terça-feira, 6 de setembro de 2011

Portabilidade de Crédito


Quando o Ministério da Fazenda começou a fazer barulho sobre a questão da concorrência entre instituições financeiras, sobre os elevados spreads, etc. surgiu a portabilidade de crédito. Amadurecida ou não, a ideia se transformou em norma em 2006 (Res. 3.041) ; uma tentativa de reduzir os elevados spreads.

Após sua regulamentação, percebeu-se que o exercício da portabilidade implicaria no pagamento de tarifa, azedando o tão esperado acirramento da concorrência e a consequente redução dos spreads. Acredito que o número de operações de portabilidade de crédito, desde a edição da norma, tenha sido desprezível.

Com a atuação dos órgãos de defesa do consumidor, com os esforços feitos no Congresso pelo pessoal do Sinal, o pressão aumentou novamente, resultando em novo arcabouço normativo sobre portabilidade em 2007 (Res. 3.516).

Um dos grandes avanços introduzidos foi a vedação de cobrar tarifa pela amortização ou liquidação antecipadas. No entanto, acredito que os banqueiros entregaram os anéis para preservar os dedos, na medida em que essa nova sistemática, mais uma vez, inibirá a portabilidade de crédito. Vejamos:

Se, por exemplo, o ambiente econômico é de redução da Selic, os indivíduos endividados, dada a redução do spread, teriam incentivos a contrair novos empréstimos a taxas menores do que fizeram outrora. Se a IF credora daquela operação não renovar o empréstimo do cliente de acordo com as condições vigentes mais favoráveis, ele certamente terá incentivos a exercer a portabilidade de seu débito para outra instituição que ofereça melhores condições, amplificando a concorrência. No entanto, a atual sistemática tem novamente o mérito de impedir que a portabilidade seja exercida, tendo em vista que o saldo devedor trazido a valor presente é aumentado pela redução da Selic, desencorajando a contratação de novo empréstimo em melhores condições.

Quanto ao caso contrário, - ambiente econômico de elevação da Selic -, os indivíduos não terão incentivos para efetuar a portabilidade de suas operações para outra IF, pois não encontrarão condições mais favoráveis daquelas já contratadas.

Ou seja, nada muda.

Claudio de Oliveira Lacerda

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

TV ON LINE


ECONOMISTA DA FGV FALA SOBRE DESACELERAÇÃO DOS PREÇOS DOS IMÓVEIS TEMPO: 00:04:00
Os preços dos imóveis no país dão sinais de desaceleração. O índice FipeZap, que acompanha o movimento do setor, traz os números de agosto, que apontam para isso. Mas, no acumulado do ano, o aumento nos preços foi de quase 30%.

A economista Virene Matesco, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em entrevista ao Conta Corrente, destacou que a pressão do setor petrolífero faz com que o preço do imóvel fique mais caro no Rio de Janeiro. Além disso, segundo ela, os valores dos imóveis já chegaram no pico.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: LAIR RENNÓ


VENDAS DE AGOSTO CRESCEM 8,37% E INADIMPLÊNCIA ATINGE ALTA DE 6,37%
As vendas no mês de agosto tiveram alta de 8,37% em comparação com o mesmo período de 2010. Já a inadimplência cresceu pelo sétimo mês seguido em agosto. A alta foi de 6,37% na comparação com o mesmo período do ano passado.

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: LAIR RENNÓ

ENTREVISTA: ECONOMISTA VIRENE MATESCO ANALISA QUEDA DA TAXA SELIC TEMPO: 00:04:28
Em entrevista ao Conta Corrente, da Globo News, a economista da Fundação Getúlio Vargas Virene Matesco fala sobre a redução da taxa de juros e o pacote de medidas do governo norte-americano contra a crise financeira.

SONORA:
*VIRENE MATESCO, economista da FGV
TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: LAIR RENNÓ


Abaixo a histeria (e a independência)

FSP 02/09


Clóvis Rossi

É espantosa a histeria desatada pela decisão do Banco Central de reduzir a taxa de juros.

Histeria não pela redução em si, que, a esse respeito, as opiniões se dividem. Lembra até velha piada sobre econometria, mas que vale para a economia em geral. É assim: dois econometristas saem para caçar patos. O primeiro atira e erra por meio metro à direita. O segundo atira, erra por meio metro à esquerda e grita: acertamos.

Pois é, palpite de economista é assim, quase sempre e com exceções que apenas confirmam a regra.

No caso dos juros, a histeria se deu porque grande número de economistas e colunistas de economia decretaram que a decisão do BC equivale a sepultar a independência do Banco Central, o que seria, na opinião dessa turma, uma tragédia de proporções bíblicas. Bobagem.

Cito o editorial da Folha a respeito: "Tomá-la [a redução dos juros] como sintoma de revés na autonomia do BC diante das pressões políticas do Planalto seria precipitado".

Aliás, defender a independência como regra de ouro me parece total equívoco. Quem tem legitimidade para decidir a política econômica é quem foi eleito ou eleita para defini-la, no caso, a presidente Dilma Rousseff. O BC não é uma instância eleita. Recebe apenas a delegação do Executivo, o que implica, por elementar bom senso, que deva estar sintonizado com a política de quem lhe delega poderes.

A "rationale" por trás da tese da independência é a de que políticos são incapazes de fazer uma política econômica séria, porque gostam de gastar demais, e, portanto, precisam de uma babá severa, que seria o BC. É um raciocínio torpe porque despreza a hipótese de que o BC também faça barbeiragens. A crise de 2008/09 demonstrou à sociedade que o BC norte-americano foi em boa medida irresponsável o suficiente para facilitar a eclosão da crise.

(Diga-se que, no Brasil, aconteceu o contrário).

Sempre que critico a teologia em torno da independência do BC vem alguém --em geral economista-- para lembrar o exemplo dos Estados Unidos e, por extensão, da arqui-louvada independência do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.

Minha resposta: como o Fed errou na crise, prefiro erros praticados pelos políticos, que são eleitos para fixar políticas e podem ser cobrados, nas urnas, pelos erros que eventualmente cometerem, ao passo que o presidente do Fed não é facilmente demissível.

Segunda resposta: é lenda a independência total que se atribui ao Fed. Quem duvida que leia "Maestro", a biografia de Alan Greenspan, ex-presidente do Fed. Nela, verifica-se que o então presidente George H. Bush (pai de George W.) chamava à Casa Branca o então presidente do BC, Paul Volcker, hoje aliás assessor de Obama, para ponderar que a economia estava desacelerando, o que implicava a necessidade de reduzir juros.

Bush pai não dizia diretamente que era preciso baixar os juros, em respeito à autonomia do BC, mas, curiosamente, o juro baixava pouco depois. E ninguém via na coincidência o fim da independência do BC. Apenas uma manifestação de bom senso.

Aqui no Brasil, um monte de gente mostra todos os dentes porque Dilma Rousseff teve comportamento idêntico ao de George H., com resultado também idêntico. Pura histeria tropical.

Que o BC tenha autonomia relativa é até bom porque introduz uma instância menos sujeita às tensões da política no xadrez das decisões sobre economia. Mas daí a pretender que possa tomar decisões que colidam com a linha geral da política econômica de um governo legitimamente eleito para isso é um delírio.




Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo"

O Reino Unido e sua longa depressão


Por Martin Wolf
Valor 05/09

A atual depressão do Reino Unido será a mais longa desde, pelo menos, o fim da Primeira Guerra Mundial. A não ser que haja um aumento drástico no crescimento, também é bem provável que resulte em uma perda acumulada de produção ainda maior que a da "grande depressão". Só isso já seria perturbador. O que é ainda mais perturbador é a opinião quase universal de que quase nada pode ser feito para mudar isso.

Uma recessão é um período de declínio econômico. Uma depressão pode ser definida como o período durante o qual a produção fica abaixo do patamar em que começou. Recentemente, três analistas avaliaram as depressões do Reino Unido, valendo-se de um conjunto de estimativas mensais do PIB *. Isso permitiu aos autores, entre eles Martin Weale, agora no comitê de política monetária do Banco da Inglaterra, analisar o tamanho e a duração das depressões, começando pela de 1920-1924 e concluindo com a atual.

Até agora, as depressões mais duradouras dos últimos cem anos haviam sido a de junho de 1979, a junho de 1983 (sob o governo de Margaret Thatcher) e a de janeiro de 1930 a dezembro de 1933 (a grande depressão). Para que a atual depressão seja mais curta que a antecessora mais longa, precisaria acabar até abril de 2012. Faltando oito meses, no entanto, a produção está cerca de 4% abaixo de seu ponto de partida. Mesmo se o crescimento pulasse agora para um índice anual de 4%, a depressão levaria mais 12 meses para acabar. Se o crescimento fosse de 1,5% ao ano, a depressão duraria 72 meses, o que a tornaria cerca de 50% mais longa que a depressão anterior mais duradoura em cem anos.

É possível avaliar a gravidade de uma depressão pela profundidade do declínio ou pelas perdas acumuladas em relação ao ponto de início. A depressão de 1920-1924 foi a mais profunda, seguida pela grande depressão, cuja maior redução no PIB foi de 7,1%. A atual depressão, contudo, está só um pouco atrás, com 6,5%. A perda acumulada do PIB desta vez deverá ser ainda pior do que a dos anos 30. Na época, foi de 17,7% do PIB, em comparação aos 14,5% verificados na atual depressão, até agora. Esta depressão, contudo, não acabou. Se o crescimento for de 2% por ano, a perda acumulada seria superior a 18% do PIB.

Esta é, então, uma depressão imensa, pelos padrões britânicos. A resposta, contudo, são gestos de indiferença. Parece que essa calamidade é vista como inevitável, ou merecida, ou ambas. Certamente, os amortecedores do Estado de bem-estar social moderno tornaram o choque menos traumático do que as depressões anteriores. O melhor desempenho do emprego em comparação ao início dos anos 80 também tornou esta depressão menos dolorosa. Ainda assim, sua escala e duração são alarmantes.

Pior, o que quase ninguém previu de início agora é visto como quase irremediável. Muitos analistas avaliam que o produto potencial caiu quase tanto quanto a própria produção, que agora está bem mais de 10% abaixo da tendência anterior a 2008. Em importante estudo, Bill Martin, do Centre for Business Research, de Cambridge, ataca energicamente esse pessimismo **. Sua conclusão é que o problema foi o colapso na demanda, não na oferta potencial. Pior, destaca Martin, quanto mais tempo a produção continuar reprimida, mais provavelmente a oferta potencial será prejudicada.

Martin ressalta o consenso existente de que uma boa parte, de quase 70%, da perda de produção em relação à tendência, deve-se ao colapso do produto potencial. Ele vê outra explicação, mais plausível: "Uma economia deficiente em demanda, na qual os salários reais caem o suficiente para conter o aumento no desemprego e deixam a lucratividade total em um nível aceitável, pode manifestar baixos níveis de produtividade que também são característicos de uma economia fraca estruturalmente. Incapaz de vender mais, pela falta de demanda, a indústria pode se dar por satisfeita em viver com baixa produtividade, que, sendo persistente, é interpretada equivocadamente pelas autoridades monetárias como uma redução de marcha no potencial produtivo da economia."

O perigo decorre do que Martin chama de "batalha dos poupadores". O setor privado busca melhorar seus balanços patrimoniais, pagando suas dívidas. Assustados com os déficits, o governo tenta fazer o mesmo. Isso pode fazer sentido, sem que exista uma queda prolongada na atividade, se, e apenas se, a economia passar a ter um imenso superávit externo. Nada, no entanto, parece ser menos provável, tendo em vista a fragilidade dos parceiros comerciais do Reino Unido.

O Reino Unido está em meio ao que caminha para ser a mais duradora - e mais custosa - depressão dos últimos cem anos. A característica desta depressão, em relação com as anteriores, é a fragilidade assustadora da recuperação. É muito mais plausível imaginar que isso se deve à fraqueza na demanda do que ao colapso na oferta potencial. A noção predominante, no entanto, é que há pouco a ser feito. Cuidado com as profecias de catástrofe. Elas podem facilmente tornar-se autorrealizáveis.

* Monthly GDP estimates for inter-war Britain" (algo como, estimativas mensais do PIB na Grã-Bretanha entreguerras, em inglês, www.niesr.ac.uk.

** Is the British economy supply constrained? (será que a oferta da economia britânica está limitada?, em inglês) www.cbr.cam.ac.uk.

Martin Wolf é editorialista e principal comentarista econômico do FT

Loyola ataca



Regime de metas para inflação agoniza
Valor 05/09

Com a surpreendente decisão de reduzir os juros em meio ponto percentual, o Banco Central subverteu alguns princípios basilares do regime de metas para inflação. Esse regime, como se sabe, implica que o BC, embora possuindo autonomia operacional em relação aos agentes políticos, tenha “discricionariedade limitada” na política monetária. A limitação na discricionariedade do BC vem não apenas da própria meta numérica — que deve ser observada pelo BC, embora não seja por ele fixada — como também da transparência de que deve se revestir a execução da política monetária. Por isso a importância da “ritualística” das reuniões pré-agendadas do Copom, da divulgação periódica das atas dessas reuniões e dos relatórios de inflação, do comparecimento regular dos dirigentes do BC ao Congresso, etc. No regime de metas, domina o pressuposto básico de que as expectativas são importantes e que cabe ao BC coordená-las, utilizando meios de comunicação transparentes.

Ora, na decisão da semana passada, quase nada disso foi observado. O BC surpreendeu o mercado, de forma mais ou menos gratuita. Não se configurava uma situação excepcional em que o BC pode (e em algumas vezes deve) surpreender ou se contrapor às expectativas de mercado. Ao contrário, as expectativas sobre a decisão do BC estavam “ancoradas” na manutenção dos juros, o que se alinhava com toda a comunicação anterior, formal ou informal, do BC com os agentes econômicos. Nada indicava que o Copom tivesse como cenário básico um choque desinflacionário vindo do exterior que demandasse o imediato afrouxamento monetário no Brasil.

Longe disso. Não apenas os números, efetivos e projetados, da inflação doméstica continuavam muito fora da meta, como também a tônica das manifestações do BC levava a crer que sua visão do balanço de riscos colocava ainda peso maior no risco inflacionário, a exigir, portanto, uma política monetária relativamente mais apertada. Vale ressaltar, a propósito, que a recente decisão do Copom foi a primeira vez, no regime de metas, que o Comitê reverteu o sinal do movimento dos juros de uma reunião para outra, sem um período transicional mínimo.

De forma inusitada, aliás, quem fez um esforço de coordenar as expectativas foi a própria presidente da República que, na véspera da reunião do Copom, admitiu a possibilidade de redução das taxas de juros, a partir do aumento da meta fiscal para 2011. Lastimavelmente, a manifestação da presidente, antecipando o corte das taxas, acabou por lançar dúvidas sobre a autonomia operacional do BC, pressuposto fundamental para o funcionamento do regime de metas para a inflação.

Portanto, a derrubada dos juros acabou por ter consequências muito além de seus efeitos sobre a inflação e as expectativas. A desobediência à ritualística mínima do regime de metas inflacionárias pode ser entendida como sinal de que tal regime não mais será observado na prática, já que o BC teria adquirido “discricionariedade ilimitada” ou, na hipótese pior, teria deixado de ser operacionalmente autônomo na execução da política monetária. Em ambas as situações, as consequências da decisão do Copom sobre a funcionalidade do regime de metas no futuro são graves, mesmo se “ex-post” a avaliação prospectiva do cenário macroeconômico pelo BC vier a se mostrar correta.

Adicionalmente, não sendo bastante o atropelamento das expectativas pelo BC, o cenário com o qual a instituição justifica o corte da taxa de juros se mostra muito pouco provável, embora, evidentemente, não se possa atribuir a ele uma probabilidade igual a zero.

O longo comunicado divulgado pelo BC após a reunião do Copom menciona como razão principal para sua decisão a “substancial deterioração” do cenário internacional que manifesta viés desinflacionário “no horizonte relevante”. Essa piora do ambiente externo, na visão do BC, intensificará o processo em curso de moderação de atividade doméstica, o que melhora o balanço de riscos para inflação, ajudado ainda pela revisão do cenário da política fiscal. Assim, o corte de juros seria uma forma de mitigar tempestivamente os efeitos de um ambiente global mais restritivo.

Ocorre que esse não é o cenário mais provável. Embora se possa esperar crescimento muito modesto das economias desenvolvidas em 2012, tal cenário não deve provocar efeitos desinflacionários relevantes sobre o Brasil, onde a demanda doméstica sustenta a atividade econômica. Além disso, a moderação na atividade hoje observada ainda é muito leve para trazer a inflação de volta a um patamar compatível com a meta de 4,5% em 2012. Por sua vez, com relação à “revisão do cenário fiscal”, a proposta de orçamento para 2012, divulgada no mesmo dia da decisão do Copom, deveria levar o BC a ser mais conservador na política monetária e não o contrário, pois prevê queda relevante do superávit primário em relação ao ano anterior (2,5% contra 2,9%).

Pelas razões acima apontadas, o regime de metas para inflação encontra-se num momento crítico no Brasil. È uma triste constatação, principalmente porque, da chamada “tríade” da estabilidade macroeconômica resta pouco: o câmbio é cada vez menos flutuante e a política fiscal, cada vez menos superavitária.

Gustavo Loyola, doutor em economia pela EPGE/FGV, foi presidente do Banco Central e é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

TV ON LINE





ESPAÇO ABERTO: ECONOMISTAS FALAM SOBRE O ENDIVIDAMENTO DOS BRASILEIROS – PARTE 1 TEMPO: 00:13:45
Em entrevista ao Espaço Aberto, a economista do Banco Central, Alessandra Dodl e Roberto Zentgraf, coordenador de finanças pessoais do Ibmec falam sobre como lidar com as dívidas. O endividamento atinge 62,5% das famílias e 8% admitem não poder pagar as contas.

ESPAÇO ABERTO: ECONOMISTAS FALAM SOBRE O ENDIVIDAMENTO DOS BRASILEIROS – PARTE 2 TEMPO: 00:06:38
Em entrevista ao Espaço Aberto, a economista do Banco Central, Alessandra Dodl e Roberto Zentgraf, coordenador de finanças pessoais do Ibmec falam sobre como lidar com as dívidas. O endividamento atinge 62,5% das famílias e 8% admitem não poder pagar as contas.

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: ESPAÇO ABERTO APRESENTADOR: MIRIAM LEITÃO

DILMA ROUSSEFF AFIRMA QUE BRASIL PRECISA INVESTIMENTO NA SAUDE NÃO CPMF TEMPO: 00:02:46
A presidente Dilma Rousseff disse que não é a favor da CPMF, mas o Brasil precisa dela. Segundo a petista, resolver problemas da saúde sem dinheiro é demagogia.

*DILMA ROUSSEFF, presidente do Brasil.

TV: TV GLOBO DF PROGRAMA: BOM DIA BRASIL APRESENTADOR: RENATA VASCONCELLOS


BC COLOCOU SUAS FICHAS EM UM CENÁRIO DE CATÁSTROFES, AFIRMA ALEXANDRE SCHWARTSMAN TEMPO: 00:05:39
Em entrevista ao Jornal das Dez, o economista Alexandre Schwartsman falou sobre a análise da atual posição do Banco Central em relação a taxa de juros. De acordo com o economista, o cenário, que garantiria uma queda de juros, agora só seria consistente com a visão de que a economia internacional passaria por um cenário nos próximos meses semelhante ao do final de 2008 e começo de 2009.
SONORA

*ALEXANDRE SCHWARTSMAN, economista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: JORNAL DAS DEZ APRESENTADOR: ANDRÉ TRIGUEIRO


PAULO LEVY ANALISA AÇÕES DO GOVERNO PARA FREAR A ECONOMIA TEMPO: 00:07:00
A quantidade de carros emplacados voltou a subir em agosto. Segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (FENABRAVE), foram vendidos mais de 527 mil veículos no mês, 9% a mais que julho. No acumulado do ano, o número de carros emplacados já supera a marca de 3,7 milhões, alta de 8,96% em relação ao mesmo período do ano passado.

Em entrevista ao Conta Corrente, o economista do IPEA, Paulo Levy, analisa os dados e fala sobre as medidas do governo para frear a economia. Segundo ele, as ações tomadas pelo Banco Central, a partir do final do ano passado, ainda não surtiram o efeito esperado.

*PAULO LEVY, economista do IPEA

TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE


Ação do BC inspira admiração, medo e inveja


Financial Times

Autoridades de bancos centrais por todo o mundo devem estar voltando os olhos ao Brasil com um misto de emoções. O corte da taxa referencial de juros do Banco Central do Brasil de 12,5% para 12% inspira admiração, medo e inveja.

A admiração é pela contínua ousadia. O Banco Central vem respondendo com coragem à deterioração repentina do cenário econômico mundial. Se o período de desaquecimento deste verão setentrional acabar logo ou se a inflação brasileira começar a subir de novo, parecerá ter feito tolice.

A aposta na desaceleração, no entanto, parece boa, se é que o anúncio das pesquisas de sentimento no setor industrial ontem servem de algum indicador: mostram níveis recessivos no Reino Unido e estão no menor patamar em dois anos na região do euro.

Os brasileiros também são admiráveis em sua batalha contra a tradição de inflação elevada, agora se desvanecendo. Mesmo depois do corte, a taxa de juros de um dia está cerca de 5 pontos percentuais acima do índice de inflação. As taxas reais overnight na Índia, China, Rússia e Japão estão em praticamente zero e são negativas nos Estados Unidos, região do euro e Reino Unido.

O corte brasileiro, contudo, estabelece dois precedentes preocupantes. Primeiro, fragilidade política. A crise deixou as autoridades de bancos centrais muito mais próximas à política, mas na maioria dos países elas estão em situação de vantagem em relação a políticos e reguladores. No Brasil, parece que o Banco Central cedeu à pressão do governo para aliviar a mão.

Segundo, a impotência da política monetária. O Banco Central brasileiro não mostrou ser melhor do que seus pares em manter a inflação baixa e um crescimento equilibrado e elevado. O corte dos juros é, em parte, uma admissão de que os juros elevados pressionaram a moeda e prejudicaram os exportadores.

Os brasileiros, pelo menos, têm espaço para manobra. Em quase todos os demais países, estímulos monetários adicionais provavelmente não fariam nada além de alimentar perigosas bolhas financeiras.

As autoridades de outros bancos centrais estão perdoadas por invejar a liberdade da autoridade brasileira.

Polêmica e discórdia no rastro da decisão do Copom


Valor 02/09 - Editorial

A redução de meio ponto na taxa básica de juros, imprimida de uma só vez, nesta semana, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) foi certamente uma das decisões mais polêmicas em seus 15 anos de história. De um lado, ficaram analistas que não acreditam que a inflação perdeu o fôlego e consideraram precipitado o corte da Selic para 12%; e, do outro, industriais e sindicalistas que apoiaram a decisão e até a consideraram tímida.

Em um ponto, porém, todos têm que concordar: tem fundamento a preocupação com o incerto cenário internacional, um dos principais argumentos usados pelo Copom para justificar a decisão. Segundo a extraordinariamente prolixa nota divulgada após a reunião, na noite da quarta-feira, o Copom, ao avaliar o cenário internacional, "considera que houve substancial deterioração, consubstanciada, por exemplo, em reduções generalizadas e de grande magnitude nas projeções de crescimento para os principais blocos econômicos". Ao contrário do que ocorre no Brasil, "nessas economias, parece limitado o espaço para utilização de política monetária e prevalece um cenário de restrição fiscal", segundo a nota. Diante disso, o Comitê "avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante".

O principal alerta foi dado nesta semana quando agências de notícias vazaram as revisões feitas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que serão divulgadas oficialmente na reunião anual, que será realizada entre os dias 23 e 25, em Washington.

De acordo com os números não desmentidos, o FMI agora prevê que a economia global vai crescer 4,2% neste ano, o que representa uma redução ainda que pequena frente aos 4,3% esperados em junho que, por sua vez, já era um número inferior aos 4,4% anteriormente projetados. Para o próximo ano, a previsão foi ainda mais reduzida, de um crescimento de 4,5% para 4,3%.

A principal razão do pessimismo do FMI é o desempenho das economias avançadas, uma vez que a previsão de crescimento para os mercados emergentes foi mantida em 6,6% para este ano e de 6,4% em 2012. Já nas economias avançadas, o crescimento deste ano pode ficar limitado a 1,8%, bem inferior aos 2,2% esperados em junho, que já era 0,2 ponto menor do que a projeção anterior. Para 2012 a situação não está melhor: em vez de 2,6%, a economia deve crescer apenas 2,2%.

A economia global começou o ano abalada pelo tsunami e terremoto no Japão e não conseguiu superar a onda de desconfiança e crise de liquidez na zona do euro e a letargia nos Estados Unidos.

O maior baque será exatamente nos Estados Unidos. De acordo com os novos números do FMI, a economia americana deve crescer apenas 1,6% neste ano, cerca de 1 ponto a menos do que os 2,5% esperados em junho e que os 2,8% estimados anteriormente. No próximo ano, a situação vai melhorar pouco, com crescimento de 2%, também com quase 1 ponto de queda em comparação com os 2,9% inicialmente projetados.

A situação dramática nos Estados Unidos ficou evidente no discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Ben Bernanke, na reunião dos bancos centrais realizada em Jackson Hole, interior do Estado de Wyoming, na semana passada. Bernanke pressionou pela ajuda dos responsáveis pela política fiscal, do Executivo e do Legislativo, e não quis tomar nova medida antes da próxima reunião do Copom americano, que será realizada na semana do encontro anual do FMI. Sem muitos instrumentos à mão, o Fed já havia feito o anúncio incomum de que vai manter os juros em patamar baixo até 2013 - sem muitos resultados.

Como disse a nova presidente do FMI, Christine Lagarde, também em Jackson Hole, "os acontecimentos deste verão [no hemisfério Norte] indicaram que estamos em uma perigosa nova fase: estamos arriscados a ver a frágil recuperação descarrilar".

Se é praticamente unânime a avaliação do cenário internacional, nem todos concordam, porém, com os desdobramentos esperados pelo Copom. Para o Comitê, esse cenário internacional hostil pode afetar a economia brasileira de vários modos, como a redução do comércio internacional, a moderação dos fluxos de investimento, restrições de crédito e deterioração no sentimento dos empresários e consumidores. Em consequência, o Copom considera provável uma maior desaceleração da economia brasileira, com menor pressão inflacionária, o que, depreende-se pela nota da reunião, abriu espaço para a redução dos juros, sem prejudicar a convergência da inflação para a meta em 2012.

'Credibilidade do BC está em xeque'



Para o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, 'a grande dúvida saber se a instituição tem autonomia na política monetária'

Estadão 02/09
O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola afirmou ontem que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de baixar os juros de 12,50% ao ano para 12% foi "equivocada" e mostrou certa imprudência do colegiado do BC.

"A grande dúvida hoje é saber se o Banco Central tem autonomia na política monetária", comentou, referindo-se a eventual capitulação do Copom a pressões políticas vindas do Palácio do Planalto e do Ministério da Fazenda para que fosse iniciado imediatamente um ciclo de redução da Selic. "A credibilidade do BC está em xeque", apontou.

Para Loyola, o sistema de metas de inflação puro, que persegue um objetivo central, aparentemente está abalado. "Ninguém sabe mais qual é a meta de inflação, se é 4,5% ou mais", afirmou. Segundo ele, a Tendências Consultoria Integrada, da qual é sócio, prevê que o IPCA chegará a 6,6% este ano e a 5,4% em 2012, mas com a redução inesperada dos juros ele acredita que certamente a taxa subirá. "A inflação pode agora chegar a 6% em 2012", apontou.

Na avaliação de Loyola, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem uma visão privilegiada sobre o cenário de crise internacional, até porque participou do encontro de presidentes de BCs realizado na semana passada em Jackson Hole, EUA. Contudo, ele ponderou que seria mais adequado que a autoridade monetária brasileira tivesse utilizado mecanismos de comunicação para informar aos agentes econômicos que uma recessão mundial é inevitável no curto prazo. "O BC não convenceu. Não há evidências de que o mundo vai entrar em recessão tão rapidamente. Além disso, a inflação está acima da meta e as expectativas para o próximo ano apontam que ela também está distante dos 4,5%", comentou Loyola

Também crítico, o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman afirmou que a decisão tomada pelo Copom foi "errada" e deve fazer com que a curva de juros futuros fique "empinada" nos próximos dias. "A credibilidade foi arranhada", comentou. "O BC terá problemas para coordenar expectativas de inflação de agora em diante", disse, destacando o curto prazo.

Segundo Schwartsman, as projeções de agentes econômicos para o índice de inflação devem subir nos próximos dias.

Antes da reunião do BC, ele calculava que o IPCA subiria 5,3% em 2012, com a taxa de juros entre 12,50% e 12,75% até o fim do próximo ano. Mas agora, com este "impulso monetário" que poderá ficar abaixo de dois pontos porcentuais, ele estima que o índice deve ficar entre 5,5% e 6% em 2012. Para Schwartsman, a queda dos juros adotada pelo BC baseia-se num cenário de "colapso" externo, com uma recessão mundial tão forte ou maior do que a de 2008. Na avaliação dele, não há evidências objetivas de dados econômicos que indiquem que a economia global vai entrar num período de retração tão vigoroso no curto prazo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Agroindústria privada ganha força na China


Valor 01/09

A rápida transformação da China em sociedade urbana está consolidando uma vigorosa agroindústria privada, ancorada no acelerado desenvolvimento econômico e na forte elevação da demanda interna por alimentos no gigante asiático.

Estimuladas por incentivos do governo e atraídas pela nascente classe média consumidora, as indústrias processadoras de matérias-primas ampliam rapidamente sua presença em áreas rurais nos arredores de grandes metrópoles como Pequim, a portuária Tianjin e a histórica Xian. São essas empresas que têm tentado estabelecer relações diretas com produtores rurais brasileiros. Querem baratear custos, driblando grandes tradings americanas e europeias que dominam as vendas de soja e carnes. E os brasileiros buscam investidores para financiar melhorias na infraestrutura e na logística de escoamento da produção.

Maior agroindústria privada da China, a Hopefull Group fatura US$ 2,4 bilhões com esmagamento de soja, transporte marítimo, logística, trading e produtos industriais. Em plena expansão de seu parque fabril, em Yanjiao, a 25 km de Pequim, a Hopefull está ampliando, dos atuais 3 milhões para 8 milhões de toneladas por ano, sua capacidade de processamento de soja. A empresa, que detém 60% do mercado de óleo comestível de Pequim, importa 1 milhão de toneladas do grão - metade de Mato Grosso. E vai dobrar a aposta para decuplicar a produção de lecitina de soja, para 20 toneladas por dia.

"Estamos prontos para aprofundar parcerias. Não somos apenas soja, somos tecnologia biológica para proteínas e fármacos", afirmou o presidente do conselho de administração, Shi Kerong, a uma comitiva de produtores brasileiros em visita à China. A Hopefull começou a investir no Brasil pelo porto de São Francisco (SC) e avalia parcerias em armazéns e logística em Mato Grosso. "Temos grandes projetos e o Brasil tem natureza maravilhosa, além de sua posição estratégica".

Fundada há oito anos, a ShiYang Group, cuja sede está em Yanling, a 80 km de Xian (região oeste), dobrou as operações de sua indústria frigorífica desde 2007 no sistema de integração, onde estão 10 mil produtores de suínos, aves e peixes. Em 2010, faturou US$ 630 milhões em 40 unidades de esmagamento de soja, óleo e ração animal. A ShiYang processa 400 mil toneladas de soja por ano e busca, no Brasil, grãos com maior teor de proteína para alimentar os rebanhos do oeste da China. Com meta de atingir US$ 1 bilhão de receita em 2014, planeja abrir capital na bolsa de Xangai antes disso. Até lá, agregará seis novas unidades de abate de aves e suínos. As atuais duas plantas processam 200 mil aves diárias, metade do abate da brasileira BRF em Rio Verde (GO).

"Temos muita preocupação com a segurança dos alimentos. E a soja brasileira tem a alta qualidade que procuramos", disse o gerente de qualidade Jia Wuli aos brasileiros. A poucos metros dali, a agroindústria Yanling Besun Group obteve financiamento do Banco Mundial para construir mais cinco unidades frigoríficas às atuais duas plantas de suínos, cujo abate soma 500 mil cabeças por ano. O grupo fatura US$ 20 milhões, mas prepara o lançamento de novos produtos para quintuplicar a receita em três anos.

Especialistas do setor de alimentos afirmam que a China está comendo mais e cada vez melhor. Palco do maior movimento migratório global em direção às cidades, o país elevará as importações de produtos derivados da soja brasileira e será um dos mais ativos compradores de carnes nacionais na próxima década.

O cenário aponta um amplo espaço para crescimento, mas o Brasil ainda não aproveita totalmente essa janela de oportunidade. Apenas oito frigoríficos de carne bovina, três de suínos e 25 de aves estão habilitados a vender aos chineses. "Há algumas janelas de oportunidades que precisamos aproveitar", alertou o adido agrícola da embaixada brasileira em Pequim, Esequiel Liuson.

A onda de migração interna no gigante asiático, estimada em até 400 milhões de pessoas ao fim de 2022, tem elevado o padrão de consumo chinês. A renda média urbana já equivale a seis vezes os ganhos na área rural. A demanda por proteína animal deu um salto significativo. O consumo médio per capita de carnes nas cidades já chega a 40 quilos por ano. No campo, ainda soma 26 quilos/ano. Na última década, a fatia da carne bovina na dieta local passou de 3,5% para 6% do total consumido no país. A participação da carne de suíno recuou de 95% para 65%.

Mas alguns exportadores nacionais já veem a possibilidade de faturar ainda mais com o duradouro apetite chinês por alimentos. E costuram acordos com tradings locais e o governo chinês para garantir parte dessas vendas. Há duas semanas, a associação dos produtores de soja de Mato Grosso (Aprosoja) assinou um memorando de entendimento com o governo chinês e as principais tradings estatais, como Jiusan, Cofco e Chinatex, para avançar no desenho dessas parcerias.

"É um grupo que compra 95% da soja brasileira. Queremos um arranjo para logística e porto em troca da segurança no fornecimento da soja", afirmou o presidente da Aprosoja, Glauber Silveira. Ele voltará a Pequim em meados de setembro para assinar um protocolo de cooperação com os chineses. "Eles querem comprar mais barato, de forma direta, e nós queremos logística".

Para ilustrar o drama brasileiro, Silveira usa o exemplo visto na ShiYang. A empresa paga US$ 34 de frete ferroviário para levar uma tonelada de soja do porto de Tianjin, a 1,4 mil km de distância de sua sede. Em Mato Grosso, custa US$ 100 apenas até o porto de Santos. "E olha que eles compram a soja em saca. Se mudarem para o granel, esse custo cai para US$ 10".

Na soja, o cenário é bastante otimista. A importação deve crescer 3 milhões de toneladas ao ano na próxima década. E metade disso será abastecida pelo Brasil. A colheita chinesa do grão recuou de 17 milhões para 14 milhões de toneladas desde 2005. O consumo de farelo para ração animal tem aumentado de forma substancial em razão da produção de carnes de melhor qualidade. No óleo, também há demanda adicional pela rápida urbanização. A capacidade ociosa de esmagamento de soja na China é gigantesca, somando quase 30 milhões de toneladas. Neste ano, as importações ficarão acima de 53 milhões de toneladas.

"Temos 300 milhões de consumidores nas cidades que têm renda para aumentar o consumo", disse o presidente-executivo da Hopefull, o engenheiro Tom Lin Tan. A demanda por carne crescerá no longo prazo e elevará a procura por soja. "No campo, só se come carne duas ou três vezes por mês. Quem comeu carne quer continuar. Por isso, vamos importar cada vez mais do Brasil".

O cenário para o milho prevê a elevação de 5% no consumo interno, enquanto a produção deve crescer apenas 3% na próxima década. Mesmo com a decisão do governo chinês de produzir mais internamente, e apesar da cota de importação de 5% sobre a meta de colheita, as compras chinesas tendem a aumentar. Em 2012, essas compras devem ultrapassar 4 milhões de toneladas. "Chegaremos a 180 milhões de toneladas, mas isso será insuficiente para a demanda interna", avaliou Lin Tan.

Chineses compram parte de brasileira CBMM por US$ 1,95 bi



DA FRANCE PRESSE, EM XANGAI
FSP 01/09

Três empresas chinesas pagarão US$ 1,95 bilhão por 15% das ações da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), o maior produtor mundial de nióbio, um metal altamente valorizado, informa a imprensa chinesa.

O Taiyuan Iron and Steel Group, o conglomerado financeiro do CITIC Group e Baosteel Group, chegaram a um acordo para a operação, informou a agência oficial Xinhua.

A CBMM extrai, processa, fabrica e comercializa produtos à base de nióbio, metal fundamental para a produção de aços inoxidáveis especiais, caracterizado pela extraordinária estabilidade ante a ação dos agentes químicos.

É utilizado em ligas de alta temperatura e em ligas supercondutoras. Pode ser utilizado na fabricação de automóveis, reatores nucleares, jatos e mísseis.

A China está em busca de reservas estratégicas de recursos chave em todo o mundo para suprir a alta demanda de sua indústria, em particular de matis de terras raras.

O acordo é similar a outro obtido por um consórcio de empresas japonesas e sul-coreanas em março para a compra de uma participação na CBMM, também por 1,95 bilhão de dólares.

O consórcio é integrado pelas japonesas Nippon Steel, JFE Steel, Sojitz e a estatais Japan Oil, Gas and Metals National Corp, assim como as sul-coreanas Posco e National Pension Service (NPS).

COPOM afirmou a independência do Banco Central

*Erdanet

Decisão, ontem, do COPOM, reduziu a taxa SELIC em 0,5%, decisão há muito esperada pela classe produtiva desse país. É o início do alívio do garrote dos juros, que pode ajudar a colocar o País em rota de real desenvolvimento.

Apesar disso, analistas do dito “MERCADO” continuam buscando argumentos, cada vez mais engenhosos, supostamente, para mostrar que os juros devem permanecer altos. Esses argumentos, cada vez mais, vão se mostrando enviesados e voláteis.

O Brasil precisa entrar em sincronia com o setor produtivo e com a sociedade, favorecendo os investimentos e a oferta, de maneira a sustentar a demanda, cada vez mais necessária a um país que pretende se desenvolver. Deixar de lado o fortíssimo ‘lobby’ do ‘mercado’ que se alimenta dos juros cobrados de todos nós assalariados.

Temos uma forte cultura de commodities, fruto de nossa riqueza natural, o que é louvável, mas precisamos incentivar o setor industrial, se quisermos crescer com sustentabilidade. Não precisamos ficar apenas em commodities, nem nesse privilégio injustificável ao capital financeiro. Crescimento se faz com PRODUÇÃO, para que se possa consumir e fortalecer o MERCADO INTERNO. Há crise lá fora. Só passaremos por ela com forte mercado interno. E a redução dos juros é essencial para esse movimento.

Mas, nada disso vai se concretizar se depender dos ‘juristas’, os que se alimentam dos juros –diretamente- ou seus acólitos “profissionais da opinião única de que os juros devem sempre subir”. Desta vez, ao menos, eles perderam. Isto sim é independência do Banco Central!

JUROS ALTOS, INFLAÇÃO E PODER DE COMPRA

O Brasil convive, desde há muito, com altos índices de miséria. Não obstante conhecida, mensurada e analisada, pouco se fez para acabar com essa chaga social.

Um artigo instigante (1) demonstra a redução do “índice de miséria” no Brasil, de 30% em 2003 para 12% em 2011. Notável, embora não inédita, é a conclusão que o autor chega. Essa massa de miseráveis, que agora consegue minimamente se integrar à economia, é a maior responsável pelo aumento do consumo no país. Esse consumo é, ao final, o causador das atuais pressões inflacionárias. Diagnostica-se, então, assimetricamente, que, para ajustar a inflação a níveis “aceitáveis”, há que se refrear o consumo dos pobres, ou seja, deve-se parar com essa história de redução da miséria!

Nos últimos anos, o país floresceu, se desenvolveu, ganhou projeção mundial, se estabilizou. Com isso, nada mais justo que integrar mais pessoas a esse mercado de trabalho. Todavia, com a intensa geração de postos de trabalho, cresce o poder de barganha dos assalariados por melhores salários.

Surge aí um hiato, amplificado pelas análises convencionais: consumo e salários estão pressionando a inflação, e isso tem de ser revertido. O alvo já foi escolhido: os novos cidadãos, aqueles “um pouco menos miseráveis” são agora considerados os responsáveis pela atual “exacerbação” do consumo. Aciona-se o tão conhecido “remédio” do aumento dos juros para “conter a demanda” – leia-se, o consumo da classe média e dos pobres – e, assim, reduzir o emprego e pressionar os salários.

Devolvendo-se os “novos consumistas” à sua miséria de origem, “seu lugar adequado”, pode-se obter uma discutível redução da inflação. Mas na prática o risco é o de estancar o recente ciclo virtuoso de crescimento que o País recém iniciou. A “inteligência” desta argumentação é que, assim, o problema da inflação “ficaria resolvido” com o sacrifício das classes médias (vide EUA e Europa) e da devolução dos miseráveis ao lugar que lhes estava “destinado”. E ainda se esmeram em afirmar que isso é melhor para os pobres...
Mas será isso mesmo? Os cidadãos brasileiros não têm outra saída senão escolher entre uma inflação decente e uma redução da pobreza? Esta escolha é inaceitável: não se trata de mitos ou crenças religiosas e sim da construção de uma sociedade.

As evidências teóricas e empíricas demonstram que a inclusão social e a distribuição de renda são extremamente benéficas para uma construção sustentável da democracia e do desenvolvimento social e econômico. A redução da pobreza dinamiza a economia do país e incentiva a produção interna (gargalo real que provoca nossa inflação). Investir na ampliação da capacidade produtiva do País: esse é o modo mais “produtivo” de resolver a propalada pressão da demanda (consumo).

A política de juros altos faz exatamente o contrário: ao invés de atender justamente à tão propalada pressão da demanda (conjuntural), aumentando a capacidade produtiva do país (estrutural), o aumento dos juros se esmera em cortar as pernas do crescimento. Na próxima edição vamos apontar outras falhas e contradições da política de juros altos.
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1. “Índice de miséria segue baixo no país, ainda estimulando o consumo”, Sérgio Lamucci, Valor Econômico, 06.6.2011.



José Paulo Vieira
Ricardo Luis Piccoli



Cenário movediço na definição da taxa de juro
Valor 01/09

Há muito tempo uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para decidir o patamar da taxa básica de juros (Selic) não acontecia em um cenário tão desafiador para seus membros. Em poucas semanas, a perspectiva para os juros passou da quase certa elevação para a estabilidade e, nas últimas horas, até uma eventual redução que, afinal, prevaleceu. A Selic caiu a 12%.

O aparente fim da trégua da inflação do meio do ano incentivou as apostas de que a Selic poderia ser elevada nesta reunião. O IPCA-15, variante do índice oficial de inflação, apurado de 14 de julho a 12 de agosto, subiu 0,27%, o dobro do registrado no período anterior, acumulando 7,1% em 12 meses.

A piora no cenário internacional mudou, contudo, a percepção e passou-se a esperar que o Copom manteria os juros estáveis. A um dos piores momentos da crise na zona do euro somou-se o agravamento da situação nos Estados Unidos, com o embate político em torno da elevação do limite do endividamento do governo e o rebaixamento da dívida do país.

O aprofundamento da crise está desacelerando a economia dos países centrais, o que deve reduzir a demanda e os preços das commodities e diminuir as pressões inflacionárias no Brasil. Ainda é cedo para se saber se haverá um duplo mergulho, mas as projeções para a economia mundial estão sendo rebaixadas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a projeção do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) americano neste ano, de 2,5% para 1,6%; e o de 2012, de 2,7% para 2%. O FMI também cortou a expectativa de expansão econômica da zona do euro de 2% para 1,9% neste ano; e de 1,7% para 1,4% para 2012. No Brasil, os sinais de desaceleração multiplicam-se, mas não são uniformes. Depois de ter caído 1,2% em junho, a produção industrial subiu 0,5% em julho.

A revisão de cenário para os juros culminou, nesta semana, com a decisão do governo de aumentar em R$ 10 bilhões o superávit primário do governo central deste ano, que passou de R$ 81,76 bilhões para R$ 91 bilhões. Assim, o superávit primário total projetado em R$ 117,9 bilhões chegará a R$ 127,9 bilhões, o equivalente a 3,2% do PIB, retomando um patamar que vigorou no governo Lula antes da crise internacional, desconsiderando a participação de estatais recentemente excluídas das contas fiscais do setor público.

Apesar de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ter rejeitado qualquer suspeita de pressão sobre o Copom, reconheceu que a medida fiscal abre espaço para o corte do juro. "O Banco Central estará em condições de agir com uma política monetária mais expansionista, caso haja agravamento da crise", afirmou segundo "O Globo". A própria presidente Dilma Rousseff entusiasmou-se: "A partir deste momento, nós começamos a ver a possibilidade de redução dos juros no Brasil, que hoje pratica as mais altas taxas", disse em entrevista a uma rádio pernambucana.

Além da importante sinalização ao Banco Central, o esforço fiscal adicional anunciado nesta semana tem outras dimensões. Os R$ 10 bilhões que serão adicionados ao superávit primário virão da arrecadação excedente que a Receita Federal vem registrando. A arrecadação tem surpreendido e, em julho, contou com recolhimentos extraordinários decorrentes da adesão de empresas ao Refis da Crise e do pagamento de R$ 5,8 bilhões em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) feito pela Vale com o encerramento de uma pendência jurídica. Assim, em sete meses, o governo fez quase 80% da meta original de superávit fiscal prometido.

Para que a arrecadação extra não se transformasse em despesas indesejáveis criadas por emendas parlamentares, o governo antecipou-se e reforçou a meta de superávit primário. Ficou assim evidente que o movimento do governo foi também um recado ao Congresso, onde estão em pauta alguns projetos que o governo não quer aprovados porque resultarão em aumento de gastos.

Há dúvidas, porém, sobre até onde vai a disposição do governo à disciplina fiscal. Embora já tenha se comprometido em cumprir a meta cheia do superávit primário de 2012, nenhuma medida específica emergiu para o próximo ano, quando haverá várias pressões, como o aumento do salário mínimo e as desonerações do Plano Brasil Maior. Além disso, desempenho invejável atual é basicamente fruto de receitas não recorrentes e corte de investimentos. Por isso mesmo, está certo poupar um ganho que não deve se repetir e tentar aliviar a monstruosa carga de juros, que já acumula R$ 138,5 bilhões neste ano, o equivalente a 6% do PIB.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

TV ON LINE


30/08/2011 - 22:32:00


NÃO HÁ ESPAÇO PARA REDUÇÃO NA TAXA DE JUROS, AFIRMA SARDENBERG TEMPO: 00:05:46
Em comentário ao Jornal das Dez, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg falou sobre a reunião do COPOM, que está deixando a expectativa de que o Banco Central reduza ou não a taxa de juros. De acordo com o jornalista, há uma pressão muito grande, inclusive do próprio Governo, através da presidente e do ministro da Fazenda para a redução dos juros. Segundo Sardenberg, olhando técnicamente como um Banco Central deve agir em regime de metas de inflação, tudo indica que não há espaço para reduzir a taxa de juros, pelo menos não agora.

*CARLOS ALBERTO SARDENBERG, jornalista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: JORNAL DAS DEZ APRESENTADOR: ANDRÉ TRIGUEIRO

ESTUDANTES VÃO AO BANCO CENTRAL PEDIR MAIS INVESTIMENTOS NA EDUCAÇÃO TEMPO: 00:04:53
Nesta quarta-feira (31), duas marchas prometem agitar a Esplanada dos Ministérios. Uma será realizada por Estudantes que lutam por mais verbas na educação. Já a outra, é pela defesa da vida.

Em entrevista ao programa Repórter Brasil, da TV Brasil, o presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Daniel Iliescu, deu mais detalhes sobre o protesto educacional. Segundo ele, a manifestação vai se concentrar, principalmente, em frente ao prédio do Banco Central. Os estudantes reivindicam a redução das taxas de juros, o investimento de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) na educação, além de melhorias nas escolas em todos os níveis de ensino.

SONORA:

*DANIEL ILLIESCU, presidente da UNE;

*Dra. MARLI LINS E NÓBREGA, coordenadora do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida;

TV: TV BRASIL | PROGRAMA: REPÓRTER BRASIL MANHÃ | APRESENTADOR: KATIUSCIA NERI

31/08/2011 - 14:33:00


TAXA SELIC DEVE SER MANTIDA EM 12,5%, DIZ ECONOMISTA TEMPO: 00:02:35
O Conselho de Política Monetária do Banco Central (Copom) encerra hoje a reunião que definirá a taxa básica de juros para as próximas seis semanas. Segundo o economista Roberto Luis Troster, a taxa deve se manter em 12,5%. De acordo com ele, o cenário externo recomenda uma redução da taxa brasileira, pois a incerteza nos Estados Unidos, na Europa e na China colocam em cheque o ritmo de crescimento da economia global.

*ROBERTO LUIZ TROSTER, economista
TV: BAND NEWS | PROGRAMA: A NOTÍCIA | APRESENTADOR: CAROLINA THOMEU


Às voltas com uma grande contração


Por Martin Wolf - Valor 31/08

O que a desordem dos mercados em agosto nos mostrou? A resposta consiste em três grandes pontos: primeiro, as economias dos países de alta renda, sobrecarregadas de dívidas, continuam extremamente frágeis; segundo, os investidores praticamente não confiam mais na capacidade das autoridades monetárias e políticas para resolver as dificuldades; e, terceiro, em tempos de alta ansiedade, os investidores preferem os ativos considerados como de menor risco, a saber, bônus de governos com melhores classificações de risco, independente de seus defeitos, e ouro. Os que temem deflação, compram bônus; os que temem inflação, compram ouro; os que não conseguem se decidir, compram ambos. Poucos investidores estão dispostos a assumir qualquer risco em investimentos de longo prazo.

Bem-vindos, então, ao que Carmen Reinhart, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington, e Kenneth Rogoff, de Harvard, chamam de "a segunda grande contração" (a Grande Depressão, dos anos 30, seria a primeira). Os menos apocalípticos poderiam chamá-la de a "doença japonesa".

Muitos perguntam se os países de alta renda correm risco de uma recaída recessiva, o chamado "duplo mergulho". Minha resposta é: não, porque a primeira recessão não acabou. A questão é outra, é saber quão mais profunda e longa esta recessão ou "contração" pode ser. O ponto central é que, até o segundo trimestre de 2011, nenhuma das seis maiores economias de alta renda havia superado os patamares de produção verificados antes da crise em 2008. Os Estados Unidos e Alemanha estão próximos dos pontos de partida, enquanto a França vem um pouco atrás. Reino Unido, Itália e Japão arrastam-se muito mais atrás.

O confiável Gabinete Nacional de Análises Econômicas dos EUA define recessão como "um declínio significativo na atividade econômica disseminado por toda a economia, que dure mais do que alguns meses". Define assim para concentrar-se mais nas variações da produção, do que em seu patamar. Normalmente isso faz sentido. Esta recessão, entretanto, não é normal. Quando as economias sofrem colapsos tão acentuados, como durante a pior fase da crise (os declínios nos Produtos Internos Brutos, entre o pico e o ponto mais baixo, variaram entre 3,9% na França e 9,9% no Japão), uma expansão que não leve a produção de volta ao patamar do ponto de partida não traz a sensação de recuperação. Isso é especialmente verdadeiro se o desemprego continua elevado, o emprego, baixo e a capacidade ociosa, alta. Nos EUA, o desemprego ainda é o dobro do registrado antes da crise.

A profundidade da contração e a debilidade da recuperação são, ambas, resultado e causa da atual fragilidade econômica. São resultado porque o endividamento excessivo do setor privado interage com os baixos preços dos ativos, particularmente do setor residencial, para deprimir a demanda. São causa porque quanto mais baixas as projeções de aumento na demanda, menor é o desejo das empresas de investir e mais sóbrios são os impulsos de conceder empréstimos. É uma economia, então, que não consegue atingir a "velocidade de fuga" e, portanto, corre o risco de não sair da atmosfera e cair de volta ao solo.

Vejamos agora, em meio a esse pano de fundo de continuidade da fragilidade, como as pessoas avaliam a cena política. Nem nos EUA nem na região do euro os políticos supostamente no comando - o presidente dos EUA, Barack Obama, e a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel - parecem ser algo mais do que espectadores do desenrolar dos eventos, como recentemente destacou meu colega Philip Stephens. Ambos estão excluídos da situação. Obama quer ser presidente de um país que não existe. Em seus Estados Unidos de fantasia, os políticos esquecem suas diferenças em nome da harmonia bipartidária. Na realidade, ele enfrenta uma oposição que preferiria a quebra do país a ver o presidente se sair bem-sucedido. Merkel busca uma solução inexistente, intermediária entre o desejo alemão de que seus parceiros adotem a mesma disciplina do país, e a incapacidade deles em conseguir adotá-la. A tomada de consciência de que nem os EUA nem a região do euro podem criar condições para uma rápida recuperação do crescimento - ou pior, da paralisante divergência sobre quais seriam essas condições - é assustadora.

Isso nos leva ao terceiro grande ponto: as consequências terríveis do aumento na aversão ao risco nesse contexto de tanta fragilidade econômica. Na longa jornada para ficarem cada vez mais parecidos com os juros no Japão, os rendimentos dos bônus governamentais de dez anos dos EUA e Alemanha caíram agora para o nível em que estavam os japoneses em outubro de 1997, próximos a 2%. Será que uma deflação aguarda esses países? Certamente, uma grande recessão poderia resultar exatamente nisso. Parece, para mim, um perigo mais plausível do que a hiperinflação que as pessoas preocupadas com déficits fiscais e balanços de bancos centrais acham tão aterradora.

O choque causado pela gigantesca batalha sobre a política fiscal - o debate sobre os termos para elevação do teto da dívida - provocou uma corrida em busca, e não para fugir, dos bônus do governo dos EUA. Isso não foi surpreendente por dois motivos: primeiro, esses papéis sempre são o primeiro porto a buscar-se em caso de tempestades; segundo, o resultado será uma forte aperto da política fiscal. Os investidores acham que o resultado será uma economia ainda mais fraca, tendo em vista a situação debilitada do setor privado. Da mesma forma, em uma região do euro ainda mais frágil, os investidores correram para a segurança dos bônus governamentais alemães.

Nesse meio tempo, os mercados acionários foram espancados. Ainda assim, seria complicado argumentar que chegaram ao ponto de capitulação. De acordo com Robert Shiller, de Yale, a razão (com base no índice Standard & Poor's 500) entre cotação e lucro das empresas nos EUA, ajustada ciclicamente, está quase 25% acima de sua média de longo prazo. Em 1982, o quociente do preço sobre lucro estava em cerca de 30% do que se vê hoje. Será que os mercados conseguirão evitar esse desmoronamento? Isso vai depender de quando e como a contração vai acabar.

Nouriel Roubini, também conhecido como "doutor Catástrofe", prevê retração. "Um relógio parado", murmurariam alguns. Ele está certo, no entanto, de que as ferramentas de proteção se esgotaram: as taxas de juros estão baixas, os déficits fiscais, imensos e a região do euro, pressionada. Os riscos de um círculo vicioso, saindo dos fundamentos econômicos ruins aos erros de política, passando pelo pânico e depois voltando aos maus fundamentos, são grandes, no caso de mais retração econômica no futuro.

Nem tudo está perdido, no entanto. Os governos dos EUA e Alemanha, em particular, mantêm espaço de manobra fiscal substancial - e deveriam usá-lo. Infelizmente, contudo, os governos que podem gastar mais não o farão; e os que querem gastar mais não podem fazê-lo. Da mesma forma, os bancos centrais não usaram toda sua munição. Também deveriam ousar usá-la. Muito mais também poderia ser feito para acelerar a desalavancagem do setor financeiro e o fortalecimento do sistema financeiro. Outra reversão da economia agora certamente seria um desastre. A chave, certamente, é não lidar com uma situação tão perigosa como esta dentro dos limites do pensamento convencional. O que significa ser mais ousado e o que deveria ser feito serão temas da coluna da próxima semana.

Martin Wolf é editorialista e principal comentarista econômico do FT

Por que taxa de juros tão alta e um crescimento tão baixo?


Por Vladimir K. Teles - Valor 31/08

Em comparação com os países emergentes o Brasil apresentou avanços significativos nos fundamentos econômicos e institucionais ao longo dos últimos anos. A razão dívida/PIB mantêm-se em um patamar equilibrado, a política monetária é austera, Banco Central (BC) independente, risco país baixo, e instituições políticas estáveis. Entretanto, o Brasil teve uma taxa de crescimento econômico abaixo da média dos países emergentes ao longo da última década, e tem uma taxa de juros reais persistentemente das mais altas neste grupo. A pergunta que surge naturalmente é: como um país com fundamentos melhores que os demais do mesmo patamar de desenvolvimento mantem uma taxa de juros tão alta e um crescimento tão baixo? O que pode explicar essa aparente contradição?

Não faltam ideias e teorias que surgem quase que semanalmente para explicar os juros altos e o baixo crescimento do Brasil. A maioria não é convincente uma vez que se baseia em fatores que afetam a transição da economia apenas no curto prazo, como elevada reação do BC à inflação, ou elevada persistência dos juros. Dado que esse fenômeno é verificado na economia brasileira há muitos anos, a resposta deve estar em aspectos que determinam a taxa de juros e o crescimento de equilíbrio de longo prazo.

No equilíbrio de longo prazo a taxa de juros, a poupança, e o crescimento são determinados por uma relação simples entre o retorno do investimento e a impaciência dos agentes. Para estarem dispostos a abrirem mão de consumir hoje para poupar, os agentes econômicos devem ser remunerados a uma taxa de juros suficientemente grande para compensar a sua impaciência para consumir. Assim, quanto maior o retorno marginal do capital, que se reflete na taxa de juros, ou menor a impaciência dos agentes, maior será a poupança e o crescimento.

No Brasil, pelo menos dois fatores distorcem essa relação. O primeiro, e principal, é a carga tributária. A carga tributária brasileira assume valores maiores que 30% do Produto Interno Bruto (PIB) há mais de dez anos, hoje é de cerca de 38%. Na Argentina é cerca de 22%; na África do Sul, 26%; na Colômbia 23%; Chile, 17%; Peru, 15%; e México, 10%. Se existe algo em que a macroeconomia brasileira se distingue das demais economias emergentes é no tamanho da sua carga tributária.

Com uma elevada carga tributária, o retorno líquido do investimento é muito pequeno mesmo quando a economia é muito produtiva. Isso significa que o retorno marginal do capital tem de compensar não apenas a impaciência dos agentes, mas também a perda de adequação do investimento decorrente da elevada carga tributária. A taxa de juros alta reflete assim uma situação onde o retorno marginal do capital permanece alto o bastante para compensar a tributação.

Essa relação também nos ajuda a explicar a baixa poupança e o baixo crescimento econômico. Uma tributação que distorce implica em dois efeitos perversos sobre a economia no longo prazo. O primeiro e mais simples é de diminuir o nível de produto de equilíbrio, pois um nível maior de tributação implica em um nível menor de poupança e de estoque de capital de equilíbrio. Diversos estudos demonstram que uma parcela significativa da diferença de renda per capita entre países no mundo pode ser explicada por distorções na tributação. Assim, uma diminuição da carga tributária implicaria em um aumento do produto, levando a economia a um novo nível de equilíbrio de longo prazo.

O segundo efeito seria de diminuir o impacto de choques no produto marginal do capital sobre a poupança e, logo, sobre o crescimento econômico. Políticas para aumentar o crescimento de longo prazo, como maiores investimentos em educação ou em infraestrutura, por exemplo, ao aumentar a produtividade da economia, implicam em aumentos no produto marginal do capital e, logo, na poupança, e no crescimento. Porém, no caso brasileiro, a alta tributação diminui o impacto sobre a poupança, uma vez que o seu retorno é apropriado apenas em parte. Isso significa que nenhuma política que vise aumentar o crescimento terá sucesso enquanto tivermos uma carga tributária tão alta.

Há algumas economias, como países escandinavos, com carga tributária elevada, mas com juros mais baixos e crescimento sustentável. Porém, nunca é demais lembrar que no Brasil a tributação elevada não se traduz em gastos públicos que aumentam suficientemente a produtividade da economia, e, por consequência, o produto marginal do capital, de forma que o impacto final sobre o crescimento é negativo. Assim, além de diminuir a tributação, seria necessário tornar os gastos públicos mais produtivos, tanto na sua alocação quanto na eficiência.

O segundo fator que distorce a relação que determina a taxa de juros de equilíbrio de longo prazo é a baixa competição no mercado de crédito. Recentemente uma tese de doutorado na Escola de Economia de São Paulo da FGV defendida por Marcelo Ranieri, orientado pelos professores Paulo Furquim e Klênio Barbosa, estima que a competição no mercado de crédito bancário brasileiro é baixa e está diminuindo. Esse estudo demonstra que, quando se calcula a competição a partir de conglomerados financeiros ao invés de unidades bancárias, como é feito usualmente, é demonstrada a baixa competição e alta concentração, ao contrário do que se alcançava em estudos anteriores.

A existência de uma baixa competição permite o exercício de poder de monopólio, o que leva a uma diminuição da oferta de crédito e a um aumento dos juros. Os agentes econômicos passam a se comportar como se fossem mais "impacientes" ao admitir tomar crédito a juros mais altos diante da restrição que se lhes apresenta. Naturalmente os efeitos perversos dessa restrição de crédito atingem a poupança e, logo, o crescimento.

O Brasil, enquanto for um dos países emergentes com maior carga tributária, será também marcado por ser um país de juros elevados, baixa poupança e baixo crescimento. A carga tributária é a arqui-inimiga da economia brasileira. A baixa competição no mercado de crédito exacerba esta condição.

Vladimir K. Teles é professor de Economia da EESP/FGV

O problema "Wall Street" do Brasil




MARK WEISBROT FSP 31/08


Tirando os interesses do setor financeiro, não há razões para sacrificar crescimento para reduzir a inflação

A economia brasileira está crescendo mais devagar, mas o governo está reduzindo seus gastos para aumentar seu superavit primário, algo que pode desacelerar a economia ainda mais.
A produção industrial caiu 1,6% em junho, e a atividade econômica caiu pela primeira vez desde 2008.

Embora as cifras mensais sejam erráticas e não necessariamente indiquem qualquer tendência, o quadro maior provoca perguntas sobre se a política seguida pelo governo é apropriada, diante dos crescentes riscos e ventos contrários na economia global. Não me interprete mal. A política e os resultados econômicos do Brasil desde que Lula foi eleito, em 2002, têm tido uma melhora imensa em relação a FHC.

Este, que foi objeto de muito amor e afeto em Washington por ter implementado as políticas neoliberais do "Consenso de Washington", presidiu sobre um fracasso econômico. A economia cresceu meros 3,5% por pessoa durante seus oito anos. A performance de Lula foi imensamente melhor; com crescimento per capita de 23,5%, com um aumento real de 60% no salário mínimo e reduções consideráveis no desemprego e na pobreza, realmente não existe comparação. É provável que o mandato de Dilma tenha resultados ainda melhores.

Mas o Brasil tem um problema estrutural que é semelhante a um dos problemas maiores que temos nos EUA: o setor financeiro é grande demais e detém poder excessivo.

Como este setor não tem muito interesse no crescimento e desenvolvimento - é muito mais obcecado por seus próprios lucros e por minimizar a inflação -, seu controle sobre o Banco Central e a política macroeconômica impede o Brasil de realizar seu potencial.

E o potencial do país é imenso: entre 1960-1980, a economia brasileira cresceu 123% por pessoa. Se o Brasil tivesse mantido esse ritmo de crescimento, os brasileiros hoje teriam padrões de vida europeus.

A inflação está em queda no Brasil no momento - nos últimos três meses foi de 4% ao ano, contra 7% no ano passado. Tirando os interesses estreitos do setor financeiro, não existem razões para sacrificar crescimento ou emprego para reduzir a inflação. O setor financeiro é também o maior vilão por trás da sobrevalorização do real, que está prejudicando a indústria e o setor manufatureiro brasileiros. O Banco Central combate a inflação elevando o valor do real, com isso barateando as importações. Mesmo quando o governo tenta puxar o real para baixo, a nível mais competitivo, o fato de o setor financeiro negociar com vários derivativos impede de fazê-lo.

Entre os anos 2002-2011, a Argentina cresceu 90%, o Peru, 77%, e o Brasil, 43%. Não há razão pela qual o Brasil não possa ter uma das economias de mais rápido crescimento da região, ou mesmo do mundo.

Nos últimos quatro anos, o setor financeiro do Brasil cresceu cerca de 50%, três vezes mais que o setor industrial. Hoje os salários dos gerentes de alto nível estão mais altos que os dos EUA.
Isto não é apenas um enorme desperdício de recursos - é muito mais destrutivo ainda devido à influência política desse setor.

Tradução de CLARA ALLAIN

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Situação fiscal do Brasil é semelhante à da Grécia, afirma ex-presidente do BC



Anne Warth e Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado

SÃO PAULO - A situação fiscal do Brasil é hoje muito semelhante à da Grécia, avalia o ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco. A diferença, segundo ele, é que, por ter a mais alta taxa básica de juros do mundo, o Brasil tem maior facilidade para rolar sua dívida que a média dos países que formam o chamado grupo dos PIIGS - Portugal, Itália, Irlanda, Espanha e Grécia. Franco se baseia em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em 2007, a Grécia possuía um nível de dívida com vencimento de curto prazo de 13% do Produto Interno Bruto (PIB), proporção inferior aos números do Brasil, que chegavam a 17,7%. Mesmo em 2011, o Brasil ainda possui uma dívida de curto prazo equivalente a 16,9% do PIB, nível superior ao da Grécia, de 16,6%.

A maior diferença entre Brasil e Grécia, segundo o FMI, residia no déficit nominal, que em 2007 correspondia a 6,7% do PIB grego - e neste ano aumentou para 7,4%, enquanto o déficit nominal brasileiro, que era de 2,7% do PIB em 2007, caiu para 2,4% neste ano. Somados o déficit nominal e a dívida a vencer no curto prazo, que correspondem à necessidade de financiamento do setor público, em 2007 o endividamento da Grécia era de 19,7% do PIB e o do Brasil alcançava 20,4%. Em 2011, a situação se inverteu, com a dívida grega aumentando para 24% do PIB e a do Brasil caindo para 19,3%.

'Rolagem de dívida pode se tornar todo o problema'

"No decorrer do tempo, nos acostumamos a ignorar essa história da rolagem da dívida porque é algo meio automático. A gente não presta atenção, não vê que isso é um problema. Basta olhar o que a Grécia está passando nos dias de hoje para ver que, às vezes, a rolagem da dívida pode se tornar todo o problema", afirmou Franco. "A dívida é déficit acumulado. São as nossas irresponsabilidades acumuladas no passado e que não vão desaparecer."

Na avaliação de Franco, o endividamento de curto prazo é uma das explicações para que o Brasil mantenha uma taxa de juros tão elevada, bem acima da média mundial. "Os juros opressivamente altos que temos no Brasil têm a ver com esse custo de um sistema de rolagem de dívida que faz com que nós, brasileiros, carreguemos um montante de dívida do governo que não gostaríamos de carregar em condições normais", disse.

De acordo com o Franco, isso ficou claro em 2009 e 2010, quando o BC não pôde reduzir a Selic além dos 8,75% ao ano para impedir uma corrida dos recursos aplicados em títulos públicos para a caderneta de poupança e para a Bolsa de Valores. "Vimos os perigos de o dinheiro fugir para a caderneta de poupança e aí ele entraria num circuito meio viciado de crédito subsidiado e fundings regulatórios subsidiados", afirmou. "Veríamos o dinheiro saindo do financiamento dos títulos públicos e indo para a bolsa e outras aplicações. Provavelmente o Brasil não conseguiria rolar 17% do PIB todo ano se não tivesse uma taxa de juros muito alta."

Juros altos são o preço de despesas e impostos elevados

Franco explica que, para reduzir os juros, a situação fiscal do País deveria estar em condições muito melhores. "Aqui começamos a ver a importância dessa jabuticaba, os juros altos, que não entendemos bem", disse. O economista considera que os juros altos são o preço que o Brasil paga por não ter uma política de austeridade fiscal. "A dívida de hoje são os impostos de amanhã. A menos que usemos truques e bruxarias, os juros que pagamos hoje são o preço de não baixarmos os impostos e as despesas, empurrando o problema para as mãos daqueles que estão ausentes na discussão política: nossas futuras gerações", afirmou.

Segundo o ex-presidente do BC, a situação é agravada pelo fato de o Brasil não possuir, politicamente, uma maturidade para apresentar um orçamento claro e realista a respeito das receitas e despesas. "Se tivéssemos um orçamento realista, a avaliação seria feita corretamente, considerando o quanto custa ter aspirações em matéria de gastos superiores ao que a sociedade quer pagar de impostos."

Para Franco, a questão sobre o endividamento e a taxa de juros se assemelha à antiga correção monetária, que está para a inflação assim como o BNDES está para a taxa de juros. "É a falsa solução. Não resolve o problema. Na hiperinflação, a gente não podia fazer mais e melhor que a correção monetária para eliminar o problema da inflação e neutralizá-la completamente, assim como o BNDES nunca será do tamanho da economia para resolver o problema sozinho. A correção monetária, tal como o BNDES, é seletiva. E essa seletividade também tem lá seus defeitos."

Na opinião de Franco, a crise internacional, que evidencia uma exaustão fiscal em diversos países, pode contribuir para que esse debate seja feito no País. "Não se criou ainda o impulso político para arrumar as contas fiscais, movimento que deve abrir a janela para reduzir os juros", afirmou. "Talvez o próprio contexto internacional, onde a exaustão fiscal parece ser um bom título para o problema internacional, nos arraste para uma execução fiscal mais madura e organizada."


TV ON LINE

30/08/2011 - 01:25:00
GOVERNO ANUNCIA MEDIDA PARA CONTER CRISE INTERNACIONAL TEMPO: 00:03:00
O Governo anunciou que pretende economizar R$ 10 bilhões para pagar os juros da divida pública. A medida tem como objetivo preparar o Brasil para crise econômica mundial, e a se apóia principalmente no aumento da arrecadação de impostos. Segundo o ministro da Fazenda Guido Mantega, essa ação vai ajudar o país a enfrentar a crise sem prejudicar o crescimento.

O comentarista de política e de economia do jornal da Globo, Heraldo Pereira analisou essa decisão do Governo.

SONORA:
*GUIDO MANTEGA, Ministro da Fazenda;
*SEN. PAULO PAIM, (PT-RS);
* SEN. JARBAS VASCONCELLOS, (PMDB-PE);
* HERALDO PEREIRA, Comentarista;
TV: TV GLOBO DF PROGRAMA: JORNAL GLOBO APRESENTADOR: HERALDO PEREIRA

PIB BRASILEIRO NÃO DEVE PASSAR DE 4%, DIZ ULISSES RUIZ DE GAMBOA TEMPO: 00:03:32
Em entrevista à GloboNews, Ulisses Ruiz de Gamboa, o economista Ulisses Ruiz de Gamboa afirma que o crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve ficar entre 3,5% e 4% em 2011. Segundo ele, o PIB irá refletir reflexos das medidas de contenção do crédito, aumento da taxa de juros e das medidas macroprudenciais.

SONORA:

*ULISSES RUIZ DE GAMBOA, economista

TV: GLOBO NEWS PROGRAMA: CONTA CORRENTE APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE
DILMA AFIRMA QUE BRASIL NÃO IRÁ CRUZAR OS BRAÇOS DIANTE DA CRISE MUNDIAL TEMPO: 00:02:41
A presidente Dilma Rousseff disse hoje (30) que o Brasil não vai enfrentar a crise econômica de braços cruzados. As medidas tomadas vão priorizar o crescimento nacional, fazendo com que haja incentivo ao emprego e consumo.

SONORA
*DILMA ROUSSEFF, pres. da República;


TV: GLOBO NEWS | PROGRAMA: CONTA CORRENTE | APRESENTADOR: SIDNEY REZENDE

RELACIONADOS: ASSUNTOS ECONÔMICOS



A economia da felicidade


Por Jeffrey D. Sachs Valor 30/08

Vivemos em tempos de altas ansiedades. Apesar de o mundo usufruir de uma riqueza total sem precedentes, também há ampla insegurança, agitação e insatisfação. Nos Estados Unidos, uma grande maioria dos americanos acredita que o país está "no caminho errado". O pessimismo está nas alturas. O mesmo vale para muitos outros lugares.

Tendo essa situação como pano de fundo, chegou a hora de reconsiderar as fontes básicas de felicidade em nossa vida econômica. A busca incansável de rendas maiores vem nos levando a uma ansiedade e iniquidade sem precedentes, em vez de nos conduzir a uma maior felicidade e satisfação na vida. O progresso econômico é importante e pode melhorar a qualidade de vida, mas só se o buscarmos junto com outras metas.

Nesse sentido, o Reino do Butão vem mostrando o caminho. Há 40 anos, o quarto rei do Butão, jovem e recém-entronado, fez uma escolha notável: o Butão deveria buscar a "Felicidade Nacional Bruta" (FNB), em vez do Produto Nacional Bruto (PNB). Desde então, o país vem experimentando uma abordagem alternativa e holística em relação ao desenvolvimento, que enfatiza não apenas o crescimento da economia, mas também a cultura, saúde mental, compaixão e comunidade.

Dezenas de especialistas reuniram-se recentemente na capital do Butão, Thimbu, para fazer um balanço sobre o desempenho do país. Fui um dos coanfitriões, com o primeiro-ministro do Butão, Jigme Thinley, um líder em desenvolvimento sustentável e grande defensor do conceito de "FNB". A reunião ocorreu na esteira da declaração de julho da assembleia geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que convocou os países a avaliar como as políticas nacionais podem promover a felicidade em suas sociedades.

Todos os que se reuniram em Thimbu concordaram sobre a importância de buscar a felicidade em vez da renda nacional. A questão que examinamos é como alcançar a felicidade em um mundo caracterizado pela rápida urbanização, meios de comunicação de massa, capitalismo global e degradação ambiental. Como nossa vida econômica pode ser reordenada para recriar um senso de comunidade, confiança e sustentabilidade ambiental?

Estas foram algumas das conclusões iniciais. Primeira, não devemos menosprezar o valor do progresso econômico. Há sofrimento quando as pessoas passam fome, quando são privadas do atendimento de necessidades básicas, como água potável, atendimento médico e educação, ou empregos dignos.

Segunda, a busca contínua do PNB, sem levar em conta outros objetivos, tampouco é caminho para a felicidade. Nos EUA, o PNB subiu acentuadamente nos últimos 40 anos, mas a felicidade, não. Em vez disso, a busca obstinada do PNB levou a grandes desigualdades de riqueza e poder - alimentadas pelo crescimento de uma grande subclasse --, aprisionou milhões de crianças na pobreza e provocou grave degradação ambiental.

Terceira, a felicidade é alcançada por meio de uma abordagem de vida equilibrada, entre indivíduos e sociedade. Como indivíduos, somos infelizes quando nos é negado o atendimento de necessidades básicas materiais, mas também somos infelizes se a busca por rendas maiores substitui nosso foco na família, amigos, comunidade, compaixão e equilíbrio interno. Como sociedade, uma coisa é organizar políticas econômicas para manter os padrões de vida em alta, mas outra bem diferente é subordinar todos os valores da sociedade à busca do lucro.

A política nos EUA, contudo, permitiu cada vez mais que os lucros empresariais dominassem todas as outras aspirações: igualdade, justiça, confiança, saúde física e mental e sustentabilidade ambiental. As contribuições de empresas a campanhas corroem cada vez mais o processo democrático, com a benção da Corte Suprema dos EUA.

Quarta, o capitalismo global apresenta muitas ameaças diretas à felicidade. Está destruindo o ambiente com as mudanças climáticas e outros tipos de poluição, enquanto um fluxo incansável de propaganda da indústria petrolífera leva muitas pessoas a desconhecer o problema. Isso enfraquece a estabilidade mental e confiança social, com a incidência de depressões clínicas aparentemente em alta. Os meios de comunicação de massa se tornaram meio de distribuição de "mensagens" empresariais em grande parte abertamente contra a ciência, enquanto os americanos sofrem de um número cada vez de vícios de consumo.

Consideremos como as lanchonetes de refeições rápidas usam óleos, gorduras, açúcares e outros ingredientes viciantes que criam uma dependência, prejudicial à saúde, em relação a alimentos que contribuem para a obesidade. Cerca de 30% dos americanos são obesos na atualidade. O resto do mundo acabará seguindo o mesmo caminho, a menos que os países restrinjam práticas empresariais perigosas, como a publicidade, voltada a crianças, de alimentos viciantes e prejudiciais à saúde.

O problema não está apenas nos alimentos, a publicidade voltada às grandes massas contribuiu para muitos outros vícios de consumo, que implicam em altos custos à saúde pública, incluindo o hábito de ver televisão em excesso, apostas, uso de drogas, fumo e alcoolismo.

Quinta, para promover a felicidade, precisamos identificar os muitos fatores além do PNB que podem melhorar ou piorar o bem-estar de uma sociedade. A maioria dos países investe para calcular o PNB, mas pouco gasta para identificar as fontes da má situação da área de saúde (como o fast-food e o tempo excessivo em frente à TV), o declínio da confiança social e a degradação ambiental. Uma vez que compreendamos esses fatores, teremos condições de agir.

A busca insana pelos lucros empresariais ameaça a todos nós. Naturalmente, devemos apoiar o desenvolvimento e crescimento econômico, mas apenas dentro de um contexto mais amplo: um contexto que promova a sustentabilidade ambiental e os valores da compaixão e honestidade, necessários para criar a confiança social. A busca da felicidade não deveria ficar confinada ao belo reino montanhoso do Butão.

Jeffrey D. Sachs é professor de Economia e diretor do Instituto Terra, da Columbia University. É também assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas sobre as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2011.

www.project-syndicate.org

É o emprego

Por Delfim Netto - Valor 30/08

O mercado promoveu um festival de grande volatilidade ("é na confusão que se ganha dinheiro!"). Criou uma enorme expectativa sobre o discurso que Ben Bernanke faria na conferência monetária anual que o Federal Reserve de Kansas City promove em Jackson Hole. Para todas as pessoas com razoável desconfiômetro, era claro que nada de muito importante poderia acontecer. Bernanke não decepcionou: apelou para o nosso velho conselheiro Acácio e mandou ver. Disse, enfaticamente, que diante da gravidade do problema, faremos o que tivermos de fazer!

Mas qual é esse problema que até agora ignorou os estímulos monetários e fiscais tomados a partir da crise de 2007/09? Depois de dois anos, e um cavalar esforço fiscal (que destroçou as finanças do país) e monetário, que salvou o sistema financeiro (cujos agentes produziram a crise e saíram alegres com gordos bônus sem serem incomodados), o problema nos EUA é dar emprego a 25 milhões de honestos trabalhadores desempregados ou fazendo "bicos". Isso se reflete na estabilidade das demandas de auxílio-desemprego, que se vê no gráfico abaixo.



No fundo, os EUA enfrentam um problema moral. O sistema financeiro deveria mesmo ser salvo, mas não, necessariamente, os acionistas e administradores. É claro que os abusos do subprime (estimulados pela miopia do próprio governo e a conivência de suas agências) deveriam ter sido corrigidos com uma política diferente da que deu todo o poder aos bancos (que foram cúmplices no processo), para executarem as hipotecas. Como esperar uma recuperação do consumo com os cidadãos ameaçados de desemprego e sendo despejados de suas casas? Como esperar a recuperação dos investimentos sem perspectiva de aumento do consumo?

Infelizmente, o presidente Obama, ao cercar-se de assessores provenientes do velho incesto entre a academia e as finanças, desperdiçou seu capital político numa troca imoral: a salvação de desonestos banqueiros pelo desemprego de 25 milhões de cidadãos que viviam honestamente do seu trabalho.

É essa imoralidade que sustenta as maluquices do Partido Republicano, que deu forças à destruição civilizatória do movimento do Tea Party e aumentou a disfuncionalidade do sistema político americano. Bernanke reconheceu isso, com outras palavras, quando disse que o maior problema dos EUA, hoje, é a falta de seriedade e clareza da política fiscal e que "o país deveria estar servido por um processo melhor de decisões na área fiscal".

Aliás John Lipsky, vice-diretor-gerente do FMI, afirmou a mesma coisa em Jackson Hole, quando sugeriu que os maiores riscos para a economia mundial eram: 1) a falta de um plano de recuperação fiscal transparente, sério e percebido como exequível; e 2) a falta de confiança na capacidade política das autoridades (americanas e europeias) de controlarem a dívida pública.

Praticamente no mesmo dia em que Bernanke falava, o Bureau of Economic Analysis (BEA) dos EUA divulgava a primeira estimativa do crescimento anual do PIB, sazonalmente ajustada e anualizada, no segundo trimestre de 2011: apenas 1%, como se vê na tabela abaixo.

Quando comparamos a taxa de crescimento no segundo trimestre com a do primeiro, verificamos que a componente do consumo privado caiu (-1,17%), a do investimento cresceu (0,31%), a das exportações líquidas cresceu (0,43%) e a do governo (consumo mais investimento) cresceu (1,05%). Basicamente, a pequena recuperação do PIB se deveu à redução da componente demanda privada.

Bernanke deixou ainda no ar uma possibilidade de que possa adotar, no futuro próximo, novos estímulos, "porque o Fed tem uma série de ferramentas que podem ser usadas para dar maior estímulos monetários". Acabou fazendo um teatro que vai dar energia à volatilidade dos mercados. Deu a entender que a próxima reunião do Federal Open Market Committee (Fomc) será de dois dias (20 e 21 de setembro), para analisar e propor novas medidas. Temos agora mais um mês para bons "rumores" e alta volatilidade.

Talvez dois fatos importantes emergirão: 1) que a disfuncionalidade do Congresso americano é um problema basicamente político (como se viu na aprovação do aumento do endividamento do Tesouro) ligado às eleições de 2012 e não será superado, a não ser depois delas; e 2) que o problema só poderá ser resolvido com um programa de aceleração do crescimento com ênfase na recuperação do emprego. Isso, seguramente, não ocorrerá com uma política fiscal tímida e mal focada. É preciso recuperar a confiança dos trabalhadores, para que aumentem seu consumo, e dos empresários, para que aumentem os seus investimentos.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento