domingo, 14 de agosto de 2011

Um filme que todo mundo deveria assistir





Temos uma boa notícia: a presidenta Dilma Rousseff viu o filme Inside Job.




Segue comentário dela feito em entrevista à revista Carta Capital. Como diriam os latinos, ipsis litteris:




“Temos uma crise profunda, que, como todos sabem, não foi produzida pelos governos. Deve-se a uma crise do mercado financeiro, da sua desregulamentação, com aquiescência, aí sim, do poder público.



Ontem, por acaso, estava com dificuldade de dormir e voltei a assistir ao documentário Inside Job, um filme que todo mundo deveria assistir. É impressionante como, por meio dos depoimentos, o absoluto descontrole fica patente. E em vez de tomarem medidas cabíveis para retomar as condições de crescimento, encheram os bancos de dinheiro outra vez, mantiveram a desregulamentação, continuaram com o processo de descontrole e agora a crise se exprime de forma muito mais forte na Europa.



Há duas utopias apresentadas como possíveis. Há aquela americana, a solução dos republicanos, que acham ser possível sair de uma das maiores crises, gerada não pelo descontrole dos gastos públicos, diminuindo o papel do Estado.



Nesse debate há a tentativa dos republicanos de reduzir a nada o Estado. Não se recupera uma economia desse jeito.”




Ninguém continua a ser a mesma pessoa depois de ver esse filme. O sujeito pode até piorar, mas não permanece o mesmo.
Abraços
acoelhof




sábado, 13 de agosto de 2011

Venda de imóvel despenca no 1º semestre

FSP 13/08
Balanços divulgados por algumas das maiores construtoras mostram queda de até 26% de unidades negociadas
Por valorização imobiliária, volume com vendas não caiu; companhias defendem "demanda sustentável"

CAROLINA MATOS
DE SÃO PAULO

Algumas das maiores construtoras do país venderam menos imóveis novos no primeiro semestre deste ano que no mesmo período de 2010. É o que mostram os balanços das empresas divulgados nesta semana.
A Rossi foi a que teve o maior percentual de redução (26%), seguida por Gafisa (22,1%), Cyrela (10,6%) e MRV (0,6%). A Tecnisa não informou os dados referentes a número de unidades.
Ontem, as ações da Rossi, Gafisa e Cyrela lideraram as baixas do Ibovespa, o principal índice da Bolsa do país.
Por causa da valorização imobiliária dos últimos 12 meses -que fez o preço do m² novo em bairros como Perdizes, zona oeste de SP, saltar 65%-, essa queda de unidades comercializadas não representou, para as companhias, redução do valor das vendas contratadas.
Mas é sinal de que a explosão imobiliária perdeu ritmo.
Reportagem da Folha mostrou, em julho, a diminuição da velocidade de venda de lançamentos residenciais em estandes montados em diversos bairros.
Agora, o número menor de negociações aparece nos resultados financeiros das construtoras.
"Já imaginávamos essa queda", disse José Florêncio Rodrigues Neto, vice-presidente financeiro da Cyrela.
"Mas é preciso considerar que o 1º semestre costuma ser mais fraco. Além disso, nosso objetivo é crescer de forma sustentável. O ritmo de expansão dos últimos anos não deve mesmo se manter."
João Crestana, presidente do Secovi (Sindicato da Habitação), aposta em uma "estabilidade de vendas" daqui para a frente, com o mercado mais acomodado.

ANO ATÍPICO
"Chegamos a uma 'velocidade de cruzeiro', voltando a índices históricos de venda -com até 30% do empreendimento total comercializado no 1º mês de lançamento e o restante vendido a um ritmo de 10% ao mês", diz.
"O ano passado foi atípico, com uma demanda muito reprimida que resultou em vendas aceleradas", completa.
Mas Ricardo Almeida, professor de mercados financeiros e avaliação de empresas do Insper, diz que "não se deve ter a falsa impressão de que o mercado brasileiro está saturado".
Na avaliação de Almeida, há faixas de renda e regiões -como classes C e D e Nordeste e Centro-Oeste- ainda com grande demanda.
"E, considerando que não estamos vendo retração do crédito imobiliário, esses são nichos a serem explorados, desde que as construtoras se estruturem para isso."
Essa análise pode ajudar a explicar por que a MRV, focada no segmento de residências econômicas, do Minha Casa, Minha Vida, teve uma queda de unidades vendidas bem mais suave que a concorrência (apenas 0,6%).


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

TV CLIPES


BOLSAS FECHAM EM ALTA PELO MUNDO
11/08/2011 - 23:30 - GLOBO, JORNAL DA GLOBO
Depois de muita turbulência ao longo da semana o dia foi de calmaria no mercado financeiro. As bolsas de valores fecharam em alta, coisa um tanto rara nos últimos dias.
Âncora: William Waack e Cristiane Pellajo
Repórter: Nenhum repórter cadastrado.
PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL DIZ QUE O BRASIL ESTÁ PREPARADO PARA A CRISE
11/08/2011 - 22:00 - GLOBO NEWS, JORNAL DAS DEZ
Em um evento agora a noite em São Paulo o Presidente do BANCO CENTRAL ALEXANDRE TOMBINI garantiu que o Brasil está preparado para o agravamento do cenário internacional.
* ALEXANDRE TOMBINI, Presidente do BANCO CENTRAL.
Âncora: André Trigueiro.
Repórter: Nenhum repórter cadastrado.
FEBRABAN LANÇA CAMPANHA PARA EVITAR ALTA DA INADIMPLÊNCIA
11/08/2011 - 21:55 - GLOBO NEWS, CONTA CORRENTE 2ª EDIÇÃO
Quem compra a prazo sente o peso dos juros altos. O crédito está mais alto e a inadimplência preocupa o governo e os bancos.
* Mário Sérgio Vasconcelos, diretor de Relações Institucionais/ Febraban
* Sérgio Odilon, chefe do Departamento de Normas/ Banco Central
Âncora: Nenhum âncora cadastrado.
Repórter: Nenhum repórter cadastrado.
SP: BANCOS LIDERAM RECLAMAÇÕES NO PROCON
12/08/2011 - 08:00 - TV BRASIL, REPÓRTER BRASIL MANHÃ
Os bancos lideram na quantidade de reclamações do Procon de São Paulo, o maior do País. Para tentar mudar essa situação a Federação dos Bancos entidades de defesa do consumidor discutem na capital paulista como atender melhor os clientes.
* Adilson Luís Silva, comerciante.
* Eli Lopes aposentada.
Âncora: Nenhum âncora cadastrado.
Repórter: Nenhum repórter cadastrado.

De Nouriel Roubini, em entrevista ao Wall Street Journal


“Nos últimos dois ou três anos tivemos uma maciça redistribuição de renda dos trabalhadores para o capital, dos salários para o lucro, desigualdade de renda e de riqueza aumentaram”.

“Karl Marx acertou: a certa altura o capitalismo pode se autodestruir, porque você não pode continuar a transferir renda do trabalho para o capital sem ter capacidade ociosa e falta de demanda”.

O desemprego nos Estados Unidos, segundo ele, é de 20%: 17% de desempregados e 3% de norte-americanos que estão nos presídios.

Segundo Roubini, não dá para ter guns & butter, ou seja, armas e comida, sem cobrar impostos: a carga tributária das empresas nos Estados Unidos caiu de 19% para 14%.

George Bush assumiu com 300 bilhões de dólares em caixa e entregou o poder a Barack Obama com um rombo de U$ 1,2 trilhão.

Veja o vídeo
Do Viomundo
AcoelhoF

SELIC, IMPORTADOS, CHINA E RESERVAS



Claudia Safatle - Valor 12/08
Os sinais de desaceleração da economia começam a ficar evidentes. Os grandes bancos funcionam em bases sólidas. Não há notícias de que empresas brasileiras estejam altamente alavancadas em derivativos, como ocorreu no segundo semestre de 2008. E, além dessas diferenças entre as condições brasileiras para o enfrentamento da crise de 2008 e hoje, há informações até então desconhecidas sobre os efeitos de políticas anticíclicas no país, sejam fiscais ou monetárias. O quadro em 2011 é mais claro.

Em 2008, o que se sabia da experiência histórica do país era que, ao menor sinal de turbulências no mercado internacional, a resposta da política econômica no Brasil era sempre a mesma: aumentar a taxa de juros para atrair capitais e fechar as contas do balanço de pagamentos. E, quando possível, apertar as condições fiscais para garantir a solvência do governo. Era a reação clássica de um país acostumado com crises cambiais. O Brasil nunca havia feito política monetária contracíclica e as autoridades temiam seus efeitos, avaliam fontes que estavam no governo em 2008.

Por outro lado, descobriu-se no início das turbulências daquele ano que empresas brasileiras estavam com elevadíssima alavancagem em derivativos cambiais, expostas em cerca de US$ 40 bilhões, com contratos recheados de truques e gatilhos. Uma redução precipitada dos juros e a desvalorização mais acentuada da moeda doméstica poderiam agravar a situação.

Além do mais, a toda desvalorização do câmbio no país seguia-se a elevação da inflação. No segundo semestre de 2008, a economia ainda estava com crescimento acelerado e as expectativas de inflação esbarravam no teto da meta (6,5%). Foi nesse ambiente que o Copom fez a reunião de outubro, após a quebra do Lehman Brothers em setembro, quando os créditos externos para o Brasil já haviam secado e a liquidez bancária estava empoçada, com grandes dificuldades para instituições de pequeno e médio porte. Em 29 de outubro, o comitê decidiu manter a Selic em 13,75% - após a alta de agosto. Em dezembro, ao contrário do esperado, o Copom manteve os juros inalterados, sinalizando com redução só a partir de janeiro de 2009.

Esse foi um dos momentos em que o Copom recebeu mais críticas por parte de economistas e analistas de mercado. E, também, de políticos como o ex-governador José Serra, que considerou aquela foi uma oportunidade perdida para o país ousar em busca de taxas mais módicas de juros. O BC poderia ter reduzido a Selic em quatro pontos percentuais durante o ciclo recessivo que se iniciou então, argumentava o governador de São Paulo.

Revisitando a história recente, é possível descobrir alguns fatos não divulgados à época. Poucos dias após a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro, os diretores do BC tiveram uma conversa em São Paulo. Alexandre Tombini, então diretor de Normas, foi o único a opinar a favor da redução dos juros naquele momento. O que foi ouvido com certa perplexidade pelos demais presentes.

Na reunião de dezembro, Tombini foi mais incisivo e posicionou-se totalmente a favor da redução da Selic. Outros diretores foram contra e ele chegou a dizer que não estava convencido dos argumentos contrários, mas votou com os demais pelo adiamento da decisão para janeiro. Naquela reunião, o Copom foi unânime, mas a ata trouxe um malabarismo verbal que deu o que falar.

Ela dizia que as restrições financeiras em curso poderiam esfriar a demanda e, portanto, conter a inflação. Nessas circunstâncias, a maioria dos membros do Copom discutiu a redução de 0,25 ponto percentual da Selic. Mas prevaleceu o entendimento pela manutenção da taxa inalterada até o mês seguinte, janeiro, quando o corte foi de um ponto. A direção do BC em 2008 se preocupou mais em fornecer liquidez para o sistema bancário e suprir o crédito em moeda estrangeira, que havia desaparecido, centrando todas suas atenções para evitar uma crise financeira no país.

À parte os engenheiros de obra feita, o fato é que ficou marcado na história da política monetária que o BC perdeu ocasião de ouro para reduzir os juros, como, aliás, fizeram os demais países. A experiência daquele período passou a pautar as análises do atual governo. Tudo o que não se quer nessa crise, dizem fontes oficiais, é repetir o "erro" de 2008. Ao contrário, a avaliação que se faz no governo - em meio às preocupações quanto às dívidas soberanas dos países da zona do euro e o temor de uma recessão global - é que há boas possibilidades para o Brasil aproveitar a maré e, finalmente, reduzir os juros.

A favor dessa ideia há vários argumentos. Diferentemente de 2008, o agravamento da turbulência externa coincide com a desaceleração da economia brasileira. Ontem saíram dados do IBGE sobre o varejo, que mostram desaquecimento moderado. As vendas cresceram 0,2% em junho sobre maio.

As empresas que não quebraram aprenderam com o susto dos derivativos e hoje estão mais comportadas. Os efeitos de uma desvalorização do câmbio sobre a inflação podem ser neutralizados pela queda nos preços das commodities que o Brasil exporta, atenuando, assim, as pressões sobre preços domésticos. Em 2008, isso não era claro, explicam fontes da época.

Há, portanto, melhores condições, estruturais e conjunturais, para se administrar uma política monetária contracíclica e forma-se um consenso, no mercado e no governo, de que a crise na Europa, EUA e Japão pode ajudar o país a começar a remover sua maior aberração: a de campeão de juros.

Importados já abastecem 23% do mercado interno

O coeficiente de importação, que mede a participação dos produtos importados no consumo interno do país, alcançou 22,9% no segundo trimestre do ano e atingiu seu maior nível histórico, com alta de 2,2 pontos percentuais sobre mesmo período de 2010, informou ontem a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em relação ao primeiro trimestre, sem ajuste sazonal, o avanço foi de 1,3 ponto percentual. O coeficiente é calculado pela entidade desde 1997.

O coeficiente de exportação, que mede a fatia das exportações sobre o total produzido no país, também subiu 2,2 pontos percentuais no segundo trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, chegando a 19,9%, ainda abaixo do nível pré-crise, de 20,8%, no segundo trimestre de 2007. Em comparação aos primeiros três meses do ano, a alta é de 2,4 pontos percentuais.

A Fiesp alerta, no entanto, que 45% do crescimento do coeficiente de exportação se deve ao desempenho de apenas dois setores: as indústrias extrativas, como minério de ferro e petróleo, e a de equipamentos de transporte, devido às plataformas de petróleo - que não são exportações efetivas, já que são considerados exportados do ponto de vista fiscal para ter isenção de impostos, mas fisicamente operam no país.

Dos 33 setores analisados, 18 tiveram aumento do coeficiente de exportação e 15, queda. As maiores altas foram em outros equipamentos de transporte (19,7%), máquinas e equipamentos para indústria extrativa mineral e construção (9,3%), ferro-gusa e ferroligas (6%) e metalurgia (5,3%). Os maiores decréscimos ocorreram em aeronaves (-11,7%), preparação de couro e seus artefatos (-3,3%), material eletrônico e aparelhos de comunicação (-3,1%) e produtos diversos (-2,8%).

Nas importações, 28 dos 33 setores tiveram alta e apenas cinco, queda - equipamentos de instrução médico-hospitalar (-10,4%), aeronaves (-3,9%), siderurgia (-3,4%), produtos farmacêuticos (-2,3%) e fundição e tubos de ferro e aço (1%). Os avanços mais expressivos foram em máquinas e equipamentos para indústria extrativa mineral e construção (11%), tratores e máquinas para agricultura (8,8%), máquinas e equipamentos para fins industriais e comerciais (7,5%) e outros equipamentos de transporte (6,5%).

Segundo o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Giannetti, o crescimento do consumo de bens no mercado brasileiro tem sido em grande parte apropriado pelas importações, que estão ganhando a preferência do consumidor. Para ele, apenas parte do problema da competitividade da indústria está no câmbio. "Temos uma estrutura tributária também perversa."

Brasileiros vão à China para comprar

Mesmo com a crise financeira mundial, um número inesperado de empresários do Brasil mostrou grande interesse pela Feira de Cantão, a maior da China, que ocorre em outubro. O interesse, porém, é como compradoras. Apenas duas companhias, uma fabricante de máquinas de lavar e outra de ferramentas metálicas, vão à China para vender produtos, relatou ontem o secretário-geral da China Import and Export Fair, Wang Zhiping. Se o Brasil quer ampliar suas vendas aproveitando oportunidades na China, tem de fazer um esforço para enviar produtos de maior tecnologia, advertiu o executivo.

"Se querem vender mais produtos brasileiros à China, os empresários têm de trazer produtos em que tenham competitividade, como tecnologia espacial, automóveis, produtos em que há vantagem sobre outros países", disse Wang, dando a entender que não considera as mercadorias a serem promovidas pelos brasileiros muito competitivas. Ele esteve em Manaus, onde esperava pouco mais de 50 representantes de empresas e se surpreendeu com 150 interessados na oferta de mercadorias chinesas que haverá na feira.

Neste ano, os chineses reservaram um espaço especial para a América Latina, até com espetáculos musicais, para o qual convidaram ministros da região - um deles, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. A viagem ao Brasil é um desdobramento dos encontros entre autoridades dos dois países, nos quais os brasileiros pediram maior abertura da China aos manufaturados vendidos pelo Brasil. "Levar produtos competitivos à feira é uma chance de vender não só à China, mas a outros países", disse Wang.

Os organizadores da feira chinesa, que terá 24 mil empresas chinesas e 860 estrangeiras, não creem que a crise atual e a retração dos grandes mercados da Europa e Estados Unidos afete significativamente os negócios neste ano. Os mercados emergentes pouco a pouco estão ocupando o espaço dos países desenvolvidos como mercado, especialmente a própria China, segundo argumenta Wang.

"Em três anos, a China importará US$ 5 trilhões em produtos estrangeiros", lembra ele (em 2010, a cifra passou de US$ 1,3 trilhão). "É um mercado grande, espaçoso, mas também muito competitivo." Apesar dos números e valores envolvidos, o interesse de vendedores brasileiros caiu neste ano, lamentou o executivo. No ano passado, três empresas foram a Cantão.

Além dos empresários, a Agência de Promoção de Exportações (Apex) reservou um pequeno estande na feira, mas para participação meramente institucional.

Custo das reservas atinge R$ 19 bilhões no 1º tri

A opção do governo brasileiro de manter elevado nível de reservas cambiais produziu custo fiscal de R$ 19,158 bilhões no primeiro trimestre deste ano. O valor corresponde a cerca de 40% do registrado no ano passado inteiro, que foi de R$ 48,529 bilhões. Vistas como um seguro anticrise, no entanto, as reservas internacionais seguem crescendo e atingiram US$ 350,88 bilhões no último dia 10, informou ontem o Banco Central (BC).

O custo de carregamento das reservas decorre principalmente da diferença entre as taxas de juro interna e externa. O BC paga taxa Selic sobre os recursos captados internamente, que é bem maior do que a remuneração recebida pelas aplicações das reservas no exterior. No primeiro trimestre de 2011, essa diferença representou R$ 11,108 bilhões.

A rentabilidade obtida lá fora foi de apenas 0,06% no período, ante um custo médio de captação interna de 2,24%, segundo informa o balancete do BC no trimestre. A incorporação de juro sobre as reservas foi positiva em 0,54%. Mas a remuneração total foi mais baixa porque houve queda no preço dos títulos e de outros ativos sujeitos à contabilização pelo valor de mercado (marcação a mercado).

O balancete não especifica que papéis se desvalorizaram. Apenas informa que, no fim de março, 85,18% das reservas estavam em títulos de dívida. Mas sabe-se que o Brasil aplica pesadamente em títulos do Tesouro americano, que recentemente tiveram o grau de classificação de risco rebaixado pela agência Standard & Poor's. No último relatório disponível, referente a dezembro de 2009, o BC informou que 74% do saldo, então de US$ 238,52 bilhões, estava aplicado em ativos nos Estados Unidos.

A parte restante do custo total de carregamento no trimestre (US$ 8,05 bilhão) refere-se ao efeito da taxa de câmbio sobre o valor das reservas em reais. Quedas do dólar resultam em variação negativa do saldo, neutralizando os ganhos com aplicações. Incluindo esse efeito, a rentabilidade foi negativa em 1,52%, ao invés de positiva.

Seja positivo ou negativo, o resultado do balanço do BC é sempre repassado ao Tesouro Nacional, que cobre o prejuízos ou recebe os lucros do ano anterior no início de cada ano. Daí a atenção de muitos economistas com o custo das reservas cambiais, que afeta negativamente o balanço da instituição.

Por outro lado, a acumulação de reservas dá à autoridade monetária capacidade de intervenção em momentos de baixa liquidez. Foi assim em 2008, quando as linhas para financiamento às exportações sumiram e o BC emprestou aos bancos US$ 13 bilhões.

Quando estourou a crise, em setembro de 2008, as reservas estavam em US$ 206 bilhões. Com as linhas de socorro e as vendas de dólares no mercado interbancário à vista para suprir escassez de recursos externos para financiar o balanço de pagamentos do país, caíram para US$ 193,78 bilhões.

Desde então, o BC aproveitou todos os momentos de fluxo líquido positivo de capitais estrangeiro para recomprar divisas. Graças sobretudo a essas aquisições, as reservas cambiais brasileiras já subiram 81% desde fim de 2008 e 21,6% só em 2011.

O presidente do BC, Alexandre Tombini, não vê nova falta de liquidez. Mas já deixou claro que, se isso ocorrer, o BC não hesitará em usar suas reservas para enfrentá-la.

Cresce entre economistas temor de recessão nos EUA



Phil Izzo e Ben Casselman The Wall Street Journal
12/08/2011

O risco de os EUA voltarem à recessão cresceu bastante devido ao golpe duplo da desaceleração no crescimento e das oscilações vertiginosas nas bolsas mundiais, segundo economistas entrevistados pelo "Wall Street Journal" na última semana.

Os 46 economistas que participaram da pesquisa - nem todos respondem a todas as perguntas - calculam uma chance de 13% de que os Estados Unidos já tenham entrado numa nova recessão, enquanto as chances de seguir por esse caminho ano que vem estão em 29% - ante 17% apenas um mês atrás.

O retorno à recessão não é uma certeza. A bolsa subiu ontem, em parte por causa de indícios tranquilizadores de que o mercado de trabalho dos EUA ainda não descarrilou de vez. Os pedidos iniciais de seguro desemprego caíram semana passada para 395.000, deixando o total abaixo do piso de 400.000 pedidos, que geralmente indica que a economia está criando mais empregos do que perdendo. Os temores de uma crise de dívida soberana na Europa também diminuíram ligeiramente.

Mas o cenário mais amplo é o de uma economia em que o crescimento desacelerou tanto que não precisa muito para empurrá-la para uma contração total. Uma recessão - segundo a Comissão de Definição do Ciclo Empresarial do Birô Nacional de Pesquisas Econômicas (NBER, na sigla em inglês), o grupo sem fins lucrativos considerado o juiz oficial das recessões - "é um declínio significativo na atividade econômica disseminado na economia e que dura mais que alguns meses". A comissão estuda o PIB, os dados do emprego e a renda para determinar quando as recessões começam e terminam.

O problema é que a comissão geralmente só declara o início da recessão bem depois de ela ter começado. O início oficial da última, em 2007, por exemplo, só foi anunciado em dezembro de 2008.

Para alguns economistas, a diferença entre uma recessão e o crescimento extremamente lento registrado até agora no ano é praticamente insignificante. "Provavelmente estamos discutindo apenas palavras a esta altura; a volta à recessão já está acontecendo", disse Paul Ballew, economista-chefe do Nationwide.

As revisões do PIB divulgadas no fim do mês passado mostram que a recuperação tem sido lenta, com crescimento no primeiro semestre menor que 1% a um índice anualizado e dessazonalizado. O segundo trimestre teve expansão de apenas 1,3% e, depois da divulgação ontem de um déficit comercial maior que o de junho, os economistas do Goldman Sachs sugeriram que o crescimento pode ser revisado ainda mais, para cerca de 0,9%. O crescimento mais lento do primeiro semestre levou os economistas entrevistados pelo WSJ a diminuir suas previsões para o restante do ano, bem como para o próximo. Eles calculam agora crescimento de apenas 1,6% para 2011 e meros 2,5% para 2012.

"A economia já foi atingida por uma série de choques este ano, então acho que só precisa mais um choque modesto para empurrá-la de volta à recessão", disse a economista Michelle Meyer, do Bank of America.

Ela citou a turbulência na Europa como o choque mais provável por trás disso, com boas chances de contaminar os EUA. Outra possibilidade é a volatilidade recente em Wall Street.

"Com certeza, isso aumenta o risco de uma volta à recessão", disse Steve Blitz, economista sênior da ITG Investment Research, em Nova York. "É difícil que não contribua para isso." Grandes quedas nas bolsas, disse Blitz, podem levar as pessoas a diminuir o consumo, o que pode prejudicar ainda mais uma economia já enfraquecida. O efeito pode ser especialmente visível no consumo dos americanos ricos, que têm mais aplicações na bolsa - e cujos gastos até agora eram uma das poucas fontes de otimismo.

Alguns analistas estão mais otimistas. Maury Harris, economista-chefe do UBS para os EUA, afirmou que vê um risco relativamente pequeno de uma volta à recessão. Ela disse que muitos economistas estão concentrados demais na falta de opções do governo e ignoram os sinais de que a economia já está melhorando por conta própria. A cotação do petróleo está em queda, o que pode permitir às pessoas gastar menos no posto de gasolina e mais em outras coisas. Enquanto isso, os bancos estão aumentando a concessão de crédito tanto para pessoas físicas quanto para empresas.

Mas a pesquisa mostra como um elemento crucial da economia - o mercado de trabalho - continua sob forte pressão. Os economistas preveem que o desemprego ainda será de 9% no fim do ano, ante os atuais 9,1%. Eles calculam que a economia vai criar em média apenas 145.000 empregos por mês nos próximos 12 meses, praticamente suficiente para absorver o crescimento populacional, mas pouco para os 13,9 milhões que continuam procurando emprego no país.

Outros fatores estão prejudicando a economia americana, como notou o Federal Reserve, o banco central do país, na previsão sombria divulgada em seu comunicado desta semana. O Fed apontou para o fraco consumo das famílias, a deterioração do mercado de trabalho e a desvalorização do mercado imobiliário.

De fato, os economistas continuam prevendo que a construção civil continuará num nível moribundo até 2012. Eles acham que o preço dos imóveis vai cair 3% este ano e subir apenas 1,5% ano que vem. O Fed também expressou temores de que fatores temporários como a alta no preço do petróleo no início do ano e os problemas de cadeia de suprimento causados pelo terremoto no Japão são apenas parte do que está enfraquecendo a economia.

Déficit comercial americano tem alta inesperada

As empresas americanas venderam menos motores industriais, geradores elétricos e produtos agrícolas ao resto do mundo em junho, levando o déficit na balança comercial para o mais alto nível desde outubro de 2008.

O déficit teve um aumento de 4,4% em junho, atingindo US$ 53,1 bilhões, de acordo com relatório divulgado ontem pelo Departamento do Comércio dos EUA. As importações caíram 0,8% (US$ 223,9 bilhões), em grande parte devido à primeira queda do petróleo em nove meses. As exportações recuaram 2,3% (US$ 170,9 bilhões), o maior declínio em mais de dois anos.

A queda nas exportações pelo segundo mês consecutivo alimenta os temores de que uma desaceleração global comprometa a economia americana, que corre o perigo de estagnar.

O déficit anual até junho já está em US$ 576,6 bilhões, 15,3% a mais do que o de 2010. A alta no déficit surpreendeu analistas, que esperavam um resultado melhor em função da queda do petróleo. Um déficit maior na balança é prejudicial para o crescimento da economia dos EUA porque significa que os consumidores estão comprando mais produtos estrangeiros e menos produtos fabricados por trabalhadores americanos.

"A verdadeira deficiência está nas exportações e é consistente com o menor crescimento no resto do mundo", disse Jay Bryson, economista do Wells Fargo. Segundo ele, "a contribuição das exportações [ao crescimento] vai ser um pouco mais instável".

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Mais crise, mais dólar


O Estado de S. Paulo - 11/08/2011
Alberto Tamer
Enquanto as bolsas continuam caindo lá fora, os investidores correram para os títulos do Tesouro americano, aqueles mesmos que a Standard & Poor"s pretendia desvalorizar reduzindo a nota de crédito dos Estados Unidos. São os mais seguros (e menos rentáveis) neste vendaval que assola os mercados nos dois lados do Atlântico.

A opção para os títulos americanos, são os títulos americanos, comentou o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, com o qual todos concordam. No momento, apenas China, Japão, Grã-Bretanha e Brasil detêm 58% de todos os títulos do Tesouro americano. E estão comprando mais por falta de opção. O que todos temem, agora, não é a incapacidade de os EUA não honrarem sua dívida, mas o risco maior de recessão.

O bom e o mau.
Quais as consequências de tudo isso para o Brasil?
Muitas, mas nem todas são negativas. O preço das commodities está recuando com a fuga das aplicações de risco. O índice das commodities em geral está ainda valorizado no ano (28%), mas aumentou apenas 1,5% na última semana. E tendem a recuar mais. Motivos: fuga do risco para títulos americanos e menor demanda provocada pela desaceleração econômica, que se acentua. Tudo isso é bom e mal para o Brasil. Bom, porque reduz a pressão de alta sobre os preços dos alimentos e derivados de petróleo que alimentam a inflação e, ao mesmo tempo, deve conter a entrada de dólares decorrente das exportações de matérias-primas. Ao lado das aplicações financeiras, essa é a porta de entrada até agora escancarada por onde entra a moeda americana. Mas é mal porque enfraquece a balança comercial. Muitos analistas já estimam que o superávit deve ficar ainda em US$ 10 bilhões este ano porque os contratos já estão fechados, mas pode virar déficit em 2012. Não seria de todo mal considerando as reservas de US$ 343 bilhões, mas também não é bom diante da crise lá fora que pode conter os investimentos.

Juro compensa. A decisão do Fed de manter juros reais negativos no mínimo por mais dois anos, vai atrair mais investidores para papéis do Brasil. Mesmo que o BC venha a reduzir os juros, o diferencial entre a taxa interna e externa é enorme. Juro real negativo lá fora, e 6% aqui, descontada a inflação. E isso num mercado de menor risco, com reservas cambiais que podem ser usadas.

O que eles dizem lá fora?

Os economistas mais respeitados no exterior estão preocupados, mas se recusam a aceitar o clima de pânico que dominou as bolsas. Entre eles, dois prêmios Nobel, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, aos quais se juntou o não menos respeitado Kenneth Rogoff. O erro foi considerar que a economia americana (e europeia também) tinha saído da recessão. A solução? Rogoff, Krugman e Stiglitz rompem de alguma forma com os ortodoxos e não aceitam a teoria de cortar gastos para reduzir a dívida mesmo com risco de recessão. A saída é atrair investimentos privados, afrouxar a política monetária, criar e injetar dólares no mercado. Até aceitam mais inflação.

Bom para eles, não para nós. O banco central americano pode anunciar ainda este mês nova compra de títulos (QE 3), agora de Estados e municípios, injetando mais alguns bilhões ou trilhões de dólares no mercado. Ruim para o Brasil, pois desvaloriza ainda mais a moeda americana, bom para eles que estão dizendo aos consumidores americanos, venham, peguem dinheiro a custo zero e saiam comprando. Ou se cria emprego a qualquer custo, ou a economia mundial vai continuar assim ainda por alguns anos.

O que se espera? O mercado previa ontem que os bancos centrais aumentarão as intervenções no mercado e que, de uma forma ou de outras, os EUA vão adotar medidas fiscais e monetárias para reanimar a economia. Quanto ao Brasil, o BC aumentou as reservas em US$ 150 bilhões nos últimos meses e ainda ontem comprou mais dólares. No mais, é manter e não desestimular a demanda interna que foi fortalecida pela entrada no mercado de 35 milhões de consumidores. Deu certo em 2008, quando a crise era pior. Pode dar certo agora.

TV CLIPES


AUTORIDADES DISCUTEM CRISE FINANCEIRA
10/08/2011 - 21:55 - GLOBO NEWS, CONTA CORRENTE 2ª EDIÇÃO
O PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL, ALEXANDRE TOMBINI, afirmou que a nossa economia continua suejita a sobressaltos, mas está preparada.
* ALEXANDRE TOMBINI, PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL
Âncora: Nenhum âncora cadastrado.
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GOVERNO ANUNCIA MAIS UMA MEDIDA PARA INCENTIVAR PRODUÇÃO NACIONAL
10/08/2011 - 21:55 - GLOBO NEWS, CONTA CORRENTE 2ª EDIÇÃO
O governo anunciou mais uma medida para incentivar a produção nacional. As importações de bens de capital, informática e telecomunicação não poderão mais ser realizadas com alíquotas de importação reduzidas.
* Carlos Nunes, estrategista HSBC
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CNI:PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL AFIRMA QUE BRASIL ESTÁ PREPARADO PARA ENFRENTAR A CRISE 10/08/2011 - 21:00 - TV BRASIL, REPÓRTER BRASIL NOITE
Em Brasília, o governo fez mais um dia de reuniões pra discutir os efeitos da crise mundial no país. O presidente do BANCO CENTRAL disse que o cenário é desafiador.
No Planalto, a PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF se reuniu com o conselho político para mais uma vez pedir o apoio dos parlamentares diante dos problemas mundiais que podem ter reflexo no país.
* ALEXANDRE TOMBINI, presidente do BANCO CENTRAL.
* Melvyn Fox, presidente da Abramat.
* Luigi Nese, presidente da CNS.
* ROBSON BRAGA DE ANDRADE, presidente da CNI.
Âncora: Ana Luísa Médici, Carla Ramos, Florestan Fernandes, Lincoln Macário e Luciana Barreto
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Petrobras prevê petróleo acima dos US$ 100


O recuo das cotações do petróleo para menos de US$ 100 o barril quando estourou a crise da dívida americana e a zona do euro entrou em turbulência foi apenas temporário, afirmou Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento da Petrobras. Para Costa, responsável por toda compra e venda de combustível da Petrobras, o preço médio do petróleo ficará entre US$ 100 e US$ 110 o barril nos próximos dois a três anos, sustentado por uma demanda que continuará crescendo e pela queda natural da produtividade nos campos de produção da commodity.

