terça-feira, 26 de julho de 2011

Desemprego Estrutural - (O que muda no emprego - Celso Ming - 23.07.2011)

Algumas vezes esta coluna apontou, entre as causas do enorme desemprego dos países ricos, a grande redistribuição internacional do trabalho. Mas não é a única.

Os dirigentes se comportam como se a atual escalada do desemprego fosse somente consequência da crise financeira iniciada em 2007, nos Estados Unidos. Não lhe dão tratamento de fenômeno permanente e estrutural. Ao contrário, agem como se a situação pudesse ser rapidamente revertida.

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano), por exemplo, justificou a chuva de moeda na economia dos Estados Unidos com o argumento de que é preciso recuperar o emprego. E, no entanto, embora mantenha os juros básicos (Fed funds) a níveis perto de zero por cento ao ano desde 2008; tenha despejado US$ 1,7 trilhão para comprar títulos podres; e tenha colocado em marcha duas operações de afrouxamento quantitativo, de US$ 300 bilhões e US$ 600 bilhões, respectivamente; a contratação de pessoal não reage. O desemprego é hoje de 9,2% da força de trabalho e não há sinais de que possa baixar rapidamente. Com algumas exceções, os números da Europa também são preocupantes (veja a tabela ao lado).

Há pelos menos três fatores de longo prazo que tendem a reduzir o emprego nos países ricos. O primeiro deles, já mencionado, é a crescente incorporação de mão de obra asiática, recentemente, subempregada. As magnitudes variam, mas vêm sendo aceito pelos analistas que, ano a ano, entre 30 milhões e 40 milhões de asiáticos obtêm seu primeiro emprego. É o que ajuda a explicar a forte redução dos custos de produção de industrializados. Os sindicatos dos países desenvolvidos (e não só americanos) seguem reclamando de que as crescentes importações de manufaturados da China e as transferências de indústrias inteiras para a Ásia estão fechando empregos nos Estados Unidos e na Europa. E a China planeja arrumar trabalho, em 20 anos, para uma população de 400 milhões, hoje, subempregada.

O segundo fator de longo prazo que pressiona o mercado global de trabalho é a incorporação das mulheres, quase metade da população. Trata-se de um processo que ainda não completou três gerações. Há pouco mais de 60 anos, elas não conseguiam mais do que cinco ou seis ocupações remuneradas: professora, enfermeira, secretária, telefonista, empregada e babá. Hoje, a mulher disputa com os homens em (quase) igualdade de condições em praticamente todas as profissões. O impacto disso ainda está para ser medido, mas não pode ser desdenhado.

E, enfim, aqui está o terceiro fator de longo prazo, que não tem mais do que 30 anos. É a adoção crescente de Tecnologia de Informação (TI) nas cadeiras de produção, de vendas e de prestação de serviços. É toda essa tralha eletrônica (computadores, software, internet, nuvens virtuais) que cortou custos em todos os setores: instalações, estoques, linhas de produção e – obviamente – pessoal.

A atuação desses três fatores (redistribuição internacional do trabalho, incorporação da mulher e emprego de TI) ainda está em desenvolvimento. Ou seja, ainda tende a produzir desemprego no Ocidente – a menos que sobrevenha uma virada, hoje, improvável.

http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/2011/07/23/o-que-muda-no-emprego/

As dúvidas estrangeiras em relação à economia brasileira - CBN

As dúvidas estrangeiras em relação à economia brasileira - CBN

A fé ameaça quebrar economia dos EUA




Josias de Sousa (por acoelhof)



Vence em 2 de agosto o prazo que de que dispõe o Congresso dos EUA para decidir se autoriza ou não a Casa Branca a elevar o pé direito da dívida americana.

Se você integra o grupo do “e eu com isso?”, convém prestar atenção. Por quê?

Os EUA estão endividados até a raiz dos cabelos do mundo.

No ranking dos compradores do papelório da dívida do Tesouro americano, o Brasil ocupa a terceira posição. É contra esse pano de fundo que os republicanos, rivais de Barack Obama, caminham à beira do abismo pisando em ovos.

Do planeta.

O reporter Clóvis Rossi levou às páginas da Folha artigo que ajuda a entender a encrenca.

O texto vai abaixo:

“O enrosco entre o presidente Barack Obama e os republicanos, em torno do aumento do teto de endividamento, não é uma questão política, econômica, contábil.

Trata-se de fé, de fundamentalismo religioso de parte dos integrantes do chamado Tea Party, o grupo de extrema-direita que emergiu com força na eleição de 2010.

Estão sempre possuídos de uma Estado-fobia que supera o que Paul Krugman, ontem neste mesmo espaço, chamava de loucura antiga dos republicanos.

Ajuda-memória: até o dia 2, o Congresso tem que autorizar o aumento do teto de endividamento, que está em US$ 14 trilhões, número inimaginável. Dá cerca de sete vezes tudo o que o Brasil produz por ano de bens e serviços.

Sem a autorização, o governo quebra.

Não poderia mandar, por exemplo, o cheque para o velhinho aposentado de Utah ou o dinheiro, bem mais suculento, para os investidores chineses que compram aos cachos papéis do Tesouro norte-americano. Nem mesmo para o Brasil, terceiro maior comprador da dívida dos EUA.

A contrapartida da autorização terá que ser um ajuste fiscal de cerca de US$ 4 trilhões (dois Brasis). Ajuste fiscal, em qualquer lugar do mundo, compõe-se de duas fatias não necessariamente iguais: corte de gastos e aumento das receitas do governo.

Até a emergência do fundamentalismo do Tea Party, loucos ou não, os republicanos discutiriam com os democratas até que as duas partes se convencessem de que nada mais poderiam extrair da outra.

O acordo sairia, na undécima hora, mas sairia.

Aí é que surge o fundamentalismo com que os republicanos do Tea Party abordam a negociação. Ela já começou desequilibrada a favor do corte de gastos: Obama, em abril, propunha US$ 1,5 trilhão de aumento de impostos (em 10 anos). Ou seja, 37,5% do ajuste viria do aumento de receitas; os dois terços restantes do corte de gastos.

Os republicanos refugaram, e a mais recente proposta do presidente, já em julho, passou a ser de US$ 750 bilhões. Ou seja, menos de 20% do ajuste viria do aumento de impostos e mais de 80% do corte de gastos.

Nem assim os republicanos estão aceitando. Não é que Obama queira, por exemplo, aumentar o imposto sobre valor agregado, que machuca todos os contribuintes, independentemente de sua renda. Não.

Acha apenas, como disse sexta-feira, que ‘milionários e bilionários podem fazer um pouco mais’, que é possível fechar ‘os buracos corporativos de forma que as companhias de petróleo não consigam desnecessárias isenções fiscais ou que os donos de jatinhos corporativos delas se beneficiem’.

Enfim, nada que não seja o mais clássico preceito tributário segundo o qual paga mais quem pode mais. Mas não basta para a turma do Tea Party, que quer zero de aumento de impostos e, de quebra, aleijar um presidente que consideram "socialista".

Torna-se por isso possível o cenário assim descrito para o "Financial Times" por Steve Wieting, analista do Citigroup:

‘Perguntar como poderia se parecer a economia norte-americana após um eventual calote equivale a perguntar o que você faria depois de cometer suicídio’.”

Plano da Petrobras recebe críticas

Valor 26/07/2011

O plano de negócios 2011-2015, divulgado pela Petrobras na sexta-feira, continuou sendo alvo de críticas por parte de analistas. Eles elogiam o ganho de importância do segmento de exploração e produção dentro do planejamento de aportes da companhia, mas mantêm ressalvas ao volume de recursos destinados ao refino e alertam para a redução na geração de caixa prevista.
A estatal ressalta que a geração de caixa de 2011 a 2015 ficará entre US$ 125 bilhões e US$ 148,9 bilhões, abaixo dos US$ 155 bilhões previstos no plano 2010-2014, o que levou a críticas de analistas.
Para o Credit Suisse, em relatório assinado pelo analista Emerson Leite, o foco em exploração e produção - que terá direito a 57% dos recursos previstos no plano divulgado na sexta-feira, contra 53% no programa anterior - não significou uma geração de caixa maior, "reforçando nossa tese de que os retornos estão caindo".
O Deutsche Bank segue linha semelhante e os analistas Marcus Sequeira e Luiz Fonseca se dizem "desapontados", em relatório enviado ontem a clientes, com o fato de os investimentos em refino terem se mantido e com o corte de 19% na estimativa de fluxo de caixa, "apesar das metas mais elevadas de produção".
O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, ressaltou ontem, na primeira apresentação pública do novo plano de negócios, as razões que levaram à queda na projeção do fluxo de caixa.
O executivo lembrou que uma curva de crescimento de produção "mais apertada" e o aumento dos custos operacionais em todo o mundo na exploração e produção e no refino, além da valorização do real, contribuíram para a queda na estimativa do fluxo de caixa na comparação entre os planos de negócios 2010-2014 e 2011-2015. Mesmo assim, Gabrielli destacou que, em qualquer cenário traçado pela empresa, a relação entre a dívida líquida e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) não vai superar 1,9 vez.
"Estamos em faixa bastante confortável, mesmo nesses dois intervalos", disse, lembrando que o melhor cenário, para uma geração de caixa de US$ 148,9 bilhões até 2015, incorpora uma relação entre a dívida líquida e o Ebitda de 1,5 vezes.
Gabrielli também confirmou que a empresa realizará desinvestimentos de até US$ 13,6 bilhões para ajudar na obtenção de recursos para investir. A empresa pretende realizar a venda de participações em blocos exploratórios, a alienação de fatias em companhias controladas pela estatal e a adequação da gestão de ativos financeiros.
O diretor financeiro e de relações com investidores, Almir Barbassa, frisou que uma das medidas de adequação dos ativos financeiros é a aposta no programa Progredir, no qual um sistema criado entre a Petrobras e os seis principais bancos de varejo do país permite que os fornecedores da petroleira garantam recursos mais baratos, sem precisar da antecipação de recursos, mecanismo usado até então.
"Com isso, reduzimos o custo do financiamento para a cadeia, liberando recursos da Petrobras e reduzindo o custo do produto que compramos", disse Barbassa.
A maior parte dos desinvestimentos, exceção feita à melhora da gestão de ativos financeiros, deverá se dar no exterior, segundo Gabrielli, que evitou antecipar quais ativos poderão ser vendidos. Segundo ele, o processo deverá começar "o mais breve possível".
O diretor da área internacional da estatal, Jorge Zelada, explicou que o desinvestimento é na verdade uma gestão de portfólio que sempre foi realizada, mas nunca havia sido divulgada anteriormente dentro de um plano de negócios.
"A maior parte dos desinvestimentos de ativos no exterior são vendas parciais de participação", disse Zelada.
Gabrielli afirmou ainda que a retirada de US$ 10,8 bilhões em projetos no plano 2011-2015 foi consequência de uma arrumação normal de portfólio.
Na área de abastecimento, que inclui petroquímica e cujos investimentos são constantemente criticados pelo mercado, a redução será de US$ 4,3 bilhões, decorrente principalmente da exclusão de projetos como a tancagem de óleo combustível para térmicas e a logística de querosene de aviação em Brasília. Além disso, a Refinaria Premium, no Maranhão, será postergada e começará a operar em 2016 e não mais em 2014, como previsto anteriormente.
As ações da companhia subiram 2,4% ontem na bolsa.

