quinta-feira, 28 de julho de 2011

China força corrida por terras-raras no Brasil

Valor - Hoje

A manobra chinesa para estabelecer cotas de exportação para os compostos de terras-raras está gerando uma corrida pelos estoques e reservas desses elementos minerais no Brasil. Além da Vale, que já confirmou seu interesse, outras empresas, inclusive estrangeiras, estão voltando suas atenções para esse mercado no país.
As restrições da China - responsável por mais de 90% do fornecimento mundial das terras-raras - e o temor global de desabastecimento impulsionaram essa movimentação. A oportunidade é imensa: quem conseguir ser uma alternativa à produção chinesa pode abocanhar parte de um mercado mundial de cerca de US$ 5 bilhões, que abastece setores de alta tecnologia. As terras-raras representam um conjunto de 17 elementos químicos usados para a produção de diversos produtos modernos como ímãs, fibras óticas, notebooks e celulares.
"O Brasil tem potencial para entrar nesse mercado. E nós vemos isso como uma grande oportunidade", afirmou ao Valor o diretor da fabricante de ligas metálicas Resind, Almir Clemente. A empresa tem uma grande ambição: abastecer o mercado interno. Com faturamento um pouco acima de R$ 25 milhões em 2010, a empresa mineira é especializada na recuperação de resíduos metálicos, atuando no reprocessamento do estanho e outros metais. A capacidade da companhia é de 300 toneladas de matérias-primas processadas por mês.
Clemente acredita que pode entrar no novo negócio: há seis meses ele desenvolveu uma tecnologia para produzir uma liga de terras-raras. Com isso, quer abastecer primeiramente a cadeia da indústria automobilística e, em uma segunda etapa, fornecer para os fabricantes de catalisadores, importantes para o processo de refinamento do petróleo.



A tecnologia envolve o processamento da monazita - concentrado mineral onde se encontram terras-raras. Da monazita saem dois produtos: uma liga com as terras-raras e uma escória. Para chegar nisso, a Resind faz um tratamento metalúrgico, em fornos, o que, segundo Clemente, é um processo seguro diante do principal desafio de se produzir terras-raras: manter controlado o material radioativo. Isso porque a monazita abriga também o tório, elemento que deve ser separado e armazenado de modo seguro.
A tecnologia da Resind, informa a empresa, permite que o tório fique encapsulado em uma escória, sem contaminar o ambiente. "Essa rota que inventamos ainda não existe", garante o executivo.
Para usar sua tecnologia e iniciar a produção, no entanto, a Resind precisa da matéria-prima. Para isso, a empresa está há cerca de um mês negociando a compra do estoque da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), companhia estatal produtora de urânio. A INB tem um estoque que totaliza 20 mil toneladas de monazita bruta no Estado do Rio de Janeiro, sendo que 62% do material é terras-raras. Esse estoque veio das operações da própria empresa, que separa os materiais que não são seu foco de negócios.
O plano de Clemente é produzir 200 toneladas por mês da liga com terras-raras, suficiente para suprir o mercado que abastece a indústria de autopeças. Em uma segunda etapa, Clemente pretende investir R$ 5 milhões na compra de um segundo forno, para produzir mais 200 toneladas de liga do mineral, que abasteceriam a cadeia de refinamento de petróleo. As cerca de 10 mil toneladas negociadas pela Resind na INB seriam suficientes para cinco anos de suprimento da demanda desses mercados, diz o executivo. "Depois disso buscaríamos outras formas de acesso à matéria-prima", contou. A demanda brasileira por terras-raras hoje está em torno de mil toneladas/mês.



Com mercado interno pequeno e com as reservas que o Brasil tem, o país pode se tornar um exportador do produto. Segundo Francisco Lapido Loureiro, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), os recursos identificados e medidos no Brasil são maiores do que as reservas oficiais da China. Só em Catalão (GO) - um dos locais mais estudados no setor - foram identificadas 120 milhões de toneladas de terras-raras. "Há poucos países com a tecnologia de extração e produção. E no Brasil ainda temos de estudar os recursos", afirma Loureiro, enfatizando que para ser considerada uma reserva, a exploração dos recursos deve ter um caminho econômico definido. "Nossas reservas são grandes, mas, no momento, não há uma exploração e produção organizada em escala industrial", completou o coordenador de processos metalúrgicos e ambientais do Cetem, Ronaldo Luiz Santos.
Além de Catalão, há ainda outros locais com recursos identificados, como Araxá (MG) e Pitinga (AM). E as potencialidades econômicas de Pitinga já estão sendo analisadas. Proprietário da mina, o grupo peruano Minsur - por meio da subsidiária brasileira, Mineração Taboca - está no processo final de um estudo que vai mostrar o potencial de terras-raras da reserva. No local, onde a empresa explora estanho e ligas de tântalo e nióbio - há presença expressiva o concentrado mineral xenotima, outra fonte dos elementos de terras-raras. No caso, podem ser explorados elementos pesados, de maior valor agregado.
Com o estudo, a empresa pretende levantar quais são os tipos de terras-raras encontradas, determinar o volume e as possibilidades de extração. A partir de então, a Taboca pode começar a traçar projetos de produção desses metais. "As terras-raras estão no nosso radar. Mas ainda não temos uma definição sobre o setor. Não estabelecemos ainda quais seriam as rotas de produção", afirmou o presidente da Mineração Taboca, João Luiz Serafim. A empresa comprou em 2008 a mina de estanho da Paranapanema.
As reservas brasileiras também têm atraído outras empresas estrangeiras. Segundo o Valor apurou, há grupos japoneses vindo realizar pesquisas no país. Um grande produtor de cristais também enviou um pesquisador e dois representantes para encontrar áreas de prospecção que contenham monazita no país. A companhia está em busca de parceiros para extrair as terras-raras. "Com a centralização da produção na China, o mundo começou a se mexer", observa o coordenador do Cetem.
O problema global do fornecido das terras-raras ficou mais complicado no início deste ano, quando o premier chinês, Wen Jiabao, desenhou um plano que inclui maior fiscalização, elevação dos padrões de produção e a consolidação dos produtores desse mineral. A China estabeleceu ainda cotas de exportação, o que projetou os preços às alturas.

CNI defende medidas mais severas contra concorrência desleal




Valor - Hoje




As medidas adotadas pelo governo para conter a especulação com dólar poderão ter efeito positivo para desvalorizar o real, mas logo a atratividade do mercado brasileiro forçará o dólar para baixo, acredita o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade. O Brasil, diz, precisa pensar seriamente em impor limites quantitativos à entrada de capital estrangeiro no país - como a quarentena para ingresso de divisas imposta pelo Chile no passado recente - e tem de apressar a adoção de medidas para fortalecer a produção industrial.
Aumentar a severidade das medidas antidumping, contra importações desleais, deve ser um dos principais pontos da nova política industrial, a ser divulgada na próxima semana, acredita o empresário. Ele argumenta que, hoje, os importadores aceleram a compra de produtos estrangeiros sujeitos a processos antidumping, para formar estoques e vender no mercado interno.
A CNI sugeriu ao governo - e, segundo Andrade, teve boa receptividade - a adoção de "antidumping provisório": a partir da abertura de investigação por dumping, já começaria a valer o prazo de aplicação das tarifas de importação punitivas, sobre os produtos acusados de competição desleal.
"Hoje, um processo desses pode levar até dois anos", diz. "Com essa medida, o importador teria de pagar tarifa punitiva relativa a todo esse período, se constatado o dumping". Andrade acredita que a adoção desse mecanismo desencorajaria a importação de mercadorias com preços artificialmente baixos.
"Tributos, câmbio, custo-Brasil não explicam certas diferenças de preço", afirma. "Embalagens de cosméticos e pastas de dente, que são fabricadas aqui por R$ 38 o milheiro, podem ser importadas da China por R$ 3,5. Estão vendendo a qualquer preço, para quebrar a concorrência."
Otimista em relação às medidas que devem ser anunciadas no âmbito de uma nova política industrial, no dia 2, o presidente da CNI cobra, porém, a inclusão de mecanismos para reduzir a tributação sobre as exportações e antecipar créditos pagos pelos exportadores por impostos embutidos nas matérias-primas e insumos.
As empresas só podem abater em 12 meses o PIS e a Cofins embutidos nos preços de máquinas e equipamentos destinados à produção, exemplifica Andrade. "Propusemos ao governo que a recuperação do imposto pago ocorra no mês da compra."
Segundo o presidente da CNI, o setor privado não conseguiu apresentar ao governo uma proposta de compensação para uma possível desoneração das folhas de pagamentos (o fim da contribuição previdenciária das empresas). "Qualquer proposta implicaria aumento de carga para o setor de serviços, ou o industrial ou o agrícola", disse. "O ideal seria não criar compensação, e vincular o ritmo de desoneração ao crescimento da receita da Previdência."
A intenção do governo de aumentar as exigências de conteúdo nacional das empresas beneficiadas por incentivos oficiais é aplaudida pela CNI. Andrade defende que se estenda o programa de prioridade a fornecedores nacionais adotado pela Petrobras a outras estatais, como Eletrobras, Correios, o setor de saúde e aeroportos, por exemplo. Financiamentos do BNDES a hidrelétricas, por exemplo, teriam cláusulas de conteúdo nacional mínimo.



Os esforços oficiais para gerar políticas de apoio à indústria criaram importantes instrumentos de apoio, mas a ação é dispersa e pouco eficiente, constata estudo recém-concluído pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), para avaliar a crescente dificuldade na exportação de manufaturados. As ações do governo ainda são mais voltadas à substituição de importações que à promoção de exportações de maior valor agregado e falta articulação entre os órgãos públicos encarregados do tema.
O documento, que começou a ser discutido ontem pelos dirigentes da entidade, para basear as negociações de políticas com o governo, defende que se dê maior poder à Camara de Comércio Exterior (Camex), que reúne sete ministérios envolvidos na política comercial. Reivindica, ainda, maior participação do setor privado na definição de medidas de política pública no setor.
A CNI sugere que o Brasil siga o exemplo de Alemanha, Coreia e Japão, que confiaram nas exportações regionais, e seja mais agressivo nas negociações para ampliar exportações brasileiras no continente sul-americano.
O Brasil, segundo a CNI, tem sido excessivamente "defensivo" em suas negociações comerciais, e não explora estratégia importante para ampliar vendas no continente, que é a defesa de padrões tecnológicos e regras técnicas homogêneas. Iniciativas como o padrão nipo-brasileiro de TV digital e esforços semelhantes nos setores farmacêutico e veterinário devem ser estendidas para os setores automobilístico e de máquinas, por exemplo, sugere o estudo.
O excesso de tributação e deficiências nos mecanismos de financiamento e seguro estão entre os principais pontos a serem enfrentados na política de estímulo às exportações proposta pela CNI. O estudo critica a resistência do Ministério da Fazenda em unir, em um Eximbank, mecanismos de crédito e seguro de crédito, a exemplo do que ocorre em outros países.
O modelo atual, com o BNDES-Exim encarregado do financiamento e a SBCE e o FGE-Cofig a cargo de seguro de crédito, sem critérios comuns, não é capaz de dar apoio a contratos de exportação de maior risco ou prazos mais extensos e "gera ineficiência na execução" dos programas oficiais de crédito, avalia a CNI.
O documento, embora elogie a rede de promoção de exportações, a cargo da Agência de Promoção de Exportações (Apex) e do Ministério de Relações Exteriores, aponta "baixa coordenação" entre as estruturas do governo, o que gera "desperdício de recursos, informações e inteligência competitiva".
As ações da Apex e do Itamaraty deveriam ser unificadas em um só órgão, que usaria a rede de embaixadas e consulados para estender suas ações, defende o texto. A CNI sugere, ainda, que o governo passe a monitorar licitações e compras governamentais ao redor do mundo, e use mais a participação em instituições financeiras internacionais para estimular venda de bens e serviços do país no exterior. A expansão de embaixadas na África e as viagens presidenciais durante o governo Lula são apresentados no estudo como "referências positivas" de atuação do governo para expansão das exportações.
A carga tributária excessiva faz com que, mesmo com a aplicação de mecanismos de desoneração tributária, os bens exportados do país ainda recebam uma carga de impostos alta, entre 9,9% e 13,1% do preço. As dificuldades de uso dos mecanismos de desoneração elevam esa carga até 22,4%.
Entre as medidas sugeridas pela CNI para enfrentar o problema estão a criação de um mercado secundário para títulos de crédito fiscal (para que empresas sem impostos a abater vendam a terceiros os créditos de imposto recebidos do governo) e a permissão para que empresas registrem na contabilidade os custos com impostos, mesmo os passíveis de desoneração. Hoje, as empresas que desistem de pedir desoneração são punidas duplamente, por não poderem abater o imposto pago da receita bruta. (CS e SL)

Medidas cambiais têm sérios efeitos colaterais, diz ex-diretor do BC


Valor 28/07/2011
SÃO PAULO - As medidas do governo para tributar o mercado de derivativos cambiais têm pouco grau de eficácia para evitar a valorização do real e traz sérios efeitos colaterais, diz o ex-diretor do Banco Central e sócio da Mauá Sekular Investimentos, Luiz Fernando Figueiredo. Um desses efeitos colaterais pode ser exportar o mercado brasileiro de derivativos, reduzindo a capacidade do governo de monitorar as posições das empresas e instituições locais, que passariam a fazer hedge no exterior.

“Atiraram numa formiguinha e deixam o elefante, que são os investimentos, passar”

Do lado da eficácia, a medida deve ter pouco efeito, como mostrou a cotação do dólar hoje, que disparou mas ao longo do dia caiu. Isso ocorre porque o que está derrubando o dólar são os investimentos, em portfólio ou diretos, junto com a antecipação de exportações e a postergação de importações, lembra Figueiredo. “O investimento financeiro já diminuiu barbaramente e, no caso dos derivativos, seu efeito é apenas na margem”, diz. A medida, portanto, pega apenas um pedaço do balanço de pagamento que é muito pequeno. “Atiraram numa formiguinha e deixam o elefante, que são os investimentos, passar”, diz.

Segundo Figueiredo, a exportação do mercado de derivativos brasileiro pode dificultar o acompanhamento das posições das empresas, reduzindo a transparência. “Na crise de 2008, o problema maior foram contratos de derivativos feitos no exterior, não aqui”, diz. Há ainda um aumento enorme do custo de transações para quem exporta ou precisa fazer hedge, lembra o gestor. “E as medidas tomadas após 2008 pelo governo e Comissão de Valores Mobiliários são boas o suficiente para que os problemas das empresas não voltem a acontecer.”

Ele acha também que não faz sentido o Conselho Monetário Nacional (CMN) ampliar as margens de garantia dos mercados futuros. “Na crise de 2008, a BM&F elevou barbaramente as margens, não foi preciso medidas do governo”, lembra.

Figueiredo acredita também que, dependendo da forma como for regulamentada a medida, ela acabará com o mercado de opções de câmbio futuro — onde o impacto do novo imposto seria maior, quase o dobro do mercado futuro. Os gestores de recursos também devem deixar de operar no mercado futuro de câmbio ou reduzir expressivamente as posições, pois já começariam com um custo de 1%. “Além disso, se a cobrança do imposto for feita pela variação das posições, o gestor vai pagar imposto um dia quando o valor dos contratos subir e, no dia seguinte, quando os contratos caírem e ele perder, ele não vai poder compensar, uma situação absurda”, diz.

A medida atingirá também diretamente os fundos de investimento no exterior, que compram cotas de outros fundos fora do país. Muitos desses fundos fazem hedge, ou seja, se protegem no mercado futuro, vendendo dólar, para evitar que a variação cambial interfira nos ganhos obtidos no exterior. “O fundo vai começar já com uma perda de 1% na cabeça”, diz Figueiredo, lembrando que, ironicamente, esse tipo de carteira ajuda a segurar o dólar, pois investe no exterior.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ainda temos peru com farofa



Investimento direto no semestre bate recorde
Valor 27/07/2011


O fluxo de recursos para o país continua sem trégua, mesmo com o aprofundamento da crise na Europa e a indefinição em relação ao teto da dívida pública americana.
O investimento estrangeiro direto (IED) atingiu US$ 32,477 bilhões no primeiro semestre, o maior valor da série histórica iniciada em 1947, o que representou um aumento de 168% sobre o mesmo período do ano passado (US$ 12,096 bilhões). Foi, assim, suficiente para mais do que cobrir o déficit em transações correntes do país, de US$ 25,448 bilhões nos seis primeiros meses do ano.
Em doze meses até junho, o investimento somou US$ 68,8 bilhões, também o maior da série. Como proporção do PIB, o valor é de 3,1%, só inferior a fevereiro de 2003 (3,2%), segundo dados do Banco Central (BC).



Em julho, até ontem, outros US$ 3,6 bilhões já entraram no país via IED e a expectativa do BC é que até o fim do mês o montante suba para US$ 4 bilhões. Caso a previsão se confirme, o fluxo acumulado em doze meses atingirá o patamar recorde de US$ 70 bilhões.
Segundo informações do mercado, investidores vêm concentrando suas aplicações em IED como forma de evitar o aumento do IOF desde o fim do ano passado. O fluxo de recursos para aplicações em papéis domésticos e em ações, que no primeiro semestre do ano passado somou US$ 19,042 bilhões, praticamente sumiu. Nos seis primeiros meses do ano chegou a meros US$ 3,022 bilhões.
Do total de investimentos, 28% corresponderam a operações superiores a R$ 1 bilhão. Outros 33,6% são oriundos de transações entre US$ 100 milhões e R$ 1 bilhão. Segundo Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico (Depec) do BC, a autoridade monetária acompanha as operações e não vê irregularidades.
O Ministério da Fazenda já levantou suspeitas de que parte do ingresso sob registro de investimento direto poderia estar sendo de fato, para operações de curto prazo no mercado financeiro. O BC discorda. "São operações muito vultosas, que podem ser acompanhadas por nossas equipes. Até onde nossas estatísticas permitem avaliar não vemos nenhuma irregularidades. O IED está dentro de uma trajetória prevista para o ano", afirmou Tulio Maciel.
A migração dos recursos para IED, isento de IOF, levou o mercado a reestimar suas projeções para o volume do ano de US$ 40 bilhões para US$ 60 bilhões até o fim do ano. O BC promove revisões trimestrais e ainda mantém a expectativa de um fluxo de US$ 55 bilhões. "O BC não considera no seu cenário principal, para as projeções para o ano, um calote tanto nos Estados Unidos quanto na Europa", disse Maciel.
O fluxo é bastante diversificado, mas o setor de serviços é o que mais recebeu recursos (telecomunicações, elétrico e comércio), mais da metade dos US$ 32 bilhões que entraram no semestre. A agricultura e o segmento de indústrias metalúrgicas e de produtos minerais não-metálicos vêm na sequência.
Até o momento, o BC não identificou nenhum sinal de mudança na tendência da economia brasileira de atrair recursos, mesmo com o cenário externo mais turbulento. "Não temos observado movimentos de retorno de capitais", disse o chefe do Depec.
A saída mais expressiva de recursos ocorreu nas remessas de lucros e dividendos, de US$ 18,768 bilhões no ano até junho. Esse também foi um volume recorde para o semestre, com alta de 25% sobre mesmo período de 2010. Maciel atribuiu essa evolução "à rentabilidade das multinacionais" no Brasil pois, mesmo com a atividade tendo desacelerado em relação ao ano passado, "a economia brasileira continua em crescimento". Ele lembra ainda que as multinacionais tendem a "suprir" com suas remessas os caixas de suas matrizes ainda atingidos pelas dificuldades geradas com a crise financeira de 2008.
As transações correntes do país com o exterior atingiram o maior déficit para o primeiro semestre, de US$ 25,448 bilhões.

QUEDA LIVRE




Governo taxa derivativos para conter queda do dólar

BRASÍLIA (Reuters) - O governo publicou nesta quarta-feira decreto impondo uma taxação de 1 por cento sobre as operações de derivativos cambiais feitas por investidores brasileiros e estrangeiros no país.
A medida visa conter a desvalorização do dólar, que sofreu fortes quedas frente ao real desde a última semana, alimentando preocupações com a competitividade das exportações brasileiras. A divisa norte-americana está no menor patamar em mais de 12 anos e meio diante do impasse sobre a dívida dos Estados Unidos.
Uma medida provisória também publicada no Diário Oficial da União autoriza a taxação sobre os derivativos de uma forma geral a ser elevada a até 25 por cento.
A MP abriu a possibilidade, ainda, da imposição de depósitos sobre os valores dos contratos e da definição, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de limites, prazos e outras condições sobre negociação dos derivativos.
A taxação de derivativos cambiais com Imposto sobre Operações de Crédito (IOF) se dará sobre operações que resultem em aumento da posição vendida das instituições. Exposições abaixo de 10 milhões de dólares terão alíquota zero.
A medida entra em vigor nesta quarta-feira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deverá conceder entrevista à imprensa esta manhã para comentar a medida.
"Controles de capital, taxação, etc., podem ajudar a alterar a composição dos fluxos de capital, mas não vão resolver o problema", afirmou o economista para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, David Rees, em Londres.
"A pressão sobre o real vai permanecer", disse o analista, acrescentando que no médio e longo prazos o Brasil precisa reduzir sua taxa de juros e promover reformas estruturais.
Há duas semanas, fonte da equipe econômica havia adiantado à Reuters que o governo estudava impor um limite aos contratos de derivativos cambiais, preocupado com as posições vendidas em câmbio elevadas de investidores estrangeiros.
Na última sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff indicou, contudo, que o governo não pretendia tomar medidas para o câmbio enquanto perdurassem as incertezas mais agudas em torno da negociação para a elevação do teto da dívida dos EUA e também com relação à crise da dívida soberana na Europa.
Já nesta semana, o ministro Mantega afirmou que o governo estaria sempre "propenso" a tomar medidas para evitar valorização excessiva do real. "Não vamos deixar a guerra cambial nos derrotar", afirmou durante apresentação na terça-feira.
As operações com derivativos cambiais têm forte influência sobre a cotação da moeda norte-americana no mercado à vista. O dólar barato contribui no combate à inflação, que está no momento acima da meta do governo, mas torna as exportações brasileiras menos competitivas.

Na terça-feira, o dólar à vista fechou a 1,5388 real para venda, em queda de 0,35 por cento no dia.

Após na abertura chegar a subir quase 2 por cento, o dólar à vista diminuía a alta na manhã desta quarta-feira, com investidores digerindo a nova medida cambial anunciada pelo governo.
Às 9h29, a moeda norte-americana avançava 1,28 por cento, para 1,5585 real na venda.
No mesmo horário, a taxa para o contrato de dólar futuro referente a agosto avançava 1,27 cento, valendo 1559,500 dólar na venda, após iniciar os negócios em alta superior a 2 por cento.
O governo publicou decreto impondo uma taxação de 1 por cento sobre as operações de derivativos cambiais feitas por investidores brasileiros e estrangeiros no país. A medida visa conter a desvalorização do dólar, que tem oscilado na mínimas em 12 anos ante o real, alimentando preocupações com a competitividade das exportações brasileiras .
De acordo com a Medida Provisória publicada, o Conselho Monetário Nacional (CMN) pode ainda impor depósitos sobre os valores dos contratos e da definição, limites, prazos e outras condições sobre negociação dos derivativos.
A taxação de derivativos cambiais com Imposto sobre Operações de Crédito (IOF) ocorrerá sobre operações que resultem em aumento da posição vendida das instituições financeiras, considerada um dos principais elementos por trás da queda do dólar.
Segundo números da BM&FBovespa, os investidores não-residentes sustentavam na véspera cerca de 22,9 bilhões de dólares em apostas na valorização do real.
O aumento da demanda por dólares deve seguir nesta sessão, disse Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora de Câmbio, uma vez que os investidores ainda estão "digerindo" a medida.
"Pode ser que não tenha tanta eficiência, mas a notícia em si, a confusão que isso gera faz o mercado ficar mais receoso. Ninguém vai querer arriscar hoje", afirmou.
Mas, para Luciano Rostagno, estrategista-chefe da CM Capital Markets, a reação do mercado (puxando o dólar para cima) é natural, e deve ser momentânea, não alterando a perspectiva de queda para a moeda norte-americana no médio e longo prazos, principalmente devido ao elevado juro brasileiro.
"Até pode fazer o dólar dar uma ajustada para cima, mas com a ajuda do movimento externo, onde o euro está se desvalorizando contra o dólar. Talvez essa forte queda que o dólar teve nos últimos dias pode ter sido porque o mercado estava se antecipando a essa medida. O real tende a cair no curtíssimo prazo."
O mercado aguarda agora declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre a medida. O ministro deve falar às 10h.

GUSTAVO FRANCO TENTA RESPONDER À ESFINGE




Por que o Brasil é campeão mundial de juros altos ?

Valor 27/07/2011



Os números fiscais brasileiros são muito parecidos com os dos Piigs em pelo menos um aspecto importante: as “necessidades de financiamento do setor público” (NFSP), o conceito mais amplo de déficit público, sem nenhum ajuste ou dedução, estão na faixa de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), como pode ser visto na tabela. As NFSP correspondem à soma do déficit nominal (primário mais juros) com as amortizações devidas no exercício fiscal.
Os países desenvolvidos, na média, tinham, antes da crise, dívidas brutas um pouco acima de 70% do PIB e prazo médio perto de oito anos, e com isso, se tivessem déficits nominais na faixa de 2%, tinham NFSP na faixa de 10% do PIB ou menos. Depois da crise, as dívidas crescem para algo como 105% do PIB em média e os déficits aumentam de modo que passamos a observar muitos casos de países com NFSP na faixa de 15% do PIB ou mais. O panorama fiscal no mundo desenvolvido conheceu uma piora muito séria, cujas consequências de médio e longo prazo desafiam prognósticos, e aqui se omite deliberadamente o Japão para não desviar a atenção do leitor.
O Brasil é um caso singular de país emergente com retrospecto ruim em matéria de dívida mas consegue manter uma dívida bruta acima de 60% do PIB em contraste com a maior parte dos países emergentes, cuja média tem permanecido na faixa de 35%. Com prazos médios na faixa de 3 anos, o Brasil faz rolagens anuais envolvendo algo como 20% do PIB a cada ano. Somando-se a isso um déficit nominal na faixa de 3% tínhamos em 2007 as NFSP na faixa de 23%. Com um tanto mais de alongamento de prazo e a manutenção do superávit primário (ainda que com alguns truques), conseguimos chegar a 19,3% para 2011, segundo a projeção do FMI, possivelmente a primeira vez que estaremos abaixo de 20% nos últimos anos. É um número muito ruim, mas que não atrai muita atenção face ao que se passa no resto do mundo.




A experiência dos Piigs, que refinanciam suas dívidas em mercados internacionalizados de bônus, enfrentando investidores exigentes, mostra que os países quebram quando se rompe a confiança no processo de rolagem, o que normalmente tem a ver sobretudo com o déficit fiscal do exercício corrente e também com os juros (prêmios de risco) pagos. Os investidores aceitam emprestar para países endividados mas que geram caixa, e começam a exigir mais juro apenas quando sua confiança nos números correntes se vê enfraquecida. E como os juros maiores pioram os números correntes, não é difícil criar o círculo vicioso onde estão alguns dos Piigs.
No Brasil a rolagem da dívida pública não representa problema graças ao fato de que praticamente toda a dívida é doméstica (as reservas no BC são maiores que a dívida externa pública) e ao fato de que a rolagem há anos tem lugar num ambiente semicativo onde o principal comprador é a indústria de fundos, que carrega algo como 1 trilhão em títulos públicos e operações compromissadas em fundos com liquidez diária. Por precário que pareça ao observador estrangeiro, o sistema é robusto, aguentou turbulências no passado, e não vamos ter problemas com rolagens ao menos enquanto os nossos juros continuarem sendo os maiores do mundo.
Mas e o custo dessa segurança? O que aconteceria se a taxa Selic caísse muito significativamente, para um nível “normal”, como se espera que vá ocorrer no futuro?
Teríamos, inevitavelmente, uma migração de recursos para outros ativos, as rolagens ficariam mais difíceis e o Tesouro teria problemas de caixa, especialmente se tiver que amortizar parcelas significativas da dívida que vence. A situação fiscal teria que estar muito melhor para que se pudesse reduzir os juros de forma relevante sem criar problemas sérios com a dívida pública.
É fácil concluir que não se pode reduzir a taxa de juros abaixo de certo limite, provavelmente na faixa de uns 8% ou 9%, sem prejudicar o mercado semicativo no âmbito do qual temos conseguido manter em circulação durante anos a fio uma dívida relativamente grande e portanto, uma política fiscal mais frouxa que o ideal.



Esta é uma forma elegante de explicar a razão pela qual o Brasil é o campeão mundial de juros: é o preço que pagamos para manter nas mãos de brasileiros que aprenderam a desconfiar do governo um volume de títulos que eles talvez não quisessem manter a juros considerados normais e a prazos que não fossem diários. É o preço que pagamos pela desordem na política fiscal que, felizmente, não é tão grande para trazer de volta a hiperinflação, mas não é pequena o suficiente para que tenhamos juros normais. Em vez de tributar o pobre com a inflação, migramos para um modelo menos selvagem onde continuamos a empurrar a conta para um ausente, as futuras gerações.

Este artigo resume um trabalho maior, que pode ser encontrado em http://www.riobravo.com.br/gustavofranco/Juros-CLP_Casa_do_Saber-GFranco_final.pdf
Gustavo H. B. Franco doutor em Economia pela Universidade Harvard, foi presidente do BC e é sócio fundador da Rio Bravo Investimentos.

Carta Maior - Economia - Campanha mundial pede o fim dos paraísos fiscais

Carta Maior - Economia - Campanha mundial pede o fim dos paraísos fiscais

terça-feira, 26 de julho de 2011

Desemprego Estrutural - (O que muda no emprego - Celso Ming - 23.07.2011)

Algumas vezes esta coluna apontou, entre as causas do enorme desemprego dos países ricos, a grande redistribuição internacional do trabalho. Mas não é a única.

Os dirigentes se comportam como se a atual escalada do desemprego fosse somente consequência da crise financeira iniciada em 2007, nos Estados Unidos. Não lhe dão tratamento de fenômeno permanente e estrutural. Ao contrário, agem como se a situação pudesse ser rapidamente revertida.

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano), por exemplo, justificou a chuva de moeda na economia dos Estados Unidos com o argumento de que é preciso recuperar o emprego. E, no entanto, embora mantenha os juros básicos (Fed funds) a níveis perto de zero por cento ao ano desde 2008; tenha despejado US$ 1,7 trilhão para comprar títulos podres; e tenha colocado em marcha duas operações de afrouxamento quantitativo, de US$ 300 bilhões e US$ 600 bilhões, respectivamente; a contratação de pessoal não reage. O desemprego é hoje de 9,2% da força de trabalho e não há sinais de que possa baixar rapidamente. Com algumas exceções, os números da Europa também são preocupantes (veja a tabela ao lado).

Há pelos menos três fatores de longo prazo que tendem a reduzir o emprego nos países ricos. O primeiro deles, já mencionado, é a crescente incorporação de mão de obra asiática, recentemente, subempregada. As magnitudes variam, mas vêm sendo aceito pelos analistas que, ano a ano, entre 30 milhões e 40 milhões de asiáticos obtêm seu primeiro emprego. É o que ajuda a explicar a forte redução dos custos de produção de industrializados. Os sindicatos dos países desenvolvidos (e não só americanos) seguem reclamando de que as crescentes importações de manufaturados da China e as transferências de indústrias inteiras para a Ásia estão fechando empregos nos Estados Unidos e na Europa. E a China planeja arrumar trabalho, em 20 anos, para uma população de 400 milhões, hoje, subempregada.

O segundo fator de longo prazo que pressiona o mercado global de trabalho é a incorporação das mulheres, quase metade da população. Trata-se de um processo que ainda não completou três gerações. Há pouco mais de 60 anos, elas não conseguiam mais do que cinco ou seis ocupações remuneradas: professora, enfermeira, secretária, telefonista, empregada e babá. Hoje, a mulher disputa com os homens em (quase) igualdade de condições em praticamente todas as profissões. O impacto disso ainda está para ser medido, mas não pode ser desdenhado.

E, enfim, aqui está o terceiro fator de longo prazo, que não tem mais do que 30 anos. É a adoção crescente de Tecnologia de Informação (TI) nas cadeiras de produção, de vendas e de prestação de serviços. É toda essa tralha eletrônica (computadores, software, internet, nuvens virtuais) que cortou custos em todos os setores: instalações, estoques, linhas de produção e – obviamente – pessoal.

A atuação desses três fatores (redistribuição internacional do trabalho, incorporação da mulher e emprego de TI) ainda está em desenvolvimento. Ou seja, ainda tende a produzir desemprego no Ocidente – a menos que sobrevenha uma virada, hoje, improvável.

http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/2011/07/23/o-que-muda-no-emprego/

As dúvidas estrangeiras em relação à economia brasileira - CBN

As dúvidas estrangeiras em relação à economia brasileira - CBN

A fé ameaça quebrar economia dos EUA




Josias de Sousa (por acoelhof)



Vence em 2 de agosto o prazo que de que dispõe o Congresso dos EUA para decidir se autoriza ou não a Casa Branca a elevar o pé direito da dívida americana.

Se você integra o grupo do “e eu com isso?”, convém prestar atenção. Por quê?

Os EUA estão endividados até a raiz dos cabelos do mundo.

No ranking dos compradores do papelório da dívida do Tesouro americano, o Brasil ocupa a terceira posição. É contra esse pano de fundo que os republicanos, rivais de Barack Obama, caminham à beira do abismo pisando em ovos.

Do planeta.

O reporter Clóvis Rossi levou às páginas da Folha artigo que ajuda a entender a encrenca.

O texto vai abaixo:

“O enrosco entre o presidente Barack Obama e os republicanos, em torno do aumento do teto de endividamento, não é uma questão política, econômica, contábil.

Trata-se de fé, de fundamentalismo religioso de parte dos integrantes do chamado Tea Party, o grupo de extrema-direita que emergiu com força na eleição de 2010.

Estão sempre possuídos de uma Estado-fobia que supera o que Paul Krugman, ontem neste mesmo espaço, chamava de loucura antiga dos republicanos.

Ajuda-memória: até o dia 2, o Congresso tem que autorizar o aumento do teto de endividamento, que está em US$ 14 trilhões, número inimaginável. Dá cerca de sete vezes tudo o que o Brasil produz por ano de bens e serviços.

Sem a autorização, o governo quebra.

Não poderia mandar, por exemplo, o cheque para o velhinho aposentado de Utah ou o dinheiro, bem mais suculento, para os investidores chineses que compram aos cachos papéis do Tesouro norte-americano. Nem mesmo para o Brasil, terceiro maior comprador da dívida dos EUA.

A contrapartida da autorização terá que ser um ajuste fiscal de cerca de US$ 4 trilhões (dois Brasis). Ajuste fiscal, em qualquer lugar do mundo, compõe-se de duas fatias não necessariamente iguais: corte de gastos e aumento das receitas do governo.

Até a emergência do fundamentalismo do Tea Party, loucos ou não, os republicanos discutiriam com os democratas até que as duas partes se convencessem de que nada mais poderiam extrair da outra.

O acordo sairia, na undécima hora, mas sairia.

Aí é que surge o fundamentalismo com que os republicanos do Tea Party abordam a negociação. Ela já começou desequilibrada a favor do corte de gastos: Obama, em abril, propunha US$ 1,5 trilhão de aumento de impostos (em 10 anos). Ou seja, 37,5% do ajuste viria do aumento de receitas; os dois terços restantes do corte de gastos.

Os republicanos refugaram, e a mais recente proposta do presidente, já em julho, passou a ser de US$ 750 bilhões. Ou seja, menos de 20% do ajuste viria do aumento de impostos e mais de 80% do corte de gastos.

Nem assim os republicanos estão aceitando. Não é que Obama queira, por exemplo, aumentar o imposto sobre valor agregado, que machuca todos os contribuintes, independentemente de sua renda. Não.

Acha apenas, como disse sexta-feira, que ‘milionários e bilionários podem fazer um pouco mais’, que é possível fechar ‘os buracos corporativos de forma que as companhias de petróleo não consigam desnecessárias isenções fiscais ou que os donos de jatinhos corporativos delas se beneficiem’.

Enfim, nada que não seja o mais clássico preceito tributário segundo o qual paga mais quem pode mais. Mas não basta para a turma do Tea Party, que quer zero de aumento de impostos e, de quebra, aleijar um presidente que consideram "socialista".

Torna-se por isso possível o cenário assim descrito para o "Financial Times" por Steve Wieting, analista do Citigroup:

‘Perguntar como poderia se parecer a economia norte-americana após um eventual calote equivale a perguntar o que você faria depois de cometer suicídio’.”

Plano da Petrobras recebe críticas

Valor 26/07/2011

O plano de negócios 2011-2015, divulgado pela Petrobras na sexta-feira, continuou sendo alvo de críticas por parte de analistas. Eles elogiam o ganho de importância do segmento de exploração e produção dentro do planejamento de aportes da companhia, mas mantêm ressalvas ao volume de recursos destinados ao refino e alertam para a redução na geração de caixa prevista.
A estatal ressalta que a geração de caixa de 2011 a 2015 ficará entre US$ 125 bilhões e US$ 148,9 bilhões, abaixo dos US$ 155 bilhões previstos no plano 2010-2014, o que levou a críticas de analistas.
Para o Credit Suisse, em relatório assinado pelo analista Emerson Leite, o foco em exploração e produção - que terá direito a 57% dos recursos previstos no plano divulgado na sexta-feira, contra 53% no programa anterior - não significou uma geração de caixa maior, "reforçando nossa tese de que os retornos estão caindo".
O Deutsche Bank segue linha semelhante e os analistas Marcus Sequeira e Luiz Fonseca se dizem "desapontados", em relatório enviado ontem a clientes, com o fato de os investimentos em refino terem se mantido e com o corte de 19% na estimativa de fluxo de caixa, "apesar das metas mais elevadas de produção".
O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, ressaltou ontem, na primeira apresentação pública do novo plano de negócios, as razões que levaram à queda na projeção do fluxo de caixa.
O executivo lembrou que uma curva de crescimento de produção "mais apertada" e o aumento dos custos operacionais em todo o mundo na exploração e produção e no refino, além da valorização do real, contribuíram para a queda na estimativa do fluxo de caixa na comparação entre os planos de negócios 2010-2014 e 2011-2015. Mesmo assim, Gabrielli destacou que, em qualquer cenário traçado pela empresa, a relação entre a dívida líquida e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) não vai superar 1,9 vez.
"Estamos em faixa bastante confortável, mesmo nesses dois intervalos", disse, lembrando que o melhor cenário, para uma geração de caixa de US$ 148,9 bilhões até 2015, incorpora uma relação entre a dívida líquida e o Ebitda de 1,5 vezes.
Gabrielli também confirmou que a empresa realizará desinvestimentos de até US$ 13,6 bilhões para ajudar na obtenção de recursos para investir. A empresa pretende realizar a venda de participações em blocos exploratórios, a alienação de fatias em companhias controladas pela estatal e a adequação da gestão de ativos financeiros.
O diretor financeiro e de relações com investidores, Almir Barbassa, frisou que uma das medidas de adequação dos ativos financeiros é a aposta no programa Progredir, no qual um sistema criado entre a Petrobras e os seis principais bancos de varejo do país permite que os fornecedores da petroleira garantam recursos mais baratos, sem precisar da antecipação de recursos, mecanismo usado até então.
"Com isso, reduzimos o custo do financiamento para a cadeia, liberando recursos da Petrobras e reduzindo o custo do produto que compramos", disse Barbassa.
A maior parte dos desinvestimentos, exceção feita à melhora da gestão de ativos financeiros, deverá se dar no exterior, segundo Gabrielli, que evitou antecipar quais ativos poderão ser vendidos. Segundo ele, o processo deverá começar "o mais breve possível".
O diretor da área internacional da estatal, Jorge Zelada, explicou que o desinvestimento é na verdade uma gestão de portfólio que sempre foi realizada, mas nunca havia sido divulgada anteriormente dentro de um plano de negócios.
"A maior parte dos desinvestimentos de ativos no exterior são vendas parciais de participação", disse Zelada.
Gabrielli afirmou ainda que a retirada de US$ 10,8 bilhões em projetos no plano 2011-2015 foi consequência de uma arrumação normal de portfólio.
Na área de abastecimento, que inclui petroquímica e cujos investimentos são constantemente criticados pelo mercado, a redução será de US$ 4,3 bilhões, decorrente principalmente da exclusão de projetos como a tancagem de óleo combustível para térmicas e a logística de querosene de aviação em Brasília. Além disso, a Refinaria Premium, no Maranhão, será postergada e começará a operar em 2016 e não mais em 2014, como previsto anteriormente.
As ações da companhia subiram 2,4% ontem na bolsa.

O FUTURO DO CRESCIMENTO ECONOMICO

Por Dani Rodrik Valor 26/07/2011


Talvez pela primeira vez na história moderna, o futuro da economia mundial está nas mãos dos países pobres. Os Estados Unidos e a Europa marcham como gigantes feridos, vítimas dos seus excessos financeiros e paralisia política. Parecem condenados, por seu pesado endividamento, a anos de estagnação ou crescimento lento, ampliando a desigualdade e possíveis conflitos sociais.
Grande parte do resto do mundo, entretanto, está carregado de energia e esperança. Autoridades governamentais na China, Brasil, Índia e Turquia estão preocupados com crescimento excessivo, e não com pouco crescimento. Sob determinados parâmetros, a China já é a maior economia no mundo e os mercados emergentes e os países em desenvolvimento respondem por mais de metade da produção mundial. A empresa de consultoria McKinsey qualificou a África, há muito tempo sinônimo de fracasso econômico, de terra dos "leões em movimento".
Como acontece frequentemente, a ficção reflete melhor a mudança de clima. "Super Sad True Love Story" (Verdadeiro Caso de Amor Supertriste), romance em quadrinhos do russo Gary Shteyngart, é um guia tão bom quanto qualquer outro para o que pode nos esperar. Situado num futuro próximo, a história se desenrola contra o pano de fundo de um EUA financeiramente arruinado sob uma ditadura de partido único e envolvido em mais uma inútil aventura militar no exterior - dessa vez na Venezuela. Todo o trabalho real nas empresas é feito por imigrantes qualificados; faculdades da Ivy League adotaram os nomes de suas homólogas na Ásia a fim de sobreviver; a economia está endividada junto ao banco central da China e "dólares ancorados ao yuan" substituíram a moeda tradicional como ativo seguro preferido.
Mas serão os países em desenvolvimento realmente capazes de puxar a economia mundial? Grande parte do otimismo sobre suas perspectivas econômicas é resultado da extrapolação. A década anterior à crise financeira mundial foi, sob muitos aspectos, a melhor de todos os tempos para os emergentes. O crescimento disseminou-se para muito além de um pequeno número de países asiáticos e, pela primeira vez desde a década de 1950, a grande maioria dos países pobres experimentou o que os economistas chamam de convergência - um estreitamento do diferencial de renda em relação aos países ricos.



Esse, no entanto, foi um período peculiar, caracterizado por muito vento de cauda econômico. Os preços das commodities estavam elevados, o que beneficiou países africanos e latino-americanos em especial, e o financiamento externo foi abundante e barato. Além disso, muitos países africanos bateram no fundo do poço e recuperam-se de longos períodos de guerra civil e declínio econômico. E, como sabemos, o rápido crescimento nos países avançados alimentou, de modo geral, um aumento no volume do comércio mundial até níveis recordes.
Em princípio, um baixo crescimento pós-crise nos países avançados não bloqueará, necessariamente, o desempenho econômico dos países pobres. Em última instância, o crescimento depende de fatores do lado da oferta - investimento e aquisição de novas tecnologias - e do estoque de tecnologias que podem ser adotadas pelos países pobres e que não desaparece quando o crescimento dos países avançados fica lento. Assim, o potencial de crescimento dos países atrasados é determinado por sua capacidade de eliminar o atraso em relação à fronteira tecnológica - e não pela velocidade com que a própria fronteira está avançando.
A má notícia é que ainda não temos uma compreensão adequada sobre quando esse potencial de convergência é concretizado ou sobre o tipo de políticas que gerem crescimento autossustentado. Mesmo casos de inquestionável êxito têm sido objeto de interpretações conflitantes. Alguns estudiosos atribuem o milagre econômico da Ásia a mercados mais livres, ao passo que outros acreditam que intervenção estatal foi o fator decisivo. E a aceleração excessiva de crescimento, após algum tempo, perdeu impulso.
Os otimistas estão confiantes em que dessa vez será diferente. Eles acreditam que as reformas da década de 1990 - melhor política macroeconômica, maior abertura e mais democracia - colocaram o mundo em desenvolvimento em curso de crescimento sustentado. Recente relatório do Citigroup, por exemplo, prevê que o crescimento será fácil para países pobres com populações jovens.
Minha leitura das evidências é mais cautelosa. É certamente motivo para comemoração que as políticas inflacionárias tenham sido extirpadas e a governança melhorou em grande parte do mundo em desenvolvimento. De modo geral, essas mudanças melhoram a resistência da economia a choques e evitam colapsos econômicos.
Mas desencadear e sustentar crescimento rápido exige algo mais: políticas orientadas para a produção que estimulem mudanças estruturais em curso e fomentem emprego em novas atividades econômicas. Crescimento baseado em afluxos de capital ou booms de commodities tendem a ser de curta duração. Crescimento sustentado requer a elaboração de incentivos para encorajar investimentos do setor privado em novos setores - e fazê-lo com um mínimo de corrupção e competência adequada.
Se a história pode nos servir de guia, o leque de países que capazes desse feito continuará estreito. Assim, embora possa haver menos colapsos econômicos devido a melhor gestão macroeconômica, crescimento elevado provavelmente permanecerá episódico e excepcional. Em média, o desempenho pode ser um pouco melhor do que no passado, mas nem de longe tão espetacular como esperam os otimistas.
A grande questão para a economia mundial é se os países avançados atolados em dificuldades econômicas serão capazes de abrir espaço para o rápido crescimento dos países em desenvolvimento cujo desempenho dependerá em larga medida de sua incursão em setores industriais e de serviços onde os países ricos têm sido tradicionalmente dominantes. As consequências para o nível de emprego nos países avançados seriam problemáticas, especialmente tendo em conta a escassez de empregos com altos salários. Consideráveis conflitos sociais poderão tornar-se inevitáveis, colocando em risco o apoio político a aberturas econômicas.
Em última instância, parece inevitável uma convergência maior na economia mundial pós-crise. Mas uma grande reversão na sorte dos países ricos e pobres não parece economicamente provável nem politicamente viável.



Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy" (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org

Política econômica ajustada




Por Delfim Netto Valor 26/07/2011


Entre o segundo trimestre de 2003 e o seu homônimo de 2011, a economia brasileira cresceu à taxa de 4,4% ao ano. Ela foi muito prejudicada pela crise internacional produzida pela patifaria financeira praticada com a bênção de "economistas" financeiros, sob os olhos complacentes dos bancos centrais do mundo (o Brasil foi exceção). Para quantificar seu efeito talvez seja útil considerar a tabela nº 1, onde registramos taxas de crescimento anuais da economia brasileira, entre os segundos trimestres de cada ano. Uma estimativa grosseira do "custo" (em termos de PIB) produzido pela crise é da ordem de 1,9% (5,2% - 3,3%) ao ano, ou quase 6% no período. Em reais de 2011, alguma coisa parecida com 240 bilhões de renda, incluídos os 80 bilhões de impostos, não recolhidos porque não houve renda...
É importante insistir que na média do período, o crescimento do PIB nunca foi superior a 5%. Quando se "alisa" a taxa de crescimento com uma média móvel de três anos que reduz o nível de flutuações eventuais para mais ou para menos, como as produzidas por "choques" internos (supersafra ou crise de energia) ou externos (substancial melhoria das relações de troca, por exemplo) ela foi da ordem de 4%. O quadro 2 abaixo mostra isso com clareza.

Vê-se claramente, que o tão festejado "crescimento chinês" da economia brasileira em 2010/09 não passou, infelizmente, de um simples artefato estatístico. É ridículo continuar a insistir sobre esse ponto. Os números mostram que nunca, nos últimos oito anos (medidos entre o segundo trimestre de cada ano sobre o seu homônimo anterior), o crescimento do PIB foi maior do que 5% e, na média, mal chegou a 4,5%. Nada excepcional para a nossa mal arranjada estrutura produtiva.
Se tomarmos o período 2T-2008, quando o PIB estava rodando em torno de 6,5% (com média móvel de 3 anos da ordem de 5% e inflação em torno de 5%) e o compararmos com 2T-2011, veremos que a taxa de crescimento andou em torno de 3,3% ano (mesmo supondo 1,5% de crescimento de 2T-2011 sobre 2010). Com os investimentos do período, isso não parece indicar que haja o "descomunal excesso de demanda global sobre a oferta global" que exigiria uma política fiscal e monetária muito diferente da que estamos praticando, como querem alguns "falcões" do mercado financeiro. Aliás, se observarmos as médias móveis trienais de PIB e taxa de inflação, no período, verificaremos que é difícil encontrar qualquer relação entre elas, como se vê no gráfico 1.

Os números certamente revelam uma pressão inflacionária na margem devida a um choque externo (facilmente identificável porque ele é universal) e a um choque interno, mais visível no setor de serviços. Há razões para suspeitar que neste caso se trata muito menos de algum "excesso de demanda global" do que de um desequilíbrio estrutural entre a quantidade e a qualidade da demanda e da oferta de trabalho. As informações de uma alta geral de salários reais acima da produtividade marginal da mão de obra (esse sim, um sinal grave de tensões inflacionárias) não são seguras, o que sugere que as nossas políticas fiscal e monetária têm de ser apoiadas por medidas microeconômicas urgentes para ajustar o mercado de trabalho.
Deve ser evidente que o processo civilizatório que está ocorrendo na sociedade brasileira não pode nem deve ser interrompido ou revertido reduzindo dramaticamente o crescimento e aumentando o desemprego através de uma política fiscal recessiva, acompanhada de taxas de juros reais ainda mais altas das que as vigentes.

Globalização e concentração de capitais

Antonio Corrêa de Lacerda
De São Paulo
MTerra - 25/7/2011

A concentração de empresas é uma das faces mais controversas do capitalismo contemporâneo. A expressiva expansão da disponibilidade de recursos financeiros, intensificada na fase da chamada financeirização, ou globalização financeira, especialmente a partir das últimas décadas do século passado tem representado um desafio crescente.
Na medida em que os mercados financeiros se sofisticaram com a criação de novos produtos, como os derivativos, por exemplo, e se interligaram nas 24 horas do dia, isso propiciou uma fantástica alavancagem de recursos. Estima-se que o volume global de ativos financeiros, sem considerar os derivativos, represente mais de quatro vezes o PIB (Produto Interno Bruto) mundial.
Ao mesmo tempo em que essa enorme liquidez aumentou o potencial de geração de crises, como as que se observou especialmente a partir dos anos 1990, também expandiu a disponibilidade de funding para as atividades produtivas: a expansão das empresas, do comércio internacional, da evolução tecnológica e das inovações.
As empresas intensificaram a sua atuação para fora das fronteiras dos seus países de origem, por meio dos investimentos diretos estrangeiros, cujos fluxos cresceram da média anual de US$ 200 bilhões, no inicio da década de 1990, para mais de US$ 1 trilhão, nos anos 2000. Isso também impulsionou as operações de fusões e aquisições mundo afora, que respondem por cerca de três quartos do volume de investimento no exterior.
Para fazer frente a esta crescente internacionalização, as empresas locais logo perceberam que se não adotassem uma estratégia ativa, elas seriam alvos fáceis de aquisição por parte de seus concorrentes mais robustos, agora fortalecidos pela expansão dos mercados de capitais. As empresas domésticas adotaram duas estratégias muito claras para ganhar economias de escala e competir neste novo cenário: primeiro adquirindo, ou se fundindo a outras empresas locais, e, segundo, expandindo sua atuação no exterior.
Assim, o movimento de concentração de empresas se deu tanto de fora para dentro, com a intensificação dos capitais forâneos, mas também internamente, como mecanismo de defesa, e ainda, no exterior, com a internacionalização das suas filiais.
Este cenário de hipercompetição entre grandes grupos econômicos impõe desafios para os países na formulação das políticas econômicas domésticas e para a regulação da concorrência. Uma atitude passiva pode significar a completa desnacionalização da suas estruturas produtivas com evidentes perdas estratégicas.
Os Estados Nacionais são mais fortes, na medida em que atuam em parceria com as empresas, como demonstram as experiências dos EUA, Japão, China, Coréia do Sul, dentre muitos outros.
Um outro dilema é garantir que o consumidor não seja prejudicado com a crescente concentração, pois se os órgãos de defesa da concorrência inviabilizarem as operações de fusões e aquisições poderão, por outro lado, condenar as empresas locais à extinção.
Para o Brasil, especialmente, o cenário imposto pela concentração globalizada dos capitais é um desafio ainda maior. Primeiro, porque nos falta uma clara estratégia integrada para fazer frente às novas circunstâncias e definir mais claramente o nosso papel nas grandes cadeias globais. Tenho dúvida se sequer estamos compreendendo a dimensão do problema. Segundo, e decorrente do primeiro, a valorização cambial, as desvantagens competitivas sistêmicas e a fragilidade das políticas de competitividade (políticas industrial, comercial e tecnológica) denota um quadro preocupante.
Até porque estas questões são muito mal compreendidas e maltratadas na opinião pública, e pelos Poderes. Falta-nos um Projeto, um rumo a ser seguido, que ultrapasse a excessiva fixação nos pseudo benefícios de curto prazo. O risco implícito se traduz na crescente desnacionalização das bases produtivas, na desindustrialização precoce e na vulnerabilização das contas externas. Um cenário pouco propício para o desenvolvimento de longo prazo. Urge-nos, acordar e agir logo!

Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de "Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil" (Saraiva). Foi presidente do Cofecon e da SOBEET. Fale com Antonio Corrêa de Lacerda: mailto:alacerda@terra.com.br

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Câmbio valorizado mostra fragilidade na crise, avalia Belluzzo

VALOR 25/07/2011



A grave crise de endividamento público atravessada pelos Estados Unidos e os países da União Europeia expõe uma fragilidade no "sólido" modelo de crescimento brasileiro - o câmbio valorizada, que impulsiona o consumo via aumento do poder de compra, e sustenta a inflação, via importação. Essa é a avaliação do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, para quem a principal missão do governo brasileiro, no segundo semestre, será centrar esforços no câmbio.
"Uma desvalorização, brusca, não está descartada, o que encareceria os importados imediatamente, além de onerar pesadamente os empréstimos externos tomados pelas empresas", diz Belluzzo, que conversou com o Valor de Florença (Itália), na noite de quinta-feira, sobre os impactos que a economia brasileira pode sofrer com o recrudescimento da crise nos países ricos.
Como um espectador privilegiado da crise da dívida pública que avança pelos países europeus, e que fez da Itália a mais recente protagonista, Belluzzo avalia que o resgate da Grécia, cuja dívida bruta beira o patamar de 120% do PIB, está incutindo entre os países ricos a percepção de que, para escapar de um estresse do mercado financeiro e da possibilidade de um calote, é preciso apertar os gastos.
"Assim como a crise foi pegando os países, um a um, a ideia de que é preciso apertar a política fiscal de maneira muito firme tem se tornado consenso, passando de um país para o outro", afirma Belluzzo. "Os europeus estão perplexos com o que está acontecendo, eles não têm nenhuma experiência com esse tipo de situação, que é mais comum em países pobres."
O grande risco para o Brasil, diz o economista, é uma política coordenada de aperto nos gastos na União Europeia e nos EUA. "A Alemanha, único país ainda dinâmico na União Europeia, graças às exportações, não resistiria a um aperto coletivo na política fiscal, porque ficaria sem mercado", avalia Belluzzo. "E nós ficaríamos sem os fluxos de capitais externos, que chegaram em velocidade impressionante no primeiro semestre."
Para Belluzzo, que foi, ao lado do ex-ministro Antonio Delfim Netto, um dos principais conselheiros econômicos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo brasileiro está "um tanto prisioneiro" do atual modelo de crescimento. Ainda que a situação fiscal esteja "muito boa", quando comparada ao resto do mundo, e a inflação permaneça sob o controle do Banco Central, o economista avalia que o governo "não tem como evitar o enorme fluxo de capitais que chegou e chega ao Brasil".
A missão da equipe econômica, portanto, passa por "evitar que uma turbulência muito séria nos países ricos, algo que não está descartado, resulte em uma desvalorização absurda do real".
O elevado nível de reservas acumulado pelo BC - US$ 340 bilhões (dos quais cerca de US$ 220 bilhões aplicados em títulos públicos americanos - e a dívida bruta em torno de 55% do PIB deixam o Brasil em situação confortável para enfrentar uma deterioração adicional nos países ricos.
"O governo não deveria ter permitido uma valorização tão excessiva do real", diz Belluzzo. "No momento em que os fluxos do exterior se reverterem, independentemente da velocidade com que isso aconteça, o modelo de crescimento sustentado de maneira firme no mercado doméstico e no controle de inflação, via ingresso de bens importados, sofrerá um baque".
A situação de impasse vivida por europeus e americanos intriga o economista que, entre a segunda metade de 1985 e os primeiros meses de 1987, teve como principal tarefa encontrar uma solução que evitasse um calote do enorme passivo acumulado pelo Estado brasileiro. Belluzzo era secretário de Política Econômica. Naquele período, Belluzzo passou do céu, representado pelos passos iniciais do Plano Cruzado, que impulsionou o crescimento de 7,5% do PIB em 1986, ao inferno, quando o país declarou a moratória.
Como acontece hoje com os países europeus, quando a descrença quanto à solvência da Grécia, em 2010, atingiu Irlanda, Portugal e, mais recentemente, a Itália, os países latino-americanos foram alvos dos bancos americanos e europeus entre 1982, quando o México foi o primeiro a declarar moratória, e 1994, quando o Brasil finalizou a renegociação da dívida externa.
"A União Europeia passa, hoje, pelo que a América Latina passou entre o fim da década de 80 e o início dos anos 90", diz Belluzzo, "quando todos os agentes do mercado sabiam que as dívidas eram impagáveis e precisavam ser renegociadas, mas ninguém queria arcar com o prejuízo". Mesmo assim, pondera Belluzzo, a renegociação da dívida externa brasileira, entre 1993 e 1994, só foi possível devido à crise econômica que os americanos atravessaram durante o governo Bush (1989-1992), que permitiu ao Brasil acumular as reservas internacionais que serviram de garantia nas reuniões com os credores.
Para Belluzzo, uma política fiscal mais apertada só faz sentido em tempo de bonança - o que não é o caso. "Os países europeus e os EUA precisam resolver o alto desemprego, principal problema da economia real. Isso só acontece com crescimento", afirma.
A situação americana beira a "irracionalidade econômica", diz o economista. Em vez de utilizar a política fiscal como estímulo para a redução da elevada taxa de desemprego, que oscila entre 9% e 10% há um ano, o governo de Barack Obama lançou mão da política monetária. "Foi a agressiva política de emissão de moeda adotada pelo Fed [Federal Reserve, o banco central americano] que propiciou a enxurrada de capital que chegou ao Brasil desde o fim do ano passado, e pouco serviu para ampliar o crescimento interno ou gerar empregos", afirma Belluzzo.
A crise fiscal americana é o reflexo da crise financeira privada, desencadeada pela falência de grandes bancos de investimento, em 2008. "O governo gastou a política fiscal na salvação do sistema financeiro, algo que era necessário, e acabou sendo tímido no incentivo ao crescimento. Agora, a irresponsabilidade será maior, caso decidam por cortes de programas sociais, na hora errada".

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Copom e a casa de massagens








A economia, ciência, diante de sua complexidade, é por vezes inacessível ao cidadão comum, desprovido que é do conhecimento de avançadas técnicas de cálculo e capacidade de realizar inferências a fatos ou temas que a primeira vista não parece haver qualquer conexão.
È difícil entender, por exemplo, que o aumento da taxa básica de juros, rigorosamente calculada em 0,2465898884% , arredondada em 0,25% diante da falta de memória das calculadoras dos bancos, tenha sua influência para daqui a 188 dias no controle dos preços do quiabo na salada, desconsiderado o peso dos tomates pisados, no efeito escorregadio da inflação.


Na conclusão do relatório resultado dos complexos cálculos, aparece uma súplica singela para que o inchaço pare por aí, devido ao alto estágio de contaminação por vermes, fato de imediato contestado pelos próprios no mercado.


Os vermes, digo, o mercado pressiona para maior intumescimento contestando os cálculos da autoridade monetária, estaria evidente em “restos a pagar”, calculados em 0,0212234529% , arredondados em 0,02% mas com a aplicação dos fatores ao valor futuro para daqui a 188 dias, 0,24309876%, ou seja 0,25% como noticiou a imprensa:

“ Um dia após a alta da taxa básica de juros (Selic) para 12,50% ao ano, o mercado financeiro está pressionando o Banco Central por um novo aumento de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto. A curva de juros caiu para contratos de curto prazo, mas subiu para os de vencimentos mais longos. A elevação, apesar de pequena (passou de 12,38% para 12,40%), indica a aposta de que o aperto monetário continuará no mês que vem. “

No entanto, os analistas internacionais, não puderam achar qualquer coerência como noticiou a famosa rádio FM Mantega

"Policymaking has become a little incoherent of late. FM Mantega recently announced that policymakers would resist further currency appreciation, apparently re-drawing the battle lines in the ‘currency war’. By contrast, President Rousseff has taken a hard line on dealing with inflation keeping the door open for further rate hikes and currency appreciation. For his part, BCB Governor, Alexander Tombini, has suggested that the prior policy tightening will take time to have an effect, but that inflation will begin to fall from Q3 onwards. The mixed signals make forecasting future rates decisions difficult. "




De fato achar qualquer coerência não é nada fácil, principalmente pela grande heterogeneidade da fauna e mais o pitaco dos índios tornando o dialogo surrealista, nos dizeres de Rodrigo L Medeiros:

“ Há, como sempre, que se tentar dialogar com os falcões tupiniquins. Antes era preciso subir a taxa básica de juros para atrair capitais externos porque havia "escassez" destes e elevar o superávit primário para dar credibilidade ao governo brasileiro. Quando se atingiu o tal grau de investimento, o discurso dos falcões deslocou-se para o combate da inflação de commodities. O resultado? Pois bem, em abril de 2011, informou o BC brasileiro, o déficit acumulado nas transações correntes em 12 meses aproximou-se de US$ 49 bilhões.”



Urge, no meu entender, que a autoridade mostre sua memória de cálculos, para o esclarecimento de uma vez por todas e antes que a matéria vire caso de polícia, como o ocorrido antes em Campo Florido MG em 2009:



Campo Florido/Mg, 22 de Dezembro de 2009
Cicero Duarte (43 anos) foi preso após cometer briga com a Garota de Programa Márcia Machado Padilha em um bar na Rua Governador Valadares n. 4, Centro, Campo Florido/Mg.
A Radiopatrulha recebeu solicitação via Copom para atender a ocorrência, na madrugada deste Sábado ás 00h03.


O autor havia pedido um quarto na Hora de Pagar o Programa mais o uso do Quarto para Márcia Machado Padilha, disse que não era este valor que havia combinado com ela, começando uma briga no bar.


Quando percebeu que o dono do bar chamou a Polícia, Cicero Duarte passou a fazer ameaças. Ele foi conduzido junto com Márcia Machado Padilha até o 1º DP de Campo Florido para elaboração de B.O
Este Cicero Duarte Doido Varrido e Caloterio de Casa de Massagem, sua ficha é grande.



Ronaldo Pignataro

Chapéu na mão

Siderúrgicas vão a Brasília pedir pacote de medidas
Valor 22/07/2011



Após uma visita a Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cerca de dez dias atrás, o alto comando da siderurgia brasileira volta suas baterias para Brasília. Os dirigentes do Instituto Aço Brasil (IABr), entre os quais está o empresário Jorge Gerdau, busca um encontro com a presidente Dilma Rousseff. Na pauta, no mesmo tom do que foi apresentado a Coutinho, uma apresentação detalhada de questões consideradas ameaças à competitividade do setor no país.
Meio caminho já está garantido na blitz à Brasilia, cujo cardápio deverá constar desde temas da desindustrialização do país - acelerada pelo aumento da importação de produtos que contém aço, como autopeças, carros e máquinas - à guerra fiscal entre os Estados e ao câmbio. Um ponto sensível listado na pauta são os estímulos do Planalto à Vale para montar siderúrgicas no país. Esses projetos são vistos com viés político e sem bases mercadológicas e econômica (rentabilidade do capital investido).
Os encontros devem começar com uma reunião com ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Pimentel, aliás, recentemente fez coro a reclamações de alguns consumidores nacionais de produtos siderúrgicos, denunciando que o aço brasileiro é muito caro em relação ao fabricado em outros países e que as margens das usinas locais são altas.




O apoio do ministro não caiu bem entre os empresários, que consideram que o ministro não está bem informado, por assessores, sobre os percalços enfrentados pela indústria. "Não estão levando em conta o câmbio valorizado do país e a elevada carga tributária que pesa sobre a indústria, entre outros fatores que afetam nossa competitividade frente a outros países", rebatem dirigentes das siderúrgicas.
Além do presidente do conselho do grupo Gerdau - segundo maior fabricante de aço no país -, a comitiva será encabeçada por André Gerdau, presidente da empresa e do conselho diretor do IABr, Wilson Brumer, da Usiminas, Albano Chagas Vieira, da Votorantim e vice-presidente do conselho da entidade, Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do IABr e executivos da ArcelorMittal Brasil, ThyssenKrupp CSA, Valourec, entre outras.
A entrada mais agressiva da Vale no setor, depois da saída de Roger Agnelli, criticado pelo ex-presidente da República Luis Inácio Lula da Silva por não acelerar projetos de usinas de aço no Pará e Ceará, é desaprovada com o seguinte argumento: a empresa vai contribuir para ampliar o excesso de capacidade de produção de aço no mundo que já passa de 530 milhões de toneladas. Esse volume significa cerca de um terço do consumo mundial.
No Brasil, aponta Melo Lopes, do IABr, a sobra de capacidade de produção das usinas em operação representa 53% da demanda doméstica. "Como exportar mais aço para um mercado global já saturado e com preços deprimidos?", questiona o executivo. Para agravar esse cenário, ele diz que as importações de bens fabricados em aço, principalmente da China são crescentes a cada ano. Podem ficar próximo de 5 milhões de toneladas neste ano.
Para Lopes, o que se precisa, de fato, são estímulos à expansão do mercado interno, levando o consumo per capita de 140 quilos por habitante ano a 250 ou 300 quilos. Na China, já passa de 400. O Chile supera o Brasil. "É disso e outros fatores que precisamos para investir mais no Brasil, aumentando a ofeA Vale tem planejados investimentos em três projetos siderúrgicos - a Alpa, em Marabá (PA), a CSP, em Pecém (CE), e a CSU, no sul do Espírito Santo. os dois primeiro, conforme informou o presidente da empresa em entrevista recente ao Valor, serão levados á apreciação do conselho da companhia neste semestre. A CSU ainda está na fase de estudos conceitual e de engenharia, ao mesmo tempo que requer a licença prévia e ambiental. Na CSP, a Vale já tem como sócios declarados as sul-coreanas Posco e Dongkuk.
Lopes observa que montar um projeto, atraindo investidores externos, não é o grande problema e depois sair do empreendimento. O problema, reforça o executivo, é a Vale ser usada para alavancar projetos com viés político. "A expansão da capacidade de produção do setor deve levar em conta bases sustentáveis e tem de estar em linha com as regras de mercado", afirma. Alpa e CSU, ainda não contam, até o momento, com sócios definidos.
Os três projetos da Vale, se concretizados, vão adicionar produção de 10,5 milhões de toneladas a 13,5 milhões de toneladas de aço bruto por ano, a partir de 2014/2015. Com a ThyssenKrupp, a Vale montou, no Rio, a CSA, usina de 5 milhões de toneladas que começou a operar no ao passado. Na crise de 2008/09, a empresa teve de aportar mais R$ 2,6 bilhões para "salvar" o projeto, o qual vai consumir 8,5 milhões de toneladas de seu minério de ferro. Esse é o argumento da Vale para os investimentos: recuperar perda de mercado de minério no país.
Na lista de pontos a ser levada à presidente Dilma, estão isonomia competitiva (redução de juros, desoneração tributária dos investimentos, redução de custos trabalhistas e do custo de energia), crescimento do mercado e prevalência de regras de mercado. Não para por aí: inclui redução de tributos, aceleração de projetos de infraestrutura, prioridade a conteúdo nacional nas aquisições com recursos públicos, defesa comercial e apoio às exportações.
Se não houver uma mudança na forma como o governo enxerga a questão do aço no país, dizem, muitos dos investimentos previstos em novos projetos poderão ser afetados por falta de competitividade, principalmente para exportação. O poder de competição interna também começa a exaurir, afirmam, diante dos custos elevados da matérias-primas - minério de ferro (em torno de US$ 180 a tonelada) e carvão (mais de US$ 300), além de tarifa elevada da energia para o setor industrial.
No ano passado, a Usiminas cancelou usina de US$ 5 bilhões e preferiu investir em minério de ferro, energia e logística. A Cia. Siderúrgica Nacional (CSN) também só tem investido na mineração de ferro, onde as margens de rentabilidade são acima de 60%. "Essa movimentação é toda defensiva", rebate Lopes. Para ele, hoje há só dois blocos de empresas: as rentáveis, que verticalizaram a produção (do minério ao aço final, como CSN) e as não rentáveis, que têm de recorrer ao mercado dessas matérias-primas.
"Na última década, houve uma transferência enorme de ganho dentro da cadeia produtiva", informa o dirigente do IABr. Ele exemplifica: o percentual da margem de lucro da siderurgia baixou de 78% em 2000 para 28% em 2009. No mesmo período, o minério saiu de 15% para 41% e o carvão de 7% para 31%.
Na visão do IABr, "o aço brasileiro não é caro; o país é que caro". A entidade encomendou estudo no ano passado à uma consultoria internacional para mensurar o peso da carga tributária em vários países. O Brasil liderou. O peso dos impostos na bobina a quente de aço foi de 42%, subindo para 47% nos vergalhões.
Os dirigentes siderúrgicos vão reforçar que há uma carteira de investimentos do parque existente de US$ 30,7 bilhões até 2016, a qual pode acrescentar 13 milhões de toneladas de aço bruto. Além disso, haveria intenções de novos projetos que somam outros US$ 23 bilhões. Mas que precisam de estímulos (medidas de apoio), para se concretizar. Com esse leque de investimentos, a capacidade do setor iria a 72 milhões de toneladas dentro de cinco anos. "Se há receio de que vai faltar aço para sustentar o crescimento do país, isso não se justifica".
Lopes observa que o setor é intensivo em capital e que, sem margens adequadas de ganho, não tem como investir. "Não vemos senso a Vale entrar em um setor que está destruindo valor, com baixas margens e sofrendo a concorrência da importação - direta e indireta -, apenas porque é um desejo do governo".




SONHANDO ALTO

Petrobras tenta, pela 3ª vez, aprovar plano de negócios



Agencia Estado


Rio - A diretoria da Petrobras deve apresentar hoje, pela terceira vez, ao Conselho de Administração da estatal o novo plano de negócios para o período 2011-2015. Depois de muita negociação, o valor dos investimentos ficará entre US$ 225 bilhões e US$ 230 bilhões, pouco acima dos US$ 224 bilhões previstos no período 2010-2014. Mas, ainda muito abaixo dos US$ 260 bilhões inicialmente pretendidos pela companhia.
Na quarta-feira, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, teve reunião reservada em Brasília com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que também preside o conselho da estatal. Sem condições de elevar receita por meio de um ajuste no preço de combustíveis e com a obrigação de adequar os investimentos às margens orçamentárias impostas pelo governo, a companhia terá de rearranjar as condições de grandes projetos.
As principais modificações deverão se concentrar nos prazos das novas refinarias e no desenvolvimento de áreas exploratórias. As refinarias Premium I e II, com investimento previsto de US$ 30 bilhões, terão de ter o começo da operação, antes fixado entre 2015 e 2017, adiado entre um ano e um ano e meio. A área de Exploração e Produção poderá se concentrar mais no desenvolvimento dos campos do pré-sal que já constam do portfólio.
Segundo a Agência Estado apurou, Gabrielli teria obtido do governo a garantia que o primeiro leilão pelo novo modelo de partilha só ocorrerá no fim de 2012 ou início de 2013, e não mais no primeiro trimestre do próximo ano, como chegou a ser anunciado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).




Isso dá à empresa - que, por lei, é operadora única das áreas do pré-sal - mais tempo para o cumprimento do processo de desenvolvimento das áreas, que exige um pesado investimento.
Reajuste de combustível
Outro impasse discutido incansavelmente durante as negociações para a aprovação do plano acabou dando vitória ao Tesouro Nacional. O ministro Mantega se mostrou irredutível ante a reivindicação da estatal de reajustar seus principais combustíveis, o diesel e a gasolina, sob argumento que isso poderia prejudicar a inflação.
Também foi recusada, pelo risco de queda na arrecadação, uma das alternativas colocadas na mesa: a de compensar o aumento reduzindo a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), para que o consumidor não sofresse o impacto do reajuste.
A companhia também deverá trabalhar com uma média de preços do barril de petróleo na casa dos US$ 88, o que representa um aumento de US$ 10 sobre o projetado no plano anterior para 2011. Isso deverá projetar uma geração operacional de caixa maior, mas não exclui a necessidade de captação de recursos externos para cumprir os projetos pendentes.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Energia - Embate entre eólicas e térmicas a gás será destaque de leilão



Valor 21/07/2011
A estratégia do governo federal de fazer com que empreendedores de térmicas a gás disputem com os donos de parques eólicos no leilão de curto prazo de energia não agradou nem um lado nem o outro. A reação das térmicas era esperada, já que nos últimos leilões o preço da energia eólica foi capaz de derrubar os outros concorrentes. Mas empreendedores eólicos começam a mostrar que temem a competição das térmicas, principalmente aquelas que terão o gás disponível sem precisar de contratos com a Petrobras.
O próprio secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, diz que há uma expectativa sobre a competitividade das térmicas da MPX, que podem usar contratos de gás do próprio grupo, que tem poços de exploração do combustível no Maranhão. "E será um gás que não terá custo de transporte", disse o secretário em evento realizado em São Paulo nesta semana.
A ideia de fazer todos concorrem entre si, segundo Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), é permitir que o mercado faça a divisão da matriz pelo preço. "Fazendo leilões em separado nós é que teríamos que fazer a divisão da demanda de energia e poderíamos acabar contratando energia mais cara", disse Tolmasquim. Mas ele também afirmou que não se poderá fazer indefinidamente leilões em que todas as fontes, com exceção da hídrica que é mais barata, concorram entre si já que o planejamento pode exigir a contratação de mais térmicas, que são usadas como um seguro para os tempos de pouca chuva.
O consultor Marco Tavares, da Gas Energy, afirma que é injusto fazer essa disputa por igual já que as eólicas têm mostrado que a capacidade de produção pode não ser efetivamente àquela declarada no leilão. Além disso, Tavares faz críticas ao fato de que o Nordeste já tem problemas para transmissão e a maior parte das eólicas são vendidas nessa região. A consultoria de Tavares desenvolveu um grande projeto no Rio Grande do Sul, à base de GNL, que não teve ainda sua energia vendida. Mas Tolmasquim diz que ainda não é necessário fazer qualquer leilão regional pois ainda não foi identificada um problema de transmissão que exija essa decisão. "Não podemos fazer com que o país pague uma energia mais cara sem necessidade".
Os empreendedores eólicos argumentam que o próprio consumidor sairá prejudicado, já que o governo está misturando projetos que têm um custo de combustível que é repassado. Tolmasquim explica que boa parte da previsão do uso do combustível já estará na tarifa que irá a leilão. Mas de qualquer forma admite que em anos de pouca chuva é possível que as térmicas tenham que operar em regime extraordinário e com isso o custo pode ficar maior.
O leilão de curto prazo, conhecido como A-3 (A menos três, com alusão ao ano de entrega da energia), será realizado em agosto e será seguido de um leilão de reserva, exclusivo para energias renováveis. O preço teto para térmicas, eólicas e biomassa foi estabelecido em R$ 139 o MWh e para o de reserva a R$ 146 o MWh. Para as hidrelétricas, no caso de Jirau participar, será R$ 102. Ao todo mais de 27 mil MW em capacidade instalada foram inscritos.

Fluxo cambial ao Brasil dispara após BC aumentar o compulsório




Valor 21/07/2011



A entrada líquida de dólares no Brasil disparou neste mês para US$ 10,132 bilhões, graças ao fluxo positivo do dia 11, primeiro pregão depois que o Banco Central (BC) apertou as regras de posição vendida dos bancos numa tentativa de conter a forte valorização do real.
Os dados divulgados pelo BC mostram que em julho, até o dia 15, as operações comerciais tiveram entrada líquida de US$ 3,245 bilhões e as financeiras foram superavitárias em US$ 6,887 bilhões. Somente no dia 11, ingressaram no país US$ 7,358 bilhões, já descontada a saída de dólares. O grosso dessa cifra (US$ 6,671 bilhões) se deu no segmento financeiro.


"O mais provável é que o dinheiro tenha entrado para promover o enquadramento" à regra do BC, afirma o estrategista de um banco estrangeiro. "Não houve efeito de preço do dólar que justificasse uma entrada dessa magnitude."


Operadores destacaram que a entrada, apesar de volumosa, não foi percebida pelo mercado em geral até a divulgação dos dados. A explicação é que os dólares podem ter sido trazidos para o Brasil em operação "direta", em que um banco com subsidiária no exterior cuida da operação, que não é vista pelos demais operadores, mas registrada no BC.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, também atribuiu o forte ingresso do dia 11 ao enquadramento dos bancos, e não mostrou preocupação com uma nova enxurrada de recursos ao país. "Não está entrando todo esse dinheiro; entrou num dia para ajustar à norma. O fluxo está contido e regular, tanto assim que não há alterações na cotação do câmbio", disse.
O BC anunciou a mudança sobre a posição vendida dos bancos no dia 8, após o dólar cair para o menor nível em comparação ao real desde 1999. As instituições tinham até o dia 15 para se adequar à regra, pela qual devem recolher ao BC como depósito compulsório 60% sobre o valor da posição vendida de câmbio que exceder US$ 1 bilhão ou o patrimônio de referência - o que for menor.
Além dessa "sobra" de dólares, o BC também ajudou os bancos a zerar posição vendida, ao adquirir no mercado à vista bem menos dólares do que o fluxo. Em julho, também até o dia 15, foram incorporados às reservas internacionais do país US$ 2,484 bilhões por meio de leilões de compra.
Disso resulta um "fluxo efetivo" positivo de US$ 7,648 bilhões (fluxo cambial descontadas as compras do BC) no mês. Como essa "sobra" é absorvida pelos bancos, é possível estimar que a posição vendida das instituições financeiras no mercado à vista caiu de US$ 14,7 bilhões no fim de junho para cerca de US$ 7 bilhões em 15 de julho.
No ano, o país contabiliza fluxo cambial positivo de US$ 49,965 bilhões, bem acima do registrado em todo o ano passado (de US$ 24,354 bilhões).
Para o diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, não se deve esperar ingressos fortes no curto prazo.


"Não vejo fluxo muito intenso, nem para a bolsa. Esse quadro externo sugere um pouco de cautela e os investidores estão preferindo se preservar", diz.


"O principal problema é na Europa (com a crise de dívida soberana dos países chamados periféricos) e há perigo de contágio."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sexo e câmbio




Por ANTONIO DELFIM NETTO Folha 20/07/2011








O National Bureau of Economic Research organizou, em junho, o seu "22º Annual East Asian Seminar on Economics".

Um dos mais originais trabalhos apresentados foi o dos economistas da Universidade Columbia (EUA) Qingyuan Du e Shang-jin Wei, a começar pelo título "Uma perspectiva darwiniana sobre a taxa de câmbio chinesa".

Nele, afirmam (tradução livre) isto:"Em geral, é aceita como indiscutível a proposição de que um grande desvio da taxa de câmbio com relação à de equilíbrio (paridade do poder de compra), combinado com a existência de superavit em conta-corrente, é sinal de que a taxa de câmbio vigente está subvalorizada.

Neste trabalho, dizemos que essa visão convencional deixa de levar em conta algo importante, ainda que não considerado na teoria corrente da taxa de câmbio.

Nosso argumento é que a relação entre sexos, maior número de homens no mercado de casamentos (sic) na China, pode ter produzido, simultaneamente, um declínio na taxa de câmbio real de equilíbrio e um aumento do superavit em conta-corrente.

Mostramos a lógica dessa afirmação por meio de dois canais: um da poupança e outro de uma efetiva oferta de trabalho. Neste modelo, uma taxa real de câmbio desvalorizada não é causa de superavit em conta-corrente, nem é consequência de manipulação monetária. Demonstramos, empiricamente, que as economias com elevada relação homens/mulheres tendem a ter uma menor taxa de câmbio real, além de... outros efeitos, como o maior nível de renda per capita, desenvolvimento do mercado financeiro, regimes de câmbio etc.

Uma vez levados em conta todos esses efeitos, concluímos que a taxa de câmbio chinesa está mesmo subvalorizada, mas subvalorizada num nível relativamente trivial".


Como demonstram isso?

Com grossa artilharia matemática, usam 20 páginas em grego fora do texto (dois terços do original com divertido algebrismo), engenhosa econometria e rica imaginação e coragem para "calibrar" valores a parâmetros que não podem ser estimados diretamente.

Para entender aonde chegam, leiam este trecho que encerra o trabalho:

"Se o planejador central (talvez alguém com a visão do líder Mao?) puder reduzir a relação entre os sexos (agora matando os nascituros masculinos?), ele produzirá uma redução da conta-corrente de acordo com a proposição 2" (que exige uma fantástica coleção de hipóteses para ser demonstrada).

Como disse, nos anos 1910, Vilfredo Pareto, sociólogo e economista matemático sério, "concedam-me as hipóteses e eu lhes demonstrarei qualquer coisa".


De que são capazes pequenos matemáticos supostos grandes economistas...

Real é a moeda mais valorizada entre as 58 principais economias



Valor 20/07/2011




O Brasil se consolida como o país com a moeda mais valorizada entre as 58 principais economias do mundo, enquanto o G-20 continua a discutir sobre câmbio e utilização dos instrumentos de controle de capital.
Um índice do Banco Internacional de Compensações (BIS), banco central dos bancos centrais, que acaba de ser atualizado, mostra o avanço da moeda brasileira desde a última reunião de cúpula do G-20, em novembro, em Seul, onde as autoridades brasileiras insistiam na importância de se evitar uma guerra de moedas.

BIS calcula a taxa de câmbio efetiva real (EER) de 58 países e da moeda única europeia. A EER representa a média cambial da moeda de um país relativa a uma cesta de outras moedas ajustadas pelo preço ao consumidor. Se o ranking da moeda está abaixo de 100, significa que está desvalorizada e tem espaço para se apreciar.
Na cúpula de Seul, há sete meses, a taxa de câmbio efetiva real era de 148,1 por unidade do real. O BIS mostra agora que a taxa pulou para 157,68 em junho, ou seja, o real se valorizou ainda mais.
Já a moeda chinesa continua se desvalorizando em termos reais. Estava em 119,65 e agora caiu para 116,31.
Também no caso do dólar americano, continua se desvalorizando: a taxa efetiva real era de 89,41 em novembro, passando nesta última sondagem a 84,51. O euro estava em 93,95, agora subiu ligeiramente para 97,48.
O BIS mostra que o peso argentino está em 77,8 no índice, menos da metade da valorização da moeda brasileira. A Coreia do Sul, em 83,2, e o México em 93,4, ou seja, todos com amplo espaço para valorizar suas moedas.
Em recente passagem por Paris, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, insistiu que a guerra das moedas está longe de acabar. Mas no G-20 não só um acordo internacional não avança, como as tentativas são de limitar a imposição de controle de capital.
O Brasil, porém, avalia que o G-20 vai, no máximo, dar uma "opinião" sobre o uso de instrumentos para controle de capital. Nada de recomendação ou código de conduta, como propôs o FMI.