Costa informou que a previsão é que a demanda mundial de petróleo vai crescer dos atuais 88,5 milhões a 89 milhões para 110 milhões de barris por dia em 2020, mesmo que as economias avançadas patinem, puxada pelos mercados emergentes. Os maiores consumidores são, atualmente, os Estados Unidos, com 20 milhões de barris por dia, dos quais 9 milhões para gasolina, e a China, com 9 milhões barris por dia, dos quais produz apenas um terço e importa todo o restante e é um dos principais compradores do produto brasileiro. O Brasil, atualmente oitavo maior consumidor mundial, com 2,15 milhões de barris por dia, dos quais 1,15 milhão são produzidos internamente, passará a quarto maior em 2020, com consumo de 3,2 milhões de barris por dia. Esse é um dos motivos pelos quais a Petrobras está construindo cinco novas refinarias no país, afirmou Costa.

No Brasil, contou o executivo, o consumo de derivados líquidos tradicionalmente sempre cresceu menos do que a economia - cerca da metade - até que essa correlação foi quebrada em 2010, quando o crescimento da classe C aumentou as compras de automóveis e as viagens aéreas. Em 2010, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 7,5%, o consumo de derivados líquidos de petróleo aumentou 10%; o de gasolina, 19%; e o de querosene de avião, 17%. No primeiro semestre deste ano, o consumo de derivados líquidos de petróleo cresceu 6,6% enquanto a previsão para o PIB foi de variação ao redor de 4%.

O preço do petróleo teve forte alta ontem em Nova York e em Londres com o relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) de que a demanda da commodity pode cair e com os investidores acompanhando as turbulências nos mercados internacionais, com importantes baixas nas bolsas de valores.

Em Nova York, o WTI para setembro registrou alta de US$ 3,59, para US$ 82,89. O vencimento de outubro ficou em US$ 83,25, expansão de US$ 3,58. Em Londres, o Brent para setembro subiu US$ 4,11, cotado a US$ 106,68. O contrato de outubro teve alta de US$ 4,10, saindo a US$ 106,62.

A agência de energia notou que a debilidade econômica pode diminuir o consumo de petróleo. A agência citou, por exemplo, as preocupações com os altos níveis de endividamento na Europa e nos Estados Unidos.

Também nesta jornada, o governo americano mostrou que as reservas de petróleo do país recuaram em 5,2 milhões de barris na semana passada, em relação à anterior, para 349,8 milhões de barris. Os estoques de gasolina caíram em 1,6 milhão de barris e os de destilados, em 700 mil barris.

A alta do petróleo seguiu na contramão da nova queda dos mercados de ações, em especial nos principais pregões da Europa. (Com agências internacionais)

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FLUXO DE CAPITAIS


VALOR 11/08
Em meio às preocupações do mundo com a situação fiscal dos Estados Unidos e de países da Europa, os primeiros números de agosto do mercado primário de câmbio dão sinais de desaceleração do ingresso de capitais externos no Brasil. O movimento de compra e venda de moeda estrangeira liquidamente até gerou déficit, de US$ 362 milhões, nos primeiros cinco dias do mês, se excluídas as operações vinculadas ao comércio exterior.

Isso significa inversão do fluxo líquido de julho passado, quando os negócios no segmento financeiro do mercado doméstico de câmbio resultaram em entrada de expressivos US$ 9,57 bilhões.

Esse segmento engloba todas as operações que impactam a conta financeira do balanço de pagamentos externos do país e, por isso, pode ser visto como indicador da tendência do movimento de capitais estrangeiros.

Em termos brutos, nos cinco primeiros dias de agosto, até houve ingresso de moeda estrangeira pelo segmento financeiro do mercado cambial, de US$ 6,745 bilhões. Ainda assim houve déficit de US$ 362 milhões porque as saídas alcançaram US$ 7,1 bilhões no período. Comparada com a de julho inteiro, a média diária de ingressos brutos caiu no início de agosto, de US$ 1,87 bilhão para US$ 1,35 bilhão. Ou seja, olhando só o ingresso também se vê redução do ímpeto dos investidores estrangeiros. Já a média diária de saídas pelo mesmo segmento registrou ligeira elevação, de US$ 1,41 bilhão para US$ 1,42 bilhão.

Somando-se as operações cambiais vinculadas ao comércio, o fluxo ainda segue positivo nesse início de mês, período em que foi registrado ingresso líquido de US$ 3,79 bilhões. A média diária, nesse caso, é até superior à de julho, mês em que o fluxo cambial total do mercado primário foi positivo em US$ 15,8 bilhões. Na média, entraram por dia útil, em agosto, US$ 753,5 milhões aproximadamente, ao passo que em julho a média ficou em US$ 715,8 milhões.

Comparativamente a igual período de 2010, quando foi de US$ 1,79 bilhão, a entrada de dólares também subiu e praticamente dobrou no total de operações do mercado primário. Isoladamente, o segmento vinculado ao comércio gerou superávit de US$ 3,94 bilhões de 1 a 5 de agosto, resultado de uma oferta de US$ 7,05 bilhões pelos exportadores e demanda de US$ 3,11 bilhões pelos importadores.

Em julho, o fluxo positivo dessas operações também foi alto (US$ 6,25 bilhões). Mas o do segmento financeiro foi ainda maior.

No acumulado do ano, a entrada líquida de moeda estrangeira agora soma US$ 59,23 bilhões, dos quais US$ 32,85 bilhões ligados a outras operações que não de comércio do país com o exterior. No segmento comercial, o saldo acumulado no ano é de US$ 26,38 bilhões até dia 5 de agosto.

A sobra de moeda estrangeira no mercado primário, que refere-se apenas a contratos entre bancos e clientes, permitiu ao Banco Central continuar suas intervenções de compra no interbancário. O BC agregou a suas reservas cambiais US$ 2,17 bilhões nesses cinco dias, US$ 1,3 bilhão dos quais relativos a compras feitas até dia 3. Como o dado de reserva é informado pelo critério de liquidação, que difere em dois dias úteis do de contratação, não se sabe ainda o valor exato das contratações feitas até dia 5 pelo BC. O valor liquidado de compras elevou as reservas cambiais para US$ 348,5 bilhões até dia 5. Mas ontem elas já estavam em US$ 349 bilhões.

O BC não informou o novo saldo da carteira de câmbio dos bancos (os dados são atualizados apenas no fim do mês). No fim de julho, a posição cambial do sistema financeiro ainda estava vendida (dólares a entregar) em US$ 6,3 bilhões. Mas em relação a junho, quando era de US$ 14,69 bilhões, houve relevante redução nessas posições.

RECORDE NO OURO

Em meio ao crescimento do clima de aversão ao risco, o ouro ampliou os ganhos ontem. Os contratos futuros do metal fecharam em US$ 1.784 a onça-troy, alta de 2,4%. Durante o pregão, atingiram nível recorde de US$ 1.801 a onça-troy. Na semana, o ouro acumula 8% de alta, o melhor desempenho em três dias desde 2008. A demanda pelo metal aumenta com as tentativas de investidores de se afastarem de ativos de maior risco, em busca de um porto seguro.

Empresas e consumidor já cortam gastos nos EUA


Valor 11/08
O colapso do mercado nesta semana está confirmando o que muitos empresários e consumidores já pensavam: que a economia americana se inclina a voltar para a recessão e, portanto, eles precisam se agarrar a cada centavo.

O perigo agora é uma nova espiral de queda, em que empresas e consumidores começam a cortar ainda mais agressivamente os seus gastos enquanto esperam para ver o desenrolar da crise.

Mas empresas como a Terex, fabricante de equipamentos pesados, entraram num ritmo de aperto de cintos antes mesmo que os mercados entrassem em parafuso.

Ron DeFeo, diretor-presidente da Terex, há várias semanas ordenou a diretores de várias unidades, que estão crescendo, para encontrar maneiras de reduzir o pessoal.

"A forma como os mercados estão agindo reflete a maneira como muitos líderes empresariais vinham se sentindo" muito antes da volatilidade do mercado, disse ele.

Para uma economia já à beira de uma crise, tal precaução pode muito bem ser a diferença entre crescimento e recessão. O Produto Interno Bruto (a soma total de bens e serviços produzidos no país e a medida mais ampla do crescimento econômico) cresceu a uma taxa anualizada de menos de 1% nos primeiros seis meses de 2011. Umas poucas decisões de atrasar gastos poderiam empurrar a taxa de volta ao território negativo.

"Os consumidores vão decidir se teremos um segundo semestre melhor ou não", disse Dean Maki, economista-chefe para os EUA do Barclays Capital, em Nova York.

Rick DeToto, advogado de 39 anos do Texas, diz que não está surpreso com a onda de pânico em Wall Street. "É o que todo mundo que conheço vinha sentindo", diz. "Não acho que havia ninguém muito confiante sobre a economia." DeToto tem reduzido seus gastos cortando, por exemplo, os passeios de US$ 150 ao aquário local que seus dois filhos adoram.

À medida que os consumidores gastam menos, as empresas reagem com suas próprias medidas. George Carey, proprietário do Finz, um restaurante de mariscos em Massachusetts, diz que seus clientes vão reagir à queda das bolsas e que, por isso, ele também vai. Quando fizer o pedido semanal de vinhos, na segunda-feira, diz, vai comprar menos das garrafas sofisticadas e caras, na expectativa de que seus clientes farão o mesmo.

"Meu padrão de compra vai mudar esta semana", diz Carey. "Agora, se meus clientes comprarem vinho, vão comprar as garrafas de US$ 25 a US$ 30 em vez de US$ 45."

Carey disse que seu restaurante à beira-mar esteve movimentado nesta temporada de verão nos EUA, mas ele não pôde aumentar os preços apesar da alta nos custos dos alimentos. A reviravolta dos últimos dias só reforça a necessidade de cautela. Carey diz que planejava gastar cerca de US$ 50 mil em reformas, mas agora vai esperar até o próximo ano e reavaliar.

Nicholas Bloom, professor de economia na Universidade Stanford que estudou como a incerteza econômica afeta o ciclo de negócios, diz que tal sentimento pode ser uma profecia autorrealizável. À medida que os consumidores e empresas recuam em meio a uma fraca recuperação econômica, suas preocupações sobre um novo mergulho na recessão poderiam levá-los a cortar ainda mais os gastos - e provocar a recessão que eles próprios temem.

Bloom estudou mais de seis choques de incerteza, desde o assassinato do presidente John F. Kennedy até escândalos contábeis que derrubaram empresas como a Enron e a WorldCom no início dos anos 2000, e concluiu que cada choque é geralmente seguido por uma forte, mas breve, recessão. Os setores mais afetados são os chamados bens duráveis, produtos mais caros como carros e computadores que são produzidos para durar mais de três anos e cuja aquisição pode geralmente ser adiada por alguns meses.

"Se todos adiarem planos para investir em novos produtos, teremos uma recessão curta e acentuada", afirmou Bloom.

Os governos, que ainda têm de recuperar o pico de arrecadação fiscal de 2008 e cujo reduzido ritmo de gastos afeta o crescimento no curto prazo, já tinham apertado os cintos quando a recente volatilidade do mercado começou.

Na segunda-feira, o diretor de orçamento do Estado de Washington, no noroeste dos EUA, Marty Brown, enviou um memorando dizendo que todos os diretores de agências estaduais precisavam preparar 10% em cortes adicionais, que poderiam ter de ser efetivados se a economia não se aquecer.

Brown observou que, depois de cortar o orçamento nos últimos três anos, isso não é nada de novo.

"Apesar de difícil, não estamos começando esta análise a partir do zero", escreveu no memorando, notando que os diretores de agências já tinham preparado uma longa lista de cortes antes do orçamento 2011-2013, que entrou em vigor em julho.

Da mesma forma que os gastos do governo diminuem, as empresas terão de tomar providências. Mas as recentes turbulências tornam menos provável que elas vão fazê-lo.

John Clemenzi, que administra um parque industrial em Beverly, Massachusetts, disse ter visto alguma melhora no final de 2010 e início de 2011, à medida que empresas começaram a assinar contratos para espaços no parque.

Mas esse impulso acabou, e Clemenzi disse que estava adiando ainda mais projetos de manutenção que já estão atrasados. Ele também está adiando planos de contratar pessoal.

"Vamos só para preservar os ativos que temos, todo o dinheiro que temos", disse. "Preciso de uma equipe, mas não estou contratando ninguém. Na verdade, estou estudando novos cortes, porque não sei que direção isso vai tomar."

Indústria acumula estoques indesejados


Valor 11/08
A indústria começou o segundo semestre com estoques elevados - e, em alguns casos, crescentes, como no setor automobilístico. O acúmulo de inventários indesejados é mais um fator a apontar para um desempenho fraco da atividade industrial nos próximos meses, que já sofre com a feroz concorrência do importado e com a dificuldade em exportar, devido ao câmbio valorizado, e terá de enfrentar um período de maior incerteza na economia global.

Com informações quantitativas sobre o nível de estoques, os setores de automóveis e de distribuição de aço mostram um quadro pouco animador. Números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) revelam que, em julho, os inventários atingiram o nível recorde de 367,1 mil unidades, 25 mil a mais do que no mês anterior.

"Isso representa um número crítico, equivalente a 36 dias de vendas", nota o economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero. Segundo o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, estoques normalizados correspondem a cerca de 27 dias de vendas.

Montero diz que esse volume de inventários "obrigará um primeiro ajuste na produção, transitório, que leve os estoques a níveis mais condizentes com as vendas projetadas". Ele observa ainda que o" fato de os estoques estarem aumentando 25 mil carros por mês significa uma produção rodando esse tanto acima da demanda final [considerando aí as vendas internas e externas, excluindo as importações]." O cenário, segundo ele, é de mais desaceleração. A produção de veículos automotores, que cresceu 24% em 2010, aumentou no primeiro semestre 6,2% sobre igual período do ano passado.

No setor de distribuição de aço, a situação também não é das melhores em termos de estoques. Em junho, os inventários equivaliam a 3,7 meses de vendas, somando 1,213 milhão de toneladas. Segundo o presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Loureiro, estimativas preliminares apontam que, em julho, esse número caiu para 3,4 meses, ainda assim um nível elevado. "O mais confortável, para nós, é que os estoques sejam equivalentes a algo como 2,5 meses de vendas", diz ele. Esse é o nível que vigorava em setembro de 2008, quando a economia real ainda não havia sentido com força o impacto do agravamento da crise global e o Brasil crescia de modo robusto.

"Tudo o que o setor não precisa agora é de uma nova crise", diz Loureiro, observando, porém, que ainda não se sabe a extensão da nova turbulência, por ora bem menos grave que a de 2008. De qualquer modo, a expectativa para os próximos meses é que o setor tente ajustar os inventários, o que acena com desempenho ruim para o segmento. Loureiro estima hoje um crescimento de apenas 5% para a distribuição de aço em 2011. Na virada do ano, ele chegou a projetar um aumento de 15%.

Indicadores qualitativos sobre estoques também apontam para um acúmulo indesejado de inventários nos últimos meses. É o caso do índice da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que compara o estoque efetivo com o planejado pelas empresas. Ele subiu de 51 pontos, em maio, para 53 pontos em junho - acima de 50, o número indica que mais companhias relatam ter inventários acima do planejado do que abaixo. O indicador da CNI mostra que o acúmulo de estoques indesejados foi mais expressivo nas empresas de grande porte - o número subiu de 51,4 em maio para 54,2 pontos em junho -, mas também se deu nas companhias de pequeno e médio porte.

Dos 26 setores acompanhados pela sondagem da CNI, 17 registraram um indicador superior a 50 pontos. Houve forte acúmulo de estoques em setores como os de têxteis, calçados, máquinas e equipamentos, material elétrico e de comunicação e material de transporte e outros equipamentos de transporte. Alguns deles são os que têm sofrido muito com a competição do produto importado, como é o caso dos quatro primeiros.

A Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getulio Vargas (FGV), por sua vez, indicou a continuidade do acúmulo de estoques em julho. A fatia de empresas que informaram ter inventários acima do desejado subiu de 5,3% em junho para 6,6% em julho. Ao mesmo tempo, a parcela das que relatam estoques insuficientes caiu de 3,3% para 2,2%.

O comportamento dos estoques aponta para um terceiro trimestre difícil para a indústria, que pode ficar ainda mais complicado caso a crise de fato se agrave e ganhe proporções maiores. Depois de crescer 10,5% em 2010, a produção industrial deve ter uma expansão muito mais fraca neste ano. Montero considera um número na casa de 2% como factível - no primeiro semestre, houve alta de 1,7% sobre igual período de 2010.

Depois do fraco resultado da indústria em junho, quando houve recuo de 1,6% em relação a maio, feito o ajuste sazonal, o economista Alexandre Antunes, da MCM Consultores Associados, revisou a sua estimativa para o setor de 3,8% para 2,5%. O efeito negativo do câmbio valorizado, o aumento do custo da mão de obra e a fraqueza das economias desenvolvidas apontam para um cenário difícil para a indústria, que terá de lidar com estoques elevados.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SALDÃO DA CRISE


VALOR 10/08
A queda de 13,04% do Índice Bovespa neste mês, que elevou para 26,19% as perdas no ano até ontem, abriu uma série de oportunidades na bolsa para o investidor que tem sangue-frio e que acredita que pode obter ganhos no longo prazo, apesar da forte volatilidade vista nos últimos dias. Mesmo a trégua do mau humor visto ontem, com o Ibovespa em alta de 5,10%, não foi suficiente para tirar a atratividade de muitas ações.

Levantamento realizado pelo Valor Data mostra que, das 58 empresas com balanço consolidado que compõem o Índice Bovespa, 21 delas, ou 36,20%, vêm sendo negociadas abaixo de seu valor patrimonial, ou seja, abaixo do patrimônio líquido da empresa. Só para se ter ideia, no início deste ano, apenas seis companhias eram negociadas abaixo de seu valor patrimonial. O estudo considerou apenas uma ação por empresa, a de maior liquidez.

Batizado de P/VPA (preço sobre valor patrimonial), este é um indicador bastante usado pelos analistas para saber se um papel está caro ou barato. Quando esse índice está abaixo de 1, pode significar que a companhia está uma barbada, ou seja, se mostra subavaliada em relação aos ativos que possui. Claro que o investidor não deve olhar apenas o P/VPA na hora de escolher um papel, já que, isoladamente, ele não mostra que a empresa é um ótimo negócio. Mas o índice pode dar uma ideia do potencial de valorização de uma ação, principalmente quando se fala de papéis que compõem o Ibovespa.

Nos últimos dias, quando o pânico tomou conta do mercado diante das expectativas de uma recessão nos Estados Unidos, desaceleração do crescimento global e dúvidas com a solvência de Itália e Espanha, as pessoas passaram a vender suas ações de maneira muito pouco racional, diz Alexandre Espírito Santo, economista da Way Investimentos e professor de finanças da ESPM-RJ e Ibmec-RJ. Para ele, o fato de vários papéis estarem sendo negociados abaixo do patrimônio líquido da empresa já é um sinal de que as vendas são fruto de um movimento de pânico, sem que o investidor olhe os fundamentos das empresas.

Entre as companhias negociadas abaixo de seu valor patrimonial e que integram o Ibovespa aparecem, por exemplo, as preferenciais (PN, com direito a voto) da Petrobras, as ordinárias (ON, com voto) da empresa de bens de consumo Hypermarcas, além de Gafisa ON, Gol PN e Gerdau PN. As empresas de telefonia Brasil Telecom e Telemar também integra a lista.

O forte movimento de vendas dos últimos dias foi comandado principalmente pelos investidores locais, enquanto os estrangeiros continuaram a colocar dinheiro na bolsa brasileira. Em agosto, até o dia 5, a entrada líquida (compras menos vendas) de recursos externos na bolsa foi de R$ 382,4 milhões. Na ponta oposta, os institucionais acumulam saída de R$ 727,5 milhões, enquanto o investidor pessoa física mostrou retirada líquida de recursos de R$ 356,7 milhões. Mas os dados ainda não contemplam a movimentação de segunda-feira, quando o Ibovespa caiu 8,08%.

Em momentos de pânico, a maioria dos investidores vende suas ações a qualquer preço e é quando surgem ótimas oportunidades, afirma Paulo Levy, diretor-executivo da Icap do Brasil. Para ele, a volatilidade da bolsa deve continuar alta e as chances de novas perdas não podem ser descartadas. Esse tipo de distorção, no entanto, de empresas sendo negociadas abaixo de seu valor patrimonial, deve ser eliminada. "O investidor com visão de médio prazo pode se aproveitar para comprar ações a preços mais baixos."

Na avaliação de Levy, o cenário atual é complicado diante da possibilidade de uma recessão, mas nada que se compare ao risco sistêmico visto durante a crise de 2008. O desespero apresentado pelos investidores, no entanto, foi praticamente o mesmo visto há três anos, diz o executivo, que continua acreditando nos bons desempenhos dos setores de consumo e bancos.

Há uma semana, ao analisar um universo de 265 ações da Bovespa, o professor Espírito Santo constatou que 23% delas estavam sendo negociadas abaixo do valor patrimonial. Agora, dias depois, esse número subiu para 33,5%. "E os números mostram que as empresas brasileiras vêm apresentando resultados interessantes, portanto, neste momento é preciso sangue-frio para não sair vendendo papéis bons", diz ele.

A queda da bolsa trouxe tantas oportunidades que escolher hoje uma boa ação não requer prática nem experiência, brinca Fernando Camargo, sócio da Orbe Investimentos. "Momentos como este são bons não apenas para olhar novas oportunidades, mas para elevar a exposição em boas ações que já estavam em carteira", diz. Ele ressalta ainda que mesmo fora do Ibovespa há papéis em níveis bastante interessantes, como GP ou BicBanco.

