as reservas internacionais do BC suíço vão crescer ainda mais. E, terceiro, mesmo o dólar poderá voltar a ser procurado por investidores adversos a risco.

A "opção nuclear" escolhida pelo BC suíço desafia a lógica dos mercados financeiros que procuram refúgio para se proteger de uma zona euro ameaçada de implosão e de um dólar duramente afetado pela dívida e déficit americano. Para o analista Pierre Vaya, o banco suíço julgou que a zona euro e a economia americana não oferecem no mais nenhuma segurança de recuperar a estabilidade no médio prazo.

O BC suíço tentou de tudo para evitar a medida radical. Fez intervenções de mais de € 200 bilhões entre março de 2009 e maio de 2010, mas o franco continuou valorizando, atraindo investidores em busca de refúgio seguro. Nas últimas semanas, as intervenções se multiplicaram. No começo de agosto, o BC jogou 50 bilhões de francos de liquidez nos mercados monetários, além dos 30 bilhões de francos já em circulação. Uma semana mais tarde, outros 80 bilhões de francos foram injetados. Esse montante superou o nível de liquidez emitida no auge da crise financeira, no início de 2009, quando o UBS ameaçava desmoronar e atingir a economia inteira do país.

Pela segunda vez desde os anos 70 a Suíça passou a ter taxa de juro negativa. Quem quer efetuar um depósito na moeda helvética, deve pagar por "esse privilégio", como diz um analista. Enquanto os rendimentos de títulos de dívida de países europeus em crise passam dos 10%, quem compra bônus suíços de dois anos tem juro de -0,01%.

O compromisso assumido pelo BC suíço - e disso dependerá sua credibilidade - é de ter um limite fixo do câmbio entre franco e euro custe o que custar. A seu favor, o BC suíço pode imprimir o montante que quiser de francos sem se preocupar com riscos inflacionários, pelo menos no momento. O país não enfrenta problemas de constrangimento orçamentário, por exemplo. Mas o sucesso da operação dependerá da zona do euro. Se a crise da dívida soberana piorar e a demanda por ativos seguros aumentar, a batalha poderá ser especialmente custosa.

"Parece que as autoridades suíças agora veem as perdas potenciais com intervenções como valendo o custo se a ação protege exportadores e a economia em geral de valorização excessiva da moeda", nota Emile Cardon, do Rabobank.

Para o UBS, a politica monetária expansionista e as novas intervenções no mercado de divisas trazem um risco de inflação importante no longo prazo. O banco revisou para baixo suas previsões conjunturais.

Diante da persistente força do franco - a indústria quer que a cotação chegue a 1,40 franco por euro -, a estimativa de crescimento econômico de 2,7% caiu para 2% este ano, e de 2,2% para 1,3% ano que vem. A inflação sobe para 0,3% este ano e acelera para 1,3% ano que vem.

Para analistas, a ação do BC suíço poderá detonar uma onda de medidas parecidas em outros países. A Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) defendeu que o governo brasileiro também altere seu regime de câmbio flutuante para um administrado pelo Banco Central (BC). A sugestão não cabe apenas ao Brasil, mas a todos os países emergentes que sofrem com o forte ingresso de capitais estrangeiros, que tem ampliado a valorização cambial.

Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avalia que é melhor para o Brasil seguir com o câmbio flutuante, ao invés de adotar decisão similar a da Suiça para conter a valorização de sua moeda. Para ele, o caso suíço reflete uma situação de desespero, e ele tem dúvidas se o país tem lastro para rechaçar um ataque especulativo.

BRASIL INVADIDO


Para Ministério do Trabalho, país já é aberto para mão de obra estrangeira

VALOR 08/09
O Brasil é um país aberto à entrada de trabalhadores estrangeiros e o ritmo superior a 16% de avanço na concessão de vistos de trabalho a imigrantes neste ano evidencia essa abertura, diz Paulo Sérgio de Almeida, presidente do Conselho Nacional de Imigração (CNIG), órgão responsável pela concessão de vistos a trabalhadores estrangeiros.

Na semana passada, uma das ideias discutidas entre especialistas do Ministério da Fazenda para combater a elevação nos preços dos serviços, que pressionam a inflação, seria aumentar a importação de mão de obra. O Valor apurou que a proposta não foi apresentada ao Ministério do Trabalho, ao qual o CNIG é vinculado, ou a outro ministério. Trata-se apenas de uma ideia embrionária.

As normas que regem o CNIG foram construídas para evitar a sobreposição de empregos, isto é, que estrangeiros venham ao Brasil desempenhar funções para as quais trabalhadores brasileiros estão habilitados a ocupar. "A importação de mão de obra é analisada como a importação de bens e serviços", diz Almeida, "ou seja, só deve entrar no país se não tiver equivalente nacional."

No ano passado, 56 mil vistos de trabalho foram concedidos a estrangeiros. Este ano, o ritmo deve ser 20% maior. No primeiro semestre, o CNIG concedeu 26,5 mil autorizações para trabalhar no Brasil - 16,4% mais que em igual período do ano passado.

À frente do CNIG desde 2005, e presidente do conselho desde 2007, Almeida viu a concessão de vistos de trabalho dobrar no período - de 25 mil em 2005 para 56 mil no ano passado. Este ano, a previsão é chegar a 67 mil vistos. As autorizações podem ser concedidas ao mesmo trabalhador mais de uma vez, no caso de uma vaga temporária, como a de tripulante em embarcação estrangeira que vem mais de uma vez ao Brasil no mesmo ano.

Uma empresa estrangeira, que queira trazer ao país técnicos para prestação de serviços a uma companhia brasileira, precisa dar entrada em um ofício no CNIG, o que pode ser feito por via eletrônica ou por meio de documentos em papel.

Em média, o CNIG leva 23 dias para conceder o visto de trabalho, a partir do momento em que os documentos são protocolados no Ministério do Trabalho. Para casos de artistas ou desportistas, a concessão de visto ocorre em três ou quatro dias. Após a autorização, o CNIG envia uma nota eletrônica ao Itamaraty, que então dá sinal verde ao consulado do país de onde vem o trabalhador estrangeiro.

A partir do ano que vem, diz Almeida, os técnicos do conselho esperam trabalhar quase que exclusivamente com a certificação digital, de forma a acabar com o uso do papel. "É muito mais fácil, para a empresa estrangeira, operar apenas pela internet", afirma o presidente do CNIG.

Países que pertencem ao Mercosul (Paraguai, Uruguai e Argentina), Chile e Bolívia mantêm um acordo de "livre intercâmbio" de mão de obra com o Brasil. Ou seja, trabalhadores desses países podem trabalhar legalmente no país sem precisar requisitar vistos no CNIG. Assim, segundo Almeida, "não é possível ampliar mais a importação de trabalhadores desses países, cujos salários são, em sua maior parte, inferiores aos pagos no Brasil".

Capital humano, câmbio e crescimento econômico


Por Luciano Nakabashi - VALOR 08/09

O crescimento das economias asiáticas, principalmente da China, vem alterando o peso econômico e o mapa geopolítico mundial. O bom desempenho da economia chinesa de forma sustentável, além da perspectiva de que esse crescimento continue por um longo período, vem causando uma mudança em sua importância econômica mundial, além de uma maior dependência de vários países em relação à sua demanda.

Esse cenário fica ainda mais claro quando se considera a crise internacional de 2007-2009, na qual a China apresentou um papel relevante para que ela (a crise) não se tornasse ainda mais profunda. O forte crescimento da economia chinesa, mesmo no período mais crítico da crise, foi de extrema relevância para manter o dinamismo das exportações de vários países, contribuindo para que os mesmos atravessassem esse período de forma mais suave.

Essa demanda foi importante, até mesmo para os países da América do Sul, inclusive para o Brasil. Nossa pauta de exportações vem se tornando cada vez mais dependente da demanda chinesa e dos países asiáticos, em geral. No entanto, a demanda chinesa de produtos provenientes do Brasil e do restante da América do Sul é concentrada em bens de baixo valor agregado e baixo conteúdo tecnológico, o que pode ter impacto no dinamismo econômico.

Um bom exemplo é o fato de que, de acordo com dados da Secex, as vendas de cinco principais commodities exportadas pelo Brasil - minério de ferro, petróleo em bruto, soja (grão, farelo e óleo), açúcar (bruto e refinado) e complexo carnes - representaram 43,4% das exportações brasileiras, em 2010. Adicionalmente, dos dez produtos mais relevantes na pauta de exportação brasileira, aqueles que experimentaram maior crescimento nos primeiros seis meses de 2011 em relação ao mesmo período de 2010 foram: 1) minérios (87%); 2) café (54,2%); 3) produtos metalúrgicos (48,5%); 4) complexo soja (33%); e 5) petróleo e combustíveis (32,1%). Ou seja, estamos avançando sobretudo nas exportações de commodities.

Os dados apontam ainda que, desde 2006, os bens manufaturados e industrializados estão perdendo participação na pauta de exportações, com significativa elevação dos básicos. Em abril de 2010, a participação destes ultrapassou a dos manufaturados e essa diferença vem se elevando lentamente. Outra evidência relevante é a perda de participação das exportações de alta e média alta tecnologia quando se comparam os primeiros seis meses de 2011 com o mesmo período de 2010 e 2009.

Esse processo de mudança na pauta de exportação ocorre, por um lado, porque há uma crescente demanda internacional por produtos básicos, o que estimula a produção dos mesmos na economia. Por outro, o crescimento das exportações desses bens ajuda no processo de apreciação da taxa de câmbio, com impactos negativos na exportação e produção de bens que não experimentam significativa elevação da demanda mundial.

Por sua vez, alterações na pauta de exportações tendem a provocar mudanças na estrutura de produção das economias. Se os setores mais prejudicados pela valorização cambial forem justamente àqueles mais dinâmicos e com níveis mais elevados de encadeamentos, os impactos sobre o crescimento de longo prazo serão negativos. No caso brasileiro, os dados indicam que os segmentos mais afetados são os mais intensivos em tecnologia. Desse modo, o desenvolvimento desses segmentos ocorreu com base em políticas protecionistas com o argumento de indústria nascente, mas as mudanças estruturais necessárias para que eles se tornassem competitivos não ocorreram.

Apesar de ser uma variável estratégica e relevante, apenas um câmbio mais depreciado não é suficiente para estimular os diversos segmentos da indústria, principalmente daqueles com maior conteúdo tecnológico. Fatores somente conjunturais não podem criar as condições para um crescimento sustentável. Para elevar a competitividade de maneira sólida e com efeitos permanentes é preciso investir em capital humano e em tecnologia, sendo que vários estudos mostram que existe uma elevada correlação entre estas duas variáveis.

Investimentos na capacitação das pessoas aumentam a produtividade de forma direta, além de estimular o processo de difusão de tecnologia, pois pessoas com maior nível de qualificação possuem maior capacitação para receber, decodificar e entender informações. O processamento e interpretação dessas informações são cruciais na execução de novas atividades e para aprender a executar tarefas mais complexas, como ressaltado pelos economistas Richard Nelson e Nelson Phelps, ambos da Universidade de Colúmbia. O processo de difusão de tecnologia é essencial para elevar a competitividade externa e aumentar o Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Em suma, o país obteve sucesso em implementar atividades industriais complexas no período de industrialização via substituição de importação, mas isso ocorreu sem um acompanhamento satisfatório no grau médio de qualificação de seus trabalhadores e, desse modo, sem grandes ganhos de competitividade na produção de bens com maior conteúdo tecnológico. Nesse caso, como há uma expectativa de que a China continue a elevar a sua importância na economia mundial e com efeitos duradouros na demanda por produtos básicos, visto sua ainda baixa renda per capita e o tamanho de sua população, restará ao país observar o ganho de importância desses bens em sua pauta de exportação e na estrutura produtiva da economia.

Para reverter esse cenário ou mesmo aproveitá-lo melhor, é essencial o investimento em capital humano e tecnologia. Desse modo, os formuladores de política econômica precisam prestar atenção não somente ao nível da taxa de câmbio, mas principalmente ao grau de qualificação dos trabalhadores de forma a propiciar competitividade genuína, ou seja, aquela baseada na dotação de fatores relevantes para os segmentos mais intensivos em tecnologia. Adicionalmente, esses investimentos proporcionam um maior potencial de aproveitamento da mudança na economia mundial ao possibilitar a produção de bens interligados ao setor primário, mas com maior nível de valor agregado.

Assim, mudanças na economia mundial devem ser associadas a políticas cambiais que sejam benéficas para o desempenho econômico no longo prazo, mas sem esquecer que as mesmas devem vir acompanhadas de investimentos significativos para elevar, sobretudo, a qualidade do capital humano médio dos trabalhadores brasileiros e a tecnologia disponível.

Todas essas relações são de suma importância para darem sustentação a políticas econômicas que sejam adotadas visando o crescimento, de forma sustentável, do PIB per capita da economia brasileira.

Luciano Nakabashi é doutor em economia, professor do departamento de Economia da UFPR e pesquisador do CNPQ. luciano.nakabashi@gmail.com

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Esta crise mundial vai durar uma ou duas décadas



Pablo Waisberg - Qua, 24 de Agosto de 2011

“O politicólogo belga Eric Toussaint quer a anulação das dívidas dos países mais atingidos: Espanha, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal"
“Os diretores dos bancos centrais disseram que a crise estava sob controle, mas mentiam; esta crise vai durar uma ou duas décadas", sustentou Eric Toussaint, politicólogo e presidente do Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo. A predição poderia parecer temerária, mas há um ano foi ele quem garantiu para este jornal que se vivia uma "situação explosiva" no Velho Continente e que a profundidade das mudanças econômicas estaria alinhada com a magnitude dessas explosões.
Ainda que os "indignados" tenham surgido na Espanha e na Grécia, as férias de verão atuaram como uma válvula de escape, razão pela qual "a mobilização social na Europa não alcançou o nivel de dezembro de 2001 na Argentina", analisou Toussaint desde Genebra.
- Qual é o nível de gravidade desta crise?
- É altíssimo. É claro que os comentaristas, os governantes e os meios de comunicação dominantes e os diretores dos bancos centrais, que afirmaram que a situação estava sob controle, mentiam de maneira evidente. Estamos um pouco na situação dos anos 30: o craque foi em outubro de 29, mas as bancarrotas bancárias se desataram em 33, e entre 29 e 33 os dirigentes norteamericanos disseram que tudo estava sob controle. Estamos numa crise que vai durar uma ou duas décadas.
- Quais são as causas?
- As medidas econômicas adotadas pelos governos da Europa e dos Estados Unidos nos últimos quatro anos. A crise começou em junho/julho de 2007 e teve um pico em 2008, com o Lehman Brothers, mas o golpe forte chegou à Europa em outubro de 2008. Logo os elos mais fracos da zona euro caíram, começando pela Grécia, em seguida a Irlanda e faz uns meses Portugal. Agora está para chegar à Itália e à Espanha e volta com força aos Estados Unidos.
- É uma crise sistêmica?
- É sistêmica, mas não terminal. Não há crise terminal do capitalismo per se. O capitalismo sempre atravessou crises, porque fazem parte de seu metabolismo, mas seu final será o resultado da ação consciente dos povos e dos governos. Vamos passar por períodos de recessão, depressão, em seguida algum crescimento e uma nova queda.
- Por que insistem com as tradicionais receitas de ajuste que não deram resultado em 2008?
- Porque a resistência a essas políticas é insuficiente.
- Existe a possibilidade de saída desta crise com outro tipo de políticas?
- Poderia ser uma saída tipo Roosevelt, com um maior controle do crédito e medidas de disciplina financeira, para obrigar os bancos a separar-se entre bancos de investimento e de depósito. Além de uma imposição mais forte sobre os setores de maiores rendas, com a consequente melhora das finanças públicas e a redução das desigualdades. Ainda que também poderia haver uma política mais radical, como nacionalizar o setor bancário e renacionalizar setores econômicos que foram privatizados na Europa e nos Estados Unidos nos últimos trinta anos. Isso, junto com a anulação das dívidas da Grécia, de Portugal, da Irlanda, da Itália e da Espanha.
- Vê a possibilidade de alguma dessas duas saídas?
- Tudo depende da mobilização social, que na Europa não alcançou o nivel de dezembro de 2001 da Argentina. Sem falar dos Estados Unidos, onde não há grandes mobilizações sociais, senão que mais bem um ativismo da extrema direita com o Tea Party. Ainda que me pareça difícil pensar que nos Estados Unidos a população aceite que se aprofunde o neoliberalismo; por isso há que se ver como foi a crise de 30, na qual as mobilizações chegaram por volta de 35 e 36.

Eric Toussaint foi entrevistado por Pablo Waisberg do Diario Buenos Aires Económico, em 16/08/2011

Um viva para o Copom


Por Antonio Delfim Netto Valor 06/09

A indignada e quase raivosa reação de alguns analistas, que se supõem portadores da "verdadeira" ciência monetária, à recente decisão do Copom, de baixar 50 pontos na Selic, revela que, para eles, a sacrossanta "independência" do Banco Central só é reconhecida quando esse decide de acordo com os conselhos que eles, paciente, gratuita e patrioticamente, lhe dão todos os dias, através da mídia escrita, radiofônica e televisiva.

Qualquer desvio só pode ser atribuído e explicado pela "pecaminosa" intervenção do governo que teria jogado a toalha: abandonou a "meta de inflação" e colocou em seu lugar a "meta de crescimento do PIB", não importa a que "custo inflacionário"...

Trata-se, obviamente, de uma acusação irresponsável, injusta e arrogante. Irresponsável, porque colhida furtivamente de "fontes preservadas", que podem não passar de pura e conveniente imaginação, desmentida, aliás, pelos votos divergentes. Injusta, porque pela primeira vez, em quase duas décadas, o Banco Central mostrou que é, efetivamente, um órgão de Estado com menor influência do setor financeiro privado. Arrogante, porque supõe que nenhuma outra visão e interpretação alternativa da realidade diferente da sua possa existir.

O mundo está literalmente vindo abaixo e sugere-se que o Copom deveria repetir o dramático erro de 2008: "Esperar para ver"! Vacilamos quando podíamos ter reduzido a taxa de juro real. Tínhamos um pouco menos de musculatura do que agora, mas poderíamos ter assegurado uma redução muito menor e uma recuperação mais rápida do financiamento do "circuito econômico". Na minha opinião (que é apenas uma opinião impressionista), poderíamos ter crescido qualquer coisa como 2% ou 3% em 2009, em lugar de registrar queda do PIB de 0,6% e, ao mesmo tempo, ter reduzido dramaticamente a taxa de juros real.

As medidas fiscais e monetárias tomadas recentemente pelo governo (nas quais, aliás, tais analistas não acreditavam) estão reduzindo a taxa de crescimento a uma velocidade maior do que se esperava. Com o crescimento do PIB dessazonalizado de 0,8%, do segundo trimestre sobre o primeiro, e a enorme redução da expansão da indústria, é muito pouco provável que o PIB do ano cresça fora do intervalo de 3% (se o crescimento nos terceiro e quarto trimestres for zero) a 3,6% (na hipótese pouco provável de que cresçam também 0,8%).

Mas afinal o que se espera, ainda, das taxas de juros? Que controlem a inflação ou derrubem mais o crescimento? Todos os bancos centrais (mesmo os que não têm isso nos seus estatutos) olham para o nível de atividade e sabem que a política monetária tem efeitos com defasagens variáveis. Devem olhar não apenas a taxa de inflação futura, mas também para o ritmo de crescimento futuro. E devem ser realistas quanto às condições físicas objetivas que levam ao altíssimo custo social de tentar corrigir desajustes estruturais (como é o caso do ajuste qualitativo entre a oferta e a demanda no mercado de trabalho) reduzindo o crescimento do PIB à custa do aumento da taxa de juros real, com o que se destrói, colateralmente, o equilíbrio fiscal.

Os números externos pioram a cada dia. Na última semana de agosto: 1) no teatro de Jackson Hole, o Fed, o BCE e o Banco da Inglaterra mostraram as suas perplexidades. O mundo tomou conhecimento da receita acaciana de Bernanke: "Farei o que tenho que fazer", sem especificar do que se trata. Remeteu a incerteza para 21 e 22 de setembro, na nova reunião do Fomc; 2) as perspectivas de crescimento mundial caíram para 2,5% (com viés de baixa, contra 3,9% em 2010); 3) o crescimento dos EUA foi reduzido a 1,4% (contra 3%); 4) a Eurolândia, com a redução do crescimento da Alemanha, talvez para 2%; e 5) a China estima crescer 8,7% (contra 10,3% em 2010).

É hora do Brasil pôr as suas barbas de molho: 1) reforçar, como está fazendo, o equilíbrio fiscal de longo prazo e aprovar as medidas que estão no Congresso com o mesmo objetivo; 2) manter sob controle as despesas de custeio e melhorar a qualidade do financiamento da dívida interna; e 3) adotar medidas microeconômicas para corrigir os desequilíbrios do mercado de trabalho, o que, obviamente, não pode ser feito com manobra da taxa de juros.

Isso possibilitará ao Banco Central, diante do complicado quadro interno e externo, prosseguir, com cuidado, mas persistência, a necessária redução da nossa taxa de juros real, abrindo espaço para o investimento público.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

O grande assalto dos bancos


Por Nassim Nicholas Taleb e Mark Spitznagel Valor 06/09

Para a economia americana - e para muitas outras economias desenvolvidas - o elefante na sala é a quantidade de dinheiro paga aos banqueiros nos últimos cinco anos. Nos EUA, a soma chega a impressionantes US$ 2,2 trilhões aos bancos homologados junto à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) dos EUA. Extrapolando para a próxima década, o número se aproximaria de US$ 5 trilhões, montante vastamente superior ao que tanto o governo do presidente Barack Obama como seus adversários republicanos parecem dispostos a cortar, adicionalmente, dos déficits orçamentários.

Esses US$ 5 trilhões não são dinheiro investido na construção de estradas, escolas e outros projetos de longo prazo, mas diretamente transferido da economia americana para as contas pessoais de executivos e funcionários de bancos. A sensação é de grande injustiça: tendo os banqueiros contribuído para causar os atuais problemas financeiros e econômicos, constituem a única classe que não está sofrendo em consequência deles - e, em muitos casos, na realidade, estão se beneficiando.

Os mais importantes megabancos são, em muitos aspectos, estranhos. Não há mais nenhum segredo em torno do fato de que eles operaram grandes e sofisticados esquemas de remuneração, mascarando as probabilidades de eventos do tipo "cisne negro" - eventos de baixo risco e impacto elevado - beneficiando-se do apoio gratuito implícito de garantias governamentais. Excessiva alavancagem, em vez de competências, pode ser vista como a fonte de seus lucros - que então fluem em montantes desproporcionalmente maiores para seus funcionários -, e de seus, por vezes, enormes prejuízos - que recaem sobre acionistas e contribuintes.

Em outras palavras, os bancos assumem riscos, embolsam os lucros, e depois transferem os prejuízos para acionistas, contribuintes e até mesmo aposentados. Para socorrer o sistema bancário, o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), por exemplo, fixou as taxas de juros em níveis artificialmente baixos; conforme divulgado recentemente, o Fed também concedeu empréstimos secretos de US$ 1,2 trilhão a bancos. O principal efeito, até agora, foi ajudar os banqueiros a gerar gratificações (em vez de atrair tomadores de empréstimos) ao ocultar suas exposições.

Os contribuintes acabam pagando por essas exposições, assim como os aposentados e outros que dependem do rendimento de suas poupanças. Além disso, as políticas de juros baixos transferem os riscos de inflação para todos os poupadores - e para as gerações futuras. Sim, talvez o maior insulto aos contribuintes esteja no fato de que a remuneração aos banqueiros havia, no ano passado, retornado a seu nível pré-crise.

Assim, os fatos são claros. Mas, como contribuintes individuais, estamos desamparados, porque não controlamos as consequências - devido aos esforços concentrados dos lobistas, ou, pior, das autoridades econômicas. O fato de subsidiarmos os gestores e executivos dos bancos é inteiramente involuntário.

Mas a charada representa um elefante ainda maior. Por que é que um gerente de investimento qualquer compra ações de bancos que pagam porções muito grandes de seus lucros a seus funcionários?

A promessa de replicar retornos passados não pode ser a razão, dada a inadequação desses retornos. Na verdade, a exclusão de ações segundo seus lucros e dividendos resultaria num estreitamento bastante superior a 50% no rebaixamento do valor dos investimentos no setor financeiro (em relação a seu pico histórico) nos últimos 20 anos, sem perda dos retornos.

Por que é que os gestores de carteiras e de fundos de pensões esperam, de seus investidores, o benefício da impunidade? Não é óbvio, para os investidores, que eles estão voluntariamente transferindo recursos de seus clientes para os bolsos dos banqueiros? Não estão os gestores de fundos desrespeitando tanto suas responsabilidades fiduciárias como regras morais? Estarão eles perdendo a oportunidade que temos para disciplinar os bancos e obrigá-los a competir em tomada responsável de riscos?

É o caso de nos perguntarmos: Se os gerentes de investimento e seus clientes não recebem retornos elevados sobre as ações de bancos, como aconteceria se estivessem lucrando com a externalização, pelos banqueiros, dos riscos sobre os contribuintes, por que, então mantêm-se expostos a tais ações? A resposta é o chamado "beta" (NT-relação entre o retorno de uma ação e o do mercado como um todo): os bancos representam grande parte do S&P 500, e os gestores precisam estar investidos neles.

Nós não acreditamos que a regulamentação seja uma panaceia para esse estado de coisas. Os bancos de maior porte e mais sofisticados tornaram-se especialistas em posicionar-se um passo adiante das entidades fiscalizadoras - criando, incessantemente, complexos produtos financeiros e derivativos que driblam as regras. Nessas circunstâncias, uma regulamentação mais complicada simplesmente significa mais horas remuneradas para os advogados, mais renda para funcionários de agências reguladoras que trocam de lado e mais lucros para os que operam com negócios envolvendo derivativos.

Os gestores de investimentos têm a responsabilidade moral e profissional de desempenhar seu papel de maneira a impor alguma disciplina ao sistema bancário. Seu primeiro passo deveria ser separar os bancos segundo seus critérios de remuneração.

No passado, investidores apoiaram-se em razões éticas - boicotando, por exemplo, empresas fabricantes de cigarros ou companhias cúmplices com o apartheid na África do Sul - e foram bem sucedidos em pressionar as ações dessas firmas. Investir em bancos constitui uma dupla falta: ética e profissional. Investidores - e também o restante da sociedade, seriam, todos, muito mais beneficiados se esses fundos afluíssem para empresas mais produtivas, redirecionando para instituições sem fins lucrativos bem administradas o montante equivalente ao que seria transferido para as gratificações aos banqueiros.

Nassim Nicholas Taleb é professor de Engenharia de Riscos da New York University e autor de "The Black Swan" (O cisne negro)

Mark Spitznagel é um gestor de fundos de hedge. Os autores detêm posições que produzem lucro quando ações de bancos perdem valor.

Portabilidade de Crédito


Quando o Ministério da Fazenda começou a fazer barulho sobre a questão da concorrência entre instituições financeiras, sobre os elevados spreads, etc. surgiu a portabilidade de crédito. Amadurecida ou não, a ideia se transformou em norma em 2006 (Res. 3.041) ; uma tentativa de reduzir os elevados spreads.

Após sua regulamentação, percebeu-se que o exercício da portabilidade implicaria no pagamento de tarifa, azedando o tão esperado acirramento da concorrência e a consequente redução dos spreads. Acredito que o número de operações de portabilidade de crédito, desde a edição da norma, tenha sido desprezível.

Com a atuação dos órgãos de defesa do consumidor, com os esforços feitos no Congresso pelo pessoal do Sinal, o pressão aumentou novamente, resultando em novo arcabouço normativo sobre portabilidade em 2007 (Res. 3.516).

Um dos grandes avanços introduzidos foi a vedação de cobrar tarifa pela amortização ou liquidação antecipadas. No entanto, acredito que os banqueiros entregaram os anéis para preservar os dedos, na medida em que essa nova sistemática, mais uma vez, inibirá a portabilidade de crédito. Vejamos:

Se, por exemplo, o ambiente econômico é de redução da Selic, os indivíduos endividados, dada a redução do spread, teriam incentivos a contrair novos empréstimos a taxas menores do que fizeram outrora. Se a IF credora daquela operação não renovar o empréstimo do cliente de acordo com as condições vigentes mais favoráveis, ele certamente terá incentivos a exercer a portabilidade de seu débito para outra instituição que ofereça melhores condições, amplificando a concorrência. No entanto, a atual sistemática tem novamente o mérito de impedir que a portabilidade seja exercida, tendo em vista que o saldo devedor trazido a valor presente é aumentado pela redução da Selic, desencorajando a contratação de novo empréstimo em melhores condições.

Quanto ao caso contrário, - ambiente econômico de elevação da Selic -, os indivíduos não terão incentivos para efetuar a portabilidade de suas operações para outra IF, pois não encontrarão condições mais favoráveis daquelas já contratadas.

Ou seja, nada muda.

Claudio de Oliveira Lacerda

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

TV ON LINE


ECONOMISTA DA FGV FALA SOBRE DESACELERAÇÃO DOS PREÇOS DOS IMÓVEIS TEMPO: 00:04:00
Os preços dos imóveis no país dão sinais de desaceleração. O índice FipeZap, que acompanha o movimento do setor, traz os números de agosto, que apontam para isso. Mas, no acumulado do ano, o aumento nos preços foi de quase 30%.

A economista Virene Matesco, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em entrevista ao Conta Corrente, destacou que a pressão do setor petrolífero faz com que o preço do imóvel fique mais caro no Rio de Janeiro. Além disso, segundo ela, os valores dos imóveis já chegaram no pico.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: LAIR RENNÓ


VENDAS DE AGOSTO CRESCEM 8,37% E INADIMPLÊNCIA ATINGE ALTA DE 6,37%
As vendas no mês de agosto tiveram alta de 8,37% em comparação com o mesmo período de 2010. Já a inadimplência cresceu pelo sétimo mês seguido em agosto. A alta foi de 6,37% na comparação com o mesmo período do ano passado.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: LAIR RENNÓ

ENTREVISTA: ECONOMISTA VIRENE MATESCO ANALISA QUEDA DA TAXA SELIC TEMPO: 00:04:28
Em entrevista ao Conta Corrente, da Globo News, a economista da Fundação Getúlio Vargas Virene Matesco fala sobre a redução da taxa de juros e o pacote de medidas do governo norte-americano contra a crise financeira.

SONORA:
*VIRENE MATESCO, economista da FGV
TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: LAIR RENNÓ


Abaixo a histeria (e a independência)

FSP 02/09


Clóvis Rossi

É espantosa a histeria desatada pela decisão do Banco Central de reduzir a taxa de juros.

Histeria não pela redução em si, que, a esse respeito, as opiniões se dividem. Lembra até velha piada sobre econometria, mas que vale para a economia em geral. É assim: dois econometristas saem para caçar patos. O primeiro atira e erra por meio metro à direita. O segundo atira, erra por meio metro à esquerda e grita: acertamos.

Pois é, palpite de economista é assim, quase sempre e com exceções que apenas confirmam a regra.

No caso dos juros, a histeria se deu porque grande número de economistas e colunistas de economia decretaram que a decisão do BC equivale a sepultar a independência do Banco Central, o que seria, na opinião dessa turma, uma tragédia de proporções bíblicas. Bobagem.

Cito o editorial da Folha a respeito: "Tomá-la [a redução dos juros] como sintoma de revés na autonomia do BC diante das pressões políticas do Planalto seria precipitado".

Aliás, defender a independência como regra de ouro me parece total equívoco. Quem tem legitimidade para decidir a política econômica é quem foi eleito ou eleita para defini-la, no caso, a presidente Dilma Rousseff. O BC não é uma instância eleita. Recebe apenas a delegação do Executivo, o que implica, por elementar bom senso, que deva estar sintonizado com a política de quem lhe delega poderes.

A "rationale" por trás da tese da independência é a de que políticos são incapazes de fazer uma política econômica séria, porque gostam de gastar demais, e, portanto, precisam de uma babá severa, que seria o BC. É um raciocínio torpe porque despreza a hipótese de que o BC também faça barbeiragens. A crise de 2008/09 demonstrou à sociedade que o BC norte-americano foi em boa medida irresponsável o suficiente para facilitar a eclosão da crise.

(Diga-se que, no Brasil, aconteceu o contrário).

Sempre que critico a teologia em torno da independência do BC vem alguém --em geral economista-- para lembrar o exemplo dos Estados Unidos e, por extensão, da arqui-louvada independência do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.

Minha resposta: como o Fed errou na crise, prefiro erros praticados pelos políticos, que são eleitos para fixar políticas e podem ser cobrados, nas urnas, pelos erros que eventualmente cometerem, ao passo que o presidente do Fed não é facilmente demissível.

Segunda resposta: é lenda a independência total que se atribui ao Fed. Quem duvida que leia "Maestro", a biografia de Alan Greenspan, ex-presidente do Fed. Nela, verifica-se que o então presidente George H. Bush (pai de George W.) chamava à Casa Branca o então presidente do BC, Paul Volcker, hoje aliás assessor de Obama, para ponderar que a economia estava desacelerando, o que implicava a necessidade de reduzir juros.

Bush pai não dizia diretamente que era preciso baixar os juros, em respeito à autonomia do BC, mas, curiosamente, o juro baixava pouco depois. E ninguém via na coincidência o fim da independência do BC. Apenas uma manifestação de bom senso.

Aqui no Brasil, um monte de gente mostra todos os dentes porque Dilma Rousseff teve comportamento idêntico ao de George H., com resultado também idêntico. Pura histeria tropical.

Que o BC tenha autonomia relativa é até bom porque introduz uma instância menos sujeita às tensões da política no xadrez das decisões sobre economia. Mas daí a pretender que possa tomar decisões que colidam com a linha geral da política econômica de um governo legitimamente eleito para isso é um delírio.




Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo"

O Reino Unido e sua longa depressão


Por Martin Wolf
Valor 05/09

A atual depressão do Reino Unido será a mais longa desde, pelo menos, o fim da Primeira Guerra Mundial. A não ser que haja um aumento drástico no crescimento, também é bem provável que resulte em uma perda acumulada de produção ainda maior que a da "grande depressão". Só isso já seria perturbador. O que é ainda mais perturbador é a opinião quase universal de que quase nada pode ser feito para mudar isso.

Uma recessão é um período de declínio econômico. Uma depressão pode ser definida como o período durante o qual a produção fica abaixo do patamar em que começou. Recentemente, três analistas avaliaram as depressões do Reino Unido, valendo-se de um conjunto de estimativas mensais do PIB *. Isso permitiu aos autores, entre eles Martin Weale, agora no comitê de política monetária do Banco da Inglaterra, analisar o tamanho e a duração das depressões, começando pela de 1920-1924 e concluindo com a atual.

Até agora, as depressões mais duradouras dos últimos cem anos haviam sido a de junho de 1979, a junho de 1983 (sob o governo de Margaret Thatcher) e a de janeiro de 1930 a dezembro de 1933 (a grande depressão). Para que a atual depressão seja mais curta que a antecessora mais longa, precisaria acabar até abril de 2012. Faltando oito meses, no entanto, a produção está cerca de 4% abaixo de seu ponto de partida. Mesmo se o crescimento pulasse agora para um índice anual de 4%, a depressão levaria mais 12 meses para acabar. Se o crescimento fosse de 1,5% ao ano, a depressão duraria 72 meses, o que a tornaria cerca de 50% mais longa que a depressão anterior mais duradoura em cem anos.

É possível avaliar a gravidade de uma depressão pela profundidade do declínio ou pelas perdas acumuladas em relação ao ponto de início. A depressão de 1920-1924 foi a mais profunda, seguida pela grande depressão, cuja maior redução no PIB foi de 7,1%. A atual depressão, contudo, está só um pouco atrás, com 6,5%. A perda acumulada do PIB desta vez deverá ser ainda pior do que a dos anos 30. Na época, foi de 17,7% do PIB, em comparação aos 14,5% verificados na atual depressão, até agora. Esta depressão, contudo, não acabou. Se o crescimento for de 2% por ano, a perda acumulada seria superior a 18% do PIB.

Esta é, então, uma depressão imensa, pelos padrões britânicos. A resposta, contudo, são gestos de indiferença. Parece que essa calamidade é vista como inevitável, ou merecida, ou ambas. Certamente, os amortecedores do Estado de bem-estar social moderno tornaram o choque menos traumático do que as depressões anteriores. O melhor desempenho do emprego em comparação ao início dos anos 80 também tornou esta depressão menos dolorosa. Ainda assim, sua escala e duração são alarmantes.

Pior, o que quase ninguém previu de início agora é visto como quase irremediável. Muitos analistas avaliam que o produto potencial caiu quase tanto quanto a própria produção, que agora está bem mais de 10% abaixo da tendência anterior a 2008. Em importante estudo, Bill Martin, do Centre for Business Research, de Cambridge, ataca energicamente esse pessimismo **. Sua conclusão é que o problema foi o colapso na demanda, não na oferta potencial. Pior, destaca Martin, quanto mais tempo a produção continuar reprimida, mais provavelmente a oferta potencial será prejudicada.

Martin ressalta o consenso existente de que uma boa parte, de quase 70%, da perda de produção em relação à tendência, deve-se ao colapso do produto potencial. Ele vê outra explicação, mais plausível: "Uma economia deficiente em demanda, na qual os salários reais caem o suficiente para conter o aumento no desemprego e deixam a lucratividade total em um nível aceitável, pode manifestar baixos níveis de produtividade que também são característicos de uma economia fraca estruturalmente. Incapaz de vender mais, pela falta de demanda, a indústria pode se dar por satisfeita em viver com baixa produtividade, que, sendo persistente, é interpretada equivocadamente pelas autoridades monetárias como uma redução de marcha no potencial produtivo da economia."

O perigo decorre do que Martin chama de "batalha dos poupadores". O setor privado busca melhorar seus balanços patrimoniais, pagando suas dívidas. Assustados com os déficits, o governo tenta fazer o mesmo. Isso pode fazer sentido, sem que exista uma queda prolongada na atividade, se, e apenas se, a economia passar a ter um imenso superávit externo. Nada, no entanto, parece ser menos provável, tendo em vista a fragilidade dos parceiros comerciais do Reino Unido.

O Reino Unido está em meio ao que caminha para ser a mais duradora - e mais custosa - depressão dos últimos cem anos. A característica desta depressão, em relação com as anteriores, é a fragilidade assustadora da recuperação. É muito mais plausível imaginar que isso se deve à fraqueza na demanda do que ao colapso na oferta potencial. A noção predominante, no entanto, é que há pouco a ser feito. Cuidado com as profecias de catástrofe. Elas podem facilmente tornar-se autorrealizáveis.

* Monthly GDP estimates for inter-war Britain" (algo como, estimativas mensais do PIB na Grã-Bretanha entreguerras, em inglês, www.niesr.ac.uk.

** Is the British economy supply constrained? (será que a oferta da economia britânica está limitada?, em inglês) www.cbr.cam.ac.uk.

Martin Wolf é editorialista e principal comentarista econômico do FT

Loyola ataca



Regime de metas para inflação agoniza
Valor 05/09

Com a surpreendente decisão de reduzir os juros em meio ponto percentual, o Banco Central subverteu alguns princípios basilares do regime de metas para inflação. Esse regime, como se sabe, implica que o BC, embora possuindo autonomia operacional em relação aos agentes políticos, tenha “discricionariedade limitada” na política monetária. A limitação na discricionariedade do BC vem não apenas da própria meta numérica — que deve ser observada pelo BC, embora não seja por ele fixada — como também da transparência de que deve se revestir a execução da política monetária. Por isso a importância da “ritualística” das reuniões pré-agendadas do Copom, da divulgação periódica das atas dessas reuniões e dos relatórios de inflação, do comparecimento regular dos dirigentes do BC ao Congresso, etc. No regime de metas, domina o pressuposto básico de que as expectativas são importantes e que cabe ao BC coordená-las, utilizando meios de comunicação transparentes.

Ora, na decisão da semana passada, quase nada disso foi observado. O BC surpreendeu o mercado, de forma mais ou menos gratuita. Não se configurava uma situação excepcional em que o BC pode (e em algumas vezes deve) surpreender ou se contrapor às expectativas de mercado. Ao contrário, as expectativas sobre a decisão do BC estavam “ancoradas” na manutenção dos juros, o que se alinhava com toda a comunicação anterior, formal ou informal, do BC com os agentes econômicos. Nada indicava que o Copom tivesse como cenário básico um choque desinflacionário vindo do exterior que demandasse o imediato afrouxamento monetário no Brasil.

Longe disso. Não apenas os números, efetivos e projetados, da inflação doméstica continuavam muito fora da meta, como também a tônica das manifestações do BC levava a crer que sua visão do balanço de riscos colocava ainda peso maior no risco inflacionário, a exigir, portanto, uma política monetária relativamente mais apertada. Vale ressaltar, a propósito, que a recente decisão do Copom foi a primeira vez, no regime de metas, que o Comitê reverteu o sinal do movimento dos juros de uma reunião para outra, sem um período transicional mínimo.

De forma inusitada, aliás, quem fez um esforço de coordenar as expectativas foi a própria presidente da República que, na véspera da reunião do Copom, admitiu a possibilidade de redução das taxas de juros, a partir do aumento da meta fiscal para 2011. Lastimavelmente, a manifestação da presidente, antecipando o corte das taxas, acabou por lançar dúvidas sobre a autonomia operacional do BC, pressuposto fundamental para o funcionamento do regime de metas para a inflação.

Portanto, a derrubada dos juros acabou por ter consequências muito além de seus efeitos sobre a inflação e as expectativas. A desobediência à ritualística mínima do regime de metas inflacionárias pode ser entendida como sinal de que tal regime não mais será observado na prática, já que o BC teria adquirido “discricionariedade ilimitada” ou, na hipótese pior, teria deixado de ser operacionalmente autônomo na execução da política monetária. Em ambas as situações, as consequências da decisão do Copom sobre a funcionalidade do regime de metas no futuro são graves, mesmo se “ex-post” a avaliação prospectiva do cenário macroeconômico pelo BC vier a se mostrar correta.

Adicionalmente, não sendo bastante o atropelamento das expectativas pelo BC, o cenário com o qual a instituição justifica o corte da taxa de juros se mostra muito pouco provável, embora, evidentemente, não se possa atribuir a ele uma probabilidade igual a zero.

O longo comunicado divulgado pelo BC após a reunião do Copom menciona como razão principal para sua decisão a “substancial deterioração” do cenário internacional que manifesta viés desinflacionário “no horizonte relevante”. Essa piora do ambiente externo, na visão do BC, intensificará o processo em curso de moderação de atividade doméstica, o que melhora o balanço de riscos para inflação, ajudado ainda pela revisão do cenário da política fiscal. Assim, o corte de juros seria uma forma de mitigar tempestivamente os efeitos de um ambiente global mais restritivo.

Ocorre que esse não é o cenário mais provável. Embora se possa esperar crescimento muito modesto das economias desenvolvidas em 2012, tal cenário não deve provocar efeitos desinflacionários relevantes sobre o Brasil, onde a demanda doméstica sustenta a atividade econômica. Além disso, a moderação na atividade hoje observada ainda é muito leve para trazer a inflação de volta a um patamar compatível com a meta de 4,5% em 2012. Por sua vez, com relação à “revisão do cenário fiscal”, a proposta de orçamento para 2012, divulgada no mesmo dia da decisão do Copom, deveria levar o BC a ser mais conservador na política monetária e não o contrário, pois prevê queda relevante do superávit primário em relação ao ano anterior (2,5% contra 2,9%).

Pelas razões acima apontadas, o regime de metas para inflação encontra-se num momento crítico no Brasil. È uma triste constatação, principalmente porque, da chamada “tríade” da estabilidade macroeconômica resta pouco: o câmbio é cada vez menos flutuante e a política fiscal, cada vez menos superavitária.

Gustavo Loyola, doutor em economia pela EPGE/FGV, foi presidente do Banco Central e é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

TV ON LINE





ESPAÇO ABERTO: ECONOMISTAS FALAM SOBRE O ENDIVIDAMENTO DOS BRASILEIROS – PARTE 1 TEMPO: 00:13:45
Em entrevista ao Espaço Aberto, a economista do Banco Central, Alessandra Dodl e Roberto Zentgraf, coordenador de finanças pessoais do Ibmec falam sobre como lidar com as dívidas. O endividamento atinge 62,5% das famílias e 8% admitem não poder pagar as contas.

ESPAÇO ABERTO: ECONOMISTAS FALAM SOBRE O ENDIVIDAMENTO DOS BRASILEIROS – PARTE 2 TEMPO: 00:06:38
Em entrevista ao Espaço Aberto, a economista do Banco Central, Alessandra Dodl e Roberto Zentgraf, coordenador de finanças pessoais do Ibmec falam sobre como lidar com as dívidas. O endividamento atinge 62,5% das famílias e 8% admitem não poder pagar as contas.

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: ESPAÇO ABERTO APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO

DILMA ROUSSEFF AFIRMA QUE BRASIL PRECISA INVESTIMENTO NA SAUDE NÃO CPMF TEMPO: 00:02:46
A presidente Dilma Rousseff disse que não é a favor da CPMF, mas o Brasil precisa dela. Segundo a petista, resolver problemas da saúde sem dinheiro é demagogia.

*DILMA ROUSSEFF, presidente do Brasil.

TV: TV GLOBO DF PROGRAMA: BOM DIA BRASIL APRESENTADOR: RENATA VASCONCELLOS


BC COLOCOU SUAS FICHAS EM UM CENÁRIO DE CATÁSTROFES, AFIRMA ALEXANDRE SCHWARTSMAN TEMPO: 00:05:39
Em entrevista ao Jornal das Dez, o economista Alexandre Schwartsman falou sobre a análise da atual posição do Banco Central em relação a taxa de juros. De acordo com o economista, o cenário, que garantiria uma queda de juros, agora só seria consistente com a visão de que a economia internacional passaria por um cenário nos próximos meses semelhante ao do final de 2008 e começo de 2009.
SONORA

*ALEXANDRE SCHWARTSMAN, economista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: JORNAL DAS DEZ APRESENTADOR: ANDRÉ TRIGUEIRO


PAULO LEVY ANALISA AÇÕES DO GOVERNO PARA FREAR A ECONOMIA TEMPO: 00:07:00
A quantidade de carros emplacados voltou a subir em agosto. Segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (FENABRAVE), foram vendidos mais de 527 mil veículos no mês, 9% a mais que julho. No acumulado do ano, o número de carros emplacados já supera a marca de 3,7 milhões, alta de 8,96% em relação ao mesmo período do ano passado.

Em entrevista ao Conta Corrente, o economista do IPEA, Paulo Levy, analisa os dados e fala sobre as medidas do governo para frear a economia. Segundo ele, as ações tomadas pelo Banco Central, a partir do final do ano passado, ainda não surtiram o efeito esperado.

*PAULO LEVY, economista do IPEA

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE


Ação do BC inspira admiração, medo e inveja


Financial Times

Autoridades de bancos centrais por todo o mundo devem estar voltando os olhos ao Brasil com um misto de emoções. O corte da taxa referencial de juros do Banco Central do Brasil de 12,5% para 12% inspira admiração, medo e inveja.

A admiração é pela contínua ousadia. O Banco Central vem respondendo com coragem à deterioração repentina do cenário econômico mundial. Se o período de desaquecimento deste verão setentrional acabar logo ou se a inflação brasileira começar a subir de novo, parecerá ter feito tolice.

A aposta na desaceleração, no entanto, parece boa, se é que o anúncio das pesquisas de sentimento no setor industrial ontem servem de algum indicador: mostram níveis recessivos no Reino Unido e estão no menor patamar em dois anos na região do euro.

Os brasileiros também são admiráveis em sua batalha contra a tradição de inflação elevada, agora se desvanecendo. Mesmo depois do corte, a taxa de juros de um dia está cerca de 5 pontos percentuais acima do índice de inflação. As taxas reais overnight na Índia, China, Rússia e Japão estão em praticamente zero e são negativas nos Estados Unidos, região do euro e Reino Unido.

O corte brasileiro, contudo, estabelece dois precedentes preocupantes. Primeiro, fragilidade política. A crise deixou as autoridades de bancos centrais muito mais próximas à política, mas na maioria dos países elas estão em situação de vantagem em relação a políticos e reguladores. No Brasil, parece que o Banco Central cedeu à pressão do governo para aliviar a mão.

Segundo, a impotência da política monetária. O Banco Central brasileiro não mostrou ser melhor do que seus pares em manter a inflação baixa e um crescimento equilibrado e elevado. O corte dos juros é, em parte, uma admissão de que os juros elevados pressionaram a moeda e prejudicaram os exportadores.

Os brasileiros, pelo menos, têm espaço para manobra. Em quase todos os demais países, estímulos monetários adicionais provavelmente não fariam nada além de alimentar perigosas bolhas financeiras.

As autoridades de outros bancos centrais estão perdoadas por invejar a liberdade da autoridade brasileira.

Polêmica e discórdia no rastro da decisão do Copom


Valor 02/09 - Editorial

A redução de meio ponto na taxa básica de juros, imprimida de uma só vez, nesta semana, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) foi certamente uma das decisões mais polêmicas em seus 15 anos de história. De um lado, ficaram analistas que não acreditam que a inflação perdeu o fôlego e consideraram precipitado o corte da Selic para 12%; e, do outro, industriais e sindicalistas que apoiaram a decisão e até a consideraram tímida.

Em um ponto, porém, todos têm que concordar: tem fundamento a preocupação com o incerto cenário internacional, um dos principais argumentos usados pelo Copom para justificar a decisão. Segundo a extraordinariamente prolixa nota divulgada após a reunião, na noite da quarta-feira, o Copom, ao avaliar o cenário internacional, "considera que houve substancial deterioração, consubstanciada, por exemplo, em reduções generalizadas e de grande magnitude nas projeções de crescimento para os principais blocos econômicos". Ao contrário do que ocorre no Brasil, "nessas economias, parece limitado o espaço para utilização de política monetária e prevalece um cenário de restrição fiscal", segundo a nota. Diante disso, o Comitê "avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante".

O principal alerta foi dado nesta semana quando agências de notícias vazaram as revisões feitas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que serão divulgadas oficialmente na reunião anual, que será realizada entre os dias 23 e 25, em Washington.

De acordo com os números não desmentidos, o FMI agora prevê que a economia global vai crescer 4,2% neste ano, o que representa uma redução ainda que pequena frente aos 4,3% esperados em junho que, por sua vez, já era um número inferior aos 4,4% anteriormente projetados. Para o próximo ano, a previsão foi ainda mais reduzida, de um crescimento de 4,5% para 4,3%.

A principal razão do pessimismo do FMI é o desempenho das economias avançadas, uma vez que a previsão de crescimento para os mercados emergentes foi mantida em 6,6% para este ano e de 6,4% em 2012. Já nas economias avançadas, o crescimento deste ano pode ficar limitado a 1,8%, bem inferior aos 2,2% esperados em junho, que já era 0,2 ponto menor do que a projeção anterior. Para 2012 a situação não está melhor: em vez de 2,6%, a economia deve crescer apenas 2,2%.

A economia global começou o ano abalada pelo tsunami e terremoto no Japão e não conseguiu superar a onda de desconfiança e crise de liquidez na zona do euro e a letargia nos Estados Unidos.

O maior baque será exatamente nos Estados Unidos. De acordo com os novos números do FMI, a economia americana deve crescer apenas 1,6% neste ano, cerca de 1 ponto a menos do que os 2,5% esperados em junho e que os 2,8% estimados anteriormente. No próximo ano, a situação vai melhorar pouco, com crescimento de 2%, também com quase 1 ponto de queda em comparação com os 2,9% inicialmente projetados.

A situação dramática nos Estados Unidos ficou evidente no discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Ben Bernanke, na reunião dos bancos centrais realizada em Jackson Hole, interior do Estado de Wyoming, na semana passada. Bernanke pressionou pela ajuda dos responsáveis pela política fiscal, do Executivo e do Legislativo, e não quis tomar nova medida antes da próxima reunião do Copom americano, que será realizada na semana do encontro anual do FMI. Sem muitos instrumentos à mão, o Fed já havia feito o anúncio incomum de que vai manter os juros em patamar baixo até 2013 - sem muitos resultados.

Como disse a nova presidente do FMI, Christine Lagarde, também em Jackson Hole, "os acontecimentos deste verão [no hemisfério Norte] indicaram que estamos em uma perigosa nova fase: estamos arriscados a ver a frágil recuperação descarrilar".

Se é praticamente unânime a avaliação do cenário internacional, nem todos concordam, porém, com os desdobramentos esperados pelo Copom. Para o Comitê, esse cenário internacional hostil pode afetar a economia brasileira de vários modos, como a redução do comércio internacional, a moderação dos fluxos de investimento, restrições de crédito e deterioração no sentimento dos empresários e consumidores. Em consequência, o Copom considera provável uma maior desaceleração da economia brasileira, com menor pressão inflacionária, o que, depreende-se pela nota da reunião, abriu espaço para a redução dos juros, sem prejudicar a convergência da inflação para a meta em 2012.

'Credibilidade do BC está em xeque'



Para o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, 'a grande dúvida saber se a instituição tem autonomia na política monetária'

Estadão 02/09
O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola afirmou ontem que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de baixar os juros de 12,50% ao ano para 12% foi "equivocada" e mostrou certa imprudência do colegiado do BC.

"A grande dúvida hoje é saber se o Banco Central tem autonomia na política monetária", comentou, referindo-se a eventual capitulação do Copom a pressões políticas vindas do Palácio do Planalto e do Ministério da Fazenda para que fosse iniciado imediatamente um ciclo de redução da Selic. "A credibilidade do BC está em xeque", apontou.

Para Loyola, o sistema de metas de inflação puro, que persegue um objetivo central, aparentemente está abalado. "Ninguém sabe mais qual é a meta de inflação, se é 4,5% ou mais", afirmou. Segundo ele, a Tendências Consultoria Integrada, da qual é sócio, prevê que o IPCA chegará a 6,6% este ano e a 5,4% em 2012, mas com a redução inesperada dos juros ele acredita que certamente a taxa subirá. "A inflação pode agora chegar a 6% em 2012", apontou.

Na avaliação de Loyola, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem uma visão privilegiada sobre o cenário de crise internacional, até porque participou do encontro de presidentes de BCs realizado na semana passada em Jackson Hole, EUA. Contudo, ele ponderou que seria mais adequado que a autoridade monetária brasileira tivesse utilizado mecanismos de comunicação para informar aos agentes econômicos que uma recessão mundial é inevitável no curto prazo. "O BC não convenceu. Não há evidências de que o mundo vai entrar em recessão tão rapidamente. Além disso, a inflação está acima da meta e as expectativas para o próximo ano apontam que ela também está distante dos 4,5%", comentou Loyola

Também crítico, o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman afirmou que a decisão tomada pelo Copom foi "errada" e deve fazer com que a curva de juros futuros fique "empinada" nos próximos dias. "A credibilidade foi arranhada", comentou. "O BC terá problemas para coordenar expectativas de inflação de agora em diante", disse, destacando o curto prazo.

Segundo Schwartsman, as projeções de agentes econômicos para o índice de inflação devem subir nos próximos dias.

Antes da reunião do BC, ele calculava que o IPCA subiria 5,3% em 2012, com a taxa de juros entre 12,50% e 12,75% até o fim do próximo ano. Mas agora, com este "impulso monetário" que poderá ficar abaixo de dois pontos porcentuais, ele estima que o índice deve ficar entre 5,5% e 6% em 2012. Para Schwartsman, a queda dos juros adotada pelo BC baseia-se num cenário de "colapso" externo, com uma recessão mundial tão forte ou maior do que a de 2008. Na avaliação dele, não há evidências objetivas de dados econômicos que indiquem que a economia global vai entrar num período de retração tão vigoroso no curto prazo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Agroindústria privada ganha força na China


Valor 01/09

A rápida transformação da China em sociedade urbana está consolidando uma vigorosa agroindústria privada, ancorada no acelerado desenvolvimento econômico e na forte elevação da demanda interna por alimentos no gigante asiático.

Estimuladas por incentivos do governo e atraídas pela nascente classe média consumidora, as indústrias processadoras de matérias-primas ampliam rapidamente sua presença em áreas rurais nos arredores de grandes metrópoles como Pequim, a portuária Tianjin e a histórica Xian. São essas empresas que têm tentado estabelecer relações diretas com produtores rurais brasileiros. Querem baratear custos, driblando grandes tradings americanas e europeias que dominam as vendas de soja e carnes. E os brasileiros buscam investidores para financiar melhorias na infraestrutura e na logística de escoamento da produção.

Maior agroindústria privada da China, a Hopefull Group fatura US$ 2,4 bilhões com esmagamento de soja, transporte marítimo, logística, trading e produtos industriais. Em plena expansão de seu parque fabril, em Yanjiao, a 25 km de Pequim, a Hopefull está ampliando, dos atuais 3 milhões para 8 milhões de toneladas por ano, sua capacidade de processamento de soja. A empresa, que detém 60% do mercado de óleo comestível de Pequim, importa 1 milhão de toneladas do grão - metade de Mato Grosso. E vai dobrar a aposta para decuplicar a produção de lecitina de soja, para 20 toneladas por dia.

"Estamos prontos para aprofundar parcerias. Não somos apenas soja, somos tecnologia biológica para proteínas e fármacos", afirmou o presidente do conselho de administração, Shi Kerong, a uma comitiva de produtores brasileiros em visita à China. A Hopefull começou a investir no Brasil pelo porto de São Francisco (SC) e avalia parcerias em armazéns e logística em Mato Grosso. "Temos grandes projetos e o Brasil tem natureza maravilhosa, além de sua posição estratégica".

Fundada há oito anos, a ShiYang Group, cuja sede está em Yanling, a 80 km de Xian (região oeste), dobrou as operações de sua indústria frigorífica desde 2007 no sistema de integração, onde estão 10 mil produtores de suínos, aves e peixes. Em 2010, faturou US$ 630 milhões em 40 unidades de esmagamento de soja, óleo e ração animal. A ShiYang processa 400 mil toneladas de soja por ano e busca, no Brasil, grãos com maior teor de proteína para alimentar os rebanhos do oeste da China. Com meta de atingir US$ 1 bilhão de receita em 2014, planeja abrir capital na bolsa de Xangai antes disso. Até lá, agregará seis novas unidades de abate de aves e suínos. As atuais duas plantas processam 200 mil aves diárias, metade do abate da brasileira BRF em Rio Verde (GO).

"Temos muita preocupação com a segurança dos alimentos. E a soja brasileira tem a alta qualidade que procuramos", disse o gerente de qualidade Jia Wuli aos brasileiros. A poucos metros dali, a agroindústria Yanling Besun Group obteve financiamento do Banco Mundial para construir mais cinco unidades frigoríficas às atuais duas plantas de suínos, cujo abate soma 500 mil cabeças por ano. O grupo fatura US$ 20 milhões, mas prepara o lançamento de novos produtos para quintuplicar a receita em três anos.

Especialistas do setor de alimentos afirmam que a China está comendo mais e cada vez melhor. Palco do maior movimento migratório global em direção às cidades, o país elevará as importações de produtos derivados da soja brasileira e será um dos mais ativos compradores de carnes nacionais na próxima década.

O cenário aponta um amplo espaço para crescimento, mas o Brasil ainda não aproveita totalmente essa janela de oportunidade. Apenas oito frigoríficos de carne bovina, três de suínos e 25 de aves estão habilitados a vender aos chineses. "Há algumas janelas de oportunidades que precisamos aproveitar", alertou o adido agrícola da embaixada brasileira em Pequim, Esequiel Liuson.

A onda de migração interna no gigante asiático, estimada em até 400 milhões de pessoas ao fim de 2022, tem elevado o padrão de consumo chinês. A renda média urbana já equivale a seis vezes os ganhos na área rural. A demanda por proteína animal deu um salto significativo. O consumo médio per capita de carnes nas cidades já chega a 40 quilos por ano. No campo, ainda soma 26 quilos/ano. Na última década, a fatia da carne bovina na dieta local passou de 3,5% para 6% do total consumido no país. A participação da carne de suíno recuou de 95% para 65%.

Mas alguns exportadores nacionais já veem a possibilidade de faturar ainda mais com o duradouro apetite chinês por alimentos. E costuram acordos com tradings locais e o governo chinês para garantir parte dessas vendas. Há duas semanas, a associação dos produtores de soja de Mato Grosso (Aprosoja) assinou um memorando de entendimento com o governo chinês e as principais tradings estatais, como Jiusan, Cofco e Chinatex, para avançar no desenho dessas parcerias.

"É um grupo que compra 95% da soja brasileira. Queremos um arranjo para logística e porto em troca da segurança no fornecimento da soja", afirmou o presidente da Aprosoja, Glauber Silveira. Ele voltará a Pequim em meados de setembro para assinar um protocolo de cooperação com os chineses. "Eles querem comprar mais barato, de forma direta, e nós queremos logística".

Para ilustrar o drama brasileiro, Silveira usa o exemplo visto na ShiYang. A empresa paga US$ 34 de frete ferroviário para levar uma tonelada de soja do porto de Tianjin, a 1,4 mil km de distância de sua sede. Em Mato Grosso, custa US$ 100 apenas até o porto de Santos. "E olha que eles compram a soja em saca. Se mudarem para o granel, esse custo cai para US$ 10".

Na soja, o cenário é bastante otimista. A importação deve crescer 3 milhões de toneladas ao ano na próxima década. E metade disso será abastecida pelo Brasil. A colheita chinesa do grão recuou de 17 milhões para 14 milhões de toneladas desde 2005. O consumo de farelo para ração animal tem aumentado de forma substancial em razão da produção de carnes de melhor qualidade. No óleo, também há demanda adicional pela rápida urbanização. A capacidade ociosa de esmagamento de soja na China é gigantesca, somando quase 30 milhões de toneladas. Neste ano, as importações ficarão acima de 53 milhões de toneladas.

"Temos 300 milhões de consumidores nas cidades que têm renda para aumentar o consumo", disse o presidente-executivo da Hopefull, o engenheiro Tom Lin Tan. A demanda por carne crescerá no longo prazo e elevará a procura por soja. "No campo, só se come carne duas ou três vezes por mês. Quem comeu carne quer continuar. Por isso, vamos importar cada vez mais do Brasil".

O cenário para o milho prevê a elevação de 5% no consumo interno, enquanto a produção deve crescer apenas 3% na próxima década. Mesmo com a decisão do governo chinês de produzir mais internamente, e apesar da cota de importação de 5% sobre a meta de colheita, as compras chinesas tendem a aumentar. Em 2012, essas compras devem ultrapassar 4 milhões de toneladas. "Chegaremos a 180 milhões de toneladas, mas isso será insuficiente para a demanda interna", avaliou Lin Tan.

Chineses compram parte de brasileira CBMM por US$ 1,95 bi



DA FRANCE PRESSE, EM XANGAI
FSP 01/09

Três empresas chinesas pagarão US$ 1,95 bilhão por 15% das ações da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), o maior produtor mundial de nióbio, um metal altamente valorizado, informa a imprensa chinesa.

O Taiyuan Iron and Steel Group, o conglomerado financeiro do CITIC Group e Baosteel Group, chegaram a um acordo para a operação, informou a agência oficial Xinhua.

A CBMM extrai, processa, fabrica e comercializa produtos à base de nióbio, metal fundamental para a produção de aços inoxidáveis especiais, caracterizado pela extraordinária estabilidade ante a ação dos agentes químicos.

É utilizado em ligas de alta temperatura e em ligas supercondutoras. Pode ser utilizado na fabricação de automóveis, reatores nucleares, jatos e mísseis.

A China está em busca de reservas estratégicas de recursos chave em todo o mundo para suprir a alta demanda de sua indústria, em particular de matis de terras raras.

O acordo é similar a outro obtido por um consórcio de empresas japonesas e sul-coreanas em março para a compra de uma participação na CBMM, também por 1,95 bilhão de dólares.

O consórcio é integrado pelas japonesas Nippon Steel, JFE Steel, Sojitz e a estatais Japan Oil, Gas and Metals National Corp, assim como as sul-coreanas Posco e National Pension Service (NPS).

COPOM afirmou a independência do Banco Central

*Erdanet

Decisão, ontem, do COPOM, reduziu a taxa SELIC em 0,5%, decisão há muito esperada pela classe produtiva desse país. É o início do alívio do garrote dos juros, que pode ajudar a colocar o País em rota de real desenvolvimento.

Apesar disso, analistas do dito “MERCADO” continuam buscando argumentos, cada vez mais engenhosos, supostamente, para mostrar que os juros devem permanecer altos. Esses argumentos, cada vez mais, vão se mostrando enviesados e voláteis.

O Brasil precisa entrar em sincronia com o setor produtivo e com a sociedade, favorecendo os investimentos e a oferta, de maneira a sustentar a demanda, cada vez mais necessária a um país que pretende se desenvolver. Deixar de lado o fortíssimo ‘lobby’ do ‘mercado’ que se alimenta dos juros cobrados de todos nós assalariados.

Temos uma forte cultura de commodities, fruto de nossa riqueza natural, o que é louvável, mas precisamos incentivar o setor industrial, se quisermos crescer com sustentabilidade. Não precisamos ficar apenas em commodities, nem nesse privilégio injustificável ao capital financeiro. Crescimento se faz com PRODUÇÃO, para que se possa consumir e fortalecer o MERCADO INTERNO. Há crise lá fora. Só passaremos por ela com forte mercado interno. E a redução dos juros é essencial para esse movimento.

Mas, nada disso vai se concretizar se depender dos ‘juristas’, os que se alimentam dos juros –diretamente- ou seus acólitos “profissionais da opinião única de que os juros devem sempre subir”. Desta vez, ao menos, eles perderam. Isto sim é independência do Banco Central!

JUROS ALTOS, INFLAÇÃO E PODER DE COMPRA

O Brasil convive, desde há muito, com altos índices de miséria. Não obstante conhecida, mensurada e analisada, pouco se fez para acabar com essa chaga social.

Um artigo instigante (1) demonstra a redução do “índice de miséria” no Brasil, de 30% em 2003 para 12% em 2011. Notável, embora não inédita, é a conclusão que o autor chega. Essa massa de miseráveis, que agora consegue minimamente se integrar à economia, é a maior responsável pelo aumento do consumo no país. Esse consumo é, ao final, o causador das atuais pressões inflacionárias. Diagnostica-se, então, assimetricamente, que, para ajustar a inflação a níveis “aceitáveis”, há que se refrear o consumo dos pobres, ou seja, deve-se parar com essa história de redução da miséria!

Nos últimos anos, o país floresceu, se desenvolveu, ganhou projeção mundial, se estabilizou. Com isso, nada mais justo que integrar mais pessoas a esse mercado de trabalho. Todavia, com a intensa geração de postos de trabalho, cresce o poder de barganha dos assalariados por melhores salários.

Surge aí um hiato, amplificado pelas análises convencionais: consumo e salários estão pressionando a inflação, e isso tem de ser revertido. O alvo já foi escolhido: os novos cidadãos, aqueles “um pouco menos miseráveis” são agora considerados os responsáveis pela atual “exacerbação” do consumo. Aciona-se o tão conhecido “remédio” do aumento dos juros para “conter a demanda” – leia-se, o consumo da classe média e dos pobres – e, assim, reduzir o emprego e pressionar os salários.

Devolvendo-se os “novos consumistas” à sua miséria de origem, “seu lugar adequado”, pode-se obter uma discutível redução da inflação. Mas na prática o risco é o de estancar o recente ciclo virtuoso de crescimento que o País recém iniciou. A “inteligência” desta argumentação é que, assim, o problema da inflação “ficaria resolvido” com o sacrifício das classes médias (vide EUA e Europa) e da devolução dos miseráveis ao lugar que lhes estava “destinado”. E ainda se esmeram em afirmar que isso é melhor para os pobres...
Mas será isso mesmo? Os cidadãos brasileiros não têm outra saída senão escolher entre uma inflação decente e uma redução da pobreza? Esta escolha é inaceitável: não se trata de mitos ou crenças religiosas e sim da construção de uma sociedade.

As evidências teóricas e empíricas demonstram que a inclusão social e a distribuição de renda são extremamente benéficas para uma construção sustentável da democracia e do desenvolvimento social e econômico. A redução da pobreza dinamiza a economia do país e incentiva a produção interna (gargalo real que provoca nossa inflação). Investir na ampliação da capacidade produtiva do País: esse é o modo mais “produtivo” de resolver a propalada pressão da demanda (consumo).

A política de juros altos faz exatamente o contrário: ao invés de atender justamente à tão propalada pressão da demanda (conjuntural), aumentando a capacidade produtiva do país (estrutural), o aumento dos juros se esmera em cortar as pernas do crescimento. Na próxima edição vamos apontar outras falhas e contradições da política de juros altos.
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1. “Índice de miséria segue baixo no país, ainda estimulando o consumo”, Sérgio Lamucci, Valor Econômico, 06.6.2011.



José Paulo Vieira
Ricardo Luis Piccoli



Cenário movediço na definição da taxa de juro
Valor 01/09

Há muito tempo uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para decidir o patamar da taxa básica de juros (Selic) não acontecia em um cenário tão desafiador para seus membros. Em poucas semanas, a perspectiva para os juros passou da quase certa elevação para a estabilidade e, nas últimas horas, até uma eventual redução que, afinal, prevaleceu. A Selic caiu a 12%.

O aparente fim da trégua da inflação do meio do ano incentivou as apostas de que a Selic poderia ser elevada nesta reunião. O IPCA-15, variante do índice oficial de inflação, apurado de 14 de julho a 12 de agosto, subiu 0,27%, o dobro do registrado no período anterior, acumulando 7,1% em 12 meses.

A piora no cenário internacional mudou, contudo, a percepção e passou-se a esperar que o Copom manteria os juros estáveis. A um dos piores momentos da crise na zona do euro somou-se o agravamento da situação nos Estados Unidos, com o embate político em torno da elevação do limite do endividamento do governo e o rebaixamento da dívida do país.

O aprofundamento da crise está desacelerando a economia dos países centrais, o que deve reduzir a demanda e os preços das commodities e diminuir as pressões inflacionárias no Brasil. Ainda é cedo para se saber se haverá um duplo mergulho, mas as projeções para a economia mundial estão sendo rebaixadas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a projeção do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) americano neste ano, de 2,5% para 1,6%; e o de 2012, de 2,7% para 2%. O FMI também cortou a expectativa de expansão econômica da zona do euro de 2% para 1,9% neste ano; e de 1,7% para 1,4% para 2012. No Brasil, os sinais de desaceleração multiplicam-se, mas não são uniformes. Depois de ter caído 1,2% em junho, a produção industrial subiu 0,5% em julho.

A revisão de cenário para os juros culminou, nesta semana, com a decisão do governo de aumentar em R$ 10 bilhões o superávit primário do governo central deste ano, que passou de R$ 81,76 bilhões para R$ 91 bilhões. Assim, o superávit primário total projetado em R$ 117,9 bilhões chegará a R$ 127,9 bilhões, o equivalente a 3,2% do PIB, retomando um patamar que vigorou no governo Lula antes da crise internacional, desconsiderando a participação de estatais recentemente excluídas das contas fiscais do setor público.

Apesar de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ter rejeitado qualquer suspeita de pressão sobre o Copom, reconheceu que a medida fiscal abre espaço para o corte do juro. "O Banco Central estará em condições de agir com uma política monetária mais expansionista, caso haja agravamento da crise", afirmou segundo "O Globo". A própria presidente Dilma Rousseff entusiasmou-se: "A partir deste momento, nós começamos a ver a possibilidade de redução dos juros no Brasil, que hoje pratica as mais altas taxas", disse em entrevista a uma rádio pernambucana.

Além da importante sinalização ao Banco Central, o esforço fiscal adicional anunciado nesta semana tem outras dimensões. Os R$ 10 bilhões que serão adicionados ao superávit primário virão da arrecadação excedente que a Receita Federal vem registrando. A arrecadação tem surpreendido e, em julho, contou com recolhimentos extraordinários decorrentes da adesão de empresas ao Refis da Crise e do pagamento de R$ 5,8 bilhões em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) feito pela Vale com o encerramento de uma pendência jurídica. Assim, em sete meses, o governo fez quase 80% da meta original de superávit fiscal prometido.

Para que a arrecadação extra não se transformasse em despesas indesejáveis criadas por emendas parlamentares, o governo antecipou-se e reforçou a meta de superávit primário. Ficou assim evidente que o movimento do governo foi também um recado ao Congresso, onde estão em pauta alguns projetos que o governo não quer aprovados porque resultarão em aumento de gastos.

Há dúvidas, porém, sobre até onde vai a disposição do governo à disciplina fiscal. Embora já tenha se comprometido em cumprir a meta cheia do superávit primário de 2012, nenhuma medida específica emergiu para o próximo ano, quando haverá várias pressões, como o aumento do salário mínimo e as desonerações do Plano Brasil Maior. Além disso, desempenho invejável atual é basicamente fruto de receitas não recorrentes e corte de investimentos. Por isso mesmo, está certo poupar um ganho que não deve se repetir e tentar aliviar a monstruosa carga de juros, que já acumula R$ 138,5 bilhões neste ano, o equivalente a 6% do PIB.