O FUTURO DO CRESCIMENTO ECONOMICO

Por Dani Rodrik Valor 26/07/2011


Talvez pela primeira vez na história moderna, o futuro da economia mundial está nas mãos dos países pobres. Os Estados Unidos e a Europa marcham como gigantes feridos, vítimas dos seus excessos financeiros e paralisia política. Parecem condenados, por seu pesado endividamento, a anos de estagnação ou crescimento lento, ampliando a desigualdade e possíveis conflitos sociais.
Grande parte do resto do mundo, entretanto, está carregado de energia e esperança. Autoridades governamentais na China, Brasil, Índia e Turquia estão preocupados com crescimento excessivo, e não com pouco crescimento. Sob determinados parâmetros, a China já é a maior economia no mundo e os mercados emergentes e os países em desenvolvimento respondem por mais de metade da produção mundial. A empresa de consultoria McKinsey qualificou a África, há muito tempo sinônimo de fracasso econômico, de terra dos "leões em movimento".
Como acontece frequentemente, a ficção reflete melhor a mudança de clima. "Super Sad True Love Story" (Verdadeiro Caso de Amor Supertriste), romance em quadrinhos do russo Gary Shteyngart, é um guia tão bom quanto qualquer outro para o que pode nos esperar. Situado num futuro próximo, a história se desenrola contra o pano de fundo de um EUA financeiramente arruinado sob uma ditadura de partido único e envolvido em mais uma inútil aventura militar no exterior - dessa vez na Venezuela. Todo o trabalho real nas empresas é feito por imigrantes qualificados; faculdades da Ivy League adotaram os nomes de suas homólogas na Ásia a fim de sobreviver; a economia está endividada junto ao banco central da China e "dólares ancorados ao yuan" substituíram a moeda tradicional como ativo seguro preferido.
Mas serão os países em desenvolvimento realmente capazes de puxar a economia mundial? Grande parte do otimismo sobre suas perspectivas econômicas é resultado da extrapolação. A década anterior à crise financeira mundial foi, sob muitos aspectos, a melhor de todos os tempos para os emergentes. O crescimento disseminou-se para muito além de um pequeno número de países asiáticos e, pela primeira vez desde a década de 1950, a grande maioria dos países pobres experimentou o que os economistas chamam de convergência - um estreitamento do diferencial de renda em relação aos países ricos.



Esse, no entanto, foi um período peculiar, caracterizado por muito vento de cauda econômico. Os preços das commodities estavam elevados, o que beneficiou países africanos e latino-americanos em especial, e o financiamento externo foi abundante e barato. Além disso, muitos países africanos bateram no fundo do poço e recuperam-se de longos períodos de guerra civil e declínio econômico. E, como sabemos, o rápido crescimento nos países avançados alimentou, de modo geral, um aumento no volume do comércio mundial até níveis recordes.
Em princípio, um baixo crescimento pós-crise nos países avançados não bloqueará, necessariamente, o desempenho econômico dos países pobres. Em última instância, o crescimento depende de fatores do lado da oferta - investimento e aquisição de novas tecnologias - e do estoque de tecnologias que podem ser adotadas pelos países pobres e que não desaparece quando o crescimento dos países avançados fica lento. Assim, o potencial de crescimento dos países atrasados é determinado por sua capacidade de eliminar o atraso em relação à fronteira tecnológica - e não pela velocidade com que a própria fronteira está avançando.
A má notícia é que ainda não temos uma compreensão adequada sobre quando esse potencial de convergência é concretizado ou sobre o tipo de políticas que gerem crescimento autossustentado. Mesmo casos de inquestionável êxito têm sido objeto de interpretações conflitantes. Alguns estudiosos atribuem o milagre econômico da Ásia a mercados mais livres, ao passo que outros acreditam que intervenção estatal foi o fator decisivo. E a aceleração excessiva de crescimento, após algum tempo, perdeu impulso.
Os otimistas estão confiantes em que dessa vez será diferente. Eles acreditam que as reformas da década de 1990 - melhor política macroeconômica, maior abertura e mais democracia - colocaram o mundo em desenvolvimento em curso de crescimento sustentado. Recente relatório do Citigroup, por exemplo, prevê que o crescimento será fácil para países pobres com populações jovens.
Minha leitura das evidências é mais cautelosa. É certamente motivo para comemoração que as políticas inflacionárias tenham sido extirpadas e a governança melhorou em grande parte do mundo em desenvolvimento. De modo geral, essas mudanças melhoram a resistência da economia a choques e evitam colapsos econômicos.
Mas desencadear e sustentar crescimento rápido exige algo mais: políticas orientadas para a produção que estimulem mudanças estruturais em curso e fomentem emprego em novas atividades econômicas. Crescimento baseado em afluxos de capital ou booms de commodities tendem a ser de curta duração. Crescimento sustentado requer a elaboração de incentivos para encorajar investimentos do setor privado em novos setores - e fazê-lo com um mínimo de corrupção e competência adequada.
Se a história pode nos servir de guia, o leque de países que capazes desse feito continuará estreito. Assim, embora possa haver menos colapsos econômicos devido a melhor gestão macroeconômica, crescimento elevado provavelmente permanecerá episódico e excepcional. Em média, o desempenho pode ser um pouco melhor do que no passado, mas nem de longe tão espetacular como esperam os otimistas.
A grande questão para a economia mundial é se os países avançados atolados em dificuldades econômicas serão capazes de abrir espaço para o rápido crescimento dos países em desenvolvimento cujo desempenho dependerá em larga medida de sua incursão em setores industriais e de serviços onde os países ricos têm sido tradicionalmente dominantes. As consequências para o nível de emprego nos países avançados seriam problemáticas, especialmente tendo em conta a escassez de empregos com altos salários. Consideráveis conflitos sociais poderão tornar-se inevitáveis, colocando em risco o apoio político a aberturas econômicas.
Em última instância, parece inevitável uma convergência maior na economia mundial pós-crise. Mas uma grande reversão na sorte dos países ricos e pobres não parece economicamente provável nem politicamente viável.



Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy" (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org

Política econômica ajustada




Por Delfim Netto Valor 26/07/2011


Entre o segundo trimestre de 2003 e o seu homônimo de 2011, a economia brasileira cresceu à taxa de 4,4% ao ano. Ela foi muito prejudicada pela crise internacional produzida pela patifaria financeira praticada com a bênção de "economistas" financeiros, sob os olhos complacentes dos bancos centrais do mundo (o Brasil foi exceção). Para quantificar seu efeito talvez seja útil considerar a tabela nº 1, onde registramos taxas de crescimento anuais da economia brasileira, entre os segundos trimestres de cada ano. Uma estimativa grosseira do "custo" (em termos de PIB) produzido pela crise é da ordem de 1,9% (5,2% - 3,3%) ao ano, ou quase 6% no período. Em reais de 2011, alguma coisa parecida com 240 bilhões de renda, incluídos os 80 bilhões de impostos, não recolhidos porque não houve renda...
É importante insistir que na média do período, o crescimento do PIB nunca foi superior a 5%. Quando se "alisa" a taxa de crescimento com uma média móvel de três anos que reduz o nível de flutuações eventuais para mais ou para menos, como as produzidas por "choques" internos (supersafra ou crise de energia) ou externos (substancial melhoria das relações de troca, por exemplo) ela foi da ordem de 4%. O quadro 2 abaixo mostra isso com clareza.

Vê-se claramente, que o tão festejado "crescimento chinês" da economia brasileira em 2010/09 não passou, infelizmente, de um simples artefato estatístico. É ridículo continuar a insistir sobre esse ponto. Os números mostram que nunca, nos últimos oito anos (medidos entre o segundo trimestre de cada ano sobre o seu homônimo anterior), o crescimento do PIB foi maior do que 5% e, na média, mal chegou a 4,5%. Nada excepcional para a nossa mal arranjada estrutura produtiva.
Se tomarmos o período 2T-2008, quando o PIB estava rodando em torno de 6,5% (com média móvel de 3 anos da ordem de 5% e inflação em torno de 5%) e o compararmos com 2T-2011, veremos que a taxa de crescimento andou em torno de 3,3% ano (mesmo supondo 1,5% de crescimento de 2T-2011 sobre 2010). Com os investimentos do período, isso não parece indicar que haja o "descomunal excesso de demanda global sobre a oferta global" que exigiria uma política fiscal e monetária muito diferente da que estamos praticando, como querem alguns "falcões" do mercado financeiro. Aliás, se observarmos as médias móveis trienais de PIB e taxa de inflação, no período, verificaremos que é difícil encontrar qualquer relação entre elas, como se vê no gráfico 1.

Os números certamente revelam uma pressão inflacionária na margem devida a um choque externo (facilmente identificável porque ele é universal) e a um choque interno, mais visível no setor de serviços. Há razões para suspeitar que neste caso se trata muito menos de algum "excesso de demanda global" do que de um desequilíbrio estrutural entre a quantidade e a qualidade da demanda e da oferta de trabalho. As informações de uma alta geral de salários reais acima da produtividade marginal da mão de obra (esse sim, um sinal grave de tensões inflacionárias) não são seguras, o que sugere que as nossas políticas fiscal e monetária têm de ser apoiadas por medidas microeconômicas urgentes para ajustar o mercado de trabalho.
Deve ser evidente que o processo civilizatório que está ocorrendo na sociedade brasileira não pode nem deve ser interrompido ou revertido reduzindo dramaticamente o crescimento e aumentando o desemprego através de uma política fiscal recessiva, acompanhada de taxas de juros reais ainda mais altas das que as vigentes.

Globalização e concentração de capitais

Antonio Corrêa de Lacerda
De São Paulo
MTerra - 25/7/2011

A concentração de empresas é uma das faces mais controversas do capitalismo contemporâneo. A expressiva expansão da disponibilidade de recursos financeiros, intensificada na fase da chamada financeirização, ou globalização financeira, especialmente a partir das últimas décadas do século passado tem representado um desafio crescente.
Na medida em que os mercados financeiros se sofisticaram com a criação de novos produtos, como os derivativos, por exemplo, e se interligaram nas 24 horas do dia, isso propiciou uma fantástica alavancagem de recursos. Estima-se que o volume global de ativos financeiros, sem considerar os derivativos, represente mais de quatro vezes o PIB (Produto Interno Bruto) mundial.
Ao mesmo tempo em que essa enorme liquidez aumentou o potencial de geração de crises, como as que se observou especialmente a partir dos anos 1990, também expandiu a disponibilidade de funding para as atividades produtivas: a expansão das empresas, do comércio internacional, da evolução tecnológica e das inovações.
As empresas intensificaram a sua atuação para fora das fronteiras dos seus países de origem, por meio dos investimentos diretos estrangeiros, cujos fluxos cresceram da média anual de US$ 200 bilhões, no inicio da década de 1990, para mais de US$ 1 trilhão, nos anos 2000. Isso também impulsionou as operações de fusões e aquisições mundo afora, que respondem por cerca de três quartos do volume de investimento no exterior.
Para fazer frente a esta crescente internacionalização, as empresas locais logo perceberam que se não adotassem uma estratégia ativa, elas seriam alvos fáceis de aquisição por parte de seus concorrentes mais robustos, agora fortalecidos pela expansão dos mercados de capitais. As empresas domésticas adotaram duas estratégias muito claras para ganhar economias de escala e competir neste novo cenário: primeiro adquirindo, ou se fundindo a outras empresas locais, e, segundo, expandindo sua atuação no exterior.
Assim, o movimento de concentração de empresas se deu tanto de fora para dentro, com a intensificação dos capitais forâneos, mas também internamente, como mecanismo de defesa, e ainda, no exterior, com a internacionalização das suas filiais.
Este cenário de hipercompetição entre grandes grupos econômicos impõe desafios para os países na formulação das políticas econômicas domésticas e para a regulação da concorrência. Uma atitude passiva pode significar a completa desnacionalização da suas estruturas produtivas com evidentes perdas estratégicas.
Os Estados Nacionais são mais fortes, na medida em que atuam em parceria com as empresas, como demonstram as experiências dos EUA, Japão, China, Coréia do Sul, dentre muitos outros.
Um outro dilema é garantir que o consumidor não seja prejudicado com a crescente concentração, pois se os órgãos de defesa da concorrência inviabilizarem as operações de fusões e aquisições poderão, por outro lado, condenar as empresas locais à extinção.
Para o Brasil, especialmente, o cenário imposto pela concentração globalizada dos capitais é um desafio ainda maior. Primeiro, porque nos falta uma clara estratégia integrada para fazer frente às novas circunstâncias e definir mais claramente o nosso papel nas grandes cadeias globais. Tenho dúvida se sequer estamos compreendendo a dimensão do problema. Segundo, e decorrente do primeiro, a valorização cambial, as desvantagens competitivas sistêmicas e a fragilidade das políticas de competitividade (políticas industrial, comercial e tecnológica) denota um quadro preocupante.
Até porque estas questões são muito mal compreendidas e maltratadas na opinião pública, e pelos Poderes. Falta-nos um Projeto, um rumo a ser seguido, que ultrapasse a excessiva fixação nos pseudo benefícios de curto prazo. O risco implícito se traduz na crescente desnacionalização das bases produtivas, na desindustrialização precoce e na vulnerabilização das contas externas. Um cenário pouco propício para o desenvolvimento de longo prazo. Urge-nos, acordar e agir logo!

Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de "Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil" (Saraiva). Foi presidente do Cofecon e da SOBEET. Fale com Antonio Corrêa de Lacerda: mailto:alacerda@terra.com.br

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Câmbio valorizado mostra fragilidade na crise, avalia Belluzzo

VALOR 25/07/2011



A grave crise de endividamento público atravessada pelos Estados Unidos e os países da União Europeia expõe uma fragilidade no "sólido" modelo de crescimento brasileiro - o câmbio valorizada, que impulsiona o consumo via aumento do poder de compra, e sustenta a inflação, via importação. Essa é a avaliação do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, para quem a principal missão do governo brasileiro, no segundo semestre, será centrar esforços no câmbio.
"Uma desvalorização, brusca, não está descartada, o que encareceria os importados imediatamente, além de onerar pesadamente os empréstimos externos tomados pelas empresas", diz Belluzzo, que conversou com o Valor de Florença (Itália), na noite de quinta-feira, sobre os impactos que a economia brasileira pode sofrer com o recrudescimento da crise nos países ricos.
Como um espectador privilegiado da crise da dívida pública que avança pelos países europeus, e que fez da Itália a mais recente protagonista, Belluzzo avalia que o resgate da Grécia, cuja dívida bruta beira o patamar de 120% do PIB, está incutindo entre os países ricos a percepção de que, para escapar de um estresse do mercado financeiro e da possibilidade de um calote, é preciso apertar os gastos.
"Assim como a crise foi pegando os países, um a um, a ideia de que é preciso apertar a política fiscal de maneira muito firme tem se tornado consenso, passando de um país para o outro", afirma Belluzzo. "Os europeus estão perplexos com o que está acontecendo, eles não têm nenhuma experiência com esse tipo de situação, que é mais comum em países pobres."
O grande risco para o Brasil, diz o economista, é uma política coordenada de aperto nos gastos na União Europeia e nos EUA. "A Alemanha, único país ainda dinâmico na União Europeia, graças às exportações, não resistiria a um aperto coletivo na política fiscal, porque ficaria sem mercado", avalia Belluzzo. "E nós ficaríamos sem os fluxos de capitais externos, que chegaram em velocidade impressionante no primeiro semestre."
Para Belluzzo, que foi, ao lado do ex-ministro Antonio Delfim Netto, um dos principais conselheiros econômicos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo brasileiro está "um tanto prisioneiro" do atual modelo de crescimento. Ainda que a situação fiscal esteja "muito boa", quando comparada ao resto do mundo, e a inflação permaneça sob o controle do Banco Central, o economista avalia que o governo "não tem como evitar o enorme fluxo de capitais que chegou e chega ao Brasil".
A missão da equipe econômica, portanto, passa por "evitar que uma turbulência muito séria nos países ricos, algo que não está descartado, resulte em uma desvalorização absurda do real".
O elevado nível de reservas acumulado pelo BC - US$ 340 bilhões (dos quais cerca de US$ 220 bilhões aplicados em títulos públicos americanos - e a dívida bruta em torno de 55% do PIB deixam o Brasil em situação confortável para enfrentar uma deterioração adicional nos países ricos.
"O governo não deveria ter permitido uma valorização tão excessiva do real", diz Belluzzo. "No momento em que os fluxos do exterior se reverterem, independentemente da velocidade com que isso aconteça, o modelo de crescimento sustentado de maneira firme no mercado doméstico e no controle de inflação, via ingresso de bens importados, sofrerá um baque".
A situação de impasse vivida por europeus e americanos intriga o economista que, entre a segunda metade de 1985 e os primeiros meses de 1987, teve como principal tarefa encontrar uma solução que evitasse um calote do enorme passivo acumulado pelo Estado brasileiro. Belluzzo era secretário de Política Econômica. Naquele período, Belluzzo passou do céu, representado pelos passos iniciais do Plano Cruzado, que impulsionou o crescimento de 7,5% do PIB em 1986, ao inferno, quando o país declarou a moratória.
Como acontece hoje com os países europeus, quando a descrença quanto à solvência da Grécia, em 2010, atingiu Irlanda, Portugal e, mais recentemente, a Itália, os países latino-americanos foram alvos dos bancos americanos e europeus entre 1982, quando o México foi o primeiro a declarar moratória, e 1994, quando o Brasil finalizou a renegociação da dívida externa.
"A União Europeia passa, hoje, pelo que a América Latina passou entre o fim da década de 80 e o início dos anos 90", diz Belluzzo, "quando todos os agentes do mercado sabiam que as dívidas eram impagáveis e precisavam ser renegociadas, mas ninguém queria arcar com o prejuízo". Mesmo assim, pondera Belluzzo, a renegociação da dívida externa brasileira, entre 1993 e 1994, só foi possível devido à crise econômica que os americanos atravessaram durante o governo Bush (1989-1992), que permitiu ao Brasil acumular as reservas internacionais que serviram de garantia nas reuniões com os credores.
Para Belluzzo, uma política fiscal mais apertada só faz sentido em tempo de bonança - o que não é o caso. "Os países europeus e os EUA precisam resolver o alto desemprego, principal problema da economia real. Isso só acontece com crescimento", afirma.
A situação americana beira a "irracionalidade econômica", diz o economista. Em vez de utilizar a política fiscal como estímulo para a redução da elevada taxa de desemprego, que oscila entre 9% e 10% há um ano, o governo de Barack Obama lançou mão da política monetária. "Foi a agressiva política de emissão de moeda adotada pelo Fed [Federal Reserve, o banco central americano] que propiciou a enxurrada de capital que chegou ao Brasil desde o fim do ano passado, e pouco serviu para ampliar o crescimento interno ou gerar empregos", afirma Belluzzo.
A crise fiscal americana é o reflexo da crise financeira privada, desencadeada pela falência de grandes bancos de investimento, em 2008. "O governo gastou a política fiscal na salvação do sistema financeiro, algo que era necessário, e acabou sendo tímido no incentivo ao crescimento. Agora, a irresponsabilidade será maior, caso decidam por cortes de programas sociais, na hora errada".

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Copom e a casa de massagens








A economia, ciência, diante de sua complexidade, é por vezes inacessível ao cidadão comum, desprovido que é do conhecimento de avançadas técnicas de cálculo e capacidade de realizar inferências a fatos ou temas que a primeira vista não parece haver qualquer conexão.
È difícil entender, por exemplo, que o aumento da taxa básica de juros, rigorosamente calculada em 0,2465898884% , arredondada em 0,25% diante da falta de memória das calculadoras dos bancos, tenha sua influência para daqui a 188 dias no controle dos preços do quiabo na salada, desconsiderado o peso dos tomates pisados, no efeito escorregadio da inflação.


Na conclusão do relatório resultado dos complexos cálculos, aparece uma súplica singela para que o inchaço pare por aí, devido ao alto estágio de contaminação por vermes, fato de imediato contestado pelos próprios no mercado.


Os vermes, digo, o mercado pressiona para maior intumescimento contestando os cálculos da autoridade monetária, estaria evidente em “restos a pagar”, calculados em 0,0212234529% , arredondados em 0,02% mas com a aplicação dos fatores ao valor futuro para daqui a 188 dias, 0,24309876%, ou seja 0,25% como noticiou a imprensa:

“ Um dia após a alta da taxa básica de juros (Selic) para 12,50% ao ano, o mercado financeiro está pressionando o Banco Central por um novo aumento de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto. A curva de juros caiu para contratos de curto prazo, mas subiu para os de vencimentos mais longos. A elevação, apesar de pequena (passou de 12,38% para 12,40%), indica a aposta de que o aperto monetário continuará no mês que vem. “

No entanto, os analistas internacionais, não puderam achar qualquer coerência como noticiou a famosa rádio FM Mantega

"Policymaking has become a little incoherent of late. FM Mantega recently announced that policymakers would resist further currency appreciation, apparently re-drawing the battle lines in the ‘currency war’. By contrast, President Rousseff has taken a hard line on dealing with inflation keeping the door open for further rate hikes and currency appreciation. For his part, BCB Governor, Alexander Tombini, has suggested that the prior policy tightening will take time to have an effect, but that inflation will begin to fall from Q3 onwards. The mixed signals make forecasting future rates decisions difficult. "




De fato achar qualquer coerência não é nada fácil, principalmente pela grande heterogeneidade da fauna e mais o pitaco dos índios tornando o dialogo surrealista, nos dizeres de Rodrigo L Medeiros:

“ Há, como sempre, que se tentar dialogar com os falcões tupiniquins. Antes era preciso subir a taxa básica de juros para atrair capitais externos porque havia "escassez" destes e elevar o superávit primário para dar credibilidade ao governo brasileiro. Quando se atingiu o tal grau de investimento, o discurso dos falcões deslocou-se para o combate da inflação de commodities. O resultado? Pois bem, em abril de 2011, informou o BC brasileiro, o déficit acumulado nas transações correntes em 12 meses aproximou-se de US$ 49 bilhões.”



Urge, no meu entender, que a autoridade mostre sua memória de cálculos, para o esclarecimento de uma vez por todas e antes que a matéria vire caso de polícia, como o ocorrido antes em Campo Florido MG em 2009:



Campo Florido/Mg, 22 de Dezembro de 2009
Cicero Duarte (43 anos) foi preso após cometer briga com a Garota de Programa Márcia Machado Padilha em um bar na Rua Governador Valadares n. 4, Centro, Campo Florido/Mg.
A Radiopatrulha recebeu solicitação via Copom para atender a ocorrência, na madrugada deste Sábado ás 00h03.


O autor havia pedido um quarto na Hora de Pagar o Programa mais o uso do Quarto para Márcia Machado Padilha, disse que não era este valor que havia combinado com ela, começando uma briga no bar.


Quando percebeu que o dono do bar chamou a Polícia, Cicero Duarte passou a fazer ameaças. Ele foi conduzido junto com Márcia Machado Padilha até o 1º DP de Campo Florido para elaboração de B.O
Este Cicero Duarte Doido Varrido e Caloterio de Casa de Massagem, sua ficha é grande.



Ronaldo Pignataro

Chapéu na mão

Siderúrgicas vão a Brasília pedir pacote de medidas
Valor 22/07/2011



Após uma visita a Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cerca de dez dias atrás, o alto comando da siderurgia brasileira volta suas baterias para Brasília. Os dirigentes do Instituto Aço Brasil (IABr), entre os quais está o empresário Jorge Gerdau, busca um encontro com a presidente Dilma Rousseff. Na pauta, no mesmo tom do que foi apresentado a Coutinho, uma apresentação detalhada de questões consideradas ameaças à competitividade do setor no país.
Meio caminho já está garantido na blitz à Brasilia, cujo cardápio deverá constar desde temas da desindustrialização do país - acelerada pelo aumento da importação de produtos que contém aço, como autopeças, carros e máquinas - à guerra fiscal entre os Estados e ao câmbio. Um ponto sensível listado na pauta são os estímulos do Planalto à Vale para montar siderúrgicas no país. Esses projetos são vistos com viés político e sem bases mercadológicas e econômica (rentabilidade do capital investido).
Os encontros devem começar com uma reunião com ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Pimentel, aliás, recentemente fez coro a reclamações de alguns consumidores nacionais de produtos siderúrgicos, denunciando que o aço brasileiro é muito caro em relação ao fabricado em outros países e que as margens das usinas locais são altas.




O apoio do ministro não caiu bem entre os empresários, que consideram que o ministro não está bem informado, por assessores, sobre os percalços enfrentados pela indústria. "Não estão levando em conta o câmbio valorizado do país e a elevada carga tributária que pesa sobre a indústria, entre outros fatores que afetam nossa competitividade frente a outros países", rebatem dirigentes das siderúrgicas.
Além do presidente do conselho do grupo Gerdau - segundo maior fabricante de aço no país -, a comitiva será encabeçada por André Gerdau, presidente da empresa e do conselho diretor do IABr, Wilson Brumer, da Usiminas, Albano Chagas Vieira, da Votorantim e vice-presidente do conselho da entidade, Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do IABr e executivos da ArcelorMittal Brasil, ThyssenKrupp CSA, Valourec, entre outras.
A entrada mais agressiva da Vale no setor, depois da saída de Roger Agnelli, criticado pelo ex-presidente da República Luis Inácio Lula da Silva por não acelerar projetos de usinas de aço no Pará e Ceará, é desaprovada com o seguinte argumento: a empresa vai contribuir para ampliar o excesso de capacidade de produção de aço no mundo que já passa de 530 milhões de toneladas. Esse volume significa cerca de um terço do consumo mundial.
No Brasil, aponta Melo Lopes, do IABr, a sobra de capacidade de produção das usinas em operação representa 53% da demanda doméstica. "Como exportar mais aço para um mercado global já saturado e com preços deprimidos?", questiona o executivo. Para agravar esse cenário, ele diz que as importações de bens fabricados em aço, principalmente da China são crescentes a cada ano. Podem ficar próximo de 5 milhões de toneladas neste ano.
Para Lopes, o que se precisa, de fato, são estímulos à expansão do mercado interno, levando o consumo per capita de 140 quilos por habitante ano a 250 ou 300 quilos. Na China, já passa de 400. O Chile supera o Brasil. "É disso e outros fatores que precisamos para investir mais no Brasil, aumentando a ofeA Vale tem planejados investimentos em três projetos siderúrgicos - a Alpa, em Marabá (PA), a CSP, em Pecém (CE), e a CSU, no sul do Espírito Santo. os dois primeiro, conforme informou o presidente da empresa em entrevista recente ao Valor, serão levados á apreciação do conselho da companhia neste semestre. A CSU ainda está na fase de estudos conceitual e de engenharia, ao mesmo tempo que requer a licença prévia e ambiental. Na CSP, a Vale já tem como sócios declarados as sul-coreanas Posco e Dongkuk.
Lopes observa que montar um projeto, atraindo investidores externos, não é o grande problema e depois sair do empreendimento. O problema, reforça o executivo, é a Vale ser usada para alavancar projetos com viés político. "A expansão da capacidade de produção do setor deve levar em conta bases sustentáveis e tem de estar em linha com as regras de mercado", afirma. Alpa e CSU, ainda não contam, até o momento, com sócios definidos.
Os três projetos da Vale, se concretizados, vão adicionar produção de 10,5 milhões de toneladas a 13,5 milhões de toneladas de aço bruto por ano, a partir de 2014/2015. Com a ThyssenKrupp, a Vale montou, no Rio, a CSA, usina de 5 milhões de toneladas que começou a operar no ao passado. Na crise de 2008/09, a empresa teve de aportar mais R$ 2,6 bilhões para "salvar" o projeto, o qual vai consumir 8,5 milhões de toneladas de seu minério de ferro. Esse é o argumento da Vale para os investimentos: recuperar perda de mercado de minério no país.
Na lista de pontos a ser levada à presidente Dilma, estão isonomia competitiva (redução de juros, desoneração tributária dos investimentos, redução de custos trabalhistas e do custo de energia), crescimento do mercado e prevalência de regras de mercado. Não para por aí: inclui redução de tributos, aceleração de projetos de infraestrutura, prioridade a conteúdo nacional nas aquisições com recursos públicos, defesa comercial e apoio às exportações.
Se não houver uma mudança na forma como o governo enxerga a questão do aço no país, dizem, muitos dos investimentos previstos em novos projetos poderão ser afetados por falta de competitividade, principalmente para exportação. O poder de competição interna também começa a exaurir, afirmam, diante dos custos elevados da matérias-primas - minério de ferro (em torno de US$ 180 a tonelada) e carvão (mais de US$ 300), além de tarifa elevada da energia para o setor industrial.
No ano passado, a Usiminas cancelou usina de US$ 5 bilhões e preferiu investir em minério de ferro, energia e logística. A Cia. Siderúrgica Nacional (CSN) também só tem investido na mineração de ferro, onde as margens de rentabilidade são acima de 60%. "Essa movimentação é toda defensiva", rebate Lopes. Para ele, hoje há só dois blocos de empresas: as rentáveis, que verticalizaram a produção (do minério ao aço final, como CSN) e as não rentáveis, que têm de recorrer ao mercado dessas matérias-primas.
"Na última década, houve uma transferência enorme de ganho dentro da cadeia produtiva", informa o dirigente do IABr. Ele exemplifica: o percentual da margem de lucro da siderurgia baixou de 78% em 2000 para 28% em 2009. No mesmo período, o minério saiu de 15% para 41% e o carvão de 7% para 31%.
Na visão do IABr, "o aço brasileiro não é caro; o país é que caro". A entidade encomendou estudo no ano passado à uma consultoria internacional para mensurar o peso da carga tributária em vários países. O Brasil liderou. O peso dos impostos na bobina a quente de aço foi de 42%, subindo para 47% nos vergalhões.
Os dirigentes siderúrgicos vão reforçar que há uma carteira de investimentos do parque existente de US$ 30,7 bilhões até 2016, a qual pode acrescentar 13 milhões de toneladas de aço bruto. Além disso, haveria intenções de novos projetos que somam outros US$ 23 bilhões. Mas que precisam de estímulos (medidas de apoio), para se concretizar. Com esse leque de investimentos, a capacidade do setor iria a 72 milhões de toneladas dentro de cinco anos. "Se há receio de que vai faltar aço para sustentar o crescimento do país, isso não se justifica".
Lopes observa que o setor é intensivo em capital e que, sem margens adequadas de ganho, não tem como investir. "Não vemos senso a Vale entrar em um setor que está destruindo valor, com baixas margens e sofrendo a concorrência da importação - direta e indireta -, apenas porque é um desejo do governo".