Produção industrial de São Paulo cai 1,5% em junho


Valor 10/08
A queda de 1,6% na produção industrial em junho foi espalhada em nove das 14 regiões analisadas pelo IBGE, conforme divulgado ontem na Pesquisa Mensal Industrial regional. Analistas, no entanto, consideram mais preocupante o recuo de 1,5% na indústria de São Paulo, a mais diversificada do país, que havia crescido 1,3% em maio, depois de recuar 3,8% em abril. No segundo trimestre, a produção do setor fabril paulista teve queda de 1,3%, perdendo boa parte do crescimento de 2% nos primeiros três meses de 2011.

Segundo economistas, o quadro de crise internacional que está se desenhando pode agravar ainda mais a situação da indústria brasileira ao estimular as importações em mercados alternativos ao europeu e americano e, por outro lado, enfraquecer o consumo de bens duráveis no mercado interno.

O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza, ressalta que o mau desempenho foi generalizado nos segmentos industriais de São Paulo, o que salienta a tendência de queda da indústria como um todo, mesmo com os movimentos mensais oscilatórios registrados pelo IBGE. No segundo trimestre, o instituto mostrou encolhimento da produção em 14 dos 20 ramos pesquisados em São Paulo, com destaque para veículos automotores, com recuo de 4,5%; alimentos, cuja produção caiu 8%; e máquinas e equipamentos, com variação negativa de 0,5%.

"São Paulo mostra que a indústria de fato não está em um bom momento. Esses resultados agravam nossas previsões", disse Souza, que vai revisar para baixo sua projeção de 3% de expansão do setor nacional para o fim do ano. "Já temos problemas internos, que somados a esse novo cenário externo de crise, não devem favorecer a economia brasileira e muito menos a indústria."

Há analistas que já trabalham com possibilidade de retração no setor ao fim do ano. "A indústria não foge do negativo na metade do ano e fica a dúvida se ela consegue reverter esse quadro até dezembro", diz Arício Menezes, professor da Fundação Getulio Vargas e consultor da Pezco. Como barreiras a um resultado positivo para o setor industrial em 2011, ele aponta a desaceleração do crédito, do consumo e, agora, o cenário de crise externa em desenvolvimento. "Fica difícil conseguir mercado externo com aquele 'empurra empurra' de mercadorias e sofre-se um assédio de importações."

Com a confirmação de uma nova crise, os setores industriais mais afetados, segundo os analistas ouvidos, seriam os de bens de consumo duráveis, como automóveis e eletrodomésticos, dependentes de crédito e de maior confiança do consumidor. Além deles, pioraria também a situação dos segmentos que já estão sofrendo mais com a concorrência do importado, como têxteis e calçados, já que, com a deterioração nos mercados das economias desenvolvidas, as exportações asiáticas se voltariam cada vez mais para a América Latina.

"Estamos num quadro no qual pode se agravar a guerra comercial", avalia Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. "O mercado latino-americano é apenas uma fração do europeu e do americano. Pode ser uma oferta muito grande de produtos para um mercado relativamente modesto". Menezes, da Pezco, nota que em 2009 já houve um ciclo de renovação de carros e eletrodomésticos com a redução do IPI, e que, mesmo sem crise, dificilmente o consumo desses produtos neste ano e no próximo seria igual ao daquela época.

No setor têxtil, que já acumula resultados ruins no primeiro semestre, as perspectivas são de piora com uma nova crise à vista, diz Rui Altennburg, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc). A queda de 4,4% na indústria catarinense no semestre foi influenciada por uma queda de 19,6% da produção têxtil no período, o que, para Altennburg, está relacionado ao aumento das importações, à alta no algodão e aos pesados custos do setor. "Nossas exportações não pioraram porque elas já não existiam", afirma.

TELINHA


CHARGE DE CHICO CARUSO
09/08/2011 - 23:30 - GLOBO, JORNAL DA GLOBO
Charge de Chico Caruso.
* Assunto: Crise econômica.
Âncora: William Waack e Cristiane Pellajo
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TEMA DE HOJE: RUMOS DA ECONOMIA MUNDIAL
09/08/2011 - 22:40 - GLOBO NEWS, ENTRE ASPAS
Tema de hoje: Rumos da economia mundial.
* José Roberto, ex-Secretário de Política Econômica.
* Gustavo Loyola, ex-Presidente do BANCO CENTRAL.
Âncora: Mônica Waldvogel.
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MANTEGA DIZ QUE ECONOMIA GLOBAL SOFRERÁ POR DOIS ANOS
09/08/2011 - 18:00 - BANDNEWS, BANDNEWS (NOITE)
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, falou hoje no plenário da CÂMARA DOS DEPUTADOS. Ele afirmou que a piora da classificação de risco dos títulos da dívida dos Estados Unidos fará com que a economia global tenha problemas pelos próximos dois anos.
Âncora: Caroline Nogueira.
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TOMBINI: ''INFLAÇÃO VOLTARÁ AO CENTRO EM 2012''
14:00 - BANDNEWS, BANDNEWS (TARDE)
O presidente do BANCO CENTRAL, ALEXANDRE TOMBINI, reafirmou nesta quarta-feira em Brasília que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo voltará ao centro da meta - de 4,5% - em 2012.
* ALEXANDRE TOMBINI, presidente do BANCO CENTRAL.
Âncora: Nelson Gomes
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BOLHA IMOBILIARIA


Diretor do BC refuta existência de bolha no setor imobiliário
Estado de São Paulo - 9/8/2011

Luiz Awazu Pereira afirmou que mesmo que não exista preocupação de uma eventual bolha, o BC segue atento para assegurar a solidez no desenvolvimento desse mercado

Fabio Graner e Fernando Nakagawa, da Agência Estado

BRASÍLIA - O diretor de assuntos internacionais e de regulação do sistema financeiro, Luiz Awazu Pereira, destacou nesta segunda-feira, 8, em seminário sobre crédito imobiliário promovido pela Cetip que é preciso desenvolver fontes alternativas à caderneta de poupança para viabilizar o crescimento da oferta de financiamento de imóveis. "Nosso objetivo é o crescimento do crédito imobiliário com segurança", disse, destacando a importância de buscar reduzir o déficit habitacional do País.
Segundo ele, o Banco Central tem buscado contribuir com esse processo por meio de uma regulação que estimule a securitização de recebíveis, mas com segurança, para evitar situações como a dos Estados Unidos, onde o processo de securitização sem controles levou à crise de 2008.
O diretor também disse que o BC apoia a criação de índices de preços de imóveis, que permitam um melhor acompanhamento do setor e melhor alocação de recursos pelo setor privado.

Bolha

Awazu rechaçou a hipótese de que o recente crescimento do mercado imobiliário brasileiro possa gerar uma situação de bolha e consequente crise, exatamente como nos países desenvolvidos nos últimos anos. "Temos peculiaridades em relação a essas economias", disse.
Para o diretor, três motivos explicam a diferença de perspectiva para o mercado brasileiro em relação a outros países. A primeira diferença está na pequena base de comparação do mercado nacional. Como o setor sempre foi pequeno no Brasil, mesmo com a expressiva expansão dos últimos anos o financiamento imobiliário ainda representa fatia pequena na comparação com o PIB quando comparado a outros países.
O segundo fator está no arcabouço do setor no Brasil, que, para o diretor do BC, é "forte" e apresenta "robusta" fiscalização. Esse padrão, segundo ele, não é necessariamente visto em todos os mercados.
O terceiro aspecto está no mercado de derivativos, segmento que alavancou o desenvolvimento do mercado imobiliário nas economias maduras do Hemisfério Norte. No Brasil, lembrou Awazu, esse mercado, em especial nas operações ligadas ao setor imobiliário, é menos desenvolvido quando comparado a outros mercados.
O diretor afirmou ainda que não exista a preocupação de uma eventual bolha, o BC segue atento para assegurar a solidez no desenvolvimento desse mercado.
"O Banco Central mantém o crédito imobiliário em constante monitoramento, assim como nos demais setores. Para que essa retomada seja em bases sustentáveis", afirmou no "Seminário de Crédito Imobiliário e Securitização", organizado pela Cetip na capital federal.
Segundo Awazu, uma das preocupações é que a velocidade de desenvolvimento desse mercado não resulte em uma desequilíbrio entre a oferta e a demanda no mercado. "E também para que a concessão de crédito tenha padrões sólidos, especialmente entre o valor de financiamento e o valor do bem financiado, que é a chamada cota de financiamento", disse.
Outra iniciativa lembrada pelo diretor do BC é o apoio da autoridade monetária às iniciativas de melhor acompanhamento dos preços do mercado imobiliário. "Isso traz melhorias para todos os agentes do mercado, como a melhor alocação de recursos." O diretor do BC não quis fazer comentários sobre a crise internacional.

Inflação
O diretor disse também que o Brasil tem conseguido manter a inflação na meta mesmo diante de choques importantes, como de commodities, e diante do movimento de ascensão em massa de pessoas à classe média, que pressiona os preços de serviços. Segundo ele, esse desempenho não ocorre em todos os países com regime de metas de inflação.
Awazu afirmou ainda, sem detalhar, que o governo tem que responder com "políticas adequadas" aos desafios colocados pelo surgimento da nova classe média.

Mercado externo
Awazu afirmou que o Brasil não é excessivamente dependente da conjuntura internacional, por conta de seu mercado interno. Segundo ele, o País tem condição de enfrentar eventos negativos do exterior sem perder a sustentabilidade de seu modelo de desenvolvimento.
Mas Awazu também salientou que é preciso dar sustentabilidade a médio e longo prazos para o processo de crescimento da classe média brasileira. Ele mencionou, por exemplo, que é preciso cuidar do processo de crescimento intenso das importações, que, se perdurar, pode ter impacto na viabilidade da situação externa brasileira.
O diretor também pontuou a importância de suavizar os movimentos de aumento do poder de consumo, além da necessidade de se rever e estimular os padrões de poupança - desenvolver produtos financeiros mais condizentes com a poupança de longo prazo - e de aumentar a oferta para atender às novas pressões de demanda.
Awazu também comentou sobre a necessidade de se cuidar para que não haja excesso de endividamento, para que as famílias tomem crédito em níveis compatíveis com sua renda. E defendeu a necessidade de se incentivar a educação e a melhoria da infraestrutura.
O diretor disse ainda que o governo está muito atento e o País bastante preparado para enfrentar a situação de crise internacional. "Estamos 200% atentos aos desenvolvimentos que estão em curso", disse Pereira, em entrevista ao deixar seminário sobre a nova classe média, promovido pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República. "O Brasil está extremamente bem preparado, mais preparado que em 2008", acrescentou o diretor. Ele mencionou que o BC já estava monitorando a situação internacional há algum tempo e já vinha alertando para os riscos da conjuntura externa.