SONHANDO ALTO

Petrobras tenta, pela 3ª vez, aprovar plano de negócios



Agencia Estado


Rio - A diretoria da Petrobras deve apresentar hoje, pela terceira vez, ao Conselho de Administração da estatal o novo plano de negócios para o período 2011-2015. Depois de muita negociação, o valor dos investimentos ficará entre US$ 225 bilhões e US$ 230 bilhões, pouco acima dos US$ 224 bilhões previstos no período 2010-2014. Mas, ainda muito abaixo dos US$ 260 bilhões inicialmente pretendidos pela companhia.
Na quarta-feira, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, teve reunião reservada em Brasília com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que também preside o conselho da estatal. Sem condições de elevar receita por meio de um ajuste no preço de combustíveis e com a obrigação de adequar os investimentos às margens orçamentárias impostas pelo governo, a companhia terá de rearranjar as condições de grandes projetos.
As principais modificações deverão se concentrar nos prazos das novas refinarias e no desenvolvimento de áreas exploratórias. As refinarias Premium I e II, com investimento previsto de US$ 30 bilhões, terão de ter o começo da operação, antes fixado entre 2015 e 2017, adiado entre um ano e um ano e meio. A área de Exploração e Produção poderá se concentrar mais no desenvolvimento dos campos do pré-sal que já constam do portfólio.
Segundo a Agência Estado apurou, Gabrielli teria obtido do governo a garantia que o primeiro leilão pelo novo modelo de partilha só ocorrerá no fim de 2012 ou início de 2013, e não mais no primeiro trimestre do próximo ano, como chegou a ser anunciado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).




Isso dá à empresa - que, por lei, é operadora única das áreas do pré-sal - mais tempo para o cumprimento do processo de desenvolvimento das áreas, que exige um pesado investimento.
Reajuste de combustível
Outro impasse discutido incansavelmente durante as negociações para a aprovação do plano acabou dando vitória ao Tesouro Nacional. O ministro Mantega se mostrou irredutível ante a reivindicação da estatal de reajustar seus principais combustíveis, o diesel e a gasolina, sob argumento que isso poderia prejudicar a inflação.
Também foi recusada, pelo risco de queda na arrecadação, uma das alternativas colocadas na mesa: a de compensar o aumento reduzindo a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), para que o consumidor não sofresse o impacto do reajuste.
A companhia também deverá trabalhar com uma média de preços do barril de petróleo na casa dos US$ 88, o que representa um aumento de US$ 10 sobre o projetado no plano anterior para 2011. Isso deverá projetar uma geração operacional de caixa maior, mas não exclui a necessidade de captação de recursos externos para cumprir os projetos pendentes.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Energia - Embate entre eólicas e térmicas a gás será destaque de leilão



Valor 21/07/2011
A estratégia do governo federal de fazer com que empreendedores de térmicas a gás disputem com os donos de parques eólicos no leilão de curto prazo de energia não agradou nem um lado nem o outro. A reação das térmicas era esperada, já que nos últimos leilões o preço da energia eólica foi capaz de derrubar os outros concorrentes. Mas empreendedores eólicos começam a mostrar que temem a competição das térmicas, principalmente aquelas que terão o gás disponível sem precisar de contratos com a Petrobras.
O próprio secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, diz que há uma expectativa sobre a competitividade das térmicas da MPX, que podem usar contratos de gás do próprio grupo, que tem poços de exploração do combustível no Maranhão. "E será um gás que não terá custo de transporte", disse o secretário em evento realizado em São Paulo nesta semana.
A ideia de fazer todos concorrem entre si, segundo Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), é permitir que o mercado faça a divisão da matriz pelo preço. "Fazendo leilões em separado nós é que teríamos que fazer a divisão da demanda de energia e poderíamos acabar contratando energia mais cara", disse Tolmasquim. Mas ele também afirmou que não se poderá fazer indefinidamente leilões em que todas as fontes, com exceção da hídrica que é mais barata, concorram entre si já que o planejamento pode exigir a contratação de mais térmicas, que são usadas como um seguro para os tempos de pouca chuva.
O consultor Marco Tavares, da Gas Energy, afirma que é injusto fazer essa disputa por igual já que as eólicas têm mostrado que a capacidade de produção pode não ser efetivamente àquela declarada no leilão. Além disso, Tavares faz críticas ao fato de que o Nordeste já tem problemas para transmissão e a maior parte das eólicas são vendidas nessa região. A consultoria de Tavares desenvolveu um grande projeto no Rio Grande do Sul, à base de GNL, que não teve ainda sua energia vendida. Mas Tolmasquim diz que ainda não é necessário fazer qualquer leilão regional pois ainda não foi identificada um problema de transmissão que exija essa decisão. "Não podemos fazer com que o país pague uma energia mais cara sem necessidade".
Os empreendedores eólicos argumentam que o próprio consumidor sairá prejudicado, já que o governo está misturando projetos que têm um custo de combustível que é repassado. Tolmasquim explica que boa parte da previsão do uso do combustível já estará na tarifa que irá a leilão. Mas de qualquer forma admite que em anos de pouca chuva é possível que as térmicas tenham que operar em regime extraordinário e com isso o custo pode ficar maior.
O leilão de curto prazo, conhecido como A-3 (A menos três, com alusão ao ano de entrega da energia), será realizado em agosto e será seguido de um leilão de reserva, exclusivo para energias renováveis. O preço teto para térmicas, eólicas e biomassa foi estabelecido em R$ 139 o MWh e para o de reserva a R$ 146 o MWh. Para as hidrelétricas, no caso de Jirau participar, será R$ 102. Ao todo mais de 27 mil MW em capacidade instalada foram inscritos.

Fluxo cambial ao Brasil dispara após BC aumentar o compulsório




Valor 21/07/2011



A entrada líquida de dólares no Brasil disparou neste mês para US$ 10,132 bilhões, graças ao fluxo positivo do dia 11, primeiro pregão depois que o Banco Central (BC) apertou as regras de posição vendida dos bancos numa tentativa de conter a forte valorização do real.
Os dados divulgados pelo BC mostram que em julho, até o dia 15, as operações comerciais tiveram entrada líquida de US$ 3,245 bilhões e as financeiras foram superavitárias em US$ 6,887 bilhões. Somente no dia 11, ingressaram no país US$ 7,358 bilhões, já descontada a saída de dólares. O grosso dessa cifra (US$ 6,671 bilhões) se deu no segmento financeiro.


"O mais provável é que o dinheiro tenha entrado para promover o enquadramento" à regra do BC, afirma o estrategista de um banco estrangeiro. "Não houve efeito de preço do dólar que justificasse uma entrada dessa magnitude."


Operadores destacaram que a entrada, apesar de volumosa, não foi percebida pelo mercado em geral até a divulgação dos dados. A explicação é que os dólares podem ter sido trazidos para o Brasil em operação "direta", em que um banco com subsidiária no exterior cuida da operação, que não é vista pelos demais operadores, mas registrada no BC.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, também atribuiu o forte ingresso do dia 11 ao enquadramento dos bancos, e não mostrou preocupação com uma nova enxurrada de recursos ao país. "Não está entrando todo esse dinheiro; entrou num dia para ajustar à norma. O fluxo está contido e regular, tanto assim que não há alterações na cotação do câmbio", disse.
O BC anunciou a mudança sobre a posição vendida dos bancos no dia 8, após o dólar cair para o menor nível em comparação ao real desde 1999. As instituições tinham até o dia 15 para se adequar à regra, pela qual devem recolher ao BC como depósito compulsório 60% sobre o valor da posição vendida de câmbio que exceder US$ 1 bilhão ou o patrimônio de referência - o que for menor.
Além dessa "sobra" de dólares, o BC também ajudou os bancos a zerar posição vendida, ao adquirir no mercado à vista bem menos dólares do que o fluxo. Em julho, também até o dia 15, foram incorporados às reservas internacionais do país US$ 2,484 bilhões por meio de leilões de compra.
Disso resulta um "fluxo efetivo" positivo de US$ 7,648 bilhões (fluxo cambial descontadas as compras do BC) no mês. Como essa "sobra" é absorvida pelos bancos, é possível estimar que a posição vendida das instituições financeiras no mercado à vista caiu de US$ 14,7 bilhões no fim de junho para cerca de US$ 7 bilhões em 15 de julho.
No ano, o país contabiliza fluxo cambial positivo de US$ 49,965 bilhões, bem acima do registrado em todo o ano passado (de US$ 24,354 bilhões).
Para o diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, não se deve esperar ingressos fortes no curto prazo.


"Não vejo fluxo muito intenso, nem para a bolsa. Esse quadro externo sugere um pouco de cautela e os investidores estão preferindo se preservar", diz.


"O principal problema é na Europa (com a crise de dívida soberana dos países chamados periféricos) e há perigo de contágio."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sexo e câmbio




Por ANTONIO DELFIM NETTO Folha 20/07/2011








O National Bureau of Economic Research organizou, em junho, o seu "22º Annual East Asian Seminar on Economics".

Um dos mais originais trabalhos apresentados foi o dos economistas da Universidade Columbia (EUA) Qingyuan Du e Shang-jin Wei, a começar pelo título "Uma perspectiva darwiniana sobre a taxa de câmbio chinesa".

Nele, afirmam (tradução livre) isto:"Em geral, é aceita como indiscutível a proposição de que um grande desvio da taxa de câmbio com relação à de equilíbrio (paridade do poder de compra), combinado com a existência de superavit em conta-corrente, é sinal de que a taxa de câmbio vigente está subvalorizada.

Neste trabalho, dizemos que essa visão convencional deixa de levar em conta algo importante, ainda que não considerado na teoria corrente da taxa de câmbio.

Nosso argumento é que a relação entre sexos, maior número de homens no mercado de casamentos (sic) na China, pode ter produzido, simultaneamente, um declínio na taxa de câmbio real de equilíbrio e um aumento do superavit em conta-corrente.

Mostramos a lógica dessa afirmação por meio de dois canais: um da poupança e outro de uma efetiva oferta de trabalho. Neste modelo, uma taxa real de câmbio desvalorizada não é causa de superavit em conta-corrente, nem é consequência de manipulação monetária. Demonstramos, empiricamente, que as economias com elevada relação homens/mulheres tendem a ter uma menor taxa de câmbio real, além de... outros efeitos, como o maior nível de renda per capita, desenvolvimento do mercado financeiro, regimes de câmbio etc.

Uma vez levados em conta todos esses efeitos, concluímos que a taxa de câmbio chinesa está mesmo subvalorizada, mas subvalorizada num nível relativamente trivial".


Como demonstram isso?

Com grossa artilharia matemática, usam 20 páginas em grego fora do texto (dois terços do original com divertido algebrismo), engenhosa econometria e rica imaginação e coragem para "calibrar" valores a parâmetros que não podem ser estimados diretamente.

Para entender aonde chegam, leiam este trecho que encerra o trabalho:

"Se o planejador central (talvez alguém com a visão do líder Mao?) puder reduzir a relação entre os sexos (agora matando os nascituros masculinos?), ele produzirá uma redução da conta-corrente de acordo com a proposição 2" (que exige uma fantástica coleção de hipóteses para ser demonstrada).

Como disse, nos anos 1910, Vilfredo Pareto, sociólogo e economista matemático sério, "concedam-me as hipóteses e eu lhes demonstrarei qualquer coisa".


De que são capazes pequenos matemáticos supostos grandes economistas...

Real é a moeda mais valorizada entre as 58 principais economias



Valor 20/07/2011




O Brasil se consolida como o país com a moeda mais valorizada entre as 58 principais economias do mundo, enquanto o G-20 continua a discutir sobre câmbio e utilização dos instrumentos de controle de capital.
Um índice do Banco Internacional de Compensações (BIS), banco central dos bancos centrais, que acaba de ser atualizado, mostra o avanço da moeda brasileira desde a última reunião de cúpula do G-20, em novembro, em Seul, onde as autoridades brasileiras insistiam na importância de se evitar uma guerra de moedas.

BIS calcula a taxa de câmbio efetiva real (EER) de 58 países e da moeda única europeia. A EER representa a média cambial da moeda de um país relativa a uma cesta de outras moedas ajustadas pelo preço ao consumidor. Se o ranking da moeda está abaixo de 100, significa que está desvalorizada e tem espaço para se apreciar.
Na cúpula de Seul, há sete meses, a taxa de câmbio efetiva real era de 148,1 por unidade do real. O BIS mostra agora que a taxa pulou para 157,68 em junho, ou seja, o real se valorizou ainda mais.
Já a moeda chinesa continua se desvalorizando em termos reais. Estava em 119,65 e agora caiu para 116,31.
Também no caso do dólar americano, continua se desvalorizando: a taxa efetiva real era de 89,41 em novembro, passando nesta última sondagem a 84,51. O euro estava em 93,95, agora subiu ligeiramente para 97,48.
O BIS mostra que o peso argentino está em 77,8 no índice, menos da metade da valorização da moeda brasileira. A Coreia do Sul, em 83,2, e o México em 93,4, ou seja, todos com amplo espaço para valorizar suas moedas.
Em recente passagem por Paris, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, insistiu que a guerra das moedas está longe de acabar. Mas no G-20 não só um acordo internacional não avança, como as tentativas são de limitar a imposição de controle de capital.
O Brasil, porém, avalia que o G-20 vai, no máximo, dar uma "opinião" sobre o uso de instrumentos para controle de capital. Nada de recomendação ou código de conduta, como propôs o FMI.

Apetite de bancos segue elevado

Valor 20/07/2011

O Banco Central (BC) já tem em mãos a mais recente pesquisa "Indicador das Condições de Crédito", levantamento trimestral criado no início do ano para tentar medir a expectativa dos bancos para o comportamento tanto da oferta quanto da demanda por novas linhas de financiamento. A primeira pesquisa, relativa ao segundo trimestre, mostrou que as instituições financeiras continuavam com apetite para oferta de empréstimos tanto para o consumo quanto para as pequenas e médias empresas, mesmo depois da série de medidas macroprudenciais adotadas pelo BC desde o fim de 2010.
Os novos dados ainda estão sendo compilados, mas a expectativa de técnicos do BC é que esse novo levantamento já aponte dados mais favoráveis ao processo de desaquecimento da atividade econômica e de controle da inflação. Os dados mais recentes devem servir de referência também para a decisão sobre a taxa Selic, que será tomada hoje pelo Comitê de Política Monetária (Copom).
Até junho, no entanto, a situação permanecia inalterada, apesar do aperto monetário, como mostrou a primeira pesquisa realizada em abril, a partir de consultas aos principais agentes de crédito (cerca de 95% do mercado). A percepção geral era de que mesmo com as restrições impostas pelo BC (alta dos juros e da exigência de capital) o crédito às pessoas físicas permaneceria nos níveis atuais ao longo de todo o primeiro semestre.
Em outras palavras, os bancos permaneceram com grande apetite ao longo do primeiro semestre, com manutenção do ritmo de aprovação de novas linhas. As instituições também esperavam que a procura por empréstimos pelas famílias permanecesse inalterada, mesmo com o aumento dos juros.
No caso das pequenas e médias empresas, a expectativa dos bancos era por um aumento na aprovação das linhas e uma demanda "moderadamente forte", o que indica que as instituições financeiras não esperavam um desaquecimento da atividade. Apenas o segmento de empréstimos às grandes empresas apresentava uma expectativa de crescimento mais fraco para o período de abril a junho.
Parte da manutenção da oferta e da demanda em níveis elevados, apesar do cenário mais restritivo, pode ser explicada pela renda ainda em elevação. De acordo com o estudo, o fator mais importante para a oferta de crédito para as famílias por parte dos bancos é o nível de emprego e as condições salariais, seguido pelo nível de comprometimento de renda. A inadimplência vem em terceiro lugar. No crédito imobiliário, o preço dos imóveis ganha relevância.
No caso das micro e pequenas empresas, o mais relevante na visão dos bancos é a condição dos clientes, seguido pelo nível de inadimplência do sistema. Para as grandes companhias, o mais importante é a condição da economia doméstica e do setor. A percepção de risco do cliente é apenas o terceiro fator mais importante.
A pesquisa é composta por seis grupos de perguntas, três relacionados à oferta de crédito, dois à demanda e um à aprovação de novas linhas de crédito. O BC estuda a divulgação periódica desses dados, que foram apresentados pela primeira vez no último relatório de inflação, publicado em junho.

Ainda sobre a independência do BC



Luís Eduardo Assis
Valor 20/07/2011

Faz parte do nosso imaginário a ideia de que o Banco Central (BC) deve se constituir em uma instância estritamente 'técnica', a ser mantida em uma campânula hermética, devidamente a salvo dos humores e odores da vida política brasileira. Ainda que contenha alguns grãos de verdade, essa visão caricata simplifica em demasia um debate complexo que adquire importância cada vez maior. Há tempos a teoria econômica abriga o debate sobre a conveniência de atribuir independência ao Banco Central. No atual quadro da economia brasileira, no entanto, que combina pressão inflacionária com virtual pleno emprego, não é preciso fervor conceitual para concluir que o BC tem, sim, papel relevante no controle da inflação.
O argumento central a favor da independência se baseia no viés inflacionário dos governos que, motivados por benefícios de curto prazo, preferem priorizar o crescimento e o combate ao desemprego, mesmo que temporários, em detrimento da estabilidade dos preços, dando margem ao surgimento de ciclos políticos, ritmados pelo calendário eleitoral. Isso porque os eleitores definem suas escolhas tendo como referência a sensação de bem- estar no período imediatamente anterior às eleições, o que induz o governo a afrouxar a política monetária em anos de eleição, ainda que o ajuste mais adiante seja penoso.
Essa situação se ajusta muito bem ao conceito de escolhas intertemporais, tema de crescente interesse na literatura econômica, que oferece um arcabouço teórico apropriado para a situação vivemos hoje. Escolhas intertemporais representam a decisão entre um benefício no presente em troca de uma penalidade, certa ou provável, no futuro.

O governo afrouxa a política monetária em anos de eleição, ainda que o ajuste mais adiante seja penoso

Isso se aplica à escolha entre usar drogas ou não, fumar ou não fumar, entre fazer regime ou comer um doce, entre aplicar num fundo de pensão ou trocar de carro. Regra geral, a escolha dependerá de como o agente descontará o futuro, isto é, de que forma atribuirá valor subjetivo ao evento negativo que se seguirá. É apenas natural que os governos priorizem o curto prazo em anos de eleição, já que tudo ocorre como se a única prioridade fosse a vitória nas urnas - o que, equivale a dizer que os problemas no futuro, por exemplo uma inflação mais alta, são descontados a uma taxa muito alta e assim tem pouco valor no presente.
Vale perceber que esse tipo de escolha não é atribuição exclusiva de políticos caquéticos de cabelo acaju. É improvável, por exemplo, que um CEO invista pesadamente em melhorias que trarão resultados apenas num futuro remoto, supostamente após o término de sua gestão.
A ruptura com esse padrão de comportamento que privilegia o curto prazo não pode depender de uma improvável mudança espontânea nas preferências de eleitores e candidatos. Melhor prover um rearranjo institucional que dirima conflitos de interesses e estimule uma visão mais cuidadosa do futuro. O primeiro passo, contudo, é institucionalizar formalmente o princípio de que a estabilidade de preços é um bem público cuja ausência afeta principalmente os mais pobres. Não é demais lembrar que uma inflação baixa atende aos interesses dos menos privilegiados, não dos poderosos.
Para os partidos de esquerda que estão no governo não deveria ser difícil admitir que a bandeira do combate à inflação é progressista, não conservadora. Também é de todo conveniente formalizar que a missão na terra do banco central é unicamente a de combater a inflação, usando os instrumentos a seu alcance.
A tendência a ciclos políticos seria, por sua vez, mitigados com a atribuição de mandatos à diretoria do Banco Central por períodos não coincidentes com as eleições presidenciais. Completa o rearranjo a definição clara de penalidades a serem aplicadas em caso de não cumprimento da meta definida pelo Poder Executivo, assim como a periódica prestação de contas por parte do presidente do BC ao Senado. Isso diminuirá a possibilidade de que o banco seja 'capturado' pelos interesses privados do mercado financeiro e também tornará mais difícil que a autoridade monetária jogue a favor dos interesses eleitorais de um governo de sua preferência.
Tudo ficará mais fácil e menos doloroso se o governo se engajar em um esforço sincero pela desindexação da economia, ampliando o prazo mínimo para reajustes de preços e salários e tornando as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs, assim como seus clones, os fundos DI) objetos de colecionadores disponíveis apenas em feiras de artesanato. Tudo ficará muito difícil, senão impossível, sem um rigoroso e verossímil programa de contenção das despesas públicas, em que pesem todas as dificuldades conhecidas.
Não há arranjo institucional que possa dar ao BC forças para, isoladamente, se contrapor a uma política fiscal expansionista sem provocar fricção de interesses que mais se assemelham a um exercício de autoflagelação. Sem unidade de propósitos, não é possível perseguir uma inflação mais baixa.
Luís Eduardo Assis é economista. Foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e FGV-SP.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Explosão de consumo na Arabia Saudita coloca mais pressão na demanda pelo óleo



By Javier Blas – FT – 19/07/2011



A Arábia Saudita é reconhecidamente o maior produtor e exportador de petróleo, com a produção de 9,7 milhões de barris por dia no mês passado, o segundo maior nível em três décadas, o país caminha para se tornar também um dos maiores consumidores. A sua entrada ao clube dos gastões poderá ter implicações profundas nos preços do produto nos próximos anos, apertando ainda mais o mercado global.


O país deverá alcançar neste ano a marca de 2,81 milhões de barris ao dia na média, tornando-se o sexto maior consumidor atrás dos EUA, China, Japão, Índia e Rússia. Em base per capita, o consumo é astronômico. Somente neste ano o consumo deverá saltar 5,6%, bem acima da média global de 1,4%.


A demanda de oleo na Arábia Saudita cresceu 75% nestes últimos dez anos devido ao forte crescimento econômico e industrial e aos preços subsidiados.
O forte crescimento contrasta com os bem mais modestos 39% ocorridos entre 1990 e 2000.
A contribuição maior para o forte crescimento está a queima do petróleo cru para a geração de energia elétrica, que deverá alcançar quase 600.000 barris por dia neste verão. Ao invés de queimar gás natural ou óleo combustível, o país usa petróleo bruto. O consumo de eletricidade explode durante o verão pelo uso do ar-condicionado, quando as temperaturas alcançam máximas acima dos 40ºC.


A Agencia Internacional de Energia (IEA na sigla em inglês), que recentemente revisou os dados de queima de petróleo para eletricidade, diz que da média de menos de 200.000 barris por dia no início dos anos 2.000, mais que dobrou atingindo 450.000 b/d em 2009. Nesta época muitos dos observadores pensavam que Riyadh estava queimando mais devido ao colapso da demanda pela crise global. Porém a queima continuou em ascensão a despeito da recuperação econômica.


O IEA agora estima que Riyadh queimará em média 581.000 b/d este ano (com pico de 740.000 b/d entre abril e setembro). Para fins de comparação, Equador, o menor membro da OPEP produz 500.000 b/d e Qatar 800.000 b/d.

A explosão de consumo durante o terceiro trimestre, quando as temperaturas são máximas, é tão intensa que o país tem o consumo quase igualado ao consumo da India e Russia, o quarto e quinto maiores consumidores mundiais, neste período.


Assim, nenhuma surpresa por Riyadh estar aumentando sua produção.


Ela necessita para seu próprio consumo.

O Estado Indutor que Precisamos


Por Antonio Delfim Netto - Valor 19/07/2011



Há alguns sinais preocupantes no horizonte para os quais temos de prestar atenção. O primeiro é a clara desarrumação política nos EUA revelada pelo cabo de guerra entre democratas e republicanos. O segundo é com relação à sucessão na China: há indícios de desacordos e ela não parece tão tranquila quanto as últimas. Ninguém sabe ao certo quando alguns problemas econômicos e sociais escondidos revelarão a sua cara. O terceiro é que a Eurolândia continua a tratar um problema de insolvência como se fosse de liquidez, o que a levará a maiores dificuldades. E o quarto é a visível mudança da mídia internacional com relação às perspectivas brasileiras. A impressão é que o setor financeiro se fartou de comer nosso peru com farofa fora do dia de Ação de Graças! Agora os "vendidos" parecem inquietar-se com os mecanismos que, em legítima defesa, o ministro Mantega tem tentado implementar.

A situação americana é realmente complicada: o presidente Obama aproveitou muito mal o "we can" que empolgou o país. Perdeu a confiança do setor real da economia. No início foi mal aconselhado política e economicamente pelos assessores que já devolveu à Academia. Em lugar de prestar atenção ao problema dos honestos que perderam o emprego, exagerou na salvação dos desonestos que produziram a crise. Os efeitos da política econômica com relação ao desemprego, que é a forma mais cruel de desperdício humano, podem ser vistos no gráfico 1, onde se compara a saída da crise de 2007/09 com as quatro que ocorreram desde o início dos anos 70. Ele revela o nível do desemprego nos EUA tendo como referência o mês em que o National Bureau of Economic Research estima o fim de cada recessão. Vemos que depois de um ano e meio do fim da recessão de 2007/09, a taxa de desemprego ainda ronda quase 10%, quando em todas as outras crises ela já havia se reduzido a qualquer coisa como 7,5%. O pior é que o "jeitão" do gráfico não é nada tranquilizador. Nada vai acontecer se o presidente Obama não recuperar a credibilidade e reduzir as incertezas.


O dado mais sintético, que é a taxa de crescimento do PIB, também não parece confortador, como se vê no gráfico 2. Nele se registra o crescimento anual (trimestre contra o trimestre homônimo). Vemos uma rápida recuperação (em V) que depois de atingir o crescimento de "cruzeiro" (3%) dá sinais claros de enfraquecimento.

A informação fundamental para os emergentes é sobre a possível variação do dólar. Como ele é (e continuará a ser durante muito tempo ainda) a moeda que é a unidade de conta, de liquidação de compromissos e de reserva internacionais, o seu valor é determinante na formação dos preços nominais das "commodities". Isso influencia nossas relações de troca, o que explica, pelo menos em parte, a valorização do real. A trajetória de queda do dólar sugere que ainda há espaço para sua maior desvalorização. Não parece, portanto, que o mundo possa contar com uma recuperação robusta da economia americana antes das eleições de 2012.

Quanto à China, ela provavelmente vai crescer, mas não na mesma intensidade nos próximos 20 anos. Ela continuará a busca das três autonomias que caracterizam as potências: a alimentar (que ela persegue firme internamente com novas tecnologias e externamente com a compra de recursos naturais); a energética (com energias renováveis e métodos modernos da extração do "shale" gás); e a militar (que ela já tem suficientemente "dissuasiva"), com investimentos cada vez maiores para garantir o seu controle do "Mar da China".

É preciso não esquecer com respeito à China (e as nossas relações de troca), que os "preços acabam funcionando" e que seus níveis atuais acabarão elevando a oferta mundial de todos os nossos produtos de exportação (principalmente soja e minério de ferro) com consequências sobre eles.





O Brasil precisa colocar suas barbas de molho! Nosso modelo exportador agromineral induzido será incapaz de garantir empregos de boa qualidade para os 150 milhões de brasileiros que terão entre 15 e 65 anos em 2030. É disso que se trata. Precisamos apoiar um programa de desenvolvimento industrial e de serviços que promova forte competição interna e dê aos nossos trabalhadores e empresários inteligente proteção externa com condições isonômicas para exigir deles capacidade competitiva internacional.

É, parece, o que nos oferecerá em breve a presidente Dilma Rousseff.




Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Como reduzir os juros


Demian Fiocca
Valor - 14/07/2011
Dos interessantes artigos publicados pelo Valor sobre câmbio, juros e inflação, emergiram mais perplexidades do que consensos. Modelos abstratos não dão conta desse misterioso equilíbrio brasileiro com juros reais tão altos. A explicação está no exame mais concreto dos mecanismos de transmissão da política monetária.

Face a juros reais médios de 6% a 7%, normalmente se pergunta quais condições excepcionais do Brasil exigem tamanho contrapeso na política monetária.

Uns especulam se o brasileiro tem uma inusual propensão a consumir e somente juros muito altos podem fazê-lo poupar. Outros dizem que é a forte expansão de gastos públicos que exige a contenção do setor privado. Ou seria para compensar o crédito direcionado, segurando o crédito livre. Talvez um alto risco da dívida pública, ou a incerteza jurídica etc.

Nessas hipóteses, a ideia é quase sempre que os juros altos estão compensando alguma outra coisa anômala. Só que não estão. E é essa a grande peculiaridade do Brasil.

Em qualquer parte do mundo, juros reais de mais de 5% deveriam conter o mercado de crédito. Mas, no Brasil, entre 2004 e 2008, por exemplo, os juros reais foram de 9,1% em média e o crédito livre cresceu 25,6% ao ano!

Ou seja, a peculiaridade do Brasil é a baixa eficiência dos próprios juros de curto prazo: muitos, para pouca contenção do mercado privado de crédito.

E note-se que, contrariamente ao que alguns disseram, o crédito direcionado (BNDES, agrícola e habitacional) cresceu menos. Aumentou 17,1% ao ano no mesmo período. Ou seja, foi o crédito livre que os juros reais muito altos não conseguiram conter. A demanda agregada teria crescido ainda mais, exigindo juros ainda mais altos, se o crédito direcionado reagisse como o crédito livre.

A ideia é quase sempre que a taxa elevada está compensando alguma outra coisa anômala. Só que não estão

Mas deixemos de lado o crédito direcionado e examinemos o crédito livre, que é a ponta final do mecanismo de transmissão pelo qual a Selic deveria conter a demanda e segurar a inflação.

Na maior parte do mundo, a dívida pública é prefixada e de longo prazo. Os bancos são grandes detentores de dívida pública e sofrem perdas quando os juros sobem. Essa perda de capital deixa os bancos mais cautelosos. Eles então alteram suas políticas, no sentido de conter a oferta de crédito.

Deveria funcionar assim: o Banco Central (BC) muda os juros de curto prazo; o mercado corrige as taxas de longo prazo na mesma direção; estes provocam ganhos ou perdas de capital; que influenciam a política bancária; que altera a oferta de crédito; que afeta a demanda agregada; que influencia a inflação.

No Brasil, grande parte da dívida pública é indexada aos juros de curto prazo. Assim, os ganhos ou perdas de capital dos bancos são menos relevantes e não alteram a oferta de crédito na mesma intensidade.

Além disso, como essa dívida corresponde a 24% do Produto Interno Bruto (PIB), cada alta dos juros de 1% expande a demanda agregada em 0,24% do PIB, pela maior injeção de dinheiro na economia, pago aos investidores de curto prazo. Esse efeito indesejado é insignificante nas economias com dívida pública prefixada.

Desse modo, é como se no Brasil a Selic fosse um freio que, além de ser fraco, ainda estivesse enganchado no acelerador. Pelo lado do crédito livre, contém menos a demanda que em outras economias. Pelo aumento imediato do pagamento de juros, estimula a demanda. O efeito líquido felizmente ainda está na direção esperada. Ou seja, o carro perde velocidade. Mas gasta muito mais pastilha de freio e combustível ao mesmo tempo.

Essa baixa eficiência da Selic significa que os juros no Brasil são altos, não porque precisam ser altos, mas porque podem ser altos. A boa notícia é que eles também podem ser mais baixos.

Imagine-se que o efeito "freio fraco com acelerador enganchado" fosse neutro, ou seja, que as forças opostas do freio e do motor se compensassem. Nesse caso, o carro pode manter a mesma velocidade tanto freando e acelerando muito (com juros altos), como freando e acelerando pouco (com juros baixos).

A baixa eficiência da Selic implica que uma taxa mais baixa provavelmente não trará um impulso expansionista tão forte e, portanto, demandará ajustes apenas moderados em outros condicionantes da demanda agregada. A consequência teórica disso é que é promissora a intuição de Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), de que o Brasil pode apresentar dois equilíbrios, um com juros altos e outro com normais.

A consequência prática é que temos um caminho viável para conduzir a economia a taxas de juros de curto prazo mais próximas dos padrões mundiais.

Não se trata de questões mitológicas, como mudar a psicologia de um brasileiro supostamente ultra-consumista, ou tentar convencer-se da hipótese de que um déficit público de apenas 2,5% do PIB e uma dívida/PIB em queda afugentam credores.

Trata-se de desenhar uma transição da política monetária mesmo, utilizando instrumentos complementares, como os controles macroprudenciais. Fazer uso menos intenso da Selic e uso mais intenso de instrumentos que tenham o mesmo efeito sobre a oferta de crédito, sem o efeito contrário e indesejado da injeção de dinheiro na economia.

Uma transição gradual combinaria a manutenção do elevado superávit primário e, possivelmente, juros de longo prazo nos níveis atuais, para evitar uma inflação de ativos. É desejável que o efeito compensatório das medidas macroprudenciais seja cada vez mais mensurado e explicitado, visando à coordenação de expectativas.

Em todo o mundo, a discussão sobre mecanismos de transmissão da política monetária é mais familiar a profissionais de Bancos Centrais do que a macroeconomistas. Talvez por isso ela não receba espontaneamente grande atenção.

No Brasil, porém, a visível baixa eficiência da Selic demanda esse tratamento menos abstrato e mais detalhado da política monetária.

A competência que a diretoria do BC mostrou neste início de ano, debelando com serenidade o suposto risco de descontrole da inflação propagandeado por alguns economistas, mostra que o Brasil está à altura de superar mais esse desafio.

Demian Fiocca é autor de "A Oferta de Moeda na Macroeconomia Keynesiana". Foi presidente do BNDES e da Nossa Caixa. É sócio-diretor da Mare Investimentos.

Mercado começa a fazer as contas de uma desaceleração da China

Dexter Roberts | Bloomberg Businessweek
18/07/2011

A agência de classificação de crédito Moody's Investors Service diz que a China subestimou em meio trilhão de dólares a exposição das carteiras de empréstimos de bancos estatais a governos locais. Apesar de cinco elevações dos juros desde outubro passado, a inflação agora está em 6,4%, a mais rápida desde 2008. No segundo trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 9,5%, seu ritmo mais lento em quase dois anos.

Ninguém está afirmando que a economia da China vai esfriar. Em abril, uma pesquisa da agência de notícias Bloomberg junto a economistas estimou que a economia crescerá mais de 9% neste ano. O governo está repleto de dinheiro e pronto a dar apoio aos principais bancos e empresas, caso as coisas começarem a escapar ao controle.

Mas investidores pessimistas como James Chanos, da Kynikos Associates, questiona se a China poderá domar a inflação e impedir o excesso de investimentos em projetos imobiliários e em fábricas sem provocar um pouso forçado.

"Muita gente no mercado está agora fazendo essas perguntas que antes não estavam colocando", diz Patrick Chovanec, professor de negócios da Universidade de Tsinghua. "Antes, o caso chinês era tão vigoroso que superava todas as dúvidas. Agora, há uma grande mudança de percepção".

Se ocorrer um crash ou uma desaceleração - o que a maioria dos analistas define como um crescimento abaixo de 7% - isso será resultado de inflação ou de uma reversão no mercado imobiliário. O Partido Comunista Chinês está relutante em permitir que a inflação fique alta, diz Chovanec.

Na década de 1940, a hiperinflação converteu os cidadãos chineses comuns em comunistas. Uma inflação de aproximadamente 20% foi uma das razões pelas quais manifestantes tomaram a Praça da Paz Celestial em 1989.

Caso a inflação ultrapasse 10% por muito tempo, "eles vão tirar um Volcker do chapéu", diz Chovanec. Paul Volcker, o ex-presidente do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), derrotou a alta inflação nos EUA com taxas juros tão altas que mergulhou o país em grave recessão.

No setor imobiliário, a festa durou tempo demais. Como assinala Nicholas Lardy, do Instituto Peterson de Economia Internacional, a inflação na China está "comendo" o rendimento dos depósitos em poupança, hoje de 3,5%. Isso levou muitos chineses a aplicar parte de sua poupança em apartamentos. Atualmente, 9% do produto da economia vem de investimentos em habitação residencial. O número era 3,4% em 2003. Com o boom de construção já bem avançado, a oferta está, finalmente, superando a demanda.

Se os preços dos apartamentos caírem muito, os chineses comuns correrão o risco de perder suas poupanças e os governos locais não serão capazes de pagar os empréstimos que levantaram para investir em projetos residenciais e comerciais. Em alguns casos, os governos locais também dependem da venda de terrenos para obter mais de 60% de suas receitas, diz Joseph Cheng, cientista político na City University, em Hong Kong.

Em caso de estouro de uma bolha no mercado imobiliário, poucos estarão comprando terrenos. Uma reversão no mercado imobiliário derrubaria os fabricantes locais de aço, cimento e de equipamentos para residências.

Victor Shih, cientista político da Northwestern University que estuda o problema da dívida local, diz que os bancos estão reagindo aos fracos retornos sobre seus investimentos em todo o seu leque de atividades - de imóveis a linhas de metrô. "O foco dos bancos, agora, é usar os crédito existentes para garantir que haja não calote dos empréstimos", diz Shih. "Isso torna o crédito para novos projetos mais difíceis, razão pela qual estamos vendo uma desaceleração."

A Moody's estima que entre 8% e 12% da carteira total de empréstimos na China podem não estar sendo honradas. O número oficial é 1,2%. Neste ano, a Fitch Ratings alertou que a inadimplência dos tomadores de empréstimos poderá subir para até 30%. Especialmente vulneráveis são as pequenas empresas. Elas respondem por 80% do emprego, segundo o Ministério da Indústria e de Tecnologia da Informação, mas têm dificuldades para obter crédito. "Eles não têm liquidez suficiente para todos", diz Tao Dong, economista-chefe regional do Credit Suisse, em Hong Kong.

A China consome quase metade da produção mundial de minério de ferro, carvão e aço, e 40% de seu cobre. O impacto de uma desaceleração no Chile, produtor de cobre que envia 23% de suas exportações para a China, seria considerável. A Samsung, que em 2010 obteve 20% de sua receita na China, venderia muito menos televisores e telefones celulares. Multinacionais que fabricam equipamentos de infraestrutura sentiriam os efeitos. O mesmo aconteceria com a Toyota, General Motors e Volkswagen.

A Fitch, que em junho publicou um estudo sobre o que um lento crescimento chinês causaria ao mundo, diz que os principais parceiros comerciais da China na região Ásia-Pacífico seriam os mais afetados. Se a China crescer apenas 4% em 2012, diz o relatório da Fitch, uma queda acentuada nas exportações de commodities para a China prejudicaria o dólar australiano, provocando uma alta dos juros que, por fim, prejudicaria o superaquecido mercado imobiliário.

Se o governo chinês tiver de recapitalizar seus bancos e fomentar obras públicas, diz Tony Stringer, diretor da Fitch, a tensão no Orçamento poderia obrigar os chineses a comprar muito menos títulos do Tesouro dos EUA. Os americanos teriam de oferecer juros mais altas por seus títulos para atrair outros compradores, o que elevaria o custo do serviço da dívida. Os EUA, porém, se beneficiariam da queda nos preços das commodities, especialmente do petróleo, com uma diminuição do apetite chinês.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O meu é maior



O Professor Doutor Francisco Nepomuceno, foi a Londres dizer que as descobertas do pré-sal podem conter um volume equivalente ao do mar do norte antes do início da exploração, ou seja, 62 bilhões de barris.

Disse também que a Petrobrás pretende triplicar sua atual produção até 2020 para 6 milhões de barris por dia.

Parece coisa de adolescente.

Imagino que os impassíveis ingleses tenham desconfiado do tamanho do “peixe” que foi lá o Chico vender munido somente de uma foto 3X4, fazendo constar em nota o seguinte:

1- Que de acordo com o órgão regulador do país de Quixadá, as reservas brasileiras estão milhas abaixo do solo oceânico debaixo de várias camadas de rochas de sal, chutadas em 50 bilhões de barris.

2- Que o poço Lula, a maior descoberta em três décadas e o mais produtivo, jorrou para fora em maio somente 36.322 barris por dia em óleo e gás natural.
3- Que a produção de petróleo no mar do norte teve seu pico em 1999 em 6 milhões de barris por dia.

Tudo muito sutilmente, claro, para não deixar o Chico como reles vendedor de rifa, com seu plano de qüinqüenal de investimentos de 224 bilhões de dólares...


Ronaldo Pignataro

DEFICIT EUA



GLOBO 15/07/2011

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Importação afeta emprego na indústria de SP


Valor 15/07/2011
A concorrência do produto importado afetou parte da indústria paulista e provocou queda no nível de emprego em três dos 22 setores pesquisados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) na comparação entre janeiro e junho de 2011 e 2010. As demissões aconteceram em artefatos de couro, calçados e artigos para viagem, confecção de artigos do vestuário e acessórios e produtos têxteis, com recuo de 6%, 1,3% e 0,7%, respectivamente. No mesmo período, o nível de emprego do conjunto da indústria do Estado de São Paulo cresceu 4,5%, com a criação de 116,5 mil vagas.

Entre junho e maio, a queda de 0,13% do nível de ocupação, com o fechamento de 500 vagas, foi distribuída em nove dos 22 setores e em 17 das 36 regiões. Os segmentos de têxteis e calçado registraram saldo negativo de 661 e 575 vagas, respectivamente. Das regiões que compõem a pesquisa da Fiesp, a queda mais acentuada no nível de emprego foi registrada em Botucatu, com recuo de 9,5% sobre maio. Segundo a Fiesp, o setor que mais influenciou esse movimento foi o de confecção e artigos de vestuário e acessórios - queda de 69,4%.

Moacir Fernandes Filho, diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Botucatu, explica que o fechamento de uma grande empresa da região que está em processo de recuperação judicial é responsável pelo péssimo resultado mensal. Algumas das outras indústrias do setor alocadas nos 41 municípios da regional, porém, ainda estão contratando.

De acordo com ele, a produção da empresa em concordata era em sua maioria voltada ao mercado externo, e perdeu espaço para o produto asiático. Segundo outra fonte da Ciesp, que não quis se identificar, o fechamento da fábrica resultou em 500 demissões.

Fernandes reconhece, porém, que o setor têxtil vive um mau momento. "Sabemos que existem algumas barreiras para a importação, o que continua dando um certo alento, mas alguma coisa tem de ser feita para conter o câmbio. Algumas empresas conseguem sobreviver porque estão inovando, mas outras perdem competitividade para produtos asiáticos".

Para Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp, o que mais afeta a indústria no cenário atual é o aumento do coeficiente de importação - o peso no consumo local. "Quando você sai de uma taxa de 18,6% em 2008 e vai para 22% em 2010, isso reduz uma barbaridade de empregos e renda", argumentou.

De acordo com a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), o volume importado de produtos têxteis pelo Brasil aumentou 24,5% entre janeiro e maio de 2011, na comparação com mesmo período ano passado. A importação no setor de artefatos de couro e calçados foi 35,6% maior no mesmo período.