PRIORIDADES

ANTONIO DELFIM NETTO

Prioridades

Quatro eventos recentes são exemplos de que a racionalidade que preside o processo civilizatório não está garantida:
1º) O cabo de guerra entre os republicanos e os democratas nos EUA aumentou a incerteza sobre a qualidade e a funcionalidade da administração da maior economia do mundo.
Uma lamentável falta de liderança mostrou maior preocupação com interesses eleitoral-paroquiais, do que com o papel moral e material que se esperava da nação que se pretende o paradigma do regime republicano;
2º) A inacreditável tragédia norueguesa produzida pelas mãos de um demente foi instrumentalizada pela regressão do espírito civilizatório revelada no avanço do extremismo racial e religioso que, um pouco mais, um pouco menos, vem atacando todos os países;
3º) A separação que se aprofunda entre os interesses materiais de longo prazo da China e dos EUA tem grandes consequências para a estabilidade do Oriente Médio e da Ásia. O exemplo é o apoio dissimulado da China (e da Índia) ao Irã com a troca física (em acordo de liquidação recíproca) de fornecimento permanente de petróleo -inclusive com a construção de um oleoduto- por bens industriais chineses, o que ilide o "embargo" da ONU (de efeito duvidoso) que tenta impedir a criação de mais uma potência atômica e
4º) O claro aprofundamento dos investimentos militares da China e da Índia. A ênfase da primeira na expansão de sua marinha para o domínio do chamado "mar da China", com vistas à busca de recursos naturais, revela que ela (como toda "potência", particularmente os EUA) está também à procura das três autonomias: a alimentar (a China já é a maior produtora de alimentos do mundo e graças à tecnologia que está gerando com rapidez pode crescer muito mais); a energética (que desenvolve a partir do carvão e agora do gás, eólica e outras tecnologias de ponta); e a militar que ela expande rapidamente.
O desenvolvimento dos países emergentes nos próximos dez anos vai se dar num ambiente de estresse crescente pela disputa de recursos naturais na terra e no mar. Países que, como o Brasil, abdicaram da autonomia "militar", mas dispõem de recursos naturais, precisam ter esse quadro em mente e insistir na construção de Forças Armadas enxutas, bem treinadas e com adequado poder "dissuasivo".
Não é exagero dizer que investimentos numa indústria bélica eficiente e competitiva externamente, inclusive a ênfase no domínio da tecnologia atômica, provavelmente mostrarão -em dez anos- uma taxa de retorno social superior à daqueles que hoje ocupam nível mais alto em nossas prioridades. Como disse o ilustre ministro Celso Amorim, "um país pacífico não pode ser confundido com um país desarmado e indefeso".

Vale estuda montar uma fábrica de trilhos em Minas Gerais


Valor 10/08
O Brasil poderá voltar a fabricar trilhos ferroviários pelas mãos da Vale. A mineradora estuda montar uma usina em Governador Valadares (MG) com capacidade para produzir 500 mil toneladas anuais de trilhos destinados a abastecer suas próprias ferrovias e ao mercado em geral. Atualmente, todos os trilhos utilizados no país são importados. Além da Vale, o grupo Gerdau também examina produzir trilhos, aproveitando o laminador de perfis que possui desde 2002 na usina siderúrgica de Ouro Branco (MG), a Açominas).

O projeto da Vale já virou notícia na imprensa mineira, embora a empresa, consultada, prefira não falar do assunto. O subsecretário de Política Mineral e Energética da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de Minas Gerais, Paulo Sérgio Machado Ribeiro, informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o projeto existe, mas "ainda não está detalhado".

A ideia de a Vale construir uma usina siderúrgica para fabricar trilhos em Governador Valadares está inserida na política introduzida pelo ex-governador Aécio Neves (PSDB) de agregar valor à produção mineral do Estado, a maior do Brasil. No caso específico, a fábrica seria uma contrapartida à liberação do Projeto Apolo para a produção de minério de ferro na Serra da Gandarela, entre os municípios de Caeté e Santa Bárbara.

Outro projeto inserido na mesma política é o da construção de uma siderúrgica em Juiz de Fora pela mineradora Ferrous, em troca da licença para construir um mineroduto destinado a escoar até 50 milhões de toneladas de minério de ferro por ano por um porto a ser construído no Sul do Espírito Santo. Embora a Ferrous esteja negociando a compra de terreno na cidade da Zona da Mata mineira, o projeto ainda não decolou.

O Brasil não produz trilhos desde 1996, quando a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), recém-privatizada, desativou seu laminador de perfis em Volta Redonda (RJ) por falta de demanda. A indústria ferroviária do país vivia uma profunda crise, que, naquele ano, levou à privatização de suas várias malhas. Com a retomada dos projetos de expansão nos últimos anos, como o da conclusão da Ferrovia Norte-Sul e o de construção da Transnordestina, o assunto voltou a entrar em pauta.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerava "um absurdo" que o país dependesse exclusivamente de importação de um insumo fundamental para seu projeto de ampliação da malha ferroviária do país e estimulou estudos para que o Brasil voltasse a fabricar trilhos.

O problema é que dos 29,7 mil quilômetros de malha ferroviária existentes atualmente no país, cerca de dois terços não estão sendo utilizados, segundo cálculos do próprio governo. O porte previsto para a fábrica de trilhos da Vale é o mínimo considerado viável para a instalação de um laminador de perfis. A Vale é a maior operadora ferroviária do Brasil e a cidade de Governador Valadares é cortada pelos trilhos da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), de propriedade da mineradora.

Em 2009, as concessionárias de ferrovia do país e a estatal Valec, que montou a Norte-Sul e está instalando a Oeste-Leste, gastaram US$ 170,1 milhões com a importação de 147,2 mil toneladas de barras de aço (trilhos). No ano passado, com a queda de preço, esse volume mais que triplicou, saltando para 496,4 mil toneladas. Foram gastos US$ 429 milhões com entrada de trilhos.

O material é procedente de países da Europa, como a Polônia, e da Ásia, com destaque para China.

A cidade mineira sempre reclamou da falta de investimentos da Vale. Logo que assumiu a prefeitura, há dois anos, Elisa Maria Costa (PT), procurou costurar uma "agenda positiva" com a mineradora, ainda na gestão do então presidente Roger Agnelli. O projeto da construção de uma fábrica de trilhos, divulgado agora pelo governo mineiro, chegou a ser conversado e proposto a Elisa na ocasião, mas até hoje estava em "banho maria".

Do que foi acertado com a prefeita, em 2009, a única coisa que saiu do papel foi a obra de construção de uma grande passagem de nível no centro da cidade. Outras duas estão em andamento, uma no bairro Sotero Ignacio Ramos (SIR) e outra no bairro Santa Rita. A população de Valadares ainda passa por cima dos trilhos da Vitoria a Minas nesses bairros, correndo risco de vida.

Outras promessas da Vale, agendadas com a Prefeitura local, são a de fazer um parque municipal ao pé da Pedra de Ibituruna, um dos locais mais famosos de Valadares e revitalizar a Praça da Estação.

O valor do investimento não foi revelado, mas em reportagem do Valor sobre o tema este ano, um ex-dirigente da Valec informou que uma fábrica de trilhos exige investimentos em torno de US$ 1,5 bilhão. A produção das barras de aço carbono exige tratamento refinado para evitar riscos de fragilidade do material. No processo de fabricação, o trilho demanda, por exemplo, por tratamento térmicos especiais, como a vácuo.

BC americano indica juro até 2013 e reforça 'problemas' brasileiros



Valor 10/08

A mudança radical do comunicado do Federal Reserve, o banco central americano, sinalizando juro praticamente zero até 2013 apenas acentua os 'problemas' brasileiros. O dólar continuará fragilizado no mundo e por aqui. O real permanecerá fortalecido. O diferencial de taxas de juros doméstica e externa não encolherá. E o Brasil manterá a privilegiada posição de importante catalisador de capital estrangeiro.

"A definição de juro perto de zero até 2013 pode ser vista como uma medida antipânico do Fed lançada para os mercados que estão muito nervosos desde a semana passada e aguardavam com ansiedade o comunicado do Comitê Federal de Mercado Aberto. Não podemos esquecer que muita gente se feriu com a queda generalizada das bolsas no mundo", comenta a economista Tatiana Pinheiro, do Santander. Ela destaca o clima de grande expectativa que rondava a reunião do Fed desta terça-feira. O mercado aguardava o comunicado da reunião e o anúncio do Quantitative Easing (QE3) - programa de recompra de títulos para ampliar a liquidez da economia e baixar o juro de longo prazo, incentivando o consumo das famílias, nos moldes do QE2 adotado no ano passado.

A probabilidade de o Fed lançar o QE3 era contemplada pelo mercado, mas considerada baixa por especialistas, explica Tatiana, porque a situação da economia americana hoje é diferente de 2010, especialmente quanto à inflação. "Ben Bernanke, presidente do Fed, já vinha associando outro programa de injeção de liquidez à deflação. Mas esse não é o quadro que se configura neste momento", diz a economista do Santander para quem o comunicado do Fed lança luz sobre a ata dessa reunião que será divulgada no dia 30 de agosto. "Os mercados certamente tentarão identificar o leque de instrumentos que o Fed avaliou nessa reunião e que poderá ser usado para ativar a economia num cenário de estabilidade de preços. Se algum dos instrumentos sugerir intervenção para ampliar a oferta de dinheiro, os mercados tendem a reagir positivamente por acreditar numa ação do Fed que pode levar a uma melhora das expectativas com o crescimento econômico americano e global."

Para o governo brasileiro, embora o Fed não tenha sinalizado a retomada da política de alívio quantitativo, a expectativa é de que o presidente do Fed, Ben Bernanke, repita a mesma estratégia do ano passado, quando lançou o QE2 na reunião anual de Jackson Hole, no Wyoming, no final de agosto. Não se descarta a possibilidade de o Federal Reserve decidir, desta vez, comprar bônus dos governos municipais americanos, promovendo uma injeção de gastos públicos por vias mais diretas do que pela recompra de títulos federais.

Monica de Bolle, sócia da Galanto Consultoria e diretora da Casa das Garças, pondera que a definição de 2013 para a manutenção do juro americano perto de zero não altera muita coisa. Na prática, indica que as condições atuais vão perdurar e que a taxa de juro não vai subir. Mas ela lembra que o prazo pode ser alterado: ser alongado ou reduzido mais adiante porque estará condicionado à evolução da economia americana. É exatamente assim, avaliando as condições do momento, que são tomadas as decisões de política monetária.

Monica não tem dúvida de que o Brasil continuará acolhendo mais capital externo. Mas ela não acredita, porém, que o comunicado divulgado ontem pelo Fed precipitará a vinda de mais investidores ou mais recursos para cá. "O dinheiro que tinha que vir para o Brasil virá de qualquer jeito. Com ou sem decisão do Fed", pondera a economista que evita uma associação direta, que chegou a ser feita por operadores locais ontem, entre a política de juros do Fed e uma eventual retomada do ciclo de corte da taxa Selic. Ela defende cautela na gestão da política de juro pelo Banco Central do Brasil. "Olhando a economia brasileira e a economia global neste momento, notamos que a perspectiva de crescimento pode ter sido adiada, mas isso não significa que há uma recessão prestes a acontecer. Não me parece prudente um corte de juro já pelo nosso BC. Este momento é bem diferente de 2008. Agora, a chance de ocorrer uma recessão global é inferior a 50%. Em 2008, era de 100%", cita.

Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, vê a manutenção do cenário de ampla liquidez global por tempo prolongado, o que leva a um dólar internacionalmente fraco no médio prazo. "É isso o que se desenha no horizonte, a partir da definição do juro pelo Fed até 2013. Haverá, portanto, uma apreciação persistente do real frente ao dólar e podemos ter mais inflação, dependendo de certa sustentação dos preços das commodities", avalia.

O economista-chefe do ABC Brasil reforça que o mercado internacional esperava o anúncio do QE3 ou comprometimento maior do Fed com algum tipo de intervenção na economia. Isso, não só pela turbulência atual dos mercados, mas porque está patente que a economia global está piorando. "A reação do Fed pode ser considerada modesta pelos mercados que certamente receberam o resultado da reunião com outra frustração. Desde 1992, uma reunião sobre a política de juros americana não apresentava dissidência como a vista agora. Os três dissidentes mostra que estamos longe de mais afrouxamento monetário. Não há QE3 a caminho", finaliza.

Mantega cita EUA e diz que não se pode dar liberdade aos mercados


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que não se pode dar liberdade ao mercado financeiro e citou o caso dos Estados Unidos. "Lá eles deram liberdade, inclusive para os fundos de hedge, e quase foram à bancarrota", afirmou numa referência à crise financeira de 2008. "Não permitiremos isso no Brasil", acrescentou.

Mantega defendeu a medida provisória 539, que tributou com 1% de IOF a variação das posições vendidas em câmbio dos bancos, empresas e fundos e autorizou o Conselho Monetário Nacional (CMN) a regular o mercado de derivativos. "Quem está reclamando é quem pede a liberação do mercado. Ouvimos as reclamações com satisfação, pois isso quer dizer que as medidas atingiram seu objetivo", disse. Para ele, "a medida foi eficaz, tanto que doeu".

As afirmações de Mantega foram feitas durante audiência pública na Câmara dos Deputados, depois de o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, ter criticado as intervenções do governo no mercado cambial que, segundo ele, têm pouca eficiência. Maílson destacou o fato de que a MP 539 permite que o Conselho Monetário Nacional defina margens nas posições vendidas no mercado de derivativos.

Para ele, a MP introduz enorme incerteza no mercado e diminui a sua liquidez. O ex-ministro questionou a capacidade de um burocrata fixar essas margens e perguntou quem pagará a conta se a bolsa de mercadorias e futuros quebrar por conta dessas definições. "A MP 539 é o AI - 5 do mercado de derivativos", disse Maílson.

As afirmações do ex-ministro irritaram Mantega e o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, que também participou da audiência pública. Os dois acertaram que Mantega responderia ao ex-ministro. "Continuaremos tomando medidas para evitar que o real se valorize excessivamente, que haja abusos", advertiu Mantega. "O mercado de derivativos, por operar com grande alavancagem, é onde se define o preço do câmbio", argumentou.

Mantega disse que a MP 539 "traz a possibilidade de limitar a especulação, de exigir mais margem (prudencial)" e comentou que os Estados Unidos "estão fazendo coisa parecida". Deixou claro também que o governo brasileiro "não permitirá que as empresas brasileiras se endividem excessivamente em dólar".

Depois da intervenção de Mantega, Maílson voltou a se pronunciar e disse que nunca foi um defensor de uma ampla liberalização financeira. "Vossa Excelência está se referindo a outros grupos e não a mim", afirmou. Para o ex-ministro, a possibilidade aberta pela MP 539, de fixação de margem pelo CMN, não tem correspondência em outra parte do mundo. "Não conheço nenhum país que tenha feito esse nível de intervenção", afirmou.

Maílson procurou diferenciar a crise atual da ocorrida em 2008. Segundo ele, não estão presentes atualmente os fatores que detonaram a crise de 2008. "Não há crise de liquidez, não há sinais de quebra de bancos ou de que os Tesouros tenham que colocar dinheiro para salvar bancos", argumentou. Para ele, a crise atual resulta de uma mudança de sentimento do mercado em relação ao estado da economia dos Estados Unidos e da Europa. Para ele, o cenário mais provável é que o mercado se acalme e se estabilize em um patamar mais baixo.

Inflação em alta e desaceleração na produção criam dilema na China



Jamil Anderlini | Financial Times, de Pequim
10/08/2011

A China anunciou ontem inflação persistentemente alta e dados de crescimento mais fracos que os esperados, ressaltando o dilema de política econômico-financeira com que se defrontam os líderes do país no momento em que o agravamento da crise da dívida na Europa e nos EUA atinge os mercados em todo o mundo.

O índice de preços ao consumidor anual na China acelerou para 6,5% em julho, ante 6,4% em junho, segundo dados divulgados pelo Birô Nacional de Estatísticas. A inflação foi impulsionada principalmente por volatilidade nos preços dos alimentos, que subiram 14,8% nos 12 meses encerrados em julho.

Os dados de crescimento da produção industrial, das vendas no varejo e dos investimentos referentes ao mês passado vieram todos abaixo das expectativas. Mas inflação dá pouco espaço para que Pequim afrouxe a sua política monetária. Desde outubro, Pequim elevou os juros em cinco ocasiões e por nove vezes ampliou o montante que os bancos devem manter em reserva no banco central.

Apesar da aceleração dos preços, a maioria dos economistas acredita que a inflação atingiu um pico em julho e agora esfriará.

"O lado encorajador dos dados é que o núcleo da inflação subiu muito pouco neste mês, após um grande salto no mês passado", disse Brian Jackson, do Royal Bank of Canada, em Hong Kong. "Acreditamos que a inflação está perto de um pico e cairá mais adiante, neste ano, à medida que efeitos fundamentais revelem-se favoráveis e que se façam sentir os impacto das medidas anteriores de política governamental."

Os preços de commodities, como o petróleo, estão em queda, em meio a sinais de freada do crescimento mundial. O preço da carne suína chinesa, um dos principais motores da inflação nos últimos meses, começou a se estabilizar.

Em comparação com 12 meses atrás, o crescimento dos investimentos em ativos fixos diminuiu para 24,5% em julho, contra 25,1% em junho, segundo estimativas do Barclays Capital. Muitos economistas agora acreditam que a China persistiu em sua tendência para aperto monetário por tempo demais, em 2008, quando o crescimento desacelerou no Ocidente, obrigando [os chineses] a lançar um enorme pacote de estímulo quando a economia global perdeu sustentação em setembro de 2008.

Stephen Green, do Standard Chartered em Hong Kong, disse: "As autoridades econômicas chinesas não vão querer cometer o mesmo erro duas vezes. Mas, ao mesmo tempo, elas sabem que a inflação poderá voltar rapidamente, e precisam ter sempre em mente a preocupação de que uma eventual decisão do Fed de promover uma terceira rodada de alívio quantitativo possa aquecer o preço das commodities".

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A crise da dívida americana


Por Yoshiaki Nakano - Valor 09/08

A atual crise da dívida pública nos Estados Unidos e alguns países europeus é uma decorrência lógica da grande crise financeira de 2007-2008, e, particularmente, da forma como os governos e bancos centrais reagiram à crise.

Em janeiro de 2009, na reunião da Associação Americana de Economia, Carmen Reinhart & Kenneth Rogoff ("The Aftermath of Financial Crises"), a partir de uma extensa pesquisa empírica, apontavam três características comuns presentes no período pós-crise financeira severa. Primeira, o colapso do mercado de ativos tem sido profundo e prolongado. Segunda, no pós-crise bancária sistêmica observou-se grande queda no produto e no nível de emprego, podendo se falar em "década perdida". Terceira, o valor real da dívida pública cresce explosivamente, verificando-se nos episódios, desde a Segunda Guerra Mundial, um aumento médio de 86% - mesmo que haja "default", a dívida continua aumentando pois os atrasados acumulam e o Produto Interno Bruto (PIB) tende a cair. Na crise atual, o aumento da dívida pública desde 2007 nos países com crise financeira supera em muito aquele número.

Outra conclusão é que existe uma relação fraca entre endividamento do governo e crescimento do PIB para países com relação dívida/PIB abaixo de 90%; mas, acima deste limite, a dívida elevada está relacionada a uma taxa de crescimento significativamente menor.

O explosivo aumento da dívida pública nos Estados Unidos e Europa foi causado pelos trilhões de dólares gastos para socorrer os bancos e pelas medidas fiscais para estimular a demanda agregada. Em países onde o cidadão tem consciência de que ele terá que pagar essa conta, como nos Estados Unidos, há uma forte reprovação política dos governos, o que certamente abriu espaço para que grupos radicais antiestado, como o Tea Party, fizessem chantagens contra o governo Obama que, surpreendentemente, cedeu. A disputa entre o executivo e o partido republicano que assistimos até a semana passada provocou também uma perda de credibilidade das instituições políticas e fiscais americanas. Aproveitando-se do momento, uma das três empresas de rating (S&P), desmoralizada após a crise financeira, resolveu fazer um rebaixamento da dívida pública americana para "AA+", abrindo caminho para deteriorar as expectativas e aumentar especulações sobre qual país será o próximo a ser rebaixado.

Mas o resultado mais relevante desta crise política e que terá impactos nos próximos anos é que o governo Obama terá que cortar mais de US$ 2 trilhões de despesa pública, exatamente no momento em que a economia dá sinais de fraqueza e os fluxos de estímulos fiscais, dados a partir de 2008, chegam ao seu fim. A consequência provável desse corte nas despesas será uma recessão profunda, a exemplo do que aconteceu na crise financeira da década de 30 e no Japão nos anos 90.

Muitos países europeus deverão seguir caminho similar, pois são mais frágeis tanto econômica como financeiramente do que o Estados Unidos. É importante lembrar que estamos falando de uma potência ainda hegemônica que emite moeda reserva, e certamente, se tivermos um novo pânico financeiro e uma nova corrida pela liquidez, o dólar será o porto escolhido.

É importante lembrar que a crise financeira de 2007-2008 não foi equacionada. Ao contrário, os bancos centrais e os governos atacaram basicamente os efeitos da crise, para evitar o colapso financeiro total e fizeram mais dívida, absorvendo dívidas ruins nos seus balanços. Não adianta passar dívidas ruins, feitos na euforia financeira, dos bancos e instituições financeiras privadas para os bancos centrais e os tesouros nacionais. Alguém tem que pagar a dívida ou ela tem que ser cancelada, o que leva anos ou décadas, pois trata-se de um estoque monumental diante dos fluxos de produção e renda que entrarão em contração. Estes são, em última análise, a única garantia para as dívidas.

A monumental expansão monetária e redução da taxa de juros feitas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), evitou uma crise maior naquele momento, permitindo que detentores de dívida as financiassem com juros fartos e baratos, mas no atual quadro não consegue estimular a economia nem o emprego. Ainda, permitiu a continuidade da especulação financeira, gerou um boom de crédito nos países emergentes e a criação de novas bolhas. Postergou o colapso de muitos bancos e dos ativos financeiros artificialmente, mas a persistir nesse caminho, uma década será pouco para digerir e limpar os seus balanços.

O cenário mais provável para os próximos anos é de novas recessões, o que obrigará os governos a recorrerem novamente à política fiscal, ou um quadro de estagnação econômica nos países desenvolvidos. Os países emergentes certamente serão afetados em diversos graus, dependendo da sua capacidade de pragmaticamente defender os interesses nacionais, gerando crescimento autônomo voltado para o mercado doméstico e uma política cambial mais ativa para se defender contra a guerra cambial e uma política fiscal responsável.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP).